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LETRA DE CÂMBIO
ORIGEM E EVOLUÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO
11. CONCEITO DE LETRA DE CÂMBIO
Entende-se por letra de câmbio uma ordem dada, por escrito, a uma pessoa, para
que pague a um beneficiário indicado, ou à ordem deste, uma determinada
importância em dinheiro. Requer, assim, a letra de câmbio, três elementos
pessoais, que no título têm funções diversas: o que dá a ordem, chamado
sacador; o a quem a ordem é dada, que se chama de sacado; e aquele a favor de
quem é emitida a ordem, denominado de tomador ou beneficiário. Em virtude do
princípio da autonomia das obrigações cambiárias, e sendo diversas as funções
exercidas na letra por cada um desses elementos, uma mesma pessoa, física ou
jurídica, pode figurar no título como sacador (aquele que cria e emite a letra,
dando a ordem de pagamento), como sacado (aquele a quem a ordem para pagar
é dada) e mesmo como tomador (aquele em favor de quem é dada a ordem). A lei
brasileira que regulava a letra de câmbio (Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro
de 1908) permitia expressamente que a letra de câmbio fosse emitida em favor do
sacado (art. 1º, nº IV), não mencionando, entretanto, se poderia ter como sacado
o próprio sacador. A doutrina se dividia a respeito, uns admitindo a permissão,
outros a negando. Hoje, adotada entre nós a Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio
e Notas Promissórias, a dúvida foi desfeita, pois tal lei expressamente permite
(art. 3º) seja a letra emitida contra a pessoa que a saca e em favor dela própria.
Assim, as divergências que, a respeito, são encontradas entre autores que, antes
de entrar em vigor a Lei Uniforme, trataram do assunto entre nós, hoje não têm
mais razão de ser, não cabendo a sua invocação em face das disposições
expressas da lei.
A letra de câmbio é um título de crédito, dotado de literalidade e de autonomia das
obrigações. Desempenha importantíssima função econômica pela ampla utilização
do crédito que proporciona. Entre nós foi regulada, até 1966, pelo Decreto nº
2.044, de 31 de dezembro de 1908. Havendo, porém, em 24 de janeiro de 1966,
pelo Decreto Executivo nº 57.663, promulgado o Governo a Convenção de
Genebra para a Adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas
Promissórias, a partir de então passou a reger a letra de câmbio, no direito
brasileiro, aquela Lei Uniforme, que alterou várias normas no Decreto nº 2.044, de
1908.
Tanto a Lei brasileira nº 2.044, como a Lei Uniforme, tratam da letra de câmbio e
da nota promissória. São esses títulos diferentes, se bem que tenham muitos
princípios em comum. Dada a existência de tais princípios, a letra de câmbio e a
nota promissória são chamados títulos cambiários ou, simplesmente, cambiais.
12. HISTÓRICO
A origem da letra de câmbio não está devidamente esclarecida, dela só se tendo
maior conhecimento a partir da Idade Média. Costuma a história desse título ser
dividida em três períodos, o primeiro chamado de período italiano, que vai da
Idade Média ao último quartel do século 17; o segundo, período francês, das
Ordenanças de Comércio, de 1673, até meados do século 19; e o último, período
alemão, de 1848 aos dias atuais. A cada um desses períodos corresponde um
conceito da letra de câmbio.
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12.1. Período italiano
Apesar de pesquisadores do direito afirmarem que os princípios que regulam as
letras de câmbio já eram, de forma rudimentar, conhecidos em Roma, e mesmo,
antes, entre os assírios, foi na Idade Média que começou a estruturar-se esse
instituto jurídico, nas cidades italianas, com a finalidade de facilitar operações
comerciais.
Realmente, estando as cidades marítimas italianas em pleno florescimento, na
Idade Média, para elas acorriam mercadores dos lugares os mais diversos, com o
fito de fazer transações. Dada a diversidade das moedas então existentes, havia
necessidade de serem elas trocadas pelas moedas das cidades em que se
realizavam os negócios. Surgiu, assim, a operação de câmbio ou troca de moedas,
exercida pelos cambistas ou banqueiros, pessoas que se especializavam nessas
atividades. A troca de moeda por moeda constituía o chamado câmbio manual,
sendo a operação imediatamente liquidada. Em regra, tais transações se
efetuavam nas feiras.
Muitas vezes, entretanto, os mercadores, com receio de regressar às suas terras
de origem conduzindo avultadas quantias em dinheiro, depositavam as mesmas
em mãos dos banqueiros, estabelecendo com esses que tais importâncias,
convertidas em moedas diversas, deveriam ser entregues em lugares outros que
não aqueles em que eram depositadas. Para atestar o depósito, os banqueiros
emitiam um documento (quirógrafo) em que, convertidas as moedas, declaravam
que pagariam a soma mencionada no lugar designado. Esse pagamento poderia
ser realizado ou pelo próprio banqueiro ou por seus correspondentes naqueles
outros lugares. O pagamento seria feito ao depositante, cujo nome constava do
documento, ou a pessoa por esse indicada, que funcionava como seu
representante.
Tal documento, emitido pelo banqueiro em favor do depositante ou de seu
representante, assemelhava-se à atual nota promissória, por ser uma promessa e
não uma ordem de pagamento.
Emitido o documento, para que o pagamento fosse efetuado era necessário que o
banqueiro enviasse uma carta ao seu correspondente na outra localidade,
determinando que entregasse à pessoa que conduzia o documento, ou ao seu
representante, a importância designada. Essa carta, que era uma ordem de
pagamento, deu origem à letra de câmbio; podia ser remetida diretamente pelo
banqueiro ao seu correspondente ou entregue ao depositante, devendo este, ou a
pessoa por ele designada, apresentá-la ao banqueiro a fim de receber a
importância consignada no outro documento.
Com o decorrer dos tempos, sempre visando a essa modalidade de troca e de
remessa de dinheiro de um lugar para outro, a carta do banqueiro começou a ser
entregue diretamente ao depositante, estabelecendo-se, também, que este
sempre poderia designar um seu representante para fazer o recebimento da
importância dada em depósito. Passou a carta de autorização do banqueiro a ter
importância primordial nesse contrato, ficando relegado a segundo plano o título
de promessa de pagamento que, inicialmente, era o documento principal da
operação. Mas, de qualquer modo, a carta de autorização, que tinha o nome de
lettera di pagamento ou simplesmente lettera di cambio, pois sempre tratava de
uma troca (cambio) de dinheiro, pressupunha um depósito primitivo, por parte do
credor, de dinheiro em mãos de banqueiro. Como o dinheiro em depósito, além de
convertido em espécie diferente, deveria ser pago numa praça diversa daquela em
que a operação se iniciara, dava-se a esse contrato o nome de cambio trajecticio,
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diferente, portanto, da troca imediata, verificada nas feiras, em que uma pessoa
entregava ao banqueiro moedas de uma espécie e recebia moedas de outra
espécie, que era o chamado câmbio manual.
Esse primeiro estágio de desenvolvimento da letra de câmbio, denominado período
italiano, caracteriza-se, assim, por ser a letra um instrumento para a troca e
remessa de dinheiro de um lugar para outro, não havendo, de tal modo, uma
verdadeira operação de crédito.
O período italiano durou da Idade Média até o terceiro quartel do século 17,
quando a Ordenança de Comércio francesa, de 1673, deu novo conceito à letra de
câmbio, no que foi seguida pelo Código de Comércio de 1808 e pelos que
adotaram a orientação desse.
12.2. Período francês
Enquanto, no seu estágio inicial, a letra de câmbio representava apenas o
instrumento decorrente de um contrato de troca e remessa de dinheiro de um
lugar para outro, ao ser acolhida na Ordenança de Comércio Terrestre de 1673 e,
mais tarde, no Código francês de 1808, passouação
de um endossante contra outro, fixando a lei o período de seis meses para ser
utilizada a ação, contados do dia em que o endossante pagou a letra ou do em
que ele próprio foi acionado.
A lei brasileira não contém dispositivo a respeito, referindo-se apenas ao prazo
prescricional da ação contra o sacador, aceitante e respectivos avalistas e à ação
contra o endossante e seus avalistas – ação que, por não estar explícita, se supõe
ser do portador contra um dos endossantes ou seus avalistas e não do endossante
contra endossante.
 
Assim, a nosso ver, está em vigor a última parte do art. 70 da Lei Uniforme, por
não termos, em nosso direito, dispositivo expresso sobre a espécie.
20.12. Reserva ao art. 19 do Anexo II – Cláusula cambial na nota promissória
Diz o art. 19 do Anexo II:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes pode determinar o nome a dar, nas leis
nacionais, aos títulos a que se refere o art. 75 da Lei Uniforme ou dispensar esses
títulos de qualquer denominação especial, uma vez que contenham a indicação
expressa de que são à ordem.”
O art. 75 da Lei Uniforme se refere à Nota Promissória e seus requisitos
essenciais, e o nº 1 desse artigo, que dispõe sobre o nome do título, está assim
expresso:
“A Nota Promissória contém:
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I – Denominação “Nota Promissória” inserida no próprio texto do título e expressa
na língua empregada para a redação desse título.”
Como se vê do art. 19 do Anexo II, a reserva permite ser mudado o nome do
título, ou até deixar de mencioná-lo, contanto que o mesmo contenha a indicação
expressa de que é à ordem.
Não atinamos, por isso mesmo, o motivo dessa reserva pelo Governo brasileiro,
visto como nosso Decreto nº 2.044 já dispôs como requisito essencial para a
validade do título a denominação “Nota Promissória” (art. 54, I). Se deseja o
Governo brasileiro que, entre nós, circulem notas promissórias sem esta
denominação, necessário será ser editada norma especial regulando a matéria
pois, assim não o fazendo, continua em vigor o nº 75 da Lei Uniforme, que é,
como foi dito, semelhante ao nº I do art. 54 do Decreto nº 2.044.
Quanto à obrigatoriedade da cláusula de que se trata de um título à ordem, está
ela contida no nº 5 do art. 75 da Lei Uniforme (“o nome da pessoa a quem, ou à
ordem de quem deve ser paga”), semelhante ao nº III do art. 44 do Decreto nº
2.044 (“o nome da pessoa a quem deve ser paga”), faltando, apenas, a cláusula à
ordem. Mas ao nº 5 do art. 75 não é permitido fazer reserva, estando, assim, em
vigor.
20.13. Reserva ao art. 20 do Anexo II – Aplicação de disposições das letras de
câmbio às notas promissórias
Dispõe o art. 20 do Anexo II:
“As disposições dos arts. 1º ao 18 do presente Anexo relativas às letras, aplicam-
se igualmente às notas promissórias.”
Trata-se, apenas, de uma extensão das reservas feitas às letras de câmbio para as
notas promissórias. Tendo esses títulos características gerais muitas vezes
semelhantes, natural é que a reserva feita a dispositivo da lei referente a um deles
se aplique também ao outro, quando possível.
Tais foram as reservas adotadas pelo Governo brasileiro à Lei Uniforme sobre
Letras de Câmbio e Notas Promissórias entre as permitidas nos 23 artigos contidos
no Anexo II da Convenção. O estudioso da matéria, ao perquirir ou aplicar aquela
lei, deve ter em conta as reservas feitas com as quais o Governo brasileiro
discordou, dentro do possível, do texto integral da lei, que entre nós é aceito com
essas alterações.
21. A TRADUÇÃO DA LEI UNIFORME
Como acima dito (supra, nº 11, nota 3), o Brasil, ao adotar a Lei Uniforme, não
fez uma tradução da mesma, publicando como sua, apesar de não ser isso
declarado, a tradução feita em Portugal e por aquele país posta em vigor através
do Dec. nº 25.556, de 30 de outubro de 1936.
Isso se verifica cotejando-se a lei brasileira com a tradução portuguesa: as
palavras são as mesmas, salvo ligeiríssimas modificações, e a própria construção
das frases mostra que a tradução de nossa lei não é brasileira e sim portuguesa.
Já fizemos sentir esse fato através de um trabalho publicado na Revista de Direito
Mercantil, Nova Série, nº 5, e inserto como apêndice na 1ª edição deste livro; mas
o apanhado de expressões mal traduzidas pela lei portuguesa está incompleto
naquele trabalho, existindo muitas outras não mencionadas.
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A tradução da lei uniforme adotada em Portugal tem merecido, de mestres
portugueses, severas críticas pela maneira falha com que foi feita. Sendo aquela
tradução adotada no Brasil, é lógico que nossa lei cambiária, segundo o texto
oficial em vigor, está eivada de erros que merecem ser corrigidos, pois alguns
deles desvirtuam completamente o sentido original e verdadeiro da Lei Uniforme.
Além desses defeitos da tradução portuguesa, existem outros, no texto divulgado
no Brasil, oriundos da falta de cuidado na transcrição da tradução portuguesa, ou
até devidos à revisão. Não tendo sido feitas as correções necessárias, é lógico que
tais defeitos prejudicam os intérpretes ou aplicadores da lei que, ignorando os
textos oficiais, em inglês e francês, se atêm ao que foi publicado como certo pelo
Governo brasileiro.
A fim de dirimir essas anomalias, enumeramos, a seguir, os principais defeitos
existentes na tradução portuguesa da Lei Uniforme, inclusive os erros na
publicação do texto, no Brasil, como Lei Brasileira. Esses defeitos, no nosso
entender, estão a merecer correção por parte do Governo.
Cap. I
“Da emissão e forma da letra”
O texto oficial francês, de que foi feita a tradução da lei portuguesa, se refere à
criação e não à emissão da letra de câmbio. Os termos criação e emissão, em
direito cambiário, têm significados diferentes, o primeiro sendo o ato de formalizar
a letra e o segundo o de pô-la em circulação. Deveria, assim, a denominação do
Cap. I ser traduzida por “Da Criação e da forma da letra de câmbio” e não “Da
emissão e forma da letra”.
Art. 1º:
“A letra contém:
1 – a palavra letra inserta no próprio texto do título e...”
O texto original francês estatui:
 
“La lettre de change contient:
1 – la dénomination lettre de change...”
O tradutor português traduziu lettre de change simplesmente por letra. Essa
tradução é correta, no direito português, em virtude de haver o Código Comercial
daquele país, de 1888, substituído a expressão letra de câmbio do Código anterior
simplesmente por letra (art. 278). Assim, em Portugal, o termo legal para exprimir
uma letra de câmbio é simplesmente letra, sendo, portanto, exata, para o direito
português, a tradução de lettre de change por letra.
O mesmo, entretanto, não ocorre no Brasil. Entre nós, o título tem o nome de
letra de câmbio, consagrado pelo Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908,
e por todas as leis que se referem ao assunto. Em tais condições, a expressão
equivalente a lettre de change é letra de câmbio e não simplesmente letra. Foi,
portanto, um erro aceitar a palavra letra, certa no direito português para significar
letra de câmbio, em vez de letra de câmbio, que é a designação legal do título no
direito brasileiro. O assunto tem importância dado o formalismo dos títulos de
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crédito, sendo sacramental o emprego no título da denominação do mesmo
constante do nº 1 do art. 1º da Lei Uniforme.
Art. 1º:
“2 – O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada”.
O legislador português traduziu a palavra mandat, do texto francês, por mandato.
Esse termo, em francês, na Lei Uniforme, tem sido bastante criticado, visto poder
se confundir com o contrato de mandato, fazendo do sacadoum mandatário do
sacador. Por isso, os anais da Conferência advertem que “deve-se observar que a
palavra “mandato” não foi aqui usada em seu sentido jurídico preciso, e que o
emprego dessa palavra não prejulga a natureza exata da operação na qual se
analisa juridicamente a criação de uma letra de câmbio”. O termo usado no texto
oficial em inglês é order.
Por tal razão, uma melhor tradução da palavra “mandat” seria “mandado”, como
sugere Pinto Coelho, visto que essa caracteriza uma ordem sem decorrer essa
ordem de um mandato. Poderia, igualmente, ser traduzida a palavra simplesmente
por ordem, como, aliás, constava da lei brasileira, art. 1º (A letra de câmbio é
uma ordem de pagamento...)
Art. 10, “in fine”:
“... salvo se este tiver adquirido a letra de má-fé ou, adquirindo-a, tenha cometido
uma falta grave”.
Não se trata de falta grave, mas de culpa grave. A expressão empregada no texto
francês, de que foi feita a tradução portuguesa, é faute lourde, que se traduz por
culpa grave. No texto oficial em inglês é “negligence”.
Art. 11, 1ª al.:
“Toda a letra de câmbio...”
Não se trata de toda a letra de câmbio (que significaria a letra de câmbio inteira)
mas de “toda letra de câmbio”, ou seja, qualquer letra de câmbio. No texto
francês: “Toute lettre de change”.
 
Art. 11, 2ª al.:
“Quando o sacador tiver inserido na letra as palavras ‘não à ordem’ ou uma
expressão equivalente, a letra só é transmissível...”
O texto francês fala em titre e o inglês em instrument. Melhor parece teria sido a
tradução de letra no texto assinalado, por título porque, como acentua Pinto
Coelho, “essa palavra torna mais patente a ideia... de que a transferência do
crédito constante da letra deve ainda neste caso fazer-se mediante a transferência
da posse do título, mantendo-se nesta modalidade de letra a conexão entre o
título e o crédito”.
Art. 15:
“O endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação como do
pagamento da letra.
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O endossante pode proibir novo endosso e, neste caso, não garante o pagamento
às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada.”
Pela tradução portuguesa, havendo proibição de novo endosso, o endossante não
garante apenas o pagamento da letra, garantindo, consequentemente, a
aceitação, conforme se vê da 1ª alínea do artigo.
Assim, entretanto, não ocorre. O texto francês é claro ao dizer que, “neste caso,
ele não se torna garante para com as pessoas a quem a letra for posteriormente
endossada”, isto é, ele não garante nem a aceitação nem o pagamento da letra.
Garantisse ele a aceitação, como se conclui da tradução portuguesa, responderia
ao portador pela não aceitação, o que, de fato, não ocorre. Proibindo novo
endosso, o endossante se exime de inteira responsabilidade em relação às pessoas
a quem a letra for posteriormente endossada.
Art. 16, últ. alínea:
“... cometeu uma falta grave”.
Não se trata de falta grave mas de culpa grave, conforme já se assinalou no
comentário ao art. 10.
Art. 18, 2ª alínea:
“Os coobrigados...”
Deve ser, segundo o texto francês, “os obrigados”.
Art. 18, últ. alínea:
“O mandato que resulta de um endosso por procuração não se extingue por morte
ou sobrevinda incapacidade legal do mandatário.”
Houve evidente engano na tradução portuguesa: deve-se ler “sobrevinda
incapacidade legal do mandante”, conforme se vê do texto francês (mandant).
Art. 19:
“Quando o endosso contém a menção ‘valor em garantia’, ‘valor em penhor’ ou
qualquer outra menção que implique uma caução...”
Não se trata simplesmente de caução, que é gênero de garantia, mas de caução
pignoratícia, que é uma das espécies de caução. O termo constante do texto em
francês é nantissement e o do texto inglês é pledge.
Art. 20, últ. alínea:
“Salvo prova em contrário, presume-se que um endosso sem data foi feito antes
de expirado o prazo fixado para fazer o protesto.”
O texto francês diz:
“Sauf preuve contraire, l’endossement sans date est censé avoir été fait avant
l’expiration du délai fixé pour dresser le protêt.”
Para ser mais fiel ao texto, uma melhor tradução do dispositivo seria:
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“Salvo prova em contrário, o endosso sem data tem-se como feito antes de
expirado o prazo fixado para fazer o protesto.”
É a sugestão de Pinto Coelho.
Art. 27:
“Quando o sacador tiver indicado na letra um lugar de pagamento diverso do
domicílio do sacado...”
O texto francês diz:
“Quand le tireur a indiqué dans la lettre de change un lieu de paiement autre que
celui du domicile du tiré...”
A tradução portuguesa, falando apenas em “lugar de pagamento diverso do
domicílio do sacado” confunde o lugar de pagamento onde deve ser procurado o
sacado para pagar, com o domicílio, que é a localidade onde o sacado se encontra.
Parece que a tradução certa seria:
“Quando o sacador tiver indicado na letra de câmbio um lugar de pagamento
diverso do (lugar) do domicílio do sacado...”
Art. 28, 2ª alínea:
“Na falta de pagamento, o portador, mesmo no caso de ser ele o sacador, tem
contra o aceitante um direito de ação...”
Não se trata de direito de ação mas de ação direta, como se vê do texto em
francês (action directe) e em inglês (direct action). O engano na tradução da lei
tem muita significação pois o que essa quer mostrar é que a ação contra o
aceitante não é regressiva, podendo, assim, ser exercida contra o aceitante, quer
haja protesto, quer não.
Art. 29, 2ª alínea:
“Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou outro signatário da
letra de que a aceita, fica obrigado, para com estes, nos termos do seu aceite.”
Neste dispositivo, os autores enumeram duas falhas de tradução que merecem ser
corrigidas. A primeira se refere a tiver informado, que melhor seria traduzida por
comunicou, visto como a expressão tiver informado “comporta a ideia de que o
sacado deu a informação antes de ter escrito a letra, isto é, a ideia de que se
exprime um simples propósito, ao passo que a segunda (comunicou) exprime a
ideia de simples comunicação dum fato acontecido – de que foi escrito o aceite. É
o fato de ter dado o aceite que o sacado leva ao conhecimento do portador ou de
qualquer signatário”. O texto francês justifica o argumento do mestre português,
pois de fato declara a 2ª alínea do art. 29:
“Toutefois, si le tiré a fait connaître son acceptation par écrit au porteur ou à un
signataire quelconque...”
Isso demonstra que a comunicação é de que o aceite foi dado e não que será
dado.
Esse entendimento leva a um outro defeito de tradução da Lei Uniforme: o
emprego da palavra aceita em vez de aceitou. De fato, dizendo a tradução que, se
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o sacado tiver informado a qualquer signatário da letra que a aceita, tem-se essa
declaração como uma simples promessa de aceitação e não uma aceitação já feita
e posteriormente riscada. Sendo promessa de aceitação sem que o aceite tivesse
sido dado e riscado, ter-se-ia um aceite presumido, que inexiste na letra de
câmbio, sendo a lei clara para afastar essa possibilidade quando diz que “o aceite
é escrito na própria letra”. Havendo uma promessa de aceite não há aceite escrito
na própria letra ou, simplesmente, não há aceite.
O segundo defeito da tradução, assinalado por Pinto Coelho, reside em haver o
legislador português traduzido “quelconque”, do original francês, por “outro
signatário”. Na realidade, a comunicação deve ter sido feita a um signatário
qualquer da letra, não a outro signatário pelo simples motivo de que o portador
não é signatário da letra.
Art. 31, 2ª alínea:
Há um erro na publicação brasileira da lei; na 2ª alínea, onde a publicaçãooficial
brasileira diz “e assinado pelo dador do aval” deve-se ler: “é assinado pelo dador
do aval”.
Art. 32, 3ª alínea:
“Se o dador do aval pagar a letra, fica sub-rogado nos direitos emergentes...”
O tradutor português traduziu a frase “le donneur d’aval acquiert les droits
resultant de la lettre” por “fica sub-rogado nos direitos emergentes da letra”. Não
se trata, evidentemente, de sub-rogação, que pressupõe uma transferência de
direitos do sub--rogante para o sub-rogado; na verdade, há uma aquisição de
direitos por parte do avalista que paga a letra, podendo ele agir contra o avalizado
ou contra os que, pela letra, se obrigaram para com este. É um direito próprio,
oriundo do pagamento da letra e não obtido por meio de uma sub-rogação.
Art. 33, últ. alínea:
“As letras, quer com vencimentos diferentes, quer com vencimentos sucessivos,
são nulas.”
A tradução portuguesa desvirtuou inteiramente o texto francês, em que, depois de
enumerar as modalidades por que podem ser passadas as letras de câmbio (à
vista, a certo termo de vista, a certo termo de data, a dia certo) o legislador
dispôs que “as letras de câmbio, quer com outros vencimentos (que não os
mencionados no artigo), quer com vencimentos sucessivos, são nulas”. (“Les
lettres de change soit à d’autres échéances, soit à échéances sucessives, sont
nulles.”)
Isto quer dizer que não admite a Lei Uniforme letras de câmbio com vencimentos,
por exemplo, em feiras, como era usual em certos países, ou com vencimentos
diversos daqueles enumerados no artigo. A tradução portuguesa mudou
completamente o sentido da frase.
Art. 37, 2ª alínea:
“Quando uma letra sacada entre duas praças que em calendários diferentes é
pagável a certo termo de vista, o dia da emissão é referido ao dia
correspondentemente do calendário do lugar de pagamento, para o efeito da
determinação da data do vencimento.”
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O dispositivo contém três defeitos: dois oriundos da publicação brasileira e um
engano de tradução do tradutor português.
Os relativos à publicação no Brasil são: “praças que em calendários diferentes”,
em vez de “praças que têm calendários diferentes”, e “dia correspondentemente”
em lugar de “dia correspondente”.
O erro de tradução se refere a “certo termo de data” que deve ser “certo termo de
vista”, como está no texto original francês.
Cap. VII
“Da ação por falta de aceite e por falta de pagamento.”
O texto francês fala em récours, que deve ser traduzido por “direito de regresso”
em vez de ação. Esse direito de regresso pode ser judicial ou extrajudicial, só no
primeiro caso se podendo falar realmente em ação.
Art. 44, 1ª alínea:
“A recusa de aceite ou de pagamento deve ser comprovada por um ato formal...”.
O texto oficial francês fala em “acte authentique” e Pinto Coelho estranha o fato
de não se ter conservado “ato autêntico” em vez de formal. Realmente, o ato
autêntico significa ser passado por oficial público, tal como acontece com o
protesto, enquanto que o ato formal não pressupõe a interferência ao notário, mas
simplesmente o cumprimento de certas formalidades. Seria, assim, de mudar
formal por autêntico.
Art. 47, 1ª alínea:
“Os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas de uma letra são todos
solidariamente responsáveis para com o portador.”
Pelo texto, com a palavra aceitantes (no plural) fica a impressão de que a letra de
câmbio tem mais de um aceitante. O texto francês se refere a “todos os que
emitiram, aceitaram, endossaram ou avalizaram uma letra de câmbio...”. Melhor
se afigura esta tradução do que a feita pelo tradutor português.
Art. 47, 2ª alínea:
Na 2ª alínea do artigo, a publicação brasileira da lei suprimiu as palavras ou
coletivamente, em seguida a individualmente. O texto correto é:
“O portador tem o direito de acionar todas essas pessoas individualmente ou
coletivamente” etc.
É a consagração do princípio da solidariedade cambiária.
Art. 48, 1ª e 2ª alíneas:
“O portador pode reclamar daquele contra quem exerce o seu direito de ação...”
2ª al.: “Se a ação...” ...“...à data da ação”.
O legislador português traduziu récours, do texto original francês, por direito de
ação. Não se trata, evidentemente, somente de ação que, como foi dito,
pressupõe uma demanda judicial, mas, na realidade, de direito regressivo, que
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tanto pode ser exercido judicialmente como não. Assim, na 1ª alínea, deve direito
de ação ser corrigido por direito regressivo, o mesmo acontecendo com a 3ª
alínea, onde a palavra interposta deve ser substituída pela expressão for exercido.
Desse modo, a 3ª alínea deve ser lida: “Se o direito regressivo for exercido...”
...“em vigor no lugar do domicílio do portador à data em que for exercido o direito
de regresso”.
Art. 48, nº 1º:
A publicação brasileira suprimiu a palavra ou entre não aceite e não paga. Note-se
que, evidenciando a natureza lusitana da tradução, foi usada a expressão “não
aceite”, que no português do Brasil naturalmente traduziríamos por “não aceita”. O
texto deve ser lido:
“O pagamento da letra não aceita ou não paga.”
Art. 50:
“Qualquer dos coobrigados, contra o qual se intentou ou pode ser intentada uma
ação...”
Ainda aqui, como acentuou Pinto Coelho a palavra “récours” foi traduzida por
ação. A tradução certa seria: “Qualquer obrigado, contra o qual foi exercido ou
pode ser exercido o direito regressivo...”
Art. 51:
“No caso de ação intentada...” ...“O portador deve, além disso, entregar a essa
pessoa uma cópia autêntica...”
Na primeira frase, a palavra ação deve ser substituída por “direito regressivo”. Na
última, ao falar em cópia autêntica (copie certifié), Pinto Coelho faz indagações
para saber o verdadeiro sentido da expressão. Para nós, em lugar de “pública
forma”, sugerida por Pinto Coelho, a tradução deveria ser “cópia autenticada”, o
que significa a interferência do notário para dar validade à cópia. Isso a faria
distinguir-se, como argumenta o professor português, da “cópia” a que se referem
os arts. 67 e 68, que não precisam ser autenticadas, e admitiria a fotocópia, que
não é uma pública-forma, mas tem valor pela autenticação do notário.
Art. 52, 3ª alínea:
“Se o ressaque é sacado pelo portador, a sua importância é fixada segundo a taxa
para uma letra à vista...”
Pinto Coelho sugere que a palavra taxa seja substituída por “curso do câmbio” por
ser mais conforme o direito português (Cód. Com. antigo, art. 324). Para nós a
mudança também estaria de acordo com o que dispunha o art. 38, § 1º, do
Decreto nº 2.044, de 1908.
Art. 54, 1ª alínea:
“Quando a apresentação da letra ou o seu protesto não pode fazer-se dentro dos
prazos indicados por motivo insuperável (prescrição legal, declarada por um
Estado qualquer...).
O texto francês usa a palavra prescription, mas, evidentemente, não se trata de
prescrição no sentido de modo extintivo da obrigação, e sim, simplesmente, de
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determinação ou, como explica Pinto Coelho, “fato do príncipe”. O professor
português sugere que a palavra seja substituída por determinação ou ordem, para
evitar confusão com a prescrição em sentido jurídico.
Art. 55, 2ª alínea; art. 59, 1ª alínea:
“...direito de ação...”
Conforme o acima exposto, a palavra récours, constante do texto oficial francês,
deve ser traduzida por direito de regresso.
Art. 62, 1ª alínea:
“...Na falta desta indicação, presume-se que o pagamento o foi feito por honra do
sacador.”
O texto francês declara que, na falta de indicação, “le paiement est consideré
comme fait par le tireur”.
Deve, assim, ser substituído o presume-se da tradução portuguesa por é
considerado,que dá um sentido diferente ao dispositivo.
Art. 63, 1ª alínea:
“O que paga por intervenção fica sub-rogado nos direitos...”
A mesma observação do art. 32, 3ª alínea, deve ser feita aqui. Não se trata de
sub-rogação, nem o texto francês leva a essa conclusão (“Le payeur par
intervention acquiert les droits...”). Assim, substitua-se fica sub-rogado por
adquire os direitos.
Art. 63, 3ª alínea:
A publicação brasileira estampou “intervir contrariamente...”; deve-se ler, como
consta da tradução portuguesa, “intervier contrariamente”.
Essas são as principais incorreções existentes na tradução da lei portuguesa e em
enganos na sua publicação no Brasil, aquelas quase todas assinaladas por Pinto
Coelho, como mencionados no texto. Como, contudo, está em vigor entre nós a
tradução publicada com o Decreto nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, parece-
nos que ao Governo caberia a tarefa de mandar fazer uma tradução brasileira da
Lei Uniforme, expurgada dos defeitos que se encontram na tradução portuguesa,
por nós aceita e, por vezes, deturpada.
DA NATUREZA DA LETRA DE CÂMBIO
22. TEORIAS SOBRE A NATUREZA JURÍDICA DOS TÍTULOS DE CRÉDITO
Desde o momento em que a letra de câmbio passou a ser intensamente usada nas
relações comerciais, juristas tentaram justificar a existência do título, para tanto
sendo formuladas as mais variadas teorias. Essas teorias podem ser divididas nas
que veem na letra de câmbio o instrumento de um contrato, em regra defendidas
pelos juristas franceses; nas que acham que os direitos do título dependem de um
ato unilateral da vontade, esposadas principalmente pelos juristas alemães; e nas
que se baseiam em certos direitos nascidos do título, preferidas pelos autores
italianos.
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Dentre as teorias contratuais, aceitas em regra pelo direito francês, destacam-se a
de Pothier, para quem a letra de câmbio “é o meio pelo qual o contrato de câmbio
se executa”. Pardessus via na letra de câmbio um mandato outorgado pelo
sacador ao sacado; a sua circulação seria oriunda de uma cessão, ao tomador, do
crédito que o sacador tem contra o sacado. Já para Thaller o sacador delega ao
sacado pagar ao tomador; este, endossando a letra, vai fazendo delegações
sucessivas. Para Worms, trata-se de uma estipulação em favor de terceiros.
Os juristas alemães baseiam-se no princípio da “abstração”. Essa concepção se
fundamenta no fato de que, no direito alemão, como no antigo direito romano, o
simples acordo de vontades (contrato) não é suficiente para transferir a
propriedade de uma cousa. Esse acordo origina a obrigação de transferir, mas tal
transferência só se opera por um “contrato de alienação que, para os imóveis, se
faz pela inscrição no registro competente e para os móveis pela tradição. Esse
contrato de alienação é que é abstrato no sentido de que o cumprimento da
formalidade – inscrição ou tradição – confere ao adquirente um direito
imediatamente consolidado, independente da causa da alienação, isto é, do acordo
de vontades”. Esse o substrato da concepção alemã de direito abstrato.
Partindo dessa premissa, Einert, para quem a letra de câmbio equivale ao papel-
moeda, considerando o direito do portador um direito abstrato e autônomo,
independente, portanto, da causa que lhe deu origem, justifica o nascimento
desse direito como um ato unilateral da vontade do obrigado. Esse ato unilateral é
uma promessa que se incorpora no papel. Passa, assim, a letra de câmbio, pela
teoria de Einert, a ser considerada como um ato unilateral da vontade do
subscritor, independente, portanto, de qualquer causa que o tenha originado.
A teoria de Einert influenciou grandemente os juristas alemães, surgindo, porém,
algumas variantes da mesma. Assim, para Thöl, criador da chamada “teoria da
emissão”, a redação da letra se constitui uma oferta só se aperfeiçoando o
contrato abstrato quando a letra é entregue ao portador, fato que significa a
aceitação por parte deste. Liebe considera a redação da letra e o endosso como
atos formais dando ao formalismo a principal característica desses títulos. Kuntze
e Siegel elaboram a teoria da criação segundo a qual o título obriga desde que é
criado, donde, se um título criado for extraviado ou roubado, persistirem as
obrigações dos que nele lançaram suas assinaturas. Bekker pretende dar
personificação ao título, considerando-o sujeito de direitos. Brunner e Gierke
defendem que o título incorpora direitos. E para Jacobi basta que o título seja
aparentemente perfeito para que o portador possa exercer os direitos do mesmo.
Essa a teoria da aparência já conhecida em outros campos do direito (mandato,
sociedades, sucessões etc.), aplicada aos títulos de crédito.
Na Itália, Vivante, estudando profundamente os títulos de crédito, conclui que o
elemento essencial do título é a literalidade; ao lado desse princípio, os títulos são
também abstratos no sentido de que não ficam presos às suas causas e os direitos
neles incorporados são autônomos. Deve-se a Vivante, como já foi dito, uma das
mais completas definições dos títulos de crédito, ao considerá-los documentos
necessários para o exercício do direito literal e autônomo neles mencionados. Se,
para Mossa, a redação do título é um ato sui generis cujos efeitos são produzidos
pela lei e não pela vontade das partes, Ascarelli considera o direito nascido do
título como um direito próprio, autônomo (direito cartular).
Tais, vistas superficialmente, as principais teorias surgidas para caracterizar a
natureza jurídica dos títulos de crédito, a letra de câmbio sendo o título padrão.
Algumas delas foram combatidas e não subsistiram; conceitos de outras
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perduraram e são atualmente aceitos. O princípio de que o título de crédito deve a
sua eficácia não a um contrato, mas a um ato unilateral da vontade do subscritor,
é hoje geralmente admitido. Além desse, são comumente aceitos os de que o
título é um documento formal, literal, incorporando direitos abstratos, com
obrigações autônomas e valendo pela aparência, para a garantia do portador de
boa-fé.
Esses princípios gerais são aplicáveis à letra de câmbio, padrão, que é, dos títulos
de crédito.
23. CARACTERÍSTICAS DA LETRA DE CÂMBIO
De acordo com o que foi acima exposto e dentro da mais moderna doutrina que
norteia a matéria, pode-se dizer que a letra de câmbio é um título de crédito à
ordem, formal, literal, abstrato e autônomo. É um título criado para a circulação e,
também, um título de apresentação.
23.1. A letra de câmbio é um título de crédito
A primeira característica ou o primeiro atributo da letra de câmbio é que ela é um
título de crédito. É, realmente, no dizer de Vivante, um “documento necessário
para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Criada por uma
relação extracartular (relação fundamental), mas obrigada pela vontade unilateral
do sacador, circula baseada na confiança que inspiram os que lançam sua
assinatura no documento. Mobiliza, assim, o crédito, facilitando as transações
comerciais, inteiramente garantidas pelos que dela participam. Desempenha,
desse modo, muitas vezes, o papel da moeda, simplificando, sobretudo, as
relações do comércio internacional. E toda a sua estrutura tem por base apenas a
confiança que inspiram os que nela se obrigam.
23.2. É um título à ordem
Criada para mobilizar o crédito baseado na confiança a letra de câmbio destina-se
a circular. Por isso, a cláusula à ordem é de sua natureza, ainda mesmo que não
venha explícita no documento. Foi, sem dúvida, a introdução dessa cláusula nos
títulos de crédito o maior passo dado, em todos os tempos, para a circulação dos
direitos. Sem a cláusula à ordem certamente a cambial e os demais títulos de
crédito não preencheriam, a contento, as suas finalidades.Inicialmente, a cláusula à ordem deveria vir expressa nos títulos para que os
titulares dos direitos neles mencionados pudessem transferi-los a outra pessoa.
Faz-se a transferência através do endosso, ou seja, da assinatura do detentor
legitimado do título no verso ou anverso do mesmo. No endosso o endossante
pode mencionar a pessoa a quem transfere o título (endosso pleno ou em preto)
ou pode deixar de fazê-lo (endosso em branco). Nesse último caso, basta a
simples assinatura do detentor legitimado da letra, no verso do título (Lei
Uniforme, art. 13, 2ª al.), para que se opere a transferência. A letra passa a
circular como título ao portador sendo considerado titular dos direitos da mesma
emergentes quem com ela se apresentar.
23.3. É um título formal
A letra de câmbio é, também, um título formal isto é, para valer como tal deve
conter certos requisitos exigidos por lei. É no formalismo que reside a maior
garantia da letra. Exigindo a lei a menção no documento de determinados
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requisitos, se ao menos um desses nele não figurar desnatura-se o título,
deixando de produzir os efeitos (Lei Uniforme, art. 2º, 1ª al.).
Esse rigor cambial dá a característica própria da letra de câmbio, fazendo com que
se diferencie dos demais títulos de crédito. A cláusula cambiária, ou seja, a
expressão letra de câmbio na língua em que o título é criado, terá que constar do
contexto para que a letra valha como tal e possa gozar de certos direitos especiais
de que não gozam outros documentos de crédito. Como já foi assinalado, a
tradução adotada no Brasil denomina o título apenas de letra contrariando, assim,
a tradição do nosso direito.
23.4. É um título literal
A letra de câmbio é um título completo, per se stante valendo, assim, pelo que
nele está mencionado. Assume, desse modo, papel importantíssimo a literalidade
que limita os direitos dos possuidores do título e a responsabilidade dos que nele
lançam as suas assinaturas. Vale na letra tão somente o que nele está escrito. Daí
explicar um tratadista que “o direito decorrente do título é literal no sentido de
que quanto ao conteúdo, à extensão e às modalidades desse direito, é decisivo
exclusivamente o teor do título”.
23.5. É um título abstrato
Igualmente, a letra de câmbio é um título que encerra direitos abstratos, ou seja,
direitos independentes da relação fundamental. Nenhuma dependência tem o
exercício dos direitos contidos no título do negócio que deu lugar ao aparecimento
deste. Baseiam-se esses direitos da literalidade do título, no que nele está escrito.
Uma vez que tenham sido preenchidos os requisitos exigidos pela lei para a
validade do título, os direitos e obrigações dele decorrentes serão exercidos ou
cumpridos independentemente da causa que deu lugar à criação e emissão da
letra. Daí por que o portador de boa-fé, que recebeu o título regularmente, tem os
seus direitos de crédito garantidos ainda mesmo que haja ocorrido irregularidades
no negócio que deu lugar ao nascimento ou transferência da letra.
23.6. É um título autônomo
As obrigações contidas na letra de câmbio são autônomas o que vale dizer que
cada pessoa que nela se obriga o faz como um obrigado independente das
obrigações até então assumidas por outras pessoas. Daí por que não são oponíveis
ao portador as exceções pessoais fundadas nas relações do devedor com os
obrigados anteriores. Há autonomia nas obrigações cambiárias pelo fato de cada
pessoa que se obriga na letra assumir uma obrigação independente. E descoberto
um vício ou defeito que não invalide a letra, esse fato não exime de
responsabilidade aqueles que nela apuseram as suas assinaturas porque, assim o
fazendo, assumiram obrigações pessoais pelas quais devem responder.
23.7. É um título de circulação
Criada com a finalidade de mobilizar o crédito, a letra de câmbio é, assim, um
título destinado à circulação. Se, por acaso, ficasse o título parado não beneficiaria
o crédito senão a uma pessoa, não havendo necessidade da utilização, em tal
caso, da letra de câmbio. É justamente em atender a várias pessoas que a letra de
câmbio se destaca dentre os demais títulos de crédito.
Faz-se a circulação, em regra, mediante endosso, muito embora possa o título
circular também como título ao portador, isto é, sem o nome do beneficiário da
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ordem, caso em que o detentor é presumido o seu proprietário. O importante,
porém, da circulação é que, ao passar o título de um proprietário a outro, estão
sendo transferidos direitos que serão exercidos, com inteira garantia, pelos
detentores legitimados do título. Essa é, no conceito dos tratadistas, uma das
características mais importantes dos títulos de crédito, sem a qual só com muita
dificuldade os direitos de crédito poderiam ser transferidos de uma pessoa para
outra.
23.8. É um título de apresentação
Finalmente, a letra de câmbio é um título de apresentação, ou seja, um
documento que necessita ser exibido para que o seu detentor possa exercer os
direitos nele incorporados. Por tal razão é que, querendo o portador saber se o
sacado, ou seja, aquela pessoa a quem a ordem de pagamento é dada, deseja
cumpri-la, terá o título que ser apresentado materialmente, a fim de que, nele, o
sacado aponha a sua assinatura (aceite); do mesmo modo, vencida a letra, tem o
portador a obrigação de apresentá-la ao sacado ou aceitante para que seja a
mesma resgatada. Também é por tal razão que, destruída ou extraviada a letra,
será necessário um procedimento especial para que o proprietário possa receber a
importância da mesma, não se admitindo a demanda imediata do pagamento e
sim a adoção de medidas acautelatórias, para a garantia do exercício dos direitos
dos credores depois de realizadas as providências que comprovem o extravio ou
destruição da letra (Decreto nº 2.044, art. 36).
Como instrumento necessário ao exercício dos direitos nela mencionados, a letra
de câmbio precisa existir materialmente e o seu proprietário só poderá exigir o
cumprimento das obrigações nela contidas mediante a sua exibição.
24. FUNÇÃO ECONÔMICA DA LETRA DE CÂMBIO
Evidente é que a letra de câmbio, dada a sua natureza especial e as garantias de
que está revestida, exerce grande função econômica, por muitos tendo sido
considerada “papel-moeda internacional”. Não só se destina ela a efetuar o
transporte fácil de valores, de um lugar para outro (que era o seu papel inicial)
sem os perigos e as dificuldades do transporte real, como, acima de tudo, faz com
que possam ser utilizadas, no presente, importâncias que só em tempo futuro
serão exigidas. O crédito mobiliza-se e esse tempo tem grande influência para o
desenvolvimento comercial. Faz o crédito com que surja uma nova fonte de
riquezas, acrescendo o patrimônio real das pessoas com um outro, decorrente da
confiança.
Por tal razão, serve a letra de câmbio para facilitar a realização de transações
comerciais, criando-se um novo capítulo nas atividades mercantis desde o
momento em que as letras de câmbio passaram a ser utilizadas com maior
frequência. E esse fato tem um significado maior depois da aceitação da teoria
alemã sobre a criação das letras de câmbio, sendo dispensado o instituto da
provisão para que o crédito, a confiança pura e simples, passasse a ser o
sustentáculo da letra de câmbio.
DA CRIAÇÃO E EMISSÃO DA LETRA DE CÂMBIO
25. DA CRIAÇÃO E EMISSÃO DA LETRA
A Lei Uniforme, no Cap. I do Tít. I, trata da Criação e forma da letra de câmbio,
tendo a tradução brasileira, adotada pelo Dec. nº 57.663, substituído a palavra
criação por emissão. O Decreto nº 2.044, de 1908, intitulava o Cap. I, Do saque.
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Em ambas as leis, nesses capítulos, é regulada a criação da letra, com os
requisitos essenciais para a sua validade. A criação, segundo tais dispositivos
legais, é equivalente à emissão.
A verdade, entretanto, é que existe diferença entre “criação” da letra e sua
“emissão”. Por criação entende-se o ato de dar vida ao título, com a sua feitura
material, cujo momento decisivo é aquele em que o sacador lança sua assinatura
na letra; já a emissão é o ato de pôr a letra em circulação, com a sua
transferência ao tomador. O Decreto nº 2.044 falava em saque que, na opinião de
Pontes de Miranda, “é a operação... pela qual o sacador indica o nome de outro
como possível obrigado”. De qualquer modo, se bem que, no fundo, haja sensível
diferença entre emissão, criação e saque, na prática são geralmente empregados
os termos emissão ou saque para indicar a feitura e o ato de pôr a letra em
circulação. A lei brasileira procurava distinguir saque de emissão dando àquele o
significado de feitura e lançamento em circulação da letra de câmbio, reservando a
palavra emissão para a feitura e lançamento em circulação da nota promissória.
Assim, sacador era o subscritor de uma letra de câmbio e emitente o de uma nota
promissória.
Também é usual o termo passar uma letra de câmbio para significar criar e emitir
a letra. O próprio Decreto nº 2.044 estatuía, no art. 6º, que “a letra pode ser
passada: I – à vista” etc., o que equivalia dizer que a letra podia ser criada e
emitida para vencimento nos modos mencionados. O termo passar, nesse sentido,
ainda é bastante comum na linguagem comercial, principalmente em relação ao
cheque, dizendo-se constantemente passar um cheque com o significado de criar
e emitir um desses títulos.
Em resumo, temos que, criar a letra é dar a forma escrita ao título e emitir é fazer
o título, já criado, entrar em circulação. Com a criação da letra de câmbio, alguém,
denominado sacador, ordena a outra pessoa, chamada sacado, que pague a um
terceiro, designado tomador, em certa época, uma importância determinada.
Sacador, sacado e tomador têm, na letra, posições definidas e diversas. E como,
ao participarem do título, assumem direitos e obrigações autônomas (não
dependentes dos demais direitos ou obrigações dos que estão vinculados à letra),
sacado e tomador podem ser a mesma pessoa física ou jurídica que deu a ordem
(sacador). Não regesse o título o princípio da autonomia das obrigações
cambiárias certamente isso não seria possível; mas, como a figura e a
responsabilidade do sacador, do tomador e do sacado divergem, pode uma mesma
pessoa, física ou jurídica, constar na letra como o dador da ordem (sacador),
beneficiário da mesma (tomador) e o indicado para cumprir a mesma ordem
(sacado).
26. TEORIAS RELATIVAS À CRIAÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO
Já foi esclarecido (supra, nº 12) que, dentre as principais teorias, duas se
destacam para justificar a natureza do ato gerador de uma letra de câmbio: a
teoria contratual segundo a qual a criação da letra de câmbio está ligada a um
contrato (inicialmente, um contrato de troca de moedas; posteriormente, um
contrato relativo à remessa de valores de um lugar para outro); e a teoria que
considera os direitos incorporados na letra como decorrentes de um ato unilateral
de vontade do emissor, independentes, assim, da relação contratual que lhes deu
origem. Segundo a primeira teoria, contratual, que foi aceita pelo Código de
Comércio francês, há necessidade de provisão, ou seja, de depósito, por parte do
sacador, em mãos da pessoa a quem a ordem é dada (sacado), de certa
importância em dinheiro, mercadorias, ou mesmo crédito, para que possa a ordem
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ser cumprida; indispensável se faz, também, que a ordem seja dada de um lugar
para outro (distancia loci), a fim de ser caracterizada a remessa de valores.
Já na segunda teoria, que justifica o nascimento dos direitos incorporados em uma
letra de câmbio de um ato unilateral da vontade do sacador, não há necessidade
da provisão nem de que a ordem seja paga em lugar diferente daquele em que foi
dada. Baseia-se, assim, o título, na confiança, no crédito que tem o sacador,
acrescido pelo crédito daqueles que vão lançando suas assinaturas na letra, pois
esse fato faz com que eles se obriguem também pelo cumprimento da ordem.
Essa teoria, como se vê, justifica melhor a letra de câmbio como um título
destinado a mobilizar o crédito, já que a sua base repousa na confiança que os
participantes do documento inspiram àqueles que se beneficiarão da ordem.
Convém, contudo, esclarecer que essa teoria não desconhece o negócio contratual
que deu lugar ao aparecimento da letra de câmbio; o que defende é que tal
negócio se abstrai para a existência e validade do título, podendo esse, assim, ser
criado e posto em circulação sem ficar subordinado a um contrato original.
A teoria do ato unilateral de vontade foi, inicialmente, aceita pelos alemães,
passando depois a ser seguida por quase todos os países do mundo. O Brasil,
como um dos países cuja legislação comercial se inspirou no Código francês,
adotou, a princípio, a teoria contratual (Código Comercial, art. 366); mais tarde,
entretanto, aderimos à teoria alemã, dando como justificativa para a validade dos
direitos incorporados na letra, um ato unilateral da vontade do sacador, conforme
se vê do Decreto nº 2.044, de 1908. A Lei Uniforme, igualmente, segue a
orientação de ser a letra criada por um ato unilateral da vontade.
27. FORMALISMO DA LETRA: RIGOR CAMBIÁRIO
Não constitui, entretanto, qualquer ordem de pagamento dada por escrito, a um
terceiro, uma letra de câmbio. Esse título, para valer como tal, deve estar
revestido de determinadas formalidades estabelecidas por lei. A esse formalismo
dá-se o nome de rigor cambiário e é justamente nele que repousam, em grande
parte, as garantias do portador da letra. A Lei Uniforme, ao declarar, no art. 1º,
que a letra “contém” os requisitos a seguir enumerados, logo depois (art. 2º)
estatui que “o escrito em que faltar alguns dos requisitos indicados no artigo
anterior não produzirá efeito como letra...” norma que dá valor decisivo à
aparência do título. No mesmo sentido, aliás, dispunha o Decreto brasileiro nº
2.044, estabelecendo, no art. 1º, que a letra de câmbio é uma ordem de
pagamento que deve conter certos requisitos que menciona e no art. 2º
acrescendo que “não será letra de câmbio o escrito a que faltar qualquer dos
requisitos acima enumerados”.
Temos, então, que a letra de câmbio é um título formal, contendo uma ordem de
pagamento e mais outros requisitos indispensáveis para que a mesma possa
produzir os efeitos relativos à mobilização do crédito com suficiente garantia para
os seus portadores. Faltando ao título algum desses requisitos legais deixará o
mesmo de ser uma letra de câmbio, podendo valer apenas como um meio de
prova, não um documento per se stante. É o rigor cambiário uma segurança para
a circulação da letra e é graças a ele que esse título tanto vem cooperando na
realização das atividades econômicas.
28. A FORMA NA LETRA DE CÂMBIO
É a letra de câmbio uma ordem de pagamento (Lei Uniforme, art. 1º, nº 2) e essa
ordem deve ser dada por escrito (Lei Uniforme, art. 2º “O escrito em que faltar
algum dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como
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letra...”). Não há fórmula especial para a sua feitura, muito embora seja comum o
uso de uma, muito simples, mais ou menos nos seguintes termos: “Aos (tantos
dias do mês tal, ano tal) pagará V. S.ª, pela presente Letra de Câmbio, ao sr. F. de
Tal ou à sua ordem, a importância de (tanto), em moeda legal do país”. Seguem-
se o lugar, a data e a assinatura do sacador. Abaixo vem o nome da pessoa a
quem é dada a ordem (sacado),com o endereço. Essa fórmula, porém, apesar de
bastante usada, não é obrigatória, podendo o sacador criar uma letra de câmbio
usando modelo diverso.
Também não estabelece a lei o modo como deve ser emitida a letra, podendo,
assim, ser manuscrita, datilografada ou impressa, sendo indispensável, porém,
que haja, no título, a assinatura do próprio punho do sacador ou de pessoa que o
represente, desde que possua poderes especiais para tal fim. De indagar seria se o
contexto, ou seja, a parte da letra onde está expressa a ordem, pode começar
numa face do papel e terminar no verso. Certamente, não; pois o verso da letra é
principalmente destinado a receber assinaturas daqueles que transmitem o título a
outra pessoa (endosso) muito embora, pela Lei Uniforme (art. 13), o endosso
possa ser feito em qualquer lado da letra, a não ser quando se trate de endosso
em branco (sem a indicação da pessoa a quem a letra é transmitida) que será
obrigatoriamente lançado no verso (art. 13, 2ª al.). Assim, o contexto da letra
deve ser lançado em uma face do papel; o verso ou dorso é destinado ao
lançamento dos endossos ou de possíveis avais dados a pessoas determinadas ou
indeterminadas.
A lei brasileira exigia cinco requisitos para a validade da letra, três deles devendo
ser lançados no contexto, permitido que um (o nome do sacado, ou seja, da
pessoa a quem a ordem é dada) fosse lançado abaixo do contexto, e
determinando que outro (o nome do dador da ordem ou sacador) se firmasse
abaixo dele. A Lei Uniforme, em vez de cinco enumera oito requisitos essenciais
para a validade do título (art. 1º). Acontece, entretanto, que a própria Lei
Uniforme esclarece que três requisitos podem deixar de existir (época do
vencimento, lugar do pagamento e lugar da emissão), suprindo a lei (art. 2º) a
falta expressa dos mesmos. Em muita coisa os requisitos da Lei Uniforme
alteraram os princípios antes admitidos pelo direito brasileiro. Cláusulas como a
que, entre nós, permitia fosse emitida a letra ao portador foram suprimidas, não
sendo mais permitidas letras dessa modalidade; outras, como a que contém a
ordem dada, que não eram obrigatórias na lei brasileira, tomaram esse caráter na
Lei Uniforme. Se, em essência, os princípios da lei brasileira coincidem, em linhas
gerais, com a orientação da Lei Uniforme, na parte formal sensíveis modificações
foram introduzidas por esta.
29. REQUISITOS ESSENCIAIS NAS LETRAS DE CÂMBIO
Segundo o art. 1º da Lei Uniforme, para a validade da letra de câmbio deve a
mesma conter os seguintes requisitos essenciais:
29.1. A denominação “letra de câmbio”, inserta no próprio texto do título e
expressa na língua empregada para a redação desse título
Essa é a chamada “cláusula cambiária”, com a qual o título se identifica dentre os
demais títulos de crédito. Devendo produzir efeitos específicos como ordem de
pagamento, a letra de câmbio necessita ter algo que a particularize, e isso é
obtido mediante a inscrição, no contexto, das palavras “letra de câmbio”. Poderá,
entretanto, esse título ser emitido para pagamento em outras praças onde a língua
nacional não seja conhecida. Em tal caso, criando-se a ordem em língua
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estrangeira, deve o documento conter expressão equivalente às palavras “letra de
câmbio”, para que possa produzir os seus efeitos legais.
A lei brasileira continha cláusula semelhante à da Lei Uniforme, estatuindo, no art.
1º, I, que o documento deveria conter “a denominação “letra de câmbio” ou a
denominação equivalente na língua em que for emitida”. Em tais condições, a
cláusula cambiária sempre foi indispensável para a validade da letra, tanto de
acordo com a Lei Uniforme como com a lei brasileira, em ambas se exigindo,
igualmente, sua inserção no contexto do título.
De indagar seria se a expressão “letra de câmbio” pode ser abreviada ou
substituída por uma outra de igual significado. No direito francês admite-se apenas
de change em vez de lettre de change mas não se admite traite, termo comum
por que é conhecido o título; na Itália há uma corrente que aceita a expressão
equivalente lettera cambiaria, mas uma outra é contra.
Na nossa opinião, não é de admitir-se a abreviação ou substituição da expressão
“letra de câmbio” em face da imposição taxativa da lei. Obedecendo o título a um
formalismo rigoroso, a substituição de um requisito essencial quebra essa regra,
de grande importância para a segurança do título. Note-se, também, que a
cláusula cambiária, se bem que fosse obrigatória já na lei alemã de 1848 (art. 4º,
1º), não o era no direito francês anterior à Lei Uniforme, nem o é, ainda hoje, no
direito inglês (Bill of Exchange Act 1882, art. 3º).
No que diz respeito à inserção da cláusula cambiária no próprio texto do título,
acentue-se que a letra de câmbio também pode ser passada por ato notarial.
Por último, sendo a letra emitida em mais de uma língua, como pode acontecer na
Suíça, a expressão “letra de câmbio” deve constar na língua em que foi expressa a
ordem, isto é, se a letra foi escrita em francês, italiano ou alemão, a expressão
letra de câmbio deve ser escrita na mesma língua em que está expressa a palavra
pagará ou expressão equivalente, já que a palavra pagará não é sacramental,
podendo ser substituída por expressão equivalente (“Queira fazer o pagamento,”
etc.).
29.2. Cláusulas não escritas
O citado dispositivo considera não escritas no título: a cláusula de juros, a
proibitiva de endosso, a excludente de responsabilidade pelo pagamento ou por
despesas, a que dispense a observância de termos e formalidades prescritas, e a
que, além dos limites fixados em lei, exclua ou restrinja direitos e obrigações.
O dispositivo repetiu a redação do art. 44 do Decreto nº 2.044/1908. O art. 5° da
Lei Uniforme admite a cláusula de juros nas letras de câmbio à vista e a termo
certo de vista.
Do art. 890 excluiu-se a cláusula proibitiva da letra ao aceite ao sacado, constante
do item III do art. 44 da citada Lei, alterada pelo art. 22, 2ª al., da Lei Uniforme.
O dispositivo do art. 890 do Código Civil de 2002 repetiu a redação do art. 44 do
Decreto nº 2.044, de 1908.
A redação do art. 890 do Diploma Civil de 2002 é a seguinte: “Consideram-se não
escritas no título a cláusula de juros, a proibitiva de endosso, a excludente de
responsabilidade pelo pagamento ou despesas, a que dispense a observância de
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termos e formalidade prescritas, e a que, além dos limites fixados em lei, exclua
ou restrinja direitos e obrigações”.
O art. 22, alínea 2ª, da Lei Uniforme de Genebra para letras de câmbio e notas
promissórias admite a letra de câmbio sem apresentação ao aceite, salvo se se
tratar de letra de câmbio pagável em localidade diferente da do domicílio do
sacado, ou de uma letra sacada tempo certo da vista.
O art. 22, alínea 3ª “– O sacador pode também estipular que a apresentação ao
aceite não poderá efetuar-se antes de determinada data.”
O referido art. 22, 2ª al., admitiu a letra não aceitável, salvo em se tratando de
letra pagável em localidade diferente daquela do domicílio do sacado ou de uma
letra sacada a tempo certo da vista.
A cláusula excludente de responsabilidade do endossante pela aceitação e pelo
pagamento da letra (art. 15, 2ª al.) segundo Fran Martins no referido artigo, no
texto francês da Lei Uniforme tem a seguinte redação: “tanto da aceitação, quanto
do pagamento da letra em relação a terceiros a quem for endossada”.
Essa redação deveria ser adotada no Código Civil.
O art. 891 estatui que o título de crédito, incompleto ao tempo da emissão, deve
ser preenchido de conformidade com os ajustes realizados.
A redação do dispositivo não parece ser das melhores, pois a intenção do
legislador foi de preencher o título nos claros ou omissõesde acordo com o
estipulado na criação do título.
A letra, depois de completada, quando adquirida de boa-fé não permite a
apresentação de exceções baseadas na inserção da cláusula, relativa à não
conformidade com os acordos oponíveis ao portador de boa-fé.
No que concerne ao art. 891 sugere Fran Martins, no referido artigo, que a
redação deveria mencionar que, ao portador de boa-fé, deveria ser garantida
quanto ao preenchimento abusivo da letra em branco, como se deduzia da leitura
do art. 3° do Decreto nº 2.044/1908, com base na teoria da aparência.
O parágrafo único do art. 891 estabelece que o descumprimento pelos
interessados dos ajustes previstos não constitui motivo de oposição ao terceiro
portador do título, exceto se este agiu de má-fé.
A redação do parágrafo único deste artigo reproduz a do art. 10 da Lei Uniforme,
com a exclusão da parte final “ou adquirindo-a tenha cometido falta grave”.
A Súmula nº 387 de STF assim dispôs: “A cambial emitida ou aceita com omissões
em branco pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do
protesto”.
A redação do texto do novo Código Civil contém a expressão: “os ajustes previstos
neste artigo, pelos que dele participaram”, não se encontra no art. 4° da Lei
Uniforme e na própria Súmula nº 387 do STF.
29.3. O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada
Necessário é que, no título, seja especificado o montante da importância a ser
paga, de modo que se saiba exatamente o valor total que a letra representa.
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Devendo na letra obrigarem-se pessoas outras além do sacador, é indispensável
que essas conheçam o quantum por que respondem; do mesmo modo, aquele a
quem a ordem é dada – sacado – necessita saber do montante da importância que
terá de desembolsar, se acatar a ordem.
Não é admissível, assim, que do título conste uma importância indeterminada,
ainda mesmo que haja um limite para essa importância como, por exemplo, se o
sacador ordena ao sacado que pague até certa importância. A soma a pagar
necessita ser exatamente mencionada.
As normas da Lei Uniforme relativas à importância a pagar divergem um pouco
daquelas constantes da lei brasileira. Assim o nº 2 do art. 1º diz simplesmente
que da letra deve constar “o mandato puro e simples de pagar uma quantia
determinada”, enquanto que a lei brasileira estatuía figurasse do contexto “a soma
de dinheiro a pagar e a espécie de moeda”.
Em primeiro lugar, no disposto na Lei Uniforme é de estranhar-se a palavra
mandato, pois não se trata do contrato desse nome, em que o mandatário (no
caso o sacado) agiria representando o mandante (sacador), e, em tal caso,
obrigando a esse (Código Civil, art. 653), mas de uma ordem como se expressava
a lei brasileira e reza o texto inglês da Lei Uniforme.
Muito bem, entretanto, disse a Lei Uniforme que essa ordem deve ser pura e
simples, isto é, não sujeita a qualquer condição pois se tal ocorresse esse fato
alteraria a liquidez do título. No que se refere à importância a pagar, não menciona
a Lei Uniforme seja especificada a espécie de moeda, naturalmente por estar essa
espécie de moeda contida na importância (soma, como diz o texto original da Lei
Uniforme) a ser paga. Requer, contudo, que a importância seja determinada, isto
é, fixada, limitada, sem se sujeitar a variações prejudiciais aos obrigados no título.
Em relação à maneira de escrever a importância a ser paga não determina a Lei
Uniforme seja ela feita por extenso, como o fazia a lei brasileira (art. 1º, caput)
mas estatui (art. 5º) que, “se na letra a indicação da quantia a satisfazer se achar
feita por extenso e em algarismos, e houver divergência entre uma e outra,
prevalece a que estiver feita por extenso”. Aduz, ainda, esclarecendo, a al. 2ª
desse art. 5º que, “se na letra a indicação da quantia a satisfazer se achar feita
por mais de uma vez, e houver divergências entre as diversas indicações,
prevalecerá a que se achar feita pela quantia inferior”.
Na lei brasileira (art. 5º) se, por acaso, a letra contivesse, fora do contexto,
menção à importância a ser paga, valeria, no caso de diversidade, a que constava
do contexto. A importância a ser paga, mencionada fora do contexto, poderia ser
apenas em algarismos. Se, no contexto, a importância estivesse escrita por
extenso e em algarismos, em caso de diversidade valeria a importância por
extenso (lei brasileira, art. 5º). Igualmente, no contexto, junto à importância
escrita por extenso, pela lei brasileira devia figurar a espécie de moeda. Em se
tratando de pagamento em moeda estrangeira, esse, ainda que na letra houvesse
disposição em contrário, devia ser efetuado em moeda nacional, fazendo-se a
conversão ao câmbio à vista do dia do vencimento e do lugar do pagamento, ou
não havendo curso de câmbio nesse lugar, pelo da localidade mais próxima.
Originariamente a lei brasileira (art. 25) permitia o pagamento em moeda
estrangeira, mas desde 1933, pelo Decreto nº 23.501, a norma do art. 25 do
Decreto nº 2.044 foi derrogada, vigorando a regra da reserva feita pelo Governo
brasileiro ao art. 41 da Lei Uniforme (supra, nº 18, e).
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Por último, em relação à divergência na escrita da importância a ser paga, a lei
brasileira dispunha, ao contrário do contido na al. 2ª do art. 5º da Lei Uniforme,
que o título não valeria como letra de câmbio se houvesse divergência entre as
importâncias lançadas no contexto (art. 5º, in fine).
29.4. O nome da pessoa que deve pagar
Deve na letra, obrigatoriamente, ser mencionado o nome do sacado, ou seja, da
pessoa a quem é dada a ordem para efetuar o pagamento. Essa indicação
usualmente constava abaixo do contexto, como era obrigatório pela lei brasileira
(art. 1º, III); não tendo, entretanto, a Lei Uniforme disposto a respeito, já não é
mais obrigatório que assim ocorra, podendo constar ou do contexto ou abaixo do
mesmo, ou, até, acima, como se se tratasse de uma carta (por exemplo: “Ao Sr. F.
de Tal, rua X, nº Y, cidade Z. – Pague V. S.ª ao sr. F., pela presente letra de
câmbio, a importância... etc.”). O necessário é que, da letra, conste o nome do
sacado.
Este poderá, em princípio, ser qualquer pessoa, física ou jurídica. O sacador pode
designar-se sacado, segundo dispõe expressamente a Lei Uniforme (art. 3º, 2ª
al.), o que não estava explícito na lei brasileira e era discutido na doutrina. Assim,
uma casa matriz pode sacar contra uma filial, ou até contra si mesma, já que as
posições de sacador e de sacado são diversas na letra e as obrigações de ambos
são autônomas.
Não importa que o sacado tenha o mesmo domicílio do sacador; antigamente,
como já visto, havia necessidade de estar a pessoa domiciliada em lugar diferente
daquele do dador da ordem, pois a letra de câmbio era um instrumento destinado
ao transporte de dinheiro e tal só ocorria havendo a distancia loci.
Cumpre esclarecer que a indicação do sacado na letra não traz nenhuma obrigação
para este, apesar de se referir a lei ao “nome daquele que deve pagar” (Lei
Uniforme, art. 1º, nº 3). Solenizam-se as obrigações nos títulos de crédito
mediante a prática de atos formais dos que se obrigam. Esses atos, na sua
modalidade mais simples, são traduzidos pelas assinaturas dos obrigados na letra.
Quem lança sua assinatura na letra – seja como sacador, aceitante, avalista ou
endossante – está se responsabilizando autonomamente pelo cumprimento da
obrigação. Esse princípio é absoluto e só deixa de funcionar quando a assinatura é
precedida de uma declaração negativa, como a do sacado que, ao lhe ser
apresentado o título, declara, por escrito, as razões pelas quais deixa de aceitá-lo;
ou quando alguém age como procurador do verdadeiro obrigado na letra, como o
endossatário no endosso-mandato.
Assim sendo, o sacado, cujonome é obrigatoriamente indicado no título, nenhuma
obrigação tem para com o portador do mesmo enquanto não lança sua assinatura,
transformando-se em aceitante. Antes disso, a obrigação é garantida pelos que
deixaram no documento as suas assinaturas – o sacador, que emitiu o título,
dando a ordem de pagamento; os seus avalistas, se houver; os endossantes, se o
título passou das mãos do seu proprietário original (tomador) para outras pessoas,
fazendo-se essa transferência mediante um ato formal (endosso), que se traduz
justamente na assinatura do proprietário do título, no verso ou no anverso do
mesmo, especificando ou não a pessoa a quem a letra é transferida; e os avalistas
desses, se houver. Se o sacado, a pessoa a quem a ordem é dada e cujo nome,
obrigatoriamente, deve ser mencionado na letra, desejar cumprir a ordem, lançará
no título a sua assinatura, passando a ser aceitante e nesse caso, em virtude
daquela assinatura, se tornará o obrigado principal pelo pagamento. Mas as
responsabilidades dos demais que deixaram suas assinaturas na letra perduram,
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passando apenas a ser responsabilidades subsidiárias, o que significa que, se o
aceitante não pagar a letra, os demais estão obrigados a fazê-lo.
A Lei Uniforme contempla dispositivo semelhante ao da lei brasileira, quanto à
obrigatoriedade de conter a letra “o nome daquele que deve pagar” (art. 1º, nº 3).
Note-se, entretanto, como acima foi dito, que, enquanto na lei brasileira não
existia dispositivo expresso facultando o sacador designar-se sacado, a Lei
Uniforme expressamente dispõe poder a letra ser sacada contra o próprio sacador
(art. 3º, 2ª al.). Isso se explica em face da autonomia das obrigações cambiárias,
cada uma delas valendo independentemente das outras. Nada impede, assim, seja
a letra sacada contra o próprio sacador, nem mesmo sendo esse o tomador, pois a
letra é um título destinado à circulação e pode mobilizar o crédito, com a sua
transferência para outras pessoas, antes ou depois de ser apresentada ao sacado
para aceite.
O nome do sacado, muito embora a lei não o diga expressamente, pode ser
abreviado, desde que a abreviação identifique a pessoa contra quem a letra foi
emitida. Pode, também, ser substituído por um pseudônimo conhecidamente
usado pela pessoa: v.g., Malba Tahan por J. C. de Melo e Sousa. Pode, até, ser um
título nobiliárquico – Conde de Brotas – ou, mesmo, o de uma pessoa inexistente.
Ampara esse último caso a teoria da aparência, segundo a qual basta a letra estar
aparentemente completa, isto é, com todos os requisitos preenchidos, para ter
validade.
Se o sacado é um menor absolutamente incapaz, far-se-á a indicação do seu
representante legal, mencionando-se na letra o fato (ao menor X, na pessoa do
seu representante legal Y); se é um relativamente incapaz, seu aceite terá a
assinatura também de seu assistente.
Apesar de não esclarecer a lei, como faziam algumas leis anteriores (lei brasileira,
art. 10), a letra pode ser sacada contra várias pessoas. Na doutrina, Lescot e
Roblot acham que a indicação não pode ser alternativa (Ao Sr. F. ou ao Sr. X) mas
uma outra corrente, a nosso ver com razão, admite que a indicação de vários
sacados pode ser cumulativa (caso em que todos devem aceitar a letra); sucessiva
(caso em que a apresentação deve ser feita na ordem da indicação) ou alternativa,
quando cabe ao portador escolher aquele a quem deve apresentar a letra. Em
qualquer hipótese, imprescindível é que os sacados tenham um domicílio certo, já
que, não trazendo a letra o lugar do pagamento, será paga no domicílio do sacado
(art. 2º).
Por último, discute-se se o sacado pode ser identificado pela função que exerce,
isto é, se a letra pode ser emitida contra alguém que exerce um cargo ou função,
abstraindo-se, contudo, o nome da pessoa (ex.: ao Governador do Estado de S.
Paulo; ao Reitor da Universidade do Brasil; ao Diretor do Departamento Nacional
de Obras Públicas). No antigo direito italiano (Cód. de Com. de 1882, art. 251, 3º)
isso era admitido, visto a lei requerer apenas a indicação da pessoa, o que
permitia identificar a pessoa pelo seu cargo. No regímen da Lei Uniforme
certamente tal não pode acontecer, pois a lei requer, expressamente, “o nome da
pessoa que deve pagar”. O cargo certamente não é um nome; poderia, assim, a
letra ser sacada contra o Departamento Nacional de Obras, pois essa entidade é
uma pessoa jurídica; não, como se disse, contra o Diretor, ou o Tesoureiro ou o
Superintendente de tal entidade.
29.5. O nome da pessoa a quem, ou à ordem de quem a letra deve ser paga
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Também constitui requisito obrigatório, para a validade da letra de câmbio, a
inscrição, no contexto, do nome da pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser
paga, isto é, do tomador. É o tomador o beneficiário da ordem, e, uma vez lhe
sendo entregue o título pelo sacador, investe-se na qualidade de proprietário
original do mesmo e, consequentemente, sujeito ativo dos direitos dele
emergentes. Se, por acaso, deseja passar esses direitos a outra pessoa, o
tomador o fará mediante a simples assinatura no título, ou seja, pelo endosso. E
porque o tomador é o primeiro proprietário da letra e o primitivo sujeito dos
direitos nela incorporados, será também o primeiro endossante, já que só o
proprietário pode transferir a outrem a propriedade da coisa.
Pode o tomador transferir a letra sem mencionar o nome da pessoa a quem faz a
transferência. Nesse caso, apenas lançará sua assinatura no verso do título
(endosso em branco) e será considerado proprietário do mesmo e, portanto,
sujeito ativo dos direitos nele incorporados, quem com ele se apresentar.
Pela lei brasileira, a letra podia ser passada ao portador (art. 1º, nº IV), o que
significava que a ordem era dada para que a importância fosse paga a uma pessoa
não determinada, cujo nome não figurava no título. A Lei Uniforme tem orientação
diversa, não permitindo que a letra seja originariamente ao portador, dispondo o
art. 1º, nº 6, que a letra “conterá o nome da pessoa a quem ou à ordem de quem
deve ser paga”. Essa foi uma importante alteração no nosso direito cambiário, pois
era usual a emissão de letras ao portador em virtude, principalmente, de, sofrendo
os rendimentos dessas letras, na fonte, um desconto às vezes alto para o Imposto
de renda, não ficarem os seus proprietários sujeitos à declaração cedular. Pelo
sistema da Lei Uniforme, a situação foi alterada, pois, originariamente, as letras
de câmbio já não podem mais ser ao portador. Não quer isso significar que jamais
a letra de câmbio possa circular como título ao portador. Na realidade, entrada a
letra em circulação, poderá circular como título ao portador, desde que o tomador
ou um outro endossante a endosse com essa cláusula ou simplesmente em
branco, isto é, lançando a sua assinatura no verso sem indicar a pessoa a quem a
transfere (Lei Uniforme, arts. 12, 3ª al.; 13, 2ª al.). Isso, entretanto, só pode
ocorrer quando o título entrar em circulação, isto é, quando ou depois que o
tomador o endossar. Originariamente, deve o título, para valer como letra de
câmbio, trazer o nome do tomador.
Por último, transformada a letra em letra em branco poderá ser reconvertida em
letra nominativa à ordem, mediante o lançamento no título da assinatura daquele
que o detiver. Fazendo isso, o portador se identifica e, pela sua assinatura, torna-
se corresponsável pelo aceite e pagamento da letra. Esse endosso tanto poderá
indicar a pessoa a quem a letra é transferida (endosso em preto) como deixar de
fazer essa indicação (endosso em branco). Pela Lei Uniforme que admite o
endosso no verso ou no anverso do título, o endosso em branco só poderá ser
feito no verso da letra (art. 13, 2ª al.). Não sendo designadoo novo proprietário
do título, será considerado como tal quem com ele se apresentar.
Alguns problemas têm sido aventados em relação à indicação do nome do tomador
no título. Assim, pergunta-se se o tomador pode ser identificado apenas pelo seu
cargo. O assunto foi bastante discutido na Conferência de Genebra mas ficou
assentado que não deve o tomador ser indicado apenas por sua função, em
virtude principalmente da dificuldade do endosso, que requer o nome da pessoa
que endossa. Assim, admitida que fosse a indicação do tomador pela sua função,
ao endossar o título teria ele que indicar a mesma. E como certas funções são
exercidas por pessoas por um limitado espaço de tempo, poderia ocorrer a
substituição do tomador na função e, se fosse exercido o direito regressivo, o
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portador teria forçosamente que procurar aquele que então exercia a função, por
força da qual assinara o endosso.
Outro problema é o que se refere à pluralidade de tomadores. A lei não dispõe a
respeito e a doutrina discute sobre a possibilidade de existirem vários tomadores
de uma mesma letra. Na nossa opinião, estamos pela afirmativa desde que os
tomadores sejam solidários. Assim, o endosso praticado por um é de
responsabilidade de todos e no direito regressivo agindo o portador contra um
deve esse responder pela totalidade da dívida, naturalmente com o benefício de
divisão do montante em relação aos demais tomadores solidários.
Não deve ser permitido, entretanto, que os tomadores sejam disjuntos, pois, em
tal caso, ao endossar a letra, faz-se a transferência apenas de parte do crédito.
Ora, a letra é um título que representa uma dívida total, que, pela relação
existente entre o documento e o direito que ele incorpora, não pode ser dividida.
Não se deve confundir o caso com o aval parcial ou o aceite limitado. No aval
parcial um estranho interfere no título limitando sua responsabilidade e o portador
já sabe que, ao exercer recurso contra ele, só terá direito de exigir uma parte do
crédito, ficando, contudo, garantido, quanto ao restante, pelos demais signatários
do título. No aceite limitado o aceitante só garante o pagamento por uma certa
quantia, e o portador igualmente terá direito de regresso contra os obrigados
anteriores, que garantiram o pagamento da totalidade da importância da letra.
Como não é permitido o endosso parcial, também não é possível a existência de
vários tomadores que não sejam solidários. Se tal acontecer, o endosso do título
deve ser assinado por todos; e se for exercido pelo portador o direito regressivo,
esse pode acionar apenas um dos endossantes, baseado na solidariedade
cambiária consagrada pelo art. 47 da Lei Uniforme, mas esse, pagando a dívida,
terá direito a exigir do cotomador a sua parte na mesma segundo a regra da
solidariedade comum. E o exercício da ação regressiva por parte desses
tomadores pagantes deve caber aos tomadores, em comum, já que os mesmos,
na realidade, representam um só obrigado, qualificado como tomador.
Podem, no entanto, os tomadores ser alternativos (pague a F ou a X). Em tal caso
o que de posse da letra, a transmitir, isenta de responsabilidade o outro tomador,
ainda mesmo na ação regressiva.
29.6. A indicação da data em que a letra é passada
Pela Lei Uniforme (art. 1º, nº 7) é requisito essencial para a validade do título a
indicação da data em que a letra é passada. A lei brasileira não considerava a data
requisito obrigatório, facultando ao portador inseri-la a qualquer momento, para o
que possuía um mandato presumido (Decreto nº 2.044, art. 4º). Assim,
entretanto, não ocorre na Lei Uniforme, que não incluiu entre as exceções
mencionadas no art. 2º a falta da data em que a letra é passada.
A importância da data provém do fato de que, depois de revestido o documento
dos demais requisitos formais, somente poderá ser considerado um título que vale
por si mesmo, independente da causa que lhe deu origem, a partir da data em
que foi passado. Serve, igualmente, para se verificar se, à data fixada, o sacador
era capaz de se obrigar cambiariamente. No sistema brasileiro, mesmo circulando
sem data, o documento, revestido dos requisitos mencionados no art. 1º do
Decreto nº 2.044, já era considerado um título de crédito. O portador, podendo
inserir a data quando lhe aprouvesse, na realidade passava a dispor de um
elemento importantíssimo, capaz, muitas vezes, de alterar a situação de algum
dos obrigados no título, já que, rezando o art. 3º do Decreto nº 2.044 que os
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requisitos obrigatórios eram “considerados lançados ao tempo da emissão”, esse
tempo de emissão seria contado a partir da data do título. Assim, se, depois de
emitida a letra o sacador falisse, bastaria, para validá-la, a colocação de uma data
anterior ao período suspeito da falência.
A data consiste em dia, mês e ano. Na prática, é costume em documentos
diversos, ser substituído o mês por um número que lhe corresponderia se se
contassem os meses do ano de 1 a 12, considerando-se o número 1 o mês de
janeiro. Esse costume não tem justificativa legal e a antiga lei brasileira sobre o
cheque, nº 2.591, de 1912, tentando certamente dirimir dúvidas, declarava (art.
2º, c) que o cheque deveria conter a “data, compreendendo o lugar, dia, mês e
ano da emissão, sendo o dia e o mês por extenso”, tendo o Dec. nº 22.393, de 25
de janeiro de 1933, estabelecido que por extenso deve ser escrito apenas o mês.
Esses dispositivos legais merecem vários esclarecimentos. O primeiro é que o
lugar, referido como integrante da data na Lei nº 2.591, na realidade não faz parte
dessa. Por lugar entende-se o domicílio jurídico do emitente do cheque e por data
o momento, no tempo, em que o ato de emissão é praticado. Fixa-se esse
momento pelo dia, mês e ano; isso é o que deve ser entendido por data, que nada
tem a ver com o lugar, que é a fixação do fato no espaço. A Lei Uniforme faz
claramente essa distinção (art. 1º, nº 7).
Depois, dizendo que o dia e o ano podem deixar de ser escritos por extenso, o
Dec. nº 22.393 andou certo, pois se trata de números e os números têm duas
maneiras de ser escritos: por extenso ou em algarismo. Não se confunda a escrita
em algarismos com a escrita abreviada, que seria o contrário lógico da expressão
por extenso usada na Lei nº 2.591 e no Dec. nº 22.393. A abreviação consiste na
simplificação da palavra, reduzindo-se as suas letras ou sílabas de modo a dar a
entender o seu sentido completo. Assim, p. ex., é uma abreviação de por
exemplo; qdo. é uma abreviação de quando. Isso não acontece ou raramente
poderia acontecer na escrita dos numerais, se bem que, no português antigo,
especialmente na escrita tabelioa, fosse bastante usada a abreviação de numerais.
Se se poderia entender que mil e novtos. e set. e sete significaria mil e
novecentos e setenta e sete, hoje não é comum essa forma de escrever tal
número. Em se querendo abreviar a escrita, com economia de espaço e tempo (e
foi certamente isso o que motivou o dispositivo legal), facilmente se obtém tal
resultado escrevendo-se em algarismos. Essa é a maneira mais simples de serem
escritos os números.
Já no que diz respeito a ser escrito o mês por extenso, parece-nos que a lei não
necessitava explicitar tal regra, a não ser que quisesse evitar a simplificação real
do nome do mês, isto é, evitar que se escrevesse jan. por janeiro, out. por
outubro etc. Se tentou evitar isso, a lei está certa, se bem que, no nosso entender,
não houvesse nenhum prejuízo para o título se se empregasse uma abreviação
que realmente identificasse o mês. Assim, usando out. em vez de outubro, em
nada o título estaria prejudicado pois não há outro mês que possa, abreviado, ser
confundido com esse. Mas, se a lei pretendeu não evitar essa abreviaçãoa significar um instrumento de
pagamento, não se atendo, simplesmente, à transferência de dinheiro. Por essa
razão, já não era o depósito em mãos do banqueiro que dava origem à letra;
qualquer importância que o sacado (pessoa a quem era dada à ordem) devia ou
poderia dever, futuramente, ao sacador (credor, pessoa que dava a ordem),
proveniente de qualquer transação – fornecimento de mercadorias etc. –,
possibilitava a emissão de letra.
O fato principal desse período foi a adoção da cláusula à ordem e,
consequentemente, o nascimento do endosso. Segundo aquela cláusula,
constando ela da letra, o tomador ou beneficiário poderia transferir o título a
qualquer pessoa sem o consentimento do sacador, e a pessoa a quem a letra era
transferida ficava investida de todos os poderes de titular na mesma mencionada.
A transferência se fazia de modo simples, com a assinatura do tomador nas costas
do título; assim surgiu o endosso, modalidade especial de transmissão dos títulos
de crédito.
Entretanto, a emissão da letra ainda pressupunha um contrato inicial. Para existir
a letra, se tornava necessária provisão do sacador em mãos do sacado; por tal
razão, devia a letra, para garantia do tomador, ser, inicialmente, apresentada ao
sacado, a fim de que esse declarasse se estava disposto a cumprir a ordem, ou,
em outras palavras, se aceitava a ordem do sacador. Surgiu, desse modo, o aceite,
consistente na manifestação do sacado de acatar a ordem dada pelo sacador de
efetuar o pagamento da letra na época do seu vencimento.
Caracterizou-se, assim, esse segundo período evolutivo da letra de câmbio por se
transformar ela em um instrumento de pagamento, pelas facilidades criadas para
a sua circulação, com adoção da cláusula à ordem e do endosso e pela vinculação
do sacado à obrigação, com o aceite.
12.3. Período alemão
A partir do início do século 19, os juristas começaram a estudar mais
profundamente a letra de câmbio e novas interpretações foram dadas ao seu
conteúdo. Foi, sobretudo, na Alemanha onde tais estudos se desenvolveram. E
deve-se principalmente a Karl Einert a conceituação da letra de câmbio não mais
como um simples meio de pagamento, instrumento de um contrato preliminar,
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mas como um verdadeiro título que vale por si próprio de acordo com a vontade
manifestada pelo subscritor.
Chamou Einert a letra de câmbio de “papel-moeda do comerciante” e explicou
essa sua afirmativa declarando que, do mesmo modo como o Tesouro emite
cédulas representativas de valor, assim o faz o comerciante, ao subscrever uma
letra de câmbio. Apesar de reconhecer-se que a letra de câmbio diverge,
grandemente, dos títulos emitidos pelo Tesouro, a afirmativa de Einert serviu para
mostrar peculiaridades que deviam revestir esses títulos e que, posteriormente,
foram adotadas pelas legislações de quase todos os países.
Graças, assim, aos estudos dos alemães, principalmente de Einert e de Thöl, a
letra de câmbio passou a ser considerada um verdadeiro título de crédito, não
estando a sua existência dependente de um contrato preliminar causador do seu
aparecimento. Nasce a letra de um ato unilateral da vontade do sacador, e, uma
vez preenchidas certas formalidades, vale pelo que nela está escrito. E o direito do
seu possuidor é autônomo e abstrato, independente da relação fundamental, ou
seja, do negócio que, por acaso, deu origem à letra. Por se tratar de um direito
autônomo e abstrato, não são oponíveis exceções aos possuidores da letra
baseadas nas relações desses obrigados com os obrigados anteriores. Essa nova
conceituação da letra de câmbio veio satisfazer plenamente as necessidades do
comércio que, dado o progresso verificado no mundo da metade do século
passado para cá, dia a dia se desenvolve. Importante título de crédito, empregado
por comerciantes e não comerciantes, a letra de câmbio foi, por lei, revestida de
inúmeras garantias, de modo a ser utilizada com facilidade e segurança.
Com essas características, conceitua-se, hoje, a letra de câmbio como um título de
crédito formal (já que, para valer como tal, devem ser, na sua feitura, atendidos
certos requisitos), literal (valendo apenas o que nela está escrito) e abstrato (o
que significa que o direito nela mencionado não está na dependência de uma
causa anterior, em regra chamada de relação fundamental). A letra tem a sua
origem principalmente na vontade unilateral do seu criador e as obrigações dos
que assinaram na mesma são obrigações autônomas, cada uma valendo por si
própria.
13. A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO ESTRANGEIRO
Regulada pela Ordenança do Comércio Terrestre de 1673, a letra de câmbio
passou, com nova estrutura, para o Código de Comércio francês de 1808,
constituindo o Título Oitavo e constando dos arts. 110 a 189. Essa parte do Código
francês foi mais tarde modificada pela lei de 7 de junho de 1894 e,
posteriormente, por várias outras leis, entre as quais a de 8 de fevereiro de 1922
e o Decreto-Lei de 30 de outubro de 1935, que deu novo texto ao Título VIII (arts.
110 a 189) do Código de Comércio e que fez uma adaptação da Lei Uniforme de
Genebra, de 7 de junho de 1930, com a singularidade de que a Convenção que
estabeleceu essa Lei só foi ratificada pela França em 1936, isto é, depois de ter
sido adaptada a Lei Uniforme ao direito interno francês. Divergindo da maioria dos
países, a França conservou o instituto da provisão, continuando a ser essa
necessária para ser emitida uma letra. Pressupõe assim a letra de câmbio francesa
um negócio fundamental a que fica ligada, o que a descaracteriza como uma
obrigação criada por ato unilateral da vontade do sacador.
Os códigos surgidos depois da promulgação do Código de Comércio francês – o
espanhol, de 1829, o português, de 1833, o Código Albertino, de 1865 e, em
geral, quase todos os sul-americanos, que nada mais foram que a aceitação ou
adaptação do código espanhol – seguiram a orientação francesa, enquadrando a
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letra de câmbio como um título destinado a efetuar pagamentos, só permitido
havendo diversidade entre o lugar da emissão e o do pagamento (o art. 110,
primitivo, do Código francês declarava: “A letra de câmbio é sacada de um lugar
para outro”), resultante de um contrato inicial que se formalizava pela provisão.
Entretanto, essa orientação encontrou opositores nos sistemas legais da Inglaterra
e da Alemanha, que davam à letra de câmbio um conceito diverso.
Na verdade, na Inglaterra existiam duas modalidades de letras de câmbio, uma
destinada a circular apenas no país (Inland-Bill) e outra para circulação no exterior
(Foreign-Bill). Se a segunda era resultante de um contrato, como a letra de
câmbio francesa, a primeira fazia abstenção da distancia loci, não representando,
necessariamente, a remessa de valores de um lugar para outro, donde, em
consequência, não haver à sua base um contrato de câmbio nem ser necessária a
provisão, isto é, o valor fornecido em mãos de sacado. Esse título, em alguns
casos, não exigia sequer a assinatura do sacador, bastando que o nome desse
constasse do documento, “de maneira a não dar lugar a nenhum equívoco”.
Foi na Alemanha, contudo, que maior reação se fez ao conceito francês da letra de
câmbio como um título só utilizável de um lugar para outro, sempre ligado a um
contrato original. Depois de vários estudos e discussões de notáveis juristas, foi
aprovada, em Leipzig, em 24 de novembro de 1848, a “Lei Geral Alemã sobre
Letras de Câmbio” (Die Allgemeine Deutsche Wechselordnung), discutida e aceita
por representantes de 37 Estados que então compunham a Alemanha. Essa lei,
que se baseou, em grande parte, nas ideias expostas, em 1839, por Einert, no seu
livro Das Welchselrecht nach dem Bedurfnisse im 19. Iahrhunderts, foi depois
ligeiramente modificadamas
impedir que, em vez de nomes, os meses fossem identificados por números (24
de junho de 1975), o dispositivo não tem razão de ser, já que a escrita em
algarismos não é uma abreviação da escrita por extenso mas simplesmente uma
modalidade legal de serem escritos os numerais.
A lei cambial brasileira preocupou-se com que os requisitos essenciais da letra
fossem escritos por extenso (Decreto nº 2.044, art. 1º, caput). Mas a data, pela
lei brasileira, não era requisito essencial. Sendo-o pela Lei Uniforme, deve constar
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do dia, mês e ano, podendo o dia e o ano ser escritos por extenso, ou em
algarismos. O nome do mês não deve ser representado por números, pois não há
nenhum motivo legal que justifique a identificação dos meses por algarismos. No
nosso entender, entretanto, pode o nome do mês ser abreviado desde que
identifique o mês, do mesmo modo como podem, na letra, ser abreviados os
nomes das pessoas que nela se obrigam, uma vez que essa abreviação de nome
seja capaz de identificar a pessoa, como, por exemplo, Fran Martins em vez de
Francisco Martins.
Não dispondo a Lei Uniforme o modo como pode ser escrita a data da letra, é de
indagar-se se essa poderá ser substituída por uma data universalmente ou
geralmente conhecida, como, por exemplo, “Natal”. Sabe-se que o dia do Natal é,
universalmente, o dia 25 de dezembro. No nosso entender, não haveria prejuízo
para a data da letra ser assim fixada: “Natal de 1976”, “Finados de 1975” etc. O
caso não seria o mesmo se o dia fosse de festa móvel, como “Sexta-Feira Santa”,
“Quarta-Feira de Cinzas” etc. Em tal caso, dada a variabilidade do dia assinalado,
se tornaria difícil precisar exatamente a que dia ou mês corresponderia a sua
enunciação. Não será admitida como válida uma letra assim emitida; como válida
não seria uma letra com data inexistente – 30 de fevereiro, 31 de junho e outras
semelhantes.
A disposição do art. 889 do novo diploma civil considerou elementos essenciais: À
data da emissão do título, a indicação precisa dos direitos que confere e a
assinatura do emitente.
A segunda exigência refere-se aos direitos contidos na letra, conferidos ao
beneficiário dela.
A data da emissão abrange o saque da letra de câmbio.
A assinatura do sacador da letra de câmbio ou do emitente da nota promissória
também constitui elemento essencial à sua validade.
29.7. A assinatura do sacador
Por fim, deve constar da letra, obrigatoriamente, assinatura da pessoa que dá a
ordem, sacador, ou da pessoa a quem ele tenha outorgado poderes especiais para
praticar tal ato. Essa é a primeira vez que a lei (art. 1º, nº 8) exige uma
assinatura no título. E assim não poderia deixar de ser pois, contendo o título uma
ordem de pagamento, necessário é que alguém responda por esse pagamento, se
a pessoa a quem ele foi ordenado não o realizar. Como as obrigações nos títulos
de crédito são garantidas pelas assinaturas dos que neles interferem, não haveria
garantia para o pagamento se, desde o nascimento do título, não contivesse ele
uma assinatura.
O sacador, que deve lançar sua assinatura na letra, necessita ser capaz para poder
responder pela obrigação. Entretanto, se por acaso for incapaz, e se outra pessoa
capaz lançar, posteriormente, sua assinatura na letra, fica essa última pessoa
respondendo, perante o portador, pela obrigação de pagar o título, apesar daquela
irregularidade inicial. Isso se explica, ainda, pelo princípio da autonomia das
obrigações cambiárias. Ninguém pode se eximir do cumprimento de sua obrigação
arguindo a incapacidade do sacador ou de outro signatário da letra. Somente
aquele que recebe o título de um incapaz pode arguir a incapacidade desse, pois a
transação, no momento, está se realizando entre os dois. Aos obrigados
posteriores já não cabe opor nenhuma exceção, desde que as pessoas que lhes
transmitiram o título o tenham feito regularmente.
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Segundo a lei brasileira, a assinatura do sacador devia vir “abaixo do contexto”; a
Lei Uniforme, entretanto, não faz essa determinação, donde poder a assinatura do
sacador figurar no contexto ou fora dele. Também pela lei brasileira podia o título
ser emitido por mandatário com poderes especiais (e por serem especiais esses
poderes deviam constar expressamente do instrumento do mandato) pois, nessa
hipótese, o mandatário agindo por representação, obriga o mandante. A Lei
Uniforme não se refere expressamente a esse caso, mas o art. 8º, permitindo a
assinatura na letra de representantes de outras pessoas, admite, ipso facto, a
emissão da letra por mandatário. Igualmente, a letra pode ser sacada por ordem e
conta de terceiro, como diz a Lei Uniforme (art. 3º, 3ª al.), regra também
existente no nº IV do art. 1º da lei brasileira. Em tal caso, continua o sacador com
todas as obrigações cambiárias, para com os que participam da letra, assumindo,
inclusive, com a sua assinatura, responsabilidade pelo aceite e pagamento do
título. As suas relações com o terceiro por conta de quem saca a letra (nas letras
sacadas por conta e ordem de terceiro consta do contexto essa cláusula: “Pagará
V. S.ª a F. de Tal, por ordem e conta de X...”) são extracambiárias. As letras assim
sacadas trazem a vantagem, para aquele por ordem de quem foram sacadas, de
não o vincularem ao cumprimento das obrigações decorrentes do título. Neste,
quem se obriga, realmente, é o sacador, cuja assinatura consta da letra, suas
relações com o terceiro, cuja assinatura não figura na letra, sendo puramente
particulares.
Como acontece com o sacado, a assinatura do sacador também pode ser feita por
pseudônimo, desde que este identifique a pessoa que o usa. Um gestor de
negócios sacando uma letra o faz sob sua responsabilidade pessoal; aos terceiros
não interessa que o saque beneficie uma outra pessoa que não o gestor; as
relações deste com o dono do negócio são particulares e, portanto,
extracambiárias. Sendo um menor relativamente incapaz quem saca a letra,
deverá ser assistido na forma da lei.
Em se tratando de analfabeto, pelo sistema jurídico brasileiro a letra só pode ser
sacada mediante procuração pública, em que fique patente a identidade do
sacador; o mesmo acontece em relação aos mutilados e cegos. Em alguns países
era permitida a assinatura em cruz (Portugal) ou por um sinal qualquer usado pelo
sacador (Japão, Índia, Turquia). O assunto foi bastante discutido por ocasião da
Conferência de Genebra mas foi acordado que o significado da palavra
“assinatura” seria dado pelos países signatários da Convenção. Uma reserva foi
estabelecida no Anexo II da Convenção (art. 2º do Anexo) segundo a qual cada
país que adotar a lei pode estabelecer a maneira de ser substituída a assinatura,
“desde que uma declaração autêntica inscrita na letra de câmbio constate a
vontade daquele que assiná-la.” O Brasil adotou essa reserva mas só existem
princípios reguladores do suprimento da assinatura no tocante à assinatura por
mandatários (Decreto nº 2.044, arts. 1º, V; 8º, 2ª al.; 11 e 14). Assim, a
identificação do sacador apenas pela impressão digital, ou a rogo, ou por sinal
particular (em cruz) entre nós não é permitida.
Parece-nos, entretanto, que a assinatura pode ser substituída por chancela
mecânica, adotando-se o disposto na reserva do art. 2º do Anexo II e seguindo-se
a mesma orientação dada pelo Banco Central, que permite tais subscrições no
cheque.
Por último, de acordo com o art. 3º da Lei nº 6.268, de 24 de novembro de 1975,
“os títulos cambiais e as duplicatas de fatura conterão, obrigatoriamente, a
identificação do devedor pelo número de sua cédula de identidade, de inscrição no
cadastro de pessoa física, do título eleitoral ou da carteira profissional”,
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acrescentando o parágrafo único que “nos instrumentos de protesto serão
descritos os elementos de que trata este artigo”. (Sobre esse assunto, v. com mais
detalhes nº 31-b, infra.)
Tais são os requisitos essenciais que a Lei Uniforme exige para a letra de câmbio,
sendo de notar que “o escrito em que faltar algum dos requisitos indicados no
artigo anterior não produzirá efeito como letra...” (Lei Uniforme, art. 2º, 1ª al.,
correspondente ao art. 2º da lei brasileira). Entretanto, afora esses, a Lei Uniforme
menciona outros que, em princípio, a letra deve conter. Se, contudo, for emitida
uma letra sem esses outros requisitos (os constantes dos números 4, 5 e parte do
7 do art. 1º) dá a lei a solução para a validade do título, mediante certas
presunções, como veremos a seguir.
30. REQUISITOS NÃO ESSENCIAIS NA LEI UNIFORME
Comparando-se os requisitos exigidos pela Lei Uniforme com os constantes da lei
brasileira, verifica-se que há semelhanças entre muitos deles; contudo, há certas
divergências, a principal das quais é a exigência, na Lei Uniforme, de constar o
nome do tomador ao ser criada e emitida a letra, o que não ocorria na lei
brasileira, que textualmente declarava poder a letra a ser sacada ao portador (art.
1º, nº IV). Também a Lei Uniforme considera requisito obrigatório a data da letra,
o que não ocorria com a lei brasileira, que presumia mandato ao portador para
inseri-la quando lhe conviesse.
Afora isso, há outros requisitos constantes da Lei Uniforme cuja ausência na letra
não a invalida, visto dispor a Lei como o título deve ser considerado no caso
dessas falhas. Vejamos esses requisitos não essenciais.
30.1. Época do pagamento
Segundo o nº 4 do art. 1º da Lei Uniforme, deve constar do título a “época do
pagamento”, o que não era exigido na lei brasileira. Apesar de, em princípio,
tornar obrigatória a menção, na letra, da época do pagamento, a Lei Uniforme
admite a existência e validade do título sem esse requisito, uma vez que,
semelhantemente à lei brasileira, dispõe que “a letra em que não se indique a
época do pagamento será pagável à vista” (art. 2º, 2ª al.). Tem-se, desse modo,
que, mesmo constando da lei que a letra deve conter a época do vencimento,
pode o título validamente circular sem essa menção expressa. A ressalva para
essa validade figura no final do art. 2º, 1ª al., quando diz que “o escrito em que
faltar algum dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como
letra, salvo nos casos determinados nas alíneas seguintes”, nas quais vem a regra
de que será pagável à vista a letra que não trouxer a época do pagamento.
Previdentemente, a lei brasileira estabelecia (art. 7º) que a época do pagamento
devia ser “precisa, una e única”; a Lei Uniforme segue a mesma orientação, se
bem que não se expresse taxativamente, uma vez que considera nulas as letras
que mencionem vencimentos diversos dos estipulados no artigo ou vencimentos
sucessivos (art. 33, últ. alínea), o que dá, como resultado, a mesma regra
constante do Decreto nº 2.044.
Do mesmo modo que acontece com a data de emissão, a época de pagamento
pode ser indicada por um dia certo (“Natal”, “Dia do Trabalho”, “Dia de Finados”)
ou por uma perífrase: “três dias depois do Ano Novo” etc. Um dia inexistente no
calendário não é permitido (30 de fevereiro) mas admite-se fim do mês, que será
considerado o último dia do mês. No direito inglês (Bill of Exchange Act, art. 11
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(2), é permitida a indicação do vencimento após um evento futuro, desde que seja
certo; a Lei Uniforme não admite indicação dessa modalidade.
30.2. Época do pagamento da letra no Código Civil
Ao seguir a mesma orientação da Lei Uniforme de Genebra (art. 2°, 2ª al.), o art.
889, § 1°, do Código Civil de 2002 considerou à vista o título de crédito que não
contenha data de vencimento.
Título à vista é aquele que se vence com a sua apresentação.
30.3. Lugar do pagamento
Também enumera a Lei Uniforme, como requisito que a letra deve conter, “a
indicação do lugar em que se deve efetuar o pagamento” (art. 1º, nº 5). A lei
brasileira não continha dispositivo semelhante, dizendo apenas que “a letra deve
ser apresentada ao sacado ou ao aceitante para o pagamento no lugar designado”
(art. 20), aduzindo que “será pagável no lugar mencionado ao pé do nome do
sacado a letra que não indicar o lugar do pagamento” e, mais, que “é facultada a
indicação alternativa de lugares de pagamentos, tendo o portador o direito de
opção” (art. 20, § 1º). Referia-se, ainda, a lei brasileira à letra domiciliada, isto é,
a que é sacada sobre uma pessoa para ser paga no domicílio de outra, indicada
pelo sacador ou pelo aceitante. Como se vê, não havia, na lei brasileira, menção
expressa de constar no título o lugar em que esse devia ser pago.
A Lei Uniforme, apesar de determinar que na letra figure o lugar onde deve ser
paga, não considera esse requisito essencial para a validade do título, pois a
mesma ressalva relativa à época do pagamento é feita também para o lugar onde
esse deve ser efetuado. Esse lugar, na ausência de um outro expressamente
designado, é o mencionado ao lado do nome do sacado, como acontecia com a lei
brasileira. Acrescenta, entretanto, a Lei Uniforme que tal lugar será também
considerado o domicílio do sacado (art. 2º, 3ª al.), permitindo (art. 21) que a letra
seja apresentada, antes do vencimento, ao aceite do sacado, no seu domicílio, que
é justamente o lugar mencionado junto ao seu nome. Não havendo, em
consequência, na letra, menção ao domicílio do sacado, o título não terá o valor da
letra de câmbio (art. 2º).
A Lei Uniforme não dispõe expressamente sobre se a letra pode conter diversos
lugares de pagamento mas, admitindo-se a pluralidade de sacados (supra, nº
29.4) ipso facto permite-se a diversidade dos lugares de pagamento. A doutrina
alemã é contrária à validade da letra contendo vários lugares de pagamento, mas
a lei italiana (art. 2º, 5ª al.) admite tais letras expressamente e a orientação da
doutrina francesa é por aceitá--las. No Brasil, o Decreto nº 2.044 também
facultava de modo expresso a indicação de lugares de pagamentos diversos (art.
20, § 1º, 2ª al.). Essa orientação é de ser mantida por não infringir as regras da
Lei Uniforme.
Quanto à letra domiciliada, que é aquela em que o sacador ou aceitante indica o
domicílio de outra pessoa para aí ser efetuado o pagamento, dispõe a Lei Uniforme
simplesmente que “a letra pode ser pagável no domicílio de terceiro, quer na
localidade onde o sacado tem o seu domicílio, quer noutra localidade” (art. 4º).
Ainda aqui é necessário que, junto ao nome da pessoa indicada para fazer o
pagamento, conste o seu domicílio, sob pena de não ser o título considerado letra
de câmbio.
30.4. Lugar da emissão
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Por último, dispõe a Lei Uniforme (art. 1º, nº 7) que da letra deve constar “a
indicação da data em que e do lugar onde a letra é passada”. A data, como vimos
acima, é requisito essencial, não tendo a lei editado norma para suprir a sua
ausência, como acontecia com a lei brasileira, que presumia mandato ao portador
para inseri-la; quanto ao lugar em que a letra é passada admite a lei que, na
ausência de menção, será considerada como tendo sido emitida no lugar
designado ao lado do nome sacador (art. 2º, 3ª al.). A lei brasileira presumia
mandato ao portador para inserir o lugar da emissão da letra que não o contivesse
(art. 4º). Note-se, contudo, que, segundo a Lei Uniforme, só é permitida a
ausência do lugar da emissão se constar da letra o lugar do domicílio do sacador,
que é o que vem ao lado do seu nome. Havendo omissão do lugar da emissão e do
domicíliodo sacador, a letra não terá os efeitos da letra de câmbio, conforme a
regra do art. 2º da Lei Uniforme.
A indicação do lugar da emissão tem por finalidade saber-se qual a lei a aplicar
nas relações internacionais. Assim, não será válida uma letra indicando um lugar
de emissão inexistente: por ex., Pasárgada, Atlântida, Eldorado etc. Sendo uma lei
passada a bordo de um avião ou de um navio em mar alto, qual o lugar que deve
ser considerado o lugar da emissão? De acordo com o art. 4º da “Convenção
destinada a regular certos conflitos de leis em matéria de letras de câmbio e notas
promissórias”, também adotada pelo Brasil pelo Decreto nº 57.663, “os efeitos das
obrigações do aceitante de uma letra e do subscritor de uma nota promissória são
determinados pela lei do lugar onde esses títulos são pagáveis. – Os efeitos
provenientes das assinaturas dos outros coobrigados na letra ou nota promissória
são determinados pela lei do país em cujo território as assinaturas foram apostas”.
Assim, o lugar da emissão será o do país da nacionalidade do navio ou do avião. O
art. 889, § 2º, do Diploma Civil estabelece: “Considera-se lugar de emissão e de
pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente”, orientação
diversa da imprimida pelo art. 2°, al. 3ª, da Lei Uniforme (lugar designado ao lado
do nome do sacado).
No artigo publicado na RDM nº 17/128 Fran Martins sugeriu que, na redação do
art. 889, § 2°, quando não indicados no título, sejam considerados o lugar da
emissão o domicílio do emitente; como lugar do pagamento o domicílio do sacado
ou devedor, modificando-se assim a redação do § 2° do art. 889.
31. REQUISITOS E PROCEDIMENTOS FISCAIS
31.1. Registro dos títulos cambiários na Receita Federal. Extinção da medida
Tendo o Brasil atravessado, em certa época, uma inflação acentuada, verificou-se,
então, grande número de empréstimos mediante a emissão de notas promissórias,
com uma cobrança elevada de juros por parte dos credores. Essas transações
constituíam o “mercado paralelo” e inúmeras pessoas a ele se dedicavam, com
flagrante exploração dos devedores.
O Governo, combatendo a inflação, pôs em prática medidas rígidas, a primeira das
quais foi tornar privativo das instituições financeiras o empréstimo de dinheiro (Lei
nº 4.595, de 1964, art. 17). Persistindo, entretanto, o abuso, foram adotadas
medidas complementares, entre elas o Decreto-Lei nº 427, de 22 de janeiro de
1969, pelo qual foi tornado obrigatório o registro, nas repartições competentes do
Ministério da Fazenda (Receita Federal), de todas as notas promissórias e letras de
câmbio emitidas até a data de referido diploma legal e das que, a partir da data da
publicação da lei, fossem emitidas, devendo o registro ser feito dentro do prazo de
15 dias da emissão. Ficaram excluídos do registro os títulos emitidos diretamente
em favor de estabelecimentos de crédito, e com estes negociados, ou sacados em
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função de contratos específicos de abertura de crédito celebrados com instituições
financeiras; os emitidos em garantia do pagamento de legítimas transações de
compra e venda de bens e serviços, comprováveis pelo registro na contabilidade
da empresa interveniente, ou os amparados por contratos ou escrituras de compra
e venda de bens imóveis, legalmente registrados; os títulos juntados, até a data
do Decreto-Lei, a processo judicial em andamento; os de valor expresso em
moeda estrangeira, representativos de dívida no exterior devidamente registrada
no Banco Central; e outras operações a serem definidas pelo Poder Executivo
(Dec.-Lei nº 427, art. 2º, § 4º). Regulamentando esse Decreto-Lei, o Decreto nº
64.156, de 4 de março de 1969, acresceu à isenção do registro os títulos em que
fossem partes da União, Estados, Municípios ou seus órgãos de administração
indireta; os que, na data da publicação do decreto, estivessem em cobrança,
caução, custódia ou depósito em instituição financeira ou em órgão de
administração pública direta ou indireta e os que, na data da publicação do
decreto, estivessem sob protesto (Decreto nº 64.156, art. 2º).
Tanto o Decreto-Lei nº 427 como o Decreto nº 64.156 consideram “nulas” as
letras de câmbio e notas promissórias que não fossem registradas na forma
preconizada na lei, sendo que o Decreto nº 64.156 estabeleceu, mais, que “as
notas promissórias e letras de câmbio encontradas sem data de emissão ou de
saque” sujeitavam os seus responsáveis à multa de 50% do valor do título, que
seria cobrada independentemente de outras penalidades cabíveis (art. 5º, § 2º,
com remissão ao art. 2º, § 3º, do Dec.-Lei nº 427).
Como era de esperar, esses diplomas legais tiveram repulsa nos meios jurídicos,
pela maneira descabida e injurídica de vários dos seus pontos.
Vários autores e estudiosos procuraram mostrar a inconstitucionalidade desses
diplomas que alteraram princípios da lei internacional adotada pelo Brasil e que só
poderia ser modificada nas partes relativas às reservas mencionadas no Anexo II
da Convenção, o que no caso não acontecia. Nós mesmos manifestamos nosso
repúdio a essas medidas legais (v. 2ª ed. deste vol., nº 31-a).
Atendendo, sem dúvida, a esses reclamos, reconhecendo a injuridicidade dos
diplomas legais aludidos, houve por bem o Poder Executivo, através do Decreto-
Lei nº 1.700, de 18 de outubro de 1979 (DOU de 18.10.1979), extinguir “o
registro das letras de câmbio e notas promissórias estabelecido no art. 2º e seus
parágrafos do Decreto-Lei nº 427, de 22 de janeiro de 1969, e no art. 1º, § 11, do
Decreto-Lei nº 1.042, de 21 de outubro de 1969”.
Voltou a vigorar, assim, o princípio básico na teoria dos títulos de crédito de que
esses títulos são, por natureza, abstratos, desprendendo-se, assim, da relação
fundamental, ou seja, não dependendo a sua validade necessariamente das
causas que lhes deram origem.
31.2. Identificação do devedor nos títulos cambiários
A Lei nº 6.268, de 24 de novembro de 1975, determinou que deverá constar,
obrigatoriamente, dos títulos cambiários a identificação do devedor. Essa
identificação será feita pela indicação da sua cédula de identidade, ou do número
de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas, ou do número do título eleitoral, ou
do da carteira profissional. Para as pessoas jurídicas, já o Decreto nº 57.307, de
23 de novembro de 1965 (que aprovou o regulamento do Cadastro Geral de
Contribuintes em relação às pessoas jurídicas), dispunha (art. 6º) que o número
de inscrição deveria constar “nos atos e contratos firmados no País” (nº II) e “nas
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faturas, notas fiscais, guias de recolhimento de tributos e demais efeitos
comerciais e fiscais exigidos pela legislação federal” (nº IV).
Requer, assim, a lei que o devedor por letra de câmbio seja obrigatoriamente
identificado. Ora, devedor no título é apenas o aceitante da letra de câmbio e o
emitente da nota promissória. As demais pessoas que lançam suas assinaturas
nesses títulos (sacador, endossantes e seus avalistas) não são, a rigor, devedores
e sim apenas garantes do pagamento dos mesmos, no caso de a pessoa indicada
para pagar ou o aceitante não fazerem o pagamento ou não aceitarem a letra.
Tanto não são devedores, stricto sensu, que a lei requer que o portador comprove,
pelo protesto, que a letra não foi aceita ou, se aceita, não foi paga, pois só assim
o portador pode exercer o direito regressivo contra eles.
Sem dúvida foi essa a intenção da lei pois o que se deseja, ao que parece, é a
identificação de quem se obriga diretamente a pagar em um título cambiário,
donde falar a lei em devedor. Do modo como a lei está redigida, só o aceitante da
letra de câmbio ou o emitente da nota promissória é que deve, ao assinar no
título, ser devidamente identificado, ficando, portanto,isento dessa identificação o
sacador da letra de câmbio, por ser obrigado subsidiário. Tanto esse como os
endossantes e seus avalistas (os avalistas do emitente da nota promissória e do
aceitante da letra de câmbio devem ser identificados por assumirem obrigações
diretas de pagar, equiparados que estão aos avalizados) não estão sujeitos à
identificação obrigatória, por serem meros garantes cuja responsabilidade só se
efetiva se o emitente da nota promissória e o aceitante da letra de câmbio não
efetuarem o pagamento, comprovada essa falta de pagamento pelo protesto.
Lembre-se, também, que os próprios endossantes podem se eximir da
responsabilidade do pagamento, por cláusula especial aposta ao endosso (Lei
Uniforme, art. 15). De tudo se conclui que o sacador da letra de câmbio não está
sujeito à identificação obrigatória ao emiti-la como também não o estão o seu
avalista, os endossantes e avalistas desses.
Por outro lado, que acontece à letra que não trouxer a identificação do devedor?
Cambiariamente, o título é válido, desde que contenha todos os requisitos do art.
1º da Lei Uniforme ou, se faltarem alguns, desde que essa falta seja suprida pela
inserção de outros requisitos, como estabelece o art. 2º da Lei. Tem-se, assim,
que o título que preenche os requisitos do art. 1º, com as permissões de
suprimento do art. 2º, é uma letra de câmbio.
Acontece, entretanto, que a capacidade para se obrigar por uma letra de câmbio
ou nota promissória é regulada pela respectiva lei nacional, segundo claramente
estabelece o art. 2º da “Convenção destinada a regular certos conflitos de leis em
matéria de letras de câmbio e notas promissórias”, também adotada pelo Brasil
através do Decreto nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966. Pela lei brasileira, a
capacidade plena para assumir obrigações é atingida com a idade de 18 anos
(Cód. Civil, art. 5º). Mas, para certos efeitos, pode o Estado estipular requisitos
complementares dessa capacidade plena, em princípio provada apenas pela
certidão do registro civil. Assim, estabeleceu essa Lei nº 6.286 que a identificação
do devedor nas letras de câmbio e notas promissórias seja atestada ou pela sua
cédula de identidade, ou pelo número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas
(CPF), ou pelo número do título de eleitor (obrigatório ser tirado com a idade de
apenas 18 anos), ou pelo número da carteira profissional. Trata-se, assim, apenas
de uma prova de capacidade, desejando a lei que somente pessoas capazes
possam se constituir devedores por letras de câmbio, muito embora a Lei
Uniforme, como acontecia com a lei brasileira, admita (art. 7º) que um incapaz se
obrigue no título, ficando válidas, em tal caso, as obrigações assumidas pelas
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outras pessoas, dado o princípio da autonomia das obrigações cambiárias. Desse
modo, não constando a identificação do devedor (emitente da nota promissória ou
aceitante da letra de câmbio), o título não é invalidado, perdurando as obrigações
dos demais que lançaram as suas assinaturas no mesmo.
Por último, mais uma vez convém frisar que a identificação do devedor na letra de
câmbio (e na nota promissória) se faz por qualquer das modalidades previstas no
art. 3º da Lei nº 6.268, e apenas por uma delas, como, por exemplo, pelo número
de inscrição do mesmo no Cadastro das Pessoas Físicas. Assim, mesmo que uma
pessoa tenha tal registro, pode deixar de mencioná-lo na letra, inserindo, em seu
lugar, o número de seu documento de identidade, ou do título de eleitor, ou da
carteira de trabalho. A lei não dá preponderância a qualquer desses modos de
identificação. Cabe, portanto, ao devedor escolher qualquer deles para se
identificar na letra de câmbio, ficando a escolha ao seu livre arbítrio.
MODALIDADES DA LETRA DE CÂMBIO
32. A MOBILIZAÇÃO DO CRÉDITO
Instrumento legal destinado a facilitar as relações de natureza econômica, a letra
de câmbio faz com que o crédito seja mobilizado durante um certo período de
tempo, transformando-se em dinheiro a confiança que os portadores depositam
nos obrigados na letra. Assim, ciente de que, em data futura, a ordem do sacador
será cumprida por parte daquele a quem é dada ou, se não o for, o sacador
responde pelo seu cumprimento, o tomador ou beneficiário poderá, em vez de
aguardar o momento do vencimento do título, negociá-lo com outra pessoa,
recebendo, logo, a importância mencionada. Esse novo proprietário da letra
poderá fazer o mesmo com outras pessoas e, desse modo, cada um vai usufruindo
a importância constante da letra, sempre tendo suas operações por base o crédito
que inspiram os que se obrigam na mesma.
Para que essa mobilização do crédito possa se verificar plenamente, é necessário,
contudo, que decorra um certo espaço de tempo entre a data de emissão do título
e a do seu vencimento. Nada impede, na verdade, seja o título emitido e pago no
mesmo dia, pois, ainda assim, o crédito funcionou; quem recebeu o título, antes
de apresentar ao sacado, confiou que o sacador pagaria o mesmo, caso o sacado
não o fizesse. Melhor utilização do crédito, contudo, será feita se mediar um certo
espaço de tempo entre a emissão de letra e o seu pagamento, dando possibilidade
a que o crédito seja gozado por maior número de pessoas, razão pela qual esse
título é considerado um título de circulação.
33. MODALIDADES DA LETRA DE CÂMBIO
Como acontecia com a lei brasileira (art. 6º), a Lei Uniforme (art. 33) estatui que
a letra de câmbio pode ser passada ou emitida à vista, a dia certo, a tempo certo
da data e a tempo certo da vista. Essas são as modalidades da letra de câmbio.
Na realidade, a letra é uma só e as modalidades se referem ao prazo durante o
qual o crédito pode ser utilizado, passando a letra de proprietários mediante um
processo simples e rápido que consta, em essência, da só assinatura do
proprietário do título no anverso ou no verso do mesmo (Endosso-infra, nº 36). Se
o título é endossado em branco ou ao portador, a sua transferência ainda é mais
simplificada, pois basta a tradição manual, a entrega da letra a outra pessoa, para
que esta seja, por lei, considerada o seu proprietário e, assim, credor da
importância nela mencionada. Essas várias modalidades da letra são, portanto,
apenas modalidades relativas ao vencimento do título, cada uma limitando o prazo
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em que o crédito pode ser mobilizado pois, na vigência desse prazo, as obrigações
decorrentes da letra não são exequíveis.
Vejamos, em detalhe, cada uma dessas modalidades.
33.1. Letra de câmbio à vista
Letra de câmbio à vista é aquela em que o seu vencimento se verifica quando o
título é apresentado à pessoa a quem a ordem é dada, ou seja, o sacado.
Entende-se por vista essa apresentação; com ela, legalmente, o sacado toma
conhecimento, vê a ordem que lhe é dada e se manifesta a respeito, ou acatando
essa ordem, o que fará pagando o título, ou recusando. Para comprovar a recusa
ou a falta de pagamento, o proprietário do título (tomador, se o título não foi
transferido, ou endossatário, se o foi) deverá praticar um ato solene, chamado de
protesto (infra, Cap. XII).
A letra de câmbio à vista vence-se, assim, no momento em que é apresentada ao
sacado. Com o pagamento, por este, da soma mencionada no título, imobiliza-se o
crédito e o título já não terá mais o vigor cambial. As relações entre o sacado que
pagou o título e o sacador, que deu a ordem, são extracambiais, regulando-se pelo
direito comum. Desse modo, se o sacado pagou apenas no desejo de satisfazer a
ordem do sacador e este, depois, não quis reembolsá-lo, terá o primeiro que
recorrer ao direito comum para ressarcir-se do prejuízo, não sendo beneficiado
pelas normas específicas que regulam as relações cambiais.
A letra à vista deve conter essa menção no seucontexto, muito embora a lei
brasileira não a tenha exigido como requisito essencial à validade do título e a Lei
Uniforme, mencionando-a, permitia a circulação do título sem nele figurar a época
do vencimento. Assim, deverá a letra expressar: “À vista da presente letra de
câmbio, pagará V. S.ª ao Sr. F... a importância de X”. Não trazendo, entretanto,
nenhuma indicação da época do vencimento, a letra também será considerada à
vista (Lei Uniforme, art. 2º, 2ª al.).
Não tem a letra à vista data fixada para a sua apresentação, ficando a critério do
proprietário do título a escolha do momento em que desejar ser embolsado da
importância do mesmo; entretanto, a Lei Uniforme dispõe que a letra à vista é
pagável na sua apresentação e essa deve ser feita no prazo de um ano, a contar
da data do título (art. 34). Contudo, o prazo de apresentação poderá ser reduzido
ou ampliado pelo sacador ou simplesmente encurtado por um dos endossantes,
ficando, assim, o prazo de apresentação a depender dessas pessoas. Igualmente,
o sacador pode estipular que a letra à vista só seja apresentada ao sacado
decorrido um certo lapso de tempo (“Depois do dia 29 de março, pagará V. S.ª ao
Sr. F... à vista da presente letra de câmbio...”). Em tal caso, conta-se o prazo para
a apresentação da letra a partir da data mencionada (no exemplo citado, devendo
a letra ser apresentada somente depois do dia 29 de março, o prazo de doze
meses para a apresentação terá início no dia 29 de março e não da data da letra,
como é a regra geral para a apresentação).
Como se vê, pela Lei Uniforme a letra à vista é pagável e, portanto, considera-se
vencida no ato da apresentação, tendo o portador o prazo de um ano, a contar da
data da letra, para fazer essa apresentação, a não ser que haja redução,
prolongamento ou fixação diversa para o início desse prazo, de acordo com as
permissões da lei (art. 34).
Deve-se notar que, apesar de marcar a lei prazo para a apresentação ao sacado
da letra de câmbio à vista, não é o portador obrigado a apresentá-la. Não: o que a
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lei esclarece é que, se não apresentá-la no prazo de 12 meses, contados da
emissão, o portador perde o direito de regresso contra o sacador, endossantes e
avalistas (Lei Uniforme, art. 53). Mas o sacado, recebendo a letra depois dos 12
meses, pode pagá-la e então se encerra a vida cambial. Se não o fizer, entretanto,
não tem direito o portador de receber dos demais coobrigados referida
importância pois, não tendo agido no prazo estabelecido pela lei, deixou perecer o
direito cambiário que possuía contra sacador, endossadores e avalistas. Pode,
contudo, o portador, por ação ordinária, intentar o recebimento da importância do
sacador, baseado que esse se enriqueceu ilicitamente à sua custa.
33.2. Letra a dia certo
A letra de câmbio pode também ser passada a dia certo (Lei Uniforme, art. 33).
Isso significa que, no corpo da letra, vem especificada a data exata do pagamento
(aos vinte de janeiro de mil novecentos e setenta e três pagará V. S.ª) e essa é a
maneira mais comum de serem emitidas as letras. Em tal caso, sabe-se
exatamente o prazo da vigência da cambial, prazo dentro do qual a letra está
amparada pelos direitos especiais que resguardam esses títulos de crédito. Fixado
o dia do vencimento, os que tomam parte na letra, tornando-se seus proprietários,
ou avalizando-os, estão seguros de que, só naquele dia, se algo de extraordinário
não acontecer (como, por exemplo, a recusa do sacado de se comprometer a
pagar a letra – recusa do aceite – ou, se o sacado que se comprometeu a pagar a
letra, aceitando a ordem mediante o lançamento de sua assinatura no título, vier a
falir antes da época marcada para o vencimento), só naquele dia, dizíamos, as
suas obrigações se tornam exequíveis. Tem, assim, a letra um dia certo, uma data
predeterminada para vencimento. Só nesse momento o proprietário da mesma,
seja o tomador, ou seja um endossatário, se o título passou de proprietário – tem
o direito de exigir a importância nela mencionada.
Pela Lei Uniforme, o prazo certo para o vencimento deve constar do contexto (art.
2º, nº 2). Costuma-se escrever essa data do vencimento por extenso, apesar de a
Lei Uniforme nada dispor a respeito. Às vezes, acima do contexto, na cabeça do
título, essa época do vencimento é escrita também. Aí não se observa a norma de
escrevê-la por extenso: dia e ano costumam ser escritos em algarismos, figurando
por extenso apenas o mês.
Nenhuma dificuldade existe para se contar o prazo do vencimento da letra a dia
certo pois esse dia está claramente especificado no título. Atingida a data, deve o
então proprietário do título apresentá-lo ao sacado (se esse se comprometeu a
pagar a letra, lançando sua assinatura no título, já não se denomina mais sacado e
sim aceitante) para receber a soma nele mencionada. Se, todavia, o dia do
vencimento for domingo ou feriado legal, a apresentação do título para o
pagamento fica diferida para o primeiro dia útil posterior (Lei Uniforme, art. 72),
aumentando-se, assim, automaticamente, o prazo do recebimento. A Lei Uniforme
permite que a apresentação da letra a dia certo seja feita no dia fixado ou num
dos dois dias úteis seguintes (Lei Uniforme, art. 38, 1ª al.).
O Governo brasileiro, no Decreto Executivo que adotou a Lei Uniforme, fez reserva
quanto ao fato de ser feita a apresentação da letra num dos dois dias seguintes à
data do vencimento. O art. 5º do Anexo II da “Convenção para a Adoção de uma
Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias” permite que os países
signatários completem o art. 38 da Lei, estabelecendo que o portador deve
apresentar a letra no dia do vencimento, sendo que “a inobservância dessa
obrigação só acarreta responsabilidade por perdas e danos”. Apesar de o Brasil
haver feito essa reserva, nenhum dispositivo legal existe ou foi votado,
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posteriormente, dispondo que a falta de apresentação, no dia do vencimento, só
acarreta responsabilidade por perdas e danos. Assim sendo, estando em vigor, no
Brasil, a Lei Uniforme, perdura aquele dispositivo facultando a apresentação da
letra num dos dois dias seguintes à data marcada para o seu vencimento até que
seja, por lei, regulada a matéria.
33.3. Letra a tempo certo da data
Também como acontecia com a lei brasileira (art. 6º, III) prescreve a Lei Uniforme
(art. 33) que a letra pode ser passada a tempo certo da data e nesse caso o prazo
de seu vencimento é contado tomando-se por base a data da emissão do título.
Assim, se constar da letra cláusula dizendo “a tantos dias da data desta letra de
câmbio, pagará V. S.ª”, logicamente deve-se contar o prazo do título a partir da
data da emissão do mesmo.
A lei brasileira não incluía, entre os requisitos essenciais para a validade da letra
de câmbio, a data de sua emissão, como o faz a Lei Uniforme no art. 1º, nº 7. O
portador do título, pela nossa lei, tinha mandato presumido para inserir no mesmo
a data e o lugar da emissão se, de origem, ele não os contivesse (art. 4º). No
caso da letra passada a tempo certo da data essa inserção pela lei brasileira era
essencial, já que o prazo do vencimento do título ficava subordinado à data e só
com essa se saberia exatamente quando seriam exequíveis as obrigações
decorrentes da letra. A Lei Uniforme, sabiamente, resolveu de plano o assunto,
tornando obrigatória a inserção da data no título, sob pena de não valer esse
como letra de câmbio.
Conta-se o prazo para vencimento da letra a certo tempo da data, tomando-se
essa como ponto de partida. Pela lei brasileira, não se deveria contar, nesse prazo,
o dia da emissão da letra, fazendo-se os cálculos a partir do dia imediato. E o
vencimento do título se daria no último dia do prazo (art. 17). A LeiUniforme nada
dispôs expressamente a esse respeito, mas conserva o mesmo princípio ao
estabelecer, no art. 73, que “os prazos legais ou convencionais não compreendem
o dia que marca o seu início”.
A letra a tempo certo da data pode ser passada não apenas determinando-se o
número de dias mas, igualmente, fazendo-se o cálculo por semanas, meses ou
anos. Em tal caso, o vencimento se verificará na semana, mês ou ano
correspondente à data do título, contando-se essas semanas, meses ou anos, a
partir do dia em que o mesmo foi emitido. Não havendo dia correspondente ao do
saque, vence-se no último dia do mês de pagamento (ex.: o título foi emitido a 31
de dezembro para vencer-se em dois meses da data. Mas dois meses depois de 31
de dezembro seria 31 de fevereiro. Como esse mês não tem o dia 31, a letra se
vence a 28 ou, se o ano for bissexto, a 29, último dia do mês de pagamento).
A Lei Uniforme traz normas detalhadas sobre vários modos de se vencerem as
letras a tempo certo da data, o que não acontecia inteiramente com a lei
brasileira. Assim, depois de estatuir (art. 36) normas semelhantes às do Decreto
nº 2.044 sobre o vencimento da letra a um ou mais meses da data, declara que se
a letra é sacada para vencimento a um ou mais meses e meio da data, contam-se
primeiro os meses inteiros. No caso de ser o vencimento fixado para o princípio,
meado ou fim do mês, “entende-se que a letra será vencível no primeiro, no dia
quinze ou no último dia desse mês”. Sendo usadas as expressões “oito dias” ou
“quinze dias”, “entendem-se não como uma ou duas semanas, mas como um
prazo de oito ou quinze dias efetivos”. Por último sendo empregada a expressão
“meio mês”, significa a mesma um prazo de quinze dias.
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33.4. Letra a tempo certo da vista
Finalmente, estatui a Lei Uniforme (art. 33) que a letra pode ser passada a tempo
certo da vista. Entende-se por vista a apresentação da letra ao sacado para que
ele tome conhecimento da ordem que lhe é dada. Essa apresentação nem sempre
é obrigatória, mas no caso da letra passada a tempo certo da vista ela assim se
torna. Isso pelo fato de estar o prazo para vencimento do título dependendo desse
ato, sem o qual a letra ficaria com prazo de vencimento indeterminado.
Nessa modalidade de letra, conta-se o prazo do vencimento tomando por base a
data em que o título foi apresentado ao sacado e ele aceitou, isto é, apôs a sua
assinatura no mesmo, com isso assumindo a obrigação de efetuar o pagamento na
época determinada. Por tal razão, a lei brasileira determinava que esse aceite
fosse datado (art. 9º, parágrafo único) presumindo-se, na falta de data, mandato
ao portador para inseri-la. A Lei Uniforme, entretanto, apesar de estabelecer que
as letras a certo tempo da vista devem ser apresentadas ao aceite dentro do prazo
de um ano de suas datas, podendo esse prazo ser aumentado ou reduzido pelo
sacador, ou simplesmente reduzido pelos endossadores (art. 23), permite a letra
com aceite não datado, em tal caso admitindo que o mesmo foi dado no último dia
do prazo da apresentação para o aceite (art. 35). Para não perder o direito
regressivo contra os endossantes, avalistas e sacador, o portador que recebe o
título com aceite não datado deve fazer constar essa omissão por um protesto,
feito em tempo útil (Lei Uniforme, art. 25, 2ª al.).
Pode, na letra, estar especificado um prazo para a apresentação do título ao
sacado e, nessas circunstâncias, tem o portador o direito de fazê-la dentro desse
prazo (Lei Uniforme, art. 22, 1ª al.). Se, entretanto, a letra não contivesse essa
especificação, determinava a lei brasileira que a apresentação devia ser feita
dentro dos seis meses contados da data da emissão do título, sob pena de perder
o portador direito regressivo contra o sacador, endossadores e avalistas.
Apresentada a letra ao sacado e este recusando-se a aceitar, devia o título ser
protestado, considerando-se com o protesto vencida a letra (lei brasileira, art. 19).
A Lei Uniforme, entretanto, dilatou para um ano o prazo de apresentação para o
aceite da letra a tempo certo de vista, podendo o prazo ser aumentado ou
reduzido pelo sacador ou simplesmente reduzido pelo endossante (art. 23).
Havendo falta ou recusa do aceite, ou se este não for datado, deve a letra ser
protestada. Da data do protesto por falta ou recusa do aceite conta-se o prazo
para o vencimento do título; o mesmo ocorre com o protesto por falta de data,
servindo o protesto para garantir o direito regressivo do portador contra os
endossantes, sacador e avalistas. Na falta de protesto da letra com aceite não
datado, deve a mesma ser apresentada ao aceitante, para pagamento, como se o
aceite tivesse sido dado no último dia em que a letra deveria ser apresentada para
o aceite, isto é, conta-se o prazo para apresentação para pagamento a partir do
último dia em que a letra deveria ser apresentada para o aceite. É o que estatui o
art. 35 da Lei Uniforme. Note-se que o protesto por falta de data do aceite não
existia na lei brasileira.
Vence-se, assim, normalmente, a letra a tempo certo da vista no último dia do
prazo tendo por base a data do aceite; na contagem desse prazo, não se inclui o
dia do aceite, do mesmo modo que não se conta o dia da emissão nas letras a
tempo certo da data.
Uma última observação a ser feita quanto às letras a tempo certo da vista é que
essas, à semelhança das letras à vista, podem, pela Lei Uniforme, vencer juros
(art. 5º), o que não era permitido na lei brasileira (art. 44, I).
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34. UNIDADE DA ÉPOCA DE PAGAMENTO
Em qualquer das modalidades por que pode ser emitida a letra de câmbio, seja à
vista, a dia certo, a tempo certo da data ou a tempo certo da vista – “a época do
pagamento deve ser precisa, una e única para a totalidade da soma cambial”,
segundo rezava o art. 7º da lei brasileira. A regra é de ser admitida no direito
atual, pois não pode haver duplicidade de datas com o desdobramento da
importância total da letra. Não é admissível, p. ex., que numa letra se estabeleça
que o sacador pague, em um dia, certa importância ao tomador, e em um dia
posterior, uma outra importância que perfaça o total da letra. Em tal caso, dois
títulos deverão ser emitidos, cada um com época precisa de pagamento e
importância certa. Também não pode o título mencionar que o pagamento seja
feito em datas alternadas, como, por exemplo: “No dia vinte de janeiro ou no dia
dezesseis de março pagará V. S.ª...”. Daí dizer a lei brasileira que a época de
pagamento deve ser precisa, una “e única para a totalidade da soma cambial”, o
que evita o desdobramento, no mesmo título, da importância a ser paga, bem
como a possibilidade do título ser pago em uma data ou em outra.
A Lei Uniforme, referindo-se ao assunto, apóia a norma da lei brasileira, sendo,
porém, mais drástica e precisa. De fato, imperativamente estatui a Lei Uniforme
que “as letras, quer com vencimentos diferentes (de modalidades diversas das
mencionadas no artigo), quer com vencimentos sucessivos, são nulas” (art. 33,
últ. al.).
CIRCULAÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO
35. A LETRA DE CÂMBIO COMO TÍTULO DE CIRCULAÇÃO
A letra de câmbio é um título de circulação, o que quer dizer que é empregada
com a finalidade de fazer com que os direitos incorporados no título sejam
facilmente transferidos para que o crédito possa ser melhormente utilizado.
Entende-se, assim, por circulação a passagem do título de um proprietário para
outro. Mas, de fato, o que circulam são os direitos, não simplesmente o título.
Este, graças à literalidade, encerra direitos e obrigações decorrentes da
manifestação da vontade de cada um dos que da letra participaram. Pelos meios
ordinários, a transferência desses direitos e o cumprimento das obrigações
levariam grandetempo para ser realizados. A letra de câmbio veio facilitar
grandemente essa circulação de direitos, com processos especiais a ela inerentes.
Como direitos e obrigações decorrentes do que está escrito no título (literalidade
ou direito cartular, na expressão de Tullio Ascarelli) circulam eles com o título. A
tal ponto esse princípio é importante que, nas letras ao portador, qualquer pessoa
que seja detentora do título será considerada credora dos direitos dele decorrentes
(Lei Uniforme, art. 16), estando legalmente autorizada a praticar as diligências
necessárias à garantia do crédito que o título representa.
Assim sendo, tendo por finalidade a mobilização do crédito, é a letra de câmbio o
instrumento necessário para a circulação dos direitos dela decorrentes.
Materialmente, trata-se apenas de um escrito; mas, por estar revestido de certas
formalidades, esse escrito encerra direitos que circulam juntamente com o
documento, não se podendo, assim, normalmente separar os documentos dos
direitos que dele decorrem.
De tal modo, quando se fala em circulação da letra de câmbio, tendo em vista a
propriedade da mesma, deve-se ter em mente o fato de que, com o título,
circulam direitos abstratos, uma vez que não estão mais ligados à causa original,
ou seja, à relação fundamental; autônomos, isto é, “rigorosamente delimitados,
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distinguindo-se do complexo das relações havidas entre as partes” e decorrentes
do que está escrito na letra, graças ao princípio da literalidade.
A cada direito emergente do título corresponde, naturalmente, uma obrigação.
36. MEIO PRÓPRIO DA TRANSFERÊNCIA DA CAMBIAL: ENDOSSO
Para que a letra de câmbio possa facilmente ser transferida e se opere, assim, a
circulação dos direitos de crédito nela incorporados, emprega-se um meio fácil,
próprio dos títulos de crédito: o endosso. Consiste esse na simples assinatura do
proprietário da letra, no verso ou anverso da mesma, antecedida ou não de uma
declaração indicando a pessoa a quem a soma deve ser paga. Com essa
assinatura a pessoa que endossa o título, chamada endossante, transfere a
outrem, chamado endossatário, a propriedade da letra (Lei Uniforme, art. 14).
Nessa condição, o endossatário, ao receber a letra, torna-se titular dos direitos
emergentes da mesma, podendo, assim, praticar todos os atos que se fizerem
necessários para resguardar a sua propriedade. Esse é um meio prático de fazer
com que os títulos de crédito facilmente circulem, o que, sem nenhuma dúvida,
concorre bastante para a presteza das relações comerciais.
O endosso, como se disse, consta da assinatura do proprietário do título no
anverso ou face ou no verso ou dorso da letra. A lei brasileira só acatava o
endosso no verso do título (art. 8º, 2ª al.); mas a Lei Uniforme permite-o também
no anverso (art. 13), admitindo a obrigatoriedade de ser escrito no verso apenas
quando se tratar de endosso em branco.
Título formal, a letra de câmbio está sujeita a certas regras rigorosas para
garantia dos que são titulares dos direitos nela incorporados. Não haverá, assim,
endosso se a assinatura do endossante não constar do título. Não pode o mesmo
ser feito no anverso ou face da letra quando não indicar a pessoa a quem se
transfere; e em nenhum caso pode ser feito em documento em separado. Se, por
acaso, o título for transferido várias vezes, esgotando-se o espaço em branco do
mesmo, sendo necessário um novo endosso usa-se o processo chamado de
alongamento da letra, isto é, coloca-se à mesma um pedaço de papel que a
prolongue para que o novo endosso continue a série daqueles que lhe são
anteriores. O que não é possível é que, em um documento isolado, o proprietário
do título faça o endosso, ainda que anteceda sua assinatura com uma declaração
de transferência da letra. A lei é taxativa: “o endosso deve ser escrito na letra ou
numa folha ligada a esta” (Lei Uniforme, art. 13).
Como já foi dito, a lei brasileira só admitia o endosso quando escrito no verso da
letra; a Lei Uniforme, alterando essa norma, permite-o no verso ou no anverso,
apenas estatuindo que, se o endosso não indicar a pessoa a quem é transferida a
letra (endosso em branco), deve obrigatoriamente ser escrito no verso (art. 13, 2ª
al.).
37. CONCEITO E ORIGEM DO ENDOSSO
Tem-se, desse modo, que o endosso é o meio próprio de transferência da letra de
câmbio, constando da assinatura do proprietário no anverso ou no dorso da
mesma.
A sua origem tem dado lugar a muitas discussões, pois na verdade ninguém pode
precisar, exatamente, a data em que surgiu. Autores há que o derivam da cláusula
à ordem, outros negam essa origem. Alguns declaram que “o instituto do
endosso não surgiu com a letra de câmbio”, vendo outros, como Bonelli, analogias
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entre o endosso e outros institutos jurídicos, como o giro-aval. O certo é que, se
bem seja reconhecida a sua existência em épocas anteriores, o endosso foi
acolhido pela Ordenança de Comércio francês de 1673 (art. 23, tít. V), passando
daí para o Código de Comércio de 1808.
Vários doutrinadores procuraram dar ao endosso uma natureza jurídica especial:
contrato de câmbio (Pothier), cessão (Bravard Veyrières), delegação (Unger,
Kuntze e Gide), negócio jurídico plurilateral (Betti). Entretanto, o endosso é, na
realidade, o meio especial de serem transferidos os direitos emergentes do título,
fazendo com que o endossatário se constitua titular desses direitos. Tal conceito é
o adotado pela doutrina moderna por ser o que, de fato, emana da verdadeira
natureza jurídica do endosso.
38. QUEM PODE ENDOSSAR
Segundo claramente dispõe a Lei Uniforme (art. 14), o endosso transmite todos os
direitos emergentes da letra. Como, naturalmente, só pode transferir direitos de
crédito quem é titular dos mesmos, só o proprietário da letra, que incorpora os
direitos de crédito, pode transferi-la a outra qualquer pessoa.
Assim, antes de tudo, para que haja transferência legal da letra é necessário que o
endossante seja o proprietário do título. E sendo a letra de câmbio uma ordem
escrita dada pelo sacador em favor do tomador, é este, naturalmente, o
proprietário original ao título, com ele devendo apresentar-se ao sacado, ou seja,
a pessoa a quem a ordem é dada, para exigir o cumprimento da mesma.
Comumente acredita-se que o proprietário original da letra é o sacador. Isso, na
realidade, não acontece: o sacador cria e emite a letra, incorpora direitos no título,
dá a ordem, mas essa ordem é a favor do tomador, a quem a letra é entregue e
que é o seu primeiro proprietário. É verdade que o sacador pode designar-se
tomador (Lei Uniforme, art. 3º, 1ª al.) e, nesse caso, ele mesmo ficará de posse
da letra, pois será o beneficiário da mesma. Deve-se ter em consideração, porém,
que, em tal caso, o mesmo passa a exercer duas funções diversas na letra: a de
dador da ordem (sacador) e a de beneficiário da mesma (tomador). É nessa
última qualidade que a pessoa que dá a ordem se constitui proprietário da letra.
Como sacador, ela apenas dá a ordem, obrigando-se, com a sua assinatura, a
cumpri-la, se aquele a quem a ordem foi dada (sacado) não a cumprir. O
verdadeiro proprietário da letra é, assim, primitivamente, o tomador.
Nessas condições, circulando a letra, isto é, preenchendo a sua função de
mobilizar o crédito, o primeiro endosso será assinado pelo tomador, que é o
proprietário da letra e titular dos direitos nela incorporados. Transferindo-se, por
esse meio, a propriedade do título do endossante para o endossatário, fica este,
realizado o endosso, com plenos poderes para dispor da letra. Desejando utilizar-
se imediatamente da importância mencionada no título, esse novo proprietário,
até então endossatário, poderá transferi-lo para outra pessoa, passando a serendossante. E assim sucessivamente, até a data do vencimento, formando-se uma
cadeia de endossos que atestam que a letra foi transmitida regularmente por
todos aqueles que dela foram proprietários. Daí ter dito a lei brasileira que “o
último endossatário é considerado legítimo proprietário da letra endossada em
preto, se o primeiro endosso estiver assinado pelo tomador e, cada um dos
outros, pelo endossatário do endosso imediatamente anterior” (art. 39, 2ª al.),
regra também aceita pela Lei Uniforme (art. 16, 1ª al.).
Algumas vezes o proprietário da letra, seja o tomador ou endossatário posterior,
transfere-a sem designar a pessoa a quem faz a transferência. Trata-se do
endosso em branco e nesse caso o endossante assina apenas o seu nome na letra.
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Não possuindo esta proprietário conhecido, o título toma o caráter de letra ao
portador e a pessoa que com ele se apresentar será considerada proprietária da
letra (Lei Uniforme, art. 16). Esse proprietário desconhecido (legalmente
desconhecido pelo fato de não constar o seu nome no título) pode, querendo,
identificar-se ao transferir a letra para outra pessoa, e isso o faz assinando o seu
nome na mesma.
Às vezes, na prática comercial, costuma-se empregar erroneamente o termo
endosso, confundindo-o com o aval, donde ser comum um comerciante dizer que
recebeu como garantia de certo crédito uma letra endossada, quando na realidade
o título estava avalizado. Não se devem confundir os dois institutos: endosso é o
instrumento de transferência da letra, constando da assinatura do proprietário do
título no verso ou anverso do mesmo, e só pelo proprietário pode ser realizado;
enquanto que o aval é uma nova garantia dada ao título, em regra por pessoa
estranha a esse, para reforço do cumprimento da obrigação por parte do
avalizado.
39. ESPÉCIES DE ENDOSSO
O endosso, como meio especial de transferência da letra, pode ser dado ou
designando o endossante a pessoa a quem faz a transferência (Pague-se a Manuel
Ricardo – a) Pedro Moreira), ou não sendo feita essa designação, caso em que o
endossante apenas lançará o seu nome no verso do título. Temos, assim, duas
espécies de endossos, a primeira denominada endosso em preto, também
conhecida por endosso pleno, complemento ou nominativo, e a segunda chamada
endosso em branco.
39.1. Endosso em preto
Endosso em preto é aquele em que o proprietário da letra a transfere a uma outra
pessoa, designando-a. Consta, assim, do nome da pessoa a quem a letra é
transferida (endossatário), precedido da declaração da transferência (Pague-se a
F...) e seguido da assinatura do endossante. Tem-se, com esse endosso, o
conhecimento perfeito de como a letra passou da propriedade de uma pessoa para
outra. A assinatura do endossante deve ser de próprio punho ou por mandatário
com poderes especiais. Não há necessidade de que a declaração de transferência
(Pague-se a...) e o nome do endossatário sejam lançados do próprio punho pelo
endossante. A lei disso não cogita, donde ser permitido que essas declarações
sejam feitas de outra modalidade – datilografadas, por carimbos, impressas etc.
Pode, igualmente, uma outra pessoa lançar as declarações, que devem ser
subscritas, contudo, pelo próprio punho do endossante. Também não exige a lei
que esse endosso seja datado. Se bem que tratadistas vejam a conveniência da
data, essa, na realidade, não se torna essencial. De acordo com a lei brasileira, a
data do endosso era conveniente para alertar o portador pois, segundo a lei, o
endosso posterior ao vencimento produzia os efeitos da cessão civil (art. 8º, § 2º).
A Lei Uniforme, entretanto, dispôs de modo diverso, declarando que “o endosso
posterior ao vencimento tem os mesmos efeitos que o endosso anterior...” (art.
20). Justifica-se a necessidade da data do endosso apenas para os casos de
endosso posterior ao protesto por falta de pagamento ou feito depois de expirado
o prazo fixado para se fazer o protesto, pois, segundo a Lei Uniforme, em tais
circunstâncias o endosso “...produz apenas os efeitos de uma cessão ordinária de
créditos” (Lei Uniforme, art. 20).
Nada impede que haja outras declarações no endosso. Desse modo, pode no
endosso ser nomeado o domicílio do endossador. Pela lei brasileira, se do endosso
constassem cláusulas restritivas da responsabilidade do endossante ou proibitivas
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de outro endosso, tais cláusulas eram consideradas não escritas (Decreto nº
2.044, art. 44, I e IV). A Lei Uniforme inovou a respeito, admitindo o endosso com
a cláusula excludente da garantia do endossante e o endosso com cláusula
proibitiva de novo endosso; neste último caso, o endossante não garante o
pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada (Lei
Uniforme, art. 15). Essas são, como dissemos, inovações da Lei Uniforme,
contrariando o direito anteriormente vigente no Brasil. Deixando de ser garante da
aceitação e do pagamento da letra pelo sacado, o endossante apenas transfere o
título, justificando a cadeia de endossos, não se tornando, contudo,
corresponsável pelo pagamento do título; e proibindo novo endosso, o endossante
se exime da responsabilidade de pagar a soma àqueles a quem a letra for
posteriormente endossada, mas não se libera do pagamento à pessoa a quem
endossou.
O endosso, como foi dito, transmitindo a propriedade ou disponibilidade da letra
(nos casos de endosso-mandato ou endosso-cobrança) só pode ser feito por quem
é dela proprietário. Sendo a letra nominativa à ordem, isto é, trazendo no
contexto o nome do tomador ou beneficiário, não há dúvida que esse é o
proprietário do título e sujeito ativo dos direitos dele decorrentes, e o primeiro
endosso será forçosamente o seu.
O tomador, primeiro proprietário da letra, cujo nome figura no contexto, não é
obrigado a fazer o primeiro endosso como endosso em preto. Pode ele endossá-la
em branco, apenas assinando o seu nome nas costas do título sem especificar a
quem o transmite. Nesse caso, o título, originariamente nominativo, passa a ter a
natureza de título ao portador, e os seus detentores poderão transferi-lo sempre
desse modo, sendo considerado proprietário da letra o último que a detiver.
Qualquer um dos proprietários anônimos do título pode, entretanto, querendo,
identificar-se, lançando sua assinatura na letra, fazendo um endosso em branco ou
em preto. Desse modo, num mesmo título podem existir endossos em preto e em
branco, desde que, em seguida a um endosso em preto, o endossatário, que
receber o título com o seu nome nele especificado, lance a sua assinatura nas
costas sem determinar a pessoa a quem faz a transferência.
O importante e indispensável é, apenas, que, tendo o título um proprietário
designado (tomador, no início da circulação da letra, ou um endossatário que
recebeu o título por endosso em preto), só pode ele passar para a propriedade de
outra pessoa se o então proprietário conhecido lançar o seu nome no anverso ou
no verso do mesmo, com ou sem a indicação da pessoa a quem a transferência é
feita.
39.2. Endosso em branco
Entende-se por endosso em branco aquele em que o endossante não designa a
pessoa a quem transfere a letra. Nesse caso, o endosso é feito mediante a simples
assinatura, de próprio punho, do endossante, no verso da letra, ou a assinatura de
mandatário que tiver poderes especiais para tal.
Com o endosso em branco o título passa a assemelhar-se a um título ao portador,
podendo o seu detentor transferi-lo a qualquer pessoa mediante a simples tradição
manual, considerando-se legítimo proprietário da letra aquele que a detiver (Lei
Uniforme, art. 16). Trata-se, apenas, como bem esclarece Carvalho de Mendonça,
 de uma simples semelhança, não passando o título a ser juridicamente uma letra
ao portador.Isso porque, “o possuidor para receber a soma cambial precisa
justificar a legitimidade de sua posse com a série contínua de endossos, visto
como o endosso em branco, como o em preto, somente é válido quando se liga à
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cadeia dos endossos anteriores” e também porque “o possuidor pode em qualquer
momento transformar de novo a letra endossada em branco em letra endossada
em preto, e designar o endossatário, escrevendo acima da assinatura do
endossador em branco o seu próprio nome ou de terceiro a quem a transfira, ou
colocando abaixo do endosso em branco já existente outro endosso em branco
com a sua assinatura”. Deve-se sempre ter em mente que a letra de câmbio é um
título à ordem, o que afasta do mesmo a cláusula ao portador.
Para que alguém possa legitimamente transferir a letra a outrem necessita ser o
seu proprietário. É através da cadeia de endossos que se conhece aqueles que a
possuíram. Se um dos endossantes desejar transferir o título sem designar a
pessoa a quem o transfere (endosso em branco) necessário é que esse título
esteja em sua posse mediante transferências regulares. Assim, A, tomador,
primeiro proprietário da letra, transfere-a, mediante endosso em preto, a B, e
este, do mesmo modo, a C. Verificando-se a série dos endossos, constata-se que
A, tomador, era legítimo proprietário da letra, acontecendo o mesmo com B, que a
recebeu de A, e com C, que a recebeu de B. Se C, último proprietário, desejar
transferir o título sem designar a pessoa a quem o faz (endosso em branco),
lançará no mesmo apenas sua assinatura. Neste caso, quem se apresentar com a
letra será considerado o seu legítimo proprietário, já que dela consta a assinatura
de C sem designar a quem fez a transferência. Se, entretanto, C não endossou a
letra em branco e alguém com ela se apresentar, essa pessoa não será
considerada proprietária legítima do título, pois não pode justificar o modo do
mesmo ter vindo parar às suas mãos, já que não houve endosso de C a pessoa
não designada.
Igualmente, diz a lei (Lei Uniforme, art. 14, 1ª e 2ª al.) que o endossatário pode
completar o endosso em branco. Isso significa que aquele que detém a letra
endossada em branco pode fazer modificações nesse endosso, antepondo, por
exemplo, o seu nome antes do mesmo (Pague-se a F...), ou o nome de outra
qualquer pessoa, e, assim, transformando o endosso em branco em endosso em
preto. Dizia a lei brasileira que “o endossatário pode completar” o endosso mas,
nesse caso, achamos o termo endossatário mal empregado. É verdade que
endossatário é a pessoa a quem a letra é transferida pelo endossante e essa
pessoa pode ser designada ou não, dando lugar às duas espécies de endossos, em
preto e em branco. Mas, em regra, endossatário é a pessoa designada pelo
endossante como novo proprietário da letra. Sendo a letra transferida para pessoa
não especificada, talvez melhor tivesse a lei agido se designasse essa pessoa
como detentor ou possuidor do título e não como endossatário. Foi, aliás, o que
fez a Lei Uniforme, ao declarar, no art. 14, 2ª al., que “se o endosso for em
branco, o portador pode: 1º Preencher esse espaço em branco, quer com o seu
nome, quer com o nome de outra pessoa” etc.
Isso tudo prova, como prelecionou Carvalho de Mendonça, que o endosso em
branco não transforma o título em letra ao portador, apenas o assemelhando a tal.
O detentor do título ao portador, entretanto, em face da Lei Uniforme, tem
necessidade de comprovar o modo de como lhe chegou às mãos, já que essa lei
não admite letra originariamente ao portador, devendo, assim, lançar o tomador
sua assinatura na mesma para que o portador seja dela considerado legítimo
proprietário.
A letra endossada em branco circula mediante a simples tradição manual, a
pessoa que com ela se apresentar sendo considerada a sua legítima proprietária.
Pode, entretanto, o detentor, em qualquer momento, transferir a letra mediante
outro endosso em branco, para tanto apenas lançando a sua assinatura no verso
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do título, ou por um endosso em preto, nesse caso naturalmente especificando a
pessoa a quem faz a transferência. Em relação ao assunto, esclarecia a lei
brasileira que “seguindo-se ao endosso em branco outro endosso, presume-se
haver o endossador adquirido por aquele a propriedade da letra” (art. 39, 3ª al.).
No mesmo sentido, a Lei Uniforme, ao declarar que “...quando um endosso em
branco é seguido de um outro endosso, presume-se que o signatário deste
adquiriu a letra pelo endosso em branco” (art. 16, 1ª al.).
40. EFEITOS DO ENDOSSO – CADEIA DE ENDOSSOS
Dizia a lei brasileira (art. 8º) que “o endosso transmite a propriedade da letra de
câmbio...”, esclarecendo (art. 43) que “...o signatário da declaração cambial fica,
por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da
letra, sem embargo da falsidade, falsificação ou da nulidade de qualquer outra
assinatura”.
Essa era a doutrina geralmente seguida (Cód. de Com. italiano, art. 259) mas
novos estudos realizados sobre a letra de câmbio de um certo modo separaram a
letra – documento (res) – dos direitos nela incorporados. E, assim, é possível
transferir-se a letra – documento – sem serem transferidos, integralmente, os
direitos nela incorporados. Igualmente, a regra consagrada no art. 43 da lei
brasileira, de que o signatário da declaração cambial ficava, por ela, vinculado e
solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra, veio a sofrer
alteração pois, pela Lei Uniforme, é admitido o endosso sem que o endossante se
responsabilize pelo aceite e pagamento do título, desde que no endosso haja
cláusula especial a respeito (Lei Uniforme, art. 15).
O direito uniforme tomou por base que o endosso é apenas um meio próprio de
transferência da letra; a garantia do endossante pela aceitação e pagamento é
uma garantia decorrente da lei, que pode, por isso, permiti-la integralmente, como
acontecia com a lei brasileira, ou deixar de admiti-la em certos casos, como o faz
a Lei Uniforme.
Daí divergir a Lei Uniforme da lei brasileira quanto à conceituação do endosso. Se,
para esta, o endosso transmite a propriedade da letra, para a Lei Uniforme (art.
14, 1ª al.), “o endosso transmite todos os direitos emergentes da letra”, não se
falando, assim, na propriedade do título. Quanto à regra de que, endossando o
título, o endossante se torna garante do aceite e do pagamento, a Lei Uniforme
apenas a permite, mas admite também que, por cláusula especial, possa o
endossante eximir-se dessa responsabilidade, o endosso servindo simplesmente
para justificar a circulação do título, desempenhando, assim, sua função precípua
(art. 15).
Sendo o efeito principal do endosso transmitir os direitos emergentes da letra,
tornando, por via de dispositivo legal, o endossante solidariamente responsável
pelo aceite e pelo pagamento, estudemos o assunto mais a vagar, para melhor
compreensão.
40.1. Transferência do título e dos direitos emergentes da letra
O principal papel do endosso, segundo a Lei Uniforme, é transferir os direitos
emergentes da letra. O endossatário torna-se, assim, titular dos direitos do crédito
como se deles o tivesse sido originariamente. Cabe-lhe, desse modo, não só
praticar todos os atos para o resguardo e garantia desses direitos como,
igualmente, reclamar o embolso da soma especificada dos obrigados na letra – do
aceitante, se o sacado assumiu, com a sua assinatura, a obrigação de pagar a
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soma indicada, ou dos demais endossantes, avalistas ou sacador, se o sacado não
se obrigou a pagar (não aceitou), ou tendose obrigado (aceito), se recusou a
pagar. Por ser legalmente o novo titular dos direitos que emanam do título é que o
endossatário, a quem a letra foi transferida pelo endosso, pode, por vontade
própria, transmitir o título a outra pessoa. Meio fácil de serem cedidos os direitos
de crédito – o que os antigos, só pelo artifício da procuração em causa própria,
conseguiam realizar – o endosso veio ativar sensivelmente as operações
comerciais, fazendo com que o crédito fosse utilizado em maior escala,
beneficiando, assim, um maior número de pessoas.
Deve-se destacar, como já lembrou Carvalho de Mendonça que, com a
transferência do título pelo endosso, não há sucessão jurídica entre endossante e
endossatário. Este, dado o princípio da autonomia das obrigações cambiárias,
adquire um direito autônomo, não lhe cabendo, assim, indagar se houve,
anteriormente, irregularidade no título. As suas relações são apenas com o
endossante: estando este na posse legitimada do título, capaz, assim, de
transferi-lo, o endossatário, ao receber a letra endossada, se torna titular
autônomo dos direitos que do mesmo título decorrem.
40.2. Responsabilidade do endossante
Outro efeito do endosso, oriundo, não de sua natureza, mas de um dispositivo
legal, quase tão importante quanto o primeiro, é o relativo à responsabilidade que
assume o endossante ao transferir a letra de câmbio. Já atrás foi dito que, em se
tratando de um título literal e formal, as obrigações são assumidas mediante as
assinaturas das pessoas que se obrigam na própria letra de câmbio. A lei brasileira
estabelecia (art. 43) que “as obrigações cambiárias são autônomas e
independentes”, mas acrescentava, para maior garantia do título, que “o signatário
de declaração cambial fica, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo
aceite e pelo pagamento da letra, sem embargo da falsidade, da falsificação ou da
nulidade de qualquer outra assinatura”. Isso, em outras palavras, significava que
quem lançasse sua assinatura na cambial ficava à mesma vinculado e passava a
responder, solidariamente, com os outros que também o fizessem, pelo
pagamento da letra.
Ora, de acordo com esse dispositivo, o proprietário da letra, que a transfere
mediante o endosso, se perde a titularidade dos direitos incorporados no título não
se desvincula do cumprimento das obrigações contidas na letra, pelo princípio
legal da garantia de aceitação e de pagamento assumida ao lançar sua assinatura
no título. Daí resulta que, se a letra não for paga no vencimento, o signatário do
endosso fica com a obrigação de pagá-la. Essa obrigação é solidária com as
daqueles que lançaram suas assinaturas no título. Mas, em se tratando de
solidariedade passiva o atual titular dos direitos da letra pode escolher qualquer
dos endossantes para que ele cumpra sozinho a obrigação. Desse modo, o
endossante garante, como todos quantos assinaram no título, o pagamento deste.
Isso, sem dúvida, representa maior segurança para o credor. Quanto maior for o
número de endossantes, mais cresce a garantia do cumprimento da obrigação
constante do título. Há, assim, com os endossos, como que um reforço da
solvabilidade do título, pois se, ao nascer, este só contava com uma pessoa para
garantir o seu cumprimento (o sacador, que emitiu a letra e, por isso mesmo,
exigiu a lei que nela lançasse a sua assinatura), operando-se várias transferências
por endossos, cada um dos endossantes, assinando no título, vai se
comprometendo a pagar a letra.
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Os endossos, sendo lançados sucessivamente na letra, formam uma cadeia, pela
qual se pode acompanhar a sucessividade dos proprietários do título. Essa cadeia
de endossos tem muita importância para o último proprietário da letra (o último
endossatário) pois, se desejar reclamar os seus direitos de algum endossante (no
caso do sacado não aceitar a ordem ou, aceitando-a, recusar-se a cumpri-la), ele
o fará exercendo o chamado direito regressivo. Isto quer dizer que ele tem o
direito de agir, regressivamente, ou seja, em sentido contrário ao da cadeia
formada, contra um, alguns ou todos os coobrigados, no caso os endossantes e
seus avalistas, o tomador e o sacador. Assim, sendo X o sacador do título, A o
tomador, que o endossa a B, este a C, este a D e este, finalmente, a E, vencendo-
se o título e o sacado, tenha ou não aceito a ordem (se a aceitou não será mais
sacado e sim aceitante) não efetuando o pagamento, E fica com o direito de exigir
de D, ou de C, ou de B, ou de A, ou de X, que é o sacador, a importância
mencionada, e qualquer um desses, desde que escolhido, é obrigado a pagá-la.
Não está E, último endossatário da letra e, portanto, titular dos direitos de crédito
da mesma, obrigado a seguir a ordem dos endossantes da cadeia regressiva.
Tanto poderá exigir o pagamento de D, que foi o proprietário da letra
imediatamente anterior a ele como de C, B, ou X.
A lei brasileira dispunha que, sendo o pagamento feito pelo sacador, endossantes
ou respectivos avalistas, ficavam desonerados de responsabilidade os coobrigados
posteriores (art. 24, 2ª al.). Isso significava que, sendo desprezados alguns
elementos da cadeia regressiva (no exemplo citado, tendo a letra passado por B, C
e D e o portador, E, escolhendo B para pagar) os obrigados posteriores a esse – C
e D – ficavam eximidos da responsabilidade do pagamento (só tendo B ação
contra A, tomador, ou contra X, sacador).
A Lei Uniforme, mantendo o mesmo princípio da lei brasileira, ao tratar do
assunto, dispõe que “os sacadores, aceitantes, endossadores ou avalistas de uma
letra são todos solidariamente responsáveis para com o portador”, aduzindo que “o
portador tem o direito de acionar todas essas pessoas individual ou coletivamente,
sem estar adstrito e observar a ordem por que eles se obrigaram” e acrescentando
mais: “A ação intentada contra um dos coobrigados não impede acionar os outros,
mesmo os posteriores àquele que foi acionado em primeiro lugar” (art. 47, 4ª al.).
Esse último dispositivo da Lei Uniforme merece ser esclarecido. Quando a lei
brasileira e a Lei Uniforme dizem que o portador tem o direito de acionar qualquer
dos obrigados regressivos, sem se ater à ordem dos endossos, o fazem baseadas
na solidariedade passiva que existe entre todos os garantes do título. Escolhido
um obrigado, na cadeia regressiva, se este pagar, naturalmente ficam exonerados
de responsabilidade os obrigados posteriores. Se, entretanto, não pagar, fica o
portador com o direito de acionar qualquer outro coobrigado, mesmo posterior
àquele que foi acionado, visto esse não estar desobrigado por não haver o
anteriormente acionado satisfeito a obrigação. Se o novo coobrigado acionado
pagar, ficam exonerados os obrigados posteriores a ele. Tornando-se titular
legitimado dos direitos decorrentes do título, o obrigado que pagou pode acionar
os que lhe são anteriores e não mais os que posteriormente a ele assumiram
obrigação no título. Assim, pois, deve ser entendido o disposto na última alínea do
art. 47 da Lei Uniforme, que à primeira vista dá a impressão de não terem sido
desonerados da responsabilidade os obrigados posteriores àquele que pagou.
Nessas condições, muito importante é esse efeito que o endosso produz na letra
de câmbio. Endossando-a, o endossante transfere o direito de crédito de que era
titular mas, em virtude de uma disposição expressa da lei, não se desvincula da
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letra, assumindo a obrigação de pagá-la se o sacado ou o aceitante, ao lhe ser
apresentado o título, recusarse a fazê-lo.
Como acima foi dito, essa norma de ser o endossante garante da aceitação e do
pagamento do título, consagrada, por disposição expressa, pela lei brasileira (art.
43) e mais rigidamente pela Lei Uniforme (art. 15),pela lei de 18 de abril de 1861, comumente conhecida
como Novelas de Nüremberg e, finalmente, tornada obrigatória em todo o Império
alemão pela lei de 22 de abril de 1871.
O que diferencia a lei alemã da francesa é o fato de que, naquela, a exemplo do
que acontecia com o Inland-Bill da Inglaterra, o título não representa o transporte
de valores de um lugar para outro nem se requer que haja provisão em mãos do
sacado, como estabelecia o Código francês. Entretanto, para que seja o título
caracterizado como tal, necessário é que, no contexto, esteja escrita a frase letra
de câmbio (Wechsel) em alemão, ou uma expressão estrangeira a ela equivalente.
Deve, igualmente, o título conter outros requisitos essenciais, tais como a
importância a pagar, o nome da pessoa em favor da qual, ou à ordem de quem
deve o pagamento ser feito, a época de pagamento, a assinatura do sacador, a
designação do lugar, dia, mês e ano em que a letra foi sacada, o nome da pessoa
indicada para pagar (sacado) e a nomeação do lugar onde deve ser efetuado o
pagamento, que será o designado ao lado do nome do sacado, se um outro não
estiver expressamente mencionado (art. 4º). Se faltar algum desses requisitos o
título não será considerado letra de câmbio (art. 7º). Toma, assim, a letra de
câmbio o caráter de um título de crédito criado pela vontade unilateral do sacador,
sem ficar dependente de um contrato original, como acontece com o direito
francês; é, também, um título formal, devendo conter requisitos essenciais para
valer como tal.
A orientação alemã passou a influenciar os demais países. A Bélgica adotou-a,
com algumas restrições, através da lei de 20 de maio de 1872 sobre a letra de
câmbio e a nota promissória, a Hungria fez o mesmo pela Lei nº XXVII, de 1876,
entrada em vigor em 1877.7A Itália, reformando, em 1882, o seu Código de
Comércio de 1865, que obedecia à orientação francesa, aderiu igualmente ao
modelo alemão, através dos artigos 251 e seguintes do mesmo Código. Essa
orientação foi mantida pelo Decreto Real de 14 de dezembro de 1933, que pôs em
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vigor a Convenção de Genebra. E em vários outros países – Áustria, Polônia,
Suécia, Japão, Portugal – tomou corpo a ideia de dar à letra de câmbio a
característica de um título que contém direitos e obrigações autônomos, sem
dependência da relação fundamental e valendo pelo que nele está escrito.
14. UNIFORMIZAÇÃO DO DIREITO CAMBIÁRIO
Dado o desenvolvimento das relações comerciais entre os povos, que dia a dia, no
decorrer deste século, se tornaram mais intensas, em virtude, sobretudo, do
surgimento dos novos meios de transportes, juristas e comerciantes voltaram suas
atenções para a necessidade do estabelecimento de regras uniformes sobre a letra
de câmbio, a serem aceitas pelos governos interessados. E por esse motivo
algumas conferências se realizaram, com a participação de grande número de
países, logrando êxito final.
De há muito, realmente, mostrara-se a necessidade da uniformização das normas
do direito cambiário e vários congressos se manifestaram nesse sentido, tendo em
vista o fato de se prestar excelentemente a letra de câmbio para pagamentos
internacionais. Com a faculdade que têm os países de legislar sobre assuntos de
seu próprio interesse, a adoção de regras comuns a todos viria, indiscutivelmente,
quebrar óbices que dificultavam a expansão do título, principalmente no que
concerne à capacidade, à responsabilidade dos que apõem os seus nomes nos
títulos e à circulação destes. Reconhecendo tal fato, já em 1869 o 1º Congresso
das Câmaras de Comércio italianas, reunido em Gênova, “acolheu com prazer a
proposição de Minguetti, declarando ser útil e oportuno que o governo tomasse a
iniciativa de tratados com os governos estrangeiros para se adotar uma lei cambial
universal”. Em 1885, o Congresso Internacional de Direito Comercial, reunido em
Antuérpia, Bélgica, discutiu e aprovou um projeto de lei cambial internacional,
projeto esse que foi emendado no Congresso de Bruxelas, reunido nessa cidade
em outubro de 1888.
Foi, entretanto, em 1910 e 1912 que, em Haia, se adotaram medidas efetivas para
a uniformização das regras relativas à letra de câmbio. Atendendo a uma
convocação do governo holandês, feita em 1908, 35 países, através de
representações especiais, se reuniram em Haia, em 1910, para a elaboração de
uma lei uniforme sobre a letra de câmbio. O Brasil foi representado pelo dr.
Rodrigo Otávio, que também foi o nosso delegado na segunda Conferência,
realizada na mesma cidade, em 1912, na qual foi finalmente aprovado o texto do
Regulamento Uniforme sobre a letra de câmbio e a nota promissória, sendo pedido
aos Estados participantes que fizessem adotar, em suas legislações, aquelas
regras, facultando-se, contudo, aos mesmos, algumas alterações nas normas
gerais.
Vinte e sete dos países que participaram das Conferências de Haia assinaram a
Convenção sobre o Regulamento Uniforme; entre eles não figuraram, entretanto,
a Inglaterra e os Estados Unidos. Cumpre notar que a lei brasileira sobre as letras
de câmbio, promulgada em 1908, estava em perfeita harmonia com a doutrina
vitoriosa em Haia, o que muito honra a cultura jurídica do país, principalmente os
profundos conhecimentos que, sobre o assunto, tinha o inspirador de nossa lei,
Desembargador José Antônio Saraiva.
Estabeleceu o Regulamento aprovado em Haia em 1912 que a letra de câmbio é
um título à ordem, contendo uma ordem de pagamento, dispensando-se o fator
relativo à distancia loci para que possa ser sacada. Deve trazer sempre a cláusula
cambiária e é destinada à circulação. Garantias especiais foram dadas ao portador
de boa-fé e a autonomia das obrigações cambiárias foi afirmada no fato de ser
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reconhecida a obrigação do avalista ainda mesmo que fosse invalidada a obrigação
do avalizado (arts. 1º, 10, 15 e 31 do Regulamento).
Apesar do grande avanço dado pelas Conferências de Haia à ideia da unificação do
direito cambiário, na prática poucos países adotaram em suas leis os princípios do
Regulamento aprovado em 1912. Maiores dificuldades surgiram com a eclosão da
guerra de 1914 a 1918. O Brasil, apesar de ter aprovado a Convenção pelo
Decreto nº 3.756, de 17 de agosto de 1919, jamais converteu em lei o texto do
Regulamento Uniforme.
Desejando, contudo, promover realmente a unificação do direito cambiário,
realizou-se em Genebra, em 1930, uma Conferência Internacional, sob os
auspícios da Liga das Nações, presidida pelo jurista holandês Limburg. Tomando
por base o Regulamento Uniforme aprovado em Haia em 1912, essa Conferência,
de que participaram 31 Estados, aprovou uma Lei Uniforme sobre Letras de
Câmbio e Notas Promissórias, além de ao mesmo tempo, serem adotadas também
Convenções sobre conflito de leis em relação às letras de câmbio e notas
promissórias e sobre selos em ditos títulos.
Adotaram a Convenção de Genebra: a Alemanha, Bélgica, Dantzig, Dinamarca,
Finlândia, Holanda, Itália, Japão, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, França, Brasil,
Polônia, Rússia e Grécia.
15. A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO ANGLO-AMERICANO
O direito anglo-americano, em relação à cambial, difere bastante do chamado
sistema continental, ou seja, do adotado pelos países que obedecem a orientação
da Lei Uniforme de Genebra. Nem a Inglaterra nem os Estados Unidos aderiram à
Convenção de Genebra e a sua não adesão já tinha mesmo sido prevista pela
comissão nomeada pelo Comitê Econômico da Liga das Nações, composta dos
juristas Jitta, Lyon-Caen, Chalmers e Klein, para dar parecer sobre a possibilidade
da unificação. Realmente, aqueles dois países não aceitaram a Lei Uniforme, muito
embora tenha a Inglaterra adotado a Convenção sobre selos nas letras de câmbio.
Baseado na common law e na equidade,sofre exceção no direito
uniforme, podendo, assim, o endossante eximir-se da garantia da aceitação e do
pagamento se, para tal, expressamente se exonerar dessa responsabilidade (art.
15). Explicitou, assim, a Lei Uniforme, que o endosso serve, precipuamente, para
justificar a transmissão regular do título, o endossante ficando afastado da
responsabilidade da aceitação e do pagamento, pois essa responsabilidade decorre
não da natureza do endosso, mas de um princípio legal. A lei brasileira seguia
orientação diferente, não admitindo a dissociação da transferência da letra com a
assunção da responsabilidade do pagamento, razão pela qual considerava não
escrita “a cláusula excludente ou restritiva da responsabilidade” do endossante.
40.3. Proibição de novo endosso
Alguns autores consideram, também, como efeito do endosso o direito que tem o
endossatário de reendossar a letra. Ainda aqui há divergência entre a lei brasileira
e a Lei Uniforme. Pelo Decreto nº 2.044, era considerada não escrita “a cláusula
proibitiva do endosso...” (art. 44, nº II). A Lei Uniforme permite tal cláusula,
estatuindo taxativamente que “o endossante pode proibir um novo endosso e,
neste caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for
posteriormente endossada” (art. 15, 2ª al.). Tem-se, assim, que, proibindo o
endossante um novo endosso, isso não significa que a circulação da letra fique
paralisada. Apenas, se for endossada, o endossante que proibiu o endosso não se
responsabiliza pelo pagamento do título às pessoas a quem foi este
posteriormente endossado. Mas garante esse pagamento à pessoa a quem
endossou, sendo, portanto, mantida sua responsabilidade na letra.
40.4. Outras formas de transmissão da cambial
Além do endosso, a cambial admite outras formas de transmissão a saber:
1º – A dação em pagamento (datio in solutum) (arts. 997 do Código Civil de 1916
e 358 do diploma de 2002) em que a transmissão importa em cessão de crédito,
devendo ser notificado o cedido, responsabilizando-se o solvens pela existência do
crédito transmitido ao tempo da cessão.
Na dação em soluto não há novação pelo fato de haver substituição da prestação
(aliud pro alio-nomen iuris pro pecunia). São casos de dação em soluto:
a) na emissão de nota promissória pro solvendo (impropriamente chamada
vinculada a contrato);
b) substituição de duplicata por promissória dada em paramento;
c) caso de reforma ou amortização de título.
Consequências: o transmitente responde pelo valor do título e pela sua
exigibilidade. 2º – Cessão de crédito a título oneroso;
3º – Cessão pro solvendo;
4º – Cessão solvendi causa.
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A respeito, pormenorizadamente, leia-se o livro de J. A. Penalva Santos, Títulos de
Crédito e o Código Civil, Editora Forense, 2004, pp. 81/86.
Outras formas anômalas admitem a possibilidade de a cambial ser vendida,
herdada etc.
41. ENDOSSO-MANDATO
Dissemos (supra, nº 39) que há duas espécies de endosso: o em preto, em que
consta o nome do endossatário, e o em branco, em que não há essa designação;
esses são os chamados endossos translativos, pois transmitindo os direitos
emergentes da letra, transferem a propriedade do título. Contudo, há outros
endossos que não fazem essa transferência, como o endosso-mandato, que é
aquele em que, por cláusula especial, o portador do título o transfere a outra
pessoa, que passa a exercer “...todos os direitos emergentes da letra, mas só
pode endossá-la na qualidade de procurador” (Lei Uniforme, art. 18, 1ª al.).
Esse chamado endosso-mandato ou endosso-procuração é, na realidade, um falso
endosso pois nem transmite os direitos emergentes do título nem transfere a
propriedade da letra, mas simplesmente a sua posse. De fato, o detentor do título
por endosso-mandato recebe-o e pratica todos os atos de proprietário do mesmo,
mas o faz como simples mandatário, representando e obrigando, neste caso, o
mandante ou endossante. O endosso-mandato visa a facilitar a prática de atos que
só poderiam ser realizados pelo proprietário do título, e neste sentido presta
inumeráveis benefícios ao comércio, pois, entre outros casos, evita o
deslocamento do endossante de um lugar para outro, às vezes impossível.
Convém, entretanto, ter-se em mente que não se trata de um verdadeiro endosso,
ato translativo da propriedade da letra de câmbio, segundo a norma expressa no
art. 8º da lei brasileira e no art. 14, 1ª al., da Lei Uniforme.
Dispunha, ainda, a lei brasileira (art. 8º, § 1º) que nessa espécie de endosso o
endossante-mandante podia, também, restringir os poderes do mandato e em tal
caso ao endossatário seria facultado agir apenas dentro dos poderes conferidos. A
Lei Uniforme não fala nessa restrição, estabelecendo (art. 18) que “quando o
endosso contém a menção ‘valor a cobrar’ (valeur en recouvrement), ‘para
cobrança’ (pour encaissement), ‘por procuração’ (par procuration) ou qualquer
outra menção que implique em simples mandato, o portador pode exercer todos
os direitos emergentes da letra, mas só pode endossá-la na qualidade de
procurador”. Dá, assim, a Lei Uniforme amplo campo de ação ao endossatário-
procurador que agirá como se fosse proprietário da letra, podendo apresentá-la ao
sacado para aceite, receber a importância mencionada no título, protestá-la etc. E
acrescenta a Lei Uniforme que “os coobrigados, neste caso, só podem invocar
contra o portador as exceções que eram oponíveis ao endossante” (art. 18, 2ª
al.), norma que não constava expressamente da lei brasileira mas que estava
incluída na teoria geral do mandato, como confirma a doutrina.
Não significa, entretanto, esse dispositivo da Lei Uniforme que o endossatário, no
endosso-mandato, ao reendossar, por procuração, a letra, não possa restringir, por
cláusula expressa, os poderes do novo procurador. O Projeto de Código Civil
brasileiro de 1973 estranhamente declarou que “o endossatário do endosso-
mandato só pode endossar novamente o título na qualidade de procurador, com os
mesmos poderes que recebeu” (art. 959, § 1º – atual art. 917, 1º). Não vemos
razão para não poderem ser restringidos os poderes que o endossatário de um
endosso-mandato recebeu do endossante primitivo, ao fazer esse um novo
endosso. O que ele não pode, reendossando a letra, é ultrapassar os poderes
recebidos ou fazer um endosso translativo da letra, pois não tem a propriedade da
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mesma. Mas restringir os poderes que recebeu do endossante primitivo, isso, a
nosso ver, pode corretamente ser feito.
A Lei Uniforme estabelece, ainda, que “o mandato que resulta de um endosso por
procuração não se extingue por morte ou sobrevinda incapacidade legal do
mandante” (art. 18, 3ª al.). O dispositivo, como se vê, altera inteiramente o
estabelecido na lei civil, já que, nessa, a morte ou incapacidade de alguma das
partes faz cessar o mandato (Cód. Civil, art. 682, inc. II). Com a adoção dessa
norma, a Lei Uniforme deu ao mandato por endosso característica diversa do
mandato comum.
O art. 892 do atual Código Civil dispõe que: “Aquele que, sem ter poderes, ou
excedendo os que tem, lança a sua assinatura em título de crédito, como
mandatário ou representante de outrem, fica pessoalmente obrigado, e, pagando
o título, tem ele os mesmos direitos que teria o suposto mandante ou
representado”;
A redação do dispositivo é semelhante à do art. 8° da Lei Uniforme.
Nesse caso o suposto mandatário assume a mesma posição do suposto mandante;
assim aquele que saca uma letra de câmbio como falso mandatário age como
verdadeiro sacador, sem qualquer responsabilidade para o falso mandante.
O art. 893 estipula que “A transferência do título de crédito implica a de todos os
direitos que lhe são inerentes”; o que significa tratar-se de transferência dos
direitos cambiários.Na redação do art. 893, ainda em fase de Projeto, sugeriu Fran Martins fosse
substituído o vocábulo “emergentes” por “inerentes”;
O art. 894 regulou os títulos representativos de mercadoria são aqueles que
transferem a posse e a propriedade da mercadoria, tais como: o conhecimento de
depósito, representativo de mercadoria depositada em armazém geral ou
conhecimento de transporte, título representativo de carga depositada em navio
para ser transportada ao porto do destino;
Art. 894 do Código Civil – “O portador de título representativo de mercadoria tem
o direito de transferi-lo, de conformidade com as normas que regulam a sua
circulação, ou de receber aquela independentemente de quaisquer formalidades,
além da entrega do título devidamente quitado.”
Art. 895 – “Enquanto o título de crédito estiver em circulação, só ele poderá ser
dado em garantia, ou ser objeto de medidas judiciais, e não, separadamente, os
direitos ou mercadorias que representa.”
Art. 895, segundo esse dispositivo é permitido que o título seja dado em garantia,
via de regra, penhor, denominado caução, ou ser penhorado, sequestrado,
arrestado, ou mediante a utilização de medidas constritivas; tais medidas
abrangem os títulos representativos de mercadorias.
Art. 896, por força do disposto no citado artigo a legítima posse do título de
crédito presume a sua propriedade; assim o seu último endossatário de boa-fé
está imune aos ataques de quem pretenda reivindicá-lo.
Dessa forma, é vedada, por exemplo, a penhora de mercadoria embarcada em
navio, ou o sequestro do café depositado em armazém geral;
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42. ENDOSSO PIGNORATÍCIO
Discutia-se, na doutrina brasileira, se seria possível a letra de câmbio ser dada em
penhor mediante simples endosso. A lei cambial brasileira nada dispunha a
respeito mas o Dec. nº 19.473, de 10 de dezembro de 1930, que regula os
conhecimentos de transporte de mercadorias por terra, mar e ar, o aceitou
expressamente, ao estatuir (art. 4º, parág. único) que, “lançada a cláusula de
penhor ou garantia, o endossatário é credor pignoratício do endossador”. Por tal
razão, e alegando que, na prática, é comum o endosso pignoratício, Magarinos
Torres, Pontes de Miranda, José Maria Whitaker e Theophilo de Azeredo Santos
admitiam o endosso pignoratício, contra o ponto de vista, entre outros, de Paulo
Lacerda, Carvalho de Mendonça e Waldemar Ferreira.
A controvérsia, em face da Lei Uniforme, não tem mais razão de ser, pois essa
expressamente dispõe, no art. 19, que “quando o endosso contém a menção ‘valor
em garantia’, ‘valor em penhor’ ou qualquer outra menção que implique uma
caução, o portador pode exercer todos os direitos emergentes da letra, mas um
endosso feito por ele só vale como endosso a título de procuração”.
“Os coobrigados não podem invocar contra o portador as exceções fundadas sobre
as relações pessoais deles com o endossante, a menos que o portador, ao receber
a letra, tenha procedido conscientemente em detrimento do devedor.”
Verifica-se, desse modo, que a constituição do penhor da letra mediante simples
endosso é expressamente admitida no direito uniforme. O endossatário
pignoratício, ao receber o título, pode praticar todos os atos necessários para a
defesa e conservação dos direitos emergentes da letra, de que está de posse. Não
sendo, contudo, o proprietário do título, não pode o endossatário pignoratício
transferi-lo a outro, na qualidade de proprietário. Daí dizer a lei que qualquer
endosso por ele feito valerá apenas como endosso-mandato, não como endosso
próprio ou translativo.
Por se ter tornado o endossatário pignoratício detentor dos direitos emergentes da
letra apesar de não ser proprietário desta, não podem os coobrigados invocar
contra ele exceções fundadas sobre relações pessoais deles com o endossante,
pois esse, apesar de ser ainda o proprietário do título, transmitiu os direitos
emergentes do mesmo ao endossatário, como acontece no endosso comum.
Naturalmente, se o endossatário, ao receber a letra, procedeu conscientemente
em prejuízo do devedor, a regra não tem aplicação, sendo, em tal caso, permitido
aos coobrigados invocar contra ele as exceções pessoais que poderiam oferecer
contra o endossante.
O endosso pignoratício não se aplica ao cheque consoante se verifica na leitura da
Lei Uniforme de Genebra para Cheques e na Lei nº 7.357 de 1985, bastando ler-se
as Comptes Rendus, p. 98.
Nada impede, contudo, se admita o penhor de cambial ou de cheque nos termos
do art. 1.458 do Código Civil de 2002, mediante instrumento extracartular válido.
Aliás, o Código de Comércio de 1850 admitia no art. 279 do Código de Comércio
revogado e no art. 120, § 2º, do Decreto-Lei nº 7661 de 1945 o penhor com a
cláusula de pignoris vendendo.
43. ENDOSSO PARCIAL
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O endosso parcial, ou seja, o endosso relativo apenas a uma parte da importância
mencionada na letra de câmbio, era, pela lei brasileira (art. 8º, § 3º),
taxativamente vedado. A Lei Uniforme (art. 12, 2ª al.) o considera nulo, e contra
ele também são quase todas as leis que regulam as cambiais, seja no direito
continental, seja no anglo-americano. Entretanto, o Código de Comércio da
Argentina estabelece, no art. 634, que “a letra de câmbio não pode ser endossada
por uma parte do seu importe sem ficar extinta a outra parte”, o que significa
acatar o endosso parcial, extinguindo-se, entretanto, a parte não endossada do
montante da letra.
A quase totalidade dos autores brasileiros não tem dúvida em aceitar a validade
do princípio legal. De fato, admitir o endosso parcial seria criar sérias dificuldades
para a circulação da letra, apesar de alguns autores acharem que isso poderia se
evitar se fossem, no endosso parcial, empregadas duplicatas da letra. Mas, como
bem adverte Carvalho de Mendonça, “sendo indivisível a soma cambial e única a
época do vencimento da letra, esta não poderia se achar simultaneamente nas
mãos do endossador e do endossatário, para cada um deles exercer a parcela ou
fração de direitos cambiais que porventura lhes coubesse”. Esse, aliás, é o mesmo
ponto de vista de Saraiva.
Em tais condições, dentro da melhor doutrina, não é permitido que a letra de
câmbio seja endossada parcialmente, sendo, pela Lei Uniforme, considerada nula
essa espécie de endosso.
44. ENDOSSO POSTERIOR AO VENCIMENTO
Meio simples de ser transferida a propriedade da letra de câmbio, o endosso não
só opera essa transferência de propriedade como, por disposição legal, vincula os
endossantes à cambial, tornando-os responsáveis pelo aceite e pelo pagamento da
letra, solidariamente com quantos lançaram suas assinaturas no título.
Normalmente, o endosso, dando mobilidade ao crédito, deve ser usado enquanto
este está ativo. Entretanto, não é proibido seja o endosso empregado após o
vencimento da letra, tendo esse o nome de endosso-póstumo, tardio ou impróprio.
Uma séria divergência existe entre a lei brasileira e a Lei Uniforme quanto aos
efeitos do endosso posterior ao vencimento.
A lei brasileira dizia expressamente que “o endosso posterior ao vencimento tem o
efeito de cessão civil” (art. 8º, § 2º). Isso significava que, apesar de permitido o
endosso posterior ao vencimento, deixava ele de ser um ato puramente cambial
para produzir os efeitos de uma cessão de direito comum.
Quais são esses efeitos, diversos dos que produzem o endosso próprio anterior ao
vencimento?
Em primeiro lugar, se o endossante anterior ao vencimento, por força do art. 43
da lei brasileira, nesse sentido correspondente ao art. 15 da Lei Uniforme, ficava
“vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra”, o
que o fazia posteriormente ao vencimento, por se tratar de uma cessão civil, não
estava ligado pelo vínculo dasolidariedade cambial aos demais coobrigados no
título. Havia, apenas, uma cessão de crédito, de caráter civil, deixando de amparar
o endossatário as regras do direito cambiário, mais simples e mais seguras que as
do direito comum.
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Também, segundo a lei brasileira, com o endosso posterior ao vencimento o
endossante “não garante a solvência do devedor, salvo estipulação em contrário,
mas somente a existência do crédito, ao tempo do endosso”, conforme
prelecionava Carvalho de Mendonça.
Por último, seria aplicável ao endossatário a regra constante do art. 294 do Código
Civil, em relação à cessão de crédito, ou seja, que “o devedor pode opor ao
cessionário as exceções que lhe competirem, bem como as que, no momento em
que veio a ter conhecimento da cessão, tinha contra o cedente”, o que significava
que o devedor podia opor ao endossatário as mesmas exceções que oporia ao
endossante-póstumo, o que é inteiramente contrário ao princípio da autonomia
das obrigações cambiárias.
Vê-se, assim, que, permitindo o endosso posterior ao vencimento da letra, a lei
brasileira tirava a mesma do campo do direito cambiário para subordiná-la ao
direito comum.
A Lei Uniforme tem orientação diversa, admitindo o endosso posterior ao
vencimento da letra e dando-lhe os mesmos efeitos do endosso anterior (art. 20),
só produzindo os efeitos de cessão ordinária de crédito, ou cessão civil, o endosso
posterior ao protesto por falta de pagamento ou feito depois de expirado o prazo
fixado para se fazer o protesto. Daí a conclusão de que, segundo a Lei Uniforme, a
vida ativa da letra vai até o momento em que é protestada por falta de pagamento
ou se esgota o prazo estabelecido para se fazer o protesto. Quando o protesto não
comprova a falta de pagamento da letra, como o que é feito em face da recusa
total ou parcial do aceite ou nos demais casos mencionados nos números 2º e 3º
do art. 43 da Lei Uniforme, não tira os efeitos cambiários do endosso, o que
significa que os obrigados anteriores não ficam desonerados em relação àqueles a
quem a letra for endossada, como aconteceria se esse endosso significasse mera
cessão civil.
Desse modo, segundo a lei atualmente vigorante, se o endosso é posterior ao
protesto por falta de pagamento, ou feito depois do prazo fixado para o protesto,
os efeitos que produz são apenas os de uma “cessão ordinária de crédito”. Isso
porque, com o protesto por falta de pagamento, se evidencia um fato de grande
relevância para os que figuram no título, que é o do não cumprimento do
pagamento por parte de alguém que se havia obrigado a realizá-lo (aceitante) ou
sido indicado para efetuá-lo, mas se negou a fazê-lo no prazo estipulado. E é
através do protesto que o portador assegura o seu direito de regresso contra os
coobrigados, direito até então latente, a depender o seu exercício desse ato
solene. Naturalmente, ao falar a Lei Uniforme que “terá o efeito de cessão civil o
endosso feito depois de expirado o prazo para se fazer o protesto”, refere-se ao
protesto necessário (infra Cap. XII, nº 92), àquele que, obrigatoriamente, em
certas circunstâncias, deve ser tirado, sob pena de perder o portador o direito
regressivo contra os coobrigados no título.
Haveria o problema de, não sendo datado o endosso, saber-se se o mesmo teria
sido feito antes ou depois do prazo fixado para o protesto. Como é evidente, a
questão é relevante, pois a data altera completamente a natureza do endosso,
considerado um ato de efeitos puramente cambiais se feito antes do prazo fixado
para o protesto, ou de mera cessão comum, se depois. A Lei Uniforme resolveu de
pronto o assunto, estatuindo que, “salvo prova em contrário, presume-se que um
endosso sem data foi feito antes de expirado o prazo fixado para fazer o protesto”
(art. 20, 2ª al.).
45. ENDOSSO “SEM GARANTIA”
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Alguns autores propugnavam pela admissão, entre nós, do endosso sem
responsabilidade cambial, ou seja, o endosso apenas com efeito translativo da
propriedade do título, eximindo-se o endossante da responsabilidade pelo
pagamento da letra. Essa modalidade de endosso foi aceita por várias legislações,
inclusive a lei alemã de 1848, o Código de Comércio da Itália de 1882 e o Código
francês, mediante as normas introduzidas pela lei de 30 de outubro de 1935.
Apesar desses precedentes, a lei brasileira era taxativamente contrária ao endosso
“sem garantia”, pois, depois de expressar o princípio geral de que “o endosso
transmite a propriedade da letra de câmbio”, acrescentando que para a validade
desse “...suficiente a simples assinatura do próprio punho do endossador ou do
mandatário especial, no verso da letra....” (art. 8º), estabelecia a regra, de suma
importância para a garantia do título, de que “...o signatário da declaração cambial
fica, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento
da letra...” (art. 43). Esse dispositivo repelia frontalmente a permissão do endosso
sem garantia. E o art. 44, nº IV, da lei brasileira considerava não escrita, para os
efeitos cambiais, “a cláusula excludente ou restritiva da responsabilidade, e
qualquer outra beneficiando o devedor ou o credor, além dos limites fixados por
esta lei”.
A Lei Uniforme, como anteriormente foi dito, permite o endosso sem que o
endossante se responsabilize pela aceitação e pelo pagamento da letra (art. 15, 1ª
al.). Para que tal possa ocorrer, entretanto, necessário é que o endosso traga
cláusula especial a respeito, destacando a declaração do endossante o fato a fim
de que os posteriores detentores da letra não sejam ludibriados. Em tal caso, o
endosso tem por finalidade apenas justificar a circulação da letra, mas o
endossante que transmitiu o título com essa cláusula fica desonerado de
responsabilidade quanto à não aceitação ou não pagamento do mesmo.
46. CIRCULAÇÃO SEM ENDOSSO: LETRAS AO PORTADOR E LETRAS EM BRANCO
Falou-se, até aqui, no meio próprio para a circulação das letras de câmbio, que é o
endosso, modo simples de ser feita a transferência do título dando-lhe maiores
garantias pelas assinaturas, no verso ou no anverso do mesmo, dos endossantes.
Mas convém lembrar que a letra de câmbio pode também circular sem
necessidade do endosso, quando traz expressa a cláusula “ao portador”, lançada
por um dos endossantes, ou quando o endossante, não desejando nomear a quem
transfere o título, lança apenas a sua assinatura no verso do mesmo (endosso em
branco). Em ambos os casos a circulação da letra se faz por simples tradição
manual e será considerado titular dos direitos emergentes da letra aquele que com
ela se apresentar, desde que justifique a sua posse por uma série ininterrupta de
endossos, entendendo-se que o detentor recebeu a letra do endossante em branco
ou ao portador (Lei Uniforme, art. 16).
Note-se que a lei brasileira admitia a letra originariamente ao portador (Decreto nº
2.044, art. 1º, IV), isto é, que, ao criar e emitir a letra o sacador, em vez de
designar o tomador, inscrevesse a cláusula ao portador ou mesmo deixasse a letra
em branco. A Lei Uniforme seguiu orientação diversa exigindo que, na sua origem
(ao ser criada e emitida) a letra de câmbio tenha beneficiário designado, que pode
ser o próprio sacador (Lei Uniforme, art. 1º, nº 6; art. 3º e 1ª al.). Esse é que, de
posse do título, poderá transferi-lo a pessoa determinada ou não. No primeiro
caso, indicará essa pessoa, que passa a ser o titular dos direitos emergentes da
letra e, para transferir esses direitos a outrem, terá forçosamente que lançar sua
assinatura no título. Não querendo, entretanto, o tomador, primeiro titular dos
direitos emergentes da letra, ou qualquer endossante, individualizar aquele a
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quem transfere o título, poderá apenas lançar a sua assinatura antecedida da
cláusula ao portador (Pague-se ao portador), ou não. Em tais casos, faz-se a
circulação da letra por simples tradição manual, considerando-se portador legítimo
da mesma aquele que com ela se apresentar.
Note-se que duas são as maneiras de circular a letra sem endosso: a com a
cláusula ao portador e a letra em branco, que é a que simplesmente contém a
assinatura do endossante, sem a menção de que a letra deva ser paga ao
portador. Se bem que a circulação desses títulos se faça do mesmo modo, por
simples tradição manual; a Lei Uniforme faz diferença entre os mesmos,
especialmente, no que diz respeito ao lançamento do endosso que transformou a
letra em ao portador ou em branco. A Lei Uniforme admite, como já foi
salientando, o endosso no verso ou no anverso da letra, contrariando, assim, o
disposto na lei brasileira, e em muitas outras legislações, que só o permitem no
verso. Quando o endosso designa a pessoa do endossatário (endosso em preto)
pode ser lançado no verso ou no anverso da letra, isso porque facilmente se pode
reconstituir a cadeia de endossos, conferindo o recebimento e a transmissão do
título pela sucessão dos endossantes. Se o endosso traz a cláusula ao portador
também pode ser feito no anverso do título, pois a sucessão dos endossantes, em
tal caso, é facilmente recomposta. Se, contudo, o endosso não traz a cláusula ao
portador, consistindo na simples assinatura do endossante, essa assinatura deve
ser lançada no verso do título (Lei Uniforme, art. 13, 2ª al.), a fim de não ser
confundida com o aval.
Seguindo-se a um endosso em branco outro endosso em branco, a lei presume
que o signatário do último adquiriu a letra pelo primeiro endosso em branco (Lei
Uniforme, art. 16). Igualmente, se uma pessoa, de qualquer maneira, for
desapossada de uma letra, o portador da mesma, justificando o seu direito pela
série ininterrupta de endossos, mesmo que o último seja em branco, não é
obrigado a fazer a restituição, a não ser que seja provado que adquiriu a letra de
má-fé ou se, adquirindo-a, cometeu culpa grave (Lei Uniforme, art. 16, 2ª al.).
Tanto a letra ao portador como a endossada em branco podem, naturalmente,
receber outros endossos, sejam em preto, sejam em branco. E mesmo que uma
letra ao portador tenha sido posteriormente endossada em preto, esse
endossatário, querendo, poderá reendossá-la em branco, continuando o título a
circular pela simples tradição manual.
47. ENDOSSO A MAIS DE UMA PESSOA
Na obra Títulos de Crédito e o Código Civil, Editora Forense, 2004, p. 49, o
atualizador admitiu a possibilidade de uma letra de câmbio ser endossada a mais
de uma pessoa, conjunta ou separadamente. Daí a pergunta: quem será o
legítimo portador do título?
A resposta é que o legítimo portador do título é aquele que tem a sua posse,
autorizando a cobrá-lo, opinião esposada por Whitaker.
Quando no endosso de cambial há mais de uma pessoa, o credor celebra um pacto
de non petendo.
48. ENDOSSO FIDUCIÁRIO
É aquele em que o banco recebe o título do portador em cobrança; mas no caso, o
banco, até por via telefônica, estipula com o portador do título o endosso-
mandato.
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49. ENDOSSO CANCELADO (ART. 910 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002)
O endosso cancelado, segundo o disposto no § 3º do art. 910 do Código Civil de
2002 considera-se não escrito, norma originária no art. 16 da Lei Uniforme de
Genebra.
A parte na qual se considera não escrito o endosso cancelado “total ou
parcialmente” pode suscitar dúvidas, uma vez que se torna difícil aproveitar-se um
endosso parcialmente riscado.
50. ENDOSSO CANCELADO
O endosso cancelado é endosso considerado não escrito, por força do disposto no
art. 910, § 3º, do Código Civil, da mesma forma que o endosso condicional.
51. GARANTIA DO ENDOSSO
Anota Whitaker que “na cambial há tantas obrigações de garantia quantos forem
os devedores, com um único traço comum de se referirem todas ao mesmo
objeto. Daí a obrigação de o endossador garantir a realidade-veritas que ele
representa”. (José Maria Whitaker, op. cit., nº 75, pp.121-122).
Como se viu, o endosso parcial é riscado por ser nulo sem que haja quebra da
cadeia de endossos posteriores por força do princípio útile per inutile non vitiatur.
Para Bulgarelli, o endosso parcial é ineficaz.
52. PACTOS ADJETOS
Os títulos de crédito admitem a inserção de pactos adjetos inseridos na cártula ou
fora dela, visando a modificar, acrescentar ou excluir relações jurídicas constantes
da cambial.
Pontes de Miranda (Trat. Dir. Cambial, Ed. Bookseller, 2000, p. 57) distingue
relação subjacente e relação sobrejacente, a primeira correspondente à relação
que deu causa à cambial, isto é, relação fundamental ou causa debendi, a
segunda, em que as partes discutem relações fora do título. Nas relações
sobrejacentes, por exemplo, o endossante empresta ao endossatário direto
determinada quantia em dinheiro (mútuo).
O endossatário não paga o débito ao endossador.
Ao ser cobrada a dívida pelo endossatário, pode o endossador, seu credor, por
força do mútuo, lograr a compensação entre os dois créditos.
Outra hipótese ocorre quando determinada pessoa saca uma letra de câmbio
contra outra pessoa a qual aceita o título (aceitante).
Ao ser cobrado o título pelo sacador, pode o aceitante pedir a compensação do
valor cobrado com o crédito resultante do empréstimo feito ao sacador pelo
aceitante (mutuante).
Trata-se de exceção fundada na compensação originada de negócio
extracambiário.
João Eunápio Borges admite esse tipo de exceção, que o devedor tem contra o
credor daquele crédito que não se reflita no título, ao permitir cobrar do credor,
pelo que pode o credor neutralizar desde logo a pretensão do autor, opondo-lhe
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como exceção aquilo que iria fundamentar outra ação para evitar o solve et
repete.
Aliás, quaisquer pactos extracambiários só afetam as duas partes (endossador e
endossatário).
O fato de o emitente da nota promissória firmar posteriormente uma escritura
pública de confissão de dívida, ratificando as obrigações cartulares e
acrescentando quantias reais não constitui novação liberatória do avalista (Mario
Divey Correa Bittencourt, Rev. Tribs. 413/59).
Efeitos dos pactos adjetos:
a) na letra;
a.1) se atingirem os requisitos essenciais do título ou alterarem a sua natureza,
consideram-se não escritos (ex.: modificação da data do vencimento;
literalidade);
a.2) se não os atingirem, não produzem efeitos cambiários pela aplicação do
princípio utile per inutile non vitiatur (ex.: ordem de debitar em conta corrente o
débito) ou excepcionalmente poderão produzir efeito (ex.: cláusula salvo
embolso).
53. FORA DA LETRA
A regra é a mesma, isto é, as obrigações cambiárias são infensas aos pactos
cambiários inseridos fora do título caso alterem a natureza jurídica do título ou
seus requisitos essenciais.
A cláusula extracambiária que admite o vencimento antecipado do título é ineficaz
perante as obrigações cambiárias (cf. Revista de Direito Mercantil, nº 3, 1971, p.
71).
Essa é a opinião de José Maria Whitaker na qual se distingue:
a. as cláusulas consideradas não escritas – as que, inseridas no título, derrogam
os efeitos regulares do título (art. 44, II e IV, da Lei Cambiária) e,
b. as incompatíveis com o caráter abstrato, autônomo, independente da obrigação
e por isso anulam a letra.
Essa opinião colide com o pensamento de Mauro Brandão para quem as cláusulas
incompetíveis com o caráter abstrato da cambial referidas por Whitaker não
podem anular a letra, por virem eventualmente a ferir interesses de terceiros,
obrigadosno título, ou não, donde serem suficientes os incisos II e IV do art. 44
do Decreto nº 2.044, de 1908 para se considerar os casos “a” e “b” as cláusulas
não escritas, sem necessidade de se anular a letra.
Nota: o autor confunde abstração com autonomia.
54. INTERPRETAÇÃO DO ART. 903 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002
O art. 903 do diploma civil vem causando polêmica em função da difícil redação
que lhe foi atribuída, partindo o seu redator, o professor Mauro Brandão Lopes, da
distinção entre títulos atípicos e inominados e títulos típicos.
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Tal distinção no confronto entre a nossa legislação extravagante e o referido artigo
903 chega-se à conclusão da prevalência daquelas sobre o diploma civil, do que
resulta que ainda se acharem em vigor, toda a legislação sobre o assunto, por
exemplo, a Lei Uniforme de Genebra para os títulos de crédito e outras leis
referentes aos demais títulos, como o conhecimento de depósito e o warrant (Dec.
1.102/1903).
O legislador do Código Civil, nessa parte, criou nova categoria de títulos – atípicos
ou inominados – os quais vêm gerar extrema confusão no tratamento atribuído
aos títulos de crédito, sem se falar na variada interpretação que alguns autores
buscam na introdução de tais títulos no âmbito dos títulos em geral.
Assim o professor De Lucca (op. cit. p. 232) se manifesta:
 “...sempre que a lei especial for omissa – e não houver contradição com os seus
princípios – poderão ser aplicadas as normas constantes do presente Título VIII,
conforme a dicção do artigo em tela.”
Completa Marcos Paulo Felix da Silva (Títulos de Crédito no Código Civil de 2002 –
Questões Controvertidas, Ed. Juruá, 2006, p.78): “...para se ter clareza explica-se
melhor: as leis especiais que disciplinam as várias modalidades de títulos de
crédito não foram revogadas.
As normas gerais sobre títulos de crédito previstas no Código Civil brasileiro não
se aplicam ao conjunto de títulos regulados por lei especial, a não ser quando com
este compatíveis, e, em caráter suplementar, esclarece Newton De Lucca:”
Acontece que a matéria relativa à constituição dos títulos de crédito tem um
caráter essencialmente formalístico, consoante se observa da leitura da obra de
Vivante e Carvalho de Mendonça, do que se depreende que a existência de títulos
de crédito tratados em lei omissa, tal lacuna não deveria ser preenchida por
dispositivos do Código Civil em contradição fragrante, por exemplo, com a Lei
Uniforme de Genebra, no que toca ao aval parcial, aceito pelos Países signatários
da Convenção.
Outros exemplos podem ser citados para demonstrar a dificuldade que o
intérprete encontrará na aplicação dos referidos dispositivos inseridos no Código,
tantas foram as críticas a eles apresentadas pelos nossos maiores juristas.
ACEITE
55. CONCEITO DE ACEITE
Entende-se por aceite o ato formal segundo o qual o sacado se obriga a efetuar,
no vencimento, o pagamento da ordem que lhe é dada. Tal ato pode consistir ou
numa declaração subscrita pelo sacado (aceito a presente letra de câmbio etc.),
em qualquer parte da letra, ou na sua simples assinatura lançada no anverso da
mesma (Lei Uniforme, art. 25). Poderá o aceite ser dado por mandatário com
poderes especiais; nesse caso, tal mandatário age como representante legal do
sacado e, apesar de ser a sua assinatura que consta do título, é aquele quem
assume a obrigação.
Temos, então, que o aceite é um ato que só pode ser praticado pelo sacado;
contendo a letra uma ordem de pagamento cabe àquele a quem é dada a ordem
declarar se está disposto a cumpri-la ou não. Enquanto a letra não for aceita o
sacado nenhuma responsabilidade tem pela solvabilidade do título. O seu nome
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apenas está indicado na letra, constituindo mesmo essa indicação um dos
requisitos essenciais para a validade do título; mas neste não existe a sua
assinatura, indispensável para a assunção da obrigação, dado o formalismo e a
literalidade da letra. Daí o fato de, apesar de ter o seu nome mencionado no título,
o sacado não possuir nenhuma obrigação pelo pagamento do mesmo.
Se, entretanto, está o sacado disposto a obrigar-se pelo pagamento da letra,
aceita a ordem que lhe é dada, lançando nela uma declaração nesse sentido ou
simplesmente a sua assinatura. A partir desse momento, o título já não tem mais
sacado e sim aceitante. E esse se constitui o obrigado principal da letra. A ele, no
vencimento, é que o título deve ser apresentado para pagamento; as demais
pessoas, que lançaram suas assinaturas na letra e, assim, assumiram a obrigação
de pagá-la, só serão compelidas a cumprir essa obrigação se aquele, o aceitante,
não o fizer. Esses coobrigados são, assim, responsáveis indiretos ou subsidiários
pelo pagamento do título. A razão que justifica essa responsabilidade subsidiária é
que, sendo a letra uma ordem de pagamento, essa ordem é endereçada
diretamente a uma pessoa determinada, o sacado, cujo nome deve
obrigatoriamente figurar no título. Se tal pessoa declara, com a sua assinatura,
estar disposta a cumprir a ordem, as demais, dada a natureza especial dos títulos
de crédito, não deixam de ser responsáveis, mas só serão compelidas a cumprir as
obrigações assumidas se aquele a quem a ordem foi dada e a aceitou não o fizer.
Aceitante é, assim, o sacado que manifestou, com a sua assinatura, o desejo de
cumprir a ordem que lhe foi dada, tornando-se, desse modo, o obrigado principal
ou direto pelo pagamento do título, na época do vencimento.
56. QUEM PODE ACEITAR A LETRA
Sendo a letra de câmbio uma ordem de pagamento, é aquele a quem a ordem é
dada, isto é, o sacado, que tem o direito de aceitá-la. Por tal razão é que o nome
do sacado deve constar da letra, como requisito essencial para a validade desta,
figurando ou no contexto ou abaixo deste. Junto ao nome do sacado deve,
igualmente, se bem que a lei não o exija diretamente, estar mencionado o seu
domicílio, a fim de que o portador, quando necessário, o procure para saber da sua
intenção de cumprir ou não a ordem. Essa indicação, segundo a Lei Uniforme,
serve, igualmente, como lugar de pagamento da letra, caso desta não conste
menção especial a respeito (art. 2º, 3ª al.).
Algumas vezes, entretanto, em vez de ser uma só pessoa a quem a ordem é dada,
são enumeradas várias, ou seja, em lugar de existir apenas um sacado, existem
muitos. A Lei Uniforme não tem regras especiais a respeito mas a lei brasileira
estabelecia normas detalhadas sobre o assunto. Assim, dispunha o art. 10 do
Decreto nº 2.044 que, “sendo dois ou mais os sacados, o portador deve
apresentar a letra ao primeiro nomeado; na falta ou recusa do aceite, ao segundo,
se estiver domiciliado na mesma praça; assim, sucessivamente, sem embargo, da
forma da indicação na letra dos nomes dos sacados”.
Essa disposição, apesar de não ter sido expressamente mencionada na Lei
Uniforme, é de ser seguida, pois não existe, também, nenhuma regra que a
proíba. Assim, podem existir, na letra, indicações de mais de um sacado e, tal
acontecendo, será a mesma apresentada, inicialmente, ao primeiro nomeado,
seguindo-se, na falta ou recusa deste, a apresentação àqueles que estão
domiciliados na mesma praça do domicílio do sacado. Isso dá lugar a uma
indagação que a lei brasileira respondia prontamente: se existir na letra sacado
posterior no mesmo domicílio do portador, pode este apresentar-lhe a letra em
primeiro lugar, sendo o domicílio do primeiro sacado diferente? Evidentemente,
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não. Para a apresentação da letra não interessa o domicílio do portador e sim o do
sacado, razão pela qual dispõe a Lei Uniforme,de modo claro, que a apresentação
deve ser feita no domicílio do sacado. Desse modo, se uma letra é sacada contra
A, domiciliado no Rio de Janeiro, e são indicados como segundo e terceiro sacados
B e C, domiciliados em S. Paulo, a letra deve ser apresentada, em primeiro lugar,
a A, no Rio de Janeiro. Só na falta ou recusa do aceite por parte deste é que o
portador poderá apresentá-la a B e C, domiciliados em São Paulo.
É o sacado, desse modo, quem pode aceitar a letra. Essa regra, contudo, não é
absoluta, pois a lei permite (Lei Uniforme, art. 56) que, deixando o sacado de
fazê-lo, ou recusando-se a tal, depois que o portador pratica o protesto, ato solene
destinado, em primeiro lugar, a comprovar a falta ou recusa do aceite ou do
pagamento, um terceiro, não nomeado sacado, poderá aceitar a letra, desde que o
portador ou detentor da letra concorde com isso. Esse é o chamado aceite por
intervenção, ato espontâneo de um terceiro para honrar a ordem dada pelo
sacador. Se tal acontecer, esse aceitante por intervenção tem responsabilidade
equiparada à do sacado que aceita, isto é, torna-se obrigado principal pelo
cumprimento da obrigação contida no título, devendo, no vencimento, ser a letra a
ele apresentada, para efeito de pagamento, só na falta ou recusa desse
pagamento, comprovada mediante protesto, respondendo os demais coobrigados
(sacador, tomador, endossantes ou avalistas), solidariamente, pelo pagamento do
título.
Para aceitar legalmente a letra de câmbio o sacado ou o terceiro interveniente
deve ter capacidade civil ou comercial, como acontece com todos aqueles que se
obrigam cambialmente. Dizemos “para aceitar legalmente a letra” porque, dado o
princípio de autonomia e independência das obrigações cambiárias (Lei Uniforme,
art. 7º), se um incapaz aceitar a letra tal fato não desnatura o título. Este continua
garantido pelas assinaturas de quantos nele interferiram, fato esse de suma
relevância para a letra de câmbio, pois é ele que dá maior segurança ao portador
de receber, na época designada, a importância que a letra menciona.
57. APRESENTAÇÃO DA LETRA PARA ACEITE. APRESENTAÇÃO OBRIGATÓRIA E
FACULTATIVA
Ordem de pagamento, a letra de câmbio pode circular desde o seu nascimento até
a época fixada para o vencimento, mobilizando o crédito, garantida por todos
quantos nela lançam suas assinaturas. É justamente em face dessa garantia que
não se torna indispensável, desde o início da vida do título, a manifestação do
sacado sobre se aceita ou não a ordem que lhe é dada. A apresentação da letra ao
sacado, para aceite, depende, assim, do detentor ou proprietário conhecido do
título. Isso porque, como dissemos, mesmo sem o aceite o pagamento da letra é
garantido por quantos nela lançaram suas assinaturas.
Casos existem, entretanto, em que a letra, para ter vida normal, necessita contar
logo com o aceite do sacado. É o que se verifica com as letras passadas a tempo
certo da vista, pois o prazo de vencimento de tais letras fica a depender do
momento em que o sacado aceita a ordem que lhe é dada (supra, nº 28, d). Como
a letra necessita de um prazo de vencimento para saber-se quando exatamente se
torna exequível a obrigação nela contida, a manifestação do sacado é necessária a
fim de que a vida da letra possa ser limitada.
Temos, então, que, para funcionar regularmente como instrumento de mobilização
de crédito, em certos casos não é necessária a apresentação da letra ao sacado
para o aceite e, em outros, o é. Isso não quer dizer que em qualquer dos casos,
querendo, não possa o proprietário do título apresentá-lo ao sacado. O que é certo
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é que essa apresentação só se torna obrigatória quando o prazo do vencimento da
letra dela depender, isto é, nas letras passadas a tempo certo da vista.
Nessas condições, a apresentação da letra ao sacado, para aceitá-la, pode ser
facultativa ou obrigatória. Dizia a lei brasileira (art. 9º, 1ª al.) que “a apresentação
da letra ao aceite é facultativa quando certa a data do vencimento...” e letras com
vencimento certo são as passadas a dia certo (“Pagará V. S.ª no dia dezoito de
maio de mil novecentos e setenta”) e a tempo certo da data (“Pagará V. S.ª a
trinta dias da data desta letra de câmbio”). A letra à vista não é apresentada para
aceite pois o seu vencimento se dará no momento em que é apresentada ao
sacado; deve-se, ademais, notar que, para não tornar indefinido o prazo de
vencimento da letra à vista a Lei Uniforme dispõe (art. 34) que essa deve ser
apresentada ao sacado, para pagamento, “dentro do prazo de um ano de sua
data”, acrescentando que “o sacador pode reduzir este prazo ou estipular um outro
maior”. Também os endossantes podem encurtá-lo (art. 34). Ainda determinou a
Lei Uniforme que o “sacador pode estipular que uma letra pagável à vista não
deverá ser apresentada a pagamento antes de uma certa data. Nesse caso, o
prazo para a apresentação conta-se dessa data” (art. 34, 2ª al.).
Finalmente, de vencimento incerto são as letras a certo tempo da vista, apesar de
dizer a Lei Uniforme que elas devem ser apresentadas ao aceite “dentro do prazo
de um ano de suas datas”, no que modificou a lei brasileira, que determinava fosse
a letra a tempo certo da vista apresentada ao sacado, quando nela não havia
outro prazo fixado, dentro de seis meses, a contar de sua data (lei brasileira, art.
9º, 2ª al.), sob pena de perder o portador o direito regressivo contra o sacador,
endossadores e avalistas. Dependendo o vencimento da letra do aceite do sacado,
é óbvio que tal aceite deve ser datado, como requeria a lei brasileira (art. 9º,
parág. único) e estatui a Lei Uniforme (art. 25, 2ª al.). Divergem, contudo, as
duas leis quanto à falta de data desse aceite. Pela lei brasileira, tinha o portador
mandato presumido para inseri-la (art. 9º, parág. único), enquanto que a Lei
Uniforme admite que o aceite seja datado ou do dia em que foi realmente dado
ou, se o exigir o portador, do dia da apresentação. E na falta de data não tem o
portador mandato presumido para inseri-la, como acontecia com a lei brasileira,
mas a omissão da data deve ser constatada mediante um protesto, feito em
tempo útil, a fim de que o portador possa conservar o direito regressivo contra
endossantes e sacador (art. 25, 2ª al.). Essa é uma modalidade nova de protesto,
de que não falava a lei brasileira (protesto por falta de data do aceite).
58. PRAZO PARA APRESENTAÇÃO PARA O ACEITE
Para as letras cuja apresentação ao sacado, para aceite, é facultativa (a dia certo
e a tempo certo da data) tem o detentor da mesma o direito de apresentá-la a
qualquer momento, até a data do vencimento, dependendo essa apresentação
exclusivamente de sua vontade. A justificativa dessa faculdade é o fato de ser o
detentor da letra o titular aparente dos direitos dela decorrentes. Assim,
desejando reforçar a garantia do pagamento do título, pode o mesmo, a qualquer
instante, apresentá-lo ao sacado para que esse firme a declaração de que se
obriga a cumprir a ordem, valendo como tal sua simples assinatura (Lei Uniforme,
art. 25), no anverso da letra, sem uma expressão explícita de que a aceita. Em
regra, quando faz a declaração, o sacado escreve antes de sua assinatura: Aceito,
Pagarei, Sim, ou expressão equivalente (Lei Uniforme, art. 25); entretanto, se
apenas lançar a assinatura (Pedro Pereira do Nascimento), essa valerá como
aceite, se aposta no anverso da letra (Lei Uniforme, art. 25; lei brasileira, art. 11).
Também pode o aceite ser dado por mandatário com poderes especiais. Neste
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caso, à assinatura deve anteceder a declaração do mandato (Aceito, por
procuração de F – X; ou simplesmente – Pp. X).
Esses princípios gerais, contidos na lei brasileira e em outras leis, foram emparte
alterados pela Lei Uniforme que, sem lhes tirar a validade, criou várias exceções
que merecem ser conhecidas.
Assim, apesar de continuarem a existir letras com apresentação obrigatória e
letras com apresentação facultativa, o sacador, em qualquer modalidade da letra,
pode fixar um prazo para a apresentação, subordinando, desse modo, à sua
vontade, a faculdade ou obrigatoriedade da apresentação da letra ao sacado pelo
portador. Pode o sacador, a não ser quando se trate de uma letra a certo tempo da
vista, ou pagável em domicílio do terceiro, ou, ainda, pagável em domicílio diverso
do domicílio do sacado, proibir, na própria letra, sua apresentação ao aceite, só
sendo permitida ao portador apresentá-la para pagamento.
Ainda pode o sacador estipular que a apresentação para o aceite não se faça antes
de determinada data, e em tal caso, só decorrida essa, tem o portador o direito de
apresentar a letra ao aceite. Por último, qualquer endossante pode determinar que
a letra seja apresentada ao aceite, com ou sem fixação de prazo, excetuando-se,
contudo, dessa faculdade a letra que pelo sacador foi declarada não aceitável (Lei
Uniforme, art. 22).
Em se tratando de letra de câmbio com data incerta de vencimento, ou seja, a
letra passada a certo tempo da vista, há prazo prefixado para que, dentro dele, a
letra seja apresentada ao aceite, pois o vencimento da mesma fica dependendo
desse ato. Em tal caso, em primeiro lugar, deve-se verificar se, do contexto,
consta um prazo para a apresentação (A cento e vinte dias da vista da presente
letra de câmbio, que será apresentada a V. S.ª de dez a vinte de janeiro de mil
novecentos e setenta e um, pagará V. S.ª...); assim acontecendo, o título será
apresentado ao sacado dentro do prazo nele marcado, sob pena de perder o
portador o direito regressivo contra o sacado, endossadores e avalistas. Se,
apresentada a letra nesse prazo, há falta ou recusa de aceite por parte do sacado,
necessário é que tal fato seja comprovado legalmente, o que se faz por meio de
protesto (infra, Cap. XII).
Não mencionando, entretanto, a letra a tempo certo da vista o prazo para ser
apresentada ao aceite do sacado, o portador deverá proceder essa apresentação
dentro de um ano de sua data, de acordo com a Lei Uniforme (a lei brasileira dava
o prazo de seis meses), sob pena, igualmente, de perder o direito regressivo
contra o sacador, endossador e avalistas. Esse prazo de um ano de que fala a Lei
Uniforme pode ser aumentado ou reduzido pelo sacador (Lei Uniforme, art. 23, 2ª
al., que equivale ao “prazo marcado” de que tratava a lei brasileira, no art. 9º) ou
reduzido pelos endossantes. Pela Lei Uniforme, o aceite da letra a certo tempo da
vista deve ser datado; e, se assim não acontecer, o portador deverá protestá-la
por falta de data, a fim de conservar o direito regressivo contra endossantes,
sacador e avalistas (Lei Uniforme, art. 25; segundo a lei brasileira, o portador
podia inserir a data na letra que não a contivesse, em face do mandato tácito que
lhe outorgava o art. 4º). Em qualquer dos outros casos – haja um prazo marcado
para a apresentação ou não, vigorando, neste caso, o prazo legal de um ano – não
sendo a letra aceita deve o portador comprovar esse fato pelo protesto, para não
perder o direito regressivo contra sacador, endossadores e avalistas. Donde
facilmente se conclui que não é o simples fato de apresentar a letra ao sacado que
assegura o direito de regresso do portador contra os demais coobrigados no título;
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não sendo este aceito, o que garante o direito regressivo é o ato solene que atesta
o não aceite, ou seja, o protesto.
59. A LETRA NÃO ACEITÁVEL
O aceite é, sem dúvida, o fato mais importante que ocorre na letra de câmbio
visto como, por ele, o sacado, pessoa apenas nomeada no título para efetuar o
pagamento, se obriga a cumprir a ordem que foi dada, tornando-se, assim, o
obrigado principal.
Tão importante é o aceite que, em geral, as leis cambiais, como a brasileira,
reputavam não escrita a cláusula proibitiva da apresentação da letra ao aceite do
sacado (Decreto nº 2.044, art. 44, II). Pode o sacado aceitar ou não; mas ao
portador deve sempre ser facultada a apresentação da letra, pois se o sacado não
aceitar cabe ao portador tomar as providências para fazer valer o seu direito de
crédito contra os demais subscritores do título, comprovando o não aceite através
do protesto e, desse modo, podendo receber a importância de qualquer dos
endossantes, do tomador, do sacador ou de seus avalistas.
A Lei Uniforme, entretanto, admite a letra não aceitável, isto é, uma letra em que
o sacador pode proibir, no próprio título, a apresentação para aceite do sacado
que, mesmo em tais títulos, deve ser expressamente nomeado. Isso ocorrerá em
qualquer modalidade de letra, exceto se se tratar de uma letra pagável em
domicílio de terceiro, de uma letra pagável em localidade diferente da do domicílio
do sacado ou, obviamente, de uma letra sacada a certo tempo da vista, já que o
vencimento desta fica a depender do aceite ou da recusa do aceite do sacado (Lei
Uniforme, art. 22, 2ª al.). Emitida, pois, uma letra declarada pelo sacador não
aceitável, só será ao portador permitida a apresentação ao sacado para
pagamento, o que, se dando, liberará todos os coobrigados no título. Não paga a
letra, deve o fato ser comprovado por um protesto para que o portador possa
fazer uso do direito regressivo.
Autores discutem quanto às vantagens e desvantagens da letra não aceitável,
 cuja introdução na Lei Uniforme se deu por proposta dos Estados Unidos; mas o
fato é que, fora dos casos indicados, pode o sacador emitir letra privada da
apresentação para o aceite por parte do sacado. Naturalmente, como nota
Messineo, se o sacado aceita tal letra, o seu aceite perdura; mas, se o recusa, não
poderá a mesma ser protestada por falta de aceite. E se for, o portador se sujeita
a perdas e danos por parte do sacado, por não ter direito de apresentá-la para o
aceite, como acentuam Hamel, Lagarde e Jauffret.
60. REQUISITOS DO ACEITE. COMO E ONDE SE FAZ
A lei brasileira (art. 11) era clara quanto à validade do aceite, estatuindo que, para
esse ser tido como tal, era suficiente “a simples assinatura, do próprio punho do
sacado ou do mandatário especial, no anverso da letra”. A Lei Uniforme diverge a
respeito, admitindo que o aceite possa ser lançado no anverso ou no verso do
título. Quando no verso, deve trazer a declaração “aceito” ou semelhante, seguida
da assinatura do aceitante. Mas a simples assinatura lançada no anverso, mesmo
sem essa declaração, será considerada aceite (Lei Uniforme, art. 25).
As palavras “aceito”, “de acordo” ou outras semelhantes podem ser escritas pelo
próprio sacado, como podem, também, ser datilografadas ou até apostas
mediante carimbo. O importante é que não modifiquem elas a ordem que é dada,
pois isso redundaria em alteração da responsabilidade assumida pelo aceitante;
para maior segurança, entretanto, é conveniente que, havendo tal declaração, seja
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ela feita pelo próprio punho do sacado, pois, assim, será evitado o fato de um
terceiro alterar a declaração, escrevendo, por exemplo, antes de um aceite puro e
simples – o aceite que consta apenas da assinatura do sacado – declaração que
modifique ou suprima a responsabilidade deste, como, numa letra do valor de CR$
100.000,00, as palavras “Aceito para pagar apenas CR$ 50.000,00” ou
simplesmente “Não aceito”.
Apresentada a letra para aceite, pode o sacado, de acordo com a Lei Uniforme,
pedir ao portador que a apresente uma segunda vez, no dia seguinte ao da
primeira apresentação (Lei Uniforme, art. 24). Essa é uma inovação em nosso
direito, em que não era permitida nova apresentação, jáque, havendo falta ou
recusa do aceite, a letra, pela lei brasileira (art. 28), devia ser entregue ao oficial
competente para o protesto no primeiro dia útil seguinte ao dessa falta ou recusa.
A Lei Uniforme, contudo, admite a prorrogação, aduzindo que “os interessados
somente podem ser admitidos a pretender que não foi dada satisfação a este
pedido no caso de ele figurar no protesto”.
Quando, entretanto, a letra tem um prazo certo para aceite e a primeira
apresentação é feita no último dia do prazo, o protesto pode fazer-se no primeiro
dia útil seguinte (Lei Uniforme, art. 44, 2ª al.) para não perder o portador direito
regressivo contra os demais coobrigados.
Também declara a Lei Uniforme que “o portador não é obrigado a deixar nas mãos
do aceitante a letra apresentada para o aceite”. Deixando-a, entretanto, e se nela
o sacado apôs o seu aceite e depois, antes de restituí-la, riscou-a, esse aceite é
considerado como recusado (Lei Uniforme, art. 29). Essa solução da Lei Uniforme
discorda da lei brasileira, na qual “o aceite, uma vez firmado, não pode ser
cancelado nem retirado” (lei brasileira, art. 12). Pela Lei Uniforme, a anulação do
aceite, salvo prova em contrário, considera-se feita antes da restituição da letra.
Mas, se o sacado “tiver informado por escrito o portador ou outro signatário da
letra que a aceitou, fica obrigado para com estes, nos termos do seu aceite” (Lei
Uniforme, art. 29).
61. FALTA, RECUSA, LIMITAÇÃO OU MODIFICAÇÃO DO ACEITE
61.1. Falta do aceite
Por falta do aceite entende-se o fato de, por um motivo superveniente qualquer –
ausência da localidade, moléstia súbita etc. –, não ter podido o sacado manifestar-
se na letra de câmbio, apondo nela a sua assinatura. Como a letra é um título
formal e literal, cujos direitos se estribam no rigorismo de que está revestida, não
pode esse fato ser contemporizado pelo portador, sob pena deste ser prejudicado
nos seus direitos. Assim, procurando o sacado para apresentar-lhe o título a fim
de ser aceito, e não o encontrando, terá o portador que comprovar legalmente a
falta do aceite, fazendo com que a letra seja protestada. Naturalmente, ele só é
obrigado a isso em casos extremos, quando está a esgotar-se o prazo para a
apresentação. Se, no entanto, ainda houver prazo suficiente para a letra ser
reapresentada sem que o fato lhe traga prejuízos – como, por ex., se o título é a
tempo certo da vista, sem mencionar o prazo para a apresentação, e tenham
decorridos quatro meses da data da emissão, restando ainda oito para que aquela
apresentação obrigatória possa se verificar – nada impede que o título seja
reapresentado uma ou mais vezes. Entretanto, esgotado aquele tempo, deve o
título, no dia útil seguinte ao do vencimento do prazo, ser apresentado ao oficial
competente para o protesto, sob pena de perder o portador direito regressivo
contra o sacador, endossantes e avalistas.
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61.2. Recusa do aceite
Já a recusa do aceite pressupõe um ato deliberado do sacado, de não cumprir a
ordem que lhe é dada. Como se sabe, o sacado não tem nenhuma obrigação
cambial, já que o seu nome foi mencionado no título mas, até então, nenhuma
declaração, subscrita com a sua assinatura, existe no mesmo, manifestando o
desejo de cumprir a ordem que lhe é dada. Assim, só depois de lançar seu nome
na letra é que o sacado fica obrigado pelo pagamento da mesma. E o aceite é feito
espontaneamente, por ato unilateral da vontade, visto como, entre nós e no
direito uniforme, a letra não tem caráter contratual. Ainda que o sacado possua
provisão de valores do sacador, mesmo que tenha se comprometido com esse a
aceitar a ordem que lhe é dada – nem assim está obrigado a aceitar o título,
assumindo o dever de pagá-lo no vencimento. Dados os princípios da abstração,
autonomia e independência das obrigações cambiárias, qualquer pessoa que lance
num tipo a sua assinatura o faz por ato próprio da vontade. O sacado, desse
modo, quaisquer que sejam suas relações com o sacador, só aceitará a ordem por
ato espontâneo, visto como a obrigação que assume é pessoal e não por conta de
terceiro.
A recusa ao aceite pode ser feita tacitamente, apenas deixando o sacado de lançar
a sua assinatura na letra, ou de modo expresso, neste caso apondo uma
declaração em que categoricamente manifeste a sua intenção de não aceitar. Essa
declaração parece, à primeira vista, ferir o princípio de que quem assina na letra,
nela se obriga. No caso, entretanto, tal não acontece pois, antes da assinatura,
vem expressa a declaração de que o sacado não deseja cumprir a ordem. Julgar o
contrário seria extremar absurdamente o princípio da assunção das obrigações
cambiárias pelo lançamento da assinatura no título. Essa, na hipótese aventada,
serve apenas para autenticar a recusa contida na declaração e, por tal motivo, é
sempre conveniente, quando acontece, seja de próprio punho do não aceitante,
para evitar quaisquer dúvidas a respeito. A própria lei brasileira, em consonância
com o art. 26, 2ª al., da Lei Uniforme, declarava que “vale como aceite puro a
declaração que não traduzir inequivocamente a recusa” (art. 11, 2ª al.),
mostrando que essa recusa pode ser feita por escrito.
61.3. Limitação do aceite
Algumas vezes o sacado está disposto a aceitar a ordem mas não deseja fazê-lo
na sua totalidade. Em tais condições, declara, de maneira inequívoca, ou seja, que
não deixe dúvidas, a limitação, como, por exemplo, se a ordem é de Cr$
100.000,00 escreve: “Aceito para pagar apenas Cr$ 50.000,00”.
Essa limitação do aceite justifica-se pelo fato de não ser o sacado um obrigado no
título, mas apenas uma pessoa indicada para pagá-lo. Como o aceite não é
obrigatório, mas um ato espontâneo, pode o sacado reduzir a importância pela
qual vai se obrigar.
Em tais casos, limitado, pelo sacado, o aceite, produz-se um fato curioso: para os
efeitos cambiais, essa limitação equivale a uma recusa (Lei Uniforme, arts. 43, nº
1, e 51) e, sendo assim, o título deve ser protestado para que o seu portador
possa exercer o direito regressivo contra o sacador, endossantes e avalistas em
relação à parte não aceita (Lei Uniforme, arts. 43, 44, nº 1, e 51). O aceitante que
limitou o aceite fica, entretanto, cambialmente responsável pelo pagamento da
letra até o limite do aceite. A ação para haver dos coobrigados a importância não
aceita poderá ser intentada mesmo antes do vencimento da letra (art. 43); mas a
ação para receber a importância aceita só pode ser movida no vencimento do
título. Não reconhece a Lei Uniforme o vencimento antecipado da letra pela recusa
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parcial do aceite, como acontecia com a lei brasileira (art. 19, II). Mas, embora a
letra não seja considerada vencida, cabe ao portador, uma vez comprovada a
aceitação limitada, procurar receber dos obrigados regressivos, mesmo antes do
vencimento, a importância não aceita. Como o aceitante fica obrigado pelo aceite
parcial, e a ele deve ser apresentada a letra, no vencimento, se o portador receber
a parte não aceita de um obrigado regressivo não entregará a esse a letra de que
vai necessitar para cobrar a parte não aceita, mas uma cópia autêntica da mesma
e o instrumento do protesto, a fim de que o pagante, com esses documentos,
possa agir contra os obrigados que lhe são anteriores. Pode o obrigado que pagou
exigir que o pagamento da parte não aceita seja mencionada na letra e que dele
lhe seja dada quitação (Lei Uniforme, art. 51).
61.4. Modificações do aceite
Aceite modificativo é aquele em que o aceitante, em vez de acatar a ordem nos
termos em que ela foi emitida, altera algum requisito da mesma, como, por ex., a
data do vencimento, o lugar de pagamento ou, mesmo, a espécie da moeda em
que a importância deve ser paga, além de outradiversidade qualquer do que está
escrito no título. A lei brasileira (art. 11) dava a entender que empregou os termos
limitação e modificação como sinônimos e os autores, em geral, assim os tratam.
A Lei Uniforme é mais clara a respeito, referindo-se à limitação e à modificação em
itens diversos (Lei Uniforme, art. 26, 1ª e 2ª alíneas). Fazemos, aqui, a distinção
entre limitação e modificação para que melhor sejam entendidas essas alterações
que o aceitante provoca na letra. Paulo de Lacerda chamou ao aceite limitado ou
modificado de aceite qualificado.
Como acontece com o aceite limitado, o modificativo (aquele, por ex., em que o
aceitante altera a data do vencimento, declarando: “aceito para pagar em 30 de
dezembro”, quando o vencimento da letra fora fixado em 30 de novembro) é tido,
legalmente (Lei Uniforme, art. 26, 2ª al.), como recusa, e ao portador cabe adotar
as providências para garantir o direito regressivo, fazendo com que a letra seja
protestada. Do mesmo modo que ocorre com o aceite limitado, o aceitante, no
modificativo, fica cambialmente vinculado ao pagamento da letra, nos termos da
modificação.
62. ACEITE DOMICILIADO
Como requisito da letra de câmbio deve constar, segundo já foi visto, a indicação
do sacado. Junto a essa indicação deve vir o domicílio do mesmo, sendo que, na
falta de indicação especial, o lugar designado, ao lado do nome do sacado,
considera-se como sendo o lugar do pagamento e, ao mesmo tempo, o lugar do
domicílio do sacado (Lei Uniforme, art. 2º, 3ª al.). Se, por acaso, a letra não
trouxer o domicílio do sacado mas o lugar do pagamento, será esse considerado o
domicílio daquele. Se, entretanto, o escrito não trouxer o domicílio do sacado nem
o lugar do pagamento, não produzirá os efeitos de letra de câmbio, nos termos da
1ª al. do art. 2º da Lei Uniforme.
Pode o sacador, ao emitir a letra, indicar um lugar para pagamento diverso do
domicílio do sacado; essa é a chamada letra domiciliada. Indicando o sacador, na
letra domiciliada, um terceiro em cujo domicílio se deva efetuar o pagamento,
cabe a esse terceiro realizar o pagamento, se bem que o aceite seja do sacado.
Se, contudo, na letra domiciliada não for designado um terceiro em cujo domicílio
deva ser efetuado o pagamento, pode o sacado designar essa pessoa no ato do
aceite. Não fazendo tal indicação, entende-se que o aceitante se obriga, ele
próprio, a efetuar o pagamento no lugar indicado na letra (Lei Uniforme, art. 27,
1ª al.).
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Pode, ainda, numa letra pagável no domicílio do sacado, este indicar, no ato do
aceite, outro domicílio, no mesmo lugar para nele ser efetuado o pagamento (Lei
Uniforme, art. 27, 2ª al.). Este é o aceite domiciliado, que diverge da letra
domiciliada pelo fato de ser o novo domicílio para pagamento indicado não pelo
sacador mas pelo aceitante. No mais, aplicam-se as regras relativas à letra
domiciliada, isto é, estando indicada pelo aceitante a pessoa para efetuar o
pagamento do novo domicílio, essa pessoa assim deve fazer e, se recusar, o
protesto deve ser tirado contra o aceitante. Se, por acaso, o sacador-aceitante
apenas indicar o novo domicílio mas silenciar o nome da pessoa que vai efetuar o
pagamento, entende-se que ele próprio o fará. Em qualquer dos casos, trate-se de
uma letra domiciliada ou de aceite domiciliado, não há transferência de
responsabilidade do aceitante para a pessoa indicada a fazer o pagamento; aquele
continua a ser o responsável principal e contra ele é que serão adotadas medidas
se o título por acaso não for satisfeito pela pessoa indicada.
63. CANCELAMENTO E RETIRADA DO ACEITE
Título formal e literal, a letra de câmbio vale pelo seu conteúdo. As obrigações
nela são assumidas mediante as assinaturas dos obrigados. Mas, apesar da
autonomia e independência dessas obrigações, há uma ordem no cumprimento
das mesmas a que o portador deve se submeter. Assim, tendo este o direito de
regresso contra endossadores, sacador e avalistas, se desejar que a obrigação
seja cumprida primeiramente pelo sacador, dispensa todos aqueles que são
posteriores a esse, não sendo permitido, de tal modo, ao sacador que paga,
procurar reaver a importância da letra de um obrigado que lhe é posterior, seja o
tomador, seja qualquer dos endossadores.
Dentre todos os que garantem o pagamento da letra, o aceitante é o obrigado
principal. É a ele a quem a ordem é dada e, se aceita, a ele deve recorrer, em
primeiro lugar, o portador, só na falta ou recusa do pagamento, comprovada pelo
protesto, podendo lançar-se sobre os demais coobrigados. Este fato se explica
porque, sendo o sacado um estranho (estranho no sentido de não estar ainda
obrigado como aceitante), apenas mencionado no título como a pessoa que deve
pagar a letra, aceitando a ordem que lhe é dada se torna, ipso facto, responsável
pela mesma. O sacador, ao entregar a letra ao tomador, deve receber desse certa
importância, ou solver um débito, pois nada justificaria que onerasse o seu
patrimônio sem um motivo, o mesmo acontecendo com todos os endossantes da
letra em relação aos endossatários. Mesmo que assim não acontecesse, porém,
todos quantos se obrigam na letra não aceita o fazem na suposição de que o
sacado, no momento oportuno, ou aceitará ou pagará. Tal não acontecendo,
desfaz-se regressivamente a cadeia dos que se obrigaram, indo morrer essa
cadeia regressiva no sacador. Este desembolsará a importância recebida do
tomador como também desembolsaria se a letra fosse paga pelo sacado ou
aceitante. Apenas, neste último caso, as relações entre o sacador e o aceitante ou
sacado que paga (na letra à vista, por exemplo) são extracambiárias, regendo-se
pelo direito comum e não pelo direito cambial. Já no outro caso, há relações
cambiárias, inclusive dando direito a uma ação própria, cujo rito é o executivo.
O sacado é, assim, uma pessoa estranha ao título, que certamente tem relações
com o sacador, mas relações extracambiárias. Por tal razão é que, aceitando a
ordem que lhe é dada, o sacado o faz de modo espontâneo sem que,
juridicamente, seja obrigado a isso. Contudo, aceitando, torna-se o devedor
principal da letra, a ele devendo recorrer o portador, por ocasião do vencimento do
título.
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Por esse motivo, também, uma vez dado o aceite, não deve o aceitante cancelá-lo
ou retirá-lo. A lei brasileira era expressa a respeito: “O aceite, uma vez firmado,
não pode ser cancelado nem retirado” (art. 12). O que fizeram sacador,
endossadores e avalistas foi garantir o aceite e o pagamento da letra. Uma vez
aceita, cumpre-se aquela primeira garantia dada pelos endossantes aos
endossatários, restando, apenas, a garantia de que o pagamento será efetuado,
pois cada um responderá pela totalidade da soma se o aceitante não cumprir a
obrigação assumida.
A Lei Uniforme alterou a orientação da lei brasileira, a nosso ver bastante justa e
condizente com a natureza do título, admitindo que o aceite possa ser cancelado,
em determinada situação. Deve-se lembrar que a Lei Uniforme permite
expressamente a reapresentação da letra (art. 24) no dia seguinte ao da primeira
apresentação, se o sacado pedi-la ao portador. É justamente baseada nessa
segunda apresentação que a Lei Uniforme permite o cancelamento do aceite.
Apresentada a letra, ficando esta em mãos do sacado para devolução posterior,
pode o mesmo lançar o seu aceite e, antes de devolver o título, riscar aquele
aceite. Ao devolver a letra verifica-se que o aceite foi dado e posteriormente
riscado, considerando a Lei Uniforme esse aceite como anulado, o que não
acontecia com a lei brasileira. Para salvaguardar a integridade do título, pressupõe
a Lei Uniforme que o cancelamento do aceite, salvo prova em contrário, foi feito
antes da devolução da letra. E aindapara resguardar os interesses de terceiros
declara que, se o sacado houver informado, por escrito, ao portador ou a qualquer
signatário da letra, que a aceitou, fica obrigado para com estes, nos termos do seu
aceite (art. 29) (aceite dado e posteriormente riscado).
Inegavelmente, o princípio da lei brasileira dava maior garantia ao título, em face
da importância do aceite, sem dúvida o ato mais sério da vida da cambial. O
sistema da Lei Uniforme concede mais plasticidade ao título, o que a nosso ver é
um erro visto ser o rigor cambiário a maior segurança para os que lidam com as
cambiais. Também não há justificativa para o aceitante que cancelou o aceite
obrigar-se somente para com aqueles a quem comunicou, por escrito, que aceitou
a letra. Essa é uma concessão de natureza extracambiária e, como se sabe, a
história da letra de câmbio deve ser escrita no próprio título.
64. PROVA DA FALTA OU RECUSA DO ACEITE
A falta ou recusa do aceite não pode ser simplesmente alegada, necessário é que
seja provada. Essa prova se faz mediante um ato solene, com procedimento
especial, chamado protesto (lei brasileira, art. 12; Lei Uniforme, art. 44). O título,
para ser protestado, deve ser apresentado ao oficial competente no primeiro dia
útil seguinte à falta ou recusa do aceite (lei brasileira, art. 28; Lei Uniforme, art.
44), sob pena de perder o portador direito regressivo contra endossadores,
sacadores e avalistas. Note-se que, permitindo a Lei Uniforme a apresentação da
letra para aceite por duas vezes, se for a letra a tempo certo da vista apresentada,
a primeira vez, no último dia do prazo, o protesto pode ser feito ainda no dia
seguinte (Lei Uniforme, art. 44, 2ª al.).
65. EFEITOS DO ACEITE
Pelo aceite, ato voluntário praticado por uma pessoa em título que pertence a
terceiro, o sacado fica cambialmente obrigado para com o sacador e respectivos
avalistas. Essa é a regra contida no art. 28 da Lei Uniforme (equivalente ao art. 45
da lei brasileira) e dela se depreende que o aceitante, acatando a ordem que lhe
foi dada pelo sacador, fica obrigado para com este a cumpri-la, tornando-se,
assim, o devedor principal do título. Para com aqueles a quem o título foi
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transferido – tomador e endossantes – o sacador havia assumido responsabilidade
pelo aceite e pagamento da letra, o que, aliás, em relação aos proprietários
posteriores, ocorre também com cada um dos endossantes, mediante o
lançamento de suas assinaturas na mesma. Aceitando a letra, o sacado como que
declara que honrará a ordem que lhe foi dada, passando, daí por diante, a ser
obrigado principal pelo pagamento da mesma na época do vencimento. Como,
entretanto, tanto o sacador como endossantes assumiram responsabilidade pelo
aceite e pelo pagamento da letra (Lei Uniforme, arts. 9º e 15), apesar dessa já
aceita, perdura a responsabilidade dos mesmos pelo pagamento do título, na
época do vencimento, a quem de direito. Apenas, essa responsabilidade é
subsidiária ou indireta pois, tendo o aceitante se obrigado a cumprir a ordem, a
ele cabe, em primeiro lugar, efetuar esse pagamento. Só se assim não fizer, sendo
a falta ou recusa do pagamento devidamente comprovada mediante ato solene
que é o protesto, é que os coobrigados da letra poderão ser compelidos a fazê-lo,
podendo o portador agir regressivamente contra qualquer dos coobrigados, sem
estar, contudo, o credor adstrito à observância da ordem dos endossos (lei
brasileira, art. 50; Lei Uniforme, art. 47).
Esse, portanto, o primeiro e mais importante efeito do aceite: tornar o aceitante
cambialmente obrigado para com o sacador e, igualmente, para com todos
aqueles que participaram do título, já que esses deram garantia aos proprietários
posteriores pelo aceite e pagamento da letra. A consequência dessa obrigação
assumida pelo aceitante é que o próprio sacador que deu a ordem, no caso de não
ser essa cumprida pelo aceitante, pode acioná-lo para haver a importância da
letra. E essa é uma ação cambial, regida pelo direito especial, e não uma ação
regida pelo direito comum, que é a que tem direito o aceitante que paga contra o
sacador que lhe deu a ordem. Isso porque o negócio fundamental, as relações
entre sacador e sacado são extracambiárias não interessando, assim, àqueles que
participam da letra.
66. ENDOSSO DA LETRA AO ACEITANTE
Firmado o aceite, obriga-se o aceitante a pagar, no vencimento, a importância
constante do título. A letra, contudo, continua em circulação, podendo passar de
uma pessoa para outra mediante o endosso. Em tais condições, poderá a letra ser
endossada ao aceitante e esse, que tem a obrigação de pagar o título apenas no
vencimento, poderá reendossá-la, transferindo-a a outra pessoa (lei brasileira, art.
45, § 1º; Lei Uniforme, art. 11, 3ª al.). O fato de o aceitante ter figurado como
endossante não exime de responsabilidade os demais coobrigados no título.
Atingida a época do vencimento, o detentor da letra procurará receber do
aceitante. Este não pagando, protestada a letra, terá o portador direito regressivo
contra os endossantes, entre os quais figura aquela mesma pessoa que já figurou
como aceitante.
AVAL
67. CONCEITO
Entende-se por aval a obrigação cambiária assumida por alguém no intuito de
garantir o pagamento da letra de câmbio nas mesmas condições de um outro
obrigado. É uma garantia especial, que reforça o pagamento da letra, podendo ser
prestada por um estranho ou mesmo por quem já se haja anteriormente obrigado
no título.
A pessoa que dá tal garantia tem o nome de avalista; aquela a quem ele se
equipara, e por intermédio da qual é assumida a obrigação de pagar o título,
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denomina-se avalizado. Para assumir tal obrigação o avalista necessita ser capaz,
como, aliás, deve acontecer com todos quantos se obrigam cambialmente. Mas se,
dado o aval, posteriormente se descobre a incapacidade do avalista, esse fato não
prejudica a letra de câmbio, em virtude do princípio da autonomia das obrigações
cambiárias (Lei Uniforme, art. 7º).
O Código Comercial, ao regular as letras de câmbio não se referia ao aval,
mencionando apenas os abonadores da letra (supra, nº 14); o Decreto nº 2.044,
dando nova regulamentação à matéria, tratou especialmente do aval nos arts. 14
e 15, tendo, ainda, se referido ao avalista nos arts. 9º, 16, 24, 35, 38, 52 e 53. O
conceito de aval era expresso na lei brasileira pelos dizeres do princípio do art. 14,
in verbis: “O pagamento de uma letra de câmbio, independente do aceite e do
endosso, pode ser garantido por aval.”
A Lei Uniforme trata do aval nos arts. 30, 31 e 32. No art. 30 vem um conceito de
aval idêntico ao da lei brasileira, apenas acrescentando que a garantia do avalista
pode ser por todo o pagamento ou apenas por parte dele. Esclarece a Lei
Uniforme, o que não acontecia com a lei brasileira, que essa garantia pode ser
dada por um terceiro ou mesmo por pessoa que já seja signatária de letra.
No art. 31 da Lei Uniforme dispõe que o aval deve ser dado por escrito, no verso
ou no anverso da letra ou da folha anexa a esta (prolongamento), normas que
também se encontram na lei brasileira (art. 14, in fine). Acrescenta a lei que o
aval se exprime por uma expressão (“bom para aval”ou outra semelhante), a que
se segue o nome do avalista, dispositivo que não constava da lei brasileira, pela
qual, para a validade do aval, era suficiente a simples assinatura do avalista (art.
14, in fine). Reconhece, contudo, a Lei Uniforme o aval dado por simples
assinatura, desde que aposta no anverso da letra; ainda assim, se a assinatura,
aposta no anverso da letra, for do sacador ou do sacado, deve vir antecipada da
expressão caracterizadora do aval, a fim de não se confundir com o saque, já que
a Lei Uniforme, ao contráriodifere bastante o direito anglo-americano
do que predomina nos países europeus e sul-americanos. E isso, naturalmente, se
reflete no direito cambiário, apesar dos juristas terem tentado uma aproximação
dos dois sistemas, atenuando as divergências. Entretanto, algumas dessas ainda
perduraram, dando ao sistema anglo-americano características diversas das do
sistema continental.
Assim é que, enquanto predominou o formalismo no sistema continental, no
anglo-americano “há um maior liberalismo em matéria de forma, embora a
cambial seja considerada contrato formal em oposição aos simples contratos”. Na
letra de câmbio inglesa não constitui requisito essencial a inserção no documento
da expressão “letra de câmbio” e uma modalidade especial de causa, a
consideration, é requerida para a validade do título. Este só se completa com a
sua transferência (delivery). Algumas outras características próprias do sistema
jurídico anglo-americano afastam a letra de câmbio do sistema continental.
Convém, entretanto, ressaltar que, apesar dessas divergências, “o direito anglo-
americano, mais particularista e individualista, fundado no prestígio do precedente
judiciário, chega... por outro método e por outros caminhos, a soluções em grande
parte semelhantes às alcançadas no sistema continental”. Isso porque “há mais
uma diferença de técnica e de conceitos jurídicos do que de resultados”.
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A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO BRASILEIRO
16. CÓDIGO COMERCIAL
O Código Comercial brasileiro regulou as letras de câmbio no Título XVI – Das
letras, notas promissórias e créditos mercantis – Cap. I, arts. 354 a 424. O art.
425, integrante do Cap. II desse mesmo Título, tratava das “letras de terra”, que
eram “em tudo iguais às letras de câmbio com a única diferença de serem
passadas e aceitas na mesma província”.
 
Na Seção I, arts. 354 a 359, tratava o Código “da forma das letras de câmbio e
seus vencimentos”, dispondo, inicialmente, que a letra de câmbio devia ser datada
e declarar o lugar em que foi sacada, a importância a pagar e a espécie de moeda,
o valor recebido, em moedas ou em mercadorias, a época e o lugar do
pagamento, o nome da pessoa que devia pagar e a quem, “e se é exigível à ordem
e de quem”, o número de vias, entendendo-se, em falta dessa declaração, que se
tratava de uma única via (art. 354). A letra poderia ser passada à vista, a dias ou
meses da vista, por prazo indeterminado (que o Código chamava “a dias ou meses
de vista precisos”), a dias ou meses da data e a dia certo (art. 355). Passava, em
seguida, a determinar regras para a contagem dos prazos de vencimento (arts.
356 a 358) e a estipular que, “havendo diferença entre o valor lançado por
algarismo no alto da letra e o que se achar por extenso no corpo dela, este último
será sempre considerado o verdadeiro, e a diferença não prejudicará a letra” (art.
359).
Na Seção II, arts. 360 a 364, tratava o Código “dos endossos”, admitindo o
endosso em preto, “completo e regular”, que devia ser datado, escrito nas costas
da letra, “expressar o nome daquele a cuja ordem deve fazer-se o pagamento” e
“declarar se é valor recebido ou em conta ou se confere somente poderes de
mandatário ou procurador”, entendendo-se que “o endosso à ordem, sem declarar
se é valor recebido ou em conta, confere somente poderes de mandatário, sem
transferência da propriedade” (art. 361). Os endossos incompletos ou em branco
eram apenas tolerados, exigindo a lei, entretanto, “para serem válidos, que, pelo
menos, contenham a data do dia em que se fizeram, escrita pela própria letra do
endossante que o assinar; e presume-se sempre que são passadas “à ordem com
valor recebido” (art. 362). O endosso falso era considerado nulo mas só viciava os
endossos posteriores; os “de letras já vencidas ou prejudicadas, e daquelas que
não são pagáveis à ordem, têm o simples efeito de cessão civil” (arts. 363 e 364).
A Seção III, arts. 365 a 370, dizia respeito ao sacador, estatuindo o art. 366 que
este “é obrigado a ter suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ao
tempo do vencimento”, no que seguia a orientação do art. 115 do Código do
Comércio francês, já à época da promulgação do nosso Código modificado pela lei
de 19 de março de 1817. E o art. 368 explicava que “entende-se que existe
suficiente provisão de fundos em poder do sacado quando este, ao tempo de
vencimento, é devedor do sacador, ou àquele por conta de quem a letra foi
passada, de quantia ao menos igual, ou quando qualquer dos dois tiver crédito
aberto pelo sacado, que baste para o pagamento da letra”.
A Seção IV, arts. 371 a 391, referia-se ao portador da letra de câmbio, estatuindo
normas para a apresentação desta ao sacado e necessidade do protesto por falta
de aceite ou de pagamento. A Seção V, arts. 392 a 404, tratava do sacado e
aceitante, e a Seção VI, arts. 405 a 414, regulava o processo do protesto. Era
nessa seção (art. 408) que o Código obrigava o oficial público perante quem se
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intentaria o protesto, a fazer imediatamente o apontamento da letra, ou seja, a
inscrição do título em livro especial que era obrigado a possuir para tal fim. A
figura do apontamento desapareceu no Decreto nº 2.044, mas ainda hoje os
cartórios incumbidos do protesto de títulos empregam bastante o termo, temendo
os comerciantes o apontamento dos seus títulos por acreditarem que, com isso,
fica o seu crédito abalado.
O recâmbio era tratado na Seção VII, arts. 415 a 421, e os arts. 422 a 424, Seção
VIII, continham disposições gerais. No art. 422 o Código se referia aos abonadores
ou avalistas das letras, considerando-se, “ainda que não sejam comerciantes...
solidariamente garantes das mesmas letras, e obrigados ao seu pagamento, com
juros e recâmbios, havendo-os, e a todas as despesas legais”. O art. 425, já no
Cap. II deste Tít. XVI, era dedicado às “letras de terra”, títulos idênticos às letras
de câmbio “com a única diferença de serem passadas e aceitas na mesma
província”.
A fonte desse Título do Código Comercial foi o Código Comercial português de
1833, que tratava das letras de câmbio no Título VII, arts. 321 a 423. Mas tanto o
Código português como o nosso seguiram a orientação do francês, sendo aquele
mais expresso pois, no art. 321, dizia que “a letra de câmbio é o instrumento do
contrato de câmbio, e pode definir-se numa carta solene datada dum lugar, pela
qual o que a assina, que se chama sacador, encarrega aquele, a quem escreve,
que se denomina sacado, de pagar em outro lugar, quer à vista, quer numa época
determinada, a uma pessoa designada, que se conhece pelo nome de portador, ou
à sua ordem ao endossatário, uma soma de dinheiro enunciada nela, e
reconhecendo haver recebido ou fiado do tomador o valor da letra nas expressões
valor recebido, ou valor em conta”. Vê-se aí que o legislador português de 1833
seguiu, em tudo, a orientação do Código francês de 1808, conceituando a letra de
câmbio como o instrumento de um contrato de câmbio destinado a transportar
valores de um lugar para outro.
Não foi tão taxativo o legislador brasileiro de 1850, mas da leitura dos dispositivos
do Código Comercial relativos à letra de câmbio facilmente se verifica que a
orientação seguida foi idêntica, muito embora, ao ser promulgado o nosso Código,
já estivesse em vigor a lei alemã de 1848, sendo de notar que essa se baseou
principalmente nos estudos de Einert, que datam de 1830, havendo, desse modo,
oportunidade de serem as teorias por este defendidas do conhecimento dos
elaboradores do Código Comercial, cujo projeto foi iniciado em 1832.
Assim, de maneira expressa, exigia o Código que a letra de câmbio mencionasse o
valor recebido, especificando se foi em moeda, e a sua qualidade, em
mercadorias, em conta ou por outrada brasileira (art. 1º, nº V), não exige a assinatura do
sacador abaixo do contexto; nem se confundir, também, o aval com o aceite puro
e simples, pois, pelo art. 25 da Lei Uniforme, “...vale como aceite a simples
assinatura do sacado aposta na parte anterior da letra”.
Ainda dispõe o art. 31 da Lei Uniforme que o aval deve indicar a pessoa por quem
se dá, na falta dessa indicação entendendo-se que o aval é pelo sacador. A lei
brasileira tratava desse assunto de maneira diferente, declarando que o avalista se
equipara àquele a quem indicar; na falta de indicação, àquele abaixo de cuja
assinatura lançar a sua; fora desses casos, ao aceitante e, não estando aceita a
letra, ao sacador (Decreto nº 2.044, art. 15).
Por último, o art. 32 declara, de início, que o avalista é responsável da mesma
maneira que a pessoa por ele avalizada, o que equivale ao disposto no início do
art. 15 da lei brasileira, que equipara o avalista àquele cujo nome indicar. A seguir,
diz a Lei Uniforme que a obrigação do avalista se mantém mesmo no caso de ser
nula a obrigação por ele garantida, a não ser que essa nulidade resulte de um
vício de forma, norma que de um certo modo se coaduna com o disposto no art.
43 da lei brasileira, ao tratar da autonomia das obrigações cambiárias. Finalmente,
estatui a 3ª alínea do art. 32 da Lei Uniforme que, se o dador do aval paga a letra,
adquire os direitos emergentes da mesma contra a pessoa a favor de quem foi
dado o aval e contra os obrigados para com esta em virtude da letra. A lei
brasileira não dispunha sobre o assunto e o fato de declarar que o “avalista é
equiparado àquele cujo nome indicar” dava lugar a discussão quanto aos direitos
do avalista em relação ao avalizado, se bem que em geral fosse aceito o princípio
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de que o avalista tinha direito regressivo contra o avalizado, querendo o termo
equipara, empregado na Lei, significar apenas o mesmo grau de responsabilidade,
não uma unificação dessa responsabilidade.
68. HISTÓRICO DO AVAL
Há discordância entre os autores sobre a origem do termo aval, alguns o fazendo
provir da expressão francesa à valoir ou faire valoir, outros da expressão latina a
valere, outros, ainda, e estes em maior número, da expressão italiana a valle,
 que significa ao pé, embaixo, da letra. Seja qual for a origem do termo, o certo é
que o aval foi utilizado desde que a letra de câmbio passou a ser empregada no
comércio (Saraiva menciona o aval em uma letra de câmbio datada de 1359),
tendo sido regulado pela Ordenança francesa do Comércio Terrestre de 1673, daí
passando para o Código de Comércio da França de 1808. Os demais Códigos que
seguiram a orientação do francês admitiram o aval, tendo sobre ele disposto o
Código de Comércio português de 1833, nos arts. 351 e 353, permitindo, aliás, o
aval em separado, conforme o art. 352: “A garantia do aval, prestada por
terceiros, pode ou ser escrita na própria letra ou em instrumento separado, e até
mesmo por uma carta mandadeira.”
 
O Código Comercial brasileiro, como já vimos (supra, nº 14), não se referiu ao
aval, mencionando apenas os abonadores da letra de câmbio.
69. NATUREZA JURÍDICA DO AVAL
O aval é uma obrigação de garantia própria dos títulos cambiários ou dos a eles
equiparados. Assim sendo, não se confunde com as demais garantias do direito
comum, se bem que, com algumas, como a fiança, tenha muitos pontos de
contato. Igualmente, não tem a mesma natureza jurídica das demais garantias
oferecidas ao portador pelos que participam da letra de câmbio, tais como o
sacador, os endossantes e o aceitante.
Em princípio – e assim está mencionado em algumas leis, expressamente – o aval
é garantia dada por terceiros. Se, anteriormente, como ocorria no Código
Comercial português de 1833, art. 352, esse terceiro era um estranho à letra, hoje
deve dar-se novo sentido ao termo, vez que alguém que já se obrigou na letra,
seja como sacador, endossante ou até mesmo aceitante, pode, igualmente,
avalizá-la. O que ocorre é que, em tais casos, o aval é quase sempre improdutivo,
já que existe uma garantia anterior pelo cumprimento da obrigação contida no
título por parte daquele que o avalizou. Juridicamente, entretanto, o avalista é um
terceiro dentro das obrigações cambiais, pela posição singular que o mesmo ocupa
no título, garantindo o cumprimento da obrigação, portanto, a validade da letra,
mas essa garantia equiparando-se à daquele a quem avaliza. Significa isso que o
avalista garante o cumprimento da letra em função das obrigações assumidas pelo
avalizado. Consequência desse fato é que se o avalizado cumpre a obrigação,
cessa a responsabilidade do avalista, não podendo nem mesmo aquele avalizado
contra ele tentar qualquer ação; igualmente, havendo o portador renunciado a
fazer cumprir a obrigação por parte do avalizado, essa renúncia abrange o
avalista, que não mais poderá ser acionado pelo cumprimento da obrigação (Ex.: o
título recebeu uma série de endossos, firmados por A, B, C, D, E e F. Desses
endossantes, E foi avalizado por X. Se o portador, intentando ação regressiva,
procura receber a importância, em primeiro lugar, de D, que está anterior a E, e
esse paga, D não tem mais ação contra E, que tinha X como avalista. Nessas
condições, cessa a obrigação do avalista X, que se equiparara ao endossante E,
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porque F, ao cobrar de D, renunciou ao direito de cobrar de F e de seu avalista X.
Por tal razão, os endossantes anteriores não poderão mais cobrar de X a
importância mencionada na letra).
Temos, assim, que o aval é uma garantia própria dos títulos cambiários e dos a
eles equiparados, que não se confunde com as demais garantias dadas nos títulos
de crédito, sendo, igualmente, diversa das garantias do direito comum, tais como
a fiança, o penhor, a hipoteca etc.
70. AVAL, FIANÇA E ENDOSSO
Dissemos que o aval é garantia própria dos títulos cambiários, que não se
confunde com as demais garantias do direito comum, entre as quais a fiança. De
fato, muitas pessoas consideram o aval como fiança nos títulos de crédito,
igualando os dois institutos que, apesar de terem pontos de contato, na realidade
são diversos.
Em primeiro lugar, e como diferença maior, o avalista garante o cumprimento da
obrigação constante da letra da mesma maneira que o avalizado. Tal quer dizer
que as obrigações assumidas pelo avalizado e pelo avalista são equiparadas,
donde, muitas vezes, proclamar-se que o avalista é um cossacador, um
coendossante ou um coaceitante, conforme a pessoa a quem avalize. Sendo as
suas obrigações equiparadas, o credor poderá acionar qualquer deles e, no caso
de o fazer em relação ao avalista, esse não pode requerer que, em primeiro lugar,
seja acionado o avalizado, já que a obrigação que ele assumiu é autônoma e
independente, apesar de ser do mesmo grau da do avalizado. Já na fiança, o
fiador poderá requerer que, em primeiro lugar, seja executado o afiançado
(benefício de ordem), segundo os arts. 827, 828 e 839 do Código Civil. Poder-se-
ia argumentar que, na fiança comercial, não há benefício de ordem ou de
excussão (Código Comercial, arts. 258 e 261, revogados pelo atual Código Civil),
mas, ainda assim, não se confunde a fiança comercial com o aval, pois, entre
outras razões, aquela pode ser dada em documento separado, enquanto que o
aval tem que ser lançado no próprio título; na fiança comercial, não sendo o fiador
comerciante, é necessária a outorga uxória, enquanto que no aval tal não
acontecia. O novo Código Civil dispôs sobre a necessidade da vênia conjugal, seja
no aval, seja na fiança, exceto no regime de separação absoluta (art. 1.647, III,
do Código Civil). Sobretudo no caso do aval, esta inovação prejudica a inerente
celeridade dos negócios cambiários. Alguns doutrinadoresjá entendem que o aval,
mesmo dado sem a vênia conjugal, não pode ser anulado, apenas caracteriza a
inoponibilidade do título ao cônjuge que não assentiu. 
Não obstante algumas similitudes, fiança e aval são garantias diversas, não
apenas exigindo requisitos especiais como, igualmente, tendo características
diferentes.
Também muitas vezes se confunde, na prática, o aval com o endosso, sendo
mesmo comum o emprego errôneo desses termos nos meios comerciais. Não há,
entretanto, razões para tal confusão, pois os dois institutos são inteiramente
diversos. O endosso é um meio de transferência dos direitos do título, mediante a
assinatura do detentor legitimado, no verso ou no anverso da letra, garantindo o
endossante, salvo cláusula em contrário, o aceite e o pagamento da mesma. Já o
aval é uma garantia suplementar dada por pessoa que vem ocupar posição
especial no título, não necessitando que essa pessoa seja detentora legitimada do
mesmo (o que é essencial no endosso) para assumir tal obrigação. O aval não
transfere a propriedade ou disponibilidade da letra, como acontece com o endosso.
O avalista é alguém que, espontaneamente, assume a obrigação de pagar a letra,
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em posição semelhante à do avalizado, alguém, na realidade estranho às relações
cambiais e que interfere no título apenas visando dar maior segurança ao
portador, quanto ao cumprimento da obrigação constante do mesmo.
71. QUEM PODE AVALIZAR. COAVALISTAS; AVALISTAS SIMULTÂNEOS E
SUCESSIVOS
Para avalizar uma letra de câmbio necessário será, como acontece com todos
quantos se obrigam nos títulos cambiais, que o avalista seja capaz, civil ou
comercialmente. Possuindo tal capacidade, o avalista está apto a interferir na
letra, garantindo o cumprimento da obrigação em situação semelhante à daquele
a quem avaliza.
Podem figurar na letra, como avalistas, quaisquer pessoas que dela já
participaram, muito embora, como já foi mencionado (supra, nº 61), avais em tais
condições sejam quase que improdutivos.
De fato, se o sacador, o endossante ou o aceitante avalizam uma letra, há uma
repetição de obrigações pois, na realidade, com o saque, o endosso ou o aceite já
estavam eles garantindo o cumprimento da ordem dada contra o sacado. Apenas
poder-se-ia dizer que, pela equiparação do avalista ao avalizado, quem avaliza o
aceitante assume, como este, obrigação direta e principal pelo pagamento do
título. Trata-se, porém, de simples questão de ordem, pois, tanto o aceitante como
o endossante e o sacador se obrigam, perante o portador, pelo pagamento da
letra.
Cada um daqueles que assume obrigações no título – sacador, endossantes e
aceitante – pode ter sua obrigação avalizada. Assim, uma mesma letra pode
possuir muitos avais, o que, de certo, aumenta a garantia do pagamento, dando
maior força ao título, pelo grande número de obrigados com que o mesmo conta.
Admite-se, também, que duas ou mais pessoas compareçam, na letra, como
avalistas do mesmo obrigado. Esses avalistas podem ser simultâneos ou
sucessivos. Entendem-se simultâneos quando todos os avalistas garantem
diretamente o avalizado; sucessivos quando um avalista garante um outro avalista
(Ex.: de avalistas simultâneos: “Em aval de F – A, B, C”; de avalistas sucessivos:
“Em aval de F – A, em aval de A – B). Em regra, não havendo declaração de
sucessividade, os avais dados a um obrigado na letra entendem-se simultâneos.
Na prática, a colocação dos nomes dos avalistas em linhas superpostas, com
número de ordem (1º avalista; 2º avalista etc.) é considerada como sendo avais
sucessivos, apesar de não haver declaração expressa de sucessividade.
Cambiariamente, o fato de os avalistas serem simultâneos ou sucessivos não tem
importância pois, equiparando-se o avalista ao avalizado (Lei Uniforme, art. 32, 1ª
al.) poderá o credor do título cobrar de um, alguns ou todos os avalistas, e esses,
pelo princípio da equiparação, são obrigados a pagar; extracambiariamente,
entretanto, o fato tem significado visto como, em se tratando de avalistas
simultâneos, o que paga só pode reaver dos demais avalistas a quota que lhe cabe
na divisão da dívida por todos; a solidariedade entre os avalistas, no caso, é a do
direito comum e não a cambiária. Já nos avais sucessivos o avalista que paga tem
o direito de cobrar toda a importância do que lhe está anterior; não há, assim,
repartição da dívida entre todos os avalistas, pois se trata de solidariedade
cambiária (Lei Uniforme, art. 47).
Convém notar que, se o avalista se equipara ao avalizado (razão pela qual o
credor pode cobrar o título indiferentemente de um ou de outro) não toma o lugar
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que este tem na letra, isto é, não o exclui do cumprimento da obrigação. Por esse
motivo, o avalista que paga pode cobrar do seu avalizado a importância que
pagou, do mesmo modo que tem o direito de fazê-lo de quaisquer dos obrigados
anteriores ao avalizado. Já o mesmo não acontece quanto ao avalizado em relação
ao seu avalista; não pode, realmente, aquele cobrar do avalista a importância que
pagou, pois, apesar de ter obrigação equiparada à do avalizado, o avalista é
obrigado posterior àquele, e, pelo princípio próprio do direito cambiário, os
obrigados não têm direito de ação contra os que se obrigam posteriormente, pois
esses, na verdade, se obrigaram perante os que vieram depois a eles, não perante
aqueles que antes haviam assumido obrigação na letra.
72. REQUISITOS DO AVAL
 “Para a validade do aval”, dizia a lei brasileira (art. 14) “...é suficiente a simples
assinatura do próprio punho do avalista, ou do mandatário especial, no verso ou
no anverso da letra”. Essa disposição da lei revogada encerra, mesmo na vigência
da Lei Uniforme, os requisitos necessários à validade do aval. Esses requisitos são
os de que o aval deve constar da assinatura do próprio punho do avalista ou de
mandatário especial e que essa assinatura seja dada no próprio título, em virtude
do princípio da literalidade da letra de câmbio.
A Lei Uniforme, depois de declarar que o aval deve ser escrito na própria letra,
estabelece que o mesmo se exprime pelas palavras “Bom para aval” ou qualquer
fórmula equivalente, sendo, contudo, considerada aval a simples assinatura do
dador, aposta na face anterior da letra, salvo se se tratar de assinatura do sacado
ou do sacador (Lei Uniforme, art. 31).
Tem-se, então, que, quando lançado no verso da letra, o aval deve constar sempre
de uma declaração do dador (“Bom para aval” ou outra semelhante), assinada
pelo mesmo. Com isso, quis a Lei Uniforme distinguir o aval do endosso em
branco, que pode consistir também em uma simples assinatura no verso da letra.
Certo é que pode surgir o problema, já assinalado por Silva Pinto, de ser
encontrada numa letra de câmbio simples assinatura no verso, não podendo essa
assinatura ser identificada como um endosso em branco, como, por exemplo, se a
letra circulou sempre com endosso em preto. Pela lei brasileira o caso era fácil de
resolver, pois tal assinatura seria considerada um aval; como, entretanto, a Lei
Uniforme requer que, quando, aposto no verso da letra, o aval traga sempre uma
declaração (“Bom para aval” ou outra semelhante), parece-nos que a solução é
considerar essa assinatura como sem efeito, de acordo com o pensamento de Silva
Pinto, que é, por sinal, o mesmo de Mossa, Supino, De Semo e Arminjon et Carry,
por ele citados. Assim sendo, segundo a Lei Uniforme, escrito no verso da letra o
aval deve obrigatoriamente trazer uma declaração (“Bom para aval” ou
semelhante), enquanto que, no anverso da letra, a simples assinatura será tida
como aval desde que essa assinatura não seja do sacador (que pode emitir a letra
assinando em qualquer parte do anverso e não somente abaixo do contexto, comodeterminava a lei brasileira), ou do sacado (para não confundir com um aceite,
que pode constar da simples assinatura do sacado, no anverso da letra).
Claro é que o aval pode ser dado, com a declaração, também no anverso da letra.
E desse modo poderá ser tanto do sacador como do sacado, já que, com a
declaração, se sabe perfeitamente qual a garantia que o signatário está
oferecendo.
Pode, igualmente, o aval ser datado, muitas vezes mesmo sendo interessante que
assim aconteça a fim de que se saiba o momento em que o avalista assumiu a
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obrigação pois, em alguns casos, esse fato tem importância, como, por exemplo,
no aval dado posterior ao protesto. Em tais condições, o aval tem efeito de fiança.
Em face do princípio da literalidade da letra de câmbio, o aval deve ser dado no
próprio título cambial. Não será permitido, assim, aval por documento em
separado, se bem que, como já foi assinalado, algumas legislações o admitam,
como as da França, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile, Costa Rica, Cuba,
Equador, Haiti, República Dominicana, Honduras, El Salvador.
O novo Código Civil trouxe, em seu art. 1.647, inciso III, a necessidade de outorga
marital para o avalista casado. É preceito que comporta divergência interpretativa,
muito discutida pela doutrina e de fundamental importância para a jurisprudência.
A falta da vênia conjugal seria suficiente para invalidar a garantia?
A controvérsia se articula, de plano, sobre a validade da disposição do Código
Civil, uma vez que afronta a norma da Lei Uniforme de Genebra. Impõe-se, a
despeito da Lei Uniforme de Genebra, mais um requisito formal ao avalizamento, o
que, na conclusão de Rachel Stajn e Haroldo Verçosa, dependeria de denúncia ao
Tratado: “considerando-se que a Lei Uniforme resulta de um tratado internacional
do qual o Brasil faz parte, para que a regra introduzida pelo novo Código Civil,
institucionalizadora da autorização, pudesse vir a afastar aquele texto, teria sido
necessária a denúncia do tratado, o que não ocorreu. Daí que não seria eficaz para
o fim pretendido uma cláusula do tipo ‘Outorgo a presente autorização
exclusivamente para os fins do art. 1.647 do novo Código Civil’”.
O argumento não subsiste em face da disciplina do Direito Internacional, cuja
orientação não permite dizer que a lei emanada de Convenção Internacional
sobrepuje, em hierarquia, a lei ordinária nacional. Prevalece, portanto, o sistema
básico em que a lei posterior revoga a anterior. É também a opinião de José Mário
Bimbato.
Logo, deve-se partir do pressuposto de validade da norma civilista para a
disciplina dos títulos de crédito, o que conduz à questão sobre os efeitos da falta
da outorga uxória. A oscilação sobre o tema na jurisprudência expõe a falta de
consenso sobre a matéria, sendo que nem o Superior Tribunal de Justiça
conseguiu firmar, de maneira definitiva, seu entendimento.
O Enunciado nº 114 do Conselho da Justiça Federal assinala:
 “Enunciado 114 – Art.1.647: o aval não pode ser anulado por falta de vênia
conjugal, de modo que o inc. III do art. 1.647 apenas caracteriza a inoponibilidade
do título ao cônjuge que não assentiu.”
A aprovação do enunciado não traduz, contudo, a pacificação desta tese no
Superior Tribunal de Justiça, muito embora tenha sido o próprio órgão, por meio
do Conselho da Justiça Federal, que aprovou o verbete. A linha de precedentes
daquela Corte é no sentido de que a falta de outorga invalidaria a própria garantia,
do qual é sintomático o seguinte acórdão:
 “Recurso especial – Ação anulatória de aval – Outorga conjugal para cônjuges
casados sob o regime da separação obrigatória de bens – Necessidade – Recurso
provido.
1. É necessária a vênia conjugal para a prestação de aval por pessoa casada sob o
regime da separação obrigatória de bens, à luz do artigo 1.647, III, do Código
Civil.
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2. A exigência de outorga uxória ou marital para os negócios jurídicos de
(presumidamente) maior expressão econômica previstos no artigo 1.647 do
Código Civil (como a prestação de aval ou a alienação de imóveis) decorre da
necessidade de garantir a ambos os cônjuges meio de controle da gestão
patrimonial, tendo em vista que, em eventual dissolução do vínculo matrimonial,
os consortes terão interesse na partilha dos bens adquiridos onerosamente na
constância do casamento.
3. Nas hipóteses de casamento sob o regime da separação legal, os consortes, por
força da Súmula n. 377/STF, possuem o interesse pelos bens adquiridos
onerosamente ao longo do casamento, razão por que é de rigor garantir-lhes o
mecanismo de controle de outorga uxória/marital para os negócios jurídicos
previstos no artigo 1.647 da lei civil.
4. Recurso especial provido.”
No entanto, com base no já mencionado verbete 114 do Conselho da Justiça
Federal, inúmeros Tribunais de Justiça Estaduais vêm desprovendo os pedidos de
anulação da garantia, consignando apenas sua inoponibilidade ao cônjuge que não
assentiu. São exemplos: AC nº 9073174-74.2009.8.26.0000, Des. Rel. Moura
Ribeiro, 11ª Câmara de Direito Privado do TJSP, DJe de 13.09.2012; Apelação
Cível nº 0005887-75.2005.8.19.0004, Des. Rel. Antônio Carlos Amado, 10ª
Câmara Cível do TJRJ, j. 25.04.2007; AC nº 1.0647.07.074944-3/001, 14ª
Câmara Cível do TJMG, Des. Rel. Rogério Medeiros, DJ 02.12.2008).
É bem de ver , portanto, o dissenso pretoriano quanto aos efeitos desencadeados
pela falta de outorga uxória, o que só pode contribuir para a insegurança jurídica.
A melhor exegese parece-nos ser aquela que mantém a garantia, restringindo-se a
invalidá-la face aquele que não emitiu seu consentimento. Afinal, não se pode
invadir a esfera patrimonial de alguém sem seu consentimento, mas também se
afigura desproporcional anular o aval, o que desaguaria no esvaziamento do
instituto, com o esvaziamento da garantia.
73. LUGAR DO AVAL. A QUEM SE AVALIZA
A assinatura do avalista pode ser dada no anverso ou no verso da letra (Lei
Uniforme, art. 31). Não, há, assim, lugar especial no título para ser lançado o aval.
Esse fato às vezes causa admiração, pois, em regra, acredita-se que o aval é dado
apenas no anverso do título. Mas basta atentar para a disposição da lei que diz
que a obrigação do avalista é equiparada à daquele a quem avaliza para se
concluir que o aval pode ser dado em qualquer parte do título, já que há obrigados
no mesmo que necessariamente assinam no anverso, como o sacador, e outros no
verso ou no anverso. Indicando o avalista a pessoa a quem avaliza, essa indicação
pode ser feita no anverso do título, ainda que o avalizado assine no verso. Só a
simples assinatura, sem indicação, feita no anverso, significa, segundo a Lei
Uniforme, que o aval é dado pelo sacador (Lei Uniforme, art. 31, 4ª al.).
A lei brasileira dispunha de normas especiais sobre quem devia ser considerado
avalizado. Em primeiro lugar, dizia o art. 15 que o avalista era equiparado àquele
cujo nome indicasse. Assim, vindo essa indicação (Em aval de F), pouco importava
que a assinatura do avalista estivesse no anverso da letra e do avalizado
constasse do verso, ou vice-versa. Valia, acima de tudo, a indicação; por esta se
conhecia perfeitamente a quem desejava o avalista, garantindo a obrigação
equiparar-se.
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Em segundo lugar, pela lei brasileira, se o avalista não indicasse diretamente
aquele a quem avalizava, poderia fazê-lo de modo indireto. Desse modo, não
constando expressamente tal menção, considerava-se que o avalista avalizava
aquele abaixo de cuja assinatura, na letra, lançava a sua. Se assim não
acontecesse, lançando o avalista sua assinaturaem qualquer parte do título,
considerava-se que avalizava o aceitante, obrigado principal, se a letra já tinha
sido aceita ou não o tendo, o sacador, último obrigado na cadeia regressiva do
título não aceito (lei brasileira, art. 15). As razões para a lei considerar, na falta da
indicação ou do lançamento da assinatura do avalista abaixo da do avalizado,
como garantidos o aceitante, se a letra foi aceita, ou o sacador, se não o foi, era
que esses são os dois obrigados mais importantes do título. Estando as suas
obrigações reforçadas pelos avais, havia, naturalmente, maiores possibilidades de
serem cumpridas, desonerando-se, assim, os demais coobrigados subsidiários. A
lei, procurando assegurar ao portador, com o reforço da garantia dada pelos avais,
o pagamento do seu crédito, procurava, igualmente, amparar os coobrigados
intermediários, que muitas vezes se obrigavam apenas por terem sido,
ocasionalmente, proprietários dos títulos.
Vê-se, nessas condições, que, no sistema da lei brasileira, nenhuma importância
tinha o fato de ser o aval assinado em qualquer parte do título, fosse no verso ou
no anverso. Naturalmente, não seria dado nos lugares determinados pela lei para
certas assinaturas, como a do sacador, no anverso do título, abaixo do contexto.
Desde, porém, que assim não acontecesse, o avalista poderia lançar assinatura
em qualquer outra parte.
A Lei Uniforme simplificou o assunto, estatuindo, em primeiro lugar, que o aval
deve indicar a pessoa por quem se deu (Lei Uniforme, art. 31, 4ª al.). Fora desse
caso, isto é, não indicando o avalista a pessoa do avalizado, entende-se que o aval
será pelo sacador. Não importa que a assinatura do avalista esteja colocada, ou
não, no verso ou no anverso da letra. Não indicando a pessoa a quem avaliza, o
aval, segundo a Lei Uniforme, é pelo que emitiu a letra, desaparecendo aquele
escalonamento que fazia o art. 15 da lei brasileira.
74. RESPONSABILIDADE DO AVALISTA
O avalista ocupa, na letra, a mesma posição daquele a quem avalizou. Não toma o
avalista o lugar do avalizado pois, na verdade, pagando, poderá receber do
mesmo a importância paga. Mas, apesar disso, a sua obrigação é semelhante à do
avalizado, donde poder o credor agir contra um ou contra outro, indiferentemente.
Pagando, o avalista adquire os direitos emergentes da letra contra o avalizado,
podendo exercê-los a fim de reembolsar-se da importância paga. Convém, mais
uma vez, frisar que, apesar de se dizer que o avalista que paga toma, na letra, a
posição do avalizado, na realidade o avalista fica apenas com direitos idênticos ao
avalizado mas é, de fato, obrigado posterior a esse. Assim, pode ele agir contra o
avalizado, compelindo-o a efetuar o pagamento sem que a recíproca seja
verdadeira, já que o avalizado, obrigado anterior ao avalista, não tem ação contra
ele. Pode, igualmente, o avalista agir contra qualquer dos coobrigados regressivos
que lhe são anteriores, como agiria o avalizado que houvesse pago. Se o aval é
dado ao aceitante, não tem o avalista direito de ação contra endossadores ou
sacador, uma vez que o aceitante é obrigado direto, principal. Pode, entretanto,
agir extracambiariamente contra o sacador, para evitar que esse se locuplete, à
sua custa, do mesmo modo como poderia o aceitante que pagasse.
Pagando, o avalista fica investido dos direitos cambiários idênticos aos da pessoa
por quem pagou (Lei Uniforme, art. 32, 2ª al.); entretanto, se decair a obrigação
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do avalizado, decai também a do avalista, contra ele não sendo admissível
nenhuma ação.
75. AVALISTA DO ACEITANTE
Se o aval é dado ao aceitante, o avalista fica a ele equiparado; isso significa que,
como o aceitante, fica na posição de obrigado principal. A ele, portanto, pode ser
movida ação direta, sem necessidade de protesto do título. Se pagar, entretanto,
terá ação contra o aceitante pois, como foi dito, o avalista é obrigado posterior ao
avalizado.
76. PROTESTO CONTRA O ACEITANTE; SEU REFLEXO EM RELAÇÃO AO AVALISTA
Um problema que tem dado margem a largas discussões é o de saber-se se,
protestado o título contra o aceitante, esse protesto se reflete contra seu avalista.
Na realidade, sendo as obrigações cambiárias autônomas, o ato de protesto
praticado contra o aceitante não se reflete sobre o seu avalista. Sendo o título
protestado contra um aceitante, não se pode, se o avalista for comerciante,
requerer a falência deste baseada naquele protesto, uma vez que não foi o título
contra ele protestado.
Modificamos, assim, nossa opinião sobre o assunto, expressa em nota à página
202 da 1ª edição deste livro, em que foram feitas considerações sobre a decisão
do Juiz de Direito da Vara dos Registros Públicos do Estado de S. Paulo,
determinando que as intimações para pagamento fossem feitas apenas contra os
aceitantes e não contra os seus avalistas. Ali defendíamos que as intimações
devem ser feitas também aos avalistas, dado que esses se equiparam aos
avalizados. Pensando melhor no assunto, concluímos que essa equiparação é
apenas de responsabilidade; mas as obrigações por ambos assumidas são
autônomas, donde dizer a lei que a obrigação do avalista persiste ainda mesmo
que seja nula a do avalizado. Ora, se as obrigações são autônomas não devem
confundir-se, razão pela qual a intimação feita ao aceitante para pagamento, sob
pena de protesto, deve ter reflexo apenas em relação a esse, não ao avalista.
Caso, entretanto, o portador deseje, poderá a intimação ser feita ao aceitante e
seu avalista, se assim declarar na apresentação do título ao oficial de protesto.
Nessa hipótese, não havendo pagamento, o protesto pode ser feito contra o
aceitante e o avalista, o que é permitido pelo disposto no art. 47 da Lei Uniforme.
O assunto de que tratamos não deve confundir-se com o fato de não ser
necessário o protesto para que o portador mova ação contra o avalista do
aceitante. Esse tema foi largamente explanado por Pinto Coelho que mostrou que,
sendo a ação do portador contra o aceitante uma ação direta (independente,
portanto, de protesto para ser exercida), o mesmo ocorre com a ação contra o
avalista do aceitante, que tem responsabilidade equiparada a este. O que aqui se
explica é o fato de, desejando o portador (se bem que tal não seja necessário para
o exercício da ação de cobrança) protestar o título contra o aceitante, não haverá
obrigação de o oficial de protesto intimar também o avalista do aceitante, pois o
pagamento não é reclamado deste e sim do próprio aceitante. Só no caso de
pretender o portador receber do avalista a importância do título é que o protesto
contra esse deve ser feito; e se houver protesto por falta de pagamento contra o
aceitante que não honrou o seu compromisso, esse protesto não se reflete no
avalista do aceitante, que continuará sempre obrigado até a satisfação integral da
letra, podendo, assim, contra ele, mesmo depois de protestado o título contra o
aceitante, ser movida a ação direta para que o portador haja a importância da
letra.
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77. AVAL AO SACADO
Pode o avalista garantir o pagamento da letra, equiparando-se a qualquer dos
obrigados na mesma. Indaga-se, com razão, se o aval pode ser dado ao sacado
que, como se sabe, não possui nenhuma obrigação no título, só a assumindo
depois de aceitar.
Na realidade, o aval pode ser dado ao sacado, mas esse aval, a nosso ver, fica
sujeito, para a sua validade, ao fato de o sacado vir a aceitar, futuramente, a letra.
Alguns autores defendem a tese, para nós inadmissível, de que, mesmo que o
sacado não aceite, o aval que lhe foi dado produz os efeitos legais, tendo em vista
o princípio da autonomia das obrigações cambiárias, baseado no formalismo do
título. Assim, lançada no título a assinatura do avalista em garantiado sacado,
essa assinatura produziria os seus efeitos, ainda que o sacado não aceitasse.
Para nós, é inteiramente inaceitável essa orientação. É verdade que as obrigações
cambiárias são autônomas e independentes, mas, antes de tudo, essa autonomia
e independência se referem às obrigações. Ora, o sacado não possui nenhuma
obrigação no título, aceitando-o ou não se o quiser. Equiparando-se o avalista ao
avalizado, se o sacado não possui nenhuma obrigação, lógico é que o seu avalista
também não a possui. Somente se o sacado se obrigar, passando, assim, a ser
aceitante, é que o aval dado passa a valer efetivamente, equiparando-se o avalista
ao sacado que aceitou, isto é, ao aceitante. Assim, o aval dado ao sacado contém,
sempre, a condição de só ter validade se o sacado aceitar. Do contrário, ver-se-ia
o fato estranho de ter o avalista obrigação enquanto que o avalizado, a quem ele
se equiparou, não possui nenhuma obrigação no título, o que nos parece,
realmente, um absurdo.
A autonomia, merece ser repetida, se refere às obrigações cambiárias (lei
brasileira, art. 43; Lei Uniforme, art. 7º). O sacado é apenas designado na letra e
só depois de aceitar é que assume a obrigação de pagar a letra. Já aí o sacado
toma o nome de aceitante, donde se concluir que, enquanto simples sacado
(pessoa designada na letra para efetuar o pagamento mas que não assumiu essa
obrigação por não haver lançado sua assinatura no título) a pessoa indicada na
letra não tem responsabilidade e, consequentemente, a obrigação de efetuar o
pagamento. Transformando-se em aceitante, isto é, responsabilizando-se pelo
pagamento da soma cambial, o que se concretiza através de sua assinatura no
título, o aceitante passa a ser obrigado, do mesmo modo que todos aqueles que,
antes dele, já haviam lançado suas assinaturas na letra.
Equiparação só ocorre entre duas cousas existentes. A obrigação do sacado
inexiste, a não ser que ele aceite a letra. Assim sendo, nenhuma obrigação
cambial assume o avalista do sacado se esse não se torna aceitante. O seu aval
representa um compromisso ad futurum que só se torna efetivo se a pessoa a
quem ele avaliza se obriga na letra.
Não vemos, portanto, razão lógica para admitir a validade do aval dado ao sacado
em caso de esse não aceitar a letra, mesmo sem recorrer à Lei Uniforme, em que
é patente a situação do avalista (Lei Uniforme, art. 32). O fundamento da
autonomia e independência das obrigações cambiárias não colhe, pois, no caso, só
haverá obrigação se o sacado aceitar a letra. A própria lei brasileira dizia que o
“avalista é equiparado àquele cujo nome indicar”. Ora, o indicado pelo avalista foi
o sacado, que nenhuma obrigação tem no título. Portanto, a equiparação do
avalista é a alguém sem obrigação, o que significa que ele, avalista, também não
assume obrigação alguma.
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Por último, fosse válido o argumento de existir obrigação por parte do avalista do
sacado que não aceitar, qual a posição que o mesmo exerceria na letra? Sabe-se
que as obrigações cambiárias formam uma cadeia que vai do último endossatário,
portador da letra, ao sacador, não sendo o título aceito. Constando da letra aval ao
sacado, se esse não aceitou, onde ficará situado o seu avalista? Na posição de
aceitante não pode ser, já que só o sacado pode aceitar ou, em caso especial, um
interveniente, se o portador consentir. Também não pode aquele avalista ocupar a
posição de um endossante ou do sacador, ou mesmo de outro avalista, pois
expressamente indicou o sacado como o seu avalizado e, assim, se eximiu de
responder pelos outros. Ficaria, portanto, como um obrigado fora da cadeia
daqueles que garantem a obrigação cambial, não se sabendo quem poderia
acioná-lo nem quando essa ação poderia ser proposta.
Em resumo, em nossa opinião, o aval dado ao sacado trazendo sempre uma
declaração expressa (Em aval do sacado ou equivalente) para mostrar a quem o
avalista deseja equiparar a obrigação que vai assumir na letra é admissível, pois
se pode garantir uma obrigação futura, mas só se torna efetivo se o sacado aceitar
a letra. Não aceitando, o aval é insubsistente, por inexistir obrigação do sacado;
aceitando-a com modificação ou limitação, a obrigação do avalista irá apenas ao
limite da restrição, do mesmo modo que acontece com a obrigação do aceitante
que restringe a ordem que lhe é dada (Lei Uniforme, art. 26).
78. CANCELAMENTO DO AVAL
Se o avalista pagar a importância da letra a endossatário ou avalista posterior
pode riscar do título o seu aval, bem como os dos endossadores e avalistas
posteriores (Lei Uniforme, arg. do art. 50, 1ª al.). Cumpre notar que, segundo a
lei brasileira, para os efeitos cambiais o aval cancelado considerava-se não escrito
(art. 44, § 1º).
79. RELAÇÕES ENTRE AVALISTA E AVALIZADO
Cambialmente, o avalista assume obrigação equiparada à do avalizado. Assim, o
portador da letra pode agir, indiferentemente, contra um ou outro, não estando
adstrito a nenhuma ordem quanto ao critério da escolha.
Entre avalista e avalizado existe, contudo, diversidade quanto à sua posição na
letra, sendo o avalista obrigado posterior ao avalizado. Por essa razão é que,
exigindo o portador o cumprimento da obrigação por parte do avalizado, esse,
pagando, não pode se voltar contra o avalista, apesar de ambos assumirem
obrigações semelhantes no título. Por isso, também, é que, pagando o avalista,
tem ele ação contra o avalizado, pois esse é obrigado anterior.
Nenhuma importância têm as relações de credor ou devedor que porventura,
extracambialmente, existam entre avalista e avalizado. As obrigações cambiárias
são autônomas e independentes e, se bem que a obrigação do avalista dependa
da do avalizado, uma vez assumida adquire autonomia, tornando-se, por isso,
independente daquela. Por isso é que, sendo nula a obrigação do avalizado,
persiste a do avalista, a não ser que a nulidade resulte de vício de forma (Lei
Uniforme, art. 32, 2ª al.).
Uma vez constatada a nulidade, cabe ao avalista o ônus de cumprir sua obrigação,
pois os terceiros não poderão ficar prejudicados duplamente, com a não
responsabilidade do avalizado cuja obrigação se mostrou nula, e mais a do
avalista, que se equiparou àquele.
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Não agindo o avalista contra o avalizado, poderá intentar ação contra os demais
obrigados anteriores, pois esses assumiram obrigações antes dele. Aliás, é bom
frisar que o avalista que paga não tem o dever de cobrar do seu avalizado antes
de fazê-lo de qualquer outro; o avalizado nada mais representa que um obrigado
regressivo e, como acontece em geral, cabe ao portador escolher dos obrigados
regressivos aquele que deseja que cumpra a obrigação. Se quem paga é o avalista
do aceitante, só deste o pagante pode receber a soma, cambialmente. A ação que
tem contra ele é direta; caso o aceitante não pague, não pode, contudo, o avalista
do aceitante protestar o título, para fazer jus ao direito regressivo. A lei brasileira
(art. 24) taxativamente dispunha que “o pagamento feito pelo aceitante ou pelos
respectivos avalistas desonera da responsabilidade cambial os coobrigados.”21
80. AVAL
Pela natureza jurídica do aval, o avalista é formalmente um obrigado cambiário do
mesmo grau; não contrai substancialmente a obrigação do avalizado, senão uma
obrigação independente, pessoal e própria, como se pertencesse ao nexo essencial
das obrigações cambiárias. É, por isso, um obrigado autônomo como qualquer
subscritor, verificada a condição de ser formalmente válida à obrigação garantida
(Gonçalves Dias, Da Letra e da Livrança, vol. 7, p. 492).
81. AVAL ANTECIPADO (NEGRITO)
Há autores que admitem possa a assinatura do avalista ser aposta antes da
assinatura do avalizado; a matéria foi estudada pelo Professor De Lucca. RDM53/41.
Art. 898:
 “O aval deve ser dado no verso ou no anverso do próprio título”. § 1º: “Para a
validade do aval, dado no anverso do título, é suficiente a simples assinatura do
avalista.
Essa prática chama-se aval em branco por não conter o nome do avalizado ao lado
da assinatura do avalista.”
A regra é que a assinatura do avalista é aposta ao lado da assinatura do avalizado.
Em se tratando de aval aposto no anverso do título o avalista coloca-se na posição
do obrigado principal: o aceitante, o sacador da letra não aceitável, do emitente
da nota promissória, dispensada qualquer menção ao nome do avalizado (§ 1°).
82. AVAL ANTECIPADO
O aval inserido antes da assinatura do avalizado, ao tempo do saque da letra de
câmbio, é aceito por alguns autores; a respeito leia-se De Lucca, Revista de
Direito Mercantil 53/41 a 47.
Art. 898: “O aval deve ser dado no verso ou no anverso do próprio título.”
§ 1° no aval aposto no anverso (face) do título admite a mera assinatura do
avalista, ou seja, o aval em branco.
Nesse aval o avalizado é o devedor principal do título: o sacador ou aceitante na
letra de câmbio ou o emitente na nota promissória.
§ 2° Considera-se não escrito o aval cancelado.
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O dispositivo permite que o avalista que pague a cambial risque o seu nome na
cártula.
Art. 899: “O avalista equipara-se àquele cujo nome indicar; na falta de indicação,
ao emitente ou devedor final.”
A regra a esse respeito é que o avalista deve apor a sua assinatura ao lado da
assinatura do avalizado, ou com menção ao nome do avalizado, v.g., por aval de
José; em caso contrário, o avalizado será o devedor principal ou o devedor final
(último endossatário).
O art. 31, al. 4ª, da Lei Uniforme refere-se ao sacador.
O aval aposto no verso do título pode conter o nome do avalizado (aval em preto)
ou sem menção ao avalizado (aval em branco).
O § 1° reza: “Pagando o título, tem o avalista ação de regresso contra o seu
avalizado e demais coobrigados anteriores.”
O citado parágrafo 1° omitiu o nome do devedor principal e seu avalista. Os
obrigados anteriores são os endossadores, endossatários e seus avalistas.
§ 2°: “Subsiste a responsabilidade do avalista, ainda que nula a obrigação daquele
a quem se equipara, a menos que a nulidade decorra de vício de forma.”
O princípio revela que as obrigações cambiais são independentes entre si.
Vício de forma é aquele que atinge o próprio título e gera a sua nulidade que, por
sua vez, alcança as próprias obrigações cambiárias. Essa disposição encontra-se
no art. 32, 2ª al., da Lei Uniforme.
Art. 900: “O aval posterior ao vencimento produz os mesmos efeitos do
anteriormente dado.”
A disposição em exame assemelha-se à do art. 20 da Lei Uniforme com respeito
ao endosso; quanto a este a capitulação do citado art. 20, primeira parte tem a
mesma redação, porém o endosso, a nosso ver, aposto depois do protesto tem o
efeito de cessão ordinária de crédito, consoante disposição do art. 1.065 do
Código Civil de 1916 e seu correspondente art. 286 do Código de 2002.
No citado artigo, Fran Martins sugeriu o acréscimo ao parágrafo único do art. 897,
o seguinte: “o aval dado após o protesto por falta de pagamento tem efeito de
fiança.”
Infelizmente nenhuma das sugestões do eminente Mestre Fran Martins foi aceita,
fato que está a indicar que a ilustrada Comissão de Redação do Código Civil não
pretendia alterar o texto por ela apresentado.
Art. 901: “Fica validamente desonerado o devedor que paga título de crédito ao
legítimo portador, no vencimento, sem oposição, salvo se agiu de má-fé.”
Parágrafo Único do art. 901: “Pagando, pode o devedor exigir do credor, além da
entrega do título, quitação regular.”
Caso o pagamento seja parcial, a quitação será dada no título e também em
documento separado.
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O importante é que, no caso de pagamento parcial, o título permanece na posse
do credor, e só será devolvido ao devedor mediante quitação total do débito.
Art. 902: “Não é o credor obrigado a receber o pagamento antes do vencimento
do título, e aquele que o paga, antes do vencimento, fica responsável pela
validade do pagamento.”
§ 1°: “No vencimento, não pode o credor recusar pagamento, ainda que parcial.”
O dispositivo estabelece a regra de que o credor é obrigado a receber pagamento
de parte da dívida.
Tal pagamento não invalida o título, embora não se opere a sua tradição.
Nesse caso, o valor do débito é reduzido ao saldo restante.
Por essa razão, no caso de pagamento parcial, o credor conserva o título em sua
posse, sendo, porém, obrigado a dar quitação na cártula do valor pago,
consignando a parcela devida.
Essa regra, contudo, não se aplica à cobrança da dívida com base no Código Civil
de 2002, cujo art. 314 dispensa ao credor o recebimento de parte da dívida.
Art. 903: “Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito
pelo disposto neste Código.”
O dispositivo estabelece o princípio pelo qual toda a legislação extravagante
anterior ao Código Civil, inclusive a Lei Uniforme de Genebra, ainda se acha em
vigor. Alguns autores admitem, contudo, que certos títulos devem respeitar os
ditames do Código Civil, orientação que não nos parece a mais acertada.
83. CANCELAMENTO DO AVAL
§ 2° do art. 898: “considera-se não escrito o aval cancelado.”
Uma das formas de cancelamento do aval tem origem na cobrança do título por
endossatário ou avalista anterior na cadeia de endossos.
Nesse caso, pode o credor riscar a assinatura.
Ao pagar o título tem o avalista o direito de regresso contra o seu avalizado e
coobrigados anteriores (§ 1°). Ao pagar o título pode o avalista riscar o seu nome
na cártula.
84. TÍTULOS AO PORTADOR
Art. 904: “A transferência de título ao portador se faz por simples tradição.”
Ao emitir um título sem lhe indicar o nome do destinatário ou no caso de endosso
em branco, quando não consta o nome do endossatário, caracterizam-se casos de
título que se transmitem por tradição, por serem títulos ao portador.
Por essa razão, segundo dispõe o art. 904 do Código Civil de 2002, “O legítimo
possuidor do título ao portador tem direito à prestação nele indicada, mediante a
sua simples apresentação ao devedor” (art. 905).
Art. 905, parágrafo único: “A prestação é devida ainda que o título tenha entrado
em circulação contra vontade do emitente.”
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Esse dispositivo decorre da teoria da declaração pela qual, no momento em que o
emitente apõe a sua assinatura no título, este já existe.
Caso o título seja furtado e o ladrão, porventura, colocá-lo em circulação,
endossando-o, inclusive, se o endossatário estiver de boa-fé, poderá cobrá-lo do
endossador ou endossadores anteriores, e daquele que o transferiu e, assim,
estará imune às investidas do subscritor ou emissor do título, salvo diante das
defesas fundadas em nulidade interna ou externa do título, ou em direito pessoal
do emissor.
Pela teoria da criação, não importa se o seu criador tenha sido injustamente
desapossado, passando a circular o título contra a sua vontade; logo, a partir do
momento em que a pessoa apôs a sua assinatura no título formalmente perfeito,
mesmo que dele tenha sido desapossado contra sua vontade, esse título pode
circular regularmente, a menos que o endossatário esteja de má-fé.
Essa teoria, proveniente do § 794 do Código Civil Alemão, foi adotada no art.
1.506 do Código Civil de 1916 e no art. 905, parágrafo único, do Código de 2002.
Em assim sendo, o criador do título fica ligado com a sua assinatura e obrigado
com o credor eventual e indeterminado, em considerandotratar-se de declaração
unilateral de vontade ao se obrigar o criador do título. A obrigação nasce com o
aparecimento desse futuro detentor.
Com a concepção do escrito nasce o título e com a entrada em circulação do título
nasce a obrigação.
Nas mãos do subscritor o título já é um valor patrimonial prestes a se tornar fonte
de direito de crédito.
A vontade do devedor já não importa para o efeito obrigacional, pois o título é o
que produz e cria a dívida.
A única condição que se impõe para o efeito obrigacional é a posse legítima do
primeiro portador, qualquer que seja ele.
Art. 906: “O devedor só poderá opor ao portador exceção fundada em direito
pessoal, ou em nulidade de sua obrigação.”
Art. 907: “É nulo o título ao portador emitido sem autorização de lei especial.” A
disposição tem as suas raízes no art. 1.511 do Código Civil de 1916 e além de
outras leis, na Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990, e o motivo está no fato de se
evitar a expansão do crédito, de política governamental; logo, são, em princípio,
vedadas emissões de títulos ao portador.
Art. 908: “O possuidor de título dilacerado, porém identificável, tem direito a obter
do emitente a substituição do anterior, mediante a restituição do primeiro e o
pagamento das despesas.”
A capitulação do art. 908 é polêmica, na medida da acepção do vocábulo
“dilacerado”, porquanto, em muitos casos, a dilaceração pode tornar o título
insuscetível de cobrança, a exemplo de um cheque com rasuras dificilmente será
aceito pelo banco, inclusive com erros de data e outras quebras do aspecto formal
do título.
Art. 909: “O proprietário, que perder ou extraviar título, ou for injustamente
desapossado dele, poderá obter novo título em juízo, bem como impedir sejam
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pagos a outrem capital e rendimentos.”
O dispositivo cuida de três hipóteses;
a) perda;
b) extravio;
c) desapossamento injusto.
A segunda observação contida no artigo trata da vedação de pagamento do valor
do título a injusto possuidor.
Parágrafo único do art. 909:
“O pagamento feito antes de ter ciência da ação referida neste artigo exonera o
devedor, salvo se provar que ele tinha conhecimento do fato.”
O desconhecimento da existência da ação referida neste artigo presume a boa-fé
do devedor, exceto se ele estivesse a par do vício do pagamento, fato que
provocará a sua invalidade.
85. TÍTULO À ORDEM
Art. 910: “O endosso deve ser lançado pelo endossante no verso ou anverso do
próprio título.”
Neste capítulo cuida-se de título à ordem representado por aquele que se
transfere por endosso (art. 11 da Lei Uniforme).
O endosso que menciona o nome do endossatário denomina-se endosso em preto,
fato que significa que o título transferiu-se a determinada pessoa, a qual poderá,
por sua vez, transferi-lo a outrem.
Se, ao apor o endosso, o endossante não mencionar o nome do endossatário, esse
endosso chama-se endosso em branco, ou seja, por se ignorar a quem foi ele
endossado, o título se converte em título ao portador, como tal será transferido, o
que não impede que, no curso da sua circulação, possa voltar a ser endossado em
preto, com menção ao nome do endossatário, e vice-versa.
§ 1°: “Pode o endossante designar o endossatário, e para a validade do endosso,
dado no verso do título, é suficiente a simples assinatura do endossante.”
O dispositivo mostra que o endosso aposto no verso pode sê-lo em branco, o que
não significa que possa ser em preto, com menção ao nome do endossatário.
O problema reside em se saber qual a posição do endosso na face (anverso) do
título, supondo-se que o seja em preto, em decorrência da interpretação do
dispositivo.
§ 2°: “A transferência por endosso completa-se com tradição do título.”
A interpretação do dispositivo revela que o endosso representa um ato pessoal,
cuja validade e eficácia deve ser completada pela tradição do título, de cunho real,
em relação a terceiros.
O endosso não pode ser aposto fora do título, podendo, entretanto, sê-lo no
alongamento, isto é, em uma folha colada ao mesmo, dele integrante.
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O Professor Bulgarelli admite o endosso dado por meio de escritura pública (op.
cit., p. 173).
Endosso dado a mais de uma pessoa.
Quando o endosso é dado a mais de uma pessoa, a prática admitida por vários
juristas conceituados, aquele que legitimamente possuir o título é o credor da
obrigação; o que significa que só aquele a quem se deu a transferência da posse
do título é o legitimado a cobrá-lo dos obrigados cambiários.
§ 3°: “Considera-se não escrito o endosso cancelado, total ou parcialmente.”
A origem do dispositivo provém do art. 16 da Lei Uniforme de Genebra.
A redação deste parágrafo terceiro contém uma imprecisão, ou seja, a de se
tornar difícil aproveitar-se o endosso parcial.
Ao se considerar não escrito o endosso cancelado, é o mesmo riscado, sem
prejuízo da validade das demais obrigações cambiárias.
Art. 911: “Considera-se legítimo possuidor o portador do título à ordem com série
regular e ininterrupta de endossos ainda que o último seja em branco.”
A regra contida neste artigo mostra, em primeiro lugar, que, ao se estabelecer a
cadeia de endossos em preto, é necessário que o endossatário seguinte seja a
pessoa cujo nome conste no título como tal.
Se o título é endossado a Carlos, somente este é o legítimo endossatário.
Se, porventura, em determinado endosso, não constar o nome do endossatário,
denominado endosso em branco, como se viu, o título passa a circular ao portador,
mesmo que seja este o último endosso.
Do endosso, segundo Bulgarelli (loc. cit.) resulta não só as transferências da
propriedade do título, mas também da garantia da realização pontual da prestação
cambial, e, por força da garantia, o endossador assume em face dos endossatários
posteriores a responsabilidade solidária pelo aceite (na letra de câmbio) e pelo
pagamento da cambial (art. 15 da Lei Uniforme de Genebra).
No endosso a prestação é indivisível, os credores são devedores uns dos outros,
na ordem da sucessão dos endossos, e a anulação de qualquer das declarações
cambiais, de nenhum modo afeta a validade ou eficácia de qualquer das outras.
A obrigação do endossador é representada pela garantia da realidade do título,
como pelo valor que ele representa.
Parágrafo único do art. 911: “Aquele que paga o título está obrigado a verificar a
regularidade da série de endossos, mas não a autenticidade das assinaturas.”
A disposição em exame revela que o devedor do título, ao efetuar o seu
pagamento, caso se trate de uma série de endossos em preto, ou seja, de
endossos nos quais conste o nome do endossatário, deve verificar se o nome dos
endossatários coincide com o seu portador, a fim de evitar a quebra da série de
endossos.
Assim, se, por exemplo, Francisco endossar o título a Mario, ao se transferir o
título é necessário conste o nome de Mario, o endossatário.
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De resto, o devedor não é obrigado a saber se alguma das assinaturas é falsa.
Art. 912: “Considera-se não escrita no endosso qualquer condição a que o
subordine o endossante.”
A capitulação dispõe que o endosso não pode subordinar-se a qualquer condição,
pois a transmissão do título deve ser incondicionada (art. 12 da Lei Uniforme).
Parágrafo único do art. 912: “É nulo o endosso parcial”.
A regra provém do art. 12 da Lei Uniforme de Genebra.
O art. 10, § 2° c/c o art. 13 do Decreto Lei nº 413, de 1969, sobre a cédula de
crédito industrial admite o endosso parcial quando houver amortização da dívida.
O mesmo princípio se aplica aos arts. 10, § 2° e 13 do Decreto Lei nº 167, de
1967,sobre a cédula de crédito rural.
O Professor Bulgarelli (op. cit., p. 174) considera não se tratar de endosso nulo,
mas de endosso ineficaz, não escrito, pelo simples fato de, em assim sendo, não
estará interrompida a série de endossos, podendo o possuidor do título exigi-lo de
qualquer dos demais coobrigados.
O endosso parcial é riscado, sem que haja quebra da cadeia de endossos
posteriores.
Art. 913: “O endossatário do endosso em branco pode mudá-lo para endosso em
preto, completando-o com o seu nome ou de terceiro; pode endossar novamente o
título, em branco ou em preto; ou pode transferi-lo sem novo endosso.”
A regra deste artigo demonstra que o credor, último endossatário em preto, pode
endossá-lo em branco, convertendo em título ao portador; ou como portador do
título, em decorrência de endosso em branco, endossá-lo em preto, fazendo inserir
o nome do endossatário, pelo que o título passa a ser à ordem.
Pode, finalmente, o endossatário em branco transferi-lo por tradição.
Art. 914: “Ressalvada cláusula expressa em contrário, constante do endosso, não
responde o endossante pelo cumprimento da prestação constante do título.”
A disposição referida contraria todos os preceitos contidos no direito cambiário e a
própria legislação, estando a merecer a crítica dos mais conceituados autores, a
exemplo de Luiz Emigdio Rosa Jr. (Títulos de Crédito, Ed. Renovar, 2000, p. 214 e
Newton De Lucca, Comentários ao Código Civil, Forense, XII, 2003, p. 275).
§ 1° do art. 914: “Assumindo responsabilidade pelo pagamento, o endossante se
torna devedor solidário.”
A solidariedade decorre da simples aposição da assinatura do endossatário no
título.
§ 2° do art. 914: “Pagando o título, tem o endossante ação de regresso contra os
coobrigados anteriores.”
O dispositivo omitiu os respectivos avalistas e, também, o devedor principal e seu
avalista.
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Art. 915: “O devedor, além das exceções fundadas nas relações pessoais que tiver
com o portador, só poderá opor a este as exceções relativas à forma do título e ao
seu conteúdo literal, à falsidade da própria assinatura, a defeito de capacidade ou
de representação no momento da subscrição, e à falta de requisito necessário ao
exercício da ação.”
As relações pessoais do devedor contra o portador do título são aquelas que dizem
respeito aos efeitos das obrigações, como o pagamento, a sub-rogação, a
imputação do pagamento, a dação em pagamento, a novação, a compensação, a
confusão e a remissão de dívida (art. 304 do Código Civil de 2002).
Incluem-se nelas, ainda, o erro, a fraude, a violência, a causa ilícita nos títulos
causais e a simulação.
A forma do título e o seu conteúdo literal referem-se à literalidade da cambial,
princípio essencial dos títulos de crédito.
A falsidade da assinatura compreende a falsidade material e a ideológica.
No que concerne à falta de requisito necessário ao direito de ação refere-se à
legitimação ao autor como credor, à falta de posse da cambial, à falta ou nulidade,
à prescrição, sem se falar nas defesas específicas do processo como a coisa
julgada, a litispendência, a falta de capacidade processual, além de outras dessa
natureza (Bulgarelli, op. cit., p. 242).
Art. 916: “As exceções fundadas em relação do devedor com os portadores
precedentes somente poderão ser por ele opostas ao portador, se este, ao adquirir
o título, tiver agido de má-fé.”
A má-fé, na redação do art. 17 da Lei Uniforme de Genebra, significa a ciência da
ação em detrimento do devedor (agi sciemment au détriment du debiteur)
considerado o momento da aquisição do título (Tullio Ascarelli, Teoria Geral dos
Títulos de Crédito, 1969, pp. 293-294 sobre as defesas do réu).
Art. 917: “A cláusula constitutiva de mandato, lançada no endosso, confere ao
endossatário, o exercício dos direitos inerentes ao título, salvo restrição
expressamente estatuída.”
No endosso-mandato o endossatário é procurador do mandante e os poderes a ele
conferidos são relativos ao direito cambiário, inerentes ao título de crédito
A jurisprudência do STJ, in REsp. nº 265.432/RJ, DJ 16.11.2004, trata de um caso
de endosso-mandato devidamente comprovado nos autos, no qual não responde o
endossatário por protesto indevido, salvo se lhe era possível evitá-lo.
A justificativa revela que, no endosso-mandato, não há transferência de crédito,
de forma que o endossatário age na condição de mandatário do endossante, este,
sim, o responsável pelo dano, a menos que o endossatário pudesse evitá-lo.
§ 1º: “O endossatário de endosso-mandato só pode endossar novamente o título
na qualidade de procurador, com os mesmos poderes que recebeu.”
O Código Civil autoriza o substabelecimento ou reendosso do título, porém dentro
dos limites previstos no mandato.
A razão está em que a atividade do endossatário-mandatário está adstrita aos
poderes recebidos do endossante-mandante, mesmo no caso do
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substabelecimento ou do reendosso do título.
§ 2°: “Com a morte ou a superveniente incapacidade do endossante, não perde
eficácia o endosso-mandato.”
A regra estatuída neste parágrafo revela o fato de o endossatário-mandatário ser
obrigado a executar os poderes a ele conferidos, mesmo depois da morte ou
incapacidade do endossante-mandante.
§ 3°: “Pode o devedor opor ao endossatário de endosso-mandato somente as
exceções que tiver contra o endossante.”
A razão do dispositivo encontra o seu fundamento na circunstância de o devedor
nenhuma relação cambiária manter com o endossatário-mandatário, porém com
endossante-mandante.
Entre as sugestões de Fran Martins consta a de que o § 1° do art. 917 do Código
Civil o endossatário por procuração só pode ultrapassar, mas não pode limitar no
novo endosso os poderes que recebeu do endossante, pelo que sugeriu a
supressão no § 1° do art. 917 (963 do Projeto) a locução: “com os mesmos
poderes que recebeu do endossante” e no texto do art. 917 a substituição do
vocábulo “inerentes” por “emergentes”.
Art. 918: “A cláusula constitutiva de penhor, lançada no endosso, confere ao
endossatário o exercício dos direitos inerentes ao título.”
O penhor é uma garantia real, a qual, em se tratando de endosso-penhor, permite
que o endossatário se torne credor do título, em que este é dado em caução, logo,
não há transferência de sua propriedade, porquanto a cambial desempenha a
função de garantia da dívida.
§ 1°: “O endossatário de endosso-penhor só pode endossar novamente o título na
qualidade de procurador.”
No caso não há endosso pleno com transferência da propriedade do título, por isso
o novo endosso efetuado pelo endossatário opera este na qualidade de procurador
do mandante (art. 19 da Lei Uniforme de Genebra).
§ 2°: “Não pode o devedor opor ao endossatário de endosso-penhor as exceções
que tinha contra o endossante, salvo se aquele tiver agido de má-fé.”
O motivo da disposição em exame envolve o fato de ser o endossatário mero
credor pignoratício do endossante, por isso ele não entra na cadeia de endossos
plenos apostos no título, além do mais, é de se aplicar à hipótese o princípio da
inoponibilidade das exceções pessoais.
A má-fé do endossante do devedor, conluiado com o credor-endossatário, por
exemplo, pode permitir ao devedor-endossante invocar contra o seu credor-
endossatário, as exceções que poderia levantar contra o seu endossante.
Como o título documenta o direito de crédito, por força de sua incorporação, o
penhor recai sobre aquele, como coisa corpórea, e não sobre os respectivos
direitos (coisa incorpórea) (Maria Helena Diniz, Código Civil Anotado, 4ª ed.,
Saraiva, 1998, p. 610).
O Código Civil de 2002, na redação do art. 1.458, prevê o penhor de título de
crédito, mediante instrumento público ou particular ou endosso pignoratício,com a
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tradição do título ao credor.
Art. 919: “A aquisição de título à ordem, por meio diverso do endosso, tem efeito
de cessão civil.”
O dispositivo revela a intenção do legislador de distinguir entre a constituição da
garantia do penhor por meio do endosso-penhor e outras formas de transmissão
do título.
A nota promissória vinculada a um contrato denomina-se nota promissória pro
solvendo.
A cobrança desse tipo de promissória, ao contrário da promissória comum ou pro
soluto, permite ao devedor alegar as exceções da causa, entre elas a exceção de
contrato não cumprido.
Se, porventura, o título for endossado a terceiro credor, não pode ser exercitada
contra ele a exceção da causa, exceto se forem inseridas as cláusulas “não à
ordem” ou “proibitiva de endosso” dos arts. 11, 2ª al. e 15, 2ª al., da Lei Uniforme
de Genebra.
Tais cláusulas atribuem ao endosso a conotação de cessão de crédito regida pelos
arts. 286 a 298 do Código Civil de 2002.
Outra consequência é representada pelo fato de não garantir o pagamento às
pessoas às quais a letra for posteriormente endossada.
Dessa forma, se o comprador de uma unidade em um prédio de apartamentos
emitir notas promissórias vinculadas ao contrato de construção e venda do
apartamento, caso a incorporadora suspenda a construção do edifício, ao lhe
serem cobrados os títulos citados, pode invocar, entre as exceções, a de que o
prédio não foi totalmente edificado; não, porém, se as promissórias forem
endossadas, por exemplo, a um banco, contra o qual não é permitido ao
comprador da unidade invocar essa cláusula.
Contudo, se, nas promissórias vinculadas for inserida alguma das cláusulas acima
referidas, é assegurado ao adquirente da unidade arguir a exceção da causa, pelo
fato de a transmissão das promissórias vinculadas operar-se como cessão civil de
crédito, no caso em que o comprador da unidade pode levantar como causa a
invocação de não ter o construtor e incorporador terminado a obra.
Nessa hipótese, a transmissão dos títulos atua como cessão de direito, e não como
mero endosso.
Art. 920: “O endosso posterior ao vencimento produz os mesmos efeitos do
anterior.”
A redação do dispositivo provém do art. 20, 1ª al., da Lei Uniforme de Genebra.
A redação do Código Civil omitiu a circunstância de o endosso posterior ao
protesto por falta de pagamento do título, após a expiração do termo fixado para
se lavrar o protesto, só produz efeito de cessão ordinária de crédito (Lei italiana,
art. 25).
Art. 921: “É título nominativo o emitido em favor de pessoa cujo nome conste no
registro do emitente.”
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Assim entendido, o título nominativo transfere-se por meio de registro no livro
próprio da entidade emissora, e só se completa após a realização desse registro.
Exemplo claro disso pode ser encontrado na emissão de ações nominativas de
sociedade anônima, consideradas valores mobiliários, segundo dispõe o art. 2° da
Lei nº 6.385, de 1976, cuja transferência opera-se mediante registro no livro de
ações nominativas da sociedade anônima.
Quanto às ações escriturais emitidas por sociedade anônima, na forma do art. 34
da Lei nº 6.404/76 (art. 41 da Lei nº 10.303, de 2001) são despidas de cártula e
têm a sua propriedade comprovada através de lançamento efetuado por instituição
depositária, em seus livros, a débito da conta de ações do adquirente, à vista de
ordem escrita do alienante, ou de autorização ou de ordem judicial, em
documento hábil que ficará em poder da instituição ou pela exibição do extrato de
conta do depósito das ações escriturais.
Art. 922: “Transfere-se o título nominativo mediante termo, em registro do
emitente, assinado pelo proprietário e pelo adquirente.”
Os títulos nominativos têm, dessarte, duas características principais: a sua forma
de transmissão: mediante termo em registro próprio e a circunstância de conter o
nome do seu proprietário.
Art. 923: “O título nominativo também pode ser transferido por endosso que
contenha o nome do endossatário.”
A capitulação em exame permite a transformação do título nominativo em título à
ordem, mediante endosso em preto, no qual deve constar o nome do
endossatário.
É, entretanto, vedado o endosso em branco, no qual o título é transmitido ao
portador, para cuja existência é imprescindível a existência de lei que o autorize.
A transformação referida não pode prejudicar direitos de terceiros.
Art. 923, § 1°: “A transferência mediante endosso só tem eficácia perante o
emitente, uma vez feita a competente averbação em seu registro, podendo o
emitente exigir do endossatário que comprove a autenticidade da assinatura do
endossante.”
A disposição em causa permite ao emitente do título que exija do endossatário
que a assinatura do endossante é autêntica, isto é, que não é falsa.
Art. 923, § 2°: “O endossatário, legitimado por série regular e ininterrupta de
endossos, tem o direito de obter a averbação no registro do emitente, comprovada
a autenticidade das assinaturas de todos os endossantes.”
A regra acima aplica-se à hipótese de vários endossos ininterruptos e regulares.
Art. 923, § 3°: “Caso o título original contenha o nome do primitivo proprietário,
tem direito o adquirente a obter do emitente novo título, em seu nome, devendo a
emissão do novo título constar no registro do emitente.”
Art. 924: “Ressalvada proibição legal, pode o título nominativo ser transformado
em à ordem ou ao portador, a pedido do proprietário e à sua custa.”
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Consoante já anotamos acima, a transformação do título nominativo em título ao
portador na falta de lei que o autorize ou por endosso em branco, quando o título
passa a ser transmitido ao portador.
Art.925: “Fica desonerado de responsabilidade o emitente que, de boa-fé fizer a
transferência pelos modos indicados nos artigos antecedentes.”
A disposição em exame é de interpretação controvertida, em considerando o fato
de se tratar de imperativa ou proibitiva não importa saber-se da boa-fé do
interessado: se certa pessoa emite título ao portador mediante vedação legal, a
sua boa-fé é irrelevante.
Art. 926: “Qualquer negócio ou medida judicial, que tenha por objeto o título, só
produz efeito perante o emitente ou terceiros uma vez feita a competente
averbação no registro do emitente.”
A capitulação exige a averbação no registro não só do título como, de resto, do
negócio jurídico ou medida judicial que tenha por objeto esse título.
86. PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA
Art. 206. Prescreve:
§ 3º Em três anos:
VIII – “A pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do
vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial.”
A disposição atribui, como regra geral, a prescrição das obrigações cambiárias em
três anos.
Em verdade, são vários os prazos prescricionais na Lei Uniforme: art. 70, 1ª al.,
em três anos; 2ª alínea do mesmo artigo, em um ano; art. 70, 3ª al., em seis
meses.
No cheque, a Lei nº 7.357, de 1985, no seu art. 59, estatui que a prescrição do
exercício do direito à execução do cheque se dá em seis meses contados da
expiração do prazo de apresentação, pela ação referida no art. 47 da citada Lei,
em favor do portador. O cheque deve ser apresentado para pagamento a contar do
dia da emissão, no prazo de trinta dias, quando emitido no lugar onde houver de
ser pago, e de sessenta dias, quando emitido em outro lugar do País ou no
exterior.
A prescrição e a decadência são institutos tratados em direito civil, em geral, nos
seguintes artigos:
1°– no art. 206, VIII , com a seguinte redação:
“A pretensão para haver o pagamento de título de crédito,a contar do
vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial”.
Tal disposição alcança os títulos de crédito, de um modo geral, e afronta as
capitulações contidas na legislação extravagante.
É sabido que a ação direta de cambial pela Convenção de Genebra prescreve em
três anos contra o aceitante da letra de câmbio e o emitente da nota promissória
(art. 70, alínea primeira).
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As ações de regresso prescrevem, respectivamente, em um ano e um ano, contra
um coobrigado e entre coobrigados no art. 70, alíneas 2ª e 3ª, da Convenção de
Genebra.
Para o cheque, segundo a Lei nº 7.357, de 1985, o seu art. 59 estatui que a
prescrição na ação de execução do cheque se dá em 6 (seis) meses contados da
expiração do prazo de sua apresentação.
O cheque deve ser apresentado para cobrança a contar do dia da emissão, no
prazo de trinta dias, quando emitido no lugar onde houver de ser pago e de
sessenta dias quando emitido em outro lugar do País ou no exterior (art. 33 da
mesma lei).
A ação de regresso, nos termos do parágrafo único do art. 47 de um obrigado
contra outro, prescreve em seis meses contados do dia em que o obrigado pagou
o cheque ou do dia em que foi demandado.
Quanto à interrupção da prescrição, o art. 60, da mesma lei, reza que “a
interrupção produz efeito somente contra o obrigado em relação ao qual foi
promovido o ato interruptivo.”
Esta disposição está de acordo com o art. 204 do Código Civil de 2002.
Diante do estabelecido no art. 903 do Código Civil de 2002, devem prevalecer as
disposições da legislação extravagante.
Para os casos anteriores ao Código Civil, vale a norma de transição do artigo 2.028
deste Código, bem como os demais dispositivos aplicáveis de direito intertemporal.
Por derradeiro, é de sobrelevada importância discutir a instrumentalização da ação
de enriquecimento ilícito para haver o pagamento do título. Embora fosse essa a
praxe na vigência da antiga legislação, atualmente encontra óbice no artigo 884
do Novo Código. Este dispositivo prevê o caráter subsidiário da ação de
enriquecimento ilícito, que somente se configura adequada na ausência de outra
específica. Ora, como o Código Civil novo traz a previsão do artigo 206, fica sem
vez a ação de enriquecimento sem causa.
Em arremate, anota-se a lição de Nelson Eizirik: “Contudo, o Código Civil não
esclarece se tais prazos [do artigo 206] seriam aplicáveis aos demais títulos de
crédito, em relação aos quais não haja, na lei especial respectiva, previsão
expressa da possibilidade de ajuizamento da ação de enriquecimento sem causa
ou de qualquer outra ação causal pelo procedimento de conhecimento, como
ocorre com as debêntures”.
VENCIMENTO
87. O FIM DO PRAZO PARA A UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO
Consiste o vencimento da letra no término do prazo estabelecido para a utilização
do crédito. Atingido esse momento, torna-se a letra exigível, devendo, portanto,
ser satisfeita a ordem nela contida. Só então poderá o portador requerer a
efetivação da ordem; até o vencimento foi assegurado, ou diretamente, se a letra
foi aceita, ou indiretamente, pelas assinaturas dos que intervieram no título, que,
nessa época, a importância mencionada na letra seria paga à pessoa que fosse
sua legítima detentora.
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Tem-se, então, que o vencimento é o momento em que o cumprimento da ordem
contida na letra deve ser efetivado. Baseado na certeza de que tal aconteceria, o
título preencheu o seu papel mobilizador do crédito, circulando, passando a
sucessivas pessoas. Pode acontecer não tenha a letra saído das mãos do tomador
mas, ainda assim, representou uma operação de crédito. Foi confiando na
realização da ordem dada que o tomador recebeu a letra do sacador; e se este se
designou tomador, tendo a letra sido aceita, ainda assim perdura a sua natureza
de título de crédito, já que o aceitante se constituiu devedor, com o aceite, da
importância no título mencionada, uma vez que o sacador tem ação contra o
aceitante. Naturalmente, se o sacador se nomeia tomador e sacado, ao mesmo
tempo, como permite a Lei Uniforme, não tendo a letra circulado, nenhum efeito
produz como mobilizadora do crédito. Se, contudo, sendo sacador e tomador,
transfere a letra a outra pessoa, ainda mesmo que essa não a ponha em
circulação, o título preencheu sua finalidade, já que houve utilização do crédito
com a transferência da letra a um terceiro.
Podendo a letra ser passada de várias modalidades, a época de seu vencimento
varia segundo cada uma dessas espécies. Esse é o chamado vencimento ordinário
da letra, dependendo, naturalmente, da modalidade de cada uma. Mas, além do
vencimento ordinário que se opera quando o título atinge o prazo nele marcado,
casos existem em que, ocorrendo fatos estranhos à vida normal da letra, o
portador pode exigir, antes do vencimento, o pagamento do título por parte dos
coobrigados. A doutrina brasileira, baseada na Lei nº 2.044, que julgava vencida a
letra quando protestada por falta ou recusa do aceite ou pela falência do aceitante
(art. 19), chamava a esse vencimento de vencimento extraordinário.
A Lei Uniforme seguiu orientação diferente, não considerando vencida a letra em
caso de protesto por falta ou recusa do aceite ou pela declaração da falência do
aceitante, operando-se o vencimento da letra sempre na data marcada. Mas,
havendo, antes do vencimento, recusa total ou parcial do aceite, falência do
sacado, aceitante ou não, suspensão de pagamentos do mesmo, ou promoção,
mesmo sem resultado, de execução dos bens do sacado, e, ainda, nos casos de
falência do sacador, sendo a letra não aceitável, o portador da letra pode exercer
os seus direitos de ação contra os endossantes, sacador e outros coobrigados (Lei
Uniforme, art. 43). Isso significa que, apesar de não ser a letra considerada
vencida (como ocorria na lei brasileira), o portador poderá exercer o direito
regressivo na ocorrência de qualquer dos fatos assinalados.
Atente-se, assim, que, pela Lei Uniforme, não há vencimento antecipado ou
extraordinário da letra, vencendo-se essa sempre no prazo que dela constar; mas,
naquelas circunstâncias, o portador pode exercer os seus direitos de regresso
mesmo antes de vencida a letra, conforme expressamente estatui o art. 43 da Lei
Uniforme.
88. MODALIDADES DE VENCIMENTO
A letra de câmbio, como já foi visto (supra, nos 32 e segs.), pode ser passada à
vista, a dia certo, a certo tempo da vista e a um certo tempo da data (Lei
Uniforme, art. 33). Para cada uma dessas modalidades há uma época prevista de
vencimento.
88.1. Vencimento da letra à vista
Sendo a letra passada à vista, o seu vencimento se verifica no ato da
apresentação ao sacado (Lei Uniforme, art. 34). Entende-se por vista justamente
essa apresentação, quando o sacado legalmente toma conhecimento do título. Aí
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se operam dois fatos simultâneos: tomando conhecimento da ordem o sacado,
imediatamente, decidirá se deseja acatá-la ou não. Acatando-a, paga a letra,
encerrando-se, assim, o título como cambial, já que, se tiver de receber do
sacador a importância que pagou, o aceitante não o fará mediante ação cambial e
sim ação de direito comum. A letra, em tal caso, já não será um título executivo,
característica que lhe dá força especial, mas um simples documento probatório,
capaz de justificar a ação do aceitante-pagante contra o sacador, mas sujeito a
prova em contrário. Não valerá mais o título por si mesmo, per se stante, mas
apenas como um meio de comprovar as alegativas do aceitante contra o sacador.
Se, entretanto, o sacado não desejar cumprir a ordem que lhe foi dada, não
pagaráqualquer maneira (art. 354, III), e que o
sacador tivesse suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ao tempo do
vencimento (art. 366). Do conjunto dos dispositivos do Código Comercial conclui-
se que a letra de câmbio era, por ele, tratada como o instrumento de um contrato
de câmbio, servindo para a remessa de valores de um lugar para outro, segundo a
doutrina do Código de Comércio francês.
Essa orientação foi, contudo, inteiramente modificada pela lei que derrogou o Tít.
XVI do Código Comercial, número 2.044, de 31 de dezembro de 1908, que seguiu
a doutrina inicialmente emanada da lei alemã e depois ampliada e atualizada por
congressos e convenções internacionais, de modo a que a letra de câmbio pudesse
melhormente atender às necessidades econômicas dos povos.
17. DECRETO Nº 2.044, DE 1908
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Enquanto estiveram em vigor os dispositivos do Código Comercial, coube
principalmente à jurisprudência traçar normas para melhor adaptar a letra de
câmbio aos interesses do comércio, algumas vezes até mesmo violando a lei
como, em parecer de 26 de junho de 1907, se expressava a Comissão de
Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, de que foi relator João Luiz
Alves.
Apesar dessa notável contribuição dos nossos juízes e tribunais, cada dia se
tornava mais patente a necessidade de serem modificados os dispositivos do
Código Comercial relativos a tão importante matéria. No exterior, vários países
que, inicialmente, haviam seguido a orientação francesa, alteraram ou
substituíram suas leis, abraçando a doutrina alemã por ser a que melhor atendia
às necessidades do comércio. Além disso, inúmeras foram as obras doutrinárias
que surgiram apreciando a nova conceituação da letra de câmbio, sendo o
assunto, em detalhes, debatido em vários congressos internacionais.
No Brasil, sentiu-se a necessidade da reforma do Código nesse tocante, mas o
movimento, a tal respeito, só veio a tomar corpo depois da publicação, em 1905,
do livro Direito Cambial Brasileiro, do desembargador José Antônio Saraiva,
professor na Faculdade de Direito de Minas Gerais. Nessa obra capital para a
atualização do nosso direito cambiário, o ilustre mestre mineiro defendia a
doutrina alemã que conceituava a letra de câmbio como um título emanado da
vontade unilateral do subscritor, mostrando-se perfeitamente a par dos mais
modernos conhecimentos sobre o assunto.
Convencido da necessidade de ser modificado o Código Comercial no capítulo
relativo à letra de câmbio, o então deputado federal Justiniano de Serpa
apresentou à Câmara dos Deputados, em 7 de novembro de 1906, projeto de lei
modificando o disposto nos arts. 354, 361, 362, 371, 377, 382, 394, 412, 425,
426 e 427 do Código Comercial. As modificações propostas, apesar de a
melhorarem, não alteravam, contudo, substancialmente, a doutrina do Código,
uma vez que ainda ficava patente a influência francesa, sobretudo pela
manutenção do instituto da provisão, que dava à letra de câmbio o caráter de
instrumento de um contrato. Isso sentiu a Comissão de Legislação e Justiça da
Câmara que, manifestando o desejo de que o assunto fosse tratado não com
medidas paliativas mas de maneira mais profunda, ofereceu um substitutivo ao
projeto, sendo autor do mesmo o Dr. João Luiz Alves. Para a feitura desse
substitutivo foi especialmente ouvido o Desembargador José Antônio Saraiva,
“autor do mais profundo estudo que, sobre a matéria, enriquece a nossa literatura
jurídica”, segundo o relator. Esse substitutivo, com ligeiras modificações, foi
aprovado pela Câmara e pelo Senado, transformando-se no Decreto nº 2.044, de
31 de dezembro de 1908.
Seguiu o Decreto nº 2.044 a orientação mais atualizada na época sobre a letra de
câmbio, caracterizando-a, segundo a doutrina alemã, como um título autônomo,
que vale por si mesmo (per se stante), oriundo de um ato unilateral da vontade do
subscritor que, por isso mesmo, pode designar-se beneficiário (tomador) da
ordem dada, o que não poderia verificar-se no sistema contratual do Código, já
que a ninguém é dado contratar consigo mesmo. Igualmente, segundo o Decreto
nº 2.044, não era a letra de câmbio instrumento para transporte de valores de um
lugar para outro, podendo, assim, ser sacada para pagamento na mesma praça, o
que facilitava enormemente sua circulação. Ainda, tornou-se desnecessária a
provisão, feita pelo sacador em mãos do sacado, ao tempo do vencimento, bem
como a inclusão no título da expressão valor recebido ou em conta, exigida pelos
arts. 366 e 354, III, do Código Comercial, já que a letra era um instrumento
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destinado a mobilizar o crédito, tendo nesse a sua razão de ser. Os direitos que a
letra conferia ao portador não tinham, assim, dependência de qualquer negócio
preexistente, ou seja, da relação fundamental. E por tal motivo a falsidade ou
nulidade de qualquer assinatura anterior não invalidava a letra, não sendo,
portanto, oponíveis exceções aos possuidores anteriores, visto como “as
obrigações cambiais são autônomas e independentes umas das outras” (Decreto
nº 2.044, art. 43).
Apesar de ter sido inicialmente recebida com restrições, até mesmo com oposição,
pelo comércio em geral (a Associação Comercial do Rio de Janeiro chegou a
reunir-se para declarar sua repulsa à nova lei), o Decreto nº 2.044 conseguiu, com
o decorrer dos anos, demonstrar que o legislador brasileiro captara perfeitamente
as mais modernas teorias existentes sobre o direito cambiário, a tal ponto o
fazendo que ainda hoje os seus princípios gerais estão em perfeita consonância
com a melhor doutrina que, em todos os países, norteia o assunto.
18. ADESÃO DO BRASIL À LEI UNIFORME
O Brasil, através de delegados especiais, participou das principais Conferências
internacionais para a unificação do direito sobre a letra de câmbio e a nota
promissória. Em Haia, nas Conferências de 1910 e 1912, foi o Brasil representado
pelo Dr. Rodrigo Otávio, que as reuniões apresentou ao Ministro das Relações
Exteriores dois preciosos “Relatórios”, um em 1911 e outro em 1914. Em Genebra,
em 1930, foi nosso representante, como plenipotenciário, o Dr. Deoclécio de
Campos, adido comercial em Roma e antigo professor na Faculdade de Direito do
Pará.
Subscrevendo o Governo brasileiro a Convenção de 7 de junho de 1930 para a
adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, a
adesão à mesma só se fez em 26 de agosto de 1942, por nota da Legação
brasileira em Berna ao Secretário-Geral da Liga das Nações. A ratificação
legislativa necessária para a entrada em vigor, no país, da Convenção, foi feita 22
anos depois da adesão, ou seja, em 8 de setembro de 1964, através do Decreto
Legislativo nº 54. Finalmente, a promulgação da Convenção se operou por
intermédio do Decreto Executivo nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, que
promulgou, igualmente, as duas outras Convenções realizadas em Genebra, uma
destinada a regular conflitos de leis em matéria de letras de câmbio e notas
promissórias, e a outra concernente ao imposto do selo em matéria de letras de
câmbio e notas promissórias.
19. A VIGÊNCIA DA LEI UNIFORME NO DIREITO BRASILEIRO. REVOGAÇÃO DO
DECRETO Nº 2.044
Após a promulgação do Decreto Executivo nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, a
doutrina e a jurisprudência brasileiras atravessaram uma fase de dúvidas sobre se
a Lei Uniforme de Genebra estaria ou não em vigor, revogada, assim, o Decreto nº
2.044, de 31 de dezembro de 1908. Eminentes juristas e respeitáveis tribunais se
manifestaram a respeito, admitindo uns a tese de que a Lei Uniforme passara a
constituir direito interno brasileiro, revogando o Decreto nº 2.044, outros julgando
que fora aceita apenas a Convenção para a adoção de uma lei sobre letras de
câmbio e notas promissórias, devendo,o título, devendo esse ser protestado para, comprovada essa recusa do
pagamento, ter o portador direito regressivo contra endossadores, sacador e
avalistas.
Alguns autores indagam se não seria permitido ao sacado aceitar a letra à vista,
diferindo o pagamento para época posterior àquela em que foi apresentada. A
nosso ver, tal aceite não deve ser admitido, pois contraria os dizeres taxativos da
lei brasileira e da Lei Uniforme. De fato, o art. 17, caput, da revogada Lei nº
2.044, dispunha, expressamente, que “A letra à vista vence-se no ato da
apresentação ao sacado”; no mesmo sentido estatui o art. 34 da Lei Uniforme: “a
letra à vista é pagável à apresentação”. Feita essa apresentação, não há
possibilidade de aceite; ainda mesmo que o título seja pago na hora, o aceite se
torna desnecessário, já que o pagamento foi efetuado.
Em princípio, não deveria haver prazo para as letras à vista serem apresentadas
ao sacado, facultando-se ao portador fazê-lo quando a apresentação mais lhe
conviesse. Contudo, a fim de evitar a perpetuidade da letra, a lei adota medidas
no sentido de, decorrido um certo período, ser necessária essa apresentação, sob
pena de perder o portador o direito de agir contra os coobrigados anteriores.
Assim, do contexto poderá constar um prazo para a apresentação da letra ao
sacado, e se tal acontecer o portador está obrigado a cumprir essa cláusula, sob
pena de perda do direito regressivo. Se, entretanto, o contexto nada dispuser a
respeito, a letra à vista deve ser apresentada para pagamento dentro do prazo de
12 meses, contados da data de sua emissão. Esse prazo, segundo a Lei Uniforme,
pode ser reduzido ou aumentado pelo sacador. E os endossantes também poderão
encurtá-lo (Lei Uniforme, art. 34).
Também estatui a Lei Uniforme (art. 34, 2ª al.), que o sacador pode estipular que
uma letra à vista não deva ser apresentada a pagamento antes de uma certa data,
contando-se, neste caso, o prazo de um ano para a apresentação obrigatória a
partir dessa data. Há, assim, como se vê um prolongamento do prazo para a
apresentação da letra, diverso daquele outro já permitido pela lei (art. 34, 1ª al.),
porque há um certo espaço de tempo em que o portador, por proibição do sacador,
não pode apresentar a letra ao sacado. De um certo modo, se bem que
indiretamente, essa permissão já era de acatar-se pela lei brasileira, em face de
haver a mesma declarado que “a letra à vista deve ser apresentada a pagamento
dentro do prazo nela marcado” (art. 21). Essa conclusão, contudo, poderia gerar
confusão, admitindo interpretações contrárias, pois a lei não trouxe dispositivo
expresso. Melhor agiu a Lei Uniforme, esclarecendo de maneira clara a
possibilidade de o sacador poder proibir a apresentação da letra à vista, para
pagamento, durante um certo espaço de tempo.
Se a letra não contiver, no contexto, época de vencimento, é considerada à vista e
vence-se na sua apresentação ao sacado (Lei Uniforme, art. 2º, 2ª al.).
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Apresentada e não paga a letra à vista, o portador comprovará o não pagamento
mediante um protesto (Lei Uniforme, art. 44, 1ª al.).
88.2. Vencimento da letra a dia certo
Pode, igualmente, a letra de câmbio ser passada a dia certo e essa é, aliás, a
modalidade mais comum desses títulos de crédito. Em tal caso, o vencimento da
letra se dá no dia estipulado. Se esse dia for feriado legal ou domingo, o
vencimento ainda assim nele decorrerá, mas a apresentação da letra ao sacado ou
aceitante, para pagamento, será feita no primeiro dia útil seguinte. Se, contudo,
sobrevier caso fortuito ou de força maior, a letra, apesar de considerar-se vencida
no dia nela marcado, deverá ser apresentada para pagamento logo que cessem
esses impedimentos (Lei Uniforme, art. 54, 1ª e 2ª alíneas). Prolongando-se o
caso de força maior por mais de 30 dias a contar da data do vencimento, o
portador pode promover as ações que lhe couber independente de apresentação e
protesto (art. 54, 4ª al.).
Se uma letra é emitida para ser paga em lugar em que o calendário é diferente
daquele do lugar da emissão, a data do seu vencimento deve ser considerada
como fixada de acordo com o calendário do lugar do pagamento. Essa regra,
contudo, só se observará se da letra não constar uma cláusula que indique que o
prazo para vencimento da letra se conta de modo diferente. O simples enunciado
do título, caso não exista cláusula expressa, pode servir para derrogar o princípio
acima mencionado, desde que indique a intenção de serem adotadas regras
diferentes daquelas estipuladas pela lei (Lei Uniforme, art. 37, 1ª e 4ª alíneas).
A lei brasileira tratava do assunto de modo diverso, tomando por base, para o
vencimento das letras em lugares em que os calendários são diferentes, o
calendário gregoriano usado por quase todos os países civilizados do mundo. Dizia
a Lei nº 2.044 que, se a letra fosse sacada em país onde vigorasse outro
calendário que não o gregoriano, não sendo declarado qual o calendário adotado,
para saber-se a data do vencimento contavam-se os dias pelo calendário
gregoriano a partir do dia correspondente ao da emissão da letra pelo outro
calendário (art. 18). Adotado outro calendário, por disposição expressa no título,
ainda assim a contagem do prazo se faria pelo calendário gregoriano, alterando-
se, desse modo, a data do vencimento constante do título, uma vez que não
correspondem os dias dos calendários diferentes.
O sistema da Lei Uniforme, como se vê, modificou o disposto na lei brasileira.
88.3. Vencimento da letra a certo termo da data
Se a letra é passada a certo termo da data tem o seu vencimento no último dia do
prazo, não se contando, contudo, o dia em que a letra foi emitida (Lei Uniforme,
art. 73). Assim, se o título é sacado para vencer-se a noventa dias da data,
estando assinado de primeiro de janeiro, noventa dias devem ser contados a partir
do dia dois de janeiro. O prazo é contado dia a dia, incluindo domingos e feriados.
Desse modo, aquela letra, emitida a primeiro de janeiro para vencer-se a noventa
dias da data, terá o seu vencimento no dia primeiro de abril, ou seja, noventa dias
contados a partir de dois de janeiro, se o ano não for bissexto; se o for, o
vencimento se dará a trinta e um de março, já que foi acrescido no prazo o dia
vinte e nove de fevereiro.
Dizia a lei brasileira (art. 17) que “a letra a semanas, meses ou anos da data (ou
da vista) vence-se no dia da semana, mês ou ano do pagamento correspondente
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ao dia do saque (ou ao dia do aceite). Na falta do dia correspondente, vence-se no
último dia do mês do pagamento”.
A Lei Uniforme tratou do assunto (art. 36) com maiores detalhes, focalizando
várias hipóteses usuais no tráfico comercial. Assim, estatuiu que se uma letra é
sacada a um ou mais meses da data ou da vista, o seu vencimento se verificará na
data correspondente do mês em que se deve efetuar o pagamento. Caso nesse
mês não haja data correspondente à do saque ou da vista, o vencimento será no
último dia do mês em que o pagamento se deve efetuar.
Por outro lado, se uma letra é sacada para pagamento a um ou mais meses e
meio da data ou da vista, contam-se em primeiro lugar os meses inteiros e em
seguida o “meio mês”, que, em qualquer hipótese (mesmo que esse “meio mês”
se refira a fevereiro, que normalmente só tem 28 dias), deve ser sempre um
período de quinze dias.
Sendo o vencimento fixado para o “princípio”, o “meado” ou o “fim do mês”, essas
expressões devem ser entendidas como o dia primeiro, o dia quinze e o último dia
do mês.
Por último, quando constam da letra expressões como “oito dias” ou “quinze dias”,
devem ser contadas como oito dias e quinze dias efetivos e não uma ou duas
semanas.
Os detalhes da Lei Uniforme esclarecem decontudo, essa nova lei, cujo texto deveria
ser semelhante ao da Lei Uniforme, escoimado das reservas feitas pelo Governo
Brasileiro, ser discutida e aprovada pelo Congresso.
Dentre os que, desde o início aceitaram a Lei Uniforme como integrante do direito
interno brasileiro, revogando e substituindo o Decreto nº 2.044, destacaram-se o
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Dr. Antônio Mercado Júnior, que, a respeito, apresentou excelentes estudos no
Instituto de Direito Comparado da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, estudos mais tarde publicados no livro Nova Lei Cambial e Nova Lei do
Cheque (Saraiva, São Paulo, 1966), e os eminentes professores Oscar Barreto
Filho, Theophilo de Azevedo Santos e Vicente Marotta Rangel que, em
substanciosos trabalhos, opinaram pela inclusão da Lei Uniforme no direito interno
brasileiro. Em posição contrária colocaram-se também respeitáveis estudiosos,
entre os quais o mestre José Maria Whitaker e o Professor Gastão de Moura Maia
Filho.
Por outro lado, enquanto a doutrina discutia sobre a integração ou não da Lei
Uniforme no direito brasileiro, divergiam os tribunais a respeito. Enquanto o
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em várias decisões, seguindo a lição do
Professor Lélio Candiota de Campos, da Faculdade de Direito da Universidade do
Rio Grande do Sul, aceitava a Lei Uniforme como integrada no nosso direito, o
Tribunal de Alçada de São Paulo seguia orientação oposta, admitindo a
permanência do Decreto nº 2.044. Levado o caso ao Supremo Tribunal Federal,
esse propendia pela aceitação da Lei Uniforme sem, contudo, se definir
claramente. Para complicar mais ainda a situação, uma terceira corrente surgiu,
patrocinada pelos eminentes Professores J. C. de Sampaio Lacerda e Rodolfo
Araújo com o apoio do Tribunal de Alçada de São Paulo (Ac. de 6 de novembro de
1960, da 6ª Câmara Cível, apel. nº 127.161), admitindo que a Lei Uniforme não
revogou a lei brasileira sobre a letra de câmbio e notas promissórias, valendo,
entretanto, nas relações internacionais.
Nessa controvérsia, de um certo modo aflitiva para uma verdadeira orientação
sobre se estava ou não em vigor, no Brasil, como lei interna, revogada assim, o
Decreto nº 2.044, a Lei Uniforme de Genebra, foi o Poder Executivo chamado a
definir-se, através da consulta feita à Consultoria-Geral da República pelo Banco
do Brasil e Ministério da Fazenda. Em longo e brilhante Parecer, o então Consultor-
Geral da República, Professor Adroaldo Mesquita da Costa, opinou pela adoção,
entre nós, da Lei Uniforme, revogando, assim, o Decreto nº 2.044. O Parecer,
aprovado pelo Sr. Presidente da República e publicado no Diário Oficial da União de
26 de setembro de 1968, foi taxativo ao afirmar:
“Estão em vigor no Brasil a Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas
Promissórias, assinada em Genebra em 7 de junho de 1930, e a Lei Uniforme
sobre Cheque, ali assinada a 19 de março de 1931, ambas com as necessárias
adaptações de seus textos aos textos ainda vigentes de nosso direito e a elas
anteriores, em face das reservas a elas oferecidas pelo Brasil, no momento em
que a elas aderiu.”
Mas a verdade é que nem mesmo com o Parecer do Consultor-Geral da República
foi aceita a inclusão da Lei Uniforme como direito interno brasileiro. Continuaram a
circular no mercado de capital, com o beneplácito do Banco Central do Brasil,
letras de câmbio ao portador, em flagrante desrespeito à Lei Uniforme, que não as
permite. O VII Congresso Nacional de Bancos, reunido em Curitiba, em 1969, se
bem que propendesse pela adoção de Lei Uniforme, concluiu por pedir a
elaboração de uma nova lei cambiária, que seguisse os trâmites legais,
reconhecendo que o Parecer do Consultor-Geral da República era meramente
opinativo, só ao Supremo Tribunal Federal cabendo dar um pronunciamento
definitivo sobre a questão, o que não fora feito até então. E mesmo publicações
mais recentes, de mestres abalizados, como a obra do Professor J. Eunápio
Borges, Títulos de Crédito (Forense, 1971), mantinham a opinião de que a Lei
Uniforme não revogara o Decreto nº 2.044, continuando esta em pleno vigor.
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O impasse foi resolvido com a decisão do Supremo Tribunal Federal constante do
Acórdão de 4 de agosto de 1971, proferido no Recurso Extraordinário nº 71.154,
do Paraná, de que foi relator o eminente Ministro Oswaldo Trigueiro e aceito pela
unanimidade de seus pares. Referindo-se o pleito a um caso de prescrição do
cheque, cujo prazo na Lei Uniforme diverge do da lei brasileira, depois de estudar
o problema da vigência ou não da Lei Uniforme no direito brasileiro, acentuando,
inclusive, a atitude do Supremo, que até então não tomara decisão definitiva,
afirma o voto do Relator, aceito unanimemente:
“Quanto ao direito brasileiro, não me parece razoável que a validade dos tratados
fique condicionada à dupla manifestação do Congresso, exigência que nenhuma
das nossas Constituições jamais prescreveu. Por outro lado, acho que, em virtude
dos preceitos constitucionais anteriormente citados, a definitiva aprovação do
tratado, pelo Congresso Nacional, revoga as disposições em contrário da legislação
ordinária”.
A partir de então passou a ser por todos aceita a Lei Uniforme de Genebra sobre
Letras de Câmbio e Notas Promissórias como a reguladora desses títulos no Brasil.
20. RESERVAS DO GOVERNO BRASILEIRO À LEI UNIFORME
 
Segundo o art. 1º da Convenção para a adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras
de Câmbio e Notas Promissórias, as Altas Partes Contratantes têm a permissão de
formular certas reservas ao disposto no texto legal, em tal caso atribuindo-se o
direito de dispor, com normas próprias, sobre a matéria não aceita. As reservas
serão formuladas por ocasião da ratificação ou adesão à Convenção, e serão
escolhidas entre as mencionadas no Anexo II da referida Convenção.
Ao promulgar a adesão à Convenção de Genebra, pelo Decreto Executivo nº
57.663, de 24 de janeiro de 1966, o Governo brasileiro formulou reservas a vários
dispositivos da lei, dentre as enumeradas no Anexo II da Convenção. Isso significa
que, em vigor o texto de Genebra, as matérias objeto das reservas são, contudo,
reguladas por lei nacional, não se aplicando no Brasil o texto de Genebra na sua
totalidade. As reservas foram feitas aos arts. 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 15, 16, 17,
19 e 20 do Anexo II. Sobre cada uma delas resumidamente falaremos a seguir.
20.1. Reserva ao art. 2º do Anexo II – Falta de assinatura do próprio punho do
obrigado no título
O art. 2º do Anexo II da Convenção dispõe que:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes tem, pelo que respeita às obrigações
contraídas em matéria de letras no seu território, a faculdade de determinar de
que maneira pode ser suprida a falta de assinatura, desde que por uma declaração
autêntica escrita na letra se possa constatar a vontade daquele que deveria ter
assinado”.
A reserva enseja que a assinatura seja suprida, isto é, substituída por outro modo
de identificação do signatário que não seja o seu próprio nome. Deve-se essa
reserva ao fato de, em certos países, como o Japão, a Índia, o Egito e a Turquia,
ser possível subscrever-se a letra de câmbio com um sinal qualquer que seja
considerado como o nome da pessoa, ou por um carimbo ou mesmo pela
impressão digital; do mesmo modo, como acontecia na Espanha e no Brasil, a
assinatura podia ser feita por mandatário, tendo validade legal. Considerando que
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tal assunto deve ser resolvido por cada país, a Conferência de Genebra incluiu, no
Anexo II, a faculdade de, utilizando da reserva, disporem os signatários a respeito.
A LeiUniforme, referindo-se às assinaturas dos obrigados no título, diz apenas
que, da letra, deve constar como requisito especial a assinatura do sacador (art.
1º, nº 8), nada especificamente acrescentando quanto à assinatura por intermédio
de mandatário, apesar do contido no art. 8º que, de modo geral, admite a
assinatura por procurador munido com os poderes necessários. Por outro lado,
reportando-se ao aceite, dispõe a Lei Uniforme (art. 25) que “o aceite é assinado
pelo sacado”. Do mesmo modo, o aval “é assinado pelo dador do aval” (art. 31, 2ª
al.) e o endosso “deve ser assinado pelo endossante” (art. 13).
Fazendo a reserva permitida pelo art. 2º do Anexo II, o Governo brasileiro se
permite o direito de determinar a maneira de serem supridas as assinaturas, de
próprio punho, dos obrigados na letra, que são o sacador, o aceitante, os
endossantes e os avalistas. Ora, o Decreto nº 2.044 contém dispositivo expresso
sobre a assinatura por mandatário, declarando o nº V do art. 1º que da letra deve
constar “a assinatura do próprio punho do sacador ou de mandatário especial”,
isto é, esclarecendo melhor a intenção da lei, do mandatário munido de poderes
especiais. Quanto aos endossantes, igualmente dispõe o art. 8º, 2ª al., do Decreto
nº 2.044 que, “para a validade do endosso é suficiente a simples assinatura do
próprio punho do endossador ou do mandatário especial”. Em relação ao aceitante,
reza o art. 11 que, “para a validade do aceite é suficiente a simples assinatura do
próprio punho do sacado, ou do mandatário especial”. Finalmente, no que diz
respeito aos avalistas, estatui o art. 14 que “para a validade do aval, é suficiente a
simples assinatura do próprio punho do avalista, ou mandatário especial”.
Nessas condições, permitindo a Convenção fosse melhor disposto pelos Governos
que à mesma aderiram o suprimento da falta de assinatura do próprio punho dos
obrigados na letra, e havendo o Governo brasileiro se valido dessa permissão,
tem-se que, no Brasil, podem o sacador, o aceitante, endossantes e avalistas
obrigar-se nas letras mediante mandatários munidos de poderes especiais,
vigorando, a esse respeito, as regras contidas nos arts. 1º, nº V, 8º, 2ª al., 11 e
14 do Decreto nº 2.044, que tratam da matéria.
A utilização da reserva, pelo Brasil, diz respeito apenas ao suprimento da
assinatura pela assinatura do mandatário, sobre que havia legislação a respeito.
Nada impede, entretanto, que, valendo-se da reserva, venha o Brasil a dispor
sobre a assinatura de outro modo, como, por exemplo, por chancela mecânica, a
exemplo do que resolveu o Banco Central em relação aos cheques (Res. nº 74, de
17 de novembro de 1967).
20.2. Reserva ao art. 3º do Anexo II – Letra incompleta
Dispõe o art. 3º do Anexo II:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes reserva-se a faculdade de não inserir o
art. 10 da Lei Uniforme na sua Lei nacional.”
Reza o art. 10 da Lei Uniforme:
“Se uma letra incompleta no momento de ser passada tiver sido completada
contrariamente aos acordos realizados, não pode a inobservância desses acordos
ser motivo de oposição ao portador, salvo se este tiver adquirido a letra de má-fé
ou, adquirindo-a, tenha cometido uma falta grave.”
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Como se vê, dispõe a Lei Uniforme que não é oponível ao portador, a não ser
quando este aja de má-fé, o fato de haver a letra sido completada contrariamente
ao estabelecido. Já o art. 3º da lei brasileira nº 2.044 dizia que os requisitos da
letra são considerados lançados ao tempo da emissão do título, só sendo admitida
prova em contrário em caso de má-fé do portador. De um certo modo, os
dispositivos das duas leis são semelhantes, apresentando-se, contudo, mais amplo
o da lei brasileira, pois a Lei Uniforme só permite a inoponibilidade da exceção
quando há acordo entre as partes quanto aos requisitos a serem lançados no
título. A lei brasileira dispensa esse acordo para que a exceção não seja oposta, a
não ser, como acontece também na Lei Uniforme, quando o portador usa de má-
fé.
Não tendo o Governo brasileiro aceito o art. 10 da Lei Uniforme, por fazer uso da
reserva permitida pelo art. 3º do Anexo II da Convenção, a nosso ver permanece
em vigor o art. 3º do Decreto nº 2.044.
20.3. Reserva ao art. 5º do Anexo II – Prazo para apresentação da letra
O art. 5º do Anexo II estatui que:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes pode completar o art. 38 da Lei Uniforme,
dispondo que, em relação às letras pagáveis no seu território, o portador deverá
fazer a apresentação no próprio dia do vencimento; a inobservância desta
obrigação só acarreta responsabilidade por perdas e danos.
 
As outras Altas Partes Contratantes terão a faculdade de fixar as condições em
que reconhecerão uma tal obrigação”.
Reza o art. 38 da Lei Uniforme:
“O portador de uma letra pagável a dia fixo ou a certo termo de data ou de vista
deve apresentá-la no dia em que ela é pagável ou num dos dois dias úteis
seguintes.
A apresentação da letra a uma câmara de compensação equivale à apresentação
para pagamento”.
Confrontando os dois dispositivos, verifica-se que, pela Lei Uniforme, a letra com
prazo certo deve ser apresentada para pagamento no dia do vencimento ou num
dos dois dias úteis seguintes, permitindo o art. 5º do Anexo II que a letra seja
apresentada no dia do vencimento e não nos dois dias úteis seguintes a essa data.
Entretanto, se a letra não for apresentada no dia do vencimento, esse fato só
acarreta responsabilidade por perdas e danos.
A lei brasileira dispunha que a letra deve ser apresentada para pagamento no dia
do vencimento, ou, sendo este feriado legal, no primeiro dia útil seguinte (art.
20). A reserva feita pelo Governo brasileiro foi, ao que parece, no sentido de ser
mantido esse princípio do Decreto nº 2.044. Mas, deve-se observar que o art. 5º
do Anexo II permite, realmente, a apresentação apenas no dia do vencimento,
como dispunha a lei brasileira, ficando, porém, estabelecido que a não
apresentação nesse dia acarreta apenas responsabilidade por perdas e danos.
Assim sendo, o portador que não apresenta letra no dia do vencimento não poderá
promover o protesto da letra no primeiro dia útil seguinte à apresentação, como
acontece no regime da lei brasileira (art. 44, 3ª al.).
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Disso não trata a lei brasileira. E, em tais condições, parece-nos que, para
completar o art. 38 da Lei Uniforme, como permite o art. 5º do Anexo II, terá o
Governo que editar norma especial a respeito. Enquanto tal não acontecer, estará
em vigor, em sua forma primitiva, o art. 38 da Lei Uniforme, apesar da reserva
feita, por falta de legislação supletiva a respeito.
20.4. Reserva ao art. 6º do Anexo II – Câmaras de compensação
O art. 6º do Anexo II estatui:
“A cada uma das Altas Partes Contratantes incumbe determinar, para os efeitos da
aplicação da última alínea do art. 38, quais as instituições que, segundo a lei
nacional, devem ser consideradas câmaras de compensação.”
A última alínea do art. 38, já acima transcrito, dispõe:
“A apresentação da letra a uma câmara de compensação equivale à apresentação
a pagamento.”
Como se vê, não se trata, evidentemente, de reserva, que pressupõe sempre a
derrogação de uma norma da lei para a substituição por outra; é, simplesmente,
um reenvio, fazendo com que o Governo determine quais as instituições que entre
nós são consideradas câmaras de compensação.
20.5. Reserva ao art. 7º do Anexo II – Pagamento em moeda estrangeira
Dispõe o art. 7º do Anexo II:
 
“Pelo que se refere a letras pagáveis no seu território, qualquer das Altas Partes
Contratantes tem a faculdade de sustar, se o julgar necessário, em circunstâncias
excepcionais relacionadas com a taxa de câmbio da moeda nacional, os efeitos da
cláusula prevista noart. 41 relativa ao pagamento efetivo em moeda estrangeira.
A mesma regra se aplica no que diz respeito à emissão no território nacional de
letras em moedas estrangeiras.”
O art. 41, a que se refere o art. 7º do Anexo II, reza:
“Se numa letra se estipular o pagamento em moeda que não tenha curso legal no
lugar do pagamento, pode a sua importância ser paga na moeda do país, segundo
o seu valor no dia do vencimento. Se o devedor está em atraso, o portador pode,
à sua escolha, pedir que o pagamento da importância da letra seja feito na moeda
do país ao câmbio do dia do vencimento ou ao câmbio do dia do pagamento.
A determinação do valor da moeda estrangeira será feita segundo os usos do lugar
do pagamento. O sacador pode, todavia, estipular que a soma a pagar seja
calculada segundo um câmbio fixado na letra.
As regras acima indicadas não se aplicam ao caso em que o sacador tenha
estipulado que o pagamento deverá ser efetuado numa certa moeda especificada
(cláusula de pagamento efetivo numa moeda estrangeira).
Se a importância da letra for indicada numa moeda que tenha a mesma
denominação mas valor diferente no País de emissão e no de pagamento,
presume-se que se fez referência à moeda do lugar de pagamento.”
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Pela reserva feita, fica sem vigor a 3ª alínea desse art. 41 que determina que,
sendo estipulado pelo sacador que o pagamento deve ser efetuado em certa
moeda não especificada, não são aplicadas as regras de conversão de moeda
estrangeira em moeda nacional, permitida pelas alíneas anteriores. Sem efeito
aquela alínea 3ª, é admitida a conversão, mesmo que o pagador tenha estipulado
o pagamento efetivo em moeda estrangeira.
Aceitando essa conversão, já existe legislação no Brasil (Dec. nº 23.501, de 27 de
novembro de 1933, que “declara nula qualquer estipulação de pagamento em
ouro, ou em determinada espécie de moeda, ou por qualquer meio tendente a
recusar ou restringir, nos seus efeitos, o curso forçado do mil-réis papel”; Lei nº
28, de 15 de fevereiro de 1935; Lei nº 6.650, de 29 de junho de 1944 etc.).
O art. 25 do Decreto nº 2.044 permitia o pagamento em moeda estrangeira, se
determinado na letra, concordando, assim, com a 3ª alínea do art. 41 da Lei
Uniforme, ora objeto de reserva.
20.6. Reserva ao art. 9º do Anexo II – Apresentação para protesto no próprio dia
do vencimento
Estatui o art. 9º do Anexo II:
“Por derrogação da alínea 3ª do art. 44 da Lei Uniforme, qualquer das Altas Partes
Contratantes tem a faculdade de determinar que o protesto por falta de
pagamento deve ser feito no dia em que a letra é pagável ou num dos dois dias
úteis seguintes.”
Diz a alínea 3ª do art. 44 da Lei Uniforme:
 
“O protesto por falta de pagamento de uma letra pagável em dia fixo, ou a certo
termo de data ou de vista, deve ser feito num dos dois dias úteis seguintes àquele
em que a letra é pagável. Se se trata de uma letra pagável à vista, o protesto
deve ser feito nas condições indicadas na alínea precedente para o protesto por
falta de aceite.”
Como se vê do texto acima transcrito, pela Lei Uniforme não é permitida a
apresentação da letra para protesto no dia do vencimento da mesma e sim num
dos dois dias seguintes a esse vencimento. A lei brasileira, tratando do assunto
(art. 28), também não permitia o protesto no próprio dia do vencimento, e sim no
dia seguinte a esse (“A letra que houver de ser protestada por falta de aceite ou
de pagamento, deve ser entregue ao oficial competente no primeiro dia útil ao que
se seguir ao da recusa do aceite ou ao do vencimento” etc.). Divergia, assim, a lei
brasileira da Lei Uniforme unicamente quanto ao prazo em que a letra deveria ser
apresentada ao oficial para protesto: pela lei brasileira, somente no primeiro dia
útil seguinte ao do vencimento; pela Lei Uniforme, num dos dois dias úteis
seguintes ao vencimento.
Como, em certos países, era permitida a apresentação da letra para protesto no
próprio dia do vencimento, foi admitido, através da adoção da reserva constante
do art. 9º do Anexo II da Convenção, que os Estados contratantes, por
dispositivos próprios, alterassem o disposto na terceira alínea do art. 44 da Lei
Uniforme, para fazer com que a letra, nos países que assim o desejassem, fosse
apresentada para protesto também no dia do vencimento. Isso resolveria a
situação daqueles países que, em suas leis, já continham tal permissão.
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Estranhamente, o Governo do Brasil, país em que a lei estava, em parte,
concordante com a Lei Uniforme, ambas não permitindo a apresentação da letra
para protesto no próprio dia do vencimento, adotou a reserva do art. 9º do Anexo
II, procurando, assim, inovar na matéria, dentro do nosso direito, com a
permissão de ser a letra apresentada para protesto no próprio dia do vencimento.
Ao que nos parece, houve engano ou precipitação por parte do Governo brasileiro
quanto à adoção da reserva contida no art. 9º do Anexo II. A tendência atual do
Governo brasileiro é ampliar o prazo para apresentação da letra ao protesto e não
restringi-lo, como acontece com a adoção da reserva, permitindo-a no próprio dia
do vencimento do título. O Projeto de Código de Obrigações de 1965, no art. 984,
§ 2º, declarava que “o protesto deve ser tirado no prazo de cinco dias, contado do
vencimento, para assegurar o direito de regresso”, acrescentando a Exposição de
Motivos (p. XXIX), ao justificar a inovação: “No tocante ao protesto, formalidade
comprobatória da recusa do aceite ou do pagamento (art. 984), amenizou-se o
rigor do direito cambial vigente, autorizando-se seja tirado no prazo de cinco dias
do vencimento, para assegurar o direito de regresso.” É verdade que o Projeto não
falou na data em que o título deve ser apresentado para protesto; mas,
declarando que o protesto deve ser tirado no prazo de cinco dias, contado do
vencimento, é de admitir-se que o dia do vencimento não esteja incluído nesse
prazo.
Nessas condições, ensejou o Governo, com a adoção da reserva (se bem que
acreditemos que não desejasse isso), que a letra passe a ser apresentada a
protesto não apenas num dos dois dias seguintes ao próprio vencimento mas,
igualmente, no mesmo dia do vencimento. Contrariamente à opinião de Mercado
Júnior acreditamos que, com a adoção da reserva, não há necessidade de ser
editada norma especial, por parte do Governo, declarando que a letra pode ser
apresentada para protesto também no próprio dia do vencimento, visto estatuir o
texto do art. 9º que o Governo pode derrogar a 3ª alínea do art. 44 para
determinar (e exclusivamente para isso) que o protesto por falta de pagamento
pode ser feito também no dia do vencimento. Adotando a reserva, ipso facto o
Governo permitiu a apresentação da letra para protesto naquele dia.
Assim sendo, em resultado da adoção da reserva contida no art. 9º do Anexo II,
hoje as letras podem ser apresentadas para protesto ou no próprio dia do
vencimento ou num dos dois dias úteis seguintes a esse, de acordo com o texto
reformado da 3ª alínea do art. 44 da Lei Uniforme.
20.7. Reserva ao art. 10 do Anexo II – Direito de ação do portador contra os
coobrigados na letra
O art.10 do Anexo II dispõe:
“Fica reservada para a legislação de cada uma das Altas Partes Contratantes a
determinação precisa das situações jurídicas a que se referem os nos 2 e 3 do art.
43 e nos 5 e 6 do art. 44 da Lei Uniforme.”
O art. 43 da Lei Uniforme trata do exercício dos direitos de ação do portador
contra os endossantes, sacador e outros coobrigados, no vencimento, se o
pagamento não foi efetuado, e mesmo antes do vencimento, se houver recusa
total ou parcial do aceite (1º). O nº 2 do art. 43, objeto da reserva, estatui que o
portador pode exercer esses direitos de ação contra tais obrigados,
“nos casosde falência do sacado, quer ele tenha aceite, quer não, de suspensão
de pagamentos do mesmo, ainda que não constatada por sentença, ou de ter sido
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promovida, sem resultado, execução dos seus bens”.
O nº 3 do citado art. dá idêntico direito ao portador,
“nos casos de falência do sacador de uma letra não aceitável”.
Permitindo a reserva que a legislação nacional regule esses casos, e tendo o
Governo brasileiro aceito assim fazê-lo, não há problemas, no nosso direito, em
relação à falência do aceitante, visto já dizer que o Decreto nº 2.044, art. 19, nº
II, que a “letra é considerada vencida quando protestada – pela falência do
aceitante”. Assim sendo, quando há falência do aceitante, a letra é considerada
exequível contra os obrigados regressivos já que o obrigado principal, com a
superveniência da falência, não pode mais ser executado.
Entretanto, o nº 2 do art. 43 da Lei Uniforme refere-se, também, ao direito de
regresso contra os coobrigados no título, em caso de falência do sacado que não o
aceitou, de suspensão de pagamentos por parte do mesmo e, até, no caso de ter
sido promovida, sem resultado, execução dos seus bens. E no nº 3 do mesmo art.
é dado ao portador direito de regresso contra os coobrigados nos casos de falência
do sacador de uma letra não aceitável. Esses são casos não contemplados na lei
brasileira e que precisam ser regulados por normas especiais, inclusive porque
tratam de matéria nova, como a letra não aceitável, desconhecida do nosso direito
até a adoção da Lei Uniforme, pois no Decreto nº 2.044 a letra não aceitável não
era permitida, taxativamente estatuindo o art. 44, número III:
“Para os efeitos cambiais, são consideradas não escritas:
III – a cláusula proibitiva da apresentação da letra ao aceite do sacado.”
Também nenhum dispositivo existe quanto à permissão do direito de ação contra
os demais coobrigados no caso de falência do sacador.
Assim sendo, contrariamente à opinião de Mercado Júnior, julgamos que persiste,
apenas, de nossa legislação anterior, o princípio do nº II do art. 19 do Decreto nº
2.044, que considera a letra vencida quando protestada por falência do aceitante.
Não havendo em nossa legislação normas sobre o exercício de direito de ação
contra os demais coobrigados em caso de falência do sacado, de suspensão de
pagamentos do mesmo, ainda que não constatada por sentença, de execução de
seus bens, mesmo que sem resultado, e de falência do sacador de letra não
aceitável, devem ser editadas normas legais regulando os direitos do portador
quanto aos demais coobrigados. Enquanto não surgirem essas normas, ficarão em
vigor os dispositivos a respeito dos nos 2 e 3 do art. 43 da Lei Uniforme.
A reserva se refere também aos nos 5 e 6 do art. 44 da Lei Uniforme, que rezam:
“No caso de suspensão de pagamentos do sacado, quer seja aceitante, quer não,
ou no caso de lhe ter sido promovida, sem resultado, execução dos bens, o
portador da letra só pode exercer o seu direito de ação após apresentação da
mesma ao sacado para pagamento e depois de feito o protesto.
No caso de falência declarada do sacado, quer seja aceitante, quer não, bem como
no caso de falência declarada do sacador de uma letra não aceitável, a
apresentação da sentença de declaração de falência é suficiente para que o
portador da letra possa exercer o seu direito de ação.”
Esses dispositivos complementam os nos 2 e 3 do art. 43, esclarecendo o modo de
como pode o portador exercer o seu direito de ação contra os coobrigados. A eles
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se aplicam as considerações acima feitas, vigorando da lei brasileira apenas as
regras concernentes à falência do aceitante, as demais necessitando de uma
regulamentação legal, até o aparecimento da qual ficam em vigor os dispositivos
da Lei Uniforme.
20.8. Reserva ao art. 13 do Anexo II – Taxa de juros
Dispõe o art. 13 do Anexo II:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes tem a faculdade de determinar, no que
respeite às letras passadas e pagáveis no seu território, que a taxa de juro a que
se refere o nº 2 dos arts. 48 e 49 da Lei Uniforme poderá ser substituída pela taxa
legal em vigor no território da respectiva Alta Parte Contratante.”
O nº 2 do art. 48 da Lei Uniforme estatui que o portador pode reclamar contra
quem exerce o seu direito de ação “os juros à taxa de 6% desde a data do
vencimento”.
No mesmo sentido, o nº 2 do art. 49 declara que a pessoa que pagou uma letra
pode reclamar dos seus garantes. “Os juros de dita soma, calculados à taxa de 6%
desde a data em que pagou”.
Possibilita, assim, a reserva, que seja alterada essa taxa, com a adoção da taxa
legal do país. O Governo brasileiro adotou a reserva mas não é necessária a
estipulação de uma nova taxa de juros, visto estar regulada por lei a taxa de juros
legais do país, na base de 11,18 % ao ano (atualizado até 12.11.07 – Fonte:
Banco Central do Brasil – site http://www.bcb.gov.br/selic).
20.9. Reserva ao art. 15 do Anexo II – Perda de direitos ou prescrição
Estatui o art. 15 do Anexo II:
“Qualquer das Altas Partes Contratantes tem a liberdade de decidir que, no caso
de perda de direitos ou de prescrição, no seu território subsistirá o direito de
proceder contra o sacador que não constituir provisão ou contra um sacador ou
endossante que tenha feito lucros ilegítimos. A mesma faculdade existe, no caso
de prescrição pelo que respeita ao aceitante que recebeu provisão ou tenha
realizado lucros ilegítimos.”
O caso, como já assinalou Mercado Júnior, é o de mero reenvio, não de reserva. E
o art. 48 do Decreto nº 2.044 já trata do assunto, estando o mesmo em vigor.
20.10. Reserva ao art. 16 do Anexo II – Provisão e relação fundamental
Diz o art. 16 do Anexo II:
“A questão de saber se o sacador é obrigado a constituir provisão à data do
vencimento e se o portador tem direitos especiais sobre essa provisão está fora do
âmbito da Lei Uniforme.
O mesmo sucede relativamente a qualquer outra questão respeitante às relações
jurídicas que serviram de base à emissão da letra”.
Ainda aqui se trata de reenvio. Como assinala Mercado Júnior, o Decreto nº 2.044
não tem dispositivos expressos sobre o assunto mas o art. 51, referindo-se à ação
cambial, declara que nessa “somente é admissível defesa fundada em direito
pessoal do réu contra o autor”, afastando, assim, a causa do título do âmbito do
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direito cambiário. Também os princípios da abstração e da autonomia das
obrigações cambiárias são de aplicar-se ao assunto relativo à reserva feita.
20.11. Reserva ao art. 17 do Anexo II – Prescrição
O art. 17 do Anexo II assim se expressa:
“A cada uma das Altas Partes Contratantes compete determinar na sua legislação
nacional as causas de interrupção e de suspensão da prescrição das ações
relativas a letras que seus tribunais são chamados a conhecer.
As outras Altas Partes Contratantes têm a faculdade de determinar as condições a
que subordinarão o conhecimento de tais causas. O mesmo sucede quanto ao
efeito de uma ação como meio de indicação do início do prazo de prescrição, a que
se refere a alínea terceira do art. 70 da Lei Uniforme.”
A terceira alínea do art. 70 da Lei Uniforme estatui:
“As ações dos endossantes uns contra os outros e contra o sacador prescrevem
em seis meses, a contar do dia em que o endossante pagou a letra ou em que ele
próprio foi acionado.”
Ainda aqui, se trata de reenvio e não de reserva, regulando a matéria de
interrupção ou suspensão da prescrição normas do direito comum que são
aplicadas à cambial.
A última parte do art. 70 da Lei Uniforme refere-se ao prazo da prescrição da

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