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LETRA DE CÂMBIO ORIGEM E EVOLUÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO 11. CONCEITO DE LETRA DE CÂMBIO Entende-se por letra de câmbio uma ordem dada, por escrito, a uma pessoa, para que pague a um beneficiário indicado, ou à ordem deste, uma determinada importância em dinheiro. Requer, assim, a letra de câmbio, três elementos pessoais, que no título têm funções diversas: o que dá a ordem, chamado sacador; o a quem a ordem é dada, que se chama de sacado; e aquele a favor de quem é emitida a ordem, denominado de tomador ou beneficiário. Em virtude do princípio da autonomia das obrigações cambiárias, e sendo diversas as funções exercidas na letra por cada um desses elementos, uma mesma pessoa, física ou jurídica, pode figurar no título como sacador (aquele que cria e emite a letra, dando a ordem de pagamento), como sacado (aquele a quem a ordem para pagar é dada) e mesmo como tomador (aquele em favor de quem é dada a ordem). A lei brasileira que regulava a letra de câmbio (Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908) permitia expressamente que a letra de câmbio fosse emitida em favor do sacado (art. 1º, nº IV), não mencionando, entretanto, se poderia ter como sacado o próprio sacador. A doutrina se dividia a respeito, uns admitindo a permissão, outros a negando. Hoje, adotada entre nós a Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, a dúvida foi desfeita, pois tal lei expressamente permite (art. 3º) seja a letra emitida contra a pessoa que a saca e em favor dela própria. Assim, as divergências que, a respeito, são encontradas entre autores que, antes de entrar em vigor a Lei Uniforme, trataram do assunto entre nós, hoje não têm mais razão de ser, não cabendo a sua invocação em face das disposições expressas da lei. A letra de câmbio é um título de crédito, dotado de literalidade e de autonomia das obrigações. Desempenha importantíssima função econômica pela ampla utilização do crédito que proporciona. Entre nós foi regulada, até 1966, pelo Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908. Havendo, porém, em 24 de janeiro de 1966, pelo Decreto Executivo nº 57.663, promulgado o Governo a Convenção de Genebra para a Adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, a partir de então passou a reger a letra de câmbio, no direito brasileiro, aquela Lei Uniforme, que alterou várias normas no Decreto nº 2.044, de 1908. Tanto a Lei brasileira nº 2.044, como a Lei Uniforme, tratam da letra de câmbio e da nota promissória. São esses títulos diferentes, se bem que tenham muitos princípios em comum. Dada a existência de tais princípios, a letra de câmbio e a nota promissória são chamados títulos cambiários ou, simplesmente, cambiais. 12. HISTÓRICO A origem da letra de câmbio não está devidamente esclarecida, dela só se tendo maior conhecimento a partir da Idade Média. Costuma a história desse título ser dividida em três períodos, o primeiro chamado de período italiano, que vai da Idade Média ao último quartel do século 17; o segundo, período francês, das Ordenanças de Comércio, de 1673, até meados do século 19; e o último, período alemão, de 1848 aos dias atuais. A cada um desses períodos corresponde um conceito da letra de câmbio. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 1/193 12.1. Período italiano Apesar de pesquisadores do direito afirmarem que os princípios que regulam as letras de câmbio já eram, de forma rudimentar, conhecidos em Roma, e mesmo, antes, entre os assírios, foi na Idade Média que começou a estruturar-se esse instituto jurídico, nas cidades italianas, com a finalidade de facilitar operações comerciais. Realmente, estando as cidades marítimas italianas em pleno florescimento, na Idade Média, para elas acorriam mercadores dos lugares os mais diversos, com o fito de fazer transações. Dada a diversidade das moedas então existentes, havia necessidade de serem elas trocadas pelas moedas das cidades em que se realizavam os negócios. Surgiu, assim, a operação de câmbio ou troca de moedas, exercida pelos cambistas ou banqueiros, pessoas que se especializavam nessas atividades. A troca de moeda por moeda constituía o chamado câmbio manual, sendo a operação imediatamente liquidada. Em regra, tais transações se efetuavam nas feiras. Muitas vezes, entretanto, os mercadores, com receio de regressar às suas terras de origem conduzindo avultadas quantias em dinheiro, depositavam as mesmas em mãos dos banqueiros, estabelecendo com esses que tais importâncias, convertidas em moedas diversas, deveriam ser entregues em lugares outros que não aqueles em que eram depositadas. Para atestar o depósito, os banqueiros emitiam um documento (quirógrafo) em que, convertidas as moedas, declaravam que pagariam a soma mencionada no lugar designado. Esse pagamento poderia ser realizado ou pelo próprio banqueiro ou por seus correspondentes naqueles outros lugares. O pagamento seria feito ao depositante, cujo nome constava do documento, ou a pessoa por esse indicada, que funcionava como seu representante. Tal documento, emitido pelo banqueiro em favor do depositante ou de seu representante, assemelhava-se à atual nota promissória, por ser uma promessa e não uma ordem de pagamento. Emitido o documento, para que o pagamento fosse efetuado era necessário que o banqueiro enviasse uma carta ao seu correspondente na outra localidade, determinando que entregasse à pessoa que conduzia o documento, ou ao seu representante, a importância designada. Essa carta, que era uma ordem de pagamento, deu origem à letra de câmbio; podia ser remetida diretamente pelo banqueiro ao seu correspondente ou entregue ao depositante, devendo este, ou a pessoa por ele designada, apresentá-la ao banqueiro a fim de receber a importância consignada no outro documento. Com o decorrer dos tempos, sempre visando a essa modalidade de troca e de remessa de dinheiro de um lugar para outro, a carta do banqueiro começou a ser entregue diretamente ao depositante, estabelecendo-se, também, que este sempre poderia designar um seu representante para fazer o recebimento da importância dada em depósito. Passou a carta de autorização do banqueiro a ter importância primordial nesse contrato, ficando relegado a segundo plano o título de promessa de pagamento que, inicialmente, era o documento principal da operação. Mas, de qualquer modo, a carta de autorização, que tinha o nome de lettera di pagamento ou simplesmente lettera di cambio, pois sempre tratava de uma troca (cambio) de dinheiro, pressupunha um depósito primitivo, por parte do credor, de dinheiro em mãos de banqueiro. Como o dinheiro em depósito, além de convertido em espécie diferente, deveria ser pago numa praça diversa daquela em que a operação se iniciara, dava-se a esse contrato o nome de cambio trajecticio, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 2/193 diferente, portanto, da troca imediata, verificada nas feiras, em que uma pessoa entregava ao banqueiro moedas de uma espécie e recebia moedas de outra espécie, que era o chamado câmbio manual. Esse primeiro estágio de desenvolvimento da letra de câmbio, denominado período italiano, caracteriza-se, assim, por ser a letra um instrumento para a troca e remessa de dinheiro de um lugar para outro, não havendo, de tal modo, uma verdadeira operação de crédito. O período italiano durou da Idade Média até o terceiro quartel do século 17, quando a Ordenança de Comércio francesa, de 1673, deu novo conceito à letra de câmbio, no que foi seguida pelo Código de Comércio de 1808 e pelos que adotaram a orientação desse. 12.2. Período francês Enquanto, no seu estágio inicial, a letra de câmbio representava apenas o instrumento decorrente de um contrato de troca e remessa de dinheiro de um lugar para outro, ao ser acolhida na Ordenança de Comércio Terrestre de 1673 e, mais tarde, no Código francês de 1808, passouação de um endossante contra outro, fixando a lei o período de seis meses para ser utilizada a ação, contados do dia em que o endossante pagou a letra ou do em que ele próprio foi acionado. A lei brasileira não contém dispositivo a respeito, referindo-se apenas ao prazo prescricional da ação contra o sacador, aceitante e respectivos avalistas e à ação contra o endossante e seus avalistas – ação que, por não estar explícita, se supõe ser do portador contra um dos endossantes ou seus avalistas e não do endossante contra endossante. Assim, a nosso ver, está em vigor a última parte do art. 70 da Lei Uniforme, por não termos, em nosso direito, dispositivo expresso sobre a espécie. 20.12. Reserva ao art. 19 do Anexo II – Cláusula cambial na nota promissória Diz o art. 19 do Anexo II: “Qualquer das Altas Partes Contratantes pode determinar o nome a dar, nas leis nacionais, aos títulos a que se refere o art. 75 da Lei Uniforme ou dispensar esses títulos de qualquer denominação especial, uma vez que contenham a indicação expressa de que são à ordem.” O art. 75 da Lei Uniforme se refere à Nota Promissória e seus requisitos essenciais, e o nº 1 desse artigo, que dispõe sobre o nome do título, está assim expresso: “A Nota Promissória contém: 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 21/193 I – Denominação “Nota Promissória” inserida no próprio texto do título e expressa na língua empregada para a redação desse título.” Como se vê do art. 19 do Anexo II, a reserva permite ser mudado o nome do título, ou até deixar de mencioná-lo, contanto que o mesmo contenha a indicação expressa de que é à ordem. Não atinamos, por isso mesmo, o motivo dessa reserva pelo Governo brasileiro, visto como nosso Decreto nº 2.044 já dispôs como requisito essencial para a validade do título a denominação “Nota Promissória” (art. 54, I). Se deseja o Governo brasileiro que, entre nós, circulem notas promissórias sem esta denominação, necessário será ser editada norma especial regulando a matéria pois, assim não o fazendo, continua em vigor o nº 75 da Lei Uniforme, que é, como foi dito, semelhante ao nº I do art. 54 do Decreto nº 2.044. Quanto à obrigatoriedade da cláusula de que se trata de um título à ordem, está ela contida no nº 5 do art. 75 da Lei Uniforme (“o nome da pessoa a quem, ou à ordem de quem deve ser paga”), semelhante ao nº III do art. 44 do Decreto nº 2.044 (“o nome da pessoa a quem deve ser paga”), faltando, apenas, a cláusula à ordem. Mas ao nº 5 do art. 75 não é permitido fazer reserva, estando, assim, em vigor. 20.13. Reserva ao art. 20 do Anexo II – Aplicação de disposições das letras de câmbio às notas promissórias Dispõe o art. 20 do Anexo II: “As disposições dos arts. 1º ao 18 do presente Anexo relativas às letras, aplicam- se igualmente às notas promissórias.” Trata-se, apenas, de uma extensão das reservas feitas às letras de câmbio para as notas promissórias. Tendo esses títulos características gerais muitas vezes semelhantes, natural é que a reserva feita a dispositivo da lei referente a um deles se aplique também ao outro, quando possível. Tais foram as reservas adotadas pelo Governo brasileiro à Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias entre as permitidas nos 23 artigos contidos no Anexo II da Convenção. O estudioso da matéria, ao perquirir ou aplicar aquela lei, deve ter em conta as reservas feitas com as quais o Governo brasileiro discordou, dentro do possível, do texto integral da lei, que entre nós é aceito com essas alterações. 21. A TRADUÇÃO DA LEI UNIFORME Como acima dito (supra, nº 11, nota 3), o Brasil, ao adotar a Lei Uniforme, não fez uma tradução da mesma, publicando como sua, apesar de não ser isso declarado, a tradução feita em Portugal e por aquele país posta em vigor através do Dec. nº 25.556, de 30 de outubro de 1936. Isso se verifica cotejando-se a lei brasileira com a tradução portuguesa: as palavras são as mesmas, salvo ligeiríssimas modificações, e a própria construção das frases mostra que a tradução de nossa lei não é brasileira e sim portuguesa. Já fizemos sentir esse fato através de um trabalho publicado na Revista de Direito Mercantil, Nova Série, nº 5, e inserto como apêndice na 1ª edição deste livro; mas o apanhado de expressões mal traduzidas pela lei portuguesa está incompleto naquele trabalho, existindo muitas outras não mencionadas. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 22/193 A tradução da lei uniforme adotada em Portugal tem merecido, de mestres portugueses, severas críticas pela maneira falha com que foi feita. Sendo aquela tradução adotada no Brasil, é lógico que nossa lei cambiária, segundo o texto oficial em vigor, está eivada de erros que merecem ser corrigidos, pois alguns deles desvirtuam completamente o sentido original e verdadeiro da Lei Uniforme. Além desses defeitos da tradução portuguesa, existem outros, no texto divulgado no Brasil, oriundos da falta de cuidado na transcrição da tradução portuguesa, ou até devidos à revisão. Não tendo sido feitas as correções necessárias, é lógico que tais defeitos prejudicam os intérpretes ou aplicadores da lei que, ignorando os textos oficiais, em inglês e francês, se atêm ao que foi publicado como certo pelo Governo brasileiro. A fim de dirimir essas anomalias, enumeramos, a seguir, os principais defeitos existentes na tradução portuguesa da Lei Uniforme, inclusive os erros na publicação do texto, no Brasil, como Lei Brasileira. Esses defeitos, no nosso entender, estão a merecer correção por parte do Governo. Cap. I “Da emissão e forma da letra” O texto oficial francês, de que foi feita a tradução da lei portuguesa, se refere à criação e não à emissão da letra de câmbio. Os termos criação e emissão, em direito cambiário, têm significados diferentes, o primeiro sendo o ato de formalizar a letra e o segundo o de pô-la em circulação. Deveria, assim, a denominação do Cap. I ser traduzida por “Da Criação e da forma da letra de câmbio” e não “Da emissão e forma da letra”. Art. 1º: “A letra contém: 1 – a palavra letra inserta no próprio texto do título e...” O texto original francês estatui: “La lettre de change contient: 1 – la dénomination lettre de change...” O tradutor português traduziu lettre de change simplesmente por letra. Essa tradução é correta, no direito português, em virtude de haver o Código Comercial daquele país, de 1888, substituído a expressão letra de câmbio do Código anterior simplesmente por letra (art. 278). Assim, em Portugal, o termo legal para exprimir uma letra de câmbio é simplesmente letra, sendo, portanto, exata, para o direito português, a tradução de lettre de change por letra. O mesmo, entretanto, não ocorre no Brasil. Entre nós, o título tem o nome de letra de câmbio, consagrado pelo Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908, e por todas as leis que se referem ao assunto. Em tais condições, a expressão equivalente a lettre de change é letra de câmbio e não simplesmente letra. Foi, portanto, um erro aceitar a palavra letra, certa no direito português para significar letra de câmbio, em vez de letra de câmbio, que é a designação legal do título no direito brasileiro. O assunto tem importância dado o formalismo dos títulos de 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 23/193 crédito, sendo sacramental o emprego no título da denominação do mesmo constante do nº 1 do art. 1º da Lei Uniforme. Art. 1º: “2 – O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada”. O legislador português traduziu a palavra mandat, do texto francês, por mandato. Esse termo, em francês, na Lei Uniforme, tem sido bastante criticado, visto poder se confundir com o contrato de mandato, fazendo do sacadoum mandatário do sacador. Por isso, os anais da Conferência advertem que “deve-se observar que a palavra “mandato” não foi aqui usada em seu sentido jurídico preciso, e que o emprego dessa palavra não prejulga a natureza exata da operação na qual se analisa juridicamente a criação de uma letra de câmbio”. O termo usado no texto oficial em inglês é order. Por tal razão, uma melhor tradução da palavra “mandat” seria “mandado”, como sugere Pinto Coelho, visto que essa caracteriza uma ordem sem decorrer essa ordem de um mandato. Poderia, igualmente, ser traduzida a palavra simplesmente por ordem, como, aliás, constava da lei brasileira, art. 1º (A letra de câmbio é uma ordem de pagamento...) Art. 10, “in fine”: “... salvo se este tiver adquirido a letra de má-fé ou, adquirindo-a, tenha cometido uma falta grave”. Não se trata de falta grave, mas de culpa grave. A expressão empregada no texto francês, de que foi feita a tradução portuguesa, é faute lourde, que se traduz por culpa grave. No texto oficial em inglês é “negligence”. Art. 11, 1ª al.: “Toda a letra de câmbio...” Não se trata de toda a letra de câmbio (que significaria a letra de câmbio inteira) mas de “toda letra de câmbio”, ou seja, qualquer letra de câmbio. No texto francês: “Toute lettre de change”. Art. 11, 2ª al.: “Quando o sacador tiver inserido na letra as palavras ‘não à ordem’ ou uma expressão equivalente, a letra só é transmissível...” O texto francês fala em titre e o inglês em instrument. Melhor parece teria sido a tradução de letra no texto assinalado, por título porque, como acentua Pinto Coelho, “essa palavra torna mais patente a ideia... de que a transferência do crédito constante da letra deve ainda neste caso fazer-se mediante a transferência da posse do título, mantendo-se nesta modalidade de letra a conexão entre o título e o crédito”. Art. 15: “O endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação como do pagamento da letra. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 24/193 O endossante pode proibir novo endosso e, neste caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada.” Pela tradução portuguesa, havendo proibição de novo endosso, o endossante não garante apenas o pagamento da letra, garantindo, consequentemente, a aceitação, conforme se vê da 1ª alínea do artigo. Assim, entretanto, não ocorre. O texto francês é claro ao dizer que, “neste caso, ele não se torna garante para com as pessoas a quem a letra for posteriormente endossada”, isto é, ele não garante nem a aceitação nem o pagamento da letra. Garantisse ele a aceitação, como se conclui da tradução portuguesa, responderia ao portador pela não aceitação, o que, de fato, não ocorre. Proibindo novo endosso, o endossante se exime de inteira responsabilidade em relação às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada. Art. 16, últ. alínea: “... cometeu uma falta grave”. Não se trata de falta grave mas de culpa grave, conforme já se assinalou no comentário ao art. 10. Art. 18, 2ª alínea: “Os coobrigados...” Deve ser, segundo o texto francês, “os obrigados”. Art. 18, últ. alínea: “O mandato que resulta de um endosso por procuração não se extingue por morte ou sobrevinda incapacidade legal do mandatário.” Houve evidente engano na tradução portuguesa: deve-se ler “sobrevinda incapacidade legal do mandante”, conforme se vê do texto francês (mandant). Art. 19: “Quando o endosso contém a menção ‘valor em garantia’, ‘valor em penhor’ ou qualquer outra menção que implique uma caução...” Não se trata simplesmente de caução, que é gênero de garantia, mas de caução pignoratícia, que é uma das espécies de caução. O termo constante do texto em francês é nantissement e o do texto inglês é pledge. Art. 20, últ. alínea: “Salvo prova em contrário, presume-se que um endosso sem data foi feito antes de expirado o prazo fixado para fazer o protesto.” O texto francês diz: “Sauf preuve contraire, l’endossement sans date est censé avoir été fait avant l’expiration du délai fixé pour dresser le protêt.” Para ser mais fiel ao texto, uma melhor tradução do dispositivo seria: 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 25/193 “Salvo prova em contrário, o endosso sem data tem-se como feito antes de expirado o prazo fixado para fazer o protesto.” É a sugestão de Pinto Coelho. Art. 27: “Quando o sacador tiver indicado na letra um lugar de pagamento diverso do domicílio do sacado...” O texto francês diz: “Quand le tireur a indiqué dans la lettre de change un lieu de paiement autre que celui du domicile du tiré...” A tradução portuguesa, falando apenas em “lugar de pagamento diverso do domicílio do sacado” confunde o lugar de pagamento onde deve ser procurado o sacado para pagar, com o domicílio, que é a localidade onde o sacado se encontra. Parece que a tradução certa seria: “Quando o sacador tiver indicado na letra de câmbio um lugar de pagamento diverso do (lugar) do domicílio do sacado...” Art. 28, 2ª alínea: “Na falta de pagamento, o portador, mesmo no caso de ser ele o sacador, tem contra o aceitante um direito de ação...” Não se trata de direito de ação mas de ação direta, como se vê do texto em francês (action directe) e em inglês (direct action). O engano na tradução da lei tem muita significação pois o que essa quer mostrar é que a ação contra o aceitante não é regressiva, podendo, assim, ser exercida contra o aceitante, quer haja protesto, quer não. Art. 29, 2ª alínea: “Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou outro signatário da letra de que a aceita, fica obrigado, para com estes, nos termos do seu aceite.” Neste dispositivo, os autores enumeram duas falhas de tradução que merecem ser corrigidas. A primeira se refere a tiver informado, que melhor seria traduzida por comunicou, visto como a expressão tiver informado “comporta a ideia de que o sacado deu a informação antes de ter escrito a letra, isto é, a ideia de que se exprime um simples propósito, ao passo que a segunda (comunicou) exprime a ideia de simples comunicação dum fato acontecido – de que foi escrito o aceite. É o fato de ter dado o aceite que o sacado leva ao conhecimento do portador ou de qualquer signatário”. O texto francês justifica o argumento do mestre português, pois de fato declara a 2ª alínea do art. 29: “Toutefois, si le tiré a fait connaître son acceptation par écrit au porteur ou à un signataire quelconque...” Isso demonstra que a comunicação é de que o aceite foi dado e não que será dado. Esse entendimento leva a um outro defeito de tradução da Lei Uniforme: o emprego da palavra aceita em vez de aceitou. De fato, dizendo a tradução que, se 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 26/193 o sacado tiver informado a qualquer signatário da letra que a aceita, tem-se essa declaração como uma simples promessa de aceitação e não uma aceitação já feita e posteriormente riscada. Sendo promessa de aceitação sem que o aceite tivesse sido dado e riscado, ter-se-ia um aceite presumido, que inexiste na letra de câmbio, sendo a lei clara para afastar essa possibilidade quando diz que “o aceite é escrito na própria letra”. Havendo uma promessa de aceite não há aceite escrito na própria letra ou, simplesmente, não há aceite. O segundo defeito da tradução, assinalado por Pinto Coelho, reside em haver o legislador português traduzido “quelconque”, do original francês, por “outro signatário”. Na realidade, a comunicação deve ter sido feita a um signatário qualquer da letra, não a outro signatário pelo simples motivo de que o portador não é signatário da letra. Art. 31, 2ª alínea: Há um erro na publicação brasileira da lei; na 2ª alínea, onde a publicaçãooficial brasileira diz “e assinado pelo dador do aval” deve-se ler: “é assinado pelo dador do aval”. Art. 32, 3ª alínea: “Se o dador do aval pagar a letra, fica sub-rogado nos direitos emergentes...” O tradutor português traduziu a frase “le donneur d’aval acquiert les droits resultant de la lettre” por “fica sub-rogado nos direitos emergentes da letra”. Não se trata, evidentemente, de sub-rogação, que pressupõe uma transferência de direitos do sub--rogante para o sub-rogado; na verdade, há uma aquisição de direitos por parte do avalista que paga a letra, podendo ele agir contra o avalizado ou contra os que, pela letra, se obrigaram para com este. É um direito próprio, oriundo do pagamento da letra e não obtido por meio de uma sub-rogação. Art. 33, últ. alínea: “As letras, quer com vencimentos diferentes, quer com vencimentos sucessivos, são nulas.” A tradução portuguesa desvirtuou inteiramente o texto francês, em que, depois de enumerar as modalidades por que podem ser passadas as letras de câmbio (à vista, a certo termo de vista, a certo termo de data, a dia certo) o legislador dispôs que “as letras de câmbio, quer com outros vencimentos (que não os mencionados no artigo), quer com vencimentos sucessivos, são nulas”. (“Les lettres de change soit à d’autres échéances, soit à échéances sucessives, sont nulles.”) Isto quer dizer que não admite a Lei Uniforme letras de câmbio com vencimentos, por exemplo, em feiras, como era usual em certos países, ou com vencimentos diversos daqueles enumerados no artigo. A tradução portuguesa mudou completamente o sentido da frase. Art. 37, 2ª alínea: “Quando uma letra sacada entre duas praças que em calendários diferentes é pagável a certo termo de vista, o dia da emissão é referido ao dia correspondentemente do calendário do lugar de pagamento, para o efeito da determinação da data do vencimento.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 27/193 O dispositivo contém três defeitos: dois oriundos da publicação brasileira e um engano de tradução do tradutor português. Os relativos à publicação no Brasil são: “praças que em calendários diferentes”, em vez de “praças que têm calendários diferentes”, e “dia correspondentemente” em lugar de “dia correspondente”. O erro de tradução se refere a “certo termo de data” que deve ser “certo termo de vista”, como está no texto original francês. Cap. VII “Da ação por falta de aceite e por falta de pagamento.” O texto francês fala em récours, que deve ser traduzido por “direito de regresso” em vez de ação. Esse direito de regresso pode ser judicial ou extrajudicial, só no primeiro caso se podendo falar realmente em ação. Art. 44, 1ª alínea: “A recusa de aceite ou de pagamento deve ser comprovada por um ato formal...”. O texto oficial francês fala em “acte authentique” e Pinto Coelho estranha o fato de não se ter conservado “ato autêntico” em vez de formal. Realmente, o ato autêntico significa ser passado por oficial público, tal como acontece com o protesto, enquanto que o ato formal não pressupõe a interferência ao notário, mas simplesmente o cumprimento de certas formalidades. Seria, assim, de mudar formal por autêntico. Art. 47, 1ª alínea: “Os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas de uma letra são todos solidariamente responsáveis para com o portador.” Pelo texto, com a palavra aceitantes (no plural) fica a impressão de que a letra de câmbio tem mais de um aceitante. O texto francês se refere a “todos os que emitiram, aceitaram, endossaram ou avalizaram uma letra de câmbio...”. Melhor se afigura esta tradução do que a feita pelo tradutor português. Art. 47, 2ª alínea: Na 2ª alínea do artigo, a publicação brasileira da lei suprimiu as palavras ou coletivamente, em seguida a individualmente. O texto correto é: “O portador tem o direito de acionar todas essas pessoas individualmente ou coletivamente” etc. É a consagração do princípio da solidariedade cambiária. Art. 48, 1ª e 2ª alíneas: “O portador pode reclamar daquele contra quem exerce o seu direito de ação...” 2ª al.: “Se a ação...” ...“...à data da ação”. O legislador português traduziu récours, do texto original francês, por direito de ação. Não se trata, evidentemente, somente de ação que, como foi dito, pressupõe uma demanda judicial, mas, na realidade, de direito regressivo, que 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 28/193 tanto pode ser exercido judicialmente como não. Assim, na 1ª alínea, deve direito de ação ser corrigido por direito regressivo, o mesmo acontecendo com a 3ª alínea, onde a palavra interposta deve ser substituída pela expressão for exercido. Desse modo, a 3ª alínea deve ser lida: “Se o direito regressivo for exercido...” ...“em vigor no lugar do domicílio do portador à data em que for exercido o direito de regresso”. Art. 48, nº 1º: A publicação brasileira suprimiu a palavra ou entre não aceite e não paga. Note-se que, evidenciando a natureza lusitana da tradução, foi usada a expressão “não aceite”, que no português do Brasil naturalmente traduziríamos por “não aceita”. O texto deve ser lido: “O pagamento da letra não aceita ou não paga.” Art. 50: “Qualquer dos coobrigados, contra o qual se intentou ou pode ser intentada uma ação...” Ainda aqui, como acentuou Pinto Coelho a palavra “récours” foi traduzida por ação. A tradução certa seria: “Qualquer obrigado, contra o qual foi exercido ou pode ser exercido o direito regressivo...” Art. 51: “No caso de ação intentada...” ...“O portador deve, além disso, entregar a essa pessoa uma cópia autêntica...” Na primeira frase, a palavra ação deve ser substituída por “direito regressivo”. Na última, ao falar em cópia autêntica (copie certifié), Pinto Coelho faz indagações para saber o verdadeiro sentido da expressão. Para nós, em lugar de “pública forma”, sugerida por Pinto Coelho, a tradução deveria ser “cópia autenticada”, o que significa a interferência do notário para dar validade à cópia. Isso a faria distinguir-se, como argumenta o professor português, da “cópia” a que se referem os arts. 67 e 68, que não precisam ser autenticadas, e admitiria a fotocópia, que não é uma pública-forma, mas tem valor pela autenticação do notário. Art. 52, 3ª alínea: “Se o ressaque é sacado pelo portador, a sua importância é fixada segundo a taxa para uma letra à vista...” Pinto Coelho sugere que a palavra taxa seja substituída por “curso do câmbio” por ser mais conforme o direito português (Cód. Com. antigo, art. 324). Para nós a mudança também estaria de acordo com o que dispunha o art. 38, § 1º, do Decreto nº 2.044, de 1908. Art. 54, 1ª alínea: “Quando a apresentação da letra ou o seu protesto não pode fazer-se dentro dos prazos indicados por motivo insuperável (prescrição legal, declarada por um Estado qualquer...). O texto francês usa a palavra prescription, mas, evidentemente, não se trata de prescrição no sentido de modo extintivo da obrigação, e sim, simplesmente, de 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 29/193 determinação ou, como explica Pinto Coelho, “fato do príncipe”. O professor português sugere que a palavra seja substituída por determinação ou ordem, para evitar confusão com a prescrição em sentido jurídico. Art. 55, 2ª alínea; art. 59, 1ª alínea: “...direito de ação...” Conforme o acima exposto, a palavra récours, constante do texto oficial francês, deve ser traduzida por direito de regresso. Art. 62, 1ª alínea: “...Na falta desta indicação, presume-se que o pagamento o foi feito por honra do sacador.” O texto francês declara que, na falta de indicação, “le paiement est consideré comme fait par le tireur”. Deve, assim, ser substituído o presume-se da tradução portuguesa por é considerado,que dá um sentido diferente ao dispositivo. Art. 63, 1ª alínea: “O que paga por intervenção fica sub-rogado nos direitos...” A mesma observação do art. 32, 3ª alínea, deve ser feita aqui. Não se trata de sub-rogação, nem o texto francês leva a essa conclusão (“Le payeur par intervention acquiert les droits...”). Assim, substitua-se fica sub-rogado por adquire os direitos. Art. 63, 3ª alínea: A publicação brasileira estampou “intervir contrariamente...”; deve-se ler, como consta da tradução portuguesa, “intervier contrariamente”. Essas são as principais incorreções existentes na tradução da lei portuguesa e em enganos na sua publicação no Brasil, aquelas quase todas assinaladas por Pinto Coelho, como mencionados no texto. Como, contudo, está em vigor entre nós a tradução publicada com o Decreto nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, parece- nos que ao Governo caberia a tarefa de mandar fazer uma tradução brasileira da Lei Uniforme, expurgada dos defeitos que se encontram na tradução portuguesa, por nós aceita e, por vezes, deturpada. DA NATUREZA DA LETRA DE CÂMBIO 22. TEORIAS SOBRE A NATUREZA JURÍDICA DOS TÍTULOS DE CRÉDITO Desde o momento em que a letra de câmbio passou a ser intensamente usada nas relações comerciais, juristas tentaram justificar a existência do título, para tanto sendo formuladas as mais variadas teorias. Essas teorias podem ser divididas nas que veem na letra de câmbio o instrumento de um contrato, em regra defendidas pelos juristas franceses; nas que acham que os direitos do título dependem de um ato unilateral da vontade, esposadas principalmente pelos juristas alemães; e nas que se baseiam em certos direitos nascidos do título, preferidas pelos autores italianos. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 30/193 Dentre as teorias contratuais, aceitas em regra pelo direito francês, destacam-se a de Pothier, para quem a letra de câmbio “é o meio pelo qual o contrato de câmbio se executa”. Pardessus via na letra de câmbio um mandato outorgado pelo sacador ao sacado; a sua circulação seria oriunda de uma cessão, ao tomador, do crédito que o sacador tem contra o sacado. Já para Thaller o sacador delega ao sacado pagar ao tomador; este, endossando a letra, vai fazendo delegações sucessivas. Para Worms, trata-se de uma estipulação em favor de terceiros. Os juristas alemães baseiam-se no princípio da “abstração”. Essa concepção se fundamenta no fato de que, no direito alemão, como no antigo direito romano, o simples acordo de vontades (contrato) não é suficiente para transferir a propriedade de uma cousa. Esse acordo origina a obrigação de transferir, mas tal transferência só se opera por um “contrato de alienação que, para os imóveis, se faz pela inscrição no registro competente e para os móveis pela tradição. Esse contrato de alienação é que é abstrato no sentido de que o cumprimento da formalidade – inscrição ou tradição – confere ao adquirente um direito imediatamente consolidado, independente da causa da alienação, isto é, do acordo de vontades”. Esse o substrato da concepção alemã de direito abstrato. Partindo dessa premissa, Einert, para quem a letra de câmbio equivale ao papel- moeda, considerando o direito do portador um direito abstrato e autônomo, independente, portanto, da causa que lhe deu origem, justifica o nascimento desse direito como um ato unilateral da vontade do obrigado. Esse ato unilateral é uma promessa que se incorpora no papel. Passa, assim, a letra de câmbio, pela teoria de Einert, a ser considerada como um ato unilateral da vontade do subscritor, independente, portanto, de qualquer causa que o tenha originado. A teoria de Einert influenciou grandemente os juristas alemães, surgindo, porém, algumas variantes da mesma. Assim, para Thöl, criador da chamada “teoria da emissão”, a redação da letra se constitui uma oferta só se aperfeiçoando o contrato abstrato quando a letra é entregue ao portador, fato que significa a aceitação por parte deste. Liebe considera a redação da letra e o endosso como atos formais dando ao formalismo a principal característica desses títulos. Kuntze e Siegel elaboram a teoria da criação segundo a qual o título obriga desde que é criado, donde, se um título criado for extraviado ou roubado, persistirem as obrigações dos que nele lançaram suas assinaturas. Bekker pretende dar personificação ao título, considerando-o sujeito de direitos. Brunner e Gierke defendem que o título incorpora direitos. E para Jacobi basta que o título seja aparentemente perfeito para que o portador possa exercer os direitos do mesmo. Essa a teoria da aparência já conhecida em outros campos do direito (mandato, sociedades, sucessões etc.), aplicada aos títulos de crédito. Na Itália, Vivante, estudando profundamente os títulos de crédito, conclui que o elemento essencial do título é a literalidade; ao lado desse princípio, os títulos são também abstratos no sentido de que não ficam presos às suas causas e os direitos neles incorporados são autônomos. Deve-se a Vivante, como já foi dito, uma das mais completas definições dos títulos de crédito, ao considerá-los documentos necessários para o exercício do direito literal e autônomo neles mencionados. Se, para Mossa, a redação do título é um ato sui generis cujos efeitos são produzidos pela lei e não pela vontade das partes, Ascarelli considera o direito nascido do título como um direito próprio, autônomo (direito cartular). Tais, vistas superficialmente, as principais teorias surgidas para caracterizar a natureza jurídica dos títulos de crédito, a letra de câmbio sendo o título padrão. Algumas delas foram combatidas e não subsistiram; conceitos de outras 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 31/193 perduraram e são atualmente aceitos. O princípio de que o título de crédito deve a sua eficácia não a um contrato, mas a um ato unilateral da vontade do subscritor, é hoje geralmente admitido. Além desse, são comumente aceitos os de que o título é um documento formal, literal, incorporando direitos abstratos, com obrigações autônomas e valendo pela aparência, para a garantia do portador de boa-fé. Esses princípios gerais são aplicáveis à letra de câmbio, padrão, que é, dos títulos de crédito. 23. CARACTERÍSTICAS DA LETRA DE CÂMBIO De acordo com o que foi acima exposto e dentro da mais moderna doutrina que norteia a matéria, pode-se dizer que a letra de câmbio é um título de crédito à ordem, formal, literal, abstrato e autônomo. É um título criado para a circulação e, também, um título de apresentação. 23.1. A letra de câmbio é um título de crédito A primeira característica ou o primeiro atributo da letra de câmbio é que ela é um título de crédito. É, realmente, no dizer de Vivante, um “documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Criada por uma relação extracartular (relação fundamental), mas obrigada pela vontade unilateral do sacador, circula baseada na confiança que inspiram os que lançam sua assinatura no documento. Mobiliza, assim, o crédito, facilitando as transações comerciais, inteiramente garantidas pelos que dela participam. Desempenha, desse modo, muitas vezes, o papel da moeda, simplificando, sobretudo, as relações do comércio internacional. E toda a sua estrutura tem por base apenas a confiança que inspiram os que nela se obrigam. 23.2. É um título à ordem Criada para mobilizar o crédito baseado na confiança a letra de câmbio destina-se a circular. Por isso, a cláusula à ordem é de sua natureza, ainda mesmo que não venha explícita no documento. Foi, sem dúvida, a introdução dessa cláusula nos títulos de crédito o maior passo dado, em todos os tempos, para a circulação dos direitos. Sem a cláusula à ordem certamente a cambial e os demais títulos de crédito não preencheriam, a contento, as suas finalidades.Inicialmente, a cláusula à ordem deveria vir expressa nos títulos para que os titulares dos direitos neles mencionados pudessem transferi-los a outra pessoa. Faz-se a transferência através do endosso, ou seja, da assinatura do detentor legitimado do título no verso ou anverso do mesmo. No endosso o endossante pode mencionar a pessoa a quem transfere o título (endosso pleno ou em preto) ou pode deixar de fazê-lo (endosso em branco). Nesse último caso, basta a simples assinatura do detentor legitimado da letra, no verso do título (Lei Uniforme, art. 13, 2ª al.), para que se opere a transferência. A letra passa a circular como título ao portador sendo considerado titular dos direitos da mesma emergentes quem com ela se apresentar. 23.3. É um título formal A letra de câmbio é, também, um título formal isto é, para valer como tal deve conter certos requisitos exigidos por lei. É no formalismo que reside a maior garantia da letra. Exigindo a lei a menção no documento de determinados 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 32/193 requisitos, se ao menos um desses nele não figurar desnatura-se o título, deixando de produzir os efeitos (Lei Uniforme, art. 2º, 1ª al.). Esse rigor cambial dá a característica própria da letra de câmbio, fazendo com que se diferencie dos demais títulos de crédito. A cláusula cambiária, ou seja, a expressão letra de câmbio na língua em que o título é criado, terá que constar do contexto para que a letra valha como tal e possa gozar de certos direitos especiais de que não gozam outros documentos de crédito. Como já foi assinalado, a tradução adotada no Brasil denomina o título apenas de letra contrariando, assim, a tradição do nosso direito. 23.4. É um título literal A letra de câmbio é um título completo, per se stante valendo, assim, pelo que nele está mencionado. Assume, desse modo, papel importantíssimo a literalidade que limita os direitos dos possuidores do título e a responsabilidade dos que nele lançam as suas assinaturas. Vale na letra tão somente o que nele está escrito. Daí explicar um tratadista que “o direito decorrente do título é literal no sentido de que quanto ao conteúdo, à extensão e às modalidades desse direito, é decisivo exclusivamente o teor do título”. 23.5. É um título abstrato Igualmente, a letra de câmbio é um título que encerra direitos abstratos, ou seja, direitos independentes da relação fundamental. Nenhuma dependência tem o exercício dos direitos contidos no título do negócio que deu lugar ao aparecimento deste. Baseiam-se esses direitos da literalidade do título, no que nele está escrito. Uma vez que tenham sido preenchidos os requisitos exigidos pela lei para a validade do título, os direitos e obrigações dele decorrentes serão exercidos ou cumpridos independentemente da causa que deu lugar à criação e emissão da letra. Daí por que o portador de boa-fé, que recebeu o título regularmente, tem os seus direitos de crédito garantidos ainda mesmo que haja ocorrido irregularidades no negócio que deu lugar ao nascimento ou transferência da letra. 23.6. É um título autônomo As obrigações contidas na letra de câmbio são autônomas o que vale dizer que cada pessoa que nela se obriga o faz como um obrigado independente das obrigações até então assumidas por outras pessoas. Daí por que não são oponíveis ao portador as exceções pessoais fundadas nas relações do devedor com os obrigados anteriores. Há autonomia nas obrigações cambiárias pelo fato de cada pessoa que se obriga na letra assumir uma obrigação independente. E descoberto um vício ou defeito que não invalide a letra, esse fato não exime de responsabilidade aqueles que nela apuseram as suas assinaturas porque, assim o fazendo, assumiram obrigações pessoais pelas quais devem responder. 23.7. É um título de circulação Criada com a finalidade de mobilizar o crédito, a letra de câmbio é, assim, um título destinado à circulação. Se, por acaso, ficasse o título parado não beneficiaria o crédito senão a uma pessoa, não havendo necessidade da utilização, em tal caso, da letra de câmbio. É justamente em atender a várias pessoas que a letra de câmbio se destaca dentre os demais títulos de crédito. Faz-se a circulação, em regra, mediante endosso, muito embora possa o título circular também como título ao portador, isto é, sem o nome do beneficiário da 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 33/193 ordem, caso em que o detentor é presumido o seu proprietário. O importante, porém, da circulação é que, ao passar o título de um proprietário a outro, estão sendo transferidos direitos que serão exercidos, com inteira garantia, pelos detentores legitimados do título. Essa é, no conceito dos tratadistas, uma das características mais importantes dos títulos de crédito, sem a qual só com muita dificuldade os direitos de crédito poderiam ser transferidos de uma pessoa para outra. 23.8. É um título de apresentação Finalmente, a letra de câmbio é um título de apresentação, ou seja, um documento que necessita ser exibido para que o seu detentor possa exercer os direitos nele incorporados. Por tal razão é que, querendo o portador saber se o sacado, ou seja, aquela pessoa a quem a ordem de pagamento é dada, deseja cumpri-la, terá o título que ser apresentado materialmente, a fim de que, nele, o sacado aponha a sua assinatura (aceite); do mesmo modo, vencida a letra, tem o portador a obrigação de apresentá-la ao sacado ou aceitante para que seja a mesma resgatada. Também é por tal razão que, destruída ou extraviada a letra, será necessário um procedimento especial para que o proprietário possa receber a importância da mesma, não se admitindo a demanda imediata do pagamento e sim a adoção de medidas acautelatórias, para a garantia do exercício dos direitos dos credores depois de realizadas as providências que comprovem o extravio ou destruição da letra (Decreto nº 2.044, art. 36). Como instrumento necessário ao exercício dos direitos nela mencionados, a letra de câmbio precisa existir materialmente e o seu proprietário só poderá exigir o cumprimento das obrigações nela contidas mediante a sua exibição. 24. FUNÇÃO ECONÔMICA DA LETRA DE CÂMBIO Evidente é que a letra de câmbio, dada a sua natureza especial e as garantias de que está revestida, exerce grande função econômica, por muitos tendo sido considerada “papel-moeda internacional”. Não só se destina ela a efetuar o transporte fácil de valores, de um lugar para outro (que era o seu papel inicial) sem os perigos e as dificuldades do transporte real, como, acima de tudo, faz com que possam ser utilizadas, no presente, importâncias que só em tempo futuro serão exigidas. O crédito mobiliza-se e esse tempo tem grande influência para o desenvolvimento comercial. Faz o crédito com que surja uma nova fonte de riquezas, acrescendo o patrimônio real das pessoas com um outro, decorrente da confiança. Por tal razão, serve a letra de câmbio para facilitar a realização de transações comerciais, criando-se um novo capítulo nas atividades mercantis desde o momento em que as letras de câmbio passaram a ser utilizadas com maior frequência. E esse fato tem um significado maior depois da aceitação da teoria alemã sobre a criação das letras de câmbio, sendo dispensado o instituto da provisão para que o crédito, a confiança pura e simples, passasse a ser o sustentáculo da letra de câmbio. DA CRIAÇÃO E EMISSÃO DA LETRA DE CÂMBIO 25. DA CRIAÇÃO E EMISSÃO DA LETRA A Lei Uniforme, no Cap. I do Tít. I, trata da Criação e forma da letra de câmbio, tendo a tradução brasileira, adotada pelo Dec. nº 57.663, substituído a palavra criação por emissão. O Decreto nº 2.044, de 1908, intitulava o Cap. I, Do saque. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo34/193 Em ambas as leis, nesses capítulos, é regulada a criação da letra, com os requisitos essenciais para a sua validade. A criação, segundo tais dispositivos legais, é equivalente à emissão. A verdade, entretanto, é que existe diferença entre “criação” da letra e sua “emissão”. Por criação entende-se o ato de dar vida ao título, com a sua feitura material, cujo momento decisivo é aquele em que o sacador lança sua assinatura na letra; já a emissão é o ato de pôr a letra em circulação, com a sua transferência ao tomador. O Decreto nº 2.044 falava em saque que, na opinião de Pontes de Miranda, “é a operação... pela qual o sacador indica o nome de outro como possível obrigado”. De qualquer modo, se bem que, no fundo, haja sensível diferença entre emissão, criação e saque, na prática são geralmente empregados os termos emissão ou saque para indicar a feitura e o ato de pôr a letra em circulação. A lei brasileira procurava distinguir saque de emissão dando àquele o significado de feitura e lançamento em circulação da letra de câmbio, reservando a palavra emissão para a feitura e lançamento em circulação da nota promissória. Assim, sacador era o subscritor de uma letra de câmbio e emitente o de uma nota promissória. Também é usual o termo passar uma letra de câmbio para significar criar e emitir a letra. O próprio Decreto nº 2.044 estatuía, no art. 6º, que “a letra pode ser passada: I – à vista” etc., o que equivalia dizer que a letra podia ser criada e emitida para vencimento nos modos mencionados. O termo passar, nesse sentido, ainda é bastante comum na linguagem comercial, principalmente em relação ao cheque, dizendo-se constantemente passar um cheque com o significado de criar e emitir um desses títulos. Em resumo, temos que, criar a letra é dar a forma escrita ao título e emitir é fazer o título, já criado, entrar em circulação. Com a criação da letra de câmbio, alguém, denominado sacador, ordena a outra pessoa, chamada sacado, que pague a um terceiro, designado tomador, em certa época, uma importância determinada. Sacador, sacado e tomador têm, na letra, posições definidas e diversas. E como, ao participarem do título, assumem direitos e obrigações autônomas (não dependentes dos demais direitos ou obrigações dos que estão vinculados à letra), sacado e tomador podem ser a mesma pessoa física ou jurídica que deu a ordem (sacador). Não regesse o título o princípio da autonomia das obrigações cambiárias certamente isso não seria possível; mas, como a figura e a responsabilidade do sacador, do tomador e do sacado divergem, pode uma mesma pessoa, física ou jurídica, constar na letra como o dador da ordem (sacador), beneficiário da mesma (tomador) e o indicado para cumprir a mesma ordem (sacado). 26. TEORIAS RELATIVAS À CRIAÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO Já foi esclarecido (supra, nº 12) que, dentre as principais teorias, duas se destacam para justificar a natureza do ato gerador de uma letra de câmbio: a teoria contratual segundo a qual a criação da letra de câmbio está ligada a um contrato (inicialmente, um contrato de troca de moedas; posteriormente, um contrato relativo à remessa de valores de um lugar para outro); e a teoria que considera os direitos incorporados na letra como decorrentes de um ato unilateral de vontade do emissor, independentes, assim, da relação contratual que lhes deu origem. Segundo a primeira teoria, contratual, que foi aceita pelo Código de Comércio francês, há necessidade de provisão, ou seja, de depósito, por parte do sacador, em mãos da pessoa a quem a ordem é dada (sacado), de certa importância em dinheiro, mercadorias, ou mesmo crédito, para que possa a ordem 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 35/193 ser cumprida; indispensável se faz, também, que a ordem seja dada de um lugar para outro (distancia loci), a fim de ser caracterizada a remessa de valores. Já na segunda teoria, que justifica o nascimento dos direitos incorporados em uma letra de câmbio de um ato unilateral da vontade do sacador, não há necessidade da provisão nem de que a ordem seja paga em lugar diferente daquele em que foi dada. Baseia-se, assim, o título, na confiança, no crédito que tem o sacador, acrescido pelo crédito daqueles que vão lançando suas assinaturas na letra, pois esse fato faz com que eles se obriguem também pelo cumprimento da ordem. Essa teoria, como se vê, justifica melhor a letra de câmbio como um título destinado a mobilizar o crédito, já que a sua base repousa na confiança que os participantes do documento inspiram àqueles que se beneficiarão da ordem. Convém, contudo, esclarecer que essa teoria não desconhece o negócio contratual que deu lugar ao aparecimento da letra de câmbio; o que defende é que tal negócio se abstrai para a existência e validade do título, podendo esse, assim, ser criado e posto em circulação sem ficar subordinado a um contrato original. A teoria do ato unilateral de vontade foi, inicialmente, aceita pelos alemães, passando depois a ser seguida por quase todos os países do mundo. O Brasil, como um dos países cuja legislação comercial se inspirou no Código francês, adotou, a princípio, a teoria contratual (Código Comercial, art. 366); mais tarde, entretanto, aderimos à teoria alemã, dando como justificativa para a validade dos direitos incorporados na letra, um ato unilateral da vontade do sacador, conforme se vê do Decreto nº 2.044, de 1908. A Lei Uniforme, igualmente, segue a orientação de ser a letra criada por um ato unilateral da vontade. 27. FORMALISMO DA LETRA: RIGOR CAMBIÁRIO Não constitui, entretanto, qualquer ordem de pagamento dada por escrito, a um terceiro, uma letra de câmbio. Esse título, para valer como tal, deve estar revestido de determinadas formalidades estabelecidas por lei. A esse formalismo dá-se o nome de rigor cambiário e é justamente nele que repousam, em grande parte, as garantias do portador da letra. A Lei Uniforme, ao declarar, no art. 1º, que a letra “contém” os requisitos a seguir enumerados, logo depois (art. 2º) estatui que “o escrito em que faltar alguns dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como letra...” norma que dá valor decisivo à aparência do título. No mesmo sentido, aliás, dispunha o Decreto brasileiro nº 2.044, estabelecendo, no art. 1º, que a letra de câmbio é uma ordem de pagamento que deve conter certos requisitos que menciona e no art. 2º acrescendo que “não será letra de câmbio o escrito a que faltar qualquer dos requisitos acima enumerados”. Temos, então, que a letra de câmbio é um título formal, contendo uma ordem de pagamento e mais outros requisitos indispensáveis para que a mesma possa produzir os efeitos relativos à mobilização do crédito com suficiente garantia para os seus portadores. Faltando ao título algum desses requisitos legais deixará o mesmo de ser uma letra de câmbio, podendo valer apenas como um meio de prova, não um documento per se stante. É o rigor cambiário uma segurança para a circulação da letra e é graças a ele que esse título tanto vem cooperando na realização das atividades econômicas. 28. A FORMA NA LETRA DE CÂMBIO É a letra de câmbio uma ordem de pagamento (Lei Uniforme, art. 1º, nº 2) e essa ordem deve ser dada por escrito (Lei Uniforme, art. 2º “O escrito em que faltar algum dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 36/193 letra...”). Não há fórmula especial para a sua feitura, muito embora seja comum o uso de uma, muito simples, mais ou menos nos seguintes termos: “Aos (tantos dias do mês tal, ano tal) pagará V. S.ª, pela presente Letra de Câmbio, ao sr. F. de Tal ou à sua ordem, a importância de (tanto), em moeda legal do país”. Seguem- se o lugar, a data e a assinatura do sacador. Abaixo vem o nome da pessoa a quem é dada a ordem (sacado),com o endereço. Essa fórmula, porém, apesar de bastante usada, não é obrigatória, podendo o sacador criar uma letra de câmbio usando modelo diverso. Também não estabelece a lei o modo como deve ser emitida a letra, podendo, assim, ser manuscrita, datilografada ou impressa, sendo indispensável, porém, que haja, no título, a assinatura do próprio punho do sacador ou de pessoa que o represente, desde que possua poderes especiais para tal fim. De indagar seria se o contexto, ou seja, a parte da letra onde está expressa a ordem, pode começar numa face do papel e terminar no verso. Certamente, não; pois o verso da letra é principalmente destinado a receber assinaturas daqueles que transmitem o título a outra pessoa (endosso) muito embora, pela Lei Uniforme (art. 13), o endosso possa ser feito em qualquer lado da letra, a não ser quando se trate de endosso em branco (sem a indicação da pessoa a quem a letra é transmitida) que será obrigatoriamente lançado no verso (art. 13, 2ª al.). Assim, o contexto da letra deve ser lançado em uma face do papel; o verso ou dorso é destinado ao lançamento dos endossos ou de possíveis avais dados a pessoas determinadas ou indeterminadas. A lei brasileira exigia cinco requisitos para a validade da letra, três deles devendo ser lançados no contexto, permitido que um (o nome do sacado, ou seja, da pessoa a quem a ordem é dada) fosse lançado abaixo do contexto, e determinando que outro (o nome do dador da ordem ou sacador) se firmasse abaixo dele. A Lei Uniforme, em vez de cinco enumera oito requisitos essenciais para a validade do título (art. 1º). Acontece, entretanto, que a própria Lei Uniforme esclarece que três requisitos podem deixar de existir (época do vencimento, lugar do pagamento e lugar da emissão), suprindo a lei (art. 2º) a falta expressa dos mesmos. Em muita coisa os requisitos da Lei Uniforme alteraram os princípios antes admitidos pelo direito brasileiro. Cláusulas como a que, entre nós, permitia fosse emitida a letra ao portador foram suprimidas, não sendo mais permitidas letras dessa modalidade; outras, como a que contém a ordem dada, que não eram obrigatórias na lei brasileira, tomaram esse caráter na Lei Uniforme. Se, em essência, os princípios da lei brasileira coincidem, em linhas gerais, com a orientação da Lei Uniforme, na parte formal sensíveis modificações foram introduzidas por esta. 29. REQUISITOS ESSENCIAIS NAS LETRAS DE CÂMBIO Segundo o art. 1º da Lei Uniforme, para a validade da letra de câmbio deve a mesma conter os seguintes requisitos essenciais: 29.1. A denominação “letra de câmbio”, inserta no próprio texto do título e expressa na língua empregada para a redação desse título Essa é a chamada “cláusula cambiária”, com a qual o título se identifica dentre os demais títulos de crédito. Devendo produzir efeitos específicos como ordem de pagamento, a letra de câmbio necessita ter algo que a particularize, e isso é obtido mediante a inscrição, no contexto, das palavras “letra de câmbio”. Poderá, entretanto, esse título ser emitido para pagamento em outras praças onde a língua nacional não seja conhecida. Em tal caso, criando-se a ordem em língua 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 37/193 estrangeira, deve o documento conter expressão equivalente às palavras “letra de câmbio”, para que possa produzir os seus efeitos legais. A lei brasileira continha cláusula semelhante à da Lei Uniforme, estatuindo, no art. 1º, I, que o documento deveria conter “a denominação “letra de câmbio” ou a denominação equivalente na língua em que for emitida”. Em tais condições, a cláusula cambiária sempre foi indispensável para a validade da letra, tanto de acordo com a Lei Uniforme como com a lei brasileira, em ambas se exigindo, igualmente, sua inserção no contexto do título. De indagar seria se a expressão “letra de câmbio” pode ser abreviada ou substituída por uma outra de igual significado. No direito francês admite-se apenas de change em vez de lettre de change mas não se admite traite, termo comum por que é conhecido o título; na Itália há uma corrente que aceita a expressão equivalente lettera cambiaria, mas uma outra é contra. Na nossa opinião, não é de admitir-se a abreviação ou substituição da expressão “letra de câmbio” em face da imposição taxativa da lei. Obedecendo o título a um formalismo rigoroso, a substituição de um requisito essencial quebra essa regra, de grande importância para a segurança do título. Note-se, também, que a cláusula cambiária, se bem que fosse obrigatória já na lei alemã de 1848 (art. 4º, 1º), não o era no direito francês anterior à Lei Uniforme, nem o é, ainda hoje, no direito inglês (Bill of Exchange Act 1882, art. 3º). No que diz respeito à inserção da cláusula cambiária no próprio texto do título, acentue-se que a letra de câmbio também pode ser passada por ato notarial. Por último, sendo a letra emitida em mais de uma língua, como pode acontecer na Suíça, a expressão “letra de câmbio” deve constar na língua em que foi expressa a ordem, isto é, se a letra foi escrita em francês, italiano ou alemão, a expressão letra de câmbio deve ser escrita na mesma língua em que está expressa a palavra pagará ou expressão equivalente, já que a palavra pagará não é sacramental, podendo ser substituída por expressão equivalente (“Queira fazer o pagamento,” etc.). 29.2. Cláusulas não escritas O citado dispositivo considera não escritas no título: a cláusula de juros, a proibitiva de endosso, a excludente de responsabilidade pelo pagamento ou por despesas, a que dispense a observância de termos e formalidades prescritas, e a que, além dos limites fixados em lei, exclua ou restrinja direitos e obrigações. O dispositivo repetiu a redação do art. 44 do Decreto nº 2.044/1908. O art. 5° da Lei Uniforme admite a cláusula de juros nas letras de câmbio à vista e a termo certo de vista. Do art. 890 excluiu-se a cláusula proibitiva da letra ao aceite ao sacado, constante do item III do art. 44 da citada Lei, alterada pelo art. 22, 2ª al., da Lei Uniforme. O dispositivo do art. 890 do Código Civil de 2002 repetiu a redação do art. 44 do Decreto nº 2.044, de 1908. A redação do art. 890 do Diploma Civil de 2002 é a seguinte: “Consideram-se não escritas no título a cláusula de juros, a proibitiva de endosso, a excludente de responsabilidade pelo pagamento ou despesas, a que dispense a observância de 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 38/193 termos e formalidade prescritas, e a que, além dos limites fixados em lei, exclua ou restrinja direitos e obrigações”. O art. 22, alínea 2ª, da Lei Uniforme de Genebra para letras de câmbio e notas promissórias admite a letra de câmbio sem apresentação ao aceite, salvo se se tratar de letra de câmbio pagável em localidade diferente da do domicílio do sacado, ou de uma letra sacada tempo certo da vista. O art. 22, alínea 3ª “– O sacador pode também estipular que a apresentação ao aceite não poderá efetuar-se antes de determinada data.” O referido art. 22, 2ª al., admitiu a letra não aceitável, salvo em se tratando de letra pagável em localidade diferente daquela do domicílio do sacado ou de uma letra sacada a tempo certo da vista. A cláusula excludente de responsabilidade do endossante pela aceitação e pelo pagamento da letra (art. 15, 2ª al.) segundo Fran Martins no referido artigo, no texto francês da Lei Uniforme tem a seguinte redação: “tanto da aceitação, quanto do pagamento da letra em relação a terceiros a quem for endossada”. Essa redação deveria ser adotada no Código Civil. O art. 891 estatui que o título de crédito, incompleto ao tempo da emissão, deve ser preenchido de conformidade com os ajustes realizados. A redação do dispositivo não parece ser das melhores, pois a intenção do legislador foi de preencher o título nos claros ou omissõesde acordo com o estipulado na criação do título. A letra, depois de completada, quando adquirida de boa-fé não permite a apresentação de exceções baseadas na inserção da cláusula, relativa à não conformidade com os acordos oponíveis ao portador de boa-fé. No que concerne ao art. 891 sugere Fran Martins, no referido artigo, que a redação deveria mencionar que, ao portador de boa-fé, deveria ser garantida quanto ao preenchimento abusivo da letra em branco, como se deduzia da leitura do art. 3° do Decreto nº 2.044/1908, com base na teoria da aparência. O parágrafo único do art. 891 estabelece que o descumprimento pelos interessados dos ajustes previstos não constitui motivo de oposição ao terceiro portador do título, exceto se este agiu de má-fé. A redação do parágrafo único deste artigo reproduz a do art. 10 da Lei Uniforme, com a exclusão da parte final “ou adquirindo-a tenha cometido falta grave”. A Súmula nº 387 de STF assim dispôs: “A cambial emitida ou aceita com omissões em branco pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto”. A redação do texto do novo Código Civil contém a expressão: “os ajustes previstos neste artigo, pelos que dele participaram”, não se encontra no art. 4° da Lei Uniforme e na própria Súmula nº 387 do STF. 29.3. O mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada Necessário é que, no título, seja especificado o montante da importância a ser paga, de modo que se saiba exatamente o valor total que a letra representa. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 39/193 Devendo na letra obrigarem-se pessoas outras além do sacador, é indispensável que essas conheçam o quantum por que respondem; do mesmo modo, aquele a quem a ordem é dada – sacado – necessita saber do montante da importância que terá de desembolsar, se acatar a ordem. Não é admissível, assim, que do título conste uma importância indeterminada, ainda mesmo que haja um limite para essa importância como, por exemplo, se o sacador ordena ao sacado que pague até certa importância. A soma a pagar necessita ser exatamente mencionada. As normas da Lei Uniforme relativas à importância a pagar divergem um pouco daquelas constantes da lei brasileira. Assim o nº 2 do art. 1º diz simplesmente que da letra deve constar “o mandato puro e simples de pagar uma quantia determinada”, enquanto que a lei brasileira estatuía figurasse do contexto “a soma de dinheiro a pagar e a espécie de moeda”. Em primeiro lugar, no disposto na Lei Uniforme é de estranhar-se a palavra mandato, pois não se trata do contrato desse nome, em que o mandatário (no caso o sacado) agiria representando o mandante (sacador), e, em tal caso, obrigando a esse (Código Civil, art. 653), mas de uma ordem como se expressava a lei brasileira e reza o texto inglês da Lei Uniforme. Muito bem, entretanto, disse a Lei Uniforme que essa ordem deve ser pura e simples, isto é, não sujeita a qualquer condição pois se tal ocorresse esse fato alteraria a liquidez do título. No que se refere à importância a pagar, não menciona a Lei Uniforme seja especificada a espécie de moeda, naturalmente por estar essa espécie de moeda contida na importância (soma, como diz o texto original da Lei Uniforme) a ser paga. Requer, contudo, que a importância seja determinada, isto é, fixada, limitada, sem se sujeitar a variações prejudiciais aos obrigados no título. Em relação à maneira de escrever a importância a ser paga não determina a Lei Uniforme seja ela feita por extenso, como o fazia a lei brasileira (art. 1º, caput) mas estatui (art. 5º) que, “se na letra a indicação da quantia a satisfazer se achar feita por extenso e em algarismos, e houver divergência entre uma e outra, prevalece a que estiver feita por extenso”. Aduz, ainda, esclarecendo, a al. 2ª desse art. 5º que, “se na letra a indicação da quantia a satisfazer se achar feita por mais de uma vez, e houver divergências entre as diversas indicações, prevalecerá a que se achar feita pela quantia inferior”. Na lei brasileira (art. 5º) se, por acaso, a letra contivesse, fora do contexto, menção à importância a ser paga, valeria, no caso de diversidade, a que constava do contexto. A importância a ser paga, mencionada fora do contexto, poderia ser apenas em algarismos. Se, no contexto, a importância estivesse escrita por extenso e em algarismos, em caso de diversidade valeria a importância por extenso (lei brasileira, art. 5º). Igualmente, no contexto, junto à importância escrita por extenso, pela lei brasileira devia figurar a espécie de moeda. Em se tratando de pagamento em moeda estrangeira, esse, ainda que na letra houvesse disposição em contrário, devia ser efetuado em moeda nacional, fazendo-se a conversão ao câmbio à vista do dia do vencimento e do lugar do pagamento, ou não havendo curso de câmbio nesse lugar, pelo da localidade mais próxima. Originariamente a lei brasileira (art. 25) permitia o pagamento em moeda estrangeira, mas desde 1933, pelo Decreto nº 23.501, a norma do art. 25 do Decreto nº 2.044 foi derrogada, vigorando a regra da reserva feita pelo Governo brasileiro ao art. 41 da Lei Uniforme (supra, nº 18, e). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 40/193 Por último, em relação à divergência na escrita da importância a ser paga, a lei brasileira dispunha, ao contrário do contido na al. 2ª do art. 5º da Lei Uniforme, que o título não valeria como letra de câmbio se houvesse divergência entre as importâncias lançadas no contexto (art. 5º, in fine). 29.4. O nome da pessoa que deve pagar Deve na letra, obrigatoriamente, ser mencionado o nome do sacado, ou seja, da pessoa a quem é dada a ordem para efetuar o pagamento. Essa indicação usualmente constava abaixo do contexto, como era obrigatório pela lei brasileira (art. 1º, III); não tendo, entretanto, a Lei Uniforme disposto a respeito, já não é mais obrigatório que assim ocorra, podendo constar ou do contexto ou abaixo do mesmo, ou, até, acima, como se se tratasse de uma carta (por exemplo: “Ao Sr. F. de Tal, rua X, nº Y, cidade Z. – Pague V. S.ª ao sr. F., pela presente letra de câmbio, a importância... etc.”). O necessário é que, da letra, conste o nome do sacado. Este poderá, em princípio, ser qualquer pessoa, física ou jurídica. O sacador pode designar-se sacado, segundo dispõe expressamente a Lei Uniforme (art. 3º, 2ª al.), o que não estava explícito na lei brasileira e era discutido na doutrina. Assim, uma casa matriz pode sacar contra uma filial, ou até contra si mesma, já que as posições de sacador e de sacado são diversas na letra e as obrigações de ambos são autônomas. Não importa que o sacado tenha o mesmo domicílio do sacador; antigamente, como já visto, havia necessidade de estar a pessoa domiciliada em lugar diferente daquele do dador da ordem, pois a letra de câmbio era um instrumento destinado ao transporte de dinheiro e tal só ocorria havendo a distancia loci. Cumpre esclarecer que a indicação do sacado na letra não traz nenhuma obrigação para este, apesar de se referir a lei ao “nome daquele que deve pagar” (Lei Uniforme, art. 1º, nº 3). Solenizam-se as obrigações nos títulos de crédito mediante a prática de atos formais dos que se obrigam. Esses atos, na sua modalidade mais simples, são traduzidos pelas assinaturas dos obrigados na letra. Quem lança sua assinatura na letra – seja como sacador, aceitante, avalista ou endossante – está se responsabilizando autonomamente pelo cumprimento da obrigação. Esse princípio é absoluto e só deixa de funcionar quando a assinatura é precedida de uma declaração negativa, como a do sacado que, ao lhe ser apresentado o título, declara, por escrito, as razões pelas quais deixa de aceitá-lo; ou quando alguém age como procurador do verdadeiro obrigado na letra, como o endossatário no endosso-mandato. Assim sendo, o sacado, cujonome é obrigatoriamente indicado no título, nenhuma obrigação tem para com o portador do mesmo enquanto não lança sua assinatura, transformando-se em aceitante. Antes disso, a obrigação é garantida pelos que deixaram no documento as suas assinaturas – o sacador, que emitiu o título, dando a ordem de pagamento; os seus avalistas, se houver; os endossantes, se o título passou das mãos do seu proprietário original (tomador) para outras pessoas, fazendo-se essa transferência mediante um ato formal (endosso), que se traduz justamente na assinatura do proprietário do título, no verso ou no anverso do mesmo, especificando ou não a pessoa a quem a letra é transferida; e os avalistas desses, se houver. Se o sacado, a pessoa a quem a ordem é dada e cujo nome, obrigatoriamente, deve ser mencionado na letra, desejar cumprir a ordem, lançará no título a sua assinatura, passando a ser aceitante e nesse caso, em virtude daquela assinatura, se tornará o obrigado principal pelo pagamento. Mas as responsabilidades dos demais que deixaram suas assinaturas na letra perduram, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 41/193 passando apenas a ser responsabilidades subsidiárias, o que significa que, se o aceitante não pagar a letra, os demais estão obrigados a fazê-lo. A Lei Uniforme contempla dispositivo semelhante ao da lei brasileira, quanto à obrigatoriedade de conter a letra “o nome daquele que deve pagar” (art. 1º, nº 3). Note-se, entretanto, como acima foi dito, que, enquanto na lei brasileira não existia dispositivo expresso facultando o sacador designar-se sacado, a Lei Uniforme expressamente dispõe poder a letra ser sacada contra o próprio sacador (art. 3º, 2ª al.). Isso se explica em face da autonomia das obrigações cambiárias, cada uma delas valendo independentemente das outras. Nada impede, assim, seja a letra sacada contra o próprio sacador, nem mesmo sendo esse o tomador, pois a letra é um título destinado à circulação e pode mobilizar o crédito, com a sua transferência para outras pessoas, antes ou depois de ser apresentada ao sacado para aceite. O nome do sacado, muito embora a lei não o diga expressamente, pode ser abreviado, desde que a abreviação identifique a pessoa contra quem a letra foi emitida. Pode, também, ser substituído por um pseudônimo conhecidamente usado pela pessoa: v.g., Malba Tahan por J. C. de Melo e Sousa. Pode, até, ser um título nobiliárquico – Conde de Brotas – ou, mesmo, o de uma pessoa inexistente. Ampara esse último caso a teoria da aparência, segundo a qual basta a letra estar aparentemente completa, isto é, com todos os requisitos preenchidos, para ter validade. Se o sacado é um menor absolutamente incapaz, far-se-á a indicação do seu representante legal, mencionando-se na letra o fato (ao menor X, na pessoa do seu representante legal Y); se é um relativamente incapaz, seu aceite terá a assinatura também de seu assistente. Apesar de não esclarecer a lei, como faziam algumas leis anteriores (lei brasileira, art. 10), a letra pode ser sacada contra várias pessoas. Na doutrina, Lescot e Roblot acham que a indicação não pode ser alternativa (Ao Sr. F. ou ao Sr. X) mas uma outra corrente, a nosso ver com razão, admite que a indicação de vários sacados pode ser cumulativa (caso em que todos devem aceitar a letra); sucessiva (caso em que a apresentação deve ser feita na ordem da indicação) ou alternativa, quando cabe ao portador escolher aquele a quem deve apresentar a letra. Em qualquer hipótese, imprescindível é que os sacados tenham um domicílio certo, já que, não trazendo a letra o lugar do pagamento, será paga no domicílio do sacado (art. 2º). Por último, discute-se se o sacado pode ser identificado pela função que exerce, isto é, se a letra pode ser emitida contra alguém que exerce um cargo ou função, abstraindo-se, contudo, o nome da pessoa (ex.: ao Governador do Estado de S. Paulo; ao Reitor da Universidade do Brasil; ao Diretor do Departamento Nacional de Obras Públicas). No antigo direito italiano (Cód. de Com. de 1882, art. 251, 3º) isso era admitido, visto a lei requerer apenas a indicação da pessoa, o que permitia identificar a pessoa pelo seu cargo. No regímen da Lei Uniforme certamente tal não pode acontecer, pois a lei requer, expressamente, “o nome da pessoa que deve pagar”. O cargo certamente não é um nome; poderia, assim, a letra ser sacada contra o Departamento Nacional de Obras, pois essa entidade é uma pessoa jurídica; não, como se disse, contra o Diretor, ou o Tesoureiro ou o Superintendente de tal entidade. 29.5. O nome da pessoa a quem, ou à ordem de quem a letra deve ser paga 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 42/193 Também constitui requisito obrigatório, para a validade da letra de câmbio, a inscrição, no contexto, do nome da pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser paga, isto é, do tomador. É o tomador o beneficiário da ordem, e, uma vez lhe sendo entregue o título pelo sacador, investe-se na qualidade de proprietário original do mesmo e, consequentemente, sujeito ativo dos direitos dele emergentes. Se, por acaso, deseja passar esses direitos a outra pessoa, o tomador o fará mediante a simples assinatura no título, ou seja, pelo endosso. E porque o tomador é o primeiro proprietário da letra e o primitivo sujeito dos direitos nela incorporados, será também o primeiro endossante, já que só o proprietário pode transferir a outrem a propriedade da coisa. Pode o tomador transferir a letra sem mencionar o nome da pessoa a quem faz a transferência. Nesse caso, apenas lançará sua assinatura no verso do título (endosso em branco) e será considerado proprietário do mesmo e, portanto, sujeito ativo dos direitos nele incorporados, quem com ele se apresentar. Pela lei brasileira, a letra podia ser passada ao portador (art. 1º, nº IV), o que significava que a ordem era dada para que a importância fosse paga a uma pessoa não determinada, cujo nome não figurava no título. A Lei Uniforme tem orientação diversa, não permitindo que a letra seja originariamente ao portador, dispondo o art. 1º, nº 6, que a letra “conterá o nome da pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser paga”. Essa foi uma importante alteração no nosso direito cambiário, pois era usual a emissão de letras ao portador em virtude, principalmente, de, sofrendo os rendimentos dessas letras, na fonte, um desconto às vezes alto para o Imposto de renda, não ficarem os seus proprietários sujeitos à declaração cedular. Pelo sistema da Lei Uniforme, a situação foi alterada, pois, originariamente, as letras de câmbio já não podem mais ser ao portador. Não quer isso significar que jamais a letra de câmbio possa circular como título ao portador. Na realidade, entrada a letra em circulação, poderá circular como título ao portador, desde que o tomador ou um outro endossante a endosse com essa cláusula ou simplesmente em branco, isto é, lançando a sua assinatura no verso sem indicar a pessoa a quem a transfere (Lei Uniforme, arts. 12, 3ª al.; 13, 2ª al.). Isso, entretanto, só pode ocorrer quando o título entrar em circulação, isto é, quando ou depois que o tomador o endossar. Originariamente, deve o título, para valer como letra de câmbio, trazer o nome do tomador. Por último, transformada a letra em letra em branco poderá ser reconvertida em letra nominativa à ordem, mediante o lançamento no título da assinatura daquele que o detiver. Fazendo isso, o portador se identifica e, pela sua assinatura, torna- se corresponsável pelo aceite e pagamento da letra. Esse endosso tanto poderá indicar a pessoa a quem a letra é transferida (endosso em preto) como deixar de fazer essa indicação (endosso em branco). Pela Lei Uniforme que admite o endosso no verso ou no anverso do título, o endosso em branco só poderá ser feito no verso da letra (art. 13, 2ª al.). Não sendo designadoo novo proprietário do título, será considerado como tal quem com ele se apresentar. Alguns problemas têm sido aventados em relação à indicação do nome do tomador no título. Assim, pergunta-se se o tomador pode ser identificado apenas pelo seu cargo. O assunto foi bastante discutido na Conferência de Genebra mas ficou assentado que não deve o tomador ser indicado apenas por sua função, em virtude principalmente da dificuldade do endosso, que requer o nome da pessoa que endossa. Assim, admitida que fosse a indicação do tomador pela sua função, ao endossar o título teria ele que indicar a mesma. E como certas funções são exercidas por pessoas por um limitado espaço de tempo, poderia ocorrer a substituição do tomador na função e, se fosse exercido o direito regressivo, o 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 43/193 portador teria forçosamente que procurar aquele que então exercia a função, por força da qual assinara o endosso. Outro problema é o que se refere à pluralidade de tomadores. A lei não dispõe a respeito e a doutrina discute sobre a possibilidade de existirem vários tomadores de uma mesma letra. Na nossa opinião, estamos pela afirmativa desde que os tomadores sejam solidários. Assim, o endosso praticado por um é de responsabilidade de todos e no direito regressivo agindo o portador contra um deve esse responder pela totalidade da dívida, naturalmente com o benefício de divisão do montante em relação aos demais tomadores solidários. Não deve ser permitido, entretanto, que os tomadores sejam disjuntos, pois, em tal caso, ao endossar a letra, faz-se a transferência apenas de parte do crédito. Ora, a letra é um título que representa uma dívida total, que, pela relação existente entre o documento e o direito que ele incorpora, não pode ser dividida. Não se deve confundir o caso com o aval parcial ou o aceite limitado. No aval parcial um estranho interfere no título limitando sua responsabilidade e o portador já sabe que, ao exercer recurso contra ele, só terá direito de exigir uma parte do crédito, ficando, contudo, garantido, quanto ao restante, pelos demais signatários do título. No aceite limitado o aceitante só garante o pagamento por uma certa quantia, e o portador igualmente terá direito de regresso contra os obrigados anteriores, que garantiram o pagamento da totalidade da importância da letra. Como não é permitido o endosso parcial, também não é possível a existência de vários tomadores que não sejam solidários. Se tal acontecer, o endosso do título deve ser assinado por todos; e se for exercido pelo portador o direito regressivo, esse pode acionar apenas um dos endossantes, baseado na solidariedade cambiária consagrada pelo art. 47 da Lei Uniforme, mas esse, pagando a dívida, terá direito a exigir do cotomador a sua parte na mesma segundo a regra da solidariedade comum. E o exercício da ação regressiva por parte desses tomadores pagantes deve caber aos tomadores, em comum, já que os mesmos, na realidade, representam um só obrigado, qualificado como tomador. Podem, no entanto, os tomadores ser alternativos (pague a F ou a X). Em tal caso o que de posse da letra, a transmitir, isenta de responsabilidade o outro tomador, ainda mesmo na ação regressiva. 29.6. A indicação da data em que a letra é passada Pela Lei Uniforme (art. 1º, nº 7) é requisito essencial para a validade do título a indicação da data em que a letra é passada. A lei brasileira não considerava a data requisito obrigatório, facultando ao portador inseri-la a qualquer momento, para o que possuía um mandato presumido (Decreto nº 2.044, art. 4º). Assim, entretanto, não ocorre na Lei Uniforme, que não incluiu entre as exceções mencionadas no art. 2º a falta da data em que a letra é passada. A importância da data provém do fato de que, depois de revestido o documento dos demais requisitos formais, somente poderá ser considerado um título que vale por si mesmo, independente da causa que lhe deu origem, a partir da data em que foi passado. Serve, igualmente, para se verificar se, à data fixada, o sacador era capaz de se obrigar cambiariamente. No sistema brasileiro, mesmo circulando sem data, o documento, revestido dos requisitos mencionados no art. 1º do Decreto nº 2.044, já era considerado um título de crédito. O portador, podendo inserir a data quando lhe aprouvesse, na realidade passava a dispor de um elemento importantíssimo, capaz, muitas vezes, de alterar a situação de algum dos obrigados no título, já que, rezando o art. 3º do Decreto nº 2.044 que os 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 44/193 requisitos obrigatórios eram “considerados lançados ao tempo da emissão”, esse tempo de emissão seria contado a partir da data do título. Assim, se, depois de emitida a letra o sacador falisse, bastaria, para validá-la, a colocação de uma data anterior ao período suspeito da falência. A data consiste em dia, mês e ano. Na prática, é costume em documentos diversos, ser substituído o mês por um número que lhe corresponderia se se contassem os meses do ano de 1 a 12, considerando-se o número 1 o mês de janeiro. Esse costume não tem justificativa legal e a antiga lei brasileira sobre o cheque, nº 2.591, de 1912, tentando certamente dirimir dúvidas, declarava (art. 2º, c) que o cheque deveria conter a “data, compreendendo o lugar, dia, mês e ano da emissão, sendo o dia e o mês por extenso”, tendo o Dec. nº 22.393, de 25 de janeiro de 1933, estabelecido que por extenso deve ser escrito apenas o mês. Esses dispositivos legais merecem vários esclarecimentos. O primeiro é que o lugar, referido como integrante da data na Lei nº 2.591, na realidade não faz parte dessa. Por lugar entende-se o domicílio jurídico do emitente do cheque e por data o momento, no tempo, em que o ato de emissão é praticado. Fixa-se esse momento pelo dia, mês e ano; isso é o que deve ser entendido por data, que nada tem a ver com o lugar, que é a fixação do fato no espaço. A Lei Uniforme faz claramente essa distinção (art. 1º, nº 7). Depois, dizendo que o dia e o ano podem deixar de ser escritos por extenso, o Dec. nº 22.393 andou certo, pois se trata de números e os números têm duas maneiras de ser escritos: por extenso ou em algarismo. Não se confunda a escrita em algarismos com a escrita abreviada, que seria o contrário lógico da expressão por extenso usada na Lei nº 2.591 e no Dec. nº 22.393. A abreviação consiste na simplificação da palavra, reduzindo-se as suas letras ou sílabas de modo a dar a entender o seu sentido completo. Assim, p. ex., é uma abreviação de por exemplo; qdo. é uma abreviação de quando. Isso não acontece ou raramente poderia acontecer na escrita dos numerais, se bem que, no português antigo, especialmente na escrita tabelioa, fosse bastante usada a abreviação de numerais. Se se poderia entender que mil e novtos. e set. e sete significaria mil e novecentos e setenta e sete, hoje não é comum essa forma de escrever tal número. Em se querendo abreviar a escrita, com economia de espaço e tempo (e foi certamente isso o que motivou o dispositivo legal), facilmente se obtém tal resultado escrevendo-se em algarismos. Essa é a maneira mais simples de serem escritos os números. Já no que diz respeito a ser escrito o mês por extenso, parece-nos que a lei não necessitava explicitar tal regra, a não ser que quisesse evitar a simplificação real do nome do mês, isto é, evitar que se escrevesse jan. por janeiro, out. por outubro etc. Se tentou evitar isso, a lei está certa, se bem que, no nosso entender, não houvesse nenhum prejuízo para o título se se empregasse uma abreviação que realmente identificasse o mês. Assim, usando out. em vez de outubro, em nada o título estaria prejudicado pois não há outro mês que possa, abreviado, ser confundido com esse. Mas, se a lei pretendeu não evitar essa abreviaçãoa significar um instrumento de pagamento, não se atendo, simplesmente, à transferência de dinheiro. Por essa razão, já não era o depósito em mãos do banqueiro que dava origem à letra; qualquer importância que o sacado (pessoa a quem era dada à ordem) devia ou poderia dever, futuramente, ao sacador (credor, pessoa que dava a ordem), proveniente de qualquer transação – fornecimento de mercadorias etc. –, possibilitava a emissão de letra. O fato principal desse período foi a adoção da cláusula à ordem e, consequentemente, o nascimento do endosso. Segundo aquela cláusula, constando ela da letra, o tomador ou beneficiário poderia transferir o título a qualquer pessoa sem o consentimento do sacador, e a pessoa a quem a letra era transferida ficava investida de todos os poderes de titular na mesma mencionada. A transferência se fazia de modo simples, com a assinatura do tomador nas costas do título; assim surgiu o endosso, modalidade especial de transmissão dos títulos de crédito. Entretanto, a emissão da letra ainda pressupunha um contrato inicial. Para existir a letra, se tornava necessária provisão do sacador em mãos do sacado; por tal razão, devia a letra, para garantia do tomador, ser, inicialmente, apresentada ao sacado, a fim de que esse declarasse se estava disposto a cumprir a ordem, ou, em outras palavras, se aceitava a ordem do sacador. Surgiu, desse modo, o aceite, consistente na manifestação do sacado de acatar a ordem dada pelo sacador de efetuar o pagamento da letra na época do seu vencimento. Caracterizou-se, assim, esse segundo período evolutivo da letra de câmbio por se transformar ela em um instrumento de pagamento, pelas facilidades criadas para a sua circulação, com adoção da cláusula à ordem e do endosso e pela vinculação do sacado à obrigação, com o aceite. 12.3. Período alemão A partir do início do século 19, os juristas começaram a estudar mais profundamente a letra de câmbio e novas interpretações foram dadas ao seu conteúdo. Foi, sobretudo, na Alemanha onde tais estudos se desenvolveram. E deve-se principalmente a Karl Einert a conceituação da letra de câmbio não mais como um simples meio de pagamento, instrumento de um contrato preliminar, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 3/193 mas como um verdadeiro título que vale por si próprio de acordo com a vontade manifestada pelo subscritor. Chamou Einert a letra de câmbio de “papel-moeda do comerciante” e explicou essa sua afirmativa declarando que, do mesmo modo como o Tesouro emite cédulas representativas de valor, assim o faz o comerciante, ao subscrever uma letra de câmbio. Apesar de reconhecer-se que a letra de câmbio diverge, grandemente, dos títulos emitidos pelo Tesouro, a afirmativa de Einert serviu para mostrar peculiaridades que deviam revestir esses títulos e que, posteriormente, foram adotadas pelas legislações de quase todos os países. Graças, assim, aos estudos dos alemães, principalmente de Einert e de Thöl, a letra de câmbio passou a ser considerada um verdadeiro título de crédito, não estando a sua existência dependente de um contrato preliminar causador do seu aparecimento. Nasce a letra de um ato unilateral da vontade do sacador, e, uma vez preenchidas certas formalidades, vale pelo que nela está escrito. E o direito do seu possuidor é autônomo e abstrato, independente da relação fundamental, ou seja, do negócio que, por acaso, deu origem à letra. Por se tratar de um direito autônomo e abstrato, não são oponíveis exceções aos possuidores da letra baseadas nas relações desses obrigados com os obrigados anteriores. Essa nova conceituação da letra de câmbio veio satisfazer plenamente as necessidades do comércio que, dado o progresso verificado no mundo da metade do século passado para cá, dia a dia se desenvolve. Importante título de crédito, empregado por comerciantes e não comerciantes, a letra de câmbio foi, por lei, revestida de inúmeras garantias, de modo a ser utilizada com facilidade e segurança. Com essas características, conceitua-se, hoje, a letra de câmbio como um título de crédito formal (já que, para valer como tal, devem ser, na sua feitura, atendidos certos requisitos), literal (valendo apenas o que nela está escrito) e abstrato (o que significa que o direito nela mencionado não está na dependência de uma causa anterior, em regra chamada de relação fundamental). A letra tem a sua origem principalmente na vontade unilateral do seu criador e as obrigações dos que assinaram na mesma são obrigações autônomas, cada uma valendo por si própria. 13. A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO ESTRANGEIRO Regulada pela Ordenança do Comércio Terrestre de 1673, a letra de câmbio passou, com nova estrutura, para o Código de Comércio francês de 1808, constituindo o Título Oitavo e constando dos arts. 110 a 189. Essa parte do Código francês foi mais tarde modificada pela lei de 7 de junho de 1894 e, posteriormente, por várias outras leis, entre as quais a de 8 de fevereiro de 1922 e o Decreto-Lei de 30 de outubro de 1935, que deu novo texto ao Título VIII (arts. 110 a 189) do Código de Comércio e que fez uma adaptação da Lei Uniforme de Genebra, de 7 de junho de 1930, com a singularidade de que a Convenção que estabeleceu essa Lei só foi ratificada pela França em 1936, isto é, depois de ter sido adaptada a Lei Uniforme ao direito interno francês. Divergindo da maioria dos países, a França conservou o instituto da provisão, continuando a ser essa necessária para ser emitida uma letra. Pressupõe assim a letra de câmbio francesa um negócio fundamental a que fica ligada, o que a descaracteriza como uma obrigação criada por ato unilateral da vontade do sacador. Os códigos surgidos depois da promulgação do Código de Comércio francês – o espanhol, de 1829, o português, de 1833, o Código Albertino, de 1865 e, em geral, quase todos os sul-americanos, que nada mais foram que a aceitação ou adaptação do código espanhol – seguiram a orientação francesa, enquadrando a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 4/193 letra de câmbio como um título destinado a efetuar pagamentos, só permitido havendo diversidade entre o lugar da emissão e o do pagamento (o art. 110, primitivo, do Código francês declarava: “A letra de câmbio é sacada de um lugar para outro”), resultante de um contrato inicial que se formalizava pela provisão. Entretanto, essa orientação encontrou opositores nos sistemas legais da Inglaterra e da Alemanha, que davam à letra de câmbio um conceito diverso. Na verdade, na Inglaterra existiam duas modalidades de letras de câmbio, uma destinada a circular apenas no país (Inland-Bill) e outra para circulação no exterior (Foreign-Bill). Se a segunda era resultante de um contrato, como a letra de câmbio francesa, a primeira fazia abstenção da distancia loci, não representando, necessariamente, a remessa de valores de um lugar para outro, donde, em consequência, não haver à sua base um contrato de câmbio nem ser necessária a provisão, isto é, o valor fornecido em mãos de sacado. Esse título, em alguns casos, não exigia sequer a assinatura do sacador, bastando que o nome desse constasse do documento, “de maneira a não dar lugar a nenhum equívoco”. Foi na Alemanha, contudo, que maior reação se fez ao conceito francês da letra de câmbio como um título só utilizável de um lugar para outro, sempre ligado a um contrato original. Depois de vários estudos e discussões de notáveis juristas, foi aprovada, em Leipzig, em 24 de novembro de 1848, a “Lei Geral Alemã sobre Letras de Câmbio” (Die Allgemeine Deutsche Wechselordnung), discutida e aceita por representantes de 37 Estados que então compunham a Alemanha. Essa lei, que se baseou, em grande parte, nas ideias expostas, em 1839, por Einert, no seu livro Das Welchselrecht nach dem Bedurfnisse im 19. Iahrhunderts, foi depois ligeiramente modificadamas impedir que, em vez de nomes, os meses fossem identificados por números (24 de junho de 1975), o dispositivo não tem razão de ser, já que a escrita em algarismos não é uma abreviação da escrita por extenso mas simplesmente uma modalidade legal de serem escritos os numerais. A lei cambial brasileira preocupou-se com que os requisitos essenciais da letra fossem escritos por extenso (Decreto nº 2.044, art. 1º, caput). Mas a data, pela lei brasileira, não era requisito essencial. Sendo-o pela Lei Uniforme, deve constar 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 45/193 do dia, mês e ano, podendo o dia e o ano ser escritos por extenso, ou em algarismos. O nome do mês não deve ser representado por números, pois não há nenhum motivo legal que justifique a identificação dos meses por algarismos. No nosso entender, entretanto, pode o nome do mês ser abreviado desde que identifique o mês, do mesmo modo como podem, na letra, ser abreviados os nomes das pessoas que nela se obrigam, uma vez que essa abreviação de nome seja capaz de identificar a pessoa, como, por exemplo, Fran Martins em vez de Francisco Martins. Não dispondo a Lei Uniforme o modo como pode ser escrita a data da letra, é de indagar-se se essa poderá ser substituída por uma data universalmente ou geralmente conhecida, como, por exemplo, “Natal”. Sabe-se que o dia do Natal é, universalmente, o dia 25 de dezembro. No nosso entender, não haveria prejuízo para a data da letra ser assim fixada: “Natal de 1976”, “Finados de 1975” etc. O caso não seria o mesmo se o dia fosse de festa móvel, como “Sexta-Feira Santa”, “Quarta-Feira de Cinzas” etc. Em tal caso, dada a variabilidade do dia assinalado, se tornaria difícil precisar exatamente a que dia ou mês corresponderia a sua enunciação. Não será admitida como válida uma letra assim emitida; como válida não seria uma letra com data inexistente – 30 de fevereiro, 31 de junho e outras semelhantes. A disposição do art. 889 do novo diploma civil considerou elementos essenciais: À data da emissão do título, a indicação precisa dos direitos que confere e a assinatura do emitente. A segunda exigência refere-se aos direitos contidos na letra, conferidos ao beneficiário dela. A data da emissão abrange o saque da letra de câmbio. A assinatura do sacador da letra de câmbio ou do emitente da nota promissória também constitui elemento essencial à sua validade. 29.7. A assinatura do sacador Por fim, deve constar da letra, obrigatoriamente, assinatura da pessoa que dá a ordem, sacador, ou da pessoa a quem ele tenha outorgado poderes especiais para praticar tal ato. Essa é a primeira vez que a lei (art. 1º, nº 8) exige uma assinatura no título. E assim não poderia deixar de ser pois, contendo o título uma ordem de pagamento, necessário é que alguém responda por esse pagamento, se a pessoa a quem ele foi ordenado não o realizar. Como as obrigações nos títulos de crédito são garantidas pelas assinaturas dos que neles interferem, não haveria garantia para o pagamento se, desde o nascimento do título, não contivesse ele uma assinatura. O sacador, que deve lançar sua assinatura na letra, necessita ser capaz para poder responder pela obrigação. Entretanto, se por acaso for incapaz, e se outra pessoa capaz lançar, posteriormente, sua assinatura na letra, fica essa última pessoa respondendo, perante o portador, pela obrigação de pagar o título, apesar daquela irregularidade inicial. Isso se explica, ainda, pelo princípio da autonomia das obrigações cambiárias. Ninguém pode se eximir do cumprimento de sua obrigação arguindo a incapacidade do sacador ou de outro signatário da letra. Somente aquele que recebe o título de um incapaz pode arguir a incapacidade desse, pois a transação, no momento, está se realizando entre os dois. Aos obrigados posteriores já não cabe opor nenhuma exceção, desde que as pessoas que lhes transmitiram o título o tenham feito regularmente. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 46/193 Segundo a lei brasileira, a assinatura do sacador devia vir “abaixo do contexto”; a Lei Uniforme, entretanto, não faz essa determinação, donde poder a assinatura do sacador figurar no contexto ou fora dele. Também pela lei brasileira podia o título ser emitido por mandatário com poderes especiais (e por serem especiais esses poderes deviam constar expressamente do instrumento do mandato) pois, nessa hipótese, o mandatário agindo por representação, obriga o mandante. A Lei Uniforme não se refere expressamente a esse caso, mas o art. 8º, permitindo a assinatura na letra de representantes de outras pessoas, admite, ipso facto, a emissão da letra por mandatário. Igualmente, a letra pode ser sacada por ordem e conta de terceiro, como diz a Lei Uniforme (art. 3º, 3ª al.), regra também existente no nº IV do art. 1º da lei brasileira. Em tal caso, continua o sacador com todas as obrigações cambiárias, para com os que participam da letra, assumindo, inclusive, com a sua assinatura, responsabilidade pelo aceite e pagamento do título. As suas relações com o terceiro por conta de quem saca a letra (nas letras sacadas por conta e ordem de terceiro consta do contexto essa cláusula: “Pagará V. S.ª a F. de Tal, por ordem e conta de X...”) são extracambiárias. As letras assim sacadas trazem a vantagem, para aquele por ordem de quem foram sacadas, de não o vincularem ao cumprimento das obrigações decorrentes do título. Neste, quem se obriga, realmente, é o sacador, cuja assinatura consta da letra, suas relações com o terceiro, cuja assinatura não figura na letra, sendo puramente particulares. Como acontece com o sacado, a assinatura do sacador também pode ser feita por pseudônimo, desde que este identifique a pessoa que o usa. Um gestor de negócios sacando uma letra o faz sob sua responsabilidade pessoal; aos terceiros não interessa que o saque beneficie uma outra pessoa que não o gestor; as relações deste com o dono do negócio são particulares e, portanto, extracambiárias. Sendo um menor relativamente incapaz quem saca a letra, deverá ser assistido na forma da lei. Em se tratando de analfabeto, pelo sistema jurídico brasileiro a letra só pode ser sacada mediante procuração pública, em que fique patente a identidade do sacador; o mesmo acontece em relação aos mutilados e cegos. Em alguns países era permitida a assinatura em cruz (Portugal) ou por um sinal qualquer usado pelo sacador (Japão, Índia, Turquia). O assunto foi bastante discutido por ocasião da Conferência de Genebra mas foi acordado que o significado da palavra “assinatura” seria dado pelos países signatários da Convenção. Uma reserva foi estabelecida no Anexo II da Convenção (art. 2º do Anexo) segundo a qual cada país que adotar a lei pode estabelecer a maneira de ser substituída a assinatura, “desde que uma declaração autêntica inscrita na letra de câmbio constate a vontade daquele que assiná-la.” O Brasil adotou essa reserva mas só existem princípios reguladores do suprimento da assinatura no tocante à assinatura por mandatários (Decreto nº 2.044, arts. 1º, V; 8º, 2ª al.; 11 e 14). Assim, a identificação do sacador apenas pela impressão digital, ou a rogo, ou por sinal particular (em cruz) entre nós não é permitida. Parece-nos, entretanto, que a assinatura pode ser substituída por chancela mecânica, adotando-se o disposto na reserva do art. 2º do Anexo II e seguindo-se a mesma orientação dada pelo Banco Central, que permite tais subscrições no cheque. Por último, de acordo com o art. 3º da Lei nº 6.268, de 24 de novembro de 1975, “os títulos cambiais e as duplicatas de fatura conterão, obrigatoriamente, a identificação do devedor pelo número de sua cédula de identidade, de inscrição no cadastro de pessoa física, do título eleitoral ou da carteira profissional”, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline- Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 47/193 acrescentando o parágrafo único que “nos instrumentos de protesto serão descritos os elementos de que trata este artigo”. (Sobre esse assunto, v. com mais detalhes nº 31-b, infra.) Tais são os requisitos essenciais que a Lei Uniforme exige para a letra de câmbio, sendo de notar que “o escrito em que faltar algum dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como letra...” (Lei Uniforme, art. 2º, 1ª al., correspondente ao art. 2º da lei brasileira). Entretanto, afora esses, a Lei Uniforme menciona outros que, em princípio, a letra deve conter. Se, contudo, for emitida uma letra sem esses outros requisitos (os constantes dos números 4, 5 e parte do 7 do art. 1º) dá a lei a solução para a validade do título, mediante certas presunções, como veremos a seguir. 30. REQUISITOS NÃO ESSENCIAIS NA LEI UNIFORME Comparando-se os requisitos exigidos pela Lei Uniforme com os constantes da lei brasileira, verifica-se que há semelhanças entre muitos deles; contudo, há certas divergências, a principal das quais é a exigência, na Lei Uniforme, de constar o nome do tomador ao ser criada e emitida a letra, o que não ocorria na lei brasileira, que textualmente declarava poder a letra a ser sacada ao portador (art. 1º, nº IV). Também a Lei Uniforme considera requisito obrigatório a data da letra, o que não ocorria com a lei brasileira, que presumia mandato ao portador para inseri-la quando lhe conviesse. Afora isso, há outros requisitos constantes da Lei Uniforme cuja ausência na letra não a invalida, visto dispor a Lei como o título deve ser considerado no caso dessas falhas. Vejamos esses requisitos não essenciais. 30.1. Época do pagamento Segundo o nº 4 do art. 1º da Lei Uniforme, deve constar do título a “época do pagamento”, o que não era exigido na lei brasileira. Apesar de, em princípio, tornar obrigatória a menção, na letra, da época do pagamento, a Lei Uniforme admite a existência e validade do título sem esse requisito, uma vez que, semelhantemente à lei brasileira, dispõe que “a letra em que não se indique a época do pagamento será pagável à vista” (art. 2º, 2ª al.). Tem-se, desse modo, que, mesmo constando da lei que a letra deve conter a época do vencimento, pode o título validamente circular sem essa menção expressa. A ressalva para essa validade figura no final do art. 2º, 1ª al., quando diz que “o escrito em que faltar algum dos requisitos indicados no artigo anterior não produzirá efeito como letra, salvo nos casos determinados nas alíneas seguintes”, nas quais vem a regra de que será pagável à vista a letra que não trouxer a época do pagamento. Previdentemente, a lei brasileira estabelecia (art. 7º) que a época do pagamento devia ser “precisa, una e única”; a Lei Uniforme segue a mesma orientação, se bem que não se expresse taxativamente, uma vez que considera nulas as letras que mencionem vencimentos diversos dos estipulados no artigo ou vencimentos sucessivos (art. 33, últ. alínea), o que dá, como resultado, a mesma regra constante do Decreto nº 2.044. Do mesmo modo que acontece com a data de emissão, a época de pagamento pode ser indicada por um dia certo (“Natal”, “Dia do Trabalho”, “Dia de Finados”) ou por uma perífrase: “três dias depois do Ano Novo” etc. Um dia inexistente no calendário não é permitido (30 de fevereiro) mas admite-se fim do mês, que será considerado o último dia do mês. No direito inglês (Bill of Exchange Act, art. 11 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 48/193 (2), é permitida a indicação do vencimento após um evento futuro, desde que seja certo; a Lei Uniforme não admite indicação dessa modalidade. 30.2. Época do pagamento da letra no Código Civil Ao seguir a mesma orientação da Lei Uniforme de Genebra (art. 2°, 2ª al.), o art. 889, § 1°, do Código Civil de 2002 considerou à vista o título de crédito que não contenha data de vencimento. Título à vista é aquele que se vence com a sua apresentação. 30.3. Lugar do pagamento Também enumera a Lei Uniforme, como requisito que a letra deve conter, “a indicação do lugar em que se deve efetuar o pagamento” (art. 1º, nº 5). A lei brasileira não continha dispositivo semelhante, dizendo apenas que “a letra deve ser apresentada ao sacado ou ao aceitante para o pagamento no lugar designado” (art. 20), aduzindo que “será pagável no lugar mencionado ao pé do nome do sacado a letra que não indicar o lugar do pagamento” e, mais, que “é facultada a indicação alternativa de lugares de pagamentos, tendo o portador o direito de opção” (art. 20, § 1º). Referia-se, ainda, a lei brasileira à letra domiciliada, isto é, a que é sacada sobre uma pessoa para ser paga no domicílio de outra, indicada pelo sacador ou pelo aceitante. Como se vê, não havia, na lei brasileira, menção expressa de constar no título o lugar em que esse devia ser pago. A Lei Uniforme, apesar de determinar que na letra figure o lugar onde deve ser paga, não considera esse requisito essencial para a validade do título, pois a mesma ressalva relativa à época do pagamento é feita também para o lugar onde esse deve ser efetuado. Esse lugar, na ausência de um outro expressamente designado, é o mencionado ao lado do nome do sacado, como acontecia com a lei brasileira. Acrescenta, entretanto, a Lei Uniforme que tal lugar será também considerado o domicílio do sacado (art. 2º, 3ª al.), permitindo (art. 21) que a letra seja apresentada, antes do vencimento, ao aceite do sacado, no seu domicílio, que é justamente o lugar mencionado junto ao seu nome. Não havendo, em consequência, na letra, menção ao domicílio do sacado, o título não terá o valor da letra de câmbio (art. 2º). A Lei Uniforme não dispõe expressamente sobre se a letra pode conter diversos lugares de pagamento mas, admitindo-se a pluralidade de sacados (supra, nº 29.4) ipso facto permite-se a diversidade dos lugares de pagamento. A doutrina alemã é contrária à validade da letra contendo vários lugares de pagamento, mas a lei italiana (art. 2º, 5ª al.) admite tais letras expressamente e a orientação da doutrina francesa é por aceitá--las. No Brasil, o Decreto nº 2.044 também facultava de modo expresso a indicação de lugares de pagamentos diversos (art. 20, § 1º, 2ª al.). Essa orientação é de ser mantida por não infringir as regras da Lei Uniforme. Quanto à letra domiciliada, que é aquela em que o sacador ou aceitante indica o domicílio de outra pessoa para aí ser efetuado o pagamento, dispõe a Lei Uniforme simplesmente que “a letra pode ser pagável no domicílio de terceiro, quer na localidade onde o sacado tem o seu domicílio, quer noutra localidade” (art. 4º). Ainda aqui é necessário que, junto ao nome da pessoa indicada para fazer o pagamento, conste o seu domicílio, sob pena de não ser o título considerado letra de câmbio. 30.4. Lugar da emissão 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 49/193 Por último, dispõe a Lei Uniforme (art. 1º, nº 7) que da letra deve constar “a indicação da data em que e do lugar onde a letra é passada”. A data, como vimos acima, é requisito essencial, não tendo a lei editado norma para suprir a sua ausência, como acontecia com a lei brasileira, que presumia mandato ao portador para inseri-la; quanto ao lugar em que a letra é passada admite a lei que, na ausência de menção, será considerada como tendo sido emitida no lugar designado ao lado do nome sacador (art. 2º, 3ª al.). A lei brasileira presumia mandato ao portador para inserir o lugar da emissão da letra que não o contivesse (art. 4º). Note-se, contudo, que, segundo a Lei Uniforme, só é permitida a ausência do lugar da emissão se constar da letra o lugar do domicílio do sacador, que é o que vem ao lado do seu nome. Havendo omissão do lugar da emissão e do domicíliodo sacador, a letra não terá os efeitos da letra de câmbio, conforme a regra do art. 2º da Lei Uniforme. A indicação do lugar da emissão tem por finalidade saber-se qual a lei a aplicar nas relações internacionais. Assim, não será válida uma letra indicando um lugar de emissão inexistente: por ex., Pasárgada, Atlântida, Eldorado etc. Sendo uma lei passada a bordo de um avião ou de um navio em mar alto, qual o lugar que deve ser considerado o lugar da emissão? De acordo com o art. 4º da “Convenção destinada a regular certos conflitos de leis em matéria de letras de câmbio e notas promissórias”, também adotada pelo Brasil pelo Decreto nº 57.663, “os efeitos das obrigações do aceitante de uma letra e do subscritor de uma nota promissória são determinados pela lei do lugar onde esses títulos são pagáveis. – Os efeitos provenientes das assinaturas dos outros coobrigados na letra ou nota promissória são determinados pela lei do país em cujo território as assinaturas foram apostas”. Assim, o lugar da emissão será o do país da nacionalidade do navio ou do avião. O art. 889, § 2º, do Diploma Civil estabelece: “Considera-se lugar de emissão e de pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente”, orientação diversa da imprimida pelo art. 2°, al. 3ª, da Lei Uniforme (lugar designado ao lado do nome do sacado). No artigo publicado na RDM nº 17/128 Fran Martins sugeriu que, na redação do art. 889, § 2°, quando não indicados no título, sejam considerados o lugar da emissão o domicílio do emitente; como lugar do pagamento o domicílio do sacado ou devedor, modificando-se assim a redação do § 2° do art. 889. 31. REQUISITOS E PROCEDIMENTOS FISCAIS 31.1. Registro dos títulos cambiários na Receita Federal. Extinção da medida Tendo o Brasil atravessado, em certa época, uma inflação acentuada, verificou-se, então, grande número de empréstimos mediante a emissão de notas promissórias, com uma cobrança elevada de juros por parte dos credores. Essas transações constituíam o “mercado paralelo” e inúmeras pessoas a ele se dedicavam, com flagrante exploração dos devedores. O Governo, combatendo a inflação, pôs em prática medidas rígidas, a primeira das quais foi tornar privativo das instituições financeiras o empréstimo de dinheiro (Lei nº 4.595, de 1964, art. 17). Persistindo, entretanto, o abuso, foram adotadas medidas complementares, entre elas o Decreto-Lei nº 427, de 22 de janeiro de 1969, pelo qual foi tornado obrigatório o registro, nas repartições competentes do Ministério da Fazenda (Receita Federal), de todas as notas promissórias e letras de câmbio emitidas até a data de referido diploma legal e das que, a partir da data da publicação da lei, fossem emitidas, devendo o registro ser feito dentro do prazo de 15 dias da emissão. Ficaram excluídos do registro os títulos emitidos diretamente em favor de estabelecimentos de crédito, e com estes negociados, ou sacados em 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 50/193 função de contratos específicos de abertura de crédito celebrados com instituições financeiras; os emitidos em garantia do pagamento de legítimas transações de compra e venda de bens e serviços, comprováveis pelo registro na contabilidade da empresa interveniente, ou os amparados por contratos ou escrituras de compra e venda de bens imóveis, legalmente registrados; os títulos juntados, até a data do Decreto-Lei, a processo judicial em andamento; os de valor expresso em moeda estrangeira, representativos de dívida no exterior devidamente registrada no Banco Central; e outras operações a serem definidas pelo Poder Executivo (Dec.-Lei nº 427, art. 2º, § 4º). Regulamentando esse Decreto-Lei, o Decreto nº 64.156, de 4 de março de 1969, acresceu à isenção do registro os títulos em que fossem partes da União, Estados, Municípios ou seus órgãos de administração indireta; os que, na data da publicação do decreto, estivessem em cobrança, caução, custódia ou depósito em instituição financeira ou em órgão de administração pública direta ou indireta e os que, na data da publicação do decreto, estivessem sob protesto (Decreto nº 64.156, art. 2º). Tanto o Decreto-Lei nº 427 como o Decreto nº 64.156 consideram “nulas” as letras de câmbio e notas promissórias que não fossem registradas na forma preconizada na lei, sendo que o Decreto nº 64.156 estabeleceu, mais, que “as notas promissórias e letras de câmbio encontradas sem data de emissão ou de saque” sujeitavam os seus responsáveis à multa de 50% do valor do título, que seria cobrada independentemente de outras penalidades cabíveis (art. 5º, § 2º, com remissão ao art. 2º, § 3º, do Dec.-Lei nº 427). Como era de esperar, esses diplomas legais tiveram repulsa nos meios jurídicos, pela maneira descabida e injurídica de vários dos seus pontos. Vários autores e estudiosos procuraram mostrar a inconstitucionalidade desses diplomas que alteraram princípios da lei internacional adotada pelo Brasil e que só poderia ser modificada nas partes relativas às reservas mencionadas no Anexo II da Convenção, o que no caso não acontecia. Nós mesmos manifestamos nosso repúdio a essas medidas legais (v. 2ª ed. deste vol., nº 31-a). Atendendo, sem dúvida, a esses reclamos, reconhecendo a injuridicidade dos diplomas legais aludidos, houve por bem o Poder Executivo, através do Decreto- Lei nº 1.700, de 18 de outubro de 1979 (DOU de 18.10.1979), extinguir “o registro das letras de câmbio e notas promissórias estabelecido no art. 2º e seus parágrafos do Decreto-Lei nº 427, de 22 de janeiro de 1969, e no art. 1º, § 11, do Decreto-Lei nº 1.042, de 21 de outubro de 1969”. Voltou a vigorar, assim, o princípio básico na teoria dos títulos de crédito de que esses títulos são, por natureza, abstratos, desprendendo-se, assim, da relação fundamental, ou seja, não dependendo a sua validade necessariamente das causas que lhes deram origem. 31.2. Identificação do devedor nos títulos cambiários A Lei nº 6.268, de 24 de novembro de 1975, determinou que deverá constar, obrigatoriamente, dos títulos cambiários a identificação do devedor. Essa identificação será feita pela indicação da sua cédula de identidade, ou do número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas, ou do número do título eleitoral, ou do da carteira profissional. Para as pessoas jurídicas, já o Decreto nº 57.307, de 23 de novembro de 1965 (que aprovou o regulamento do Cadastro Geral de Contribuintes em relação às pessoas jurídicas), dispunha (art. 6º) que o número de inscrição deveria constar “nos atos e contratos firmados no País” (nº II) e “nas 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 51/193 faturas, notas fiscais, guias de recolhimento de tributos e demais efeitos comerciais e fiscais exigidos pela legislação federal” (nº IV). Requer, assim, a lei que o devedor por letra de câmbio seja obrigatoriamente identificado. Ora, devedor no título é apenas o aceitante da letra de câmbio e o emitente da nota promissória. As demais pessoas que lançam suas assinaturas nesses títulos (sacador, endossantes e seus avalistas) não são, a rigor, devedores e sim apenas garantes do pagamento dos mesmos, no caso de a pessoa indicada para pagar ou o aceitante não fazerem o pagamento ou não aceitarem a letra. Tanto não são devedores, stricto sensu, que a lei requer que o portador comprove, pelo protesto, que a letra não foi aceita ou, se aceita, não foi paga, pois só assim o portador pode exercer o direito regressivo contra eles. Sem dúvida foi essa a intenção da lei pois o que se deseja, ao que parece, é a identificação de quem se obriga diretamente a pagar em um título cambiário, donde falar a lei em devedor. Do modo como a lei está redigida, só o aceitante da letra de câmbio ou o emitente da nota promissória é que deve, ao assinar no título, ser devidamente identificado, ficando, portanto,isento dessa identificação o sacador da letra de câmbio, por ser obrigado subsidiário. Tanto esse como os endossantes e seus avalistas (os avalistas do emitente da nota promissória e do aceitante da letra de câmbio devem ser identificados por assumirem obrigações diretas de pagar, equiparados que estão aos avalizados) não estão sujeitos à identificação obrigatória, por serem meros garantes cuja responsabilidade só se efetiva se o emitente da nota promissória e o aceitante da letra de câmbio não efetuarem o pagamento, comprovada essa falta de pagamento pelo protesto. Lembre-se, também, que os próprios endossantes podem se eximir da responsabilidade do pagamento, por cláusula especial aposta ao endosso (Lei Uniforme, art. 15). De tudo se conclui que o sacador da letra de câmbio não está sujeito à identificação obrigatória ao emiti-la como também não o estão o seu avalista, os endossantes e avalistas desses. Por outro lado, que acontece à letra que não trouxer a identificação do devedor? Cambiariamente, o título é válido, desde que contenha todos os requisitos do art. 1º da Lei Uniforme ou, se faltarem alguns, desde que essa falta seja suprida pela inserção de outros requisitos, como estabelece o art. 2º da Lei. Tem-se, assim, que o título que preenche os requisitos do art. 1º, com as permissões de suprimento do art. 2º, é uma letra de câmbio. Acontece, entretanto, que a capacidade para se obrigar por uma letra de câmbio ou nota promissória é regulada pela respectiva lei nacional, segundo claramente estabelece o art. 2º da “Convenção destinada a regular certos conflitos de leis em matéria de letras de câmbio e notas promissórias”, também adotada pelo Brasil através do Decreto nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966. Pela lei brasileira, a capacidade plena para assumir obrigações é atingida com a idade de 18 anos (Cód. Civil, art. 5º). Mas, para certos efeitos, pode o Estado estipular requisitos complementares dessa capacidade plena, em princípio provada apenas pela certidão do registro civil. Assim, estabeleceu essa Lei nº 6.286 que a identificação do devedor nas letras de câmbio e notas promissórias seja atestada ou pela sua cédula de identidade, ou pelo número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF), ou pelo número do título de eleitor (obrigatório ser tirado com a idade de apenas 18 anos), ou pelo número da carteira profissional. Trata-se, assim, apenas de uma prova de capacidade, desejando a lei que somente pessoas capazes possam se constituir devedores por letras de câmbio, muito embora a Lei Uniforme, como acontecia com a lei brasileira, admita (art. 7º) que um incapaz se obrigue no título, ficando válidas, em tal caso, as obrigações assumidas pelas 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 52/193 outras pessoas, dado o princípio da autonomia das obrigações cambiárias. Desse modo, não constando a identificação do devedor (emitente da nota promissória ou aceitante da letra de câmbio), o título não é invalidado, perdurando as obrigações dos demais que lançaram as suas assinaturas no mesmo. Por último, mais uma vez convém frisar que a identificação do devedor na letra de câmbio (e na nota promissória) se faz por qualquer das modalidades previstas no art. 3º da Lei nº 6.268, e apenas por uma delas, como, por exemplo, pelo número de inscrição do mesmo no Cadastro das Pessoas Físicas. Assim, mesmo que uma pessoa tenha tal registro, pode deixar de mencioná-lo na letra, inserindo, em seu lugar, o número de seu documento de identidade, ou do título de eleitor, ou da carteira de trabalho. A lei não dá preponderância a qualquer desses modos de identificação. Cabe, portanto, ao devedor escolher qualquer deles para se identificar na letra de câmbio, ficando a escolha ao seu livre arbítrio. MODALIDADES DA LETRA DE CÂMBIO 32. A MOBILIZAÇÃO DO CRÉDITO Instrumento legal destinado a facilitar as relações de natureza econômica, a letra de câmbio faz com que o crédito seja mobilizado durante um certo período de tempo, transformando-se em dinheiro a confiança que os portadores depositam nos obrigados na letra. Assim, ciente de que, em data futura, a ordem do sacador será cumprida por parte daquele a quem é dada ou, se não o for, o sacador responde pelo seu cumprimento, o tomador ou beneficiário poderá, em vez de aguardar o momento do vencimento do título, negociá-lo com outra pessoa, recebendo, logo, a importância mencionada. Esse novo proprietário da letra poderá fazer o mesmo com outras pessoas e, desse modo, cada um vai usufruindo a importância constante da letra, sempre tendo suas operações por base o crédito que inspiram os que se obrigam na mesma. Para que essa mobilização do crédito possa se verificar plenamente, é necessário, contudo, que decorra um certo espaço de tempo entre a data de emissão do título e a do seu vencimento. Nada impede, na verdade, seja o título emitido e pago no mesmo dia, pois, ainda assim, o crédito funcionou; quem recebeu o título, antes de apresentar ao sacado, confiou que o sacador pagaria o mesmo, caso o sacado não o fizesse. Melhor utilização do crédito, contudo, será feita se mediar um certo espaço de tempo entre a emissão de letra e o seu pagamento, dando possibilidade a que o crédito seja gozado por maior número de pessoas, razão pela qual esse título é considerado um título de circulação. 33. MODALIDADES DA LETRA DE CÂMBIO Como acontecia com a lei brasileira (art. 6º), a Lei Uniforme (art. 33) estatui que a letra de câmbio pode ser passada ou emitida à vista, a dia certo, a tempo certo da data e a tempo certo da vista. Essas são as modalidades da letra de câmbio. Na realidade, a letra é uma só e as modalidades se referem ao prazo durante o qual o crédito pode ser utilizado, passando a letra de proprietários mediante um processo simples e rápido que consta, em essência, da só assinatura do proprietário do título no anverso ou no verso do mesmo (Endosso-infra, nº 36). Se o título é endossado em branco ou ao portador, a sua transferência ainda é mais simplificada, pois basta a tradição manual, a entrega da letra a outra pessoa, para que esta seja, por lei, considerada o seu proprietário e, assim, credor da importância nela mencionada. Essas várias modalidades da letra são, portanto, apenas modalidades relativas ao vencimento do título, cada uma limitando o prazo 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 53/193 em que o crédito pode ser mobilizado pois, na vigência desse prazo, as obrigações decorrentes da letra não são exequíveis. Vejamos, em detalhe, cada uma dessas modalidades. 33.1. Letra de câmbio à vista Letra de câmbio à vista é aquela em que o seu vencimento se verifica quando o título é apresentado à pessoa a quem a ordem é dada, ou seja, o sacado. Entende-se por vista essa apresentação; com ela, legalmente, o sacado toma conhecimento, vê a ordem que lhe é dada e se manifesta a respeito, ou acatando essa ordem, o que fará pagando o título, ou recusando. Para comprovar a recusa ou a falta de pagamento, o proprietário do título (tomador, se o título não foi transferido, ou endossatário, se o foi) deverá praticar um ato solene, chamado de protesto (infra, Cap. XII). A letra de câmbio à vista vence-se, assim, no momento em que é apresentada ao sacado. Com o pagamento, por este, da soma mencionada no título, imobiliza-se o crédito e o título já não terá mais o vigor cambial. As relações entre o sacado que pagou o título e o sacador, que deu a ordem, são extracambiais, regulando-se pelo direito comum. Desse modo, se o sacado pagou apenas no desejo de satisfazer a ordem do sacador e este, depois, não quis reembolsá-lo, terá o primeiro que recorrer ao direito comum para ressarcir-se do prejuízo, não sendo beneficiado pelas normas específicas que regulam as relações cambiais. A letra à vista deve conter essa menção no seucontexto, muito embora a lei brasileira não a tenha exigido como requisito essencial à validade do título e a Lei Uniforme, mencionando-a, permitia a circulação do título sem nele figurar a época do vencimento. Assim, deverá a letra expressar: “À vista da presente letra de câmbio, pagará V. S.ª ao Sr. F... a importância de X”. Não trazendo, entretanto, nenhuma indicação da época do vencimento, a letra também será considerada à vista (Lei Uniforme, art. 2º, 2ª al.). Não tem a letra à vista data fixada para a sua apresentação, ficando a critério do proprietário do título a escolha do momento em que desejar ser embolsado da importância do mesmo; entretanto, a Lei Uniforme dispõe que a letra à vista é pagável na sua apresentação e essa deve ser feita no prazo de um ano, a contar da data do título (art. 34). Contudo, o prazo de apresentação poderá ser reduzido ou ampliado pelo sacador ou simplesmente encurtado por um dos endossantes, ficando, assim, o prazo de apresentação a depender dessas pessoas. Igualmente, o sacador pode estipular que a letra à vista só seja apresentada ao sacado decorrido um certo lapso de tempo (“Depois do dia 29 de março, pagará V. S.ª ao Sr. F... à vista da presente letra de câmbio...”). Em tal caso, conta-se o prazo para a apresentação da letra a partir da data mencionada (no exemplo citado, devendo a letra ser apresentada somente depois do dia 29 de março, o prazo de doze meses para a apresentação terá início no dia 29 de março e não da data da letra, como é a regra geral para a apresentação). Como se vê, pela Lei Uniforme a letra à vista é pagável e, portanto, considera-se vencida no ato da apresentação, tendo o portador o prazo de um ano, a contar da data da letra, para fazer essa apresentação, a não ser que haja redução, prolongamento ou fixação diversa para o início desse prazo, de acordo com as permissões da lei (art. 34). Deve-se notar que, apesar de marcar a lei prazo para a apresentação ao sacado da letra de câmbio à vista, não é o portador obrigado a apresentá-la. Não: o que a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 54/193 lei esclarece é que, se não apresentá-la no prazo de 12 meses, contados da emissão, o portador perde o direito de regresso contra o sacador, endossantes e avalistas (Lei Uniforme, art. 53). Mas o sacado, recebendo a letra depois dos 12 meses, pode pagá-la e então se encerra a vida cambial. Se não o fizer, entretanto, não tem direito o portador de receber dos demais coobrigados referida importância pois, não tendo agido no prazo estabelecido pela lei, deixou perecer o direito cambiário que possuía contra sacador, endossadores e avalistas. Pode, contudo, o portador, por ação ordinária, intentar o recebimento da importância do sacador, baseado que esse se enriqueceu ilicitamente à sua custa. 33.2. Letra a dia certo A letra de câmbio pode também ser passada a dia certo (Lei Uniforme, art. 33). Isso significa que, no corpo da letra, vem especificada a data exata do pagamento (aos vinte de janeiro de mil novecentos e setenta e três pagará V. S.ª) e essa é a maneira mais comum de serem emitidas as letras. Em tal caso, sabe-se exatamente o prazo da vigência da cambial, prazo dentro do qual a letra está amparada pelos direitos especiais que resguardam esses títulos de crédito. Fixado o dia do vencimento, os que tomam parte na letra, tornando-se seus proprietários, ou avalizando-os, estão seguros de que, só naquele dia, se algo de extraordinário não acontecer (como, por exemplo, a recusa do sacado de se comprometer a pagar a letra – recusa do aceite – ou, se o sacado que se comprometeu a pagar a letra, aceitando a ordem mediante o lançamento de sua assinatura no título, vier a falir antes da época marcada para o vencimento), só naquele dia, dizíamos, as suas obrigações se tornam exequíveis. Tem, assim, a letra um dia certo, uma data predeterminada para vencimento. Só nesse momento o proprietário da mesma, seja o tomador, ou seja um endossatário, se o título passou de proprietário – tem o direito de exigir a importância nela mencionada. Pela Lei Uniforme, o prazo certo para o vencimento deve constar do contexto (art. 2º, nº 2). Costuma-se escrever essa data do vencimento por extenso, apesar de a Lei Uniforme nada dispor a respeito. Às vezes, acima do contexto, na cabeça do título, essa época do vencimento é escrita também. Aí não se observa a norma de escrevê-la por extenso: dia e ano costumam ser escritos em algarismos, figurando por extenso apenas o mês. Nenhuma dificuldade existe para se contar o prazo do vencimento da letra a dia certo pois esse dia está claramente especificado no título. Atingida a data, deve o então proprietário do título apresentá-lo ao sacado (se esse se comprometeu a pagar a letra, lançando sua assinatura no título, já não se denomina mais sacado e sim aceitante) para receber a soma nele mencionada. Se, todavia, o dia do vencimento for domingo ou feriado legal, a apresentação do título para o pagamento fica diferida para o primeiro dia útil posterior (Lei Uniforme, art. 72), aumentando-se, assim, automaticamente, o prazo do recebimento. A Lei Uniforme permite que a apresentação da letra a dia certo seja feita no dia fixado ou num dos dois dias úteis seguintes (Lei Uniforme, art. 38, 1ª al.). O Governo brasileiro, no Decreto Executivo que adotou a Lei Uniforme, fez reserva quanto ao fato de ser feita a apresentação da letra num dos dois dias seguintes à data do vencimento. O art. 5º do Anexo II da “Convenção para a Adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias” permite que os países signatários completem o art. 38 da Lei, estabelecendo que o portador deve apresentar a letra no dia do vencimento, sendo que “a inobservância dessa obrigação só acarreta responsabilidade por perdas e danos”. Apesar de o Brasil haver feito essa reserva, nenhum dispositivo legal existe ou foi votado, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 55/193 posteriormente, dispondo que a falta de apresentação, no dia do vencimento, só acarreta responsabilidade por perdas e danos. Assim sendo, estando em vigor, no Brasil, a Lei Uniforme, perdura aquele dispositivo facultando a apresentação da letra num dos dois dias seguintes à data marcada para o seu vencimento até que seja, por lei, regulada a matéria. 33.3. Letra a tempo certo da data Também como acontecia com a lei brasileira (art. 6º, III) prescreve a Lei Uniforme (art. 33) que a letra pode ser passada a tempo certo da data e nesse caso o prazo de seu vencimento é contado tomando-se por base a data da emissão do título. Assim, se constar da letra cláusula dizendo “a tantos dias da data desta letra de câmbio, pagará V. S.ª”, logicamente deve-se contar o prazo do título a partir da data da emissão do mesmo. A lei brasileira não incluía, entre os requisitos essenciais para a validade da letra de câmbio, a data de sua emissão, como o faz a Lei Uniforme no art. 1º, nº 7. O portador do título, pela nossa lei, tinha mandato presumido para inserir no mesmo a data e o lugar da emissão se, de origem, ele não os contivesse (art. 4º). No caso da letra passada a tempo certo da data essa inserção pela lei brasileira era essencial, já que o prazo do vencimento do título ficava subordinado à data e só com essa se saberia exatamente quando seriam exequíveis as obrigações decorrentes da letra. A Lei Uniforme, sabiamente, resolveu de plano o assunto, tornando obrigatória a inserção da data no título, sob pena de não valer esse como letra de câmbio. Conta-se o prazo para vencimento da letra a certo tempo da data, tomando-se essa como ponto de partida. Pela lei brasileira, não se deveria contar, nesse prazo, o dia da emissão da letra, fazendo-se os cálculos a partir do dia imediato. E o vencimento do título se daria no último dia do prazo (art. 17). A LeiUniforme nada dispôs expressamente a esse respeito, mas conserva o mesmo princípio ao estabelecer, no art. 73, que “os prazos legais ou convencionais não compreendem o dia que marca o seu início”. A letra a tempo certo da data pode ser passada não apenas determinando-se o número de dias mas, igualmente, fazendo-se o cálculo por semanas, meses ou anos. Em tal caso, o vencimento se verificará na semana, mês ou ano correspondente à data do título, contando-se essas semanas, meses ou anos, a partir do dia em que o mesmo foi emitido. Não havendo dia correspondente ao do saque, vence-se no último dia do mês de pagamento (ex.: o título foi emitido a 31 de dezembro para vencer-se em dois meses da data. Mas dois meses depois de 31 de dezembro seria 31 de fevereiro. Como esse mês não tem o dia 31, a letra se vence a 28 ou, se o ano for bissexto, a 29, último dia do mês de pagamento). A Lei Uniforme traz normas detalhadas sobre vários modos de se vencerem as letras a tempo certo da data, o que não acontecia inteiramente com a lei brasileira. Assim, depois de estatuir (art. 36) normas semelhantes às do Decreto nº 2.044 sobre o vencimento da letra a um ou mais meses da data, declara que se a letra é sacada para vencimento a um ou mais meses e meio da data, contam-se primeiro os meses inteiros. No caso de ser o vencimento fixado para o princípio, meado ou fim do mês, “entende-se que a letra será vencível no primeiro, no dia quinze ou no último dia desse mês”. Sendo usadas as expressões “oito dias” ou “quinze dias”, “entendem-se não como uma ou duas semanas, mas como um prazo de oito ou quinze dias efetivos”. Por último sendo empregada a expressão “meio mês”, significa a mesma um prazo de quinze dias. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 56/193 33.4. Letra a tempo certo da vista Finalmente, estatui a Lei Uniforme (art. 33) que a letra pode ser passada a tempo certo da vista. Entende-se por vista a apresentação da letra ao sacado para que ele tome conhecimento da ordem que lhe é dada. Essa apresentação nem sempre é obrigatória, mas no caso da letra passada a tempo certo da vista ela assim se torna. Isso pelo fato de estar o prazo para vencimento do título dependendo desse ato, sem o qual a letra ficaria com prazo de vencimento indeterminado. Nessa modalidade de letra, conta-se o prazo do vencimento tomando por base a data em que o título foi apresentado ao sacado e ele aceitou, isto é, apôs a sua assinatura no mesmo, com isso assumindo a obrigação de efetuar o pagamento na época determinada. Por tal razão, a lei brasileira determinava que esse aceite fosse datado (art. 9º, parágrafo único) presumindo-se, na falta de data, mandato ao portador para inseri-la. A Lei Uniforme, entretanto, apesar de estabelecer que as letras a certo tempo da vista devem ser apresentadas ao aceite dentro do prazo de um ano de suas datas, podendo esse prazo ser aumentado ou reduzido pelo sacador, ou simplesmente reduzido pelos endossadores (art. 23), permite a letra com aceite não datado, em tal caso admitindo que o mesmo foi dado no último dia do prazo da apresentação para o aceite (art. 35). Para não perder o direito regressivo contra os endossantes, avalistas e sacador, o portador que recebe o título com aceite não datado deve fazer constar essa omissão por um protesto, feito em tempo útil (Lei Uniforme, art. 25, 2ª al.). Pode, na letra, estar especificado um prazo para a apresentação do título ao sacado e, nessas circunstâncias, tem o portador o direito de fazê-la dentro desse prazo (Lei Uniforme, art. 22, 1ª al.). Se, entretanto, a letra não contivesse essa especificação, determinava a lei brasileira que a apresentação devia ser feita dentro dos seis meses contados da data da emissão do título, sob pena de perder o portador direito regressivo contra o sacador, endossadores e avalistas. Apresentada a letra ao sacado e este recusando-se a aceitar, devia o título ser protestado, considerando-se com o protesto vencida a letra (lei brasileira, art. 19). A Lei Uniforme, entretanto, dilatou para um ano o prazo de apresentação para o aceite da letra a tempo certo de vista, podendo o prazo ser aumentado ou reduzido pelo sacador ou simplesmente reduzido pelo endossante (art. 23). Havendo falta ou recusa do aceite, ou se este não for datado, deve a letra ser protestada. Da data do protesto por falta ou recusa do aceite conta-se o prazo para o vencimento do título; o mesmo ocorre com o protesto por falta de data, servindo o protesto para garantir o direito regressivo do portador contra os endossantes, sacador e avalistas. Na falta de protesto da letra com aceite não datado, deve a mesma ser apresentada ao aceitante, para pagamento, como se o aceite tivesse sido dado no último dia em que a letra deveria ser apresentada para o aceite, isto é, conta-se o prazo para apresentação para pagamento a partir do último dia em que a letra deveria ser apresentada para o aceite. É o que estatui o art. 35 da Lei Uniforme. Note-se que o protesto por falta de data do aceite não existia na lei brasileira. Vence-se, assim, normalmente, a letra a tempo certo da vista no último dia do prazo tendo por base a data do aceite; na contagem desse prazo, não se inclui o dia do aceite, do mesmo modo que não se conta o dia da emissão nas letras a tempo certo da data. Uma última observação a ser feita quanto às letras a tempo certo da vista é que essas, à semelhança das letras à vista, podem, pela Lei Uniforme, vencer juros (art. 5º), o que não era permitido na lei brasileira (art. 44, I). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 57/193 34. UNIDADE DA ÉPOCA DE PAGAMENTO Em qualquer das modalidades por que pode ser emitida a letra de câmbio, seja à vista, a dia certo, a tempo certo da data ou a tempo certo da vista – “a época do pagamento deve ser precisa, una e única para a totalidade da soma cambial”, segundo rezava o art. 7º da lei brasileira. A regra é de ser admitida no direito atual, pois não pode haver duplicidade de datas com o desdobramento da importância total da letra. Não é admissível, p. ex., que numa letra se estabeleça que o sacador pague, em um dia, certa importância ao tomador, e em um dia posterior, uma outra importância que perfaça o total da letra. Em tal caso, dois títulos deverão ser emitidos, cada um com época precisa de pagamento e importância certa. Também não pode o título mencionar que o pagamento seja feito em datas alternadas, como, por exemplo: “No dia vinte de janeiro ou no dia dezesseis de março pagará V. S.ª...”. Daí dizer a lei brasileira que a época de pagamento deve ser precisa, una “e única para a totalidade da soma cambial”, o que evita o desdobramento, no mesmo título, da importância a ser paga, bem como a possibilidade do título ser pago em uma data ou em outra. A Lei Uniforme, referindo-se ao assunto, apóia a norma da lei brasileira, sendo, porém, mais drástica e precisa. De fato, imperativamente estatui a Lei Uniforme que “as letras, quer com vencimentos diferentes (de modalidades diversas das mencionadas no artigo), quer com vencimentos sucessivos, são nulas” (art. 33, últ. al.). CIRCULAÇÃO DA LETRA DE CÂMBIO 35. A LETRA DE CÂMBIO COMO TÍTULO DE CIRCULAÇÃO A letra de câmbio é um título de circulação, o que quer dizer que é empregada com a finalidade de fazer com que os direitos incorporados no título sejam facilmente transferidos para que o crédito possa ser melhormente utilizado. Entende-se, assim, por circulação a passagem do título de um proprietário para outro. Mas, de fato, o que circulam são os direitos, não simplesmente o título. Este, graças à literalidade, encerra direitos e obrigações decorrentes da manifestação da vontade de cada um dos que da letra participaram. Pelos meios ordinários, a transferência desses direitos e o cumprimento das obrigações levariam grandetempo para ser realizados. A letra de câmbio veio facilitar grandemente essa circulação de direitos, com processos especiais a ela inerentes. Como direitos e obrigações decorrentes do que está escrito no título (literalidade ou direito cartular, na expressão de Tullio Ascarelli) circulam eles com o título. A tal ponto esse princípio é importante que, nas letras ao portador, qualquer pessoa que seja detentora do título será considerada credora dos direitos dele decorrentes (Lei Uniforme, art. 16), estando legalmente autorizada a praticar as diligências necessárias à garantia do crédito que o título representa. Assim sendo, tendo por finalidade a mobilização do crédito, é a letra de câmbio o instrumento necessário para a circulação dos direitos dela decorrentes. Materialmente, trata-se apenas de um escrito; mas, por estar revestido de certas formalidades, esse escrito encerra direitos que circulam juntamente com o documento, não se podendo, assim, normalmente separar os documentos dos direitos que dele decorrem. De tal modo, quando se fala em circulação da letra de câmbio, tendo em vista a propriedade da mesma, deve-se ter em mente o fato de que, com o título, circulam direitos abstratos, uma vez que não estão mais ligados à causa original, ou seja, à relação fundamental; autônomos, isto é, “rigorosamente delimitados, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 58/193 distinguindo-se do complexo das relações havidas entre as partes” e decorrentes do que está escrito na letra, graças ao princípio da literalidade. A cada direito emergente do título corresponde, naturalmente, uma obrigação. 36. MEIO PRÓPRIO DA TRANSFERÊNCIA DA CAMBIAL: ENDOSSO Para que a letra de câmbio possa facilmente ser transferida e se opere, assim, a circulação dos direitos de crédito nela incorporados, emprega-se um meio fácil, próprio dos títulos de crédito: o endosso. Consiste esse na simples assinatura do proprietário da letra, no verso ou anverso da mesma, antecedida ou não de uma declaração indicando a pessoa a quem a soma deve ser paga. Com essa assinatura a pessoa que endossa o título, chamada endossante, transfere a outrem, chamado endossatário, a propriedade da letra (Lei Uniforme, art. 14). Nessa condição, o endossatário, ao receber a letra, torna-se titular dos direitos emergentes da mesma, podendo, assim, praticar todos os atos que se fizerem necessários para resguardar a sua propriedade. Esse é um meio prático de fazer com que os títulos de crédito facilmente circulem, o que, sem nenhuma dúvida, concorre bastante para a presteza das relações comerciais. O endosso, como se disse, consta da assinatura do proprietário do título no anverso ou face ou no verso ou dorso da letra. A lei brasileira só acatava o endosso no verso do título (art. 8º, 2ª al.); mas a Lei Uniforme permite-o também no anverso (art. 13), admitindo a obrigatoriedade de ser escrito no verso apenas quando se tratar de endosso em branco. Título formal, a letra de câmbio está sujeita a certas regras rigorosas para garantia dos que são titulares dos direitos nela incorporados. Não haverá, assim, endosso se a assinatura do endossante não constar do título. Não pode o mesmo ser feito no anverso ou face da letra quando não indicar a pessoa a quem se transfere; e em nenhum caso pode ser feito em documento em separado. Se, por acaso, o título for transferido várias vezes, esgotando-se o espaço em branco do mesmo, sendo necessário um novo endosso usa-se o processo chamado de alongamento da letra, isto é, coloca-se à mesma um pedaço de papel que a prolongue para que o novo endosso continue a série daqueles que lhe são anteriores. O que não é possível é que, em um documento isolado, o proprietário do título faça o endosso, ainda que anteceda sua assinatura com uma declaração de transferência da letra. A lei é taxativa: “o endosso deve ser escrito na letra ou numa folha ligada a esta” (Lei Uniforme, art. 13). Como já foi dito, a lei brasileira só admitia o endosso quando escrito no verso da letra; a Lei Uniforme, alterando essa norma, permite-o no verso ou no anverso, apenas estatuindo que, se o endosso não indicar a pessoa a quem é transferida a letra (endosso em branco), deve obrigatoriamente ser escrito no verso (art. 13, 2ª al.). 37. CONCEITO E ORIGEM DO ENDOSSO Tem-se, desse modo, que o endosso é o meio próprio de transferência da letra de câmbio, constando da assinatura do proprietário no anverso ou no dorso da mesma. A sua origem tem dado lugar a muitas discussões, pois na verdade ninguém pode precisar, exatamente, a data em que surgiu. Autores há que o derivam da cláusula à ordem, outros negam essa origem. Alguns declaram que “o instituto do endosso não surgiu com a letra de câmbio”, vendo outros, como Bonelli, analogias 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 59/193 entre o endosso e outros institutos jurídicos, como o giro-aval. O certo é que, se bem seja reconhecida a sua existência em épocas anteriores, o endosso foi acolhido pela Ordenança de Comércio francês de 1673 (art. 23, tít. V), passando daí para o Código de Comércio de 1808. Vários doutrinadores procuraram dar ao endosso uma natureza jurídica especial: contrato de câmbio (Pothier), cessão (Bravard Veyrières), delegação (Unger, Kuntze e Gide), negócio jurídico plurilateral (Betti). Entretanto, o endosso é, na realidade, o meio especial de serem transferidos os direitos emergentes do título, fazendo com que o endossatário se constitua titular desses direitos. Tal conceito é o adotado pela doutrina moderna por ser o que, de fato, emana da verdadeira natureza jurídica do endosso. 38. QUEM PODE ENDOSSAR Segundo claramente dispõe a Lei Uniforme (art. 14), o endosso transmite todos os direitos emergentes da letra. Como, naturalmente, só pode transferir direitos de crédito quem é titular dos mesmos, só o proprietário da letra, que incorpora os direitos de crédito, pode transferi-la a outra qualquer pessoa. Assim, antes de tudo, para que haja transferência legal da letra é necessário que o endossante seja o proprietário do título. E sendo a letra de câmbio uma ordem escrita dada pelo sacador em favor do tomador, é este, naturalmente, o proprietário original ao título, com ele devendo apresentar-se ao sacado, ou seja, a pessoa a quem a ordem é dada, para exigir o cumprimento da mesma. Comumente acredita-se que o proprietário original da letra é o sacador. Isso, na realidade, não acontece: o sacador cria e emite a letra, incorpora direitos no título, dá a ordem, mas essa ordem é a favor do tomador, a quem a letra é entregue e que é o seu primeiro proprietário. É verdade que o sacador pode designar-se tomador (Lei Uniforme, art. 3º, 1ª al.) e, nesse caso, ele mesmo ficará de posse da letra, pois será o beneficiário da mesma. Deve-se ter em consideração, porém, que, em tal caso, o mesmo passa a exercer duas funções diversas na letra: a de dador da ordem (sacador) e a de beneficiário da mesma (tomador). É nessa última qualidade que a pessoa que dá a ordem se constitui proprietário da letra. Como sacador, ela apenas dá a ordem, obrigando-se, com a sua assinatura, a cumpri-la, se aquele a quem a ordem foi dada (sacado) não a cumprir. O verdadeiro proprietário da letra é, assim, primitivamente, o tomador. Nessas condições, circulando a letra, isto é, preenchendo a sua função de mobilizar o crédito, o primeiro endosso será assinado pelo tomador, que é o proprietário da letra e titular dos direitos nela incorporados. Transferindo-se, por esse meio, a propriedade do título do endossante para o endossatário, fica este, realizado o endosso, com plenos poderes para dispor da letra. Desejando utilizar- se imediatamente da importância mencionada no título, esse novo proprietário, até então endossatário, poderá transferi-lo para outra pessoa, passando a serendossante. E assim sucessivamente, até a data do vencimento, formando-se uma cadeia de endossos que atestam que a letra foi transmitida regularmente por todos aqueles que dela foram proprietários. Daí ter dito a lei brasileira que “o último endossatário é considerado legítimo proprietário da letra endossada em preto, se o primeiro endosso estiver assinado pelo tomador e, cada um dos outros, pelo endossatário do endosso imediatamente anterior” (art. 39, 2ª al.), regra também aceita pela Lei Uniforme (art. 16, 1ª al.). Algumas vezes o proprietário da letra, seja o tomador ou endossatário posterior, transfere-a sem designar a pessoa a quem faz a transferência. Trata-se do endosso em branco e nesse caso o endossante assina apenas o seu nome na letra. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 60/193 Não possuindo esta proprietário conhecido, o título toma o caráter de letra ao portador e a pessoa que com ele se apresentar será considerada proprietária da letra (Lei Uniforme, art. 16). Esse proprietário desconhecido (legalmente desconhecido pelo fato de não constar o seu nome no título) pode, querendo, identificar-se ao transferir a letra para outra pessoa, e isso o faz assinando o seu nome na mesma. Às vezes, na prática comercial, costuma-se empregar erroneamente o termo endosso, confundindo-o com o aval, donde ser comum um comerciante dizer que recebeu como garantia de certo crédito uma letra endossada, quando na realidade o título estava avalizado. Não se devem confundir os dois institutos: endosso é o instrumento de transferência da letra, constando da assinatura do proprietário do título no verso ou anverso do mesmo, e só pelo proprietário pode ser realizado; enquanto que o aval é uma nova garantia dada ao título, em regra por pessoa estranha a esse, para reforço do cumprimento da obrigação por parte do avalizado. 39. ESPÉCIES DE ENDOSSO O endosso, como meio especial de transferência da letra, pode ser dado ou designando o endossante a pessoa a quem faz a transferência (Pague-se a Manuel Ricardo – a) Pedro Moreira), ou não sendo feita essa designação, caso em que o endossante apenas lançará o seu nome no verso do título. Temos, assim, duas espécies de endossos, a primeira denominada endosso em preto, também conhecida por endosso pleno, complemento ou nominativo, e a segunda chamada endosso em branco. 39.1. Endosso em preto Endosso em preto é aquele em que o proprietário da letra a transfere a uma outra pessoa, designando-a. Consta, assim, do nome da pessoa a quem a letra é transferida (endossatário), precedido da declaração da transferência (Pague-se a F...) e seguido da assinatura do endossante. Tem-se, com esse endosso, o conhecimento perfeito de como a letra passou da propriedade de uma pessoa para outra. A assinatura do endossante deve ser de próprio punho ou por mandatário com poderes especiais. Não há necessidade de que a declaração de transferência (Pague-se a...) e o nome do endossatário sejam lançados do próprio punho pelo endossante. A lei disso não cogita, donde ser permitido que essas declarações sejam feitas de outra modalidade – datilografadas, por carimbos, impressas etc. Pode, igualmente, uma outra pessoa lançar as declarações, que devem ser subscritas, contudo, pelo próprio punho do endossante. Também não exige a lei que esse endosso seja datado. Se bem que tratadistas vejam a conveniência da data, essa, na realidade, não se torna essencial. De acordo com a lei brasileira, a data do endosso era conveniente para alertar o portador pois, segundo a lei, o endosso posterior ao vencimento produzia os efeitos da cessão civil (art. 8º, § 2º). A Lei Uniforme, entretanto, dispôs de modo diverso, declarando que “o endosso posterior ao vencimento tem os mesmos efeitos que o endosso anterior...” (art. 20). Justifica-se a necessidade da data do endosso apenas para os casos de endosso posterior ao protesto por falta de pagamento ou feito depois de expirado o prazo fixado para se fazer o protesto, pois, segundo a Lei Uniforme, em tais circunstâncias o endosso “...produz apenas os efeitos de uma cessão ordinária de créditos” (Lei Uniforme, art. 20). Nada impede que haja outras declarações no endosso. Desse modo, pode no endosso ser nomeado o domicílio do endossador. Pela lei brasileira, se do endosso constassem cláusulas restritivas da responsabilidade do endossante ou proibitivas 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 61/193 de outro endosso, tais cláusulas eram consideradas não escritas (Decreto nº 2.044, art. 44, I e IV). A Lei Uniforme inovou a respeito, admitindo o endosso com a cláusula excludente da garantia do endossante e o endosso com cláusula proibitiva de novo endosso; neste último caso, o endossante não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada (Lei Uniforme, art. 15). Essas são, como dissemos, inovações da Lei Uniforme, contrariando o direito anteriormente vigente no Brasil. Deixando de ser garante da aceitação e do pagamento da letra pelo sacado, o endossante apenas transfere o título, justificando a cadeia de endossos, não se tornando, contudo, corresponsável pelo pagamento do título; e proibindo novo endosso, o endossante se exime da responsabilidade de pagar a soma àqueles a quem a letra for posteriormente endossada, mas não se libera do pagamento à pessoa a quem endossou. O endosso, como foi dito, transmitindo a propriedade ou disponibilidade da letra (nos casos de endosso-mandato ou endosso-cobrança) só pode ser feito por quem é dela proprietário. Sendo a letra nominativa à ordem, isto é, trazendo no contexto o nome do tomador ou beneficiário, não há dúvida que esse é o proprietário do título e sujeito ativo dos direitos dele decorrentes, e o primeiro endosso será forçosamente o seu. O tomador, primeiro proprietário da letra, cujo nome figura no contexto, não é obrigado a fazer o primeiro endosso como endosso em preto. Pode ele endossá-la em branco, apenas assinando o seu nome nas costas do título sem especificar a quem o transmite. Nesse caso, o título, originariamente nominativo, passa a ter a natureza de título ao portador, e os seus detentores poderão transferi-lo sempre desse modo, sendo considerado proprietário da letra o último que a detiver. Qualquer um dos proprietários anônimos do título pode, entretanto, querendo, identificar-se, lançando sua assinatura na letra, fazendo um endosso em branco ou em preto. Desse modo, num mesmo título podem existir endossos em preto e em branco, desde que, em seguida a um endosso em preto, o endossatário, que receber o título com o seu nome nele especificado, lance a sua assinatura nas costas sem determinar a pessoa a quem faz a transferência. O importante e indispensável é, apenas, que, tendo o título um proprietário designado (tomador, no início da circulação da letra, ou um endossatário que recebeu o título por endosso em preto), só pode ele passar para a propriedade de outra pessoa se o então proprietário conhecido lançar o seu nome no anverso ou no verso do mesmo, com ou sem a indicação da pessoa a quem a transferência é feita. 39.2. Endosso em branco Entende-se por endosso em branco aquele em que o endossante não designa a pessoa a quem transfere a letra. Nesse caso, o endosso é feito mediante a simples assinatura, de próprio punho, do endossante, no verso da letra, ou a assinatura de mandatário que tiver poderes especiais para tal. Com o endosso em branco o título passa a assemelhar-se a um título ao portador, podendo o seu detentor transferi-lo a qualquer pessoa mediante a simples tradição manual, considerando-se legítimo proprietário da letra aquele que a detiver (Lei Uniforme, art. 16). Trata-se, apenas, como bem esclarece Carvalho de Mendonça, de uma simples semelhança, não passando o título a ser juridicamente uma letra ao portador.Isso porque, “o possuidor para receber a soma cambial precisa justificar a legitimidade de sua posse com a série contínua de endossos, visto como o endosso em branco, como o em preto, somente é válido quando se liga à 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 62/193 cadeia dos endossos anteriores” e também porque “o possuidor pode em qualquer momento transformar de novo a letra endossada em branco em letra endossada em preto, e designar o endossatário, escrevendo acima da assinatura do endossador em branco o seu próprio nome ou de terceiro a quem a transfira, ou colocando abaixo do endosso em branco já existente outro endosso em branco com a sua assinatura”. Deve-se sempre ter em mente que a letra de câmbio é um título à ordem, o que afasta do mesmo a cláusula ao portador. Para que alguém possa legitimamente transferir a letra a outrem necessita ser o seu proprietário. É através da cadeia de endossos que se conhece aqueles que a possuíram. Se um dos endossantes desejar transferir o título sem designar a pessoa a quem o transfere (endosso em branco) necessário é que esse título esteja em sua posse mediante transferências regulares. Assim, A, tomador, primeiro proprietário da letra, transfere-a, mediante endosso em preto, a B, e este, do mesmo modo, a C. Verificando-se a série dos endossos, constata-se que A, tomador, era legítimo proprietário da letra, acontecendo o mesmo com B, que a recebeu de A, e com C, que a recebeu de B. Se C, último proprietário, desejar transferir o título sem designar a pessoa a quem o faz (endosso em branco), lançará no mesmo apenas sua assinatura. Neste caso, quem se apresentar com a letra será considerado o seu legítimo proprietário, já que dela consta a assinatura de C sem designar a quem fez a transferência. Se, entretanto, C não endossou a letra em branco e alguém com ela se apresentar, essa pessoa não será considerada proprietária legítima do título, pois não pode justificar o modo do mesmo ter vindo parar às suas mãos, já que não houve endosso de C a pessoa não designada. Igualmente, diz a lei (Lei Uniforme, art. 14, 1ª e 2ª al.) que o endossatário pode completar o endosso em branco. Isso significa que aquele que detém a letra endossada em branco pode fazer modificações nesse endosso, antepondo, por exemplo, o seu nome antes do mesmo (Pague-se a F...), ou o nome de outra qualquer pessoa, e, assim, transformando o endosso em branco em endosso em preto. Dizia a lei brasileira que “o endossatário pode completar” o endosso mas, nesse caso, achamos o termo endossatário mal empregado. É verdade que endossatário é a pessoa a quem a letra é transferida pelo endossante e essa pessoa pode ser designada ou não, dando lugar às duas espécies de endossos, em preto e em branco. Mas, em regra, endossatário é a pessoa designada pelo endossante como novo proprietário da letra. Sendo a letra transferida para pessoa não especificada, talvez melhor tivesse a lei agido se designasse essa pessoa como detentor ou possuidor do título e não como endossatário. Foi, aliás, o que fez a Lei Uniforme, ao declarar, no art. 14, 2ª al., que “se o endosso for em branco, o portador pode: 1º Preencher esse espaço em branco, quer com o seu nome, quer com o nome de outra pessoa” etc. Isso tudo prova, como prelecionou Carvalho de Mendonça, que o endosso em branco não transforma o título em letra ao portador, apenas o assemelhando a tal. O detentor do título ao portador, entretanto, em face da Lei Uniforme, tem necessidade de comprovar o modo de como lhe chegou às mãos, já que essa lei não admite letra originariamente ao portador, devendo, assim, lançar o tomador sua assinatura na mesma para que o portador seja dela considerado legítimo proprietário. A letra endossada em branco circula mediante a simples tradição manual, a pessoa que com ela se apresentar sendo considerada a sua legítima proprietária. Pode, entretanto, o detentor, em qualquer momento, transferir a letra mediante outro endosso em branco, para tanto apenas lançando a sua assinatura no verso 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 63/193 do título, ou por um endosso em preto, nesse caso naturalmente especificando a pessoa a quem faz a transferência. Em relação ao assunto, esclarecia a lei brasileira que “seguindo-se ao endosso em branco outro endosso, presume-se haver o endossador adquirido por aquele a propriedade da letra” (art. 39, 3ª al.). No mesmo sentido, a Lei Uniforme, ao declarar que “...quando um endosso em branco é seguido de um outro endosso, presume-se que o signatário deste adquiriu a letra pelo endosso em branco” (art. 16, 1ª al.). 40. EFEITOS DO ENDOSSO – CADEIA DE ENDOSSOS Dizia a lei brasileira (art. 8º) que “o endosso transmite a propriedade da letra de câmbio...”, esclarecendo (art. 43) que “...o signatário da declaração cambial fica, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra, sem embargo da falsidade, falsificação ou da nulidade de qualquer outra assinatura”. Essa era a doutrina geralmente seguida (Cód. de Com. italiano, art. 259) mas novos estudos realizados sobre a letra de câmbio de um certo modo separaram a letra – documento (res) – dos direitos nela incorporados. E, assim, é possível transferir-se a letra – documento – sem serem transferidos, integralmente, os direitos nela incorporados. Igualmente, a regra consagrada no art. 43 da lei brasileira, de que o signatário da declaração cambial ficava, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra, veio a sofrer alteração pois, pela Lei Uniforme, é admitido o endosso sem que o endossante se responsabilize pelo aceite e pagamento do título, desde que no endosso haja cláusula especial a respeito (Lei Uniforme, art. 15). O direito uniforme tomou por base que o endosso é apenas um meio próprio de transferência da letra; a garantia do endossante pela aceitação e pagamento é uma garantia decorrente da lei, que pode, por isso, permiti-la integralmente, como acontecia com a lei brasileira, ou deixar de admiti-la em certos casos, como o faz a Lei Uniforme. Daí divergir a Lei Uniforme da lei brasileira quanto à conceituação do endosso. Se, para esta, o endosso transmite a propriedade da letra, para a Lei Uniforme (art. 14, 1ª al.), “o endosso transmite todos os direitos emergentes da letra”, não se falando, assim, na propriedade do título. Quanto à regra de que, endossando o título, o endossante se torna garante do aceite e do pagamento, a Lei Uniforme apenas a permite, mas admite também que, por cláusula especial, possa o endossante eximir-se dessa responsabilidade, o endosso servindo simplesmente para justificar a circulação do título, desempenhando, assim, sua função precípua (art. 15). Sendo o efeito principal do endosso transmitir os direitos emergentes da letra, tornando, por via de dispositivo legal, o endossante solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento, estudemos o assunto mais a vagar, para melhor compreensão. 40.1. Transferência do título e dos direitos emergentes da letra O principal papel do endosso, segundo a Lei Uniforme, é transferir os direitos emergentes da letra. O endossatário torna-se, assim, titular dos direitos do crédito como se deles o tivesse sido originariamente. Cabe-lhe, desse modo, não só praticar todos os atos para o resguardo e garantia desses direitos como, igualmente, reclamar o embolso da soma especificada dos obrigados na letra – do aceitante, se o sacado assumiu, com a sua assinatura, a obrigação de pagar a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 64/193 soma indicada, ou dos demais endossantes, avalistas ou sacador, se o sacado não se obrigou a pagar (não aceitou), ou tendose obrigado (aceito), se recusou a pagar. Por ser legalmente o novo titular dos direitos que emanam do título é que o endossatário, a quem a letra foi transferida pelo endosso, pode, por vontade própria, transmitir o título a outra pessoa. Meio fácil de serem cedidos os direitos de crédito – o que os antigos, só pelo artifício da procuração em causa própria, conseguiam realizar – o endosso veio ativar sensivelmente as operações comerciais, fazendo com que o crédito fosse utilizado em maior escala, beneficiando, assim, um maior número de pessoas. Deve-se destacar, como já lembrou Carvalho de Mendonça que, com a transferência do título pelo endosso, não há sucessão jurídica entre endossante e endossatário. Este, dado o princípio da autonomia das obrigações cambiárias, adquire um direito autônomo, não lhe cabendo, assim, indagar se houve, anteriormente, irregularidade no título. As suas relações são apenas com o endossante: estando este na posse legitimada do título, capaz, assim, de transferi-lo, o endossatário, ao receber a letra endossada, se torna titular autônomo dos direitos que do mesmo título decorrem. 40.2. Responsabilidade do endossante Outro efeito do endosso, oriundo, não de sua natureza, mas de um dispositivo legal, quase tão importante quanto o primeiro, é o relativo à responsabilidade que assume o endossante ao transferir a letra de câmbio. Já atrás foi dito que, em se tratando de um título literal e formal, as obrigações são assumidas mediante as assinaturas das pessoas que se obrigam na própria letra de câmbio. A lei brasileira estabelecia (art. 43) que “as obrigações cambiárias são autônomas e independentes”, mas acrescentava, para maior garantia do título, que “o signatário de declaração cambial fica, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra, sem embargo da falsidade, da falsificação ou da nulidade de qualquer outra assinatura”. Isso, em outras palavras, significava que quem lançasse sua assinatura na cambial ficava à mesma vinculado e passava a responder, solidariamente, com os outros que também o fizessem, pelo pagamento da letra. Ora, de acordo com esse dispositivo, o proprietário da letra, que a transfere mediante o endosso, se perde a titularidade dos direitos incorporados no título não se desvincula do cumprimento das obrigações contidas na letra, pelo princípio legal da garantia de aceitação e de pagamento assumida ao lançar sua assinatura no título. Daí resulta que, se a letra não for paga no vencimento, o signatário do endosso fica com a obrigação de pagá-la. Essa obrigação é solidária com as daqueles que lançaram suas assinaturas no título. Mas, em se tratando de solidariedade passiva o atual titular dos direitos da letra pode escolher qualquer dos endossantes para que ele cumpra sozinho a obrigação. Desse modo, o endossante garante, como todos quantos assinaram no título, o pagamento deste. Isso, sem dúvida, representa maior segurança para o credor. Quanto maior for o número de endossantes, mais cresce a garantia do cumprimento da obrigação constante do título. Há, assim, com os endossos, como que um reforço da solvabilidade do título, pois se, ao nascer, este só contava com uma pessoa para garantir o seu cumprimento (o sacador, que emitiu a letra e, por isso mesmo, exigiu a lei que nela lançasse a sua assinatura), operando-se várias transferências por endossos, cada um dos endossantes, assinando no título, vai se comprometendo a pagar a letra. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 65/193 Os endossos, sendo lançados sucessivamente na letra, formam uma cadeia, pela qual se pode acompanhar a sucessividade dos proprietários do título. Essa cadeia de endossos tem muita importância para o último proprietário da letra (o último endossatário) pois, se desejar reclamar os seus direitos de algum endossante (no caso do sacado não aceitar a ordem ou, aceitando-a, recusar-se a cumpri-la), ele o fará exercendo o chamado direito regressivo. Isto quer dizer que ele tem o direito de agir, regressivamente, ou seja, em sentido contrário ao da cadeia formada, contra um, alguns ou todos os coobrigados, no caso os endossantes e seus avalistas, o tomador e o sacador. Assim, sendo X o sacador do título, A o tomador, que o endossa a B, este a C, este a D e este, finalmente, a E, vencendo- se o título e o sacado, tenha ou não aceito a ordem (se a aceitou não será mais sacado e sim aceitante) não efetuando o pagamento, E fica com o direito de exigir de D, ou de C, ou de B, ou de A, ou de X, que é o sacador, a importância mencionada, e qualquer um desses, desde que escolhido, é obrigado a pagá-la. Não está E, último endossatário da letra e, portanto, titular dos direitos de crédito da mesma, obrigado a seguir a ordem dos endossantes da cadeia regressiva. Tanto poderá exigir o pagamento de D, que foi o proprietário da letra imediatamente anterior a ele como de C, B, ou X. A lei brasileira dispunha que, sendo o pagamento feito pelo sacador, endossantes ou respectivos avalistas, ficavam desonerados de responsabilidade os coobrigados posteriores (art. 24, 2ª al.). Isso significava que, sendo desprezados alguns elementos da cadeia regressiva (no exemplo citado, tendo a letra passado por B, C e D e o portador, E, escolhendo B para pagar) os obrigados posteriores a esse – C e D – ficavam eximidos da responsabilidade do pagamento (só tendo B ação contra A, tomador, ou contra X, sacador). A Lei Uniforme, mantendo o mesmo princípio da lei brasileira, ao tratar do assunto, dispõe que “os sacadores, aceitantes, endossadores ou avalistas de uma letra são todos solidariamente responsáveis para com o portador”, aduzindo que “o portador tem o direito de acionar todas essas pessoas individual ou coletivamente, sem estar adstrito e observar a ordem por que eles se obrigaram” e acrescentando mais: “A ação intentada contra um dos coobrigados não impede acionar os outros, mesmo os posteriores àquele que foi acionado em primeiro lugar” (art. 47, 4ª al.). Esse último dispositivo da Lei Uniforme merece ser esclarecido. Quando a lei brasileira e a Lei Uniforme dizem que o portador tem o direito de acionar qualquer dos obrigados regressivos, sem se ater à ordem dos endossos, o fazem baseadas na solidariedade passiva que existe entre todos os garantes do título. Escolhido um obrigado, na cadeia regressiva, se este pagar, naturalmente ficam exonerados de responsabilidade os obrigados posteriores. Se, entretanto, não pagar, fica o portador com o direito de acionar qualquer outro coobrigado, mesmo posterior àquele que foi acionado, visto esse não estar desobrigado por não haver o anteriormente acionado satisfeito a obrigação. Se o novo coobrigado acionado pagar, ficam exonerados os obrigados posteriores a ele. Tornando-se titular legitimado dos direitos decorrentes do título, o obrigado que pagou pode acionar os que lhe são anteriores e não mais os que posteriormente a ele assumiram obrigação no título. Assim, pois, deve ser entendido o disposto na última alínea do art. 47 da Lei Uniforme, que à primeira vista dá a impressão de não terem sido desonerados da responsabilidade os obrigados posteriores àquele que pagou. Nessas condições, muito importante é esse efeito que o endosso produz na letra de câmbio. Endossando-a, o endossante transfere o direito de crédito de que era titular mas, em virtude de uma disposição expressa da lei, não se desvincula da 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 66/193 letra, assumindo a obrigação de pagá-la se o sacado ou o aceitante, ao lhe ser apresentado o título, recusarse a fazê-lo. Como acima foi dito, essa norma de ser o endossante garante da aceitação e do pagamento do título, consagrada, por disposição expressa, pela lei brasileira (art. 43) e mais rigidamente pela Lei Uniforme (art. 15),pela lei de 18 de abril de 1861, comumente conhecida como Novelas de Nüremberg e, finalmente, tornada obrigatória em todo o Império alemão pela lei de 22 de abril de 1871. O que diferencia a lei alemã da francesa é o fato de que, naquela, a exemplo do que acontecia com o Inland-Bill da Inglaterra, o título não representa o transporte de valores de um lugar para outro nem se requer que haja provisão em mãos do sacado, como estabelecia o Código francês. Entretanto, para que seja o título caracterizado como tal, necessário é que, no contexto, esteja escrita a frase letra de câmbio (Wechsel) em alemão, ou uma expressão estrangeira a ela equivalente. Deve, igualmente, o título conter outros requisitos essenciais, tais como a importância a pagar, o nome da pessoa em favor da qual, ou à ordem de quem deve o pagamento ser feito, a época de pagamento, a assinatura do sacador, a designação do lugar, dia, mês e ano em que a letra foi sacada, o nome da pessoa indicada para pagar (sacado) e a nomeação do lugar onde deve ser efetuado o pagamento, que será o designado ao lado do nome do sacado, se um outro não estiver expressamente mencionado (art. 4º). Se faltar algum desses requisitos o título não será considerado letra de câmbio (art. 7º). Toma, assim, a letra de câmbio o caráter de um título de crédito criado pela vontade unilateral do sacador, sem ficar dependente de um contrato original, como acontece com o direito francês; é, também, um título formal, devendo conter requisitos essenciais para valer como tal. A orientação alemã passou a influenciar os demais países. A Bélgica adotou-a, com algumas restrições, através da lei de 20 de maio de 1872 sobre a letra de câmbio e a nota promissória, a Hungria fez o mesmo pela Lei nº XXVII, de 1876, entrada em vigor em 1877.7A Itália, reformando, em 1882, o seu Código de Comércio de 1865, que obedecia à orientação francesa, aderiu igualmente ao modelo alemão, através dos artigos 251 e seguintes do mesmo Código. Essa orientação foi mantida pelo Decreto Real de 14 de dezembro de 1933, que pôs em 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 5/193 vigor a Convenção de Genebra. E em vários outros países – Áustria, Polônia, Suécia, Japão, Portugal – tomou corpo a ideia de dar à letra de câmbio a característica de um título que contém direitos e obrigações autônomos, sem dependência da relação fundamental e valendo pelo que nele está escrito. 14. UNIFORMIZAÇÃO DO DIREITO CAMBIÁRIO Dado o desenvolvimento das relações comerciais entre os povos, que dia a dia, no decorrer deste século, se tornaram mais intensas, em virtude, sobretudo, do surgimento dos novos meios de transportes, juristas e comerciantes voltaram suas atenções para a necessidade do estabelecimento de regras uniformes sobre a letra de câmbio, a serem aceitas pelos governos interessados. E por esse motivo algumas conferências se realizaram, com a participação de grande número de países, logrando êxito final. De há muito, realmente, mostrara-se a necessidade da uniformização das normas do direito cambiário e vários congressos se manifestaram nesse sentido, tendo em vista o fato de se prestar excelentemente a letra de câmbio para pagamentos internacionais. Com a faculdade que têm os países de legislar sobre assuntos de seu próprio interesse, a adoção de regras comuns a todos viria, indiscutivelmente, quebrar óbices que dificultavam a expansão do título, principalmente no que concerne à capacidade, à responsabilidade dos que apõem os seus nomes nos títulos e à circulação destes. Reconhecendo tal fato, já em 1869 o 1º Congresso das Câmaras de Comércio italianas, reunido em Gênova, “acolheu com prazer a proposição de Minguetti, declarando ser útil e oportuno que o governo tomasse a iniciativa de tratados com os governos estrangeiros para se adotar uma lei cambial universal”. Em 1885, o Congresso Internacional de Direito Comercial, reunido em Antuérpia, Bélgica, discutiu e aprovou um projeto de lei cambial internacional, projeto esse que foi emendado no Congresso de Bruxelas, reunido nessa cidade em outubro de 1888. Foi, entretanto, em 1910 e 1912 que, em Haia, se adotaram medidas efetivas para a uniformização das regras relativas à letra de câmbio. Atendendo a uma convocação do governo holandês, feita em 1908, 35 países, através de representações especiais, se reuniram em Haia, em 1910, para a elaboração de uma lei uniforme sobre a letra de câmbio. O Brasil foi representado pelo dr. Rodrigo Otávio, que também foi o nosso delegado na segunda Conferência, realizada na mesma cidade, em 1912, na qual foi finalmente aprovado o texto do Regulamento Uniforme sobre a letra de câmbio e a nota promissória, sendo pedido aos Estados participantes que fizessem adotar, em suas legislações, aquelas regras, facultando-se, contudo, aos mesmos, algumas alterações nas normas gerais. Vinte e sete dos países que participaram das Conferências de Haia assinaram a Convenção sobre o Regulamento Uniforme; entre eles não figuraram, entretanto, a Inglaterra e os Estados Unidos. Cumpre notar que a lei brasileira sobre as letras de câmbio, promulgada em 1908, estava em perfeita harmonia com a doutrina vitoriosa em Haia, o que muito honra a cultura jurídica do país, principalmente os profundos conhecimentos que, sobre o assunto, tinha o inspirador de nossa lei, Desembargador José Antônio Saraiva. Estabeleceu o Regulamento aprovado em Haia em 1912 que a letra de câmbio é um título à ordem, contendo uma ordem de pagamento, dispensando-se o fator relativo à distancia loci para que possa ser sacada. Deve trazer sempre a cláusula cambiária e é destinada à circulação. Garantias especiais foram dadas ao portador de boa-fé e a autonomia das obrigações cambiárias foi afirmada no fato de ser 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 6/193 reconhecida a obrigação do avalista ainda mesmo que fosse invalidada a obrigação do avalizado (arts. 1º, 10, 15 e 31 do Regulamento). Apesar do grande avanço dado pelas Conferências de Haia à ideia da unificação do direito cambiário, na prática poucos países adotaram em suas leis os princípios do Regulamento aprovado em 1912. Maiores dificuldades surgiram com a eclosão da guerra de 1914 a 1918. O Brasil, apesar de ter aprovado a Convenção pelo Decreto nº 3.756, de 17 de agosto de 1919, jamais converteu em lei o texto do Regulamento Uniforme. Desejando, contudo, promover realmente a unificação do direito cambiário, realizou-se em Genebra, em 1930, uma Conferência Internacional, sob os auspícios da Liga das Nações, presidida pelo jurista holandês Limburg. Tomando por base o Regulamento Uniforme aprovado em Haia em 1912, essa Conferência, de que participaram 31 Estados, aprovou uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, além de ao mesmo tempo, serem adotadas também Convenções sobre conflito de leis em relação às letras de câmbio e notas promissórias e sobre selos em ditos títulos. Adotaram a Convenção de Genebra: a Alemanha, Bélgica, Dantzig, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Itália, Japão, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, França, Brasil, Polônia, Rússia e Grécia. 15. A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO ANGLO-AMERICANO O direito anglo-americano, em relação à cambial, difere bastante do chamado sistema continental, ou seja, do adotado pelos países que obedecem a orientação da Lei Uniforme de Genebra. Nem a Inglaterra nem os Estados Unidos aderiram à Convenção de Genebra e a sua não adesão já tinha mesmo sido prevista pela comissão nomeada pelo Comitê Econômico da Liga das Nações, composta dos juristas Jitta, Lyon-Caen, Chalmers e Klein, para dar parecer sobre a possibilidade da unificação. Realmente, aqueles dois países não aceitaram a Lei Uniforme, muito embora tenha a Inglaterra adotado a Convenção sobre selos nas letras de câmbio. Baseado na common law e na equidade,sofre exceção no direito uniforme, podendo, assim, o endossante eximir-se da garantia da aceitação e do pagamento se, para tal, expressamente se exonerar dessa responsabilidade (art. 15). Explicitou, assim, a Lei Uniforme, que o endosso serve, precipuamente, para justificar a transmissão regular do título, o endossante ficando afastado da responsabilidade da aceitação e do pagamento, pois essa responsabilidade decorre não da natureza do endosso, mas de um princípio legal. A lei brasileira seguia orientação diferente, não admitindo a dissociação da transferência da letra com a assunção da responsabilidade do pagamento, razão pela qual considerava não escrita “a cláusula excludente ou restritiva da responsabilidade” do endossante. 40.3. Proibição de novo endosso Alguns autores consideram, também, como efeito do endosso o direito que tem o endossatário de reendossar a letra. Ainda aqui há divergência entre a lei brasileira e a Lei Uniforme. Pelo Decreto nº 2.044, era considerada não escrita “a cláusula proibitiva do endosso...” (art. 44, nº II). A Lei Uniforme permite tal cláusula, estatuindo taxativamente que “o endossante pode proibir um novo endosso e, neste caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada” (art. 15, 2ª al.). Tem-se, assim, que, proibindo o endossante um novo endosso, isso não significa que a circulação da letra fique paralisada. Apenas, se for endossada, o endossante que proibiu o endosso não se responsabiliza pelo pagamento do título às pessoas a quem foi este posteriormente endossado. Mas garante esse pagamento à pessoa a quem endossou, sendo, portanto, mantida sua responsabilidade na letra. 40.4. Outras formas de transmissão da cambial Além do endosso, a cambial admite outras formas de transmissão a saber: 1º – A dação em pagamento (datio in solutum) (arts. 997 do Código Civil de 1916 e 358 do diploma de 2002) em que a transmissão importa em cessão de crédito, devendo ser notificado o cedido, responsabilizando-se o solvens pela existência do crédito transmitido ao tempo da cessão. Na dação em soluto não há novação pelo fato de haver substituição da prestação (aliud pro alio-nomen iuris pro pecunia). São casos de dação em soluto: a) na emissão de nota promissória pro solvendo (impropriamente chamada vinculada a contrato); b) substituição de duplicata por promissória dada em paramento; c) caso de reforma ou amortização de título. Consequências: o transmitente responde pelo valor do título e pela sua exigibilidade. 2º – Cessão de crédito a título oneroso; 3º – Cessão pro solvendo; 4º – Cessão solvendi causa. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 67/193 A respeito, pormenorizadamente, leia-se o livro de J. A. Penalva Santos, Títulos de Crédito e o Código Civil, Editora Forense, 2004, pp. 81/86. Outras formas anômalas admitem a possibilidade de a cambial ser vendida, herdada etc. 41. ENDOSSO-MANDATO Dissemos (supra, nº 39) que há duas espécies de endosso: o em preto, em que consta o nome do endossatário, e o em branco, em que não há essa designação; esses são os chamados endossos translativos, pois transmitindo os direitos emergentes da letra, transferem a propriedade do título. Contudo, há outros endossos que não fazem essa transferência, como o endosso-mandato, que é aquele em que, por cláusula especial, o portador do título o transfere a outra pessoa, que passa a exercer “...todos os direitos emergentes da letra, mas só pode endossá-la na qualidade de procurador” (Lei Uniforme, art. 18, 1ª al.). Esse chamado endosso-mandato ou endosso-procuração é, na realidade, um falso endosso pois nem transmite os direitos emergentes do título nem transfere a propriedade da letra, mas simplesmente a sua posse. De fato, o detentor do título por endosso-mandato recebe-o e pratica todos os atos de proprietário do mesmo, mas o faz como simples mandatário, representando e obrigando, neste caso, o mandante ou endossante. O endosso-mandato visa a facilitar a prática de atos que só poderiam ser realizados pelo proprietário do título, e neste sentido presta inumeráveis benefícios ao comércio, pois, entre outros casos, evita o deslocamento do endossante de um lugar para outro, às vezes impossível. Convém, entretanto, ter-se em mente que não se trata de um verdadeiro endosso, ato translativo da propriedade da letra de câmbio, segundo a norma expressa no art. 8º da lei brasileira e no art. 14, 1ª al., da Lei Uniforme. Dispunha, ainda, a lei brasileira (art. 8º, § 1º) que nessa espécie de endosso o endossante-mandante podia, também, restringir os poderes do mandato e em tal caso ao endossatário seria facultado agir apenas dentro dos poderes conferidos. A Lei Uniforme não fala nessa restrição, estabelecendo (art. 18) que “quando o endosso contém a menção ‘valor a cobrar’ (valeur en recouvrement), ‘para cobrança’ (pour encaissement), ‘por procuração’ (par procuration) ou qualquer outra menção que implique em simples mandato, o portador pode exercer todos os direitos emergentes da letra, mas só pode endossá-la na qualidade de procurador”. Dá, assim, a Lei Uniforme amplo campo de ação ao endossatário- procurador que agirá como se fosse proprietário da letra, podendo apresentá-la ao sacado para aceite, receber a importância mencionada no título, protestá-la etc. E acrescenta a Lei Uniforme que “os coobrigados, neste caso, só podem invocar contra o portador as exceções que eram oponíveis ao endossante” (art. 18, 2ª al.), norma que não constava expressamente da lei brasileira mas que estava incluída na teoria geral do mandato, como confirma a doutrina. Não significa, entretanto, esse dispositivo da Lei Uniforme que o endossatário, no endosso-mandato, ao reendossar, por procuração, a letra, não possa restringir, por cláusula expressa, os poderes do novo procurador. O Projeto de Código Civil brasileiro de 1973 estranhamente declarou que “o endossatário do endosso- mandato só pode endossar novamente o título na qualidade de procurador, com os mesmos poderes que recebeu” (art. 959, § 1º – atual art. 917, 1º). Não vemos razão para não poderem ser restringidos os poderes que o endossatário de um endosso-mandato recebeu do endossante primitivo, ao fazer esse um novo endosso. O que ele não pode, reendossando a letra, é ultrapassar os poderes recebidos ou fazer um endosso translativo da letra, pois não tem a propriedade da 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 68/193 mesma. Mas restringir os poderes que recebeu do endossante primitivo, isso, a nosso ver, pode corretamente ser feito. A Lei Uniforme estabelece, ainda, que “o mandato que resulta de um endosso por procuração não se extingue por morte ou sobrevinda incapacidade legal do mandante” (art. 18, 3ª al.). O dispositivo, como se vê, altera inteiramente o estabelecido na lei civil, já que, nessa, a morte ou incapacidade de alguma das partes faz cessar o mandato (Cód. Civil, art. 682, inc. II). Com a adoção dessa norma, a Lei Uniforme deu ao mandato por endosso característica diversa do mandato comum. O art. 892 do atual Código Civil dispõe que: “Aquele que, sem ter poderes, ou excedendo os que tem, lança a sua assinatura em título de crédito, como mandatário ou representante de outrem, fica pessoalmente obrigado, e, pagando o título, tem ele os mesmos direitos que teria o suposto mandante ou representado”; A redação do dispositivo é semelhante à do art. 8° da Lei Uniforme. Nesse caso o suposto mandatário assume a mesma posição do suposto mandante; assim aquele que saca uma letra de câmbio como falso mandatário age como verdadeiro sacador, sem qualquer responsabilidade para o falso mandante. O art. 893 estipula que “A transferência do título de crédito implica a de todos os direitos que lhe são inerentes”; o que significa tratar-se de transferência dos direitos cambiários.Na redação do art. 893, ainda em fase de Projeto, sugeriu Fran Martins fosse substituído o vocábulo “emergentes” por “inerentes”; O art. 894 regulou os títulos representativos de mercadoria são aqueles que transferem a posse e a propriedade da mercadoria, tais como: o conhecimento de depósito, representativo de mercadoria depositada em armazém geral ou conhecimento de transporte, título representativo de carga depositada em navio para ser transportada ao porto do destino; Art. 894 do Código Civil – “O portador de título representativo de mercadoria tem o direito de transferi-lo, de conformidade com as normas que regulam a sua circulação, ou de receber aquela independentemente de quaisquer formalidades, além da entrega do título devidamente quitado.” Art. 895 – “Enquanto o título de crédito estiver em circulação, só ele poderá ser dado em garantia, ou ser objeto de medidas judiciais, e não, separadamente, os direitos ou mercadorias que representa.” Art. 895, segundo esse dispositivo é permitido que o título seja dado em garantia, via de regra, penhor, denominado caução, ou ser penhorado, sequestrado, arrestado, ou mediante a utilização de medidas constritivas; tais medidas abrangem os títulos representativos de mercadorias. Art. 896, por força do disposto no citado artigo a legítima posse do título de crédito presume a sua propriedade; assim o seu último endossatário de boa-fé está imune aos ataques de quem pretenda reivindicá-lo. Dessa forma, é vedada, por exemplo, a penhora de mercadoria embarcada em navio, ou o sequestro do café depositado em armazém geral; 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 69/193 42. ENDOSSO PIGNORATÍCIO Discutia-se, na doutrina brasileira, se seria possível a letra de câmbio ser dada em penhor mediante simples endosso. A lei cambial brasileira nada dispunha a respeito mas o Dec. nº 19.473, de 10 de dezembro de 1930, que regula os conhecimentos de transporte de mercadorias por terra, mar e ar, o aceitou expressamente, ao estatuir (art. 4º, parág. único) que, “lançada a cláusula de penhor ou garantia, o endossatário é credor pignoratício do endossador”. Por tal razão, e alegando que, na prática, é comum o endosso pignoratício, Magarinos Torres, Pontes de Miranda, José Maria Whitaker e Theophilo de Azeredo Santos admitiam o endosso pignoratício, contra o ponto de vista, entre outros, de Paulo Lacerda, Carvalho de Mendonça e Waldemar Ferreira. A controvérsia, em face da Lei Uniforme, não tem mais razão de ser, pois essa expressamente dispõe, no art. 19, que “quando o endosso contém a menção ‘valor em garantia’, ‘valor em penhor’ ou qualquer outra menção que implique uma caução, o portador pode exercer todos os direitos emergentes da letra, mas um endosso feito por ele só vale como endosso a título de procuração”. “Os coobrigados não podem invocar contra o portador as exceções fundadas sobre as relações pessoais deles com o endossante, a menos que o portador, ao receber a letra, tenha procedido conscientemente em detrimento do devedor.” Verifica-se, desse modo, que a constituição do penhor da letra mediante simples endosso é expressamente admitida no direito uniforme. O endossatário pignoratício, ao receber o título, pode praticar todos os atos necessários para a defesa e conservação dos direitos emergentes da letra, de que está de posse. Não sendo, contudo, o proprietário do título, não pode o endossatário pignoratício transferi-lo a outro, na qualidade de proprietário. Daí dizer a lei que qualquer endosso por ele feito valerá apenas como endosso-mandato, não como endosso próprio ou translativo. Por se ter tornado o endossatário pignoratício detentor dos direitos emergentes da letra apesar de não ser proprietário desta, não podem os coobrigados invocar contra ele exceções fundadas sobre relações pessoais deles com o endossante, pois esse, apesar de ser ainda o proprietário do título, transmitiu os direitos emergentes do mesmo ao endossatário, como acontece no endosso comum. Naturalmente, se o endossatário, ao receber a letra, procedeu conscientemente em prejuízo do devedor, a regra não tem aplicação, sendo, em tal caso, permitido aos coobrigados invocar contra ele as exceções pessoais que poderiam oferecer contra o endossante. O endosso pignoratício não se aplica ao cheque consoante se verifica na leitura da Lei Uniforme de Genebra para Cheques e na Lei nº 7.357 de 1985, bastando ler-se as Comptes Rendus, p. 98. Nada impede, contudo, se admita o penhor de cambial ou de cheque nos termos do art. 1.458 do Código Civil de 2002, mediante instrumento extracartular válido. Aliás, o Código de Comércio de 1850 admitia no art. 279 do Código de Comércio revogado e no art. 120, § 2º, do Decreto-Lei nº 7661 de 1945 o penhor com a cláusula de pignoris vendendo. 43. ENDOSSO PARCIAL 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 70/193 O endosso parcial, ou seja, o endosso relativo apenas a uma parte da importância mencionada na letra de câmbio, era, pela lei brasileira (art. 8º, § 3º), taxativamente vedado. A Lei Uniforme (art. 12, 2ª al.) o considera nulo, e contra ele também são quase todas as leis que regulam as cambiais, seja no direito continental, seja no anglo-americano. Entretanto, o Código de Comércio da Argentina estabelece, no art. 634, que “a letra de câmbio não pode ser endossada por uma parte do seu importe sem ficar extinta a outra parte”, o que significa acatar o endosso parcial, extinguindo-se, entretanto, a parte não endossada do montante da letra. A quase totalidade dos autores brasileiros não tem dúvida em aceitar a validade do princípio legal. De fato, admitir o endosso parcial seria criar sérias dificuldades para a circulação da letra, apesar de alguns autores acharem que isso poderia se evitar se fossem, no endosso parcial, empregadas duplicatas da letra. Mas, como bem adverte Carvalho de Mendonça, “sendo indivisível a soma cambial e única a época do vencimento da letra, esta não poderia se achar simultaneamente nas mãos do endossador e do endossatário, para cada um deles exercer a parcela ou fração de direitos cambiais que porventura lhes coubesse”. Esse, aliás, é o mesmo ponto de vista de Saraiva. Em tais condições, dentro da melhor doutrina, não é permitido que a letra de câmbio seja endossada parcialmente, sendo, pela Lei Uniforme, considerada nula essa espécie de endosso. 44. ENDOSSO POSTERIOR AO VENCIMENTO Meio simples de ser transferida a propriedade da letra de câmbio, o endosso não só opera essa transferência de propriedade como, por disposição legal, vincula os endossantes à cambial, tornando-os responsáveis pelo aceite e pelo pagamento da letra, solidariamente com quantos lançaram suas assinaturas no título. Normalmente, o endosso, dando mobilidade ao crédito, deve ser usado enquanto este está ativo. Entretanto, não é proibido seja o endosso empregado após o vencimento da letra, tendo esse o nome de endosso-póstumo, tardio ou impróprio. Uma séria divergência existe entre a lei brasileira e a Lei Uniforme quanto aos efeitos do endosso posterior ao vencimento. A lei brasileira dizia expressamente que “o endosso posterior ao vencimento tem o efeito de cessão civil” (art. 8º, § 2º). Isso significava que, apesar de permitido o endosso posterior ao vencimento, deixava ele de ser um ato puramente cambial para produzir os efeitos de uma cessão de direito comum. Quais são esses efeitos, diversos dos que produzem o endosso próprio anterior ao vencimento? Em primeiro lugar, se o endossante anterior ao vencimento, por força do art. 43 da lei brasileira, nesse sentido correspondente ao art. 15 da Lei Uniforme, ficava “vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra”, o que o fazia posteriormente ao vencimento, por se tratar de uma cessão civil, não estava ligado pelo vínculo dasolidariedade cambial aos demais coobrigados no título. Havia, apenas, uma cessão de crédito, de caráter civil, deixando de amparar o endossatário as regras do direito cambiário, mais simples e mais seguras que as do direito comum. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 71/193 Também, segundo a lei brasileira, com o endosso posterior ao vencimento o endossante “não garante a solvência do devedor, salvo estipulação em contrário, mas somente a existência do crédito, ao tempo do endosso”, conforme prelecionava Carvalho de Mendonça. Por último, seria aplicável ao endossatário a regra constante do art. 294 do Código Civil, em relação à cessão de crédito, ou seja, que “o devedor pode opor ao cessionário as exceções que lhe competirem, bem como as que, no momento em que veio a ter conhecimento da cessão, tinha contra o cedente”, o que significava que o devedor podia opor ao endossatário as mesmas exceções que oporia ao endossante-póstumo, o que é inteiramente contrário ao princípio da autonomia das obrigações cambiárias. Vê-se, assim, que, permitindo o endosso posterior ao vencimento da letra, a lei brasileira tirava a mesma do campo do direito cambiário para subordiná-la ao direito comum. A Lei Uniforme tem orientação diversa, admitindo o endosso posterior ao vencimento da letra e dando-lhe os mesmos efeitos do endosso anterior (art. 20), só produzindo os efeitos de cessão ordinária de crédito, ou cessão civil, o endosso posterior ao protesto por falta de pagamento ou feito depois de expirado o prazo fixado para se fazer o protesto. Daí a conclusão de que, segundo a Lei Uniforme, a vida ativa da letra vai até o momento em que é protestada por falta de pagamento ou se esgota o prazo estabelecido para se fazer o protesto. Quando o protesto não comprova a falta de pagamento da letra, como o que é feito em face da recusa total ou parcial do aceite ou nos demais casos mencionados nos números 2º e 3º do art. 43 da Lei Uniforme, não tira os efeitos cambiários do endosso, o que significa que os obrigados anteriores não ficam desonerados em relação àqueles a quem a letra for endossada, como aconteceria se esse endosso significasse mera cessão civil. Desse modo, segundo a lei atualmente vigorante, se o endosso é posterior ao protesto por falta de pagamento, ou feito depois do prazo fixado para o protesto, os efeitos que produz são apenas os de uma “cessão ordinária de crédito”. Isso porque, com o protesto por falta de pagamento, se evidencia um fato de grande relevância para os que figuram no título, que é o do não cumprimento do pagamento por parte de alguém que se havia obrigado a realizá-lo (aceitante) ou sido indicado para efetuá-lo, mas se negou a fazê-lo no prazo estipulado. E é através do protesto que o portador assegura o seu direito de regresso contra os coobrigados, direito até então latente, a depender o seu exercício desse ato solene. Naturalmente, ao falar a Lei Uniforme que “terá o efeito de cessão civil o endosso feito depois de expirado o prazo para se fazer o protesto”, refere-se ao protesto necessário (infra Cap. XII, nº 92), àquele que, obrigatoriamente, em certas circunstâncias, deve ser tirado, sob pena de perder o portador o direito regressivo contra os coobrigados no título. Haveria o problema de, não sendo datado o endosso, saber-se se o mesmo teria sido feito antes ou depois do prazo fixado para o protesto. Como é evidente, a questão é relevante, pois a data altera completamente a natureza do endosso, considerado um ato de efeitos puramente cambiais se feito antes do prazo fixado para o protesto, ou de mera cessão comum, se depois. A Lei Uniforme resolveu de pronto o assunto, estatuindo que, “salvo prova em contrário, presume-se que um endosso sem data foi feito antes de expirado o prazo fixado para fazer o protesto” (art. 20, 2ª al.). 45. ENDOSSO “SEM GARANTIA” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 72/193 Alguns autores propugnavam pela admissão, entre nós, do endosso sem responsabilidade cambial, ou seja, o endosso apenas com efeito translativo da propriedade do título, eximindo-se o endossante da responsabilidade pelo pagamento da letra. Essa modalidade de endosso foi aceita por várias legislações, inclusive a lei alemã de 1848, o Código de Comércio da Itália de 1882 e o Código francês, mediante as normas introduzidas pela lei de 30 de outubro de 1935. Apesar desses precedentes, a lei brasileira era taxativamente contrária ao endosso “sem garantia”, pois, depois de expressar o princípio geral de que “o endosso transmite a propriedade da letra de câmbio”, acrescentando que para a validade desse “...suficiente a simples assinatura do próprio punho do endossador ou do mandatário especial, no verso da letra....” (art. 8º), estabelecia a regra, de suma importância para a garantia do título, de que “...o signatário da declaração cambial fica, por ela, vinculado e solidariamente responsável pelo aceite e pelo pagamento da letra...” (art. 43). Esse dispositivo repelia frontalmente a permissão do endosso sem garantia. E o art. 44, nº IV, da lei brasileira considerava não escrita, para os efeitos cambiais, “a cláusula excludente ou restritiva da responsabilidade, e qualquer outra beneficiando o devedor ou o credor, além dos limites fixados por esta lei”. A Lei Uniforme, como anteriormente foi dito, permite o endosso sem que o endossante se responsabilize pela aceitação e pelo pagamento da letra (art. 15, 1ª al.). Para que tal possa ocorrer, entretanto, necessário é que o endosso traga cláusula especial a respeito, destacando a declaração do endossante o fato a fim de que os posteriores detentores da letra não sejam ludibriados. Em tal caso, o endosso tem por finalidade apenas justificar a circulação da letra, mas o endossante que transmitiu o título com essa cláusula fica desonerado de responsabilidade quanto à não aceitação ou não pagamento do mesmo. 46. CIRCULAÇÃO SEM ENDOSSO: LETRAS AO PORTADOR E LETRAS EM BRANCO Falou-se, até aqui, no meio próprio para a circulação das letras de câmbio, que é o endosso, modo simples de ser feita a transferência do título dando-lhe maiores garantias pelas assinaturas, no verso ou no anverso do mesmo, dos endossantes. Mas convém lembrar que a letra de câmbio pode também circular sem necessidade do endosso, quando traz expressa a cláusula “ao portador”, lançada por um dos endossantes, ou quando o endossante, não desejando nomear a quem transfere o título, lança apenas a sua assinatura no verso do mesmo (endosso em branco). Em ambos os casos a circulação da letra se faz por simples tradição manual e será considerado titular dos direitos emergentes da letra aquele que com ela se apresentar, desde que justifique a sua posse por uma série ininterrupta de endossos, entendendo-se que o detentor recebeu a letra do endossante em branco ou ao portador (Lei Uniforme, art. 16). Note-se que a lei brasileira admitia a letra originariamente ao portador (Decreto nº 2.044, art. 1º, IV), isto é, que, ao criar e emitir a letra o sacador, em vez de designar o tomador, inscrevesse a cláusula ao portador ou mesmo deixasse a letra em branco. A Lei Uniforme seguiu orientação diversa exigindo que, na sua origem (ao ser criada e emitida) a letra de câmbio tenha beneficiário designado, que pode ser o próprio sacador (Lei Uniforme, art. 1º, nº 6; art. 3º e 1ª al.). Esse é que, de posse do título, poderá transferi-lo a pessoa determinada ou não. No primeiro caso, indicará essa pessoa, que passa a ser o titular dos direitos emergentes da letra e, para transferir esses direitos a outrem, terá forçosamente que lançar sua assinatura no título. Não querendo, entretanto, o tomador, primeiro titular dos direitos emergentes da letra, ou qualquer endossante, individualizar aquele a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline- Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 73/193 quem transfere o título, poderá apenas lançar a sua assinatura antecedida da cláusula ao portador (Pague-se ao portador), ou não. Em tais casos, faz-se a circulação da letra por simples tradição manual, considerando-se portador legítimo da mesma aquele que com ela se apresentar. Note-se que duas são as maneiras de circular a letra sem endosso: a com a cláusula ao portador e a letra em branco, que é a que simplesmente contém a assinatura do endossante, sem a menção de que a letra deva ser paga ao portador. Se bem que a circulação desses títulos se faça do mesmo modo, por simples tradição manual; a Lei Uniforme faz diferença entre os mesmos, especialmente, no que diz respeito ao lançamento do endosso que transformou a letra em ao portador ou em branco. A Lei Uniforme admite, como já foi salientando, o endosso no verso ou no anverso da letra, contrariando, assim, o disposto na lei brasileira, e em muitas outras legislações, que só o permitem no verso. Quando o endosso designa a pessoa do endossatário (endosso em preto) pode ser lançado no verso ou no anverso da letra, isso porque facilmente se pode reconstituir a cadeia de endossos, conferindo o recebimento e a transmissão do título pela sucessão dos endossantes. Se o endosso traz a cláusula ao portador também pode ser feito no anverso do título, pois a sucessão dos endossantes, em tal caso, é facilmente recomposta. Se, contudo, o endosso não traz a cláusula ao portador, consistindo na simples assinatura do endossante, essa assinatura deve ser lançada no verso do título (Lei Uniforme, art. 13, 2ª al.), a fim de não ser confundida com o aval. Seguindo-se a um endosso em branco outro endosso em branco, a lei presume que o signatário do último adquiriu a letra pelo primeiro endosso em branco (Lei Uniforme, art. 16). Igualmente, se uma pessoa, de qualquer maneira, for desapossada de uma letra, o portador da mesma, justificando o seu direito pela série ininterrupta de endossos, mesmo que o último seja em branco, não é obrigado a fazer a restituição, a não ser que seja provado que adquiriu a letra de má-fé ou se, adquirindo-a, cometeu culpa grave (Lei Uniforme, art. 16, 2ª al.). Tanto a letra ao portador como a endossada em branco podem, naturalmente, receber outros endossos, sejam em preto, sejam em branco. E mesmo que uma letra ao portador tenha sido posteriormente endossada em preto, esse endossatário, querendo, poderá reendossá-la em branco, continuando o título a circular pela simples tradição manual. 47. ENDOSSO A MAIS DE UMA PESSOA Na obra Títulos de Crédito e o Código Civil, Editora Forense, 2004, p. 49, o atualizador admitiu a possibilidade de uma letra de câmbio ser endossada a mais de uma pessoa, conjunta ou separadamente. Daí a pergunta: quem será o legítimo portador do título? A resposta é que o legítimo portador do título é aquele que tem a sua posse, autorizando a cobrá-lo, opinião esposada por Whitaker. Quando no endosso de cambial há mais de uma pessoa, o credor celebra um pacto de non petendo. 48. ENDOSSO FIDUCIÁRIO É aquele em que o banco recebe o título do portador em cobrança; mas no caso, o banco, até por via telefônica, estipula com o portador do título o endosso- mandato. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 74/193 49. ENDOSSO CANCELADO (ART. 910 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002) O endosso cancelado, segundo o disposto no § 3º do art. 910 do Código Civil de 2002 considera-se não escrito, norma originária no art. 16 da Lei Uniforme de Genebra. A parte na qual se considera não escrito o endosso cancelado “total ou parcialmente” pode suscitar dúvidas, uma vez que se torna difícil aproveitar-se um endosso parcialmente riscado. 50. ENDOSSO CANCELADO O endosso cancelado é endosso considerado não escrito, por força do disposto no art. 910, § 3º, do Código Civil, da mesma forma que o endosso condicional. 51. GARANTIA DO ENDOSSO Anota Whitaker que “na cambial há tantas obrigações de garantia quantos forem os devedores, com um único traço comum de se referirem todas ao mesmo objeto. Daí a obrigação de o endossador garantir a realidade-veritas que ele representa”. (José Maria Whitaker, op. cit., nº 75, pp.121-122). Como se viu, o endosso parcial é riscado por ser nulo sem que haja quebra da cadeia de endossos posteriores por força do princípio útile per inutile non vitiatur. Para Bulgarelli, o endosso parcial é ineficaz. 52. PACTOS ADJETOS Os títulos de crédito admitem a inserção de pactos adjetos inseridos na cártula ou fora dela, visando a modificar, acrescentar ou excluir relações jurídicas constantes da cambial. Pontes de Miranda (Trat. Dir. Cambial, Ed. Bookseller, 2000, p. 57) distingue relação subjacente e relação sobrejacente, a primeira correspondente à relação que deu causa à cambial, isto é, relação fundamental ou causa debendi, a segunda, em que as partes discutem relações fora do título. Nas relações sobrejacentes, por exemplo, o endossante empresta ao endossatário direto determinada quantia em dinheiro (mútuo). O endossatário não paga o débito ao endossador. Ao ser cobrada a dívida pelo endossatário, pode o endossador, seu credor, por força do mútuo, lograr a compensação entre os dois créditos. Outra hipótese ocorre quando determinada pessoa saca uma letra de câmbio contra outra pessoa a qual aceita o título (aceitante). Ao ser cobrado o título pelo sacador, pode o aceitante pedir a compensação do valor cobrado com o crédito resultante do empréstimo feito ao sacador pelo aceitante (mutuante). Trata-se de exceção fundada na compensação originada de negócio extracambiário. João Eunápio Borges admite esse tipo de exceção, que o devedor tem contra o credor daquele crédito que não se reflita no título, ao permitir cobrar do credor, pelo que pode o credor neutralizar desde logo a pretensão do autor, opondo-lhe 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 75/193 como exceção aquilo que iria fundamentar outra ação para evitar o solve et repete. Aliás, quaisquer pactos extracambiários só afetam as duas partes (endossador e endossatário). O fato de o emitente da nota promissória firmar posteriormente uma escritura pública de confissão de dívida, ratificando as obrigações cartulares e acrescentando quantias reais não constitui novação liberatória do avalista (Mario Divey Correa Bittencourt, Rev. Tribs. 413/59). Efeitos dos pactos adjetos: a) na letra; a.1) se atingirem os requisitos essenciais do título ou alterarem a sua natureza, consideram-se não escritos (ex.: modificação da data do vencimento; literalidade); a.2) se não os atingirem, não produzem efeitos cambiários pela aplicação do princípio utile per inutile non vitiatur (ex.: ordem de debitar em conta corrente o débito) ou excepcionalmente poderão produzir efeito (ex.: cláusula salvo embolso). 53. FORA DA LETRA A regra é a mesma, isto é, as obrigações cambiárias são infensas aos pactos cambiários inseridos fora do título caso alterem a natureza jurídica do título ou seus requisitos essenciais. A cláusula extracambiária que admite o vencimento antecipado do título é ineficaz perante as obrigações cambiárias (cf. Revista de Direito Mercantil, nº 3, 1971, p. 71). Essa é a opinião de José Maria Whitaker na qual se distingue: a. as cláusulas consideradas não escritas – as que, inseridas no título, derrogam os efeitos regulares do título (art. 44, II e IV, da Lei Cambiária) e, b. as incompatíveis com o caráter abstrato, autônomo, independente da obrigação e por isso anulam a letra. Essa opinião colide com o pensamento de Mauro Brandão para quem as cláusulas incompetíveis com o caráter abstrato da cambial referidas por Whitaker não podem anular a letra, por virem eventualmente a ferir interesses de terceiros, obrigadosno título, ou não, donde serem suficientes os incisos II e IV do art. 44 do Decreto nº 2.044, de 1908 para se considerar os casos “a” e “b” as cláusulas não escritas, sem necessidade de se anular a letra. Nota: o autor confunde abstração com autonomia. 54. INTERPRETAÇÃO DO ART. 903 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002 O art. 903 do diploma civil vem causando polêmica em função da difícil redação que lhe foi atribuída, partindo o seu redator, o professor Mauro Brandão Lopes, da distinção entre títulos atípicos e inominados e títulos típicos. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 76/193 Tal distinção no confronto entre a nossa legislação extravagante e o referido artigo 903 chega-se à conclusão da prevalência daquelas sobre o diploma civil, do que resulta que ainda se acharem em vigor, toda a legislação sobre o assunto, por exemplo, a Lei Uniforme de Genebra para os títulos de crédito e outras leis referentes aos demais títulos, como o conhecimento de depósito e o warrant (Dec. 1.102/1903). O legislador do Código Civil, nessa parte, criou nova categoria de títulos – atípicos ou inominados – os quais vêm gerar extrema confusão no tratamento atribuído aos títulos de crédito, sem se falar na variada interpretação que alguns autores buscam na introdução de tais títulos no âmbito dos títulos em geral. Assim o professor De Lucca (op. cit. p. 232) se manifesta: “...sempre que a lei especial for omissa – e não houver contradição com os seus princípios – poderão ser aplicadas as normas constantes do presente Título VIII, conforme a dicção do artigo em tela.” Completa Marcos Paulo Felix da Silva (Títulos de Crédito no Código Civil de 2002 – Questões Controvertidas, Ed. Juruá, 2006, p.78): “...para se ter clareza explica-se melhor: as leis especiais que disciplinam as várias modalidades de títulos de crédito não foram revogadas. As normas gerais sobre títulos de crédito previstas no Código Civil brasileiro não se aplicam ao conjunto de títulos regulados por lei especial, a não ser quando com este compatíveis, e, em caráter suplementar, esclarece Newton De Lucca:” Acontece que a matéria relativa à constituição dos títulos de crédito tem um caráter essencialmente formalístico, consoante se observa da leitura da obra de Vivante e Carvalho de Mendonça, do que se depreende que a existência de títulos de crédito tratados em lei omissa, tal lacuna não deveria ser preenchida por dispositivos do Código Civil em contradição fragrante, por exemplo, com a Lei Uniforme de Genebra, no que toca ao aval parcial, aceito pelos Países signatários da Convenção. Outros exemplos podem ser citados para demonstrar a dificuldade que o intérprete encontrará na aplicação dos referidos dispositivos inseridos no Código, tantas foram as críticas a eles apresentadas pelos nossos maiores juristas. ACEITE 55. CONCEITO DE ACEITE Entende-se por aceite o ato formal segundo o qual o sacado se obriga a efetuar, no vencimento, o pagamento da ordem que lhe é dada. Tal ato pode consistir ou numa declaração subscrita pelo sacado (aceito a presente letra de câmbio etc.), em qualquer parte da letra, ou na sua simples assinatura lançada no anverso da mesma (Lei Uniforme, art. 25). Poderá o aceite ser dado por mandatário com poderes especiais; nesse caso, tal mandatário age como representante legal do sacado e, apesar de ser a sua assinatura que consta do título, é aquele quem assume a obrigação. Temos, então, que o aceite é um ato que só pode ser praticado pelo sacado; contendo a letra uma ordem de pagamento cabe àquele a quem é dada a ordem declarar se está disposto a cumpri-la ou não. Enquanto a letra não for aceita o sacado nenhuma responsabilidade tem pela solvabilidade do título. O seu nome 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 77/193 apenas está indicado na letra, constituindo mesmo essa indicação um dos requisitos essenciais para a validade do título; mas neste não existe a sua assinatura, indispensável para a assunção da obrigação, dado o formalismo e a literalidade da letra. Daí o fato de, apesar de ter o seu nome mencionado no título, o sacado não possuir nenhuma obrigação pelo pagamento do mesmo. Se, entretanto, está o sacado disposto a obrigar-se pelo pagamento da letra, aceita a ordem que lhe é dada, lançando nela uma declaração nesse sentido ou simplesmente a sua assinatura. A partir desse momento, o título já não tem mais sacado e sim aceitante. E esse se constitui o obrigado principal da letra. A ele, no vencimento, é que o título deve ser apresentado para pagamento; as demais pessoas, que lançaram suas assinaturas na letra e, assim, assumiram a obrigação de pagá-la, só serão compelidas a cumprir essa obrigação se aquele, o aceitante, não o fizer. Esses coobrigados são, assim, responsáveis indiretos ou subsidiários pelo pagamento do título. A razão que justifica essa responsabilidade subsidiária é que, sendo a letra uma ordem de pagamento, essa ordem é endereçada diretamente a uma pessoa determinada, o sacado, cujo nome deve obrigatoriamente figurar no título. Se tal pessoa declara, com a sua assinatura, estar disposta a cumprir a ordem, as demais, dada a natureza especial dos títulos de crédito, não deixam de ser responsáveis, mas só serão compelidas a cumprir as obrigações assumidas se aquele a quem a ordem foi dada e a aceitou não o fizer. Aceitante é, assim, o sacado que manifestou, com a sua assinatura, o desejo de cumprir a ordem que lhe foi dada, tornando-se, desse modo, o obrigado principal ou direto pelo pagamento do título, na época do vencimento. 56. QUEM PODE ACEITAR A LETRA Sendo a letra de câmbio uma ordem de pagamento, é aquele a quem a ordem é dada, isto é, o sacado, que tem o direito de aceitá-la. Por tal razão é que o nome do sacado deve constar da letra, como requisito essencial para a validade desta, figurando ou no contexto ou abaixo deste. Junto ao nome do sacado deve, igualmente, se bem que a lei não o exija diretamente, estar mencionado o seu domicílio, a fim de que o portador, quando necessário, o procure para saber da sua intenção de cumprir ou não a ordem. Essa indicação, segundo a Lei Uniforme, serve, igualmente, como lugar de pagamento da letra, caso desta não conste menção especial a respeito (art. 2º, 3ª al.). Algumas vezes, entretanto, em vez de ser uma só pessoa a quem a ordem é dada, são enumeradas várias, ou seja, em lugar de existir apenas um sacado, existem muitos. A Lei Uniforme não tem regras especiais a respeito mas a lei brasileira estabelecia normas detalhadas sobre o assunto. Assim, dispunha o art. 10 do Decreto nº 2.044 que, “sendo dois ou mais os sacados, o portador deve apresentar a letra ao primeiro nomeado; na falta ou recusa do aceite, ao segundo, se estiver domiciliado na mesma praça; assim, sucessivamente, sem embargo, da forma da indicação na letra dos nomes dos sacados”. Essa disposição, apesar de não ter sido expressamente mencionada na Lei Uniforme, é de ser seguida, pois não existe, também, nenhuma regra que a proíba. Assim, podem existir, na letra, indicações de mais de um sacado e, tal acontecendo, será a mesma apresentada, inicialmente, ao primeiro nomeado, seguindo-se, na falta ou recusa deste, a apresentação àqueles que estão domiciliados na mesma praça do domicílio do sacado. Isso dá lugar a uma indagação que a lei brasileira respondia prontamente: se existir na letra sacado posterior no mesmo domicílio do portador, pode este apresentar-lhe a letra em primeiro lugar, sendo o domicílio do primeiro sacado diferente? Evidentemente, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 78/193 não. Para a apresentação da letra não interessa o domicílio do portador e sim o do sacado, razão pela qual dispõe a Lei Uniforme,de modo claro, que a apresentação deve ser feita no domicílio do sacado. Desse modo, se uma letra é sacada contra A, domiciliado no Rio de Janeiro, e são indicados como segundo e terceiro sacados B e C, domiciliados em S. Paulo, a letra deve ser apresentada, em primeiro lugar, a A, no Rio de Janeiro. Só na falta ou recusa do aceite por parte deste é que o portador poderá apresentá-la a B e C, domiciliados em São Paulo. É o sacado, desse modo, quem pode aceitar a letra. Essa regra, contudo, não é absoluta, pois a lei permite (Lei Uniforme, art. 56) que, deixando o sacado de fazê-lo, ou recusando-se a tal, depois que o portador pratica o protesto, ato solene destinado, em primeiro lugar, a comprovar a falta ou recusa do aceite ou do pagamento, um terceiro, não nomeado sacado, poderá aceitar a letra, desde que o portador ou detentor da letra concorde com isso. Esse é o chamado aceite por intervenção, ato espontâneo de um terceiro para honrar a ordem dada pelo sacador. Se tal acontecer, esse aceitante por intervenção tem responsabilidade equiparada à do sacado que aceita, isto é, torna-se obrigado principal pelo cumprimento da obrigação contida no título, devendo, no vencimento, ser a letra a ele apresentada, para efeito de pagamento, só na falta ou recusa desse pagamento, comprovada mediante protesto, respondendo os demais coobrigados (sacador, tomador, endossantes ou avalistas), solidariamente, pelo pagamento do título. Para aceitar legalmente a letra de câmbio o sacado ou o terceiro interveniente deve ter capacidade civil ou comercial, como acontece com todos aqueles que se obrigam cambialmente. Dizemos “para aceitar legalmente a letra” porque, dado o princípio de autonomia e independência das obrigações cambiárias (Lei Uniforme, art. 7º), se um incapaz aceitar a letra tal fato não desnatura o título. Este continua garantido pelas assinaturas de quantos nele interferiram, fato esse de suma relevância para a letra de câmbio, pois é ele que dá maior segurança ao portador de receber, na época designada, a importância que a letra menciona. 57. APRESENTAÇÃO DA LETRA PARA ACEITE. APRESENTAÇÃO OBRIGATÓRIA E FACULTATIVA Ordem de pagamento, a letra de câmbio pode circular desde o seu nascimento até a época fixada para o vencimento, mobilizando o crédito, garantida por todos quantos nela lançam suas assinaturas. É justamente em face dessa garantia que não se torna indispensável, desde o início da vida do título, a manifestação do sacado sobre se aceita ou não a ordem que lhe é dada. A apresentação da letra ao sacado, para aceite, depende, assim, do detentor ou proprietário conhecido do título. Isso porque, como dissemos, mesmo sem o aceite o pagamento da letra é garantido por quantos nela lançaram suas assinaturas. Casos existem, entretanto, em que a letra, para ter vida normal, necessita contar logo com o aceite do sacado. É o que se verifica com as letras passadas a tempo certo da vista, pois o prazo de vencimento de tais letras fica a depender do momento em que o sacado aceita a ordem que lhe é dada (supra, nº 28, d). Como a letra necessita de um prazo de vencimento para saber-se quando exatamente se torna exequível a obrigação nela contida, a manifestação do sacado é necessária a fim de que a vida da letra possa ser limitada. Temos, então, que, para funcionar regularmente como instrumento de mobilização de crédito, em certos casos não é necessária a apresentação da letra ao sacado para o aceite e, em outros, o é. Isso não quer dizer que em qualquer dos casos, querendo, não possa o proprietário do título apresentá-lo ao sacado. O que é certo 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 79/193 é que essa apresentação só se torna obrigatória quando o prazo do vencimento da letra dela depender, isto é, nas letras passadas a tempo certo da vista. Nessas condições, a apresentação da letra ao sacado, para aceitá-la, pode ser facultativa ou obrigatória. Dizia a lei brasileira (art. 9º, 1ª al.) que “a apresentação da letra ao aceite é facultativa quando certa a data do vencimento...” e letras com vencimento certo são as passadas a dia certo (“Pagará V. S.ª no dia dezoito de maio de mil novecentos e setenta”) e a tempo certo da data (“Pagará V. S.ª a trinta dias da data desta letra de câmbio”). A letra à vista não é apresentada para aceite pois o seu vencimento se dará no momento em que é apresentada ao sacado; deve-se, ademais, notar que, para não tornar indefinido o prazo de vencimento da letra à vista a Lei Uniforme dispõe (art. 34) que essa deve ser apresentada ao sacado, para pagamento, “dentro do prazo de um ano de sua data”, acrescentando que “o sacador pode reduzir este prazo ou estipular um outro maior”. Também os endossantes podem encurtá-lo (art. 34). Ainda determinou a Lei Uniforme que o “sacador pode estipular que uma letra pagável à vista não deverá ser apresentada a pagamento antes de uma certa data. Nesse caso, o prazo para a apresentação conta-se dessa data” (art. 34, 2ª al.). Finalmente, de vencimento incerto são as letras a certo tempo da vista, apesar de dizer a Lei Uniforme que elas devem ser apresentadas ao aceite “dentro do prazo de um ano de suas datas”, no que modificou a lei brasileira, que determinava fosse a letra a tempo certo da vista apresentada ao sacado, quando nela não havia outro prazo fixado, dentro de seis meses, a contar de sua data (lei brasileira, art. 9º, 2ª al.), sob pena de perder o portador o direito regressivo contra o sacador, endossadores e avalistas. Dependendo o vencimento da letra do aceite do sacado, é óbvio que tal aceite deve ser datado, como requeria a lei brasileira (art. 9º, parág. único) e estatui a Lei Uniforme (art. 25, 2ª al.). Divergem, contudo, as duas leis quanto à falta de data desse aceite. Pela lei brasileira, tinha o portador mandato presumido para inseri-la (art. 9º, parág. único), enquanto que a Lei Uniforme admite que o aceite seja datado ou do dia em que foi realmente dado ou, se o exigir o portador, do dia da apresentação. E na falta de data não tem o portador mandato presumido para inseri-la, como acontecia com a lei brasileira, mas a omissão da data deve ser constatada mediante um protesto, feito em tempo útil, a fim de que o portador possa conservar o direito regressivo contra endossantes e sacador (art. 25, 2ª al.). Essa é uma modalidade nova de protesto, de que não falava a lei brasileira (protesto por falta de data do aceite). 58. PRAZO PARA APRESENTAÇÃO PARA O ACEITE Para as letras cuja apresentação ao sacado, para aceite, é facultativa (a dia certo e a tempo certo da data) tem o detentor da mesma o direito de apresentá-la a qualquer momento, até a data do vencimento, dependendo essa apresentação exclusivamente de sua vontade. A justificativa dessa faculdade é o fato de ser o detentor da letra o titular aparente dos direitos dela decorrentes. Assim, desejando reforçar a garantia do pagamento do título, pode o mesmo, a qualquer instante, apresentá-lo ao sacado para que esse firme a declaração de que se obriga a cumprir a ordem, valendo como tal sua simples assinatura (Lei Uniforme, art. 25), no anverso da letra, sem uma expressão explícita de que a aceita. Em regra, quando faz a declaração, o sacado escreve antes de sua assinatura: Aceito, Pagarei, Sim, ou expressão equivalente (Lei Uniforme, art. 25); entretanto, se apenas lançar a assinatura (Pedro Pereira do Nascimento), essa valerá como aceite, se aposta no anverso da letra (Lei Uniforme, art. 25; lei brasileira, art. 11). Também pode o aceite ser dado por mandatário com poderes especiais. Neste 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 80/193 caso, à assinatura deve anteceder a declaração do mandato (Aceito, por procuração de F – X; ou simplesmente – Pp. X). Esses princípios gerais, contidos na lei brasileira e em outras leis, foram emparte alterados pela Lei Uniforme que, sem lhes tirar a validade, criou várias exceções que merecem ser conhecidas. Assim, apesar de continuarem a existir letras com apresentação obrigatória e letras com apresentação facultativa, o sacador, em qualquer modalidade da letra, pode fixar um prazo para a apresentação, subordinando, desse modo, à sua vontade, a faculdade ou obrigatoriedade da apresentação da letra ao sacado pelo portador. Pode o sacador, a não ser quando se trate de uma letra a certo tempo da vista, ou pagável em domicílio do terceiro, ou, ainda, pagável em domicílio diverso do domicílio do sacado, proibir, na própria letra, sua apresentação ao aceite, só sendo permitida ao portador apresentá-la para pagamento. Ainda pode o sacador estipular que a apresentação para o aceite não se faça antes de determinada data, e em tal caso, só decorrida essa, tem o portador o direito de apresentar a letra ao aceite. Por último, qualquer endossante pode determinar que a letra seja apresentada ao aceite, com ou sem fixação de prazo, excetuando-se, contudo, dessa faculdade a letra que pelo sacador foi declarada não aceitável (Lei Uniforme, art. 22). Em se tratando de letra de câmbio com data incerta de vencimento, ou seja, a letra passada a certo tempo da vista, há prazo prefixado para que, dentro dele, a letra seja apresentada ao aceite, pois o vencimento da mesma fica dependendo desse ato. Em tal caso, em primeiro lugar, deve-se verificar se, do contexto, consta um prazo para a apresentação (A cento e vinte dias da vista da presente letra de câmbio, que será apresentada a V. S.ª de dez a vinte de janeiro de mil novecentos e setenta e um, pagará V. S.ª...); assim acontecendo, o título será apresentado ao sacado dentro do prazo nele marcado, sob pena de perder o portador o direito regressivo contra o sacado, endossadores e avalistas. Se, apresentada a letra nesse prazo, há falta ou recusa de aceite por parte do sacado, necessário é que tal fato seja comprovado legalmente, o que se faz por meio de protesto (infra, Cap. XII). Não mencionando, entretanto, a letra a tempo certo da vista o prazo para ser apresentada ao aceite do sacado, o portador deverá proceder essa apresentação dentro de um ano de sua data, de acordo com a Lei Uniforme (a lei brasileira dava o prazo de seis meses), sob pena, igualmente, de perder o direito regressivo contra o sacador, endossador e avalistas. Esse prazo de um ano de que fala a Lei Uniforme pode ser aumentado ou reduzido pelo sacador (Lei Uniforme, art. 23, 2ª al., que equivale ao “prazo marcado” de que tratava a lei brasileira, no art. 9º) ou reduzido pelos endossantes. Pela Lei Uniforme, o aceite da letra a certo tempo da vista deve ser datado; e, se assim não acontecer, o portador deverá protestá-la por falta de data, a fim de conservar o direito regressivo contra endossantes, sacador e avalistas (Lei Uniforme, art. 25; segundo a lei brasileira, o portador podia inserir a data na letra que não a contivesse, em face do mandato tácito que lhe outorgava o art. 4º). Em qualquer dos outros casos – haja um prazo marcado para a apresentação ou não, vigorando, neste caso, o prazo legal de um ano – não sendo a letra aceita deve o portador comprovar esse fato pelo protesto, para não perder o direito regressivo contra sacador, endossadores e avalistas. Donde facilmente se conclui que não é o simples fato de apresentar a letra ao sacado que assegura o direito de regresso do portador contra os demais coobrigados no título; 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 81/193 não sendo este aceito, o que garante o direito regressivo é o ato solene que atesta o não aceite, ou seja, o protesto. 59. A LETRA NÃO ACEITÁVEL O aceite é, sem dúvida, o fato mais importante que ocorre na letra de câmbio visto como, por ele, o sacado, pessoa apenas nomeada no título para efetuar o pagamento, se obriga a cumprir a ordem que foi dada, tornando-se, assim, o obrigado principal. Tão importante é o aceite que, em geral, as leis cambiais, como a brasileira, reputavam não escrita a cláusula proibitiva da apresentação da letra ao aceite do sacado (Decreto nº 2.044, art. 44, II). Pode o sacado aceitar ou não; mas ao portador deve sempre ser facultada a apresentação da letra, pois se o sacado não aceitar cabe ao portador tomar as providências para fazer valer o seu direito de crédito contra os demais subscritores do título, comprovando o não aceite através do protesto e, desse modo, podendo receber a importância de qualquer dos endossantes, do tomador, do sacador ou de seus avalistas. A Lei Uniforme, entretanto, admite a letra não aceitável, isto é, uma letra em que o sacador pode proibir, no próprio título, a apresentação para aceite do sacado que, mesmo em tais títulos, deve ser expressamente nomeado. Isso ocorrerá em qualquer modalidade de letra, exceto se se tratar de uma letra pagável em domicílio de terceiro, de uma letra pagável em localidade diferente da do domicílio do sacado ou, obviamente, de uma letra sacada a certo tempo da vista, já que o vencimento desta fica a depender do aceite ou da recusa do aceite do sacado (Lei Uniforme, art. 22, 2ª al.). Emitida, pois, uma letra declarada pelo sacador não aceitável, só será ao portador permitida a apresentação ao sacado para pagamento, o que, se dando, liberará todos os coobrigados no título. Não paga a letra, deve o fato ser comprovado por um protesto para que o portador possa fazer uso do direito regressivo. Autores discutem quanto às vantagens e desvantagens da letra não aceitável, cuja introdução na Lei Uniforme se deu por proposta dos Estados Unidos; mas o fato é que, fora dos casos indicados, pode o sacador emitir letra privada da apresentação para o aceite por parte do sacado. Naturalmente, como nota Messineo, se o sacado aceita tal letra, o seu aceite perdura; mas, se o recusa, não poderá a mesma ser protestada por falta de aceite. E se for, o portador se sujeita a perdas e danos por parte do sacado, por não ter direito de apresentá-la para o aceite, como acentuam Hamel, Lagarde e Jauffret. 60. REQUISITOS DO ACEITE. COMO E ONDE SE FAZ A lei brasileira (art. 11) era clara quanto à validade do aceite, estatuindo que, para esse ser tido como tal, era suficiente “a simples assinatura, do próprio punho do sacado ou do mandatário especial, no anverso da letra”. A Lei Uniforme diverge a respeito, admitindo que o aceite possa ser lançado no anverso ou no verso do título. Quando no verso, deve trazer a declaração “aceito” ou semelhante, seguida da assinatura do aceitante. Mas a simples assinatura lançada no anverso, mesmo sem essa declaração, será considerada aceite (Lei Uniforme, art. 25). As palavras “aceito”, “de acordo” ou outras semelhantes podem ser escritas pelo próprio sacado, como podem, também, ser datilografadas ou até apostas mediante carimbo. O importante é que não modifiquem elas a ordem que é dada, pois isso redundaria em alteração da responsabilidade assumida pelo aceitante; para maior segurança, entretanto, é conveniente que, havendo tal declaração, seja 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 82/193 ela feita pelo próprio punho do sacado, pois, assim, será evitado o fato de um terceiro alterar a declaração, escrevendo, por exemplo, antes de um aceite puro e simples – o aceite que consta apenas da assinatura do sacado – declaração que modifique ou suprima a responsabilidade deste, como, numa letra do valor de CR$ 100.000,00, as palavras “Aceito para pagar apenas CR$ 50.000,00” ou simplesmente “Não aceito”. Apresentada a letra para aceite, pode o sacado, de acordo com a Lei Uniforme, pedir ao portador que a apresente uma segunda vez, no dia seguinte ao da primeira apresentação (Lei Uniforme, art. 24). Essa é uma inovação em nosso direito, em que não era permitida nova apresentação, jáque, havendo falta ou recusa do aceite, a letra, pela lei brasileira (art. 28), devia ser entregue ao oficial competente para o protesto no primeiro dia útil seguinte ao dessa falta ou recusa. A Lei Uniforme, contudo, admite a prorrogação, aduzindo que “os interessados somente podem ser admitidos a pretender que não foi dada satisfação a este pedido no caso de ele figurar no protesto”. Quando, entretanto, a letra tem um prazo certo para aceite e a primeira apresentação é feita no último dia do prazo, o protesto pode fazer-se no primeiro dia útil seguinte (Lei Uniforme, art. 44, 2ª al.) para não perder o portador direito regressivo contra os demais coobrigados. Também declara a Lei Uniforme que “o portador não é obrigado a deixar nas mãos do aceitante a letra apresentada para o aceite”. Deixando-a, entretanto, e se nela o sacado apôs o seu aceite e depois, antes de restituí-la, riscou-a, esse aceite é considerado como recusado (Lei Uniforme, art. 29). Essa solução da Lei Uniforme discorda da lei brasileira, na qual “o aceite, uma vez firmado, não pode ser cancelado nem retirado” (lei brasileira, art. 12). Pela Lei Uniforme, a anulação do aceite, salvo prova em contrário, considera-se feita antes da restituição da letra. Mas, se o sacado “tiver informado por escrito o portador ou outro signatário da letra que a aceitou, fica obrigado para com estes, nos termos do seu aceite” (Lei Uniforme, art. 29). 61. FALTA, RECUSA, LIMITAÇÃO OU MODIFICAÇÃO DO ACEITE 61.1. Falta do aceite Por falta do aceite entende-se o fato de, por um motivo superveniente qualquer – ausência da localidade, moléstia súbita etc. –, não ter podido o sacado manifestar- se na letra de câmbio, apondo nela a sua assinatura. Como a letra é um título formal e literal, cujos direitos se estribam no rigorismo de que está revestida, não pode esse fato ser contemporizado pelo portador, sob pena deste ser prejudicado nos seus direitos. Assim, procurando o sacado para apresentar-lhe o título a fim de ser aceito, e não o encontrando, terá o portador que comprovar legalmente a falta do aceite, fazendo com que a letra seja protestada. Naturalmente, ele só é obrigado a isso em casos extremos, quando está a esgotar-se o prazo para a apresentação. Se, no entanto, ainda houver prazo suficiente para a letra ser reapresentada sem que o fato lhe traga prejuízos – como, por ex., se o título é a tempo certo da vista, sem mencionar o prazo para a apresentação, e tenham decorridos quatro meses da data da emissão, restando ainda oito para que aquela apresentação obrigatória possa se verificar – nada impede que o título seja reapresentado uma ou mais vezes. Entretanto, esgotado aquele tempo, deve o título, no dia útil seguinte ao do vencimento do prazo, ser apresentado ao oficial competente para o protesto, sob pena de perder o portador direito regressivo contra o sacador, endossantes e avalistas. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 83/193 61.2. Recusa do aceite Já a recusa do aceite pressupõe um ato deliberado do sacado, de não cumprir a ordem que lhe é dada. Como se sabe, o sacado não tem nenhuma obrigação cambial, já que o seu nome foi mencionado no título mas, até então, nenhuma declaração, subscrita com a sua assinatura, existe no mesmo, manifestando o desejo de cumprir a ordem que lhe é dada. Assim, só depois de lançar seu nome na letra é que o sacado fica obrigado pelo pagamento da mesma. E o aceite é feito espontaneamente, por ato unilateral da vontade, visto como, entre nós e no direito uniforme, a letra não tem caráter contratual. Ainda que o sacado possua provisão de valores do sacador, mesmo que tenha se comprometido com esse a aceitar a ordem que lhe é dada – nem assim está obrigado a aceitar o título, assumindo o dever de pagá-lo no vencimento. Dados os princípios da abstração, autonomia e independência das obrigações cambiárias, qualquer pessoa que lance num tipo a sua assinatura o faz por ato próprio da vontade. O sacado, desse modo, quaisquer que sejam suas relações com o sacador, só aceitará a ordem por ato espontâneo, visto como a obrigação que assume é pessoal e não por conta de terceiro. A recusa ao aceite pode ser feita tacitamente, apenas deixando o sacado de lançar a sua assinatura na letra, ou de modo expresso, neste caso apondo uma declaração em que categoricamente manifeste a sua intenção de não aceitar. Essa declaração parece, à primeira vista, ferir o princípio de que quem assina na letra, nela se obriga. No caso, entretanto, tal não acontece pois, antes da assinatura, vem expressa a declaração de que o sacado não deseja cumprir a ordem. Julgar o contrário seria extremar absurdamente o princípio da assunção das obrigações cambiárias pelo lançamento da assinatura no título. Essa, na hipótese aventada, serve apenas para autenticar a recusa contida na declaração e, por tal motivo, é sempre conveniente, quando acontece, seja de próprio punho do não aceitante, para evitar quaisquer dúvidas a respeito. A própria lei brasileira, em consonância com o art. 26, 2ª al., da Lei Uniforme, declarava que “vale como aceite puro a declaração que não traduzir inequivocamente a recusa” (art. 11, 2ª al.), mostrando que essa recusa pode ser feita por escrito. 61.3. Limitação do aceite Algumas vezes o sacado está disposto a aceitar a ordem mas não deseja fazê-lo na sua totalidade. Em tais condições, declara, de maneira inequívoca, ou seja, que não deixe dúvidas, a limitação, como, por exemplo, se a ordem é de Cr$ 100.000,00 escreve: “Aceito para pagar apenas Cr$ 50.000,00”. Essa limitação do aceite justifica-se pelo fato de não ser o sacado um obrigado no título, mas apenas uma pessoa indicada para pagá-lo. Como o aceite não é obrigatório, mas um ato espontâneo, pode o sacado reduzir a importância pela qual vai se obrigar. Em tais casos, limitado, pelo sacado, o aceite, produz-se um fato curioso: para os efeitos cambiais, essa limitação equivale a uma recusa (Lei Uniforme, arts. 43, nº 1, e 51) e, sendo assim, o título deve ser protestado para que o seu portador possa exercer o direito regressivo contra o sacador, endossantes e avalistas em relação à parte não aceita (Lei Uniforme, arts. 43, 44, nº 1, e 51). O aceitante que limitou o aceite fica, entretanto, cambialmente responsável pelo pagamento da letra até o limite do aceite. A ação para haver dos coobrigados a importância não aceita poderá ser intentada mesmo antes do vencimento da letra (art. 43); mas a ação para receber a importância aceita só pode ser movida no vencimento do título. Não reconhece a Lei Uniforme o vencimento antecipado da letra pela recusa 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 84/193 parcial do aceite, como acontecia com a lei brasileira (art. 19, II). Mas, embora a letra não seja considerada vencida, cabe ao portador, uma vez comprovada a aceitação limitada, procurar receber dos obrigados regressivos, mesmo antes do vencimento, a importância não aceita. Como o aceitante fica obrigado pelo aceite parcial, e a ele deve ser apresentada a letra, no vencimento, se o portador receber a parte não aceita de um obrigado regressivo não entregará a esse a letra de que vai necessitar para cobrar a parte não aceita, mas uma cópia autêntica da mesma e o instrumento do protesto, a fim de que o pagante, com esses documentos, possa agir contra os obrigados que lhe são anteriores. Pode o obrigado que pagou exigir que o pagamento da parte não aceita seja mencionada na letra e que dele lhe seja dada quitação (Lei Uniforme, art. 51). 61.4. Modificações do aceite Aceite modificativo é aquele em que o aceitante, em vez de acatar a ordem nos termos em que ela foi emitida, altera algum requisito da mesma, como, por ex., a data do vencimento, o lugar de pagamento ou, mesmo, a espécie da moeda em que a importância deve ser paga, além de outradiversidade qualquer do que está escrito no título. A lei brasileira (art. 11) dava a entender que empregou os termos limitação e modificação como sinônimos e os autores, em geral, assim os tratam. A Lei Uniforme é mais clara a respeito, referindo-se à limitação e à modificação em itens diversos (Lei Uniforme, art. 26, 1ª e 2ª alíneas). Fazemos, aqui, a distinção entre limitação e modificação para que melhor sejam entendidas essas alterações que o aceitante provoca na letra. Paulo de Lacerda chamou ao aceite limitado ou modificado de aceite qualificado. Como acontece com o aceite limitado, o modificativo (aquele, por ex., em que o aceitante altera a data do vencimento, declarando: “aceito para pagar em 30 de dezembro”, quando o vencimento da letra fora fixado em 30 de novembro) é tido, legalmente (Lei Uniforme, art. 26, 2ª al.), como recusa, e ao portador cabe adotar as providências para garantir o direito regressivo, fazendo com que a letra seja protestada. Do mesmo modo que ocorre com o aceite limitado, o aceitante, no modificativo, fica cambialmente vinculado ao pagamento da letra, nos termos da modificação. 62. ACEITE DOMICILIADO Como requisito da letra de câmbio deve constar, segundo já foi visto, a indicação do sacado. Junto a essa indicação deve vir o domicílio do mesmo, sendo que, na falta de indicação especial, o lugar designado, ao lado do nome do sacado, considera-se como sendo o lugar do pagamento e, ao mesmo tempo, o lugar do domicílio do sacado (Lei Uniforme, art. 2º, 3ª al.). Se, por acaso, a letra não trouxer o domicílio do sacado mas o lugar do pagamento, será esse considerado o domicílio daquele. Se, entretanto, o escrito não trouxer o domicílio do sacado nem o lugar do pagamento, não produzirá os efeitos de letra de câmbio, nos termos da 1ª al. do art. 2º da Lei Uniforme. Pode o sacador, ao emitir a letra, indicar um lugar para pagamento diverso do domicílio do sacado; essa é a chamada letra domiciliada. Indicando o sacador, na letra domiciliada, um terceiro em cujo domicílio se deva efetuar o pagamento, cabe a esse terceiro realizar o pagamento, se bem que o aceite seja do sacado. Se, contudo, na letra domiciliada não for designado um terceiro em cujo domicílio deva ser efetuado o pagamento, pode o sacado designar essa pessoa no ato do aceite. Não fazendo tal indicação, entende-se que o aceitante se obriga, ele próprio, a efetuar o pagamento no lugar indicado na letra (Lei Uniforme, art. 27, 1ª al.). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 85/193 Pode, ainda, numa letra pagável no domicílio do sacado, este indicar, no ato do aceite, outro domicílio, no mesmo lugar para nele ser efetuado o pagamento (Lei Uniforme, art. 27, 2ª al.). Este é o aceite domiciliado, que diverge da letra domiciliada pelo fato de ser o novo domicílio para pagamento indicado não pelo sacador mas pelo aceitante. No mais, aplicam-se as regras relativas à letra domiciliada, isto é, estando indicada pelo aceitante a pessoa para efetuar o pagamento do novo domicílio, essa pessoa assim deve fazer e, se recusar, o protesto deve ser tirado contra o aceitante. Se, por acaso, o sacador-aceitante apenas indicar o novo domicílio mas silenciar o nome da pessoa que vai efetuar o pagamento, entende-se que ele próprio o fará. Em qualquer dos casos, trate-se de uma letra domiciliada ou de aceite domiciliado, não há transferência de responsabilidade do aceitante para a pessoa indicada a fazer o pagamento; aquele continua a ser o responsável principal e contra ele é que serão adotadas medidas se o título por acaso não for satisfeito pela pessoa indicada. 63. CANCELAMENTO E RETIRADA DO ACEITE Título formal e literal, a letra de câmbio vale pelo seu conteúdo. As obrigações nela são assumidas mediante as assinaturas dos obrigados. Mas, apesar da autonomia e independência dessas obrigações, há uma ordem no cumprimento das mesmas a que o portador deve se submeter. Assim, tendo este o direito de regresso contra endossadores, sacador e avalistas, se desejar que a obrigação seja cumprida primeiramente pelo sacador, dispensa todos aqueles que são posteriores a esse, não sendo permitido, de tal modo, ao sacador que paga, procurar reaver a importância da letra de um obrigado que lhe é posterior, seja o tomador, seja qualquer dos endossadores. Dentre todos os que garantem o pagamento da letra, o aceitante é o obrigado principal. É a ele a quem a ordem é dada e, se aceita, a ele deve recorrer, em primeiro lugar, o portador, só na falta ou recusa do pagamento, comprovada pelo protesto, podendo lançar-se sobre os demais coobrigados. Este fato se explica porque, sendo o sacado um estranho (estranho no sentido de não estar ainda obrigado como aceitante), apenas mencionado no título como a pessoa que deve pagar a letra, aceitando a ordem que lhe é dada se torna, ipso facto, responsável pela mesma. O sacador, ao entregar a letra ao tomador, deve receber desse certa importância, ou solver um débito, pois nada justificaria que onerasse o seu patrimônio sem um motivo, o mesmo acontecendo com todos os endossantes da letra em relação aos endossatários. Mesmo que assim não acontecesse, porém, todos quantos se obrigam na letra não aceita o fazem na suposição de que o sacado, no momento oportuno, ou aceitará ou pagará. Tal não acontecendo, desfaz-se regressivamente a cadeia dos que se obrigaram, indo morrer essa cadeia regressiva no sacador. Este desembolsará a importância recebida do tomador como também desembolsaria se a letra fosse paga pelo sacado ou aceitante. Apenas, neste último caso, as relações entre o sacador e o aceitante ou sacado que paga (na letra à vista, por exemplo) são extracambiárias, regendo-se pelo direito comum e não pelo direito cambial. Já no outro caso, há relações cambiárias, inclusive dando direito a uma ação própria, cujo rito é o executivo. O sacado é, assim, uma pessoa estranha ao título, que certamente tem relações com o sacador, mas relações extracambiárias. Por tal razão é que, aceitando a ordem que lhe é dada, o sacado o faz de modo espontâneo sem que, juridicamente, seja obrigado a isso. Contudo, aceitando, torna-se o devedor principal da letra, a ele devendo recorrer o portador, por ocasião do vencimento do título. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 86/193 Por esse motivo, também, uma vez dado o aceite, não deve o aceitante cancelá-lo ou retirá-lo. A lei brasileira era expressa a respeito: “O aceite, uma vez firmado, não pode ser cancelado nem retirado” (art. 12). O que fizeram sacador, endossadores e avalistas foi garantir o aceite e o pagamento da letra. Uma vez aceita, cumpre-se aquela primeira garantia dada pelos endossantes aos endossatários, restando, apenas, a garantia de que o pagamento será efetuado, pois cada um responderá pela totalidade da soma se o aceitante não cumprir a obrigação assumida. A Lei Uniforme alterou a orientação da lei brasileira, a nosso ver bastante justa e condizente com a natureza do título, admitindo que o aceite possa ser cancelado, em determinada situação. Deve-se lembrar que a Lei Uniforme permite expressamente a reapresentação da letra (art. 24) no dia seguinte ao da primeira apresentação, se o sacado pedi-la ao portador. É justamente baseada nessa segunda apresentação que a Lei Uniforme permite o cancelamento do aceite. Apresentada a letra, ficando esta em mãos do sacado para devolução posterior, pode o mesmo lançar o seu aceite e, antes de devolver o título, riscar aquele aceite. Ao devolver a letra verifica-se que o aceite foi dado e posteriormente riscado, considerando a Lei Uniforme esse aceite como anulado, o que não acontecia com a lei brasileira. Para salvaguardar a integridade do título, pressupõe a Lei Uniforme que o cancelamento do aceite, salvo prova em contrário, foi feito antes da devolução da letra. E aindapara resguardar os interesses de terceiros declara que, se o sacado houver informado, por escrito, ao portador ou a qualquer signatário da letra, que a aceitou, fica obrigado para com estes, nos termos do seu aceite (art. 29) (aceite dado e posteriormente riscado). Inegavelmente, o princípio da lei brasileira dava maior garantia ao título, em face da importância do aceite, sem dúvida o ato mais sério da vida da cambial. O sistema da Lei Uniforme concede mais plasticidade ao título, o que a nosso ver é um erro visto ser o rigor cambiário a maior segurança para os que lidam com as cambiais. Também não há justificativa para o aceitante que cancelou o aceite obrigar-se somente para com aqueles a quem comunicou, por escrito, que aceitou a letra. Essa é uma concessão de natureza extracambiária e, como se sabe, a história da letra de câmbio deve ser escrita no próprio título. 64. PROVA DA FALTA OU RECUSA DO ACEITE A falta ou recusa do aceite não pode ser simplesmente alegada, necessário é que seja provada. Essa prova se faz mediante um ato solene, com procedimento especial, chamado protesto (lei brasileira, art. 12; Lei Uniforme, art. 44). O título, para ser protestado, deve ser apresentado ao oficial competente no primeiro dia útil seguinte à falta ou recusa do aceite (lei brasileira, art. 28; Lei Uniforme, art. 44), sob pena de perder o portador direito regressivo contra endossadores, sacadores e avalistas. Note-se que, permitindo a Lei Uniforme a apresentação da letra para aceite por duas vezes, se for a letra a tempo certo da vista apresentada, a primeira vez, no último dia do prazo, o protesto pode ser feito ainda no dia seguinte (Lei Uniforme, art. 44, 2ª al.). 65. EFEITOS DO ACEITE Pelo aceite, ato voluntário praticado por uma pessoa em título que pertence a terceiro, o sacado fica cambialmente obrigado para com o sacador e respectivos avalistas. Essa é a regra contida no art. 28 da Lei Uniforme (equivalente ao art. 45 da lei brasileira) e dela se depreende que o aceitante, acatando a ordem que lhe foi dada pelo sacador, fica obrigado para com este a cumpri-la, tornando-se, assim, o devedor principal do título. Para com aqueles a quem o título foi 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 87/193 transferido – tomador e endossantes – o sacador havia assumido responsabilidade pelo aceite e pagamento da letra, o que, aliás, em relação aos proprietários posteriores, ocorre também com cada um dos endossantes, mediante o lançamento de suas assinaturas na mesma. Aceitando a letra, o sacado como que declara que honrará a ordem que lhe foi dada, passando, daí por diante, a ser obrigado principal pelo pagamento da mesma na época do vencimento. Como, entretanto, tanto o sacador como endossantes assumiram responsabilidade pelo aceite e pelo pagamento da letra (Lei Uniforme, arts. 9º e 15), apesar dessa já aceita, perdura a responsabilidade dos mesmos pelo pagamento do título, na época do vencimento, a quem de direito. Apenas, essa responsabilidade é subsidiária ou indireta pois, tendo o aceitante se obrigado a cumprir a ordem, a ele cabe, em primeiro lugar, efetuar esse pagamento. Só se assim não fizer, sendo a falta ou recusa do pagamento devidamente comprovada mediante ato solene que é o protesto, é que os coobrigados da letra poderão ser compelidos a fazê-lo, podendo o portador agir regressivamente contra qualquer dos coobrigados, sem estar, contudo, o credor adstrito à observância da ordem dos endossos (lei brasileira, art. 50; Lei Uniforme, art. 47). Esse, portanto, o primeiro e mais importante efeito do aceite: tornar o aceitante cambialmente obrigado para com o sacador e, igualmente, para com todos aqueles que participaram do título, já que esses deram garantia aos proprietários posteriores pelo aceite e pagamento da letra. A consequência dessa obrigação assumida pelo aceitante é que o próprio sacador que deu a ordem, no caso de não ser essa cumprida pelo aceitante, pode acioná-lo para haver a importância da letra. E essa é uma ação cambial, regida pelo direito especial, e não uma ação regida pelo direito comum, que é a que tem direito o aceitante que paga contra o sacador que lhe deu a ordem. Isso porque o negócio fundamental, as relações entre sacador e sacado são extracambiárias não interessando, assim, àqueles que participam da letra. 66. ENDOSSO DA LETRA AO ACEITANTE Firmado o aceite, obriga-se o aceitante a pagar, no vencimento, a importância constante do título. A letra, contudo, continua em circulação, podendo passar de uma pessoa para outra mediante o endosso. Em tais condições, poderá a letra ser endossada ao aceitante e esse, que tem a obrigação de pagar o título apenas no vencimento, poderá reendossá-la, transferindo-a a outra pessoa (lei brasileira, art. 45, § 1º; Lei Uniforme, art. 11, 3ª al.). O fato de o aceitante ter figurado como endossante não exime de responsabilidade os demais coobrigados no título. Atingida a época do vencimento, o detentor da letra procurará receber do aceitante. Este não pagando, protestada a letra, terá o portador direito regressivo contra os endossantes, entre os quais figura aquela mesma pessoa que já figurou como aceitante. AVAL 67. CONCEITO Entende-se por aval a obrigação cambiária assumida por alguém no intuito de garantir o pagamento da letra de câmbio nas mesmas condições de um outro obrigado. É uma garantia especial, que reforça o pagamento da letra, podendo ser prestada por um estranho ou mesmo por quem já se haja anteriormente obrigado no título. A pessoa que dá tal garantia tem o nome de avalista; aquela a quem ele se equipara, e por intermédio da qual é assumida a obrigação de pagar o título, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 88/193 denomina-se avalizado. Para assumir tal obrigação o avalista necessita ser capaz, como, aliás, deve acontecer com todos quantos se obrigam cambialmente. Mas se, dado o aval, posteriormente se descobre a incapacidade do avalista, esse fato não prejudica a letra de câmbio, em virtude do princípio da autonomia das obrigações cambiárias (Lei Uniforme, art. 7º). O Código Comercial, ao regular as letras de câmbio não se referia ao aval, mencionando apenas os abonadores da letra (supra, nº 14); o Decreto nº 2.044, dando nova regulamentação à matéria, tratou especialmente do aval nos arts. 14 e 15, tendo, ainda, se referido ao avalista nos arts. 9º, 16, 24, 35, 38, 52 e 53. O conceito de aval era expresso na lei brasileira pelos dizeres do princípio do art. 14, in verbis: “O pagamento de uma letra de câmbio, independente do aceite e do endosso, pode ser garantido por aval.” A Lei Uniforme trata do aval nos arts. 30, 31 e 32. No art. 30 vem um conceito de aval idêntico ao da lei brasileira, apenas acrescentando que a garantia do avalista pode ser por todo o pagamento ou apenas por parte dele. Esclarece a Lei Uniforme, o que não acontecia com a lei brasileira, que essa garantia pode ser dada por um terceiro ou mesmo por pessoa que já seja signatária de letra. No art. 31 da Lei Uniforme dispõe que o aval deve ser dado por escrito, no verso ou no anverso da letra ou da folha anexa a esta (prolongamento), normas que também se encontram na lei brasileira (art. 14, in fine). Acrescenta a lei que o aval se exprime por uma expressão (“bom para aval”ou outra semelhante), a que se segue o nome do avalista, dispositivo que não constava da lei brasileira, pela qual, para a validade do aval, era suficiente a simples assinatura do avalista (art. 14, in fine). Reconhece, contudo, a Lei Uniforme o aval dado por simples assinatura, desde que aposta no anverso da letra; ainda assim, se a assinatura, aposta no anverso da letra, for do sacador ou do sacado, deve vir antecipada da expressão caracterizadora do aval, a fim de não se confundir com o saque, já que a Lei Uniforme, ao contráriodifere bastante o direito anglo-americano do que predomina nos países europeus e sul-americanos. E isso, naturalmente, se reflete no direito cambiário, apesar dos juristas terem tentado uma aproximação dos dois sistemas, atenuando as divergências. Entretanto, algumas dessas ainda perduraram, dando ao sistema anglo-americano características diversas das do sistema continental. Assim é que, enquanto predominou o formalismo no sistema continental, no anglo-americano “há um maior liberalismo em matéria de forma, embora a cambial seja considerada contrato formal em oposição aos simples contratos”. Na letra de câmbio inglesa não constitui requisito essencial a inserção no documento da expressão “letra de câmbio” e uma modalidade especial de causa, a consideration, é requerida para a validade do título. Este só se completa com a sua transferência (delivery). Algumas outras características próprias do sistema jurídico anglo-americano afastam a letra de câmbio do sistema continental. Convém, entretanto, ressaltar que, apesar dessas divergências, “o direito anglo- americano, mais particularista e individualista, fundado no prestígio do precedente judiciário, chega... por outro método e por outros caminhos, a soluções em grande parte semelhantes às alcançadas no sistema continental”. Isso porque “há mais uma diferença de técnica e de conceitos jurídicos do que de resultados”. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 7/193 A LETRA DE CÂMBIO NO DIREITO BRASILEIRO 16. CÓDIGO COMERCIAL O Código Comercial brasileiro regulou as letras de câmbio no Título XVI – Das letras, notas promissórias e créditos mercantis – Cap. I, arts. 354 a 424. O art. 425, integrante do Cap. II desse mesmo Título, tratava das “letras de terra”, que eram “em tudo iguais às letras de câmbio com a única diferença de serem passadas e aceitas na mesma província”. Na Seção I, arts. 354 a 359, tratava o Código “da forma das letras de câmbio e seus vencimentos”, dispondo, inicialmente, que a letra de câmbio devia ser datada e declarar o lugar em que foi sacada, a importância a pagar e a espécie de moeda, o valor recebido, em moedas ou em mercadorias, a época e o lugar do pagamento, o nome da pessoa que devia pagar e a quem, “e se é exigível à ordem e de quem”, o número de vias, entendendo-se, em falta dessa declaração, que se tratava de uma única via (art. 354). A letra poderia ser passada à vista, a dias ou meses da vista, por prazo indeterminado (que o Código chamava “a dias ou meses de vista precisos”), a dias ou meses da data e a dia certo (art. 355). Passava, em seguida, a determinar regras para a contagem dos prazos de vencimento (arts. 356 a 358) e a estipular que, “havendo diferença entre o valor lançado por algarismo no alto da letra e o que se achar por extenso no corpo dela, este último será sempre considerado o verdadeiro, e a diferença não prejudicará a letra” (art. 359). Na Seção II, arts. 360 a 364, tratava o Código “dos endossos”, admitindo o endosso em preto, “completo e regular”, que devia ser datado, escrito nas costas da letra, “expressar o nome daquele a cuja ordem deve fazer-se o pagamento” e “declarar se é valor recebido ou em conta ou se confere somente poderes de mandatário ou procurador”, entendendo-se que “o endosso à ordem, sem declarar se é valor recebido ou em conta, confere somente poderes de mandatário, sem transferência da propriedade” (art. 361). Os endossos incompletos ou em branco eram apenas tolerados, exigindo a lei, entretanto, “para serem válidos, que, pelo menos, contenham a data do dia em que se fizeram, escrita pela própria letra do endossante que o assinar; e presume-se sempre que são passadas “à ordem com valor recebido” (art. 362). O endosso falso era considerado nulo mas só viciava os endossos posteriores; os “de letras já vencidas ou prejudicadas, e daquelas que não são pagáveis à ordem, têm o simples efeito de cessão civil” (arts. 363 e 364). A Seção III, arts. 365 a 370, dizia respeito ao sacador, estatuindo o art. 366 que este “é obrigado a ter suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ao tempo do vencimento”, no que seguia a orientação do art. 115 do Código do Comércio francês, já à época da promulgação do nosso Código modificado pela lei de 19 de março de 1817. E o art. 368 explicava que “entende-se que existe suficiente provisão de fundos em poder do sacado quando este, ao tempo de vencimento, é devedor do sacador, ou àquele por conta de quem a letra foi passada, de quantia ao menos igual, ou quando qualquer dos dois tiver crédito aberto pelo sacado, que baste para o pagamento da letra”. A Seção IV, arts. 371 a 391, referia-se ao portador da letra de câmbio, estatuindo normas para a apresentação desta ao sacado e necessidade do protesto por falta de aceite ou de pagamento. A Seção V, arts. 392 a 404, tratava do sacado e aceitante, e a Seção VI, arts. 405 a 414, regulava o processo do protesto. Era nessa seção (art. 408) que o Código obrigava o oficial público perante quem se 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 8/193 intentaria o protesto, a fazer imediatamente o apontamento da letra, ou seja, a inscrição do título em livro especial que era obrigado a possuir para tal fim. A figura do apontamento desapareceu no Decreto nº 2.044, mas ainda hoje os cartórios incumbidos do protesto de títulos empregam bastante o termo, temendo os comerciantes o apontamento dos seus títulos por acreditarem que, com isso, fica o seu crédito abalado. O recâmbio era tratado na Seção VII, arts. 415 a 421, e os arts. 422 a 424, Seção VIII, continham disposições gerais. No art. 422 o Código se referia aos abonadores ou avalistas das letras, considerando-se, “ainda que não sejam comerciantes... solidariamente garantes das mesmas letras, e obrigados ao seu pagamento, com juros e recâmbios, havendo-os, e a todas as despesas legais”. O art. 425, já no Cap. II deste Tít. XVI, era dedicado às “letras de terra”, títulos idênticos às letras de câmbio “com a única diferença de serem passadas e aceitas na mesma província”. A fonte desse Título do Código Comercial foi o Código Comercial português de 1833, que tratava das letras de câmbio no Título VII, arts. 321 a 423. Mas tanto o Código português como o nosso seguiram a orientação do francês, sendo aquele mais expresso pois, no art. 321, dizia que “a letra de câmbio é o instrumento do contrato de câmbio, e pode definir-se numa carta solene datada dum lugar, pela qual o que a assina, que se chama sacador, encarrega aquele, a quem escreve, que se denomina sacado, de pagar em outro lugar, quer à vista, quer numa época determinada, a uma pessoa designada, que se conhece pelo nome de portador, ou à sua ordem ao endossatário, uma soma de dinheiro enunciada nela, e reconhecendo haver recebido ou fiado do tomador o valor da letra nas expressões valor recebido, ou valor em conta”. Vê-se aí que o legislador português de 1833 seguiu, em tudo, a orientação do Código francês de 1808, conceituando a letra de câmbio como o instrumento de um contrato de câmbio destinado a transportar valores de um lugar para outro. Não foi tão taxativo o legislador brasileiro de 1850, mas da leitura dos dispositivos do Código Comercial relativos à letra de câmbio facilmente se verifica que a orientação seguida foi idêntica, muito embora, ao ser promulgado o nosso Código, já estivesse em vigor a lei alemã de 1848, sendo de notar que essa se baseou principalmente nos estudos de Einert, que datam de 1830, havendo, desse modo, oportunidade de serem as teorias por este defendidas do conhecimento dos elaboradores do Código Comercial, cujo projeto foi iniciado em 1832. Assim, de maneira expressa, exigia o Código que a letra de câmbio mencionasse o valor recebido, especificando se foi em moeda, e a sua qualidade, em mercadorias, em conta ou por outrada brasileira (art. 1º, nº V), não exige a assinatura do sacador abaixo do contexto; nem se confundir, também, o aval com o aceite puro e simples, pois, pelo art. 25 da Lei Uniforme, “...vale como aceite a simples assinatura do sacado aposta na parte anterior da letra”. Ainda dispõe o art. 31 da Lei Uniforme que o aval deve indicar a pessoa por quem se dá, na falta dessa indicação entendendo-se que o aval é pelo sacador. A lei brasileira tratava desse assunto de maneira diferente, declarando que o avalista se equipara àquele a quem indicar; na falta de indicação, àquele abaixo de cuja assinatura lançar a sua; fora desses casos, ao aceitante e, não estando aceita a letra, ao sacador (Decreto nº 2.044, art. 15). Por último, o art. 32 declara, de início, que o avalista é responsável da mesma maneira que a pessoa por ele avalizada, o que equivale ao disposto no início do art. 15 da lei brasileira, que equipara o avalista àquele cujo nome indicar. A seguir, diz a Lei Uniforme que a obrigação do avalista se mantém mesmo no caso de ser nula a obrigação por ele garantida, a não ser que essa nulidade resulte de um vício de forma, norma que de um certo modo se coaduna com o disposto no art. 43 da lei brasileira, ao tratar da autonomia das obrigações cambiárias. Finalmente, estatui a 3ª alínea do art. 32 da Lei Uniforme que, se o dador do aval paga a letra, adquire os direitos emergentes da mesma contra a pessoa a favor de quem foi dado o aval e contra os obrigados para com esta em virtude da letra. A lei brasileira não dispunha sobre o assunto e o fato de declarar que o “avalista é equiparado àquele cujo nome indicar” dava lugar a discussão quanto aos direitos do avalista em relação ao avalizado, se bem que em geral fosse aceito o princípio 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 89/193 de que o avalista tinha direito regressivo contra o avalizado, querendo o termo equipara, empregado na Lei, significar apenas o mesmo grau de responsabilidade, não uma unificação dessa responsabilidade. 68. HISTÓRICO DO AVAL Há discordância entre os autores sobre a origem do termo aval, alguns o fazendo provir da expressão francesa à valoir ou faire valoir, outros da expressão latina a valere, outros, ainda, e estes em maior número, da expressão italiana a valle, que significa ao pé, embaixo, da letra. Seja qual for a origem do termo, o certo é que o aval foi utilizado desde que a letra de câmbio passou a ser empregada no comércio (Saraiva menciona o aval em uma letra de câmbio datada de 1359), tendo sido regulado pela Ordenança francesa do Comércio Terrestre de 1673, daí passando para o Código de Comércio da França de 1808. Os demais Códigos que seguiram a orientação do francês admitiram o aval, tendo sobre ele disposto o Código de Comércio português de 1833, nos arts. 351 e 353, permitindo, aliás, o aval em separado, conforme o art. 352: “A garantia do aval, prestada por terceiros, pode ou ser escrita na própria letra ou em instrumento separado, e até mesmo por uma carta mandadeira.” O Código Comercial brasileiro, como já vimos (supra, nº 14), não se referiu ao aval, mencionando apenas os abonadores da letra de câmbio. 69. NATUREZA JURÍDICA DO AVAL O aval é uma obrigação de garantia própria dos títulos cambiários ou dos a eles equiparados. Assim sendo, não se confunde com as demais garantias do direito comum, se bem que, com algumas, como a fiança, tenha muitos pontos de contato. Igualmente, não tem a mesma natureza jurídica das demais garantias oferecidas ao portador pelos que participam da letra de câmbio, tais como o sacador, os endossantes e o aceitante. Em princípio – e assim está mencionado em algumas leis, expressamente – o aval é garantia dada por terceiros. Se, anteriormente, como ocorria no Código Comercial português de 1833, art. 352, esse terceiro era um estranho à letra, hoje deve dar-se novo sentido ao termo, vez que alguém que já se obrigou na letra, seja como sacador, endossante ou até mesmo aceitante, pode, igualmente, avalizá-la. O que ocorre é que, em tais casos, o aval é quase sempre improdutivo, já que existe uma garantia anterior pelo cumprimento da obrigação contida no título por parte daquele que o avalizou. Juridicamente, entretanto, o avalista é um terceiro dentro das obrigações cambiais, pela posição singular que o mesmo ocupa no título, garantindo o cumprimento da obrigação, portanto, a validade da letra, mas essa garantia equiparando-se à daquele a quem avaliza. Significa isso que o avalista garante o cumprimento da letra em função das obrigações assumidas pelo avalizado. Consequência desse fato é que se o avalizado cumpre a obrigação, cessa a responsabilidade do avalista, não podendo nem mesmo aquele avalizado contra ele tentar qualquer ação; igualmente, havendo o portador renunciado a fazer cumprir a obrigação por parte do avalizado, essa renúncia abrange o avalista, que não mais poderá ser acionado pelo cumprimento da obrigação (Ex.: o título recebeu uma série de endossos, firmados por A, B, C, D, E e F. Desses endossantes, E foi avalizado por X. Se o portador, intentando ação regressiva, procura receber a importância, em primeiro lugar, de D, que está anterior a E, e esse paga, D não tem mais ação contra E, que tinha X como avalista. Nessas condições, cessa a obrigação do avalista X, que se equiparara ao endossante E, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 90/193 porque F, ao cobrar de D, renunciou ao direito de cobrar de F e de seu avalista X. Por tal razão, os endossantes anteriores não poderão mais cobrar de X a importância mencionada na letra). Temos, assim, que o aval é uma garantia própria dos títulos cambiários e dos a eles equiparados, que não se confunde com as demais garantias dadas nos títulos de crédito, sendo, igualmente, diversa das garantias do direito comum, tais como a fiança, o penhor, a hipoteca etc. 70. AVAL, FIANÇA E ENDOSSO Dissemos que o aval é garantia própria dos títulos cambiários, que não se confunde com as demais garantias do direito comum, entre as quais a fiança. De fato, muitas pessoas consideram o aval como fiança nos títulos de crédito, igualando os dois institutos que, apesar de terem pontos de contato, na realidade são diversos. Em primeiro lugar, e como diferença maior, o avalista garante o cumprimento da obrigação constante da letra da mesma maneira que o avalizado. Tal quer dizer que as obrigações assumidas pelo avalizado e pelo avalista são equiparadas, donde, muitas vezes, proclamar-se que o avalista é um cossacador, um coendossante ou um coaceitante, conforme a pessoa a quem avalize. Sendo as suas obrigações equiparadas, o credor poderá acionar qualquer deles e, no caso de o fazer em relação ao avalista, esse não pode requerer que, em primeiro lugar, seja acionado o avalizado, já que a obrigação que ele assumiu é autônoma e independente, apesar de ser do mesmo grau da do avalizado. Já na fiança, o fiador poderá requerer que, em primeiro lugar, seja executado o afiançado (benefício de ordem), segundo os arts. 827, 828 e 839 do Código Civil. Poder-se- ia argumentar que, na fiança comercial, não há benefício de ordem ou de excussão (Código Comercial, arts. 258 e 261, revogados pelo atual Código Civil), mas, ainda assim, não se confunde a fiança comercial com o aval, pois, entre outras razões, aquela pode ser dada em documento separado, enquanto que o aval tem que ser lançado no próprio título; na fiança comercial, não sendo o fiador comerciante, é necessária a outorga uxória, enquanto que no aval tal não acontecia. O novo Código Civil dispôs sobre a necessidade da vênia conjugal, seja no aval, seja na fiança, exceto no regime de separação absoluta (art. 1.647, III, do Código Civil). Sobretudo no caso do aval, esta inovação prejudica a inerente celeridade dos negócios cambiários. Alguns doutrinadoresjá entendem que o aval, mesmo dado sem a vênia conjugal, não pode ser anulado, apenas caracteriza a inoponibilidade do título ao cônjuge que não assentiu. Não obstante algumas similitudes, fiança e aval são garantias diversas, não apenas exigindo requisitos especiais como, igualmente, tendo características diferentes. Também muitas vezes se confunde, na prática, o aval com o endosso, sendo mesmo comum o emprego errôneo desses termos nos meios comerciais. Não há, entretanto, razões para tal confusão, pois os dois institutos são inteiramente diversos. O endosso é um meio de transferência dos direitos do título, mediante a assinatura do detentor legitimado, no verso ou no anverso da letra, garantindo o endossante, salvo cláusula em contrário, o aceite e o pagamento da mesma. Já o aval é uma garantia suplementar dada por pessoa que vem ocupar posição especial no título, não necessitando que essa pessoa seja detentora legitimada do mesmo (o que é essencial no endosso) para assumir tal obrigação. O aval não transfere a propriedade ou disponibilidade da letra, como acontece com o endosso. O avalista é alguém que, espontaneamente, assume a obrigação de pagar a letra, 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 91/193 em posição semelhante à do avalizado, alguém, na realidade estranho às relações cambiais e que interfere no título apenas visando dar maior segurança ao portador, quanto ao cumprimento da obrigação constante do mesmo. 71. QUEM PODE AVALIZAR. COAVALISTAS; AVALISTAS SIMULTÂNEOS E SUCESSIVOS Para avalizar uma letra de câmbio necessário será, como acontece com todos quantos se obrigam nos títulos cambiais, que o avalista seja capaz, civil ou comercialmente. Possuindo tal capacidade, o avalista está apto a interferir na letra, garantindo o cumprimento da obrigação em situação semelhante à daquele a quem avaliza. Podem figurar na letra, como avalistas, quaisquer pessoas que dela já participaram, muito embora, como já foi mencionado (supra, nº 61), avais em tais condições sejam quase que improdutivos. De fato, se o sacador, o endossante ou o aceitante avalizam uma letra, há uma repetição de obrigações pois, na realidade, com o saque, o endosso ou o aceite já estavam eles garantindo o cumprimento da ordem dada contra o sacado. Apenas poder-se-ia dizer que, pela equiparação do avalista ao avalizado, quem avaliza o aceitante assume, como este, obrigação direta e principal pelo pagamento do título. Trata-se, porém, de simples questão de ordem, pois, tanto o aceitante como o endossante e o sacador se obrigam, perante o portador, pelo pagamento da letra. Cada um daqueles que assume obrigações no título – sacador, endossantes e aceitante – pode ter sua obrigação avalizada. Assim, uma mesma letra pode possuir muitos avais, o que, de certo, aumenta a garantia do pagamento, dando maior força ao título, pelo grande número de obrigados com que o mesmo conta. Admite-se, também, que duas ou mais pessoas compareçam, na letra, como avalistas do mesmo obrigado. Esses avalistas podem ser simultâneos ou sucessivos. Entendem-se simultâneos quando todos os avalistas garantem diretamente o avalizado; sucessivos quando um avalista garante um outro avalista (Ex.: de avalistas simultâneos: “Em aval de F – A, B, C”; de avalistas sucessivos: “Em aval de F – A, em aval de A – B). Em regra, não havendo declaração de sucessividade, os avais dados a um obrigado na letra entendem-se simultâneos. Na prática, a colocação dos nomes dos avalistas em linhas superpostas, com número de ordem (1º avalista; 2º avalista etc.) é considerada como sendo avais sucessivos, apesar de não haver declaração expressa de sucessividade. Cambiariamente, o fato de os avalistas serem simultâneos ou sucessivos não tem importância pois, equiparando-se o avalista ao avalizado (Lei Uniforme, art. 32, 1ª al.) poderá o credor do título cobrar de um, alguns ou todos os avalistas, e esses, pelo princípio da equiparação, são obrigados a pagar; extracambiariamente, entretanto, o fato tem significado visto como, em se tratando de avalistas simultâneos, o que paga só pode reaver dos demais avalistas a quota que lhe cabe na divisão da dívida por todos; a solidariedade entre os avalistas, no caso, é a do direito comum e não a cambiária. Já nos avais sucessivos o avalista que paga tem o direito de cobrar toda a importância do que lhe está anterior; não há, assim, repartição da dívida entre todos os avalistas, pois se trata de solidariedade cambiária (Lei Uniforme, art. 47). Convém notar que, se o avalista se equipara ao avalizado (razão pela qual o credor pode cobrar o título indiferentemente de um ou de outro) não toma o lugar 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 92/193 que este tem na letra, isto é, não o exclui do cumprimento da obrigação. Por esse motivo, o avalista que paga pode cobrar do seu avalizado a importância que pagou, do mesmo modo que tem o direito de fazê-lo de quaisquer dos obrigados anteriores ao avalizado. Já o mesmo não acontece quanto ao avalizado em relação ao seu avalista; não pode, realmente, aquele cobrar do avalista a importância que pagou, pois, apesar de ter obrigação equiparada à do avalizado, o avalista é obrigado posterior àquele, e, pelo princípio próprio do direito cambiário, os obrigados não têm direito de ação contra os que se obrigam posteriormente, pois esses, na verdade, se obrigaram perante os que vieram depois a eles, não perante aqueles que antes haviam assumido obrigação na letra. 72. REQUISITOS DO AVAL “Para a validade do aval”, dizia a lei brasileira (art. 14) “...é suficiente a simples assinatura do próprio punho do avalista, ou do mandatário especial, no verso ou no anverso da letra”. Essa disposição da lei revogada encerra, mesmo na vigência da Lei Uniforme, os requisitos necessários à validade do aval. Esses requisitos são os de que o aval deve constar da assinatura do próprio punho do avalista ou de mandatário especial e que essa assinatura seja dada no próprio título, em virtude do princípio da literalidade da letra de câmbio. A Lei Uniforme, depois de declarar que o aval deve ser escrito na própria letra, estabelece que o mesmo se exprime pelas palavras “Bom para aval” ou qualquer fórmula equivalente, sendo, contudo, considerada aval a simples assinatura do dador, aposta na face anterior da letra, salvo se se tratar de assinatura do sacado ou do sacador (Lei Uniforme, art. 31). Tem-se, então, que, quando lançado no verso da letra, o aval deve constar sempre de uma declaração do dador (“Bom para aval” ou outra semelhante), assinada pelo mesmo. Com isso, quis a Lei Uniforme distinguir o aval do endosso em branco, que pode consistir também em uma simples assinatura no verso da letra. Certo é que pode surgir o problema, já assinalado por Silva Pinto, de ser encontrada numa letra de câmbio simples assinatura no verso, não podendo essa assinatura ser identificada como um endosso em branco, como, por exemplo, se a letra circulou sempre com endosso em preto. Pela lei brasileira o caso era fácil de resolver, pois tal assinatura seria considerada um aval; como, entretanto, a Lei Uniforme requer que, quando, aposto no verso da letra, o aval traga sempre uma declaração (“Bom para aval” ou outra semelhante), parece-nos que a solução é considerar essa assinatura como sem efeito, de acordo com o pensamento de Silva Pinto, que é, por sinal, o mesmo de Mossa, Supino, De Semo e Arminjon et Carry, por ele citados. Assim sendo, segundo a Lei Uniforme, escrito no verso da letra o aval deve obrigatoriamente trazer uma declaração (“Bom para aval” ou semelhante), enquanto que, no anverso da letra, a simples assinatura será tida como aval desde que essa assinatura não seja do sacador (que pode emitir a letra assinando em qualquer parte do anverso e não somente abaixo do contexto, comodeterminava a lei brasileira), ou do sacado (para não confundir com um aceite, que pode constar da simples assinatura do sacado, no anverso da letra). Claro é que o aval pode ser dado, com a declaração, também no anverso da letra. E desse modo poderá ser tanto do sacador como do sacado, já que, com a declaração, se sabe perfeitamente qual a garantia que o signatário está oferecendo. Pode, igualmente, o aval ser datado, muitas vezes mesmo sendo interessante que assim aconteça a fim de que se saiba o momento em que o avalista assumiu a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 93/193 obrigação pois, em alguns casos, esse fato tem importância, como, por exemplo, no aval dado posterior ao protesto. Em tais condições, o aval tem efeito de fiança. Em face do princípio da literalidade da letra de câmbio, o aval deve ser dado no próprio título cambial. Não será permitido, assim, aval por documento em separado, se bem que, como já foi assinalado, algumas legislações o admitam, como as da França, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile, Costa Rica, Cuba, Equador, Haiti, República Dominicana, Honduras, El Salvador. O novo Código Civil trouxe, em seu art. 1.647, inciso III, a necessidade de outorga marital para o avalista casado. É preceito que comporta divergência interpretativa, muito discutida pela doutrina e de fundamental importância para a jurisprudência. A falta da vênia conjugal seria suficiente para invalidar a garantia? A controvérsia se articula, de plano, sobre a validade da disposição do Código Civil, uma vez que afronta a norma da Lei Uniforme de Genebra. Impõe-se, a despeito da Lei Uniforme de Genebra, mais um requisito formal ao avalizamento, o que, na conclusão de Rachel Stajn e Haroldo Verçosa, dependeria de denúncia ao Tratado: “considerando-se que a Lei Uniforme resulta de um tratado internacional do qual o Brasil faz parte, para que a regra introduzida pelo novo Código Civil, institucionalizadora da autorização, pudesse vir a afastar aquele texto, teria sido necessária a denúncia do tratado, o que não ocorreu. Daí que não seria eficaz para o fim pretendido uma cláusula do tipo ‘Outorgo a presente autorização exclusivamente para os fins do art. 1.647 do novo Código Civil’”. O argumento não subsiste em face da disciplina do Direito Internacional, cuja orientação não permite dizer que a lei emanada de Convenção Internacional sobrepuje, em hierarquia, a lei ordinária nacional. Prevalece, portanto, o sistema básico em que a lei posterior revoga a anterior. É também a opinião de José Mário Bimbato. Logo, deve-se partir do pressuposto de validade da norma civilista para a disciplina dos títulos de crédito, o que conduz à questão sobre os efeitos da falta da outorga uxória. A oscilação sobre o tema na jurisprudência expõe a falta de consenso sobre a matéria, sendo que nem o Superior Tribunal de Justiça conseguiu firmar, de maneira definitiva, seu entendimento. O Enunciado nº 114 do Conselho da Justiça Federal assinala: “Enunciado 114 – Art.1.647: o aval não pode ser anulado por falta de vênia conjugal, de modo que o inc. III do art. 1.647 apenas caracteriza a inoponibilidade do título ao cônjuge que não assentiu.” A aprovação do enunciado não traduz, contudo, a pacificação desta tese no Superior Tribunal de Justiça, muito embora tenha sido o próprio órgão, por meio do Conselho da Justiça Federal, que aprovou o verbete. A linha de precedentes daquela Corte é no sentido de que a falta de outorga invalidaria a própria garantia, do qual é sintomático o seguinte acórdão: “Recurso especial – Ação anulatória de aval – Outorga conjugal para cônjuges casados sob o regime da separação obrigatória de bens – Necessidade – Recurso provido. 1. É necessária a vênia conjugal para a prestação de aval por pessoa casada sob o regime da separação obrigatória de bens, à luz do artigo 1.647, III, do Código Civil. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 94/193 2. A exigência de outorga uxória ou marital para os negócios jurídicos de (presumidamente) maior expressão econômica previstos no artigo 1.647 do Código Civil (como a prestação de aval ou a alienação de imóveis) decorre da necessidade de garantir a ambos os cônjuges meio de controle da gestão patrimonial, tendo em vista que, em eventual dissolução do vínculo matrimonial, os consortes terão interesse na partilha dos bens adquiridos onerosamente na constância do casamento. 3. Nas hipóteses de casamento sob o regime da separação legal, os consortes, por força da Súmula n. 377/STF, possuem o interesse pelos bens adquiridos onerosamente ao longo do casamento, razão por que é de rigor garantir-lhes o mecanismo de controle de outorga uxória/marital para os negócios jurídicos previstos no artigo 1.647 da lei civil. 4. Recurso especial provido.” No entanto, com base no já mencionado verbete 114 do Conselho da Justiça Federal, inúmeros Tribunais de Justiça Estaduais vêm desprovendo os pedidos de anulação da garantia, consignando apenas sua inoponibilidade ao cônjuge que não assentiu. São exemplos: AC nº 9073174-74.2009.8.26.0000, Des. Rel. Moura Ribeiro, 11ª Câmara de Direito Privado do TJSP, DJe de 13.09.2012; Apelação Cível nº 0005887-75.2005.8.19.0004, Des. Rel. Antônio Carlos Amado, 10ª Câmara Cível do TJRJ, j. 25.04.2007; AC nº 1.0647.07.074944-3/001, 14ª Câmara Cível do TJMG, Des. Rel. Rogério Medeiros, DJ 02.12.2008). É bem de ver , portanto, o dissenso pretoriano quanto aos efeitos desencadeados pela falta de outorga uxória, o que só pode contribuir para a insegurança jurídica. A melhor exegese parece-nos ser aquela que mantém a garantia, restringindo-se a invalidá-la face aquele que não emitiu seu consentimento. Afinal, não se pode invadir a esfera patrimonial de alguém sem seu consentimento, mas também se afigura desproporcional anular o aval, o que desaguaria no esvaziamento do instituto, com o esvaziamento da garantia. 73. LUGAR DO AVAL. A QUEM SE AVALIZA A assinatura do avalista pode ser dada no anverso ou no verso da letra (Lei Uniforme, art. 31). Não, há, assim, lugar especial no título para ser lançado o aval. Esse fato às vezes causa admiração, pois, em regra, acredita-se que o aval é dado apenas no anverso do título. Mas basta atentar para a disposição da lei que diz que a obrigação do avalista é equiparada à daquele a quem avaliza para se concluir que o aval pode ser dado em qualquer parte do título, já que há obrigados no mesmo que necessariamente assinam no anverso, como o sacador, e outros no verso ou no anverso. Indicando o avalista a pessoa a quem avaliza, essa indicação pode ser feita no anverso do título, ainda que o avalizado assine no verso. Só a simples assinatura, sem indicação, feita no anverso, significa, segundo a Lei Uniforme, que o aval é dado pelo sacador (Lei Uniforme, art. 31, 4ª al.). A lei brasileira dispunha de normas especiais sobre quem devia ser considerado avalizado. Em primeiro lugar, dizia o art. 15 que o avalista era equiparado àquele cujo nome indicasse. Assim, vindo essa indicação (Em aval de F), pouco importava que a assinatura do avalista estivesse no anverso da letra e do avalizado constasse do verso, ou vice-versa. Valia, acima de tudo, a indicação; por esta se conhecia perfeitamente a quem desejava o avalista, garantindo a obrigação equiparar-se. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 95/193 Em segundo lugar, pela lei brasileira, se o avalista não indicasse diretamente aquele a quem avalizava, poderia fazê-lo de modo indireto. Desse modo, não constando expressamente tal menção, considerava-se que o avalista avalizava aquele abaixo de cuja assinatura, na letra, lançava a sua. Se assim não acontecesse, lançando o avalista sua assinaturaem qualquer parte do título, considerava-se que avalizava o aceitante, obrigado principal, se a letra já tinha sido aceita ou não o tendo, o sacador, último obrigado na cadeia regressiva do título não aceito (lei brasileira, art. 15). As razões para a lei considerar, na falta da indicação ou do lançamento da assinatura do avalista abaixo da do avalizado, como garantidos o aceitante, se a letra foi aceita, ou o sacador, se não o foi, era que esses são os dois obrigados mais importantes do título. Estando as suas obrigações reforçadas pelos avais, havia, naturalmente, maiores possibilidades de serem cumpridas, desonerando-se, assim, os demais coobrigados subsidiários. A lei, procurando assegurar ao portador, com o reforço da garantia dada pelos avais, o pagamento do seu crédito, procurava, igualmente, amparar os coobrigados intermediários, que muitas vezes se obrigavam apenas por terem sido, ocasionalmente, proprietários dos títulos. Vê-se, nessas condições, que, no sistema da lei brasileira, nenhuma importância tinha o fato de ser o aval assinado em qualquer parte do título, fosse no verso ou no anverso. Naturalmente, não seria dado nos lugares determinados pela lei para certas assinaturas, como a do sacador, no anverso do título, abaixo do contexto. Desde, porém, que assim não acontecesse, o avalista poderia lançar assinatura em qualquer outra parte. A Lei Uniforme simplificou o assunto, estatuindo, em primeiro lugar, que o aval deve indicar a pessoa por quem se deu (Lei Uniforme, art. 31, 4ª al.). Fora desse caso, isto é, não indicando o avalista a pessoa do avalizado, entende-se que o aval será pelo sacador. Não importa que a assinatura do avalista esteja colocada, ou não, no verso ou no anverso da letra. Não indicando a pessoa a quem avaliza, o aval, segundo a Lei Uniforme, é pelo que emitiu a letra, desaparecendo aquele escalonamento que fazia o art. 15 da lei brasileira. 74. RESPONSABILIDADE DO AVALISTA O avalista ocupa, na letra, a mesma posição daquele a quem avalizou. Não toma o avalista o lugar do avalizado pois, na verdade, pagando, poderá receber do mesmo a importância paga. Mas, apesar disso, a sua obrigação é semelhante à do avalizado, donde poder o credor agir contra um ou contra outro, indiferentemente. Pagando, o avalista adquire os direitos emergentes da letra contra o avalizado, podendo exercê-los a fim de reembolsar-se da importância paga. Convém, mais uma vez, frisar que, apesar de se dizer que o avalista que paga toma, na letra, a posição do avalizado, na realidade o avalista fica apenas com direitos idênticos ao avalizado mas é, de fato, obrigado posterior a esse. Assim, pode ele agir contra o avalizado, compelindo-o a efetuar o pagamento sem que a recíproca seja verdadeira, já que o avalizado, obrigado anterior ao avalista, não tem ação contra ele. Pode, igualmente, o avalista agir contra qualquer dos coobrigados regressivos que lhe são anteriores, como agiria o avalizado que houvesse pago. Se o aval é dado ao aceitante, não tem o avalista direito de ação contra endossadores ou sacador, uma vez que o aceitante é obrigado direto, principal. Pode, entretanto, agir extracambiariamente contra o sacador, para evitar que esse se locuplete, à sua custa, do mesmo modo como poderia o aceitante que pagasse. Pagando, o avalista fica investido dos direitos cambiários idênticos aos da pessoa por quem pagou (Lei Uniforme, art. 32, 2ª al.); entretanto, se decair a obrigação 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 96/193 do avalizado, decai também a do avalista, contra ele não sendo admissível nenhuma ação. 75. AVALISTA DO ACEITANTE Se o aval é dado ao aceitante, o avalista fica a ele equiparado; isso significa que, como o aceitante, fica na posição de obrigado principal. A ele, portanto, pode ser movida ação direta, sem necessidade de protesto do título. Se pagar, entretanto, terá ação contra o aceitante pois, como foi dito, o avalista é obrigado posterior ao avalizado. 76. PROTESTO CONTRA O ACEITANTE; SEU REFLEXO EM RELAÇÃO AO AVALISTA Um problema que tem dado margem a largas discussões é o de saber-se se, protestado o título contra o aceitante, esse protesto se reflete contra seu avalista. Na realidade, sendo as obrigações cambiárias autônomas, o ato de protesto praticado contra o aceitante não se reflete sobre o seu avalista. Sendo o título protestado contra um aceitante, não se pode, se o avalista for comerciante, requerer a falência deste baseada naquele protesto, uma vez que não foi o título contra ele protestado. Modificamos, assim, nossa opinião sobre o assunto, expressa em nota à página 202 da 1ª edição deste livro, em que foram feitas considerações sobre a decisão do Juiz de Direito da Vara dos Registros Públicos do Estado de S. Paulo, determinando que as intimações para pagamento fossem feitas apenas contra os aceitantes e não contra os seus avalistas. Ali defendíamos que as intimações devem ser feitas também aos avalistas, dado que esses se equiparam aos avalizados. Pensando melhor no assunto, concluímos que essa equiparação é apenas de responsabilidade; mas as obrigações por ambos assumidas são autônomas, donde dizer a lei que a obrigação do avalista persiste ainda mesmo que seja nula a do avalizado. Ora, se as obrigações são autônomas não devem confundir-se, razão pela qual a intimação feita ao aceitante para pagamento, sob pena de protesto, deve ter reflexo apenas em relação a esse, não ao avalista. Caso, entretanto, o portador deseje, poderá a intimação ser feita ao aceitante e seu avalista, se assim declarar na apresentação do título ao oficial de protesto. Nessa hipótese, não havendo pagamento, o protesto pode ser feito contra o aceitante e o avalista, o que é permitido pelo disposto no art. 47 da Lei Uniforme. O assunto de que tratamos não deve confundir-se com o fato de não ser necessário o protesto para que o portador mova ação contra o avalista do aceitante. Esse tema foi largamente explanado por Pinto Coelho que mostrou que, sendo a ação do portador contra o aceitante uma ação direta (independente, portanto, de protesto para ser exercida), o mesmo ocorre com a ação contra o avalista do aceitante, que tem responsabilidade equiparada a este. O que aqui se explica é o fato de, desejando o portador (se bem que tal não seja necessário para o exercício da ação de cobrança) protestar o título contra o aceitante, não haverá obrigação de o oficial de protesto intimar também o avalista do aceitante, pois o pagamento não é reclamado deste e sim do próprio aceitante. Só no caso de pretender o portador receber do avalista a importância do título é que o protesto contra esse deve ser feito; e se houver protesto por falta de pagamento contra o aceitante que não honrou o seu compromisso, esse protesto não se reflete no avalista do aceitante, que continuará sempre obrigado até a satisfação integral da letra, podendo, assim, contra ele, mesmo depois de protestado o título contra o aceitante, ser movida a ação direta para que o portador haja a importância da letra. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 97/193 77. AVAL AO SACADO Pode o avalista garantir o pagamento da letra, equiparando-se a qualquer dos obrigados na mesma. Indaga-se, com razão, se o aval pode ser dado ao sacado que, como se sabe, não possui nenhuma obrigação no título, só a assumindo depois de aceitar. Na realidade, o aval pode ser dado ao sacado, mas esse aval, a nosso ver, fica sujeito, para a sua validade, ao fato de o sacado vir a aceitar, futuramente, a letra. Alguns autores defendem a tese, para nós inadmissível, de que, mesmo que o sacado não aceite, o aval que lhe foi dado produz os efeitos legais, tendo em vista o princípio da autonomia das obrigações cambiárias, baseado no formalismo do título. Assim, lançada no título a assinatura do avalista em garantiado sacado, essa assinatura produziria os seus efeitos, ainda que o sacado não aceitasse. Para nós, é inteiramente inaceitável essa orientação. É verdade que as obrigações cambiárias são autônomas e independentes, mas, antes de tudo, essa autonomia e independência se referem às obrigações. Ora, o sacado não possui nenhuma obrigação no título, aceitando-o ou não se o quiser. Equiparando-se o avalista ao avalizado, se o sacado não possui nenhuma obrigação, lógico é que o seu avalista também não a possui. Somente se o sacado se obrigar, passando, assim, a ser aceitante, é que o aval dado passa a valer efetivamente, equiparando-se o avalista ao sacado que aceitou, isto é, ao aceitante. Assim, o aval dado ao sacado contém, sempre, a condição de só ter validade se o sacado aceitar. Do contrário, ver-se-ia o fato estranho de ter o avalista obrigação enquanto que o avalizado, a quem ele se equiparou, não possui nenhuma obrigação no título, o que nos parece, realmente, um absurdo. A autonomia, merece ser repetida, se refere às obrigações cambiárias (lei brasileira, art. 43; Lei Uniforme, art. 7º). O sacado é apenas designado na letra e só depois de aceitar é que assume a obrigação de pagar a letra. Já aí o sacado toma o nome de aceitante, donde se concluir que, enquanto simples sacado (pessoa designada na letra para efetuar o pagamento mas que não assumiu essa obrigação por não haver lançado sua assinatura no título) a pessoa indicada na letra não tem responsabilidade e, consequentemente, a obrigação de efetuar o pagamento. Transformando-se em aceitante, isto é, responsabilizando-se pelo pagamento da soma cambial, o que se concretiza através de sua assinatura no título, o aceitante passa a ser obrigado, do mesmo modo que todos aqueles que, antes dele, já haviam lançado suas assinaturas na letra. Equiparação só ocorre entre duas cousas existentes. A obrigação do sacado inexiste, a não ser que ele aceite a letra. Assim sendo, nenhuma obrigação cambial assume o avalista do sacado se esse não se torna aceitante. O seu aval representa um compromisso ad futurum que só se torna efetivo se a pessoa a quem ele avaliza se obriga na letra. Não vemos, portanto, razão lógica para admitir a validade do aval dado ao sacado em caso de esse não aceitar a letra, mesmo sem recorrer à Lei Uniforme, em que é patente a situação do avalista (Lei Uniforme, art. 32). O fundamento da autonomia e independência das obrigações cambiárias não colhe, pois, no caso, só haverá obrigação se o sacado aceitar a letra. A própria lei brasileira dizia que o “avalista é equiparado àquele cujo nome indicar”. Ora, o indicado pelo avalista foi o sacado, que nenhuma obrigação tem no título. Portanto, a equiparação do avalista é a alguém sem obrigação, o que significa que ele, avalista, também não assume obrigação alguma. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 98/193 Por último, fosse válido o argumento de existir obrigação por parte do avalista do sacado que não aceitar, qual a posição que o mesmo exerceria na letra? Sabe-se que as obrigações cambiárias formam uma cadeia que vai do último endossatário, portador da letra, ao sacador, não sendo o título aceito. Constando da letra aval ao sacado, se esse não aceitou, onde ficará situado o seu avalista? Na posição de aceitante não pode ser, já que só o sacado pode aceitar ou, em caso especial, um interveniente, se o portador consentir. Também não pode aquele avalista ocupar a posição de um endossante ou do sacador, ou mesmo de outro avalista, pois expressamente indicou o sacado como o seu avalizado e, assim, se eximiu de responder pelos outros. Ficaria, portanto, como um obrigado fora da cadeia daqueles que garantem a obrigação cambial, não se sabendo quem poderia acioná-lo nem quando essa ação poderia ser proposta. Em resumo, em nossa opinião, o aval dado ao sacado trazendo sempre uma declaração expressa (Em aval do sacado ou equivalente) para mostrar a quem o avalista deseja equiparar a obrigação que vai assumir na letra é admissível, pois se pode garantir uma obrigação futura, mas só se torna efetivo se o sacado aceitar a letra. Não aceitando, o aval é insubsistente, por inexistir obrigação do sacado; aceitando-a com modificação ou limitação, a obrigação do avalista irá apenas ao limite da restrição, do mesmo modo que acontece com a obrigação do aceitante que restringe a ordem que lhe é dada (Lei Uniforme, art. 26). 78. CANCELAMENTO DO AVAL Se o avalista pagar a importância da letra a endossatário ou avalista posterior pode riscar do título o seu aval, bem como os dos endossadores e avalistas posteriores (Lei Uniforme, arg. do art. 50, 1ª al.). Cumpre notar que, segundo a lei brasileira, para os efeitos cambiais o aval cancelado considerava-se não escrito (art. 44, § 1º). 79. RELAÇÕES ENTRE AVALISTA E AVALIZADO Cambialmente, o avalista assume obrigação equiparada à do avalizado. Assim, o portador da letra pode agir, indiferentemente, contra um ou outro, não estando adstrito a nenhuma ordem quanto ao critério da escolha. Entre avalista e avalizado existe, contudo, diversidade quanto à sua posição na letra, sendo o avalista obrigado posterior ao avalizado. Por essa razão é que, exigindo o portador o cumprimento da obrigação por parte do avalizado, esse, pagando, não pode se voltar contra o avalista, apesar de ambos assumirem obrigações semelhantes no título. Por isso, também, é que, pagando o avalista, tem ele ação contra o avalizado, pois esse é obrigado anterior. Nenhuma importância têm as relações de credor ou devedor que porventura, extracambialmente, existam entre avalista e avalizado. As obrigações cambiárias são autônomas e independentes e, se bem que a obrigação do avalista dependa da do avalizado, uma vez assumida adquire autonomia, tornando-se, por isso, independente daquela. Por isso é que, sendo nula a obrigação do avalizado, persiste a do avalista, a não ser que a nulidade resulte de vício de forma (Lei Uniforme, art. 32, 2ª al.). Uma vez constatada a nulidade, cabe ao avalista o ônus de cumprir sua obrigação, pois os terceiros não poderão ficar prejudicados duplamente, com a não responsabilidade do avalizado cuja obrigação se mostrou nula, e mais a do avalista, que se equiparou àquele. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 99/193 Não agindo o avalista contra o avalizado, poderá intentar ação contra os demais obrigados anteriores, pois esses assumiram obrigações antes dele. Aliás, é bom frisar que o avalista que paga não tem o dever de cobrar do seu avalizado antes de fazê-lo de qualquer outro; o avalizado nada mais representa que um obrigado regressivo e, como acontece em geral, cabe ao portador escolher dos obrigados regressivos aquele que deseja que cumpra a obrigação. Se quem paga é o avalista do aceitante, só deste o pagante pode receber a soma, cambialmente. A ação que tem contra ele é direta; caso o aceitante não pague, não pode, contudo, o avalista do aceitante protestar o título, para fazer jus ao direito regressivo. A lei brasileira (art. 24) taxativamente dispunha que “o pagamento feito pelo aceitante ou pelos respectivos avalistas desonera da responsabilidade cambial os coobrigados.”21 80. AVAL Pela natureza jurídica do aval, o avalista é formalmente um obrigado cambiário do mesmo grau; não contrai substancialmente a obrigação do avalizado, senão uma obrigação independente, pessoal e própria, como se pertencesse ao nexo essencial das obrigações cambiárias. É, por isso, um obrigado autônomo como qualquer subscritor, verificada a condição de ser formalmente válida à obrigação garantida (Gonçalves Dias, Da Letra e da Livrança, vol. 7, p. 492). 81. AVAL ANTECIPADO (NEGRITO) Há autores que admitem possa a assinatura do avalista ser aposta antes da assinatura do avalizado; a matéria foi estudada pelo Professor De Lucca. RDM53/41. Art. 898: “O aval deve ser dado no verso ou no anverso do próprio título”. § 1º: “Para a validade do aval, dado no anverso do título, é suficiente a simples assinatura do avalista. Essa prática chama-se aval em branco por não conter o nome do avalizado ao lado da assinatura do avalista.” A regra é que a assinatura do avalista é aposta ao lado da assinatura do avalizado. Em se tratando de aval aposto no anverso do título o avalista coloca-se na posição do obrigado principal: o aceitante, o sacador da letra não aceitável, do emitente da nota promissória, dispensada qualquer menção ao nome do avalizado (§ 1°). 82. AVAL ANTECIPADO O aval inserido antes da assinatura do avalizado, ao tempo do saque da letra de câmbio, é aceito por alguns autores; a respeito leia-se De Lucca, Revista de Direito Mercantil 53/41 a 47. Art. 898: “O aval deve ser dado no verso ou no anverso do próprio título.” § 1° no aval aposto no anverso (face) do título admite a mera assinatura do avalista, ou seja, o aval em branco. Nesse aval o avalizado é o devedor principal do título: o sacador ou aceitante na letra de câmbio ou o emitente na nota promissória. § 2° Considera-se não escrito o aval cancelado. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 100/193 O dispositivo permite que o avalista que pague a cambial risque o seu nome na cártula. Art. 899: “O avalista equipara-se àquele cujo nome indicar; na falta de indicação, ao emitente ou devedor final.” A regra a esse respeito é que o avalista deve apor a sua assinatura ao lado da assinatura do avalizado, ou com menção ao nome do avalizado, v.g., por aval de José; em caso contrário, o avalizado será o devedor principal ou o devedor final (último endossatário). O art. 31, al. 4ª, da Lei Uniforme refere-se ao sacador. O aval aposto no verso do título pode conter o nome do avalizado (aval em preto) ou sem menção ao avalizado (aval em branco). O § 1° reza: “Pagando o título, tem o avalista ação de regresso contra o seu avalizado e demais coobrigados anteriores.” O citado parágrafo 1° omitiu o nome do devedor principal e seu avalista. Os obrigados anteriores são os endossadores, endossatários e seus avalistas. § 2°: “Subsiste a responsabilidade do avalista, ainda que nula a obrigação daquele a quem se equipara, a menos que a nulidade decorra de vício de forma.” O princípio revela que as obrigações cambiais são independentes entre si. Vício de forma é aquele que atinge o próprio título e gera a sua nulidade que, por sua vez, alcança as próprias obrigações cambiárias. Essa disposição encontra-se no art. 32, 2ª al., da Lei Uniforme. Art. 900: “O aval posterior ao vencimento produz os mesmos efeitos do anteriormente dado.” A disposição em exame assemelha-se à do art. 20 da Lei Uniforme com respeito ao endosso; quanto a este a capitulação do citado art. 20, primeira parte tem a mesma redação, porém o endosso, a nosso ver, aposto depois do protesto tem o efeito de cessão ordinária de crédito, consoante disposição do art. 1.065 do Código Civil de 1916 e seu correspondente art. 286 do Código de 2002. No citado artigo, Fran Martins sugeriu o acréscimo ao parágrafo único do art. 897, o seguinte: “o aval dado após o protesto por falta de pagamento tem efeito de fiança.” Infelizmente nenhuma das sugestões do eminente Mestre Fran Martins foi aceita, fato que está a indicar que a ilustrada Comissão de Redação do Código Civil não pretendia alterar o texto por ela apresentado. Art. 901: “Fica validamente desonerado o devedor que paga título de crédito ao legítimo portador, no vencimento, sem oposição, salvo se agiu de má-fé.” Parágrafo Único do art. 901: “Pagando, pode o devedor exigir do credor, além da entrega do título, quitação regular.” Caso o pagamento seja parcial, a quitação será dada no título e também em documento separado. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 101/193 O importante é que, no caso de pagamento parcial, o título permanece na posse do credor, e só será devolvido ao devedor mediante quitação total do débito. Art. 902: “Não é o credor obrigado a receber o pagamento antes do vencimento do título, e aquele que o paga, antes do vencimento, fica responsável pela validade do pagamento.” § 1°: “No vencimento, não pode o credor recusar pagamento, ainda que parcial.” O dispositivo estabelece a regra de que o credor é obrigado a receber pagamento de parte da dívida. Tal pagamento não invalida o título, embora não se opere a sua tradição. Nesse caso, o valor do débito é reduzido ao saldo restante. Por essa razão, no caso de pagamento parcial, o credor conserva o título em sua posse, sendo, porém, obrigado a dar quitação na cártula do valor pago, consignando a parcela devida. Essa regra, contudo, não se aplica à cobrança da dívida com base no Código Civil de 2002, cujo art. 314 dispensa ao credor o recebimento de parte da dívida. Art. 903: “Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código.” O dispositivo estabelece o princípio pelo qual toda a legislação extravagante anterior ao Código Civil, inclusive a Lei Uniforme de Genebra, ainda se acha em vigor. Alguns autores admitem, contudo, que certos títulos devem respeitar os ditames do Código Civil, orientação que não nos parece a mais acertada. 83. CANCELAMENTO DO AVAL § 2° do art. 898: “considera-se não escrito o aval cancelado.” Uma das formas de cancelamento do aval tem origem na cobrança do título por endossatário ou avalista anterior na cadeia de endossos. Nesse caso, pode o credor riscar a assinatura. Ao pagar o título tem o avalista o direito de regresso contra o seu avalizado e coobrigados anteriores (§ 1°). Ao pagar o título pode o avalista riscar o seu nome na cártula. 84. TÍTULOS AO PORTADOR Art. 904: “A transferência de título ao portador se faz por simples tradição.” Ao emitir um título sem lhe indicar o nome do destinatário ou no caso de endosso em branco, quando não consta o nome do endossatário, caracterizam-se casos de título que se transmitem por tradição, por serem títulos ao portador. Por essa razão, segundo dispõe o art. 904 do Código Civil de 2002, “O legítimo possuidor do título ao portador tem direito à prestação nele indicada, mediante a sua simples apresentação ao devedor” (art. 905). Art. 905, parágrafo único: “A prestação é devida ainda que o título tenha entrado em circulação contra vontade do emitente.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 102/193 Esse dispositivo decorre da teoria da declaração pela qual, no momento em que o emitente apõe a sua assinatura no título, este já existe. Caso o título seja furtado e o ladrão, porventura, colocá-lo em circulação, endossando-o, inclusive, se o endossatário estiver de boa-fé, poderá cobrá-lo do endossador ou endossadores anteriores, e daquele que o transferiu e, assim, estará imune às investidas do subscritor ou emissor do título, salvo diante das defesas fundadas em nulidade interna ou externa do título, ou em direito pessoal do emissor. Pela teoria da criação, não importa se o seu criador tenha sido injustamente desapossado, passando a circular o título contra a sua vontade; logo, a partir do momento em que a pessoa apôs a sua assinatura no título formalmente perfeito, mesmo que dele tenha sido desapossado contra sua vontade, esse título pode circular regularmente, a menos que o endossatário esteja de má-fé. Essa teoria, proveniente do § 794 do Código Civil Alemão, foi adotada no art. 1.506 do Código Civil de 1916 e no art. 905, parágrafo único, do Código de 2002. Em assim sendo, o criador do título fica ligado com a sua assinatura e obrigado com o credor eventual e indeterminado, em considerandotratar-se de declaração unilateral de vontade ao se obrigar o criador do título. A obrigação nasce com o aparecimento desse futuro detentor. Com a concepção do escrito nasce o título e com a entrada em circulação do título nasce a obrigação. Nas mãos do subscritor o título já é um valor patrimonial prestes a se tornar fonte de direito de crédito. A vontade do devedor já não importa para o efeito obrigacional, pois o título é o que produz e cria a dívida. A única condição que se impõe para o efeito obrigacional é a posse legítima do primeiro portador, qualquer que seja ele. Art. 906: “O devedor só poderá opor ao portador exceção fundada em direito pessoal, ou em nulidade de sua obrigação.” Art. 907: “É nulo o título ao portador emitido sem autorização de lei especial.” A disposição tem as suas raízes no art. 1.511 do Código Civil de 1916 e além de outras leis, na Lei nº 8.021, de 12 de abril de 1990, e o motivo está no fato de se evitar a expansão do crédito, de política governamental; logo, são, em princípio, vedadas emissões de títulos ao portador. Art. 908: “O possuidor de título dilacerado, porém identificável, tem direito a obter do emitente a substituição do anterior, mediante a restituição do primeiro e o pagamento das despesas.” A capitulação do art. 908 é polêmica, na medida da acepção do vocábulo “dilacerado”, porquanto, em muitos casos, a dilaceração pode tornar o título insuscetível de cobrança, a exemplo de um cheque com rasuras dificilmente será aceito pelo banco, inclusive com erros de data e outras quebras do aspecto formal do título. Art. 909: “O proprietário, que perder ou extraviar título, ou for injustamente desapossado dele, poderá obter novo título em juízo, bem como impedir sejam 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 103/193 pagos a outrem capital e rendimentos.” O dispositivo cuida de três hipóteses; a) perda; b) extravio; c) desapossamento injusto. A segunda observação contida no artigo trata da vedação de pagamento do valor do título a injusto possuidor. Parágrafo único do art. 909: “O pagamento feito antes de ter ciência da ação referida neste artigo exonera o devedor, salvo se provar que ele tinha conhecimento do fato.” O desconhecimento da existência da ação referida neste artigo presume a boa-fé do devedor, exceto se ele estivesse a par do vício do pagamento, fato que provocará a sua invalidade. 85. TÍTULO À ORDEM Art. 910: “O endosso deve ser lançado pelo endossante no verso ou anverso do próprio título.” Neste capítulo cuida-se de título à ordem representado por aquele que se transfere por endosso (art. 11 da Lei Uniforme). O endosso que menciona o nome do endossatário denomina-se endosso em preto, fato que significa que o título transferiu-se a determinada pessoa, a qual poderá, por sua vez, transferi-lo a outrem. Se, ao apor o endosso, o endossante não mencionar o nome do endossatário, esse endosso chama-se endosso em branco, ou seja, por se ignorar a quem foi ele endossado, o título se converte em título ao portador, como tal será transferido, o que não impede que, no curso da sua circulação, possa voltar a ser endossado em preto, com menção ao nome do endossatário, e vice-versa. § 1°: “Pode o endossante designar o endossatário, e para a validade do endosso, dado no verso do título, é suficiente a simples assinatura do endossante.” O dispositivo mostra que o endosso aposto no verso pode sê-lo em branco, o que não significa que possa ser em preto, com menção ao nome do endossatário. O problema reside em se saber qual a posição do endosso na face (anverso) do título, supondo-se que o seja em preto, em decorrência da interpretação do dispositivo. § 2°: “A transferência por endosso completa-se com tradição do título.” A interpretação do dispositivo revela que o endosso representa um ato pessoal, cuja validade e eficácia deve ser completada pela tradição do título, de cunho real, em relação a terceiros. O endosso não pode ser aposto fora do título, podendo, entretanto, sê-lo no alongamento, isto é, em uma folha colada ao mesmo, dele integrante. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 104/193 O Professor Bulgarelli admite o endosso dado por meio de escritura pública (op. cit., p. 173). Endosso dado a mais de uma pessoa. Quando o endosso é dado a mais de uma pessoa, a prática admitida por vários juristas conceituados, aquele que legitimamente possuir o título é o credor da obrigação; o que significa que só aquele a quem se deu a transferência da posse do título é o legitimado a cobrá-lo dos obrigados cambiários. § 3°: “Considera-se não escrito o endosso cancelado, total ou parcialmente.” A origem do dispositivo provém do art. 16 da Lei Uniforme de Genebra. A redação deste parágrafo terceiro contém uma imprecisão, ou seja, a de se tornar difícil aproveitar-se o endosso parcial. Ao se considerar não escrito o endosso cancelado, é o mesmo riscado, sem prejuízo da validade das demais obrigações cambiárias. Art. 911: “Considera-se legítimo possuidor o portador do título à ordem com série regular e ininterrupta de endossos ainda que o último seja em branco.” A regra contida neste artigo mostra, em primeiro lugar, que, ao se estabelecer a cadeia de endossos em preto, é necessário que o endossatário seguinte seja a pessoa cujo nome conste no título como tal. Se o título é endossado a Carlos, somente este é o legítimo endossatário. Se, porventura, em determinado endosso, não constar o nome do endossatário, denominado endosso em branco, como se viu, o título passa a circular ao portador, mesmo que seja este o último endosso. Do endosso, segundo Bulgarelli (loc. cit.) resulta não só as transferências da propriedade do título, mas também da garantia da realização pontual da prestação cambial, e, por força da garantia, o endossador assume em face dos endossatários posteriores a responsabilidade solidária pelo aceite (na letra de câmbio) e pelo pagamento da cambial (art. 15 da Lei Uniforme de Genebra). No endosso a prestação é indivisível, os credores são devedores uns dos outros, na ordem da sucessão dos endossos, e a anulação de qualquer das declarações cambiais, de nenhum modo afeta a validade ou eficácia de qualquer das outras. A obrigação do endossador é representada pela garantia da realidade do título, como pelo valor que ele representa. Parágrafo único do art. 911: “Aquele que paga o título está obrigado a verificar a regularidade da série de endossos, mas não a autenticidade das assinaturas.” A disposição em exame revela que o devedor do título, ao efetuar o seu pagamento, caso se trate de uma série de endossos em preto, ou seja, de endossos nos quais conste o nome do endossatário, deve verificar se o nome dos endossatários coincide com o seu portador, a fim de evitar a quebra da série de endossos. Assim, se, por exemplo, Francisco endossar o título a Mario, ao se transferir o título é necessário conste o nome de Mario, o endossatário. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 105/193 De resto, o devedor não é obrigado a saber se alguma das assinaturas é falsa. Art. 912: “Considera-se não escrita no endosso qualquer condição a que o subordine o endossante.” A capitulação dispõe que o endosso não pode subordinar-se a qualquer condição, pois a transmissão do título deve ser incondicionada (art. 12 da Lei Uniforme). Parágrafo único do art. 912: “É nulo o endosso parcial”. A regra provém do art. 12 da Lei Uniforme de Genebra. O art. 10, § 2° c/c o art. 13 do Decreto Lei nº 413, de 1969, sobre a cédula de crédito industrial admite o endosso parcial quando houver amortização da dívida. O mesmo princípio se aplica aos arts. 10, § 2° e 13 do Decreto Lei nº 167, de 1967,sobre a cédula de crédito rural. O Professor Bulgarelli (op. cit., p. 174) considera não se tratar de endosso nulo, mas de endosso ineficaz, não escrito, pelo simples fato de, em assim sendo, não estará interrompida a série de endossos, podendo o possuidor do título exigi-lo de qualquer dos demais coobrigados. O endosso parcial é riscado, sem que haja quebra da cadeia de endossos posteriores. Art. 913: “O endossatário do endosso em branco pode mudá-lo para endosso em preto, completando-o com o seu nome ou de terceiro; pode endossar novamente o título, em branco ou em preto; ou pode transferi-lo sem novo endosso.” A regra deste artigo demonstra que o credor, último endossatário em preto, pode endossá-lo em branco, convertendo em título ao portador; ou como portador do título, em decorrência de endosso em branco, endossá-lo em preto, fazendo inserir o nome do endossatário, pelo que o título passa a ser à ordem. Pode, finalmente, o endossatário em branco transferi-lo por tradição. Art. 914: “Ressalvada cláusula expressa em contrário, constante do endosso, não responde o endossante pelo cumprimento da prestação constante do título.” A disposição referida contraria todos os preceitos contidos no direito cambiário e a própria legislação, estando a merecer a crítica dos mais conceituados autores, a exemplo de Luiz Emigdio Rosa Jr. (Títulos de Crédito, Ed. Renovar, 2000, p. 214 e Newton De Lucca, Comentários ao Código Civil, Forense, XII, 2003, p. 275). § 1° do art. 914: “Assumindo responsabilidade pelo pagamento, o endossante se torna devedor solidário.” A solidariedade decorre da simples aposição da assinatura do endossatário no título. § 2° do art. 914: “Pagando o título, tem o endossante ação de regresso contra os coobrigados anteriores.” O dispositivo omitiu os respectivos avalistas e, também, o devedor principal e seu avalista. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 106/193 Art. 915: “O devedor, além das exceções fundadas nas relações pessoais que tiver com o portador, só poderá opor a este as exceções relativas à forma do título e ao seu conteúdo literal, à falsidade da própria assinatura, a defeito de capacidade ou de representação no momento da subscrição, e à falta de requisito necessário ao exercício da ação.” As relações pessoais do devedor contra o portador do título são aquelas que dizem respeito aos efeitos das obrigações, como o pagamento, a sub-rogação, a imputação do pagamento, a dação em pagamento, a novação, a compensação, a confusão e a remissão de dívida (art. 304 do Código Civil de 2002). Incluem-se nelas, ainda, o erro, a fraude, a violência, a causa ilícita nos títulos causais e a simulação. A forma do título e o seu conteúdo literal referem-se à literalidade da cambial, princípio essencial dos títulos de crédito. A falsidade da assinatura compreende a falsidade material e a ideológica. No que concerne à falta de requisito necessário ao direito de ação refere-se à legitimação ao autor como credor, à falta de posse da cambial, à falta ou nulidade, à prescrição, sem se falar nas defesas específicas do processo como a coisa julgada, a litispendência, a falta de capacidade processual, além de outras dessa natureza (Bulgarelli, op. cit., p. 242). Art. 916: “As exceções fundadas em relação do devedor com os portadores precedentes somente poderão ser por ele opostas ao portador, se este, ao adquirir o título, tiver agido de má-fé.” A má-fé, na redação do art. 17 da Lei Uniforme de Genebra, significa a ciência da ação em detrimento do devedor (agi sciemment au détriment du debiteur) considerado o momento da aquisição do título (Tullio Ascarelli, Teoria Geral dos Títulos de Crédito, 1969, pp. 293-294 sobre as defesas do réu). Art. 917: “A cláusula constitutiva de mandato, lançada no endosso, confere ao endossatário, o exercício dos direitos inerentes ao título, salvo restrição expressamente estatuída.” No endosso-mandato o endossatário é procurador do mandante e os poderes a ele conferidos são relativos ao direito cambiário, inerentes ao título de crédito A jurisprudência do STJ, in REsp. nº 265.432/RJ, DJ 16.11.2004, trata de um caso de endosso-mandato devidamente comprovado nos autos, no qual não responde o endossatário por protesto indevido, salvo se lhe era possível evitá-lo. A justificativa revela que, no endosso-mandato, não há transferência de crédito, de forma que o endossatário age na condição de mandatário do endossante, este, sim, o responsável pelo dano, a menos que o endossatário pudesse evitá-lo. § 1º: “O endossatário de endosso-mandato só pode endossar novamente o título na qualidade de procurador, com os mesmos poderes que recebeu.” O Código Civil autoriza o substabelecimento ou reendosso do título, porém dentro dos limites previstos no mandato. A razão está em que a atividade do endossatário-mandatário está adstrita aos poderes recebidos do endossante-mandante, mesmo no caso do 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 107/193 substabelecimento ou do reendosso do título. § 2°: “Com a morte ou a superveniente incapacidade do endossante, não perde eficácia o endosso-mandato.” A regra estatuída neste parágrafo revela o fato de o endossatário-mandatário ser obrigado a executar os poderes a ele conferidos, mesmo depois da morte ou incapacidade do endossante-mandante. § 3°: “Pode o devedor opor ao endossatário de endosso-mandato somente as exceções que tiver contra o endossante.” A razão do dispositivo encontra o seu fundamento na circunstância de o devedor nenhuma relação cambiária manter com o endossatário-mandatário, porém com endossante-mandante. Entre as sugestões de Fran Martins consta a de que o § 1° do art. 917 do Código Civil o endossatário por procuração só pode ultrapassar, mas não pode limitar no novo endosso os poderes que recebeu do endossante, pelo que sugeriu a supressão no § 1° do art. 917 (963 do Projeto) a locução: “com os mesmos poderes que recebeu do endossante” e no texto do art. 917 a substituição do vocábulo “inerentes” por “emergentes”. Art. 918: “A cláusula constitutiva de penhor, lançada no endosso, confere ao endossatário o exercício dos direitos inerentes ao título.” O penhor é uma garantia real, a qual, em se tratando de endosso-penhor, permite que o endossatário se torne credor do título, em que este é dado em caução, logo, não há transferência de sua propriedade, porquanto a cambial desempenha a função de garantia da dívida. § 1°: “O endossatário de endosso-penhor só pode endossar novamente o título na qualidade de procurador.” No caso não há endosso pleno com transferência da propriedade do título, por isso o novo endosso efetuado pelo endossatário opera este na qualidade de procurador do mandante (art. 19 da Lei Uniforme de Genebra). § 2°: “Não pode o devedor opor ao endossatário de endosso-penhor as exceções que tinha contra o endossante, salvo se aquele tiver agido de má-fé.” O motivo da disposição em exame envolve o fato de ser o endossatário mero credor pignoratício do endossante, por isso ele não entra na cadeia de endossos plenos apostos no título, além do mais, é de se aplicar à hipótese o princípio da inoponibilidade das exceções pessoais. A má-fé do endossante do devedor, conluiado com o credor-endossatário, por exemplo, pode permitir ao devedor-endossante invocar contra o seu credor- endossatário, as exceções que poderia levantar contra o seu endossante. Como o título documenta o direito de crédito, por força de sua incorporação, o penhor recai sobre aquele, como coisa corpórea, e não sobre os respectivos direitos (coisa incorpórea) (Maria Helena Diniz, Código Civil Anotado, 4ª ed., Saraiva, 1998, p. 610). O Código Civil de 2002, na redação do art. 1.458, prevê o penhor de título de crédito, mediante instrumento público ou particular ou endosso pignoratício,com a 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 108/193 tradição do título ao credor. Art. 919: “A aquisição de título à ordem, por meio diverso do endosso, tem efeito de cessão civil.” O dispositivo revela a intenção do legislador de distinguir entre a constituição da garantia do penhor por meio do endosso-penhor e outras formas de transmissão do título. A nota promissória vinculada a um contrato denomina-se nota promissória pro solvendo. A cobrança desse tipo de promissória, ao contrário da promissória comum ou pro soluto, permite ao devedor alegar as exceções da causa, entre elas a exceção de contrato não cumprido. Se, porventura, o título for endossado a terceiro credor, não pode ser exercitada contra ele a exceção da causa, exceto se forem inseridas as cláusulas “não à ordem” ou “proibitiva de endosso” dos arts. 11, 2ª al. e 15, 2ª al., da Lei Uniforme de Genebra. Tais cláusulas atribuem ao endosso a conotação de cessão de crédito regida pelos arts. 286 a 298 do Código Civil de 2002. Outra consequência é representada pelo fato de não garantir o pagamento às pessoas às quais a letra for posteriormente endossada. Dessa forma, se o comprador de uma unidade em um prédio de apartamentos emitir notas promissórias vinculadas ao contrato de construção e venda do apartamento, caso a incorporadora suspenda a construção do edifício, ao lhe serem cobrados os títulos citados, pode invocar, entre as exceções, a de que o prédio não foi totalmente edificado; não, porém, se as promissórias forem endossadas, por exemplo, a um banco, contra o qual não é permitido ao comprador da unidade invocar essa cláusula. Contudo, se, nas promissórias vinculadas for inserida alguma das cláusulas acima referidas, é assegurado ao adquirente da unidade arguir a exceção da causa, pelo fato de a transmissão das promissórias vinculadas operar-se como cessão civil de crédito, no caso em que o comprador da unidade pode levantar como causa a invocação de não ter o construtor e incorporador terminado a obra. Nessa hipótese, a transmissão dos títulos atua como cessão de direito, e não como mero endosso. Art. 920: “O endosso posterior ao vencimento produz os mesmos efeitos do anterior.” A redação do dispositivo provém do art. 20, 1ª al., da Lei Uniforme de Genebra. A redação do Código Civil omitiu a circunstância de o endosso posterior ao protesto por falta de pagamento do título, após a expiração do termo fixado para se lavrar o protesto, só produz efeito de cessão ordinária de crédito (Lei italiana, art. 25). Art. 921: “É título nominativo o emitido em favor de pessoa cujo nome conste no registro do emitente.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 109/193 Assim entendido, o título nominativo transfere-se por meio de registro no livro próprio da entidade emissora, e só se completa após a realização desse registro. Exemplo claro disso pode ser encontrado na emissão de ações nominativas de sociedade anônima, consideradas valores mobiliários, segundo dispõe o art. 2° da Lei nº 6.385, de 1976, cuja transferência opera-se mediante registro no livro de ações nominativas da sociedade anônima. Quanto às ações escriturais emitidas por sociedade anônima, na forma do art. 34 da Lei nº 6.404/76 (art. 41 da Lei nº 10.303, de 2001) são despidas de cártula e têm a sua propriedade comprovada através de lançamento efetuado por instituição depositária, em seus livros, a débito da conta de ações do adquirente, à vista de ordem escrita do alienante, ou de autorização ou de ordem judicial, em documento hábil que ficará em poder da instituição ou pela exibição do extrato de conta do depósito das ações escriturais. Art. 922: “Transfere-se o título nominativo mediante termo, em registro do emitente, assinado pelo proprietário e pelo adquirente.” Os títulos nominativos têm, dessarte, duas características principais: a sua forma de transmissão: mediante termo em registro próprio e a circunstância de conter o nome do seu proprietário. Art. 923: “O título nominativo também pode ser transferido por endosso que contenha o nome do endossatário.” A capitulação em exame permite a transformação do título nominativo em título à ordem, mediante endosso em preto, no qual deve constar o nome do endossatário. É, entretanto, vedado o endosso em branco, no qual o título é transmitido ao portador, para cuja existência é imprescindível a existência de lei que o autorize. A transformação referida não pode prejudicar direitos de terceiros. Art. 923, § 1°: “A transferência mediante endosso só tem eficácia perante o emitente, uma vez feita a competente averbação em seu registro, podendo o emitente exigir do endossatário que comprove a autenticidade da assinatura do endossante.” A disposição em causa permite ao emitente do título que exija do endossatário que a assinatura do endossante é autêntica, isto é, que não é falsa. Art. 923, § 2°: “O endossatário, legitimado por série regular e ininterrupta de endossos, tem o direito de obter a averbação no registro do emitente, comprovada a autenticidade das assinaturas de todos os endossantes.” A regra acima aplica-se à hipótese de vários endossos ininterruptos e regulares. Art. 923, § 3°: “Caso o título original contenha o nome do primitivo proprietário, tem direito o adquirente a obter do emitente novo título, em seu nome, devendo a emissão do novo título constar no registro do emitente.” Art. 924: “Ressalvada proibição legal, pode o título nominativo ser transformado em à ordem ou ao portador, a pedido do proprietário e à sua custa.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 110/193 Consoante já anotamos acima, a transformação do título nominativo em título ao portador na falta de lei que o autorize ou por endosso em branco, quando o título passa a ser transmitido ao portador. Art.925: “Fica desonerado de responsabilidade o emitente que, de boa-fé fizer a transferência pelos modos indicados nos artigos antecedentes.” A disposição em exame é de interpretação controvertida, em considerando o fato de se tratar de imperativa ou proibitiva não importa saber-se da boa-fé do interessado: se certa pessoa emite título ao portador mediante vedação legal, a sua boa-fé é irrelevante. Art. 926: “Qualquer negócio ou medida judicial, que tenha por objeto o título, só produz efeito perante o emitente ou terceiros uma vez feita a competente averbação no registro do emitente.” A capitulação exige a averbação no registro não só do título como, de resto, do negócio jurídico ou medida judicial que tenha por objeto esse título. 86. PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA Art. 206. Prescreve: § 3º Em três anos: VIII – “A pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial.” A disposição atribui, como regra geral, a prescrição das obrigações cambiárias em três anos. Em verdade, são vários os prazos prescricionais na Lei Uniforme: art. 70, 1ª al., em três anos; 2ª alínea do mesmo artigo, em um ano; art. 70, 3ª al., em seis meses. No cheque, a Lei nº 7.357, de 1985, no seu art. 59, estatui que a prescrição do exercício do direito à execução do cheque se dá em seis meses contados da expiração do prazo de apresentação, pela ação referida no art. 47 da citada Lei, em favor do portador. O cheque deve ser apresentado para pagamento a contar do dia da emissão, no prazo de trinta dias, quando emitido no lugar onde houver de ser pago, e de sessenta dias, quando emitido em outro lugar do País ou no exterior. A prescrição e a decadência são institutos tratados em direito civil, em geral, nos seguintes artigos: 1°– no art. 206, VIII , com a seguinte redação: “A pretensão para haver o pagamento de título de crédito,a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial”. Tal disposição alcança os títulos de crédito, de um modo geral, e afronta as capitulações contidas na legislação extravagante. É sabido que a ação direta de cambial pela Convenção de Genebra prescreve em três anos contra o aceitante da letra de câmbio e o emitente da nota promissória (art. 70, alínea primeira). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 111/193 As ações de regresso prescrevem, respectivamente, em um ano e um ano, contra um coobrigado e entre coobrigados no art. 70, alíneas 2ª e 3ª, da Convenção de Genebra. Para o cheque, segundo a Lei nº 7.357, de 1985, o seu art. 59 estatui que a prescrição na ação de execução do cheque se dá em 6 (seis) meses contados da expiração do prazo de sua apresentação. O cheque deve ser apresentado para cobrança a contar do dia da emissão, no prazo de trinta dias, quando emitido no lugar onde houver de ser pago e de sessenta dias quando emitido em outro lugar do País ou no exterior (art. 33 da mesma lei). A ação de regresso, nos termos do parágrafo único do art. 47 de um obrigado contra outro, prescreve em seis meses contados do dia em que o obrigado pagou o cheque ou do dia em que foi demandado. Quanto à interrupção da prescrição, o art. 60, da mesma lei, reza que “a interrupção produz efeito somente contra o obrigado em relação ao qual foi promovido o ato interruptivo.” Esta disposição está de acordo com o art. 204 do Código Civil de 2002. Diante do estabelecido no art. 903 do Código Civil de 2002, devem prevalecer as disposições da legislação extravagante. Para os casos anteriores ao Código Civil, vale a norma de transição do artigo 2.028 deste Código, bem como os demais dispositivos aplicáveis de direito intertemporal. Por derradeiro, é de sobrelevada importância discutir a instrumentalização da ação de enriquecimento ilícito para haver o pagamento do título. Embora fosse essa a praxe na vigência da antiga legislação, atualmente encontra óbice no artigo 884 do Novo Código. Este dispositivo prevê o caráter subsidiário da ação de enriquecimento ilícito, que somente se configura adequada na ausência de outra específica. Ora, como o Código Civil novo traz a previsão do artigo 206, fica sem vez a ação de enriquecimento sem causa. Em arremate, anota-se a lição de Nelson Eizirik: “Contudo, o Código Civil não esclarece se tais prazos [do artigo 206] seriam aplicáveis aos demais títulos de crédito, em relação aos quais não haja, na lei especial respectiva, previsão expressa da possibilidade de ajuizamento da ação de enriquecimento sem causa ou de qualquer outra ação causal pelo procedimento de conhecimento, como ocorre com as debêntures”. VENCIMENTO 87. O FIM DO PRAZO PARA A UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO Consiste o vencimento da letra no término do prazo estabelecido para a utilização do crédito. Atingido esse momento, torna-se a letra exigível, devendo, portanto, ser satisfeita a ordem nela contida. Só então poderá o portador requerer a efetivação da ordem; até o vencimento foi assegurado, ou diretamente, se a letra foi aceita, ou indiretamente, pelas assinaturas dos que intervieram no título, que, nessa época, a importância mencionada na letra seria paga à pessoa que fosse sua legítima detentora. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 112/193 Tem-se, então, que o vencimento é o momento em que o cumprimento da ordem contida na letra deve ser efetivado. Baseado na certeza de que tal aconteceria, o título preencheu o seu papel mobilizador do crédito, circulando, passando a sucessivas pessoas. Pode acontecer não tenha a letra saído das mãos do tomador mas, ainda assim, representou uma operação de crédito. Foi confiando na realização da ordem dada que o tomador recebeu a letra do sacador; e se este se designou tomador, tendo a letra sido aceita, ainda assim perdura a sua natureza de título de crédito, já que o aceitante se constituiu devedor, com o aceite, da importância no título mencionada, uma vez que o sacador tem ação contra o aceitante. Naturalmente, se o sacador se nomeia tomador e sacado, ao mesmo tempo, como permite a Lei Uniforme, não tendo a letra circulado, nenhum efeito produz como mobilizadora do crédito. Se, contudo, sendo sacador e tomador, transfere a letra a outra pessoa, ainda mesmo que essa não a ponha em circulação, o título preencheu sua finalidade, já que houve utilização do crédito com a transferência da letra a um terceiro. Podendo a letra ser passada de várias modalidades, a época de seu vencimento varia segundo cada uma dessas espécies. Esse é o chamado vencimento ordinário da letra, dependendo, naturalmente, da modalidade de cada uma. Mas, além do vencimento ordinário que se opera quando o título atinge o prazo nele marcado, casos existem em que, ocorrendo fatos estranhos à vida normal da letra, o portador pode exigir, antes do vencimento, o pagamento do título por parte dos coobrigados. A doutrina brasileira, baseada na Lei nº 2.044, que julgava vencida a letra quando protestada por falta ou recusa do aceite ou pela falência do aceitante (art. 19), chamava a esse vencimento de vencimento extraordinário. A Lei Uniforme seguiu orientação diferente, não considerando vencida a letra em caso de protesto por falta ou recusa do aceite ou pela declaração da falência do aceitante, operando-se o vencimento da letra sempre na data marcada. Mas, havendo, antes do vencimento, recusa total ou parcial do aceite, falência do sacado, aceitante ou não, suspensão de pagamentos do mesmo, ou promoção, mesmo sem resultado, de execução dos bens do sacado, e, ainda, nos casos de falência do sacador, sendo a letra não aceitável, o portador da letra pode exercer os seus direitos de ação contra os endossantes, sacador e outros coobrigados (Lei Uniforme, art. 43). Isso significa que, apesar de não ser a letra considerada vencida (como ocorria na lei brasileira), o portador poderá exercer o direito regressivo na ocorrência de qualquer dos fatos assinalados. Atente-se, assim, que, pela Lei Uniforme, não há vencimento antecipado ou extraordinário da letra, vencendo-se essa sempre no prazo que dela constar; mas, naquelas circunstâncias, o portador pode exercer os seus direitos de regresso mesmo antes de vencida a letra, conforme expressamente estatui o art. 43 da Lei Uniforme. 88. MODALIDADES DE VENCIMENTO A letra de câmbio, como já foi visto (supra, nos 32 e segs.), pode ser passada à vista, a dia certo, a certo tempo da vista e a um certo tempo da data (Lei Uniforme, art. 33). Para cada uma dessas modalidades há uma época prevista de vencimento. 88.1. Vencimento da letra à vista Sendo a letra passada à vista, o seu vencimento se verifica no ato da apresentação ao sacado (Lei Uniforme, art. 34). Entende-se por vista justamente essa apresentação, quando o sacado legalmente toma conhecimento do título. Aí 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 113/193 se operam dois fatos simultâneos: tomando conhecimento da ordem o sacado, imediatamente, decidirá se deseja acatá-la ou não. Acatando-a, paga a letra, encerrando-se, assim, o título como cambial, já que, se tiver de receber do sacador a importância que pagou, o aceitante não o fará mediante ação cambial e sim ação de direito comum. A letra, em tal caso, já não será um título executivo, característica que lhe dá força especial, mas um simples documento probatório, capaz de justificar a ação do aceitante-pagante contra o sacador, mas sujeito a prova em contrário. Não valerá mais o título por si mesmo, per se stante, mas apenas como um meio de comprovar as alegativas do aceitante contra o sacador. Se, entretanto, o sacado não desejar cumprir a ordem que lhe foi dada, não pagaráqualquer maneira (art. 354, III), e que o sacador tivesse suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ao tempo do vencimento (art. 366). Do conjunto dos dispositivos do Código Comercial conclui- se que a letra de câmbio era, por ele, tratada como o instrumento de um contrato de câmbio, servindo para a remessa de valores de um lugar para outro, segundo a doutrina do Código de Comércio francês. Essa orientação foi, contudo, inteiramente modificada pela lei que derrogou o Tít. XVI do Código Comercial, número 2.044, de 31 de dezembro de 1908, que seguiu a doutrina inicialmente emanada da lei alemã e depois ampliada e atualizada por congressos e convenções internacionais, de modo a que a letra de câmbio pudesse melhormente atender às necessidades econômicas dos povos. 17. DECRETO Nº 2.044, DE 1908 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 9/193 Enquanto estiveram em vigor os dispositivos do Código Comercial, coube principalmente à jurisprudência traçar normas para melhor adaptar a letra de câmbio aos interesses do comércio, algumas vezes até mesmo violando a lei como, em parecer de 26 de junho de 1907, se expressava a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, de que foi relator João Luiz Alves. Apesar dessa notável contribuição dos nossos juízes e tribunais, cada dia se tornava mais patente a necessidade de serem modificados os dispositivos do Código Comercial relativos a tão importante matéria. No exterior, vários países que, inicialmente, haviam seguido a orientação francesa, alteraram ou substituíram suas leis, abraçando a doutrina alemã por ser a que melhor atendia às necessidades do comércio. Além disso, inúmeras foram as obras doutrinárias que surgiram apreciando a nova conceituação da letra de câmbio, sendo o assunto, em detalhes, debatido em vários congressos internacionais. No Brasil, sentiu-se a necessidade da reforma do Código nesse tocante, mas o movimento, a tal respeito, só veio a tomar corpo depois da publicação, em 1905, do livro Direito Cambial Brasileiro, do desembargador José Antônio Saraiva, professor na Faculdade de Direito de Minas Gerais. Nessa obra capital para a atualização do nosso direito cambiário, o ilustre mestre mineiro defendia a doutrina alemã que conceituava a letra de câmbio como um título emanado da vontade unilateral do subscritor, mostrando-se perfeitamente a par dos mais modernos conhecimentos sobre o assunto. Convencido da necessidade de ser modificado o Código Comercial no capítulo relativo à letra de câmbio, o então deputado federal Justiniano de Serpa apresentou à Câmara dos Deputados, em 7 de novembro de 1906, projeto de lei modificando o disposto nos arts. 354, 361, 362, 371, 377, 382, 394, 412, 425, 426 e 427 do Código Comercial. As modificações propostas, apesar de a melhorarem, não alteravam, contudo, substancialmente, a doutrina do Código, uma vez que ainda ficava patente a influência francesa, sobretudo pela manutenção do instituto da provisão, que dava à letra de câmbio o caráter de instrumento de um contrato. Isso sentiu a Comissão de Legislação e Justiça da Câmara que, manifestando o desejo de que o assunto fosse tratado não com medidas paliativas mas de maneira mais profunda, ofereceu um substitutivo ao projeto, sendo autor do mesmo o Dr. João Luiz Alves. Para a feitura desse substitutivo foi especialmente ouvido o Desembargador José Antônio Saraiva, “autor do mais profundo estudo que, sobre a matéria, enriquece a nossa literatura jurídica”, segundo o relator. Esse substitutivo, com ligeiras modificações, foi aprovado pela Câmara e pelo Senado, transformando-se no Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908. Seguiu o Decreto nº 2.044 a orientação mais atualizada na época sobre a letra de câmbio, caracterizando-a, segundo a doutrina alemã, como um título autônomo, que vale por si mesmo (per se stante), oriundo de um ato unilateral da vontade do subscritor que, por isso mesmo, pode designar-se beneficiário (tomador) da ordem dada, o que não poderia verificar-se no sistema contratual do Código, já que a ninguém é dado contratar consigo mesmo. Igualmente, segundo o Decreto nº 2.044, não era a letra de câmbio instrumento para transporte de valores de um lugar para outro, podendo, assim, ser sacada para pagamento na mesma praça, o que facilitava enormemente sua circulação. Ainda, tornou-se desnecessária a provisão, feita pelo sacador em mãos do sacado, ao tempo do vencimento, bem como a inclusão no título da expressão valor recebido ou em conta, exigida pelos arts. 366 e 354, III, do Código Comercial, já que a letra era um instrumento 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 10/193 destinado a mobilizar o crédito, tendo nesse a sua razão de ser. Os direitos que a letra conferia ao portador não tinham, assim, dependência de qualquer negócio preexistente, ou seja, da relação fundamental. E por tal motivo a falsidade ou nulidade de qualquer assinatura anterior não invalidava a letra, não sendo, portanto, oponíveis exceções aos possuidores anteriores, visto como “as obrigações cambiais são autônomas e independentes umas das outras” (Decreto nº 2.044, art. 43). Apesar de ter sido inicialmente recebida com restrições, até mesmo com oposição, pelo comércio em geral (a Associação Comercial do Rio de Janeiro chegou a reunir-se para declarar sua repulsa à nova lei), o Decreto nº 2.044 conseguiu, com o decorrer dos anos, demonstrar que o legislador brasileiro captara perfeitamente as mais modernas teorias existentes sobre o direito cambiário, a tal ponto o fazendo que ainda hoje os seus princípios gerais estão em perfeita consonância com a melhor doutrina que, em todos os países, norteia o assunto. 18. ADESÃO DO BRASIL À LEI UNIFORME O Brasil, através de delegados especiais, participou das principais Conferências internacionais para a unificação do direito sobre a letra de câmbio e a nota promissória. Em Haia, nas Conferências de 1910 e 1912, foi o Brasil representado pelo Dr. Rodrigo Otávio, que as reuniões apresentou ao Ministro das Relações Exteriores dois preciosos “Relatórios”, um em 1911 e outro em 1914. Em Genebra, em 1930, foi nosso representante, como plenipotenciário, o Dr. Deoclécio de Campos, adido comercial em Roma e antigo professor na Faculdade de Direito do Pará. Subscrevendo o Governo brasileiro a Convenção de 7 de junho de 1930 para a adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, a adesão à mesma só se fez em 26 de agosto de 1942, por nota da Legação brasileira em Berna ao Secretário-Geral da Liga das Nações. A ratificação legislativa necessária para a entrada em vigor, no país, da Convenção, foi feita 22 anos depois da adesão, ou seja, em 8 de setembro de 1964, através do Decreto Legislativo nº 54. Finalmente, a promulgação da Convenção se operou por intermédio do Decreto Executivo nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, que promulgou, igualmente, as duas outras Convenções realizadas em Genebra, uma destinada a regular conflitos de leis em matéria de letras de câmbio e notas promissórias, e a outra concernente ao imposto do selo em matéria de letras de câmbio e notas promissórias. 19. A VIGÊNCIA DA LEI UNIFORME NO DIREITO BRASILEIRO. REVOGAÇÃO DO DECRETO Nº 2.044 Após a promulgação do Decreto Executivo nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, a doutrina e a jurisprudência brasileiras atravessaram uma fase de dúvidas sobre se a Lei Uniforme de Genebra estaria ou não em vigor, revogada, assim, o Decreto nº 2.044, de 31 de dezembro de 1908. Eminentes juristas e respeitáveis tribunais se manifestaram a respeito, admitindo uns a tese de que a Lei Uniforme passara a constituir direito interno brasileiro, revogando o Decreto nº 2.044, outros julgando que fora aceita apenas a Convenção para a adoção de uma lei sobre letras de câmbio e notas promissórias, devendo,o título, devendo esse ser protestado para, comprovada essa recusa do pagamento, ter o portador direito regressivo contra endossadores, sacador e avalistas. Alguns autores indagam se não seria permitido ao sacado aceitar a letra à vista, diferindo o pagamento para época posterior àquela em que foi apresentada. A nosso ver, tal aceite não deve ser admitido, pois contraria os dizeres taxativos da lei brasileira e da Lei Uniforme. De fato, o art. 17, caput, da revogada Lei nº 2.044, dispunha, expressamente, que “A letra à vista vence-se no ato da apresentação ao sacado”; no mesmo sentido estatui o art. 34 da Lei Uniforme: “a letra à vista é pagável à apresentação”. Feita essa apresentação, não há possibilidade de aceite; ainda mesmo que o título seja pago na hora, o aceite se torna desnecessário, já que o pagamento foi efetuado. Em princípio, não deveria haver prazo para as letras à vista serem apresentadas ao sacado, facultando-se ao portador fazê-lo quando a apresentação mais lhe conviesse. Contudo, a fim de evitar a perpetuidade da letra, a lei adota medidas no sentido de, decorrido um certo período, ser necessária essa apresentação, sob pena de perder o portador o direito de agir contra os coobrigados anteriores. Assim, do contexto poderá constar um prazo para a apresentação da letra ao sacado, e se tal acontecer o portador está obrigado a cumprir essa cláusula, sob pena de perda do direito regressivo. Se, entretanto, o contexto nada dispuser a respeito, a letra à vista deve ser apresentada para pagamento dentro do prazo de 12 meses, contados da data de sua emissão. Esse prazo, segundo a Lei Uniforme, pode ser reduzido ou aumentado pelo sacador. E os endossantes também poderão encurtá-lo (Lei Uniforme, art. 34). Também estatui a Lei Uniforme (art. 34, 2ª al.), que o sacador pode estipular que uma letra à vista não deva ser apresentada a pagamento antes de uma certa data, contando-se, neste caso, o prazo de um ano para a apresentação obrigatória a partir dessa data. Há, assim, como se vê um prolongamento do prazo para a apresentação da letra, diverso daquele outro já permitido pela lei (art. 34, 1ª al.), porque há um certo espaço de tempo em que o portador, por proibição do sacador, não pode apresentar a letra ao sacado. De um certo modo, se bem que indiretamente, essa permissão já era de acatar-se pela lei brasileira, em face de haver a mesma declarado que “a letra à vista deve ser apresentada a pagamento dentro do prazo nela marcado” (art. 21). Essa conclusão, contudo, poderia gerar confusão, admitindo interpretações contrárias, pois a lei não trouxe dispositivo expresso. Melhor agiu a Lei Uniforme, esclarecendo de maneira clara a possibilidade de o sacador poder proibir a apresentação da letra à vista, para pagamento, durante um certo espaço de tempo. Se a letra não contiver, no contexto, época de vencimento, é considerada à vista e vence-se na sua apresentação ao sacado (Lei Uniforme, art. 2º, 2ª al.). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 114/193 Apresentada e não paga a letra à vista, o portador comprovará o não pagamento mediante um protesto (Lei Uniforme, art. 44, 1ª al.). 88.2. Vencimento da letra a dia certo Pode, igualmente, a letra de câmbio ser passada a dia certo e essa é, aliás, a modalidade mais comum desses títulos de crédito. Em tal caso, o vencimento da letra se dá no dia estipulado. Se esse dia for feriado legal ou domingo, o vencimento ainda assim nele decorrerá, mas a apresentação da letra ao sacado ou aceitante, para pagamento, será feita no primeiro dia útil seguinte. Se, contudo, sobrevier caso fortuito ou de força maior, a letra, apesar de considerar-se vencida no dia nela marcado, deverá ser apresentada para pagamento logo que cessem esses impedimentos (Lei Uniforme, art. 54, 1ª e 2ª alíneas). Prolongando-se o caso de força maior por mais de 30 dias a contar da data do vencimento, o portador pode promover as ações que lhe couber independente de apresentação e protesto (art. 54, 4ª al.). Se uma letra é emitida para ser paga em lugar em que o calendário é diferente daquele do lugar da emissão, a data do seu vencimento deve ser considerada como fixada de acordo com o calendário do lugar do pagamento. Essa regra, contudo, só se observará se da letra não constar uma cláusula que indique que o prazo para vencimento da letra se conta de modo diferente. O simples enunciado do título, caso não exista cláusula expressa, pode servir para derrogar o princípio acima mencionado, desde que indique a intenção de serem adotadas regras diferentes daquelas estipuladas pela lei (Lei Uniforme, art. 37, 1ª e 4ª alíneas). A lei brasileira tratava do assunto de modo diverso, tomando por base, para o vencimento das letras em lugares em que os calendários são diferentes, o calendário gregoriano usado por quase todos os países civilizados do mundo. Dizia a Lei nº 2.044 que, se a letra fosse sacada em país onde vigorasse outro calendário que não o gregoriano, não sendo declarado qual o calendário adotado, para saber-se a data do vencimento contavam-se os dias pelo calendário gregoriano a partir do dia correspondente ao da emissão da letra pelo outro calendário (art. 18). Adotado outro calendário, por disposição expressa no título, ainda assim a contagem do prazo se faria pelo calendário gregoriano, alterando- se, desse modo, a data do vencimento constante do título, uma vez que não correspondem os dias dos calendários diferentes. O sistema da Lei Uniforme, como se vê, modificou o disposto na lei brasileira. 88.3. Vencimento da letra a certo termo da data Se a letra é passada a certo termo da data tem o seu vencimento no último dia do prazo, não se contando, contudo, o dia em que a letra foi emitida (Lei Uniforme, art. 73). Assim, se o título é sacado para vencer-se a noventa dias da data, estando assinado de primeiro de janeiro, noventa dias devem ser contados a partir do dia dois de janeiro. O prazo é contado dia a dia, incluindo domingos e feriados. Desse modo, aquela letra, emitida a primeiro de janeiro para vencer-se a noventa dias da data, terá o seu vencimento no dia primeiro de abril, ou seja, noventa dias contados a partir de dois de janeiro, se o ano não for bissexto; se o for, o vencimento se dará a trinta e um de março, já que foi acrescido no prazo o dia vinte e nove de fevereiro. Dizia a lei brasileira (art. 17) que “a letra a semanas, meses ou anos da data (ou da vista) vence-se no dia da semana, mês ou ano do pagamento correspondente 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 115/193 ao dia do saque (ou ao dia do aceite). Na falta do dia correspondente, vence-se no último dia do mês do pagamento”. A Lei Uniforme tratou do assunto (art. 36) com maiores detalhes, focalizando várias hipóteses usuais no tráfico comercial. Assim, estatuiu que se uma letra é sacada a um ou mais meses da data ou da vista, o seu vencimento se verificará na data correspondente do mês em que se deve efetuar o pagamento. Caso nesse mês não haja data correspondente à do saque ou da vista, o vencimento será no último dia do mês em que o pagamento se deve efetuar. Por outro lado, se uma letra é sacada para pagamento a um ou mais meses e meio da data ou da vista, contam-se em primeiro lugar os meses inteiros e em seguida o “meio mês”, que, em qualquer hipótese (mesmo que esse “meio mês” se refira a fevereiro, que normalmente só tem 28 dias), deve ser sempre um período de quinze dias. Sendo o vencimento fixado para o “princípio”, o “meado” ou o “fim do mês”, essas expressões devem ser entendidas como o dia primeiro, o dia quinze e o último dia do mês. Por último, quando constam da letra expressões como “oito dias” ou “quinze dias”, devem ser contadas como oito dias e quinze dias efetivos e não uma ou duas semanas. Os detalhes da Lei Uniforme esclarecem decontudo, essa nova lei, cujo texto deveria ser semelhante ao da Lei Uniforme, escoimado das reservas feitas pelo Governo Brasileiro, ser discutida e aprovada pelo Congresso. Dentre os que, desde o início aceitaram a Lei Uniforme como integrante do direito interno brasileiro, revogando e substituindo o Decreto nº 2.044, destacaram-se o 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 11/193 Dr. Antônio Mercado Júnior, que, a respeito, apresentou excelentes estudos no Instituto de Direito Comparado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, estudos mais tarde publicados no livro Nova Lei Cambial e Nova Lei do Cheque (Saraiva, São Paulo, 1966), e os eminentes professores Oscar Barreto Filho, Theophilo de Azevedo Santos e Vicente Marotta Rangel que, em substanciosos trabalhos, opinaram pela inclusão da Lei Uniforme no direito interno brasileiro. Em posição contrária colocaram-se também respeitáveis estudiosos, entre os quais o mestre José Maria Whitaker e o Professor Gastão de Moura Maia Filho. Por outro lado, enquanto a doutrina discutia sobre a integração ou não da Lei Uniforme no direito brasileiro, divergiam os tribunais a respeito. Enquanto o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em várias decisões, seguindo a lição do Professor Lélio Candiota de Campos, da Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul, aceitava a Lei Uniforme como integrada no nosso direito, o Tribunal de Alçada de São Paulo seguia orientação oposta, admitindo a permanência do Decreto nº 2.044. Levado o caso ao Supremo Tribunal Federal, esse propendia pela aceitação da Lei Uniforme sem, contudo, se definir claramente. Para complicar mais ainda a situação, uma terceira corrente surgiu, patrocinada pelos eminentes Professores J. C. de Sampaio Lacerda e Rodolfo Araújo com o apoio do Tribunal de Alçada de São Paulo (Ac. de 6 de novembro de 1960, da 6ª Câmara Cível, apel. nº 127.161), admitindo que a Lei Uniforme não revogou a lei brasileira sobre a letra de câmbio e notas promissórias, valendo, entretanto, nas relações internacionais. Nessa controvérsia, de um certo modo aflitiva para uma verdadeira orientação sobre se estava ou não em vigor, no Brasil, como lei interna, revogada assim, o Decreto nº 2.044, a Lei Uniforme de Genebra, foi o Poder Executivo chamado a definir-se, através da consulta feita à Consultoria-Geral da República pelo Banco do Brasil e Ministério da Fazenda. Em longo e brilhante Parecer, o então Consultor- Geral da República, Professor Adroaldo Mesquita da Costa, opinou pela adoção, entre nós, da Lei Uniforme, revogando, assim, o Decreto nº 2.044. O Parecer, aprovado pelo Sr. Presidente da República e publicado no Diário Oficial da União de 26 de setembro de 1968, foi taxativo ao afirmar: “Estão em vigor no Brasil a Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, assinada em Genebra em 7 de junho de 1930, e a Lei Uniforme sobre Cheque, ali assinada a 19 de março de 1931, ambas com as necessárias adaptações de seus textos aos textos ainda vigentes de nosso direito e a elas anteriores, em face das reservas a elas oferecidas pelo Brasil, no momento em que a elas aderiu.” Mas a verdade é que nem mesmo com o Parecer do Consultor-Geral da República foi aceita a inclusão da Lei Uniforme como direito interno brasileiro. Continuaram a circular no mercado de capital, com o beneplácito do Banco Central do Brasil, letras de câmbio ao portador, em flagrante desrespeito à Lei Uniforme, que não as permite. O VII Congresso Nacional de Bancos, reunido em Curitiba, em 1969, se bem que propendesse pela adoção de Lei Uniforme, concluiu por pedir a elaboração de uma nova lei cambiária, que seguisse os trâmites legais, reconhecendo que o Parecer do Consultor-Geral da República era meramente opinativo, só ao Supremo Tribunal Federal cabendo dar um pronunciamento definitivo sobre a questão, o que não fora feito até então. E mesmo publicações mais recentes, de mestres abalizados, como a obra do Professor J. Eunápio Borges, Títulos de Crédito (Forense, 1971), mantinham a opinião de que a Lei Uniforme não revogara o Decreto nº 2.044, continuando esta em pleno vigor. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 12/193 O impasse foi resolvido com a decisão do Supremo Tribunal Federal constante do Acórdão de 4 de agosto de 1971, proferido no Recurso Extraordinário nº 71.154, do Paraná, de que foi relator o eminente Ministro Oswaldo Trigueiro e aceito pela unanimidade de seus pares. Referindo-se o pleito a um caso de prescrição do cheque, cujo prazo na Lei Uniforme diverge do da lei brasileira, depois de estudar o problema da vigência ou não da Lei Uniforme no direito brasileiro, acentuando, inclusive, a atitude do Supremo, que até então não tomara decisão definitiva, afirma o voto do Relator, aceito unanimemente: “Quanto ao direito brasileiro, não me parece razoável que a validade dos tratados fique condicionada à dupla manifestação do Congresso, exigência que nenhuma das nossas Constituições jamais prescreveu. Por outro lado, acho que, em virtude dos preceitos constitucionais anteriormente citados, a definitiva aprovação do tratado, pelo Congresso Nacional, revoga as disposições em contrário da legislação ordinária”. A partir de então passou a ser por todos aceita a Lei Uniforme de Genebra sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias como a reguladora desses títulos no Brasil. 20. RESERVAS DO GOVERNO BRASILEIRO À LEI UNIFORME Segundo o art. 1º da Convenção para a adoção de uma Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias, as Altas Partes Contratantes têm a permissão de formular certas reservas ao disposto no texto legal, em tal caso atribuindo-se o direito de dispor, com normas próprias, sobre a matéria não aceita. As reservas serão formuladas por ocasião da ratificação ou adesão à Convenção, e serão escolhidas entre as mencionadas no Anexo II da referida Convenção. Ao promulgar a adesão à Convenção de Genebra, pelo Decreto Executivo nº 57.663, de 24 de janeiro de 1966, o Governo brasileiro formulou reservas a vários dispositivos da lei, dentre as enumeradas no Anexo II da Convenção. Isso significa que, em vigor o texto de Genebra, as matérias objeto das reservas são, contudo, reguladas por lei nacional, não se aplicando no Brasil o texto de Genebra na sua totalidade. As reservas foram feitas aos arts. 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 13, 15, 16, 17, 19 e 20 do Anexo II. Sobre cada uma delas resumidamente falaremos a seguir. 20.1. Reserva ao art. 2º do Anexo II – Falta de assinatura do próprio punho do obrigado no título O art. 2º do Anexo II da Convenção dispõe que: “Qualquer das Altas Partes Contratantes tem, pelo que respeita às obrigações contraídas em matéria de letras no seu território, a faculdade de determinar de que maneira pode ser suprida a falta de assinatura, desde que por uma declaração autêntica escrita na letra se possa constatar a vontade daquele que deveria ter assinado”. A reserva enseja que a assinatura seja suprida, isto é, substituída por outro modo de identificação do signatário que não seja o seu próprio nome. Deve-se essa reserva ao fato de, em certos países, como o Japão, a Índia, o Egito e a Turquia, ser possível subscrever-se a letra de câmbio com um sinal qualquer que seja considerado como o nome da pessoa, ou por um carimbo ou mesmo pela impressão digital; do mesmo modo, como acontecia na Espanha e no Brasil, a assinatura podia ser feita por mandatário, tendo validade legal. Considerando que 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 13/193 tal assunto deve ser resolvido por cada país, a Conferência de Genebra incluiu, no Anexo II, a faculdade de, utilizando da reserva, disporem os signatários a respeito. A LeiUniforme, referindo-se às assinaturas dos obrigados no título, diz apenas que, da letra, deve constar como requisito especial a assinatura do sacador (art. 1º, nº 8), nada especificamente acrescentando quanto à assinatura por intermédio de mandatário, apesar do contido no art. 8º que, de modo geral, admite a assinatura por procurador munido com os poderes necessários. Por outro lado, reportando-se ao aceite, dispõe a Lei Uniforme (art. 25) que “o aceite é assinado pelo sacado”. Do mesmo modo, o aval “é assinado pelo dador do aval” (art. 31, 2ª al.) e o endosso “deve ser assinado pelo endossante” (art. 13). Fazendo a reserva permitida pelo art. 2º do Anexo II, o Governo brasileiro se permite o direito de determinar a maneira de serem supridas as assinaturas, de próprio punho, dos obrigados na letra, que são o sacador, o aceitante, os endossantes e os avalistas. Ora, o Decreto nº 2.044 contém dispositivo expresso sobre a assinatura por mandatário, declarando o nº V do art. 1º que da letra deve constar “a assinatura do próprio punho do sacador ou de mandatário especial”, isto é, esclarecendo melhor a intenção da lei, do mandatário munido de poderes especiais. Quanto aos endossantes, igualmente dispõe o art. 8º, 2ª al., do Decreto nº 2.044 que, “para a validade do endosso é suficiente a simples assinatura do próprio punho do endossador ou do mandatário especial”. Em relação ao aceitante, reza o art. 11 que, “para a validade do aceite é suficiente a simples assinatura do próprio punho do sacado, ou do mandatário especial”. Finalmente, no que diz respeito aos avalistas, estatui o art. 14 que “para a validade do aval, é suficiente a simples assinatura do próprio punho do avalista, ou mandatário especial”. Nessas condições, permitindo a Convenção fosse melhor disposto pelos Governos que à mesma aderiram o suprimento da falta de assinatura do próprio punho dos obrigados na letra, e havendo o Governo brasileiro se valido dessa permissão, tem-se que, no Brasil, podem o sacador, o aceitante, endossantes e avalistas obrigar-se nas letras mediante mandatários munidos de poderes especiais, vigorando, a esse respeito, as regras contidas nos arts. 1º, nº V, 8º, 2ª al., 11 e 14 do Decreto nº 2.044, que tratam da matéria. A utilização da reserva, pelo Brasil, diz respeito apenas ao suprimento da assinatura pela assinatura do mandatário, sobre que havia legislação a respeito. Nada impede, entretanto, que, valendo-se da reserva, venha o Brasil a dispor sobre a assinatura de outro modo, como, por exemplo, por chancela mecânica, a exemplo do que resolveu o Banco Central em relação aos cheques (Res. nº 74, de 17 de novembro de 1967). 20.2. Reserva ao art. 3º do Anexo II – Letra incompleta Dispõe o art. 3º do Anexo II: “Qualquer das Altas Partes Contratantes reserva-se a faculdade de não inserir o art. 10 da Lei Uniforme na sua Lei nacional.” Reza o art. 10 da Lei Uniforme: “Se uma letra incompleta no momento de ser passada tiver sido completada contrariamente aos acordos realizados, não pode a inobservância desses acordos ser motivo de oposição ao portador, salvo se este tiver adquirido a letra de má-fé ou, adquirindo-a, tenha cometido uma falta grave.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 14/193 Como se vê, dispõe a Lei Uniforme que não é oponível ao portador, a não ser quando este aja de má-fé, o fato de haver a letra sido completada contrariamente ao estabelecido. Já o art. 3º da lei brasileira nº 2.044 dizia que os requisitos da letra são considerados lançados ao tempo da emissão do título, só sendo admitida prova em contrário em caso de má-fé do portador. De um certo modo, os dispositivos das duas leis são semelhantes, apresentando-se, contudo, mais amplo o da lei brasileira, pois a Lei Uniforme só permite a inoponibilidade da exceção quando há acordo entre as partes quanto aos requisitos a serem lançados no título. A lei brasileira dispensa esse acordo para que a exceção não seja oposta, a não ser, como acontece também na Lei Uniforme, quando o portador usa de má- fé. Não tendo o Governo brasileiro aceito o art. 10 da Lei Uniforme, por fazer uso da reserva permitida pelo art. 3º do Anexo II da Convenção, a nosso ver permanece em vigor o art. 3º do Decreto nº 2.044. 20.3. Reserva ao art. 5º do Anexo II – Prazo para apresentação da letra O art. 5º do Anexo II estatui que: “Qualquer das Altas Partes Contratantes pode completar o art. 38 da Lei Uniforme, dispondo que, em relação às letras pagáveis no seu território, o portador deverá fazer a apresentação no próprio dia do vencimento; a inobservância desta obrigação só acarreta responsabilidade por perdas e danos. As outras Altas Partes Contratantes terão a faculdade de fixar as condições em que reconhecerão uma tal obrigação”. Reza o art. 38 da Lei Uniforme: “O portador de uma letra pagável a dia fixo ou a certo termo de data ou de vista deve apresentá-la no dia em que ela é pagável ou num dos dois dias úteis seguintes. A apresentação da letra a uma câmara de compensação equivale à apresentação para pagamento”. Confrontando os dois dispositivos, verifica-se que, pela Lei Uniforme, a letra com prazo certo deve ser apresentada para pagamento no dia do vencimento ou num dos dois dias úteis seguintes, permitindo o art. 5º do Anexo II que a letra seja apresentada no dia do vencimento e não nos dois dias úteis seguintes a essa data. Entretanto, se a letra não for apresentada no dia do vencimento, esse fato só acarreta responsabilidade por perdas e danos. A lei brasileira dispunha que a letra deve ser apresentada para pagamento no dia do vencimento, ou, sendo este feriado legal, no primeiro dia útil seguinte (art. 20). A reserva feita pelo Governo brasileiro foi, ao que parece, no sentido de ser mantido esse princípio do Decreto nº 2.044. Mas, deve-se observar que o art. 5º do Anexo II permite, realmente, a apresentação apenas no dia do vencimento, como dispunha a lei brasileira, ficando, porém, estabelecido que a não apresentação nesse dia acarreta apenas responsabilidade por perdas e danos. Assim sendo, o portador que não apresenta letra no dia do vencimento não poderá promover o protesto da letra no primeiro dia útil seguinte à apresentação, como acontece no regime da lei brasileira (art. 44, 3ª al.). 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 15/193 Disso não trata a lei brasileira. E, em tais condições, parece-nos que, para completar o art. 38 da Lei Uniforme, como permite o art. 5º do Anexo II, terá o Governo que editar norma especial a respeito. Enquanto tal não acontecer, estará em vigor, em sua forma primitiva, o art. 38 da Lei Uniforme, apesar da reserva feita, por falta de legislação supletiva a respeito. 20.4. Reserva ao art. 6º do Anexo II – Câmaras de compensação O art. 6º do Anexo II estatui: “A cada uma das Altas Partes Contratantes incumbe determinar, para os efeitos da aplicação da última alínea do art. 38, quais as instituições que, segundo a lei nacional, devem ser consideradas câmaras de compensação.” A última alínea do art. 38, já acima transcrito, dispõe: “A apresentação da letra a uma câmara de compensação equivale à apresentação a pagamento.” Como se vê, não se trata, evidentemente, de reserva, que pressupõe sempre a derrogação de uma norma da lei para a substituição por outra; é, simplesmente, um reenvio, fazendo com que o Governo determine quais as instituições que entre nós são consideradas câmaras de compensação. 20.5. Reserva ao art. 7º do Anexo II – Pagamento em moeda estrangeira Dispõe o art. 7º do Anexo II: “Pelo que se refere a letras pagáveis no seu território, qualquer das Altas Partes Contratantes tem a faculdade de sustar, se o julgar necessário, em circunstâncias excepcionais relacionadas com a taxa de câmbio da moeda nacional, os efeitos da cláusula prevista noart. 41 relativa ao pagamento efetivo em moeda estrangeira. A mesma regra se aplica no que diz respeito à emissão no território nacional de letras em moedas estrangeiras.” O art. 41, a que se refere o art. 7º do Anexo II, reza: “Se numa letra se estipular o pagamento em moeda que não tenha curso legal no lugar do pagamento, pode a sua importância ser paga na moeda do país, segundo o seu valor no dia do vencimento. Se o devedor está em atraso, o portador pode, à sua escolha, pedir que o pagamento da importância da letra seja feito na moeda do país ao câmbio do dia do vencimento ou ao câmbio do dia do pagamento. A determinação do valor da moeda estrangeira será feita segundo os usos do lugar do pagamento. O sacador pode, todavia, estipular que a soma a pagar seja calculada segundo um câmbio fixado na letra. As regras acima indicadas não se aplicam ao caso em que o sacador tenha estipulado que o pagamento deverá ser efetuado numa certa moeda especificada (cláusula de pagamento efetivo numa moeda estrangeira). Se a importância da letra for indicada numa moeda que tenha a mesma denominação mas valor diferente no País de emissão e no de pagamento, presume-se que se fez referência à moeda do lugar de pagamento.” 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 16/193 Pela reserva feita, fica sem vigor a 3ª alínea desse art. 41 que determina que, sendo estipulado pelo sacador que o pagamento deve ser efetuado em certa moeda não especificada, não são aplicadas as regras de conversão de moeda estrangeira em moeda nacional, permitida pelas alíneas anteriores. Sem efeito aquela alínea 3ª, é admitida a conversão, mesmo que o pagador tenha estipulado o pagamento efetivo em moeda estrangeira. Aceitando essa conversão, já existe legislação no Brasil (Dec. nº 23.501, de 27 de novembro de 1933, que “declara nula qualquer estipulação de pagamento em ouro, ou em determinada espécie de moeda, ou por qualquer meio tendente a recusar ou restringir, nos seus efeitos, o curso forçado do mil-réis papel”; Lei nº 28, de 15 de fevereiro de 1935; Lei nº 6.650, de 29 de junho de 1944 etc.). O art. 25 do Decreto nº 2.044 permitia o pagamento em moeda estrangeira, se determinado na letra, concordando, assim, com a 3ª alínea do art. 41 da Lei Uniforme, ora objeto de reserva. 20.6. Reserva ao art. 9º do Anexo II – Apresentação para protesto no próprio dia do vencimento Estatui o art. 9º do Anexo II: “Por derrogação da alínea 3ª do art. 44 da Lei Uniforme, qualquer das Altas Partes Contratantes tem a faculdade de determinar que o protesto por falta de pagamento deve ser feito no dia em que a letra é pagável ou num dos dois dias úteis seguintes.” Diz a alínea 3ª do art. 44 da Lei Uniforme: “O protesto por falta de pagamento de uma letra pagável em dia fixo, ou a certo termo de data ou de vista, deve ser feito num dos dois dias úteis seguintes àquele em que a letra é pagável. Se se trata de uma letra pagável à vista, o protesto deve ser feito nas condições indicadas na alínea precedente para o protesto por falta de aceite.” Como se vê do texto acima transcrito, pela Lei Uniforme não é permitida a apresentação da letra para protesto no dia do vencimento da mesma e sim num dos dois dias seguintes a esse vencimento. A lei brasileira, tratando do assunto (art. 28), também não permitia o protesto no próprio dia do vencimento, e sim no dia seguinte a esse (“A letra que houver de ser protestada por falta de aceite ou de pagamento, deve ser entregue ao oficial competente no primeiro dia útil ao que se seguir ao da recusa do aceite ou ao do vencimento” etc.). Divergia, assim, a lei brasileira da Lei Uniforme unicamente quanto ao prazo em que a letra deveria ser apresentada ao oficial para protesto: pela lei brasileira, somente no primeiro dia útil seguinte ao do vencimento; pela Lei Uniforme, num dos dois dias úteis seguintes ao vencimento. Como, em certos países, era permitida a apresentação da letra para protesto no próprio dia do vencimento, foi admitido, através da adoção da reserva constante do art. 9º do Anexo II da Convenção, que os Estados contratantes, por dispositivos próprios, alterassem o disposto na terceira alínea do art. 44 da Lei Uniforme, para fazer com que a letra, nos países que assim o desejassem, fosse apresentada para protesto também no dia do vencimento. Isso resolveria a situação daqueles países que, em suas leis, já continham tal permissão. 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 17/193 Estranhamente, o Governo do Brasil, país em que a lei estava, em parte, concordante com a Lei Uniforme, ambas não permitindo a apresentação da letra para protesto no próprio dia do vencimento, adotou a reserva do art. 9º do Anexo II, procurando, assim, inovar na matéria, dentro do nosso direito, com a permissão de ser a letra apresentada para protesto no próprio dia do vencimento. Ao que nos parece, houve engano ou precipitação por parte do Governo brasileiro quanto à adoção da reserva contida no art. 9º do Anexo II. A tendência atual do Governo brasileiro é ampliar o prazo para apresentação da letra ao protesto e não restringi-lo, como acontece com a adoção da reserva, permitindo-a no próprio dia do vencimento do título. O Projeto de Código de Obrigações de 1965, no art. 984, § 2º, declarava que “o protesto deve ser tirado no prazo de cinco dias, contado do vencimento, para assegurar o direito de regresso”, acrescentando a Exposição de Motivos (p. XXIX), ao justificar a inovação: “No tocante ao protesto, formalidade comprobatória da recusa do aceite ou do pagamento (art. 984), amenizou-se o rigor do direito cambial vigente, autorizando-se seja tirado no prazo de cinco dias do vencimento, para assegurar o direito de regresso.” É verdade que o Projeto não falou na data em que o título deve ser apresentado para protesto; mas, declarando que o protesto deve ser tirado no prazo de cinco dias, contado do vencimento, é de admitir-se que o dia do vencimento não esteja incluído nesse prazo. Nessas condições, ensejou o Governo, com a adoção da reserva (se bem que acreditemos que não desejasse isso), que a letra passe a ser apresentada a protesto não apenas num dos dois dias seguintes ao próprio vencimento mas, igualmente, no mesmo dia do vencimento. Contrariamente à opinião de Mercado Júnior acreditamos que, com a adoção da reserva, não há necessidade de ser editada norma especial, por parte do Governo, declarando que a letra pode ser apresentada para protesto também no próprio dia do vencimento, visto estatuir o texto do art. 9º que o Governo pode derrogar a 3ª alínea do art. 44 para determinar (e exclusivamente para isso) que o protesto por falta de pagamento pode ser feito também no dia do vencimento. Adotando a reserva, ipso facto o Governo permitiu a apresentação da letra para protesto naquele dia. Assim sendo, em resultado da adoção da reserva contida no art. 9º do Anexo II, hoje as letras podem ser apresentadas para protesto ou no próprio dia do vencimento ou num dos dois dias úteis seguintes a esse, de acordo com o texto reformado da 3ª alínea do art. 44 da Lei Uniforme. 20.7. Reserva ao art. 10 do Anexo II – Direito de ação do portador contra os coobrigados na letra O art.10 do Anexo II dispõe: “Fica reservada para a legislação de cada uma das Altas Partes Contratantes a determinação precisa das situações jurídicas a que se referem os nos 2 e 3 do art. 43 e nos 5 e 6 do art. 44 da Lei Uniforme.” O art. 43 da Lei Uniforme trata do exercício dos direitos de ação do portador contra os endossantes, sacador e outros coobrigados, no vencimento, se o pagamento não foi efetuado, e mesmo antes do vencimento, se houver recusa total ou parcial do aceite (1º). O nº 2 do art. 43, objeto da reserva, estatui que o portador pode exercer esses direitos de ação contra tais obrigados, “nos casosde falência do sacado, quer ele tenha aceite, quer não, de suspensão de pagamentos do mesmo, ainda que não constatada por sentença, ou de ter sido 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 18/193 promovida, sem resultado, execução dos seus bens”. O nº 3 do citado art. dá idêntico direito ao portador, “nos casos de falência do sacador de uma letra não aceitável”. Permitindo a reserva que a legislação nacional regule esses casos, e tendo o Governo brasileiro aceito assim fazê-lo, não há problemas, no nosso direito, em relação à falência do aceitante, visto já dizer que o Decreto nº 2.044, art. 19, nº II, que a “letra é considerada vencida quando protestada – pela falência do aceitante”. Assim sendo, quando há falência do aceitante, a letra é considerada exequível contra os obrigados regressivos já que o obrigado principal, com a superveniência da falência, não pode mais ser executado. Entretanto, o nº 2 do art. 43 da Lei Uniforme refere-se, também, ao direito de regresso contra os coobrigados no título, em caso de falência do sacado que não o aceitou, de suspensão de pagamentos por parte do mesmo e, até, no caso de ter sido promovida, sem resultado, execução dos seus bens. E no nº 3 do mesmo art. é dado ao portador direito de regresso contra os coobrigados nos casos de falência do sacador de uma letra não aceitável. Esses são casos não contemplados na lei brasileira e que precisam ser regulados por normas especiais, inclusive porque tratam de matéria nova, como a letra não aceitável, desconhecida do nosso direito até a adoção da Lei Uniforme, pois no Decreto nº 2.044 a letra não aceitável não era permitida, taxativamente estatuindo o art. 44, número III: “Para os efeitos cambiais, são consideradas não escritas: III – a cláusula proibitiva da apresentação da letra ao aceite do sacado.” Também nenhum dispositivo existe quanto à permissão do direito de ação contra os demais coobrigados no caso de falência do sacador. Assim sendo, contrariamente à opinião de Mercado Júnior, julgamos que persiste, apenas, de nossa legislação anterior, o princípio do nº II do art. 19 do Decreto nº 2.044, que considera a letra vencida quando protestada por falência do aceitante. Não havendo em nossa legislação normas sobre o exercício de direito de ação contra os demais coobrigados em caso de falência do sacado, de suspensão de pagamentos do mesmo, ainda que não constatada por sentença, de execução de seus bens, mesmo que sem resultado, e de falência do sacador de letra não aceitável, devem ser editadas normas legais regulando os direitos do portador quanto aos demais coobrigados. Enquanto não surgirem essas normas, ficarão em vigor os dispositivos a respeito dos nos 2 e 3 do art. 43 da Lei Uniforme. A reserva se refere também aos nos 5 e 6 do art. 44 da Lei Uniforme, que rezam: “No caso de suspensão de pagamentos do sacado, quer seja aceitante, quer não, ou no caso de lhe ter sido promovida, sem resultado, execução dos bens, o portador da letra só pode exercer o seu direito de ação após apresentação da mesma ao sacado para pagamento e depois de feito o protesto. No caso de falência declarada do sacado, quer seja aceitante, quer não, bem como no caso de falência declarada do sacador de uma letra não aceitável, a apresentação da sentença de declaração de falência é suficiente para que o portador da letra possa exercer o seu direito de ação.” Esses dispositivos complementam os nos 2 e 3 do art. 43, esclarecendo o modo de como pode o portador exercer o seu direito de ação contra os coobrigados. A eles 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 19/193 se aplicam as considerações acima feitas, vigorando da lei brasileira apenas as regras concernentes à falência do aceitante, as demais necessitando de uma regulamentação legal, até o aparecimento da qual ficam em vigor os dispositivos da Lei Uniforme. 20.8. Reserva ao art. 13 do Anexo II – Taxa de juros Dispõe o art. 13 do Anexo II: “Qualquer das Altas Partes Contratantes tem a faculdade de determinar, no que respeite às letras passadas e pagáveis no seu território, que a taxa de juro a que se refere o nº 2 dos arts. 48 e 49 da Lei Uniforme poderá ser substituída pela taxa legal em vigor no território da respectiva Alta Parte Contratante.” O nº 2 do art. 48 da Lei Uniforme estatui que o portador pode reclamar contra quem exerce o seu direito de ação “os juros à taxa de 6% desde a data do vencimento”. No mesmo sentido, o nº 2 do art. 49 declara que a pessoa que pagou uma letra pode reclamar dos seus garantes. “Os juros de dita soma, calculados à taxa de 6% desde a data em que pagou”. Possibilita, assim, a reserva, que seja alterada essa taxa, com a adoção da taxa legal do país. O Governo brasileiro adotou a reserva mas não é necessária a estipulação de uma nova taxa de juros, visto estar regulada por lei a taxa de juros legais do país, na base de 11,18 % ao ano (atualizado até 12.11.07 – Fonte: Banco Central do Brasil – site http://www.bcb.gov.br/selic). 20.9. Reserva ao art. 15 do Anexo II – Perda de direitos ou prescrição Estatui o art. 15 do Anexo II: “Qualquer das Altas Partes Contratantes tem a liberdade de decidir que, no caso de perda de direitos ou de prescrição, no seu território subsistirá o direito de proceder contra o sacador que não constituir provisão ou contra um sacador ou endossante que tenha feito lucros ilegítimos. A mesma faculdade existe, no caso de prescrição pelo que respeita ao aceitante que recebeu provisão ou tenha realizado lucros ilegítimos.” O caso, como já assinalou Mercado Júnior, é o de mero reenvio, não de reserva. E o art. 48 do Decreto nº 2.044 já trata do assunto, estando o mesmo em vigor. 20.10. Reserva ao art. 16 do Anexo II – Provisão e relação fundamental Diz o art. 16 do Anexo II: “A questão de saber se o sacador é obrigado a constituir provisão à data do vencimento e se o portador tem direitos especiais sobre essa provisão está fora do âmbito da Lei Uniforme. O mesmo sucede relativamente a qualquer outra questão respeitante às relações jurídicas que serviram de base à emissão da letra”. Ainda aqui se trata de reenvio. Como assinala Mercado Júnior, o Decreto nº 2.044 não tem dispositivos expressos sobre o assunto mas o art. 51, referindo-se à ação cambial, declara que nessa “somente é admissível defesa fundada em direito pessoal do réu contra o autor”, afastando, assim, a causa do título do âmbito do 19/09/2026, 17:22 UNIP - Universidade Paulista : DisciplinaOnline - Sistemas de conteúdo online para Alunos. https://online.unip.br/imprimir/imprimirconteudo 20/193 direito cambiário. Também os princípios da abstração e da autonomia das obrigações cambiárias são de aplicar-se ao assunto relativo à reserva feita. 20.11. Reserva ao art. 17 do Anexo II – Prescrição O art. 17 do Anexo II assim se expressa: “A cada uma das Altas Partes Contratantes compete determinar na sua legislação nacional as causas de interrupção e de suspensão da prescrição das ações relativas a letras que seus tribunais são chamados a conhecer. As outras Altas Partes Contratantes têm a faculdade de determinar as condições a que subordinarão o conhecimento de tais causas. O mesmo sucede quanto ao efeito de uma ação como meio de indicação do início do prazo de prescrição, a que se refere a alínea terceira do art. 70 da Lei Uniforme.” A terceira alínea do art. 70 da Lei Uniforme estatui: “As ações dos endossantes uns contra os outros e contra o sacador prescrevem em seis meses, a contar do dia em que o endossante pagou a letra ou em que ele próprio foi acionado.” Ainda aqui, se trata de reenvio e não de reserva, regulando a matéria de interrupção ou suspensão da prescrição normas do direito comum que são aplicadas à cambial. A última parte do art. 70 da Lei Uniforme refere-se ao prazo da prescrição da