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Doença de Chagas (Trypanosoma cruzi)

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Doença de Chagas (Trypanosoma cruzi)
Agente Etiológico e Vetores
A Doença de Chagas (Tripanossomíase Americana) é causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi, pertencente à família Trypanosomatidae. O ciclo biológico é heteroxênico, envolvendo hospedeiros vertebrados (o homem e animais como gambás e tatus) e vetores invertebrados, que são insetos hemípteros hematófagos conhecidos como barbeiros ou triatomíneos (ex: Triatoma infestans, Rhodnius prolixus, Panstrongylus megistus).
Formas de Transmissão
· Vetorial (Principal): Ocorre através do contato com as fezes ou urina do inseto vetor infectado, que defeca logo após sugar o sangue. O parasito penetra por lesões na pele (geralmente causadas pela coceira da picada) ou mucosas intactas (como os olhos).
· Oral: Através da ingestão de alimentos contaminados por fezes ou insetos triturados (ex: caldo de cana, açaí). Geralmente causa surtos agudos graves, pois o inóculo do parasita é alto.
· Outras vias: Transfusão de sangue, congênita (mãe para filho), transplante de órgãos e acidentes de laboratório.
Ciclo Biológico
· No inseto vetor: O inseto ingere tripomastigotas sanguíneos ao picar um hospedeiro doente. No estômago do inseto, transformam-se em epimastigotas (forma de multiplicação por divisão binária). Ao chegar na porção final do intestino (reto), diferenciam-se em tripomastigotas metacíclicos, que são a forma infectante eliminada nas fezes.
· No hospedeiro mamífero (homem): Os tripomastigotas metacíclicos penetram e são fagocitados por células como macrófagos e miocélulas. Dentro da célula, transformam-se em amastigotas (forma sem flagelo visível) e se multiplicam intensamente. Ocorre então a diferenciação novamente para tripomastigotas, a célula rompe e os parasitas caem na corrente sanguínea para infectar novos tecidos ou serem sugados por um novo barbeiro.
Fases Clínicas e Morbidade
· Fase Aguda: Pode ser assintomática, mas quando manifesta, caracteriza-se por alta parasitemia no sangue. Os sinais clínicos incluem febre prolongada, aumento de fígado e baço (hepatoesplenomegalia) e adenopatia. Os sinais de porta de entrada clássicos são o Chagoma de inoculação (lesão na pele) e o Sinal de Romaña (edema nas pálpebras de um olho acompanhado de inchaço nos gânglios próximos). Pode gerar complicações letais como miocardite aguda e meningoencefalite.
· Fase Crônica Indeterminada: Período assintomático, apresentando baixa parasitemia e altos níveis de anticorpos IgG. Os exames do coração (ECG) e raio-X digestivo são normais, e os pacientes podem ficar nesta fase pela vida toda.
· Fase Crônica Cardíaca: Devido à ação do parasito e do próprio sistema imune (processo inflamatório focal crônico e autoimunidade), ocorre destruição celular, lesão do sistema de condução elétrica (feixe de His-Purkinje) e fibrose intensa. Sintomas: Arritmias severas, insuficiência cardíaca e coração aumentado (cardiomegalia) com adelgaçamento da ponta do coração (aneurisma apical).
· Fase Crônica Digestiva: Acontece por uma inflamação que destrói o sistema nervoso autônomo parassimpático (plexo mioentérico) dos órgãos. Isso gera falha motora e dilatação da musculatura. Causa o Megaesôfago (sintoma principal: disfagia/dificuldade de engolir e regurgitação) e o Megacólon (sintoma principal: constipação severa/prisão de ventre e fecaloma).
Diagnóstico Laboratorial
· Na fase aguda: Baseia-se na detecção direta do parasita, pois a parasitemia está no pico. Usam-se exames como pesquisa a fresco, gota espessa, método de Strout ou micro-hematócrito.
· Na fase crônica: A parasitemia é baixíssima (subpatente), tornando métodos diretos falhos. O padrão ouro é a pesquisa de anticorpos (sorologia) do tipo IgG através de duas técnicas diferentes em paralelo (ex: ELISA, Imunofluorescência Indireta - IFI e Hemaglutinação - HAI). Exames indiretos (xenodiagnóstico, hemocultura) e detecção de DNA via PCR podem ser usados em pesquisas ou casos complexos.
Tratamento
A terapêutica tem melhores resultados na fase aguda, em recém-nascidos (congênita) e nos casos crônicos recentes. Para a fase crônica tardia os resultados são insatisfatórios e focam-se nos sintomas.
· Medicamentos: O principal é o Benznidazol (no Brasil conhecido como Rochagan), com a alternativa do Nifurtimox.
· Mecanismo de ação: Atuam causando inibição na síntese de RNA/proteínas do parasita e produzindo estresse oxidativo através da liberação de radicais livres, que destroem o parasita pela sua falta de defesas antioxidantes.
· Efeitos Colaterais: Ambos têm elevada toxicidade para o paciente, gerando complicações como neuropatia periférica, dermatites intensas, náuseas, vômitos, dores gástricas e perda severa de peso (anorexia).

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