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NEUROPATIAS PERIFÉRICAS | AULA REVISADA 1 Neuropatias periféricas Professor Addison · Aula de 18 de setembro de 2026 Transcrição em texto corrido, revista e complementada com Bates | Propedêutica Médica, 13ª edição. Nota editorial: a transcrição automática continha passagens incompreensíveis e falas fora da aula. O texto abaixo reconstitui o conteúdo clínico identificável, corrige termos e amplia a semiologia a partir do livro anexado. Não representa transcrição literal da fala do professor. Conceito e funções dos nervos periféricos Neuropatia periférica é a disfunção de um ou mais nervos situados fora do encéfalo e da medula espinal. Os nervos periféricos contêm fibras motoras, sensitivas e, em muitos casos, autonômicas. O acometimento das fibras motoras provoca fraqueza, dificuldade para andar ou manipular objetos, atrofia e, às vezes, fasciculações. As fibras sensitivas transmitem tato, dor, temperatura, vibração e informação sobre a posição dos membros; sua lesão pode causar parestesias, queimação, choques, dor, diminuição ou perda da sensibilidade. As fibras autonômicas participam do controle da pressão arterial, sudorese, função gastrointestinal, bexiga e função sexual. O paciente pode apresentar combinações dessas manifestações, conforme o tipo de fibra e os nervos atingidos. [1] A localização do déficit é o primeiro passo do raciocínio semiológico. É preciso perguntar onde os sintomas começaram, se se espalham de modo simétrico, se predominam nos pés ou nas mãos e se o curso é súbito, progressivo ou flutuante. Fraqueza distal bilateral com perda sensitiva sugere polineuropatia; alteração restrita ao território de um nervo sugere mononeuropatia; sintomas que acompanham uma raiz e seu dermátomo apontam para radiculopatia. Reflexos tendinosos diminuídos ou ausentes também podem apoiar o diagnóstico de comprometimento periférico, mas variam com a localização e a gravidade. [1] Padrões de distribuição: mono e polineuropatias A mononeuropatia corresponde ao acometimento de um nervo periférico. Compressão e trauma são causas frequentes: a compressão do nervo mediano no túnel do carpo é um exemplo. Quando vários nervos são afetados de forma separada, assimétrica ou sucessiva, fala-se em mononeuropatia múltipla, também chamada mononeurite múltipla. A combinação de déficits em territórios nervosos não contíguos sugere investigação de causas sistêmicas, como vasculites, hanseníase e algumas doenças metabólicas ou inflamatórias. O padrão pode começar em um só nervo e revelar outros territórios ao longo do tempo. [1] Na polineuropatia, muitos nervos apresentam acometimento mais difuso, frequentemente distal e aproximadamente simétrico. O padrão clássico é “em meia”, iniciando-se nos pés e avançando para as pernas; as mãos costumam ser atingidas mais tarde, formando o padrão “em meia e luva”. Nem toda polineuropatia segue esse modelo, e a distribuição precisa ser documentada no exame. Radiculopatia é lesão de raiz nervosa, não sinônimo de neuropatia de um nervo periférico: pode causar dor irradiada, fraqueza e alterações sensitivas em distribuição radicular, além de redução de um reflexo relacionado à raiz afetada. Hérnia discal e alterações degenerativas são causas possíveis, mas a compressão da medula espinal constitui um problema anatômico diferente, que deve ser distinguido clinicamente. [1] NEUROPATIAS PERIFÉRICAS | AULA REVISADA 2 Principais causas e possibilidade de tratamento O diabetes é uma causa muito comum de polineuropatia distal simétrica e também pode estar associado a neuropatia autonômica e a neuropatias focais. Outras etiologias discutidas na aula incluem consumo crônico de álcool, deficiências nutricionais como a de vitamina B12, exposição a substâncias ou medicamentos neurotóxicos, doenças infecciosas, hanseníase, condições inflamatórias e neuropatias hereditárias. História de medicamentos e suplementos é relevante: o excesso de vitamina B6, por exemplo, também pode lesar nervos. A investigação deve ser guiada pelo padrão clínico e pelo contexto; não se deve atribuir automaticamente todo formigamento em uma pessoa com diabetes ao diabetes. [1] A doença de Charcot-Marie-Tooth representa um grupo de neuropatias hereditárias que costuma produzir fraqueza e atrofia distais lentamente progressivas, alteração da marcha e, com frequência, pés cavos. Intensidade e evolução variam entre pessoas e subtipos; a presença dessa doença não implica necessariamente dependência de cadeira de rodas. História familiar e deformidades dos pés ajudam a levantar a suspeita. O tratamento de uma neuropatia depende da causa: corrigir uma deficiência confirmada, interromper exposição neurotóxica quando indicada ou tratar doença de base pode modificar a evolução. Vitaminas do complexo B não são tratamento universal da neuropatia, e doses inadequadas podem trazer riscos. Reabilitação, proteção dos pés e manejo da dor podem melhorar a função e a qualidade de vida. [1] Fibras grossas, fibras finas e teste de Romberg As fibras sensitivas de maior calibre participam da percepção vibratória e da propriocepção, isto é, a noção da posição das articulações; também compõem a via aferente de determinados reflexos. Seu comprometimento pode causar desequilíbrio, dificuldade de perceber a posição dos pés e redução dos reflexos. Na ataxia sensitiva, a visão compensa parte da perda da propriocepção: a pessoa consegue ficar de pé com os olhos abertos, mas oscila ou perde o equilíbrio quando os fecha. Esse é o fundamento do teste de Romberg. O examinador deve permanecer próximo para evitar quedas. Uma pessoa com ataxia cerebelar pode ter dificuldade para se manter em pé mesmo com os olhos abertos; por isso, Romberg não deve ser tratado como teste específico de doença cerebelar. [1] As fibras finas estão especialmente relacionadas à dor, à temperatura e a funções autonômicas. Seu acometimento pode causar queimação, hiperalgesia ou perda de dor e temperatura, às vezes com vibração e reflexos relativamente preservados no início. “Hipoestesia” designa sensibilidade ao toque diminuída, enquanto “anestesia” indica ausência de tato; “parestesia” descreve sensação anormal, como formigamento, e “disestesia” uma sensação anormal desagradável. É necessário registrar qual modalidade foi testada: perda de sensibilidade dolorosa, térmica e vibratória não são descrições intercambiáveis. [1] NEUROPATIAS PERIFÉRICAS | AULA REVISADA 3 Neuropatia autonômica e hipotensão ortostática Uma neuropatia autonômica, particularmente no diabetes de longa duração, pode se manifestar por intolerância ao ficar em pé, distúrbios de sudorese, gastroparesia, mudanças do hábito intestinal, disfunção vesical e disfunção erétil. A hipotensão ortostática é definida por queda sustentada da pressão sistólica de pelo menos 20 mmHg ou da diastólica de pelo menos 10 mmHg até três minutos após assumir a posição de pé. Pode causar tontura, pré-síncope ou quedas. É um achado que exige investigação de causas, incluindo medicamentos, desidratação e doença autonômica; ansiedade, isoladamente, não explica a maioria dos casos. [1, 3] Neuropatia diabética e proteção dos pés A perda da sensibilidade protetora permite que pequenos traumatismos, atrito e pressão persistente passem despercebidos. Calos, deformidades, alteração da circulação e pressão sobre pontos de apoio aumentam o risco de ulceração. A neuropatia e a doença arterial periférica podem coexistir; uma ferida no pé diabético, portanto, precisa de avaliação completa, e seu aspecto superficial não permite inferir a profundidade ou descartar infecção. A recomendação prática enfatizada na aula é examinar ambos os pés, inclusive a pele plantar, espaços interdigitais, deformidades, calçados, pulsos e eventuais lesões, de forma rotineira. [1, 2] O exame de sensibilidade pode empregar monofilamento de 10 g na planta, percepção vibratória com diapasão de 128 Hz, avaliação de dor ou temperatura, propriocepção e reflexos aquileus, conforme a finalidade e o protocolo. O monofilamento ajuda a identificar perdada sensibilidade protetora. Também são importantes orientação sobre inspeção regular dos pés, calçados apropriados e avaliação oportuna de feridas. Antibióticos e desbridamento não são medidas automáticas para toda lesão: a necessidade e a urgência dependem da avaliação de infecção, perfusão, tecido desvitalizado e gravidade clínica. [1, 2] Mononeuropatias dos membros superiores Na síndrome do túnel do carpo, o nervo mediano sofre compressão no punho. É típica a dormência ou parestesia noturna que envolve polegar, indicador, dedo médio e metade radial do anelar; abalar a mão pode aliviar temporariamente os sintomas. Casos mais avançados podem apresentar fraqueza de abdução ou oposição do polegar e atrofia tenar. Gestação, diabetes e outras condições podem aumentar o risco. A percussão sobre o mediano no punho pode reproduzir parestesias no sinal de Tinel; a manutenção dos punhos fletidos pode desencadear sintomas no teste de Phalen. Esses testes ajudam na avaliação, mas isoladamente não confirmam nem excluem o diagnóstico. [1] A lesão do nervo ulnar, comum no cotovelo e também possível no punho, tende a alterar a sensibilidade do dedo mínimo e da metade ulnar do anelar e pode enfraquecer a abdução e adução dos dedos. Quando há comprometimento dos músculos intrínsecos, pode aparecer a “mão em garra”, especialmente nos dedos quarto e quinto. A “mão da bênção” observada ao tentar fechar o punho é classicamente descrita em lesão proximal importante do nervo mediano: o indicador e o dedo médio não flexionam adequadamente. Esse sinal não deve ser tomado como manifestação típica de toda síndrome do túnel do carpo, que ocorre no punho e tem outro padrão motor. É mais seguro descrever quais dedos falham em flexionar ou estender e localizar a lesão pela combinação dos achados. [1] NEUROPATIAS PERIFÉRICAS | AULA REVISADA 4 A neuropatia do nervo radial pode causar fraqueza dos extensores do punho e dos dedos, produzindo a “mão caída”. Compressão prolongada do braço, por exemplo durante o sono com o membro apoiado sobre uma superfície rígida, é uma causa conhecida, embora trauma e outras lesões também devam ser considerados. O território sensitivo do radial pode ser examinado no dorso da mão, especialmente no espaço entre polegar e indicador. A instalação súbita de fraqueza exige exame neurológico completo para diferenciar neuropatia periférica de outras causas, inclusive uma lesão central. [1] Nervo fibular e pé caído O nervo fibular comum contorna a região lateral do joelho e pode sofrer compressão perto da cabeça da fíbula. Permanecer muito tempo com as pernas cruzadas, usar gesso ou órtese apertada e certas posições cirúrgicas são mecanismos possíveis. A fraqueza da dorsiflexão e da extensão dos dedos provoca pé caído: a pessoa pode arrastar a ponta do pé e elevar mais o joelho para evitar tropeçar. Pode existir alteração sensitiva na face lateral da perna e no dorso do pé, conforme o segmento envolvido. O pé caído não é exclusivo de lesão fibular; radiculopatia L5 e outras causas entram no diagnóstico diferencial. [1] Exame clínico e síntese da avaliação A anamnese investiga início e progressão, dor, dormência, fraqueza, quedas, exposição a medicamentos ou álcool, diabetes, alimentação, doenças sistêmicas e história familiar. O exame verifica trofismo, fasciculações, força proximal e distal, marcha na ponta dos pés e nos calcanhares, reflexos e distribuição de sensibilidade. Compare lados direito e esquerdo, porções distais e proximais e os territórios de nervos e dermátomos. Para testar o tato, emprega-se estímulo leve; para dor e temperatura, técnicas adequadas e seguras; para vibração, o diapasão de 128 Hz sobre proeminências ósseas; para propriocepção, pequenos movimentos do dedo do pé ou da mão com os olhos fechados. Um padrão focal, multifocal ou distal simétrico direciona as hipóteses. [1] A eletroneuromiografia pode ajudar a confirmar a localização e caracterizar alterações axonais ou desmielinizantes quando a história e o exame a indicarem. Exames laboratoriais são selecionados segundo os diagnósticos possíveis; a investigação não é igual para todos. Fraqueza rapidamente progressiva, dificuldade respiratória, sintomas bulbares, perda de controle esfincteriano ou sinais de compressão medular exigem avaliação urgente. A abordagem adequada une a localização anatômica, a busca da causa tratável e a prevenção de lesões secundárias, especialmente nos pés insensíveis. [1] Referências [1] BICKLEY, Lynn S.; SZILAGYI, Peter G.; HOFFMAN, Richard M. Bates | Propedêutica Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2022. Especialmente os capítulos de sistema nervoso e exame da mão. Livro fornecido com a aula. [2] INTERNATIONAL WORKING GROUP ON THE DIABETIC FOOT. Guidelines on the prevention of foot ulcers in persons with diabetes. 2023. Disponível em: https://iwgdfguidelines.org/guidelines-2023/. Acesso em: 19 set. 2026. [3] AMERICAN HEART ASSOCIATION. Orthostatic Hypotension in Adults With Hypertension. Scientific statement, 2024. Disponível em: https://professional.heart.org/en/science-news/orthostatic-hypotension-in-adults-with-hypertension. Acesso em: 19 set. 2026.