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Teóricas 1. Anemia 2. Doenças linfoproliferativas 3. Síndromes mieloproliferativos 4. Diáteses hemorrágicas Página 1 de 33 1- Ver anexo Bibliografia Handouts 2014 Desgravada de 2007 Desgravada de Fisiopatologia sobre Anemias de 2009 Nota:O docente referiu que esta seria uma aula muito resumida e que mais tarde , numa outra aula destinada ao efeito, traria os mesmos casos clínicos e os iria explorar em detalhe e falaria também da terapêutica para cada um dos casos. INTRODUÇÃO 1. SÍNTESE DA HEMOGLOBINA A estrutura da Hb é constituída por 2 cadeias do tipo α e 2 do tipo β, em diferente rearranjo de acordo com o estádio do desenvolvimento: • No feto: HbF (α2γ2) •A partir do nascimento: HbA (α2β2) a 97% + HbA2 (α2δ2) a 2% + HbF aé supra-diafragmática (gânglios para- aórticos, cervicais e axilares), contudo podem surgir grandes massas abdmonais infra- diafragmáticas. Sintomas B Prurido10 Dores ganglionares após ingestão de álcool ( 44 anos Leucocitose (Leucócitos > 15000/µl) Linfocitopénia (Linfócitos 30% o electroforese de proteínas com pico monoclonal IgG > 3,5g/dl ou IgA > 2,0g/dl e/ou 1g de cadeias leves κ ou λ na urina de 24h (proteinúria de Bence Jones) na ausência de amiloidose o Plasmocitoma Critérios minor Página 25 de 34 Doenças Linfoproliferativas o plasmocitose medular 10-30% o presença de pico de gamaglobulina monoclonal, mas com níveis inferiores aos definidos em cima o diminuição dos níveis das imunoglobulinas normais o lesões ósseas líticas O diagnóstico requer no mínimo: 1 major + 1 minor ou 3 minor De salientar também a classificação em mieloma indolente: o plasmocitosede tratamento se o componente M > 5 g/dl ou se apresentarem lesões ósseas progressivas. Estadiamento É um estadiamento funcional e baseia-se em testes laboratoriais e clínicos, ao contrário dos sistemas anatómicos de estadiamento para tumores sólidos. Página 26 de 34 Doenças Linfoproliferativas Estádio Critério Crescimento tumoral I (todos os critérios apresentados) Hb > 10g/dl Cálcio sérico 12mg/dl Lesões ósseas líticas avançadas Produção de componente M elevada (IgG > 7g/dl ; IgA > 5g/dl ; cadeias leves urinárias > 12g/24h) > 1,2x1012 cel/m2 A Creatinina sérica 2 mg/dl Um doente no estádio I tem sempre nível A, porque se houver envolvimento renal (creatinina > 2mg/dl) o doente já se encontra no estádio II ou III. No entanto, o doente pode encontrar-se no estádio II ou III e não ter envolvimento renal. Assim temos o estadiamento possível: IA, IIA, IIB, IIIA e IIIB. Exames Completamentares Sangue o Hemograma o Função renal e hepática o Velocidade de sedimentação o Electroforese de proteínas o Imunoelectroforese o Doseamento de imunoglobulinas o β2 - microglobulina (útil no prognóstico – recidivas e sobrevida) Página 27 de 34 Doenças Linfoproliferativas Urina de 24h o electroforese o proteinúria de Bence-Jones Mielograma e Biópsia Óssea o Morfologia o Imunofenótipo o Genética Terapêutica • Talidomida + Dexametasona • Bortezomib, Lenalidomida • Auto ou alotransplante de células estaminais ANEXO11 Linfoma da zona marginal (tipo MALT) É um linfoma indolente que constitui cerca de 8% dos LNH. A idade média de aparecimento é de 60 anos. Frequentemente associado a um órgão: estômago, órbita, intestino, pulmões, tiróide, glândulas salivares, pele, tecidos moles, bexiga, rins, SNC. Frequentemente os doentes que desenvolvem este linfoma apresentam um processo inflamatório ou auto-imune do órgão em questão: o Síndrome de Sjögren (associado às glândulas salivares e lacrimais) o Tiroidite de Hashimoto o Gastrite por Helicobacter pylori Células B monoclonais CD5- A terapêutica usada é a mesma que para os restantes linfomas indolentes. Linfoma linfocítico A forma leucémica designa-se por leucemia linfocítica crónica (LLC). 11 Síntese de vários tipos de linfomas que não foram abordados na aula. Apenas alguns foram referidos no decorrer da mesma (anexo presente na anotada do ano passado) Página 28 de 34 Doenças Linfoproliferativas É um linfoma indolente que representa cerca de 7% dos LNH. A idade média de aparecimento é de 65 anos. A sintomatologia mais frequente é a fadiga, infecções frequentes e linfadenopatia recente. Hepatoesplenomegália Apresenta um número elevado de linfócitos circulantes Células B monoclonais CD5+ A terapêutica usada é a mesma que para os restantes linfomas indolentes Linfoma do Manto Mais frequente no sexo masculino, aparecendo na sua maioria por volta dos 60 anos e constitui apenas 6% dos linfomas não-Hodgkin, tendo origem em células B periféricas. É um linfoma considerado agressivo, segundo uma classificação de acordo com a evolução clínica. Apresentação clínica Adenopatias generalizadas, atingindo a medula óssea, fígado, baço (esplenomegalia em 50% dos casos) e anel de Waldeyer; No momento do diagnóstico a maioria dos doentes já tem envolvimento do sistema hematopoiético. Imunologia CD19+, CD20+, CD5+, bcl-1+ Genética Translocação (11:14) e ciclina D1 (bcl-1) aumentada Histologia Substituição do habitual padrão folicular por um difuso com linfócitos B pequenos de citoplasma escasso, contornos nucleares redondos a irregulares. Terapêutica (a utilizada para os linfomas agressivos) CHOP Página 29 de 34 Doenças Linfoproliferativas o Para o tratamento incial dos linfomas agressivos (geralmente quando estes ainda estão em fase localizada) o Existe maior benefício com a combinação desta terapêutica com a radioterapia Rituximab – quando a doença já se encontra em fase avançada (+ quimioterapia) ESHAP (etoposido, metilprednisona, citarabina, cisplatina) – utilizado em caso de doença recidivante, não responsiva a quimioterapia inicialmente utilizada. Linfoma Linfoblástico Tem origem em células T. É um linfoma agressivo, que constitui 2% dos LNH e é frequente em crianças e adultos jovens (idade média 28 anos). Manifesta-se como uma grande massa mediastínica (assintomática ou com síndrome de compressão da veia cava) e derrames pleurais, podendo também ocorrer metastização para o SNC. A terapêutica usada é a mesma que para os restantes linfomas agressivos. Linfoma de Burkitt Trata-se de um linfoma não-Hodgkin de células B periféricas, constituindo apenas 6% dos LNH, tendo a sua maior incidência em crianças de raça negra, essencialmente do sexo masculino. A forma leucémica do linfoma de Burkitt designa-se de leucemia linfóide aguda (L3). A incidência em crianças de raça negra prende-se com a malária presente em África, que predispõe à infecção por EBV, que por sua vez conduz a uma translocação (8;14) que culmina no aparecimento do linfoma de Burkitt. A sua incidência no mundo ocidental está relacionada com o aumento do HIV, devido à imunossupressão. É um linfoma muito agressivo. Apresentação clínica Subtipo Africano o “Tumor da face” (massa malar, mandibular), massa renal, ovárica Subtipo “ocidental” (não endémico) o Massa abdominal ileo-cecal e peritoneal Linfadenopatias Metastização para SNC Página 30 de 34 Doenças Linfoproliferativas Imunologia CD20+, CD10+, CD5- Genética T(8:14) é a mais prevalente (relacionada com EBV); c-myc Histologia células B grandes com citoplasma basófilo vacuolado, núcleo redondo com múltiplos nucléolos pequenos e elevado índice mitótico – componente maligna acumulação de macrófagos com padrão “céu estrelado” – componente benigna Terapêutica - Poliquimioterapia intensa Linfoma Anaplástico Tem origem em células T. É um linfoma muito agressivo que representa cerca de 2% dos LHN. Atinge mais frequentemente jovens (idade média - 33 anos) do sexo masculino. Em 50% dos casos os doentes têm sintomas sistémicos e níveis elevados de LDH. A medula óssea e o sistema gastrointestinal raramente são atingidos. Importante compromisso cutâneo. A terapêutica usada é a mesma para os restantes linfomas agressivos. É relevante o facto dos linfomas mais agressivos por vezes revelarem-se os mais facilmente curáveis (caso do linfoma anaplástico, que se não for tratado o doente morre em poucos meses, mas com ciclos de quimioterapia adequados 70% dos casos são curáveis). Página 31 de 34 Doenças Linfoproliferativas Questões dos Casos Clínicos12 Caso Clínico 1 1. Em relação às possíveis causas desta doença podemos afirmar o seguinte: a) Trata-se de um linfoma da zona marginal F b) O doente tem uma leucemia linfocítica crónica F c) O doente tem um linfoma anaplástico F d) Trata-se de um linfoma folicular V e) O doente tem um linfoma linfoblástico F 2. Em relação a este doente, é verdade que: a) Trata-se de um estádio clínico IV-A V b) Não estamos na presença de um linfoma agressivo V c) Esperaria encontrar uma translocação (11:14) F d) O rearranjo c-mycé frequente F e) As células neoplásicas devem ter a translocação (14:18) V 3. Em relação ao tratamento deste doente, é verdade que: a) Podia aguardar mais algum tempo só em observação V b) Tratava com CVP V c) Utilizaria melphalan e prednisona F d) Administrava anticorpo monoclonal anti-CD20 logo de início F e) Podia administrar esquema terapêutico com fludarabina V Caso Clínico 2 1. Com os dados que dispõe, qual dos seguintes diagnósticas lhe parece estar correcto? a) Trata-se de um linfoma folicular F b) O doente tem um linfoma do manto F c) O diagnóstico de doença de Hodgkin (celularidade mista) é o mais provável F d) O doente tem um linfoma de Burkitt F 12 Resolvi também incluir nesta anotada algumas perguntas referentes aos casos clínicos abordados que constavam da anotada do ano anterior. Página 32 de 34 Doenças Linfoproliferativas e) Provavelmente trata-se de um linfoma difuso de grandes células B V 2. Em relação ao estadiamento e prognóstico desde doente, é verdade que: a) Trata-se de um estádio clínico III-B F b) Trata-se de um estádio clínico II-SE-A F c) O Índice de Prognóstico Internacional (IPI) é intermédio-baixo V/F d) A β2 microglobulina não tem valor prognóstico F e) Seria de esperar rearranjo de bcl-6 V 3. Como trataria este doente? a) Administrava clorambucil e prednisona F b) Administrava CVP F c) O tratamento inicial seria CHOP V d) Começaria por tratar este doente com MOPP ou ABVD F e) O tratamento inicial de ESHAP está correcto F Caso Clínico 3 1. Em relação às possíveis causas desta doença podemos afirmar o seguinte: a) Trata-se de um mieloma múltiplo V b) O doente tem uma doença das cadeias pesadas *13 F c) O diagnóstico é de macroglobulinémia de Waldenström *14 F d) O doente tem uma gamapatia monoclonal de significado desconhecido*15 F e) Trata-se de um linfoma com gamapatia monoclonal associada *16 F 2. Em relação a este doente, é verdade que: a) Trata-se de um estádio clínico II-A F b) O doente tem um mieloma indolente V c) Pode surgir um plasmocitoma isolado *17 F d) Deve ser realizada a pesquisa de substância amilóide*18 V/F e) A β2 -microglobulina não tem interesse prognóstico F 3. Neste doente esperaria encontrar: a) Lesões osteolíticas V b) Hipocalcémia F Página 33 de 34 Doenças Linfoproliferativas c) Insuficiência renal F d) Aumento das imunoglobulinas normais F e) Fracturas espontâneas*19 F *Bom estudo* Nélia =) Página 34 de 34 *13 A doença das cadeias pesadas é uma neoplasia linfoplasmocítica rara com diferentes características clínicas consoante o tipo de cadeias: - α (diarreia crónica, perda ponderal, má absorção, adenopatias mesentéricas e para-aórticas extensas podendo estar relacionada com parositoses intestinais) - µ (associada a um subgrupo de doentes com LLC) - γ (linfadenopatias, febre, anemia, hepatoesplenomegalia, edema do palato) *14 Na macroglobulinémia de Waldenström o pico monoclonal é de Ig M, existe esplenomegália e infiltração da medula óssea por linfócitos plasmocíticos e está ausente doença óssea lítica. *15 Características de uma gamapatia monoclonal de significado desconhecido: - componente M ( Ig G 60 anos � Sexo masculino + � Aumento do risco: • radiação, quimioterapia: - Doença Hodgkin, LNH, MM, CA ovário, CA mama • diesel, benzeno • Anemia aplástica, hemoglobinúria paroxística nocturna • Anemia Fanconi, síndrome Down I – Síndromes Mielodisplásicas São caracterizadas por hematopoiese ineficaz e desorganizada, afectando uma ou mais séries da linhagem mielóide. Deste modo, os doentes apresentam uma ou mais citopénias (quase todos têm anemia), apesar da presença de um número normal ou elevado de células hematopoiéticas na medula óssea (apenas 10% dos pacientes apresentam medula óssea hipocelular). Geralmente a displasia atinge as 3 principais linhagens celulares. A maturação celular deficiente é acompanhada pelo aumento da apoptose intramedular, o que contribui para a diminuição da libertação de células maduras para a periferia. 20 a 30% das SMD evoluem para Leucemia mielóide aguda (LMA). Síndromes Mielodisplásicas: 1. Primárias – Ocorrem predominantemente nos idosos. A maioria dos casos são idiopáticos. No entanto,a exposição a radiações, quimioterapia ou químicos orgânicos (ex: benzeno) aumenta o risco. As crianças com anemia de Fanconi1 ou com síndrome 1 Anemia de Fanconi: deficiência hereditária, autossómica recessiva, dos mecanismos reparadores de DNA nas células estaminais. Dá origem: anemia aplástica, pigmentação da pele, malformação óssea, défices neurológicos, criptorquídea e maior susceptibilidade para LMA. Desgravadas do 3º Ano – 2006/07 Disciplina:Seminário de Medicina I 15/01/08 Tema da Aula:Leucemias Autor(es):Pedro Costa e Pedro Branco Equipa Correctora: ___________________________________ Página 2 de 27 Síndromes Mielodisplásicas Principais Características � Citopénias; > ria tem anemia moderada a grave � Evidência morfológica de displasia em pelo menos 2 linhagens celulares � Incidência US: ~15,000 casos / ano � Em regra MO hipercelular ou normocelular � 20 a 30% evoluem para LMA de Down também apresentam mais frequentemente mielodisplasia. A anemia aplástica e a hemoglobinúria paroxística nocturna podem evoluir para mielodisplasia. 2. Secundárias (10-15% dos casos) – Ocorre em doentes de qualquer idade, na sequência de quimioterapia, radiação ionizante e transplante de medula óssea. SMD Mecanismos de Doença � Eritropoiese ineficaz devido a aumento de apoptose (morte celular programada) � Maturação celular deficiente � Alteração da resposta a hormonas regulatórias Sintomas e Diagnóstico: Na maioria dos doentes com SMD, o diagnóstico é acidental, após a descoberta de citopénias periféricas em análises de rotina. Nos doentes sintomáticos, as queixas derivam, geralmente, dos efeitos secundários das citopénias, como os seguintes: • Hemorragias; • Equimoses; • Infecções; • Fadiga; • Fraqueza; • Dispneia. O exame objectivo, geralmente, não apresenta alterações significativas, mas cerca de 25% dos doentes têm esplenomegália, e raramente podem apresentar lesões cutâneas com febre. O mielograma, normalmente, revela alterações nas três séries celulares, sendo frequente a assincronia no desenvolvimento núcleo/citoplasma. Série eritróide: Macrocitose (mas raramente VGM>110), ↓Nº Reticulócitos, sideroblastos em anel, ↑ depósitos de ferro. Página 3 de 27 Classificação FAB dos SMD Anemia Refractária (AR) AR com Sideroblastos em Anel AR com Excesso de Blastos (AREB) AREB em Transformação LMMC Blastos MO (%) 15% SA 5-20% 21-30% 5% 1000 monos/µl Risco de LMA 1 A - 5% 2 A - 10% 0% 1 A - 25% 2 A - 35% 1 A - 55% 2 A - 65% 14-33% Sobrevida 3-6 Anos 3-6 Anos 5-12 Meses 5-12 Meses 16-53 Meses Série granulocítica: Hipogranulação, hipolobares2 ↑ nº blastos, função deficiente (adesão e fagocitose). Série plaquetária: Micromegacariócitos agranulares, plaquetas gigantes, plaquetas sem grânulos, função deficiente. Diagnóstico diferencial: Devem ser consideradas e excluídas outras causas de displasia medular como: • Deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico; • HIV; • Alcoolismo; • Quimioterapia3; • Anemia aplástica – distinção muito importante nos pacientes que apresentem MO hipocelular. Classificação4 e Prognóstico: A classificação FAB, baseada na morfologia das células da medula óssea e na percentagem de blastos, permite a divisão das síndromes mielodisplásicas em 3 categorias de prognóstico: 1. Anemia refractária + Anemia refractária com sideroblastos em anel – Melhor prognóstico; 2. Anemia refractária com excesso de blastos + Anemia refractária com excesso de blastos em transformação – Pior prognóstico; 2 Tipicamente apresentam um núcleo bilobado chamado anormalia de Pelger-Huet. 3 Não se deve diagnosticar SMD até 6 meses depois da quimioterapia. 4 O professor disse não ser necessário saber as tabelas de cor. Página 4 de 27 Citogenética dos SMD � Anomalias em 40-60% SMD de novo � Anomalias em > 80% SMD secundários � IMP no prognóstico • normal, Y-, 5q- > 2 anos • +8 1-2 anos • -7, -5, othersincidência de 10 por 100.000 pessoas (na neoplasia da prostata é de 42/100.000 e na neoplasia da mama 62/100.000 ). Etiologia: As leucemias agudas podem ser secundárias a SMD, LMC ou podem ocorrer “de novo”. A maioria dos doentes com leucemia aguda apresentam alterações cromossómicas características, no entanto desconhece-se de que forma contribuem para a transformação maligna. Factores de risco conhecidos para leucemia são: exposição a radiação, ao benzeno e a quimioterapia. Também há maioria incidência de leucemias em doentes com patologias associadas a instabilidade cromossómica como anemia de Fanconi ou síndrome de Down. 6 A distinção entre LMA e LLA pode ser feita pela morfologia e pela presença de Bastonetes de Auer na LMA ou por imunofenotipagem. Página 7 de 27 Manifestações Clínicas: Os principais sintomas da leucemia decorrem da acumulação de blastos na medula óssea, prejudicando ou impedindo a produção de leucócitos, eritrócitos e plaquetas ocorrendo assim pancitopénias, que podem levar à morte em semanas a poucos meses. • Anemia: fadiga (acentuada e rapidamente progressiva), descompensação de patologias concomitantes e palidez da pele e mucosas; • Neutropénia: febre com ou sem foco infeccioso, provoca úlceras da cavidade oral; • Trombocitopénia: discrásia cutâneo-mucosa (hemorragias, equimoses, petéquias, gengivorragias) – sobretudo na leucemia mielóide aguda (LMA); • Leucocitose: leucostase7 pulmonar (infiltrados pulmonares difusos, ARDS; dispneia, polipneia) ou cerebral (cefaleias, vertigens, perda de consciência, AVC, hemorragia cerebral); • Cloroma8 ou hipertrofia gengival9 – sobretudo nas leucemias da linhagem monocítica • Infiltração do SNC – sobretudo na leucemia linfoblástica aguda (LLA) • Dores ósseas (+ nas crianças); • Linfadenopatia e hepato-esplenomegalia – sobretudo nas LLA ; • Coagulopatia – sobretudo na leucemia promielocítica aguda. Avaliação laboratorial: 1 - Hemograma + esfregaço de sangue periférico 2 - Mielograma com exame morfológico e citoquímico Classicamente as leucemias agudas eram divididas segundo a classificação FAB, que considera aspectos morfológicos das células. Mais recentemente, a OMS propôs uma classificação que também tem em conta a citogenética10. 3- Imunofenótipo10 Actualmente, a classificação é feita sobretudo pelo imunofenótipo. 7 A leucostase resulta de elevado nº de blastos em circulação (superior a 80.000 ou 100.000). O elevado número de células pode provocar ainda hipocaliemia, acidose e hiperuricemia (que pode provocar insuficiência renal). O tratamento passa por leucoferese (procedimento em que são separados os leucócitos do sangue), hidroxiureia, quimioterapia (para reduzir o nº de células circulantes), hidratação e alcalinização da urina (para reduzir a cristalização da urina). 8 Massa tumoral composta por mieloblastos. 9 Leva muitas vezes ao desalinhamento dos dentes. 10 As classificações foram abordadas em métodos laboratoriais como tal não as iremos descrever nesta desgravada. Página 8 de 27 4- Citogenética É mandatório pedir cariótipo a estes doentes já que a grande maioria deles apresenta alterações cromossómicas, que vão desde as delecções até às translocações, o que vai influenciar o seu prognóstico e em certos casos o tipo de tratamento. As anomalias citogenéticas típicas referidas pelo professor foram: t(15;17) na M3, Inv (16) na M4Eo e t(8;21) na M2. Página 9 de 27 Nos seguintes factores de mau prognóstico destaca-se a importância da citogenética: Tratamento: Indução de remissão – com o objectivo de remissão completa, ou seja, diminuir o nº de blastos neoplásicos para um nº indetectável (menos de 5% de blastos na medula óssea) e restabelecer a hematopoiese normal. No entanto, após remissão completa pode persistir doença subclínica, o que exige continuação da terapêutica. Pós-remissão: Consolidação – quimioterapia com os mesmos agentes de forma a induzir eliminação de células neoplásicas. Intensificação – quimioterapia de dose elevada com fármacos diferentes de forma a eliminar células com resistência ao regime de indução. Manutenção – quimioterapia de baixa dose intermitente durante um período prolongado para prevenir recidivas. Página 10 de 27 A terapêutica11 para a LMA envolve quimioterapia de indução com consolidação/intensificação durante 4 a 6 meses. O esquema terapêutico para a LMA, no geral, é composto pelo IDAC = idarrubicina (antraciclina) + ARA C (cytosine arabinosine ou citarabina), o que permite remissão completa em 60 a 80% dos adultos. A sobrevida aos 5 anos após remissão varia entre os 15 e os 50% quando é utilizada quimioterapia isoladamente. As alterações citogenéticas em cada doente são essenciais para as decisões terapêuticas e para o prognóstico. Doentes com características de alto risco (mau prognóstico) são candidatos a transplante. A cura das LLA é de cerca de 80% nas crianças e 40% nos adultos. O tratamento pode basear-se numa combinação de vincristina, antraciclina, ciclofosfamida e prednisona, a que se segue terapêutica de consolidação/intensificação. A LLA tende a recidivar vários meses ou anos após a remissão inicial, pelo que se deve fazer uma terapêutica de manutenção (que não tem um papel tão bem estudado na LMA). O SNC e testículos, protegidos pelas barreiras hematoencefálica e hematotesticular, respectivamente, constituem locais onde podem permanecer algumas células malignas residuais. Deste modo recorre-se a irradiação cerebral ou metotrexato intratecal como tratamento adjuvante. A maioria das recidivas ocorre num período de 2 anos após a terapêutica inicial, sendo que a sobrevida destes doentes aos 3 anos é inferior a 10%. São, por isso, candidatos a transplante. Doentes com LLA com cromossoma Filadélfia t(9;22), por ser de mau prognóstico, são candidatos a transplante alogenico após 1ª remissão já que este tipo de leucemia é bastante 11 A terapêutica foi falada com pouco pormenor na aula. Procurou-se completar com o Cecil nesta anotada. Página 11 de 27 agressivo. O tratamento com imatinib (inibidor da tirosina cinase da proteína de fusão Bcr-Abl) permite alguma resposta nestes casos. O transplante de células estaminais pode ser autólogo (são retiradas células estaminais ao doente e, após quimioterapia de alta dose, essas células são reinjectadas; existe o risco de recidiva se essas células estaminais estiverem contaminadas com células neoplásicas) ou alogénico (são utilizadas células de um dador saudável e compatível). A idade avançada (superior a 65 anos) é uma das contra-indicações para o transplante. Quanto pior for o prognóstico, mais cedo deve ser considerado o transplante. LEUCEMIA PROMIELOCITICA AGUDA Leucemia Promielocítica (M3) os doentes apresentam uma coagulopatia grave cursando com coagulação intravascular disseminada (tendo muitas vezes nestes casos que se administrar heparina e concentrado de plaquetas) pois as células têm uma grande quantidade de grânulos eosinófilos que coalescem em forma de bastonetes de Auer e que são pró-coagulantes. Há 15 ou 20 anos esta forma de LMA apresentava grande mortalidade durante a terapêutica de remissão porque estas células desgranulavam e havia este cataclismo na circulação com muitos fenómenos hemorrágicos trombóticos. A LMA M3 apresenta uma translocação cromossómica singular t(15;17) que resulta na formação de uma proteína de fusão particular PML/RARα que impede a diferenciação pró-mielocítica aumentando a proliferação de blastos. O tratamento passará assim pela inibição desta proteína que é conseguido pelo ATRA (ácido all-trans retinoico) fazendo com que osblastos se diferenciem em neutrófilos maduros. Se houver recidiva administra-se trióxido de arsénio de baixa dose, que induz diferenciação incompleta das células neoplásicas. È ainda de referir que neste tipo, quando ocorre remissão, esta é mais prolongada e a probabilidade de cura é muito elevada. Página 12 de 27 III – Síndromes mieloproliferativas crónicas As síndromes mieloproliferativas (Policitemia Vera (PV), Trombocitose Essencial (TE), Mielofibrose (MF) e LMC) caracterizam-se por perda do controlo normal na proliferação, não havendo resposta aos mecanismos de regulação da hematopoiese. Manifestam-se por leucocitose, trombocitose, eritrocitose, esplenomegalia e hipercelularidade da medula óssea. Todos podem evoluir para leucemia aguda, sendo no entanto mais frequente na LMC. A divisão das síndromes mieloproliferativas tem como base o tipo celular hiperproliferativo predominante: PV – eritrócitos; TE – plaquetas; MF – Fibrose da medula óssea. • POLICITÉMIA VERA12 É uma síndrome que afecta geralmente individuos com +60 anos e é caracterizada pela proliferação maligna de um percursor eritroide, levando ao aumento do número de eritrócitos no sangue periférico. Estes clones não necessitam de Eritropoietina para evitar apoptose ou iniciar a divisão celular. Recentemente descobriu-se uma associação entre uma alteração genética no gene JAK2 e a PV (65 a 97%). Manifestações clínicas: As principais manifestações da PV devem-se à hiperviscosidade sanguínea, podendo no entanto não apresentar nenhuma alteração. Sinais/sintomas: • Cefaleias; • Tonturas; • Zumbidos; • Distúrbios visuais; • Prurido após banho quente; • Úlcera gástrica; • Eritromelalgia13; • Face pletórica; • Esplenomegália (60%); 12 Excluir causas secundárias. 13 Sensação de queimadura nos dedos . Página 13 de 27 • Fenómenos trombóticos arteriais e venosos – principal causa de morte (AVC; AIT; Isquémia do miocárdio); • Gota (devido à hiperuricémia por aumento de turnover eritrocitário); • Hemorragias devido a plaquetas disfuncionais. • Podem também apresentar leucocitose e trombocitose. Tratamento: 1- Fase inicial – Pletórica • Flebotomia até atingir Htc 500x109) e leucócitos. Também esta síndrome parece estar associada a mutações no gene JAK2, estando em curso vários estudos para o comprovar. Manifestações clínicas: • Hemorragias; • Trombose venosa e arterial (mais frequente que a venosa); • Oclusões microvasculares; • Cefaleias; • Toracalgia incaracterística; • Isquémia cerebral; • Abortos de repetição; • Eritromelalgia; • Tonturas. Diagnóstico: • Aumento das plaquetas; • Plaquetas hipogranulares; • Megariócitos aumentados, em grupos; • Agregação plaquetária anormal, com menor resposta à epinefrina. Tratamento: • Anticoagulação oral; • Anagrelide (inibe maturação dos megacariócitos e agregação plaquetária); • Hidroxureia; • Plaquetaferese; • Controlo de Factores de risco cardiovascular. Página 15 de 27 • MIELOFIBROSE IDIOPÁTICA É uma síndrome caracterizada pela hiperplasia dos megacariócitos que produzem PDGF (factor de crescimento derivado das plaquetas) originando fibrose intensa da medula óssea e metaplasia mielóide14. O esfregaço de sangue periférico revela alterações leucoeritroblásticas caracterizadas por eritrócitos em forma de lágrima, plaquetas gigantes, e percussores não leucémicos eritróides, mielóides e leucocitários. Manifestações clínicas: • Sintomas hipermetabólicos: suores nocturnos, febre e perda ponderal.; • Saciedade precoce; • Hemorragia gastro intestinal; • Desconforto abdominal devido à hepatoesplenomegália; • Sintomas de aplasia medular: anemia, infecções e hemorragias; • Insuficiência cardíaca; • Hemorragia intracraniana; principais causas de morte (juntamente com • Embolia pulmonar. Infecções). Diagnóstico: • Anemia Normocitica/normocrómica; • Mielémia+dacriócitos; • Leucocitose/trombocitose; • Agregação plaquetária anormal; • Mielograma “dry tap”; • Biópsia óssa com hiperplassia das 2 séries (fibrose colagénica e reticulínica). Tratamento: • Transplante alogénico de medula óssea (associado a grande mortalidade); • Suporte de medula; • Transfusões, eritropoeitina, androgénios e talidomida caso exista anemia sintomática; • Hidroxiureia; • INF-alfa; 14 Hematopoiese no fígado e baço – hepatoesplenomegália. Página 16 de 27 • Esplenectomia; • Irradiação paliativa do baço a doentes não candidatos a cirurgia. • LEUCEMIA MIELÓIDE CRÓNICA Leucemia Mielóide Crónica o Dç mieloproliferativa crónica o Lesão da célula estaminal o Evolução clínica bem definida o Alteração Genética Típica • Ph1+ • Bcr/Abl transforma progenitor hematopoiético num clone maligno A evolução clínica desta patologia é muito bem definida, terminando, invariavelmente, numa leucemia mielóide aguda, caso não seja tratada. Apresentação clínica: Cerca de 50 % dos doentes são assintomáticos (50% dos casos são diagnosticados em exames de rotina) no início da fase crónica enquanto outros apresentam sintomas gerais como fadiga, mal-estar e perda ponderal ou sintomas resultantes da esplenomegalia, como saciedade precoce e dor no hipocôndrio esquerdo. Achados Laboratoriais: • Leucocitose com células imaturas em vários estádios de maturação; • Trombocitose; • Anemia ligeira (normocitica e normocrómica); • Basofilia - A produção de histamina secundária à basofilia está associada, nos estadios tardios, a manifestações como prurido, diarreia e rubor. Página 17 de 27 No mielograma detecta-se uma medula óssea hipercelular com grande predomínio de células da linhagem mielóide. Evolução da Doença Leucemia Mielóide Crónica Evolução da Doença 85% dos doentes são diagnosticados na fase crónica, que dura 5 a 6 anos. Esta caracteriza-se por uma elevada eosinofilia e basofilia, com poucos blastos no sangue periférico. A entrada na fase acelerada é caracterizada, clinicamente, por febre, perda ponderal, dores ósseas (devido à renovação celular na MO) e agravamento da esplenomegalia, e, laboratorialmente, por acentuação da leucocitose e aumento do nº de blastos circulantes. A crise blástica corresponde a uma leucemia aguda secundária, na qual a MO é preenchida por blastos (> 20% das células da MO), com perda de elementos celulares maduros na periferia. Os doentes morrem em semanas a meses sem tratamento. Na sequência da crise blástica 2/3 dos pacientes desenvolvem LMA (leucemia mielóide aguda), enquanto o restante 1/3 desenvolve LLA (leucemia linfóide aguda), o que comprova que a célula neoplásica inicial é capaz de diferenciação em várias linhagens. Citogenética: O diagnóstico da LMC é estabelecido pela identificação da expansão clonal de uma célula estaminal hematopoiética com a translocação recíproca entre os cromossomas 9 e 22, resultando na fusão do gene bcr (cromossoma 22q11) com o gene abl (cromossoma 9q34) – Página 18 de 27 Cromossoma Philadelphia. A detecção do cromossoma Philadelphia (positivo em mais de 95% dos doentes) é feita através da cariotipagem, PCR ou FISH. O gene quimérico BCR/ABL produz uma nova proteína que possui actividade tirosina cinase constitutiva, o que permite a proliferação celular independente defactores de regulação. Terapêutica: A terapêutica da LMC mudou radicalmente desde a descoberta do Imatinib, um inibidor específico da actividade da tirosina cinase do gene BCR/ABL, sendo bem tolerado e atingindo 98% de controlo da fase crónica da doença. O Imatinib apresenta uma maior eficácia que os outros fármacos na indução de remissões hematológicas (restabelecer o nº normal de células no sangue periférico), citogenéticas (perda do cromossoma Philadelphia) e moleculares (perda do gene bcr-abl), além de atrasar a progressão da doença para as fases acelerada e blástica. Surgiram agora inibidores da tirosina cinase de segunda geração, o dasatinib, que tem uma eficácia 325x superior, sem resistência cruzada com o imatinib mas que por ser muito recente apenas e usado em doentes resistentes a este. A quimioterapia com hidroxiureia ou busalfan é eficaz na redução do número de células mielóides, durante a fase crónica da doença. Contudo, estas drogas não alteram o prognóstico a longo prazo nem previnem as crises blásticas. O IFN-alfa é actualmente pouco utilizado mas por vezes permite remissões citogenéticas. Página 19 de 27 IV – Histórias clínicas15 História Clínica 1: DA - ♂, 22 anos, fumador, recorre ao serviço de urgência com uma história de astenia e anorexia progressivas nas últimas 4 semanas. Refere ainda o aparecimento de manchas “cutâneas” nos últimos 10 dias. Há 3 dias iniciou febre sem foco evidente de infecção. EO (de relevante): Palidez acentuada da pele e mucosas; Pele e escleróticas anictéricas; Hipertrofia gengival; Petéquias e equimoses dispersas nos membros inferiores. E. C. Diagnóstico: Hb – 6.8 g/dL (13-18) Leucócitos – 184.070 × 106/L (4.000 – 11.000); Neutrófilos 3% (40-75%), linfócitos 6% (20-45%), células indiferenciadas 90% que, por citometria de fluxo, se verificou terem o seguinte imunofenótipo: CD13+, CD33+, CD14+, HLA-DR+; Plaquetas – 3.000 × 106/L (150.000-400.000); Pesquisa de sangue oculto nas fezes – negativa; LDH – 967 U/L (70-250); Funções hepática e renal normais. Neste caso temos uma anemia marcada, trombocitopénia marcada e uma leucocitose com grande percentagem de blastos. Marcadores imunofenotipicos: CD13 e CD33 – linhagem mielomonocíti;ca; CD14 – diferenciação monocitica; A hipertrofia gengival é característica de LMA da linhagem monocitica (LMA M4 ou M5 da classificação FAB). A rapidez com que se instalou o quadro clínico está de acordo com o diagnóstico de leucemia aguda. 15 As histórias não foram apresentadas na aula, por serem iguais às do ano passado, como tal transcrevemos as histórias clínicas da desgravada do ano anterior. Página 20 de 27 Questões 1. Em relação as possíveis causas desta doença podemos afirmar o seguinte: a. Trata-se de uma anemia refractária com excesso de blastos. FALSO O quadro clínico de instalação rápida, aliado à idade do paciente, descarta a hipótese de síndrome mielodisplásica (como é o caso da anemia refractária com excesso de blastos). Se estivéssemos perante uma síndrome mielodisplásica seria de esperar que alguns meses antes o doente já apresentasse queixas resultantes de uma ou mais citopenias e que fosse mais velho. b. Possivelmente, trata-se de uma reacção leucemóide. FALSO Uma reacção leucemóide ocorre quando existe uma leucocitose, geralmente com neutrofilia, secundária a outra situação, mais frequentemente uma infecção. É uma reacção normal do sistema imunológico perante uma situação inflamatória ou infecciosa. c. O doente tem uma leucemia aguda secundária. FALSO Não há indícios de doença hematológica prévia, pelo que deve tratar-se de uma leucemia aguda “de novo”. d. O diagnóstico é de leucemia linfoblástica aguda. FALSO CD13 e CD33 são marcadores da linhagem mielóide. e. O tabagismo pode estar associado ao desenvolvimento desta doença. DISCUTÍVEL Os fumadores têm uma maior incidência de leucemias agudas. No entanto este é um doente jovem com poucos anos de tabagismo por isso não se sabe de que forma o tabaco pode ter influenciado o seu aparecimento. 2. No quadro clínico-laboratorial esperaríamos encontrar: a. Volumosas linfadenopatias. FALSO Na LMA é rara a presença de linfadenopatias. Esta ocorrência é mais comum nas LLAs, no entanto, estas linfadenopatias nunca são muito volumosas como ocorre nos linfomas. b. Dispneia e polipneia. VERDADEIRO Página 21 de 27 A anemia pode provocar dispneia, apesar de um indivíduo jovem tolerar bem uma anemia de 6,8 g/dL em repouso. A leucocitose acentuada pode provocar leucostase, devido à incapacidade de as células leucémicas fluírem normalmente na microcirculação (particularmente ao nível do cérebro e pulmões). Além do número elevado de células em circulação, neste caso particular, os monócitos são células grandes e pouco deformáveis. c. Alterações neurológicas. VERDADEIRO Podem ser manifestações de leucoestase. d. Coagulação intravascular disseminada. FALSO A ocorrência de CID está mais relacionada com a leucemia promielocitica aguda (LMA M3), em que os promielocitos contêm muitos grânulos com substâncias procoagulantes e estimulantes da fibrinólise, cuja desintegração origina, frequentemente, fenómenos hemorrágicos /trombóticos. No entanto, praticamente todas as leucemias podem dar CID. e. Excreção de lisozima na urina. VERDADEIRO A lisozima é uma enzima que existe na linhagem monocitica, pelo que a sua excreção urinária pode estar aumentada nas leucemias desta linhagem (LMA M4 e M5). 3. Como trataria este doente? a. Administrava antibióticos de largo espectro por via intravenosa. VERDADEIRO A febre acompanhada de neutropénia é sinónimo de deficiência imunológica grave, pelo que há indicação de iniciar antibioticoterapia de largo espectro. A mortalidade de episódios de febre neutropénica é muito significativa se em 24h não se iniciar antibioticoterapia. b. Fazia só profilaxia da infecção bacteriana. FALSO Como o doente apresenta febre, há que tratar primeiro a possível infecção, usando antibioticoterapia de largo espectro. A profilaxia é feita em pacientes com neutropénia e sem febre, envolvendo um antifúngico e um antibiótico. c. Transfundia de imediato CE e CP. VERDADEIRO Página 22 de 27 Para reverter as citopenias é adequada a transfusão de concentrados eritrocitários (CE) e plaquetários (CP). A trombocitopénia de instalação rápida, como neste caso, pode ter consequências graves, como uma hemorragia intracraniana, por exemplo. d. A quimioterapia de indução corresponde à associação de citarabina e idarrubicina. VERDADEIRO O esquema clássico da terapêutica de indução na LMA consiste na associação de uma andraciclina (idarrubicina) durante 3 dias e Citarabina (ARA C) durante 7 dias. e. Propunha a realização de leucaferese terapêutica. VERDADEIRO A leucaferese está indicada nas situações de urgência de leucostase (ex: AVCs ou insuficiência pulmonar) e sempre que os leucócitos> 100.000 x 106 (como neste caso). História Clínica 2 : DA - ♂, 72 anos, com hábitos alcoólicos importantes, seguido há ± 2 anos por anemia num hospital distrital, enviado ao serviço de urgência por agravamento laboratorial. O doente refere astenia progressiva no último mês. EO (de relevante): Palidez da pele e mucosas; Escleróticas anictéricas; Algumas petéquias nos membros inferiores. E. C. Diagnóstico: Hb – 7.8 g/dL VGM 105 fl; Leucócitos – 1190 × 106/L; Neutrófilos 48%, linfócitos 28%, células indiferenciadas 19% peroxidase+ e esterase específica+, monócitos 3% Plaquetas – 23.000 × 106/L ; LDH – 667 U/L ↑; Funções hepática e renal normais. O doente apresenta anemia, leucopenia e trombocitopenia.Página 23 de 27 Questões 1. Em relação as possíveis causas desta doença podemos afirmar o seguinte: a. Trata-se de uma anemia megaloblástica. FALSO A presença de 19% de células indiferenciadas em circulação exclui esta hipótese. b. O doente tem uma síndrome mielodisplásica. VERDADEIRO O doente apresenta pancitopenia e possui uma percentagem de blastos em circulação inferior a 20% das células totais. Esta síndrome mielodisplásica terá originado uma LMA secundária. c. O doente tem uma síndrome com deleção do braço longo do cromossoma 5 (5q- ). FALSO Geralmente, esta alteração citogenética origina uma síndrome mielodisplásica em que, apesar de ser característica uma anemia macrocítica, o número de plaquetas é normal ou elevado e geralmente surge em mulheres. Contudo, seria necessária uma cariotipagem para excluir esta hipótese. d. O doente pode ter uma anemia aplástica. FALSO A anemia aplástica caracteriza-se por uma pancitopenia com medula óssea hipocelular No entanto a presença de 19% de células indiferenciadas em circulação exclui esta hipótese. e. Podemos estar na presença de uma hemoglobinúria paroxistica nocturna. FALSO A hemoglobinúria paroxística nocturna caracteriza-se pela presença de eritrócitos susceptíveis à lise mediada pelo complemento. Manifesta-se por hemólise intravascular aguda episódica, com hemoglobinúria. Considera-se que faz parte do espectro das doenças mieloproliferativas porque há uma alteração numa célula estaminal hematopoiética associada a risco trombótico e risco de desenvolver leucemia e/ou mielofibrose. Pode ainda evoluir para aplasia. No entanto, o mais provável é que o doente esteja a desenvolver uma LMA secundária a uma mielodisplasia, provavelmente anemia refractária com excesso de blastos. 2. No quadro clínico-laboratorial esperaríamos encontrar: Página 24 de 27 a. Infiltração do sistema nervoso central. FALSO É rara a infiltração do SNC por LMAs, sendo a leucemia monocítica a que apresenta maior probabilidade de infiltração no SNC. Pelo contrário, a infiltração do SNC é mais frequente nas LLAs. b. Sideroblastos em anel no sangue periférico. FALSO A anemia com sideroblastos em anel é uma síndrome mielodisplásico que evolui com pouca frequência para LMA e que praticamente não tem blastos no sangue periférico. Estes sideroblastos em anel estão na medula óssea. c. Diminuição dos depósitos de ferro. FALSO Não há história de hemorragia nem alterações de absorção de ferro. Ao invés, por ter anemia, provavelmente o doente recebe transfusões sanguíneas, de que resulta um aumento dos depósitos de ferro. d. A presença de micromegacariócitos na medula óssea. VERDADEIRO Na LMA secundária a síndrome mielodisplásica, existem micromegacariócitos na MO. Os micromegacariócitos assumem especial importância no diagnóstico diferencial entre mielodisplasias e anemia aplásica quando a medula óssea é hipocelular, só estando presentes no primeiro caso. e. Alterações citogenéticas características. VERDADEIRO É frequente a presença de alterações citogenéticas na SMD e LMA, sendo as mais frequentes: trissomia do cromossoma 8, monossomia do cromossoma 7 ou 5 e delecção 5q. 3. Como trataria este doente? a. Programava suporte transfusional. VERDADEIRO b. Administrava G-CSF. FALSO O factor de crescimento dos granulócitos é usado nas leucopenias para aumentar as defesas contra infecções. Contudo, se administrássemos G-CSF iríamos aumentar ainda mais o número de blastos em circulação, o que desaconselha o seu uso neste caso. c. Realizava uma quimioterapia de indução típica de leucemia mielóide aguda “de novo”. FALSO Página 25 de 27 Em primeiro lugar, esta é uma LMA secundária e não “de novo”, tendo em princípio pior prognóstico. Além disso, em doentes idosos, a quimioterapia de indução pode diminuir a sobrevida e qualidade de vida, devendo ser utilizado um esquema mais conservador. d. Propunha para transplante alogénico de células estaminais se tivesse um irmão HLA-compatível. FALSO O transplante alogénico de células estaminais só é indicado, regra geral, até aos 6516 anos. Para doentes idosos pode considerar-se o transplante autólogo. e. A administração de desferroxamina poderá ser necessária. VERDADEIRO A desferroxamina é um quelante de ferro. Este doente vai receber transfusões, podendo ter ferro em excesso. História Clínica 3: DA - ♀, 42 anos, fumadora, trazida ao serviço de urgência pelo marido com uma história de grande astenia nas últimas 2 semanas e febre nos últimos 3 dias. Tem dispneia há cerca de 12 horas. EO (de relevante): Palidez acentuada da pele e mucosas; Dispneia para pequenos esforços; Linfadenopatias cervicais. Ponta de baço palpável; Petéquias dispersas nos membros inferiores. E. C. Diagnóstico: Hb – 9.8 g/dL; Leucócitos – 14070 × 106/L; Neutrófilos 3%, linfócitos 6%, células indiferenciadas 90%, PAS+, que, por citometria de fluxo, se verificou terem o seguinte imunofenótipo: CD19+, CD22+, HLA-DR+, cadeias κ e λ de superfície-; O cariótipo revelou a presença do cromossoma Filadélfia; Plaquetas – 13000 × 106/L. LDH – 1200 U/L. Questões 1. Em relação as possíveis causas desta doença podemos afirmar o seguinte: 16 Segundo o Cecil é recomendado aprognóstico, a doente iria precisar de transplante na primeira remissão. e. Com transplante alogénico de células estaminais em 1ª remissão. VERDADEIRO Diátese hemorrágica = discrasia hemorrágica Predisposição para hemorragia, resultante de uma alteração da hemostase sanguínea. Causas de Hemorragia: Anomalias das plaquetas Alterações dos factores da coagulação Anomalias dos vasos Avaliação Clínica 1 Alterações da hemostase Hemorragias = Diátese Hemorrágica (conjunto de patologias que originam hemorragia) Tromboses Esquema 1 – divisão das alterações da hemostase Anotadas do 4º Ano – 2007/08 Data: 12 de Dezembro de 2007 Disciplina: Seminário Prof.: Professor Ducla Soares Tema da Aula: Diáteses Hemorrágicas Autor(es): Lia Rocha Equipa Correctora: M. Inês Pereira Anamnese Exame Físico Categorização clínica Princípios de Investigação ANAMNESE Pontos críticos do interrogatório: 1 – Quando surgem as hemorragias? Para despiste de uma situação congénita devemos inquirir o doente no que respeita a episódios com risco de hemorragia: • no nascimento? Pelo cordão umbilical? Formação de um céfalo- hematoma? (aponta para origem genética da discrasia) • na circuncisão? (realizada em algumas culturas) • iniciação da marcha? (aprox. ao 1º ano de vida) • períodos menstruais? Qual a quantidade de sangue perdido? Desde quando? (atenção: só valorizar menorragias se forem acompanhadas de outros sintomas de discrasia hemorrágica..) • em cirurgias/extracções dentárias? 2 – Factores desencadeantes • Traumatismos – mas estes dão hemorragia em qualquer pessoa, sendo difícil avaliar a sua relevância em casos de discrasia hemorrágica. • Exposição a medicamentos/ tóxicos 2 Hipoplasia medular (↓ plaquetas) • citostáticos • tiazidas • benzeno (gasolina, colas rápidas, sprays tira-nóduas, tintas) Anticorpos anti-plaquetas ( ↓ plaquetas por fagocitose pelos macrófagos) • digoxina • tiazidas • rifampicina Lesão funcional das plaquetas • AAS • nitrofurantoína • insecticidas Alteração da síntese de factores de coagulação • dicumarínicos – anticoagulantes orais Alteração funcional de factores da coagulação • - heparina 3 – Há doença conhecida da qual a diátese hemorrágica seja uma forma de expressão? Doença causal: Infiltração da medula (leucemias, metástase, mielofibrose, cloranfenicol...) Anticorpos anti-plaquetários (LES – muitos casos de LES têm como primeira manifestação trombocitopénia, doença linfoproliferativa) Doença hepática (↓ factores de coagulação e/ou hiperesplenismo associado a cirrose hepática) Neoplasia (sind.paraneoplásico – ver esquema2) Esplenomegália (por ↑sequestração e destruição plaquetária (hiperesplenismo) ) Insuficiência renal 3 Carência de vit.K (ex: álcool e má nutrição) que impede síntese de f.coagulação 4 Esquema 2 – exemplificação da fisiopatologia que leva a discrasia hemorrágica no contexto de neoplasia células neoplásicas expressão factor tecidual (III – via extrínseca) em grandes quantidades activa a cascata de coagulação Coagulação Intravascular Disseminada CDI formação de trombos de plaquetas activação fibrinólise consumo dos factores de coagulação Discrasia hemorrágica 4 – Tipo de Hemorragia Mucocutâneas Profundas Outras TIPOS DE HEMORRAGIA Petéquias Máculas/manchas punctiformes, purpúreas com 3mm Coloração varia ao longo do tempo: 7 “Púrpura Palpável” A B C D Figura 2 – petéquias por vasculite A – petéquias com nódulos B – petéquias e úlceras por necrose C – petéquias no membro inferior D – petéquias no membro superior, no contexto de LES – lesão em mapa geográfico (distribuição irregular com petéquias coalescentes) • vermelha roxa verde amarela Corresponde a hemorragias arteriais ou venosas Causas de equimoses: - trombocitopénia - vasculopatias - coagulopatias Hematomas Colecções hemorrágicas em espaços dissecados (hemorragia colectada entre estruturas normais que foram separadas e formaram uma cavidade). Um hematoma que num indivíduo normal seria de pequenas dimensões, pode assumir grandes dimensões em doentes com diátese hemorrágica. Sintomas: - dor • - tumefacção Sinais indirectos de compressão Causas de hematomas:- coagulopatias 8 Figura 3 – equimoses A – equimose traumática na mão B – equimose extensa no membro superior após punção para colheita de sangue A B o - trombocitopénias 9 Figura 4 – imagens de RM de hematoma no músculo psoas (com dissecção do músculo) C Figura 5 – hematomas A – hemtoma da região rotuliana B – hematoma subungueal C – hematoma lingual (pelo edema pode levar a asfixia) D – hematoma craniano no recém-nascido E – hematoma rectro ocular (esquema) – dá exoftalmia unilateral, compressão do nervo óptico e consequente necrose do mesmo. A B C E Hemartroses Colecções hemorrágicas intra-articulares Sintomas: - dor (muito dolorosas) - tumefacção – com recidivas provoca anquilose (destruição da cartilagem e formação de pontes ósseas entre duas superfícies de osso) - calor Numa situação aguda, o doente apresenta-se muito quieto, numa posição que faça a menor distenção da cápsula articular possível – semiflexão articular. Ter uma hemartrose aumenta a probabilidade de ter outra hemartrose na mesma articulação, posteriormente. Causas de hemartroses:- Coagulopatias - Trombocitopénias 10 Figura 6 – hamartrose A – hemartrose rotuliana B – Rx mostrando o desaparecimento das cartilagens e anquilose (pontes ósseas) após hemartroses de repetição C – remoção do sangue intra-articular A B C Outros aspectos importantes a pesquisar no Exame Objectivo indicativos de doenças subjacentes: Ulcerações da boca e do períneo – relacionadas com processos infecciosos por neutropénia que dão sobretudo infecções das portas de entrada (infecções muco-cutâneas – sem pus) Palidez – por anemia Sinais de insuficiência hepática – icterícia; encefalopatia hepática; edema por hipoalbuminémia; aranhas vasculares; ginecomastia; eritema palmar. Esplenomegália Adenopatias – por neoplasias; doenças autoimunes. Artrites Derrame pleural Síndromes de Discrásias Hemorrágicas As discrásias hemorrágicas podem ser de dois tipos principais: 1. Alterações da hemostase primária Causas: - Disfunções na agregação plaquetária; - Défice de factor de von Willebrand (necessário para a adesão da plaqueta ao tecido subendotelial do vaso); - Aumento da fragilidade dos vasos. 2. Alteração dos factores de coagulação (hemostase secundária) Devem-sesobretudo a defeitos na cascata de coagulação. 11 Quando uma pessoa tem um traumatismo, e tem uma perturbação da hemostase primária, começa a sangrar imediatamente. No entanto, se tiver uma doença dos factores de coagulação, há um intervalo entre o traumatismo e o início da hemorragia. Isto acontece porque a rede de fibrina que solidifica o rolhão plaquetário não se forma capazmente, devido a um défice de factores de coagulação. Tendo em conta que o rolhão plaquetário é instável, quando é removido a pessoa sangra. O seguinte quadro é muito importante e resume as características destas duas classes de doenças. Manifestações Hemostase Primária (plaquetas ou vasos) – os doentes costumam ter queixas hemorragias muco-cutâneas Factores de Coagulação Início após trauma Imediato Intervalo Horas, dias Locais Superficial Aparelho Digestivo Aparelho Urinário Músculos Articulações Profundos Exame Objectivo Petéquias Equimoses Hematomas Hemartroses História Familiar Autossómica Dominante Recessiva Autossómica X-linked 12 Hemostase Primária – Patologias mais frequentes Congénitas - Doença de von Willebrand (a mais frequente, as restantes são raras) - Função plaquetária - Trombocitopénia - Afibrinogenemia Adquiridas - Púrpura trombocitopénica autoimune (mais comum) - Hiperesplenismo - Aplasia medular - Coagulação Intravascular Disseminada (comum no contexto de sépsis, de aborto induzido, feto morto, embolia do líquido amniótico, neoplasias); Púrpura Trombótica Trombocitopénica - Doença de von Willebrand Em relação às trombocitopénias, estas podem ser de diversas etiologias: • Menor produção - aplasia, fibrose, infiltração medular • Sequestração - esplenomegália • Maior consumo - coagulação intravascular • Maior destruição – mecânica; imunológica Coagulopatias – Patologias mais frequentes Congénitas (raras) - Hemofilia A (mais frequente) - 50 / 1.000.000 - Hemofilia B - 10/ 1.000.000 - Outros défices de factores - Doença de von Willebrand com carência de Factor VIII - 5-10 / 1.000.000 13 Adquiridas - Doença hepática (mais comum) - I, II, V, VII, IX, X, XI - Coagulação Intravascular Disseminada - Pode ter 3 apresentações: (1) Não ter apresentação clínica (2) Existência de trombos em número e posição variada levando a disfunção de órgão (3) Hemorragias por deplecção de factores de coagulação - Carência Vitamina K - II, VII, IX, X - Anticoagulantes - Inibidor Factor coagulação Testes Laboratoriais Os primeiros exames usados para avaliar globalmente a hemostase são: A contagem de plaquetas através do hemograma, que é o resultado da análise quantitativa e qualitativa dos elementos figurados do sangue; O tempo de protrombina (TP) – estudo da via extrínseca e final comum da coagulação. É sensível a deficiências nos factores tecidual, VII, X, V, II (factores vitamina K-dependente). O intervalo de duração do TP vai de 11 a 14s. É a forma mais sensível de verificar a eficácia da varfarina, uma vez que esta inibe o uptake de vitamina K pelo fígado. O tempo de tromboplastina parcial activada (APTT) – usado para avaliar a via intrínseca e final comum da coagulação. 14 É sensível a deficiências dos factores XII, HMWK, PK, XI, IX, VIII, V, X e protrombina (II). O intervalo do APTT vai de 25 a 37s. Usado para monitorização dos níveis de heparina não fraccionada. Se os dois tempos estiverem prolongados, a alteração será na via final comum (como por exemplo em caso de níveis inadequados de fibrinogénio) ou em ambas as vias, como acontece, por exemplo, na Coagulação Intravascular Disseminada. INR – Razão Normalizada Internacional É uma uniformização dos resultados laboratoriais da protrombina para melhor controlo da anticoagulação oral, porque as tromboplastinas não são todas iguais entre laboratórios. Consiste na razão entre o tempo da protrombina do doente e o valor de referência da protrombina (para cada laboratório), elevada ao índice de sensibilidade da tromboplastina. INR (normal) =1 15 NOTA: resumo do Harrison Trombocitopénia: Definição: nº plaquetas 5% – hemorragia pouco frequente e geralmente após trauma). 1.3. Clínica: hemorragia horas-dias após trauma e, se não tratada, pode durar dias → ↑ pressão tecidos → s. compartimental, congestão venosa (pseudoflebite) e isquemia nervosa; colecções podem formar massas calcificadas (s. pseudotumural); comum diagnóstico feito após parto por cefalohematoma extenso, mas se moderada pode só ser diagnosticada com o início marcha/gatinhar ou, se ligeira, na idade adulta; típico dor e edema em 17 articulação carga (anca, joelho, tíbio-társica) – hemartrose → se recorrente, osteoartrite, fibrose articular, anquilose e eventual atrofia muscular; hematúria comum (maioria auto-limitada); complicações mais graves são hemorragia orofaríngea e hemorragia no SNC. 1.4. Laboratório: ↑ aPTT, com PT, tempo hemorragia e plaquetas normais. 1.5. Terapêutica: plasma fresco, concentrado de factor VIII e crioprecipitado; actualmente factor VIII recombinante ou purificado por ac monoclonais é preferido para minimizar risco infecção viral e exposição a proteínas plasma; factor VIII tem ½-vida 8-12h (infusão contínua ou, pelo menos, 2x/dia); desmopressina ↑ transitoriamente níveis factor VIII na hemofilia ligeira; se hemorragia precoce ou não complicada, infusão factor VIII até níveis 15-20% (cada unidade [1mL] ↑2%/kg); se extensa manter níveis 25-50% durante mínimo 72h e se grave (p. ex. SNC, cirurgia major) infusão longa (~2 semanas) mantendo níveis ≥50%; se procedimento dentário dose única factor VIII seguido de ácido ε-aminocapróico 4x/dia duranteequimoses, hematomas e hemartroses, o que sugere fortemente patologia com envolvimento de outras linhas celulares da medula, como na Anemia Aplástica); • Alterações do Crescimento (no caso da Drepanocitose); • Dor óssea (caso da Drepanocitose); • Alterações neurológicas (sobretudo por carência de Vitamina B12, porque interfere com a sintese de mielina). FISIOPATOLOGIA De acordo com o modelo fisiopatológico, podemos classificar as anemias em 3 tipos: 1. Anemia por diminuição da produção - anemias hipoproliferativa, em que taxa de reticulócitos2,5, estando a medula óssea responsiva: a) Por causa intrínseca - hereditária: - Defeito na membrana do GV (Esferocitose e Eliptocitose Hereditárias) - Defeito enzimático (défice de G6PD e défice de Piruvato Cinase) - Hemoglobinopatia por défice qualitativo (Drepanocitose, presença de Hb’s instáveis) - Hemoglobinopatia por défice quantitativo (Talassémia) b) Por causa extrínseca – adquirida (eritrócitos são normais): - Microangiopática - Auto-imune - Efeito tóxico directo - Hiperesplenismo/esplenomegália IMPORTÂNCIA DOS RETICULÓCITOS NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Para diagnosticar e classificar o tipo de anemia o nosso raciocínio deve ser sequencial e ter como ponto de partida a análise da taxa de reticulócitos, pois permite Página 8 de 33 identificar se a medula está a responder ou não à anemia. Quando há anemia, há aumento da EPO que vai estimular maior proliferação e diferenciação de células da linhagem hematopoiética. Este aumento de produção de glóbulos vermelhos faz com que células ainda jovens e não completamente amadurecidas (reticulócitos) saiam para a corrente sanguínea, aumentando a taxa de reticulócitos. Se não houver aumento da produção dos glóbulos vermelhos esta taxa não aumenta adequadamente, sendo um indicador da falência da resposta medular. Esta falência pode ser originada por diminuição/défice de acção de qualquer factor essencial à formação de Hg e eritrócitos (EPO, ferro, ácido fólico, vitamina B12, por exemplo). Por isso, quando observamos a taxa de reticulócitos diminuida, o passo seguinte é perceber como está a VGM. Se a VGM e HGM estão normais estamos perante uma anemia normocítica e normocrómica (tamanho e concentração da hemoglobina por eritrócito estão mantidos) havendo uma deficiência quantitativa em número de eritócitos com uma medula óssea hipoproliferativa. São possíveis causas a lesão medular (infiltração/fibrose e a aplasia em que há uma diminuição do espaço para a proliferação e a destruição das células precursoras, respectivamente) e a menor estimulação medular (inflamação, que diminui a resposta à EPO; defeito metabólico como o hipotiroidismo, em que como há uma diminuição do metabolismo basal, os tecidos precisam de menos O2, diminuindo o estímulo para a produção de eritrócitos; e a doença renal, onde há menor produção de EPO). Se VGM está diminuida estamos perante uma anemia microcítica associada a distúrbios de maturação citoplasmática e são possíveis causas a carência de ferro, talassémias, intoxicação por chumbo (interfere com a síntese do heme) e a anemia sideroblástica. Se VGM está aumentada estamos perante uma anemia macrocítica associada a distúrbios de maturação nuclear e são possíveis causas a deficiência de folato, de vitamina B12 e a toxicidade a fármacos. Tanto na anemia micro como macrocítica há hiperplasia eritróide mas com uma eritropoiese ineficaz que leva à destruição de eritroplastos em desenvolvimento na medula óssea, havendo menor libertação de reticulócitos na circulação sanguínea. A perda sanguínea subaguda e causas de hemólise intra e extravascular que explorámos previamente vão originar uma anemia em que a taxa de reticulócitos está aumentada sendo igual ou superior a 2,5. Página 9 de 33 Iremos de seguida abordar cada um dos casos. Começamos pela anemia ferropénica. ANEMIA FERROPÉNICA Etiologia - Diminuição da ingestão - Má-absorção - Perdas hemáticas, muito frequentes a nível gastro-intestinal (ambos os sexos) e genito-urinário (muito frequente nas mulheres. Geralmente quando em idade fértil, nem se vai à procura de causas GI) - Aumento das necessidades (frequente na gravidez e em crianças). Manifestações Clínicas - Cansaço - Palidez da pele e mucosas - Cabelo frágil, baço e quebradiço - Unhas frágeis; presença de platoníquia que evolui tipicamente para coiloníquia, podendo estar associadas outras alterações das unhas - Lábios com rágadas e estomatite angular - Língua com superfície dorsal lisa e brilhante (queilose) Avaliação Laboratorial - Anemia microcítica hipocrómica (VGM3-4 dias (inibe activadores do plasminogénio), mas se procedimento major internar para infusão de factor VIII; infusões profiláticas de factor VIII se hemorragia recorrente. 1.6. Complicações: hepatite comum (actualmente risco é menor) e SIDA se produtos sanguíneos antes testes para HIV; ferropenia rara pois hemorragia é geralmente interna; por vezes anemia hemolítica Coombs + ligeira por ac anti- A/B presentes em concentrados pureza intermédia; 10-20% com hemofilia grave desenvolvem inibidores factor VIII após múltiplas transfusões (maioria IgG que neutralizam factor VIII; tipo I ↑ título após exposição – não dar factor VIII humano, mas sim porcino, complexos protrombina ou factor VIIa [activa factor X directamente]; tipo II têm baixo título constante – responde a ↑dose de factor VIII; indução de tolerância cara e pouco eficaz – usar na doença grave). 1.7. Rastreio: diagnóstico na gravidez por biópsia coriónica ou amniocentese. 18 1.8. ♀ portadoras: por vezes níveis 100s), mas hemostase normal; não requer terapia. 5. Δ fibrinogénio: não causam geralmente hemorragia grave, excepto se cirurgia. 5.1. Afibrinogenemia: sem fibrinogénio detectável; episódios de hemorragia pouco frequente e ligeira; sem alteração genética major. 5.2. Disfribrinogenemia: mutação fibrinogénio geralmente AD (½ fibrinogénio normal e ½ anormal); ↑ligeiro PT, aPTT e disparidade entre níveis e função do fibrinogénio; assintomáticos ou hemorragia moderada; por vezes fibrinogénio mutado é pró-trombótico e noutros ↑ risco de aborto; também forma adquirida (doença hepática, hepatoma, SIDA, doenças linfoproliferativas). 19 6. Défice factor XIII: muito raro; hemorragia neonatal; por vezes ↓ cicatrização, ↑ risco hemorragia intra-cerebral, infertilidade (♂), aborto (♀); fármacos (isoniazida) podem simular ↓ factor XIII; infusão única de plasma fresco é eficaz (½-vida 14 dias). 7. Défice VitK: causas major são ↓ingestão, má-absorção e doença hepatocelular; défice VitK ↓ factores complexo protrombina (II, VII, IX, X; proteínas C e S); factor VII e proteína C são 1os a ↓ (têm ½-vida mais curta) → ↑PT com aPTT normal; depois ↓ outros factores → ↑aPTT; VitK parentérica restaura reservas e permite produção factores em 8-10h (mensal se causa de défice se mantiver); plasma fresco se hemorragia grave (correcção imediata); evitar concentrados complexo protrombina (risco trombose e hepatite). 8. Coagulação Intravascular Disseminada [CID] 8.1. Etiologia: várias causas, mas mais comuns são catástrofe obstétrica, metástases, trauma grave e sépsis bacteriana. 8.2. Patofisiologia: por libertação factor tecidual na circulação ou activação da coagulação por endotoxina (também ↑ produção factor tecidual)→trombos/êmbolos na microcirculação→consumo de pró-coagulantes e fibrinólise 2ária → hemorragia 8.3. Clínica: hemorragia na maioria; por vezes trombose e embolismo com isquemia periférica; alguns têm Δ laboratoriais sem evidência de hemorragia ou trombose (sobretudo CID crónica e malignidade). 8.4. Laboratório: trombocitopenia, esquizócitos, ↑PT e aPTT, ↓ fibrinogénio (prediz hemorragia), ↑ PDFs (D-dímeros é mais específico). 20 8.5. Terapêutica: corrigir desencadeante, controlar sintoma major (hemorragia – plasma fresco e plaquetas [heparina controversa – reservar para hemorragia refractária]; trombose – anticoagular com heparina EV) e instituir profilaxia para prevenir CID crónica (heparina a longo prazo; não responde a varfarina). 9. Coagulopatia na DHC: hemorragia por lesão anatómica (varizes, UP, gastrite) exacerbada por defeito hemostático (trombocitopenia por hiperesplenismo; ↓VitK [↓reserva e ↓absorção por colestase]; ↓ síntese hepática de factores coagulação [VitK dependentes + fibrinogénio] e ↓ síntese de inibidores da coagulação [AT III, proteínas C e S] → predisposição para CID); TP prediz risco hemorragia; ↓↓ fibrinogénio sugere CID; dar VitK parentérica; corrigir défice factores coagulação com plasma fresco (evitar concentrado de complexo de protrombina e crioprecipitado – não contêm todos os factores em falta, podem contar factores coagulação activados e têm risco contaminação de [SIDA, hepatite]). 10. Anticoagulantes circulantes: maioria IgG que interferem com coagulação; infusão plasma não corrige ↑ TP e/ou aPTT. 10.1. Específicos: em 15-20% dos doentes com hemofilia A ou B após infusão plasma; por vezes também em indivíduos normais; sobretudo para o factor VIII (hemofilia A, pós-parto, fármacos, LES, SIDA), mas pode ocorrer para qualquer factor; se hemorragia pode requerer infusão massiva de plasma, complexo protrombina activado, plasmaferese ou exsanguinotransfusão; imunossupressão crónica útil sobretudo indivíduos normais. 10.2. Inespecíficos: tipo-lúpico; ligam-se a fosfolípidos; avaliados através da actividade anticoagulante (anticoagulante lúpico) ou pela capacidade ligação ao complexo fosfolípido-cardiolipina (ac anticardiolipina); surgem sobretudo no LES, mas também em outras doenças e indivíduos normais; hemostase normal excepto se trombocitopenia ou défice protrombina concomitante (também imunes); podem predispor para TE arterial e venoso e abortos 2º trimestre; risco 21 trombose sobretudo em doentes com LES; não tratar se assintomático; anticoagulação crónica se trombose (controverso se trombose minor em doente sem LES) ou mais do que 1 aborto no 2º trimestre (sobretudo se LES). 22 _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 1 de 26 Índice Introdução …………………………………………………………….………. 2 Cascata de coagulação e sistemas de controlo .…………………….. 3 Investigação das Doenças a Hemostase ………………………………… 6 Investigação Clínica ………………………………... ………………….. 6 Investigação Analítica ……………………………..…………………….. 7 Discrasias cutâneo-mucosas ...……………………..……………………… 9 Púrpuras Vasculares Hereditárias ….…………..………………. 10 Púrpuras Vasculares Adquiridas. ….……………………………. 10 Trombocitopenias ………………..….……………………………. 12 Púrpuras Plaquetárias …………..….……………………………. 14 Discrasias profundas ……….....……………………..……………………… 19 Alterações Hereditárias da Coagulação ………..………………. 19 Alterações Adquiridas da Coagulação .…………………………. 21 Trombose …………..……….....……………………..……………………… 22 Arterial ………………………………….………..………………. 22 Venosa ………………………………….…………………………. 22 Fatores de risco ……………………..….…………………………. 23 Indicadores clínicos de trombofílias ….…………………………. 24 Anticoagulantes …..……….....……………………..……………………… 25 Módulo V.I - Hematologia Data: 1 de Dezembro de 2015 Docente: Prof. Dr. Forjaz de Lacerda Tema da aula: Alteração da Hemostase e Trombofílias Desgravada por: Catarina Ribeiro Corrigida por: (não corrigida) comissaodesgravadas1218@gmail.com Faculdade de Medicina de LisboaHematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 2 de 26 Introdução A hemostase é um processo dinâmico e complexo, dependente da interação entre a parede vascular, leucócitos, plaquetas, coagulação e sistema fibrinolítico, controlado de uma forma muito fina, de sistemas pro-trombóticos e de sistemas anti-trombóticos, que funcionam sempre em paralelo. E apesar de, muitas vezes, do ponto de vista clínico, separarmos mentalmente doenças das plaquetas e doenças dos fatores de coagulação (FC), o sistema tem muito mais ligações do que há primeira vista possa parecer. Nomeadamente se estivermos a falar de fármacos que interferem fundamentalmente com a função das plaquetas, achamos que não vão mexer com os FC. É claro que não mexem muito, mas o sistema é muito dinâmico e interligado. A figura 1 resume de forma muito simples os princípios básicos da coagulação do sangue. Nesta imagem temos então um vaso, que está lesado. Há exposição do fator tecidular, o principal gatilho para despoletar a coagulação, Figura 1 - Coagulação Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 3 de 26 desencadeando de imediato a agregação plaquetária, que em boa parte vai dar início a todo o processo. É um esquema muito simples em que vamos ter adesão, agregação plaquetária e secreção de uma série de mediadores por parte das plaquetas – isto é importante, já que alguns fármacos anti-agregantes plaquetários vão mexer a este nível (interferindo coma secreção de ADP e Tromboxano A2). Aqui se inicia a primeira fase da cascata, com a ativação plaquetária que por sua vez recruta mais plaquetas e, em concomitância, estimula FC solúveis. Desta forma, vai originar-se um trombo não só plaquetário, mas um trombo mais robusto, reforçado de fibrina. E portanto temos um circuito quase de feedback positivo em que, em paralelo com o componente plaquetário, vamos ter também o desenvolvimento da coagulação mediada por FC. É claro que quando nós temos uma trombose do ponto de vista clínico, pode ocorrer em dois tipos de vasos: artérias ou veias. Também podemos ter uma trombose em vasos saudáveis ou com patologia. De longe, o mais frequente é ter trombose em vasos com patologia, como num doente com angor ou com um enfarte agudo do miocárdio, é um vaso que está lesado, tem placas de ateroma, não é um vaso normal. Já se formos falar de flebotromboses do membro inferior em indivíduos jovens, são muitas vezes em veias profundas saudáveis. Existe aqui um componente vascular que é importante e cujo paradigma é, sem dúvida nenhuma, a larga maioria das doenças cardiovasculares, em vasos com patologia. E depois existem um conjunto de tromboses em indivíduos que não têm necessariamente patologia e que por isso mesmo acarretam da parte do clínico um esforço suplementar para identificar a causa da trombose num indivíduo aparentemente saudável. Cascata de Coagulação e Sistemas de Controlo Como sabem, existem duas vias de coagulação: a via intrínseca e a via extrínseca da coagulação. Há cerca de 20 anos julgava-se que a via intrínseca, que não tinha a ver com fatores de lesão do vaso endotelial, era a mais importante nesta cascata. Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 4 de 26 Realmente, já está identificada há muitos anos e que tem a ver com esta cascata sucessiva da identificação dos fatores XII, XI, IX, com interação com o fator VII e depois, finalmente, a entrada na via comum, com ativação do fator X, passagem de protrombina a trombina, fibrinogénio a fibrina, com formação do trombo. Sabe-se hoje que, de facto, in vivo, a via extrínseca é a mais relevante. E esta via extrínseca é ativada com a exposição de fator tecidular ao nível do endotélio vascular, com a contribuição do fator VII de coagulação. Em conjunto vão levar à ativação do fator X, que por sua vez segue o resto da cascata de coagulação comum à via intrínseca. Estas duas vias são pro-coagulantes, logo, quando postas em marcha, estão sempre a produzir fibrina. E se dependesse só destas vias, teríamos rapidamente um rolhão que ocluia um vaso, quando tivéssemos uma pequena lesão. É necessário limitar isto e aí entra toda a componente da coagulação que contraria este fenómeno e que está representada a verde na figura 2. Atenção, que são dois sistemas diferentes, mas com o mesmo efeito prático de contenção da coagulação: • Anticoagulantes naturais: limitam a coagulação. Temos a antitrombina (inibe a trombina ativada) e a proteína C, interagindo com a proteína S (vão inibir os fatores VIII ativado - essencialmente dependente da via intrínseca - e V ativado – mais importante porque é comum às duas vias). • Via fibrinolítica: não limita a coagulação, mas aumenta a destruição do coágulo. Temos o ativador do plasminogénio tecidular (t-PA; promove passagem de plasminogénio a plasmina, degrada a fibrina e leva ao aparecimento de D-dímeros ou outros produtos de degradação da fibrina, que podemos dosear laboratorialmente). Por sua vez, a via fibrinolítica também tem mecanismos de controlo: inibidor do ativador do plasminogénio (PAI-1) e a α2-antiplasmina (α2-AP). Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 5 de 26 Portanto, reparem como o sistema está permanentemente em controlo dinâmico: pró-coagulante e anticoagulante. E é este equilíbrio que faz com que a generalidade dos seres humanos não tenha nem hemorragias nem tromboses e no fundo consigamos viver neste equilíbrio. Para percebermos a coagulação e podermos assimilar bem as doenças da coagulação, temo que percebe como é que a coagulação se dá e quais são os intervenientes envolvidos neste processo. Portanto, do ponto de vista fisiológico, isto é o mais relevante. Reparem como a proteína C ativada e a proteína S, que tem um fator inibitório do fator V ativado e do fator VIII ativado, por sua vez, também promovem o seu efeito anticoagulação porque ao inibirem o inibidor do ativador do plasminogénio, de alguma forma estão a promover a fibrinólise. São tudo um conjunto de ações anticoagulantes: ou uma limitação da coagulação ou promoção da fibrinólise. E assim é de esperar o seguinte: quando tivermos situações clínicas que promovam, aumentem a atividade ou aumentem o doseamento de FC, espera- se um estado pró-coagulante e não é surpreendente se o doente desenvolver Figura 2 - Cascata de Coagulação e Mecanismos de Controlo Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 6 de 26 tromboses. O mesmo acontecendo se faltar qualquer um dos intervenientes no controlo pela fibrina: também são tudo causas pro-coagulantes, não necessariamente uma proteína anticoagulante mal funcionante, mas basicamente faltar proteína C ou S ou anti-trombina ou a via fibrinolítica não estar devidamente atuante. Tudo isto pode levar ao desenvolvimento de tromboses in vivo. Investigação das Doençasda Hemostase Investigação Clínica Do ponto de vista semiológico, o que se encontra no doente é o aparecimento de hemorragias ou tromboses. Começando por falar das hemorragias, nomeadamente das discrasias hemorrágicas, como denominadas pelos semiologistas clássicos. Na investigação clínica de um doente que sangrou ou que tem manifestações de hemorragias ou discrasia, temos que caracterizar muito bem o(s) episódio(s): 1. A hemorragia do doente é expectável, não estando relacionada com a coagulação (como uma úlcera gástrica, cancro do cólon que sangra ou mioma uterino que sangra bastante)? Nestes casos, toda a coagulação funciona perfeitamente, não há alterações das plaquetas, nem dos FC, nem do sistema fibrinolítico. 2. Temos motivo para supor que existe alteração da hemostase passível de ser investigada? O fenómeno é: a. Isolado ou múltiplo? b. Escasso ou abundante? c. Há história familiar? Se já há história de um familiar que sangrava muito, com uns pontos vermelhos no nariz e nos dedos, podemos começar a suspeitar que naquela família existe uma discrasia hemorrágica com componente hereditária. Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 7 de 26 Relativamente às manifestações clínicas, existe alguma diferença semiológica entre as doenças plaquetárias e dos FC: • Doenças vasculares ou doenças das plaquetas (e não trombocitopenias uma vez que pode existir um número normal de plaquetas, mas estas não serem funcionantes) - originam normalmente discrasias cutâneo- mucosas. Os doentes muitas vezes queixam-se de nódoas negras com facilidade, de sangrar muito mais das gengivas e de alterações nos períodos menstruais (passam de 3 para 7 dias, muito abundantes). • Doenças dos fatores de coagulação - normalmente causam discrasia hemorrágica mais profunda. As manifestações típicas são as hemorragias articulares. Atualmente já são muito raras, mas eram a manifestação mais comum dos doentes hemofílicos, em que há um défice de um fator da coagulação. Investigação Analítica Em relação aos exames complementares de diagnóstico, existem vários que podemos realizar: • Esfregaço de sangue periférico e contagem plaquetária – permitem-nos fazer uma contagem plaquetária correta, avaliando o aspeto normalmente funcionante ou não das plaquetas. • Avaliação da disfunção plaquetária – quando suspeitamos de alterações das plaquetas, ainda que a contagem plaquetária seja normal ou próxima disso, temos que fazer testes de avaliação da função plaquetária: o Tempo de hemorragia – avalia a formação do rolhão plaquetário in vivo. Um exame típico é fazer um pequeno golpe e ver quanto tempo demora o sangue a coagular (a fase inicial da coagulação é Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 8 de 26 essencialmente mediada por plaquetas, formando o primeiro rolhão plaquetário)1. o Estudos de ativação plaquetária (in vitro, com adição de ADP, tromboxano, etc, precisamente para estimular a agregação plaquetária) • Avaliação da cascata de coagulação o Tempo de protrombina (TP) + INR (rácio internacional normalizado): avaliam essencialmente os fatores dependentes da via extrínseca e via comum (VII, X, V, II e I). A diminuição de um destes fatores vai levar a um prolongamento do TP e a um aumento do INR. O TP também pode estar alterado em doentes com lesão hepática ou com a varfarina. o aPTT (tempo de tromboplastina parcial ativada): avalia essencialmente a via intrínseca e a via comum (fatores XII, XI, IX, X, V, II e I). Qualquer lacuna de um destes fatores aumenta o aPTT, de igual forma. Exemplo: Num doente com hemorragia articular, não identificada até à data, pede-se contagem de plaquetas, aPTT, estudo dos produtos de degradação da fibrina. Supondo que o doente tem hemofilia B, com deficiência de fator IX da coagulação, o aPTT estará prolongado, acima dos 35 segundos. Aí passamos ao doseamento dos fatores específicos (tanto quantitativos como funcionais). Assim, se soubermos quais são os fatores específicos envolvidos em cada teste, podemos dosear cada um deles e é assim que se fazem os diagnósticos diferenciais destas patologias. 1 Foi referido na aula de Hemostase e Trombofílias de Medicina Laboratorial que já não se faz, por ser doloroso e poder originar cicatrizes. Para se avaliar o tempo de hemorragia atualmente, passa-se o sangue numa membrana com pequenos poros e quantifica-se o tempo que demora a ocluir estes poros. Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 9 de 26 • Tempo de trombina – avalia a parte mais final da coagulação. Está prolongado quando há deficiência ou disfunção do fibrinogénio e ainda com inibidores do fibrinogénio (heparina e produtos de degradação da fibrina). • Teste da estabilidade do coágulo – permite avaliar se o coágulo é estável depois de ser formado. Do ponto de vista prático, têm a figura 3 que permite organizar o raciocínio clinico, com o que podem esperar de cada teste e ajuda a compreender quais os fatores que podem estar envolvidos. Discrasias Cutâneo-Mucosas Vamos agora abordar as patologias mais comuns, começando pelas discrasias cutâneo-mucosas. Regra geral, devem-se a alterações plaquetária, em número ou em função, mas podem ser também devidas a problema dos vasos (nomeadamente as púrpuras vasculares – vasos têm problemas em termos do suporte de colagénio e deixam passar o sangue, seja por alterações genéticas ou por inflamação). Figura 3 - Avaliação analítica da Cascata de Coagulação NOTA: diferença entre petéquia e telangiectasias: petéquia é uma pequena hemorragia pontual subcutânea, enquanto a telangiectasia é uma dilatação vascular, se a pressionarem interrompem a entrada de sangue e desaparece, a petéquia não. Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 10 de 26 Púrpuras Vasculares Hereditárias 1. Telangiectasia Hemorrágica Vascular ou Doença de Rendu-Osler Weber É a púrpura vascular mais comum, sendo uma doença autossómica dominante. O nome não é verdadeiramente correto, porque é uma verdadeira púrpura, que não cede à vitropressão. Apresenta-se tipicamente com os pontos vermelhos observados na figura 4, que sangram com alguma frequência, bem como com hemorragias graves, nomeadamente nasais (mais comuns) e gastrointestinais Estes doentes têm anemia ferropénica crónica – fazem ferro i.v. 2 a 4 vezes por ano preventivamente, para colmatar a hemorragia corrente que vão tendo. A hemorragia deve-se a um problema vascular da pele e das mucosas. Exemplo: uma doente com esta patologia estava muito preocupada com a realização de uma cirurgia para substituição de válvula cardíaca. Ora, o risco numa cirurgia major nunca é o mesmo de alguém que não tem qualquer patologia da coagulação. No entanto, os FC estão normais, não há mucosa nem pele no tórax, pelo que ela foi operada sem problema.Púrpuras Vasculares Adquiridas 1- Fragilidade Vascular – mais comum no género feminino, em que há uma certa fragilidade vascular com púrpura nas extremidades, sem que isso constitua patologia. As pessoas queixam-se muito frequentemente de estar sempre a fazer nódoas negras 2- Púrpura senil – também é uma púrpura vascular. Está relacionada, mais uma vez, com fragilidade vascular devido a alterações no tecido Figura 4 - Doença de Rendu-Osler Webber Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 11 de 26 conjuntivo. Na figura 5 observa-se esta fragilidade numa pele fina, um pouco rarefeita. É claro que estudamos a coagulação nestes doentes, para confirmar que não tem alterações, não existindo grande tratamento para esta situação. 3- Púrpura de Schonlein-Henoch - púrpura vascular mediada por imunocomplexos que se depositam nas paredes vasculares, muito frequentemente após uma infeção respiratória. Não há trombocitopenia, nem disfunção plaquetária, mas sim aumento da permeabilidade vascular devido à deposição de imunocomplexos e de fenómenos inflamatórios nos vasos. Surge sobretudo em crianças, caracterizando mais tipicamente por púrpura nas extremidades inferiores. Pode ainda associar-se à deposição de imunocomplexos nos rins, com um componente de glomerulonefrite. É uma patologia seguida essencialmente por nefrologistas pediátricos. Semiologicamente observa-se uma púrpura em que as placas de hemorragia quase fazem uma elevação na região subcutânea, ao ponto de se conseguir perceber isso na figura 6, em que realmente estas placas ficam um pouco elevadas na pele. Figura 5 - Púrpura Senil Figura 6 - Púrpura de Schonlein-Henoch Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 12 de 26 Apesar desta exuberância, nenhuma destas situações se deve a uma trombocitopenia ou a uma disfunção plaquetária, são todos exemplos de púrpuras vasculares, ainda que, semiologicamente, não consigamos distinguir uma equimose de uma trombocitopenia, ou de uma disfunção plaquetária ou de uma púrpura vascular, tudo o que temos são petéquias e equimoses. Pergunta da audiência: Nesta patologia, a púrpura existe sempre? Normalmente são episódios agudos, secundários a uma infeção viral, e depois desaparece tudo. Em termos de expressão, todos estes exemplos que vimos até agora são relativamente raros, são mais importantes do ponto de vista fisiopatológico. Trombocitopenias Aquilo que nós hematologistas vemos com muito mais frequência são as trombocitopenias, as diminuições da contagem plaquetária. Se nos reportarmos ao seminário de anemias, os problemas são exatamente os mesmos: diminuição da produção na medula ou aumento da destruição, do consumo, a nível periférico ou do baço. Existem vários níveis de gravidade nas trombocitopenias. Normalmente, trombocitopenias ligeiras, entre os 100 000 e os 150 000, não têm repercussão clínica, permitem uma vida quase normal, até em termos de cirurgias major. Menos de 100 000 plaquetas, o panorama muda, essencialmente em grandes cirurgias ou traumatismos, mas ninguém vai ter uma hemorragia espontânea. É necessário um traumatismo de grande dimensão para sangrar ou NOTA: em termos de contagem plaquetária, os valores de referência estão em nº/L (exemplo: 300 x 109/L). No entanto, existe uma gíria de denominação, que é necessário saber, em nº/mm3 de sangue (300 000/mm3, vulgarmente referido só como 300 000). Os valores de referência são entre 150x109/L e 400x109/L. Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 13 de 26 ter discrasia. Aliás, acima de 50 000 ninguém sangra espontaneamente, o que dá uma certa segurança: o doente não vai ter uma hemorragia do SNC espontânea no dia seguinte, exceto se bater com a cabeça. Entre os 20 000 e os 50 000 começamos a vigiar estes doentes muito mais cuidadosa e frequentemente. Quando se começa a aproximar dos 20 000, começamos a considerar tratar, já que abaixo das 20-30 000 plaquetas/mm3 existe risco de hemorragia espontânea, nomeadamente do SNC. É uma complicação muito rara, mas pode acontecer. É claro que também temos que falar um bocadinho da causa da trombocitopenia, mas em geral, num doente com mais de 30 000, que esteja estável e que tenha uma vida não radical, podemos optar por manter em observação. Se for um jovem que faz surf ou quer ir fazer snowboard ou jogar rugby daqui a uma semana, então temos que tratar. A nossa decisão de tratar é multifatorial. Portanto, estas alterações são na contagem plaquetária. Mas, podemos ter contagem normal e simplesmente as plaquetas não funcionarem bem, seja por um problema hereditário (deficiente adesão, agregação ou desgranulação plaquetária – raríssimo) ou, mais frequentemente, adquirido – doente a fazer fármaco que inibe a função plaquetária (aspirina, AINEs para queixas álgicas, clopidogrel ou ticlopidina) São muito comuns como prevenção primária ou secundária de fenómenos trombóticos em doentes com aterosclerose, placas de ateroma nas carótidas, angor. A aspirina é de especial importância, visto ser um inibidor irreversível da cicloxigenase. As plaquetas não diminuem em número, mas, em função, vão estar permanentemente alteradas e não vão funcionar normalmente no futuro. Por isto devemos parar a administração de aspirina 7-10 dias antes de um procedimento cirúrgico, por muito menor que ele seja (o tempo de semi-vida das Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 14 de 26 plaquetas é de 7-10 dias e é necessário um novo pool de plaquetas que não tenham sido exposto à aspirina). O clopidogrel e a ticlopidina, por sua vez, competem com o ADP para um recetor específico na membrana plaquetária. Por isso é que muitas vezes existem doentes que têm indicação para fazer antiagregação plaquetária muito veemente. Esta dupla antiagregação faz sentido porque os mecanismos de atuação são em pontos diferentes das plaquetas. Na figura 7 estão os anti- agregantes plaquetários que verdadeiramente vemos e utilizamos na prática clínica. Púrpuras Plaquetárias 1. Trombocitopénia imune (PTI) A destruição imunológica de plaquetas é uma doença que os hematologistas tratamos com alguma frequência, já que muitas vezes, estes doentes são seguidos por cardiologistas ou neurologistas. PTI significava púrpura trombocitopénica idiopática e considerava-se que era apenas uma doença de destruição, em que a medula funcionava normalmente, há o anticorpo que se ligava às plaquetas e o complexo ao passar no baço era destruído. Este é o mecanismo principal. No entanto, hoje sabe-se que nesta trombocitopenia, o anticorpo tem a capacidade de se ligar também a megacariócitos (percussores medulares das plaquetas), atuando também ao nível da produção plaquetária na medula óssea, Figura 7 - Anti-agregantes plaquetários Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia_____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 15 de 26 que está diminuída. Isto constituiu a base de algumas das novas terapêuticas de agonistas da trombopoietina. As principais causas de trombocitopenia imune são a PTI, fármacos ou outras doenças auto-imunes, linfoproliferativas e infeciosas. Podemos dividir a PTI em dois grandes grupos de doenças: è PTI na criança: normalmente secundária a uma infeção viral, autolimitada e que desaparece sem deixar rasto, na maioria dos casos. è PTI no adulto: é tendencialmente uma doença crónica (pode ficar curada mas é menos frequente). Pode ter que ser tratada, dependendo do nível de gravidade: doentes com contagens de plaquetas entre 70 000 e 150 000 não precisam de ser tratados, mantêm apenas vigilância periódica. Quando a trombocitopenia é muito grave, tem que ser tratada e aí o doente tem que ser imunossuprimido (à semelhança do que foi falado na anemia hemolítica imune mediada por anticorpos). Usamos essencialmente corticoides e imunoglobulina i.v. Esta última provoca uma resposta rápida, uma vez que a imunoglobulina vai bloquear o anticorpo que se liga à plaqueta, permitindo uma subida muito rápida da contagem de plaquetas. Por isso tendemos a reservar a imunoglobulina para administrar em situações em que seja necessária uma grande subida plaquetas rapidamente (ex.: grávida com parto programado em que temos que subir plaquetas de 50 000 para 150 000 em 10 dias). Este aumento é transitório com a imunoglobulina (2-3 semanas), mas não com os corticoides, uma vez que estes interferem com os mecanismos imunológicos de produção de anticorpo e destruição de plaquetas. Em segunda linha, apesar de toda a controvérsia, principalmente em doentes jovens, recorre-se à esplenectomia – não estamos a tratar a doença, mas retiramos o órgão destruidor. A terceira linha (pode ser segunda linha em doentes mais idosos, com comorbilidades ou mau risco cirúrgico) é constituída pelos agonistas da trombopoietina que estimulam a produção de plaquetas. Qual é a lógica disto? Estamos a tratar a doença não ao diminuir a destruição (na realidade fazemos Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 16 de 26 isto com terapêutica corticoide simultânea), mas aumentando a produção na medula. É uma terapêutica segura e aprovada, mas na realidade vamos ter uma medula a produzir 3 a 4 vezes mais plaquetas que o normal. Temos ainda o rituximab, um anticorpo monoclonal anti-CD20. Estas são as opções terapêuticas nestes doentes Caso clínico 1 – PTI Mulher de 45 anos com discrasia cutâneo-mucosa de início há uma semana. Tinha 13 000/mm3 plaquetas, encontrando-se em risco de hemorragia do SNC, sem outras alterações analíticas. Esta doente recebeu prednisolona em dose elevada (1mg/kg) durante duas semanas, seguido de desmame lento. Dois meses depois apresentava uma leucocitose com neutrofilia (efeito de desmarginalização neutrofílica2), com plaquetas já quase corrigiram - 142 000/mm3 A terapêutica nestes doentes é um curso relativamente curto de corticoide em dose alta, seguido de um desmame tão cedo quanto possível. O tratamento deve ser efetuado por um especialista ou de um médico interno que se dedique a esta patologia, porque o manuseamento dos imunossupressores deve ser feito por pessoas que o façam com alguma regularidade. O objetivo é ir reduzindo a imunossupressão e controlando a contagem plaquetária, atá uma eventual descontinuação dos corticoides, já que não se pode manter estas doses de corticoides muito tempo. 2 Efeito da corticoterapia, melhor explicado em http://www.ebmconsult.com/articles/demargination-wbc-glucocorticoids- mechanism-selectin Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 17 de 26 2. Purpura trombótica trombocitopénica (PTT) Esta doença foi falada brevemente na anemia hemolítica microangiopática (anemia hemolítica adquirida, em que eritrócitos são normais). É uma doença rara, que se deve à produção de ADAMTS 13, uma protease dos multímeros de grande dimensão do Fator de von Willebrand (FvW). Como esta protease está deficiente, os multímeros estão presentes e levam a hiperagregação plaquetária e formação de microtrombos na microcirculação. É trombocitopénica porque há este grande consumo plaquetário e trombótica porque se formaram os trombos. É ainda uma anemia hemolítica porque os eritrócitos ao atravessarem estes microtrombos são destruídos e é microangiopática porque afeta vasos de pequeno calibre. Mas atenção, não existe alteração dos FC, pelo que, tipicamente nesta doença, o TP e o aPTT encontram-se normais, tal como os leucócitos. Não é um diagnóstico linear, mas temos que saber que ele existe. Estas são as alterações típicas que surgem (em tempos considerava-se que as 5 alterações tinham que estar presentes para o doente ter esta entidade): o Púrpura trombocitopénica o Febre o Anemia hemolítica microangiopática o Alterações renais o Manifestações neurológicas Por vezes pode vir acompanhada de um fenómeno mais urémico, com mais compromisso renal, que se denomina síndrome hemolítico urémico. O tratamento de eleição é a plasmaferese, em que é removido plasma do doente e colocado plasma normal. Assim, por um lado retiramos os multímeros de grande dimensão do FvW e por outro lado estamos a repor ADAMTS 13, no plasma que repomos. E é assim que se dá a inversão do caso clínico Faculdade de Medicina de Lisboa Hematologia _____________________________________________________________________ Comissão de Curso 12/18 4º Ano Página 18 de 26 E depois, mais uma vez, corticoides e anticorpos monoclonais, nomeadamente anti-CD20. Caso clínico 2 Homem, 41 anos, com cansaço importante de instalação rápida, icterícia, equimoses e petéquias (discrasia hemorrágica). Olhando para as análises iniciais, de 27/6/09, temos uma anemia que é normocítica e normocrómica, trombocitopénia com leucócitos normais. Avaliando a anemia, existe um padrão de hemólise, com aumento da bilirrubina total e da LDH e haptoglobina diminuída. No esfregaço de sangue periférico eram visíveis esquizocitos, ou seja, eritrócitos fragmentados. Com este quadro clínico: anemia hemolítica, com trombocitopenia e leucócitos normais, em que o aPTT e o TP são normais, as hipóteses diagnósticas mais prováveis são a PTT, aqui apresentada, ou a coagulação intravascular 27/ 6 / 09 11 / 10 /10 Hb (g/dL) 13.5 – 17.5 8.2 14.9 GV (x1012/L) 4.5 – 6 2.83 5.31 Hmtc 40 – 54% 23.9 44.8 VGM (fL) 80 – 96 84.7 81.8 HGM (pg) 27 – 32 29.2 28 Leuc (x109/L) 4-11 5.1 4.89 Plaq (x109/L) 150-450 26 275 Ferritina (ng/mL) 10 – 291 290 Vit B12 (pg/mL) 210-910 410 Ác Fólico (ng/mL) > 5.4 8.8 TGO (U/L) 4º Ano Página 19 de 26 disseminada, na qual ocorreria também consumo dos FC, o que não se verifica neste caso. Este doente recebeu cortisona e plasmaferese diária inicialmente, que depois diminuiu de frequência. Passados quatro meses, o quadro tinha normalizado. Pergunta da audiência: Na PTI e na PTT é possível que ocorram recidivas? Sim, não só é possível, como expetável que ocorram recidivas. Discrasias Profundas Alterações Hereditárias da Coagulação 1. Hemofilia A Doença de transmissão ligada ao cromossoma X, que se deve a um défice de fator VIII. O fator VIII é um cofator importante na via intrínseca, para a ativação do fator X e quando está ausente a ativação do fator X não se verifica. É um diagnóstico laboratorial, em que estes doentes têm aumento do aPTT, com tempo de hemorragia normal (seria expectável, já que não há alterações plaquetárias – não há motivo para aumento do tempo de hemorragia) e TP normal (pode estar um pouco elevado devido à diminuição de fator X). Ao fazer o doseamento de fatores específicos da via intrínseca, existe então diminuição acentua da do fator VIII, sem alteração do FvW. Existem vários níveis de gravidade. Na realidade, uma pequena fração de fator VIII é suficiente para quase não existirem manifestações clínicas. Ligeira (FVIII >5 IU/dL) Moderada (FVIII 1-5 IU/dL) Grave (FVIII• Paraproteinémias – nós falamos de mieloma múltiplo, em que há aumento de uma paraproteína, uma imunoglobulina (Ig). Se existe uma Ig muito aumentada, particularmente a IgM (é um pentâmero), pode causar um aumento da viscosidade do sangue, aumentando o risco trombótico. • Síndrome nefrótico – perda dos anticoagulantes. • Trombofílias – um dos motivos pelos quais os hematologistas são chamados para avaliar tromboses é a suspeita de trombofílias – uma causa hereditária de um estado pró-coagulante. Indicadores Clínicos de Trombofílias • Trombose venosa recorrente; • Trombose venosa em jovem (Cansaço moderado. Perda de cabelo. Unhas quebradiças. É um quadro típico de anemia ferropénica. A doente fez ferro oral e depois recuperou bem. Evolução Laboratorial da Anemia Ferropénica O quadrado cinzento reflete a quantidade de ferro que se encontra no glóbulo vermelho (que todos temos em circulação). A barra azul mais escura reflete a quantidade Página 11 de 33 de ferro que está na proteina de transporte. Finalmente, o rectângulo azul claro reflete os depósitos de ferro, a ferritina. Não vamos referir as situações de excesso de ferro. Apenas do normal para a direita (no quadro). O que vai acontecer quando a anemia ferropénica se vai instalando é que se perde ferro no compartimento do quadrado cinzento, perdem-se glóbulos vermelhos, com isso perde-se ferro. Imediatamente o ferro é mobilizado dos locais de armazenamento (sistema retículo-endotelial no fígado, baço e medula óssea) para a produção de novos glóbulos vermelhos (é como se fosse drenando da dispensa para a produção de novos glóbulos vermelhos, ou seja, vão se consumindo os depósitos para manter níveis de ferro normais no interior dos glóbulos vermelhos - manter o quadrado cinzento completo). Aqui, ainda não temos anemia ferropénica porque os níveis de ferro que chegam aos eritrócitos que entram em circulação são ainda normais. Portanto, nós só temos anemia ferropénica quando o ferro dos glóbulos vermelhos estiver diminuído, ou seja, no último esquema. Imediatamente antes da última fase pode haver anemia ligeira com VGM e HGM normais, ou seja anemia normocítica e normocrómica pois reflete a depleção de ferro nos depósitos/locais de armazenamento fazendo com que haja dimimuição de formação de ertitrócitos na medula pois falta uma das “matérias-primas” para a sua formação, o ferro. No entanto, é um caso clínico que se vem a desenhar desde há meses ou anos! Só se tem anemia ferropénica quando a “despensa” já está vazia. Isto é importante porque quando começamos a fazer o tratamento, ao fim de dois ou três meses , esse ferro vai sendo canalizado ao contrário, ou seja, todo o ferro vai sendo canalizado para a produção de glóbulos vermelhos e só quando esse compartimento está completamente repreenchido é que começamos a acumular ferro nos depósitos (primeiro há reposição da massa eritrocitária, depois da proteína de transporte e só por fim da ferritina). Isto é importante porque se nós não soubermos os valores de ferritina, aquilo que vai acontecer é que ao fim de um mês de ferro oral o doente passou para valores de Hb normais, pensamos que está curado, mas os depósitos continuam vazios. Normalmente a terapia demora então certa de 6 meses a 1 ano. ANEMIA DE DOENÇA CRÓNICA/INFLAMATÓRIA Etiologia - Doença inflamatória ou infecciosa crónica - Doença neoplásica Página 12 de 33 - Doença auto-imune - Insuficiência renal crónica Manifestações Clínicas - Sinais e sintomas de anemia - Palidez da pele e mucosas - Gravidade depende da doença de base Avaliação Laboratorial - Anemia normocítica normocrómica (ou levemente microcítica mas muito raro e numa fase mais avançada) - [Hb]> 9g/dl (em regra) - Aumento da Velocidade de Sedimentação - Ferro sérico diminuído - CTFF/Transferrina diminuídos e saturação da transferrina diminuida - Ferritina normal ou aumentada (reflectindo baixa utilização de ferro). Mecanismos da doença Na anemia de doença crónica há uma diminuição da biodisponibilidade de Ferro, que é controlada por uma proteína produzida ao nível do fígado, a hepcidina. A hepcidina vai ser produzida em situações de maior concentração de ferro intra e extracelular e em situações inflamatórias (transcrição de hepcidina é estimulada pela IL-6). A hepcidina vai actuar 1) sequestrando ferro no sistema retículo-endotelial (fígado, baço e medula óssea) e 2) inibindo a absorção intestinal de ferro ao bloquear a ferroportina, um canal de passagem do ferro do duodeno para a circulação sanguínea. No primeiro caso, em situações em que vamos ter um aumento de ferro intra e extracelular (ex.:refeição rica em ferro), vai haver um aumento da produção de hepcidina, que vai bloquear o efluxo de ferro pela ferroportina e a entrada então de ferro do enterócito duodenal em circulação. Em contraste, se alguém perder sangue, vai haver acréscimo das necessidades de ferro, logo Página 13 de 33 é natural que de alguma forma seja permitida a entrada de ferro no organismo, ou seja, que a hepcidina esteja menos activa. No segundo caso, em situações inflamatórias e na anemia de doença crónica existe um aumento da transcrição de hepcidina, que vai bloquear a disponibilidade de ferro em circulação. É por isso que o ferro sérico está diminuido, porque a hepcidina está hiperactiva e não permite um efluxo de ferro pela ferroportina. Assim, mesmo não havendo carência de ferro nestes doentes, por vezes administramos ferro IV, para aumentar a biodisponibilidade do mesmo. Mediadores inflamatórios como o TNF, IL-1, Interferão β e γ vão inibir a eritropoiese, inibir a síntese de EPO para além de actuar no metabolismo do ferro como já explicámos. Há então: - Ausência de libertação do ferro/sequetração do ferro no sistema retículo- endotelial; - Diminuição da vida média do eritrócito; - Má resposta à Eritropoitina (por deficiência relativa ou absoluta de EPO ou por resistência à mesma). Caso Clínico Página 14 de 33 ANEMIA MEGALOBLÁSTICA A anemia megaloblástica deveria ser chamada de anemia por carência de vitamina B12, mas ficou conhecida por um achado na medula óssea: os megaloblastos. Etiologia - Diminuição da ingestão de Ácido Fólico ou de Vitamina B12 (cobalamina): o mais frequente é a carência de Ácido Fólico, uma vez que as reservas de Vitamina B12 são significativas e mais difíceis de esgotar; - Má-absorção: é a causa mais frequente, sobretudo por carência de Vitamina B12 (por patologia no tubo digestivo, a única outra causa possível é o vegetarianismo muito restrito desde há bastante tempo – vitamina B12 só é encontrada em produtos de origem animal); - Aumento das necessidades; - Fármacos (ex. análogos purínicos e pirimidínicos, como a azatioprina e o 5- fluorouracilo, ou antagonistas do ácido fólico, como o metotrexato). Página 15 de 33 Causas de deficiência de Vitamina B12, reflexo do seu ciclo de absorção: - Patologia gástrica (mais frequente); - Anemia perniciosa1 (anticorpo dirigido contra o Factor Intrínseco); - Deficiência congénita do Factor Intrínseco ou de Transcobalamina (TC II); - Gastrectomia total ou parcial; - Doença/ressecção do íleon terminal, p.e. Doença de Crohn (mais raros); - Carências nutricionais prolongadas (dietas vegetarianas). A carência de vitamina B12 não se faz sentir logo pois as suas reservas no fígado duram vários anos (cerca de 5 anos). Causas de deficiência de Ácido Fólico: - Carência nutricional (indivíduos desnutridos, dieta pobre em frutas e vegetais) sendo esta carência muito dependente da dieta visto não haverem grandes reservas de ácido fólico no organismo; - Necessidades aumentadas (gravidez, lactação, dermatite esfoliativa, hemólise, neoplasia); - Má-absorção (Doença de Crohn, Doença Celíaca p.e. A Doença Celíaca é uma patologia auto-imune que afeta o intestino delgado de pessoas geneticamente predispostas, precipitada pela ingestão de alimentos que contenham glúten. O ataque auto-imune causa atrofia das vilosidades da mucosa do intestino delgado, causando prejuízo na absorção de nutrientes, vitaminas, sais minerais e água. Deste modo quer a absorção de ácido fólico, quer de vitamina B12, quer de ferro está afectada); - Fármacos antifolato (Metotrexato); - Álcool (interfere metabolismo do FH4). Manifestações Clínicas - Sinais e sintomas de anemia - Palidez da pele e mucosas- Icterícia “flavínica”: semiologia muito típica por hiperbilirrubinémia não conjugada, tratando-se de uma icterícia muito amarelada, em que há um misto de palidez e icterícia. Deve-se à destruição de megaloblastos (eritroblastos gigantes) na medula óssea, com um componente de hemólise: embora etiologicamente seja uma anemia carencial, a anemia megaloblástica trata-se também de uma anemia hemolítica. - Neurológicas: manifestações ao nível da sensibilidade postural são muito raras, devendo-se à carência de vitamina B12. Página 16 de 33 Avaliação Laboratorial - Anemia macrocítica; - Macrocitose: eritrócitos com grandes dimensões, por ausência de divisão celular (VGM>100); - Hipersegmentação dos neutrófilos (9/10 segmentos): por assimetria do núcleo relativamente ao citoplasma devido à carência de vitamina B12; patognomónico; - Leucopénia/ Trombocitopénia, pois a falta de vitamina B12 e/ou de ácido fólico interfere com a formação de qualquer célula. - Parâmetros de Hemólise: aumento da bilirrubina, aumento da LDH e diminuição da haptoglobina, proteína que se liga ao componente globínico da hemoglobina (se há hemólise dos eritrócitos, há um aumento da Hg sérica à qual a haptoglobina se vai ligar, diminuindo os níveis de haptoglobina livre). - Diminuição do Tetrahidrofolato (FH4) ou da Vitamina B12 séricos. - Megaloblastose: achado morfológico na medula óssea, os megaloblastos. Nota: Fazer diagnóstico diferencial entre Anemia Megaloblástica e Leucemia Aguda, uma vez que também surgem alterações megaloblásticas na série eritróide. Tratamento - Vitamina B12 IM - Ácido fólico PO Para além disso, procurar a causa de má-absorção da vitamina B12. Caso Clínico - Quadro de evolução lenta, que se foi instalando ao longo de muitos meses: a doente continuava a trabalhar mesmo com uma hemoglobina de 7; Página 17 de 33 - ↑ Volume globular médio (VGM); - ↑ Ferro; - Ferritina normal: não há nenhuma ocorrência no metabolismo do Ferro; - ↓↓ Vitamina B12; - Ácido Fólico normal; - Parâmetros de hemólise: - ↑ AST, bilirrubina total e LDH - ↓ Haptoglobina livre Este é o quadro laboratorial muito típico da anemia por carência de vitamina B12, tendo sido o seu tratamento iniciado sem um mielograma, não se tendo comprovado a existência de megaloblastos na medula óssea. Posteriormente verificou-se que a doente também tinha patologia gástrica, que tinha sido a causa da carência de vitamina B12. ANEMIA APLÁSTICA Etiologia Na anemia aplástica a medula óssea deixa de produzir todo o tipo de células hematopoiéticas: esta é não só uma anemia, mas também uma leucopénia e trombocitopenia graves. Trata-se de uma doença imunológica da medula óssea (e não hematológica), em que esta é suprimida, sendo potencialmente fatal. Apresenta forma hereditária (no caso da Anemia de Fanconi) e adquirida: - Idiopática (65%) - Químicos: benzeno - Fármacos: cloranfenicol, sais de ouro - Radiação ionizante - Vírus: hepatites B e C Mecanismos da doença - Defeito nas células estaminais - Défice de factores crescimento - Falência do estroma - Supressão imunológica Manifestações clínicas - Sinais e sintomas de anemia Página 18 de 33 - Susceptibilidade aumentada a infecções, infecções recorrentes - Discrasia hemorrágica cutâneo-mucosa (ex. petéquias, equimoses, hematomas e hemartroses, o que sugere fortemente patologia com lesão noutras linhas celulares da medula) Avaliação Laboratorial - Anemia normocrómica e normocítica - Leucopénia: gravidade proporcional à neutropénia - Trombocitopénia - Medula óssea hipocelular, com substituição adiposa no compartimento hematopoiético. Terapêutica - Transplante de medula óssea - Imunossupressão (ciclosporina,etc.): parece parodoxal, dado que administram-se imunossupressores já com uma diminuição de leucócitos, mas o objectivo é “aniquilar” as células imunológicas que estão a frenar a medula óssea e desbloquear a reacção imune exacerbada para que a medula óssea volte a florescer e a produzir as células do seu parênquima. Caso Clínico - Sinais de trombocitopenia: petéquias e equimoses - Anemia normocítica e normocrómica Página 19 de 33 - Sem alterações no metabolismo do Ferro - ↓ Hemoglobina, leucócitos e plaquetas Nota: Deve-se ter atenção às unidades presentes no hemograma. Exemplo: 4-11 x109 plaquetas/L correspondem a 4.000-11.000 x103 plaquetas/µL ou 4.000- 11.000 x103 plaquetas/mm3. ANEMIAS HEMOLÍTICAS (índice reticulocitário > 2.5) Anemia por destruição periférica, com produção normal das células hematopoiéticas. Causas A) Causa intrínseca - hereditária: - Defeito na membrana do GV (Esferocitose e Eliptocitose Hereditárias: doenças em que os doentes têm uma mutação numa das proteínas do citoesqueleto eritrocitário, como a anquirina, e que estão predispostos a uma destruição crónica dos eritrócitos); - Defeito enzimático (défice de G6PD e défice de Piruvato Cinase); - Hemoglobinopatia por defeitos genéticos que causam défice qualitativo (Drepanocitose, presença de Hb’s instáveis); - Hemoglobinopatia por defeitos genéticos que causam défice quantitativo (Talassémia). B) Causa extrínseca – adquirida (hemólise ocorre por alterações extrínsecas ao eritrócito, pois o eritrócito em si é completamente normal, mas o ambiente à sua volta não o é): - Auto-imune; - Não imune: Página 20 de 33 Microangiopática (hemólise ocorre devido a choque mecânico dos eritrócitos em determinadas estruturas como as próteses valvulares mecânicas ou placas de aterosclerose); Efeito tóxico directo/infecção; Hiperesplenismo/esplenomegália (estase sanguínea dentro do baço leva à destruição eritrocitária, como acontece nas doenças hepáticas crónicas). Consoante a causa inerente a hemólise vai ser intra ou extravascular. No caso da hemólise intravascular, esta gera situações mais graves do que a extravascular e pode ocorrer devido a transfusão de sangue não compatível. Quando a hemólise é intravascular, o glóbulo vermelho liberta hemoglobina no sangue. Esta hemoglobina é destruida sendo que que vai ser posteriormente captada por proteínas de transporte como a albumina e haptoglobina. A hemoglobina ao ligar-se à albumina leva à formação de metahemoglobina que se acumula no sangue (metahemoglobinémia). Pode haver a destruição hemoglobina levando à formação de dímeros de globina que acabam por ser destruídos a nível renal podendo levar ao aparecimento de hemoglobina na urina (hemoglobinúria). O grupo heme é captado pela hemopexina, albumina e pela haptoglobina, pelo que os níveis destas proteínas livres vão estar diminuidos. Podemos observar também hemossiderinúria devido à acumulação de parte do ferro nas células epiteliais do rim e sua descamação normal posteriormente. Há um aumento da bilirrubina não conjugada devido ao catabolismo do heme, levando consequentemente ao aumento da bilirrubina que é conjugada. A bilirrubina não conjugada surge em circulação, enquanto que a bilirrubina conjugada é armazenada ao nível da bílis e é libertada no intestino onde é transformada em urobilinogénio. Este ou é captado novamente pelo fígado seguindo o ciclo entero-hepático ou é filtrado pelo rim e segue na urina. Não há assim aumento da bilirrubina conjugada ao nível da circulação sanguínea. Causas de hemólise intravascular: toxinas, hemólise auto-imune e hemólise intravascular microangiopática. Na hemólise extravascular ocorre nos órgãos que normalmente exercem função de hemocaterese (baço e medula óssea). Como referimos, neste tipo de hemólise as consequências são mais ligeiras do que na intravascular uma vez que não ocorre depleção das reservas de ferro porque este é fagocitado pelo sistema retículo-endotelial e depois é reciclado. Observa-se à semelhança da hemóliseintravascular aumento dos níveis de bilirrubina e presença de icterícia. Página 21 de 33 Causas de hemólise extravascular: esplenomegália/hiperesplenismo, hemoglobinopatias, defeitos enzimáticos e defeitos na membrana dos eritrócitos. Avaliação Laboratorial da Hemólise - Avaliação de hemólise geral: - Bilirrubina directa e total - LDH - Reticulócitos - Haptoglobina sérica - Coombs directo e indirecto - Electroforese e doseamento de hemoglobinas - Estudo resistência osmótica - Doseamentos enzimas intra-eritrocitárias - Exame medula óssea Hematologia - Policromatofilia - Reticulocitose - Hiperplasia eritróide da medula óssea: obriga a mielograma (regra geral não se faz na anemia hemolítica) As anemias hemolíticas são na sua grande maioria normocíticas e normocrómicas mas é também muito típico que doentes com anemia hemolítica terem uma ligeira macrocitose, porque o elevado VGM dos reticulócitos face aos eritrócitos normais pode resultar num VGM próximo do limite superior ou mesmo acima do normal (103-105µL). Página 22 de 33 Soro/Plasma - Aumento da bilirrubina não conjugada: leva a uma icterícia flavínica, menos evidente semiologicamente do que a hiperbilirrubinémia conjugada, como ocorre na obstrução da via biliar principal (icterícia verdínica) - Diminuição da haptoglobina - Aumento da LDH Urina - Ausência de bilirrubina: a bilirrubina não conjugada não é excretada na urina, apenas a bilirrubina conjugada o é. - Hb ausente ou presente, consoante for uma hemólise extravascular ou intravascular, respectivamente. ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA Etiologia - Causa intrínseca, por defeito da membrana do eritrócito. - Mutações dominantes (mais frequentemente) ou recessivas que levam a défice da espectrina, anquirina, proteína 3 ou proteína 4.2, o que interfere na interacção destas com as proteínas da membrana, impedindo a flexibilidade/capacidade de deformação do eritrócito. Manifestações clínicas - Sinais e sintomas de anemia - Icterícia - Esplenomegália ligeira - Tendência para litíase vesicular Avaliação Laboratorial - Padrão de hemólise - Prova da fragilidade osmótica aumentada (submetem-se os eritrócitos a diferentes soluções hipotónicas até lisarem. Caso lisem tor turgecência, pois há a entrada de água para o interior do eritrócito, considera-se que há um problema na membrana). - Prova da auto-hemólise corrigida pela adição de glicose (como o problema reside na membrana, ao adicionarmos glicose as enzimas estão intactas e como tal evitam a hemólise. Página 23 de 33 Já em caso de défice enzimático, as enzimas não funcionantes não conseguem evitar a hemólise). - Esfregaço de sangue periférico: presença de esferócitos. - Tendência para litíase vesicular. Tratamento - Antigamente, esplenectomia. - Actualmente as indicações para esplenectomia são muito específicas: o tratamento é muito conservador, sendo este procedimento considerado quando o doente tem múltiplas crises com anemias muito significativas. - Colecistectomia: muitas vezes é necessária devido à litíase vesicular. DÉFICE DE G6PD (OU FAVISMO) Etiologia - Causa intrínseca, por defeito enzimático da Glicose-6-Fosfato desidrogenase, enzima da via das fosfopentoses, de onde provém o ATP necessário à regeneração dos sistemas anti- oxidantes, sobretudo do glutatião. - O gene que codifica a G6PD está localizado no cromossoma X, sendo mais afectados indivíduos do sexo masculino. - Os eritrócitos tornam-se mais sensíveis ao stress oxidativo, sobretudo quando ocorre exposição a certos fármacos (ex. nitrofurantoína, sulfonamidas, antimaláricos) ou ingestão de favas, que induzem a instabilidade e hemólise do eritrócito. - Grande prevalência em África e no Mediterrâneo, conferindo efeito protector contra a malária. Manifestações clínicas - Sinais e sintomas de anemia - Icterícia e colúria Avaliação Laboratorial - Prova da fragilidade osmótica inalterada - Prova da auto-hemólise não corrigida pela adição de glicose - Esfregaço de sangue periférico: presença de corpos de Heinz (equivalem à precipitação de Hb) Página 24 de 33 - Doseamento dos níveis e actividade enzimática da G6PD. DREPANOCITOSE/ANEMIA FALCIFORME Etiologia Hemoglobinopatia hereditária por défice qualitativo da cadeia β da Hb. Uma mutação no gene da β-globina, que substitui, no sexto aminoácido, o ácido glutâmico pela valina, resulta na formação de HbS. Existe elevada prevalência da HbS nos territórios onde a malária é endémica, uma vez que constitui um factor protector à infecção por Plasmodium. Em Portugal existem muitos portadores de drepanocitose, devido à elevada população angolana a viver no nosso país. Genótipos - Indivíduos homozigóticos (drepanocitose SS): têm níveis de HbS superiores a 90% da Hb total, sendo a HbA1 normalmente nula. São sintomáticos. - Indivíduos heterozigóticos (traço HbS): têm níveis de HbS de cerca de 35% sendo a HbA1 55-60% do total. São portadores e apresentam uma anemia ligeira mas assintomática e sem outros sintomas de relevo. - Indivíduos duplos heterozigóticos (genótipo S/ β-Tal): possuem um alelo correspondente à drepanocitose e outro de talassémia. A sintomatologia depende da percentagem de HbS, sendo comum a esplenomegália. É um quadro clínico muito semelhante ao da drepanocitose homozigótica Mecanismo da vaso-oclusão A maioria das complicações agudas (ou crises) da drepanocitose está relacionada com este fenómeno. A nível da microvasculatura de praticamente todos os órgãos, ocorre marginalização e aglutinação dos eritrócitos morfologicamente alterados, o que poder levar consequentemente à obstrução dos capilares, isquémia e enfarte do tecido afectado. Os tecidos mais afectados são: osso (enfartes ósseos), SNC (AVC isquémico), baço (enfarte esplénico). Manifestações clínicas - Crises vaso-oclusivas: expressam-se frequentemente por dor ao nível da microvasculatura afectada. Estes doentes queixam-se, tipicamente, de dores ósseas de intensidade considerável, reversíveis apenas com opiáceos. As crises álgicas são precipitadas por infecções, desidratação, alterações térmicas e gravidez. Página 25 de 33 - Eventos cerebrovasculares: principal causa de morbilidade da Drepanocitose. Nas crianças ocorrem AVC’s isquémicos pelo mecanismo da vaso-oclusão; nos adultos ocorrem AVC’s hemorrágicos por dilatação aneurismática como resposta à microoclusão repetida nestes vasos ao longo do tempo. - Crises aplásticas: estes doentes têm constante e intensa actividade medular; qualquer estímulo nocivo, tóxico ou infeccioso pode suprimir temporariamente a actividade da medula óssea. - Crises hemolíticas: pela grande destruição de eritrócitos inviáveis. - Auto-esplenectomia: baço atrófico no adulto, pelo grande número de enfartes esplenénicos durante a vida destes doentes. - Susceptibilidade aumentada a infecções (como a osteomielite) e, para além disso, precipitação de crises vaso-oclusivas, aplásticas e hemolíticas (ex: ITU em mulheres ou infecções virais que despoletam com frequência crises). - Outras manifestações: atraso de crescimento, úlceras de perna, abortos de repetição, doença renal crónica, doença pulmonar crónica e retinopatia proliferativa Avaliação Laboratorial - Anemia normocítica normocrómica - [Hb] inferior a 10g/dl - Aumento da ferritina (hemocromatose rara) - Padrões típicos de hemólise (aumento da bilirrubina indirecta, aumento da LDH, aumento do urobilinogénio urinário, reticulocitose, diminuição da haptoglobina sérica) - Electroforese das Hb’s: presença de HbS - Prova da falciformação (submetem-se eritrócitos a hipóxia e verifica-se que há falciformação – em condições de hipóxia a HgS fica dessaturada pelo que as várias moléculas de HgS aglutinam-se e acabam por distorcer as hemácias quese vão tornar duras e quebradiças) - Prova da solubilidade da Hb - Esfregaço de sangue periférico: presença de células em foice – drepanócitos - e de fragmentos eritrocitários Terapêutica de suporte Manter os doentes com um nível de HBA1 de no mínimo 20%. 1. Terapêutica Crises Vaso-Oclusivas: - Analgesia Página 26 de 33 - Hidratação - Antibioterapia - Transfusão 2. Terapêutica de Acompanhamento: - Hidroxiureia (para aumentar Hb F) - Transfusão - Quelação do ferro: para expoliar Ferro do organismo e evitar a hemocromatose secundária - Transplante de progenitores hematopoiéticos Caso Clínico - Anemia normocítica normocrómica - Ferritina aumentada e Padrão de hemólise TALASSÉMIAS Etiologia Como já foi referido, indivíduos normais adultos possuem 3 tipos de hemoglobina: HbA1, cuja globina é formada por duas cadeias alfa e duas cadeias beta (97%); HbA2, cuja globina é formada por duas cadeias alfa e duas cadeias delta (2%) e HbF ou hemoglobina fetal, cuja globina é formada por duas cadeias alfa e duas cadeias gama. Este tipo de hemoglobina é prevalente na infância e diminui com a idade até ficar vestigial no indivíduo adulto (havendo lesão das células parietais não há absorção de vitamina B12. Acontece o mesmo em situações de gastrectomia total ou parcial, doença ou ressecção do íleo terminal por afectar estruturas que interferem neste processo de absorção de vitamina B12. Página 33 de 33 Valores de Referência para Adultos (laboratórios centrais do HSM -desgravada 2007) Eritrócitos M: 4.5 – 5.9 x 1012 /L F: 3.8 – 5.1 x 1012 /L Hemoglobina M: 13 – 17.5 g/dL F: 12 – 15.3 g/dL Hematócrito M: 40 – 50 % F: 36 – 46 % VGM 80 – 97 fL MCH 27 – 33 pg MCHC 31,5 – 35,5 g/dL Reticulócitos 25 – 75 x 109 /L 0.5 – 1.5 % eritr. Leucócitos 4 – 11 x 109 /L Neutrófilos 1.9 – 7.5 x 109 /L (57 – 67 %) Eosinófilos 0.0 – 0.5 x 109 /L (1 – 3 %) Basófilos 0.0 – 0.2 x 109/L (0 – 0.75 %) Monócitos 0.1 – 1.0 x 109 /L (3 – 7 %) Linfócitos 1 – 4.8 x 109 /L (25 – 33 %) Plaquetas 150 – 450 x 109 /L Siderémia 22 – 332 mg/dL CFFT 360 – 390 mg/dL Transferrina 2 – 3.6 g/L Ferritina 14 – 179 ng/mL Folatos 2 – 13.5 ng/mL Bilirrubina Total 0.1 – 1.0 mg/dL Directa 0 – 0.2 mg/dL LDH 240 – 480 U/L doenças do foro oncológico em que há proliferação clonal de células linfóides Doenças Linfoproliferativas Bibliografia Anotada do ano anterior Slides da aula Dentro das doenças linfoproliferativas, é importante fazer a distinção entre leucemias e linfomas: Leucemias Linfomas neoplasia linfóide que apresenta comprometimento disseminado da medula óssea, geralmente acompanhado de grande número de células tumorais no sangue periférico neoplasia que surge na forma de massas teciduais distintas (tumor sólido do sistema imunitário) Frequentemente, os limites entre leucemias linfocíticas e linfomas são indistintos. Alguns tipos de linfomas manifestam-se, em certas ocasiões, através de um quadro leucémico no sangue periférico, acompanhado de extenso comprometimento da medula óssea, não sendo raro ocorrer evolução para a leucemia com a progressão dos linfomas incuráveis. Por outro lado, tumores idênticos a leucemias surgem algumas vezes na forma de massas linfomatosas, sem qualquer evidência de doença medular. Consequentemente, quando aplicados a determinadas neoplasias, os termos leucemia e linfoma descrevem apenas a distribuição tecidual habitual da doença1. 1 Esta introdução não foi abordada pelo Prof., mas como estava na anotada do ano passado e introduz o tema, achei por bem manter. Página 1 de 34 Anotadas do 4º Ano – 2007/08 Data: 8/Janeiro/2008 Disciplina: Seminário de Medicina Prof.: Dr. João Lacerda Tema da Aula: Doenças Linfoproliferativas Autora: Nélia Reis Equipa Revisora: M. Inês Pereira Doenças Linfoproliferativas LINFOMAS A) Manifestações Clínicas: 1. Adenopatias (consistência móvel, elástica2) – são a apresentação clínica mais frequente (são a principal manifestação) e podem surgir: o Isoladas o Em conglomerados, formando massas volumosas o Com compressão de órgãos nobres (direccionando para uma terapêutica de urgência) 2. Esplenomegália 3. Sintomas e sinais gerais da doença3: o Febre o Perda peso (importante quantificar: significativa se > 10% peso) o Suores nocturnos Pode ocorrer também envolvimento extra-ganglionar com manifestações clínicas: 4. Envolvimento gastro-intestinal (pouco frequente) o Gástrico (vómitos, intolerância alimentar) o Intestinal (diarreia, síndrome má-absorção) 5. Envolvimento do anel de Waldeyer 2 Seguramente não apresentam consistência pétrea e, normalmente, são indolores. 3 Estes sinais indicam doença em actividade. Página 2 de 34 Fig. 1 - Doente com um conglomerado adenopático axilar. Fig. 2 - Doente com adenopatia cervical inferior direita. Doenças Linfoproliferativas 6. Envolvimento do mediastino i. Assintomático ou dar origem ao Síndrome de compressão da veia cava superior (V.C.S.) Síndrome de compressão da V.C.S. – situação potencialmente grave que obriga a uma intervenção rápida – é uma emergência terapêutica 4 – e que tem as seguintes manifestações clínicas principais(Fig. 3): - edema cervico-facial (“pescoço em estola”); - aumento da circulação venosa colateral. B) Exames Complementares de Diagnóstico 1. Sangue Hemograma Função renal e hepática VS (frequentemente ↑) LDH (frequentemente ↑) β2-microglobulina5 (pode estar ↑ - mais frequentemente em linfomas agressivos) 2. Biópsia ganglionar 4 sendo uma emergência terapêutica, deve iniciar-se rapidamente quimioterapia e radioterapia. 5 A β2-microglobulina é uma proteína componente do MHC classe I expresso na superfície da maioria das células nucleadas, apresentando maiores concentrações nos linfócitos B, T e macrófagos. Aparece no sangue através dos linfócitos e células tumorais.ganglionares envolvidos, envolvimento do: fígado, medula óssea ou baço. Página 6 de 34 Linfoma do Manto Linfoma de Burkitt Fig.9 – imunofenótipo do linfoma do manto: CD20; CD5 e CYCLIND1 Fig. 10 – aspecto “céu estrelado” (macrófagos) do linfoma de Burkitt. * 1 * 2 S – Envolvimento do baço E – Envolvimento localizado extra-GG A – ausência de sintomas B – suores, perda de peso, febre S – Envolvimento do baço E – Envolvimento localizado extra-GG A – ausência de sintomas B – suores, perda de peso, febre IV • Envolvimento difuso de órgão (fígado, MO) III • grupos GG 2 lados diafragma II • mais do que 1 grupo GG do mesmo lado do diafragma I • 1 grupo GG IV • Envolvimento difuso de órgão (fígado, MO) III • grupos GG 2 lados diafragma II • mais do que 1 grupo GG do mesmo lado do diafragma I • 1 grupo GG (acima e abaixo) *3 Doenças Linfoproliferativas Quando o doente apresenta sintomas e sinais como perda de peso inexplicada de mais de 10 % do peso corporal, durante os últimos 6 meses antes do estadiamento; febre inexplicada, persistente ou recorrente com temperaturas superiores a 38º C durante o mês anterior; ou sudorese nocturna profusa e recorrente durante o mês anterior, diz-se que está num estadio B. Estadiamento – TACs Estadiamento – medula óssea Página 7 de 34 Fig. 11 – envolvimento extra-ganglionar: hidronefrose secundária (rim esquerdo). Fig. 12 – Em cima: nódulos linfóides (localizados) na medula óssea (pode não apresentar repercussões); Em baixo: infiltração difusa e maciça da medula óssea (existência de pancitopénia, pelo menos em certo grau). Fig. 13 - PET de um doente com uma doença linfoproliferativa com várias adenopatias (para- traqueais, latero-aórticas e inguinais esquerdas e direitas). Fig. 14 – Combinação PET- TAC: permite uma melhor localização anatómica da lesão. Estas imagens demonstram um aumento da actividade metabólica na região peri-hilar esquerda. Doenças Linfoproliferativas PET É um exame complementar, em crescente utilização, que avalia a actividade metabólica da doença. Permite saber se existe doença em actividade (e quantificá-la), mesmo tratando-se de pequenas massas residuais. -Atendendo há frequência dos vários tipos de linfomas (Hodgkin e nãoHodgkin), apenas são apresentados linfomas não-Hodgkin. Página 8 de 34 Doenças Linfoproliferativas Linfomas não-Hodgkin Classificação Actualmente classificam-se os Linfomas Não-Hodgkin do ponto de vista biológico, ou seja, de acordo com as suas características anatomo-patológicas e imunofenotípicas, sendo subdivididos pela OMS consoante o seu grau de agressividade (duas colunas da direita). A coluna da esquerda diz respeito a uma classificação designada de Working Formulation for Clinical Usage que não é utilizada actualmente. Página 9 de 34 High-Grade (Muito Agressivo) Intermediate-Grade (Agressivo) Low-Grade (Indolente) Doenças Linfoproliferativas Incidência dos Linfomas Não-Hodgkin Os linfomas foliculares (paradigmas de um linfoma indolente) e os linfomas difusos de grandes células B (paradigmas de um linfoma agressivo) correspondem, em conjunto, a mais de 50% de todos os Linfomas Não-Hodgkin. Ter esta noção é importante para qualquer clínico, porque se surgir um doente com um linfoma, o mais provável é este ter uma destas patologias. Os linfomas foliculares juntamente com os linfomas difusos de grandes células B, linfomas MALT, linfomas periféricos de células T e a leucemia linfocítica crónica / linfoma linfocítico correspondem a cerca de 2/3 dos Linfomas Não-Hodgkin e são os mais importantes. Agressividade dos Linfomas Não-Hodgkin Quanto à agressividade, os linfomas podem ser caracterizados em: indolentes; agressivos ou muito agressivos. Esta caracterização está relacionada com a história natural da doença sem tratamento e não com a resposta ao tratamento. Por exemplo, existem linfomas agressivos com uma boa resposta ao tratamento. 1. Linfomas Indolentes Adenopatias de crescimento lento; podem h e i sem tratamento Frequentemente sem outros sintomas Curso clínico com múltiplas recaídas Difícil erradicar a doença na totalidade 2. Linfomas Agressivos Adenopatias de crescimento + rápido Página 10 de 34 31% 22%8% 7% 7% 6% Difuso Gd Cél B Folicular MALT Periférico Cél T Linfocítico Manto Mediastinico Cél B Anaplástico Burkitt-like Marginal GG Linfoblástico T Outros Doenças Linfoproliferativas Frequentemente com sintomas sistémicos Curso clínico mais rápido (meses) + fácil erradicar a doença 3. Linfomas Muito Agressivos Adenopatias de crescimento muito rápido Quase sempre com sintomas sistémicos Curso clínico muito rápido (semanas) Mortalidade elevada em semanas a poucos meses sem tratamento +++ fácil erradicar a doença Caso Clínico 1 DA - ♂, 72 anos, recorre à consulta de Hematologia por adinamia e massa cervical esquerda. EO adenopatias cervicais esquerdas e axilares bilaterais baço papável 3cm abaixo do rebordo costal esquerdo EC Diagnóstico Hb – 12,8 g/dl Leucócitos – 21190x106/L; neutrófilos 38%, linfócitos 56% com o seguinte imunofenótipo: CD5-, CD10+, CD20+. Pesquisa de rearranjo de bcl-2 positivo nos linfócitos de sangue periférico (típico do linfoma folicular). Plaquetas – 223000x106/L LDH – 234 U/L TAC abdominal com múltiplas pequenas adenopatias lombo-aorticas. TAC torácia normal. Biopsia óssea com infiltração por células linfóides com o referido imunofenótipo. Doença extensa estádio 4 Página 11 de 34 Doenças Linfoproliferativas Diagnóstico Diferencial dos Linfomas não-Hodgkin Indolentes B CD20 CD10 CD5 CD23 Bcl-2 CiclinaD1 Linfocítico e LLC + - + + + - Folicular + +/- - -/+ ++ - Manto + - + - + + Linfoplasmocítico + - - - + - Leucemia Linfocítica Crónica 24% de todas as leucemias Idade mediana - 55 anos Apresentação clínica mais frequente - linfocitose progressiva assintomática Pode ter adenopatias de crescimento lento (meses a anos), hepatomegália, esplenomegália, anemia e/ou trombocitopénia Imunofenótipo típico: CD20+, CD23+, CD5+ 50% alterações genéticas; trissomia 12 + freq Critérios Diagnóstico 1. Linfocitose: 5 a 10 X 109/L 2. ≥ 30% linfócitos em MO normo ou hipercelular 3. Fenótipo B com baixo nível de Ig e CD5+ Terapêutica: Ø, Fludarabina, Clorambucil, CVP Página 12 de 34 Doenças Linfoproliferativas Estádio RAI Características Clínico-Laboratoriais Sobrevivência (anos) 0 Só linfocitose > 10 I + Adenopatias > 8 II + Hepato e/ou Esplenomegália 6 III + Anemia (Hb 55 anos) ▪ As adenopatias são de crescimento lento (meses a anos) Evolução Indolente (o doente geralmente não tem outros sintomas) Página 13 de 34 Fig.15 – LLC: esfregaço de sangue periférico - células relativamente pequenas e sem muitas figuras mitóticas; medula óssea – infiltração maciça da medula óssea Constituem características genéticas de mau prognóstico: - alterações no cromossoma 17 - alterações no cromossoma 11 Doenças Linfoproliferativas ▪ Paradoxalmente, quando diagnosticados, > 75% encontram-se no estadio clínico IV – linfoma em fase leucémica, com disseminação de células por todo o organismo (no hemograma: linfocitose à custa de células maduras atípicas) ▪ Tipicamente apresenta a T (14;18) com rearranjo bcl-2 ▪ Imunologia (+imp.) : CD10+, CD19+, CD20+, bcl-2+ ▪ Histologia: Centroblastos e centrócitos em vez de se disporem difusamente, formam nódulos semelhantes aos do gânglio normal mas sem centro germinativo ▪ Resistente a quimioterapia curativa (devido à existência de células quiescentes) ▪ A sobrevida mediana é de 7 anos ▪ Terapêutica inicial: ▫ Ø (Alguns médicosnão realizam qualquer terapêutica no início porque existem muitas remissões esponâneas que retardam a necessidade de início da terapêutica por 1-3 anos) ▫ CVP (Poliquimioterapia mais frequente no linfoma folicular): Ciclofosfamida + Vincristina + Prednisona ▫ FND – Fludarabina (citotóxico) ▪ Com alguma frequência, ocorre transformação em linfoma + agressivo Esquema de tratamento de linfomas indolentes - Doença localizada Radioterapia - Doença disseminada Assintomática e não agressiva – Não tratar logo Sintomática ou agressiva: - Clorambucil, ciclofosfamida, pentostatina, fludarabina - CVP - Rituximab – Ac. anti-CD20 - Yttrium-90 ibritumomab tiuxetano – Ac. Anti cél. B + Radiação Os doentes tratados com CVP têm melhor resposta do que os tratados com agentes únicos, mas sem evidência de aumento da sobrevida. Página 14 de 34 Doenças Linfoproliferativas Grau I – linfócitos pequenos Grau II – células maiores, de maior agressividade. Presença de centroblastos8 Grau III – presença de maior quantidade de centroblastos O grau de diferenciação diminui do Grau I para o Grau III. Pode-se avaliar a diferenciação das células através do marcador Ki-67. FLIPI 8 Quanto maior for a progressão do linfoma, maior quantidade de células indiferenciadas existem (neste caso, centroblastos). Página 15 de 34 Grau I Grau II 2 Intermédio 77,6 % 50,9 % 3 Alto 52,5 % 35,5 % PARÂMETRO FACTOR ADVERSO PONTUAÇÃO Idade > 60 anos 1 Estadiamento Ann Arbor III – IV 1 Hemoglobina 4 1 PONTUAÇÃO FINAL Grupo de risco SG aos 5 anos SG aos 10 anos 0 – 1 Baixo 90,6 % 70,7 % Doenças Linfoproliferativas Caso Clínico 2 DA – ♂, 38 anos, recorre à consulta de Hematologia com uma história de astenia e anorexia progressivas nos últimos 3 meses. Há cerca de 4 semanas notou aumento do volume do abdómen. Refere ainda febre e sudação profusa vespertinas. EO bom estado geral palidez da pele e mucosas massa abdominal lobulada com maior diâmetro de 15cm, localizada na região umbilical e flanco esquerdo, indolor EC Diagnóstico Hb – 11,8 g/dl Leucócitos – 8400x106/L; contagem diferencial normal Plaquetas – 218000x106/L Função hepática e renais normais LDH – 1267 U/L TAC abdominal – confirma a presença de grande massa com as dimensões mencionadas, que parece ser composta por conglomerado de adenopatias. As TACs cervical e torácicas foram normais, tal como a biopsia óssea. A biópsia da massa revelou células linfóides com o seguinte imunofenótipo: CD20+, CD10-, CD5-. Não se encontraram alterações citogenéticas. Página 16 de 34 Doenças Linfoproliferativas Linfoma Difuso de Grandes Células B ▪ As adenopatias são de crescimento rápido (semanas a meses) Evolução Agressiva ▪ > 70% dos doentes estão em estadio III ou IV aquando do diagnóstico (no entanto, mesmo em estadio IV raramente existem células malignas no sangue periférico) ▪ Sintomas B surgem com + frequência do que num linfoma indolente ▪ Imunologia: imunofenótipo variável mas sempre CD20+ porque tem origem numa cél. B CD10+ se resulta da evolução de um linfoma folicular CD5+ tendo alguma relação com linfoma do manto CD10- e CD5- ▪ Genética: não há necessidade de estudos citogenéticos e de genética molecular para estabelecimento do diagnóstico. Existem diversas alterações cromossómicas possíveis: T (14;18) – bcl2+ (característica do linfoma folicular) Rearranjos do oncogene bcl-6 no cromossoma 3*7 T (8;14) envolvendo o oncogene MYC Mutação ou delecção de p53 ▪ Curável com quimioterapia curativa ▪ Índice Prognóstico Internacional (IPI) é importante no prognóstico dos doentes ▪ Terapêutica inicial: CHOP C – Ciclofosfamida - alquilante H – Hidroxidarinimicina (doxorrubicina) – antibiótico citotóxico O – Vincristina (oncovina) – alcalóide da vinca P – Prednisona (corticosteróide) CHOP apresenta duas diferenças relativamente a CVP: - no CHOP a dose de ciclofosfamida é maior (cerca de 2x) - CHOP inclui a doxorrubicina Página 17 de 34 Doenças Linfoproliferativas Linfomas não-Hodgkin Agressivos – Prognóstico IPI – Índice de Prognóstico Internacional Factores de risco com relevância prognóstica: a) Idade > 60 anos b) LDH h c) Mau estado geral (ECOG 2 – 4)9 d) Estadio clínico III ou IV e) Envolvimento de 2 ou + locais extra-ganglionares Em doentes com menos de 60 anos apenas se consideram os factores b), c) e d). 9 Escala de ECOG segundo o grau de actividade dos doentes: com ECOG 2 – 4 os doentes estão dependentes de cuidados de enfermagem. Página 18 de 34 Fig.16 – Corte histológico de um gânglio linfático com Linfoma Difuso de Grandes Células B: presença de células grandes (centroblastos), múltiplas figuras mitóticas e corpos apoptóticos. Agressividade do Linfoma Difuso de Grandes Células B provém de: - centroblastos (células grandes) - figuras mitóticas - corpos apoptóticos 26444 - 5Alto 43553Intermédio Alto 51672Intermédio Baixo 73870 - 1Baixo SG 5ARC (%)Factores de Risco Grupo Risco 26444 - 5Alto 43553Intermédio Alto 51672Intermédio Baixo 73870 - 1Baixo SG 5ARC (%)Factores de Risco Grupo Risco Fig. 17 - Quadro que demonstra a probabilidade de resposta completa (RC) ao tratamento e de sobrevida global (SG) ao fim de 5 anos de acordo com o nº de factores de risco. Quanto maior esse nº, menor a probabilidade de estar vivo ao fim de de 5 anos. Assim, aconselham-se os doentes com mais factores de risco a realizar um auto-transplante na 1ª remissão completa da doença para evitar uma possível recaída. De salientar que a terapêutica inicial é idêntica para todos os grupos de risco e que a remissão completa significa que a biópsia óssea, as TACs e PET não demonstram doença. Como os doentes com mais factores de risco (risco intermédio-alto e alto) têm pouca probabilidade de estarem muitos anos sem doença após a terapêutica inicial, opta-se por fazer em seguida um auto- transplante. Fig. 18 - Curvas de sobrevivência dos doentes consoante o grupo de risco. Fig.21 – estudos entre tratamento R-CHEMO e CHEMO. Doenças Linfoproliferativas Terapêutica Em doentes com estadios clínicos I – II: - Tratamento com CHOP seguido de radioterapia, cuja dose depende do nº de ciclos de CHOP Resposta completa após CHOP 6 – 8: 30 Gy RT (36 Gy se doença volumosa) Resposta completa após CHOP 3 – 4: 35 a 40 Gy Resposta parcial: 40 Gy Portanto, quando a doença é localizada realizam-se no mínimo 3 tratamentos com CHOP. Em doentes com estadios clínicos III – IV: Página 19 de 34 Fig. 19 – Gráfico que pretende demonstrar que esquemas quimioterápicos mais complexos não alteram significativamente a taxa de sobrevida pelo que se continua a aplicar o esquema CHOP (esquema de 1ª geração). Fig.20 – estudos entre tratamento R-CHOP e CHOP. Doenças Linfoproliferativas Em Linfomas não-Hodgkin agressivos tratados com R-CHOP (CHOP + R (Rituximab – anticorpo monoclonal anti-CD20)) existe uma melhoria da sobrevida estatisticamente significativa, comparativamente com CHOP. Linfoma de Hodgkin o Neoplasia pouco frequente o Mais frequente no sexo masculino o 2 picos etários (30 e 50 anos) – Distribuição bimodal o Apresentação clínica: Adenopatias assintomáticas (+ freq) O Linfoma de Hodgkin surge mais frequentemente num único gânglio ou cadeia ganglionar e a sua disseminação (quando ocorre) é, regra geral, por contiguidade anatómica para outros gânglios, sendo que o envolvimento extra-ganglionar é muito raro. Por outro lado, a sua localização mais frequente