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- Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 1 Neste “roteiro” será trabalho o seguinte tema: ➢ FORMAS DE SOLUÇÃO DOS CONFLITOS NA PERSPECTIVA ATUAL Obs: Leiam com atenção as notas de rodapé!!! É PROIBIDA a reprodução desse material, no todo ou em parte, sem expressa autorização da autora. 1.3 FORMAS DE SOLUÇÃO DOS CONFLITOS NA PERSPECTIVA ATUAL No roteiro anterior, tratamos da evolução desses métodos de solução. Partimos da autotutela e chegamos até à jurisdição (e, consequentemente ao processo). Assim, identificamos que a via jurisdicional não é a única opção para solucionar os conflitos da sociedade (lembrando que a autotutela é proibida no Brasil, salvo algumas exceções já pontuadas). Vimos, portanto, que existem, em paralelo à jurisdição estatal, os “meios alternativos de solução de conflitos” – MASC1 e que tais formas de solução vêm tendo grande avanço no país. Os mais usuais são: a mediação, a conciliação e a arbitragem (rol exemplificativo). Estudos mais recentes demonstram que tais meios não seriam “alternativos”, mas sim adequados, formando um modelo de sistema de JUSTIÇA MULTIPORTAS. Para cada tipo de controvérsia, seria adequada uma forma de solução, de modo que há casos em que a melhor solução há de ser obtida pela mediação, enquanto outros, pela conciliação, outros, pela arbitragem e, finalmente, os que se resolveriam pela decisão do juiz estatal. Há casos, então, em que o meio alternativo é que seria o da justiça estatal. A expressão multiportas decorre de uma metáfora: seria como se houvesse, na entrada do fórum, várias portas; a depender do problema apresentado, as partes seriam encaminhadas para a porta da mediação, ou da conciliação, ou da arbitragem, ou da própria justiça estatal. Portanto, dependendo do caso concreto, pode ser muito mais ADEQUADO fazer uso das soluções dos MASCs do que escolher a jurisdição estatal2. 1 usada na língua inglesa como: Alternative Dispute Resolution – ADR. -> Não há razão para adotarmos a denominação estrangeira, porém vários doutrinadores fazem uso desta expressão. Portanto, deve ficar atento para o caso de vir a se deparar com essa indicação. 2 Por essa razão, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), através da Resolução 125/2011, fala em meios “adequados”. ROTEIRO 2 DISCIPLINA: TEORIA GERAL DO PROCESSO PERÍODO: 4º Turmas: A, B e Diurno PROFA. DRA. SABRINA NUNES BORGES - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 2 Os métodos, no geral, podem ser autocompositivos e heterocompositivos de solução de controvérsias. Portanto, esses meios de solução dividem-se em 2 grupos: a) Autocomposição b) Heterocomposição Desta forma, vamos analisar cada um desses grupos/métodos, separadamente: A) AUTOCOMPOSIÇÃO A autocomposição consiste na solução consensual das partes, eventualmente (nem sempre) intermediada por um terceiro imparcial, o qual NÃO possui a prerrogativa de impor decisão às partes (como ocorre na heterocomp.). Aqui, as partes podem chegar a um acordo mediante renúncia a direitos, pelo reconhecimento do direito da outra parte ou pela transação (já visto no roteiro 1). Por esta razão, apenas podem ser submetidos a métodos autocompositivos direitos disponíveis (normalmente associados ao caráter patrimonial R$). Contudo, mesmo os direitos tidos como indisponíveis podem apresentar aspectos negociáveis e comportarem acordo, são chamados de reflexos disponíveis de direitos indisponíveis (por ex. a discussão de pensão alimentícia, guarda etc, no direito de família). E na esfera PENAL???? A indisponibilidade do direito de liberdade, durante muito tempo fundamentou a inexistência da autocomposição no âmbito penal. Todavia, a CF/88 estabeleceu em seu art. 98, I, a possibilidade da transação (embora sempre acompanhada de controle jurisdicional, de acordo com a norma que a regulamentou) em casos de infrações penais de menor potencial ofensivo, dispositivo que só veio a ser regulamentado em 1995, através da Lei n. 9.099, que trata dos Juizados Especiais. Não há dúvida de que a pacificação social obtida através da composição entre as partes é muito mais efetiva, menos cara e, obviamente, mais célere! Aqui, as partes do conflito saem vencedoras, já que produziram um resultado que será interessante para ambas, ao contrário da heterocomposição, onde há ganhador e perdedor. Porém, como já dito em sala, o mais certo a se fazer é sempre analisar previamente o caso concreto, para, assim, descobrir qual o melhor método de solução. Isso é importante para que a procura ao - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 3 Poder Judiciário não seja fruto de uma atitude mecânica e irrefletida, como se fosse a única forma de solução de todos os conflitos, porque efetivamente NÃO É! Houve uma nítida preocupação do novo diploma processual civil em valorizar a autocomposição, podendo ser percebida, logo de cara, nas normas fundamentais do CPC/15, cujo artigo 3º impõe ao Estado, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos e que tais métodos de solução consensual deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público3. O direito brasileiro, portanto, caminha para a construção de um processo civil e sistema de justiça multiportas, com cada caso sendo indicado para o método ou técnica mais adequada para a solução do conflito, de modo que o Judiciário deixa de ser um lugar de julgamento apenas para ser um local de resolução de disputas. Trata-se de uma importante mudança paradigmática! Até porque, não basta que o caso seja julgado, não basta que se termine mais um processo; é preciso que seja conferida uma solução adequada que faça com que as partes saiam satisfeitas com o resultado. Antes de adentramos na análise dos métodos em si, é importante sabermos que a autocomposição pode ocorrer de duas formas: ➢ pela solução do conflito sem qualquer interferência jurisdicional (pura ou extrajudicial), de natureza privada, FORA do processo. Nesse caso, poderá ser administrada por centros especializados ou pelos próprios interessados. ➢ ou pode ocorrer a autocomposição endoprocessualmente (DENTRO do processo judicial), de forma híbrida, ou seja, em algum ponto, há a participação do Estado- Juiz. Neste último caso, podemos citar como exemplo a audiência de conciliação4. Assim, são métodos de autocomposição: a.1) negociação; 3 Art. 3º: § 2º do CPC: O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. §3º: A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. 4 Inclusive, o artigo 139, V do CPC/15 preconiza que o juiz, ao conduzir o processo, deve “promover, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com auxílio de conciliadores e mediadores judiciais”. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 4 a.2) conciliação; a.3) mediação. A.1) NEGOCIAÇÃO Todas as pessoas são negociadoras! Diariamente, todos negociam. Negociar é uma conduta própria da natureza humana, sendo uma realidade da vida. Assim, quando um casal escolhe um restaurante para jantar ou decide a hora em que o filho deve deitar-se para dormir, ou quando um empregado discute um aumento com o chefe, como há também em várias outras situações diárias... Em tudo isso há negociação!. A negociação, em todos esses casos, destina- se a uma decisão consensual – a uma solução conjunta. Pode-se definir a negociação como um processo de resolução de conflitos mediante o qual uma ou ambas as partesnegociam suas exigências até alcançarem um compromisso aceitável para ambas. É importante saber que a definição de negociação, sua realização e suas técnicas aplicam-se a qualquer meio de autocomposição. Vamos ver que tanto na mediação como na conciliação há negociação: chega-se ao consenso final pelo diálogo. A diferença está apenas na presença de um terceiro imparcial. Vejam: Na mediação, por exemplo, é essencial a existência de um mediador (terceiro imparcial) que conduz as partes no caminho do consenso, no entanto, na negociação as partes podem estar sozinhas a negociar. Ou seja, as próprias partes em conflito podem utilizar as técnicas da negociação, sem intervenção exterior5. 5 Por isso, há quem diga que a negociação seria apenas um componente dos meios de resolução de litígios, destinados à obtenção de autocomposição, não sendo um meio autônomo de solução de disputas. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 5 Assim, a negociação é, de fato, utilizada no âmbito de outro mecanismo de solução de disputas, mas pode ser um meio autônomo de resolução de conflito, quando as partes chegam a um acordo sem a intervenção de um terceiro. A negociação tem como principais vantagens evitar as incertezas e os custos de um processo judicial, privilegiando uma resolução pessoal, discreta, rápida e, dentro do possível, preservando o relacionamento entre as partes envolvidas, o que é extremamente útil, sobretudo em se tratando de negociação comercial. Assim, a negociação desponta como uma forma comum de solução de disputas, sendo realizada de modo informal entre os próprios interessados ou envolvidos ou, ainda, entre seus advogados ou representantes6! A.2) CONCILIAÇÃO A conciliação é a espécie de autocomposição em que o terceiro, dito conciliador, auxilia as partes na obtenção de um acordo para a solução do conflito. Ele tem uma participação mais ativa no processo de negociação, atuando preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes. Figura neutra, deve ter habilidade para dialogar com as partes e levá-las a construir um resultado de consenso, focando sua atuação no sentido de indicar saídas às partes, não podendo, de forma alguma, pressioná-las, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem. Pode ser feita no processo ou fora dele. No processo, pode ser feita por juiz togado ou por pessoas treinadas para tal função. Extrajudicial, é promovida por profissionais independentes ou por instituições constituídas para essa finalidade. É extremamente vantajosa para todos. Mais celeridade, menos custos e o Judiciário não fica abarrotado de 6 Nesta técnica pode ou não haver participação dos advogados, que nomeados, exercerão o papel de representantes dos clientes. Os advogados exercerão função de assessorar e defender os interesses dos seus clientes - partes envolvidas em negociações que visam a resolver conflitos, mas sem que seja necessário procurar a Justiça ou ter a presença de conciliador ou mediador. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 6 demandas infindáveis, ou porque a conciliação foi fora do processo ou porque, dentro do processo, ela encerrou o litígio antecipadamente, não sendo necessário estender e aprofundar a análise pelo juiz. A Conciliação jamais gera qualquer tipo de imposição: os conciliadores podem fazer sugestões ou até mesmo propor soluções para o conflito, mas as partes são livres para aceitar ou não as propostas, uma vez que cabe somente a elas a solução do referido conflito. Para isso, vários conciliadores estão sendo devidamente capacitados pelos tribunais, visando à perfeita realização dessa atividade. Portanto, a Conciliação tem como função a realização do acordo, evitando, assim, a continuidade do conflito. Pode ser utilizada em quase todos os casos, como pensão alimentícia, divórcio, desapropriação, inventário, partilha, guarda de menores, acidentes de trânsito, dívidas em bancos e financeiras e problemas de condomínio, entre vários outros, entretanto, não pode ser usada em casos envolvendo crimes contra a vida e também nas situações previstas na Lei Maria da Penha. No Brasil, conciliação e mediação são vistos como meios distintos de solução de conflitos. Essa visão decorre, em grande parte, da evolução histórica desses instrumentos entre nós. O CPC/2015 reafirmou essa diferenciação no artigo 1657. Mas, conforme iremos ver adiante, a diferença reside, basicamente, nos pontos abaixo citados: ▪ Na conciliação, o terceiro facilitador da conversa interfere de forma mais direta no litígio e pode chegar a sugerir opções de solução para o conflito (art. 165, § 2º). ▪ Já na mediação, o mediador facilita o diálogo entre as pessoas para que elas mesmas proponham soluções (art. 165, § 3º). Outra diferenciação está pautada no tipo de conflito: ▪ para conflitos objetivos, mais superficiais, nos quais não existe relacionamento duradouro entre os envolvidos, aconselha-se o uso da CONCILIAÇÃO; ▪ para conflitos subjetivos, nos quais exista relação entre os envolvidos ou desejo de que tal relacionamento perdure, indica-se a MEDIAÇÃO. 7 “Art. 165. Os tribunais criarão centros judiciários de solução consensual de conflitos, responsáveis pela realização de sessões e audiências de conciliação e mediação e pelo desenvolvimento de programas destinados a auxiliar, orientar e estimular a autocomposição.” - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 7 Porém, muitas vezes, somente durante o procedimento, é que será identificado o meio mais adequado. Obs.Tanto a mediação quanto a conciliação, possuem validade jurídica, ou seja, caso uma das partes não cumpra com o acordado, a ação pode ser levada à justiça. A.3) MEDIAÇÃO imagem8 Na mediação, visa-se recuperar o diálogo entre as partes. Por isso mesmo, são elas que decidem! As técnicas de abordagem do mediador tentam primeiramente restaurar o diálogo para que posteriormente o conflito em si possa ser tratado. Só depois pode se chegar à solução. Conflitos familiares e de vizinhança, por exemplo, muitas vezes são resolvidos apenas com o estabelecimento da comunicação respeitosa entre os envolvidos. Mediação é uma conversa/negociação intermediada por alguém imparcial que favorece e organiza a comunicação entre os envolvidos no conflito. De acordo com o CPC/15, o mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará os interessados na compreensão das questões e dos interesses em conflito, de modo que possam, por si próprios, mediante o restabelecimento da comunicação, identificar soluções consensuais que gerem benefícios mútuos (art. 165, § 3º). Tal como o conciliador, o mediador não pode coagir as partes a aceitarem determinado resultado e muito menos impor qualquer decisão. 8 Fonte: https://ouvidoria.tce.mg.gov.br/grande-avanco-lei-de-mediacao-e-sancionada/ https://ouvidoria.tce.mg.gov.br/grande-avanco-lei-de-mediacao-e-sancionada/ - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 8 Veja a diferença entre a conciliação e a mediação: enquanto o conciliador foca sua atuação na obtenção de uma solução para a controvérsia, que na maioria dos casos, ele sugere; o mediador, diferentemente, direciona seu trabalho no restabelecimento da boa comunicação entre as partes, para que elas próprias, uma vez recuperado o relacionamento saudável entre elas, possam encontrar uma solução para o litígio que a ambas interesse. Em determinados casos, a mediação é mais apropriada e adequada do que a conciliação, uma vez que o foco desta última não é o relacionamento entre as partes, mas a controvérsia em si. É a pacificação social com reflexos positivos para o futuro! Por essa razão ela é recomendada nas relações familiares, em que os envolvidos têm laçosque persistirão para o futuro. Também, nas relações de sucessão e até mesmo nas contratuais, pois a preservação do relacionamento pode ser interessante para todos os envolvidos. Pode ser judicial ou extrajudicial: ▪ A judicial é conduzida por mediadores judiciais, habilitados e cadastrados pelo Poder Judiciário. ▪ A extrajudicial, também chamada de mediação privada, pode ser institucional quando é administrada por associações ou centros de mediação; ou independente – sem vínculo com qualquer entidade. No ano de 2015, foi aprovada a Nova Lei de Mediação, (Lei 13.140/15), da qual se destaca o artigo 2º onde estão elencados os princípios que regem a mediação: como a imparcialidade do mediador, isonomia entre as partes, informalidade, autonomia da vontade das partes, busca do consenso, confidencialidade, boa-fé, entre outros. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ Portanto, pode-se destacar que a conciliação e a mediação, principalmente após a entrada em vigência do novo Código de Processo Civil, são meios importantíssimos de resolução de conflito. A conciliação é mais reconhecida perante a sociedade. As varas do trabalho - por exemplo - promovem a semana da conciliação, onde acordos são feitos de modo a diminuir o congestionamento da justiça e beneficiar as partes em litígio. Ambas as modalidades são também um modo de promover uma economia de custos aos cofres públicos de modo que diminuirão as custas processuais, gastos com honorários, gastos com transporte entre outros. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 9 Facilita também para os funcionários públicos, que tem o serviço reduzido conforme a maior aderência do povo. A previsão da mediação pelo Código de Processo de Civil veio de encontro à necessidade social de ter a chance de realmente se expressar diante da outra parte e também com a necessidade da redução da quantidade de processos que tem um motivo de fundo mais emocional do que material e acabam tramitando por anos, perdendo tempo, gerando desgaste emocional e gastos, além de um acúmulo de serviços para a baixa quantidade de servidores do atual quadro judicial brasileiro. Assim, a mediação e a conciliação são institutos de grande importância jurídica e que merecem ser observadas com bons olhos por todos, já que buscamos sempre a melhoria do sistema jurídico brasileiro, para a promoção de uma sociedade mais justa e igualitária. B) HETEROCOMPOSIÇÃO Conforme já visto no roteiro anterior, a heterocomposição é o método das controvérsias em que o resultado não é construído e definido pelos próprios envolvidos, mas sim IMPOSTO POR UM TERCEIRO encarregado de decidir a controvérsia. Esse terceiro será: • o árbitro, caso se trate de procedimento arbitral ou; • o juiz, na hipótese da via judicial. Aqui, a solução tem caráter impositivo, definido por um 3º e terá de ser acatada pelas partes, sem prejuízo, claro, da interposição de eventual recurso cabível, quando se tratar de solução judicial, já que na arbitragem, a sentença é, em regra, irrecorrível. Assim, são meios de heterocomposição: b.1 - arbitragem b.2 - jurisdição estatal B.1) ARBITRAGEM - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 10 A arbitragem é uma forma de solução do conflito fora da esfera do Poder Judiciário, realizada por opção das partes, que escolherão um terceiro imparcial para a solução do conflito. Portanto, tem-se, nesse caso, a solução do litígio por um julgador privado: o árbitro. Porém, a sentença proferida por ele constitui um título executivo judicial, de acordo com o artigo 515, VII do CPC/15. Ou seja, se não cumprida espontaneamente a sentença, ela poderá ser objeto de cumprimento de sentença perante o Poder Judiciário (uma ação própria, no judiciário). Ao Estado atribui-se o monopólio da jurisdição, de modo que a jurisdição arbitral se estende somente às circunstâncias permitidas pela lei. No Brasil, apesar de estar prevista há muito tempo, sua aplicabilidade era bem restrita. E isso de dava por dois motivos: falta de uma cultura da arbitragem e a inadequação da lei. Hoje, com a a Lei de Arbitragem (Lei 9307/96), o cenário mudou! A arbitragem está limitada a DIREITOS PATRIMONIAIS DISPONÍVEIS9. Aqui, impera a autonomia da vontade, de modo que as partes só serão submetidas a arbitragem se quiserem. É fruto da vontade das partes. E essa vontade será manifestada na CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM. → E o que é essa Convenção de Arbitragem???? Trata- se, resumidamente, de acordo entre as partes para que a solução do litígio seja feita perante o árbitro, afastando, portanto, o Juiz estatal. Existem 2 espécies, que podem ocorrer em 2 momentos: ▪ através de acordo PRÉVIO (antes do conflito ocorrer), chamada: CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA ▪ ou APÓS a ocorrência de um litígio, chamado: COMPROMISSO ARBITRAL Assim, as partes, em face de um conflito existente, podem optar por submeter a solução do litígio à arbitragem, consubstanciando num compromisso arbitral. Ou podem prever no contrato, submetendo futuros litígios à jurisdição arbitral: cláusula compromissória. A sentença arbitral é impositiva e irrecorrível, porém não é dotada de enforcement, ou seja, não é exequível na jurisdição arbitral. Para fazer valer a sentença, é necessário procurar o Poder Judiciário, sendo a sentença arbitral título executivo judicial. Porém, cuidado!!! →Não cabe ao Judiciário revisão da sentença arbitral, possuindo APENAS a prerrogativa de 9 A Lei de Arbitragem prevê em seu artigo 1º a possibilidade de recorrer à arbitragem para “dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis”. Assim, não se pode resolver questões de família como: divórcio, alimentos, etc. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 11 decretar sua NULIDADE10, caso haja manifestação de uma das hipóteses legais de nulidade. ✓ VANTAGENS: o a confidencialidade, o a especialidade (via de regra, os árbitros são experts na matéria controvertida), o a celeridade – quando comparada ao Poder Judiciário –, o a possibilidade de eleição do Tribunal ou Câmara Arbitral, o a possibilidade de escolher as regras de direito aplicáveis à controvérsia (a arbitragem pode ser realizada com base no direito ou na equidade) o a oportunidade de as partes escolherem o árbitro – o que dá mais legitimidade para o terceiro imparcial. ✓ DESVANTAGENS: o a inexistência de um sistema de precedentes (já que é confidencial), o a impossibilidade de execução da sentença arbitral sem recorrer ao Judiciário (ausência de poder coercitivo), o a irrecorribilidade da sentença arbitral, o os altos custos inerentes à arbitragem, o a dependência de um acordo entre as partes (não basta só uma parte querer...as 2 têm que querer!) Assim, é importante frisar que a sentença arbitral tem a mesma eficácia que uma sentença judicial, pois vale como título executivo. Porém, se a parte em que foi condenada não cumprir o que manda a sentença do árbitro, ele NÃO tem como OBRIGAR. Esse poder coercitivo quem tem é somente o Poder Judiciário!!! Ou seja, se a parte quiser fazer com o que a outra cumpra o estipulado na decisão, ela terá que procurar o Judiciário. E lembre-se: somente para cumprir, nunca para revisar (pois ela é irrecorrível!). B.2) JURISDIÇÃO A jurisdição estatal, a qual será estudada em mais detalhes nas aulas posteriores (quando falarmos dos 4 pilares da TGP), possui como características a pretensão, inércia, substitutividade e definitividade. Ainda, a impositividade, a exequibilidade, a recorribilidade (duplo grau de jurisdição), custos inferiores à arbitragem (mas que também acabam sendo relativamente altos) e a possibilidade de consolidação da jurisprudência, dando mais previsibilidade à solução da controvérsia e a sua autonomiaquanto à necessidade de acordo entre as partes. 10 Por exemplo, se a convenção de arbitragem for nula ou a sentença foi feita por alguém que não podia ser árbitro - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 12 O magistrado, para atuar em determinada causa, não necessita ser especialista na matéria controvertida e não pode ser eleito pelas partes. As partes poderiam apenas eleger o foro ao qual os litígios serão submetidos quando esse não violar a competência dos juízos. Os litígios submetidos ao Judiciário são, em regra, públicos, podendo ser confidenciais somente nas hipóteses previstas em lei, tramitando o processo em segredo de justiça. Uma das principais desvantagens da jurisdição estatal é a MOROSIDADE, a qual acaba por prejudicar a parte titular do direito e beneficiar a parte que não tem o direito ao seu lado, prolongando a injustiça no caso concreto. Por não se tratar de um acordo entre as partes, as decisões finais (sentenças) necessariamente têm um vencedor e um perdedor. A sobrecarga de processos assola o Judiciário e agrava o problema da morosidade, de modo que, assim, o estímulo dado aos MASCs tem se intensificado expressivamente. Importante lembrar que além do enfoque dado à mediação e à conciliação no CPC de 2015, nesse mesmo período houve a aprovação da Lei de Mediação (Lei 13.140/15) e a modificação da Lei de Arbitragem, aprimorando a normatização desses métodos de solução de controvérsia. Tais leis inovam na previsão de adoção dos métodos de mediação e arbitragem em litígios envolvendo a Administração Pública, antes apenas solucionados mediante processo administrativo ou processo judicial. Ficam evidentes, portanto, os benefícios decorrentes da adoção de métodos alternativos à jurisdição para solução mais célere, barata e/ou especializada de controvérsias e para o desafogamento do Judiciário. Entretanto, pela ausência de coercibilidade dos métodos autocompositivos e da arbitragem, a jurisdição estatal ainda é o método de solução de controvérsias por excelência e mais utilizado no país. _________________________________________________________________________________ A seguir, indico a leitura de um pequeno trecho de um artigo publicado no site Migalhas, do autor Wilson Campos de Miranda Filho, intitulado: “A autocomposição e o bem estar disponível”. - Profa. Me. Sabrina Nunes Borges - 13 “Os litígios detêm especificidades atinentes que, por vezes, um juiz não possui a expertise necessária para julgar, o que reflete numa prestação jurisdicional inadequada. E isso faz com que ocorra a prolongação no tempo das demandas, o aumento dos gastos com as custas processuais, periciais, honorários advocatícios, deslocamentos de comarcas e desgaste psicológico. Devemos somar a isso o ativismo judicial, em especial na realidade brasileira, que se traduz numa insegurança jurídica e o abarrotamento do Poder Judiciário (crise numérica), que é a consequência direta da nossa cultura litigiosa. Dentro da população brasileira, percebemos haver um "status social" para aqueles que enfrentam uma demanda judicial. Às vezes chegamos a impressão de que o cidadão se enche de orgulho quando diz que tem um processo contra uma loja, uma instituição bancária, uma operadora de telefone, contra um vizinho, contra o Estado, num reflexo dessa nossa cultura litigante e intolerante. Qualquer discussão de botequim gera uma demanda ou pelo menos uma ameaça de se instaurar um processo. As pessoas dizem que vão processar a outra sem ter a menor noção que isso significa e das consequências que isso gera. Dados do "Relatório Justiça em Números" do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam o espantoso número de 80 milhões de processos tramitando no ano de 2018, que para uma população que beiram os 300 milhões, representa um processo judicial para cada quatro cidadãos (site CNJ). E, obviamente, todos os cidadãos litigantes exigem uma prestação judicial rápida, eficiente e adequada! O site do STJ em dezembro de 2018, divulgou a informação de que seus ministros (são 33) julgaram 500 mil processos. Dado alarmante que deve ser visto como uma preocupação ao sistema e não como um sinônimo de eficiência. O acesso ao judiciário está banalizado e precisa ser culturalmente inibido. Não pode haver mais sóis que constelações. É preciso demonstrar para as pessoas que resolver o problema entre elas, com bom senso, meio termo e sem intransigência é a forma mais civilizada e avançada. Esse incentivo vem sendo praticado pelos países mais desenvolvidos. Além de tudo, devemos considerar o desgaste emocional das partes e a tensão do litígio que interferem na paz social. O cidadão deve ter a consciência do alto custo de uma demanda judicial e se esforçar para evitá-la, de modo a contribuir com o Estado, sendo menos intransigente e mais honesto nas relações contratuais do dia a dia. Assim, as ações judiciais não são a única forma de as partes terem seus conflitos resolvidos. Poderão estas valer-se de métodos alternativos para a resolução de litígios. O cenário ideal é a aproximação dos advogados envolvidos no conflito para se chegar na construção da solução. O próprio advogado pode assumir esse papel de mediador. A tendência mundial é o estímulo pela autocomposição (negociação, conciliação, mediação), ou até mesmo o uso da arbitragem, sendo a heterocomposição estatal (Jurisdição) a última opção. Nossos tribunais agradecem 11 !!! (g.n.) ☺ No roteiro 3, trataremos do Direito Processual – diferença entre direito e o direito material, evolução científica e autonomia (fases metodológicas), fontes, etc... 11 Texto adaptado de um artigo publicado no site Migalhas, do autor Wilson Campos de Miranda Filho, intitulado: “A autocomposição e o bem estar disponível”. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI304112,21048-A+autocomposicao+e+o+bem+estar https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI304112,21048-A+autocomposicao+e+o+bem+estar