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TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina | Página 1 TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina Guia aprofundado e detalhado para estudo 1. Conceito A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma síndrome endócrino-metabólica caracterizada principalmente pela interação entre hiperandrogenismo, disfunção ovulatória e alterações metabólicas, especialmente resistência à insulina. No material do TBL aparece a denominação Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina, destacando que a condição não se restringe aos ovários e envolve componentes reprodutivos, metabólicos e endócrinos. Ponto-chave: apresentar ovários com morfologia policística na ultrassonografia não é sinônimo de ter SOP. O diagnóstico é sindrômico e deve ser contextualizado clinicamente. 2. Fisiopatologia A fisiopatologia é multifatorial e envolve predisposição genética, alterações neuroendócrinas, hiperandrogenismo e resistência à insulina. Didaticamente: aumento da pulsatividade de GnRH → maior estímulo gonadotrófico, frequentemente com predomínio relativo de LH → estímulo das células da teca ovariana → aumento da produção de androgênios. Paralelamente, a resistência à insulina leva à hiperinsulinemia compensatória. A insulina potencializa a esteroidogênese ovariana e reduz a síntese hepática de SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais), aumentando a fração livre e biologicamente ativa da testosterona. Resistência à insulina → hiperinsulinemia → ↑ androgênios + ↓ SHBG → ↑ testosterona livre → hiperandrogenismo. Há também alteração da dinâmica folicular: vários folículos iniciam o desenvolvimento, mas pode ocorrer falha na seleção/maturação do folículo dominante e anovulação. Os pequenos folículos observados na morfologia ovariana policística são predominantemente folículos antrais, não “cistos” patológicos clássicos. 3. Ciclo fisiopatológico Resistência à insulina → hiperinsulinemia → aumento da produção ovariana de androgênios e redução da SHBG → aumento da testosterona livre → hiperandrogenismo → alteração da maturação folicular → oligo/anovulação → irregularidade menstrual e infertilidade. A adiposidade visceral pode intensificar a resistência à insulina e perpetuar esse ciclo. 4. Manifestações clínicas As manifestações podem ser divididas em reprodutivas, hiperandrogênicas e metabólicas. São frequentes oligomenorreia, amenorreia, ciclos irregulares, oligo/anovulação e dificuldade para engravidar. A SOP é causa importante de infertilidade anovulatória. No componente hiperandrogênico podem ocorrer hirsutismo, acne e alopecia de padrão feminino. 5. Hiperandrogenismo Pode ser clínico, principalmente pelo hirsutismo, ou bioquímico, demonstrado por aumento de androgênios. A avaliação laboratorial pode incluir testosterona total e estimativas confiáveis da TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina | Página 2 testosterona livre/índice de androgênios livres; androstenediona e DHEAS podem ser úteis em situações selecionadas. Acne isolada é menos específica para hiperandrogenismo do que hirsutismo. 6. Hirsutismo e Ferriman-Gallwey Hirsutismo é o crescimento excessivo de pelos terminais em áreas androgenodependentes na mulher. Não deve ser confundido com hipertricose, que é aumento de pelos sem necessariamente seguir padrão androgenodependente. O escore de Ferriman-Gallwey modificado avalia nove regiões: lábio superior, queixo, tórax, abdome superior, abdome inferior, braços, coxas, dorso superior e dorso inferior. Cada região recebe pontuação de 0 (ausência) a 4 (crescimento intenso), e os valores são somados. A interpretação deve considerar etnia e população, pois a pilificação normal varia entre grupos. 7. Diagnóstico O diagnóstico em adultas combina três componentes principais: (1) hiperandrogenismo clínico ou bioquímico; (2) disfunção ovulatória; (3) morfologia ovariana policística, após exclusão de causas alternativas. A combinação necessária depende do critério/consenso adotado e do contexto clínico. Em pacientes com irregularidade menstrual e hiperandrogenismo bem caracterizados, a ultrassonografia pode não ser necessária para estabelecer o diagnóstico. 8. Diagnóstico de exclusão e diferenciais Antes de atribuir o quadro à SOP, devem ser consideradas outras causas de hiperandrogenismo e/ou irregularidade menstrual. Entre as principais: gravidez (β-hCG), disfunção tireoidiana (TSH), hiperprolactinemia (prolactina) e hiperplasia adrenal congênita não clássica, especialmente deficiência de 21-hidroxilase (17-hidroxiprogesterona). Síndrome de Cushing deve ser investigada quando houver características clínicas sugestivas. Tumores ovarianos ou adrenais produtores de androgênios devem ser considerados diante de hiperandrogenismo intenso, progressão rápida ou virilização. 9. Virilização: sinal de alerta Virilização importante não é manifestação típica da SOP comum. Sinais como engrossamento da voz, clitoromegalia, aumento marcante de massa muscular, alopecia acentuada e progressão rápida do hirsutismo exigem investigação de outras causas, especialmente tumores produtores de androgênios. 10. Ultrassonografia A ultrassonografia pode demonstrar aumento do número de pequenos folículos e/ou aumento do volume ovariano, de acordo com critérios técnicos vigentes. Entretanto, morfologia ovariana policística isolada não confirma SOP. Da mesma forma, em determinadas apresentações clínicas, a síndrome pode ser diagnosticada sem necessidade de demonstrar essa morfologia. 11. Exames complementares Os exames têm três objetivos: caracterizar o hiperandrogenismo, excluir diagnósticos diferenciais e avaliar repercussões metabólicas. Podem incluir testosterona total, avaliação de testosterona livre/índice de androgênios livres, SHBG e, quando indicado, DHEAS/androstenediona. Para exclusão de causas alternativas: TSH, prolactina, 17-OHP e β-hCG conforme o contexto, além de investigação dirigida para hipercortisolismo ou outras doenças quando houver suspeita. 12. Avaliação metabólica A SOP está associada a maior frequência de resistência à insulina, intolerância à glicose e diabetes mellitus tipo 2. A avaliação pode envolver glicemia, HbA1c e teste oral de tolerância à glicose (TOTG), conforme risco e recomendações aplicáveis. Deve-se avaliar também perfil lipídico (colesterol total, TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina | Página 3 LDL, HDL e triglicerídeos), pressão arterial, peso/IMC e adiposidade central quando apropriado. 13. Repercussões metabólicas e cardiovasculares Podem coexistir obesidade, adiposidade visceral, resistência à insulina, pré-diabetes/diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão, síndrome metabólica e apneia obstrutiva do sono. Nem toda paciente com SOP apresenta obesidade; mulheres com IMC normal também podem ter alterações metabólicas. O acompanhamento deve considerar o conjunto de fatores de risco cardiovascular, e não apenas o ovário. 14. Repercussões reprodutivas e endométrio Oligo/anovulação pode causar irregularidade menstrual e infertilidade. Na anovulação crônica ocorre ausência de exposição cíclica adequada à progesterona, permitindo estímulo estrogênico endometrial prolongado. A sequência importante é: anovulação crônica → ausência de progesterona cíclica → estímulo endometrial sem oposição adequada → hiperplasia endometrial → aumento do risco de câncer endometrial. Por isso, proteção endometrial é objetivo terapêutico relevante. 15. Repercussões psicológicas A abordagem deve considerar saúde mental e qualidade de vida. Pacientes podem apresentar maior carga de sintomas depressivos e ansiosos, alterações da imagem corporal, sofrimento relacionado a hirsutismo/acne e dificuldades ligadas à fertilidade. Transtornos alimentares também merecem atenção quando houver sinais clínicos. A abordagem ideal é individualizada e biopsicossocial. 16. Princípio do tratamento O manejo depende dos objetivos clínicos e reprodutivos. Uma pergunta central é: a paciente deseja engravidar agora? Além disso, devem ser considerados sintomas predominantes, risco metabólico, necessidadede proteção endometrial, contraindicações, preferências e comorbidades. 17. Mudanças no estilo de vida São importantes especialmente quando existem alterações metabólicas ou excesso de peso. Incluem alimentação adequada, atividade física regular, redução do sedentarismo, manejo do peso quando indicado, sono adequado e controle de fatores cardiovasculares. Em pacientes com excesso de peso, redução ponderal clinicamente significativa pode melhorar parâmetros metabólicos e, em algumas mulheres, a função ovulatória. 18. Paciente que não deseja engravidar Na presença de irregularidade menstrual e/ou hiperandrogenismo, contraceptivos hormonais combinados são frequentemente utilizados quando não há contraindicações. Eles reduzem estímulo ovariano androgênico e o componente estrogênico aumenta a produção hepática de SHBG, reduzindo testosterona livre. Podem melhorar regularidade menstrual, contribuir para proteção endometrial e melhorar acne/hirsutismo ao longo do tempo. 19. Progestagênios Quando contraceptivos combinados não são apropriados, ou quando o principal objetivo é proteção endometrial, podem ser utilizados esquemas com progestagênio conforme avaliação clínica. O objetivo é evitar exposição endometrial prolongada ao estrogênio sem oposição adequada. 20. Metformina A metformina atua principalmente sobre o componente metabólico, melhorando a sensibilidade à insulina e reduzindo a hiperinsulinemia. Pode ser especialmente considerada diante de alterações TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina | Página 4 metabólicas ou risco metabólico aumentado, conforme características individuais. Não deve ser entendida simplesmente como medicamento para hirsutismo. 21. Tratamento do hirsutismo Pode combinar tratamento hormonal e métodos de remoção/redução dos pelos, como técnicas cosméticas e laser/fotoepilação. Em casos selecionados podem ser empregados antiandrogênios, como espironolactona. Como antiandrogênios podem causar dano fetal, é necessária contracepção eficaz quando houver possibilidade de gravidez. A resposta é lenta porque depende do ciclo do folículo piloso. 22. Paciente que deseja engravidar Quando há infertilidade anovulatória relacionada à SOP, o objetivo é restaurar/induzir a ovulação após avaliação do casal e de outros fatores de infertilidade. O letrozol, inibidor da aromatase, ocupa papel central como terapia farmacológica de primeira linha em muitas pacientes. Ao reduzir temporariamente a síntese de estrogênio, diminui o feedback negativo sobre hipotálamo/hipófise, favorecendo aumento de FSH e desenvolvimento folicular. Outras estratégias podem ser usadas conforme resposta e avaliação especializada. 23. Mapa fisiopatológico para memorizar SOP → resistência à insulina → hiperinsulinemia → ↓ SHBG + ↑ produção de androgênios → ↑ testosterona livre → hirsutismo/acne. Alteração da maturação folicular → oligo/anovulação → irregularidade menstrual → infertilidade. Anovulação prolongada → ↓ progesterona cíclica → estímulo endometrial sem oposição adequada → hiperplasia endometrial. 24. Caso clínico clássico Paciente de 24 anos com ciclos a cada 50-70 dias, aumento progressivo de pelos no queixo e abdome, acne e dificuldade para perder peso. Ao exame, apresenta hirsutismo e acantose nigricans. Laboratório mostra testosterona livre aumentada, SHBG reduzida, TSH/prolactina/17-OHP sem alterações relevantes. A oligomenorreia sugere disfunção ovulatória e o hirsutismo/testosterona aumentada demonstram hiperandrogenismo. Após exclusão apropriada de diagnósticos diferenciais, o quadro é compatível com SOP. Acantose nigricans é uma pista clínica de hiperinsulinemia/resistência à insulina. TBL 2 - Síndrome Ovariana Metabólica Poli-endócrina | Página 5 25. Resumo de alta importância para prova/TBL Tema Ponto-chave SOP Síndrome endócrino-metabólica; não é apenas doença do ovário. Hiperandrogenismo Pode ser clínico ou bioquímico. Sinal clínico clássico Hirsutismo. Hirsutismo Pode ser graduado pelo Ferriman-Gallwey modificado. Insulina Hiperinsulinemia favorece androgênios e reduz SHBG. SHBG Redução aumenta a fração livre da testosterona. Ovário policístico Morfologia isolada não confirma SOP. Diagnóstico Avaliar critérios clínicos/laboratoriais e excluir causas alternativas. 17-OHP Importante na investigação de HAC não clássica. Virilização rápida Sinal de alerta para outras causas, incluindo tumor produtor de androgênio. Metabólico Avaliar glicemia/TOTG conforme indicação, lipídios, PA e fatores de risco. Anovulação crônica Relaciona-se à hiperplasia endometrial; proteção endometrial é importante. Sem desejo gestacional CHC é opção frequente para ciclos/hiperandrogenismo quando apropriado. Metformina Principal papel no componente metabólico. Desejo de gestação Letrozol é opção central de primeira linha para indução de ovulação em contexto adequado. Tratamento Individualizado conforme sintomas, risco metabólico e objetivo reprodutivo. Para decorar SOP = hiperandrogenismo + disfunção ovulatória ± morfologia ovariana policística. Resistência à insulina → hiperinsulinemia → ↓ SHBG + ↑ androgênios → ↑ testosterona livre. Irregularidade menstrual + hirsutismo: pensar em SOP, mas excluir outras causas. Virilização rápida/intensa: investigar outra etiologia. Anovulação crônica: atenção à proteção endometrial. Não deseja gestação: controlar ciclos/hiperandrogenismo e risco metabólico. Deseja gestação: avaliar infertilidade e indução da ovulação; letrozol é opção de primeira linha em contexto apropriado. Referências indicadas no material do TBL FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Síndrome dos ovários policísticos. Femina, São Paulo, v. 53, n. 12, p. 1390-1397, 2025. TEEDE, H. J. et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet, v. 407, p. 2329-2339, 2026. DOI informado no material: 10.1016/S0140-6736(26)00717-8.