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BENEVOLO, Leonardo – História da Arquitetura Moderna, Editora Perspec va, São Paulo, 1994, Capítulo 2, Item 1, páginas 69 a 82 2. A ERA DA REORGANIZAÇÃO E AS ORIGENS DA URBANISTICA MODERNA 1. As reformas polí cas e as primeiras leis urbanís cas O quarto decénio do século XIX principia com uma série de acontecimentos polí cos importantes: a Revolução de Julho na França, a independência da Bélgica (1830), os movimentos poloneses e italianos de 1831, a reforma da Cons tuição inglesa de 1832. No breve intervalo de dois anos, o sistema polí co construído pelo Congresso de Viena é abalado de uma ponta a outra da Europa. Em alguns lugares, como na Polônia e na Itália, a ordem an ga pode ser restabelecida mas, na França, o soberano legí mo é expulso por uma revolução que elimina as estruturas residuais do Ancien Régime e concede o poder polí co à burguesia liberal; na Bélgica, a insurreição vitoriosa cria um novo Estado, com uma Cons tuição ainda mais liberal do que a francesa; na Inglaterra, sobe ao poder o par do dos whigs, que empreende uma série de reformas substanciais no complexo estatal. A solidariedade dos soberanos e dos governantes europeus para a manutenção do status quo desfalece, e o primi vo sistema rígido, baseado no princípio da legi midade, é subs tuído por um equilíbrio dinâmico, baseado na compe ção de interesses contrastantes. Nos países economicamente mais avançados, extraem-se as conseqüências polí cas da Revolução Industrial; a distribuição do poder polí co é adaptada àquela do poder econômico, o sistema administra vo adapta-se à composição modificada da sociedade. Sendo a lei inglesa de reforma eleitoral de 1832 resultado de um compromisso parlamentar, não possui o caráter de uma inovação revolucionária, mas exatamente por isso registra com eloqüência o peso das mutações ocorridas. A Revolução Industrial ocasionou profundas modificações na distribuição dos habitantes sobre o território inglês. Na primeira metade do século XVIII, a Inglaterra é um país ainda predominantemente rural e mesmo a indústria tem sede sobretudo no campo. Enquanto o trabalho com minérios de ferro é feito com carvão de lenha, os altos-fornos surgem onde quer que existam bosques; a indústria têx l baseia-se na organização do trabalho a domicílio, e os próprios camponeses e suas famílias alternam os trabalhos no campo com a tecelagem e a fiação, com aparelhos a mão de sua propriedade ou cedidos por emprés mo dos empregadores. Quando, porém, o ferro começa a ser trabalhado com carvão fóssil, os altos-fornos concentram-se nos distritos carboníferos; quando R. Arkwright descobre, em 1768, a maneira de aplicar a energia hidráulica à fiação, e E. Cartwright, em 1784, a maneira de aplicar a energia hidráulica à tecelagem, estas operações concentram-se onde quer que seja possível u lizar a energia da água corrente; e, quando a máquina a vapor de Wa , patenteada em 1769, começa a ser usada em subs tuição à força hidráulica (entre 1785 e 1790), a concentração pode ocorrer em qualquer lugar, mesmo distante dos rios; a rede de canais, construída de 1759 em diante, diminuindo o preço dos transportes mesmo para os materiais pobres, torna sempre menos vinculadas as sedes dos empreendimentos industriais. Os locais de concentração das indústrias tornam-se centros de novos aglomerados humanos em rápido desenvolvimento, ou mesmo, surgindo ao lado das cidades existentes, provocam um aumento desmesurado em sua população. Calcula-se que, no princípio da Revolução Industrial, cerca de um quinto da população inglesa vivia em cidades e quatro quintos no campo; por volta de 1830, a população urbana é quase igual à rural, enquanto que, em nossos dias, a proporção foi inver da e os quatro quintos dos ingleses vivem na cidade. Contudo, a ordenação polí ca e administra va, até 1832, não leva em conta essas novidades. O sistema eleitoral baseia-se ainda na velha organização rural, e um número considerável de cadeiras são atribuídas a burgos semidesertos, por nomeação de parte de seus proprietários, enquanto que as cidades oriundas ou ampliadas por obra da Revolução Industrial não possuem uma representação adequada. A lei eleitoral de 1832 abole aproximadamente duzentos de tais burgos e reparte os assentos de nova maneira, des nando-os sobretudo às cidades industriais; por outro lado, rompe o an go vínculo que liga os direitos polí cos à propriedade de bens imóveis, fazendo, assim, uma equiparação entre os industriais e os comerciantes aos proprietários de terras. Dessa forma, não só a representação polí ca é colocada de acordo com a realidade econômica e social da região, mas também, atribuindo às novas classes um poder proporcional a seu peso econômico, a lei eleitoral abre o caminho para uma série de reformas de todo gênero, conformes aos interesses da indústria e às exigências da nova sociedade. Em 1833, é promulgada a primeira lei verdadeiramente eficaz sobre as fábricas, obra principalmente de Lord Ashley: as horas de trabalho são reduzidas a 48 para crianças de menos de 13 anos e a 65 para os jovens de até 18 anos; são fixados intervalos regulares para as refeições e é ins tuído um Corpo de inspetores centrais para fazer respeitar essas disposições. A lei é melhorada em 1842, vetando o emprego de mulheres e crianças nas minas, e, em 1844, proibindo o emprego de menores de 9 anos na indústria têx l; as sucessivas limitações ao emprego de crianças são acompanhadas por extensões sucessivas da instrução escolar obrigatória. No mesmo ano de 1833, Lord Wilbeforce consegue a abolição da escravatura em todas as colônias. Em 1834, reforma-se a an ga lei sobre os pobres; o sistema em vigor, ins tuído em 1795 e conhecido pelo nome de Speenhamland, assegura a cada um um determinado nível de subsistência, vinculado ao preço do pão: se a remuneração percebida for inferior, a diferença é coberta por um subsídio. Os reformadores, animados pelas teorias radicais, propõem-se abolir gradualmente o sistema dos subsídios, porém também são contrários à fixação de um salário mínimo obrigatório e preferem manter com vida as tradicionais workhouses ou asilos de operários, tomando cuidado para que as condições de vida em tais estabelecimentos sejam inferiores àquelas do mais ínfimo trabalho no exterior; ao mesmo tempo, submetem a aplicação da lei a um controle central, de modo a abolir os abusos locais. Em 1835, são ins tuídas as administrações municipais ele vas, em lugar das an gas ins tuições, de origem feudal; cada cidade é assim provida de uma autoridade democrá ca, à qual incumbe, de agora em diante, todas as intervenções públicas nos assuntos de construção, de viabilidade, de melhoramentos urbanos (antes dispersos em uma infinidade de ins tuições de especiais) e, como conseqüência, a planificação em termos reais; essas administrações estão sujeitas a duas solicitações complementares: de baixo, o eleitorado, que impõe a sa sfação das exigências locais e, do alto, a autoridade central, que cuida dos interesses gerais. A vida administra va, assim, vê-se constrangida a sair de seu longo imobilismo.1 1 Apenas em 1888, os territórios rurais obtêm um ordenamento democrá co local como o das cidades, com a ins tuição dos conselhos do condado. Este período, desde o Reform Bill de 1832 até a abolição da taxa sobre cereais em 1846, é chamado por Belloc de "a era da reorganização”.2 Fica agora claramente visível o contraste entre liberdade e autoridade, do qual se falou na Introdução. Os reformadores whigs, imbuídos de seus ideais radicais, rompem defini vamente com a organização do Ancien Régime e os velhos vínculos que se opõem à liberdade das novas inicia vas; ao mesmo tempo, entretanto, devem resolver os problemas de organização causados por novos desenvolvimentos, e devem adotar, pouco a pouco, um sistema de regras adequado à sociedade industrial, que terminará limitando a livre inicia va de modo muito mais enérgico e circunstanciadodo que o velho sistema. Escreve H. M. Croome: Quanto mais cresce a técnica capitalista, tanto mais tornam-se complicadas as relações econômicas; quanto mais o povo se concentra nas cidades, mais a prosperidade de um está ligada à de pessoas que jamais terá conhecido, e mais se torna necessário que a conduta de cada um seja conforme ao modelo estabelecido. Por exemplo, a saúde de um habitante da cidade não é mais assunto unicamente seu, porque a doença que o afeta pode contagiar os vizinhos com maiores probabilidades do que ocorre com um habitante do campo em uma casa isolada. A educação torna-se mais importante. E torna-se mais importante a responsabilidade social, o sen mento de que "somos todos membros do mesmo corpo" Assim, seguindo o desenvolvimento do capitalismo, encontramo-nos face a uma situação paradoxal: a idéia individualista destrói a velha solidariedade, e torna possível o desenvolvimento do capitalismo; este, por sua vez, aumentando a dependência recíproca, favorece o retorno daquela mesma solidariedade.3 Neste momento e par cularmente nas duas décadas entre 1830 e 1850 — nasce a urbanís ca moderna. A convivência dos homens na cidade industrial coloca novos problemas de organização: os an gos instrumentos de intervenção revelam-se inadequados e são elaborados novos, adaptados às condições modificadas. As cidades crescem de ano para ano, e algumas delas a ngem dimensões excepcionais: em termos absolutos, como Londres (Figs. 54-56) que, em fins do século XVIII, reúne um milhão de habitantes, primeiro dentre todas as cidades européias — ou em relação a sua origem, como Manchester que, em 1760 possui doze mil habitantes e, em meados do século XIX, cerca de quatrocentos mil. Os recém-chegados são principalmente operários da indústria; suas habitações, como a remuneração e as condições de trabalho, dependem unicamente da livre inicia va e estão reduzidas ao nível mais baixo compa vel com a sobrevivência. Grupos de especuladores — os jerry builders — encarregam-se de construir filas de casas de um andar, que mal servem para morar, tendo como obje vo somente o máximo lucro: "desde que ficassem de pé (ao menos temporariamente), e desde que as pessoas que não nham outra escolha pudessem ser induzidas a ocupá-las, ninguém se importava se eram higiênicas ou seguras, se nham luz e ar ou se eram abominavelmente abafadas" 4 Nas cidades inglesas, existem ainda numerosas ins tuições e corpos administra vos de origem an ga, encarregados de controlar a a vidade de construção, os melhoramentos urbanos, os fornecimentos de alimentos etc.; somente na cidade de Londres, contavam-se cerca de trezentos, porém tais organismos são incapazes de intervir na nova escala dos fenômenos, exauridos e encarados com suspeita pela opinião pública como resíduos do 2 BELLOC, H. Breve Storia dell'lnghilterra (1925-1931) • Trad. it., Roma, s.d., v. II, p. 244. 3 CROOME, H. M. & HAMMOND, R. J, Storia economica dell'lnghilterra. Trad. it., Milão, 1951, p. 263. 4 CROOME H. M. & HAMMOND, R. J. Op. cit., p. 278. Ancien Régime e par cipantes da inércia de toda a vida administra va local, até a lei de 1835. Por conseguinte, pra camente falta qualquer controle da autoridade pública sobre a a vidade dos par culares. Exatamente enquanto renuncia a influir com regulamentos sobre a qualidade da construção privada, a autoridade priva-se também de suas propriedades fundiárias, as quais lhe permi riam intervir por via indireta e controlar ao menos a posição dos novos bairros. Já em 1776, Adam Smith aconselhava aos governos que vendessem seus terrenos dominiais para saldarem seus débitos. 5 Assim, em muitas cidades, as áreas construíveis caem sob o controle exclusivo da especulação privada, e as exigências especula vas impõem sua lei à cidade: forte densidade de construções, crescimento em anéis concêntricos em torno dos velhos centros ou dos lugares de trabalho, falta de espaços livres. Um semelhante estado de coisas não piora necessariamente os elementos singulares – casas, estradas, instalações — porém dá lugar a graves inconvenientes reunidos, os quais se tornaram evidentes somente quando o crescimento das cidades a ngiu um determinado limite. Muitos dos jerry buildings são miseráveis e pouco acolhedores; porém, a família que, por volta de fins do século XVIII, vem habitar nessas casas, provavelmente chega de uma casa de campo igualmente pouco acolhedora e abafada e, além de tudo, impregnada do pó de um tear manual. Falando em termos esta s cos, é certo que as casas construídas nesse período são de melhor qualidade que as precedentes, mas os jerry buildings são um exemplo pico da lógica smithiana da época, a qual, após haver fornecido um po de construção rela vamente sólido e que funciona, pensa poder tolerar muitos exemplares desse ao infinito, sem que as coisas mudem. É exatamente quanto ao relacionamento entre os vários alojamentos que a construção da primeira era industrial entra em crise. Hoje podemos dizer que os novos bairros operários estavam errados em sua localização urbanís ca, mais do que em termos de construção em si, porém os homens daquela época não poderiam ter apreciado com facilidade uma dis nção desse gênero. Todavia, as conseqüências concretas saltam a seus olhos e a seu nariz: a insalubridade, o conges onamento, a feiúra. A falta de uma instalação racional para transformação dos resíduos líquidos e sólidos pode passar despercebida no campo, onde cada casa possui muito espaço a sua volta para enterrar e queimar o lixo e para realizar a céu aberto as operações mais incômodas, mas isso é fonte de graves perigos no aglomerado urbano, e tanto mais quanto mais extensamente a cidade cresce. O fornecimento de água pelas fontes públicas pode ser feito facilmente onde as casas estão distribuídas em grupos pequenos, mas torna-se trabalhoso nos novos bairros muitos extensos e compactos; por outro lado, os usos industriais da água excluem os usos civis. As funções que se desenvolvem no espaço externo — a circulação de pedestres e carros, as brincadeiras das crianças, a criação de animais domés cos, e assim por diante — não perturbam uns aos outros onde o espaço é abundante, porém interferem de maneira intolerável se são obrigados a se desenvolver uns sobre os outros nas estreitas passagens entre as casas. O ambiente que resulta dessas circunstâncias é feio e repulsivo além de todo comentário; como em um grande aquário, a infecção de cada parte infecta rapidamente o conjunto, e não é necessário um altruísmo especial para se interessar pelo que ocorre, uma vez que as contaminações e as epidemias que daí derivam difundem-se, dos bairros populares, para os burgueses e aristocrá cos. Já que os males dizem respeito à cidade em seu conjunto, os remédios devem ser igualmente de ordem geral, e competem à autoridade pública, não aos par culares. Por 5 BERNOULLI, V. H. La ci à e il suolo urbano (1946). Trad. it., Milão, 1951, p. 54. conseguinte, essa situação, nascida da confiança na liberdade ilimitada dos indivíduos e da falta de meios tradicionais para controle público, impele as autoridades, irresis velmente, a intervirem de outro modo, impondo novas limitações às inicia vas imobiliárias par culares. A necessidade, contudo, de uma disciplina unitária do espaço em que se move a sociedade industrial é demonstrada, da maneira mais persuasiva, também pelas realizações ulteriores da própria indústria e, sobretudo, por um fato que, por sua vez, caracteriza ni damente a era da reorganização: a criação de uma rede ferroviária (Figs. 58-61). A primeira ferrovia aberta ao público é executada na Inglaterra em 1825 e a primeira locomo va de Stephenson corre em Rockill em 1829; logo depois a ferrovia surge na França e nos Estados Unidos (1830), na Bélgica e na Alemanha (1835), na Rússia (1838), na Itália e na Holanda (1839) e forma rapidamente uma fina rede sobre o território dos Estados europeus. A ferrovia é um disposivo tecnicamente bastante vinculante; mesmo que se trate de inicia va privada, é necessário um acordo preliminar sobre certas caracterís cas fundamentais – por exemplo, sobre a bitola, que é fixada por Stephenson em 1825 em quatro pés, oito polegadas e meia — e a autoridade deve preocupar-se em regulamentar as múl plas relações entre a ferrovia e as localizações urbanas e rurais: onde, portanto, é o Estado que promove diretamente esse serviço – como na França e na Itália – a autoridade tem em mãos um novo meio, muito potente, de intervenção para modificar o aspecto do território, e é levada a rever, cada vez com sen do menos liberal, as leis sobre expropriação, a fim de conseguir obter as áreas necessárias para as construções ferroviárias em condições favoráveis. Assim, por caminhos diversos, amadurece a exigência de uma coordenação das inicia vas de construções na cidade industrial. Pode-se dizer que os métodos da urbanís ca moderna partem destes dois fatos: a natureza vinculante das novas realizações técnicas — especialmente as ferrovias — e as medidas pleiteadas pelos higienistas a fim de serem remediadas as carências sanitárias das instalações paleoindustriais. A formação das primeiras leis sanitárias merece ser contada extensamente, pois faz com que se veja claramente como se chega, começando de um setor específico, a uma série de disposições complexas, referentes a cada aspecto da vida da cidade. Na Inglaterra, como sempre, a ação das autoridades é precedida por algumas associações privadas de natureza filantrópica, como a En dade Sanitária de Manchester; sua ação é quan ta vamente insignificante, porém, é importante porque suscita o interesse da opinião pública e mostra que o melhoramento dos bairros insalubres é realizável com os meios contemporâneos existentes. Em 1831, quando as desvantagens da urbanização foram já fortemente apontadas, a cólera propaga-se da França para a Inglaterra. No ano seguinte, Edwin Chadwick (1800-1890) é nomeado assistente da Comissão dos pobres; ele desempenha um grande papel na formulação da nova lei de 1834 e, durante a pesquisa feita pela Comissão real, obtém meios de conhecer com exa dão e com muitos detalhes as condições de vida das classes menos favorecidas. É mérito de Chadwick haver apreendido com clareza as relações entre os problemas sociais e as condições sicas do ambiente: de agora em diante, até re rar-se da vida pública em 1854, ele será o animador de todas as inicia vas do governo para melhorar o ambiente na cidade industrial. Em 1838, o Assistant Commissioners’ report sobre as condições de vida dos tecelões manuais descreve de seguinte maneira as novas estradas construídas em Bethnal Green nos úl mos decênios "por especuladores da construção do po mais desenvolvido": Muitas delas são as piores que se possa imaginar, totalmente desprovidas de esgotos comuns. As casas geralmente tem dois andares; as fundações muitas vezes foram colocadas diretamente sobre a zona herbosa e sobre terreno vegetal, e não existe qualquer ven lação entre os pavimentos dos locais de habitação e o terreno não drenado que se encontra imediatamente abaixo; a pavimentação das estradas é do po mais miserável, freqüentemente composta por resíduos terrosos e moles e pó de jolos empastado pela umidade. A água abre seu caminho sob as casas e, unida aos líquidos que saem das fossas negras, freqüentemente vem à tona com vapores nocivos, e estes chegam até as salas de estar. 6 Em outros lugares, entretanto, o quadro é diverso: [Em Coventry] as casas de melhor categoria dos tecelões, comparadas àquelas dos trabalhadores agrícolas, são moradias boas e confortáveis; algumas estão bem mobiliadas. 7 [E em Barnsley) a maioria das casas são construídas em pedra, em posição arejada e ensolarada, para o que a cidade e seus arredores oferecem espaço abundante. As oficinas em que trabalham não são mais úmidas do que é desejável para sua a vidade. Mesmo quando os habitantes sofrem pela extrema pobreza, suas casas tem um aspecto de limpeza e de ordem. 8 Engels, em seu livro sobre A situação da classe operária na Inglaterra de 1845, ressalta, além da insalubridade dos edi cios, o conges onamento da cidade e a falta de qualquer regra para o aproveitamento dos terrenos: [Em Manchester) filas únicas de casas ou grupos de ruas surgem aqui e ali, como pequenas vilas, sobre o novo solo de argila, no qual não cresce nem ao menos grama; as ruas não são nem pavimentadas, nem servidas por esgotos, mas abrigam numerosas colônias de porcos encerrados dentro de pequenos currais ou pá os, ou vagando sem restrições pela vizinhança.9 [No an go núcleo] a confusão foi levada ao extremo pois, onde quer que o programa de construção do período precedente deixou uma porção ínfima de espaço, foram acrescentadas outras construções, até não restar entre as casas uma só polegada de terreno onde ainda se possa construir. [Nos novos bairros, a situação é ainda pior porque] se antes se tratava de casas únicas, aqui cada pá o e cada quintal é acrescentado ao bel-prazer de cada um, sem levar em conta a situação dos demais. Ora uma ruazinha vai em uma direção, ora vai em outra; em cada extremidade cai-se em um beco sem saída, ou gira-se em torno de uma ilha acrescentada, que leva o visitante ao ponto de par da. 10 O tratamento dos detritos é um dos problemas que mais preocupam. [Em Bradford, 1844, um depósito de lixo] situa-se na zona mais freqüentada da cidade, exatamente no centro comercial, e contém detritos e restos provenientes dos açougues, dos sanitários e dos mictórios. É de propriedade par cular e, por essa razão, os vigilantes sustentam que não podem obrigá-lo a se mudar. 11 [Em Greenock, 1840] em uma parte de Market Street existe um monte de esterco, mas talvez seja muito grande para ser chamado de monte. Não é exagero avaliar seu conteúdo de imundícies em cem jardas cúbicas. É a 6 Cit. em J. H. CLAPHAM, An Economic History of Modern Britain, the Early Railway Age, Cambridge, 1939, p. 39. 7 CLAPHAM, J.H. op. cit., p. 40. 8 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 41. 9 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 539. Extraído de F. ENGELS, Die Lage der arbeitenden Klassen in Englandy Leipzig, 1845. 10 Cit. em P. LAVEDAN, Histoire de l'urbanisme, époque contemporaine, Paris, 1952, p. 72. 11 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 539, em Commission on the State of Large Towns and Populous Districts Report, 1844, p. 338. instalação comercial de uma pessoa que comercia com esterco; ele o vende em pequenas porções e, para favorecer seus clientes, conserva sempre a parte central, uma vez que quanto mais velho, mais alto é seu preço. 12 Em Londres, existe o grave problema da contaminação dos rios. Existe na capital uma massa informe de an gos regulamentos e de organismos de inspeção, porém operam com critérios an quados. Por exemplo, os esgotos foram concebidos inicialmente como canais para recolher as águas pluviais, e é proibido ligá-los às casas ou aos edi cios públicos, embora os dejetos líquidos possam passar, das fossas negras, para os esgotos. Quando, entretanto, generaliza-se o uso dos sanitários, essa proibição cai em desuso, entre 1810 e 1840. Todos os esgotos confluem para o Tâmisa, enquanto que esse mesmo rio fornece água para a cidade; assim, uma causa permanente de epidemias aflige a capital inglesa. Nesse período, estudam-se numerosos sistemas para melhorar a situação, mas à incerteza dos critérios administra vos soma-se a das soluções técnicas. Por volta de 1840, os membros do Parlamento e os prováveis reformadores "estão irritadíssimos com as controver das opiniões dos peritos quanto às dimensões e às formas dos esgotos, quanto aos respec vos valores das bocas-de-lobo, das grades e dos alçapões, e quanto aos mistérios da hidráulica" 13 Em torno de um pântano chamado de lagoa de Wellington, irrompe, em 1838, uma violenta epidemia. As autoridades locais apelam ao novo Comitê da lei dos pobres, e uma comissão de médicos enviadaao local publica um relatório que obtém vasta repercussão chamando a atenção da opinião pública. No mesmo ano, entra em vigor a lei de 1837 sobre registro de nascimentos, óbitos e casamentos, que permite classificar as mortes de acordo com as causas; assim, torna-se possível englobar o conhecimento dos fenômenos isolados, estudados pelas comissões de inves gação, em um correto quadro esta s co. Em 1839, até mesmo o prelado de Londres insiste para que seja estendida a todo o país a inves gação sobre saúde realizada em Londres, e Lord Russell encarrega a Comissão dos pobres de redigir o relatório, o qual é publicado em 1842. Chadwick, que é o impulsionador da pesquisa, traça um quadro impressionante das condições higiênicas das cidades inglesas: As prisões caracterizavam-se, antes, pela imundície e pela falta de ven lação. No entanto, as descrições feitas por Howard das piores prisões que visitou na Inglaterra — e ele as considerava como entre as piores que viu na Europa — são superadas em todos os sen dos por aquilo que o Dr. Arno e eu vimos em Glasgow e em Edimburgo. Mais detritos, maiores sofrimentos sicos e desordens morais do que as descritas por Howard podem-se encontrar entre a população operária das oficinas de Liverpool, Manchester ou Leeds, e em grande parte da capital. 14 Enquanto isso, um Comitê da Câmara dos Comuns publica, em 1840, um relatório sobre as condições de higiene das grandes cidades e coloca o problema em escala mais vasta, evidenciando a falta de qualquer legislação sobre construções e sobre instalações urbanas. A fim de dar con nuidade aos estudos nesse sen do, ins tui-se uma Comissão real sobre o 12 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 540, em Report on the Sanitary Condi ons of the Labouring Popula on, 1842, p. 381. 13 CLAPHAM, J.H. op. cit., p. 542. 14 CLAPHAM, J.H. op. cit., pp. 537-538, em Report on the Sanitary Condi ons etc., 1842, p. 212. estado das grandes cidades e dos distritos populosos a qual publica seu relatório em 1845; nele, faz-se entre outras, a recomendação, no sen do de que, antes de fazer um projeto de esgotos, seja preparado "um relevo e uma planta em escala adequada"; que, juntamente com os esgotos, forneça-se a pavimentação; que as autoridades locais possam impor às casas certos requisitos higiênicos mínimos, como a presença de serviços higiênicos em cada apartamento; que possam obrigar os proprietários a limpar as casas sujas e a munir-se de uma licença para es pular os contratos de locação; que possam nomear oficiais médicos; que possam obter fundos para melhorar e alargar as ruas e para abrir parques públicos "porquanto as grandes cidades de Liverpool, Manchester, Birmingham, Leeds e muitas outras não possuem hoje qualquer parque para passeios públicos”. 15 Par ndo das exigências sanitárias, chega-se, assim, a um programa urbanís co completo. O Parlamento é incumbido da questão de 1846; uma nova epidemia de cólera chega para apressar a discussão do problema e a opinião pública pressiona os legisladores; contudo, as dificuldades a serem superadas são muitas. Uma primeira lei, proposta em 1847, é re rada e só no ano seguinte é aprovada a primeira Public Health Act, que cons tui a base de toda a legislação subseqüente. A Act de 1848 não inclui Londres, porém, ao mesmo tempo, é ins tuída a Metropolitan Commission of Sewers, com amplos poderes. No ano seguinte, a supervisão dessa matéria é atribuída ao primeiro Board of Health, composto por Lord Sha esbury, Lord Morphet, Chadwick e Southwood Smith. A competência desse comitê é muito grande. Em 1851, coloca pela primeira vez, em escala nacional, o problema da construção subvencionada, e consegue que as cidades com mais de dez mil habitantes tenham a faculdade de construir casas econômicas para as classes trabalhadoras, porém com escassos resultados, uma vez que as administrações locais não ram par do dessa disposição. No mesmo ano, a publicação dos resultados do censo permite avaliar a importância do fenômeno da aglomeração urbana. Segundo os cálculos oficiais, dentre 3.366.000 habitantes com mais de vinte anos, residentes em Londres e outras sessenta e uma cidades, apenas 1.337.000 nasceram no local e, dentre 1.395.000 londrinos, apenas 645.000. W. Farr, discípulo de Chadwick que ingressou em 1838 no Registrar General's Office, apresentando tais atos escreve: Até agora, a população emigrou dos territórios muito ou bastante salubres do campo para as cidades e os centros portuários, nos quais poucas famílias viveram durante duas gerações. É evidente, porém, que de agora em diante as cidades grandes não poderão mais ser consideradas como acampamentos – ou seja, como lugares em que as pessoas que vêm de fora exercitam sua a vidade e sua indústria – mas sim como local de nascimento de uma grande parte da es rpe inglesa. É necessário, portanto, agir sobre as cidades, a fim de que o pior lugar dentre todos os locais de nascimento – o quarto abafado, as acomodações promíscuas de muitas famílas — não seja o lugar de nascimento de uma parte considerável de nossa população. 16 Em 1866, é promulgada uma lei sanitária nova, mais avançada, e a Ar sans' and Labourers' Dwelling Act retorna ao argumento da construção popular, introduzindo o conceito de expropriação com indenização inferior ao valor do mercado que, de agora em diante, será um dos pontos fundamentais de todo programa urbanís co. São dados outros 15 CLAPHAM, J.H. Op. cit., pp. 544-545, em Commission on the State of Large Towns etc., 1844, p. 68. 16 Census of 1851, cit. em J.H. CLAPHAM, op. cit., p. 537. passos à frente em 1875 e 1890, quando a Housing of Worker Class Act unifica todas as leis sanitárias e leis sobre construções populares. Não se deve pensar que os bene cios das primeiras leis sanitárias e daquelas sobre as construções populares hajam rapidamente transformado os bairros operários. As leis tornam-se eficazes somente depois de um período de assentamento e depois que se formou, ao lado da administração pública, um pessoal adequado, capaz de colocá-las em prá ca; as limitações introduzidas pelas leis tornam, assim, mais caros os alojamentos, e os inquilinos que não se encontram em condições de suportar os aumentos são impelidos para novos alojamentos precários em zonas mais periféricas; enfim, as normas das primeiras leis, puramente quan ta vas, remediam algumas das mais graves deficiências de ordem higiênica, mas tornam ainda mais uniformes e obsessivas, se é que é possível, as ruas dos bairros operários e são responsáveis pelos alinhamentos mecânicos de muitos bairros na segunda metade do século XVIII (Figs. 63 e 64). Contudo, da mesma forma que, em termos polí cos, o Reform Bill sanciona a inicia va popular a capacidade de adaptar gradualmente as ins tuições ao desenvolvimento das idéias e das condições materiais por meio da a vidade parlamentar, também as primeiras e imperfeitas leis sobre construções estabelecem um precedente para um controle con nuo pela autoridade local e pelos órgãos centrais sobre o desenvolvimento e a transformação da cidade. Mesmo os campos de respec va ação das duas autoridades são estabelecidos desde o princípio, ficando confiada à administração local as inicia vas concretas e aos órgãos centrais os fundamentos legisla vos e a definição dos standards mínimos e máximos: dis nção ainda válida para a planificação moderna. Na França, o curso dos acontecimentos é diferente, porém as orientações são semelhantes. A industrialização é mais lenta, mas prossegue durante a Restauração e, com maior rapidez, sob a Monarquia de Julho, ao abrigo das barreiras alfandegárias, provocando a urbanização e as conseqüentes dificuldades de organização, sobretudo nos departamentos setentrionais. A a vidade polí ca e administra va, contudo, não prossegue com con nuidade o curso das mudanças econômicas e sociais; o regime de Luís Filipe re ra-se rapidamente para posições conservadoras e aliena as simpa as daclasse instruída; as pessoas com capacidade para denunciar os novos problemas de convivência que amadurece se encontram, assim, em grande parte, na oposição e elaboram soluções teóricas arrojadas e generosas, porém perdem contato com o exercício do poder e perdem a familiaridade com os obstáculos concretos. Somente no breve período da Segunda República, entre a Revolução de 1848 e o golpe de Estado de 1851, o pensamento desses reformadores pode influir diretamente sobre a a vidade legisla va; nesse período, com efeito, são feitas as mais importantes inovações jurídicas e administra vas. Também aqui o ponto de par da é a constatação das dificuldades higiênicas nos novos aglomerados urbanos. As pesquisas mais conhecidas, como o relatório de Blanqui sobre a situação das classes operárias em 1848 e os estudos da Sociedade de S. Vicente de Paula sobre os habitantes das moradias de Lille, repetem quase que literalmente as expressões de Chadwick e de Engels; é como se es véssemos lendo um sinistro relato, em que as situações se apresentam ao infinito, e cada vez que se abre a porta de uma moradia, seja em Lille ou em Manchester, sabe-se que a mesma cena será vista ainda uma vez, como a fus gação no esconderijo do Processo de Ka a: Muitas famílias de Rouen dormem promiscuamente sobre um estrado de palha, como os animais em um estábulo; sua louça consiste em um vaso de madeira ou de cerâmica desbeiçado, que serve para todos os fins; os filhos menores dormem sobre um saco de cinzas; os outros, pais e filhos, irmãos e irmãs, deitam-se todos juntos sobre aquele leito indescri vel. [Em Lille, as ruas dos bairros operários levam a] pequenos pá os que servem ao mesmo tempo como esgoto e depósito de lixo. As janelas das moradias e as portas dos alojamentos abrem-se para essas passagens infectas, ao fundo das quais uma grade é colocada horizontalmente sobre bocas-de-lobo que servem como latrinas públicas, dia e noite. As habitações da comunidade estão distribuídas em torno desses focos de pes lência, dos quais a miséria local se compraz em extrair um pequeno rendimento. 17 Durante a breve vida da Segunda República, o Conde A. de Melun, proveniente da Sociedade de S. Vicente e deputado no Norte, consegue fazer com que seja aprovada a primeira lei urbanís ca francesa, em 1850. As Comunas estão autorizadas, de agora em diante, a nomear uma comissão, que deverá indicar "as medidas indispensáveis de arranjo dos alojamentos e dependências insalubres, alugados e ocupados por pessoa diversa daquela de seu proprietário"; na comissão, devem estar presentes um médico e um arquiteto, e o proprietário pode ser obrigado a pagar as obras, se for responsável pelos inconvenientes, ou a Comuna pode subs tuir-se ao proprietário, expropriando "a totalidade da propriedade compreendida no perímetro das obras a serem efetuadas . 18 Esta úl ma disposição é a mais importante, uma vez que atribui novo significado à expropriação. A lei napoleônica de 1810 e a de 1833, emanada no princípio do regime orleanista, consideram a exproriação como uma operação excepcional; a lei de 1841 facilita seu procedimento, mas estabelece que a autoridade somente se pode valer da mesma para a execução de grands travaux publics e, de fato, serve como prepara vo para a lei de 1842 sobre a nova rede ferroviária. Agora, contempla-se a expropriação até mesmo para o saneamento dos bairros residenciais e diz respeito a todo o perímetro dos trabalhos, portanto, também às obras que deverão retornar às mãos dos par culares, como as novas casas; transforma-se assim, em um instrumento urbanís co geral, com o qual a autoridade intervém no processo de transformação das cidades, discriminando as exigências públicas e par culares. É a lei que permi rá que Haussmann, daí a pouco, efetue seus grandiosos trabalhos de transformação de Paris. A aplicação ocorrerá em um clima polí co autoritário, num espírito diferente daquele dos legisladores republicanos. 17 A. BLANQUI, cit. em P. LAVEDAN, op. cit., p. 68. 18 Cit. em P. LAVEDAN, op. cit., p. 89.