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BENEVOLO, Leonardo – História da Arquitetura Moderna, Editora Perspec va, São 
Paulo, 1994, Capítulo 2, Item 1, páginas 69 a 82 
 
2. A ERA DA REORGANIZAÇÃO E AS ORIGENS DA URBANISTICA MODERNA 
 
1. As reformas polí cas e as primeiras leis urbanís cas 
 
O quarto decénio do século XIX principia com uma série de acontecimentos polí cos 
importantes: a Revolução de Julho na França, a independência da Bélgica (1830), os 
movimentos poloneses e italianos de 1831, a reforma da Cons tuição inglesa de 1832. 
No breve intervalo de dois anos, o sistema polí co construído pelo Congresso de Viena é 
abalado de uma ponta a outra da Europa. Em alguns lugares, como na Polônia e na Itália, a 
ordem an ga pode ser restabelecida mas, na França, o soberano legí mo é expulso por uma 
revolução que elimina as estruturas residuais do Ancien Régime e concede o poder polí co à 
burguesia liberal; na Bélgica, a insurreição vitoriosa cria um novo Estado, com uma Cons tuição 
ainda mais liberal do que a francesa; na Inglaterra, sobe ao poder o par do dos whigs, que 
empreende uma série de reformas substanciais no complexo estatal. A solidariedade dos 
soberanos e dos governantes europeus para a manutenção do status quo desfalece, e o 
primi vo sistema rígido, baseado no princípio da legi midade, é subs tuído por um equilíbrio 
dinâmico, baseado na compe ção de interesses contrastantes. 
Nos países economicamente mais avançados, extraem-se as conseqüências polí cas da 
Revolução Industrial; a distribuição do poder polí co é adaptada àquela do poder econômico, 
o sistema administra vo adapta-se à composição modificada da sociedade. 
Sendo a lei inglesa de reforma eleitoral de 1832 resultado de um compromisso 
parlamentar, não possui o caráter de uma inovação revolucionária, mas exatamente por isso 
registra com eloqüência o peso das mutações ocorridas. 
A Revolução Industrial ocasionou profundas modificações na distribuição dos habitantes 
sobre o território inglês. Na primeira metade do século XVIII, a Inglaterra é um país ainda 
predominantemente rural e mesmo a indústria tem sede sobretudo no campo. Enquanto o 
trabalho com minérios de ferro é feito com carvão de lenha, os altos-fornos surgem onde quer 
que existam bosques; a indústria têx l baseia-se na organização do trabalho a domicílio, e os 
próprios camponeses e suas famílias alternam os trabalhos no campo com a tecelagem e a 
fiação, com aparelhos a mão de sua propriedade ou cedidos por emprés mo dos 
empregadores. 
Quando, porém, o ferro começa a ser trabalhado com carvão fóssil, os altos-fornos 
concentram-se nos distritos carboníferos; quando R. Arkwright descobre, em 1768, a maneira 
de aplicar a energia hidráulica à fiação, e E. Cartwright, em 1784, a maneira de aplicar a 
energia hidráulica à tecelagem, estas operações concentram-se onde quer que seja possível 
u lizar a energia da água corrente; e, quando a máquina a vapor de Wa , patenteada em 
1769, começa a ser usada em subs tuição à força hidráulica (entre 1785 e 1790), a 
concentração pode ocorrer em qualquer lugar, mesmo distante dos rios; a rede de canais, 
construída de 1759 em diante, diminuindo o preço dos transportes mesmo para os materiais 
pobres, torna sempre menos vinculadas as sedes dos empreendimentos industriais. 
Os locais de concentração das indústrias tornam-se centros de novos aglomerados 
humanos em rápido desenvolvimento, ou mesmo, surgindo ao lado das cidades existentes, 
provocam um aumento desmesurado em sua população. Calcula-se que, no princípio da 
Revolução Industrial, cerca de um quinto da população inglesa vivia em cidades e quatro 
quintos no campo; por volta de 1830, a população urbana é quase igual à rural, enquanto 
que, em nossos dias, a proporção foi inver da e os quatro quintos dos ingleses vivem na 
cidade. 
Contudo, a ordenação polí ca e administra va, até 1832, não leva em conta essas 
novidades. O sistema eleitoral baseia-se ainda na velha organização rural, e um número 
considerável de cadeiras são atribuídas a burgos semidesertos, por nomeação de parte de 
seus proprietários, enquanto que as cidades oriundas ou ampliadas por obra da Revolução 
Industrial não possuem uma representação adequada. 
A lei eleitoral de 1832 abole aproximadamente duzentos de tais burgos e reparte os 
assentos de nova maneira, des nando-os sobretudo às cidades industriais; por outro lado, 
rompe o an go vínculo que liga os direitos polí cos à propriedade de bens imóveis, fazendo, 
assim, uma equiparação entre os industriais e os comerciantes aos proprietários de terras. 
Dessa forma, não só a representação polí ca é colocada de acordo com a realidade 
econômica e social da região, mas também, atribuindo às novas classes um poder 
proporcional a seu peso econômico, a lei eleitoral abre o caminho para uma série de 
reformas de todo gênero, conformes aos interesses da indústria e às exigências da nova 
sociedade. 
Em 1833, é promulgada a primeira lei verdadeiramente eficaz sobre as fábricas, obra 
principalmente de Lord Ashley: as horas de trabalho são reduzidas a 48 para crianças de 
menos de 13 anos e a 65 para os jovens de até 18 anos; são fixados intervalos regulares para 
as refeições e é ins tuído um Corpo de inspetores centrais para fazer respeitar essas 
disposições. A lei é melhorada em 1842, vetando o emprego de mulheres e crianças nas 
minas, e, em 1844, proibindo o emprego de menores de 9 anos na indústria têx l; as 
sucessivas limitações ao emprego de crianças são acompanhadas por extensões sucessivas 
da instrução escolar obrigatória. No mesmo ano de 1833, Lord Wilbeforce consegue a 
abolição da escravatura em todas as colônias. 
Em 1834, reforma-se a an ga lei sobre os pobres; o sistema em vigor, ins tuído em 1795 
e conhecido pelo nome de Speenhamland, assegura a cada um um determinado nível de 
subsistência, vinculado ao preço do pão: se a remuneração percebida for inferior, a diferença 
é coberta por um subsídio. Os reformadores, animados pelas teorias radicais, propõem-se 
abolir gradualmente o sistema dos subsídios, porém também são contrários à fixação de um 
salário mínimo obrigatório e preferem manter com vida as tradicionais workhouses ou asilos 
de operários, tomando cuidado para que as condições de vida em tais estabelecimentos sejam 
inferiores àquelas do mais ínfimo trabalho no exterior; ao mesmo tempo, submetem a 
aplicação da lei a um controle central, de modo a abolir os abusos locais. 
Em 1835, são ins tuídas as administrações municipais ele vas, em lugar das an gas 
ins tuições, de origem feudal; cada cidade é assim provida de uma autoridade democrá ca, 
à qual incumbe, de agora em diante, todas as intervenções públicas nos assuntos de 
construção, de viabilidade, de melhoramentos urbanos (antes dispersos em uma infinidade 
de ins tuições de especiais) e, como conseqüência, a planificação em termos reais; essas 
administrações estão sujeitas a duas solicitações complementares: de baixo, o eleitorado, 
que impõe a sa sfação das exigências locais e, do alto, a autoridade central, que cuida dos 
interesses gerais. A vida administra va, assim, vê-se constrangida a sair de seu longo 
imobilismo.1 
 
1 Apenas em 1888, os territórios rurais obtêm um ordenamento democrá co local como o das cidades, 
com a ins tuição dos conselhos do condado. 
Este período, desde o Reform Bill de 1832 até a abolição da taxa sobre cereais em 1846, 
é chamado por Belloc de "a era da reorganização”.2 Fica agora claramente visível o contraste 
entre liberdade e autoridade, do qual se falou na Introdução. Os reformadores whigs, 
imbuídos de seus ideais radicais, rompem defini vamente com a organização do Ancien 
Régime e os velhos vínculos que se opõem à liberdade das novas inicia vas; ao mesmo 
tempo, entretanto, devem resolver os problemas de organização causados por novos 
desenvolvimentos, e devem adotar, pouco a pouco, um sistema de regras adequado à 
sociedade industrial, que terminará limitando a livre inicia va de modo muito mais enérgico 
e circunstanciadodo que o velho sistema. 
Escreve H. M. Croome: 
Quanto mais cresce a técnica capitalista, tanto mais tornam-se complicadas as relações 
econômicas; quanto mais o povo se concentra nas cidades, mais a prosperidade de um está 
ligada à de pessoas que jamais terá conhecido, e mais se torna necessário que a conduta de 
cada um seja conforme ao modelo estabelecido. Por exemplo, a saúde de um habitante da 
cidade não é mais assunto unicamente seu, porque a doença que o afeta pode contagiar os 
vizinhos com maiores probabilidades do que ocorre com um habitante do campo em uma 
casa isolada. A educação torna-se mais importante. E torna-se mais importante a 
responsabilidade social, o sen mento de que "somos todos membros do mesmo corpo" 
Assim, seguindo o desenvolvimento do capitalismo, encontramo-nos face a uma situação 
paradoxal: a idéia individualista destrói a velha solidariedade, e torna possível o 
desenvolvimento do capitalismo; este, por sua vez, aumentando a dependência recíproca, 
favorece o retorno daquela mesma solidariedade.3 
Neste momento e par cularmente nas duas décadas entre 1830 e 1850 — nasce a 
urbanís ca moderna. A convivência dos homens na cidade industrial coloca novos problemas 
de organização: os an gos instrumentos de intervenção revelam-se inadequados e são 
elaborados novos, adaptados às condições modificadas. 
As cidades crescem de ano para ano, e algumas delas a ngem dimensões excepcionais: 
em termos absolutos, como Londres (Figs. 54-56) que, em fins do século XVIII, reúne um 
milhão de habitantes, primeiro dentre todas as cidades européias — ou em relação a sua 
origem, como Manchester que, em 1760 possui doze mil habitantes e, em meados do século 
XIX, cerca de quatrocentos mil. 
Os recém-chegados são principalmente operários da indústria; suas habitações, como a 
remuneração e as condições de trabalho, dependem unicamente da livre inicia va e estão 
reduzidas ao nível mais baixo compa vel com a sobrevivência. 
Grupos de especuladores — os jerry builders — encarregam-se de construir filas de casas 
de um andar, que mal servem para morar, tendo como obje vo somente o máximo lucro: 
"desde que ficassem de pé (ao menos temporariamente), e desde que as pessoas que não 
nham outra escolha pudessem ser induzidas a ocupá-las, ninguém se importava se eram 
higiênicas ou seguras, se nham luz e ar ou se eram abominavelmente abafadas" 4 
Nas cidades inglesas, existem ainda numerosas ins tuições e corpos administra vos de 
origem an ga, encarregados de controlar a a vidade de construção, os melhoramentos 
urbanos, os fornecimentos de alimentos etc.; somente na cidade de Londres, contavam-se 
cerca de trezentos, porém tais organismos são incapazes de intervir na nova escala dos 
fenômenos, exauridos e encarados com suspeita pela opinião pública como resíduos do 
 
2 BELLOC, H. Breve Storia dell'lnghilterra (1925-1931) • Trad. it., Roma, s.d., v. II, p. 244. 
3 CROOME, H. M. & HAMMOND, R. J, Storia economica dell'lnghilterra. Trad. it., Milão, 1951, p. 263. 
4 CROOME H. M. & HAMMOND, R. J. Op. cit., p. 278. 
Ancien Régime e par cipantes da inércia de toda a vida administra va local, até a lei de 1835. 
Por conseguinte, pra camente falta qualquer controle da autoridade pública sobre a 
a vidade dos par culares. 
Exatamente enquanto renuncia a influir com regulamentos sobre a qualidade da 
construção privada, a autoridade priva-se também de suas propriedades fundiárias, as quais 
lhe permi riam intervir por via indireta e controlar ao menos a posição dos novos bairros. 
Já em 1776, Adam Smith aconselhava aos governos que vendessem seus terrenos 
dominiais para saldarem seus débitos. 5 Assim, em muitas cidades, as áreas construíveis caem 
sob o controle exclusivo da especulação privada, e as exigências especula vas impõem sua 
lei à cidade: forte densidade de construções, crescimento em anéis concêntricos em torno 
dos velhos centros ou dos lugares de trabalho, falta de espaços livres. 
Um semelhante estado de coisas não piora necessariamente os elementos singulares – 
casas, estradas, instalações — porém dá lugar a graves inconvenientes reunidos, os quais se 
tornaram evidentes somente quando o crescimento das cidades a ngiu um determinado 
limite. 
Muitos dos jerry buildings são miseráveis e pouco acolhedores; porém, a família que, 
por volta de fins do século XVIII, vem habitar nessas casas, provavelmente chega de uma casa 
de campo igualmente pouco acolhedora e abafada e, além de tudo, impregnada do pó de um 
tear manual. Falando em termos esta s cos, é certo que as casas construídas nesse período 
são de melhor qualidade que as precedentes, mas os jerry buildings são um exemplo pico 
da lógica smithiana da época, a qual, após haver fornecido um po de construção 
rela vamente sólido e que funciona, pensa poder tolerar muitos exemplares desse ao 
infinito, sem que as coisas mudem. É exatamente quanto ao relacionamento entre os vários 
alojamentos que a construção da primeira era industrial entra em crise. 
Hoje podemos dizer que os novos bairros operários estavam errados em sua localização 
urbanís ca, mais do que em termos de construção em si, porém os homens daquela época não 
poderiam ter apreciado com facilidade uma dis nção desse gênero. Todavia, as conseqüências 
concretas saltam a seus olhos e a seu nariz: a insalubridade, o conges onamento, a feiúra. 
A falta de uma instalação racional para transformação dos resíduos líquidos e sólidos 
pode passar despercebida no campo, onde cada casa possui muito espaço a sua volta para 
enterrar e queimar o lixo e para realizar a céu aberto as operações mais incômodas, mas isso 
é fonte de graves perigos no aglomerado urbano, e tanto mais quanto mais extensamente a 
cidade cresce. O fornecimento de água pelas fontes públicas pode ser feito facilmente onde 
as casas estão distribuídas em grupos pequenos, mas torna-se trabalhoso nos novos bairros 
muitos extensos e compactos; por outro lado, os usos industriais da água excluem os usos 
civis. As funções que se desenvolvem no espaço externo — a circulação de pedestres e carros, 
as brincadeiras das crianças, a criação de animais domés cos, e assim por diante — não 
perturbam uns aos outros onde o espaço é abundante, porém interferem de maneira 
intolerável se são obrigados a se desenvolver uns sobre os outros nas estreitas passagens 
entre as casas. O ambiente que resulta dessas circunstâncias é feio e repulsivo além de todo 
comentário; como em um grande aquário, a infecção de cada parte infecta rapidamente o 
conjunto, e não é necessário um altruísmo especial para se interessar pelo que ocorre, uma 
vez que as contaminações e as epidemias que daí derivam difundem-se, dos bairros 
populares, para os burgueses e aristocrá cos. 
Já que os males dizem respeito à cidade em seu conjunto, os remédios devem ser 
igualmente de ordem geral, e competem à autoridade pública, não aos par culares. Por 
 
5 BERNOULLI, V. H. La ci à e il suolo urbano (1946). Trad. it., Milão, 1951, p. 54. 
 
conseguinte, essa situação, nascida da confiança na liberdade ilimitada dos indivíduos e da 
falta de meios tradicionais para controle público, impele as autoridades, irresis velmente, a 
intervirem de outro modo, impondo novas limitações às inicia vas imobiliárias par culares. 
A necessidade, contudo, de uma disciplina unitária do espaço em que se move a 
sociedade industrial é demonstrada, da maneira mais persuasiva, também pelas realizações 
ulteriores da própria indústria e, sobretudo, por um fato que, por sua vez, caracteriza 
ni damente a era da reorganização: a criação de uma rede ferroviária (Figs. 58-61). 
A primeira ferrovia aberta ao público é executada na Inglaterra em 1825 e a primeira 
locomo va de Stephenson corre em Rockill em 1829; logo depois a ferrovia surge na França 
e nos Estados Unidos (1830), na Bélgica e na Alemanha (1835), na Rússia (1838), na Itália e 
na Holanda (1839) e forma rapidamente uma fina rede sobre o território dos Estados 
europeus. 
A ferrovia é um disposivo tecnicamente bastante vinculante; mesmo que se trate de 
inicia va privada, é necessário um acordo preliminar sobre certas caracterís cas 
fundamentais – por exemplo, sobre a bitola, que é fixada por Stephenson em 1825 em quatro 
pés, oito polegadas e meia — e a autoridade deve preocupar-se em regulamentar as 
múl plas relações entre a ferrovia e as localizações urbanas e rurais: onde, portanto, é o 
Estado que promove diretamente esse serviço – como na França e na Itália – a autoridade 
tem em mãos um novo meio, muito potente, de intervenção para modificar o aspecto do 
território, e é levada a rever, cada vez com sen do menos liberal, as leis sobre expropriação, 
a fim de conseguir obter as áreas necessárias para as construções ferroviárias em condições 
favoráveis. 
Assim, por caminhos diversos, amadurece a exigência de uma coordenação das 
inicia vas de construções na cidade industrial. Pode-se dizer que os métodos da urbanís ca 
moderna partem destes dois fatos: a natureza vinculante das novas realizações técnicas — 
especialmente as ferrovias — e as medidas pleiteadas pelos higienistas a fim de serem 
remediadas as carências sanitárias das instalações paleoindustriais. 
A formação das primeiras leis sanitárias merece ser contada extensamente, pois faz com 
que se veja claramente como se chega, começando de um setor específico, a uma série de 
disposições complexas, referentes a cada aspecto da vida da cidade. 
Na Inglaterra, como sempre, a ação das autoridades é precedida por algumas 
associações privadas de natureza filantrópica, como a En dade Sanitária de Manchester; sua 
ação é quan ta vamente insignificante, porém, é importante porque suscita o interesse da 
opinião pública e mostra que o melhoramento dos bairros insalubres é realizável com os 
meios contemporâneos existentes. 
Em 1831, quando as desvantagens da urbanização foram já fortemente apontadas, a 
cólera propaga-se da França para a Inglaterra. No ano seguinte, Edwin Chadwick (1800-1890) 
é nomeado assistente da Comissão dos pobres; ele desempenha um grande papel na 
formulação da nova lei de 1834 e, durante a pesquisa feita pela Comissão real, obtém meios 
de conhecer com exa dão e com muitos detalhes as condições de vida das classes menos 
favorecidas. 
É mérito de Chadwick haver apreendido com clareza as relações entre os problemas 
sociais e as condições sicas do ambiente: de agora em diante, até re rar-se da vida pública 
em 1854, ele será o animador de todas as inicia vas do governo para melhorar o ambiente 
na cidade industrial. 
Em 1838, o Assistant Commissioners’ report sobre as condições de vida dos tecelões 
manuais descreve de seguinte maneira as novas estradas construídas em Bethnal Green nos 
úl mos decênios "por especuladores da construção do po mais desenvolvido": 
Muitas delas são as piores que se possa imaginar, totalmente desprovidas de esgotos 
comuns. As casas geralmente tem dois andares; as fundações muitas vezes foram colocadas 
diretamente sobre a zona herbosa e sobre terreno vegetal, e não existe qualquer ven lação 
entre os pavimentos dos locais de habitação e o terreno não drenado que se encontra 
imediatamente abaixo; a pavimentação das estradas é do po mais miserável, 
freqüentemente composta por resíduos terrosos e moles e pó de jolos empastado pela 
umidade. A água abre seu caminho sob as casas e, unida aos líquidos que saem das fossas 
negras, freqüentemente vem à tona com vapores nocivos, e estes chegam até as salas de 
estar. 6 
Em outros lugares, entretanto, o quadro é diverso: 
[Em Coventry] as casas de melhor categoria dos tecelões, comparadas àquelas dos 
trabalhadores agrícolas, são moradias boas e confortáveis; algumas estão bem mobiliadas. 7 
[E em Barnsley) a maioria das casas são construídas em pedra, em posição arejada e 
ensolarada, para o que a cidade e seus arredores oferecem espaço abundante. As oficinas 
em que trabalham não são mais úmidas do que é desejável para sua a vidade. Mesmo 
quando os habitantes sofrem pela extrema pobreza, suas casas tem um aspecto de limpeza 
e de ordem. 8 
Engels, em seu livro sobre A situação da classe operária na Inglaterra de 1845, ressalta, 
além da insalubridade dos edi cios, o conges onamento da cidade e a falta de qualquer 
regra para o aproveitamento dos terrenos: 
[Em Manchester) filas únicas de casas ou grupos de ruas surgem aqui e ali, como pequenas 
vilas, sobre o novo solo de argila, no qual não cresce nem ao menos grama; as ruas não são 
nem pavimentadas, nem servidas por esgotos, mas abrigam numerosas colônias de porcos 
encerrados dentro de pequenos currais ou pá os, ou vagando sem restrições pela 
vizinhança.9 [No an go núcleo] a confusão foi levada ao extremo pois, onde quer que o 
programa de construção do período precedente deixou uma porção ínfima de espaço, foram 
acrescentadas outras construções, até não restar entre as casas uma só polegada de terreno 
onde ainda se possa construir. [Nos novos bairros, a situação é ainda pior porque] se antes 
se tratava de casas únicas, aqui cada pá o e cada quintal é acrescentado ao bel-prazer de 
cada um, sem levar em conta a situação dos demais. Ora uma ruazinha vai em uma direção, 
ora vai em outra; em cada extremidade cai-se em um beco sem saída, ou gira-se em torno 
de uma ilha acrescentada, que leva o visitante ao ponto de par da. 10 
O tratamento dos detritos é um dos problemas que mais preocupam. 
[Em Bradford, 1844, um depósito de lixo] situa-se na zona mais freqüentada da cidade, 
exatamente no centro comercial, e contém detritos e restos provenientes dos açougues, dos 
sanitários e dos mictórios. É de propriedade par cular e, por essa razão, os vigilantes 
sustentam que não podem obrigá-lo a se mudar. 11 [Em Greenock, 1840] em uma parte de 
Market Street existe um monte de esterco, mas talvez seja muito grande para ser chamado 
de monte. Não é exagero avaliar seu conteúdo de imundícies em cem jardas cúbicas. É a 
 
6 Cit. em J. H. CLAPHAM, An Economic History of Modern Britain, the Early Railway Age, Cambridge, 1939, 
p. 39. 
7 CLAPHAM, J.H. op. cit., p. 40. 
8 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 41. 
9 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 539. Extraído de F. ENGELS, Die Lage der arbeitenden Klassen in Englandy 
Leipzig, 1845. 
10 Cit. em P. LAVEDAN, Histoire de l'urbanisme, époque contemporaine, Paris, 1952, p. 72. 
11 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 539, em Commission on the State of Large Towns and Populous Districts 
Report, 1844, p. 338. 
instalação comercial de uma pessoa que comercia com esterco; ele o vende em pequenas 
porções e, para favorecer seus clientes, conserva sempre a parte central, uma vez que quanto 
mais velho, mais alto é seu preço. 12 
Em Londres, existe o grave problema da contaminação dos rios. Existe na capital uma 
massa informe de an gos regulamentos e de organismos de inspeção, porém operam com 
critérios an quados. Por exemplo, os esgotos foram concebidos inicialmente como canais 
para recolher as águas pluviais, e é proibido ligá-los às casas ou aos edi cios públicos, embora 
os dejetos líquidos possam passar, das fossas negras, para os esgotos. Quando, entretanto, 
generaliza-se o uso dos sanitários, essa proibição cai em desuso, entre 1810 e 1840. Todos os 
esgotos confluem para o Tâmisa, enquanto que esse mesmo rio fornece água para a cidade; 
assim, uma causa permanente de epidemias aflige a capital inglesa. 
Nesse período, estudam-se numerosos sistemas para melhorar a situação, mas à 
incerteza dos critérios administra vos soma-se a das soluções técnicas. Por volta de 1840, os 
membros do Parlamento e os prováveis reformadores "estão irritadíssimos com as 
controver das opiniões dos peritos quanto às dimensões e às formas dos esgotos, quanto 
aos respec vos valores das bocas-de-lobo, das grades e dos alçapões, e quanto aos mistérios 
da hidráulica" 13 
Em torno de um pântano chamado de lagoa de Wellington, irrompe, em 1838, uma 
violenta epidemia. As autoridades locais apelam ao novo Comitê da lei dos pobres, e uma 
comissão de médicos enviadaao local publica um relatório que obtém vasta repercussão 
chamando a atenção da opinião pública. 
No mesmo ano, entra em vigor a lei de 1837 sobre registro de nascimentos, óbitos e 
casamentos, que permite classificar as mortes de acordo com as causas; assim, torna-se 
possível englobar o conhecimento dos fenômenos isolados, estudados pelas comissões de 
inves gação, em um correto quadro esta s co. 
Em 1839, até mesmo o prelado de Londres insiste para que seja estendida a todo o país 
a inves gação sobre saúde realizada em Londres, e Lord Russell encarrega a Comissão dos 
pobres de redigir o relatório, o qual é publicado em 1842. 
Chadwick, que é o impulsionador da pesquisa, traça um quadro impressionante das 
condições higiênicas das cidades inglesas: 
As prisões caracterizavam-se, antes, pela imundície e pela falta de ven lação. No entanto, as 
descrições feitas por Howard das piores prisões que visitou na Inglaterra — e ele as 
considerava como entre as piores que viu na Europa — são superadas em todos os sen dos 
por aquilo que o Dr. Arno e eu vimos em Glasgow e em Edimburgo. Mais detritos, maiores 
sofrimentos sicos e desordens morais do que as descritas por Howard podem-se encontrar 
entre a população operária das oficinas de Liverpool, Manchester ou Leeds, e em grande 
parte da capital. 14 
Enquanto isso, um Comitê da Câmara dos Comuns publica, em 1840, um relatório sobre 
as condições de higiene das grandes cidades e coloca o problema em escala mais vasta, 
evidenciando a falta de qualquer legislação sobre construções e sobre instalações urbanas. 
A fim de dar con nuidade aos estudos nesse sen do, ins tui-se uma Comissão real sobre o 
 
12 CLAPHAM, J.H. Op. cit., p. 540, em Report on the Sanitary Condi ons of the Labouring Popula on, 1842, 
p. 381. 
13 CLAPHAM, J.H. op. cit., p. 542. 
 
14 CLAPHAM, J.H. op. cit., pp. 537-538, em Report on the Sanitary Condi ons etc., 1842, p. 212. 
estado das grandes cidades e dos distritos populosos a qual publica seu relatório em 1845; 
nele, faz-se entre outras, a recomendação, no sen do de que, antes de fazer um projeto de 
esgotos, seja preparado "um relevo e uma planta em escala adequada"; que, juntamente 
com os esgotos, forneça-se a pavimentação; que as autoridades locais possam impor às casas 
certos requisitos higiênicos mínimos, como a presença de serviços higiênicos em cada 
apartamento; que possam obrigar os proprietários a limpar as casas sujas e a munir-se de 
uma licença para es pular os contratos de locação; que possam nomear oficiais médicos; que 
possam obter fundos para melhorar e alargar as ruas e para abrir parques públicos 
"porquanto as grandes cidades de Liverpool, Manchester, Birmingham, Leeds e muitas outras 
não possuem hoje qualquer parque para passeios públicos”. 15 Par ndo das exigências 
sanitárias, chega-se, assim, a um programa urbanís co completo. 
O Parlamento é incumbido da questão de 1846; uma nova epidemia de cólera chega 
para apressar a discussão do problema e a opinião pública pressiona os legisladores; contudo, 
as dificuldades a serem superadas são muitas. Uma primeira lei, proposta em 1847, é re rada 
e só no ano seguinte é aprovada a primeira Public Health Act, que cons tui a base de toda a 
legislação subseqüente. 
A Act de 1848 não inclui Londres, porém, ao mesmo tempo, é ins tuída a Metropolitan 
Commission of Sewers, com amplos poderes. No ano seguinte, a supervisão dessa matéria é 
atribuída ao primeiro Board of Health, composto por Lord Sha esbury, Lord Morphet, 
Chadwick e Southwood Smith. 
A competência desse comitê é muito grande. Em 1851, coloca pela primeira vez, em 
escala nacional, o problema da construção subvencionada, e consegue que as cidades com 
mais de dez mil habitantes tenham a faculdade de construir casas econômicas para as classes 
trabalhadoras, porém com escassos resultados, uma vez que as administrações locais não 
ram par do dessa disposição. 
No mesmo ano, a publicação dos resultados do censo permite avaliar a importância do 
fenômeno da aglomeração urbana. Segundo os cálculos oficiais, dentre 3.366.000 habitantes 
com mais de vinte anos, residentes em Londres e outras sessenta e uma cidades, apenas 
1.337.000 nasceram no local e, dentre 1.395.000 londrinos, apenas 645.000. 
W. Farr, discípulo de Chadwick que ingressou em 1838 no Registrar General's Office, 
apresentando tais atos escreve: 
Até agora, a população emigrou dos territórios muito ou bastante salubres do campo para as 
cidades e os centros portuários, nos quais poucas famílias viveram durante duas gerações. É 
evidente, porém, que de agora em diante as cidades grandes não poderão mais ser 
consideradas como acampamentos – ou seja, como lugares em que as pessoas que vêm de 
fora exercitam sua a vidade e sua indústria – mas sim como local de nascimento de uma 
grande parte da es rpe inglesa. É necessário, portanto, agir sobre as cidades, a fim de que o 
pior lugar dentre todos os locais de nascimento – o quarto abafado, as acomodações 
promíscuas de muitas famílas — não seja o lugar de nascimento de uma parte considerável 
de nossa população. 16 
Em 1866, é promulgada uma lei sanitária nova, mais avançada, e a Ar sans' and 
Labourers' Dwelling Act retorna ao argumento da construção popular, introduzindo o 
conceito de expropriação com indenização inferior ao valor do mercado que, de agora em 
diante, será um dos pontos fundamentais de todo programa urbanís co. São dados outros 
 
15 CLAPHAM, J.H. Op. cit., pp. 544-545, em Commission on the State of Large Towns etc., 1844, p. 68. 
16 Census of 1851, cit. em J.H. CLAPHAM, op. cit., p. 537. 
 
passos à frente em 1875 e 1890, quando a Housing of Worker Class Act unifica todas as leis 
sanitárias e leis sobre construções populares. 
Não se deve pensar que os bene cios das primeiras leis sanitárias e daquelas sobre as 
construções populares hajam rapidamente transformado os bairros operários. As leis 
tornam-se eficazes somente depois de um período de assentamento e depois que se formou, 
ao lado da administração pública, um pessoal adequado, capaz de colocá-las em prá ca; as 
limitações introduzidas pelas leis tornam, assim, mais caros os alojamentos, e os inquilinos 
que não se encontram em condições de suportar os aumentos são impelidos para novos 
alojamentos precários em zonas mais periféricas; enfim, as normas das primeiras leis, 
puramente quan ta vas, remediam algumas das mais graves deficiências de ordem 
higiênica, mas tornam ainda mais uniformes e obsessivas, se é que é possível, as ruas dos 
bairros operários e são responsáveis pelos alinhamentos mecânicos de muitos bairros na 
segunda metade do século XVIII (Figs. 63 e 64). 
Contudo, da mesma forma que, em termos polí cos, o Reform Bill sanciona a inicia va 
popular a capacidade de adaptar gradualmente as ins tuições ao desenvolvimento das idéias 
e das condições materiais por meio da a vidade parlamentar, também as primeiras e 
imperfeitas leis sobre construções estabelecem um precedente para um controle con nuo 
pela autoridade local e pelos órgãos centrais sobre o desenvolvimento e a transformação da 
cidade. 
Mesmo os campos de respec va ação das duas autoridades são estabelecidos desde o 
princípio, ficando confiada à administração local as inicia vas concretas e aos órgãos centrais 
os fundamentos legisla vos e a definição dos standards mínimos e máximos: dis nção ainda 
válida para a planificação moderna. 
Na França, o curso dos acontecimentos é diferente, porém as orientações são 
semelhantes. A industrialização é mais lenta, mas prossegue durante a Restauração e, com 
maior rapidez, sob a Monarquia de Julho, ao abrigo das barreiras alfandegárias, provocando 
a urbanização e as conseqüentes dificuldades de organização, sobretudo nos departamentos 
setentrionais. A a vidade polí ca e administra va, contudo, não prossegue com 
con nuidade o curso das mudanças econômicas e sociais; o regime de Luís Filipe re ra-se 
rapidamente para posições conservadoras e aliena as simpa as daclasse instruída; as 
pessoas com capacidade para denunciar os novos problemas de convivência que amadurece 
se encontram, assim, em grande parte, na oposição e elaboram soluções teóricas arrojadas 
e generosas, porém perdem contato com o exercício do poder e perdem a familiaridade com 
os obstáculos concretos. 
Somente no breve período da Segunda República, entre a Revolução de 1848 e o golpe 
de Estado de 1851, o pensamento desses reformadores pode influir diretamente sobre a 
a vidade legisla va; nesse período, com efeito, são feitas as mais importantes inovações 
jurídicas e administra vas. 
Também aqui o ponto de par da é a constatação das dificuldades higiênicas nos novos 
aglomerados urbanos. As pesquisas mais conhecidas, como o relatório de Blanqui sobre a 
situação das classes operárias em 1848 e os estudos da Sociedade de S. Vicente de Paula 
sobre os habitantes das moradias de Lille, repetem quase que literalmente as expressões de 
Chadwick e de Engels; é como se es véssemos lendo um sinistro relato, em que as situações 
se apresentam ao infinito, e cada vez que se abre a porta de uma moradia, seja em Lille ou 
em Manchester, sabe-se que a mesma cena será vista ainda uma vez, como a fus gação no 
esconderijo do Processo de Ka a: 
Muitas famílias de Rouen dormem promiscuamente sobre um estrado de palha, como os 
animais em um estábulo; sua louça consiste em um vaso de madeira ou de cerâmica 
desbeiçado, que serve para todos os fins; os filhos menores dormem sobre um saco de cinzas; 
os outros, pais e filhos, irmãos e irmãs, deitam-se todos juntos sobre aquele leito 
indescri vel. [Em Lille, as ruas dos bairros operários levam a] pequenos pá os que servem 
ao mesmo tempo como esgoto e depósito de lixo. As janelas das moradias e as portas dos 
alojamentos abrem-se para essas passagens infectas, ao fundo das quais uma grade é 
colocada horizontalmente sobre bocas-de-lobo que servem como latrinas públicas, dia e 
noite. As habitações da comunidade estão distribuídas em torno desses focos de pes lência, 
dos quais a miséria local se compraz em extrair um pequeno rendimento. 17 
Durante a breve vida da Segunda República, o Conde A. de Melun, proveniente da 
Sociedade de S. Vicente e deputado no Norte, consegue fazer com que seja aprovada a 
primeira lei urbanís ca francesa, em 1850. As Comunas estão autorizadas, de agora em 
diante, a nomear uma comissão, que deverá indicar "as medidas indispensáveis de arranjo 
dos alojamentos e dependências insalubres, alugados e ocupados por pessoa diversa daquela 
de seu proprietário"; na comissão, devem estar presentes um médico e um arquiteto, e o 
proprietário pode ser obrigado a pagar as obras, se for responsável pelos inconvenientes, ou 
a Comuna pode subs tuir-se ao proprietário, expropriando "a totalidade da propriedade 
compreendida no perímetro das obras a serem efetuadas . 18 
Esta úl ma disposição é a mais importante, uma vez que atribui novo significado à 
expropriação. A lei napoleônica de 1810 e a de 1833, emanada no princípio do regime 
orleanista, consideram a exproriação como uma operação excepcional; a lei de 1841 facilita 
seu procedimento, mas estabelece que a autoridade somente se pode valer da mesma para 
a execução de grands travaux publics e, de fato, serve como prepara vo para a lei de 1842 
sobre a nova rede ferroviária. Agora, contempla-se a expropriação até mesmo para o 
saneamento dos bairros residenciais e diz respeito a todo o perímetro dos trabalhos, 
portanto, também às obras que deverão retornar às mãos dos par culares, como as novas 
casas; transforma-se assim, em um instrumento urbanís co geral, com o qual a autoridade 
intervém no processo de transformação das cidades, discriminando as exigências públicas e 
par culares. 
É a lei que permi rá que Haussmann, daí a pouco, efetue seus grandiosos trabalhos de 
transformação de Paris. A aplicação ocorrerá em um clima polí co autoritário, num espírito 
diferente daquele dos legisladores republicanos. 
 
17 A. BLANQUI, cit. em P. LAVEDAN, op. cit., p. 68. 
18 Cit. em P. LAVEDAN, op. cit., p. 89.

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