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MIKLOS, Jorge. O santuário da imagem: Nise da Silveira e a revolução do afeto. Revista ECCOM, v. 16, n. 31, p. 94-107, 2025. Nome: Heitor dos Santos Pires RA: F344924 Data: 20/08/2026 Ao nos depararmos com a obra de Nise da Silveira, somos convidados a testemunhar uma verdadeira revolução do afeto que desafiou as estruturas de violência do modelo manicomial de sua época. Nise recusou veementemente os métodos invasivos e brutais da psiquiatria tradicional como a lobotomia, os eletrochoques e a insulinoterapia, que tentavam domesticar a loucura ao reduzi-la a uma disfunção orgânica. Contrapondo-se a esse pensamento morto, que tratava o indivíduo em sofrimento psíquico como um objeto passivo de intervenções puramente mecanicistas, ela propôs uma ética do cuidado fundada na sensibilidade. Ao invés de ficar fechado a paradigmas excludentes e diagnósticos frios, o seu olhar estabeleceu um elo profundo de respeito pela alteridade, mostrando que a reorganização psíquica exige espaços de liberdade e expressão ativa, e não de contenção. Nesse contexto, a produção artística dos clientes deixa de ser rotulada como um mero sintoma patológico sem sentido e passa a ser vista como a linguagem soberana do indizível. Nossa imaginação é despertada ao percebermos que as telas, modelagens e esculturas nascidas nos ateliês do Engenho de Dentro funcionavam como uma ponte de comunicação vital onde a linguagem verbal costumava falhar. Essa rica produção imagética manifestava uma profunda ligação com a psicologia analítica de Carl Jung, revelando padrões arquetípicos recorrentes como mandalas, espirais e motivos mitológicos que emergiam de forma espontânea do inconsciente coletivo. Desse modo, o ato de criar não representava um passatempo decorativo ou secundário, mas sim um esforço vivo de autogestão mental e de reconstrução da subjetividade fragmentada pelo sofrimento. Ademais, a abordagem de Nise materializa de forma exemplar o arquétipo do Curador Ferido, no qual o terapeuta abdica da postura de detentor absoluto do saber para se assumir como um companheiro de travessia do cliente. Essa prática clínica exige uma disponibilidade simbólica que nos ensina a acolher e decifrar a imagem em seu próprio tempo de revelação, protegendo o sujeito da pressa classificatória dos manuais formais. Estabelece-se, assim, uma corrente de confiança mútua e cooperação afetiva, substituindo o enquadramento rígido por uma verdadeira alquimia da relação terapêutica. Como o próprio texto nos revela, a cura não se dá pela repressão de sintomas, mas pela abertura de um canal afetivo e criativo onde a psique pode se reorganizar, se redefinir e restabelecer sua própria integridade. Em última análise, o legado de Nise da Silveira ultrapassa os limites da clínica médica e nos convoca a uma urgente reflexão de caráter ético, social e existencial. A verdadeira revolução operada por seu trabalho nos adverte que o sofrimento da alma não pode ser reduzido a uma anomalia a ser isolada, calada ou tratada com indiferença. Reconhecer a dignidade e a potência criadora na loucura significa, acima de tudo, acolher a nossa própria fragilidade humana e combater as forças históricas de exclusão e silenciamento social. Portanto, a persistência de sua memória nos ensina que uma sociedade humana e solidária não se ergue com muros, mas sim com a edificação de pontes afetivas onde toda alma tenha o direito de expressar o seu mistério e a sua própria beleza.