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FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS 1 SUMÁRIO NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 Introdução ................................................................................................ 3 Atenção ................................................................................................ 5 Memória ............................................................................................... 8 Linguagem ......................................................................................... 13 Percepção .......................................................................................... 16 Funções executivas............................................................................ 21 Avaliação neuropsicológica na criança - indicações e contribuições . 26 Testes utilizados ............................................................................. 27 Memória .......................................................................................... 31 Linguagem ...................................................................................... 32 Atenção .......................................................................................... 33 Funções Executivas ........................................................................ 34 Lobos frontais ................................................................................. 35 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 39 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 Introdução As funções neuropsicológicas são divididas em: memória, atenção, linguagem, percepção e funções executivas. O sistema cognitivo nada mais é do que a relação entre estas funções, desde os comportamentos mais simples até os de maior complexidade, que exigem muito mais do nosso cérebro. Deste modo vamos analisar cada uma das partes que agregam as funções cognitivas para entendermos posteriormente todo o seu contexto: Memória – Esta é uma das funções cognitivas que mais empregamos, porque ela está em funcionamento durante toda a vida de um humano. A memória nada mais é do que a capacidade que temos de registrar informações, lembrar-se delas e depois aproveitá-las no presente. O nível de atenção é que produz o bom funcionamento da memória. Para que o bom armazenamento ocorra as atividades cognitivas, como a capacidade de percepção e associação, são importantes para que os conhecimentos sejam armazenados corretamente. 4 Existem várias etapas na memória, sendo estabelecidas por: memória de curto prazo, que utilizam os nossos sentidos e a memória de longo prazo, que nada mais são do que os conhecimentos que demarcamos como os mais importantes e ficam presentes no nosso cérebro por mais tempo. Existem maneiras de aprimorar a memória, lembrando que ela começa a se debilitar-se a partir dos 50 anos de idade, onde a maioria das pessoas se queixa de dificuldades em memorizar. Mas a memória é influenciada em outros fatores, tais como as emoções e a motivação. Quando estamos mais motivados para aprender algo, memorizamos com mais facilidade, ou seja, o armazenamento das informações se torna mais fácil e tende a ficar armazenado na nossa memória por mais tempo. Atenção – Esta é uma função muito complexa e o nível dela é determinado pelo comportamento. Para que a atenção seja bem advinda é importante que o foco seja mantido. A atenção é essencial para os processos existentes para a memorização. Sempre vamos apontar a nossa atenção para algo que avaliamos ser mais importante em determinados momentos dos nossos dias. Porém, diferentes estímulos fazem parte de todo este processo, sendo eles a atenção e a atenção. A aptidão que temos de manter a concentração é limitada, e depende de inúmeros fatores, desde a carência de ânimo ou anseio sobre determinado assunto, até os problemas mais específicos, como o Déficit de atenção entre outros, que precisam ser tratados. Percepção - é uma função cognitiva onde o indivíduo é capaz de formar e distinguir os estímulos vindos de um ambiente através dos órgãos sensoriais e poder dar um significado para eles. Linguagem – Esta é uma função que também utilizamos todos os dias e durante a maior parte do nosso tempo. Utilizamos a linguagem de maneira oral (conversando) ou escrita (lendo ou escrevendo um texto). A linguagem tem uma importância muito ampla, e é definida pelo uso de um meio aparelhado de combinar as palavras a fim de se comunicar, apesar de 5 que a comunicação não se constitui excepcionalmente em um processo verbal. As formas não verbais, como os desenhos ou gestos são igualmente capazes de imprimir sentimentos e ideias. Funções Executivas – incluem um contexto neuropsicológico que utiliza as atividades cognitivas pela execução e o planejamento de tarefas. Abrangem nestas atividades as tomadas de decisões, a lógica, o raciocínio, as estratégias e as soluções de problemas. Estes processos cognitivos também são produzidos diariamente. Atenção A atenção é uma função cognitiva bem complexa e diversos comportamentos resultam de um nível adequado de atenção para serem bem sucedidos, por exemplo: assistir um filme e compreendê-lo; manter o foco de conversação em um ambiente ruidoso. A atenção também é um pré-requisito fundamental para o processo de memorização. O conceito de atenção é definido pela seleção e manutenção de um foco, seja de um estímulo ou informação, entre as inúmeras que obtemos através de nossos sentidos, memórias armazenadas e outros processos cognitivos. Em outras palavras, dirigimos nossa atenção para o estímulo que julgamos ser importante num exato momento. Os outros estímulos que não os principais, passam a fazer parte do “fundo” não sendo mais os focos na atenção. Podemos estudar e avaliar os diferentes aspectos da atenção, por exemplo: • Atenção seletiva: quando o indivíduo escolhe um estímulo ao qual prestará atenção, por exemplo, ler um livro ao invés de assistir tv, mesmo que esta esteja ligada e faça ruídos ao fundo; • Atenção dividida: caracteriza-se pela capacidade do indivíduo em prestar atenção em mais de um estímulo ao mesmo tempo, por exemplo, 6 conversar enquanto dirige um veículo, trabalhar no computador enquanto atende ao telefone; Nossa capacidade de manter a concentração é restrita, e depende de inúmeros fatores, desde a falta de vontade ou ânimo por algum assunto, até a dificuldades específicas, como as presentes no TDAH (veja seção principais diagnósticos) que interferem na capacidade de atenção seletiva e dividida, ou seja, todos nós temos alguma dificuldade atencional, se isso representa um problema a sertratado, depende do grau de comprometimento e do número de sintomas. Problemas de concentração podem ser resultantes de um distúrbio atencional simples, ou a uma inabilidade de manter o foco de atenção intencional, ou até aos dois problemas ao mesmo tempo. No nível seguinte de complexidade, está o rastreamento mental que também é afetado por dificuldades atencionais. A preservação da atenção é um pré-requisito para atividades que requeriam, tanto concentração, como rastreamento mental. A habilidade de manter a própria atenção focada em um conteúdo mental fica diminuída, ou seja pode-se ter dificuldade de para se manter uma sequência de 7 pensamentos simples, o que invariavelmente compromete a habilidade de solução de problemas mais complexos. Elucidar a natureza dos problemas atencionais, depende não somente da complexa observação do comportamento geral do paciente, assim como o desempenho em testes específicos que envolvam concentração e trilhas mentais. Somente com a comparação entre as várias observações, pode ser possível a distinção entre os déficits globais e aqueles mais discretos e normais presentes na maioria das pessoas. Devido sua complexidade, a atenção é um produto do funcionamento integrado de inúmeras estruturas corticais e sub-corticais, além de sistemas de redes neurais, que constituem a neuroanatomia da atenção. O estado de alerta dá início à recepção de estímulos provenientes dos órgãos sensoriais. No tronco encefálico, mais especificamente na formação reticular, ocorre então a regulação da tenacidade (Brandão, 1995). Porém, são as projeções do sistema ativador reticular ascendente (SARA) que possibilitam a ativação cortical, a manutenção do alerta e vigília e a escolha das respostas comportamentais. A ativação inicial do córtex parietal na recepção de informações sensoriais, os núcleos da base e do colículo superior com as informações motoras, além das informações límbicas advindas do giro do cíngulo e da amígdala são reguladas através de aferências da formação reticular (Lima, 2005). As habilidades de seleção de estímulos relevantes e inibição de estímulos distratores são fatores essenciais para a cognição e processo de aprendizagem. Para Mesulam (1999), três estruturas estão relacionadas à atenção seletiva: o córtex parietal superior, relacionado com a representação espacial exterior; o córtex pré-motor lateral, responsável pela orientação e movimentos de exploração; e o giro do cíngulo anterior, associado com a monitoração da resposta. Além dessas áreas, autores como Muskat (2008) e Lima (2005) também relacionaram o córtex pré-frontal no controle voluntário da atenção, o córtex fronto-parietal e os núcleos da base no acoplamento de novos estímulos e o núcleo pulvinar no filtro de informações relevantes das irrelevantes, localização 8 do alvo visual, engajamento. De maneira inversa, a inibição de estímulos irrelevantes está ligada aos componentes do sistema límbico com o foco dado pelos processos emocionais e motivacionais, o córtex parietal pela inibição do foco do estímulo e as áreas frontais com a alocação dos processos inibitórios (Muskat; 2008). Nos processos atencionais, diversas regiões cerebrais são acionadas, trabalhando de maneira integrada, mas para que todos componentes funcionem em harmonia é necessário um gerenciador de atividades. O controle e organização executiva da atenção têm papel fundamental não só no na manutenção da disposição para agir e controle inibitório como também no planejamento e execução direcionados à metas e auto-regulação da ação. Essa função possui grande relação com as áreas anteriores do cérebro, sobretudo nas áreas pré- frontais e órbito-frontais (Estévez-González, García-Sánchez e Junque, 1997). Por fim, outras duas funções importantes na atenção é a atenção sustentada, que estaria envolvida com o tálamo e o córtex frontal anterior, e a atenção dividida, que seria ativada pelo córtex parietal anterior, córtex pré-frontal e pelo tálamo (Engelhardt et al 1996). Memória A memória é uma das funções cognitivas mais utilizadas pelo ser humano em seu cotidiano. Memória é a capacidade de armazenar informações, lembrar delas e utilizá-las no presente. O bom funcionamento da memória depende inicialmente de do nível de atenção. Para que o bom armazenamento aconteça outras atividades cognitivas como a capacidade de percepção e associação é importante para que as informações possam ser armazenadas com sucesso. A memória pode ser classificada de forma simples, de acordo com a duração e os tipos de informação envolvidos: 9 • memória de curto prazo: também conhecida como memória de trabalho, armazena (numa quantidade limitada) informações por alguns minutos. A memória de trabalho possibilita, por exemplo, uma pessoa discar um número de telefone que alguém acabou de lhe dizer ou repetir algumas frases de um texto lido naquele exato momento. • memória de longo prazo: ao contrário da anterior, a memória de longo prazo tem uma capacidade maior para o armazenamento de informações, que permanecem com o indivíduo durante longos períodos, podendo até ficar guardadas indefinidamente. Por exemplo, as lembranças de fatos ocorridos na infância, o aprendizado de conteúdos escolares, a fisionomia ou o nome de alguém que ao se vê há tempos, etc. Dentro da memória de longo prazo, encontram-se os seguintes tipos: memória episódica: fazem parte desse conjunto os eventos vivenciados pela pessoa que os recorda, em um determinado tempo e lugar, por exemplo, uma viagem de férias, o primeiro dia num emprego, o nascimento de um filho, ou até eventos negativos como uma situação de violência. Assim, a memória episódica é constituída por lembranças autobiográficas que representam um significado importante para o indivíduo. 10 memória semântica: corresponde ao conhecimento de fatos da vida em geral, como o idioma falado, o significado das palavras, o nome de objetos e que não têm qualquer ligação com as experiências dotadas de algum tipo de emoção, como descrito na memória episódica. memória procedural: esse tipo de memória é ligado ao conhecimento de procedimentos corriqueiros e automáticos, por exemplo, lembrar como se toca um instrumento musical, andar de bicicleta, vestir- se, etc. Com o avanço da idade, a partir do 50 anos, é comum as pessoas se queixarem de dificuldades de memória, o que traz um certo desconforto ou ate o receio de que possa ser o início de um quadro patológico, como o Mal de Alzheimer, porém é importante ressaltar que o declínio da memória como avanço da idade é completamente normal. Não é só a idade que provoca prejuízos na capacidade de memória; o estresse emocional, a depressão e problemas de ordem física são outros importantes fatores. Por outro lado, existem também fatores que favorecem a memória, como a motivação e as emoções. Quanto maior o interesse em aprender algo, melhor será o armazenamento das informações obtidas nesse processo, assim quanto maior o número de emoções (sejam elas positivas ou negativas) atribuídas a um evento mais chances dele permanecer na memória para uma futura recuperação. Consideráveis avanços têm ocorrido, nas ultimas décadas, em relação à compreensão sobre o funcionamento da memória. Resultados apontam cada vez mais que a memória não se localiza apenas em uma região, tendo suas funções compartilhadas por múltiplas estruturas de acordo com sua especificidade. Acredita-se que a região temporal medial, mais especificamente, o hipocampo seja uma das estruturas mais importantes na codificação e formação de novas memórias. Mais do que isso, Moscovitch (2003) acredita que sua 11 função seja de integração e consolidação de informações sensoriais separadas, além da transferência de informações recém-sintetizadas para estruturasde longo prazo. Enquanto o hipocampo parece ser responsável pela formação da memória declarativa, a amígdala estaria relacionada à memória emocional, dando uma tonalidade afetiva ao material aprendido. Da mesma forma, outras estruturas parecem ter relação com as memórias não-declarativas, demonstrado na figura 4. A partir de estudo realizado por Mishkin e Petri (1984), foi observado um envolvimento dos núcleos da base, em especial o núcleo caudado, na memória de procedimentos. O cerebelo apresenta papel relevante no aprendizado 12 condicionado de respostas motoras, enquanto a amígdala relaciona-se às respostas emocionais. Por outro lado, os aprendizados não-associativos, estão envolvidos com as vias reflexas sensoriais. Estudos com neuroimagem apontam ativação da área neocortical no que diz respeito ao efeito de pré-ativação ou priming (Squire e Knowlton, 1995; Tulving e Schacter, 1990). Assim como os diversos tipos de memória citadas anteriormente, as estruturas cerebrais envolvidas em cada componente da memória operacional abarcam amplas regiões do sistema nervoso que pode ser observado na tabela 1. Contudo, o córtex pré-frontal desempenha um papel crucial no processamento desse tipo de memória (Izquierdo, 2002). A alça fonológica tem seus sub-componentes localizados no hemisfério esquerdo, onde o armazenador estaria associado ao córtex parietal posterior, enquanto o mecanismo de reverberação se sobrepõe à Área de Broca e ao córtex pré-motor (Smith e Jonides, 1998). Ao mesmo tempo, o esboço visuo- espacial é composto pelo armazenador visual, localizado no córtex pré-frontal inferior e pelo mecanismo espacial, ocupando o córtex occipital anterior, córtex parietal posterior e o córtex pré-motor, ambos no hemisfério direito (O’Reilly, Braver e Cohen, 1999). Por fim, o executivo central tem representações bilaterais 13 no córtex cerebral, e está relacionado principalmente ao córtex frontal dorso- lateral e ao córtex pré-frontal. Linguagem A linguagem é uma função que usamos todos os dias, durante a maior parte do tempo, seja através da linguagem oral (numa conversa) ou da escrita (ao ler ou escrever um texto). O conceito de linguagem é definido pelo uso de um meio organizado de combinar as palavras a fim de se comunicar, embora a comunicação não se constitua unicamente num processo verbal. As formas não-verbais, como gestos ou desenhos também são capazes de transmitir ideais e sentimentos. Tanto a fala quanto a escrita são processos em que o indivíduo seleciona as palavras que conhece e as organiza num determinado contexto, dentro das regras gramaticais de seu idioma. A linguagem é um processo que ocorre apenas se existir uma sequência coerente de símbolos (sons ou palavras). Assim, para uma comunicação ser satisfatória, o indivíduo precisa compreender uma determinada informação para entender a seguinte, e daí por diante até o fim de um texto ou uma conversa. Mesmo que a pessoa leia um texto com muita atenção e compreensão, dificilmente as frases serão armazenadas exatamente iguais como aparecem no texto. Apenas as informações mais relevantes, como palavras-chave e as ideias 14 centrais, serão necessárias para a compreensão e armazenamento na memória de longo prazo. A leitura adequada é aquela que o sujeito organiza as palavras em grupos coerentes, dos quais será extraído um significado geral e associados ao tema principal do texto. A linguagem também é caracterizada pela sua constate evolução, pois embora as pessoas respeitem os limites de sua estrutura (gramática, ortografia), elas podem produzir novas elocuções a qualquer momento. Basta observar as mudanças ocorridas na escrita de certas palavras há algumas décadas atrás, por exemplo “pharmácia”. Durante muitas décadas, grande ênfase foi dada aos estudos sobre linguagem. Contribuições como as de Paul Broca e Karl Wernicke continuam sendo lembradas até hoje. O avanço da tecnologia e a utilização de técnicas avançadas de neuroimagem permitiram uma importante evolução a respeito do conhecimento de circuitos neurais relacionados à linguagem. Através de técnicas menos invasivas é possível observar como os processos se dão em indivíduos normais e não apenas em lesionados, como antigamente. Entretanto, sabe-se muito mais sobre as áreas envolvidas na linguagem em adultos do que em crianças. O fato de estarem em constante desenvolvimento, torna-as mais susceptíveis à plasticidade e mudanças funcionais, podendo não ser as mesmas áreas nas crianças (Muszkat e Mello, 2008). 15 O processamento da linguagem é bastante complexo, ocorrendo em estruturas específicas e localizações determinadas. Desde Marc Dax (1865), inúmeros estudos foram realizados envolvendo a questão da especialização hemisférica da linguagem. Atualmente, há uma grande aceitação que alguns aspectos da linguagem seriam mediados por um hemisfério dominante (Knecht et al., 2000). Em geral, é o hemisfério esquerdo que estaria relacionado à articulação e compreensão da linguagem, assim como no reconhecimento da palavra; e o direito, com aspectos prosódicos e afetivo-emocionais da linguagem (Springer e Deutsch, 1998). Quanto aos aspectos neurais relacionados à linguagem expressiva, temos o cerebelo, responsável pelo sequenciamento dos movimentos na fala e pela monitoração da fonação; o córtex motor (porção posterior do lobo frontal), que estaria associado aos atos motores de fonação; os nervos motores, que controlam a motricidade dos músculos faciais e órgãos fonoarticulatórios; e os núcleos da base, responsáveis pelo controle do automatismo motor (Rocha, 1999). Além dessas estruturas, temos a área de Broca, situado no giro frontal ascendente esquerdo, com papel fundamental no planejamento motor da 16 linguagem, na articulação e produção da fala (Machado, 2002). Os aspectos não- verbais como a prosódia e pragmática estão associados ao hemisfério direito. No entanto, o aspecto motivacional da linguagem esta relacionado ao giro do cíngulo e outras áreas mais límbicas do lobo frontal (Muszkat e Mello, 2008). As funções receptivas envolvem as áreas auditivas, localizada no lobo temporal, e as áreas visuais, predominantes no lobo occipital, além dos nervos sensitivos e as áreas motoras, assim como as relacionadas com os movimentos oculares e a rotação da cabeça, movimentos presentes durante a leitura (Machado, 2002). A área de Wernicke, localizada na porção medial e superior do lobo temporal esquerdo, é responsável pela compreensão da linguagem (Price, 2000). Outra estrutura importante é o giro angular situado no lobo parietal, participa do processo de decodificação da linguagem escrita, processo de leitura e integração de informações sensoriais (Bookheimer et al., 1995). Percepção A percepção é uma função cognitiva que se constitui de processos pelos quais o sujeito é capaz de reconhecer, organizar e dar significado a um estímulo vindo do ambiente através dos órgãos sensoriais. Por exemplo, se um indivíduo tem seus olhos vendados e lhe são oferecidos alguns objetos para tatear, ele é capaz de reconhecer - através de informações armazenadas - a textura (áspero ou macio, duro ou mole), a forma (quadrado, redondo, grande, etc.) e depois nomear o objeto. O mesmo processo 17 ocorre com os outros sentidos como o olfato (reconhecer que é “cheiro de fumaça"), a gustação (identificar se algo é doce ou salgado), a audição (saber que um som é do canto de pássaros), ou a visão (identificar um obstáculo ao dirigir um veículo e desviá-lo). As agnosias são os déficits na capacidade de percepção dos estímulos sensoriais, especialmente os relacionados à visão. Embora o sujeito não seja portador de qualquer tipo de deficiência sensorial, ele não é capaz de reconhecer e identificaro estímulo que lhe é oferecido, normalmente em consequência a lesões cerebrais adquiridas. A sensação e a percepção constituem a base para a formação de todo nosso conhecimento acerca do mundo externo e interno, através dos órgãos dos sentidos e as células. De acordo com Engelhardt, Laks e Rozenthal (1995), a sequência de eventos resultantes na percepção de estímulos se inicia em células especializadas. Desde os receptores periféricos e as vias aferentes, até o córtex, passando pela medula, tronco cerebral e tálamo, o processamento se por diferentes níveis. Cada sistema sensorial apresenta uma modulação própria para o reconhecimento consciente do estímulo aplicado. Posteriormente, os receptores sensoriais se encarregam de traduzir os estímulos, que são codificados e levados por vias complexas para os centros superiores, onde por fim, essas informações são processadas. 18 Os sistemas sensoriais apresentam uma organização mista, hierárquica e em paralelo de acordo com a etapa de processamento. Um bom exemplo dessa organização é o sistema visual. Os olhos e suas estruturas desempenham um papel fundamental nesse processo. Eles captam as imagens, transformando- as em impulsos elétricos, que serão enviados através do nervo óptico, ao cérebro. Os processos visuais são centralizados no lobo occipital, em especial no córtex visual primário e no córtex visual de associação. Os inúmeros aspectos de um estímulo visual estão vinculados à atividade da área visual primária (Grill- Spector e Malach, 2004). Grande parte das informações para as áreas especializadas provém da V1, que juntamente com a V2 que distribuem os diferentes sinais para as áreas apropriadas. Assim, o córtex temporal medial (MT ou V5) está relacionada com o movimento e a profundidade, a área V4 à percepção de cor e forma, que alcança o córtex temporal inferior (IT). Desta forma, a percepção de forma e cor utiliza uma via ventral (“o que”), relacionada com a identificação de um objeto. Enquanto a percepção de movimento e de profundidade depende de uma via dorsal (“onde”), envolvida na localização espacial dos objetos (Milner e Goodale, 1995; Ungerleider e Mishkin, 1982). 19 O processamento auditivo é centralizado no lobo temporal, principalmente no córtex auditivo primário. As informações da cóclea apresentam conexões complexas ao nível do tronco cerebral (Phillips, 1995). Os estímulos auditivos são processados por vias paralelas ascendentes, diretas e cruzadas, a partir dos núcleos cocleares. Neles, as vias binaural e monaural formam o lemnisco lateral, que terminam no colículo superior, projetado para o corpo geniculado medial. As informações acústicas ascendem ao córtex auditivo através de vias paralelas e terminam em regiões específicas para o processamento do tempo, intensidade e frequência do som. Dessa forma, as diferentes regiões funcionais do córtex decompõem a informação auditiva em componentes menores para gerar a percepção da localização, altura e volume. Finalmente, são direcionadas para as áreas de associação onde os sons são apreciados de acordo com seu tipo (Celesia, 1976). A gustação tem seu processamento a partir da estimulação de células receptoras que estão agrupadas nas papilas gustativas. Kinnamon e Cummings (1992) ressaltam os diferentes métodos para converter a informação da estrutura química dos estímulos gustativos em sinais elétricos. Estímulos salgados e azedos, por exemplo, agem diretamente sobre os canais iônicos específicos 20 localizados nas membranas das células receptoras. No entanto, os estímulos doce, amargo e umami apresentam conversão mediada por receptores acoplados a G-Proteinas. Em todos os casos, os sinais elétricos produzidos são enviados ao sistema nervoso central através dos nervos cranianos. Os sinais elétricos são enviados até a medula, onde fibras aferentes as projetam diretamente para o núcleo ventral póstero-medial do tálamo. Além disso, foram observadas projeções adicionais para o córtex somatosensorial primário, possível região que integra os aspectos quimo e somatosensórios dos estímulos gustativos (Araújo, 2003). Em comparação aos outros mamíferos, o olfato do ser humano é pouco desenvolvido. Combinado com a gustação, o olfato nos ajuda a identificar os alimentos e alertar sobre alguma substância nociva. Os receptores olfativos projetam seus axônios para o interior dos bulbos olfatórios, onde convergem para formar estruturas sinápticas chamadas glomérulos. Estas se conectam em grupos que convergem para as células mitrais. Posteriormente, os axônios de saída dos bulbos, estendem-se pelos tactos olfativos, projetando diretamente para regiões primitivas do córtex. Então, a informação vai para o tálamo e depois, para o néocórtex (Bear, Connors e Paradiso, 2002). As percepções conscientes do cheiro podem ser mediadas por uma via que vai do tubérculo olfatório ao núcleo medial dorsal do tálamo, e por fim, para o córtex orbitofrontal. 21 Funções executivas As funções executivas compreendem um conceito neuropsicológico que se aplica às atividades cognitivas responsáveis pelo planejamento e execução de tarefas. Elas incluem o raciocínio, a lógica, a estratégias, a tomada de decisões e a resolução de problemas. Todos esses processos cognitivos são produzidos diariamente, pois uma série de problemas - dos mais simples aos de maior complexidade - ocorrem na vida do ser humano. Assim, independente do grau de complexidade do problema, o sujeito precisa estar apto para analisar a situação (problema), lançar mão de estratégias, e antever as consequências de sua decisão. O cotidiano oferece diferentes desafios ou simplesmente situações imprevistas que exigem uma boa habilidade para um manejo adequado. Por exemplo, descobrir o melhor caminho para se chegar num determinado local, uma nova função no emprego, aumentar o orçamento doméstico, ou mesmo durante o desenvolvimento da criança, que a cada momento descobre uma nova possibilidade e vai em busca de uma nova habilidade. Existem três tipos de resolução de problemas: • Inferente: utilizada quando o indivíduo está frente a uma situação desconhecida e pela qual ainda não existem soluções disponíveis. Sendo assim, é necessário avaliar os elementos que compõem o problema e deduzir (inferir) qual a melhor estratégia para superar aquele problema, ou no pelo menos minimizar seus efeitos. Na medicina isso é bastante utilizado quando se tem um determinado quadro patológico desconhecido. • Analógica: é o uso de recursos anteriormente utilizados em situações semelhantes. • Automática: é o tipo que se caracteriza pela espontaneidade. Ocorre principalmente se a pessoa que o utiliza tem bastante prática no problema, por exemplo, um motorista experiente. 22 Por muito tempo, acreditou-se que as funções executivas estavam relacionadas apenas ao lobo frontal, especificamente ao córtex pré-frontal. Atualmente, através dos métodos de neuroimagem sabe-se que esse constructo está associado a diferentes regiões dos lobos frontais, bem como distribuídos em uma ampla rede cerebral, que inclui estruturas subcorticais e vias do tálamo. Presume-se que o córtex pré-frontal seja a região mais relacionada ao funcionamento executivo e possui papel central na coordenação e integração entre os diferentes processos cognitivos e emocionais. Além disso, Weinberger (1993) ressalta seu alto grau de conectividade, compreendendo mais de trinta por cento do peso cerebral e sua superfície. O córtex pré-frontal possui aspectos únicos que sugerem a mediação e o controle do funcionamento executivo, sendo a área que possui mais regiões cerebrais conectadas a elas, além de receber diretamente entrada de outras áreas heteromodais associativas. O córtex pré-frontal é o maior alvo neocortical das informações processada nos circuitoslímbicos e das projeções dos circuitos. Deste modo, é a única região cortical capaz de integrar informações motivacionais, mnêmicas, emocionais, somatosensoriais e sensações externas, de maneira unificada e com metas direcionadas. O córtex frontal pode estar organizado de acordo com a natureza do material a ser processado ou com o tipo de processamento requerido. Por exemplo, a manipulação de informação em tarefas complexas normalmente ativa o córtex pré-frontal inferior direito, enquanto o córtex frontal superior é mais ativado quando a informação precisa ser renovada e mantida na memória. Stuss et al (2002) notaram que a área frontal dorsolateral direita estaria envolvida no monitoramento do comportamento e a mesma área só que do lado esquerdo estaria relacionada ao processamento verbal. De acordo com Fuster (2002) a região pré-frontal medial e cingulado anterior estariam envolvidos na reorganização da atenção e na motivação, a região pré-frontal lateral na memória de trabalho e definir, e a região órbito-medial no controle inibitório de impulsos e interferência. 23 Como visto anteriormente, o córtex pré-frontal está envolvido com muitos aspectos cognitivos e comportamentais específicos. Contudo, Royall e colaboradores (2002) identificaram três importantes circuitos (síntese apresentada na figura 5) que estão mais relacionados ao desempenho das funções executivas, com origem no lobo frontal e enviando projeções para os núcleos da base e para o tálamo. 24 O primeiro é o circuito córtex pré-frontal dorsolateral que se projeta para parte dorsolateral do núcleo caudado e também recebe informações do córtex parietal e da área pré-motora. Esta região pré-frontal dorsolateral é uma área de convergência multimodal e parece ter relação com o planejamento, estabelecimento de metas, flexibilidade cognitiva, fluência, memória de trabalho verbal e visuo-espacial, auto-regulação e tomada de decisão. Em seguida, o circuito órbito-frontal lateral têm origem no córtex pré- frontal lateral inferior e ventral anterior, projeta-se para o núcleo caudado ventromedial e recebe informações de outras áreas corticais. Esta região também recebe entrada de informação das áreas de processamento visual e auditivo dos lobos occipital e temporal. No córtex orbitofrontal, há uma forte interconexão com as áreas de processamento cognitivo e emocional. Portanto, estaria envolvido em alguns aspectos de comportamento social como controle inibitório, empatia e cumprimento de regras sociais. Por fim, o circuito do cíngulo anterior/córtex pré-frontal medial se projeta para o estriado ventral, recebe sinais do córtex de associação paralímbico, continuando até o núcleo talâmico dorsomedial. Este circuito teria relação com o monitoramento do comportamento, motivação, controle executivo da atenção, seleção e controle de respostas, recebendo informação de regiões como o hipocampo e a amígdala. De fato, os aspectos multifacetados das funções executivas e os múltiplos componentes das tarefas, dificultam a investigação e o controle das variáveis. Assim, não permitem o isolamento de uma habilidade executiva específica, o que provoca certo questionamento sobre as localizações cerebrais relacionadas ao funcionamento executivo. Ao mesmo tempo, a grande quantidade de conexões com diversas regiões do cérebro demonstra sua importância no controle da função executiva e no funcionamento de outras funções cognitivas. Essa perspectiva mais abrangente e "holista" das funções executivas pode ser lida no trabalho de Faw (2003). Nele, o autor lança a ideia do lobo pré- frontal servir como um "comitê executivo" composto de cinco membros ou cinco sistemas sub-corticais-e-posteriores: o apreendedor, o verbalizador, o 25 motivador, o atentivo e o coordenador. Cada membro desse comitê estaria relacionado a um sistema pré-frontal e à habilidades cognitivas específicas. Segue descrição abaixo. No caso do apreendedor, via pre-frontal ventro lateral, recebe informações bem básicas sobre objetos e o ambiente de cada um dos cinco sistemas exteroceptivos. Esse sistema utiliza essas informações para discriminar e identificar objetos e situações. O sistema verbalizador, via ventro lateral, também recebe informações sobre objetos e o ambiente, mas se utiliza das informações relacionadas à comunicação. Já o sistema motivador, via ventro medial orbital, recebe informações diretamente da parte perceptual, aprimorando as informações do sistema apreendedor e verbalizado. Ele também recebe informações interoceptivas, sensações do corpo, respostas emocionais. O sistema atentivo, via dorso medial, está intimamente ligado ao foco atencional, recebe e processa informações básicas dos objetos e do ambiente, assim como do sistema apreendedor, motivador e coordenador. Por fim, o coordenador, via dorso lateral, recebe informações espaciais e de todo os outros sistemas. Segundo Faw (2003), todos esses sistemas e vias pré-frontais relacionam-se com várias funções cognitivas tais como a percepção, atenção, memória, controle motor, pensamento, entre outras. De certa forma, esse comitê executivo proposto pelo autor tem um papel relevante não só para o estudo dos circuitos neurais, mas também, para a maneira de pensar o funcionamento e desenvolvimento das funções cognitivas como um todo. 26 Avaliação neuropsicológica na criança - indicações e contribuições A avaliação neuropsicológica é recomendada em qualquer caso onde exista suspeita de uma dificuldade cognitiva ou comportamental de origem neurológica. Ela pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de diversas enfermidades neurológicas, problemas de desenvolvimento infantil, comprometimentos psiquiátricos, alterações de conduta, entre outros. A contribuição deste exame na criança é extensiva ao processo de ensino- aprendizagem, pois nos permite estabelecer algumas relações entre as funções corticais superiores, como a linguagem, a atenção e a memória, e a aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.). O modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem busca reunir uma amostra de funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão, obviamente, correlacionadas com a organização funcional do cérebro. Sem essa condição, a aprendizagem não se processa normalmente, e, neste caso, podemos nos deparar com uma disfunção ou lesão cerebral. Ao fornecer subsídios para investigar a compreensão do funcionamento intelectual da criança, a neuropsicologia pode instrumentar 27 diferentes profissionais, tais como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, promovendo uma intervenção terapêutica mais eficiente. O conjunto dos instrumentos utilizados nos possibilita uma avaliação global das capacidades da criança, bem como das dificuldades encontradas por ela em seu desempenho dia a dia. Não se trata de rotular ou enquadrar a criança como integrante de grupos problemáticos, e sim de evitar que tais dificuldades possam impedir o desenvolvimento saudável da criança. Ainda quanto à avaliação em crianças, torna-se importante salientar algumas questões, entre elas o fato de o desenvolvimento cerebral ter características próprias a cada faixa etária. Portanto, dentro desse padrão de funcionamento cerebral, é importante a elaboração de provas de acordo com o processo maturacional do cérebro. Por exemplo, quando se fala de imaturidade na infância, esta não deve ser entendida unicamente como deficiência, devido às peculiaridades do desenvolvimento cerebral na infância. Diferentemente do adulto, o cérebro da criança está ainda em desenvolvimento, tendo características próprias que garantem uma diferenciação e especificidade de funções. Segundo Antunha (1987), as baterias de testes neuropsicológicos adaptados para criançassão em número bastante reduzido. Devem contemplar: a organização e o desenvolvimento do sistema nervoso da criança; a variabilidade dos parâmetros de desenvolvimento entre crianças da mesma idade; a estreita ligação entre o desenvolvimento físico, neurológico e a emergência progressiva de funções corticais superiores. Testes utilizados Estão relacionados a seguir alguns testes utilizados na avaliação neuropsicológica, descrevendo-se, de maneira sucinta, as potencialidades de 28 cada teste ou bateria como instrumento de ajuda na investigação neuropsicológica. Inteligência Os testes de inteligência para crianças medem primariamente habilidades essenciais ao desempenho acadêmico. Entre eles, o de Stanford-Binet4 foi o primeiro nos Estados Unidos. Adaptado das escalas originais de BinetSimon, baseia-se maciçamente no desempenho verbal e cobre desde os 2 anos até a idade adulta (23 anos), fornecendo uma idade mental e um quociente de inteligência (QI). O padrão-ouro internacional para a quantificação das capacidades intelectuais são as escalas Wechsler de inteligência, subdivididas pela faixa de idade. Essas escalas consistem em uma série de perguntas e respostas padronizadas que medem o potencial do indivíduo em áreas intelectuais diferentes, como o nível de informação sobre assuntos gerais, a interação com o meio ambiente e a capacidade de solucionar problemas cotidianos. O teste WPPSI5 (do inglês Wechsler Preschool and Primary Scale of Intelligence - Escala de Inteligência Wechsler para Pré-Escolares e Primário) é uma versão para crianças menores das escalas Wechsler, permitindo avaliar a inteligência de crianças entre 4 e 6,5 anos. É constituída por seis subtestes verbais e cinco de natureza manipulativa. Normalmente, a aplicação de cinco subtestes de cada uma das subescalas (verbal e de execução) é suficiente para uma análise fidedigna. A escala também permite recolher algumas informações sobre a organização do comportamento da criança. O WISC-III6 (Wechsler Intelligence Scale for ChildrenIII - Escala de Inteligência Wechsler para Crianças-III) é a escala mais usada para avaliar a inteligência de crianças cobrindo as idades de 6 anos a 16 anos, 11 meses e 30 dias. Fornece escores nas escalas verbal e de execução, bem como um QI de escala total. Inclui muitos tipos de tarefas, oportunizando a observação das dificuldades da criança e de suas habilidades. É importante salientar que crianças com dificuldades motoras em geral são penalizadas neste teste, que não deve ser usado quando tal deficiência estiver presente. 29 O subteste Cubos do WISC-III (Figura 1) visa averiguar a capacidade de análise, síntese e planejamento de coordenadas vísuo-espaciais e a praxia construtiva. Pede-se ao sujeito que reproduza, com cubos de faces coloridas, desenhos que lhe são mostrados. Para cada modelo é estipulado um prazo limite para execução. Embora o QI não seja uma medida para localizar disfunções cerebrais, o resultado de QI contribui para dar maiores informações sobre o nível geral de funcionamento do paciente e, assim, servir de referência para outras funções mais específicas, como memória, linguagem, etc. Tanto o Stanford-Binet como o WISC-III e o WIPPSI são administrados individualmente a cada sujeito. Quando o paciente não apresenta condições de expressar-se verbalmente, usam-se os testes Matrizes Progressivas de Raven e Escala de Maturidade Mental Colúmbia8, que avaliam a inteligência geral e estimam a capacidade de raciocínio geral de crianças de uma forma não-verbal. O objetivo do teste Matrizes Progressivas de Raven (Figura 2) é descobrir as relações que existem entre as figuras e imaginar qual das oito figuras apresentadas completaria o sistema. Tradicionalmente, a inteligência está relacionada com as habilidades acadêmicas, porém existem outros tipos de inteligência (como, por exemplo, a caracterizada pela capacidade de relacionar ideias complexas, formar conceitos abstratos, derivar implicações lógicas através de regras gerais) que, muitas vezes, não é possível mensurar através dos testes convencionais. A este respeito, Prime salienta que, nas abordagens da inteligência, duas são 30 tratadas como fundamentais: a inteligência cristalizada (que prioriza o conhecimento) e a inteligência fluida (que prioriza o raciocínio). A primeira se refere à profundidade das informações adquiridas via escolarização e geralmente é usada na resolução de problemas semelhantes ao que se aprendeu no passado (como nos testes tradicionais de inteligência). A segunda se refere à capacidade de processamento cognitivo, ou seja, a capacidade geral de processar informações ou as operações mentais realizadas quando se resolvem problemas relativamente novos. Com o propósito de avaliar a inteligência de uma forma global, foi padronizada para a população brasileira a bateria de provas de raciocínio (BPR-5), a qual oferece estimativas do funcionamento cognitivo geral e das habilidades do indivíduo em cinco áreas específicas: raciocínio abstrato, verbal, espacial, numérico e mecânico. Este instrumento auxilia os examinadores a tomarem decisões sustentadas na avaliação das aptidões e raciocínio geral, tais como, por exemplo, na avaliação das dificuldades de aprendizagem. É organizado em duas formas: A) para estudantes da 6ª à 8ª série do ensino fundamental; B) para alunos da 1ª à 3ª série do ensino médio. 31 Memória Para esta função, são utilizados instrumentos que avaliam a capacidade de aprendizado de funções de memória, como, por exemplo, o Teste de Aprendizado Auditivo Verbal de Rey (Rey Auditory Verbal Learning Test - RAVLT) e o Teste de Aprendizado Visual de Desenhos de Rey (Rey Visual Design Learning Test - RVDLT)12. Os testes que envolvem aprendizado, isto é, a repetida exposição ao material a ser recordado, são mais sensíveis para detectar prejuízos de memória do que testes apresentados somente uma vez. No teste de Aprendizado Auditivo Verbal de Rey (Figura 3), lê-se a lista de palavras para o examinando, pausadamente, cinco vezes consecutivas. Após cada uma das vezes em que são apresentadas as 15 palavras, o sujeito deve fazer a evocação do material, sem precisar seguir a mesma ordem de apresentação. 32 O WRAML (do inglês Wide Range Assessment of Memory and Learning Short Form) é um instrumento psicométrico destinado a avaliar a capacidade de aprender e memorizar ativamente vários tipos de informação em pacientes na faixa etária de 5 a 17 anos (memória visual, aprendizado verbal, memória para histórias). Linguagem Um dos testes mais utilizados para a avaliação da linguagem é o Boston Naming Test, que utiliza figuras de objetos para avaliar a capacidade de reconhecimento e nomeação. É empregado em crianças com dificuldades de compreensão ou produção de palavras ou material verbal escrito. Pode ser usado a partir dos 6 anos de idade. Também são utilizados o Teste de Fluência verbal (FAS, do inglês Verbal Fluency), testes de compreensão, como o Teste de Token, compreensão de textos, escrita e leitura. A avaliação inclui, ainda, os seguintes tópicos: órgãos fonoarticulatórios, hábitos orais e desenvolvimento da linguagem. Algumas particularidades precisam ser respeitadas e levadas em conta quando se avalia uma criança com lesão cerebral. 33 Cabe ao profissional ter clareza dos propósitos, conhecimentos, habilidade e adequação das técnicas e instrumentos de investigação a serem utilizados, como também ter conhecimento das possíveis alterações e limitações decorrentes da lesão cerebral, para que não sejam cometidos equívocos ao concluir-se a avaliação neuropsicológica. Em muitas das crianças com lesão cerebral, encontram-se alterados os canais formais de expressão ecomunicação com o meio. Sendo assim, o profissional por vezes precisa criar estratégias a fim de que a criança possa se comunicar e, então, interagir e melhor entender o que se passa com ela. Devemos auxiliar a criança a nos mostrar seu potencial e a comunicar-se utilizando recursos que lhe possibilitem compreender o que está sendo solicitado, a representar o que compreende e/ou quer realizar (através de gestos, mímicas, fala, expressão gráfica ou ação). Atenção É uma função que possibilita a pessoa a manter o foco e as informações no cérebro durante a realização de tarefas, ignorando demais distratores menos relevantes que possam interferir na finalização do trabalho. A atenção seletiva refere- -se à capacidade de prestar atenção em alguns estímulos e 34 concomitantemente ignorar outros. Atenção dividida refere-se à distribuição de recursos disponíveis na atenção para coordenar a performance de mais de uma atividade simultaneamente (Sternberg, 2008). A atenção é considerada uma base para que diferentes processos cognitivos possam funcionar de forma adequada. Os principais instrumentos para avaliar a atenção são: Subteste Dígitos Ordem Direta, Códigos, Aritmética do WISC-IV (Wechsler, 2013) e D2-Teste de Atenção Concentrada. Também pode ser utilizada Bateria Psicológica para Avaliação da Atenção (BPA), que tem como objetivo avaliar a capacidade geral de atenção, além avaliar de forma individualizada tipos de atenção específicos: atenção concentrada (AC); atenção dividida (AD) e atenção alternada (AA). Funções Executivas É um conjunto de habilidades cognitivas e processos críticos do comportamento e pensamento complexo. Tais funções complexas avaliam organização, planejamento e utilização de estratégias de resolução de problemas, que inclui o automonitoramento, analisar e modular o 35 comportamento, de acordo com a demanda. As funções executivas abrangem adaptação a situações novas, que vão além do conhecimento adquirido, que desenvolvem novas formas e recursos de pensar, cumprindo uma função importante na capacidade de aprender novos conteúdos. Os instrumentos mais utilizados para avaliação das funções executivas em crianças são: Compreensão de provérbios para abstração-raciocínio; Torre de Londres, que avalia planejamento; Controled Word test, que avalia a fluência verbal; Five-Point Test, para fluência de desenhos; Trail Making Test, que avalia a flexibilidade mental; Wisconsin Card Sorting Test (WCST) para avaliar a flexibilidade mental, formação de conceitos, solução de problemas, abstração- raciocínio; Tarefas Go-No go, que avaliam modulação-inibição de resposta; Stroop, que mede modulaçãoinibição de resposta; Teste de Raven, que avalia abstração-raciocínio; California Verbal Learning Test-Children’s Version (CVLT- C), que mensura a aprendizagem verbal e memória. Além destes, na literatura são mencionadas as Escalas de Inteligência Wechsler, como Sequência de Números e Letras (SNL), Aritmética (AR), Semelhanças (SM) e Dígitos Ordem Inversa. Lobos frontais Nos últimos anos, cresceu muito o interesse pelas funções do lobo frontal. É nessa parte do cérebro que se encontram as maiores diferenças entre os seres humanos e seus antepassados na evolução. Os lobos frontais constituem uma das maiores regiões do encéfalo, com funções ainda pouco conhecidas, embora nos últimos anos tenham se acumulado importantes conhecimentos sobre suas atividades. Agora se sabe que é no lobo frontal que se situam as habilidades humanas mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a padronização de comportamentos sociais e motores, parte do comportamento automático emocional e da memória. 36 Para a adequada avaliação das funções frontais (funções executivas), é necessário ter conhecimento das etapas evolutivas desta estrutura, isto é, do seu processo de maturação, o que é particularmente importante quando avaliamos uma criança. A avaliação do lobo frontal é, em geral, mais difícil de ser realizada, pois envolve funções mais complexas e pouco conhecidas. Entre as diversas funções dos lobos frontais estão a plasticidade do pensamento, a capacidade de julgamento, a habilidade de produzir ideias diferentes, a organização da informação, a capacidade de dar respostas adequadas aos estímulos, de estabelecer e trocar estratégias e de planejar uma ação. Essas habilidades podem ser avaliadas através do teste de fluência verbal, fluência para desenhos, Wisconsin Card Sort Test (WCST), Trail Making Test e Stroop Test, que avaliam a capacidade de manter a atenção concentrada e de não sofrer interferências de respostas não-exigidas no momento. No teste Trail, a tarefa do sujeito na parte A (Figura 4) é ligar, com o lápis, círculos consecutivamente numerados, distribuídos aleatoriamente em uma folha de papel; na parte B (Figura 5), existem, além dos números, também letras impressas na folha de resposta, e a seqüência a ser ligada deve intercalar as duas séries, números e letras (1-A, 2-B, 3-C). A tarefa deve ser realizada o mais rapidamente possível. O WCST avalia a função executiva do lobo frontal. Mede a modulação de respostas impulsivas, a direção do comportamento, as habilidades em desenvolver e manter uma estratégia na solução de um problema, apesar das 37 mudanças de contingência, a flexibilidade, o planejamento, a organização, a ineficiência de conceitualização inicial e a dificuldade em encontrar soluções para problemas cotidianos, bem como o nível de perseveração, que vem a ser o problema que muitas pessoas têm de ficar remoendo um mesmo assunto ou repetindo um mesmo comportamento motor. Pode ser aplicado a partir dos 6 anos de idade. Diversos subtestes da Escala de Inteligência Wechsler (WISC III e WPPSI) também auxiliam na investigação de disfunções frontais, tais como analogias, compreensão, códigos, etc. Lobos parieto-occipitais As funções relacionadas às habilidades vísuo-espaciais, organização vísuo-espacial (percepção) e planejamento são avaliados pelo teste de cópia da Figura Complexa de Rey-Osterrieth19, enquanto que habilidades percepto-vísuo- espaciais são avaliadas pelo teste de Hooper Visual Organization. As figuras de Rey (Figura 6) objetivam avaliar a atividade perceptiva e a memória, verificando o modo como o sujeito apreende os dados perceptivos que lhe são apresentados e o que foi conservado espontaneamente pela memória. A testagem é composta de duas etapas: a primeira é a cópia da figura, e a segunda é a recordação da mesma após 30 minutos. A avaliação também pode ser realizada através do subteste Cubos das escalas Wechsler. 38 O Bayley II é um teste destinado à avaliação do desenvolvimento de crianças nas idades de 1 a 42 meses. O teste é dividido em três escalas: motora, mental e de comportamento, com quociente de desempenho para cada área. As três escalas são consideradas complementares, tendo cada uma sua importância na avaliação da criança. A escala mental avalia aspectos relacionados com o desenvolvimento cognitivo e com a capacidade de comunicação (capacidade de discriminar formas, atenção, habilidade motora fina, compreensão de instruções, nomeação, resolução de problemas e habilidades sociais). A escala motora avalia o grau de coordenação corporal (aspectos como sentar, levantar, caminhar, subir e descer escadas) e motricidade fina das mãos e dedos. A escala comportamental permite avaliar aspectos qualitativos do comportamento da criança durante o teste, tais como atenção, compreensão de orientações, engajamento frente às tarefas, regulação emocional, entre outros. O material do teste é atraente e de fácil utilização. Também existe o Bayley Infant Neurodevelopment Screener BINS, que é uma versão simplificada, usada para triagem de desenvolvimento em crianças de 3 a 24meses, assim como o Denver II. 39 REFERÊNCIAS Adams W, Sheslom D. Wraml Manual. Wilmington, De: Jastak Associates; 1990. Antunha El. Investigação Neuropsicológica Na Infância. Boletim De Psicologia Da Sociedade De Psicologia De São Paulo. 1987;37(87):80-102. Antunha El. Investigação Neuropsicológica Na Infância. Boletim De Psicologia Da Sociedade De Psicologia De São Paulo. 1987;37(87):80-102. Araújo, I. E. Representações Gustativas No Córtex Humano, E O Controle Central Do Apetite. Revista Brasileira De Psiquiatria, V. 25, Supl. 2, P. 25-28, 2003. Bayley N. 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