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O mercado de crédito Você vai entender a organização e o funcionamento do mercado de crédito, além dos produtos oferecidos e seus impactos na economia do país. Prof. Paulo Roberto Vianna Junior 1. Itens iniciais Propósito Compreender o mercado de crédito, as instituições financeiras e os produtos oferecidos é essencial para formar gestores financeiros competentes, capazes de tomar decisões informadas. Esse conhecimento ajuda no planejamento financeiro de indivíduos e empresas, contribuindo para a alocação eficiente de recursos e para a gestão de riscos econômicos. Preparação Antes de começar o estudo, tenha uma calculadora para as quatro operações básicas ou acesso a uma planilha eletrônica. Objetivos Descrever o funcionamento e a importância da intermediação financeira e do mercado de crédito. Descrever os diferentes atores do mercado de crédito e suas formas de captação de recursos junto aos agentes superavitários. Comparar diferentes produtos de crédito oferecidos no mercado financeiro, considerando os riscos e os critérios de classificação utilizados pelas instituições financeiras. Introdução Característica do mercado de crédito, a intermediação financeira é relevante no desenvolvimento econômico de qualquer nação. Esse processo conecta agentes que precisam captar recursos para atividades econômicas aos chamados agentes poupadores. Com recursos disponíveis, os poupadores desejam obter rendimentos financeiros com a intermediação de instituições financeiras que tornem possível e eficiente a conciliação das mais diversas expectativas de prazos e volumes que essa multidão de agentes possui. Ao longo deste conteúdo, explicaremos o funcionamento do mercado de crédito, apontando quem são seus principais atores, como eles captam recursos e os principais produtos ofertados. Também veremos a quais riscos as instituições estão sujeitas e os mecanismos de mitigação de que elas dispõem. • • • 1. Fundamentos da intermediação financeira e do mercado de crédito Intermediação financeira Assista ao vídeo para entender o serviço de intermediação financeira, seus objetivos, a função do crédito na economia e os riscos associados a esse produto. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vamos explorar neste momento a intermediação financeira e o funcionamento do mercado de crédito, explicando como ele se organiza e como as instituições financeiras são remuneradas por sua operação. Também veremos a distinção entre o crédito livre e o direcionado. Em qualquer economia, podemos distinguir dois tipos de agentes. Veja! Podendo ser pessoas físicas ou jurídicas, esses inúmeros agentes têm diferentes expectativas de remuneração, prazo e volume de recursos que querem ofertar ou tomar. Além disso, possuem diferentes características de aversão a risco, idade, faixa de renda, atividade desempenhada, localização geográfica e histórico de crédito, ou seja, perfis de risco distintos. Por isso, seria muito difícil para um agente encontrar sozinho uma contraparte que atendesse plenamente às suas expectativas sem a ajuda de um intermediário. Vejamos os seguintes casos. João Ele recebeu um pagamento inesperado de R$ 5.000 e, como só pretende usar esse valor em seis meses, deseja investir o dinheiro nesse período para obter rendimento. No entanto, João é muito avesso a riscos e quer garantir que receberá o valor total ao final do prazo. Pedro Ele está desempregado, mas precisa comprar uma geladeira no valor de R$ 1.000 e não tem o dinheiro disponível. Gostaria de tomar esse valor emprestado para pagar em um ano. Agentes superavitários Pessoas que acumulam poupança para necessidades futuras e buscam obter rendimento sobre esses recursos. Agentes deficitários Pessoas que buscam recursos para consumo ou para desenvolver atividades produtivas, dispostas a pagar uma remuneração pelo acesso a esses fundos. Maria Ela possui um comércio com bons resultados e deseja abrir uma nova loja para expandir seus negócios. Para isso, quer tomar R$ 20.000 emprestados, com o pagamento previsto para dois anos. José Ele vendeu seu carro e deseja investir os R$ 15.000 obtidos com a venda por três meses, até fazer uma viagem. Os dois agentes poupadores (João e José) querem emprestar, enquanto os dois deficitários (Pedro e Maria) desejam tomar recursos emprestados. No entanto, diferentes perfis de risco, valores e prazos tornam improvável que eles consigam realizar essas operações. As instituições financeiras atuam, então, como intermediárias, conectando agentes poupadores e tomadores com características e expectativas distintas. A gestão de riscos e a conciliação de volumes e prazos são viabilizadas pela ampla diversidade de perfis desses agentes. A imagem a seguir ilustra o papel das instituições financeiras como intermediárias, conectando os agentes superavitários e deficitários. Neste esquema, a instituição financeira se torna a contraparte de ambos, o que é muito importante, pois define o risco de crédito de cada participante no processo. Instituições financeiras como intermediários. Risco de crédito Antes de tudo, precisamos definir risco de crédito. Risco de crédito é o risco de a contraparte de uma operação não honrar seus compromissos. Em uma operação de crédito, o risco de crédito refere-se à possibilidade de o tomador não pagar ao credor o valor devido na data de vencimento. Vamos ver se você compreendeu até aqui. Você consegue prever o risco da situação a seguir? Se João emprestasse dinheiro diretamente a Pedro, qual seria o risco dele? Seria o risco de Pedro não pagar o valor devido na data acordada, ou seja, o risco de crédito de João seria Pedro. Com a intermediação financeira, João empresta o dinheiro ao banco, que, por sua vez, o empresta a Pedro. Assim, o risco de crédito de João passa a ser o banco, enquanto, para o banco, Pedro é o risco de crédito. Mercado de crédito Confira neste vídeo uma visão geral do mercado de crédito, sua importância e as modalidades de crédito direcionado e livre. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. No mercado de crédito, as instituições financeiras atuam como intermediários financeiros, unindo os agentes deficitários e superavitários. Esse é o mercado em que atuam os bancos comerciais e as sociedades de crédito, financiamentos e investimentos (também conhecidas como financeiras). Nele, as instituições, por exemplo, captam recursos dos poupadores e os emprestam a empresas e pessoas com o propósito de financiar consumo ou capital de giro. Como as instituições financeiras que operam nesse mercado possuem uma carteira bastante ampla de clientes com diferentes perfis de prazos e volumes de recursos, elas conseguem realizar uma gestão de riscos mais eficiente que a de poupadores e tomadores. Sem a ajuda desses intermediários, eles não seriam capazes de fazer essa gestão. Desse modo, essas instituições captam recursos com os agentes poupadores, remunerando-os com uma taxa de juros conhecida como taxa de captação. Em contrapartida, elas emprestam recursos para os agentes deficitários, cobrando deles outra taxa de juros pelo serviço: a taxa de empréstimo. Tendo compreendido os dois conceitos, você consegue responder à pergunta a seguir? Qual é a maior taxa: a taxa de captação ou a de empréstimo? A taxa de empréstimo é maior que a de captação. A explicação para isso é simples. A de empréstimo é formada pela receita do banco, ou seja, o quanto ele recebe pelos empréstimos que realiza. Já a de captação é a despesa do banco, o quanto ele paga para captar recursos. Como o banco busca lucro, ele precisa ter uma receita superior à sua despesa. Dessa forma, a taxa de empréstimo deve ser maior do que a de captação. A diferença entre essas duas taxas é chamada de spread de crédito (margem de crédito). O spread configura uma medida da remuneração dos bancos pelo serviço de intermediação financeira. O spread de crédito. O valor do spread de crédito é compostopor diversos fatores além do lucro dos bancos, como o custo de captação, inadimplência, custos administrativos, impostos e repasses ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Um dos componentes mais importantes é a inadimplência, que reflete o risco de crédito do banco. De todos os empréstimos oferecidos, uma parte não será paga pelas contrapartes, o que determina o nível de inadimplência na carteira do banco. Quanto maior for o nível de inadimplência, maiores serão os riscos do banco e, por consequência, a remuneração exigida por ele para emprestar recursos. Outra parcela do spread diz respeito a repasses para o FGC. Da mesma forma que a inadimplência, essa parcela também está relacionada ao risco de crédito. Porém, neste caso, tal risco está voltado para os credores do banco. Detalharemos esse ponto mais à frente quando falarmos do FGC. Devido às suas características, as operações no mercado de crédito costumam ser de curto ou médio prazo. Elas podem ser divididas em duas categorias. Vamos conhecê-las agora! Crédito direcionado Ele é constituído por empréstimos com condições determinadas pelo governo e regulamentadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) na formulação de políticas públicas. O governo, portanto, determina que uma parte dos recursos captados pelos bancos comerciais seja direcionada ao financiamento de atividades estratégicas para o país relacionadas com o setor rural, habitacional ou de infraestrutura. Com isso, parte dos depósitos, tanto à vista quanto os de poupança deve ser direcionada a um crédito, rural ou imobiliário, por exemplo. Mas você sabe como surgiu o crédito direcionado? Surgiu da necessidade de viabilizar empréstimos de longo prazo em um ambiente com baixa poupança e mercado de capitais pouco desenvolvido. Essa era a realidade do Brasil há algumas décadas. Além do crédito rural e do financiamento imobiliário, também se enquadram no crédito direcionado as operações de capital de giro e o financiamento agroindustrial e de investimentos com recursos do BNDES e operações de microcrédito. A Resolução CMN nº 4.676/18 exige que um mínimo de 65% dos depósitos em poupança seja direcionado a operações de financiamento imobiliário. Oitenta por cento desses 65% devem ser encaminhados ao Sistema Financeiro de Habitação, que busca financiar imóveis para famílias de baixa renda. Por sua vez, 25% dos depósitos à vista dos bancos precisam ser direcionados ao crédito rural. Já 2% desses depósitos vão para o microcrédito, que é composto por operações de crédito destinadas à população de baixa renda e aos microempreendedores. No crédito direcionado, as taxas praticadas e o spread de crédito são, por vezes, controlados pelo governo. Crédito livre Os contratos de financiamento e os empréstimos têm taxas pactuadas livremente, enquanto as instituições financeiras possuem autonomia para destinar os recursos captados no mercado da maneira que entenderem ser a mais eficiente. Exemplo O cheque especial, o crédito consignado, o crédito pessoal, o rotativo de cartão de crédito e o capital de giro de empresas. A importância do mercado de crédito Elo entre os agentes poupadores e tomadores, o mercado de crédito concilia as diversas expectativas relativas a prazos e volumes e otimiza a gestão dos riscos, tornando-a mais eficiente. Esse mercado ainda possui uma importância relevante para o país, pois viabiliza a economia real, disponibilizando recursos para a produção de bens e serviços e fornecendo mecanismos de poupança. As instituições financeiras que operam no mercado de crédito recebendo depósitos à vista também contribuem com a economia por meio da criação de moeda escritural, o que gera o chamado efeito multiplicar bancário. Quando uma instituição financeira recebe depósitos à vista, uma parte deve ser destinada à reserva compulsória no Banco Central. O restante pode ser utilizado para conceder empréstimos, os quais, por sua vez, geram novos depósitos à vista. Isso gera um efeito multiplicador de tal forma que, se R for o valor da reserva compulsória depositada no Banco Central, a quantidade de recursos disponíveis para empréstimos será dada por: Com isso, se o Banco Central definir uma taxa de 20% para a reserva compulsória, teremos um efeito multiplicador igual a: Ou seja, para cada R$ 1 depositado em conta corrente dos bancos, R$ 5 são disponibilizados para empréstimos, aumentando, assim, a oferta de recursos para os agentes tomadores. Caso a taxa compulsória seja de 25%, teremos um efeito multiplicador igual a: Isso significa que, para cada R$ 1 depositado em conta corrente dos bancos, R$ 4 são disponibilizados para empréstimos. Com isso, o depósito compulsório exigido pelo Banco Central às instituições financeiras determina a quantidade de recursos disponíveis para o mercado de crédito. No Brasil, o mercado de crédito ainda não possui uma grande envergadura em comparação com outras nações mais desenvolvidas. Em 2019, o mercado de crédito brasileiro representava, segundo dados do Banco Central, cerca de 48% do Produto Interno Bruto (PIB). Países como Estados Unidos e Japão possuem respectivamente mercados de crédito de 245% e 361% do PIB, informam os dados recolhidos pelo Banco Mundial. Verificando o aprendizado Questão 1 Assinale a afirmativa correta sobre o mercado de crédito: A Trata-se de um mercado em que agentes poupadores e tomadores negociam livremente entre si para ofertar e tomar crédito. B É um mercado irrelevante para a economia dos países, pois não gera poupança em longo prazo. C No mercado de crédito, ocorre uma intermediação financeira, em que as instituições financeiras funcionam como um elo entre agentes poupadores e tomadores. D A inadimplência alta faz com que o spread bancário seja menor, uma vez que os bancos correm menos risco. E No mercado de crédito, os bancos captam recursos dos agentes deficitários para emprestá-los aos superavitários. A alternativa C está correta. O mercado de crédito é o mercado da intermediação financeira. As instituições financeiras reúnem agentes poupadores (superavitários) e tomadores (deficitários) com diferentes expectativas de prazos e volumes, além de distintos perfis de riscos, tornando mais eficiente a gestão de riscos. Nele, os agentes não negociam entre si, e sim com os intermediários financeiros. Trata-se de um mercado relevante para a economia, pois viabiliza recursos para o consumo de desenvolvimento de atividades produtivas. Uma inadimplência alta nesse mercado significa um risco alto, fazendo com que o spread bancário aumente. Questão 2 O mercado de crédito é o mercado da intermediação financeira. Qual das opções a seguir apresenta um exemplo de destinação de recursos do crédito livre? A Crédito rural B Crédito imobiliário C Crédito consignado D Microcrédito E Operações com recursos do BNDES A alternativa C está correta. O crédito consignado é a única alternativa que não é um exemplo de destinação de recursos do crédito direcionado, portanto, ele é classificado como crédito livre. Para todas as demais, o direcionamento de parte dos recursos captados pelos bancos é previsto pelo governo. 2. Atores e captação no mercado de crédito Regulação e instituições Descubra no vídeo como é feita a regulação do sistema financeiro nacional e do mercado de crédito, assim como o papel das instituições financeiras nesse mercado. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Apresentaremos agora as instituições que atuam no mercado de crédito. Vamos entender como as instituições financeiras captam recursos dos agentes superavitários para emprestá-los aos deficitários. Além disso, veremos alguns mecanismos de que os agentes superavitários dispõem para se protegerem contra o risco de crédito representado pelas instituições financeiras. Regulação e supervisão do mercado de crédito O mercado de crédito é regulado, o que significa que as empresas precisam ser autorizadas pelo Banco Central do Brasil (BCB) para conceder empréstimos. Além disso,devem ser constituídas conforme as normas do CMN e possuir capital adequado para enfrentar os riscos, garantindo a estabilidade do sistema financeiro como um todo. O BCB apresenta em seu site a seguinte composição para o sistema financeiro nacional: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ver mais detalhes da imagem abaixo. Estrutura do sistema financeiro nacional. Os órgãos normativos são aqueles que estabelecem as regras do jogo, regulando as condições para se operar nos mercados e estabelecendo medidas prudenciais para garantir a estabilidade financeira. Além disso, entre outras regras que visam a um bom funcionamento do sistema, são estabelecidas medidas de conduta para a salvaguarda da proteção de participantes e consumidores. Órgãos normativos Além do CMN, há outros órgãos normativos envolvidos: o Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) e o Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC). Criado pela Lei nº 4.595, de 1964, o CMN é o órgão responsável por regular o mercado de crédito, entre outras funções, enquanto o BCB é responsável pela sua supervisão. Um dos principais objetivos da regulação e da supervisão é garantir o bom funcionamento e a estabilidade do sistema. Por outro lado, um dos pontos de atenção do regulador e do supervisor é o risco de liquidez dos bancos. O risco de liquidez é associado à capacidade das instituições financeiras de realizar seus ativos em condições de valores e prazos adequados. Resumindo O risco de liquidez é a capacidades de as instituições financeiras transformarem seus ativos em dinheiro rapidamente e sem perdas significativas, a fim de cumprir suas obrigações. Essa preocupação do regulador justifica-se pelas características dos ativos e das obrigações dos bancos e do multiplicador bancário. As obrigações dos bancos costumam ser de curtíssimo prazo, como no caso dos depósitos à vista, que têm liquidez imediata. Com o multiplicador bancário, vimos ainda que cada R$ 1 depositado pode gerar diversos outros reais também em depósitos à vista, o que representa a capacidade de alavancagem dos bancos. Já os ativos dos bancos constituem seus empréstimos de curto e médio prazos. São, portanto, de maior prazo do que suas obrigações. Caso haja um volume muito alto de resgates de contas de depósito à vista, o banco poderá ter dificuldades em realizar seus ativos para pagar a todos os clientes que quiserem resgatar seus valores. Para evitar que o banco se torne insolvente nessas situações, o CMN e o BCB emitem regras prudenciais fortemente baseadas no padrão internacional estabelecido pelo Comitê de Basileia de Supervisão Bancária (BCBS, em inglês). Trata-se do denominado Basileia III (número romano que corresponde à sua terceira versão). Desse modo, as instituições que operam no mercado de crédito devem possuir capital suficiente e uma estrutura eficaz de gestão de riscos para garantir seu funcionamento regular – mesmo em situações de crise. Atenção O Comitê de Basileia tem importância significativa, uma vez que a globalização tornou os sistemas financeiros de todo o mundo interligados, aumentando o risco de contágio. Isso exigiu dos reguladores nacionais uma harmonização na regulação e na supervisão a fim de garantir a estabilidade do sistema financeiro internacional. Instituições financeiras São os principais agentes do mercado de crédito, podendo ser estruturados de diferentes formas, que serão detalhadas a seguir. Bancos de desenvolvimento O mais conhecido deles é o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas há vários outros bancos de desenvolvimento regional, como o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES). Esses bancos têm por objetivo fomentar a atividade econômica. A Resolução CMN nº 394 assim define seus objetivos: [...] proporcionar o suprimento oportuno e adequado dos recursos necessários ao financiamento, a médio e longo prazos, de programas e projetos que visem a promover o desenvolvimento econômico e social dos respectivos estados da Federação onde tenham sede, cabendo-lhes apoiar prioritariamente o setor privado. (BRASIL, 1976) Vejamos os exemplos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Caixa Econômica Federal É uma instituição financeira pública que exerce uma série de funções operacionais na implantação de políticas de governo. Entre essas políticas, destaca-se a gestão de fundos, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o Programa de Integração Social (PIS) e o Seguro-Desemprego. Além disso, ela gere as loterias e concede empréstimos sob penhor. Banco do Brasil É uma sociedade de economia mista que também apoia a execução de políticas públicas, como as de crédito rural e industrial. Instituições financeiras monetárias São as instituições autorizadas a reter depósitos à vista, ou seja, a gerar moeda escritural. Elas dividem-se em bancos comerciais (aqueles aos quais estamos costumados a utilizar), bancos múltiplos com carteiras comerciais, Caixa Econômica Federal e cooperativas de crédito. Instituições financeiras não monetárias Em oposição às instituições monetárias, as não monetárias não podem reter depósitos à vista. Entre os principais tipos que operam no mercado de crédito, podemos citar tanto as sociedades de crédito, financiamento e investimentos (também conhecidas como financeiras) quanto as de crédito imobiliário, além das associações de poupança e empréstimo. Você sabe o que é shadow banking? O shadow banking (ou sistema bancário paralelo) é composto por agentes que oferecem crédito de forma informal. É considerado um sistema paralelo ao bancário, ou "nas sombras" (do inglês shadow), pois não está sujeito a regulamentações e supervisão, ou está apenas parcialmente regulado. Este tipo de atividade constitui um risco para o sistema financeiro apesar de representar um volume significativo de negócios no mundo todo. Algumas pessoas acreditam que o shadow banking foi um dos principais responsáveis pela crise financeira global em 2008, pois a maior parte de suas operações era alavancada, ou seja, não possuía garantias reais. Algumas das instituições que operam nesse mercado paralelo de crédito são os fundos de pensão, as seguradoras, as securitizadoras, as factorings e os esquemas peer-to-peer. Instrumentos de captação bancária Confira no vídeo os diferentes instrumentos de captação bancária, como depósitos à vista, depósitos a prazo, poupança, letras financeiras, LCAs, LCIs e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Como vimos, os bancos são os principais provedores de crédito. Para poder cumprir esse papel, eles precisam captar recursos dos agentes poupadores. Essa captação pode se dar por meio de diversos instrumentos. Nesses instrumentos, os agentes poupadores estão sujeitos ao risco de quebra da instituição financeira à qual aportam recursos. Dessa forma, quanto mais sólida for essa instituição, menor será a taxa de remuneração exigida por esses investidores para suportar o risco, assim como menos custoso será para ela captar recursos. Analisaremos agora alguns dos instrumentos de captação bancária mais importantes. Depósitos à vista Trata-se dos depósitos em conta corrente disponibilizados pelas instituições financeiras monetárias. Eles constituem uma fonte importante de captação. Esses depósitos não são remunerados e possuem liquidez imediata para o depositante, podendo ser sacados a qualquer tempo. Como sabemos, parte desses depósitos deve ser recolhida ao BCB por meio dos depósitos compulsórios, enquanto a outra precisa ser empregada no crédito direcionado, como crédito rural ou financiamento imobiliário. Depósitos a prazo Diferentemente dos feitos à vista, os depósitos a prazo são remunerados pela instituição financeira após o período previamente acordado. Eles podem possuir restrições de resgate para o depositante. Os principaisprodutos de depósito a prazo comercializados são: Certificados de depósito bancário (CDB) Recibos de depósito bancário (RDB) A diferença entre os dois é que o CDB pode ser negociado antes do seu vencimento, enquanto o investidor não tem a opção de transferir o RDB. A remuneração dos títulos pode ser feita de três formas: Por uma taxa prefixada. Por uma pós-fixada (geralmente um percentual da taxa DI). Por uma combinação dos dois. Depósitos de poupança É um dos produtos mais conhecidos dos brasileiros. Ele oferece uma rentabilidade de 0,5% ao mês mais a variação da taxa referencial (TR). Depois de 2012, a regra da remuneração da poupança ganhou um novo componente. Agora, caso a meta da taxa Selic seja igual ou inferior a 8,5% a.a., a remuneração da poupança será igual a 70% dessa taxa mais a variação da TR. Letras financeiras São instrumentos de captação das instituições financeiras de mais longo prazo que o de CDBs e RDBs. As letras financeiras geralmente estão destinadas a investidores institucionais, incluindo fundos de investimento, sociedades seguradoras e entidades de previdência complementar, uma vez que seu valor mínimo para aplicação é de R$ 300 mil e que seu prazo mínimo é de dois anos. Letras de crédito do agronegócio (LCA) As LCA são títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras que possuem isenção de Imposto de Renda (IR) e de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Elas devem estar lastreadas por créditos do agronegócio, ou seja, empréstimos que os bancos efetuam a esse setor da economia. Letras de crédito imobiliário (LCI) De maneira semelhante às LCAs, as LCIs possuem isenção de IR e IOF. Elas precisam estar lastreadas por créditos imobiliários, sejam eles financiamentos imobiliários ou projetos de reforma e construção. Graças a esses instrumentos, os agentes superavitários podem emprestar recursos financeiros para que os bancos concedam crédito. Assim, eles assumem o risco de a instituição financeira em que investiram tornar-se insolvente. Para minimizar esse risco, existem mecanismos como o FGC. Fundo Garantidor de Crédito (FGC) • • 1. 2. 3. O FGC é um arranjo elaborado pelas instituições financeiras para proteger os investidores que aportam recursos nelas, barateando seu custo de captação. Ele é constituído em forma de associação civil sem fins lucrativos, funcionando como uma espécie de seguro para esses investidores. A origem do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) se dá com a edição da Resolução CMN nº 2.197/95, que autoriza a constituição de entidade privada e sem fins lucrativos destinada a administrar mecanismo de proteção a titulares de créditos contra instituições financeiras. O FGC tem por finalidade: Proteger depositantes e investidores no âmbito do sistema financeiro até os limites estabelecidos pela regulamentação. Contribuir para a manutenção da estabilidade do sistema financeiro nacional. Auxiliar na prevenção de uma crise bancária sistêmica. O art. 11 desse estatuto (2013) ainda afirma que são instituições associadas ao FGC a Caixa Econômica Federal, os bancos múltiplos, os bancos comerciais, os bancos de investimento, os bancos de desenvolvimento, as sociedades de crédito, financiamento e investimento, as sociedades de crédito imobiliário, as companhias hipotecárias e as associações de poupança e empréstimo em funcionamento no país. Já a Resolução CMN nº 4.653/18 estabelece que o valor de 0,01% sobre os saldos garantidos pelo FGC precisa ser recolhido mensalmente pelas instituições financeiras a esse fundo como contribuições ordinárias. O FGC presta garantia aos depositantes em casos de decretação da intervenção, liquidação extrajudicial ou falência, assim como o reconhecimento, pelo BCB, do estado de insolvência. São prestados dois tipos de garantia por esse fundo. Vejamos a seguir. Garantia ordinária Tem o valor limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, cobrindo os seguintes créditos: depósitos à vista ou sacáveis por meio de aviso prévio; depósitos de poupança; letras de câmbio; letras hipotecárias; letras de crédito imobiliário; letras de crédito do agronegócio; depósitos a prazo; depósitos mantidos em contas não movimentáveis por cheques destinadas ao registro e ao controle do fluxo de recursos; e, por fim, operações compromissadas que tenham como objeto títulos emitidos após 8 de março de 2012 por empresa ligada. Comentário Se você tiver R$ 300 mil de CDBs de um banco e ele se tornar insolvente, o FGC garantirá o pagamento de R$ 250 mil. Caso você tenha dois depósitos de R$ 150 mil em dois bancos diferentes e ambos forem liquidados, o FGC poderá garantir o pagamento desses valores em cada um dos bancos. Em 2017, no entanto, o CMN aprovou um teto de R$ 1 milhão de garantia do FGC a cada período de quatro anos. Assim, se você possuir R$ 250 mil em vários bancos, totalizando mais de R$ 1 milhão, e, no período de quatro anos, todos eles quebrarem, somente o valor de R$ 1 milhão estará garantido. 1. 2. 3. Garantia especial Fornecida pelo FGC, a garantia especial cobre até R$ 20 milhões para os depósitos a prazo, por meio de Certificados de Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs). A contribuição ordinária, neste caso, é de 0,03% a.m. do montante dos saldos das DPGEs. Verificando o aprendizado Questão 1 Os principais operadores do mercado de crédito são as instituições financeiras. Assinale a afirmativa correta sobre as instituições financeiras que operam no mercado de crédito. A Os bancos de desenvolvimento são aqueles que recebem depósitos à vista. B A Caixa Econômica Federal não exerce funções operacionais na implantação de políticas de governo. C As sociedades de crédito são instituições financeiras monetárias. D As instituições financeiras monetárias são as que geram moeda escritural. E Os bancos de desenvolvimento são instituições financeiras monetárias. A alternativa D está correta. As instituições financeiras monetárias se diferenciam das não monetárias porque podem reter depósitos à vista. Consecutivamente, elas geram moeda escritural. Questão 2 Para prover crédito, os bancos precisam captar recursos dos agentes poupadores. Assinale a afirmativa correta sobre os instrumentos de captação das instituições financeiras que operam no mercado de crédito. A As letras de crédito do agronegócio são isentas de IR e IOF. B Os depósitos à vista são remunerados. C Os RDBs podem ser negociados antes de seu vencimento. D As LCI devem estar lastreadas por créditos agrícolas. E As letras financeiras têm prazo mínimo de um ano. A alternativa A está correta. As letras de crédito do agronegócio recebem incentivo do governo, e seus proprietários não pagam imposto de renda (IR) nem imposto sobre operações financeiras (IOF). 3. Análise comparativa de produtos de crédito Produtos bancários Acompanhe no vídeo as diferentes modalidades de crédito e o funcionamento dos principais produtos desenvolvidos para pessoa física e pessoa jurídica. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vamos apresentar agora os principais produtos oferecidos pelas instituições financeiras que operam no mercado de crédito tanto para pessoas físicas quanto para as jurídicas. Em seguida, estudaremos algumas ferramentas disponíveis para as instituições financeiras avaliarem os riscos a que estão sujeitas no momento da concessão do crédito. Produtos de empréstimo bancário Os produtos que vimos até aqui tinham o objetivo de captar recursos dos agentes superavitários para as instituições financeiras. Veremos agora o outro lado da moeda: os produtos que permitem às instituições financeiras emprestar recursos aos agentes deficitários. Como sabemos, o mercado de crédito pode ser classificado em crédito direcionado e crédito livre. No que diz respeito ao direcionado, seus produtos destinam-se tanto a pessoas físicas como a jurídicas. Descreveremos a seguir seus dois produtos principais. Crédito rural Esse tipo decrédito é destinado ao financiamento da atividade agropecuária tanto de famílias quanto de empresas. Suas fontes de recursos são diversas, sendo oriundas do crédito direcionado, como o de depósitos à vista e poupança rural, e do crédito livre, como as letras de crédito do agronegócio. Observe! O crédito rural. O crédito rural possui quatro finalidades: Custeio Investimento Comercialização Industrialização Crédito imobiliário Tem como objetivo financiar a compra, construção ou reforma de imóveis, tanto residenciais quanto comerciais. Diferente do financiamento, que se destina à compra de bens, o crédito imobiliário pode ser utilizado para outras finalidades. Em 2019, o saldo de crédito imobiliário no Brasil foi de R$ 634 bilhões, conforme dados do Banco Central. A gama de produtos disponíveis no mercado de crédito livre é mais variada. Elencaremos a seguir os principais. Produtos destinados às pessoas físicas Crédito consignado Regido pela Lei nº 10.820/03, o crédito consignado é uma linha de crédito destinada a pessoas físicas assalariadas cuja cobrança é realizada diretamente no contracheque do tomador. Nessa modalidade, as taxas cobradas tendem a ser mais baixas devido ao baixo risco de inadimplência. A duração máxima desse tipo de operação é de 72 meses, sendo impostos limites ao valor disponível para contratação (a chamada margem consignável). A parcela do empréstimo não pode ultrapassar 30% para empréstimos, havendo mais 5% para o cartão de crédito consignado. Atenção Aposentados e pensionistas do INSS, militares, servidores públicos e empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) têm acesso ao crédito consignado. O empregador, neste caso, age como um fiador da operação, respondendo como devedor principal se, por sua falha ou culpa, deixar de repassar os recursos para a instituição provedora do crédito. Cartão de crédito Há dois tipos de cartão de crédito: o básico e o diferenciado. Segundo o BCB, o cartão de crédito básico é aquele utilizado apenas para pagamentos de bens e serviços em estabelecimentos credenciados. Já o diferenciado, além de permitir o pagamento de ambos, oferece benefícios adicionais, incluindo programas de milhagem, seguro de viagem, desconto na compra de bens e serviços e atendimento personalizado no exterior. • • • • Atenção Toda instituição emissora de cartão de crédito é obrigada a ofertar o cartão básico, cuja anuidade deve ser inferior à do cartão diferenciado. Os valores utilizados no cartão de crédito podem ser pagos integralmente até a data de vencimento da fatura, parcelados no crédito rotativo ou parcialmente efetuados. No crédito rotativo, existe a cobrança de encargos financeiros, juros e IOF na fatura seguinte, o que não ocorre no caso de um pagamento integral. Caso não haja pagamento ou seja feito um parcial, restam três opções: Parcelamento da fatura com a contratação de uma operação de crédito. Adesão ao crédito rotativo com o pagamento do valor mínimo da fatura e incidência dos encargos financeiros. Pagamento inferior ao mínimo sem parcelamento, caracterizando-se o inadimplemento e suas consequências, como juros do crédito rotativo, multa de 2% sobre o principal e juros de mora de 1% ao mês. Crédito direto ao consumidor É uma modalidade de crédito destinada a financiar a aquisição de bens e serviços pelos consumidores. O bem a ser adquirido normalmente é dado à instituição financeira como garantia de pagamento do empréstimo. Pode ser utilizado, por exemplo, no financiamento da aquisição de veículos. Cheque especial Trata-se de uma linha de crédito pré-aprovada pela instituição financeira, que cobre eventuais saldos negativos na conta corrente. Recentemente, as regras do cheque especial foram alteradas pelo BCB, que limitou os juros que podem ser cobrados nessa modalidade de crédito. A mudança ocorreu com a edição da Resolução CMN nº 4.765/19, que limitou a taxa de juros do cheque especial em 8% a.m., facultando às instituições financeiras a cobrança de tarifa de até 0,25% pela disponibilização de limites de crédito superiores a R$ 500. Com isso, clientes que possuam um limite de cheque especial até R$ 500 não pagam tarifa, a qual, por sua vez, recai somente sobre limites superiores a esse valor. Desse modo, um indivíduo com um limite de cheque especial de R$ 1.500 poderá pagar tarifas até o limite de: 1. 2. 3. Produtos destinados às pessoas jurídicas Vejamos alguns dos produtos: 1 Financiamento de capital de giro São operações de crédito que buscam atender às necessidades de capital de giro das empresas, ou seja, servem para cobrir suas despesas diárias, como folha de pagamento, faturas e aluguel. Normalmente, são exigidas garantias de créditos a receber da empresa, como duplicatas. 2 Desconto de títulos Operação em que o tomador antecipa o recebimento de créditos futuros, como duplicatas e outros títulos, por meio operação de desconto de títulos. Nessa operação, a instituição financeira compra os títulos do tomador com deságio, ou seja, por um preço inferior a seu valor nominal. 3 Conta garantida Produto muito parecido com o cheque especial, embora seja destinado a empresas. É uma espécie de capital de giro com crédito rotativo e limite máximo preestabelecido. 4 Hot Money São empréstimos normalmente de 1 a 7 dias para atender às necessidades de caixa das empresas. Nas próximas duas imagens (baseadas em dados divulgados pelo BCB), pode-se observar a participação percentual dos diversos produtos de crédito tanto na modalidade livre quanto naquela direcionada em 2019. A primeira imagem mostra que o principal produto de crédito para pessoas físicas na modalidade livre foi o crédito consignado, com 34,9% do mercado. Em seguida, vieram o cartão à vista (18,6%), o financiamento de veículos (18,6%) e o crédito pessoal (12%). Já para pessoas jurídicas, o principal produto foi o financiamento de capital de giro das empresas, com 34,2% do mercado, sendo seguido pelo desconto de títulos (18,6%). A conta garantida representou 3,6% do mercado. Participação dos produtos do mercado de crédito livre. A segunda imagem, por sua vez, mostra que o crédito imobiliário foi o principal produto para pessoas físicas, abocanhando 70,4% do mercado, enquanto o rural responde por 22,7% dele. Participação dos produtos do mercado de crédito direcionado. Análise de crédito Entenda nesse vídeo a importância do Sistema de Informações de Crédito (SCR) para o mercado e a função da classificação do risco de crédito (rating) de firmas e empréstimos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Agora que você conhece os valores disponíveis para o empréstimo, precisamos conhecer as condições disponíveis para o pagamento. Para calcular uma taxa de remuneração correspondente ao risco em que incorre, a instituição financeira faz uma análise da capacidade de pagamento do tomador a quem ela concede empréstimos. Para essa análise, a instituição pode recorrer a bancos de dados privados, incluindo os serviços de proteção ao crédito (SPC), o Serasa e o SCPC/Boa Vista. Eles são conhecidos como bureaus de crédito ou bancos de dados públicos, como é o caso do sistema de informações de crédito (SCR) do Banco Central. Vinculados às câmaras de dirigentes lojistas de cada região, os SPCs contêm o cadastro de clientes inadimplentes com lojistas e comércio em geral. Já o Serasa congrega os registros de inadimplentes com bancos e instituições financeiras. Esses bancos de dados funcionam da seguinte forma: Atraso A inadimplência é configurada devido a um atraso no pagamento de obrigações (geralmente acima de 15 dias). Notificação As empresas credoras, ao identificarem um atraso no pagamento, prontamente notificam essa situação aos bancos de dados de crédito. Antes de inscrever o devedor, os administradores desses bancos devem notificá-lo da iminente inscrição e conceder 10 dias para a regularização de sua situação. Após o fim desse prazo sem queo devedor tenha regularizado sua situação, seja pagando ou renegociando sua dívida, é feita a negativação na base de dados. Tratando de bancos de dados e cadastros de consumidores, os arts. 43 e 44 da Lei de Proteção ao Consumidor (Lei nº 8.078/90) consideram esses bancos entidades de caráter público e estabelecem um prazo máximo de cinco anos para a manutenção de informações negativas dos consumidores. As consequências para quem tem o nome negativado são a dificuldade de obter novos créditos, já que as empresas consultam essas bases antes de concedê-los para verificar se o tomador está inadimplente em outra operação. Até recentemente, esses bancos de dados eram apenas de cadastro negativo, ou seja, registravam apenas as inadimplências. Em 2011, no entanto, a Lei nº 12.414 instituiu o cadastro positivo e o histórico de crédito (score de crédito). Por meio desse cadastro, todas as operações de crédito ficam registradas, permitindo que os bons pagadores usufruam taxas de empréstimo menores por representarem um menor risco de crédito paras as instituições financeiras. O objetivo da lei era resolver a questão da seleção adversa. Quando as instituições financeiras não dispõem de informações suficientes para discriminar os bons dos maus pagadores na hora da concessão de crédito, elas acabam praticando uma taxa média, que é igual para todos. Essa taxa penaliza os bons pagadores, que poderiam obter taxas mais baixas se seus perfis de risco fossem conhecidos pela instituição financeira. Ao mesmo tempo, ela favorece os maus pagadores, que conseguem obter taxas melhores que seu perfil de risco permitiria. Esse fenômeno é chamado de seleção adversa. No entanto, como a Lei nº 12.414/11 previa uma adesão voluntária ao cadastro positivo, essa adesão foi muito pequena, pois as pessoas precisavam solicitar sua inclusão no cadastro. A Lei Complementar nº 166/19 resolveu essa questão instituindo a adesão automática ao cadastro positivo. Atualmente, todos os cidadãos já possuem o cadastro, enquanto seu histórico de pagamentos é repassado aos bancos de dados sem a necessidade de consentimento do tomador. Essas informações vão gerar o score de crédito de cada indivíduo. Comentário Caso uma pessoa não queira que seus dados sejam incluídos no cadastro positivo, ela deverá se dirigir aos bureaus de crédito e solicitar sua exclusão. Sistema de Informações de Crédito (SCR) O Banco Central administra o Sistema de Informações de Crédito (SCR) criado em substituição ao antigo Central de Risco de Crédito (CRC). Esse sistema é um banco de dados e informações das operações de crédito concedidas pelas instituições financeiras às operações físicas e jurídicas. Todo mês as instituições encaminham ao SCR as informações de todas as operações de crédito vencidas e a vencer, assim como os valores referentes às finanças e aos avais prestados pelos bancos a seus clientes. O SCR não avalia a capacidade de pagamento dos tomadores de recursos, porque isso é tarefa de cada instituição financeira. O Sistema de Informações de Crédito apenas armazena as informações sobre as dívidas (saldo devedor) dos clientes e sua posição de adimplência e inadimplência. Além disso, o SCR é considerado o maior cadastro brasileiro, contendo dados e informações sobre o comportamento dos clientes quanto aos créditos contraídos no sistema financeiro. O SCR é um banco de dados bastante importante para as instituições financeiras tomarem suas decisões de crédito, contribuindo para a gestão de risco e redução da inadimplência. Para o Banco Central, esse sistema contribui para a supervisão bancária, melhorando a avaliação dos riscos sistêmicos e atuando na prevenção de crises. As informações armazenadas no Sistema de Informações de Crédito podem ser consultadas pelos seguintes agentes: Instituições financeiras participantes do sistema. Nesse caso, elas devem ter uma autorização expressa dos clientes para acessarem seus dados. Clientes tomadores de crédito (pessoas físicas e jurídicas). Banco Central. Ao acessar as informações de crédito do SCR, o Banco Central avalia com mais precisão as instituições financeiras que apresentam problemas com os créditos concedidos e que exigem acompanhamento especial. Rating de crédito dos bancos Rating ou classificação reflete a qualidade do crédito, sendo elaborado e divulgado por agências de classificação de risco. O rating de crédito revela a expectativa de determinado tomador de crédito se tornar inadimplente, ou seja, incapaz de pegar o passivo no prazo e nas condições contratadas. A classificação do risco de crédito (rating) atribui uma nota que deve expressar o risco de inadimplência, ou seja, a possibilidade de os tomadores de recursos não honrarem seus compromissos financeiros. • • • Comentário Uma importante contribuição do rating para as instituições que oferecem crédito é tornar a análise de risco mais objetiva, estabelecendo padrões mínimos exigidos dos tomadores de empréstimos. Além disso, o sistema de rating é fundamental para que os bancos promovam um controle e gestão de risco de crédito mais eficazes. O rating pode também ser estendido para países, refletindo o risco dos investidores em suas aplicações. Algumas agências de classificação de riscos do mercado são: Moody's Fitch Rating Standard & Poor's (S&P) Embora o entendimento de insolvência seja geralmente traduzido por falência ou situação de recuperação judicial ou extrajudicial, a inadimplência pode ter diferentes definições. Para alguns modelos de risco, ela ocorre quando o tomador de recursos não paga o crédito contratado no momento de seu vencimento. Para outros, a empresa é considerada como inadimplente quando atrasar o pagamento da dívida por determinado período (10 dias, 30 dias etc.). A inadimplência pode levar a empresa a uma situação de insolvência. Além disso, vários eventos podem exprimir a inadimplência, como emissão de cheques sem fundos, protestos de títulos de dívidas e ações judiciais de cobrança, entre outros. O Banco Central tornou obrigatória para as instituições financeiras a classificação das operações de crédito concedidas de acordo com seu risco, utilizando uma escala de rating proposta pela própria autoridade pública. Essa escala, dividida em classes de risco e dispostas em ordem crescente, apresenta definida, em cada classe assinalada, uma expectativa de perda na operação (risco) expressa em percentual para provisionamento. A tabela a seguir ilustra as classes de risco sugeridas pelo Banco Central. Classes de risco Percentual de provisionamento Dias de atraso AA 0% - A 0,5% - B 1,0% 15 a 20 dias C 3,0% 31 a 60 dias D 10,0% 61 a 90 dias E 30,0% 91 a 120 dias F 50,0% 121 a 150 dias • • • Classes de risco Percentual de provisionamento Dias de atraso G 70,0% 151 a 180 dias H 100,0% acima de 180 dias Tabela: Riscos do Banco Central. Banco Central do Brasil. A definição do percentual de provisionamento definido pelo Banco Central deve ser feita segundo o modelo de risco desenvolvido por cada banco. Esses modelos de risco são geralmente probabilísticos, medindo as chances de cada evento ocorrer. As probabilidades calculadas são representadas em diferentes classes de risco, originando daí o rating de crédito. Periodicamente, por ocasião de lançamento das demonstrações contábeis publicadas pelas instituições financeiras, a atualização dos níveis de classificação de risco deve ser realizada, obedecidos os prazos constantes da terceira coluna (dias de atraso) da tabela de Riscos do Banco Central. Verificando o aprendizado Questão 1 João foi ao banco pedir um crédito consignado, mas sua solicitação foi negada devida a sua ocupação. Qual dos profissionais listados a seguir pode corresponder a situação de João? A Aposentado do INSS B Militar das forças armadas C Servidor público D Empregados pela CLT E Microempreendedor individual A alternativa E está correta. Os microempreendedores não são profissionais assalariados.Dessa forma, eles não são elegíveis para o crédito consignado. Questão 2 Por que a seleção adversa é ruim para o crédito? A Porque faz com que os bancos pratiquem taxas menores que as necessárias para manter sua solvência. B Porque aumenta o risco de crédito. C Porque prejudica os bons pagadores em detrimento dos maus. D Porque é um instrumento discriminatório. E Porque aumenta o lucro dos bancos. A alternativa C está correta. A seleção adversa constitui um incentivo ao mau pagador, pois ele consegue taxas menores que aquelas que seriam obtidas caso o banco tivesse acesso a seu perfil de crédito. Para os bons pagadores, as taxas ficam maiores, já que o banco não consegue identificá-lo como um risco baixo de crédito. 4. Conclusão Considerações finais Neste conteúdo, abordamos o mercado de crédito, destacando sua importância para a economia, os diferentes atores envolvidos e os instrumentos de captação, além dos produtos de crédito oferecidos pelas instituições financeiras. Vimos como a intermediação financeira consegue tornar eficiente o encontro entre os agentes poupadores e os tomadores de recursos. Além disso, verificamos como as instituições financeiras obtêm sua remuneração no mercado de crédito por meio do spread bancário. Também destacamos os instrumentos que os bancos utilizam para captar recursos, explicando ainda como o FGC protege os depositantes. Por fim, exploramos os diversos produtos de crédito ofertados pelos bancos e mostramos como os bureaus de crédito ajudam as instituições financeiras na análise dos riscos incorridos na concessão do crédito. Explore + Pesquise mais sobre o mercado de crédito no site do BCB. Lá, você poderá encontrar números do setor e análises especializadas. Conheça o conteúdo das páginas da Febraban e do FGC. Eles também são boas fontes para aprimorar seus conhecimentos sobre esse tópico. Referências ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 9 ed. São Paulo: Atlas, 2009. BRASIL. Resolução CMN nº 394. Publicado em: 3 nov. 1976. BRASIL. Resolução CMN nº 4.222. Publicado em: 23 maio 2013. COMITÊ CONSULTIVO DE EDUCAÇÃO. Mercado de valores mobiliários brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Comissão de Valores Mobiliários, 2019. FORTUNA, E. Mercado financeiro - Produtos e serviços. 18 ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2011. • • O mercado de crédito 1. Itens iniciais Propósito Preparação Objetivos Introdução 1. Fundamentos da intermediação financeira e do mercado de crédito Intermediação financeira Conteúdo interativo João Pedro Maria José Risco de crédito Se João emprestasse dinheiro diretamente a Pedro, qual seria o risco dele? Mercado de crédito Conteúdo interativo Qual é a maior taxa: a taxa de captação ou a de empréstimo? Crédito direcionado Mas você sabe como surgiu o crédito direcionado? Crédito livre Exemplo A importância do mercado de crédito Verificando o aprendizado 2. Atores e captação no mercado de crédito Regulação e instituições Conteúdo interativo Regulação e supervisão do mercado de crédito Conteúdo interativo Resumindo Atenção Instituições financeiras Bancos de desenvolvimento Caixa Econômica Federal Banco do Brasil Instituições financeiras monetárias Instituições financeiras não monetárias Você sabe o que é shadow banking? Instrumentos de captação bancária Conteúdo interativo Depósitos à vista Depósitos a prazo Depósitos de poupança Letras financeiras Letras de crédito do agronegócio (LCA) Letras de crédito imobiliário (LCI) Fundo Garantidor de Crédito (FGC) Garantia ordinária Comentário Garantia especial Verificando o aprendizado 3. Análise comparativa de produtos de crédito Produtos bancários Conteúdo interativo Produtos de empréstimo bancário Crédito rural Crédito imobiliário Produtos destinados às pessoas físicas Crédito consignado Atenção Cartão de crédito Atenção Crédito direto ao consumidor Cheque especial Produtos destinados às pessoas jurídicas Financiamento de capital de giro Desconto de títulos Conta garantida Hot Money Análise de crédito Conteúdo interativo Comentário Sistema de Informações de Crédito (SCR) Rating de crédito dos bancos Comentário Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Explore + Referências