Prévia do material em texto
Bárbara Gonçalves – Turma XXIV GT 6 – Lentidão Referência: Capítulo 425 – Doença de Alzheimer e outras demências (Livro: Cecil) Capítulo 16 – Perda de Memória (Neurologia para o Clínico - material disponível no NED) Demência - É caracterizada por alterações progressivas de memória e de pelo menos uma outra área da cognição, interferindo no funcionamento diário e implicando em um declínio na capacidade de exercer atividades que eram anteriormente realizadas. Obs: pessoas com limitações intelectuais desde a infância ou déficits estáveis secundários a eventos bem determinados, como acidente vascular cerebral ou trauma de crânio, não podem ser consideradas dementes. EPIDEMIOLOGIA - A prevalência e incidência de demência aumentam com o avançar da idade. - Demência antes dos 50 anos de idade é muito incomum. - Muito mais mulheres do que homens têm demência, porque as mulheres vivem mais tempo. Entretanto, o risco de desenvolvimento de demência, ajustado para a idade, é igual em ambos os sexos. QUADRO CLÍNICO • Qualquer um dos principais domínios da cognição pode ser afetado na demência: ✓ Memória episódica declarativa: capacidade de aprender e reter informações novas ✓ Funcionamento cognitivo executivo: capacidade de fazer de tarefas complexas e capacidade de raciocínio ✓ Função visuoespacial: orientação no tempo e no espaço ✓ Linguagem. • Sintomas neuropsiquiátricos, como depressão, ansiedade, paronoia e alucinações podem estar presentes na demência. • Em todas as formas de demência, observa-se uma perda da percepção quanto à extensão das suas próprias perdas cognitivas • Alterações do comportamento: agitação, inquietude. • Alguns tipos de demência estão associados a perdas na força e anormalidades da coordenação, marcha ou equilíbrio. Entretanto, na Doença de Alzheimer, isso não é observado. CLASSIFICAÇÃO • Primárias: doença de Alzheimer (mais frequente), demência dos corpos de Levy (3ª mais frequente) e demência frontotemporal (4ª mais frequente) • Secundárias: demência vascular (2ª mais frequente), demência pelo abuso de substâncias DIAGNÓSTICO - É eminentemente clínico. Feito a partir da análise da história clínica e do exame do estado mental. - Utiliza-se como ferramenta para diagnóstico os testes de avaliação cognitiva: • Mini Exame do Estado Mental: avalia orientação temporal e espacial, memória recente e linguagem. - Obs: O teste tem um máximo de 30 pontos. Para analfabetos, a pontuação mínima aceitável é 20; 25 para 1 a 4 anos de estudo, 26 para 5 a 8 anos, 28 para 9 a 11 anos e 29 pontos para 12 anos ou mais de escolaridade. • Teste do relógio: avalia linguagem (compreensão do comando), memória semântica, capacidade de planejamento e execução, praxia (capacidade de realizar atividades motoras), função visuoespacial. • Teste de fluência verbal (pede-se ao paciente que diga todos os animais que conseguir lembrar em 1min): avalia linguagem, memória semântica e função executiva. • Lista de palavras do CERAD: avalia o funcionamento da memória de evocação. Bárbara Gonçalves – Turma XXIV Obs: Os testes de avaliação cognitiva têm limitações. O desempenho pode ser ruim em pessoas com baixa escolaridade, sem que isso indique alteração cognitiva ou, ao contrário, o desempenho pode estar dentro do esperado em pessoas com alto de nível de escolaridade e déficit cognitivo. - Exames complementares são importantes para determinar a causa da demência: • Neuroimagem: TC ou, preferencialmente, ressonância magnética. • Hemograma, VHS, ureia, creatinina, eletrólitos (sódio, potássio, cálcio e magnésio), TGO, TGP, fosfatase alcalina. • Glicemia de jejum, triglicerídeos, colesterol total e frações. • TSH e T4 livre • Vitamina B12 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL - Os diagnósticos diferenciais mais prováveis para um idoso com queixa de dificuldade de memória são: depressão, efeito colateral de medicação e comprometimento cognitivo leve. • Depressão: nos idosos, pode não se apresentar com os sintomas habituais de tristeza, mas, sim, com sintomas vagos, fadiga, isolamento social, abandono de atividades prazerosas e dificuldade de memória. - A dificuldade de memória tem algumas particularidades: pode acometer tanto fatos antigos como recentes e ser imediata desde o início (isto é, o intervalo entre o evento e seu esquecimento ser muito curto, indicando tratar-se de uma dificuldade de atenção e não de memória). - O tratamento com antidepressivos deve melhorar os sintomas, inclusive a dificuldade de memória. • Comprometimento cognitivo leve: caracteriza-se por uma queixa de dificuldade de memória e uma avaliação cognitiva demonstrando déficit exclusivo de memória, mas sem comprometimento das atividades diárias. Este é um grupo de pacientes que tem um risco de demenciação 10 a 12 vezes maior que a população geral. Doença de Alzheimer EPIDEMIOLOGIA - Causa mais comum de demência, respondendo por 50 a 70% dos casos ETIOLOGIA - A imensa maioria dos casos de Alzheimer é devida a causas não genéticas (forma esporádica). Nessa forma, a doença se inicia tardiamente, a partir dos 65 anos. - Um pequeno número de casos, entretanto, é causado por doença dominante autossômica. Os três genes conhecidos associados a doença de Alzheimer dominante autossômica interferem na produção do peptídeo β amiloide (Gene precursor da proteína β-amiloide, Gene da pré-silina 1 e 2, Gene que codifica a apolipoproteina E). Os casos familiares estão relacionados à um início precoce da Doença. FATORES DE RISCO • Idade avançada • História Familiar • Diabetes • Hipertensão • Traumatismo craniano • Doença cardiovascular • Baixa Escolaridade • Traumatismo crânio-encefálico • Síndrome de Down (no cromossomo 21, localiza-se o gene precursor da proteína β-amilóide, que, por mutações, pode levar a produção excessiva da proteína. Na síndrome de down (trissomia do 21), há uma cópia extra do gene → aparecimento invariável da patologia) Bárbara Gonçalves – Turma XXIV • Fatores de risco cardiovascular: HAS, hipercolesterolemia, diabetes mellitus, tabagismo, sedentarismo, aterosclerose. FISIOPATOLOGIA - O diagnóstico histopatológico da Doença de Alzheimer é baseado na presença de: • Placas senis - No cérebro, a proteína precursora da beta-amiloide pode ser metabolizada por duas vias, pelas enzimas alfa e beta-secretase. - Em condições habituais, a maior parte do processo se dá pela via alfa, em que essa proteína é corretamente degradada. - Na Doença de Alzheimer, por razões desconhecidas, o metabolismo se dá, preferencialmente, pela via beta, levando à formação de um peptídeo (peptídeo β-amiloide), que não é metabolizado e que se acumula no interstício neuronal. - Esse peptídeo leva à disfunção sináptica com déficit na neurotransmissão colinérgica, serotoninérgica, dopaminérgica e nora-adrenérgica. - Além disso, o peptídeo tem tendência a agregação, portanto, a medida que é formado, vai se juntando aos restos celulares dos neurônios degradados, formando estruturas chamadas de placas senis. - A placas senis são extremamente neurotóxicas. Elas ativam a cascata inflamatória, causando apoptose e morte neuronal. • Emaranhados neurofibrilares - A proteína tau participa da manutenção do citoesqueleto neuronal. Em condições fisiológicas, essa proteína garante o funcionamento adequado do sistema de microtúbulos intraneuronal, que é responsável pelo transporte de substâncias do corpo celular para as terminações pré-sinaptícas. - Na doença de Alzheimer, a proteína tau torna-se hiperfosforilada e, com isso, perde sua função. Como consequência, filamentos anormais da proteína tau se acumulam juntamente com microtúbulos distrofiados, gerando o emaranhado neurofibrilar. Com isso, ocorre ruptura do citoesqueleto, seguida de morte neuronal. QUADRO CLÍNICO - Na Doença de Alzheimer – demência mais comum – a amnésia anterógrada é a primeira que se manifestae de forma mais intensa. LEVE • A apresentação típica é de progressivos lapsos de memória para fatos recentes. • As atividades prejudicadas primeiro são as que exigem as duas coisas, memória e planejamento, como o controle das finanças, manter a casa abastecida ou planejar-se para uma viagem • Nessa fase, são frequentes as alterações do comportamento, como apatia ou depressão. MODERADA • Com o avançar da doença, passa a haver necessidade de supervisão para atividades básicas, como banho e troca de roupa. GRAVE • A dependência se torna total para qualquer tipo de atividade. • Pode haver incontinência urinária e fecal, incapacidade de reconhecer familiares, dificuldade de locomoção. DIAGNÓSTICO - É clínico, isto é, não existe um exame que faça o diagnóstico com certeza, exceto o exame histopatológico do tecido cerebral. - O exame neurológico deve ser normal, pelo menos na fase inicial da doença. Caso haja alterações, deve-se pensar em condição associada ou que a causa da demência é outra. - Utiliza-se como ferramenta para diagnóstico os testes de avaliação cognitiva. Bárbara Gonçalves – Turma XXIV - A neuroimagem, preferencialmente ressonância magnética em cortes coronais, mostra atrofia temporoparietal, mais marcada para os hipocampos e córtex para-hipocampal TRATAMENTO O tratamento da DA envolve três aspectos: tratamento medicamentoso específico, tratamento das alterações do comportamento e tratamento não medicamentoso. O tratamento das alterações do comportamento segue as linhas gerais do tratamento dos distúrbios psiquiátricos - O tratamento medicamentoso, específico para as fases leve e moderada, é feito com inibidores das colinesterases: donepezila, galantamina e rivastigmina. Esses medicamentos retardam a progressão da doença. Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos, inapetência, desconforto epigástrico e tonturas. - Nas fases moderada e grave há indicação para o uso de inibidores de recaptação do glutamato (memantina). Demência vascular - Epidemiologia: representa a segunda causa mais frequente de demência no Brasil. - Etiologia: pode ser causada por isquemia ou, mais raramente, hemorragia cerebral. - Fisiopatologia: A demência vascular por isquemia tem três padrões básicos: • Demência por múltiplos infartos: secundária a recorrência de AVCs • Infarto em área estratégica: lesão vascular única em região específica • Doença de pequenos vasos: secundária à infartos lacunares - Manifestações clínicas: • Como as lesões vasculares podem ocorrer em diferentes regiões, as alterações cognitivas também serão variáveis, mas, de modo geral, a substância branca dos lobos frontais é afetada, levando a um quadro característico de bradipsiquismo e alteração da função executiva, acompanhado por alteração do comportamento, com apatia e desinibição. • A progressão em degraus também é muito sugestiva da doença. • Demência tem início agudo ou subagudo • Alterações focais podem ser encontradas ao exame neurológico - Diagnóstico: é reforçado pela demonstração de alterações vasculares à neuroimagem. - Tratamento: não há medicação aprovada para o uso em demência vascular, mas para as formas progressivas há demonstração de déficit colinérgico, e o uso de inibidores das colinesterases pode ser útil. Demência com corpos de Lewy - Epidemiologia: segunda causa mais comum de demência por degeneração primária do sistema nervoso central. - Manifestações clínicas: • Alucinações visuais precoces, que podem até mesmo preceder as alterações cognitivas. • Parkinsonismo atípico, simétrico e precoce, caracterizado por bradicinesia e rigidez, mas com pouco ou nenhum tremor e pouca ou nenhuma resposta a levodopa. • Flutuação marcada, tanto para as alterações cognitivas, como para as alterações do comportamento e para a dependência em atividades do dia a dia, com duração de alguns minutos a várias horas. • Além dessas, outras alterações podem sugerir DCL, no contexto da demência: síncopes, quedas sem explicação, sensibilidade exagerada a neurolépticos e alucinações auditivas Bárbara Gonçalves – Turma XXIV - Exames complementares: neuroimagem mostra relativa preservação das regiões hipocampais, quando comparada com a Doença de Alzheimer, e uma atrofia mais posterior, nas regiões parieto-occipitais. - Tratamento: Não há medicação aprovada, mas, nesta condição, o déficit colinérgico é acentuado, de modo que o uso de inibidores das colinesterases pode ter algum efeito. Demência frontotemporal - Este é, na verdade, um grupo de doenças com diferentes manifestações clínicas e anatomopatológicas. - Manifestações clínicas: considerando que a doença afeta os lobos frontais e temporais, as manifestações clínicas terão, principalmente, relação com o comportamento e com a linguagem: • Quando esta forma de demência se inicia pelos lobos temporais, as primeiras manifestações são as alterações da linguagem: afasia progressiva primária e demência semântica. • Na variante frontal, a fase inicial é caracterizada por progressiva alteração do comportamento (desinibição, impulsividade, apatia, hiperoralidade, hipersexualidade). O comprometimento da memória só ocorrerá tardiamente. - Exames complementares: os exames de neuroimagem podem demonstrar atrofia frontal e temporal, em grau desproporcional quando comparada ao restante do encéfalo. - Tratamento: não existe tratamento aprovado. O uso de inibidores da receptação da serotonina pode melhorar a desinibição, a compulsão alimentar e as estereotipias associadas à doença.