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Simbologia dos alimentos Você vai entender os aspectos simbólicos da alimentação e do significado dos alimentos nas diversas culturas, um conhecimento essencial para profissionais em nutrição em diferentes áreas de atuação. Profa. Laura Eugenia Perez Freitas 1. Itens iniciais Objetivos Reconhecer a importância do conhecimento sobre o simbolismo da alimentação. Reconhecer a importância da identidade cultural na alimentação. Descrever a influência dos significados simbólicos na alimentação. Introdução A identificação dos aspectos simbólicos, reais e imaginários da alimentação, assim como as crenças, nossos valores e conceitos sobre alimentação se constroem desde a juventude e fazem parte da nossa vida. Por esse motivo, para mudar comportamentos, o profissional da área da nutrição não pode ignorar os múltiplos significados que os indivíduos atribuem aos alimentos e às suas práticas alimentares. O corpo-máquina construído pelo modelo mecanicista da ciência biomédica será pensado no âmbito do real da alimentação. O imaginário da alimentação será explorado mediante as angústias dos comedores contemporâneos em relação à comida. Vamos estudar a construção da identidade cultural a partir da alimentação, assim como a comensalidade e seus múltiplos significados socioculturais. Aprofundaremos nos sentidos das práticas de alimentação em diferentes momentos e na importância das comidas afetivas e das memórias gustativas. Veremos ainda, a construção do gosto e como questões de gênero estão associadas à alimentação, assim como as relações existentes entre comida e sexo, esses dois polos da sensibilidade e do prazer humano. • • • 1. Simbólico da alimentação Aspectos reais, simbólicos e imaginários da alimentação Por que estudar história e antropologia da alimentação Você, como estudante de nutrição, deve estar se perguntando que disciplina é essa e por que ela é importante para sua formação. Então, antes de mais nada, vamos refletir sobre isso? Para entendermos primeiramente o que é a antropologia da alimentação, começaremos falando sobre antropologia: o que vem a ser esse conceito? A antropologia é uma ciência social que surgiu no século XIX e que é fruto do neocolonialismo. O neocolonialismo, isto é, o novo colonialismo, está diretamente relacionado à Revolução Industrial e foi a expansão imperialista das potências europeias no século XIX em direção à África e à Ásia. Diante da crise de superprodução na Europa em função da descoberta da utilização da eletricidade e do petróleo, esses países saíram em busca de novos mercados, matérias-primas e mão de obra. Segundo Laplantine (2000), os colonos e viajantes começaram assim a acumular informações sobre os povos considerados exóticos desses países e assim se organiza a disciplina que se propõe a estudar esses povos, a antropologia. A antropologia significa literalmente o estudo do homem (a palavra vem do grego anthropos, que significa homem, e logos, que significa razão, pensamento). A antropologia surgiu com o intuito de compreender esse homem exótico de forma global, ou seja, sua arte, economia, religião, seu pensamento, parentesco, sua alimentação, cultura material etc. A antropologia cultural pode ser definida como a ciência que está interessada nos aspectos culturais dos grupos e sociedades e em suas consequências no comportamento individual e coletivo. Sendo assim, ela reflete sobre o ser humano, principalmente, a partir do conceito de cultura. Índios Pataxó, Porto Seguro, Brasil. Já a antropologia da alimentação, o que ela estuda? Ela se ocupa justamente das dimensões culturais da alimentação. Para melhor compreender esse ponto, vamos refletir primeiramente sobre a centralidade da alimentação em nossas vidas a partir de algumas questões. Por que comemos? O que comemos? Como comemos e como preparamos os alimentos? Esta última ideia de modalidade inclui também questões como: a que horas comemos? Com quem comemos? Onde comemos? É interessante observarmos que, se o homem em algum momento de sua história precisou lutar para encontrar alimentos, atualmente ele enfrenta a balança: ele luta para não comer. A obesidade já é um problema de saúde pública maior que a desnutrição. Se produzimos tantos alimentos quanto jamais o fizemos, também convivemos, muitas vezes, com o desperdício e o consumo pletórico de alimentos, a fome e a desnutrição. Toda a arte da gastronomia é desenvolvida a partir do prazer e do desejo. Por outro lado, a alimentação está ligada de outras formas à dimensão psicológica dos homens. Muitas vezes comemos, por exemplo, por estarmos ansiosos ou tristes. Reflexão Quem nunca “assaltou” a geladeira exageradamente depois de um mau dia? Essa conexão entre alimentação e a psicologia humana também pode ser percebida nos transtornos do comportamento alimentar, tais como anorexia, bulimia e alimentação compulsiva. Ainda temos outros motivos para comer. Se não vemos algum amigo há muito tempo, o que fazemos? Se queremos comemorar, festejar, o que fazemos? Partilhamos a mesa com outros comensais em refeições que podem ser mais ou menos festivas, a dita comensalidade, ou o ato de comermos juntos. Na antropologia da alimentação, falamos em função social da refeição. Se pensamos no que comemos, alguns podem responder: comida! Mas será que todos consideram aquilo que é potencialmente ingerível como comida? Bife — Hinduísta Um bife suculento é um horror tanto para um hinduísta quanto para um budista, já que, para os hinduístas, a vaca é um animal sagrado e para os budistas não devemos comer nenhum animal. Necessidade física A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos sobre o porquê de nos alimentarmos é que o ato de se nutrir é uma necessidade fisiológica primordial. Não é surpreendente que a metáfora bíblica para a sobrevivência seja “o pão nosso de cada dia”. A alimentação também está diretamente ligada à saúde humana, como nos diz a ciência nutricional. Comer é uma necessidade, mas, diferentemente de respirar, o homem precisa buscar seus alimentos. Prazer No entanto, esse não é o único motivo que nos leva a comer. Podemos refletir também sobre a questão do gosto. Conforme Carneiro (2003), a alimentação está diretamente ligada ao prazer; às associações que encontramos entre a comida e o sexo nas mais variadas culturas, pensando somente no vocabulário, confirmando essa relação entre comida, desejo e prazer. Larvas fritas — orientais e indígenas Um punhado de larvas fritas pode parecer repugnante para alguns, mas é uma iguaria para orientais, muitos indígenas brasileiros, peruanos, mexicanos, entre outros. Os insetos são muito apreciados por alguns, inclusive aqui no Brasil, com as farofas de tronco da formiga-saúva tanajura, também conhecida como içá, mas são considerados nojentos para outros. Steak tartare — Franceses Os americanos nunca se decidiram a comer os fofinhos coelhos, enquanto os franceses adoram esses animais e ainda comem carne de cavalo crua no steak tartare, assim como em alguns lugares da Itália, onde não se dispensa um bom ragout de cavalo. Todos esses exemplos demonstram que aquilo que é considerado comida varia enormemente de acordo com o grupo dos indivíduos. Os indivíduos distinguem-se por aquilo que comem. Nós nos diferenciamos de outros povos nesse quesito; em sociedades divididas em classes como a nossa, as diferenças entre essas classes são criadas e mantidas por meio do que se come, de como se come. A alimentação funciona a favor desse mecanismo de distinção, desse modo de distinguir pessoas de classes sociais diferentes. Resumindo O que comemos depende de muitos fatores. Em relação à última questão, como comemos e como preparamos os alimentos? Comemos todos do mesmo jeito? Evidentemente, não. Comemos certas coisas com garfos, facas ou colheres e outras com as mãos. Comemos sentados em uma mesa com amigos ou familiares em nossa casa, ou em um restaurante, mas também comemos solitários andando pela rua ou de frente para a TV ou para o computador.somente tomavam as decisões no dia seguinte, quando estavam sóbrios (Althoff, 1998). No entanto, existem exceções a essa regra de estreitar relações sociais em torno da comida. Os balineses, descritos por Geertz, associam o ato de se alimentar a algo próximo da animalidade e, para evitar constrangimentos, comem somente sozinhos. Bruxelas, Bélgica. 9 de dezembro de 2019. Ministros das Relações Exteriores no início de uma reunião com café da manhã. Atenção Sentar-se à mesa também pode ser uma forma de demonstrar poder e afirmar hierarquias. Os lugares à mesa demonstram isso. Quanto mais perto se está do anfitrião, maior a importância do convidado. Em muitas casas, cada membro da família tem um lugar específico e imutável, que também afirma a hierarquia dentro da família, com o pai e a mãe sentados nas cabeceiras da mesa. Mesmo se a generosidade e paz são pontos importantes quando comemos juntos, acontece de as festas e os banquetes darem errado por conta de rixas entre seus membros. Elas podem ser frutos de problemas que se pretendia justamente resolver com o banquete ou, como muitos de nós já vimos, brigas e desentendimentos que ocorrem nas comemorações familiares. Quem nunca teve o peru de Natal amargo por uma discussão entre aqueles primos que não se cruzam? O compartilhamento da comida é tão importante que, mesmo em ocasiões nada festivas, é preciso pensar no cardápio que será oferecido. Aqui no Brasil, onde ainda se velam os mortos em casa, café e guloseimas para os presentes são obrigatórios. Nos Estados Unidos, após a cerimônia de sepultamento, a família sempre oferece uma refeição aos que estavam presentes. Atualmente, a comensalidade vem se transformando. Você consegue fazer refeições com a sua família com frequência ou sentar-se à mesa para fazer suas refeições? Quantas vezes comemos na frente do computador ou da TV? Ou no transporte público e mesmo na rua? Nós, brasileiros, valorizamos o momento da refeição em família. Conforme Barbosa (2007), é a hora de pais e filhos conversarem e dos laços familiares se estreitarem. Mas será que conseguimos fazer refeições diariamente em família? Muitas vezes, aos domingos, sim. Outras somente no aniversário de alguém ou no Natal. Há também uma tendência da alimentação contemporânea, que é a individualização. Por conta das rotinas diferentes, do enfraquecimento da instituição familiar e de uma ideologia individualista, os membros de uma família, mesmo estando juntos em casa, comem de forma separada (Barbosa, 2007). Haveria uma individualização do momento da refeição, mas também do seu conteúdo. Na realidade brasileira, mesmo se não se come junto, pois os horários de cada um são diferentes, a comida é a mesma para todos, no geral. Isso porque, como já vimos, no geral, os brasileiros gostam do momento da refeição em família. Já não almoçamos em casa com a família, mas a comensalidade pode ocorrer também de vez em quando em casa, com amigos e familiares, na casa dos outros, em restaurantes, nos churrascos etc. (Lima, 2015). Nosso estilo de vida, sobretudo nas grandes cidades, faz com que estejamos sempre correndo, mas a comensalidade toma novos formatos, mantendo sua função social. As formas de se comportar à mesa também são muito importantes. Mesmo se essas regras sociais não fizerem parte das leis, não as respeitar, ou não as conhecer pode causar muitos problemas. Vamos supor que você vá jantar com uma pessoa em quem esteja interessado. Você percebe rapidamente que essa pessoa não só mastiga com a boca aberta, como também arrota à mesa. Bom, ela pode ser muito interessante e atraente, mas com certeza esse comportamento vai esfriar o seu interesse, ou mesmo acabar com ele. Resulta que, se alguém não sabe se comportar à mesa, certamente será colocado em uma situação de isolamento social. Quando nos sentamos para comer em algum lugar fora de casa, estando ou não acompanhados, involuntariamente observamos o comportamento dos outros durante a refeição e fazemos julgamentos de valor sobre sua educação, seu grau de instrução e seu pertencimento de classe. Vimos que as diferentes classes sociais criam e afirmam suas diferenças por meio do que se come e de como se come. A história das regras de comportamento à mesa está estreitamente ligada à das boas maneiras em sociedade. (Romagnoli, 1998). Se, atualmente, somente comemos com as mãos sanduíches, lanches, frutas e algumas preparações como frango à passarinho, comer com as mãos foi a única forma de comer até pelo menos o século XIV, quando os talheres eram usados em algumas cidades italianas. Somente no século XVIII os talheres se popularizaram na Europa, e aqui no Brasil só quase no século XX. Curiosidade No Brasil, era comum — ainda é em alguns locais — o capitão, um bolinho feito de feijão-de-corda amassado com farinha. Originário do Nordeste, era uma comida fácil de ser carregada em pequenas ou grandes viagens ou levada para a roça. Como foi dito, em muitos lugares do mundo, ainda se come com a mão (Câmara Cascudo, 2004). Os modos à mesa na durante os meados da Idade Média na Europa seriam considerados por nós apavorantes atualmente. Os convivas urinavam na sala de jantar, assoavam o nariz na toalha e não se constrangiam com suas flatulências, como diz O Livro do Homem Civilizado, de Daniel de Beccles, um dos primeiros livros sobre etiqueta que data de aproximadamente o final do século XII. Os pratos, que podiam ser uma fatia de pão, eram compartilhados, assim com os copos. Não existia sequer um local apropriado para a refeição nos castelos. Uma mesa sobre cavaletes era trazida para o local escolhido, o que deu origem ao que falamos atualmente “botar a mesa”. A preocupação com as boas maneiras à mesa iniciaram por volta do século XII, em um caminho que durou vários séculos. As formas de comer, a ordem dos pratos, aquilo que é considerado importante ou trivial para a refeição variam de acordo com as diferentes culturas. No Japão, o que caracteriza a refeição é o arroz, enquanto no sul da Índia é o pão que cumpre esse papel. Até a temperatura pode ser importante na definição de uma refeição. Quantas vezes comemos uma salada, que pode até ser feita de massa, e chegamos ao fim do dia sem a sensação de ter comido de verdade? O processo de consumo e até de preparo dos alimentos obedece a certas regras. Já comentamos sobre como os pratos têm certa ordem durante a refeição segundo os significados que lhes atribuímos. Podemos dizer também que esse processo é altamente ritualizado. O ritual remete a um conjunto de ações que devem ser feitas de maneira específica para que se atinja dado objetivo. O que, quando, onde, por que, a sequência dos pratos servidos, o tempo, o modo de preparo, quem prepara, os acompanhamentos e os comensais. Esses são elementos que constituem a ritualização à mesa e dão os significados a essa prática social. (Stefanitti et al., 2018). Os rituais religiosos, como, por exemplo, uma missa católica ou uma iniciação no candomblé, devem seguir um passo a passo minuciosamente para que o indivíduo saia purificado da missa, ou seja iniciado no candomblé. O mesmo ocorre à mesa. Para que o comensal esteja ao final da refeição bem alimentado e feliz, os gestos, a sequência dos pratos, sua combinação devem ser colocados nos seus devidos lugares. Como falamos sobre a comida como linguagem, a frase e o texto serão incompreensíveis se as letras e palavras não estiverem no lugar certo. Neste vídeo, vamos abordar a comensalidade e os seus aspectos. A comensalidade destaca o comer como ato social, pois alimentar-se junto fortalece laços afetivos e identitários. Entender isso é essencial para lidar com contextos familiares, escolares ou institucionais de alimentação. • • • Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 2 Leia o trecho da música de Gonzaguinha: Dez entre dez brasileiros preferem feijão Esse sabor bem Brasil Verdadeiro fator de união da família Esse sabor de aventura O famoso Pretão Maravilha Faz mais feliza mamãe, o papai O filhinho e a filha. (O preto que satisfaz (Feijão Maravilha), de Gonzaguinha, 1978) Essa estrofe faz alusão a quais conceitos, respectivamente? A Comensalidade e modos à mesa. B Comensalidade e identidade cultural. C Identidade cultural e modos à mesa. D Identidade cultural e comensalidade. E Identidade social e modos à mesa. A alternativa D está correta. Os dois primeiros versos falam sobre a preferência dos brasileiros em relação ao feijão e como ele é "um sabor bem Brasil", o que faz referência à importância do feijão na construção da identidade cultural do brasileiro. Já a terceira estrofe fala sobre a união da família ao comerem juntos o feijão, portanto, refere-se à comensalidade. Caso prático Imagine que você é um estudante de nutrição e está realizando uma pesquisa sobre a construção da identidade alimentar brasileira, com foco na feijoada, um prato tradicionalmente associado à cultura nacional. Durante o processo de pesquisa, você identifica que a feijoada é composta por uma interessante combinação de ingredientes de diferentes origens. O feijão-preto, ingrediente principal, é nativo das Américas, enquanto outros componentes, como a carne suína, a couve, o arroz e a laranja, são de origem europeia e africana. A identidade alimentar não está necessariamente vinculada à origem dos ingredientes de forma isolada, mas sim à maneira como esses ingredientes são incorporados e ressignificados em um determinado contexto cultural. No caso da feijoada, ela é o resultado de um processo de adaptação, apropriação cultural e a criação de algo novo e autenticamente brasileiro, e não simplesmente a soma de produtos de diferentes continentes. Em sua pesquisa, você também observa que a feijoada carrega valores simbólicos, pois ela é muitas vezes associada à festividade e ao espírito comunitário. É um prato que, tradicionalmente, agrega pessoas ao seu redor, reforçando sentimentos de identidade coletiva e pertencimento. Esse processo é um exemplo concreto de como a culinária se torna uma expressão cultural complexa, em que práticas alimentares revelam processos históricos de colonização, escravidão e mestiçagem que marcaram a formação do Brasil. A análise da feijoada evidencia que o conceito de "autenticidade" cultural vai além da pureza dos ingredientes. Ele se constrói a partir de histórias compartilhadas, práticas sociais e ressignificações constantes. Assim, o prato é uma representação legítima da diversidade e da riqueza cultural brasileira, servindo como um excelente exemplo para entender o conceito de alteridade e a formação de identidades alimentares. Questão 1 Com base no caso apresentado, de acordo com o conceito de alteridade, como a feijoada pode ser vista como parte da identidade cultural brasileira, apesar de incluir ingredientes que não são nativos do Brasil? A A feijoada não pode ser considerada parte da identidade brasileira, pois seus ingredientes são majoritariamente estrangeiros. BA feijoada é uma construção cultural que reflete a adaptação e a mistura de diferentes influências ao longo do tempo, o que a torna uma representação legítima da identidade alimentar brasileira. C A feijoada tem sua associação com o Brasil equivocada, pois hoje a globalização apagou os traços culturais dos países, sendo uma comida global. D A feijoada é uma receita de origem portuguesa que, por ter sido adaptada ao gosto brasileiro, perde sua identidade cultural. E A feijoada é um prato tradicional da cozinha africana, e sua associação com o Brasil é um erro histórico. A alternativa B está correta. De acordo com o conceito de alteridade, a feijoada pode ser entendida como um exemplo de construção identitária por meio da mistura de culturas. Embora a feijoada inclua ingredientes que não são nativos do Brasil, como o feijão preto (de origem americana), cortes suínos (tradição europeia/portuguesa) e técnicas de preparo ligadas à população escravizada de origem africana, ela foi ressignificada no contexto brasileiro. Questão 2 Como a feijoada e outros pratos tradicionais ajudam a distinguir a cultura brasileira de outras culturas, de acordo com a percepção de "outros" (alteridade)? A A feijoada é um exemplo de como um prato tradicional brasileiro pode ser visto como um reflexo da alteridade, marcando uma diferença cultural em relação a outras identidades alimentares, como as de países africanos ou europeus. B A feijoada, assim como outros pratos típicos, ajuda a reforçar a identidade brasileira ao ser vista como algo exclusivo, distante de outras culturas, como a de países europeus ou asiáticos. C A feijoada não tem relação com a construção da identidade brasileira, já que é um prato que poderia facilmente ser adaptado por outras culturas. D A feijoada representa uma fusão de ingredientes estrangeiros sem conexão com outra identidade cultural brasileira. E A feijoada é um prato mundialmente reconhecido e consumido, e por isso não possui ligação direta com a identidade cultural brasileira. A alternativa A está correta. A identidade alimentar é construída a partir da alteridade, ou seja, pela oposição a outras culturas. A feijoada é um prato que, apesar de ter influências de várias culturas (como a portuguesa, africana e indígena), foi apropriado e transformado dentro do contexto brasileiro, refletindo o processo de miscigenação cultural. Esse prato não só representa a diversidade cultural do Brasil, como também serve como um marco da identidade brasileira quando comparado a outras identidades alimentares de diferentes partes do mundo. Questão 3 Indique outro prato típico brasileiro que também represente essa mistura de influências culturais e explique, de forma breve, como ele reflete a diversidade da culinária brasileira. Chave de resposta O acarajé, prato típico da Bahia, é um exemplo. Ele combina ingredientes de origem africana, como o feijão-fradinho e o azeite de dendê, com técnicas culinárias que foram adaptadas no Brasil. O acarajé reflete a influência das religiões de matriz africana e da cultura afro-brasileira, mostrando como a culinária nacional é resultado da fusão entre culturas e como a identidade alimentar brasileira foi construída a partir dessa diversidade. Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 3. Significados simbólicos Comida afetiva e memória gustativa Os sentimentos atrelados ao alimento Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. O que são as comidas afetivas? De acordo com Garcia (1997), sabemos que a comida, por ter como ponto de partida o universo doméstico de cada um, tem significados afetivos. Mesmo os mais desgarrados têm lembranças relacionadas a momentos de refeições em família e/ou de pratos para ocasiões especiais ou para o almoço de domingo que eram feitos por uma tia ou uma avó. A história pessoal ilustra bem a questão das comidas afetivas e da memória gustativa. Essa memória é aquela que surge muitas vezes involuntariamente quando sentimos um gosto ou um cheiro que nos remete ao passado (Corção, s.d.). Por um instante, aquela sensação nos faz voltar a um momento familiar e promove uma verdadeira viagem no tempo. Viagem para o acolhimento que proporciona uma refeição em família ou o carinho gostoso que foi feito só para agradar. Na atualidade, podemos nos perguntar que memórias serão guardadas das comidas afetivas no futuro e quem vai saber fazer as receitas de família. Com a correria do dia a dia, a mãe ou a avó não tem mais tempo para cozinhar para a família. Então, elas lançam mão de todo os aparelhos eletrônicos, de comidas prontas e semiprontas, comidas delivery e tudo que possa facilitar suas vidas e alimentar as famílias. Ora, sabemos que, em um país como o Brasil, que tem uma desigualdade enorme, muitas mulheres passam seu tempo de folga cozinhando o trivial para a família se alimentar quando ela está ausente. Nesses casos, aquela receita especial dafamília será talvez perdida. Se considerarmos que as tradições culinárias de um povo são fundamentais para a sua identidade cultural, esse saber fazer torna-se um patrimônio imaterial daquela sociedade. Já temos desde o ano de 2000 um livro de Registro de Patrimônios Imateriais do IPHAN, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Até então, somente se podia tombar patrimônios culturais materiais. Curiosidade O modo tradicional de fazer o acarajé baiano foi o primeiro inscrito nesse livro em 2005. O esforço para cozinhar e transmitir receitas para os seus descendentes é uma maneira de preservar as tradições e a identidade cultural não somente de uma família, mas de um povo. Fique atento às receitas da família e, se puder, faça um livro de receitas. Um membro da família que vem a falecer sem ter transmitido esses saberes é como um livro de receitas afetivas que se queima. Por outro lado, essa perda de receitas vem se juntar a outra teoria sobre a alimentação contemporânea, a homogeneização do gosto. Essa teoria diz que, em um contexto de alto consumo de produtos industrializados e comidas prontas, há uma tendência à pasteurização ou à homogeneização do gosto. Todas as salsichas de uma lata têm o mesmo gosto, assim como todos os iogurtes daquele sabor e marca e todos os biscoitos de um pacote. As lasanhas e pizzas prontas, as latas de feijoada, igualmente. Essa realidade não se aplica ao caso brasileiro. Mesmo que haja um aumento no consumo de produtos industrializados, ainda temos o hábito de comprar os ingredientes e fazer a comida em casa, na medida do possível. Nós, no sentido contrário da pressão que a indústria e suas publicidades fazem, ainda temos uma gramática tradicional da refeição: arroz, feijão, alguma proteína e algum legume ou verdura. Mesmo se comermos fora, vamos buscar na maior parte das vezes um PF (prato feito) em um botequim ou uma comida mais caseira em um restaurante a quilo. Neste vídeo, vamos entender mais sobre a comida afetiva e a nutrição. Os alimentos ligados à infância e à família carregam valores emocionais profundos. Portanto, mudar hábitos alimentares não é só uma questão racional, envolve também emoção, história e afeto. A alimentação é uma forma de expressar quem somos, por isso é essencial respeitar e valorizar as tradições alimentares, promovendo a saúde sem desconsiderar a cultura. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 1 Leia o trecho do texto Sabores de infância, descrito a seguir: “Quando levou à boca a primeira garfada de “ratatouille” – um refogado de vegetais tradicional da França – o crítico gastronômico Anton Ego até se esqueceu de que estava ali, à mesa, para avaliar o restaurante que acabava de lhe servir aquele prato. De repente, aquele sabor fez o mundo parar, e ele pôde se sentir novamente o menino que, depois das brincadeiras, chegava em casa para a refeição, ganhava um afago da mãe e comia o “ratatouille” feito por ela com amor. De repente, ele não era mais um adulto ranzinza; era o garoto protegido pelos carinhos culinários da mãe”. AGUIAR, V. Sabores de infância: a comida que lembra os tempos de criança. São Paulo: Museu da Pessoa, 2016. O texto faz referência a qual conceito? A Construção social do gosto B Função social da refeição C Real da alimentação D Memória social E Memória gustativa A alternativa E está correta. As comidas afetivas são aquelas que resgatam sentimentos de aconchego e nostalgia, frequentemente evocando lembranças de refeições preparadas por familiares (como avós, pais ou tias) em contextos como festas, almoços de domingo ou datas comemorativas. Esses pratos, por mais simples que sejam, têm uma forte carga simbólica e emocional, porque estão conectados ao afeto e às relações familiares. A memória gustativa é justamente quando um sabor nos traz alguma lembrança forte. A construção do gosto Tipos de gosto O gosto é algo bastante complexo. Já houve diferentes teorias sobre como ele funciona fisiologicamente. A tese do mapa de língua durou do século XIX até o século XX. Segundo ela, diferentes regiões da língua sentiam diferentes gostos, mas ela já foi desacreditada. O gosto se dá em uma interação entre as substâncias do que estamos comendo e os botões gustativos que cobrem a língua e o palato mole. Além dos sabores que já conhecemos, doce, salgado, amargo e azedo, temos o umami e o alcaçuz. O umami, um sabor definido pelos japoneses, está presente no peixe, no tomate e no queijo parmesão, mas ele não tem uma equivalência na nossa cultura alimentar, o que faz com que ele seja muito difícil de descrever (Marques, 2015). Já o alcaçuz é uma raiz de sabor forte com a qual se faz um doce comum na Europa e, na verdade, é outro nome da planta regaliz. Saiba mais No Portal Umami, há um passo a passo que ensina como reconhecer o sabor do umami. Atualmente, já se sabe que o sabor envolve o gosto, mas também os estímulos do cheiro, a percepção das formas e a sensação tátil na boca. Comemos com os olhos também. Além de ser o principal determinante das escolhas alimentares, o gosto também tem uma determinação genética. Há estudos que falam que até 40% do paladar seria geneticamente determinado. Então, sim, a couve é mais amarga para uns do que para outros, e o gosto do alho e do café também mudam (Donahue, 2018). O gosto vai além do dado fisiológico. Ele é culturalmente construído. Aprendemos a comer determinadas coisas, certas misturas desde pequenos, e vamos nos habituando a elas, mas o gosto também tem um componente que é totalmente pessoal. Neste vídeo, vamos apresentar a construção do gosto. O gosto não é apenas fisiológico, como também é aprendido culturalmente. O profissional de nutrição precisa considerar que as preferências alimentares não são fixas, pois é possível educar o paladar respeitando os limites culturais de cada indivíduo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 2 O gosto é uma sensação complexa que resulta da interação entre as substâncias dos alimentos e os botões gustativos na língua e no palato mole. Qual das alternativas está correta sobre a teoria do gosto e as descobertas recentes? A A tese do mapa de língua, que defendia que diferentes regiões da língua sentem diferentes gostos, ainda é aceita na ciência moderna. B O gosto é uma sensação simples que se limita aos sabores doce, salgado, amargo e azedo. C A percepção do gosto ocorre por meio da interação química dos alimentos com sensores da boca e envolve mais sabores além dos tradicionais, como o umami. D O alcaçuz é reconhecido como um dos principais sabores, sendo um sabor básico facilmente percebido. E O umami não pode ser considerado um sabor, estando presente apenas nas comidas orientais, como no missô. A alternativa C está correta. A teoria do gosto moderna vai além da ideia simples de que o gosto se limita a quatro sabores básicos (doce, salgado, amargo e azedo). Hoje, a ciência reconhece que o gosto é uma sensação complexa resultante da interação entre as substâncias químicas dos alimentos e os botões gustativos na língua e no palato mole. Recentemente, o umami foi reconhecido como um sabor básico, associado a alimentos ricos em glutamato, como carnes e queijos curados. Esse sabor é descrito como um gosto "salgado" ou "de carne", mas com uma qualidade distinta. Quanto ao alcaçuz, embora seja um sabor distinto e reconhecido, ele não é considerado um sabor básico, mas é amplamente percebido em algumas experiências alimentares. Gênero e alimentação Relações e o ato de se alimentar As relações entre gênero e alimentação são velhas conhecidas de todos nós. A mulher sempre foi aquela, desde a Pré-História, que cuida e prepara o alimento. Entre dois e quatro milhões de anos atrás, os homens teriam inventado a divisão sexual do trabalho. Enquanto os homens caçavam, as mulheres coletavam, cozinhavam e cuidavam das crianças (Carneiro, 2003). Mesmo que muita coisa tenha mudado desde então,as mulheres continuam sendo as detentoras dos saberes sobre as práticas culinárias. Já falamos sobre as receitas, um patrimônio imaterial, e como são transmitidas sobretudo entre mulheres. Durante muito tempo, a cozinha foi considerada, e continua sendo atualmente, um território feminino. Assunção (2013) fez seu trabalho sobre alimentação e relações familiares no Morro do Caixa, uma comunidade que fica na cidade de Tubarão, em Santa Catarina. Em um primeiro momento, as mulheres não conseguiam compreender o porquê do interesse da pesquisadora em um tema tão banal. O que sugere, a princípio, que esse assunto não é importante, a mesma forma de pensar de outras mulheres cinquenta anos antes. Para as mulheres desse lugar, o cozinhar só faz sentido se a comida é feita para outra pessoa. Conhecer as receitas e as preferências alimentares dos membros da família confere a essas mulheres certo poder. No entanto, enquanto as mulheres ficam com a barriga no fogão, o glamour da cozinha fica para os grandes chefs, que são, na sua maioria, homens. Quando o assunto é cozinhar para a família cotidianamente, a tarefa é monótona e repetitiva, mas, quando se trata de usar a criatividade, aí é a vez dos homens. Dória (2012) nos conta que, já na Idade Média, a divisão tradicional do trabalho foi mudando. Na França, a preparação de alimentos vai sendo passada para os homens. Claro que eles trabalham na rua vendendo seus produtos, como os padeiros, os que fazem frios como presunto etc. No século XIX, surge a figura do chef, profissão destinada aos homens, obviamente. Se temos atualmente chefs mulheres famosas, os maiores entre eles seguem sendo homens. Na Idade Moderna, os homens são os cozinheiros dos nobres, e são os que vão trabalhar nos restaurantes que surgem. Até os livros de culinária são escritos por eles. Atenção O profissional da área de nutrição deve ter atenção e sempre procurar ter interlocução privilegiada com as mulheres da família, pois ainda são elas que, na maior parte das vezes, ocupam-se da alimentação da família. Outra questão relativa ao gênero é que as mulheres são as que tomam as decisões em casa sobre o que se vai comer. Mas, no poder público, são sub-representadas, sendo os homens que tomam todas as decisões sobre as políticas relacionadas aos alimentos, que dizem respeito diretamente às mulheres (Coelho, 2005). Vamos terminar esta seção falando de enfermidades que são culturalmente localizadas e que afetam sobretudo as mulheres: os transtornos do comportamento alimentar (TCA). Esses transtornos estão ligados à autoimagem e se traduzem pelo medo excessivo de engordar. Eles se desenvolvem sobretudo em mulheres jovens. Mesmo se essas doenças já existiam, sua incidência tem aumentado muito (Oliveira; Hutz, 2010). Gênero e tarefas domésticas As tarefas domésticas cotidianas das mulheres foram durante muito tempo a maior fonte de construção das identidades de gênero femininas. No entanto, esse trabalho ainda é desvalorizado e visto como algo repetitivo e monótono. Mesmo nos dias atuais, com as mulheres trabalhando em tempo integral, elas ainda realizam a maior parte das tarefas domésticas. Orgulho na cozinha Demerteco (2015) analisa livros e cadernos de receita de Curitiba na primeira metade do século XX. Ela comenta que as próprias mulheres consideravam esses trabalhos como pouco importantes, mas se sentiam orgulhosas de preparar comidas saborosas para sua família. Há uma perversão em relação aos padrões de beleza do corpo feminino. Como vimos, o sujeito é responsabilizado pela sua doença, em desconsideração a todos os demais fatores, e “só é gordo quem quer” (Kraemer et al., 2014). Enquanto a indústria da beleza impulsiona a um ideal corporal que sequer existe, pois muitas das imagens são manipuladas, a indústria alimentar faz produtos cada vez mais calóricos, gordurosos e deliciosos. Atenção Os TCA são doenças graves, muitas vezes fatais, e que podem deixar sequelas. Podem fazer adoecer toda uma família, tal qual a dependência química. São problemas que têm um componente cultural muito forte e que são muito influenciados pela mídia. Neste vídeo, vamos abordar a correlação entre gênero e alimentação. A alimentação sempre esteve ligada às relações de gênero. Reconhecer que as mulheres historicamente ocuparam o espaço da cozinha nos ajuda a refletir sobre as dinâmicas familiares, a divisão de tarefas e a valorização do saber feminino na alimentação. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 3 Leia o trecho do Ofício das Baianas de Acarajé, descrito no Livro dos Saberes: Este bem cultural de natureza imaterial, inscrito no Livro dos Saberes em 2005, é uma prática tradicional de produção e venda, em tabuleiro, das chamadas comidas de baiana, feitas com azeite de dendê e ligadas ao culto dos orixás, amplamente disseminadas na cidade de Salvador, Bahia. Entre as comidas de baiana, destaca-se o acarajé, bolinho de feijão-fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído em um pilão de pedra (pedra de acarajé), temperado e, posteriormente, frito no azeite de dendê fervente. Sua receita tem origens no Golfo do Benim, na África Ocidental, tendo sido trazida para o Brasil com a vinda de escravos dessa região. IPHAN. Ofício das Baianas de Acarajé. Livro dos Saberes. Brasília, 2005. Idade Média Na Idade Média e na Renascença, a opulência corporal era sinônimo de opulência econômica, e o corpo mais robusto era o mais belo. Nessa época, os mais pobres tinham muitas dificuldades em comer de forma conveniente, logo eram magros e considerados feios. Atualmente Hoje em dia, quando há excesso de alimentos, pelo menos em uma grande parte da população o corpo belo é o corpo magro. A mulher magra é disciplinada, sabe se cuidar; enquanto as obesas sofrem preconceito e são consideradas relaxadas, sem força de vontade. O ofício das Baianas de Acarajé foi o primeiro patrimônio cultural imaterial a ser inscrito no Livro dos Saberes. Uma comida tradicionalmente preparada por mulheres, o acarajé tem ligação com religiões de matriz africana. Com base nisso, por que ele tem esse status? A Porque o acarajé é uma comida afetiva para a maior parte dos baianos. B Porque o acarajé é uma comida religiosa para a população da Bahia. C Porque o acarajé faz alusão à construção do gênero feminino. D Porque o acarajé faz parte das tradições e constrói a identidade cultural dos baianos. E Porque o acarajé faz alusão à construção do gênero masculino. A alternativa D está correta. O que faz com que algo que faça parte da cultura material ou imaterial seja considerado um patrimônio cultural é sua importância nas tradições e na identidade cultural de um povo. Já em relação ao gênero, as mulheres atuam na alimentação das famílias, sendo frequentemente as principais responsáveis por planejar, preparar e fornecer a comida. No caso das baianas, o preparo dos acarajés configura fonte de renda historicamente importante para as mulheres, muitas delas mães solos. Apesar dessa responsabilidade, as mulheres são subrepresentadas nas esferas políticas, especialmente em decisões relacionadas às políticas alimentares no poder público. Essa desigualdade de gênero é observada quando se compara a importância da mulher na alimentação familiar com sua marginalização nas decisões políticas sobre alimentação. Comida e sexo O prazer associado à alimentação Em muitas línguas, o vocabulário relativo ao sexo e à alimentação se assemelha. Desde a inocente lua de mel até o se lambuzar no ato sexual, as associações são muitas. Aqui no Brasil, o verbo comer refere-se também à cópula, passando pelo “gostoso(a)”. O vocabulário amoroso se entrelaça constantemente com o gastronômico [...] implícito nas expressões “pele de pêssego”, “olhos amendoados” ou “cor de avelã”, “boca de cereja”, “lábios polpudos”, “formas apetitosas”, sem esquecer a “lua de mel” que, tantas vezes, acaba com o “caldo entornado”. (Nascimento apud Azevedo, 2017). Não podemosesquecer as mais variadas mulheres frutas aqui no Brasil, que reforçam a associação entre sexo e comida, o primeiro é fundamental para a sobrevivência da espécie e o outro imprescindível para a sobrevivência do indivíduo. Duas necessidades banais e essenciais que estão do lado da reprodução biológica. Os dois polos do prazer e do desejo. Talvez por isso mesmo tenhamos inventado um enorme edifício simbólico para significar ambos com uma séria de regras, valores, crenças, preferências, rejeições, medos. Neste vídeo, vamos entender a relação do prazer associado à comida e ao sexo. A comida e o sexo são experiências íntimas e culturalmente reguladas. Compreender essa associação permite que o profissional de nutrição aborde questões como culpa, desejo e prazer alimentar, que influenciam diretamente o comportamento alimentar do indivíduo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 4 A associação entre sexo e comida no Brasil está ligada a duas necessidades essenciais: a reprodução biológica e a sobrevivência do indivíduo. O que essa associação simbólica representa para a cultura brasileira? A A associação entre sexo e comida reflete uma necessidade fisiológica de prazer, carecendo de significados culturais representativos. BSexo e comida são representações simbólicas, cada uma relacionada a um conceito de prazer e desejo, e ambas envoltas em um complexo conjunto de regras, valores, crenças, preferências, rejeições e medos. C A relação entre sexo e comida deve ser evitada, pois envolve aspectos emocionais que não se influenciam de forma clara. D Sexo e comida são representações simbólicas que possuem relação na cultura brasileira, mas não em outros países do mundo, em que o sexo é um tabu. E No contexto brasileiro, a associação entre sexo e comida é vista como algo negativo e deve ser evitada nas discussões culturais e sociais. A alternativa B está correta. A associação entre sexo e comida no Brasil vai além das necessidades biológicas de reprodução e sobrevivência. Ambas as áreas são carregadas de significados simbólicos profundos, sendo representações de prazer e desejo. Essas associações não se limitam ao aspecto fisiológico, como também envolvem um complexo conjunto de normas culturais, que incluem valores, crenças, preferências, medos e até tabus. Caso prático Um profissional de nutrição está conduzindo uma pesquisa sobre os hábitos alimentares de famílias brasileiras, com foco específico na relação entre comidas afetivas e a memória gustativa. Durante o estudo, ele observa que muitos lares ainda preservam tradições alimentares passadas de geração para geração, como o preparo de pratos típicos das avós e a realização de almoços de domingo em família. Esses momentos reforçam a ligação emocional com determinados alimentos, cujos sabores e aromas evocam lembranças de infância, momentos de acolhimento e vínculos familiares. O pesquisador também percebe uma transformação significativa nas práticas alimentares contemporâneas. O ritmo acelerado da vida moderna, especialmente nas áreas urbanas, tem levado muitas mulheres — tradicionalmente responsáveis pela transmissão dessas receitas — a recorrerem com mais frequência a refeições prontas, congelados ou pedidos de delivery. A pressão do trabalho, o pouco tempo disponível e as facilidades oferecidas pela tecnologia contribuem para que o ato de cozinhar em casa vá sendo deixado de lado. Essa mudança de comportamento pode trazer impactos profundos na preservação da memória alimentar das futuras gerações. A ausência da prática culinária tradicional tende a enfraquecer a transmissão oral de receitas e técnicas familiares, rompendo o elo que conecta a alimentação ao afeto, à identidade cultural e à história pessoal. Nesse contexto, o pesquisador se questiona sobre como as novas gerações vivenciarão a experiência alimentar: será que os sabores do passado continuarão vivos nas lembranças, ou se perderão na praticidade da vida moderna? A sua pesquisa destaca a importância de compreender as comidas afetivas não apenas como alimentos, mas, sim, como patrimônios culturais e emocionais que carregam valores, histórias e afetos — elementos fundamentais para a formação da identidade alimentar de um povo. Questão 1 Considerando o contexto apresentado no caso prático, como as comidas afetivas e a memória gustativa podem ser impactadas pela mudança nos hábitos alimentares observada entre as famílias brasileiras? A As comidas afetivas se tornam ainda mais valorizadas na sociedade moderna, pois a facilidade de acesso a alimentos industrializados amplia o repertório de receitas tradicionais. BMesmo com o uso crescente de refeições prontas, a memória gustativa permanece intacta, já que o ato de comer, independentemente do alimento, é suficiente para preservar tradições familiares. CA substituição de preparos caseiros por alimentos prontos pode comprometer a transmissão das receitas familiares e enfraquecer a conexão emocional entre as gerações por meio de sabores e cheiros. D A memória gustativa se fortalece com a modernização alimentar, pois novas receitas industriais são rapidamente incorporadas como tradições familiares autênticas. E As mudanças nos hábitos alimentares não afetam a memória gustativa, uma vez que a alimentação cotidiana não tem influência significativa sobre as tradições afetivas familiares. A alternativa C está correta. A memória gustativa está associada a experiências vividas, especialmente aquelas ligadas à preparação artesanal de pratos e à convivência familiar. A modernização, ao incentivar o consumo de alimentos prontos e reduzir o tempo dedicado à culinária caseira, pode prejudicar a continuidade dessas práticas e, consequentemente, enfraquecer a transmissão das comidas afetivas, comprometendo a ligação emocional que sabores e aromas tradicionais criam entre gerações. Questão 2 Qual pode ser uma consequência cultural a longo prazo da substituição de receitas caseiras por alimentos prontos e delivery nas famílias brasileiras? A A possível perda de parte do patrimônio cultural alimentar, já que a transmissão de receitas tradicionais fica comprometida. B O fortalecimento das comidas afetivas, já que alimentos industrializados também conseguem criar memórias emocionais duradouras com as novas gerações. C O enriquecimento da tradição alimentar brasileira, pois a rapidez do dia a dia incentiva a criação de novas receitas que preservam totalmente o vínculo afetivo familiar. D A manutenção das receitas tradicionais sem alterações, pois o ritmo acelerado da vida moderna não interfere no preparo caseiro de alimentos afetivos. E A democratização do acesso às comidas afetivas, já que a tecnologia facilita o compartilhamento de receitas antigas por meio de redes sociais e aplicativos. A alternativa A está correta. A substituição do preparo de receitas caseiras por opções industrializadas e de delivery, como observado no caso prático, pode comprometer a transmissão das comidas afetivas e o fortalecimento das memórias gustativas. A longo prazo, isso pode resultar na perda de tradições culinárias familiares e no enfraquecimento da identidade alimentar que se constrói por meio dessas práticas afetivas. Assim, a cultura alimentar corre o risco de se fragmentar, perdendo parte de seu valor simbólico e histórico. Questão 3 Assinale uma estratégia eficaz para preservar as comidas afetivas e a memória gustativa diante das mudanças nos hábitos alimentares modernos. A Incentivar o consumo de refeições prontas industrializadas, já que elas também podem ser associadas a novos afetos familiares. B Registrar as receitas tradicionais em livros de receita, vídeos ou plataformas digitais, promovendo a sua prática e adaptação para a realidade contemporânea. C Substituir totalmente as receitas antigas por pratos rápidos e modernos, adaptando a memória afetiva exclusivamente à cultura do fast food. D Priorizar apenas o registro escrito das receitas antigas, sem a necessidade de ensinar ou praticá-lasnas famílias. E Estimular o abandono das receitas tradicionais em favor de pratos internacionais, para globalizar os hábitos alimentares brasileiros. A alternativa B está correta. Para preservar a memória gustativa e as comidas afetivas em um contexto de vida moderna acelerada, é importante adaptar a transmissão das tradições alimentares aos novos meios e rotinas. Registrar receitas tradicionais em livros, vídeos e plataformas digitais pode assegurar a continuidade dessas práticas, tornando possível que novas gerações tenham acesso às tradições, mesmo que o tempo disponível para cozinhar tenha diminuído. Além disso, incentivar a prática, mesmo que adaptada à realidade atual, reforça os laços afetivos e culturais criados em torno da comida. Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 4. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? • Além de ser um ato biológico, a alimentação é também um fenômeno cultural e histórico. O profissional de nutrição deve abordar a alimentação em um contexto mais amplo, considerando fatores sociais, simbólicos e afetivos que influenciam o comportamento alimentar. • A antropologia permite compreender o ser humano de forma integral, inclusive como ele come, o que come e por que come. Isso ajuda o profissional de nutrição a considerar as práticas alimentares tradicionais e contemporâneas, respeitando a diversidade cultural dos indivíduos. • A alimentação envolve o real (nutrição), o simbólico (valores culturais e crenças) e o imaginário (desejos e medos). Essa compreensão é fundamental para o profissional de nutrição acolher melhor o paciente e propor estratégias de educação alimentar mais eficazes e empáticas. • Nem tudo o que é biologicamente comestível é culturalmente aceito. Entender essa distinção ajuda o profissional de nutrição a trabalhar rejeições alimentares, tabus culturais e preferências alimentares dos pacientes. • É importante compreender os medos alimentares atuais (como medo de contaminação, agrotóxicos, transgênicos) que afetam o comportamento do consumidor. O profissional de nutrição deve estar preparado para dialogar com esses medos e oferecer orientações baseadas em ciência e empatia. • A comensalidade destaca o comer como ato social, pois alimentar-se junto fortalece laços afetivos e identitários. Entender isso ajuda a lidar com contextos familiares, escolares ou institucionais de alimentação. • Os alimentos ligados à infância e à família carregam valores emocionais profundos. Portanto, mudar hábitos alimentares não é só uma questão racional, envolve também emoção, história e afeto. • A alimentação é uma forma de expressar quem somos. Por isso, é necessário respeitar e valorizar as tradições alimentares, promovendo a saúde sem desconsiderar a cultura. • O gosto não é apenas fisiológico, é também aprendido culturalmente. O profissional de nutrição precisa considerar que preferências alimentares não são fixas, e que é possível educar o paladar respeitando os limites culturais de cada indivíduo. • A alimentação sempre esteve ligada às relações de gênero. Reconhecer que as mulheres historicamente ocuparam o espaço da cozinha nos ajuda a refletir sobre as dinâmicas familiares, a divisão de tarefas e a valorização do saber feminino na alimentação. • A comida e o sexo são experiências íntimas e culturalmente reguladas. Compreender essa associação permite que o profissional de nutrição aborde questões como culpa, desejo e prazer alimentar, que influenciam diretamente o comportamento alimentar do indivíduo. Podcast Ouça agora um breve resumo sobre o conteúdo. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Pesquise na internet e assista aos seguintes documentários: Programa Multiponto Alimentação, Cultura e Identidade, que se encontra no site do repositório digital da UFRGS. Comida e Afetos reunidos em um documentário, produzido pelo portal de jornalismo da ESPM. Comida como cultura, uma reportagem especial que faz parte de um projeto desenvolvido no município de Peritiba, que resgata culturas e modos de vida. Leia as indicações: DÓRIA, C. Flexionando o gênero: a subsunção do feminino no discurso moderno sobre o trabalho culinário. Cadernos Pagu (39):251-271, 2012. KRAEMER, F. et al. O discurso sobre a alimentação saudável como estratégia de biopoder. Rio de Janeiro: Physis Revista de Saúde Coletiva, 24 (4): 1337-1359, 2014. Referências ALTHOFF, G. Comer Compromete: refeições, banquetes e festas. In: FLANDRIN, J.; MONTANARI, M. (org.). História da Alimentação. 2. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. ASSUNÇÃO, V. Comida de mãe: notas sobre alimentação e relações familiares. In: XXVI Reunião Brasileira de Antropologia, 2013, Porto Seguro, Bahia, Brasil. AZEVEDO, E. Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos. 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Memória gustativa e identidades: de Proust à Cozinha Contemporânea. s.d. CULTURA e Gastronomia. Dossiê Cultura e Gastronomia. Cult. São Paulo, 198, p. 16-18, fev. 2015. DA MATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. DANIEL, J.; CRAVO. V. Valor Social e Cultural da Alimentação. In: CANESQUI, A. M.; GARCIA, R. W. D. (Org). Antropologia e nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2005. DEMERTECO, S. De mãe para filha: livros e cadernos de recitas familiares testemunham hábitos e afetos femininos em torno da cozinha. Revista de História da Biblioteca Nacional. Decifrando o ato de comer. v. 10, n. 115, p. 34-35, 2015. Simbologia dos alimentos 1. Itens iniciais Objetivos Introdução 1. Simbólico da alimentação Aspectos reais, simbólicos e imaginários da alimentação Por que estudar história e antropologia da alimentação Reflexão Bife — Hinduísta Larvas fritas — orientais e indígenas Steak tartare — Franceses Resumindo Comentário Exemplo Conteúdo interativo Atividade conceitual 1 O real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan O real da alimentação Exemplo O simbólico da alimentação Conteúdo interativo Exemplo O imaginário da alimentação Curiosidade Saiba mais Conteúdo interativo Atividade conceitual 2 O real: o corpo-máquina Mas por que com a proibição do incesto o homem “inventa” a cultura? Comentário Saiba mais Resumindo Conteúdo interativo Atividade conceitual 3 Na Espanha, desde sempre, o vinho é considerado um alimento nutritivo, tanto que ele é dado até para as crianças na forma de um refresco de vinho feito com água e açúcar. Veja uma conversa entre espanhóis: – Mas ela está sempre doente. – Claro, ela come pouco, não toma um copo de vinho, normal que sua saúde seja fraca. Quais aspectos dos alimentos estudados faz referência ao texto? Real, pois o vinho é considerado nutritivo por conta de polifenóis presentes na bebida que protegem a saúde do coração. Simbólico, pois a Espanha é uma grandeprodutora de vinho. Psicológico, pois o vinho altera o estado de consciência, causando embriaguez. Imaginário, pois o vinho é considerado nutritivo por esse povo, já que nutre o organismo. Os aspectos imaginários da alimentação atribuem significados aos alimentos amplamente compartilhados por um grupo cultural, como no caso do vinho para os espanhóis. O simbólico: os múltiplos significados dos alimentos Por que dispensamos toda uma quantidade de proteínas que a natureza nos oferece? Escargots Esquimós Carne Churrasco Saiba mais Brasil EUA França Conteúdo interativo Atividade conceitual 4 O imaginário: as angústias do comedor moderno Conteúdo interativo Atividade conceitual 5 Caso prático Conteúdo interativo 2. Identidade cultural Alimentação e identidade cultural Conteúdo interativo Mulheres Homens Exemplo Sul Norte Nordeste Nordeste Curiosidade Conteúdo interativo Atividade conceitual 1 Comensalidade Compartilhamento da comida Saiba mais Atenção Curiosidade Conteúdo interativo Atividade conceitual 2 Caso prático Conteúdo interativo 3. Significados simbólicos Comida afetiva e memória gustativa Os sentimentos atrelados ao alimento Conteúdo interativo Curiosidade Conteúdo interativo Atividade conceitual 1 A construção do gosto Tipos de gosto Saiba mais Conteúdo interativo Atividade conceitual 2 Gênero e alimentação Relações e o ato de se alimentar Atenção Atenção Conteúdo interativo Atividade conceitual 3 Comida e sexo O prazer associado à alimentação Conteúdo interativo Atividade conceitual 4 Caso prático Conteúdo interativo 4. Conclusão Considerações finais O que você aprendeu neste conteúdo? Podcast Conteúdo interativo Explore + ReferênciasMuitos orientais usam o hachi para comer e, em alguns lugares da África, todos comem com a mão no mesmo prato. Em algumas sociedades, come-se no chão; em outras, homens, mulheres e crianças não comem juntos, nem ao mesmo tempo. Já em alguns momentos e situações na Antiguidade, comia-se recostado. Come-se também de forma diferente nos diferentes estratos sociais. Podemos ter uma mesa simples onde todos comem com colheres somente ou com a mão, e uma outra com inúmeros talheres, pratos e copos de todo os tipos somente para uma refeição. Toda essa parte relacionada à alimentação na antropologia da alimentação é chamada de modos à mesa, que variam enormemente entre os povos e sociedades. Menina indiana comendo com a mão. Podemos ver então que a alimentação é um ótimo caminho para pensarmos sobre o ser humano, uma vez que ela engloba dimensões fisiológicas, psicológicas, socioculturais e econômicas. Por este motivo, é que falamos em antropologia da alimentação. A nutrição refere-se aos aspectos fisiológicos da alimentação, mas a alimentação vai além desses aspectos. Os fenômenos ligados à alimentação vão além dos nutrientes, mesmo que sempre seja estabelecido um diálogo entre as dimensões culturais e a nutrição. E a história da alimentação? Não é necessário falar tão longamente sobre a disciplina de história, pois você já a conhece bem, desde os seus primeiros anos de estudo. Por que estudar tudo isso? Comentário Quando você estiver diante de seu paciente, ou quando você for planejar o menu semanal de uma escola, empresa ou de um hospital, você não estará diante de um aparelho digestivo, e sim de uma pessoa que possui, além do seu histórico médico, uma história de vida, crenças e valores acerca dos alimentos e da sua saúde, ou seja, uma pessoa que é um universo único. Para ser eficiente como um profissional da área da saúde, você deve compreender que quem está no centro desse processo é o seu paciente ou seu público-alvo. As ações devem se adaptar aos pacientes para que haja uma efetiva mudança de comportamento no sentido da promoção da saúde. A postura do nutricionista deve ser sempre a de orientar, respeitando as particularidades culturais e pessoais dos indivíduos. O olhar sobre as diferenças deve ser generoso e ético. Exemplo Uma paciente vegetariana foi a um nutricionista procurando auxílio na fase de transição, porém o nutricionista a desaconselhou sobre ser vegetariana. Ela foi embora bem chateada e procurou outro profissional. Cabe a um nutricionista aconselhar seu paciente a não seguir determinada filosofia alimentar pela qual ele já havia decidido? De modo algum! Nesse caso, ele também deveria aconselhar sobre qual religião ou namorado a pessoa deveria escolher. O paciente vegetariano pode ser um desafio para o nutricionista, mas cabe a ele orientá-lo dentro da sua escolha de maneira ética e comprometida. Neste vídeo, vamos abordar os aspectos simbólicos da alimentação, como dimensões culturais da alimentação e a centralidade da alimentação em nossas vidas. Por que comemos? O que comemos? Como comemos e como preparamos os alimentos? A que horas comemos? Com quem comemos? Onde comemos? Assista para descobrir as respostas! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 1 Qual das alternativas melhor descreve a relação entre a nutrição e a alimentação? A A nutrição é exclusivamente científica e se preocupa apenas com os aspectos culturais relacionados aos alimentos. B A alimentação se limita ao consumo de nutrientes e não tem relação com aspectos culturais ou sociais. C A nutrição lida apenas com a digestão e absorção de nutrientes, enquanto a alimentação envolve fatores culturais, sociais e psicológicos. D A alimentação está restrita ao comportamento individual e não é influenciada por fatores externos como cultura e tradição. E A nutrição é responsável pela preparação dos alimentos, enquanto a alimentação se refere ao prazer de comer. A alternativa C está correta. A nutrição é um campo da ciência que estuda os processos biológicos e fisiológicos relacionados à ingestão, digestão, absorção, metabolismo e utilização dos nutrientes pelos organismos vivos. Ela busca compreender como os alimentos influenciam a saúde, a prevenção de doenças e o funcionamento do corpo humano. Já a alimentação é um conceito mais amplo, que vai além dos nutrientes e engloba os aspectos culturais, sociais, econômicos, afetivos e psicológicos que envolvem o ato de comer. O real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan Quando falamos em real, simbólico e imaginário da alimentação, estamos na realidade fazendo referência a uma classificação que é oriunda da psicanálise de Lacan. Vamos explorar de forma bem suscinta e simplificada o significado desses termos no pensamento do ilustre doutor. Grosso modo, de acordo com Macarini (s.d.), que trata o assunto de modo compreensível, o real seria aquilo que descrevemos com palavras, aquilo que existe antes de nós e que não depende de nós. O simbólico será resultado da maneira como construímos e como isso vai moldar a forma com que nos relacionamos com os demais. Interpretamos o mundo, as palavras, os sons, o que vemos, transformando-os em símbolos que lhes atribuem significados. Esses termos são amplamente discutidos pela filosofia e por outras ciências, como a antropologia e a história, além da psicanálise. O real da alimentação Refere-se a todos os aspectos relacionados à ciência da nutrição, ou seja, qual é a composição nutricional desse alimento, como é obtido no processo de produção e suas consequências na saúde da população e dos indivíduos. Mas o real também se refere às características ditas organolépticas do item alimentar ou da preparação, ou seja, tudo aquilo que diz respeito a nossos sentidos, aparência, odor, textura e sabor. Preparação Quando falamos em preparação, estamos nos referindo a um prato preparado, que pode tanto ser uma salada como um coelho à caçadora. Item alimentar Já quando falamos de item alimentar, pode ser uma fruta, um chocolate ou um legume. Há quem vá se manifestar e dizer que comida real ou comida de verdade são alimentos in natura ou levemente processados, como os que são adeptos do real food (Real, s.d.), uma tendência alimentar que preza por uma alimentação saudável e pela sustentabilidade ambiental. Mas, de acordo com o significado que estamos discutindo aqui, uma lata de sardinha ou um pacote de batatas fritas é tão real quanto uma fruta. Exemplo Vamos dar alguns exemplos sobre o real da alimentação. Uma salada é uma preparação que pode variar nos seus ingredientes, mas a nossa salada é feita de folhas verdes como alface e rúcula, pepino sem casca e pimentão verde cru e um molho caseiro de iogurte natural comum. É uma comida com poucas calorias, as verduras e legumes têm algumas proteínas, fibras, sais minerais e vitaminas e poucas calorias. O iogurte pode ser integral ou desnatado e contém várias vitaminas e nutrientes. Outro exemplo é o de algumas sardinhas de uma lata em molho de tomate. A sardinha não é muito calórica e possui vários nutrientes entre vitaminas e minerais. O simbólico da alimentação No video a seguir, vamos conferir a experiência de uma historiadora especialista na área de alimentos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Segundo Lenclud (1992), o simbólico é uma característica de todas as culturas, que é atribuir significado ao mundo. Já o simbólico da alimentação refere-se justamente a todos os significados que atribuímos aos alimentos. É importante sinalizar que esses significados variam de cultura para cultura. Vamos aos nossos exemplos anteriores. Exemplo Para alguém que deseja ficar em forma e vive em um grande centro urbano, a salada pode ser considerada um ótimo alimento, pois é leve e saudável e não engorda. Além disso, faz bem para o intestino, pois o iogurte contém probióticos. Nesse caso, ela já atribui vários significados a essa preparação.Vimos que o sentido realfica no registro da ciência da nutrição. Por outro lado, o pepino, ainda mais sem casca, assim como o pimentão verde cru, dependendo da sensibilidade da pessoa, não são leves e podem dificultar a digestão e provocar azia. E somente alguns iogurtes contêm probióticos, pois possuem os organismos que sobrevivem aos ácidos do estômago e chegam vivos aos intestinos. A maioria não tem essa caraterística.Outras pessoas já dispensariam a salada. Em algumas ocasiões, nos churrascos, podemos ver pessoas questionando: “Se há tanta carne disponível, por que alguém comeria uma salada?”. Nesse caso, o significado atribuído à salada é que ela é algo menos importante que a carne. E, efetivamente, alguns trabalhadores do campo, ou mesmo pessoas nos centros urbanos, consideram as saladas como uma comida que não tem sustância e não dá força para o trabalho, sendo desvalorizadas (Alves; Boog, 2008). Portanto, observamos diferentes valores simbólicos que foram dados à mesma preparação. E quanto às sardinhas em lata? Elas tanto podem significar um alimento saudável como também podem ser descartadas por ser um produto enlatado, não considerado um alimento natural ou de verdade. Você pode observar então que os valores simbólicos que conferimos aos alimentos são culturalmente determinados e um alimento pode nem significar comida, ou seja, não fazer parte da categoria comida, como comentamos. Aqui, é preciso sua atenção para uma diferença estabelecida pelo antropólogo Roberto DaMatta (1986) entre alimento e comida. O alimento está na prateleira do supermercado; a comida está no prato, quentinha, gostosa, aconchegante. Em uma viagem, se ficamos comendo só lanches, depois de algum tempo nos dá vontade de comer uma “comida de verdade”. Isso porque a comida é aquele prato que comemos sentados, que está quente, que nos é familiar. O imaginário da alimentação Vamos agora refletir sobre o imaginário na alimentação. Para Baczko (apud Espig 2003/2004), o imaginário refere-se a ideias e imagens coletivamente construídas. Quando pensamos em termos de alimentação, o imaginário comporta construções simbólicas sobre os alimentos amplamente difundidas entre os membros de uma população ou entre os membros de um grupo específico. O que isso significa? Que, em grupos ou populações, os significados que fazem parte do imaginário são comuns e frequentes. A partir de Perez (1996), falemos de alguns exemplos relativos a um grupo indígena amazônico que pertence ao tronco linguístico Tupi e é conhecido como Cinta-Larga. Esses indígenas eram originariamente guerreiros e antropófagos, como costumam ser os Tupi. Curiosidade O nome Cinta-Larga refere-se a uma armadura feita com a casca de uma árvore que os homens usavam nas guerras para proteger seus órgãos vitais de flechadas dos inimigos. A pesquisa em questão trata do tema da antropologia da saúde e da doença, ou seja, como esses indivíduos enxergam, do ponto de vista tradicional, a doença, o mal, o infortúnio, como eles diagnosticam as Alimento É toda e qualquer coisa que pode ser ingerida pelos seres humanos. Comida É aquilo que comemos dentro de casa, a comida de mãe, comida caseira, que comemos na rua, mas é como se fosse a comida de casa. Com a comida, temos proximidade. enfermidades e como as curam. Nesse trabalho, também pretendia-se compreender como os profissionais não indígenas da área da saúde que trabalhavam com saúde indígena viam os hábitos e costumes dos Cinta- Larga. Esses colaboradores tinham um imaginário preconceituoso em relação aos hábitos alimentares e de higiene tradicionais desse povo. Eles acreditavam que a comida dos indígenas era estranha e preparada sem nenhuma limpeza. Também pensavam que eles eram sujos, que não cuidavam nem limpava bem suas crianças etc. Para esses agentes, o problema da saúde indígena era a falta de higiene e seus hábitos bizarros. Enquanto o que ocorre efetivamente é que a saúde dessa população se deteriorou, sobretudo por conta das doenças trazidas pelos não indígenas e pelos hábitos que eles adquiririam com o contato: consumo de açúcar e carboidratos simples, como o arroz. Você pode observar dessa forma que o imaginário das populações que estão próximas a esses indígenas é extremamente preconceituoso. Os indígenas também têm um imaginário específico em relação aos não indígenas e seus hábitos. No que concerne à alimentação, antes mesmo do contato, os agentes da Funai jogavam dos aviões sacos de arroz, farinha e açúcar para os Cinta-Larga. Essa era uma prática comum na época. Saiba mais No início do contato e até antes mesmo de ocorrer, houve grande mortalidade dessa população devido à rubéola, uma doença que, para os não indígenas, é praticamente incipiente. Os relatos assemelham-se ao Apocalipse, pois eram aldeias inteiras mortas pela doença e crianças chorando no colo de suas mães mortas deitadas na rede. Aos que sobreviviam, cabia enterrar a enorme quantidade de mortos. Sabemos que esses povos isolados não possuem anticorpos para uma série de doenças comuns entre os não indígenas. Esse é um dos motivos pelos quais a Funai estabelecia uma política de não entrar em contato com os grupos indígenas isolados. Difundiu-se entre os Cinta-Larga a ideia de que os sacos de comida que lhes eram lançados pelos aviões da Funai estavam com comida envenenada, que tinha como objetivo espalhar a doença entre eles. Essa teria sido a causa da grande mortandade. Isso vai ao encontro de um imaginário entre os indígenas de que os “brancos” só querem destruí-los e se apossar de suas terras. Infelizmente, isso não está longe da realidade, mas, no caso, não era absolutamente a intenção da Funai. Um exemplo mais próximo é a relação entre os hábitos higiênicos de franceses e brasileiros. O imaginário sobre limpeza é bastante diferente entre esses povos. Enquanto no Brasil o pão é colocado em um saco de papel, lá os franceses levam sua baguette debaixo do braço, algo que, para nós, entende-se que vai sujar o pão e contaminá-lo com a sujeira do corpo. A quantidade de banhos que tomamos também é vista como um exagero, pois eles afirmam que esse hábito destrói a camada de gordura necessária à saúde da pele. Existem os pressupostos científicos de higiene e contaminação, mas a limpeza e a sujeira são, antes de tudo, imaginários culturalmente construídos. Os franceses não deixam de ter um pouco de razão em relação à pele. Os pediatras brasileiros insistem com as mães de recém-nascidos que o banho com sabão só deve ser dado uma vez ao dia. Caso contrário, a mãe poderia prejudicar a saúde da pele do bebê por excesso de lavagens. Franceses têm o costume de colocar o pão embaixo do braço e pegá-lo com as mãos. No artigo de Espig (2004), o que a autora nos traz é que a oposição entre real e imaginário é questionável. A ideia é que, mesmo o que chamamos de real é de certa maneira construído pelo imaginário. As fronteiras entre eles não são rígidas, e sim flexíveis. O real da alimentação é como ela se baseia também na ciência da nutrição, em que a ciência também é uma construção. Neste vídeo, vamos abordar o real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan. A alimentação envolve o real (nutrição), o simbólico (valores culturais e crenças) e o imaginário (desejos e medos). Essa compreensão é essencial para o nutricionista acolher melhor o paciente e propor estratégias de educação alimentar mais eficazes e empáticas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 2 O imaginário na alimentação refere-se às ideias e às imagens coletivamente construídas sobre os alimentos dentro de um grupo ou população. A partir da reflexão sobre o grupo indígena Cinta-Larga, que pertencem ao tronco linguístico Tupi, quais dos exemplos refletem como o imaginário pode influenciar as práticas alimentares de um grupo? A A prática da antropofagia entre os Cinta-Larga não possui relação com o imaginário coletivo, sendo apenas uma necessidade fisiológica. B Os Cinta-Larga, conhecidos por sua tradição de guerreirose antropófagos, atribuem ao ato de comer carne humana um significado simbólico relacionado à força e à identidade do grupo. C O imaginário sobre a alimentação entre os Cinta-Larga é baseado no consumo de alimentos vegetais, sem relação com práticas culturais ou rituais. D Os Cinta-Larga veem a alimentação como um ato físico, não havendo construção simbólica associada aos alimentos. E O imaginário coletivo dos Cinta-Larga se refere aos alimentos considerados "divinos" desconectado da prática antropofágica. A alternativa B está correta. O imaginário coletivo é formado por ideias, crenças, imagens e significados compartilhados socialmente, que moldam a maneira como os grupos veem e vivenciam o mundo, incluindo suas práticas alimentares. No caso dos povos indígenas, como os Cinta-Larga, a alimentação está profundamente ligada a valores simbólicos, mitológicos e culturais, não se limitando à mera satisfação de necessidades fisiológicas. O real: o corpo-máquina Antes de falarmos sobre a forma como o corpo e a doença têm sido caracterizados pela medicina na contemporaneidade, vamos compreender uma oposição clássica da antropologia, aquela entre natureza e cultura. Isso porque o corpo e as doenças são vistos por essa medicina como algo que faz parte da natureza. E o que se está defendendo aqui é que ele é também uma construção cultural. Sobre essa oposição, os antropólogos preocuparam-se primeiramente com tentar compreender em que momento o homem teria deixado de ser um ser natural e teria “inventado” a cultura. Para Lévi- Straus (2002), um renomado antropólogo francês, o homem teria se separado do mundo natural quando ele inventou uma regra que é exclusivamente humana. E que regra seria essa? Pois bem, Lévi-Strauss diz que é a proibição do incesto. Todos vocês que têm algum animal de estimação sabem muito bem que esse tipo de proibição não existe entre eles. Para ser um parceiro sexual, a única coisa necessária é que o indivíduo tenha maturidade sexual e que, no geral, a fêmea esteja disponível. O que você pode ver nesse caso é que, em um domínio extremamente natural, que é aquele da sexualidade, o homem diz que existem regras. Quais parentes são considerados incestuosos? Isso varia de sociedade para sociedade, mas na esmagadora maioria das vezes, pais, irmãos e filhos são vetados à relação sexual. E outros membros da família podem entrar nessa proibição também. Mas por que com a proibição do incesto o homem “inventa” a cultura? Porque ele diz que as relações incestuosas são erradas, sujas, levam ao caos e, eventualmente, à morte. A partir daí, inventa-se um juízo de valor sobre os mais variados eventos. Ao contrário dos animais, os homens criam um ordenamento em que existem coisas que são certas e erradas, puras e impuras, sujas e limpas, justas e injustas etc. Esses valores são uma invenção exclusivamente humana. Os animais, até onde se sabe, não têm essa visão da existência. Podemos dizer que o tubarão é mau porque comeu o peixe ou que o coelho é bonzinho porque só come plantas, mas esses animais não se julgam bons nem maus, nem certos ou errados. Eles seguem os seus instintos. Entre algumas sociedades tradicionais (povos nativos que mantiveram formas tradicionais de organização social, de produção e de exploração da natureza), o consumo de carne crua também é proibido, podendo levar à loucura, como afirmam os Cinta-Larga (Perez, 1996). Nessa circunstância, também é questão de natureza e cultura. A carne da caça deve ser passada pelo filtro da cultura e ser transformada em comida pelo cozimento. O consumo de carne crua é característico dos animais. O corpo humano também faz parte da natureza ou da cultura? De ambos, pois ele também é culturalmente construído. Nosso corpo passa por um processo de desenvolvimento que é natural, mas também é fabricado pela cultura. Aqui no Brasil, por exemplo, recentemente, foi proibido que as orelhas das meninas fossem furadas na maternidade, mas, em muitos casos, elas o são logo depois. As mulheres usam salto alto, os homens, terno. Isso também vai no sentido de fabricar um corpo feminino e masculino. A busca pelo corpo magro é uma forma cultural pela qual ele é manipulado baseado em certos padrões, que também são construções socioculturais. A forma com que nos higienizamos, aquilo com o que o alimentamos, tudo isso constrói o corpo. As dietas, as cirurgias plásticas, as tatuagens, os brincos, colares, pulseiras, anéis, igualmente. Vemos uma foto de uma mulher-girafa, um exemplo muito pertinente de como a cultura molda o corpo. As chamadas mulheres-girafas da etnia Karen e da tribo Kayan usam anéis de bronze no pescoço. As argolas são parte da identidade cultural da tribo e são associadas à beleza das mulheres. Agora que vimos como o corpo é culturalmente construído, vamos continuar pensando no jeito como ele é visto e construído pela medicina contemporânea, e qual o papel da nutrição nesse processo. Já mencionamos que a ciência também é uma construção. Ela vem também se transformando com o decorrer do tempo e é importante enfatizar que não é produzida “do nada”, a partir de uma realidade natural que observa e descreve fielmente. Não existe percepção do mundo natural que não seja influenciada pela maneira como se dá uma sociedade e uma cultura determinada (Queiroz, 1986). Portanto, a ciência também atende a interesses diversos e não é tão neutra assim como você pode supor. Com o surgimento da ciência moderna no século XVII, formulou-se um modelo mecânico para a realidade. Esse modelo tem a influência de vários pensadores, como Descartes, que formulou uma separação entre o corpo e a mente, e Galileu e Newton, este último tendo elaborado uma visão mecanicista do universo. Como consequência disso, as ciências biomédicas, muito influenciadas por essas concepções científicas, adotam com toda força a visão do corpo-máquina (Kraemer et al., 2014). Esse modelo mecanicista que considera somente aquilo que pode ser medido objetivamente desconsidera as dimensões simbólicas, psicológicas, sociais, que são decisivas não somente na construção do corpo, como vimos, mas também na compreensão de como esse corpo adoece e se cura. A medicina científica desenvolveu-se muito depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo do ponto de vista tecnológico. Se, por um lado, pensava-se que a cura de quase todas as doenças seria descoberta, por outro, a intervenção nos corpos os tornava mais aptos para a produção (Queiroz, 1986). Comentário Conforme Morais (2011), entende-se que esses princípios mecanicistas e esse grande desenvolvimento tecnológico, em vez de promover a satisfação da população como um todo, pelo contrário, geraram uma crise na medicina moderna. Isso já era apontado por Queiroz, em 1986, e ainda continua sendo um objeto de reflexão. As queixas vão no sentido do alto custo dos tratamentos, o atendimento frio dos médicos, do fato de se dedicarem muito mais tempo à saúde, e os males antigos não apenas continuarem, como ainda serem somados a outros novos. Há uma elitização da saúde e um distanciamento cada vez maior entre pacientes e terapeutas (ibid.). E no caso da nutrição? Como uma ciência biomédica, a nutrição repete esse modelo mecanicista. Para Kraemer et al. (2014), quando se constituiu, a área teve necessidade de se colocar junto aos saberes biomédicos para poder se legitimar. Consequentemente, isso a levou a uma maneira de enxergar os alimentos de forma descontextualizada de imaginário social e de seus vários significados socioculturais. Para promover uma alimentação saudável, a ciência da nutrição dita o que se deve comer, as quantidades e quando os itens alimentares devem ser ingeridos. Não levando em consideração os aspectos descritos anteriormente, tampouco as conjunturas políticas e econômicas nas quais se desenvolvem os comedores e a indústria alimentar, a ciência reduz seu alcance explicativo (ibid.). Somente os corpos jovens e magros são considerados saudáveis. Para manter esses atributos, a alimentação deve ser controlada, as caloriasdevem ser contadas e os indivíduos se tornam responsáveis pela sua própria saúde ou pela falta dela. Se você está acima do peso, ou obeso, é porque você não se cuidou o suficiente (ibid.), porque você é fraco, sem força de vontade. Essa forma de ver as coisas, que é comum entre os nutricionistas, não leva em conta elementos sociais, psicológicos entre outros. Saiba mais Esse modelo mecanicista acaba por se difundir em toda a população que tem acesso a alguma informação nutricional. Barbosa (2007) fez uma ótima enquete sobre alimentação no Brasil do ponto de vista dos comedores e que se dá em um contexto urbano. Ele constatou que, em todos os extratos sociais, os indivíduos sabem dizer exatamente os alimentos vistos como saudáveis e aqueles que são prejudiciais à saúde. Evidentemente que a ciência da nutrição tem demonstrado a estreita relação entre doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e a alimentação. A busca pela saúde deve intervir sobre todo o nosso comportamento alimentar como se existisse um único modelo válido para todas as situações, como uma verdade inquestionável. Segundo Azevedo (2017), questiona-se a visão da comida considerando somente seus aspectos bioquímicos que determinam uma dieta específica para uma pessoa, desdenhando dos aspectos culturais e sociais. A comida e o comer têm múltiplos significados em todas as sociedades, é exatamente disso que trata este conteúdo. Nosso objetivo é que você seja um profissional que vá além dos nutrientes, do modelo mecanicista e do corpo-máquina, de forma a enxergar seu paciente ou seu público-alvo como uma totalidade, e não como um aparelho digestivo ambulante. Existem outras formas de comer que, mesmo do ponto de nutricional, podem nos surpreender. Ribeiro (1995) afirma que a dieta dos indígenas amazônicos corresponde a, aproximadamente, 80% a 85% de mandioca, seja na forma de cerveja, na variedade “doce”, seja na forma de farinha e seus derivados, na variedade “brava”. Os 15% a 20% restantes equivalem ao consumo de proteína animal e a todos os outros produtos da agricultura e da coleta. Por outro lado, até as dietas e o peso ideal têm caráter ideológico. Belasco (2009 apud Cultura, 2015) nos diz que o modelo nutricional ocidental que se tornou padrão considera a carne um alimento fundamental. Sendo que, dentro dessa visão, os hindus e os chineses não se alimentariam de forma adequada. O índice de massa corporal (IMC) é bastante útil, mas ele tem como base o padrão da sociedade americana. Até que ponto isso é válido para todos (Kraemer et al. 2014)? Indígena Kichwa preparando a tradicional bebida chicha, feita de mandioca, típica da Bacia da Floresta Amazônica, no Parque Nacional Yasuni (Equador). Uma dieta pobre em frutas, legumes e verduras (FLV) é o contrário do que determina a Organização Mundial da Saúde e os nutricionistas. Todavia, no geral, os indígenas amazônicos têm uma saúde muito boa, ficando doentes justamente quando mudam seus hábitos e regimes alimentares em decorrência do contato com não indígenas. Coimbra (1985), analisando quimicamente a cerveja feita de mandioca doce, atestou que, devido à fermentação que é provocada pela saliva das mulheres, essa preparação contém açúcares mais complexos que aqueles presentes na mandioca in natura. Resumindo Refletimos, nesta seção, sobre o aspecto real visto a partir da construção do corpo e da saúde no modelo mecanicista e como isso também influencia a ciência da nutrição. O que vimos é que o corpo não é uma máquina em que a doença é um defeito. O corpo, com seu estado de saúde ou doença, é construído no centro das relações sociais e do imaginário simbólico que envolve as práticas alimentares e as diferentes maneiras de adoecer e curar. Neste vídeo, vamos abordar o corpo-máquina e a função biológica do corpo. Discutiremos o que é considerado um corpo saudável, dietas e o peso ideal, como é feita a construção do corpo e da saúde no modelo mecanicista e qual a sua influência na nutrição. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 3 Na Espanha, desde sempre, o vinho é considerado um alimento nutritivo, tanto que ele é dado até para as crianças na forma de um refresco de vinho feito com água e açúcar. Veja uma conversa entre espanhóis: – Mas ela está sempre doente. – Claro, ela come pouco, não toma um copo de vinho, normal que sua saúde seja fraca. Quais aspectos dos alimentos estudados faz referência ao texto? AReal, pois o vinho é considerado nutritivo por conta de polifenóis presentes na bebida que protegem a saúde do coração. B Simbólico, pois a Espanha é uma grande produtora de vinho. C Psicológico, pois o vinho altera o estado de consciência, causando embriaguez. D Imaginário, pois o vinho é considerado nutritivo por esse povo, já que nutre o organismo. E Lúdico, pois o vinho está atrelado ao ilusório. A alternativa D está correta. Os aspectos imaginários da alimentação atribuem significados aos alimentos amplamente compartilhados por um grupo cultural, como no caso do vinho para os espanhóis. O simbólico: os múltiplos significados dos alimentos Já comentamos sobre alguns dos significados simbólicos dos alimentos. Os alimentos não são apenas comidos, mas também pensados. Em outras palavras, a comida possui um significado simbólico — ela fala de algo mais que nutrientes. (Woortmann, 2006). Vamos pensar em alguns itens que são passíveis de serem ingeridos. Qual é a diferença existente, do ponto de vista nutricional, entre um bife de carne de boi, um de carne de cachorro, um de carne de cavalo e um de carne humana? Só de falar nisso, talvez você já esteja sentido náuseas, mas a resposta à pergunta é: nenhuma. Talvez alguma diferença no percentual de gordura, ou de fibras. Mas todas elas vão nos nutrir quase da mesma maneira. Então, por que nós humanos desprezamos todas essas carnes que poderiam resolver uma parte do problema da fome no mundo? No entanto, não temos problema algum em comer carne de vaca, porco, carneiro, coelho ou avestruz. Porém, em alguns casos, essas carnes são consideradas sagradas, sujas ou impuras por questões relacionadas a aspectos religiosos ou não. Você conhece a seguinte anedota? Perguntaram a um biólogo o que ele diria sobre Deus segundo suas observações da vida na Terra. Ele respondeu que Deus, certamente, tinha um grande amor por insetos, sobretudo por besouros. Isso porque eles representam o maior número de espécies e de indivíduos em todo o reino animal. Surpreendente, não? Mas por que falar de insetos? A entomofagia, ou seja, o consumo de insetos, é um assunto apaixonante. Afinal, os insetos são muito numerosos, como nos esclareceu o biólogo, extremamente fáceis de serem capturados, muito nutritivos e, segundo aqueles que os comem, muito saborosos. Por que dispensamos toda uma quantidade de proteínas que a natureza nos oferece? Precisamente, por conta do significado que atribuímos a esses potenciais alimentos. Aqui no Brasil, comemos farofa de içá, como foi dito; no Norte do país, tem-se o costume de comer formigas aladas; e até restaurantes famosos e estrelados (um restaurante estrelado é aquele que recebeu estrelas do Guia Michelin, um guia turístico e gastronômico muito famoso na França e no mundo) servem insetos em pratos gourmets em São Paulo. Apesar disso, na maior parte das vezes, os insetos são considerados repugnantes. Como vimos, aquilo que é considerado comida para uns não é para outros. Cada cultura determinará as diferentes possibilidades que lhe são ofertadas. A categoria comida é culturalmente construída. Repensando a alimentação Pensando assim, não seria necessário tanto gado e tudo aquilo que eles precisam para viver: terra, água etc. Seria ótimo, não? O consumo de carne humana é um tabu enorme, sem falar no fato de que os cadáveres devem ser respeitados. Mais que comida Já os cães são como pessoas da família, impossível, para nós, pensarmos em comê-los. E os cavalos, que são comidos em vários lugares, para nós são como nossos empregados,que têm um nome, uma função; eles também não podem se transformar em comida. Se o homem não come tudo que é biologicamente ingerível, é porque nem tudo que é biologicamente comestível é culturalmente comestível. (Fischler apud Coelho, 2015) Como salienta Flandrin (1998), desde a Pré-História, os homens têm acesso aos mais variados itens alimentares nos lugares por onde passam, mas nem tudo o que esses ambientes lhes oferecem é escolhido para fazer parte da categoria comida. Essas escolhas são feitas de acordo com regras impossíveis de serem decifradas na maioria das vezes. Você pode perceber que essas escolhas não são baseadas em critérios pragmáticos nem racionais. Caso contrário, todos comeríamos insetos, pois eles existem em quase todos os lugares do mundo. Escargots Na Europa, o ambiente oferece os mesmos recursos, mas somente os franceses comem caramujo, os famosos escargots, e rãs. Temos tartarugas também em muitos locais, mas a sopa feita delas é uma especialidade inglesa. Poderíamos multiplicar os exemplos, mas já ficou claro que não é o ambiente que determina as escolhas alimentares, mesmo que sejam feitas a partir dele. Esquimós É evidente que um esquimó não pode ser vegetariano, pois morreria de fome, mas, mesmo em uma região com recursos tão limitados, os homens fazem escolhas culturais diferentes. Laraia (2007) fala sobre os esquimós que constroem suas casas de gelo e usam trenós puxados por cães; e os lapões, que vivem no mesmo ambiente, são pastores de rena, constroem suas casas com a pele delas e se locomovem tradicionalmente com raquetes de neve. Carne Outro ponto interessante sobre o significado dos alimentos é o simbolismo associado à carne. Carneiro (2003) comenta que a Europa sempre valorizou a alimentação carnívora. Desde a Antiguidade grega, a caça e o consumo de carne são considerados importantes para preparar os homens para a guerra, tornando-os mais ferozes e cruéis. Sem falar no fato de que a propriedade de rebanhos confere prestígio e riqueza. Churrasco Os países ocidentais valorizam muito o consumo de carne. Aqui no Brasil, o churrasco é uma verdadeira instituição, sendo muito comum na Região Sul, mas também no Sudeste e no Centro-Oeste, onde, no geral, o único acompanhamento da carne é a mandioca cozida. Flandrin (1998) nos ensina que nas refeições festivas de todos os tempos sempre foi necessária a presença da carne fresca; e, é claro, das bebidas fermentadas. Se falamos em consumo de carne, não podemos deixar de lado a antropofagia. De acordo com Bueno (2012), esse costume de muitos povos indígenas brasileiros foi o que mais espantou os europeus. Alguns rituais antropofágicos entre os Tupinambás foram descritos com precisão por alguns cronistas, sobretudo por Hans Staden (1998), que foi capturado por esses indígenas e viveu entre eles por alguns anos. Antropofagia É a prática na qual um ser humano se alimenta de partes de outro ser humano. Saiba mais Para saber mais, assista ao filme Hans Staden (Brasil/Portugal, 1999. Direção Luiz Albert Pereira). Mesmo se os homens já comeram carne humana para matar a fome, em momento de penúria extrema ou na Pré-História, o canibalismo do qual sabemos tem sempre um significado ritual. Pode-se consumir os inimigos para se vingar deles, para recuperar sua força ou para aniquilá-la, mas, no caso, também pode ser uma obrigação consumir a carne de seus parentes mortos para desumanizá-los, uma vez que são comidos como presas e para que sua substância fique entre os membros da família. Para fecharmos esta seção, vamos falar sobre outra dimensão simbólica da comida: o fato de que ela constitui uma linguagem. Quando convidamos alguém para comer em nossa casa, a comida que vamos servir vai falar sobre nós, expressar nosso cuidado, nosso carinho, nossa consideração. Os diferentes tipos de ingredientes são as letras e as preparações das palavras. Com uma letra, você pode fazer inúmeras palavras se combiná-la com outras letras, assim como podemos fazer um monte de receitas diferentes misturando os ingredientes-letras. E a frase é a refeição, em que tudo deve ser combinado de uma forma específica para ter sentido (Montanari, 2008). É claro que a forma como a frase-refeição é construída depende da cultura, disponibilidade econômica do responsável, ocasião. Brasil Cotidianamente, não costumamos comer entrada, colocando a salada no prato principal. No final da refeição, sobremesa e café. Essa ordem é imutável. EUA Nas cafeterias, toma-se café durante toda a refeição. Esse café é bem fraco para os nossos padrões: é o famoso “chafé”, de tão aguado. França Os franceses comem salada verde e queijo no final das refeições, e só depois vem a sobremesa e o café. Eles consideram que a salada limpa o paladar. A frase é diferente e pode até se tornar um texto em uma refeição festiva, como um banquete de casamento. E mesmo a gramática da refeição é diferente nos dias da semana e no fim de semana. Por meio das palavras, damos sentido ao mundo, criamos categorias, e a comida faz a mesma coisa. Ela fala de nós, de nossos hábitos, valores, crenças, origem, classe social. A comida fala! Neste vídeo, vamos apresentar os múltiplos significados dos alimentos. Os alimentos não são apenas comidos, como também pensados. A comida possui um significado simbólico, pois ela fala de algo a mais que nutrientes. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 4 A afirmação de que "os alimentos não são apenas comidos, mas também pensados" sugere que a comida possui um significado simbólico. Com base nisso, qual das alternativas reflete melhor essa ideia? A Os alimentos são consumidos por sua função nutricional, pois seu significado simbólico associado é o mesmo em diferentes culturas. B A comida deve ser consumida exclusivamente por sua capacidade de fornecer nutrientes, não importando o valor simbólico em sua escolha. C A comida é pensada em termos de sabor, sendo sua função nutricional ou cultural secundária. D Os alimentos são sempre consumidos da mesma maneira, independentemente do contexto social, deve seguir a melhor forma de preparo. E Os alimentos podem ser símbolos de cultura, identidade e tradição, sendo sua escolha e consumo frequentemente associados a significados além de sua nutrição. A alternativa E está correta. A frase evidencia que a alimentação vai muito além de um ato biológico ou de simples ingestão de nutrientes. Ela envolve também dimensões simbólicas, afetivas, culturais e sociais. O imaginário: as angústias do comedor moderno Como diz Ferrières (2002), além do medo de que falte comida, existe o medo de comer uma comida que esteja contaminada ou apodrecida e possa afetar negativamente a saúde. A autora traz no livro A História dos medos alimentares um histórico desde a Idade Média das angústias relativas àquilo que vamos incorporar ao nosso corpo. Por conta disso, no Ocidente, desenvolveu-se pouco a pouco um controle sanitário sobre o processo de produção dos alimentos. Fischler (1990) afirma que o ato de comer é muito íntimo e, mesmo que seja fonte de prazer, ele também traz medo e ansiedade no tocante à ingestão dos mais variados itens. Na realidade, a ciência e todos os processos controlados da produção de alimentos nas granjas e fazendas, nos abatedouros e nas plantações, nas indústrias e na distribuição geraram uma sensação de segurança no consumidor. No entanto, essa confiança foi quebrada com a doença da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina), que surge na Inglaterra por volta de 1985 (Poulain apud Dória, 2015). Essa doença ataca o sistema nervoso central e mata os animais. A origem da doença se deu por conta dos restos de carcaças de mamíferos que entravam na composição da ração que era dada aos animais, submetendo os herbívoros a uma espécie de canibalismo. Na França, essa suspeita recaiu sobre todos os tipos de carnes bovinas e seus derivados. Para conter a doença, milhares de animais foram sacrificados. Temia-se que a doença fosse transmitidaaos humanos e a outros animais. A utopia da segurança em relação ao que comemos foi abalada e gerou ansiedade e medo em relação à qualidade dos alimentos. Por outro lado, por conta da globalização que permite uma circulação sem precedentes de mercadorias e pessoas, os fatores de risco se multiplicam, como declara Proença (2010). Os riscos são de contaminação por microrganismos, problemas na manipulação e na conservação dos alimentos, introdução acidental ou voluntária de substâncias tóxicas, excesso de agrotóxicos etc. Aqui no Brasil, vimos leite contaminado com formol (Ilha, 2013), suco à base de soja com soda cáustica (Vigilância, 2013) e um aumento no número de agrotóxicos liberados para utilização em 2020 (Leite, 2020). Isso sem falar nos transgênicos que são uma grande ameaça à biodiversidade (Oliveira, 2016). Também nos preocupamos com a quantidade de hormônios que os animais consomem e que efeitos isso pode ter na nossa saúde, e o assombroso consumo de antibióticos pelo gado bovino. Avião pulverizando plantação com agrotóxicos. Você viu que existem riscos reais à nossa saúde causados pelos alimentos nas mais variadas fases da produção, mas se somam a essas outras questões que só aumentam a ansiedade do comedor. Além desses riscos biológicos, questões de ordem ética nos preocupam. Nós nos preocupamos com a forma como os alimentos que comemos foram obtidos, isto é, se houve agressão ao meio ambiente ou aos trabalhadores envolvidos no processo. Questões de sustentabilidade ambiental e econômica nos dizem respeito. Pelo surgimento de uma solidariedade entre espécies, não queremos que os animais que nos servem de comida sejam tratados com violência ou desprezo. Por conta disso, surgiram novas ideologias alimentares, como, por exemplo, o slow food. Esse movimento, fundado pelo italiano Carlos Petrini em 1986, acredita que o homem, ao comer, afeta seu meio ambiente e social e que é necessário se conscientizar e agir em consequência disso para que esses impactos sejam benéficos. Para isso, ao contrário do fast food, é necessário ter prazer ao comer degustando o alimento com consciência, consumir produtos artesanais, de preferência que sejam fruto do trabalho de produtores locais e que, nesse processo, sejam respeitados o meio ambiente e os trabalhadores envolvidos na produção (Movimento, 2007). Símbolo do movimento Slow Food. Não podemos esquecer do medo de engordar, de desenvolver doenças mesmo que os alimentos não estejam contaminados: somente sua composição já pode nos assustar. Tudo isso levou a uma medicalização da nutrição, como já comentamos. Outro dilema que o comedor enfrenta é a escolha do que comer. A quantidade de opções de itens, de ideologias alimentares, de produtos light, diet, orgânicos, sem glúten, sem lactose, fat free disponíveis atualmente para o comedor são enormes (Verthhein; Medina, 2015). Em busca do corpo perfeito e, sendo agora o responsável pela saúde e pelas decisões sobre o que comer para atingir esses objetivos, o comedor tem cada vez mais angústias, medos, preocupações e culpas. Neste vídeo, vamos entender as angústias do comedor moderno. É importante compreender os medos alimentares atuais (como medo de contaminação, agrotóxicos, transgênicos) que afetam o comportamento do consumidor. O profissional de nutrição deve estar preparado para dialogar com esses medos e oferecer orientações baseadas em ciência e empatia. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 5 Qual das alternativas a seguir melhor descreve a filosofia do slow food, proposta por Carlos Petrini em 1986? A O movimento slow food enfatiza a rapidez na preparação dos alimentos e o consumo de fast food, como uma forma de facilitar a vida moderna. B O slow food propõe que os indivíduos devem consumir alimentos de forma rápida e sem pensar nos impactos ambientais ou sociais. C O slow food propõe o consumo consciente dos alimentos, devendo considerar os impactos ambientais e sociais, de forma que esses impactos sejam benéficos. D O movimento slow food defende o consumo de alimentos processados e industrializados, pois acredita que são mais eficientes e sustentáveis. E O slow food promove uma alimentação que ignora os impactos ambientais e sociais, focando apenas na conveniência e no baixo custo dos alimentos. A alternativa C está correta. O movimento slow food surgiu como uma resposta crítica à crescente cultura do fast food e à padronização alimentar imposta pela globalização. Sua filosofia vai muito além do simples ato de comer, pois ela propõe uma relação mais consciente, responsável e prazerosa com os alimentos, valorizando a qualidade, a sustentabilidade e o respeito às culturas alimentares locais. Caso prático Imagine que você é um estudante de nutrição que está investigando os hábitos alimentares de diferentes grupos culturais para entender como as práticas alimentares variam de acordo com fatores socioculturais, econômicos e ambientais. Durante um estágio de pesquisa em uma comunidade rural da Índia, você observa que as pessoas, tradicionalmente, fazem suas refeições utilizando as mãos, especialmente durante encontros familiares. Este hábito é considerado uma expressão cultural, carregada de significados, e o contato direto com o alimento simboliza respeito, conexão espiritual e valorização dos sentidos no ato de comer. Nessa comunidade, as refeições são momentos coletivos e rituais de convívio social, frequentemente realizados no chão, em torno de grandes travessas compartilhadas por todos. Já em uma cidade dos Estados Unidos, você percebe práticas bem distintas. As refeições geralmente ocorrem em ambientes mais formais, como restaurantes ou cafés, e o uso de talheres é a norma, refletindo uma preocupação social com higiene, etiqueta e formalidade. A dinâmica alimentar tende a ser mais individualizada, com pessoas comendo sozinhas ou em pequenos grupos, muitas vezes em horários irregulares e em locais de passagem. Além disso, observa-se uma forte presença de alimentos industrializados, refeições rápidas e uma cultura alimentar que valoriza a praticidade devido ao estilo de vida acelerado. Essas diferenças chamam atenção para o quanto os hábitos alimentares estão intrinsecamente ligados às dimensões socioculturais de cada sociedade. Os elementos como religiosidade, valores comunitários, urbanização e ritmo de vida moldam a maneira como as pessoas se relacionam com o alimento. Enquanto na Índia rural a refeição é um ato comunitário que reforça laços familiares e culturais, no contexto urbano dos Estados Unidos, a alimentação parece integrar uma lógica mais individualista e funcional, associada à eficiência e à mobilidade. Com essas observações em mãos, você se depara com o desafio de interpretar como os modos de comer expressam, mais do que preferências alimentares, visões de mundo, tradições históricas e formas de organização social. Questão 1 Com base no caso apresentado, como os hábitos alimentares observados na comunidade rural indiana e na cidade ocidental refletem diferentes dimensões socioculturais? A Na Índia, a alimentação individualizada é mais comum, enquanto nos Estados Unidos as refeições são feitas de preparadas e consumidas em conjunto. B Na Índia, o ato de comer com as mãos reflete uma tradição cultural que valoriza a coletividade e a simplicidade, enquanto nos Estados Unidos o uso de talheres é uma prática associada a normas de higiene e formalidade social. C Nos Estados Unidos, todos comem de forma coletiva, mas durante festividades, e na Índia a alimentação é individualizada durante as festividades. D Na Índia e nos Estados Unidos, as práticas alimentares são similares, ambos priorizam a alimentação individual em ambientes familiares, raramente a experiência é coletiva. E As práticas alimentares na Índia e nos Estados Unidos são diferentes, porém irrelevantes para a análise de dimensões socioculturais. A alternativa B está correta. Os hábitos alimentares são fortemente influenciados pelasdimensões socioculturais de cada sociedade. Na comunidade rural indiana, por exemplo, o ato de comer com as mãos não é visto como falta de higiene, mas como uma prática culturalmente enraizada que expressa conexão com o alimento, valorização da simplicidade, da espiritualidade e da coletividade. Comer com as mãos, para muitos indianos, representa um ato sensorial que envolve o tato como parte da experiência alimentar. Questão 2 De que forma as práticas alimentares observadas nesse caso estão relacionadas aos "modos à mesa", um conceito importante na antropologia da alimentação? A O conceito de "modos à mesa" está diretamente ligado à forma como as refeições são preparadas, mais do que como são consumidas. B Os "modos à mesa" refletem a escolha de alimentos, sem considerar os utensílios usados para comer ou a dinâmica social ao redor da mesa. C Os "modos à mesa" envolvem práticas alimentares que variam de acordo com os utensílios usados, o ambiente de consumo e a interação social durante as refeições, variando entre diferentes culturas e contextos. D Os "modos à mesa" dizem respeito ao ambiente em que os alimentos são preparados, assim como os ingredientes utilizados e a que cultura pertencem. E A prática de comer com as mãos na Índia e o uso de talheres nos Estados Unidos não refletem similaridades nos "modos à mesa", com diferenças restritas à cultura. A alternativa C está correta. Na antropologia da alimentação, o conceito de "modos à mesa" refere-se ao conjunto de normas, práticas e significados que orientam como os alimentos são consumidos em diferentes culturas. Isso inclui o uso de utensílios (como mãos, talheres, hashis); postura corporal à mesa (sentado no chão, à mesa, em pé); ambiente em que se come (coletivo ou individual, formal ou informal); regras sociais que regem o ato de comer (quem serve, quem come primeiro, se há divisão de alimentos etc.); e relações de gênero, idade e hierarquia que podem influenciar a dinâmica das refeições. Questão 3 Cite duas diferenças culturais nos hábitos alimentares entre essas duas realidades e considere outros aspectos que não foram citados no caso. Chave de resposta Na Índia, especialmente em comunidades tradicionais, há um forte consumo de pratos vegetarianos devido a influências religiosas (como o hinduísmo), enquanto nos Estados Unidos a dieta tende a ser mais rica em carnes e alimentos ultraprocessados. Outra diferença é a valorização do preparo caseiro na Índia, onde muitas refeições são feitas em casa com ingredientes frescos e temperos naturais, contrastando com a cultura norte-americana, que tem maior consumo de alimentos industrializados, fast food e refeições prontas, por conta do ritmo acelerado de vida. Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. 2. Identidade cultural Alimentação e identidade cultural Neste vídeo, vamos abordar a relação da alimentação com a identidade cultural. A identidade alimentar, assim como as demais, constrói-se por oposição. Pensamos sobre nós mesmos e nos reconhecemos como diferentes a partir do outro, daquele que pertence a outra cultura, isso é alteridade. O que comemos é uma fonte de pertencimento muito importante, dar exemplos de comidas típicas das diferentes regiões do Brasil. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Diante de tantas mudanças em relação à forma de comer, ao que comer, quando, onde, sozinho ou acompanhado, estabelecem-se questões relativas às identidades culturais individuais e coletivas. O que é a identidade cultural? Se pensarmos, por exemplo, em um indivíduo que pertença a uma sociedade tradicional, a sua identificação afirma seu pertencimento àquela etnia, ao seu gênero e à sua posição na família: pai, mãe, filho, todas essas sendo identidades culturais que variam de acordo com a sociedade. As obrigações e funções de pais e filhos são culturalmente construídas. O gênero também é uma construção cultural, ser mulher ou homem não significa a mesma coisa para todas as culturas. Mesmo em nossa sociedade, a forma como uma mulher e um homem constroem seus pertencimentos de gênero varia no tempo. Logo, a identidade cultural é algo que se transforma. Mulheres Como uma mulher se sentia mulher há 50 anos? Por meio da maternidade, das prendas domésticas e do cuidado com a família, a dita “mulher de cama e mesa”. E como as mulheres ocidentais se constroem atualmente? Mediante o estudo e sua carreira profissional. Elas têm menos filhos, ou os têm mais tarde, e isso quando os têm, pois a maternidade não é mais necessária para a construção do feminino. Expressões machistas como “encalhada” e “ficou para titia” não fazem mais nenhum sentido atualmente. Cultura É algo que está dentro e fora de nós, pois, quando nascemos, já existe uma sociedade, mesmo que ela esteja em constante transformação. Identidade cultural É um sentimento de pertencimento que é construído pelo indivíduo com base nos aspectos culturais de dada sociedade. Homens E quanto ao homem? Ele deixou de ser o provedor e o chefe de família e, consequentemente, perdeu seu poder sobre o destino de sua companheira. Atualmente, temos inversões dos papéis tradicionais: mulheres que trabalham e sustentam a família, enquanto os seus maridos cuidam da casa e dos filhos. Essas mudanças identitárias não são fáceis de serem absorvidas e alguns homens e mulheres ainda se questionam e ficam incômodos com essas novas atribuições. Nas sociedades contemporâneas, a questão da identidade cultural tem novas dimensões. Já que não necessariamente criamos pertencimentos com os membros das sociedades tradicionais, em uma sociedade complexa e fragmentada como a nossa, podemos pertencer aos mais variados grupos culturais e termos múltiplas identidades (Hall, 1999). Exemplo Pertencemos a uma etnia, temos um gênero, uma religião, uma determinada ideologia política, um hobby, como dança de salão, pertencemos a um lugar, a uma classe social etc. Criamos uma identificação com cada um desses grupos culturais. A identidade atual, além de subjetiva e, consequentemente, construída, é também fragmentada, múltipla e, muitas vezes, até contraditória. Quem nunca foi à missa pela manhã e comungou, depois recebeu um passe em uma sessão de espiritismo à tarde e incorporou um Orixá em um terreiro de candomblé à noite? As identidades culturais também não são fixas, pois não só mudamos nossos pertencimentos, como também alegamos diferentes identidades em diferentes situações. Em alguns casos, é possível enfatizar mais o gênero, a classe social ou o pertencimento étnico. Em uma situação de violência contra a mulher, sua identidade de gênero vai prevalecer. Já em caso de injúria racial, será o pertencimento étnico e, diante de injustiças sociais, prevalecerá o pertencimento de classe e/ou sua ideologia política. Mas você deve estar se perguntando: e o que a alimentação tem a ver com tudo isso? Pois bem, como você se sente brasileiro? Pelo fato de ter nascido no Brasil, pela nacionalidade? Com certeza, mas também porque fala português e tem um código corporal diferente dos europeus, por exemplo, nós nos tocamos o tempo todo. E à mesa, como você se sente brasileiro? Comendo feijão com arroz, algo que se come no Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí (Barbosa, 2007). Aquilo que comemos é uma fonte de pertencimento muito importante. Como nos ensina DaMatta: Comida não é apenas uma substância alimentar, mas é também um modo, um estilo e um jeito de alimentar-se. E o jeito de comer define não só aquilo que é ingerido, como também aquele que o ingere. (DaMatta, 1986) E as comidas típicas? Sul Se pensamos no sul do Brasil, logo nos vem à mente um suculento churrasco e um chimarrão. Norte Já o Norte nos remete a comidas como pato no tucupi e tacacá. Nordeste O Nordeste tanto nos faz pensar em carne de sol com baião de dois, como em todas aquelas comidas de origem africana. Nordeste Ou os com uma conotaçãoreligiosa, as comidas de santo caraterísticas da Bahia: acarajé, vatapá, caruru, xinxim de galinha, bobó de camarão etc. Mas essas comidas são consumidas no dia a dia? De maneira alguma! Geralmente, são consumidas em ocasiões festivas ou especiais. São preparações que foram escolhidas, de certa forma, para representar a identidade cultural daquele lugar. Então, come-se feijão — das mais variadas cores, segundo o local — com arroz, porque se é brasileiro, mas o pato no tucupi representa o pertencimento da região Norte. Mais do que hábitos e comportamentos alimentares, as cozinhas implicam formas de perceber e expressar determinado modo ou estilo de vida particular a determinado grupo. Assim, o que é colocado no prato serve para nutrir o corpo, mas também sinaliza um pertencimento, servindo como um código de reconhecimento social (Maciel, 2005). A identidade alimentar, assim como as demais, constrói-se por oposição. Sou brasileiro porque como feijoada e não insetos fritos. Assim como falo português e não chinês. Pensamos sobre nós mesmos e nos reconhecemos como diferentes a partir do outro, daquele que pertence à outra cultura (Silva, 2015). Chamamos de alteridade essa percepção que temos de nós mesmos como diferentes a partir da visão que temos dos outros. Ou, como dizem os antropólogos, do outro, que representa aquela sociedade que não é a minha. A alteridade se opõe à identidade cultural, ao mesmo tempo em que é fundamental na sua construção. O discurso da identidade não se confunde com o discurso das origens ou uma suposta autenticidade. Vamos pensar na feijoada, um prato que é reivindicado como um dos maiores representante da nossa identidade cultural alimentar. O feijão-preto e a mandioca da farofa são nativos das Américas, mas o porco, a couve, o arroz e a laranja são todos ingredientes exóticos no sentido literal da palavra, ou seja, aquilo que é estrangeiro, que não é nativo, mas isso não faz da feijoada um prato menos brasileiro. Assim como pimentões e os tomates são característicos da cozinha mediterrânea, mas são nativos das Américas e somente após as Grandes Navegações apareceram por lá (Maciel, 2005). A esse propósito, é curioso o papel da feijoada na construção da identidade nacional. Reza a lenda que a feijoada é uma invenção dos escravos a quem eram deixadas somente as partes menos nobres. Esse mito é difundido mesmo entre pesquisadores importantes sobre o tema. Câmara Cascudo (2004) já exalta a origem portuguesa da feijoada, comparando-a com pratos europeus feitos de carnes, legumes e favas, como os cozidos, o puchero e o cassoulet, este presente desde a Antiguidade. Ele também sinaliza na mesma obra que os escravos comiam de acordo com as posses do seu senhor, e que muitas das vezes nas fazendas era um punhado de farinha de mandioca com o caldo e uma laranja espremida por cima. Entretanto, foi Dória (2009) quem trouxe o tema ao debate recentemente. Ele argumenta que os escravizados, assim como os indígenas, eram povos subalternos, considerados coisas, como cabeças de gado — que, inclusive, viajavam de forma muito mais cômoda que os escravizados nos navios negreiros, ou tumbeiros, como também eram chamados. Eles não escolhiam o que iam comer, e muito menos criavam pratos. Classificar as carnes da feijoada com menos nobres também pode ser um equívoco, já que elas são consideradas iguarias em muitas culturas. Na França, existe um restaurante chamado Au Pied de Cochon (aos pés de porco, em tradução livre) que só serve pés de porco das mais variadas maneiras. Curiosidade Esse mito é muito interessante e defende uma causa muito nobre, que é a importância dos negros na formação da identidade cultural do Brasil. Entretanto, ele é construído com esse propósito e nega, dessa forma, as verdadeiras origens da feijoada, que são europeias. Mas, como vimos, a identidade cultural, por ser construída, é manipulável, que é o caso aqui. Ela é mutável, como já vimos, bem como é um produto histórico, produzida também no contato com culturas diferentes. Neste vídeo, vamos abordar a relação da alimentação com a identidade cultural. Como essa identidade é construída? Venha descobrir a resposta! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Atividade conceitual 1 Em diferentes culturas, a alimentação funciona como uma forma de expressar pertencimentos e marcar distinções sociais, regionais e históricas. A identidade cultural é construída e transformada ao longo do tempo. Com base nisso, qual alternativa expressa corretamente a relação entre alimentação e identidade cultural? A A identidade cultural é moldada pelas condições históricas e sociais, mas se mantém totalmente inalterada ao longo das gerações. B A alimentação participa da formação da identidade cultural, mas é um aspecto secundário em comparação com outros elementos sociais. C A feijoada é um símbolo cultural brasileiro que reforça a identidade nacional por sua história e adaptação, mesmo reunindo ingredientes de diversas origens. D A alteridade contribui para a percepção das diferenças culturais, ajudando a consolidar identidades a partir do contato com práticas alimentares distintas. E A alimentação expressa identidades culturais, sendo um dos meios pelos quais os indivíduos afirmam seus pertencimentos e diferenças em relação a outros grupos. A alternativa E está correta. A alimentação ultrapassa sua função biológica, atuando como um elemento simbólico na construção da identidade cultural. O que, como e com quem se come reflete valores, tradições e sentidos de pertencimento a determinados grupos. Assim, as práticas alimentares nutrem o corpo e diferenciam identidades culturais, demonstrando a construção histórica, social e simbólica dos hábitos alimentares. Comensalidade Compartilhamento da comida O que é a comensalidade? Certamente, você tem pelo menos uma ideia do que isso significa. Segundo Maciel (2011), o fato de comermos juntos é o que faz com que o ato de se nutrir se torne um evento social. A palavra companheiro vem do latim cum panem, que significa compartilhar o pão. Já a comensal vem de cum mensa, que significa compartilhar a mesa. A comensalidade refere-se àqueles que comem juntos. No entanto, mesmo se não existe uma mesa, existiria comensalidade. Câmara Cascudo (2004) nos conta que, assim como os indígenas, com esteiras no chão, os mais pobres também comiam no Brasil colonial. Luccock (1997), um cronista inglês, chama a atenção para o fato de que, mesmo em famílias mais abastadas, mulheres e crianças comiam da mesma forma nas alcovas, a parte íntima da casa. Os orientais também comem em tapetes, sentados no chão (Lima; Neto; Farias, 2015). Saiba mais Desde a Pré-História, os homens já se sentavam em torno de um fogo comum para comer e conversar. Desde então, sentar-se junto à mesa sempre foi sinal de boa paz. Durante a Idade Média, quando ainda não existiam estruturas políticas centralizadas, as refeições tomadas em conjunto e os banquetes que ocorriam, tanto entre os nobres como entre os aldeões, eram a melhor forma de se comunicar decisões e mudanças (Althoff, 1998). Também serviam para fundar e reafirmar laços sociais, por meio das trocas de refeições festivas. Os grupos formavam alianças de comprometimento mútuo que regulavam suas vidas em vários aspectos. Estamos falando da função social da refeição. Até os dias atuais, em torno de uma mesa ou em um coquetel, como os coffee breaks, faz-se todo o tipo de acordo, de aliança e de celebração. São estabelecidas relações de amizade, amorosas, mas também se fecham negócios e acordos políticos, nem tão diferente do que acontecia na Europa na Idade Média. O clima mais descontraído das refeições festivas e banquetes, no geral, regados a bebida alcoólica, facilita a conversa mais sincera. Daniel e Cravo (2015) acreditam que os conchavos políticos se dão também nos banquetes ou nos coquetéis, e não só nas câmaras ou nos palácios dos governos. As tribos germânicas discutiam questões importantes durante os banquetes, mas