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Simbologia dos alimentos
Você vai entender os aspectos simbólicos da alimentação e do significado dos alimentos nas diversas
culturas, um conhecimento essencial para profissionais em nutrição em diferentes áreas de atuação.
Profa. Laura Eugenia Perez Freitas
1. Itens iniciais
Objetivos
Reconhecer a importância do conhecimento sobre o simbolismo da alimentação.
 
Reconhecer a importância da identidade cultural na alimentação.
 
Descrever a influência dos significados simbólicos na alimentação.
Introdução
A identificação dos aspectos simbólicos, reais e imaginários da alimentação, assim como as crenças, nossos
valores e conceitos sobre alimentação se constroem desde a juventude e fazem parte da nossa vida. Por esse
motivo, para mudar comportamentos, o profissional da área da nutrição não pode ignorar os múltiplos
significados que os indivíduos atribuem aos alimentos e às suas práticas alimentares. 
 
O corpo-máquina construído pelo modelo mecanicista da ciência biomédica será pensado no âmbito do real
da alimentação. O imaginário da alimentação será explorado mediante as angústias dos comedores
contemporâneos em relação à comida. 
 
Vamos estudar a construção da identidade cultural a partir da alimentação, assim como a comensalidade e
seus múltiplos significados socioculturais. Aprofundaremos nos sentidos das práticas de alimentação em
diferentes momentos e na importância das comidas afetivas e das memórias gustativas. Veremos ainda, a
construção do gosto e como questões de gênero estão associadas à alimentação, assim como as relações
existentes entre comida e sexo, esses dois polos da sensibilidade e do prazer humano. 
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1. Simbólico da alimentação
Aspectos reais, simbólicos e imaginários da alimentação
Por que estudar história e antropologia da alimentação
Você, como estudante de nutrição, deve estar se perguntando que disciplina é essa e por que ela é
importante para sua formação. Então, antes de mais nada, vamos refletir sobre isso? Para entendermos
primeiramente o que é a antropologia da alimentação, começaremos falando sobre antropologia: o que vem a
ser esse conceito?
A antropologia é uma ciência social que surgiu no século XIX e que é fruto do neocolonialismo. 
O neocolonialismo, isto é, o novo colonialismo, está diretamente relacionado à Revolução Industrial e foi a
expansão imperialista das potências europeias no século XIX em direção à África e à Ásia.
Diante da crise de superprodução na Europa em função da descoberta da utilização da eletricidade e do
petróleo, esses países saíram em busca de novos mercados, matérias-primas e mão de obra. Segundo
Laplantine (2000), os colonos e viajantes começaram assim a acumular informações sobre os povos
considerados exóticos desses países e assim se organiza a disciplina que se propõe a estudar esses povos, a
antropologia.
A antropologia significa literalmente o
estudo do homem (a palavra vem do
grego anthropos, que significa homem,
e logos, que significa razão,
pensamento). A antropologia surgiu
com o intuito de compreender esse
homem exótico de forma global, ou
seja, sua arte, economia, religião, seu
pensamento, parentesco, sua
alimentação, cultura material etc.
 A antropologia cultural pode ser
definida como a ciência que
está interessada nos aspectos
culturais dos grupos e
sociedades e em suas
consequências no
comportamento individual e
coletivo. Sendo assim, ela
reflete sobre o ser humano,
principalmente, a partir do
conceito de cultura.
Índios Pataxó, Porto Seguro, Brasil.
Já a antropologia da alimentação, o que ela estuda?
Ela se ocupa justamente das dimensões culturais da alimentação. Para melhor compreender esse ponto,
vamos refletir primeiramente sobre a centralidade da alimentação em nossas vidas a partir de algumas
questões. Por que comemos? O que comemos? Como comemos e como preparamos os alimentos? Esta última
ideia de modalidade inclui também questões como: a que horas comemos? Com quem comemos? Onde
comemos?
É interessante observarmos que, se o homem em algum momento de sua história precisou lutar para
encontrar alimentos, atualmente ele enfrenta a balança: ele luta para não comer. A obesidade já é um
problema de saúde pública maior que a desnutrição. Se produzimos tantos alimentos quanto jamais o fizemos,
também convivemos, muitas vezes, com o desperdício e o consumo pletórico de alimentos, a fome e a
desnutrição.
Toda a arte da gastronomia é desenvolvida a partir do prazer e do desejo. Por outro lado, a alimentação está
ligada de outras formas à dimensão psicológica dos homens. Muitas vezes comemos, por exemplo, por
estarmos ansiosos ou tristes.
Reflexão
Quem nunca “assaltou” a geladeira exageradamente depois de um mau dia? Essa conexão entre
alimentação e a psicologia humana também pode ser percebida nos transtornos do comportamento
alimentar, tais como anorexia, bulimia e alimentação compulsiva. 
Ainda temos outros motivos para comer. Se não vemos algum amigo há muito tempo, o que fazemos? Se
queremos comemorar, festejar, o que fazemos?
Partilhamos a mesa com outros comensais em refeições que podem ser
mais ou menos festivas, a dita comensalidade, ou o ato de comermos
juntos. Na antropologia da alimentação, falamos em função social da
refeição.
Se pensamos no que comemos, alguns podem responder: comida! Mas será que todos consideram aquilo que
é potencialmente ingerível como comida?
Bife — Hinduísta
Um bife suculento é um horror tanto para um hinduísta quanto para um
budista, já que, para os hinduístas, a vaca é um animal sagrado e para os
budistas não devemos comer nenhum animal.
Necessidade física 
A primeira coisa que nos vem à cabeça
quando pensamos sobre o porquê de nos
alimentarmos é que o ato de se nutrir é uma
necessidade fisiológica primordial. Não é
surpreendente que a metáfora bíblica para a
sobrevivência seja “o pão nosso de cada dia”. A
alimentação também está diretamente ligada
à saúde humana, como nos diz a ciência
nutricional. Comer é uma necessidade, mas,
diferentemente de respirar, o homem precisa
buscar seus alimentos. 
Prazer 
No entanto, esse não é o único motivo
que nos leva a comer. Podemos refletir
também sobre a questão do gosto.
Conforme Carneiro (2003), a
alimentação está diretamente ligada ao
prazer; às associações que encontramos
entre a comida e o sexo nas mais
variadas culturas, pensando somente no
vocabulário, confirmando essa relação
entre comida, desejo e prazer. 
Larvas fritas — orientais e indígenas
Um punhado de larvas fritas pode parecer repugnante para alguns, mas é
uma iguaria para orientais, muitos indígenas brasileiros, peruanos,
mexicanos, entre outros. Os insetos são muito apreciados por alguns,
inclusive aqui no Brasil, com as farofas de tronco da formiga-saúva
tanajura, também conhecida como içá, mas são considerados nojentos
para outros.
Steak tartare — Franceses
Os americanos nunca se decidiram a comer os fofinhos coelhos,
enquanto os franceses adoram esses animais e ainda comem carne de
cavalo crua no steak tartare, assim como em alguns lugares da Itália,
onde não se dispensa um bom ragout de cavalo.
Todos esses exemplos demonstram que aquilo que é considerado comida varia enormemente de acordo com
o grupo dos indivíduos.
Os indivíduos distinguem-se por aquilo que comem. Nós nos diferenciamos de outros povos nesse quesito; em
sociedades divididas em classes como a nossa, as diferenças entre essas classes são criadas e mantidas por
meio do que se come, de como se come. A alimentação funciona a favor desse mecanismo de distinção,
desse modo de distinguir pessoas de classes sociais diferentes. 
Resumindo
O que comemos depende de muitos fatores. 
Em relação à última questão, como comemos e como preparamos os alimentos? Comemos todos do mesmo
jeito?
Evidentemente, não. Comemos certas coisas com garfos, facas ou colheres e outras com as mãos. Comemos
sentados em uma mesa com amigos ou familiares em nossa casa, ou em um restaurante, mas também
comemos solitários andando pela rua ou de frente para a TV ou para o computador.somente tomavam as decisões no dia
seguinte, quando estavam sóbrios (Althoff,
1998).
 No entanto, existem
exceções a essa regra
de estreitar relações
sociais em torno da
comida. Os balineses,
descritos por Geertz,
associam o ato de se
alimentar a algo próximo
da animalidade e, para
evitar constrangimentos,
comem somente
sozinhos.
Bruxelas, Bélgica. 9 de dezembro de
2019. Ministros das Relações Exteriores
no início de uma reunião com café da
manhã.
Atenção
Sentar-se à mesa também pode ser uma forma de demonstrar poder e afirmar hierarquias. Os lugares à
mesa demonstram isso. Quanto mais perto se está do anfitrião, maior a importância do convidado. Em
muitas casas, cada membro da família tem um lugar específico e imutável, que também afirma a
hierarquia dentro da família, com o pai e a mãe sentados nas cabeceiras da mesa. 
Mesmo se a generosidade e paz são pontos importantes quando comemos juntos, acontece de as festas e os
banquetes darem errado por conta de rixas entre seus membros. Elas podem ser frutos de problemas que se
pretendia justamente resolver com o banquete ou, como muitos de nós já vimos, brigas e desentendimentos
que ocorrem nas comemorações familiares. Quem nunca teve o peru de Natal amargo por uma discussão
entre aqueles primos que não se cruzam?
O compartilhamento da comida é tão importante que, mesmo em ocasiões nada festivas, é preciso pensar no
cardápio que será oferecido. Aqui no Brasil, onde ainda se velam os mortos em casa, café e guloseimas para
os presentes são obrigatórios. Nos Estados Unidos, após a cerimônia de sepultamento, a família sempre
oferece uma refeição aos que estavam presentes.
Atualmente, a comensalidade vem se transformando.
Você consegue fazer refeições com a sua família com frequência ou
sentar-se à mesa para fazer suas refeições? Quantas vezes comemos
na frente do computador ou da TV? Ou no transporte público e mesmo
na rua? Nós, brasileiros, valorizamos o momento da refeição em família.
Conforme Barbosa (2007), é a hora de pais e filhos conversarem e dos laços familiares se estreitarem. Mas
será que conseguimos fazer refeições diariamente em família? Muitas vezes, aos domingos, sim. Outras
somente no aniversário de alguém ou no Natal.
Há também uma tendência da alimentação contemporânea, que é a individualização. Por conta das rotinas
diferentes, do enfraquecimento da instituição familiar e de uma ideologia individualista, os membros de uma
família, mesmo estando juntos em casa, comem de forma separada (Barbosa, 2007).
Haveria uma individualização do momento da refeição, mas também do seu conteúdo. Na realidade brasileira,
mesmo se não se come junto, pois os horários de cada um são diferentes, a comida é a mesma para todos, no
geral. Isso porque, como já vimos, no geral, os brasileiros gostam do momento da refeição em família.
Já não almoçamos em casa com a família, mas a comensalidade pode ocorrer também de vez em
quando em casa, com amigos e familiares, na casa dos outros, em restaurantes, nos churrascos etc.
(Lima, 2015). Nosso estilo de vida, sobretudo nas grandes cidades, faz com que estejamos sempre
correndo, mas a comensalidade toma novos formatos, mantendo sua função social.
As formas de se comportar à mesa também são muito importantes. Mesmo se essas regras sociais não
fizerem parte das leis, não as respeitar, ou não as conhecer pode causar muitos problemas. Vamos supor que
você vá jantar com uma pessoa em quem esteja interessado. Você percebe rapidamente que essa pessoa não
só mastiga com a boca aberta, como também arrota à mesa. Bom, ela pode ser muito interessante e atraente,
mas com certeza esse comportamento vai esfriar o seu interesse, ou mesmo acabar com ele. Resulta que, se
alguém não sabe se comportar à mesa, certamente será colocado em uma situação de isolamento social.
Quando nos sentamos para comer em algum lugar fora de casa, estando ou não acompanhados,
involuntariamente observamos o comportamento dos outros durante a refeição e fazemos julgamentos de
valor sobre sua educação, seu grau de instrução e seu pertencimento de classe. Vimos que as diferentes
classes sociais criam e afirmam suas diferenças por meio do que se come e de como se come.
A história das regras de comportamento à mesa está estreitamente ligada à das boas maneiras em
sociedade.
(Romagnoli, 1998).
Se, atualmente, somente comemos com as mãos sanduíches, lanches, frutas e algumas preparações como
frango à passarinho, comer com as mãos foi a única forma de comer até pelo menos o século XIV, quando os
talheres eram usados em algumas cidades italianas. Somente no século XVIII os talheres se popularizaram na
Europa, e aqui no Brasil só quase no século XX.
Curiosidade
No Brasil, era comum — ainda é em alguns locais — o capitão, um bolinho feito de feijão-de-corda
amassado com farinha. Originário do Nordeste, era uma comida fácil de ser carregada em pequenas ou
grandes viagens ou levada para a roça. Como foi dito, em muitos lugares do mundo, ainda se come com
a mão (Câmara Cascudo, 2004). 
Os modos à mesa na durante os meados da Idade Média na Europa seriam considerados por nós apavorantes
atualmente.
Os convivas urinavam na sala de jantar, assoavam o nariz na toalha e não se constrangiam com suas
flatulências, como diz O Livro do Homem Civilizado, de Daniel de Beccles, um dos primeiros livros
sobre etiqueta que data de aproximadamente o final do século XII.
Os pratos, que podiam ser uma fatia de pão, eram compartilhados, assim com os copos.
Não existia sequer um local apropriado para a refeição nos castelos. Uma mesa sobre cavaletes era
trazida para o local escolhido, o que deu origem ao que falamos atualmente “botar a mesa”. A
preocupação com as boas maneiras à mesa iniciaram por volta do século XII, em um caminho que
durou vários séculos.
As formas de comer, a ordem dos pratos, aquilo que é considerado importante ou trivial para a refeição variam
de acordo com as diferentes culturas. No Japão, o que caracteriza a refeição é o arroz, enquanto no sul da
Índia é o pão que cumpre esse papel. Até a temperatura pode ser importante na definição de uma refeição.
Quantas vezes comemos uma salada, que pode até ser feita de massa, e chegamos ao fim do dia sem a
sensação de ter comido de verdade?
O processo de consumo e até de preparo dos alimentos obedece a certas regras. Já comentamos sobre como
os pratos têm certa ordem durante a refeição segundo os significados que lhes atribuímos. Podemos dizer
também que esse processo é altamente ritualizado. O ritual remete a um conjunto de ações que devem ser
feitas de maneira específica para que se atinja dado objetivo.
O que, quando, onde, por que, a sequência dos pratos servidos, o tempo, o modo de preparo, quem
prepara, os acompanhamentos e os comensais. Esses são elementos que constituem a ritualização à
mesa e dão os significados a essa prática social.
(Stefanitti et al., 2018).
Os rituais religiosos, como, por exemplo, uma missa católica ou uma iniciação no candomblé, devem seguir um
passo a passo minuciosamente para que o indivíduo saia purificado da missa, ou seja iniciado no candomblé.
O mesmo ocorre à mesa. Para que o comensal esteja ao final da refeição bem alimentado e feliz, os gestos, a
sequência dos pratos, sua combinação devem ser colocados nos seus devidos lugares. Como falamos sobre a
comida como linguagem, a frase e o texto serão incompreensíveis se as letras e palavras não estiverem no
lugar certo.
Neste vídeo, vamos abordar a comensalidade e os seus aspectos. A comensalidade destaca o comer como
ato social, pois alimentar-se junto fortalece laços afetivos e identitários. Entender isso é essencial para lidar
com contextos familiares, escolares ou institucionais de alimentação.
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Conteúdo interativo
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Atividade conceitual 2
Leia o trecho da música de Gonzaguinha:
Dez entre dez brasileiros preferem feijão
Esse sabor bem Brasil
Verdadeiro fator de união da família
Esse sabor de aventura
O famoso Pretão Maravilha
Faz mais feliza mamãe, o papai
O filhinho e a filha.
 
(O preto que satisfaz (Feijão Maravilha), de Gonzaguinha, 1978)
 
Essa estrofe faz alusão a quais conceitos, respectivamente?
A Comensalidade e modos à mesa.
B Comensalidade e identidade cultural.
C Identidade cultural e modos à mesa.
D Identidade cultural e comensalidade.
E Identidade social e modos à mesa.
A alternativa D está correta.
Os dois primeiros versos falam sobre a preferência dos brasileiros em relação ao feijão e como ele é "um
sabor bem Brasil", o que faz referência à importância do feijão na construção da identidade cultural do
brasileiro. Já a terceira estrofe fala sobre a união da família ao comerem juntos o feijão, portanto, refere-se
à comensalidade.
Caso prático
Imagine que você é
um estudante de
nutrição e está
realizando uma
pesquisa sobre a
construção da
identidade
alimentar brasileira,
com foco na
feijoada, um prato
tradicionalmente
associado à cultura
nacional. Durante o
processo de
pesquisa, você
identifica que a
feijoada é
composta por uma
interessante
combinação de
ingredientes de
diferentes origens.
O feijão-preto,
ingrediente
principal, é nativo
das Américas,
enquanto outros
componentes,
como a carne suína,
a couve, o arroz e a
laranja, são de
origem europeia e
africana.
 A identidade
alimentar não
está
necessariamente
vinculada à
origem dos
ingredientes de
forma isolada,
mas sim à
maneira como
esses
ingredientes
são
incorporados e
ressignificados
em um
determinado
contexto
cultural. No
caso da
feijoada, ela é o
resultado de um
processo de
adaptação,
apropriação
cultural e a
criação de algo
novo e
autenticamente
brasileiro, e não
simplesmente a
soma de
produtos de
diferentes
continentes.
 Em sua pesquisa,
você também
observa que a
feijoada carrega
valores simbólicos,
pois ela é muitas
vezes associada à
festividade e ao
espírito
comunitário. É um
prato que,
tradicionalmente,
agrega pessoas ao
seu redor,
reforçando
sentimentos de
identidade coletiva
e pertencimento.
Esse processo é
um exemplo
concreto de como
a culinária se torna
uma expressão
cultural complexa,
em que práticas
alimentares
revelam processos
históricos de
colonização,
escravidão e
mestiçagem que
marcaram a
formação do Brasil.
 A análise da
feijoada
evidencia que o
conceito de
"autenticidade"
cultural vai
além da pureza
dos
ingredientes.
Ele se constrói
a partir de
histórias
compartilhadas,
práticas sociais
e
ressignificações
constantes.
Assim, o prato é
uma
representação
legítima da
diversidade e
da riqueza
cultural
brasileira,
servindo como
um excelente
exemplo para
entender o
conceito de
alteridade e a
formação de
identidades
alimentares.
Questão 1
Com base no caso apresentado, de acordo com o conceito de alteridade, como a feijoada pode ser vista como
parte da identidade cultural brasileira, apesar de incluir ingredientes que não são nativos do Brasil?
A A feijoada não pode ser considerada parte da identidade brasileira, pois seus ingredientes são
majoritariamente estrangeiros.
BA feijoada é uma construção cultural que reflete a adaptação e a mistura de diferentes influências ao
longo do tempo, o que a torna uma representação legítima da identidade alimentar brasileira.
C A feijoada tem sua associação com o Brasil equivocada, pois hoje a globalização apagou os traços
culturais dos países, sendo uma comida global.
D A feijoada é uma receita de origem portuguesa que, por ter sido adaptada ao gosto brasileiro, perde
sua identidade cultural.
E
A feijoada é um prato tradicional da cozinha africana, e sua associação com o Brasil é um erro
histórico.
A alternativa B está correta.
De acordo com o conceito de alteridade, a feijoada pode ser entendida como um exemplo de construção
identitária por meio da mistura de culturas. Embora a feijoada inclua ingredientes que não são nativos do
Brasil, como o feijão preto (de origem americana), cortes suínos (tradição europeia/portuguesa) e técnicas
de preparo ligadas à população escravizada de origem africana, ela foi ressignificada no contexto brasileiro.
Questão 2
Como a feijoada e outros pratos tradicionais ajudam a distinguir a cultura brasileira de outras culturas, de
acordo com a percepção de "outros" (alteridade)?
A
A feijoada é um exemplo de como um prato tradicional brasileiro pode ser visto como um reflexo da
alteridade, marcando uma diferença cultural em relação a outras identidades alimentares, como as de
países africanos ou europeus.
B A feijoada, assim como outros pratos típicos, ajuda a reforçar a identidade brasileira ao ser vista como
algo exclusivo, distante de outras culturas, como a de países europeus ou asiáticos.
C A feijoada não tem relação com a construção da identidade brasileira, já que é um prato que poderia
facilmente ser adaptado por outras culturas.
D A feijoada representa uma fusão de ingredientes estrangeiros sem conexão com outra identidade
cultural brasileira.
E A feijoada é um prato mundialmente reconhecido e consumido, e por isso não possui ligação direta com
a identidade cultural brasileira.
A alternativa A está correta.
A identidade alimentar é construída a partir da alteridade, ou seja, pela oposição a outras culturas.
A feijoada é um prato que, apesar de ter influências de várias culturas (como a portuguesa, africana e
indígena), foi apropriado e transformado dentro do contexto brasileiro, refletindo o processo de
miscigenação cultural. Esse prato não só representa a diversidade cultural do Brasil, como também serve
como um marco da identidade brasileira quando comparado a outras identidades alimentares de diferentes
partes do mundo.
Questão 3
Indique outro prato típico brasileiro que também represente essa mistura de influências culturais e explique,
de forma breve, como ele reflete a diversidade da culinária brasileira.
Chave de resposta
O acarajé, prato típico da Bahia, é um exemplo. Ele combina ingredientes de origem africana, como o
feijão-fradinho e o azeite de dendê, com técnicas culinárias que foram adaptadas no Brasil. O acarajé
reflete a influência das religiões de matriz africana e da cultura afro-brasileira, mostrando como a culinária
nacional é resultado da fusão entre culturas e como a identidade alimentar brasileira foi construída a partir
dessa diversidade.
Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. 
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3. Significados simbólicos
Comida afetiva e memória gustativa
Os sentimentos atrelados ao alimento
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O que são as comidas afetivas?
De acordo com Garcia (1997), sabemos que a comida, por ter como ponto de partida o universo doméstico de
cada um, tem significados afetivos. Mesmo os mais desgarrados têm lembranças relacionadas a momentos de
refeições em família e/ou de pratos para ocasiões especiais ou para o almoço de domingo que eram feitos por
uma tia ou uma avó.
A história pessoal ilustra bem a questão das comidas afetivas e da memória gustativa. Essa memória
é aquela que surge muitas vezes involuntariamente quando sentimos um gosto ou um cheiro que nos
remete ao passado (Corção, s.d.). Por um instante, aquela sensação nos faz voltar a um momento
familiar e promove uma verdadeira viagem no tempo. Viagem para o acolhimento que proporciona
uma refeição em família ou o carinho gostoso que foi feito só para agradar.
Na atualidade, podemos nos perguntar que memórias serão guardadas das comidas afetivas no futuro e quem
vai saber fazer as receitas de família. Com a correria do dia a dia, a mãe ou a avó não tem mais tempo para
cozinhar para a família. Então, elas lançam mão de todo os aparelhos eletrônicos, de comidas prontas e
semiprontas, comidas delivery e tudo que possa facilitar suas vidas e alimentar as famílias. Ora, sabemos que,
em um país como o Brasil, que tem uma desigualdade enorme, muitas mulheres passam seu tempo de folga
cozinhando o trivial para a família se alimentar quando ela está ausente.
Nesses casos, aquela receita especial dafamília será talvez perdida. Se considerarmos que as tradições
culinárias de um povo são fundamentais para a sua identidade cultural, esse saber fazer torna-se um
patrimônio imaterial daquela sociedade. Já temos desde o ano de 2000 um livro de Registro de Patrimônios
Imateriais do IPHAN, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Até então, somente se podia
tombar patrimônios culturais materiais.
Curiosidade
O modo tradicional de fazer o acarajé baiano foi o primeiro inscrito nesse livro em 2005. O esforço para
cozinhar e transmitir receitas para os seus descendentes é uma maneira de preservar as tradições e a
identidade cultural não somente de uma família, mas de um povo. 
Fique atento às receitas da família e, se puder, faça um livro de receitas. Um membro da família que vem a
falecer sem ter transmitido esses saberes é como um livro de receitas afetivas que se queima.
Por outro lado, essa perda de receitas vem se juntar a outra teoria sobre a alimentação contemporânea, a 
homogeneização do gosto. Essa teoria diz que, em um contexto de alto consumo de produtos industrializados
e comidas prontas, há uma tendência à pasteurização ou à homogeneização do gosto. Todas as salsichas de
uma lata têm o mesmo gosto, assim como todos os iogurtes daquele sabor e marca e todos os biscoitos de
um pacote. As lasanhas e pizzas prontas, as latas de feijoada, igualmente.
Essa realidade não se aplica ao caso brasileiro. Mesmo que haja um aumento no consumo de produtos
industrializados, ainda temos o hábito de comprar os ingredientes e fazer a comida em casa, na medida do
possível. Nós, no sentido contrário da pressão que a indústria e suas publicidades fazem, ainda temos uma
gramática tradicional da refeição: arroz, feijão, alguma proteína e algum legume ou verdura. Mesmo se
comermos fora, vamos buscar na maior parte das vezes um PF (prato feito) em um botequim ou uma comida
mais caseira em um restaurante a quilo.
Neste vídeo, vamos entender mais sobre a comida afetiva e a nutrição. Os alimentos ligados à infância e à
família carregam valores emocionais profundos. Portanto, mudar hábitos alimentares não é só uma questão
racional, envolve também emoção, história e afeto. A alimentação é uma forma de expressar quem somos, por
isso é essencial respeitar e valorizar as tradições alimentares, promovendo a saúde sem desconsiderar a
cultura.
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Atividade conceitual 1
Leia o trecho do texto Sabores de infância, descrito a seguir:
 
“Quando levou à boca a primeira garfada de “ratatouille” – um refogado de vegetais tradicional da França – o
crítico gastronômico Anton Ego até se esqueceu de que estava ali, à mesa, para avaliar o restaurante que
acabava de lhe servir aquele prato. De repente, aquele sabor fez o mundo parar, e ele pôde se sentir
novamente o menino que, depois das brincadeiras, chegava em casa para a refeição, ganhava um afago da
mãe e comia o “ratatouille” feito por ela com amor. De repente, ele não era mais um adulto ranzinza; era o
garoto protegido pelos carinhos culinários da mãe”.
 
AGUIAR, V. Sabores de infância: a comida que lembra os tempos de criança. São Paulo: Museu da Pessoa,
2016.
 
O texto faz referência a qual conceito?
A Construção social do gosto
B Função social da refeição
C Real da alimentação
D Memória social
E Memória gustativa
A alternativa E está correta.
As comidas afetivas são aquelas que resgatam sentimentos de aconchego e nostalgia, frequentemente
evocando lembranças de refeições preparadas por familiares (como avós, pais ou tias) em contextos como
festas, almoços de domingo ou datas comemorativas. Esses pratos, por mais simples que sejam, têm
uma forte carga simbólica e emocional, porque estão conectados ao afeto e às relações familiares. A
memória gustativa é justamente quando um sabor nos traz alguma lembrança forte.
A construção do gosto
Tipos de gosto
O gosto é algo bastante complexo. Já houve diferentes teorias sobre como ele funciona fisiologicamente. A
tese do mapa de língua durou do século XIX até o século XX. Segundo ela, diferentes regiões da língua
sentiam diferentes gostos, mas ela já foi desacreditada.
O gosto se dá em uma
interação entre as
substâncias do que
estamos comendo e os
botões gustativos que
cobrem a língua e o palato
mole. Além dos sabores que
já conhecemos, doce,
salgado, amargo e azedo,
temos o umami e o alcaçuz.
 O umami, um sabor definido pelos
japoneses, está presente no peixe, no
tomate e no queijo parmesão, mas ele não
tem uma equivalência na nossa cultura
alimentar, o que faz com que ele seja muito
difícil de descrever (Marques, 2015). Já o
alcaçuz é uma raiz de sabor forte com a
qual se faz um doce comum na Europa e,
na verdade, é outro nome da planta regaliz.
Saiba mais
No Portal Umami, há um passo a passo que ensina como reconhecer o sabor do umami. 
Atualmente, já se sabe que o sabor envolve o gosto, mas também os estímulos do cheiro, a percepção das
formas e a sensação tátil na boca. Comemos com os olhos também. Além de ser o principal determinante das
escolhas alimentares, o gosto também tem uma determinação genética. Há estudos que falam que até 40% do
paladar seria geneticamente determinado. Então, sim, a couve é mais amarga para uns do que para outros, e o
gosto do alho e do café também mudam (Donahue, 2018).
O gosto vai além do dado fisiológico. Ele é culturalmente construído. Aprendemos a comer determinadas
coisas, certas misturas desde pequenos, e vamos nos habituando a elas, mas o gosto também tem um
componente que é totalmente pessoal.
Neste vídeo, vamos apresentar a construção do gosto. O gosto não é apenas fisiológico, como também é
aprendido culturalmente. O profissional de nutrição precisa considerar que as preferências alimentares não
são fixas, pois é possível educar o paladar respeitando os limites culturais de cada indivíduo.
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Atividade conceitual 2
O gosto é uma sensação complexa que resulta da interação entre as substâncias dos alimentos e os botões
gustativos na língua e no palato mole. Qual das alternativas está correta sobre a teoria do gosto e as
descobertas recentes?
A A tese do mapa de língua, que defendia que diferentes regiões da língua sentem diferentes gostos,
ainda é aceita na ciência moderna.
B O gosto é uma sensação simples que se limita aos sabores doce, salgado, amargo e azedo.
C A percepção do gosto ocorre por meio da interação química dos alimentos com sensores da boca e
envolve mais sabores além dos tradicionais, como o umami.
D O alcaçuz é reconhecido como um dos principais sabores, sendo um sabor básico facilmente
percebido.
E O umami não pode ser considerado um sabor, estando presente apenas nas comidas orientais, como
no missô.
A alternativa C está correta.
A teoria do gosto moderna vai além da ideia simples de que o gosto se limita a quatro sabores básicos
(doce, salgado, amargo e azedo). Hoje, a ciência reconhece que o gosto é uma sensação complexa
resultante da interação entre as substâncias químicas dos alimentos e os botões gustativos na língua e no
palato mole. Recentemente, o umami foi reconhecido como um sabor básico, associado a alimentos ricos
em glutamato, como carnes e queijos curados. Esse sabor é descrito como um gosto "salgado" ou "de
carne", mas com uma qualidade distinta. Quanto ao alcaçuz, embora seja um sabor distinto e reconhecido,
ele não é considerado um sabor básico, mas é amplamente percebido em algumas experiências
alimentares.
Gênero e alimentação
Relações e o ato de se alimentar
As relações entre gênero e alimentação são velhas conhecidas de todos nós. A mulher sempre foi aquela,
desde a Pré-História, que cuida e prepara o alimento. Entre dois e quatro milhões de anos atrás, os homens
teriam inventado a divisão sexual do trabalho. Enquanto os homens caçavam, as mulheres coletavam,
cozinhavam e cuidavam das crianças (Carneiro, 2003).
Mesmo que muita coisa tenha mudado desde então,as mulheres continuam sendo as detentoras dos saberes
sobre as práticas culinárias. Já falamos sobre as receitas, um patrimônio imaterial, e como são transmitidas
sobretudo entre mulheres. Durante muito tempo, a cozinha foi considerada, e continua sendo atualmente, um
território feminino.
Assunção (2013) fez seu trabalho sobre alimentação e relações familiares no Morro do Caixa, uma
comunidade que fica na cidade de Tubarão, em Santa Catarina. Em um primeiro momento, as mulheres não
conseguiam compreender o porquê do interesse da pesquisadora em um tema tão banal. O que sugere, a
princípio, que esse assunto não é importante, a mesma forma de pensar de outras mulheres cinquenta anos
antes. Para as mulheres desse lugar, o cozinhar só faz sentido se a comida é feita para outra pessoa.
Conhecer as receitas e as preferências alimentares dos membros da família confere a essas mulheres certo
poder.
No entanto, enquanto as mulheres ficam com a barriga no fogão, o glamour da cozinha fica para os grandes
chefs, que são, na sua maioria, homens. Quando o assunto é cozinhar para a família cotidianamente, a tarefa é
monótona e repetitiva, mas, quando se trata de usar a criatividade, aí é a vez dos homens.
Dória (2012) nos conta que, já na Idade Média, a divisão tradicional do trabalho foi mudando. Na França, a
preparação de alimentos vai sendo passada para os homens. Claro que eles trabalham na rua vendendo seus
produtos, como os padeiros, os que fazem frios como presunto etc.
No século XIX, surge a figura do chef, profissão destinada aos homens, obviamente. Se temos atualmente
chefs mulheres famosas, os maiores entre eles seguem sendo homens. Na Idade Moderna, os homens são os
cozinheiros dos nobres, e são os que vão trabalhar nos restaurantes que surgem. Até os livros de culinária são
escritos por eles.
Atenção
O profissional da área de nutrição deve ter atenção e sempre procurar ter interlocução privilegiada com
as mulheres da família, pois ainda são elas que, na maior parte das vezes, ocupam-se da alimentação da
família. 
Outra questão relativa ao gênero é que as mulheres são as que tomam as decisões em casa sobre o que se vai
comer. Mas, no poder público, são sub-representadas, sendo os homens que tomam todas as decisões sobre
as políticas relacionadas aos alimentos, que dizem respeito diretamente às mulheres (Coelho, 2005).
Vamos terminar esta seção falando de enfermidades que são culturalmente localizadas e que afetam
sobretudo as mulheres: os transtornos do comportamento alimentar (TCA).
Esses transtornos estão ligados à autoimagem e se traduzem pelo medo excessivo de engordar. Eles
se desenvolvem sobretudo em mulheres jovens. Mesmo se essas doenças já existiam, sua incidência
tem aumentado muito (Oliveira; Hutz, 2010).
Gênero e tarefas domésticas 
As tarefas domésticas cotidianas das
mulheres foram durante muito tempo a maior
fonte de construção das identidades de
gênero femininas. No entanto, esse trabalho
ainda é desvalorizado e visto como algo
repetitivo e monótono. Mesmo nos dias
atuais, com as mulheres trabalhando em
tempo integral, elas ainda realizam a maior
parte das tarefas domésticas.
Orgulho na cozinha 
Demerteco (2015) analisa livros e
cadernos de receita de Curitiba na
primeira metade do século XX.
Ela comenta que as próprias mulheres
consideravam esses trabalhos como
pouco importantes, mas se sentiam
orgulhosas de preparar comidas
saborosas para sua família.
Há uma perversão em relação aos padrões de beleza do corpo feminino.
Como vimos, o sujeito é responsabilizado pela sua doença, em desconsideração a todos os demais fatores, e
“só é gordo quem quer” (Kraemer et al., 2014). Enquanto a indústria da beleza impulsiona a um ideal corporal
que sequer existe, pois muitas das imagens são manipuladas, a indústria alimentar faz produtos cada vez mais
calóricos, gordurosos e deliciosos.
Atenção
Os TCA são doenças graves, muitas vezes fatais, e que podem deixar sequelas. Podem fazer adoecer
toda uma família, tal qual a dependência química. São problemas que têm um componente cultural muito
forte e que são muito influenciados pela mídia. 
Neste vídeo, vamos abordar a correlação entre gênero e alimentação. A alimentação sempre esteve ligada às
relações de gênero. Reconhecer que as mulheres historicamente ocuparam o espaço da cozinha nos ajuda a
refletir sobre as dinâmicas familiares, a divisão de tarefas e a valorização do saber feminino na alimentação.
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Atividade conceitual 3
Leia o trecho do Ofício das Baianas de Acarajé, descrito no Livro dos Saberes:
 
Este bem cultural de natureza imaterial, inscrito no Livro dos Saberes em 2005, é uma prática tradicional de
produção e venda, em tabuleiro, das chamadas comidas de baiana, feitas com azeite de dendê e ligadas ao
culto dos orixás, amplamente disseminadas na cidade de Salvador, Bahia. Entre as comidas de baiana,
destaca-se o acarajé, bolinho de feijão-fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído em
um pilão de pedra (pedra de acarajé), temperado e, posteriormente, frito no azeite de dendê fervente. Sua
receita tem origens no Golfo do Benim, na África Ocidental, tendo sido trazida para o Brasil com a vinda de
escravos dessa região.
 
 IPHAN. Ofício das Baianas de Acarajé. Livro dos Saberes. Brasília, 2005.
 
Idade Média 
Na Idade Média e na Renascença, a opulência
corporal era sinônimo de opulência
econômica, e o corpo mais robusto era o mais
belo. Nessa época, os mais pobres tinham
muitas dificuldades em comer de forma
conveniente, logo eram magros e
considerados feios.
Atualmente 
Hoje em dia, quando há excesso de
alimentos, pelo menos em uma grande
parte da população o corpo belo é o
corpo magro. A mulher magra é
disciplinada, sabe se cuidar; enquanto as
obesas sofrem preconceito e são
consideradas relaxadas, sem força de
vontade.
O ofício das Baianas de Acarajé foi o primeiro patrimônio cultural imaterial a ser inscrito no Livro dos Saberes.
Uma comida tradicionalmente preparada por mulheres, o acarajé tem ligação com religiões de matriz africana.
Com base nisso, por que ele tem esse status?
A Porque o acarajé é uma comida afetiva para a maior parte dos baianos.
B Porque o acarajé é uma comida religiosa para a população da Bahia.
C Porque o acarajé faz alusão à construção do gênero feminino.
D Porque o acarajé faz parte das tradições e constrói a identidade cultural dos baianos.
E Porque o acarajé faz alusão à construção do gênero masculino.
A alternativa D está correta.
O que faz com que algo que faça parte da cultura material ou imaterial seja considerado um patrimônio
cultural é sua importância nas tradições e na identidade cultural de um povo. Já em relação ao gênero, as
mulheres atuam na alimentação das famílias, sendo frequentemente as principais responsáveis por planejar,
preparar e fornecer a comida. No caso das baianas, o preparo dos acarajés configura fonte de renda
historicamente importante para as mulheres, muitas delas mães solos. Apesar dessa responsabilidade, as
mulheres são subrepresentadas nas esferas políticas, especialmente em decisões relacionadas às políticas
alimentares no poder público. Essa desigualdade de gênero é observada quando se compara a importância
da mulher na alimentação familiar com sua marginalização nas decisões políticas sobre alimentação.
Comida e sexo
O prazer associado à alimentação
Em muitas línguas, o vocabulário relativo ao sexo e à alimentação se assemelha. Desde a inocente lua de mel
até o se lambuzar no ato sexual, as associações são muitas. Aqui no Brasil, o verbo comer refere-se também à
cópula, passando pelo “gostoso(a)”.
O vocabulário amoroso se entrelaça constantemente com o gastronômico [...] implícito nas expressões
“pele de pêssego”, “olhos amendoados” ou “cor de avelã”, “boca de cereja”, “lábios polpudos”, “formas
apetitosas”, sem esquecer a “lua de mel” que, tantas vezes, acaba com o “caldo entornado”.
(Nascimento apud Azevedo, 2017).
Não podemosesquecer as mais variadas mulheres frutas aqui no Brasil, que reforçam a associação entre sexo
e comida, o primeiro é fundamental para a sobrevivência da espécie e o outro imprescindível para a
sobrevivência do indivíduo. Duas necessidades banais e essenciais que estão do lado da reprodução
biológica. Os dois polos do prazer e do desejo. Talvez por isso mesmo tenhamos inventado um enorme
edifício simbólico para significar ambos com uma séria de regras, valores, crenças, preferências, rejeições,
medos.
Neste vídeo, vamos entender a relação do prazer associado à comida e ao sexo. A comida e o sexo são
experiências íntimas e culturalmente reguladas. Compreender essa associação permite que o profissional de
nutrição aborde questões como culpa, desejo e prazer alimentar, que influenciam diretamente o
comportamento alimentar do indivíduo.
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Atividade conceitual 4
A associação entre sexo e comida no Brasil está ligada a duas necessidades essenciais: a reprodução
biológica e a sobrevivência do indivíduo. O que essa associação simbólica representa para a cultura brasileira?
A A associação entre sexo e comida reflete uma necessidade fisiológica de prazer, carecendo de
significados culturais representativos.
BSexo e comida são representações simbólicas, cada uma relacionada a um conceito de prazer e desejo, e
ambas envoltas em um complexo conjunto de regras, valores, crenças, preferências, rejeições e medos.
C A relação entre sexo e comida deve ser evitada, pois envolve aspectos emocionais que não se
influenciam de forma clara.
D Sexo e comida são representações simbólicas que possuem relação na cultura brasileira, mas não em
outros países do mundo, em que o sexo é um tabu.
E No contexto brasileiro, a associação entre sexo e comida é vista como algo negativo e deve ser evitada
nas discussões culturais e sociais.
A alternativa B está correta.
A associação entre sexo e comida no Brasil vai além das necessidades
biológicas de reprodução e sobrevivência. Ambas as áreas são carregadas de significados simbólicos
profundos, sendo representações de prazer e desejo. Essas associações não se limitam ao aspecto
fisiológico, como também envolvem um complexo conjunto de normas culturais, que
incluem valores, crenças, preferências, medos e até tabus.
Caso prático
Um profissional de
nutrição está
conduzindo uma
pesquisa sobre os
hábitos alimentares
de famílias
brasileiras, com foco
específico na relação
entre comidas
afetivas e a memória
gustativa. Durante o
estudo, ele observa
que muitos lares
ainda preservam
tradições
alimentares
passadas de geração
para geração, como
o preparo de pratos
típicos das avós e a
realização de
almoços de domingo
em família. Esses
momentos reforçam
a ligação emocional
com determinados
alimentos, cujos
sabores e aromas
evocam lembranças
de infância,
momentos de
acolhimento e
vínculos familiares.
 O pesquisador
também percebe
uma transformação
significativa nas
práticas
alimentares
contemporâneas.
O ritmo acelerado
da vida moderna,
especialmente nas
áreas urbanas, tem
levado muitas
mulheres —
tradicionalmente
responsáveis pela
transmissão
dessas receitas —
a recorrerem com
mais frequência a
refeições prontas,
congelados ou
pedidos de
delivery. A pressão
do trabalho, o
pouco tempo
disponível e as
facilidades
oferecidas pela
tecnologia
contribuem para
que o ato de
cozinhar em casa
vá sendo deixado
de lado.
 Essa mudança de
comportamento
pode trazer
impactos profundos
na preservação da
memória alimentar
das futuras
gerações. A
ausência da prática
culinária tradicional
tende a enfraquecer
a transmissão oral
de receitas e
técnicas familiares,
rompendo o elo que
conecta a
alimentação ao
afeto, à identidade
cultural e à história
pessoal. Nesse
contexto, o
pesquisador se
questiona sobre
como as novas
gerações
vivenciarão a
experiência
alimentar: será que
os sabores do
passado
continuarão vivos
nas lembranças, ou
se perderão na
praticidade da vida
moderna?
 A sua
pesquisa
destaca a
importância
de
compreender
as comidas
afetivas não
apenas como
alimentos,
mas, sim,
como
patrimônios
culturais e
emocionais
que
carregam
valores,
histórias e
afetos —
elementos
fundamentais
para a
formação da
identidade
alimentar de
um povo.
Questão 1
Considerando o contexto apresentado no caso prático, como as comidas afetivas e a memória gustativa
podem ser impactadas pela mudança nos hábitos alimentares observada entre as famílias brasileiras?
A As comidas afetivas se tornam ainda mais valorizadas na sociedade moderna, pois a facilidade de acesso
a alimentos industrializados amplia o repertório de receitas tradicionais.
BMesmo com o uso crescente de refeições prontas, a memória gustativa permanece intacta, já que o ato
de comer, independentemente do alimento, é suficiente para preservar tradições familiares.
CA substituição de preparos caseiros por alimentos prontos pode comprometer a transmissão das receitas
familiares e enfraquecer a conexão emocional entre as gerações por meio de sabores e cheiros.
D A memória gustativa se fortalece com a modernização alimentar, pois novas receitas industriais são
rapidamente incorporadas como tradições familiares autênticas.
E
As mudanças nos hábitos alimentares não afetam a memória gustativa, uma vez que a alimentação
cotidiana não tem influência significativa sobre as tradições afetivas familiares.
A alternativa C está correta.
A memória gustativa está associada a experiências vividas, especialmente aquelas ligadas à preparação
artesanal de pratos e à convivência familiar. A modernização, ao incentivar o consumo de alimentos prontos
e reduzir o tempo dedicado à culinária caseira, pode prejudicar a continuidade dessas práticas e,
consequentemente, enfraquecer a transmissão das comidas afetivas, comprometendo a ligação emocional
que sabores e aromas tradicionais criam entre gerações.
Questão 2
Qual pode ser uma consequência cultural a longo prazo da substituição de receitas caseiras por alimentos
prontos e delivery nas famílias brasileiras?
A A possível perda de parte do patrimônio cultural alimentar, já que a transmissão de receitas
tradicionais fica comprometida.
B O fortalecimento das comidas afetivas, já que alimentos industrializados também conseguem criar
memórias emocionais duradouras com as novas gerações.
C O enriquecimento da tradição alimentar brasileira, pois a rapidez do dia a dia incentiva a criação de
novas receitas que preservam totalmente o vínculo afetivo familiar.
D A manutenção das receitas tradicionais sem alterações, pois o ritmo acelerado da vida moderna não
interfere no preparo caseiro de alimentos afetivos.
E A democratização do acesso às comidas afetivas, já que a tecnologia facilita o compartilhamento de
receitas antigas por meio de redes sociais e aplicativos.
A alternativa A está correta.
A substituição do preparo de receitas caseiras por opções industrializadas e de delivery, como observado
no caso prático, pode comprometer a transmissão das comidas afetivas e o fortalecimento das memórias
gustativas. A longo prazo, isso pode resultar na perda de tradições culinárias familiares e no
enfraquecimento da identidade alimentar que se constrói por meio dessas práticas afetivas. Assim, a
cultura alimentar corre o risco de se fragmentar, perdendo parte de seu valor simbólico e histórico.
Questão 3
Assinale uma estratégia eficaz para preservar as comidas afetivas e a memória gustativa diante das mudanças
nos hábitos alimentares modernos.
A
Incentivar o consumo de refeições prontas industrializadas, já que elas também podem ser associadas
a novos afetos familiares.
B Registrar as receitas tradicionais em livros de receita, vídeos ou plataformas digitais, promovendo a sua
prática e adaptação para a realidade contemporânea.
C Substituir totalmente as receitas antigas por pratos rápidos e modernos, adaptando a memória afetiva
exclusivamente à cultura do fast food.
D Priorizar apenas o registro escrito das receitas antigas, sem a necessidade de ensinar ou praticá-lasnas famílias.
E Estimular o abandono das receitas tradicionais em favor de pratos internacionais, para globalizar os
hábitos alimentares brasileiros.
A alternativa B está correta.
Para preservar a memória gustativa e as comidas afetivas em um contexto de vida moderna acelerada, é
importante adaptar a transmissão das tradições alimentares aos novos meios e rotinas. Registrar receitas
tradicionais em livros, vídeos e plataformas digitais pode assegurar a continuidade dessas práticas,
tornando possível que novas gerações tenham acesso às tradições, mesmo que o tempo disponível para
cozinhar tenha diminuído. Além disso, incentivar a prática, mesmo que adaptada à realidade atual, reforça
os laços afetivos e culturais criados em torno da comida.
Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. 
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4. Conclusão
Considerações finais
O que você aprendeu neste conteúdo?
• Além de ser um ato biológico, a alimentação é também um fenômeno cultural e histórico. O profissional de
nutrição deve abordar a alimentação em um contexto mais amplo, considerando fatores sociais, simbólicos e
afetivos que influenciam o comportamento alimentar.
 
• A antropologia permite compreender o ser humano de forma integral, inclusive como ele come, o que come
e por que come. Isso ajuda o profissional de nutrição a considerar as práticas alimentares tradicionais e
contemporâneas, respeitando a diversidade cultural dos indivíduos.
 
• A alimentação envolve o real (nutrição), o simbólico (valores culturais e crenças) e o imaginário (desejos e
medos). Essa compreensão é fundamental para o profissional de nutrição acolher melhor o paciente e propor
estratégias de educação alimentar mais eficazes e empáticas.
• Nem tudo o que é biologicamente comestível é culturalmente aceito. Entender essa distinção ajuda o
profissional de nutrição a trabalhar rejeições alimentares, tabus culturais e preferências alimentares dos
pacientes.
 
• É importante compreender os medos alimentares atuais (como medo de contaminação, agrotóxicos,
transgênicos) que afetam o comportamento do consumidor. O profissional de nutrição deve estar preparado
para dialogar com esses medos e oferecer orientações baseadas em ciência e empatia.
 
• A comensalidade destaca o comer como ato social, pois alimentar-se junto fortalece laços afetivos e
identitários. Entender isso ajuda a lidar com contextos familiares, escolares ou institucionais de alimentação.
 
• Os alimentos ligados à infância e à família carregam valores emocionais profundos. Portanto, mudar hábitos
alimentares não é só uma questão racional, envolve também emoção, história e afeto. 
 
• A alimentação é uma forma de expressar quem somos. Por isso, é necessário respeitar e valorizar as
tradições alimentares, promovendo a saúde sem desconsiderar a cultura.
• O gosto não é apenas fisiológico, é também aprendido culturalmente. O profissional de nutrição precisa
considerar que preferências alimentares não são fixas, e que é possível educar o paladar respeitando os
limites culturais de cada indivíduo.
 
• A alimentação sempre esteve ligada às relações de gênero. Reconhecer que as mulheres historicamente
ocuparam o espaço da cozinha nos ajuda a refletir sobre as dinâmicas familiares, a divisão de tarefas e a
valorização do saber feminino na alimentação.
 
• A comida e o sexo são experiências íntimas e culturalmente reguladas. Compreender essa associação
permite que o profissional de nutrição aborde questões como culpa, desejo e prazer alimentar, que
influenciam diretamente o comportamento alimentar do indivíduo.
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Pesquise na internet e assista aos seguintes documentários:
 
Programa Multiponto Alimentação, Cultura e Identidade, que se encontra no site do repositório digital da
UFRGS.
 
Comida e Afetos reunidos em um documentário, produzido pelo portal de jornalismo da ESPM.
 
Comida como cultura, uma reportagem especial que faz parte de um projeto desenvolvido no município de
Peritiba, que resgata culturas e modos de vida.
 
Leia as indicações:
 
DÓRIA, C. Flexionando o gênero: a subsunção do feminino no discurso moderno sobre o trabalho culinário.
Cadernos Pagu (39):251-271, 2012.
 
KRAEMER, F. et al. O discurso sobre a alimentação saudável como estratégia de biopoder. Rio de Janeiro:
Physis Revista de Saúde Coletiva, 24 (4): 1337-1359, 2014.
Referências
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História da Alimentação. 2. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. 
 
ASSUNÇÃO, V. Comida de mãe: notas sobre alimentação e relações familiares. In: XXVI Reunião Brasileira de
Antropologia, 2013, Porto Seguro, Bahia, Brasil.
 
AZEVEDO, E. Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos. Sociologias, Porto Alegre, v. 19, n. 44,
p. 276-30, jan./abr. 2017. 
 
BARBOSA, L. Feijão com arroz e arroz com feijão: o Brasil no prato dos brasileiros. Horizontes Antropológicos,
Porto Alegre, v. 13, n. 28, p. 87-116, jul./dez. 2007.
 
BOOG, M; ALVES, H. Representações sobre o consumo de frutas, verduras e legumes entre fruticultores de
zona rural. Rev. Nutr., Campinas, v. 21, n. 6, p. 705-715, nov./dez., 2008.
 
BUENO, E. Brasil: uma história. Cinco séculos de um país em construção. Rio de Janeiro: Leya, 2012.
 
CÂMARA CASCUDO, L. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004.
 
CARNEIRO, H. Comida e sociedade: uma história da alimentação. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
 
COELHO, C. História e antropologia da nutrição. Rio de Janeiro: SESES, 2015.
 
COIMBRA, C. Estudo de ecologia humana entre os Suruí do Parque Indígena Aripuanã, Rondônia. Aspectos
Alimentares. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, série Antropologia, v. 2, n. 1, p. 57-87, 1985.
 
CORÇÃO, M. Memória gustativa e identidades: de Proust à Cozinha Contemporânea. s.d.
 
CULTURA e Gastronomia. Dossiê Cultura e Gastronomia. Cult. São Paulo, 198, p. 16-18, fev. 2015.
 
DA MATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
 
DANIEL, J.; CRAVO. V. Valor Social e Cultural da Alimentação. In: CANESQUI, A. M.; GARCIA, R. W. D. (Org).
Antropologia e nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2005.
 
DEMERTECO, S. De mãe para filha: livros e cadernos de recitas familiares testemunham hábitos e afetos
femininos em torno da cozinha. Revista de História da Biblioteca Nacional. Decifrando o ato de comer. v. 10, n.
115, p. 34-35, 2015.
	Simbologia dos alimentos
	1. Itens iniciais
	Objetivos
	Introdução
	1. Simbólico da alimentação
	Aspectos reais, simbólicos e imaginários da alimentação
	Por que estudar história e antropologia da alimentação
	Reflexão
	Bife — Hinduísta
	Larvas fritas — orientais e indígenas
	Steak tartare — Franceses
	Resumindo
	Comentário
	Exemplo
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 1
	O real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan
	O real da alimentação
	Exemplo
	O simbólico da alimentação
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	O imaginário da alimentação
	Curiosidade
	Saiba mais
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 2
	O real: o corpo-máquina
	Mas por que com a proibição do incesto o homem “inventa” a cultura?
	Comentário
	Saiba mais
	Resumindo
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 3
	Na Espanha, desde sempre, o vinho é considerado um alimento nutritivo, tanto que ele é dado até para as crianças na forma de um refresco de vinho feito com água e açúcar. Veja uma conversa entre espanhóis:
	– Mas ela está sempre doente.
	– Claro, ela come pouco, não toma um copo de vinho, normal que sua saúde seja fraca.
	Quais aspectos dos alimentos estudados faz referência ao texto?
	Real, pois o vinho é considerado nutritivo por conta de polifenóis presentes na bebida que protegem a saúde do coração.
	Simbólico, pois a Espanha é uma grandeprodutora de vinho.
	Psicológico, pois o vinho altera o estado de consciência, causando embriaguez.
	Imaginário, pois o vinho é considerado nutritivo por esse povo, já que nutre o organismo.
	Os aspectos imaginários da alimentação atribuem significados aos alimentos amplamente compartilhados por um grupo cultural, como no caso do vinho para os espanhóis.
	O simbólico: os múltiplos significados dos alimentos
	Por que dispensamos toda uma quantidade de proteínas que a natureza nos oferece?
	Escargots
	Esquimós
	Carne
	Churrasco
	Saiba mais
	Brasil
	EUA
	França
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 4
	O imaginário: as angústias do comedor moderno
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 5
	Caso prático
	Conteúdo interativo
	2. Identidade cultural
	Alimentação e identidade cultural
	Conteúdo interativo
	Mulheres
	Homens
	Exemplo
	Sul
	Norte
	Nordeste
	Nordeste
	Curiosidade
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 1
	Comensalidade
	Compartilhamento da comida
	Saiba mais
	Atenção
	Curiosidade
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 2
	Caso prático
	Conteúdo interativo
	3. Significados simbólicos
	Comida afetiva e memória gustativa
	Os sentimentos atrelados ao alimento
	Conteúdo interativo
	Curiosidade
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 1
	A construção do gosto
	Tipos de gosto
	Saiba mais
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 2
	Gênero e alimentação
	Relações e o ato de se alimentar
	Atenção
	Atenção
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 3
	Comida e sexo
	O prazer associado à alimentação
	Conteúdo interativo
	Atividade conceitual 4
	Caso prático
	Conteúdo interativo
	4. Conclusão
	Considerações finais
	O que você aprendeu neste conteúdo?
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	ReferênciasMuitos orientais usam o hachi 
para comer e, em alguns
lugares da África, todos
comem com a mão no mesmo
prato. Em algumas
sociedades, come-se no chão;
em outras, homens, mulheres
e crianças não comem juntos,
nem ao mesmo tempo. Já em
alguns momentos e situações
na Antiguidade, comia-se
recostado.
 Come-se também de forma diferente
nos diferentes estratos sociais.
Podemos ter uma mesa simples onde
todos comem com colheres somente ou
com a mão, e uma outra com inúmeros
talheres, pratos e copos de todo os
tipos somente para uma refeição. Toda
essa parte relacionada à alimentação na
antropologia da alimentação é chamada
de modos à mesa, que variam
enormemente entre os povos e
sociedades.
Menina indiana comendo com a mão.
Podemos ver então que a alimentação é um ótimo caminho para pensarmos sobre o ser humano, uma vez que
ela engloba dimensões fisiológicas, psicológicas, socioculturais e econômicas.
Por este motivo, é que falamos em antropologia da alimentação.
A nutrição refere-se aos aspectos fisiológicos da alimentação, mas a alimentação vai além desses
aspectos. Os fenômenos ligados à alimentação vão além dos nutrientes, mesmo que sempre seja
estabelecido um diálogo entre as dimensões culturais e a nutrição.
E a história da alimentação? Não é necessário falar tão longamente sobre a disciplina de história, pois você já
a conhece bem, desde os seus primeiros anos de estudo. Por que estudar tudo isso?
Comentário
Quando você estiver diante de seu paciente, ou quando você for planejar o menu semanal de uma
escola, empresa ou de um hospital, você não estará diante de um aparelho digestivo, e sim de uma
pessoa que possui, além do seu histórico médico, uma história de vida, crenças e valores acerca dos
alimentos e da sua saúde, ou seja, uma pessoa que é um universo único. 
Para ser eficiente como um profissional da área da saúde, você deve compreender que quem está no centro
desse processo é o seu paciente ou seu público-alvo. As ações devem se adaptar aos pacientes para que haja
uma efetiva mudança de comportamento no sentido da promoção da saúde. A postura do nutricionista deve
ser sempre a de orientar, respeitando as particularidades culturais e pessoais dos indivíduos. O olhar sobre as
diferenças deve ser generoso e ético. 
Exemplo
Uma paciente vegetariana foi a um nutricionista procurando auxílio na fase de transição, porém o
nutricionista a desaconselhou sobre ser vegetariana. Ela foi embora bem chateada e procurou outro
profissional. Cabe a um nutricionista aconselhar seu paciente a não seguir determinada filosofia
alimentar pela qual ele já havia decidido? De modo algum! Nesse caso, ele também deveria aconselhar
sobre qual religião ou namorado a pessoa deveria escolher. O paciente vegetariano pode ser um desafio
para o nutricionista, mas cabe a ele orientá-lo dentro da sua escolha de maneira ética e comprometida. 
Neste vídeo, vamos abordar os aspectos simbólicos da alimentação, como dimensões culturais da
alimentação e a centralidade da alimentação em nossas vidas. Por que comemos? O que comemos? Como
comemos e como preparamos os alimentos? A que horas comemos? Com quem comemos? Onde comemos?
Assista para descobrir as respostas!
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Atividade conceitual 1
Qual das alternativas melhor descreve a relação entre a nutrição e a alimentação?
A A nutrição é exclusivamente científica e se preocupa apenas com os aspectos culturais relacionados
aos alimentos.
B A alimentação se limita ao consumo de nutrientes e não tem relação com aspectos culturais ou
sociais.
C A nutrição lida apenas com a digestão e absorção de nutrientes, enquanto a alimentação envolve
fatores culturais, sociais e psicológicos.
D A alimentação está restrita ao comportamento individual e não é influenciada por fatores externos
como cultura e tradição.
E A nutrição é responsável pela preparação dos alimentos, enquanto a alimentação se refere ao prazer
de comer.
A alternativa C está correta.
A nutrição é um campo da ciência que estuda os processos biológicos e fisiológicos relacionados à
ingestão, digestão, absorção, metabolismo e utilização dos nutrientes pelos organismos vivos. Ela busca
compreender como os alimentos influenciam a saúde, a prevenção de doenças e o funcionamento do corpo
humano. Já a alimentação é um conceito mais amplo, que vai além dos nutrientes e engloba os aspectos
culturais, sociais, econômicos, afetivos e psicológicos que envolvem o ato de comer. 
O real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan
Quando falamos em real, simbólico e imaginário da alimentação, estamos na realidade fazendo referência a
uma classificação que é oriunda da psicanálise de Lacan. Vamos explorar de forma bem suscinta e
simplificada o significado desses termos no pensamento do ilustre doutor. Grosso modo, de acordo com
Macarini (s.d.), que trata o assunto de modo compreensível, o real seria aquilo que descrevemos com
palavras, aquilo que existe antes de nós e que não depende de nós.
O simbólico será resultado da maneira como construímos e como isso vai moldar a forma com que nos
relacionamos com os demais. Interpretamos o mundo, as palavras, os sons, o que vemos, transformando-os
em símbolos que lhes atribuem significados. Esses termos são amplamente discutidos pela filosofia e por
outras ciências, como a antropologia e a história, além da psicanálise.
O real da alimentação
Refere-se a todos os aspectos relacionados à ciência da nutrição, ou seja, qual é a composição nutricional
desse alimento, como é obtido no processo de produção e suas consequências na saúde da população e dos
indivíduos. Mas o real também se refere às características ditas organolépticas do item alimentar ou da
preparação, ou seja, tudo aquilo que diz respeito a nossos sentidos, aparência, odor, textura e sabor.
Preparação 
Quando falamos em preparação, estamos
nos referindo a um prato preparado, que
pode tanto ser uma salada como um coelho
à caçadora. 
Item alimentar 
Já quando falamos de item alimentar,
pode ser uma fruta, um chocolate ou
um legume. 
Há quem vá se manifestar e dizer que comida real ou comida de verdade são alimentos in natura ou levemente
processados, como os que são adeptos do real food (Real, s.d.), uma tendência alimentar que preza por uma
alimentação saudável e pela sustentabilidade ambiental. Mas, de acordo com o significado que estamos
discutindo aqui, uma lata de sardinha ou um pacote de batatas fritas é tão real quanto uma fruta.
Exemplo
Vamos dar alguns exemplos sobre o real da alimentação. Uma salada é uma preparação que pode variar
nos seus ingredientes, mas a nossa salada é feita de folhas verdes como alface e rúcula, pepino sem
casca e pimentão verde cru e um molho caseiro de iogurte natural comum. É uma comida com poucas
calorias, as verduras e legumes têm algumas proteínas, fibras, sais minerais e vitaminas e poucas
calorias. O iogurte pode ser integral ou desnatado e contém várias vitaminas e nutrientes. Outro exemplo
é o de algumas sardinhas de uma lata em molho de tomate. A sardinha não é muito calórica e possui
vários nutrientes entre vitaminas e minerais. 
O simbólico da alimentação
No video a seguir, vamos conferir a experiência de uma historiadora especialista na área de alimentos.
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Segundo Lenclud (1992), o simbólico é uma característica de todas as culturas, que é atribuir significado ao
mundo. Já o simbólico da alimentação refere-se justamente a todos os significados que atribuímos aos
alimentos. É importante sinalizar que esses significados variam de cultura para cultura.
Vamos aos nossos exemplos anteriores.
Exemplo
Para alguém que deseja ficar em forma e vive em um grande centro urbano, a salada pode ser
considerada um ótimo alimento, pois é leve e saudável e não engorda. Além disso, faz bem para o
intestino, pois o iogurte contém probióticos. Nesse caso, ela já atribui vários significados a essa
preparação.Vimos que o sentido realfica no registro da ciência da nutrição. Por outro lado, o pepino,
ainda mais sem casca, assim como o pimentão verde cru, dependendo da sensibilidade da pessoa, não
são leves e podem dificultar a digestão e provocar azia. E somente alguns iogurtes contêm probióticos,
pois possuem os organismos que sobrevivem aos ácidos do estômago e chegam vivos aos intestinos. A
maioria não tem essa caraterística.Outras pessoas já dispensariam a salada. Em algumas ocasiões, nos
churrascos, podemos ver pessoas questionando: “Se há tanta carne disponível, por que alguém comeria
uma salada?”. 
Nesse caso, o significado atribuído à salada é que ela é algo menos importante que a carne. E, efetivamente,
alguns trabalhadores do campo, ou mesmo pessoas nos centros urbanos, consideram as saladas como uma
comida que não tem sustância e não dá força para o trabalho, sendo desvalorizadas (Alves; Boog, 2008).
Portanto, observamos diferentes valores simbólicos que foram dados à mesma preparação. E quanto às
sardinhas em lata? Elas tanto podem significar um alimento saudável como também podem ser descartadas
por ser um produto enlatado, não considerado um alimento natural ou de verdade.
Você pode observar então que os valores simbólicos que conferimos aos alimentos são culturalmente
determinados e um alimento pode nem significar comida, ou seja, não fazer parte da categoria comida, como
comentamos.
Aqui, é preciso sua atenção para uma diferença estabelecida pelo antropólogo Roberto DaMatta (1986) entre
alimento e comida.
O alimento está na prateleira do supermercado; a comida está no prato, quentinha, gostosa, aconchegante.
Em uma viagem, se ficamos comendo só lanches, depois de algum tempo nos dá vontade de comer uma
“comida de verdade”. Isso porque a comida é aquele prato que comemos sentados, que está quente, que nos
é familiar.
O imaginário da alimentação
Vamos agora refletir sobre o imaginário na alimentação. Para Baczko (apud Espig 2003/2004), o imaginário
refere-se a ideias e imagens coletivamente construídas.
Quando pensamos em termos de alimentação, o imaginário comporta construções simbólicas sobre os
alimentos amplamente difundidas entre os membros de uma população ou entre os membros de um grupo
específico. O que isso significa? Que, em grupos ou populações, os significados que fazem parte do
imaginário são comuns e frequentes.
A partir de Perez (1996), falemos de alguns exemplos relativos a um grupo indígena amazônico que pertence
ao tronco linguístico Tupi e é conhecido como Cinta-Larga. Esses indígenas eram originariamente guerreiros e
antropófagos, como costumam ser os Tupi.
Curiosidade
O nome Cinta-Larga refere-se a uma armadura feita com a casca de uma árvore que os homens usavam
nas guerras para proteger seus órgãos vitais de flechadas dos inimigos. 
A pesquisa em questão trata do tema da antropologia da saúde e da doença, ou seja, como esses indivíduos
enxergam, do ponto de vista tradicional, a doença, o mal, o infortúnio, como eles diagnosticam as
Alimento 
É toda e qualquer coisa que pode ser
ingerida pelos seres humanos.
Comida 
É aquilo que comemos dentro de casa,
a comida de mãe, comida caseira, que
comemos na rua, mas é como se fosse a
comida de casa. Com a comida, temos
proximidade.
enfermidades e como as curam. Nesse trabalho, também pretendia-se compreender como os profissionais
não indígenas da área da saúde que trabalhavam com saúde indígena viam os hábitos e costumes dos Cinta-
Larga.
Esses colaboradores tinham um imaginário preconceituoso em relação
aos hábitos alimentares e de higiene tradicionais desse povo. Eles
acreditavam que a comida dos indígenas era estranha e preparada sem
nenhuma limpeza. Também pensavam que eles eram sujos, que não
cuidavam nem limpava bem suas crianças etc.
Para esses agentes, o problema da saúde indígena era a falta de higiene e seus hábitos bizarros. Enquanto o
que ocorre efetivamente é que a saúde dessa população se deteriorou, sobretudo por conta das doenças
trazidas pelos não indígenas e pelos hábitos que eles adquiririam com o contato: consumo de açúcar e
carboidratos simples, como o arroz. Você pode observar dessa forma que o imaginário das populações que
estão próximas a esses indígenas é extremamente preconceituoso.
Os indígenas também têm um imaginário específico em relação aos não indígenas e seus hábitos. No que
concerne à alimentação, antes mesmo do contato, os agentes da Funai jogavam dos aviões sacos de arroz,
farinha e açúcar para os Cinta-Larga. Essa era uma prática comum na época.
Saiba mais
No início do contato e até antes mesmo de ocorrer, houve grande mortalidade dessa população devido à
rubéola, uma doença que, para os não indígenas, é praticamente incipiente. Os relatos assemelham-se
ao Apocalipse, pois eram aldeias inteiras mortas pela doença e crianças chorando no colo de suas mães
mortas deitadas na rede. Aos que sobreviviam, cabia enterrar a enorme quantidade de mortos. Sabemos
que esses povos isolados não possuem anticorpos para uma série de doenças comuns entre os não
indígenas. Esse é um dos motivos pelos quais a Funai estabelecia uma política de não entrar em contato
com os grupos indígenas isolados. 
Difundiu-se entre os Cinta-Larga a ideia de que os sacos de comida que lhes eram lançados pelos aviões da
Funai estavam com comida envenenada, que tinha como objetivo espalhar a doença entre eles. Essa teria sido
a causa da grande mortandade. Isso vai ao encontro de um imaginário entre os indígenas de que os “brancos”
só querem destruí-los e se apossar de suas terras. Infelizmente, isso não está longe da realidade, mas, no
caso, não era absolutamente a intenção da Funai.
Um exemplo mais próximo é a relação entre os hábitos higiênicos de franceses e brasileiros. O imaginário
sobre limpeza é bastante diferente entre esses povos.
Enquanto no
Brasil o pão é
colocado em um
saco de papel, lá
os franceses
levam sua
baguette debaixo
do braço, algo
que, para nós,
entende-se que
vai sujar o pão e
contaminá-lo com
a sujeira do
corpo.
 A quantidade de banhos que tomamos também é
vista como um exagero, pois eles afirmam que esse
hábito destrói a camada de gordura necessária à
saúde da pele. Existem os pressupostos científicos
de higiene e contaminação, mas a limpeza e a sujeira
são, antes de tudo, imaginários culturalmente
construídos. Os franceses não deixam de ter um
pouco de razão em relação à pele. Os pediatras
brasileiros insistem com as mães de recém-nascidos
que o banho com sabão só deve ser dado uma vez
ao dia. Caso contrário, a mãe poderia prejudicar a
saúde da pele do bebê por excesso de lavagens.
Franceses têm o costume de colocar o
pão embaixo do braço e pegá-lo com as
mãos.
No artigo de Espig (2004), o que a autora nos traz é que a oposição entre real e imaginário é questionável. A
ideia é que, mesmo o que chamamos de real é de certa maneira construído pelo imaginário. As fronteiras entre
eles não são rígidas, e sim flexíveis. O real da alimentação é como ela se baseia também na ciência da
nutrição, em que a ciência também é uma construção.
Neste vídeo, vamos abordar o real, o simbólico e o imaginário na psicanálise de Lacan. A alimentação envolve
o real (nutrição), o simbólico (valores culturais e crenças) e o imaginário (desejos e medos). Essa
compreensão é essencial para o nutricionista acolher melhor o paciente e propor estratégias de educação
alimentar mais eficazes e empáticas.
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Atividade conceitual 2
O imaginário na alimentação refere-se às ideias e às imagens coletivamente construídas sobre os alimentos
dentro de um grupo ou população. A partir da reflexão sobre o grupo indígena Cinta-Larga, que pertencem ao
tronco linguístico Tupi, quais dos exemplos refletem como o imaginário pode influenciar as práticas
alimentares de um grupo?
A A prática da antropofagia entre os Cinta-Larga não possui relação com o imaginário coletivo, sendo
apenas uma necessidade fisiológica.
B Os Cinta-Larga, conhecidos por sua tradição de guerreirose antropófagos, atribuem ao ato de comer
carne humana um significado simbólico relacionado à força e à identidade do grupo.
C O imaginário sobre a alimentação entre os Cinta-Larga é baseado no consumo de alimentos vegetais,
sem relação com práticas culturais ou rituais.
D Os Cinta-Larga veem a alimentação como um ato físico, não havendo construção simbólica associada
aos alimentos.
E O imaginário coletivo dos Cinta-Larga se refere aos alimentos considerados "divinos" desconectado da
prática antropofágica.
A alternativa B está correta.
O imaginário coletivo é formado por ideias, crenças, imagens e significados compartilhados socialmente,
que moldam a maneira como os grupos veem e vivenciam o mundo, incluindo suas práticas alimentares. No
caso dos povos indígenas, como os Cinta-Larga, a alimentação está profundamente ligada a valores
simbólicos, mitológicos e culturais, não se limitando à mera satisfação de necessidades fisiológicas.
O real: o corpo-máquina
Antes de falarmos sobre a forma como o corpo e a doença têm sido caracterizados pela medicina na
contemporaneidade, vamos compreender uma oposição clássica da antropologia, aquela entre natureza e
cultura. Isso porque o corpo e as doenças são vistos por essa medicina como algo que faz parte da natureza.
E o que se está defendendo aqui é que ele é também uma construção cultural.
Sobre essa oposição, os antropólogos preocuparam-se primeiramente com tentar compreender em
que momento o homem teria deixado de ser um ser natural e teria “inventado” a cultura. Para Lévi-
Straus (2002), um renomado antropólogo francês, o homem teria se separado do mundo natural
quando ele inventou uma regra que é exclusivamente humana. E que regra seria essa? Pois bem,
Lévi-Strauss diz que é a proibição do incesto.
Todos vocês que têm algum animal de estimação sabem muito bem que esse tipo de proibição não existe
entre eles. Para ser um parceiro sexual, a única coisa necessária é que o indivíduo tenha maturidade sexual e
que, no geral, a fêmea esteja disponível. O que você pode ver nesse caso é que, em um domínio
extremamente natural, que é aquele da sexualidade, o homem diz que existem regras. Quais parentes são
considerados incestuosos? Isso varia de sociedade para sociedade, mas na esmagadora maioria das vezes,
pais, irmãos e filhos são vetados à relação sexual. E outros membros da família podem entrar nessa proibição
também.
Mas por que com a proibição do incesto o homem “inventa” a cultura?
Porque ele diz que as relações incestuosas são erradas, sujas, levam ao caos e, eventualmente, à
morte. A partir daí, inventa-se um juízo de valor sobre os mais variados eventos. Ao contrário dos
animais, os homens criam um ordenamento em que existem coisas que são certas e erradas, puras e
impuras, sujas e limpas, justas e injustas etc. Esses valores são uma invenção exclusivamente
humana. Os animais, até onde se sabe, não têm essa visão da existência.
Podemos dizer que o tubarão é mau porque comeu o peixe ou que o coelho é bonzinho porque só come
plantas, mas esses animais não se julgam bons nem maus, nem certos ou errados. Eles seguem os seus
instintos.
Entre algumas sociedades tradicionais (povos nativos que mantiveram formas tradicionais de organização
social, de produção e de exploração da natureza), o consumo de carne crua também é proibido, podendo
levar à loucura, como afirmam os Cinta-Larga (Perez, 1996). Nessa circunstância, também é questão de
natureza e cultura. A carne da caça deve ser passada pelo filtro da cultura e ser transformada em comida pelo
cozimento. O consumo de carne crua é característico dos animais.
O corpo humano também faz parte da natureza ou da cultura? De ambos, pois ele também é
culturalmente construído. Nosso corpo passa por um processo de desenvolvimento que é natural,
mas também é fabricado pela cultura.
Aqui no Brasil, por exemplo, recentemente, foi proibido que as orelhas das meninas fossem furadas na
maternidade, mas, em muitos casos, elas o são logo depois. As mulheres usam salto alto, os homens, terno.
Isso também vai no sentido de fabricar um corpo feminino e masculino. A busca pelo corpo magro é uma
forma cultural pela qual ele é manipulado baseado em certos padrões, que também são construções
socioculturais.
A forma com que nos higienizamos, aquilo com o que o alimentamos, tudo isso constrói o corpo. As dietas, as
cirurgias plásticas, as tatuagens, os brincos, colares, pulseiras, anéis, igualmente.
Vemos uma foto de
uma mulher-girafa,
um exemplo muito
pertinente de como
a cultura molda o
corpo.
As chamadas
mulheres-girafas
da etnia Karen e da
tribo Kayan usam
anéis de bronze no
pescoço. As
argolas são parte
da identidade
cultural da tribo e
são associadas à
beleza das
mulheres.
 Agora que vimos como o corpo é culturalmente
construído, vamos continuar pensando no jeito
como ele é visto e construído pela medicina
contemporânea, e qual o papel da nutrição nesse
processo.
Já mencionamos que a ciência também é uma
construção. Ela vem também se transformando
com o decorrer do tempo e é importante enfatizar
que não é produzida “do nada”, a partir de uma
realidade natural que observa e descreve fielmente.
Não existe percepção do mundo natural que não
seja influenciada pela maneira como se dá uma
sociedade e uma cultura determinada (Queiroz,
1986). Portanto, a ciência também atende a
interesses diversos e não é tão neutra assim como
você pode supor.
Com o surgimento da ciência moderna no século XVII, formulou-se um modelo mecânico para a
realidade. Esse modelo tem a influência de vários pensadores, como Descartes, que formulou uma
separação entre o corpo e a mente, e Galileu e Newton, este último tendo elaborado uma visão
mecanicista do universo. Como consequência disso, as ciências biomédicas, muito influenciadas por
essas concepções científicas, adotam com toda força a visão do corpo-máquina (Kraemer et al.,
2014).
Esse modelo mecanicista que considera somente aquilo que pode ser medido objetivamente desconsidera as
dimensões simbólicas, psicológicas, sociais, que são decisivas não somente na construção do corpo, como
vimos, mas também na compreensão de como esse corpo adoece e se cura.
A medicina científica desenvolveu-se muito depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo do ponto de vista
tecnológico. Se, por um lado, pensava-se que a cura de quase todas as doenças seria descoberta, por outro,
a intervenção nos corpos os tornava mais aptos para a produção (Queiroz, 1986).
Comentário
Conforme Morais (2011), entende-se que esses princípios mecanicistas e esse grande desenvolvimento
tecnológico, em vez de promover a satisfação da população como um todo, pelo contrário, geraram uma
crise na medicina moderna. Isso já era apontado por Queiroz, em 1986, e ainda continua sendo um
objeto de reflexão. 
As queixas vão no sentido do alto custo dos tratamentos, o atendimento frio dos médicos, do fato de se
dedicarem muito mais tempo à saúde, e os males antigos não apenas continuarem, como ainda serem
somados a outros novos. Há uma elitização da saúde e um distanciamento cada vez maior entre pacientes e
terapeutas (ibid.). E no caso da nutrição?
Como uma ciência biomédica, a nutrição repete esse modelo
mecanicista. Para Kraemer et al. (2014), quando se constituiu, a área
teve necessidade de se colocar junto aos saberes biomédicos para
poder se legitimar. Consequentemente, isso a levou a uma maneira de
enxergar os alimentos de forma descontextualizada de imaginário
social e de seus vários significados socioculturais.
Para promover uma alimentação saudável, a ciência da nutrição dita o que se deve comer, as quantidades e
quando os itens alimentares devem ser ingeridos. Não levando em consideração os aspectos descritos
anteriormente, tampouco as conjunturas políticas e econômicas nas quais se desenvolvem os comedores e a
indústria alimentar, a ciência reduz seu alcance explicativo (ibid.).
Somente os corpos jovens e magros são considerados saudáveis. Para manter esses atributos, a alimentação
deve ser controlada, as caloriasdevem ser contadas e os indivíduos se tornam responsáveis pela sua própria
saúde ou pela falta dela. Se você está acima do peso, ou obeso, é porque você não se cuidou o suficiente
(ibid.), porque você é fraco, sem força de vontade. Essa forma de ver as coisas, que é comum entre os
nutricionistas, não leva em conta elementos sociais, psicológicos entre outros.
Saiba mais
Esse modelo mecanicista acaba por se difundir em toda a população que tem acesso a alguma
informação nutricional. Barbosa (2007) fez uma ótima enquete sobre alimentação no Brasil do ponto de
vista dos comedores e que se dá em um contexto urbano. Ele constatou que, em todos os extratos
sociais, os indivíduos sabem dizer exatamente os alimentos vistos como saudáveis e aqueles que são
prejudiciais à saúde. 
Evidentemente que a ciência da nutrição tem demonstrado a estreita relação entre doenças crônicas não
transmissíveis (DCNT) e a alimentação. A busca pela saúde deve intervir sobre todo o nosso comportamento
alimentar como se existisse um único modelo válido para todas as situações, como uma verdade
inquestionável. Segundo Azevedo (2017), questiona-se a visão da comida considerando somente seus
aspectos bioquímicos que determinam uma dieta específica para uma pessoa, desdenhando dos aspectos
culturais e sociais.
A comida e o comer têm múltiplos significados em todas as sociedades, é exatamente disso que trata este
conteúdo. Nosso objetivo é que você seja um profissional que vá além dos nutrientes, do modelo mecanicista
e do corpo-máquina, de forma a enxergar seu paciente ou seu público-alvo como uma totalidade, e não como
um aparelho digestivo ambulante.
Existem outras formas de comer
que, mesmo do ponto de
nutricional, podem nos
surpreender. Ribeiro (1995) afirma
que a dieta dos indígenas
amazônicos corresponde a,
aproximadamente, 80% a 85% de
mandioca, seja na forma de
cerveja, na variedade “doce”, seja
na forma de farinha e seus
derivados, na variedade “brava”.
Os 15% a 20% restantes equivalem
ao consumo de proteína animal e
a todos os outros produtos da
agricultura e da coleta.
 Por outro lado, até as dietas e o
peso ideal têm caráter ideológico.
Belasco (2009 apud Cultura, 2015)
nos diz que o modelo nutricional
ocidental que se tornou padrão
considera a carne um alimento
fundamental. Sendo que, dentro
dessa visão, os hindus e os chineses
não se alimentariam de forma
adequada. O índice de massa
corporal (IMC) é bastante útil, mas
ele tem como base o padrão da
sociedade americana. Até que ponto
isso é válido para todos (Kraemer et
al. 2014)?
Indígena Kichwa preparando a tradicional
bebida chicha, feita de mandioca, típica
da Bacia da Floresta Amazônica, no
Parque Nacional Yasuni (Equador).
Uma dieta pobre em frutas, legumes e verduras (FLV) é o contrário do que determina a Organização Mundial
da Saúde e os nutricionistas. Todavia, no geral, os indígenas amazônicos têm uma saúde muito boa, ficando
doentes justamente quando mudam seus hábitos e regimes alimentares em decorrência do contato com não
indígenas.
Coimbra (1985), analisando quimicamente a cerveja feita de mandioca doce, atestou que, devido à
fermentação que é provocada pela saliva das mulheres, essa preparação contém açúcares mais complexos
que aqueles presentes na mandioca in natura.
Resumindo
Refletimos, nesta seção, sobre o aspecto real visto a partir da construção do corpo e da saúde no
modelo mecanicista e como isso também influencia a ciência da nutrição. O que vimos é que o corpo não
é uma máquina em que a doença é um defeito. O corpo, com seu estado de saúde ou doença, é
construído no centro das relações sociais e do imaginário simbólico que envolve as práticas alimentares
e as diferentes maneiras de adoecer e curar. 
Neste vídeo, vamos abordar o corpo-máquina e a função biológica do corpo. Discutiremos o que é
considerado um corpo saudável, dietas e o peso ideal, como é feita a construção do corpo e da saúde no
modelo mecanicista e qual a sua influência na nutrição.
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Atividade conceitual 3
Na Espanha, desde sempre, o vinho é considerado um
alimento nutritivo, tanto que ele é dado até para as
crianças na forma de um refresco de vinho feito com água
e açúcar. Veja uma conversa entre espanhóis: 
– Mas ela está sempre doente.
– Claro, ela come pouco, não toma um copo de vinho,
normal que sua saúde seja fraca. 
 
Quais aspectos dos alimentos estudados faz referência ao
texto?
AReal, pois o vinho é considerado nutritivo por conta de
polifenóis presentes na bebida que protegem a saúde
do coração.
B Simbólico, pois a Espanha é uma grande produtora de
vinho.
C Psicológico, pois o vinho altera o estado de consciência,
causando embriaguez.
D Imaginário, pois o vinho é considerado nutritivo por
esse povo, já que nutre o organismo.
E Lúdico, pois o vinho está atrelado ao ilusório. 
A alternativa D está correta.
Os aspectos imaginários da alimentação atribuem
significados aos alimentos amplamente compartilhados
por um grupo cultural, como no caso do vinho para os
espanhóis.
O simbólico: os múltiplos significados dos alimentos
Já comentamos sobre alguns dos significados simbólicos dos alimentos.
Os alimentos não são apenas comidos, mas também pensados. Em outras palavras, a comida possui um
significado simbólico — ela fala de algo mais que nutrientes.
(Woortmann, 2006).
Vamos pensar em alguns itens que são passíveis de serem ingeridos. Qual é a diferença existente, do ponto
de vista nutricional, entre um bife de carne de boi, um de carne de cachorro, um de carne de cavalo e um de
carne humana?
Só de falar nisso, talvez você já esteja sentido náuseas, mas a resposta à pergunta é: nenhuma. Talvez alguma
diferença no percentual de gordura, ou de fibras. Mas todas elas vão nos nutrir quase da mesma maneira.
Então, por que nós humanos desprezamos todas essas carnes que poderiam resolver uma parte do problema
da fome no mundo?
No entanto, não temos problema algum em comer carne de vaca, porco, carneiro, coelho ou avestruz. Porém,
em alguns casos, essas carnes são consideradas sagradas, sujas ou impuras por questões relacionadas a
aspectos religiosos ou não.
Você conhece a seguinte anedota? Perguntaram a um biólogo o que ele diria sobre Deus segundo suas
observações da vida na Terra. Ele respondeu que Deus, certamente, tinha um grande amor por insetos,
sobretudo por besouros. Isso porque eles representam o maior número de espécies e de indivíduos em todo o
reino animal. Surpreendente, não? Mas por que falar de insetos? A entomofagia, ou seja, o consumo de
insetos, é um assunto apaixonante. Afinal, os insetos são muito numerosos, como nos esclareceu o biólogo,
extremamente fáceis de serem capturados, muito nutritivos e, segundo aqueles que os comem, muito
saborosos.
Por que dispensamos toda uma quantidade de proteínas que a natureza nos oferece?
Precisamente, por conta do significado que atribuímos a esses potenciais alimentos. Aqui no Brasil,
comemos farofa de içá, como foi dito; no Norte do país, tem-se o costume de comer formigas aladas;
e até restaurantes famosos e estrelados (um restaurante estrelado é aquele que recebeu estrelas do
Guia Michelin, um guia turístico e gastronômico muito famoso na França e no mundo) servem insetos
em pratos gourmets em São Paulo. Apesar disso, na maior parte das vezes, os insetos são
considerados repugnantes.
Como vimos, aquilo que é considerado comida para uns não é para outros. Cada cultura determinará as
diferentes possibilidades que lhe são ofertadas. A categoria comida é culturalmente construída.
Repensando a alimentação 
Pensando assim, não seria necessário tanto
gado e tudo aquilo que eles precisam para
viver: terra, água etc. Seria ótimo, não? O
consumo de carne humana é um tabu
enorme, sem falar no fato de que os
cadáveres devem ser respeitados.
Mais que comida 
Já os cães são como pessoas da família,
impossível, para nós, pensarmos em
comê-los. E os cavalos, que são comidos
em vários lugares, para nós são como
nossos empregados,que têm um nome,
uma função; eles também não podem
se transformar em comida.
Se o homem não come tudo que é biologicamente ingerível, é porque nem tudo que é biologicamente
comestível é culturalmente comestível.
(Fischler apud Coelho, 2015)
Como salienta Flandrin (1998), desde a Pré-História, os homens têm acesso aos mais variados itens
alimentares nos lugares por onde passam, mas nem tudo o que esses ambientes lhes oferecem é escolhido
para fazer parte da categoria comida. Essas escolhas são feitas de acordo com regras impossíveis de serem
decifradas na maioria das vezes. Você pode perceber que essas escolhas não são baseadas em critérios
pragmáticos nem racionais. Caso contrário, todos comeríamos insetos, pois eles existem em quase todos os
lugares do mundo.
Escargots
Na Europa, o ambiente oferece os mesmos recursos, mas somente os
franceses comem caramujo, os famosos escargots, e rãs. Temos
tartarugas também em muitos locais, mas a sopa feita delas é uma
especialidade inglesa. Poderíamos multiplicar os exemplos, mas já ficou
claro que não é o ambiente que determina as escolhas alimentares,
mesmo que sejam feitas a partir dele.
Esquimós
É evidente que um esquimó não pode ser vegetariano, pois morreria de
fome, mas, mesmo em uma região com recursos tão limitados, os
homens fazem escolhas culturais diferentes. Laraia (2007) fala sobre os
esquimós que constroem suas casas de gelo e usam trenós puxados por
cães; e os lapões, que vivem no mesmo ambiente, são pastores de rena,
constroem suas casas com a pele delas e se locomovem
tradicionalmente com raquetes de neve.
Carne
Outro ponto interessante sobre o significado dos alimentos é o
simbolismo associado à carne. Carneiro (2003) comenta que a Europa
sempre valorizou a alimentação carnívora. Desde a Antiguidade grega, a
caça e o consumo de carne são considerados importantes para preparar
os homens para a guerra, tornando-os mais ferozes e cruéis. Sem falar
no fato de que a propriedade de rebanhos confere prestígio e riqueza.
Churrasco
Os países ocidentais valorizam muito o consumo de carne. Aqui no Brasil,
o churrasco é uma verdadeira instituição, sendo muito comum na Região
Sul, mas também no Sudeste e no Centro-Oeste, onde, no geral, o único
acompanhamento da carne é a mandioca cozida. Flandrin (1998) nos
ensina que nas refeições festivas de todos os tempos sempre foi
necessária a presença da carne fresca; e, é claro, das bebidas
fermentadas.
Se falamos em consumo de carne, não podemos deixar de lado a antropofagia. De acordo com Bueno (2012),
esse costume de muitos povos indígenas brasileiros foi o que mais espantou os europeus. Alguns rituais
antropofágicos entre os Tupinambás foram descritos com precisão por alguns cronistas, sobretudo por Hans
Staden (1998), que foi capturado por esses indígenas e viveu entre eles por alguns anos.
Antropofagia
É a prática na qual um ser humano se alimenta de partes de outro ser humano. 
Saiba mais
Para saber mais, assista ao filme Hans Staden (Brasil/Portugal, 1999. Direção Luiz Albert Pereira). 
Mesmo se os homens já comeram carne humana para matar a fome, em momento de penúria extrema ou na
Pré-História, o canibalismo do qual sabemos tem sempre um significado ritual. Pode-se consumir os inimigos
para se vingar deles, para recuperar sua força ou para aniquilá-la, mas, no caso, também pode ser uma
obrigação consumir a carne de seus parentes mortos para desumanizá-los, uma vez que são comidos como
presas e para que sua substância fique entre os membros da família.
Para fecharmos esta seção, vamos falar sobre outra dimensão simbólica da comida: o fato de que ela constitui
uma linguagem. Quando convidamos alguém para comer em nossa casa, a comida que vamos servir vai falar
sobre nós, expressar nosso cuidado, nosso carinho, nossa consideração.
Os diferentes tipos de ingredientes são as letras e as preparações das palavras. Com uma letra, você pode
fazer inúmeras palavras se combiná-la com outras letras, assim como podemos fazer um monte de receitas
diferentes misturando os ingredientes-letras. E a frase é a refeição, em que tudo deve ser combinado de uma
forma específica para ter sentido (Montanari, 2008).
É claro que a forma como a frase-refeição é construída depende da cultura, disponibilidade econômica do
responsável, ocasião.
Brasil
Cotidianamente, não costumamos comer
entrada, colocando a salada no prato principal.
No final da refeição, sobremesa e café. Essa
ordem é imutável.
EUA
Nas cafeterias, toma-se café durante toda a
refeição. Esse café é bem fraco para os nossos
padrões: é o famoso “chafé”, de tão aguado.
França
Os franceses comem salada verde e queijo no
final das refeições, e só depois vem a
sobremesa e o café. Eles consideram que a
salada limpa o paladar.
A frase é diferente e pode até se tornar um texto em uma refeição festiva, como um banquete de casamento.
E mesmo a gramática da refeição é diferente nos dias da semana e no fim de semana. Por meio das palavras,
damos sentido ao mundo, criamos categorias, e a comida faz a mesma coisa. Ela fala de nós, de nossos
hábitos, valores, crenças, origem, classe social. A comida fala!
Neste vídeo, vamos apresentar os múltiplos significados dos alimentos. Os alimentos não são apenas
comidos, como também pensados. A comida possui um significado simbólico, pois ela fala de algo a mais que
nutrientes. 
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Atividade conceitual 4
A afirmação de que "os alimentos não são apenas comidos, mas também pensados" sugere que a comida
possui um significado simbólico. Com base nisso, qual das alternativas reflete melhor essa ideia?
A Os alimentos são consumidos por sua função nutricional, pois seu significado simbólico associado é o
mesmo em diferentes culturas.
B A comida deve ser consumida exclusivamente por sua capacidade de fornecer nutrientes, não
importando o valor simbólico em sua escolha.
C A comida é pensada em termos de sabor, sendo sua função nutricional ou cultural secundária.
D Os alimentos são sempre consumidos da mesma maneira, independentemente do contexto social, deve
seguir a melhor forma de preparo.
E Os alimentos podem ser símbolos de cultura, identidade e tradição, sendo sua escolha e consumo
frequentemente associados a significados além de sua nutrição.
A alternativa E está correta.
A frase evidencia que a alimentação vai muito além de um ato biológico ou de simples ingestão de
nutrientes. Ela envolve também dimensões simbólicas, afetivas, culturais e sociais.
O imaginário: as angústias do comedor moderno
Como diz Ferrières (2002), além do medo de que falte comida, existe o medo de comer uma comida que
esteja contaminada ou apodrecida e possa afetar negativamente a saúde. A autora traz no livro A História dos
medos alimentares um histórico desde a Idade Média das angústias relativas àquilo que vamos incorporar ao
nosso corpo. Por conta disso, no Ocidente, desenvolveu-se pouco a pouco um controle sanitário sobre o
processo de produção dos alimentos.
Fischler (1990) afirma que o ato de comer é muito íntimo e, mesmo que seja fonte de prazer, ele também traz
medo e ansiedade no tocante à ingestão dos mais variados itens. 
Na realidade, a ciência e todos os processos controlados da produção de alimentos nas granjas e
fazendas, nos abatedouros e nas plantações, nas indústrias e na distribuição geraram uma sensação
de segurança no consumidor.
No entanto, essa confiança foi quebrada com a doença da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina),
que surge na Inglaterra por volta de 1985 (Poulain apud Dória, 2015). Essa doença ataca o sistema nervoso
central e mata os animais. A origem da doença se deu por conta dos restos de carcaças de mamíferos que
entravam na composição da ração que era dada aos animais, submetendo os herbívoros a uma espécie de
canibalismo.
Na França, essa suspeita recaiu sobre todos os tipos de carnes bovinas e seus derivados. Para conter a
doença, milhares de animais foram sacrificados. Temia-se que a doença fosse transmitidaaos humanos e a
outros animais. A utopia da segurança em relação ao que comemos foi abalada e gerou ansiedade e medo em
relação à qualidade dos alimentos.
Por outro lado, por conta da
globalização que permite uma
circulação sem precedentes
de mercadorias e pessoas, os
fatores de risco se multiplicam,
como declara Proença (2010).
Os riscos são de
contaminação por
microrganismos, problemas na
manipulação e na conservação
dos alimentos, introdução
acidental ou voluntária de
substâncias tóxicas, excesso
de agrotóxicos etc.
 Aqui no Brasil, vimos leite contaminado
com formol (Ilha, 2013), suco à base de
soja com soda cáustica (Vigilância,
2013) e um aumento no número de
agrotóxicos liberados para utilização em
2020 (Leite, 2020). Isso sem falar nos
transgênicos que são uma grande
ameaça à biodiversidade (Oliveira,
2016). Também nos preocupamos com a
quantidade de hormônios que os
animais consomem e que efeitos isso
pode ter na nossa saúde, e o
assombroso consumo de antibióticos
pelo gado bovino.
Avião pulverizando plantação com
agrotóxicos.
Você viu que existem riscos reais à nossa saúde causados pelos alimentos nas mais variadas fases da
produção, mas se somam a essas outras questões que só aumentam a ansiedade do comedor. Além desses
riscos biológicos, questões de ordem ética nos preocupam. Nós nos preocupamos com a forma como os
alimentos que comemos foram obtidos, isto é, se houve agressão ao meio ambiente ou aos trabalhadores
envolvidos no processo. Questões de sustentabilidade ambiental e econômica nos dizem respeito. Pelo
surgimento de uma solidariedade entre espécies, não queremos que os animais que nos servem de comida
sejam tratados com violência ou desprezo.
Por conta disso, surgiram novas
ideologias alimentares, como, por
exemplo, o slow food. Esse
movimento, fundado pelo italiano
Carlos Petrini em 1986, acredita
que o homem, ao comer, afeta seu
meio ambiente e social e que é
necessário se conscientizar e agir
em consequência disso para que
esses impactos sejam benéficos.
 Para isso, ao contrário do fast food,
é necessário ter prazer ao comer
degustando o alimento com
consciência, consumir produtos
artesanais, de preferência que
sejam fruto do trabalho de
produtores locais e que, nesse
processo, sejam respeitados o meio
ambiente e os trabalhadores
envolvidos na produção
(Movimento, 2007).
Símbolo do movimento Slow Food.
Não podemos esquecer do medo de engordar, de desenvolver doenças mesmo que os alimentos não estejam
contaminados: somente sua composição já pode nos assustar. Tudo isso levou a uma medicalização da
nutrição, como já comentamos. Outro dilema que o comedor enfrenta é a escolha do que comer. A quantidade
de opções de itens, de ideologias alimentares, de produtos light, diet, orgânicos, sem glúten, sem lactose, fat
free disponíveis atualmente para o comedor são enormes (Verthhein; Medina, 2015).
Em busca do corpo perfeito e, sendo agora o responsável pela saúde e pelas decisões sobre o que comer
para atingir esses objetivos, o comedor tem cada vez mais angústias, medos, preocupações e culpas.
Neste vídeo, vamos entender as angústias do comedor moderno. É importante compreender os medos
alimentares atuais (como medo de contaminação, agrotóxicos, transgênicos) que afetam o comportamento do
consumidor. O profissional de nutrição deve estar preparado para dialogar com esses medos e oferecer
orientações baseadas em ciência e empatia.
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Atividade conceitual 5
Qual das alternativas a seguir melhor descreve a filosofia do slow food, proposta por Carlos Petrini em 1986?
A O movimento slow food enfatiza a rapidez na preparação dos alimentos e o consumo de fast food, como
uma forma de facilitar a vida moderna.
B O slow food propõe que os indivíduos devem consumir alimentos de forma rápida e sem pensar nos
impactos ambientais ou sociais.
C O slow food propõe o consumo consciente dos alimentos, devendo considerar os impactos ambientais e
sociais, de forma que esses impactos sejam benéficos.
D O movimento slow food defende o consumo de alimentos processados e industrializados, pois acredita
que são mais eficientes e sustentáveis.
E O slow food promove uma alimentação que ignora os impactos ambientais e sociais, focando apenas na
conveniência e no baixo custo dos alimentos.
A alternativa C está correta.
O movimento slow food surgiu como uma resposta crítica à crescente cultura do fast food e à padronização
alimentar imposta pela globalização. Sua filosofia vai muito além do simples ato de comer, pois ela propõe
uma relação mais consciente, responsável e prazerosa com os alimentos, valorizando a qualidade, a
sustentabilidade e o respeito às culturas alimentares locais.
Caso prático
Imagine que
você é um
estudante de
nutrição que
está
investigando
os hábitos
alimentares
de diferentes
grupos
culturais para
entender
como as
práticas
alimentares
variam de
acordo com
fatores
socioculturais,
econômicos e
ambientais.
Durante um
estágio de
pesquisa em
uma
comunidade
rural da Índia,
você observa
que as
pessoas,
 tradicionalmente,
fazem suas
refeições
utilizando as
mãos,
especialmente
durante
encontros
familiares. 
 Este hábito é
considerado
uma expressão
cultural,
carregada de
significados, e
o contato direto
com o alimento
simboliza
respeito,
conexão
espiritual e
valorização dos
sentidos no ato
de comer.
Nessa
comunidade, as
refeições são
momentos
coletivos e
rituais de
convívio social,
frequentemente
realizados no
chão, em torno
de grandes
travessas
compartilhadas
por todos.
 Já em uma cidade
dos Estados
Unidos, você
percebe práticas
bem distintas. As
refeições
geralmente ocorrem
em ambientes mais
formais, como
restaurantes ou
cafés, e o uso de
talheres é a norma,
refletindo uma
preocupação social
com higiene,
etiqueta e
formalidade. A
dinâmica alimentar
tende a ser mais
individualizada,
com pessoas
comendo sozinhas
ou em pequenos
grupos, muitas
vezes em horários
irregulares e em
locais de
passagem. Além
disso, observa-se
uma forte presença
de alimentos
industrializados,
refeições rápidas e
uma cultura
alimentar que
valoriza a
praticidade devido
ao estilo de vida
acelerado.
 Essas diferenças
chamam atenção
para o quanto os
hábitos
alimentares estão
intrinsecamente
ligados às
dimensões
socioculturais de
cada sociedade.
Os elementos
como
religiosidade,
valores
comunitários,
urbanização e
ritmo de vida
moldam a
maneira como as
pessoas se
relacionam com o
alimento.
Enquanto na
Índia rural a
refeição é um ato
comunitário que
reforça laços
familiares e
culturais, no
contexto urbano
dos Estados
Unidos, a
alimentação
parece integrar
uma lógica mais
individualista e
funcional,
associada à
eficiência e à
mobilidade.
 Com essas
observações
em mãos,
você se
depara com
o desafio de
interpretar
como os
modos de
comer
expressam,
mais do que
preferências
alimentares,
visões de
mundo,
tradições
históricas e
formas de
organização
social. 
Questão 1
Com base no caso apresentado, como os hábitos alimentares observados na comunidade rural indiana e na
cidade ocidental refletem diferentes dimensões socioculturais?
A
Na Índia, a alimentação individualizada é mais comum, enquanto nos Estados Unidos as refeições são
feitas de preparadas e consumidas em conjunto.
B
Na Índia, o ato de comer com as mãos reflete uma tradição cultural que valoriza a coletividade e a
simplicidade, enquanto nos Estados Unidos o uso de talheres é uma prática associada a normas de
higiene e formalidade social.
C Nos Estados Unidos, todos comem de forma coletiva, mas durante festividades, e na Índia a
alimentação é individualizada durante as festividades.
D Na Índia e nos Estados Unidos, as práticas alimentares são similares, ambos priorizam a alimentação
individual em ambientes familiares, raramente a experiência é coletiva.
E As práticas alimentares na Índia e nos Estados Unidos são diferentes, porém irrelevantes para a análise
de dimensões socioculturais.
A alternativa B está correta.
Os hábitos alimentares são fortemente influenciados pelasdimensões socioculturais de cada sociedade.
Na comunidade rural indiana, por exemplo, o ato de comer com as mãos não é visto como falta de higiene,
mas como uma prática culturalmente enraizada que expressa conexão com o alimento, valorização
da simplicidade, da espiritualidade e da coletividade. Comer com as mãos, para muitos indianos, representa
um ato sensorial que envolve o tato como parte da experiência alimentar.
Questão 2
De que forma as práticas alimentares observadas nesse caso estão relacionadas aos "modos à mesa", um
conceito importante na antropologia da alimentação?
A O conceito de "modos à mesa" está diretamente ligado à forma como as refeições são preparadas, mais
do que como são consumidas.
B Os "modos à mesa" refletem a escolha de alimentos, sem considerar os utensílios usados para comer
ou a dinâmica social ao redor da mesa.
C
Os "modos à mesa" envolvem práticas alimentares que variam de acordo com os utensílios usados, o
ambiente de consumo e a interação social durante as refeições, variando entre diferentes culturas e
contextos.
D Os "modos à mesa" dizem respeito ao ambiente em que os alimentos são preparados, assim como os
ingredientes utilizados e a que cultura pertencem.
E A prática de comer com as mãos na Índia e o uso de talheres nos Estados Unidos não refletem
similaridades nos "modos à mesa", com diferenças restritas à cultura.
A alternativa C está correta.
Na antropologia da alimentação, o conceito de "modos à mesa" refere-se ao conjunto de normas, práticas e
significados que orientam como os alimentos são consumidos em diferentes culturas. Isso inclui o uso
de utensílios (como mãos, talheres, hashis); postura corporal à mesa (sentado no chão, à mesa, em
pé); ambiente em que se come (coletivo ou individual, formal ou informal); regras sociais que regem o ato
de comer (quem serve, quem come primeiro, se há divisão de alimentos etc.); e relações de gênero, idade e
hierarquia que podem influenciar a dinâmica das refeições.
Questão 3
Cite duas diferenças culturais nos hábitos alimentares entre essas duas realidades e considere outros
aspectos que não foram citados no caso.
Chave de resposta
Na Índia, especialmente em comunidades tradicionais, há um forte consumo de pratos vegetarianos devido
a influências religiosas (como o hinduísmo), enquanto nos Estados Unidos a dieta tende a ser mais rica em
carnes e alimentos ultraprocessados. Outra diferença é a valorização do preparo caseiro na Índia, onde
muitas refeições são feitas em casa com ingredientes frescos e temperos naturais, contrastando com a
cultura norte-americana, que tem maior consumo de alimentos industrializados, fast food e refeições
prontas, por conta do ritmo acelerado de vida.
Neste vídeo, vamos explicar o caso prático e resolver as questões associadas ao caso. 
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2. Identidade cultural
Alimentação e identidade cultural
Neste vídeo, vamos abordar a relação da alimentação com a identidade cultural. A identidade alimentar, assim
como as demais, constrói-se por oposição. Pensamos sobre nós mesmos e nos reconhecemos como
diferentes a partir do outro, daquele que pertence a outra cultura, isso é alteridade. O que comemos é uma
fonte de pertencimento muito importante, dar exemplos de comidas típicas das diferentes regiões do Brasil.
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Diante de tantas mudanças em relação à forma de comer, ao que comer, quando, onde, sozinho ou
acompanhado, estabelecem-se questões relativas às identidades culturais individuais e coletivas.
O que é a identidade cultural?
Se pensarmos, por exemplo, em um indivíduo que pertença a uma sociedade tradicional, a sua identificação
afirma seu pertencimento àquela etnia, ao seu gênero e à sua posição na família: pai, mãe, filho, todas essas
sendo identidades culturais que variam de acordo com a sociedade. As obrigações e funções de pais e filhos
são culturalmente construídas.
O gênero também é uma construção cultural, ser mulher ou homem não significa a mesma coisa para todas as
culturas. Mesmo em nossa sociedade, a forma como uma mulher e um homem constroem seus
pertencimentos de gênero varia no tempo. Logo, a identidade cultural é algo que se transforma.
Mulheres
Como uma mulher se sentia mulher há 50 anos? Por meio da
maternidade, das prendas domésticas e do cuidado com a família, a dita
“mulher de cama e mesa”. E como as mulheres ocidentais se constroem
atualmente? Mediante o estudo e sua carreira profissional. Elas têm
menos filhos, ou os têm mais tarde, e isso quando os têm, pois a
maternidade não é mais necessária para a construção do feminino.
Expressões machistas como “encalhada” e “ficou para titia” não fazem
mais nenhum sentido atualmente.
Cultura 
É algo que está dentro e fora de nós, pois,
quando nascemos, já existe uma sociedade,
mesmo que ela esteja em constante
transformação. 
Identidade cultural 
É um sentimento de pertencimento
que é construído pelo indivíduo com
base nos aspectos culturais de dada
sociedade. 
Homens
E quanto ao homem? Ele deixou de ser o provedor e o chefe de família e,
consequentemente, perdeu seu poder sobre o destino de sua
companheira. Atualmente, temos inversões dos papéis tradicionais:
mulheres que trabalham e sustentam a família, enquanto os seus maridos
cuidam da casa e dos filhos. Essas mudanças identitárias não são fáceis
de serem absorvidas e alguns homens e mulheres ainda se questionam e
ficam incômodos com essas novas atribuições.
Nas sociedades contemporâneas, a questão da identidade cultural tem novas dimensões. Já que não
necessariamente criamos pertencimentos com os membros das sociedades tradicionais, em uma sociedade
complexa e fragmentada como a nossa, podemos pertencer aos mais variados grupos culturais e termos
múltiplas identidades (Hall, 1999).
Exemplo
Pertencemos a uma etnia, temos um gênero, uma religião, uma determinada ideologia política, um hobby,
como dança de salão, pertencemos a um lugar, a uma classe social etc. Criamos uma identificação com
cada um desses grupos culturais. A identidade atual, além de subjetiva e, consequentemente,
construída, é também fragmentada, múltipla e, muitas vezes, até contraditória. Quem nunca foi à missa
pela manhã e comungou, depois recebeu um passe em uma sessão de espiritismo à tarde e incorporou
um Orixá em um terreiro de candomblé à noite? 
As identidades culturais também não são fixas, pois não só mudamos nossos pertencimentos, como também
alegamos diferentes identidades em diferentes situações. Em alguns casos, é possível enfatizar mais o
gênero, a classe social ou o pertencimento étnico. Em uma situação de violência contra a mulher, sua
identidade de gênero vai prevalecer. Já em caso de injúria racial, será o pertencimento étnico e, diante de
injustiças sociais, prevalecerá o pertencimento de classe e/ou sua ideologia política.
Mas você deve estar se perguntando: e o que a alimentação tem a ver com tudo isso?
Pois bem, como você se sente brasileiro? Pelo fato de ter nascido no Brasil, pela nacionalidade? Com certeza,
mas também porque fala português e tem um código corporal diferente dos europeus, por exemplo, nós nos
tocamos o tempo todo. E à mesa, como você se sente brasileiro? Comendo feijão com arroz, algo que se come
no Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí (Barbosa, 2007).
Aquilo que comemos é uma fonte de pertencimento muito importante. Como nos ensina DaMatta:
Comida não é apenas uma substância alimentar, mas é também um modo, um estilo e um jeito de
alimentar-se. E o jeito de comer define não só aquilo que é ingerido, como também aquele que o ingere.
(DaMatta, 1986)
E as comidas típicas?
Sul
Se pensamos no sul do Brasil, logo nos vem à
mente um suculento churrasco e um chimarrão.
Norte
Já o Norte nos remete a comidas como pato no
tucupi e tacacá.
Nordeste
O Nordeste tanto nos faz pensar em carne de
sol com baião de dois, como em todas aquelas
comidas de origem africana.
Nordeste
Ou os com uma conotaçãoreligiosa, as comidas
de santo caraterísticas da Bahia: acarajé,
vatapá, caruru, xinxim de galinha, bobó de
camarão etc.
Mas essas comidas são consumidas no dia a dia?
De maneira alguma! Geralmente, são consumidas em ocasiões festivas ou especiais. São preparações que
foram escolhidas, de certa forma, para representar a identidade cultural daquele lugar. Então, come-se feijão 
— das mais variadas cores, segundo o local — com arroz, porque se é brasileiro, mas o pato no tucupi
representa o pertencimento da região Norte.
Mais do que hábitos e comportamentos alimentares, as cozinhas implicam formas de perceber e expressar
determinado modo ou estilo de vida particular a determinado grupo. Assim, o que é colocado no prato serve
para nutrir o corpo, mas também sinaliza um pertencimento, servindo como um código de reconhecimento
social (Maciel, 2005).
A identidade alimentar, assim como as demais, constrói-se por oposição. Sou brasileiro porque como
feijoada e não insetos fritos. Assim como falo português e não chinês. Pensamos sobre nós mesmos
e nos reconhecemos como diferentes a partir do outro, daquele que pertence à outra cultura (Silva,
2015).
Chamamos de alteridade essa percepção que temos de nós mesmos como diferentes a partir da visão que
temos dos outros. Ou, como dizem os antropólogos, do outro, que representa aquela sociedade que não é a
minha. A alteridade se opõe à identidade cultural, ao mesmo tempo em que é fundamental na sua construção.
O discurso da identidade não se confunde com o discurso das origens ou uma suposta autenticidade. Vamos
pensar na feijoada, um prato que é reivindicado como um dos maiores representante da nossa identidade
cultural alimentar. O feijão-preto e a mandioca da farofa são nativos das Américas, mas o porco, a couve, o
arroz e a laranja são todos ingredientes exóticos no sentido literal da palavra, ou seja, aquilo que é
estrangeiro, que não é nativo, mas isso não faz da feijoada um prato menos brasileiro. Assim como pimentões
e os tomates são característicos da cozinha mediterrânea, mas são nativos das Américas e somente após as
Grandes Navegações apareceram por lá (Maciel, 2005).
A esse propósito, é curioso o papel da feijoada na construção da identidade nacional. Reza a lenda que a
feijoada é uma invenção dos escravos a quem eram deixadas somente as partes menos nobres. Esse mito é
difundido mesmo entre pesquisadores importantes sobre o tema.
Câmara Cascudo (2004) já
exalta a origem portuguesa
da feijoada, comparando-a
com pratos europeus feitos
de carnes, legumes e favas,
como os cozidos, o puchero e
o cassoulet, este presente
desde a Antiguidade.
 Ele também sinaliza na mesma obra que
os escravos comiam de acordo com as
posses do seu senhor, e que muitas das
vezes nas fazendas era um punhado de
farinha de mandioca com o caldo e uma
laranja espremida por cima. Entretanto,
foi Dória (2009) quem trouxe o tema ao
debate recentemente.
Ele argumenta que os escravizados, assim como os indígenas, eram povos subalternos, considerados coisas,
como cabeças de gado — que, inclusive, viajavam de forma muito mais cômoda que os escravizados nos
navios negreiros, ou tumbeiros, como também eram chamados. Eles não escolhiam o que iam comer, e muito
menos criavam pratos. Classificar as carnes da feijoada com menos nobres também pode ser um equívoco, já
que elas são consideradas iguarias em muitas culturas. Na França, existe um restaurante chamado Au Pied de
Cochon (aos pés de porco, em tradução livre) que só serve pés de porco das mais variadas maneiras.
Curiosidade
Esse mito é muito interessante e defende uma causa muito nobre, que é a importância dos negros na
formação da identidade cultural do Brasil. Entretanto, ele é construído com esse propósito e nega, dessa
forma, as verdadeiras origens da feijoada, que são europeias. Mas, como vimos, a identidade cultural,
por ser construída, é manipulável, que é o caso aqui. Ela é mutável, como já vimos, bem como é um
produto histórico, produzida também no contato com culturas diferentes. 
Neste vídeo, vamos abordar a relação da alimentação com a identidade cultural. Como essa identidade é
construída? Venha descobrir a resposta!
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Atividade conceitual 1
Em diferentes culturas, a alimentação funciona como uma forma de expressar pertencimentos e marcar
distinções sociais, regionais e históricas. A identidade cultural é construída e transformada ao longo do
tempo. Com base nisso, qual alternativa expressa corretamente a relação entre alimentação e identidade
cultural?
A
A identidade cultural é moldada pelas condições históricas e sociais, mas se mantém totalmente
inalterada ao longo das gerações.
B A alimentação participa da formação da identidade cultural, mas é um aspecto secundário em
comparação com outros elementos sociais.
C A feijoada é um símbolo cultural brasileiro que reforça a identidade nacional por sua história e
adaptação, mesmo reunindo ingredientes de diversas origens.
D A alteridade contribui para a percepção das diferenças culturais, ajudando a consolidar identidades a
partir do contato com práticas alimentares distintas.
E A alimentação expressa identidades culturais, sendo um dos meios pelos quais os indivíduos afirmam
seus pertencimentos e diferenças em relação a outros grupos.
A alternativa E está correta.
A alimentação ultrapassa sua função biológica, atuando como um elemento simbólico na construção da
identidade cultural. O que, como e com quem se come reflete valores, tradições e sentidos de
pertencimento a determinados grupos. Assim, as práticas alimentares nutrem o corpo e diferenciam
identidades culturais, demonstrando a construção histórica, social e simbólica dos hábitos alimentares.
Comensalidade
Compartilhamento da comida
O que é a comensalidade? Certamente, você tem pelo menos uma ideia do que isso significa. Segundo Maciel
(2011), o fato de comermos juntos é o que faz com que o ato de se nutrir se torne um evento social. A palavra
companheiro vem do latim cum panem, que significa compartilhar o pão. Já a comensal vem de cum mensa,
que significa compartilhar a mesa. A comensalidade refere-se àqueles que comem juntos.
No entanto, mesmo se não existe uma mesa, existiria comensalidade. Câmara Cascudo (2004) nos conta que,
assim como os indígenas, com esteiras no chão, os mais pobres também comiam no Brasil colonial. Luccock
(1997), um cronista inglês, chama a atenção para o fato de que, mesmo em famílias mais abastadas, mulheres
e crianças comiam da mesma forma nas alcovas, a parte íntima da casa. Os orientais também comem em
tapetes, sentados no chão (Lima; Neto; Farias, 2015).
Saiba mais
Desde a Pré-História, os homens já se sentavam em torno de um fogo comum para comer e conversar.
Desde então, sentar-se junto à mesa sempre foi sinal de boa paz. Durante a Idade Média, quando ainda
não existiam estruturas políticas centralizadas, as refeições tomadas em conjunto e os banquetes que
ocorriam, tanto entre os nobres como entre os aldeões, eram a melhor forma de se comunicar decisões
e mudanças (Althoff, 1998). Também serviam para fundar e reafirmar laços sociais, por meio das trocas
de refeições festivas. Os grupos formavam alianças de comprometimento mútuo que regulavam suas
vidas em vários aspectos. Estamos falando da função social da refeição. 
Até os dias atuais, em torno de uma mesa ou em um coquetel, como os coffee breaks, faz-se todo o tipo de
acordo, de aliança e de celebração. São estabelecidas relações de amizade, amorosas, mas também se
fecham negócios e acordos políticos, nem tão diferente do que acontecia na Europa na Idade Média.
O clima mais descontraído das refeições
festivas e banquetes, no geral, regados a
bebida alcoólica, facilita a conversa mais
sincera. Daniel e Cravo (2015) acreditam que
os conchavos políticos se dão também nos
banquetes ou nos coquetéis, e não só nas
câmaras ou nos palácios dos governos. As
tribos germânicas discutiam questões
importantes durante os banquetes, mas

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