Prévia do material em texto
“Processo de lesão, degeneração e morte celular” (Profa. Gabriela Cardoso Caldas). 1) Itens iniciais: objetivo do conteúdo • O material apresenta conceitos de saúde, doença e patologia; descreve agressões, mecanismos de defesa, adaptações celulares, lesão celular e aprofunda degenerações (lesões reversíveis) e morte celular por necrose e apoptose. 2) Saúde, doença e patologia Evolução do conceito de saúde/doença • Por séculos, doenças foram atribuídas a forças sobrenaturais; com o Renascimento, o corpo passou a ser visto como “máquina”, e saúde virou “ausência de doença”. • A partir de 1947, a OMS define saúde como bem-estar físico, mental e social, embora essa definição receba críticas e ainda seja utilizada. • Kumar, Abbas e Aster (2016) definem saúde como estado de adaptação do organismo ao ambiente (físico/psíquico/social), com “saúde subjetiva” (sentir-se bem) e “saúde objetiva” (sem sinais/alterações orgânicas). • O processo saúde–doença é multifatorial, envolvendo dimensões biológicas, psicológicas, socioculturais, ambientais, econômicas e políticas. Saúde x normalidade • O material reforça que saúde e normalidade não são sinônimos: o Normalidade: parâmetros preestabelecidos a partir de médias em populações; o Saúde: conceito centrado no indivíduo e multidimensional. O que é “doença” • Doença é entendida como falta de adaptação ao ambiente físico, psíquico ou social, com sintomas e/ou alterações orgânicas objetivas (sinais). O que é patologia e por que importa • Patologia: ciência que estuda etiologia (causas), patogênese (mecanismos) e as alterações morfológicas e funcionais nas doenças (anatomia patológica e fisiopatologia). • Essa compreensão embasa prevenção, diagnóstico, tratamento, prognóstico e acompanhamento. Atividade (seção) • Atividade 1 (conceito de saúde): correta C (“capacidade de adaptação do organismo ao ambiente”). 3) Conceitos de agressão, defesa, adaptação e lesão Agressões: de onde vêm e como atuam • Um estímulo pode virar agressão se for muito intenso e/ou prolongado. • Agressões podem ser: o Externas (químicas, físicas, biológicas: calor/frio, vírus, bactérias etc.) o Internas (alterações gênicas, respostas exageradas do sistema imune). • A agressão provoca mudanças diretas (nas células/tecidos) e indiretas (por ativar defesa/adaptação), e as próprias respostas de defesa podem gerar lesão. Mecanismos de defesa • Barreiras mecânicas/químicas (pele e mucosas). • Fagocitose: ingestão/destruição de partículas (bactérias/restos celulares), por fagócitos (monócitos, macrófagos, neutrófilos, células dendríticas) formando fagossomo. • Imunidade inata: “primeira barreira”, com leucócitos, complemento, células dendríticas e epiteliais; elimina células danificadas e corpos estranhos. • Imunidade adaptativa: específica, com memória; envolve linfócitos B (anticorpos) e T (eliminação de células infectadas). • Contra agressões ao genoma: reparo de DNA; contra radicais livres: sistemas enzimáticos de detoxificação/antioxidantes. • A desregulação desses mecanismos pode se tornar a origem da agressão (ex.: doenças autoimunes). Adaptação e estresse • Se a agressão não for fatal, pode induzir respostas que tornam os tecidos mais resistentes a agressões futuras. • Adaptação: capacidade de células/tecidos/organismo de modificar funções (dentro de limites) para ajustar-se ao estímulo. • Hipóxia = baixa concentração de O₂ nos tecidos. • Estresse: resposta adaptativa sistêmica a agressões variadas, inclusive emocionais. Lesão: níveis de alteração • Quando ocorre lesão, pode haver alterações: o Morfológicas (macro/microscópicas/ultraestruturais) o Moleculares (detectáveis por exames bioquímicos/testes) o Funcionais (fenômenos fisiopatológicos com sintomas/doenças) • Lesões são dinâmicas: têm início, evoluem e podem caminhar para cura, cronicidade ou óbito. • Embora haja muitos agentes lesivos, a variedade de lesões não é tão grande, pois os mecanismos de agressão às moléculas são comuns. • Inflamação é exemplo de resposta “padrão” a diferentes agressões (necrose, corpos estranhos, infecções). Atividade (seção) • Atividade 2 (imunidade adaptativa): correta E (linfócitos B e T, especificidade e memória). 4) Classificação e nomenclatura das lesões/doenças Componentes do tecido e “efeito cascata” • Tecidos têm estroma, parênquima, matriz extracelular, vasos e nervos; uma agressão pode atingir vários elementos, e lesão em um componente afeta os demais (reação em cadeia). Tipos de lesões (visão geral) • Lesões celulares: o Não letais: célula viva e potencialmente reversível; incluem alterações de regulação/proliferação (hipotrofia, hipertrofia, hiperplasia, hipoplasia, metaplasia, displasia, neoplasia) e degenerações (acúmulos intracelulares). o Letais: necrose (morte seguida de autólise), apoptose (morte sem autólise) e outros tipos. • Alterações do interstício: substância fundamental amorfa e fibras; depósito de substâncias locais ou circulantes. • Distúrbios da circulação: hiperemia/isquemia, trombose, edema, embolia, hemorragia. • Inflamação: lesão complexa com alterações microcirculatórias, migração leucocitária e lesões celulares/intersticiais; componente efetor da resposta imune. Nomenclatura e CID • Nomes podem usar órgão + sufixo/prefixo (ex.: “-ite” para inflamação, como gastrite). • Existem epônimos (nome do descritor/local), que não traduzem a essência da lesão. • Para uniformizar, a OMS criou a CID, classificando doenças por sinais/sintomas/lesões; deve ser registrada quando o diagnóstico é estabelecido. • Importância: padronizar termos permite comparar informações mundialmente e avançar o conhecimento. Atividade (seção) • Atividade 3 (CID): correta B (uniformização e comparabilidade global). 5) Degeneração celular: mecanismos e morfologia (lesões reversíveis) 5.1 Degeneração hidrópica (tumefação celular) • Definição: lesão reversível mais comum, com acúmulo de água e eletrólitos dentro da célula. • Base fisiopatológica: desequilíbrio do transporte de íons por membranas (plasmática e organelas) via bombas; altera equilíbrio hidroeletrolítico → retenção de água e sais → aumento do volume celular. • Exemplos de agentes causais (mencionados no texto): lesão mitocondrial com queda de ATP; hipertermia com maior consumo de ATP; radicais livres com dano de membrana; inibição da Na⁺/K⁺-ATPase (ex.: ouabaína). • Consequência comum descrita: retenção de sódio, redução de potássio, aumento da pressão osmótica intracelular → entrada de água e expansão isosmótica. • Morfologia: o Órgão pode ficar com aumento de peso/volume e mais pálido (compressão capilar por células tumefeitas). o Microscopia: célula aumentada; citoplasma pode ficar mais acidófilo; com progressão, aparecem vacúolos; em hepatócitos pode ocorrer degeneração baloniforme (vacúolos grandes). • Reversibilidade: tende a regredir com remoção da causa; costuma não gerar consequências funcionais graves, salvo intensidade elevada (ex.: fígado). Atividade 1 (degeneração hidrópica): correta C (retenção de sódio → entrada de água → inchaço). 5.2 Degeneração hialina (acúmulo proteico) • “Hialina” (hyalos) = vítreo/homogêneo/translúcido; degeneração hialina é acúmulo de proteínas intracelular ou ao redor das células, com aspecto rosado, brilhante e homogêneo na HE. • Duas formas principais descritas: o Aglomeração de proteínas intracelulares (ex.: filamentos intermediários do citoesqueleto). o Acúmulo de proteínas vindas de fora (endocitose ou infecções com depósito proteico). • Exemplo citado: corpúsculo hialino de Mallory-Denk em hepatócitos de alcoólatras crônicos, também em carcinoma hepatocelular e esteato-hepatite não alcoólica; mecanismo resumido: ação de radicais livres sobre proteínas do citoesqueleto → peroxidação/ligação cruzada → aglomerados precipitados. 5.3 Degeneração gordurosa (esteatose) e lipidoses• O material indica que, quando a esteatose hepática é muito extensa, pode evoluir para insuficiência hepática, e em consumidores de álcool tende a ser mais grave por vir com fibrose, podendo evoluir para cirrose (crônica e irreversível). • Diferencia “acúmulo de gorduras não triglicerídeos”: o Lipidoses = acúmulos intracelulares de colesterol e ésteres (e, mais raramente, esfingolipídeos/gangliosídeos), podendo ser localizadas ou sistêmicas. o Exemplo: aterosclerose (depósitos localizados de colesterol/ésteres na íntima de artérias de médio/grande calibre); risco associado a aumento de triglicerídeos/colesterol plasmáticos, além de HAS, tabagismo e síndrome metabólica. o Outro exemplo: xantomas (nódulos/placas na pele com macrófagos “espumosos” carregados de colesterol). • Atividade 3 (degeneração gordurosa em hepatócitos): correta D (consumo elevado de álcool). 5.4 Degeneração cálcica (calcificação patológica) • Definição: deposição anormal de sais de cálcio (com menores quantidades de ferro e outros sais) nos tecidos. • Tipos: o Calcificação distrófica: depósito local em tecidos mortos. o Calcificação metastática: depósito em tecidos normais, quase sempre por hipercalcemia secundária a desequilíbrio do metabolismo do cálcio. 6) Adaptações celulares (respostas ao estresse) • Adaptações = alterações reversíveis em tamanho, número, fenótipo, atividade ou função; ao cessar estímulo, a célula pode retornar ao estado original. • Principais formas: o Hipertrofia: aumento do tamanho celular e do órgão; ligada ao aumento de produção de proteínas; pode ser fisiológica (ex.: músculo com exercício) ou patológica; também pode ocorrer por hormônios/fatores de crescimento (ex.: útero na gestação). o Hiperplasia: aumento do número de células; proliferação de células maduras por fatores de crescimento e, às vezes, novas células de células-tronco; exemplos: fisiológica (puberdade/gravidêz: epitélio glandular mamário) e patológica (hiperplasia endometrial por desequilíbrio hormonal). o Atrofia: redução do tamanho e número de células → redução do órgão/tecido; resulta de diminuição da síntese proteica e aumento da degradação; exemplos: fisiológica (involução de estruturas embrionárias) e patológica (desuso, perda de inervação, menor suprimento sanguíneo, compressão, nutrição inadequada). o Metaplasia: alteração de diferenciação que torna células mais resistentes ao estímulo, mas reduz função e aumenta probabilidade de transformação maligna; exemplo: substituição de epitélio colunar por escamoso no trato respiratório por agressão crônica (cigarro). • Observação: hiperplasia e hipertrofia podem ocorrer juntas e ser induzidas pelos mesmos estímulos. 7) Etapas da lesão celular e morte Lesão reversível • A lesão é reversível até certo ponto; removendo a causa, a célula pode se recuperar. • Mudanças destacadas no material (lesão leve/inicial): o Inchaço celular, o bolhas na membrana plasmática, o desprendimento de ribossomos do RE (queda da síntese proteica), o agregação da cromatina, o redução de ATP por disfunção mitocondrial. Lesão irreversível (“ponto de não retorno”) • Se estímulo persistir/intensidade for alta, a célula ultrapassa um ponto crítico de dano (ponto de não retorno — ainda debatido no texto) e evolui para lesão irreversível e morte. • Morte celular é central na evolução de doenças, e também participa de processos fisiológicos (ex.: embriogênese e manutenção da homeostase). • Atividade 1 (etapas e irreversibilidade): correta E (lesão irreversível = ultrapassa ponto de não retorno → morte). 8) Necrose: morfologia e tipos Conceito e mecanismo geral • Necrose é morte celular em organismo vivo por agressão intensa; ocorre vazamento de hidrolases lisossomais, favorecido por acúmulo de cálcio no citoplasma que ativa enzimas. • Enzimas citadas e funções: o Proteases (quebram proteínas), lipases (quebram gorduras), ribonucleases (degradam material genético). • Necrose libera alarminas, ativando sistema imune e iniciando resposta inflamatória para remover células mortas e reparar o tecido. Alterações microscópicas • Alterações nucleares: o Picnose: condensação/contração da cromatina (núcleo menor e mais basófilo); o Cariólise: digestão da cromatina → perda de definição nuclear; o Cariorrexe: fragmentação/dispersão nuclear no citoplasma. • Alterações citoplasmáticas: o aumento de acidofilia (eosinofilia) com desacoplamento de ribossomos e desnaturação proteica; o citoplasma granuloso; figuras de mielina (massa amorfa espiralada oriunda de membranas danificadas); o em ME: descontinuidade de membranas, dilatação mitocondrial, figuras de mielina e proteínas desnaturadas. Principais tipos (descritos no texto) • Necrose coagulativa (isquêmica): causa mais frequente é isquemia; macroscopia com área esbranquiçada e protuberante, com halo vermelho (hiperemia compensatória); microscopia com cariólise e citoplasma “coagulado” (acidófico/gelificado), e progressão com perda da arquitetura tecidual. • Necrose liquefativa: digestão de células mortas por abundância de enzimas lisossomais; região mole/liquefeita; comum após anóxia do tecido nervoso e suprarrenal; também em infecções bacterianas/fúngicas focais, com migração de leucócitos e liberação enzimática → pus (área amarelada, cremosa). • Necrose caseosa: “semelhante a queijo”; área fria e esbranquiçada; comum na tuberculose; com células rompidas/fragmentadas e restos granulares amorfos formando massa homogênea; típica de granuloma com borda inflamatória. • Gangrena (evolução da necrose): o Gangrena seca: ação de agentes externos e desidratação da região (especialmente em contato com o ar). o Gangrena úmida: invasão por microrganismos anaeróbios → enzimas liquefazem tecido e produzem gases com odor fétido. o Gangrena gasosa: contaminação por Clostridium, com enzimas proteolíticas e grande produção de gás (bolhas). Atividade 2 (necrose – conceito): correta A (autólise + enzimas lisossomais + inflamação). 9) Apoptose: causas, funções, mecanismos e morfologia Definição e diferença central vs necrose • Apoptose é morte celular rigorosamente controlada, em que a célula aciona mecanismos que culminam na morte. • Diferença enfatizada: na apoptose não há autólise nem descontinuidade de membrana; a célula fragmenta em corpos apoptóticos envoltos por membrana e é removida por células vizinhas sem inflamação. Onde a apoptose ocorre • O texto separa processos de apoptose em fisiológicos (eliminação de células desnecessárias; regulação de renovação e proliferação tecidual) e outros contextos (o material indica essa divisão e introduz a seção). Base molecular: caspases e controle • Proteínas pró-apoptóticas estimulam e antiapoptóticas impedem a apoptose; estímulo pró-morte aumenta atividade pró-apoptótica e inicia clivagem/ativação de caspases (marcador importante do processo). • Fases: iniciação (caspases iniciadoras) e execução (caspases executoras degradam componentes críticos). Vias principais • Via intrínseca (mitocondrial): o aumento da permeabilidade da membrana externa mitocondrial → liberação de proteínas pró-apoptóticas; citadas: citocromo C, endonuclease G, AIF; no citoplasma, iniciam ativação de caspases e destruição organizada. o Controle por família Bcl-2: antiapoptóticas (Bcl-2, Bcl-XL) impedem liberação; pró- apoptóticas (ex.: BAX) favorecem permeabilização/ativação. o Ativação associada a falta de sinais de sobrevivência, dano ao DNA ou acúmulo de proteínas defeituosas (estresse do RE). o Há bloqueadores e IAP (inibidores fisiológicos da apoptose) que impedem ativação de caspases quando a célula ainda pode ser recuperada. • Via extrínseca (receptor de morte): o moléculas sinalizadoras ligam-se a receptores específicos; principais receptores: TNF tipo 1 e Fas, com “domínio de morte” interno. o Exemplo: FasL (linfócitos T citotóxicos) liga em Fas → ativaçãode proteínas adaptadoras (ex.: FADD) → ativação de caspases. o Bloqueio citado: proteína FLIP impede ativação da caspase 8 e interrompe o processo. • Ambas as vias ativam caspases iniciadoras e levam à fragmentação em corpos apoptóticos, que são fagocitados rapidamente, evitando inflamação. Morfologia (características descritas) • Retração celular: diminuição do tamanho, citoplasma denso e compactação de organelas (diferente da tumefação típica de outras lesões). • Condensação da cromatina: aspecto mais marcante; cromatina agregada na periferia da membrana nuclear; núcleo se rompe em fragmentos. • Bolhas citoplasmáticas e corpos apoptóticos: bolhas superficiais extensas e fragmentação em corpos apoptóticos envoltos por membrana, com restos de citoplasma, organelas e fragmentos nucleares. Questão 2 (apoptose – o que NÃO corresponde): correta B (indução de inflamação). O texto explica que os restos são removidos antes de sofrer necrose e iniciar inflamação. 10) Conclusão (o que o PDF reforça no final) • Saúde: não só ausência de doença, mas bem-estar; doença: estado de falta de adaptação com sintomas/alterações orgânicas; patologia: estuda etiologia, patogênese e alterações morfológicas/funcionais com base para prevenção/diagnóstico/tratamento/prognóstico. • Agressões internas/externas e defesas (barreiras, fagocitose, resposta imune, reparo de DNA). • Adaptações: hipertrofia, hiperplasia, atrofia, metaplasia. • Lesão reversível (ex.: degeneração hidrópica) e degenerações (gordura/esteatose, proteínas/hialina, cálcio/cálcica). • Lesão irreversível e morte por necrose (inflamatória, com autólise e enzimas lisossomais) ou apoptose (programada, sem inflamação). “Distúrbios Pigmentares e Calcificações” 1) Conceito geral de pigmentos (visão do conteúdo) • Pigmentos podem ser: o Endógenos (produzidos no próprio corpo), como melanina e pigmentos derivados da hemoglobina. o Exógenos (vindos do ambiente). • O acúmulo de pigmentos pode indicar processos fisiológicos ou patológicos (mudança de cor dos tecidos e/ou alteração do funcionamento). 2) Pigmentos endógenos: melanina 2.1 O que é e para que serve • A melanina é descrita como o principal pigmento biológico, responsável pela pigmentação cutânea e por diferenças de cor da pele, com coloração do marrom ao preto. • É produzida pelos melanócitos (na epiderme e na matriz dos folículos pilosos). • Função principal: proteção contra radiação ultravioleta (UV) por absorção e dispersão da luz UV e visível. 2.2 Síntese da melanina (onde começa e “caminhos”) • A síntese ocorre dentro dos melanossomos, a partir do aminoácido tirosina, pela ação do complexo enzimático tirosidase. • Em presença de oxigênio, a tirosina é oxidada até dopamina (DOPA) e depois dopaquinona. • A presença ou ausência de cisteína (glutationa) direciona a síntese: o Com cisteína → feomelanina (descrita como pigmento mais solúvel/amarelado, com função antioxidante). o Sem glutationa → eumelanina (marrom a preta; ação antioxidante e fotoprotetora). • O material afirma que primeiro é formada a feomelanina e por último a eumelanina, e que a melanina total resulta da mistura dos dois pigmentos. 2.3 Transferência para queratinócitos e proteção do núcleo • Ao final, melanossomos cheios de pigmentos são transferidos para os queratinócitos e ficam distribuídos acima do núcleo, protegendo o núcleo dos efeitos nocivos dos raios UV. 2.4 Eumelanina x Feomelanina e suscetibilidade ao UV • O conteúdo destaca que variações na síntese alteram a proporção entre eumelanina e feomelanina, afetando a fotoproteção: o Eumelanina confere maior proteção. o Feomelanina é menos eficiente na proteção. • Indivíduos com mais eumelanina tendem a ser mais pigmentados; com mais feomelanina, menos pigmentados e mais suscetíveis ao UV. 2.5 Diferenças fenotípicas entre grupos étnicos • O material afirma que a diferença fenotípica fundamental não está na quantidade de melanina ou no número de melanócitos, mas principalmente na qualidade dos melanossomas. 3) Distúrbios ligados à melanina (ênfase: diminuição/ausência) 3.1 Vitiligo • É descrito como um quadro de acromia adquirida (ausência de formação de melanina na epiderme). • Patogênese: não totalmente compreendida; característica histológica central é a diminuição progressiva ou ausência de melanócitos → produção de melanina comprometida. • Aspecto clínico descrito: o manchas simétricas, irregulares, brancas (pela falta de melanina), o com hipercromia ao redor das áreas afetadas (produção exagerada de melanina ao redor). • Classificação: condição multifatorial; teorias citadas para ausência de melanócitos: estresse oxidativo, autoimunidade e autodestruição dos melanócitos. • O vitiligo de origem genética (familiar) representa cerca de 20% dos casos. 3.2 Albinismo • Doença genética citada com frequência aproximada de 1 a cada 20 mil pessoas. • Pode ocorrer como: o Acromia parcial: ausência de pigmentação somente na retina (albinismo ocular – AO). o Acromia generalizada: afeta pele, cabelos e olhos (albinismo oculocutâneo – AOC). • O AOC é descrito como autossômico recessivo, ligado a mutações em genes relacionados à tirosinase, levando à coloração branca da pele e dos cabelos por ausência de pigmentação. • Orientação destacada: indivíduos com albinismo devem evitar ao máximo a exposição solar, por deficiência na principal proteção orgânica contra UV (melanina). 3.3 Acromia cicatricial (pós-inflamatória) • Ocorre quando a pele perde pigmentação após processo inflamatório, porque mediadores inflamatórios interferem na atividade dos melanócitos. • Dependendo da intensidade: melanócitos podem ser destruídos ou ficar inativos, resultando em áreas mais claras. • Após a inflamação, em alguns casos, melanócitos ficam em “estado de esgotamento” pelo estímulo/atividade exagerada. 4) Distúrbios por aumento de melanina: nevos e vigilância para melanoma 4.1 Nevos melanocíticos • Definidos como neoplasias benignas que se apresentam como pequenas lesões (normalmente• O aumento plasmático leva ao acúmulo em pele, mucosas, tecidos e órgãos (especialmente fígado e rins), resultando em coloração amarelada. Etapas da degradação do heme e formação da bilirrubina (conforme o texto) • Etapa 1: hemoglobina → globina (vira aminoácidos reaproveitados) + heme (degradado) → libera ferro, CO e biliverdina (verde). • Etapa 2: biliverdina → bilirrubina que se liga à albumina (bilirrubina indireta), transportada ao fígado. • Etapa 3: no fígado ocorre conjugação, tornando-a solúvel em água → bilirrubina direta, eliminável. 6) Pigmentação exógena: como entra no corpo e o que causa 6.1 Vias de entrada • Pigmentos exógenos vêm de fora e podem entrar por: o inalação, o ingestão, o inoculação (tatuagens/ferimentos). 6.2 Resposta do organismo • Quando se acumulam nos tecidos, o corpo os reconhece como corpos estranhos, ativando o sistema imune, com macrófagos fagocitando e tentando eliminar; isso pode gerar inflamação inicial que desaparece ou evolui para crônica, levando a fibrose. • Diferentemente de pigmentos endógenos (que podem indicar dano), os exógenos são descritos como, na maioria, responsáveis pelo desenvolvimento de doenças, muitas por exposição ocupacional (mineradores, indústria, joalheiros). 6.3 Exceção: tatuagem (via inoculação) • Tatuagem é apresentada como exceção: pigmento exógeno inoculado, fagocitado por macrófagos, mas sem causar doença. • Realizada pela inoculação de pigmentos insolúveis (ex.: sais de enxofre, carvão, nanquim, mercúrio, ferro e outros corantes) com agulhas para fins estéticos/identificação animal. • Em geral, é permanente por introdução do pigmento na derme; se for muito superficial (estrato córneo), torna-se temporária. • Após inoculação, pigmentos ficam principalmente em macrófagos na derme por toda a vida e podem ir em menor quantidade para linfonodos regionais. • Histologia: grânulos pequenos dentro de macrófagos ou pigmentos retidos no conjuntivo fibroso; geralmente sem resposta inflamatória. • A atividade conceitual reforça que pigmentos exógenos podem manter inflamação crônica e fibrose quando não são eliminados (dependendo do pigmento, pode ser mínima ou persistente). 6.4 Exógenos por ingestão oral: argirismo (prata) • Argirismo: intoxicação por sais de prata e deposição dessas partículas nos tecidos. • Fontes de intoxicação citadas: o uso de medicamentos antigos com nitrato de prata (soluções/colírios), o suplementos alimentares, o penetração mecânica de partículas por glândulas sudoríparas e inalação (joalheiros e trabalhadores de minas de prata). • Alteração principal: mudança visível de pigmentação, principalmente em pele exposta ao sol e unhas; também pode aparecer em macrófagos de linfonodos, membrana basal de glomérulos renais e globo ocular. • Clínica: pele com coloração cinza-azulada irreversível, com impacto psicossocial (depressão/afastamento social). • Histologia: grânulos de prata em maior quantidade na borda externa da membrana basal e porção glandular das glândulas sudoríparas; sugere acúmulo via líquido intersticial nas glândulas. • Ingestão crônica disseminada de compostos solúveis → argiria sistêmica; quando afeta olhos → argirose. 6.5 Pneumoconioses: asbestose (amianto) • O material descreve que a inalação prolongada de substâncias como sílica e amianto causa inflamação persistente; como defesa, ativa fibroblastos e aumenta produção de colágeno → fibrose pulmonar progressiva e padrão restritivo. • No caso prático, fatores ocupacionais: construção civil sem EPI, exposição prolongada, e persistência das fibras no pulmão por anos. • Mesmo após cessar exposição, pode progredir porque as fibras permanecem por décadas e mantêm inflamação → fibrose progressiva. • Complicações citadas: insuficiência respiratória crônica, hipertensão pulmonar, risco aumentado de mesotelioma maligno e câncer de pulmão → necessidade de monitoramento. 7) Calcificação patológica (degeneração cálcica) 7.1 Definição • “Calcificação patológica” (degeneração cálcica): deposição anormal de sais de cálcio (com menores quantidades de ferro e outros sais) nos tecidos. 7.2 Etapas do processo (como acontece) • O processo ocorre em duas etapas: o Nucleação primária: pequenos cristais de cálcio se formam espontaneamente e se acumulam no tecido. o Nucleação secundária: cristais já existentes servem de base para fixar mais cálcio, aumentando o depósito. • O cálcio circulante também contribui: ao se combinar com fosfato → fosfato de cálcio (pouco solúvel) que se acumula em órgãos e vasos, prejudicando função. • Depósitos podem ser organizados (cristais estruturados) ou desorganizados (massas amorfas). 7.3 Tipos: distrófica x metastática • O material diferencia: o Calcificação distrófica: ocorre localmente em tecidos mortos/danificados, independe do nível de cálcio no sangue. o Calcificação metastática: deposição de sais em tecidos normais, quase sempre por hipercalcemia secundária a desequilíbrio no metabolismo do cálcio. 7.3.1 Calcificação distrófica (detalhes) • Forma mais comum; ocorre em locais com necrose (infartos, inflamações crônicas) e até em placas de aterosclerose. • Pode afetar valvas cardíacas envelhecidas/danificadas, dificultando funcionamento; citada também em trombose venosa, pancreatite aguda com necrose gordurosa e obstruções em canais biliares. • Estruturas como fibras elásticas/colágenas, ácidos graxos e proteínas desnaturadas podem iniciar nucleação primária. • Aspecto macro: grânulos/grumos brancos palpáveis. • Microscopia (H&E): granular, amorfa, basofílica (azul), formando grumos; pode ser intra e/ou extracelular. • Pode haver foco de cristalização em células necróticas e crescimento por camadas, formando psamomas (“grãos de areia”). 7.3.2 Calcificação metastática (detalhes) • Ocorre em tecidos normais quando há hipercalcemia; causas citadas: o hiperparatireoidismo (tumores de paratireoide ↑ cálcio), o destruição óssea por tumores/metástases/imobilização prolongada, o problemas com vitamina D (↑ absorção de cálcio), o insuficiência renal (altera equilíbrio Ca/P). • Órgãos afetados citados: rins, pulmões, estômago e artérias; ambiente alcalino favorece deposição → pode gerar insuficiência renal e dificuldades respiratórias. • No caso de insuficiência renal crônica: retenção de fósforo → ↑ PTH → mobiliza cálcio dos ossos → hipercalcemia; com excreção renal prejudicada, cálcio/fósforo precipitam em tecidos. • Estratégias terapêuticas citadas: restrição de fósforo na dieta, quelantes de fósforo, calcimiméticos para reduzir PTH; importância do manejo: prevenir calcificação vascular e complicações cardiovasculares graves. 8) Cálculos (concreções/litíases) • Cálculos (“pedras”) são pequenas massas sólidas formadas dentro de órgãos; aparecem principalmente em rins e vesícula biliar. • Nome científico: litíase, variando conforme local: o vesícula: colelitíase o rins: nefrolitíase o glândulas salivares: sialolitíase • Composição depende do local: o vesícula: colesterol ou outras substâncias, o rins: sais minerais como cálcio. • No exemplo de colelitíase: associada a produção aumentada de bile, favorecendo precipitação de sais de cálcio, bilirrubina e colesterol → obstrução de vias biliares, dor e inflamação; pode ser assintomática ou causar complicações como colecistite e pancreatite. “Distúrbios da Circulação” (Profa. Gabriela Cardoso Caldas) 1. Propósito e objetivos do conteúdo • O material tem como finalidade compreender os processos fisiológicos e fisiopatológicos da circulação sanguínea e da hemostasia, permitindo diferenciar condições clínicas e seus mecanismos subjacentes. • Objetivos centrais: o Reconhecer os princípios da circulação e da regulação vascular. o Compreender hemostasia, coagulação e fibrinólise. o Identificar mecanismos,causas e consequências dos distúrbios hemodinâmicos: hemorragia, hiperemia, congestão, trombose, embolia, isquemia, infarto, edema e choque. 2. Princípios da circulação sanguínea 2.1 Organização geral do sistema circulatório • A circulação depende da atuação integrada de: o Coração (bomba), o Vasos sanguíneos (artérias, veias, capilares), o Vasos linfáticos. • Funções principais: o Transporte de oxigênio e nutrientes, o Remoção de metabólitos, o Manutenção da pressão e do fluxo sanguíneo, o Distribuição de células e moléculas envolvidas na defesa e na coagulação. 2.2 Vasos sanguíneos: estrutura e função • Artérias o Parede espessa, resistente, com grande quantidade de músculo liso e elastina. o Transportam sangue sob alta pressão e velocidade. o Classificação: Artérias elásticas (ex.: aorta), Artérias musculares (ex.: coronárias), Arteríolas (regulação da pressão arterial). • Veias o Paredes mais finas, luz maior e menor pressão. o Possuem válvulas que impedem refluxo. o Transportam sangue venoso de volta ao coração (exceto veias pulmonares e umbilicais). • Capilares o Parede formada por uma única camada de células endoteliais, com pericitos. o Local principal de troca de gases, nutrientes e metabólitos entre sangue e tecidos. 2.3 Camadas da parede vascular • Íntima: endotélio + membrana basal; contato direto com o sangue. • Média: rica em músculo liso e elastina; regula o calibre vascular. • Adventícia: tecido conjuntivo, fibras nervosas e pequenos vasos. 3. Fluxo sanguíneo e sua regulação 3.1 Fluxo unidirecional • Mantido por: o Débito cardíaco, o Válvulas cardíacas e venosas, o Ação dos músculos esqueléticos, o Movimento respiratório, o Pulsação arterial. • O retorno venoso depende do equilíbrio entre esses fatores. 3.2 Fatores que influenciam o fluxo • Gradiente de pressão entre artérias e veias. • Resistência vascular, determinada principalmente pelo calibre dos vasos. • Viscosidade sanguínea, influenciada pela proporção entre plasma e elementos figurados. • Arteríolas são os principais reguladores da resistência periférica e da pressão arterial. 3.3 Fluxo laminar e turbulento • Fluxo laminar: o Elementos figurados circulam no centro do vaso, o Plasma forma uma camada próxima ao endotélio, o Reduz atrito e ativação plaquetária. • Fluxo turbulento: o Ocorre quando o padrão laminar se perde, o Favorece contato de plaquetas com o endotélio, o Aumenta risco de trombose e aterosclerose. 4. Hemostasia 4.1 Conceito • Hemostasia é o processo fisiológico que previne ou limita a perda sanguínea após lesão vascular. • Envolve endotélio, plaquetas e fatores de coagulação. • Resulta na formação de um tampão hemostático, seguido de reparo vascular e dissolução do coágulo. 4.2 Etapas da hemostasia 1. Vasoconstrição o Imediata e transitória. o Mediadas por estímulos neurais e por substâncias endoteliais (ex.: endotelina). 2. Hemostasia primária o Exposição do colágeno e do fator de Von Willebrand. o Adesão, ativação e agregação plaquetária. o Formação do tampão plaquetário primário. 3. Hemostasia secundária (coagulação) o Ativação da cascata de coagulação. o Formação de trombina. o Conversão de fibrinogênio em fibrina. o Estabilização do tampão hemostático secundário. 4. Fibrinólise o Dissolução controlada do coágulo pela plasmina. o Restauração do fluxo sanguíneo normal. 4.3 Plaquetas • Fragmentos celulares anucleados, derivados dos megacariócitos. • Possuem: o Receptores glicoproteicos, o Citoesqueleto contrátil, o Grânulos α (fatores de adesão, coagulação e reparo), o Grânulos δ (ADP, ATP, cálcio, serotonina). • Função central na formação do tampão hemostático primário. 4.4 Papel do endotélio saudável • Atua como superfície antitrombótica: o Libera óxido nítrico e prostaciclina (inibem agregação plaquetária), o Expressa trombomodulina e ativa proteína C, o Produz ativador do plasminogênio tecidual (t-PA). • Quando lesionado ou ativado por inflamação, perde essas propriedades. 5. Distúrbios circulatórios 5.1 Hemorragia • Resulta de defeitos na parede vascular, nas plaquetas ou nos fatores de coagulação. • Pode variar de discreta a maciça e fatal. • Tipos de apresentação: o Petéquias, o Púrpuras, o Equimoses, o Hematomas, o Hemorragias internas ou externas. • Impacto clínico depende de: o Volume perdido, o Velocidade do sangramento, o Localização (ex.: cérebro). 5.2 Hiperemia e congestão • Hiperemia o Processo ativo. o Dilatação arteriolar com aumento do fluxo sanguíneo. o Tecidos ficam avermelhados (eritema). • Congestão o Processo passivo. o Dificuldade de escoamento venoso. o Associada a edema e hipóxia tecidual. 6. Trombose 6.1 Conceito • Formação de um coágulo patológico (trombo) no interior de vasos ou câmaras cardíacas. • Base fisiopatológica das doenças cardiovasculares mais comuns. 6.2 Tríade de Virchow 1. Lesão endotelial o Exposição de colágeno, fator tecidual e fator de Von Willebrand. o Fundamental na trombose arterial. 2. Alterações do fluxo sanguíneo o Estase (principal fator na trombose venosa), o Turbulência (trombose arterial e cardíaca). 3. Hipercoagulabilidade o Genética (ex.: mutação do fator V, protrombina), o Adquirida (câncer, imobilização, síndrome antifosfolipídio). 6.3 Trombos venosos x arteriais • Trombos venosos o Ricos em hemácias (“trombos vermelhos”), o Associados à estase, o Podem causar embolia pulmonar. • Trombos arteriais o Ricos em plaquetas, o Associados à lesão endotelial, o Podem causar infarto e AVE. 7. Embolia 7.1 Conceito • Êmbolo: massa sólida, líquida ou gasosa transportada pelo sangue que se aloja em vasos de menor calibre. • A maioria dos êmbolos é formada por trombos (tromboembolismo). 7.2 Tipos principais • Embolia pulmonar o Origem em trombos das veias profundas das pernas. o Pode causar insuficiência cardíaca direita, infarto pulmonar e morte súbita. • Embolia sistêmica o Origem cardíaca ou arterial. o Consequências dependem da circulação colateral. • Embolia de líquido amniótico o Alta mortalidade materna. 8. Isquemia, infarto e reperfusão 8.1 Isquemia • Redução ou interrupção do fluxo sanguíneo. • Diferente da hipóxia isolada, pois compromete oxigênio e nutrientes. • Causas: o Mecânicas (trombose, embolia, compressão), o Funcionais (hipotensão, redistribuição sanguínea). 8.2 Consequências • Dependem de: o Velocidade de instalação, o Grau de obstrução, o Vulnerabilidade do tecido, o Circulação colateral. • Podem evoluir para: o Lesão reversível, o Necrose, o Gangrena, o Infarto. 8.3 Lesão de isquemia-reperfusão • A restauração do fluxo pode agravar o dano. • Envolve: o Estresse oxidativo, o Sobrecarga de cálcio, o Ativação do complemento, o Infiltração neutrofílica. 9. Síntese final • A circulação e a hemostasia são processos altamente regulados. • Distúrbios hemodinâmicos resultam de desequilíbrios entre fluxo, integridade vascular e coagulação. • Hemorragia, trombose, embolia e isquemia estão interligadas e têm grande impacto clínico e em saúde pública. Inflamação, Reparo Teccidual e Neoplasias – Profa. Gabriela Cardoso Caldas 1. INFLAMAÇÃO 1.1 Conceito geral • Inflamação é uma resposta dos tecidos vascularizados a lesões e agentes agressores. • Tem como objetivos: o Eliminar o agente agressor (microrganismos, toxinas, corpos estranhos); o Remover células e tecidos necrosados; o Iniciar o reparo tecidual. • Apesar de ser um mecanismo essencial à sobrevivência, pode causar dano tecidual quando excessiva ou mal regulada. 1.2 Histórico e sinais cardinais • Descrita desde a Antiguidade (papiro egípcio – ~3000 AEC). • No século I EC foram definidosos 4 sinais cardinais: o Rubor (vermelhidão) o Calor o Tumor (edema) o Dor • No século XIX, acrescentou-se o 5º sinal: o Perda de função 1.3 Causas da inflamação As causas mais relevantes incluem: • Infecções (bactérias, vírus, fungos, parasitas e toxinas); • Necrose tecidual (isquemia, trauma, agentes físicos e químicos); • Corpos estranhos (suturas, partículas, cristais endógenos como colesterol); • Reações de hipersensibilidade (doenças autoimunes e alergias). ���� As infecções são a causa mais comum e clinicamente importante. 1.4 Etapas do processo inflamatório – “5 Rs” 1. Reconhecimento do agente agressor o Por células sentinelas: macrófagos, células dendríticas, epiteliais. 2. Recrutamento de leucócitos e proteínas plasmáticas o Vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular. 3. Remoção do agente agressor o Fagocitose e destruição de microrganismos e células mortas. 4. Regulação e resolução da resposta o Ativação de mecanismos anti-inflamatórios. 5. Restauração do tecido o Regeneração ou cicatrização. 1.5 Inflamação aguda Características gerais • Resposta rápida e de curta duração. • Dois componentes principais: o Alterações vasculares o Eventos celulares Alterações vasculares • Vasodilatação (mediada principalmente pela histamina). • Aumento do fluxo sanguíneo → calor e rubor. • Aumento da permeabilidade vascular → extravasamento de proteínas e líquidos. • Formação de exsudato (rico em proteínas) → edema. • Evolução para estase (fluxo lento e viscosidade aumentada). ���� Diferença importante: • Exsudato: inflamatório, rico em proteínas. • Transudato: pobre em proteínas, sem inflamação. Eventos celulares • Principais células: o Neutrófilos (primeiras 24h) o Monócitos/macrófagos (após 24–48h) Etapas do recrutamento leucocitário 1. Marginação 2. Rolamento 3. Adesão ao endotélio (selectinas e integrinas) 4. Migração através do endotélio (diapedese) 5. Quimiotaxia no tecido Fagocitose • Fases: 1. Reconhecimento e ligação 2. Englobamento (fagossomo) 3. Fusão com lisossomo (fagolisossomo) 4. Destruição por enzimas e espécies reativas de oxigênio e nitrogênio ���� Neutrófilos também podem formar NETs (armadilhas extracelulares). 1.6 Desfechos da inflamação aguda • Resolução completa • Cicatrização/fibrose • Progressão para inflamação crônica 1.7 Inflamação crônica Conceito • Processo inflamatório prolongado, com: o Destruição tecidual contínua; o Tentativas simultâneas de reparo. Causas principais • Infecções persistentes (tuberculose, hepatite C); • Exposição prolongada a agentes tóxicos (ex.: sílica); • Doenças de hipersensibilidade (autoimunes e alérgicas). Características morfológicas • Infiltrado de células mononucleares: o Macrófagos o Linfócitos o Plasmócitos • Destruição tecidual • Fibrose e angiogênese ���� Os macrófagos são centrais: • Eliminam agentes lesivos; • Secretam citocinas e fatores de crescimento; • Podem perpetuar o dano tecidual. 2. REPARO TECIDUAL 2.1 Conceito • Restauração da arquitetura e função do tecido após lesão. • Pode ocorrer por: o Regeneração o Cicatrização o Ou combinação de ambas 2.2 Regeneração • Ocorre quando: o As células sobreviventes mantêm capacidade proliferativa; o A matriz extracelular está preservada. • Depende de: o Fatores de crescimento; o Interação célula–matriz. Tipos celulares quanto à capacidade proliferativa • Células lábeis o Divisão contínua (epitélios, células hematopoiéticas). • Células estáveis o Quiescentes, mas proliferam após lesão (fígado, rim, pâncreas). o Exceção importante: fígado, com alta capacidade regenerativa. • Células permanentes o Não proliferam (neurônios, cardiomiócitos). 2.3 Cicatrização • Ocorre quando: o A regeneração é insuficiente; o Há lesão extensa ou tecido permanente. • Resulta na substituição por tecido conjuntivo fibroso. Fases da cicatrização 1. Inflamatória o Hemostasia o Neutrófilos → macrófagos 2. Proliferativa o Epitelização o Angiogênese o Formação do tecido de granulação 3. Maturação o Remodelamento da matriz extracelular o Deposição organizada de colágeno o Aumento da resistência da ferida 2.4 Tipos de cicatrização Primeira intenção • Lesões pequenas, limpas e suturadas. • Cicatriz discreta e rápida. Segunda intenção • Lesões extensas, infectadas ou com grande perda tecidual. • Inflamação intensa • Grande formação de tecido de granulação • Contração da ferida por miofibroblastos 2.5 Complicações da cicatrização • Deiscência • Ulceração • Cicatriz hipertrófica • Queloide • Granulação exuberante • Contraturas 2.6 Fatores que interferem no reparo Locais • Infecção • Corpos estranhos • Perfusão inadequada • Estresse mecânico Sistêmicos • Diabetes mellitus • Estado nutricional (proteínas, vitamina C, zinco) • Tabagismo • Uso de glicocorticoides • Idade e resposta inflamatória sistêmica 3. NEOPLASIAS 3.1 Conceito • Neoplasia = distúrbio da proliferação celular causado por mutações adquiridas. • Caracteriza-se por: o Crescimento excessivo; o Independência de sinais regulatórios normais; o Origem clonal. 3.2 Componentes do tumor • Parênquima tumoral (células neoplásicas) • Estroma tumoral: o Tecido conjuntivo o Vasos sanguíneos o Células inflamatórias 3.3 Tumores benignos • Crescimento localizado • Não invadem nem metastizam • Geralmente removíveis cirurgicamente • Podem causar morbidade dependendo da localização Nomenclatura • Tipo celular + sufixo –oma o Fibroma o Condroma o Papiloma 3.4 Tumores malignos (câncer) • Invadem tecidos adjacentes • Podem metastizar • Potencialmente fatais Nomenclatura • Carcinomas: origem epitelial • Sarcomas: origem mesenquimal • Leucemias e linfomas: origem hematopoiética ���� Observação importante: • Alguns nomes terminados em “–oma” são malignos (ex.: melanoma, linfoma). 3.5 Pólipos • Neoplasias com projeções visíveis acima da mucosa. • Podem ser benignos ou malignos. �� Resumo final • A inflamação é essencial, mas deve ser rigidamente regulada. • O reparo tecidual depende da integridade do tecido e da resposta inflamatória. • As neoplasias resultam de alterações genéticas que conferem vantagem proliferativa às células. ���� Praticando – Patologia PRATICANDO – PATOLOGIA Objetivo do material • O ambiente Praticando tem como finalidade consolidar os conhecimentos teóricos por meio de: o Estudos de caso; o Desafios clínicos; o Situações-problema. • Estimula o raciocínio clínico, a aplicação prática dos conceitos de patologia e a capacidade de análise crítica. • Trabalha frustração, tomada de decisão e correlação clínico-patológica. 1. PROCESSOS DE LESÃO, DEGENERAÇÃO E MORTE CELULAR 1.1 Estudo de caso – Degeneração hidrópica • Caso clínico: jovem adulta com fadiga, fraqueza muscular e cãibras. • Diagnóstico: degeneração hidrópica nos músculos esqueléticos. • Características: o Acúmulo de água e eletrólitos no interior celular; o Aumento do volume das células (tumefação); o Lesão reversível. • Mecanismo fisiopatológico: o Falha nas bombas eletrolíticas (principalmente Na⁺/K⁺-ATPase); o Redução de ATP; o Influência do estresse físico (sobrecarga muscular) e mental (liberação de cortisol). • Condutas propostas: o Redução do agente agressor (estresse); o Sono adequado; o Exercício físico moderado; o Alimentação equilibrada com eletrólitos; o Técnicas de manejo do estresse. 1.2 Agressão, adaptação e estresse • Qualquer estímulo pode se tornar agressivo dependendo: o Da intensidade; o Do tempo de exposição; o Da capacidade de resposta do hospedeiro. • Se a agressão não for fatal: o Ocorrem respostas adaptativas; o O tecido pode tornar-se mais resistente. • Estresse:o Resposta adaptativa sistêmica frente a agressões físicas, químicas ou emocionais. • As alterações morfológicas das lesões: o Variam conforme o tempo de evolução e o momento da avaliação. 1.3 Mecanismos de adaptação celular • Hiperplasia o Aumento do número de células; o Ocorre por proliferação de células maduras e/ou células-tronco; o Mediado por fatores de crescimento e hormônios; o Exemplo: regeneração hepática, hiperplasia endometrial. • Diferença dos demais mecanismos: o Hipertrofia → aumento do tamanho celular; o Metaplasia → substituição de um tipo celular por outro; o Atrofia → redução do tamanho e/ou número de células; o Neoplasia → crescimento descontrolado e autônomo. 1.4 Lesão celular reversível × irreversível Lesão reversível • Redução da fosforilação oxidativa; • Diminuição temporária de ATP; • Aumento da glicólise anaeróbica; • Possibilidade de recuperação se o agente agressor for removido. Lesão irreversível • Liberação de hidrolases lisossomais; • Ativação de caspases; • Alterações nucleares (cariorrexe); • Evolução para necrose ou apoptose. 1.5 Degeneração gordurosa (esteatose) • Acúmulo de gorduras neutras (triglicerídeos) em células parenquimatosas. • Órgão mais acometido: fígado. • Outros órgãos: rim, pâncreas, músculo esquelético e cardíaco. • Mecanismos: o Aumento da captação de ácidos graxos; o Bloqueio da utilização de triglicerídeos; o Alterações induzidas por agentes tóxicos e álcool. • Padrões: o Mais comum: macrovesicular; o Microvesicular: menos frequente e associado a condições específicas. 1.6 Xantomas • Lesões cutâneas formadas por: o Macrófagos espumosos carregados de colesterol. • Associados a: o Distúrbios do metabolismo lipídico; o Síndrome metabólica. • Manifestam-se como: o Nódulos ou placas em áreas de pressão ou trauma. 2. DISTÚRBIOS PIGMENTARES E CALCIFICAÇÕES 2.1 Distúrbios da melanina • Vitiligo o Doença adquirida; o Ausência ou diminuição progressiva de melanócitos; o Manchas brancas, geralmente simétricas; o Hipercromia periférica possível. • Diferenças importantes: o Albinismo → redução generalizada de melanina; o Acromia cicatricial → perda de pigmento por cicatriz; o Acromotriquia → despigmentação dos cabelos. 2.2 Hemocromatose secundária • Ocorre principalmente por: o Aumento da degradação de hemácias; o Transfusões sanguíneas frequentes; o Distúrbios hematológicos. • Resulta em: o Acúmulo de ferro (hemossiderina); o Deposição em fígado, pâncreas, coração, pele. • Pode levar a: o Cirrose hepática; o Diabetes; o Insuficiência cardíaca. 2.3 Vitamina D e calcificação • Vitamina D ativa: o Aumenta absorção intestinal de cálcio e fósforo; o Estimula reabsorção renal; o Induz produção de osteocalcina pelos osteoblastos. • Deficiência de vitamina D: o Redução da osteocalcina; o Prejuízo da mineralização óssea; o Fragilidade óssea (osteoporose). 2.4 Melasma (cloasma) • Manchas hiperpigmentadas: o Castanho-claro a escuro; o Bordas irregulares; o Geralmente simétricas. • Fatores associados: o Alterações hormonais (gravidez); o Exposição solar. • Não causa dano funcional, apenas estético. • Uso de filtro solar: o Reduz ou evita agravamento. 2.5 Calcificação patológica Conceito • Deposição anormal de sais de cálcio em tecidos moles. • Cristais semelhantes à hidroxiapatita óssea. • Geralmente assintomáticas. Tipos Calcificação distrófica • Mais comum; • Ocorre em tecidos necrosados; • Independente dos níveis plasmáticos de cálcio. Calcificação metastática • Ocorre em tecidos normais; • Associada a hipercalcemia ou hiperfosfatemia; • Mais frequente em tecidos com pH alcalino. 3. DISTÚRBIOS DA CIRCULAÇÃO 3.1 Hemostasia • Processo altamente regulado que envolve: o Endotélio; o Plaquetas; o Fatores de coagulação. • Endotélio saudável: o Expressa fatores anticoagulantes; o Produz t-PA (ativador do plasminogênio tecidual). • Formação do tampão: o Primário: plaquetas; o Secundário: fibrina. 3.2 Hiperemia × Congestão • Hiperemia o Processo ativo; o Aumento do influxo sanguíneo. • Congestão o Processo passivo; o Diminuição do efluxo sanguíneo; o Associada ao edema; o Comum na insuficiência cardíaca. 3.3 Edema e efusão • Resultam de desequilíbrio entre: o Pressão hidrostática; o Pressão oncótica. • Principais mecanismos: o Aumento da pressão hidrostática; o Retenção de sódio e água; o Diminuição da pressão oncótica plasmática. 3.4 Vasos sanguíneos • Artérias e veias: o Três camadas: íntima, média e adventícia. • Capilares: o Uma camada de endotélio + pericitos; o Permitem trocas metabólicas. • Veias: o Luz maior; o Paredes mais finas; o Presença de válvulas. 3.5 Infartos • Infarto vermelho (hemorrágico) o Regra nos pulmões; o Associado à circulação dupla; o Pode ocorrer em tecidos congestos ou após reperfusão. 4. INFLAMAÇÃO, REPARO E NEOPLASIAS 4.1 Teratoma • Tumor formado por células de: o Endoderma; o Mesoderma; o Ectoderma. • Pode conter: o Osso, gordura, epitélio, nervos. • Exceção à regra de origem germinativa única. 4.2 Anormalidades da cicatrização • Deiscência: o Mais comum em cirurgias abdominais; o Associada a tosse e vômitos. • Cicatriz hipertrófica: o Excesso de colágeno; o Restrita aos limites da ferida. • Quelóide: o Ultrapassa limites da ferida; o Não apresenta regressão. • Granulação exuberante: o Protrusão da ferida; o Prejudica reepitelização. 4.3 Fases da cicatrização • Inflamatória o Vasodilatação; o Migração de leucócitos. • Proliferativa o Reepitelização; o Angiogênese; o Tecido de granulação. • Maturação o Remodelamento do colágeno; o Aumento da resistência tecidual. �� Conclusão geral • O material integra teoria e prática, exigindo raciocínio fisiopatológico. • Consolida: o Lesão celular; o Degenerações; o Distúrbios circulatórios; o Pigmentares; o Calcificações; o Reparo tecidual; o Neoplasias.