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COMPORTAMENTO ANIMAL E BEM- ESTAR ANIMAL Elizabeth Almeida dos Santos INTRODUÇÃO-BEM-ESTAR ANIMAL ❑A preocupação com o bem-estar animal no manejo pré-abate iniciou-se na Europa no século XVI. ❑Há relatos de que os animais deveriam ser alimentados, hidratados e estar descansados antes do abate e que receberiam um golpe na cabeça que os deixaria inconscientes, antes que fosse efetuada a sangria, evitando sofrimento. ❑Entretanto, a 1ª Lei geral sobre bem-estar animal surgiu no ano de 1822, na Grã Bretanha. ❑No Brasil, há décadas já existe lei que sustenta a obrigatoriedade de atenção ao bem-estar animal e a aplicação de penalidades a quem infringi-la. ❑A 1ª LEI BRASILEIRA que trata desse assunto é o Decreto Lei número 24.645 de julho de 1934 (revogado). CONCEITOS BÁSICOS de BEM-ESTAR ANIMAL O bem-estar animal é um conceito fundamental na ética e na ciência animal, e refere-se ao estado físico e mental de um animal em relação às condições em que vive e morre (Comitê Brambell). O conceito é aplicado em diversas áreas, como produção, pesquisa, transporte e abate de animais. • OUTROS CONCEITOS DE BEM-ESTAR ANIMAL: • Barry O. Hughes (1976): “É um estado de completa saúde física e mental, em que o animal está em harmonia com o ambiente que o rodeia”. • Donald M. Broom (1986): “O estado de um indivíduo durante suas tentativas de se ajustar ao ambiente”. Nessa definição, bem-estar significa “estado” ou “qualidade de vida”, que pode variar entre muito bom e muito ruim. É o conceito mais utilizado. • Um animal pode não conseguir, apesar de várias tentativas, ajustar-se ao ambiente e, portanto, ter um bem-estar ruim. Comportamento Animal: Conceitos Básicos •Etologia: ciência que estuda o comportamento animal. •Comportamento = resultado da genética, do ambiente e das experiências vividas pelo animal. •Animais de produção preservam seus instintos naturais, mesmo em sistemas intensivos. •Comportamento animal: É o conjunto de ações ou reações observáveis de um animal, em resposta a estímulos internos (fome, dor, hormônios) ou externos (luz, som, presença de outros animais, ambiente). Zonas de fuga e ponto de equilíbrio Muito usado no manejo de animais de produção: •Zona de fuga: distância que o animal tolera a aproximação de um humano antes de se afastar. •Ponto de equilíbrio: área ao redor do animal onde, se o tratador passar, ele muda de direção. Comportamentos sociais Incluem as interações com outros animais, como: •Hierarquia (dominância), Cooperação ou competição, Maternal e Territorialidade. Comportamentos anormais ou estereotipias Ações repetitivas, sem função aparente, geralmente causadas por: estresse, confinamento ou frustração. Exemplo: porcos mordendo barras, vacas lambendo repetidamente paredes. Bem-estar relacionado ao comportamento Animais expressam seu bem-estar ou sofrimento por meio do comportamento: •Dormem, exploram, brincam = bem-estar. •Agressivos, apáticos, vocalizam excessivamente = sinal de estresse. Enriquecimento ambiental Conjunto de ações que estimulam comportamentos naturais, melhorando a saúde mental e física do animal. Introdução de objetos ou estruturas que os animais possam interagir fisicamente, para estimular a movimentação, o exercício e o comportamento exploratório. Exemplos: Plataformas e troncos para caprinos e ovinos subirem. Barreiras, cortinas ou divisórias móveis em galpões de aves. Pisos confortáveis ou camas com palha para bovinos e suínos. Brinquedos resistentes para suínos (correntes, blocos pendurados Exemplo: palhas para suínos, poleiros para aves. Benefícios do Enriquecimento Ambiental • Reduz comportamentos agressivos e estereotipados (ex: mordedura de cauda em suínos, picagem em aves). • Melhora a saúde física e mental dos animais. • Estimula a expressão de comportamentos naturais. • Melhora o desempenho zootécnico (ganho de peso, conversão alimentar, imunidade). EXEMPLOS: de Enriquecimento Ambiental por Espécie 1. Bovinos (vacas e bezerras) Escovas automáticas ou revestidas com sisal: permitem que os animais realizem o comportamento natural de se coçar, promovendo conforto, higiene e relaxamento. Bolas de vinil soltas ou suspensas: estimulam o movimento, a brincadeira e interação, aumentando a produção de hormônios de bem-estar como endorfina e ocitocina. Aspersores ou nebulizadores de água: promovem frescor e conforto térmico, reduzindo o estresse provocado pelo calor. Ambiente sensorial enriquecido com música lenta: cria um efeito relaxante para os animais e operadores, favorecendo o bem-estar e até a produção de leite. Varais c/ garrafas pet ou objetos artesanais: fornecem estímulos táteis e visuais baratos e eficazes. 2-Suínos Materiais para fuçar e manipular, como palha, feno, serragem ou sacos, permitem o comportamento natural de exploração e são seguros para consumo digestível. Brinquedos rolantes ou pendurados (bolas, canos de PVC, cordas de sisal) mantêm os animais mentalmente ativos e curiosos. 3. Aves (poedeiras) Poleiros e plataformas: mais confortáveis que poleiros simples, ajudam a reduzir problemas podais e incentivar o exercício. Fardos de feno, sacos com maravalha e materiais para bicagem: oferecem estímulos ocupacionais como cavar, bicar e empoleirar-se. Alimentos pendurados (espigas, folhas, hortaliças) estimulam o comportamento natural de forrageio. 4-Ovinos e Caprinos Objetos que envolvam alimentação e brincadeira, como estruturas lúdicas que misturam forrageio e entretenimento, aumentam a interação social e o tempo de atividade. Por que conhecer o comportamento animal é importante? 1-Facilita o manejo seguro e eficiente. 2-Reduz estresse e risco de lesões. 3-Melhora o desempenho produtivo e reprodutivo. 4-Auxilia na detecção precoce de doenças. 5- Fundamenta práticas de bem-estar animal e abate humanitário. Comportamento inato (instintivo) São comportamentos que o animal já nasce sabendo fazer, sem precisar de aprendizado. Exemplo: reflexo de sucção em recém-nascidos. Comportamento aprendido São comportamentos adquiridos por meio da experiência, como tentativa e erro, observação ou reforço. Exemplo: um cão aprendendo a sentar após receber petisco como recompensa. Motivação É o impulso interno que leva o animal a realizar um comportamento. Pode ser fisiológica (fome, sede), social (contato com o grupo), reprodutiva etc. Bovinos (gado de corte e leite) 1- Animais gregários: vivem em grupo, seguem um líder. 2- Zonas de fuga e campo visual amplo: reagem ao manejo com base na aproximação e estímulo visual. 3- Comportamento de ruminação: indicativo de bem-estar. • 4- Isolamento causa estresse. • IMPLICAÇÕES NO MANEJO: • Evitar separação do grupo. • Manuseio calmo, sem gritos ou choques. • Curvas suaves nos corredores (evitar ângulos retos). • Ambiente limpo e seco estimula o descanso. Suínos •Muito inteligentes e curiosos. •Forte comportamento exploratório (roçar, cavar com o focinho). •Tendência à hierarquia social e disputas, especialmente ao misturar lotes. •Alta sensibilidade ao calor (poucas glândulas sudoríparas). •Vocalizações intensas em caso de dor, medo ou desconforto. Implicações no manejo: Reduzir mistura de grupos e manter um espaço adequado para evitar brigas. Sistemas de ventilação e resfriamento são essenciais. Caprinos Animais sociais e alertas, com grande capacidade de adaptação. Curiosos e ativos, gostam de ambientes variados e exploratórios. Evitam contato com desconhecidos, mas se habituam rapidamente ao cuidador. Comportamento de escalada e salto é natural. Implicações no manejo: Evitar isolamento. Garantir sombra, água limpa e espaço. Condução com calma e mínima contenção. Ovinos •Instinto de rebanho muito forte. •Muito sensíveis a mudanças e ao isolamento. •Demonstram medo com facilidade. •Olfato e audição aguçados. Implicações no manejo: •Sempre conduzir em grupo; Evitar ruídos altos e manuseio brusco. •Projetar currais com visão de outros animais; Supervisão frequente paradetectar doenças ou alterações de comportamento. Aves (frangos, poedeiras) Comportamento exploratório e social. Picam, ciscam e tomam banhos de areia como parte do repertório natural. Alta sensibilidade a estresse, luz, ruído e densidade populacional. Implicações no manejo: Luz deve ser controlada (evitar fotoperíodo contínuo); Evitar superlotação. Nutrição balanceada e ventilação adequada são cruciais. As 5 LIBERDADES • O conceito das 5 liberdades foi elaborado pelo Comitê Brambell e aprimorado pelo Farm Animal Welfare Council – FAWC (Conselho de Bem- estar em Animais de Produção), ambos do Reino Unido. Esse conceito vem sendo adotado mundialmente. • 1. OS ANIMAIS ESTÃO ADEQUADAMENTE ALIMENTADOS E TÊM ÁGUA EM QUANTIDADE E QUALIDADE SUFICIENTES? > Livre de sede, fome e má nutrição; • 2. OS ANIMAIS ESTÃO ALOJADOS ADEQUADAMENTE? > Livre de desconforto; • 3. OS ANIMAIS TÊM UMA BOA SAÚDE? Livre de dor, injúria e doença; • 4. O COMPORTAMENTO DOS ANIMAIS REALMENTE REFLETE UM ESTADO EMOCIONAL ÓTIMO? > Livre para expressar seu comportamento natural da espécie. • 5. OS ANIMAIS ESTÃO LIVRES DE MEDO E ESTRESSE Há várias legislações brasileiras sobre BEA: 1- Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal (RIISPOA), conforme o Decreto nº 30.691, de 29 de março de 1952. 2- Portaria N° 524 que instituí a Comissão Técnica Permanente de Bem-estar Animal (CTBEA) do MAPA para ações específicas sobre bem-estar animal nas diferentes cadeias pecuárias LEGISLAÇÕES MAIS RECENTES SOBRE BEA ❑ Portaria SDA/MAPA Nº 365, de 16 de julho de 2021 • Objetivo: Aprovar o Regulamento Técnico de Manejo Pré-abate e Abate Humanitário, além dos métodos de insensibilização autorizados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. • Abrangência: Aplicável a todos os estabelecimentos sob inspeção oficial que realizam abate para consumo humano ou fins comerciais. ❑ Portaria SDA/MAPA Nº 864, de 31 de julho de 2023 • Objetivo: Alterar parcialmente a Portaria 365/2021 para aprimorar o regulamento anterior. • Essas portarias reforçam o compromisso do Brasil com práticas mais éticas e científicas no abate de animais, alinhando-se às diretrizes da OIE e às demandas crescentes por transparência e bem-estar. Portaria SDA/MAPA nº 864, de 31 de julho de 2023 • Objetivo: Alterar parcialmente a Portaria 365/2021 para aprimorá-la; • PRINCIPAIS ALTERAÇÕES: • Capacitação obrigatória: Todos os operadores envolvidos (desde o embarque até o abate) devem ser treinados nos aspectos de bem-estar animal; • Monitoramento detalhado: • Registro de data e hora do início e término do embarque; • Controle dos períodos de jejum e dieta hídrica desde o embarque até o abate; • CASOS ESPECIAIS: • Permissão para jejum prolongado em aves reprodutoras ou suínos de descarte, desde que justificado por ausência de estruturas adequadas ou capacidade de abate. • Exigência de monitores visíveis nos equipamentos de insensibilização (indicando voltagem, amperagem e frequência); • Dispensado tempo máximo entre insensibilização e sangria se o processo causar morte direta, mas é exigido controle da efetiva morte do animal Bem-estar animal e sustentabilidade corporativa • Uma das questões principais nos diagnósticos e relatórios de sustentabilidade das empresas é a chamada “materialidade” (ou “questões materiais”), associada aos aspectos básicos da atividade empresarial que possam ocasionar impactos em stakeholders, afetando a imagem, reputação e, em um estágio mais avançado, a própria licença social da empresa. • O termo “licença social”, amplamente utilizado nos estudos de sustentabilidade corporativa, significa a aceitação pela sociedade da forma de operar das empresas. No contexto da sustentabilidade cooporativa, o bem-estar animal é tratado como uma questão material no setor de alimentos, por envolver conceitos fortemente arraigados nas pessoas, como o respeito à vida, a piedade com o sofrimento e o papel vital do alimento para a saúde e a vida. O desafio da sustentabilidade no setor de alimentos incorpora as possíveis atitudes de consumidores, investidores, legisladores e cidadãos em geral em relação à forma como são tratados os animais que, com o sacrifício da própria vida, asseguram saúde e sobrevivência aos seres humanos. Em uma época em que a informação circula com enorme rapidez, a consolidação de visões sociais desfavoráveis às empresas pode ser crítica para os desafios de sobrevivência e crescimento. Fonte: Bem-estar animal como valor agregado nas cadeias produtivas de carnes. Mateus J. R. Paranhos da Costa; Aline Cristina Sant’Anna. 2016. Bem-Estar Animal e a Pesquisa Científica Importância na pesquisa: • Evita sofrimento desnecessário aos animais. • Garante que os resultados científicos sejam mais confiáveis (animais estressados ou doentes podem distorcer os dados). • É obrigação ética e legal dos pesquisadores e instituições. • Está ligado ao princípio de que animais são seres sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, medo e prazer. Princípios éticos baseados nos 3Rs (modelo de Russell e Burch,1959): guia para o uso ético de animais em pesquisa: • Replacement (Substituição): • Sempre que possível, usar métodos alternativos (ex: culturas celulares, simulações computacionais, modelos in vitro). • Reduction (Redução): • Usar o menor número possível de animais para obter resultados válidos. • Refinement (Refinamento): • Melhorar os métodos para causar o mínimo de dor, estresse e sofrimento. Questões de Bem-Estar Animal 1. Prefeitura de Careaçu (2025 – Maranatha) Sobre o bem-estar em sistemas de criação, avalie as afirmativas: I. Baia coletiva para suínos promove mais bem-estar que gaiola individual II. Superlotação em galpões de aves compromete produtividade/doenças III. Enriquecimento ambiental com brinquedos para bovinos é irrelevante IV. Manejo adequado reduz estresse e melhora qualidade dos produtos R-I, II e IV estão corretas. 2. FEPESE – Prefeitura de Mafra (2021) Sobre bem-estar de bovinos: OIE preconiza evitar fome, sede, medo e desconforto físico/térmico Deve-se distribuir água nas pastagens para evitar longas caminhadas Uso de bastão elétrico é preferível para manejo Não misturar animais desconhecidos no pré-abate R- Apenas 1 e 4 corretas. 3 UFSC / COPERVE – Santo Ângelo (2018) Quanto ao comportamento e bem-estar animal: I. Etologia estuda comportamento sem métodos invasivos II. Bovinos exibem comportamentos simultâneos por facilitação social III. Saúde locomotora e mamária são críticas em bovinos leiteiros IV. Restrição de água causa aumento de ingestão alimentar e problemas Gabarito: II, III e IV corretas 4. FUNDEP – Santa Vitória (2020, suinocultura) Classifique V ou F: avaliação do suíno envolve emoções, fisiologia e comportamento FAWC definiu as cinco liberdades como nutrição, saúde, comportamentos, emoção etc. Caudofagia é estereotipia comum em suínas gestantes restritas Manejo dentário é necessário mas não recomendado pelo CFMV Gabarito: V V V F 5. FURB – Porto Belo (2019) Afirma que bem-estar animal envolve estado físico, mental e social com base nas cinco liberdades. Pergunta qual assertiva é correta. Gabarito esperado: Manter prevenção de doenças, alimentação, manejo e abate humanitário, promovendo objetivo das liberdades Slide 1: COMPORTAMENTO ANIMAL E BEM-ESTAR ANIMAL Slide 2: INTRODUÇÃO-BEM-ESTAR ANIMAL Slide 3: CONCEITOS BÁSICOS de BEM-ESTAR ANIMAL Slide 4: Comportamento Animal: Conceitos Básicos Slide 5 Slide 6 Slide 7 Slide 8 Slide 9 Slide 10 Slide 11 Slide 12 Slide 13: Bovinos (gado de corte e leite) Slide 14 Slide 15 Slide 16: As 5 LIBERDADES Slide 17: Há várias legislações brasileiras sobre BEA: 1- Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária dos Produtos de Origem Animal (RIISPOA), conforme o Decreto nº 30.691, de 29 de março de 1952. 2- Portaria N° 524 que instituí a Comissão Técnica Pe Slide 18: LEGISLAÇÕES MAIS RECENTES SOBRE BEA Slide 19 Slide 20: Bem-estaranimal e sustentabilidade corporativa Slide 21 Slide 22: Bem-Estar Animal e a Pesquisa Científica Slide 23 Slide 24