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FISIOLOGIA DA GESTAÇÃO Prof. Dr Lucas Brasileiro ➢ A maioria dos mamíferos é vivíparo, isto é, seu desenvolvimento embrionário ocorre dentro do útero. ➢ Para tanto, o útero deve funcionar como uma incubadora, na qual sua preparação para receber o concepto se inicia antes da gestação. ➢ As condições presentes na maior parte das incubadoras procuram mimetizar as existentes no ambiente uterino, sendo, portanto, aquecidas, úmidas, escuras, estéreis e com um meio nutritivo. ➢ A vida pré-natal pode ser didaticamente dividida em três períodos: • PERÍODO DE OVO: corresponde à formação do novo ser, por meio da fecundação, início das divisões de clivagem e formação do blastocisto. Esta é uma etapa em que o zigoto permanece livre, subsistindo por intermédio do vitelo armazenado no ovo, ou do leite uterino. • PERÍODO DE EMBRIÃO: corresponde ao período de eclosão do blastocisto, formação dos órgãos e sistemas do embrião, e da placenta. • PERÍODO DE FETO: é o período em que ocorre a maior parte do crescimento da placenta e do feto, e dura até o parto. ➢ Nos mamíferos, neste período, são estabelecidas as trocas sanguíneas entre a mãe e o feto. ❖INTRODUÇÃO ➢ Dos três períodos de gestação, o mais longo é o terceiro, mas o mais crítico para o desenvolvimento do animal é o segundo. ➢ É durante o período de embrião que ocorre a maior parte das mortes e é originada a maior parte das anomalias fetais ou defeitos teratogênicos. ➢ Isto se deve ao fato de toda morfogênese ocorrer no segundo período, sendo o terceiro caracterizado somente pelo crescimento dos tecidos pré-diferenciados. ❖INTRODUÇÃO A duração da gestação é calculada como sendo o intervalo entre o serviço fértil e o parto: • Asininos: 343 a 375 dias • Equinos: 330 a 340 dias • Bovinos zebuínos: 286 a 296 dias • Bovinos taurinos: 280 a 290 dias • Caprinos e ovinos: 150 dias • Suínos: 114 a 120 dias • Cães e gatos: 58 a 64 dias. ❖DURAÇÃO DA GESTAÇÃO ➢ FATORES AMBIENTAIS • Estresse e utilização de substâncias que interfiram no mecanismo do parto, como a progesterona, os glicocorticoides e a ocitocina, podem adiantar ou prolongar a gestação. OS FATORES DESCRITOS A SEGUIR PODEM INTERFERIR NO TEMPO DE GESTAÇÃO. ➢ FATORES MATERNOS • A idade da mãe pode influenciar, dependendo da espécie. • Fêmeas mais jovens tendem a ter um período de gestação mais curto. OS FATORES DESCRITOS A SEGUIR PODEM INTERFERIR NO TEMPO DE GESTAÇÃO. ➢ FATORES FETAIS • Em animais multíparos, fetos pequenos e ninhadas grandes podem ter menor período de gestação. • Em uníparos, a presença de fetos múltiplos também pode influenciar. • Machos bovinos e equinos podem ter um período de gestação 1 ou 2 dias mais longo do que as fêmeas. • Em equinos, a presença de fetos subdesenvolvidos também leva a um prolongamento do período gestacional. • Curiosamente, a despeito do prolongamento da gestação por até 30 ou 40 dias, o produto, em geral, nasce com peso abaixo do esperado. • Um exemplo de gestação prolongada devido a fatores genéticos ocorre em fetos bovinos portadores de um gene autossômico recessivo em homozigose. Nestes animais, ocorrem anormalidades no desenvolvimento da hipófise, o crescimento fetal para aos 7 meses de idade e o parto não se desencadeia. • Outro caso também causado por gene autossômico recessivo leva ao aparecimento de altas concentrações de progesterona próximo ao momento do parto, podendo prolongar a gestação por vários meses. • Em ambos os casos os fetos não são viáveis e o útero não responde à administração de ocitocina. • Raças de gado também podem diferir entre si quanto à duração da gestação. • Vacas Holandesas possuem em média 278 dias de gestação, enquanto o Pardo-suíço 292 dias. • Isto foi demonstrado transferindo-se embriões de raças com menor tempo de gestação para receptoras de raças com maior período e vice-versa. • Nos equinos, é evidente a influência genética no caso da gestação de híbridos. • Nestes, o período de gestação é sempre intermediário para as duas espécies (345 a 350 dias). ➢ FATORES GENÉTICOS. OS FATORES DESCRITOS A SEGUIR PODEM INTERFERIR NO TEMPO DE GESTAÇÃO. ❖HORMÔNIOS DA GESTAÇÃO • É necessário um equilíbrio entre certos hormônios para a manutenção da gestação. • Determinados atos cirúrgicos como a ovariectomia, a hipofisectomia e a fetotomia têm fornecido valiosas informações sobre a natureza do complexo luteotrófico fetal e do papel do corpo lúteo durante a gestação. • Em todas as espécies a produção de estrógeno e progesterona continua elevando-se durante a maior parte da gestação. • A implantação é especialmente dependente de níveis críticos e do equilíbrio entre progesterona e estrógeno. • Inicialmente, é necessário a presença da progesterona e, depois, do estrógeno para desencadear as reações que levam à implantação. • Entretanto, altos níveis de estrógeno podem também impedir a nidação por modificar o trânsito do embrião para o útero, bem como o ambiente uterino. • A progesterona é necessária para a manutenção da gestação em todas as espécies domésticas. ❖HORMÔNIOS DA GESTAÇÃO • Ela é inicialmente produzida pelo corpo lúteo (CL) e, depois, também pela placenta. • O CL das espécies domésticas é formado por células com características morfológicas distintas. • O CL da vaca, da ovelha e da porca apresenta 2 tipos celulares: células luteínicas grandes e pequenas. • Embora ambas tenham a mesma maquinaria enzimática, diferem na capacidade de produção de hormônios. • As células luteínicas pequenas absorvem mais colesterol, mas são menos sensíveis ao hormônio luteinizante (LH) e produzem progesterona em pulsos por um período curto. • As células luteínicas grandes têm maior sensibilidade ao LH e absorvem colesterol das células pequenas, podendo secretar progesterona por períodos mais longos. • Desta forma, a principal função do LH neste nível é transportar o colesterol armazenado nas células pequenas para as grandes. • Os efeitos da progesterona ocorrem, em geral, após uma preparação estrogênica. • O estrógeno atua sobre o endométrio provocando proliferação do epitélio e crescimento dos ductos retos das glândulas endometriais. • O miométrio responde a níveis crescentes de estrógeno. • A progesterona atua de modo sinérgico com o estrógeno, provocando ramificação das glândulas endometriais que adquirem forma convoluta e passam a secretar um material mucoso espesso que, juntamente com fluido tubário, secreções cervicais e células de descamação, formam o assim chamado leite uterino, que nutre o embrião antes da implantação. • Além disso, a progesterona favorece uma economia do metabolismo do corpo durante a prenhez, levando a uma utilização mais eficiente dos nutrientes. • O apetite aumenta durante a gestação devido à influência da progesterona, e também há diminuição da atividade física, o que contribui para o aumento de peso da fêmea. • Além do estrógeno e da progesterona, a prolactina, produzida pela hipófise e também pelo CL, é um hormônio importante durante a gestação devido a seu efeito luteotrófico. ❖HORMÔNIOS DA GESTAÇÃO • A prolactina estimula o metabolismo do colesterol nas células luteínicas por meio da ativação da enzima colesterol sintetase. • Esta enzima é responsável pela esterificação das reservas celulares de colesterol, aumentando o colesterol livre na célula, o qual é utilizado para produção de hormônios esteroides como o estrógeno e a progesterona. • A prolactina induz, ainda, o aparecimento e a manutenção de receptores para LH nas células luteínicas e inibe a degradação da progesterona para di-hidroxiprogesterona. • Além disso, os efeitos psíquicos da progesterona associados aos da prolactina favorecem a conduta materna, como preparação de ninho e cuidados com o neonato. • Outro hormônio, também secretado pelo CL e importante na preparação para o parto dos animais domésticos, é a relaxina. • Este hormônio é produzido no final da gestação em várias espécies, provavelmente pelo CL e/ou pela placenta,e sua função é particularmente importante próximo ao momento do parto, levando ao relaxamento de cérvix, sínfise púbica, tecidos e ligamentos pélvicos. ❖HORMÔNIOS DA GESTAÇÃO • Em vacas prenhes, a principal fonte de produção de progesterona é o CL, que se mantém funcional durante toda a gestação, regredindo somente 2 dias antes do parto. • A concentração de progesterona circulante permanece relativamente alta e constante durante a gestação, apesar de ocorrer um declínio gradual na sua concentração sérica nas últimas 2 a 4 semanas. • Apesar de a principal fonte de progesterona durante a gestação em e vacas ser o CL, alguma contribuição é dada pela placenta no final da gestação. • Foi demonstrado que a gestação é mantida em vacas ovariectomizadas aos 200 dias de prenhez, sendo que a concentração de progesterona permanece elevada, mas consideravelmente menor após a ovariectomia. • Mesmo com a manutenção da gestação nessas vacas, a parição foi adiantada aproximadamente 2 semanas, e o parto, caracterizado por distocia e retenção de placenta. ❖ENDOCRINOLOGIA DA GESTAÇÃO NA VACA ❖ENDOCRINOLOGIA DA GESTAÇÃO NA VACA • A concentração de progesterona na circulação periférica durante os primeiros 14 dias de gestação é semelhante àquela do diestro. • Na vaca prenhe, os níveis de progesterona começam a aumentar gradativamente até o início do declínio que ocorre 20 a 30 dias antes do parto. • A secreção de estrógeno durante a gestação é inicialmente associada com o desenvolvimento da placenta. • O estrógeno circulante no início da gestação é similar em animais prenhes e não prenhes e sua principal fonte são os ovários. • Ondas de crescimento folicular continuam durante o início da gestação, entretanto, ocorre um decréscimo no desenvolvimento folicular no ovário ipsolateral ao CL. • A concentração de estrógeno circulante e urinário aumenta conforme a gestação progride. Um rápido aumento na secreção de estrógeno ocorre próximo ao final da gestação. • A secreção de estrógeno declina rapidamente após o parto. ❖ENDOCRINOLOGIA DA GESTAÇÃO NA VACA • Tanto as concentrações de hormônio foliculoestimulante (FSH) como de LH permanecem baixas durante a gestação. • A concentração de prolactina permanece baixa até próximo ao momento do parto, quando aumenta de concentrações basais de 50 a 60 ng/ml para valores de 320 ng/ml cerca de 20 horas antes, tendo um declínio abrupto cerca de 30 horas após a parição. • Os animais domésticos podem ser divididos em dois grupos com respeito ao número de ovulações por ciclo estral e, portanto, ao número de fetos que podem chegar ao útero. • Os animais uníparos, como a vaca e a égua, liberam normalmente um único óvulo durante o ciclo, sendo também classificados como mono-ovulatórios. • A frequência de gêmeos é baixa tanto em bovinos (2 a 4%) quanto em equinos (0,5 a 1,5%). • Embora a possibilidade de nascimento de gêmeos em equinos seja muito pequena, a frequência de duplas ovulações pode ser de até 20% em algumas raças como o PSI. • As gestações gemelares em equinos costumam evoluir para a morte embrionária ou fetal de um ou ambos os produtos. • Este grupo de animais uníparos caracteriza-se pela presença de cérvix bem desenvolvida. • A placenta do feto único estende-se por ambos os cornos e corpo do útero. • O peso do feto no momento do parto é cerca de 10% do peso materno após o parto. • Nos animais uníparos, a grande dimensão do feto e o comprimento de suas extremidades fazem com que seja frequente a distocia devido ao mau posicionamento dos membros em relação à pélvis da mãe. ❖NUMERO DE FETOS • Os ovinos e caprinos normalmente são classificados como uníparos, mas a incidência de gêmeos e trigêmeos é tão grande que tem sido sugerido o termo "bíparos" . • Os animais multíparos, como os caninos, felinos e porcinos, liberam normalmente 3 a 15 óvulos, ou até mais, em cada período ovulatório. • No entanto, nestas espécies pode ocorrer de 20 a 40% de mortalidade embrionária no início da gestação. • Em geral, as fêmeas multíparas têm cérvix muito pouco desenvolvida, e a placenta de cada feto limita-se a uma parte do útero. • Os fetos distribuem-se quase por igual entre os cornos. • O peso de cada feto no momento do parto é equivalente a 1 a 3% do peso materno pós-parto. • Nas cadelas, geralmente o porte do animal influencia o número de filhotes da ninhada. • Raças de pequeno porte geralmente têm 1 a 4 filhotes, enquanto as de grande porte de 8 a 12. • O tamanho da ninhada também está correlacionado com a produção espermática do macho utilizado (o normal é de 200 a 800 milhões de espermatozoides por ejaculado). ❖NUMERO DE FETOS • O momento e a frequência das coberturas, a saúde da cadela e as condições do útero também são fatores que podem influenciar o tamanho da ninhada. • Variações no momento da ovulação, diversidade de datas de cobertura e duração variável do ciclo estral dificultam a estimativa do momento exato da ovulação na cadela. • O prazo tradicional de 63 dias de gestação não é acurado e uma variação de 58 a 68 dias pode ocorrer. • Um método preciso para se estimar a data da ovulação e, consequentemente, do parto de uma cadela é o acompanhamento das alterações celulares vaginais da fêmea durante o período de proestro e estro. • Estes esfregaços devem ser obtidos diariamente durante a cobertura e vários dias após a recusa do macho. • A estimativa da data de nascimento deve ser de 56 a 58 dias após o 1ª dia do diestro, determinado pelas características da citologia vaginal. • As maiores ninhadas tendem a ter uma gestação mais curta 56 a 57 dias) enquanto as cadelas com somente 1 ou 2 filhotes tendem a apresentar gestações mais prolongadas (57 a 58 dias). ❖NUMERO DE FETOS ❖MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTORES ❑ VULVA E VAGINA • Durante o início da gestação, a mucosa vaginal torna-se progressivamente pálida e seca, permanecendo assim durante a maior parte desta. • No final do período gestacional, edema e aumento da vascularização constituem as principais alterações da vulva. • As modificações vulvares são mais evidentes em vacas que em éguas e se iniciam ao redor do 5° e do 7º mês de gestação em novilhas e em vacas, respectivamente. ❑ CÉRVIX • Durante a gestação o orifício cervical permanece compactamente fechado. • As criptas endocervicais aumentam em número e produzem um muco altamente viscoso que oclui o canal. • Este é o chamado tampão mucoso, que se liquefaz momentos antes do parto. ❖MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTORES ❑ ÚTERO • À medida que progride a gestação, o útero aumenta gradativamente para permitir a expansão do feto, porém o miométrio permanece quiescente para prevenir a expulsão prematura. • Três fases podem ser identificadas na adaptação do útero para acomodar os produtos da concepção: proliferação, crescimento e dilatação. • A duração de cada uma varia conforme a espécie animal. • A proliferação do endométrio ocorre antes da união do blastocisto e caracteriza-se por sensibilização progestacional preparatória do endométrio. • As modificações características do endométrio que são iniciadas por hormônios, principalmente a progesterona, incluem vascularização aumentada, crescimento e enovelamento das glândulas uterinas e infiltração leucocitária no lúmen uterino. • O crescimento uterino começa após a implantação e inclui hipertrofia muscular e extenso aumento dos elementos fibrilares e conteúdo de colágeno do tecido conjuntivo. • Durante o período de dilatação uterina, o crescimento do útero diminui, enquanto seus conteúdos estão crescendo em ritmo acelerado. ❑ ÚTERO • O feto e as membranas fetais crescem em taxas diferentes. • As membranas fetais crescem mais rapidamente no início da gestação enquanto o feto permanece estável em tamanho. • Ocorre acúmulo de líquidos. • No entanto, este acúmulo e o crescimento das membranas fetais requerem menos energia que o crescimento do feto. • Durante a 2ª metade da gestação as necessidades energéticasdo feto aumentam substancialmente, pois é nesta etapa que ocorre o máximo de seu crescimento. • Em todos os animais domésticos o útero se desloca para frente e para baixo na cavidade abdominal à medida que progride a gestação. • Na vaca e na égua, depois do 4° ou 5º mês, o útero repousa no assoalho abdominal abaixo das alças intestinais. • Nos ruminantes, o útero geralmente se aloja do lado direito do abdome, uma vez que o rúmen ocupa o lado esquerdo. ❖MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTORES ❖MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTORES ❑ ÚTERO • Nos animais multíparos, como a cadela, a gata e a porca, o corno gravídico é tubular e com quase o mesmo diâmetro em todo o seu comprimento. • Os fetos geralmente se distribuem em forma quase igual em cada corno. • Os cornos ficam muito grandes nas porcas, podendo medir até 1,8 m cada um. • Os cornos repousam no assoalho da cavidade abdominal de forma dobrada, semelhante ao intestino. ❑ OVÁRIO • A principal modificação é a transformação do corpo lúteo cíclico em corpo lúteo gravídico. • Em consequência disto, os ciclos estrais são interrompidos. • Entretanto, alguns animais principalmente as éguas, podem mostrar sintomas de cio durante fases precoces da gestação, devido à atividade folicular presente nos ovários. ❑ LIGAMENTOS PÉLVICOS E SÍNFISE PÚBICA • O relaxamento dos ligamentos pélvicos que ocorre gradativamente durante o curso da gestação é acelerado com a aproximação do parto. • Esse relaxamento é mais evidente em ruminantes que em equinos. ❖MODIFICAÇÕES NOS ÓRGÃOS REPRODUTORES OBRIGADO