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A Pata do Macaco
— • —
W. W. Jacobs
Baixe Livros
A Pata do Macaco
W. W. Jacobs
•
Conto
Edição integral em português,
com introdução, crítica e notas
Tradução: Paulo Rabello
Organização: Baixe Livros
Ficha técnica
Título: A Pata do Macaco
Autor: W. W. Jacobs (1863–1943)
Texto original: “The Monkey’s Paw”
Publicação: 1902, na coletânea The Lady of the Barge
Base da tradução: texto integral inglês da coletânea
Tradução, introdução, crítica e notas: Paulo Rabello
Organização: Baixe Livros — 2026
Disponibilização gratuita e integral por meio da plataforma
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Além disso, a licença gratuita concedida para este material poderá
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trabalho dos autores, tradutores e editores, oferecendo acesso
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Sumário
•
Introdução 1
O conto 5
Crítica 42
Notas do tradutor 48
1
Introdução
•
uatro coisas convém considerar
antes da leitura: o que é este conto e
de onde vem; de que trata; por qual
método trabalha; e com que disposição se
deve lê-lo. Uma quinta — se a sentença
que ele executa é justa — fica adiada de
propósito: a crítica vem depois do texto,
porque não se julga um caso antes de
ouvi-lo, nem se estraga o assombro de
quem ainda não leu.
Quanto ao primeiro. "A Pata do
Macaco" ("The Monkey's Paw") saiu em
1902, em revista e depois na coletânea
The Lady of the Barge. O autor, o inglês W.
W. Jacobs, era um humorista — célebre
Q
2
pelos contos cômicos de marinheiros e
barcaças do Tâmisa — e entrou para a
história por esta única incursão no medo:
o conto de terror mais imitado da língua
inglesa saiu da pena de um homem que
fazia rir. O paradoxo é menor do que
parece: ninguém arma melhor uma
emboscada do que quem domina o riso,
pois o riso desarma a sentinela.
Quanto ao segundo. O conto trata do
desejo — mais exatamente, da pergunta: é
prudente pedir mais? Cumpre distinguir
dois modos de pedir. Pede-se a alguém,
confiando o pedido a uma vontade que
pode ajustá-lo, negá-lo ou melhorá-lo; e
pede-se a algo, como quem aperta um
botão: a máquina não interpreta —
executa. O talismã deste conto pertence
à segunda espécie, e a tese que ele
3
carrega vem declarada logo nas primeiras
páginas, pela boca de quem o traz de
longe: o destino governa a vida dos
homens, e quem se mete com ele se
arrepende. O conto é o exame dessa
máxima — conduzido, note-se, sobre o
pedido mais modesto que se possa
imaginar.
Quanto ao terceiro. O método é a
economia. Uma casinha, uma lareira, uma
partida de xadrez, uma visita; nada de
castelos, nada de fantasmas de lençol. O
sobrenatural, se comparece, jamais sobe
ao palco: age fora de cena, e o autor
confia ao leitor o serviço de assustar-se
por conta própria — confiança que o
leitor, há mais de um século, retribui
pontualmente. Repare-se ainda na
aritmética que organiza tudo: três
4
homens, três desejos, três partes. E
repare-se, sobretudo, no primeiro
parágrafo, em que um pai, jogando
xadrez, tem ideias "radicais" sobre o jogo
e põe o próprio rei em perigos "agudos e
desnecessários". O conto inteiro está
nessa abertura, em miniatura; o leitor
avisado a guarde.
Quanto ao quarto. Leia-se com a
disposição do velho soldado diante do
fogo: dividido entre a vontade de contar e
a de calar. E leve-se para dentro do texto
uma única pergunta, que é a que ele fará
a cada um: se um poder desconhecido
garantisse atender ao pé da letra o que
você pedisse, o mais sensato seria pedir
muito, pedir pouco — ou não pedir? A
resposta do conto está no fim; a nossa
discussão dela também.
5
O conto
•
I.
á fora, a noite era fria e úmida; mas
na pequena sala da Vila Laburnam as
persianas estavam baixadas e o fogo ardia
com força. Pai e filho jogavam xadrez. O
primeiro, que tinha sobre o jogo ideias
envolvendo mudanças radicais, punha o
rei em perigos tão agudos e
desnecessários que provocava
comentários até da velha senhora de
cabelos brancos que tricotava,
placidamente, junto à lareira.
L
6
— Escute só esse vento — disse o
senhor White, que, tendo enxergado um
erro fatal quando já era tarde demais,
procurava amavelmente impedir que o
filho o visse.
— Estou escutando — disse o filho,
examinando o tabuleiro com ar severo
enquanto esticava a mão. — Xeque.
— Duvido muito que ele venha esta
noite — disse o pai, com a mão suspensa
sobre o tabuleiro.
— Mate — respondeu o filho.
— Isso é o pior de morar tão longe de
tudo — vociferou o senhor White, com
uma violência súbita e inesperada. — De
todos os lugares enlameados,
encharcados e fora de mão que existem
para morar, este é o pior. O caminho é um
brejo, e a estrada, uma enxurrada. Não sei
7
o que essa gente tem na cabeça. Como só
há duas casas alugadas na rua, devem
achar que não faz diferença.
— Não ligue, querido — disse a mulher,
apaziguadora. — Quem sabe você ganha a
próxima.
O senhor White ergueu os olhos bem a
tempo de flagrar um olhar de
cumplicidade entre mãe e filho. As
palavras morreram nos seus lábios, e ele
escondeu um sorriso culpado na barba
rala e grisalha.
— Aí está ele — disse Herbert White,
quando o portão bateu com força e
passos pesados se aproximaram da porta.
O velho levantou-se com pressa
hospitaleira e, ao abrir a porta, ouviram-
no consolar o recém-chegado. O recém-
chegado também se consolava sozinho, e
8
tanto, que a senhora White fez "Tsc, tsc!"
e tossiu de leve quando o marido entrou
na sala, seguido por um homem alto e
corpulento, de olhinhos vivos e rosto
avermelhado.
— Sargento-mor Morris — disse ele,
apresentando-o.
O sargento-mor apertou a mão de
todos e, aceitando o lugar que lhe
ofereceram junto ao fogo, ficou
observando, satisfeito, o dono da casa
trazer uísque e copos e pôr uma
chaleirinha de cobre sobre o fogo.
No terceiro copo, os olhos do visitante
ganharam brilho, e ele começou a falar. O
pequeno círculo da família contemplava
com vivo interesse aquele hóspede vindo
de terras distantes, enquanto ele ajeitava
os ombros largos na cadeira e falava de
9
cenas selvagens e façanhas valentes; de
guerras, de pestes e de povos estranhos.
— Vinte e um anos disso — disse o
senhor White, com um aceno para a
mulher e o filho. — Quando ele partiu, era
um fiapo de rapaz lá do armazém. Agora
olhem para ele.
— Não parece ter sofrido muito, não —
disse a senhora White, com polidez.
— Eu bem que gostaria de conhecer a
Índia — disse o velho. — Só para dar uma
olhada por lá, sabe como é.
— Melhor ficar onde está — disse o
sargento-mor, balançando a cabeça.
Pousou o copo vazio e, suspirando
baixinho, balançou-a de novo.
— Eu gostaria de ver aqueles templos
antigos, os faquires, os malabaristas —
disse o velho. — O que era mesmo aquilo
10
que você começou a me contar outro dia,
Morris? Uma pata de macaco, ou coisa
assim?
— Nada — disse o soldado, às pressas.
— Pelo menos, nada que valha a pena
ouvir.
— Pata de macaco? — estranhou a
senhora White.
— Bem, é só um pouquinho daquilo que
talvez se pudesse chamar de magia —
disse o sargento-mor, fingindo pouco
caso.
Os três ouvintes inclinaram-se para a
frente, ávidos. O visitante, distraído,
levou o copo vazio aos lábios e tornou a
pousá-lo. O dono da casa o encheu de
novo.
11
— De se olhar — disse o sargento-mor,
remexendo no bolso —, é só uma patinha
comum, seca feito múmia.
Tirou alguma coisa do bolso e a
estendeu. A senhora White recuou com
uma careta, mas o filho pegou o objeto e
o examinou com curiosidade.
— E o que ela tem de especial? —
perguntou o senhor White, tomando-a
dasmãos do filho; depois de examiná-la,
pousou-a sobre a mesa.
— Um velho faquir pôs um
encantamento nela — disse o sargento-
mor. — Um homem muito santo. Ele
queria mostrar que o destino governa a
vida das pessoas, e que aqueles que se
metem com ele se arrependem para
sempre. Pôs na pata um encantamento tal
12
que três homens diferentes poderiam
obter dela, cada um, três desejos.
Havia tanta solenidade no seu jeito que
os ouvintes sentiram que as próprias
risadinhas destoavam um pouco.
— E por que o senhor não pede os seus
três? — disse Herbert White, espirituoso.
O soldado o encarou do jeito que a
meia-idade costuma encarar a juventude
atrevida.
— Já pedi — disse baixinho, e o rosto
manchado empalideceu.
— E os três desejos foram mesmo
atendidos? — perguntou a senhora White.
— Foram — disse o sargento-mor, e o
copo tocou de leve os seus dentes fortes.
— E mais alguém já pediu? — insistiu a
velha senhora.
13
— O primeiro homem teve os seus três
desejos, sim — foi a resposta. — Não sei
quais foram os dois primeiros, mas o
terceiro foi a morte. Foi assim que a pata
veio parar comigo.
O tom era tão grave que um silêncio
caiu sobre o grupo.
— Se você já pediu os seus três, Morris,
então ela não serve mais para nada —
disse o velho, por fim. — Para que você a
guarda?
O soldado balançou a cabeça.
— Capricho, eu acho — disse devagar.
— Cheguei a pensar em vendê-la, mas
acho que não vou. Ela já causou desgraça
demais. Além disso, ninguém compra.
Uns acham que é história da carochinha;
e os que dão algum crédito querem
14
experimentar primeiro e me pagar
depois.
— E se você pudesse ter outros três
desejos — disse o velho, olhando-o com
atenção —, você pediria?
— Não sei — disse o outro. — Não sei...
Pegou a pata e, balançando-a entre o
polegar e o indicador, de repente a atirou
ao fogo. White, com um gritinho,
abaixou-se e a arrancou de lá.
— Melhor deixar queimar — disse o
soldado, solene.
— Se você não a quer, Morris — disse o
outro —, dê para mim.
— Não dou — teimou o amigo. — Eu
joguei no fogo. Se você ficar com ela, não
me culpe pelo que acontecer. Jogue de
15
novo nas chamas, como um homem de
juízo.
O outro balançou a cabeça e examinou
de perto a sua nova propriedade.
— Como é que se faz? — perguntou.
— Levante a pata com a mão direita e
faça o pedido em voz alta — disse o
sargento-mor. — Mas eu aviso: cuidado
com as consequências.
— Parece coisa das Mil e Uma Noites —
disse a senhora White, levantando-se
para arrumar a ceia. — Você não acha que
podia pedir quatro pares de mãos para
mim?
O marido tirou o talismã do bolso, e os
três caíram na risada quando o sargento-
mor, com um ar de alarme no rosto, o
agarrou pelo braço.
16
— Se você tem mesmo que pedir
alguma coisa — disse, ríspido —, peça uma
coisa sensata.
O senhor White devolveu a pata ao
bolso e, arrumando as cadeiras, convidou
o amigo à mesa com um gesto. Na
azáfama da ceia, o talismã ficou meio
esquecido; e, depois, os três se sentaram
para ouvir, enfeitiçados, o segundo
capítulo das aventuras do soldado na
Índia.
— Se a história da pata de macaco não
for mais verdadeira do que as outras que
ele contou — disse Herbert, assim que a
porta se fechou atrás do visitante, saído
bem a tempo de pegar o último trem —,
não vamos tirar grande coisa dela.
17
— Você deu alguma coisa em troca,
pai? — perguntou a senhora White,
olhando o marido de perto.
— Uma bobagenzinha — disse ele,
corando de leve. — Ele não queria aceitar,
mas eu fiz questão. E insistiu de novo para
que eu jogasse a pata fora.
— Essa não! — disse Herbert, com falso
horror. — Logo agora que vamos ficar
ricos, famosos e felizes. Peça para ser
imperador, pai, para começo de conversa;
aí ninguém mais manda no senhor dentro
de casa.
E disparou em volta da mesa,
perseguido pela caluniada senhora
White, armada com o paninho da
poltrona.
O senhor White tirou a pata do bolso e
a mirou com desconfiança.
18
— Não sei o que pedir, essa é a verdade
— disse devagar. — Tenho a impressão de
que já tenho tudo o que quero.
— Se o senhor terminasse de pagar a
casa, ficaria feliz da vida, não ficaria? —
disse Herbert, com a mão no ombro dele.
— Pois então peça duzentas libras: dá na
conta certa.
O pai, sorrindo envergonhado da
própria credulidade, ergueu o talismã,
enquanto o filho, de cara solene — um
tanto estragada por uma piscadela para a
mãe —, sentava-se ao piano e tirava dele
alguns acordes imponentes.
— Eu desejo duzentas libras — disse o
velho, com clareza.
Um belo estrondo do piano saudou as
palavras, interrompido por um grito de
19
arrepio do velho. A mulher e o filho
correram até ele.
— Ela se mexeu — gritou, com um olhar
de nojo para o objeto caído no chão. —
Quando eu fiz o pedido, ela se torceu na
minha mão feito uma cobra.
— Pois eu não estou vendo o dinheiro
— disse o filho, apanhando a pata e
pondo-a sobre a mesa. — E aposto que
nunca vou ver.
— Deve ter sido impressão sua, meu
velho — disse a mulher, olhando-o com
ansiedade.
Ele balançou a cabeça.
— Bom, não importa. Mal nenhum
aconteceu; mas que levei um susto, levei.
Sentaram-se de novo junto ao fogo, e
os dois homens terminaram os seus
20
cachimbos. Lá fora, o vento estava mais
alto do que nunca, e o velho estremeceu
ao som de uma porta batendo no andar
de cima. Um silêncio incomum e
opressivo desceu sobre os três, e durou
até o velho casal se levantar para ir
dormir.
— Espero que vocês encontrem o
dinheiro amarrado num saco bem grande
no meio da cama — disse Herbert, ao dar
boa-noite — e alguma coisa horrenda, de
cócoras em cima do guarda-roupa,
vigiando enquanto vocês embolsam os
lucros mal ganhos.
Ele ficou sozinho no escuro, olhando o
fogo que morria e vendo rostos nele. O
último rosto era tão horrível, tão parecido
com o de um macaco, que ele o encarou
com espanto. Ficou tão vívido que, com
21
um risinho sem graça, ele tateou a mesa à
procura de um copo com um resto de
água para jogar em cima. A mão agarrou a
pata de macaco; com um leve arrepio, ele
limpou a mão no casaco e subiu para o
quarto.
22
II.
a claridade do sol de inverno que, na
manhã seguinte, se derramava
sobre a mesa do café, ele riu dos próprios
medos. Havia na sala um ar de saúde
prosaica que faltara na noite anterior; e a
patinha suja e ressequida fora largada
sobre o aparador com um descaso que
não revelava grande fé nas suas virtudes.
— Imagino que todos os soldados
velhos sejam iguais — disse a senhora
White. — Ora essa, nós dando ouvidos a
um disparate daqueles! Como é que um
desejo poderia ser atendido nos dias de
N
23
hoje? E, se pudesse, que mal iam fazer a
você duzentas libras, meu velho?
— Vai que caem do céu na cabeça dele
— disse o leviano Herbert.
— O Morris disse que as coisas
acontecem com tanta naturalidade —
disse o pai — que, se a pessoa quiser, pode
achar que foi tudo coincidência.
— Bom, não vão gastar o dinheiro antes
de eu voltar — disse Herbert, levantando-
se da mesa. — Tenho medo de que ele
transforme o senhor num sujeito
mesquinho e avarento, e a gente tenha
que renegar o senhor.
A mãe riu e o acompanhou até a porta,
e ficou olhando enquanto ele se afastava
pela estrada; de volta à mesa do café,
divertiu-se bastante à custa da
credulidade do marido. Nada disso a
24
impediu de correr à porta quando o
carteiro bateu, nem de fazer comentários
um tanto secos sobre sargentos-mores
reformados e chegados à bebida, quando
descobriu que o correio trazia a conta do
alfaiate.
— O Herbert vai aprontar mais uma das
piadas dele quando chegar em casa,
imagino — disse ela, quando se sentaram
para o almoço.
— É bem capaz — disse o senhor White,
servindo-se de cerveja. — Mas, piada ou
não, a coisa se mexeu na minha mão; isso
eu juro.
— Você achou que ela se mexeu — disse
a velha senhora, para acalmá-lo.
— Estoudizendo que se mexeu —
respondeu o outro. — Não foi coisa de
achar. Eu tinha acabado de... O que foi?
25
A mulher não respondeu. Observava os
movimentos misteriosos de um homem
do lado de fora que, espiando a casa de
um jeito indeciso, parecia tentar criar
coragem para entrar. Numa associação
de ideias com as duzentas libras, ela
notou que o desconhecido estava bem-
vestido e usava uma cartola de seda
novinha, reluzente. Três vezes ele parou
junto ao portão e tornou a seguir
caminho. Na quarta, deteve-se com a
mão sobre ele — e então, com uma
resolução repentina, escancarou-o e
subiu a aleia. No mesmo instante, a
senhora White pôs as mãos atrás do
corpo e, desatando às pressas as fitas do
avental, enfiou essa útil peça do vestuário
debaixo da almofada da cadeira.
26
Ela fez entrar na sala o desconhecido,
que parecia pouco à vontade. Ele a olhava
de esguelha e escutava com ar
preocupado as desculpas da velha
senhora pela aparência da sala e pelo
casaco do marido, peça que ele em geral
reservava para o jardim. Ela então
esperou, com toda a paciência de que era
capaz, que ele entrasse no assunto; mas o
homem, de início, guardou um silêncio
estranho.
— Eu... me pediram que viesse — disse
por fim, e se abaixou para tirar um fiapo
de linha da calça. — Venho da parte da
"Maw and Meggins".
A velha senhora teve um sobressalto.
— Aconteceu alguma coisa? —
perguntou, sem fôlego. — Aconteceu
27
alguma coisa com o Herbert? O que foi?
O que foi?
O marido interveio.
— Calma, calma, minha velha —
apressou-se a dizer. — Sente-se, e não vá
tirando conclusões. O senhor não nos
traz má notícia, tenho certeza — e olhou
para o outro com o coração nos olhos.
— Sinto muito... — começou o visitante.
— Ele se machucou? — exigiu a mãe,
fora de si.
O visitante inclinou a cabeça,
confirmando.
— Machucou-se gravemente — disse
baixinho. — Mas não está sentindo dor
nenhuma.
28
— Ah, graças a Deus! — disse a velha,
juntando as mãos. — Graças a Deus!
Graças...
Calou-se de repente, quando o sentido
sinistro daquela garantia lhe raiou por
dentro e ela viu, no rosto desviado do
outro, a confirmação horrível dos seus
medos. Prendeu a respiração e, voltando-
se para o marido, de entendimento mais
lento, pousou a velha mão trêmula sobre
a dele. Houve um longo silêncio.
— Ele foi apanhado pelo maquinário —
disse o visitante, por fim, em voz baixa.
— Apanhado pelo maquinário — repetiu
o senhor White, aturdido. — Sim.
Ficou sentado, olhando sem ver pela
janela; e, tomando a mão da mulher entre
as suas, apertou-a como costumava fazer
29
nos velhos tempos de namoro, quase
quarenta anos antes.
— Era o único que nos restava — disse,
virando-se devagar para o visitante. — É
duro.
O outro tossiu e, erguendo-se,
caminhou lentamente até a janela.
— A firma me encarregou de transmitir
aos senhores a sua sincera solidariedade
nesta grande perda — disse, sem se
voltar. — Peço que compreendam: sou
apenas um empregado, cumprindo
ordens.
Não houve resposta. O rosto da velha
estava branco, os olhos parados, a
respiração inaudível; no rosto do marido
havia uma expressão como a que o seu
amigo sargento devia ter levado para o
primeiro combate.
30
— Fui instruído a dizer que a "Maw and
Meggins" se exime de qualquer
responsabilidade — continuou o outro. —
A firma não reconhece obrigação
nenhuma; mas, em consideração aos
serviços do filho dos senhores, deseja
entregar-lhes certa quantia a título de
compensação.
O senhor White largou a mão da
mulher e, pondo-se de pé, encarou o
visitante com um olhar de horror. Os
lábios secos moldaram as palavras:
— Quanto?
— Duzentas libras — foi a resposta.
Sem ouvir o grito da mulher, o velho
sorriu debilmente, estendeu as mãos
como um cego e desabou no chão,
desacordado.
31
III.
o cemitério novo e enorme, a uns
três quilômetros dali, os velhos
enterraram o seu morto e voltaram para
uma casa mergulhada em sombra e
silêncio. Tudo acabou tão depressa que,
no começo, eles mal conseguiam
entender; e ficaram num estado de
expectativa, como se esperassem mais
alguma coisa — alguma coisa que aliviasse
aquele peso, pesado demais para dois
corações velhos.
Mas os dias passaram, e a expectativa
deu lugar à resignação — essa resignação
sem esperança dos velhos, que às vezes
N
32
recebe o nome injusto de apatia. Havia
ocasiões em que mal trocavam palavra,
porque agora não tinham sobre o que
conversar, e os dias se arrastavam num
cansaço sem fim.
Foi mais ou menos uma semana depois
que o velho, acordando de repente no
meio da noite, estendeu a mão e se
descobriu sozinho. O quarto estava às
escuras, e da janela vinha um som de
choro abafado. Ele se ergueu na cama e
ficou escutando.
— Volte para a cama — disse, com
ternura. — Você vai sentir frio.
— Para o meu filho está mais frio —
disse a velha, e tornou a chorar.
O som dos soluços foi morrendo nos
ouvidos dele. A cama estava quente, e os
olhos dele, pesados de sono. Cochilou aos
33
pedaços; depois dormiu — até que um
grito repentino e desvairado da mulher o
acordou de um salto.
— A pata! — gritava ela, fora de si. — A
pata do macaco!
Ele se ergueu, alarmado.
— Onde? Onde está? O que aconteceu?
Ela veio tropeçando pelo quarto até
ele.
— Eu quero a pata — disse, calma agora.
— Você não a destruiu, destruiu?
— Está na saleta, na prateleira —
respondeu ele, espantado. — Por quê?
Ela chorava e ria ao mesmo tempo; e,
debruçando-se, beijou-lhe o rosto.
— Só agora me lembrei dela — disse,
histérica. — Por que eu não pensei nisso
antes? Por que você não pensou?
34
— Pensou em quê? — perguntou ele.
— Nos outros dois desejos —
respondeu ela, depressa. — Só usamos
um.
— E não bastou? — bradou ele, feroz.
— Não — gritou ela, em triunfo. —
Vamos usar mais um. Desça, pegue a pata
depressa e deseje o nosso menino vivo de
novo.
O homem sentou-se na cama e atirou
as cobertas para longe das pernas
trêmulas.
— Meu Deus do céu, você enlouqueceu!
— gritou, apavorado.
— Vá buscar — arfou ela. — Vá buscar
depressa e faça o pedido... Ai, meu filho,
meu filho!
35
O marido riscou um fósforo e acendeu
a vela.
— Volte para a cama — disse, com a voz
falhando. — Você não sabe o que está
dizendo.
— Tivemos o primeiro desejo atendido
— disse a velha, febril. — Por que não o
segundo?
— Coincidência — gaguejou o velho.
— Vá buscar a pata e faça o pedido —
gritou a mulher, tremendo de exaltação.
O velho virou-se e a encarou, e a voz
dele tremia:
— Ele está morto há dez dias. E, além
disso, ele... Eu nunca lhe contaria isso,
mas... eu só consegui reconhecê-lo pela
roupa. Se naquele dia ele já estava
36
horrível demais para você ver, imagine
agora.
— Traga-o de volta! — gritou a velha,
arrastando-o para a porta. — Você acha
que eu tenho medo do filho que embalei
no colo?
Ele desceu no escuro, tateou o
caminho até a saleta e depois até o
consolo da lareira. O talismã estava no
lugar; e um medo horrível — de que o
desejo ainda não pronunciado trouxesse
o filho mutilado à sua frente antes que ele
conseguisse fugir do cômodo — apossou-
se dele; e ele prendeu a respiração ao
perceber que tinha perdido a direção da
porta. Com a testa fria de suor, tateou em
volta da mesa e foi se guiando pela
parede, até se ver no pequeno corredor
com aquela coisa malsã na mão.
37
Quando ele entrou no quarto, até o
rosto da mulher parecia mudado. Estava
branco, ansioso e, para o medo dele,
parecia carregar um quê de fora do
natural. Ele teve medo dela.
— Faça o pedido! — gritou ela, com voz
forte.
— Isto é tolice, é maldade — balbuciou
ele.
— Faça o pedido! — repetiu a mulher.
Ele ergueu a mão:
— Eu desejo o meu filho vivo de novo.
O talismã caiu no chão, e ele o encarou
com pavor. Depois afundou, trêmulo,
numa cadeira, enquanto a velha, de olhos
em brasa, caminhava até a janela e
levantavaa persiana.
38
Ele ficou sentado ali até gelar de frio,
olhando de vez em quando o vulto da
velha que espiava pela janela. O toco de
vela, que já ardia abaixo da borda do
castiçal de louça, lançava sombras
pulsantes no teto e nas paredes, até que,
com um tremeluzir maior do que os
outros, se apagou. O velho, com um
indizível alívio pelo fracasso do talismã,
arrastou-se de volta para a cama; um ou
dois minutos depois, a velha veio, calada
e apática, deitar-se ao seu lado.
Nenhum dos dois falou; ficaram
deitados em silêncio, ouvindo o tique-
taque do relógio. Um degrau estalou, e
um camundongo passou correndo,
barulhento, por dentro da parede. A
escuridão pesava; e, depois de ficar um
bom tempo deitado, juntando coragem, o
39
velho pegou a caixa de fósforos, riscou
um e desceu para buscar uma vela.
No pé da escada o fósforo se apagou, e
ele parou para riscar outro. No mesmo
instante, uma batida — tão baixa e furtiva
que mal se ouvia — soou na porta da
frente.
Os fósforos escaparam-lhe da mão e se
espalharam pelo corredor. Ele ficou
imóvel, sem respirar, até a batida se
repetir. Então deu meia-volta, correu
para o quarto e fechou a porta atrás de si.
Uma terceira batida ecoou pela casa.
— O que é isso? — gritou a velha,
erguendo-se num susto.
— Um rato — disse o velho, com a voz
trêmula. — Um rato. Passou por mim na
escada.
40
A mulher sentou-se na cama, à escuta.
Uma batida forte ressoou pela casa
inteira.
— É o Herbert! — gritou ela. — É o
Herbert!
Correu para a porta, mas o marido
chegou antes e, agarrando-a pelo braço,
segurou-a com força.
— O que você vai fazer? — sussurrou,
rouco.
— É o meu menino! É o Herbert! —
gritava ela, debatendo-se sem pensar. —
Esqueci que eram três quilômetros. Por
que você está me segurando? Solte.
Preciso abrir a porta.
— Pelo amor de Deus, não deixe isso
entrar — gritou o velho, tremendo.
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— Você está com medo do próprio filho
— gritou ela, lutando. — Me solte. Já vou,
Herbert! Já vou!
Houve outra batida, e mais outra. Com
um safanão repentino, a velha se libertou
e saiu correndo do quarto. O marido a
seguiu até o patamar e a chamou,
suplicante, enquanto ela descia a escada
às pressas. Ouviu a corrente da porta
tilintar e o ferrolho de baixo sair devagar,
aos trancos, do encaixe. Depois, a voz da
velha, esganiçada, ofegante:
— O ferrolho! — gritou ela, bem alto. —
Desça! Eu não alcanço.
Mas o marido estava de quatro no
chão, tateando desvairado à procura da
pata. Se ao menos conseguisse encontrá-
la antes que a coisa lá fora entrasse... Uma
verdadeira fuzilaria de batidas reboou
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pela casa, e ele ouviu o arrastar da cadeira
que a mulher encostava na porta, no
corredor. Ouviu o ranger do ferrolho
vindo devagar — e, no mesmo instante,
achou a pata de macaco e, frenético,
sussurrou o terceiro e último desejo.
As batidas cessaram de repente,
embora os ecos ainda rondassem a casa.
Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta
e a porta se abrir. Um vento frio subiu
correndo a escada; e um gemido longo e
alto de decepção e de dor, vindo da
mulher, deu-lhe coragem para descer até
ela — e depois até o portão. O lampião da
rua, tremeluzindo em frente, iluminava
uma estrada quieta e deserta.
FIM
43
Crítica
•
gora que o caso foi ouvido, retome-
se a questão adiada, em quatro
pontos: que espécie de poder é a pata;
onde erraram os White; o que o desfecho
decide; e se a fábula é justa.
Quanto ao primeiro. Há que distinguir
causa e ocasião — e a arte do conto está
em tornar a distinção impossível. As
duzentas libras chegam, mas na forma de
uma indenização que a firma pagaria de
qualquer modo; a batida na porta vem à
hora exata em que um morto viria a pé do
cemitério, mas ninguém abre a tempo; o
A
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terceiro desejo é seguido de silêncio e de
uma rua vazia — que é o que uma rua seria
de madrugada, com ou sem talismã. O
próprio Morris entrega a chave: as coisas
acontecem "com tanta naturalidade que
se pode achar que foi tudo coincidência".
Em nenhum momento a pata age em
cena; a evidência é circunstancialmente
perfeita e formalmente nula. Dessa
indecidibilidade é que o terror se
alimenta: se a pata age, o mundo cobra os
desejos com juros de crueldade; se não
age, o acaso é indistinguível dessa
crueldade — e não se sabe qual das duas
hipóteses é a pior.
Quanto ao segundo. O erro do senhor
White não foi pedir demais — duzentas
libras, o resto da dívida da casa, talvez
seja o pedido mais módico da literatura. O
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erro está no fundamento: ele mesmo
declara "tenho a impressão de que já
tenho tudo o que quero" — e pede assim
mesmo. Desejo sem falta é experimento;
e experimentar o destino é exatamente o
"meter-se com ele" que o faquir quis
punir. Note-se, aliás, qual foi o verdadeiro
primeiro desejo: quando Morris atira a
pata ao fogo, White a arranca das chamas
— antes de qualquer palavra, ele já
desejara desejar. Quanto à velha senhora,
julgue-se com justiça: o segundo desejo é
o amor dando ordens ao impossível, e a
lógica dela é a mais coerente da casa —
"tivemos o primeiro; por que não o
segundo?" é raciocínio impecável dentro
da premissa que todos aceitaram rindo. A
sua loucura é apenas a fé nas
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consequências: quem riu na primeira
parte assinou a terceira.
Quanto ao terceiro. O desfecho decide
menos do que parece e mais do que se
nota. Menos: nunca saberemos quem
bateu — o conto morre calado, e a rua
deserta serve às duas leituras. Mais: os
três desejos desenham uma linha, e essa
linha é a sabedoria da fábula. O primeiro
pede; o segundo tenta desmandar a
morte; o terceiro desmanda o próprio
desejo. O único uso comprovadamente
seguro daquele poder foi o de desfazê-lo
— e o único desejo sábio do conto é uma
renúncia, feita no escuro, no chão do
quarto, sem testemunhas. Note-se
também a porta: de um lado, a mulher que
quer abrir; do outro, o homem que quer
trancar — o mesmo instante é, para ela,
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"decepção e dor"; para ele, "indizível
alívio". A pata pode não ter tocado no
mundo; no casamento, tocou.
Quanto ao quarto. Objeta-se: a fábula
seria cruel — uma família modesta, um
pedido honesto, um filho cobrado como
preço; que justiça é essa? Responde-se
com a distinção do primeiro ponto: o
conto jamais afirma que houve preço;
afirma coisa mais fina e mais dura — que,
depois de consultar o desconhecido, os
White perderam para sempre a inocência
do acaso. Aconteça o que acontecer dali
em diante, nunca mais uma batida, uma
carta, uma herança serão apenas o que
são. A pata não precisa funcionar para
arruinar: basta ter sido consultada.
Objeta-se ainda: a moral seria
conformista — não peça, contente-se
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com o que tem. Responde-se que o texto
distingue melhor: Herbert pede por
brincadeira, o pai por experiência, a mãe
por amor, e a fábula não condena nenhum
dos três afetos; o que ela examina é o
contrato. Pedir a uma vontade admite
misericórdia; pedir a um mecanismo
entrega o pedido a um executor literal,
sem juiz de apelação — e um desejo
atendido ao pé da letra é uma sentença
lida por um oficial que não conhece a
intenção. Diante de um poder que não se
entende, a última palavra sensata do
conto é a que o velho encontra tateando
o chão do quarto: a mão que devolve.
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Notas do tradutor
•
1. O texto e a fonte — "A Pata do Macaco" ("The
Monkey's Paw") foi publicado em 1902,
primeiro em revista e em seguida na
coletânea The Lady of the Barge. W. W.
Jacobs (1863–1943) era humorista de ofício,
famoso pelos contos cômicos do cais do
Tâmisa; este é o seu único conto de terror
célebre — e um dos mais imitados de todos
os tempos. A tradução foi feita a partir do
texto integral inglês da coletânea, fornecido
como fonte.
2. Vila Laburnam — Nome da casinha dos White.
Laburnum é uma árvore ornamental (a
chuva-de-ouro); batizar casas de subúrbio
com nomes de plantas era hábito inglês —
pompa de portãopequeno. Mantive a grafia
"Laburnam", que é a do original.
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3. Sargento-mor — Verte sergeant-major, a
mais alta graduação entre as praças do
exército britânico. Os vinte e um anos de
serviço de Morris se passaram na Índia,
então colônia britânica — daí os templos, o
faquir e a pata.
4. Faquir e "Mil e Uma Noites" — O faquir é o
asceta que os relatos da época cercavam de
fama de prodígios; "um homem muito santo",
no dizer de Morris. As Mil e Uma Noites,
citadas pela senhora White, valem na cena
como sinônimo de história de mágica e
desejos.
5. Duzentas libras — É exatamente a quantia
que faltava para quitar a casa, e
correspondia, na época, a alguns anos do
salário de um operário como Herbert. "Maw
and Meggins" é o nome da firma (a fábrica
onde ele trabalhava); mantive no original.
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6. O paninho da poltrona — Verte antimacassar:
capinha de tecido ou crochê posta no
encosto das poltronas para protegê-las das
pomadas de cabelo dos homens — a arma
improvisada da senhora White na cena da
brincadeira.
7. Tratamento e apelidos — Herbert trata os
pais e o sargento por "senhor"; os velhos se
tratam por "você" e, à moda inglesa da época,
chamam-se de father e mother — verti por
"meu velho" e "minha velha". White e Morris,
amigos antigos, tratam-se por "você"; com o
visitante da firma, o tratamento é
cerimonioso dos dois lados.
8. Medidas e miudezas — As duas milhas até o
cemitério viraram "uns três quilômetros". A
rubrica "[Illustration]", resquício da edição
ilustrada de 1902, foi omitida por não
pertencer ao texto.
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Créditos
•
A Pata do Macaco
W. W. Jacobs — The Monkey’s Paw (1902)
Tradução, introdução, crítica e notas:
Paulo Rabelo
Organização: Baixe Livros — 2026
Disponibilização gratuita e integral por
meio da plataforma BaixeLivros. A
licença gratuita concedida poderá ser
alterada futuramente a critério do
tradutor.
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