Logo Passei Direto
Buscar

WELLESONN_FERREIRA_DA_SILVA_GALO esse aqqui

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
INSTITUTO DE ARTES E DESIGN
WELLESONN FERREIRA DA SILVA GALO
MORADA PRESENTE:
FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO
JUIZ DE FORA
2026
WELLESONN FERREIRA DA SILVA GALO
MORADA PRESENTE:
FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO 
 
 
 
 
Trabalho de Conclusão de Curso, do Curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Artes Visuais. 
Orientador: Prof. Dra. Leticia de Alencar Bertagna 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
JUIZ DE FORA
2026
 
 BANCA EXAMINADORA 
 
 
 _______________________________________ 
 Prof. Dra. Leticia de Alencar Bertagna - Orientador Universidade Federal de Juiz de Fora 
 
 
 ________________________________________ 
Dra.Valéria de Faria Cristofaro 
Universidade Federal de Juiz de Fora 
 
 
________________________________________ 
Dra. Renata Cristina de Oliveira Maia Zago Mazzoni Marcato 
Universidade Federal de Juiz de Fora 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
Agradeço primeiramente à minha família, pelo amor, apoio e incentivo durante toda a minha trajetória acadêmica. Aos meus pais, por todos os ensinamentos e por fazerem parte das memórias e experiências que também deram sentido a este trabalho.
Aos meus amigos, pela companhia, pelas conversas, pelo incentivo e por tornarem os momentos difíceis mais leves.
À minha orientadora, pela dedicação, orientação e contribuições que foram importantes para a realização deste trabalho.
Agradeço também aos professores e à instituição, por todos os conhecimentos compartilhados ao longo da minha formação.
Por fim, agradeço a todos que, de alguma maneira, estiveram presentes nessa caminhada. Cada palavra de incentivo, gesto de carinho e experiência compartilhada contribuiu para que eu chegasse até aqui.
 
 
 
 
 
RESUMO
Este trabalho propõe uma investigação sobre a relação entre fotografia, memória e afeto, partindo das lembranças e experiências que permanecem presentes mesmo com a passagem do tempo. A fotografia é compreendida não apenas como um registro de momentos, mas como uma forma de guardar sentimentos, pessoas, lugares e pequenas situações que fazem parte da construção da memória. A partir de fotografias e textos autorais, o trabalho busca revisitar lembranças da infância, da família, da casa e de momentos cotidianos, refletindo sobre aquilo que permanece dentro de nós mesmo depois que o momento já passou. Entre essas lembranças aparecem o colo de mãe, a piscina de plástico, o suco de uva com pipoca, os desenhos na televisão de tubo, as brincadeiras, as risadas, os abraços e tantas outras pequenas coisas que dão forma à nostalgia. A proposta artística procura compreender como a fotografia pode transformar uma lembrança em presença, aproximando passado e presente por meio do afeto. Assim, Morada Presente nasce como uma maneira de olhar para aquilo que foi vivido e perceber que algumas memórias continuam sendo uma espécie de morada, carregando sentimentos, histórias e vínculos que permanecem vivos.
Palavras-chave: Fotografia; Memória; Afeto; Infância; Nostalgia; Família; Fotografia afetiva; Processo artístico.
ABSTRACT
This work proposes an investigation into the relationship between photography, memory, and affection, based on memories and experiences that remain present even with the passage of time. Photography is understood not only as a record of moments, but also as a way of preserving feelings, people, places, and everyday situations that contribute to the construction of memory. Through photographs and personal texts, this work seeks to revisit memories of childhood, family, home, and everyday moments, reflecting on what remains within us even after the moment has passed. Among these memories are a mother’s embrace, a plastic swimming pool, grape juice with popcorn, cartoons watched on an old television, games, laughter, hugs, and other small experiences that give shape to nostalgia. The artistic proposal seeks to understand how photography can transform a memory into a form of presence, bringing past and present closer through affection. Thus, Morada Presente emerges as a way of looking at what has been lived and recognizing that some memories continue to be a kind of home, carrying feelings, stories, and bonds that remain alive.
Keywords: Photography; Memory; Affection; Childhood; Nostalgia; Family; Affective Photography; Artistic Process.
SUMÁRIO 
 
INDRODUCAO	8
2. FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO: IMAGENS QUE PERMANECEM	10
2.1 A FOTOGRAFIA COMO MORADA DAS LEMBRANÇAS	16
2.2 INFÂNCIA, NOSTALGIA E OS FRAGMENTOS DA MEMÓRIA	22
3. MORADA PRESENTE: A CONSTRUÇÃO POÉTICA DA MEMÓRIA	31
3.1 A CONSTRUÇÃO DA MORADA PRESENTE: FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO NA PRODUÇÃO ARTÍSTICA	35
3.1.1 O gosto da infância: entre o cuidado e a saudade	36
3.1.2 A janela: olhar para fora e olhar para si	38
3.1.3 A piscina de plástico e as memórias compartilhadas	39
3.1.4 Lilás: quando uma cor se transforma em memória	40
3.1.5 Metamorfose: aquilo que muda sem desaparecer	42
3.1.6 Nostalgia: os pequenos elementos que formam uma infância	43
3.1.7 A criança diante da televisão: objetos que guardam lembranças	44
3.1.8 Morada Presente: a reunião dos fragmentos	45
4. RESULTADOS E REFLEXÕES SOBRE A PRODUÇÃO ARTÍSTICA	54
CONSIDERAÇÕES FINAIS	58
REFERÊNCIAS	60
INDRODUCAO 
Há lembranças que não desaparecem completamente. Elas permanecem em pequenos detalhes, em uma fotografia antiga, em uma casa, em um objeto guardado, em uma cor, em uma voz ou até mesmo em uma sensação que surge inesperadamente. Algumas lembranças pertencem a momentos tão simples da infância que, enquanto eram vividos, pareciam não ter importância. Com o passar do tempo, entretanto, esses mesmos momentos podem adquirir outro significado e revelar o quanto participaram da construção de quem somos.
É a partir dessa relação entre lembrança, imagem e afeto que surge “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”. O trabalho parte da compreensão de que a fotografia não é somente uma maneira de registrar aquilo que aconteceu, mas também uma possibilidade de retornar a experiências que continuam produzindo sentidos no presente. Uma imagem pode preservar a presença de uma pessoa, um espaço ou uma situação, mas também pode despertar aquilo que não está visível: sentimentos, histórias, saudades e vínculos.
Nesse sentido, a fotografia ocupa um lugar central nesta pesquisa. A imagem fotográfica estabelece uma relação entre o momento em que algo foi vivido e o momento em que essa imagem é novamente observada. O registro permanece, enquanto as pessoas, os espaços e as circunstâncias se transformam. Essa relação entre fotografia e tempo permite compreender a imagem como um vestígio de uma experiência passada, que pode ser retomada e interpretada a partir do presente (KOSSOY, 2001).
Boris Kossoy contribui para essa discussão ao pensar a fotografia para além de sua aparência imediata, considerando sua relação com o tempo, a história e aquilo que foi registrado. A imagem fotográfica pode ser observada como um documento de determinado momento, mas também carrega elementos que permitem ao observador estabelecer relações com aquilo que já passou. Dessa forma, a fotografia pode participar da construção de diferentes sentidos sobre uma experiência (KOSSOY, 2001).
A partir dessa perspectiva, esta pesquisa busca investigar como a fotografia pode atuar como um espaço de permanência e ressignificação das memórias afetivas, especialmente aquelas relacionadas à infância, à família e aos espaços de convivência. Interessa compreender de que maneira uma imagem pode fazer retornar experiências que pareciam distantes e como o olhar do presente pode transformar a maneira como essas experiências são percebidas.
As lembranças que orientam este trabalho não estão relacionadas somente a acontecimentos extraordinários. Elas estão também nas pequenas coisas: no colo de mãe, nas brincadeiras, na piscina de plástico, no desenho animado na televisão de tubo,alguém sorrir ao reconhecer uma pessoa querida e, ao mesmo tempo, fazer perceber o quanto o tempo passou.
A nostalgia surge justamente nesse espaço entre aquilo que foi vivido e aquilo que já não pode ser vivido da mesma maneira. Ela não representa somente tristeza pelo passado, mas também uma forma de reconhecer a importância que determinadas experiências tiveram em nossa formação. Ao lembrar da infância, por exemplo, não estamos apenas tentando retornar a uma época que passou. Estamos também reconhecendo partes de nós mesmos que continuam presentes.
Por isso, as fotografias desta pesquisa podem ser compreendidas como pequenas moradas de afetos. Elas não são capazes de fazer o tempo voltar, mas permitem que determinadas experiências sejam revisitadas. A imagem torna possível olhar novamente para aquilo que um dia foi cotidiano e perceber que aquele momento possuía um valor que talvez só tenha sido compreendido posteriormente.
Essa ideia também se relaciona com a própria maneira como esta produção artística é construída. As fotografias não aparecem isoladas, mas em diálogo com palavras, lembranças e sentimentos. Os textos escritos a partir das imagens funcionam como outra camada da memória. Eles procuram dizer aquilo que a fotografia sozinha não consegue mostrar.
Assim, quando aparece a lembrança do colo de mãe, da piscina de plástico, do suco de uva com pipoca, da televisão de tubo ou das brincadeiras de infância, não se trata apenas de fazer uma lista de coisas que existiram. Esses elementos formam uma espécie de mapa afetivo. São pequenos fragmentos que, juntos, ajudam a construir uma imagem da infância e daquilo que ela representa no presente.
O mesmo acontece quando a cor lilás aparece associada à figura materna. A cor deixa de ser apenas uma característica visual e passa a carregar uma história pessoal. Ela ganha significado porque está relacionada a alguém, a uma relação e a uma memória. Nesse caso, a fotografia e a palavra trabalham juntas para construir um significado que não estaria necessariamente presente se uma delas estivesse sozinha.
Dessa maneira, fotografar também pode ser compreendido como uma forma de cuidado com a memória. Guardar uma fotografia é, de certa maneira, reconhecer que aquele instante possui importância. É preservar um pequeno fragmento de uma experiência para que ele possa ser reencontrado posteriormente.
A fotografia, portanto, não impede que as coisas mudem. Ela não conserva pessoas ou momentos exatamente como eram. O que ela conserva é a possibilidade de olhar novamente para um fragmento daquele tempo. E, ao olhar novamente, também mudamos a maneira como percebemos aquilo que está diante de nós.
É nessa relação entre passado e presente que a fotografia se torna uma verdadeira morada. Ela abriga fragmentos de experiências, mas também permite que esses fragmentos continuem produzindo sentidos. Uma fotografia antiga pode falar sobre uma infância que terminou, sobre pessoas que cresceram, sobre lugares que mudaram e sobre afetos que permaneceram.
Assim, “Morada Presente” não representa apenas um lugar onde as fotografias são guardadas. A expressão representa a maneira como determinadas lembranças continuam vivendo no presente por meio das imagens. A fotografia se torna uma espécie de espaço de encontro entre quem fomos e quem somos. Ao revisitar essas imagens, não encontramos apenas o passado. Encontramos também a nós mesmos, olhando para aquilo que vivemos com os olhos que temos hoje.
Dessa forma, fotografia, memória e afeto tornam-se elementos inseparáveis nesta pesquisa. A imagem registra, a memória reconstrói e o afeto atribui significado. Juntos, esses elementos permitem que momentos aparentemente simples continuem tendo presença mesmo depois da passagem do tempo. A fotografia permanece, não porque consegue impedir o esquecimento, mas porque oferece um lugar para que determinadas lembranças possam continuar sendo revisitadas, sentidas e ressignificadas.
3. MORADA PRESENTE: A CONSTRUÇÃO POÉTICA DA MEMÓRIA
A construção deste trabalho parte da necessidade de transformar lembranças em imagens e palavras. Depois de compreender a fotografia como uma forma de permanência da memória e de refletir sobre a infância, a nostalgia e os afetos, esta etapa apresenta o modo como essas questões passaram a fazer parte da minha própria produção artística. Não se trata apenas de reunir fotografias antigas ou de representar acontecimentos que fizeram parte da minha vida. A proposta é criar uma relação entre aquilo que foi vivido e aquilo que continua sendo sentido no presente.
O título “Morada Presente” surgiu justamente dessa relação. A palavra morada remete a um lugar onde algo permanece, enquanto presente aponta para aquilo que continua acontecendo agora. As lembranças da infância, das pessoas da família, dos lugares e dos pequenos acontecimentos não estão mais acontecendo da mesma maneira, mas continuam encontrando espaço dentro de mim. As fotografias utilizadas nesta produção funcionam, portanto, como lugares simbólicos onde essas lembranças podem permanecer.
Durante o desenvolvimento do trabalho, percebi que algumas memórias não apareciam necessariamente ligadas a grandes acontecimentos. Pelo contrário, muitas delas estavam escondidas em coisas simples. Uma piscina de plástico, uma televisão de tubo, um copo de suco, uma brincadeira, uma janela ou uma determinada cor são capazes de despertar sentimentos que vão muito além do objeto em si.
Essa percepção fez com que eu olhasse para as minhas fotografias de outra maneira. Em vez de procurar apenas imagens que representassem momentos importantes, passei a perceber a importância das imagens que carregavam algum tipo de afeto. A fotografia passou a ser entendida não somente como aquilo que mostra, mas também como aquilo que consegue despertar.
A memória aparece, então, como uma matéria que pode ser trabalhada artisticamente. Ela não permanece parada. Ao contrário, muda conforme o tempo passa e conforme mudamos também. Uma lembrança da infância pode ser percebida de uma maneira quando somos crianças e de outra completamente diferente quando adultos. É nesse deslocamento que a produção artística encontra espaço.
Pierre Nora contribui para essa compreensão ao afirmar:
A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem; que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. (NORA, 1993, p. 9).
A partir dessa perspectiva, os elementos escolhidos para a produção deixam de ser apenas referências pessoais e passam a funcionar como pontos de ligação com experiências vividas. Os objetos, as fotografias, as cores e os espaços presentes no trabalho carregam marcas de uma história individual, mas também dialogam com experiências que podem ser reconhecidas por outras pessoas.
Um dos elementos que ganhou destaque durante esse processo foi a cor lilás. Para mim, ela não aparece apenas como uma escolha estética. Ela possui um significado afetivo relacionado à minha mãe. Em uma das produções, escrevo:
“Tem quem remeta a cor vermelha ao sentimento ‘amor’. Gal Costa descobriu que ‘o amor é azulzinho’. Mas para mim, o amor é Lilás.”
A partir desse fragmento, a cor deixa de ser simplesmente uma característica visual e passa a representar uma pessoa. O lilás ganha um significado particular porque está relacionado à memória, ao carinho e à figura materna. A escolha da cor transforma-se, assim, em uma forma de falar sobre afeto sem precisar explicá-lo completamente.
Figura 1 – Lilás: memória e afeto materno
Fonte: Acervo pessoal da autora.
A imagem relacionada ao lilás representa uma das formas mais íntimas de memória presentes nesta produção. A fotografia da minha mãe não é utilizada somente para registrar sua aparência. Ela representa uma relação construída ao longo do tempo e os sentimentos que permanecem associados a essa relação.
O uso do monóculo também pode sercompreendido como um elemento que direciona o olhar. Ele cria uma aproximação com a fotografia e, ao mesmo tempo, sugere que a memória é formada por fragmentos. Não conseguimos lembrar tudo. Algumas coisas permanecem mais nítidas, enquanto outras vão desaparecendo ou se transformando.
Nesse sentido, a produção artística torna visível aquilo que muitas vezes permanece apenas dentro da memória. A fotografia oferece uma forma concreta para sentimentos que são difíceis de explicar. A imagem da mãe, associada à cor lilás e às palavras, cria uma espécie de retrato afetivo.
Essa relação entre memória e experiência também pode ser aproximada do pensamento de Jorge Larrosa Bondía. Para o autor, a experiência não está simplesmente na quantidade de informações que acumulamos, mas naquilo que realmente nos atravessa.
A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma anti experiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informados, e toda a retórica destinada a constituir nos como sujeitos informantes e informados. (BONDÍA, 2002, p. 21).
Essa reflexão é importante para compreender a maneira como as imagens foram selecionadas. Não interessava apenas mostrar informações sobre uma determinada época ou apresentar fotografias como documentos. O que interessava era perceber aquilo que essas imagens provocavam. A fotografia escolhida precisava ter alguma relação com uma experiência que continuasse fazendo sentido no presente.
Por isso, as lembranças utilizadas na produção são acompanhadas por pequenos textos. As palavras aparecem como uma extensão das fotografias. Elas não procuram explicar completamente a imagem, mas acrescentar outras possibilidades de leitura.
A infância ocupa um espaço importante nesse processo. Ao recordar coisas como a piscina de plástico, as brincadeiras com os primos e irmãos, o desenho na televisão de tubo, o suco de uva com pipoca, as festas e as risadas, percebo que minha memória é construída também por detalhes.
Esses detalhes podem parecer insignificantes para quem olha de fora. Entretanto, para mim, eles possuem uma força afetiva. É justamente essa diferença entre aquilo que parece pequeno e aquilo que significa muito que interessa à produção.
Outro trabalho que nasce dessa relação é “Metamorfose”. Desde a infância, existe em mim uma dificuldade de permanecer em um único caminho. A mistura das cores das massinhas de modelar, mesmo sabendo que ao final elas poderiam se transformar em um único tom de cinza, aparece como uma lembrança que também representa uma característica da pessoa que me tornei.
No texto, escrevo:
“Desde criança nunca percorri um caminho de mão única, desbravava rotas que não conhecia, nunca consegui escolher uma cor favorita, ou um padrão certinho para brincar com as massinhas de modelar. Eu as misturava mesmo sabendo que no final todas as cores sumiriam em um único tom de cinza.”
A metamorfose, nesse caso, não representa apenas mudança. Ela representa a continuidade entre a criança e o adulto. Existe uma criança que permanece presente, mesmo que muitas coisas tenham mudado ao longo do caminho
Figura 2 – Metamorfose: infância, mudança e identidade
Fonte: Acervo pessoal da autora.
A fotografia da criança estabelece uma relação direta com o texto “Metamorfose”. Ao colocar lado a lado imagens da infância e registros de trabalhos e detalhes do presente, a produção cria uma conversa entre diferentes momentos da vida.
A criança fotografada pertence ao passado, mas não está completamente distante do presente. Algumas características, desejos, inquietações e formas de perceber o mundo continuam existindo. A metamorfose acontece justamente porque a mudança não significa apagar aquilo que fomos. Tornar-se outra pessoa também significa carregar partes daquilo que já fomos.
A fotografia contribui para tornar essa relação visível. Ela permite observar diferenças, mas também perceber permanências. O corpo muda, os espaços mudam, os objetos mudam, mas determinadas lembranças continuam funcionando como referências para compreender quem somos.
Nesse sentido, a fotografia não é utilizada nesta produção apenas como registro. Ela participa da construção da narrativa. Cada imagem é escolhida porque possui uma relação com uma lembrança, um sentimento ou uma parte da minha história.
Também fazem parte desse processo as palavras relacionadas à infância
3.1 A CONSTRUÇÃO DA MORADA PRESENTE: FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO NA PRODUÇÃO ARTÍSTICA
A produção artística desenvolvida neste trabalho nasce da relação entre fotografia, memória e afeto. Depois de refletir sobre esses elementos nos capítulos anteriores, tornou-se necessário aproximar a teoria da minha própria experiência. Dessa forma, esta etapa apresenta o processo de construção de “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”, reunindo fotografias, lembranças, objetos, cores, espaços e pequenos acontecimentos que fazem parte da minha trajetória.
A proposta não consiste em simplesmente reunir fotografias antigas ou apresentar acontecimentos da infância como documentos de um passado. O que busco é compreender como essas imagens continuam produzindo significados no presente. Algumas fotografias registram momentos que já não podem ser repetidos, enquanto outras fazem surgir lembranças que permaneciam guardadas. Assim, cada imagem escolhida para esta produção possui uma relação afetiva com aquilo que foi vivido.
O título “Morada Presente” está diretamente relacionado a essa ideia. A palavra “morada” remete a um lugar onde algo permanece, mas, neste trabalho, esse lugar não é necessariamente físico. A memória também pode ser compreendida como uma morada, pois determinadas experiências continuam habitando a pessoa mesmo depois de muito tempo. O presente aparece porque essas lembranças não permanecem apenas no passado. Elas são revisitadas, reconstruídas e sentidas novamente no momento em que as fotografias são observadas.
Durante o desenvolvimento da produção, percebi que muitas das minhas lembranças estavam relacionadas a coisas aparentemente simples. Não eram necessariamente grandes acontecimentos que permaneciam na memória. Eram detalhes. O colo da mãe, uma piscina de plástico, uma janela, uma televisão antiga, um brinquedo, uma cor, uma brincadeira, uma festa, um sabor ou uma conversa.
Esses elementos passaram a ser entendidos como pontos de acesso à memória. Uma fotografia poderia despertar uma lembrança que não estava visível na imagem. Um objeto poderia fazer surgir uma sensação. Uma cor poderia trazer uma pessoa à memória. Dessa forma, a criação foi acontecendo por meio dessas relações.
A memória também não apareceu de forma totalmente organizada. Uma lembrança conduzia a outra. Ao observar uma fotografia da infância, surgiam pessoas, lugares e objetos que não estavam presentes naquele registro. Ao pensar na minha mãe, surgiu a cor lilás. Ao lembrar da infância, surgiram a piscina, a televisão de tubo, o catavento, as festas e tantas outras pequenas coisas.
Essa maneira de lembrar influenciou diretamente a produção artística. Em vez de construir uma narrativa totalmente linear, organizei as imagens e os textos a partir das relações afetivas existentes entre eles.
A pesquisadora Ecléa Bosi ajuda a compreender essa maneira de olhar para o passado. Ao discutir o funcionamento da memória, a autora explica que a lembrança não acontece como uma reprodução exata daquilo que foi vivido. Bosi afirma:
“Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado.” (BOSI, 1994, p. 55).
A reflexão de Ecléa Bosi é fundamental para esta produção porque as fotografias são observadas a partir do presente. A criança que aparece em algumas imagens já cresceu. Os espaços podem ter mudado. Os objetos podem ter desaparecido. As relações também podem ter se transformado. Entretanto, quando essas fotografias são revisitadas, elas continuam produzindo sentidos.
Portanto,não procuro reconstruir a infância exatamente como ela aconteceu. Procuro perceber aquilo que permanece dela em mim. O olhar atual transforma a maneira como essas experiências são compreendidas.
3.1.1 O gosto da infância: entre o cuidado e a saudade
A primeira produção nasceu de uma lembrança relacionada ao cuidado materno. O ponto de partida foi uma situação aparentemente simples, a dor de um ralado que, na infância, podia ser facilmente amenizada pelo colo da mãe e por suas palavras de conforto.
O texto criado para acompanhar essa memória diz:
“O gosto da infância,
a dor de um ralado que se curava
com um colinho da minha mãe
seguido da frase: ‘vai ficar tudo bem meu filho!’”
A lembrança, entretanto, não termina na infância. Quando observada pelo olhar adulto, ela passa a representar também a saudade de uma época em que existia uma sensação maior de segurança.
“Hoje, já adulto
sinto falta de quando me sentia
completo da esperança
de que em instantes, tudo se cura.”
Essa segunda parte modifica o sentido da primeira. A lembrança deixa de ser somente sobre um machucado e passa a falar sobre a passagem da infância para a vida adulta.
A escolha do palhaço triste para acompanhar o texto surgiu justamente dessa contradição. O palhaço está associado à infância, à brincadeira e à alegria, mas sua expressão triste representa a percepção de que algumas certezas da infância não permanecem da mesma maneira.
Figura 1 – O gosto da infância: entre cuidado e saudade
Fonte: Produção da autora, 2026.
Referência: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
A imagem apresenta uma infância que não é compreendida somente pela alegria. Existe também uma dimensão de saudade. O palhaço triste representa a criança que um dia acreditou que tudo poderia ficar bem depois de um abraço e que, posteriormente, percebe que a vida adulta apresenta dores que não desaparecem tão facilmente.
Nesse sentido, a imagem estabelece uma relação entre passado e presente. A criança está no passado, mas o sentimento provocado pela lembrança acontece no presente.
A fotografia e o texto trabalham juntos para construir essa ideia. Enquanto as palavras apresentam a lembrança do colo e da frase materna, a imagem cria uma representação visual da mudança emocional ocorrida com o passar do tempo.
A infância aparece, então, como uma espécie de lugar afetivo. Não é possível voltar fisicamente para aquele momento, mas é possível reencontrá-lo através da memória.
3.1.2 A janela: olhar para fora e olhar para si
A segunda produção parte da lembrança da janela da casa dos meus pais. Quando criança, eu me ajoelhava sobre a cama deles para olhar o mundo lá fora.
O gesto era simples, mas adquiriu outro significado com o passar do tempo. A criança observava o mundo sem saber exatamente o que encontraria. Hoje, ao recordar esse momento, percebo que aquela imagem também pode representar as perguntas que surgem ao longo da vida.
O texto criado para essa fotografia começa com perguntas:
“O que sou enfim?
O que me tornei até aqui?
Até que ponto quero alcançar?
De nada disso sei.”
Essas perguntas pertencem ao presente, mas encontram sua origem em um gesto da infância: olhar pela janela.
Figura 2 – A janela: infância e descoberta do mundo
Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.
Fonte: Produção da autora, 2026.
Referência: NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993.
A janela funciona como um elemento de passagem. Dentro do quarto estava aquilo que era conhecido. Fora dele estava o mundo.
A casa dos pais também possui um significado afetivo. Ela representa uma morada física, mas também uma morada da memória. O espaço onde a infância aconteceu permanece como referência mesmo depois que a experiência de vivê-lo mudou.
O filósofo e historiador Pierre Nora contribui para pensar essa relação entre memória e espaço. Ao discutir os lugares de memória, Nora afirma:
“A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas.” (NORA, 1993, p. 9).
A reflexão de Pierre Nora ajuda a compreender por que a janela possui importância dentro desta produção. Ela não é importante apenas como objeto físico. Ela possui significado porque está relacionada a uma experiência vivida.
Ao fotografar ou representar esse espaço, a produção não procura simplesmente mostrar uma janela. Procura mostrar o que essa janela representa: o olhar de uma criança diante do mundo e, posteriormente, o olhar de um adulto diante da própria trajetória.
3.1.3 A piscina de plástico e as memórias compartilhadas
A terceira produção está relacionada às lembranças de um dia de verão vivido na piscina de plástico. Diferentemente de uma memória individual, essa experiência está diretamente ligada à convivência com meu irmão e meus primos.
O texto nasceu da lembrança das risadas e da sensação de estar dentro daquele pequeno espaço cheio de água:
“Risadas altas na piscina num dia ensolarado de verão intenso feito um vulcão de larvas
onde naquele lugarzinho de plástico, eu pequenino repleto de água, compartilhava do amor de meu irmão e meus primos.”
A piscina representa muito mais do que um objeto. Ela se tornou um lugar de memória.
Figura 3 – Piscina de plástico: infância compartilhada
Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.
Fonte: Produção da autora, 2026.
Referência: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
A fotografia da piscina representa uma infância compartilhada. As brincadeiras, as risadas e a presença dos familiares fazem com que aquele pequeno espaço adquira uma dimensão muito maior dentro da memória.
A lembrança também demonstra que os afetos são construídos nas experiências cotidianas. Não era necessário estar em um lugar grandioso para criar uma lembrança importante. Uma piscina de plástico foi suficiente para guardar um momento de convivência.
O que permanece na memória não é somente a piscina. Permanecem as pessoas, as risadas, o verão e a sensação de estar junto.
O fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy discute justamente a permanência da fotografia depois do desaparecimento do instante que foi registrado. Para Kossoy:
“As fotografias, em geral, sobrevivem após o desaparecimento físico do referente que as originou: são os elos documentais e afetivos que perpetuam a memória.” (KOSSOY, 2001, p. 156).
A ideia de Boris Kossoy se aproxima diretamente dessa imagem. O momento registrado não pode ser repetido exatamente como aconteceu. As crianças cresceram, o tempo passou e aquela situação pertence a outro período. Entretanto, a fotografia permite que ela continue sendo visitada.
A piscina, portanto, passa a existir em dois tempos. Existe como objeto de uma lembrança passada e como imagem observada no presente.
3.1.4 Lilás: quando uma cor se transforma em memória
A quarta produção é “Lilás”. Essa imagem possui uma relação particularmente afetiva porque está ligada à minha mãe, Zenilda.
A escolha da cor não foi feita somente por razões visuais. O lilás possui um significado pessoal. Ele passou a representar uma pessoa, uma relação e uma forma de amor.
O texto produzido para acompanhar a imagem diz:
“Tem quem remeta a cor vermelha ao sentimento ‘amor’.
Gal Costa descobriu que ‘o amor é azulzinho’.
Mas para mim, o amor é Lilás.”
A cor passa, então, a carregar uma memória.
Figura 4 – Lilás: memória e afeto materno
 Autoria:WellesonnFerreiradaSilvaGalo,2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.
Referência: KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
A fotografia da minha mãe não funciona apenas como um retrato. Ela representa uma relação construída ao longo da vida. O rosto fotografado torna-se uma forma de acesso a outras lembranças, sentimentos e experiências.
O monóculotambém possui uma função simbólica. Ele estabelece uma relação com o ato de olhar. Olhar para uma fotografia é tentar perceber aquilo que está além do que foi registrado.
O lilás, por sua vez, transforma o sentimento em elemento visual. Ao dizer que o amor é lilás, a produção atribui à cor uma memória específica.
A fotografia, nesse caso, torna-se uma forma de preservar uma presença afetiva.
Kossoy (2001) explica que a fotografia possui uma relação com os vestígios do passado e com os vínculos afetivos estabelecidos por quem observa a imagem. Essa compreensão permite perceber que a fotografia da mãe não precisa ser analisada apenas pelo que mostra. É necessário considerar também aquilo que ela provoca.
A imagem torna-se, assim, uma espécie de retrato afetivo.
3.1.5 Metamorfose: aquilo que muda sem desaparecer
A quinta produção recebe o título “Metamorfose”. Ela parte da percepção de que minha trajetória nunca foi construída por um único caminho.
Desde criança, existia uma vontade de experimentar, misturar cores e descobrir possibilidades diferentes. A lembrança das massinhas de modelar representa essa característica.
“Desde criança nunca percorri um caminho de mão única,
desbravava rotas que não conhecia, nunca consegui escolher
uma cor favorita, ou um padrão certinho para brincar
com as massinhas de modelar.”
A mistura das cores, mesmo sabendo que poderia resultar em um único tom de cinza, tornou-se uma metáfora para a própria vida.
Figura 5 – Metamorfose: infância, criação e transformação
Fonte: Produção da autora, 2026.Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.
Referência: BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, 2002.
A fotografia da criança aparece ao lado dos trabalhos e dos detalhes produzidos posteriormente para mostrar uma continuidade.
A criança mudou. O adulto mudou. As experiências mudaram. Porém, algumas características permaneceram.
A curiosidade e o desejo de experimentar aparecem tanto nas brincadeiras infantis quanto na produção artística atual.
A metamorfose representa, portanto, a transformação sem apagamento. Tornar-se outra pessoa não significa deixar completamente de ser quem fomos.
A memória da infância participa da identidade atual.
Nesse sentido, a produção artística também pode ser compreendida como uma forma de reencontro com essa criança. Ao observar sua fotografia, não vejo apenas alguém que fui. Vejo também características que continuam presentes.
3.1.6 Nostalgia: os pequenos elementos que formam uma infância
A sexta produção reúne diferentes lembranças através de palavras e imagens. O título “Nostalgia” surgiu da necessidade de reunir coisas que, separadamente, parecem pequenas, mas que juntas constroem uma determinada sensação de infância.
Entre essas lembranças estão:
“Colo de mãe
catavento
piscina de plástico
suco de uva com pipoca
desenho animado na televisão de tubo
inocência
assopros em dentes-de-leão
sensação de ser príncipe.”
A lista continua com amor de mãe, amor de pai, amor de irmãos, amor de tia, festas de aniversário, bexigas coloridas, algodão doce, banho, brigas pelo controle remoto, rabiscos e outras pequenas lembranças.
Figura 6 – Nostalgia: fragmentos de uma infância
Fonte: Produção da autora, 2026.Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.Referência: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
A composição funciona como um inventário afetivo. Cada palavra ou objeto representa uma experiência.
A nostalgia, nesse trabalho, não é apenas tristeza pelo passado. Ela também é uma maneira de reconhecer aquilo que foi importante.
O catavento representa brincadeira.
A piscina representa convivência.
O suco de uva com pipoca representa sabor.
A televisão de tubo representa cotidiano.
As bexigas representam festa.
O colo representa proteção.
Os familiares representam pertencimento.
A fotografia permite transformar esses elementos em uma composição visual. O que antes existia como lembrança passa a ocupar um espaço dentro da produção.
A memória aparece, então, não como uma história completa, mas como um conjunto de fragmentos.
3.1.7 A criança diante da televisão: objetos que guardam lembranças
A sétima imagem retoma a infância por meio de uma cena cotidiana. A presença do menino, do brinquedo e da televisão de tubo cria uma relação com uma época específica da vida.
Figura 7 – Infância como memória e afeto
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.
Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.
Referência: KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
A fotografia mostra uma situação simples. Não existe um acontecimento extraordinário. Existe uma criança dentro de casa, acompanhada por um brinquedo e por uma televisão.
Entretanto, justamente por ser cotidiana, essa imagem possui força afetiva.
O brinquedo pode representar companhia e segurança. A televisão representa um período da infância. O espaço doméstico representa uma sensação de pertencimento.
O pesquisador Jorge Larrosa Bondía ajuda a pensar essa diferença entre informação e experiência. Para o autor:
“A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência.” (BONDÍA, 2002, p. 21).
A reflexão de Jorge Larrosa Bondía permite compreender que essa fotografia não foi escolhida apenas porque mostra objetos antigos. O que interessa é a experiência associada a esses objetos.
A televisão antiga, por exemplo, pode ser apenas um aparelho para quem observa de fora. Para quem viveu aquele período, ela pode representar tardes, desenhos, família e uma rotina.
A fotografia transforma o objeto em ponto de acesso à memória.
3.1.8 Morada Presente: a reunião dos fragmentos
Depois de trabalhar individualmente diferentes lembranças, tornou-se necessário reunir essas experiências em uma última composição. A oitava figura funciona como uma síntese da proposta.
Figura 8 – Morada Presente: fotografia, memória e afeto
Fonte: Produção da autora, 2026.Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.
Referência: KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
A imagem final representa a ideia de que a memória não está guardada em um único lugar. Ela aparece em fotografias, objetos, espaços, cores, palavras e relações.
A fotografia da infância, a imagem da mãe, a janela, a piscina, os objetos e os pequenos elementos cotidianos passam a fazer parte de uma mesma composição.
Essa reunião dos elementos representa a própria ideia de “Morada Presente”. Cada lembrança possui um lugar dentro da produção, mas todas estão relacionadas.
A primeira imagem fala sobre o cuidado.
A segunda fala sobre o olhar.
A terceira fala sobre a convivência.
A quarta fala sobre o amor materno.
A quinta fala sobre a transformação.
A sexta fala sobre a nostalgia.
A sétima fala sobre o cotidiano da infância.
A oitava reúne todas essas experiências.
A produção, portanto, não foi construída apenas para apresentar fotografias. Ela foi construída para criar relações entre imagem e memória.
A fotografia apresenta aquilo que pode ser visto. A memória acrescenta aquilo que não está visível. O afeto estabelece a ligação entre ambos.
É justamente essa relação que permite compreender a fotografia como uma espécie de morada.
Ela não guarda o passado de forma completa. Nenhuma fotografia consegue registrar todos os sons, cheiros, sentimentos e acontecimentos de um determinado momento.
Uma fotografia da piscina não registra as risadas.
Uma fotografia da mãe não registra todos os cuidados.
Uma fotografia da janela não registra exatamente o que a criança pensava enquanto olhava para fora.
Uma fotografia da televisão não registra tudo o que acontecia dentro daquela casa.
Entretanto, cada imagem pode despertar essas dimensões.
É aíque a memória entra.
A lembrança amplia a fotografia.
Ela acrescenta aquilo que não está presente visualmente.
Esse processo também demonstra que olhar para uma fotografia é uma experiência do presente. A imagem pertence ao passado, mas o olhar pertence ao agora.
E esse olhar mudou.
Hoje, ao observar fotografias da infância, percebo coisas que talvez não percebesse quando aquelas imagens foram feitas. Observo pessoas, objetos, espaços e detalhes que adquiriram novos significados.
A criança fotografada não sabia que aquela imagem seria observada muitos anos depois.
Mas agora ela é observada.
E, ao observá-la, reconheço uma parte de mim.
Essa relação com a própria imagem também contribui para compreender a ideia de metamorfose. O tempo transformou o corpo, os pensamentos e as experiências, mas não apagou completamente aquilo que existia.
Algumas partes permaneceram.
A curiosidade permaneceu.
O desejo de criar permaneceu.
O afeto pela família permaneceu.
As lembranças permaneceram.
A fotografia permite enxergar essas permanências.
Por isso, o trabalho não é somente sobre nostalgia. Ele também é sobre identidade.
Ao lembrar de quem fui, percebo aspectos de quem sou.
Ao observar os espaços da infância, percebo como eles contribuíram para minha formação.
Ao olhar para minha mãe, percebo como determinadas relações permanecem importantes.
Ao lembrar da piscina, percebo o valor da convivência.
Ao olhar para a janela, percebo que algumas perguntas continuam existindo.
Ao observar a criança, percebo que a transformação faz parte da minha história.
Nesse sentido, a produção artística também funciona como uma forma de autoconhecimento.
Ela me permite olhar para experiências que estavam guardadas e perceber novas relações entre elas.
A fotografia torna possível esse olhar porque cria uma distância. Aquilo que foi vivido pode ser observado novamente.
A distância temporal permite perceber detalhes que antes não eram percebidos.
É nesse espaço entre viver e lembrar que a produção artística acontece.
A imagem deixa de ser somente registro.
Ela passa a ser matéria para criação.
As palavras também deixam de ser somente descrição.
Elas passam a funcionar como extensão da imagem.
Por isso, os textos presentes na produção possuem uma linguagem poética. Eles não pretendem explicar completamente as fotografias. Eles procuram abrir caminhos para aquilo que elas podem significar.
“O gosto da infância” não explica somente um ralado.
“Lilás” não fala somente de uma cor.
“Metamorfose” não fala somente de massinhas de modelar.
“Nostalgia” não é somente uma lista de objetos.
Cada produção carrega uma experiência maior.
Essa experiência está relacionada ao afeto.
O afeto é o que transforma um objeto comum em algo significativo.
Uma piscina de plástico pode ser comum para muitas pessoas, mas pode representar uma parte importante da infância para alguém.
Uma televisão antiga pode ser apenas um aparelho, mas pode representar uma época inteira para quem cresceu diante dela.
Uma janela pode ser somente uma abertura na parede, mas pode representar o primeiro olhar para o mundo.
Uma cor pode ser apenas uma cor, mas pode carregar o nome de uma pessoa.
Essa transformação dos objetos em memória está presente no trabalho inteiro.
Pierre Nora (1993) mostra que a memória se relaciona justamente com elementos concretos, como espaços, imagens e objetos. Essa compreensão permite pensar os elementos utilizados na produção não como simples decoração, mas como partes importantes da construção da memória.
Cada elemento possui uma função.
Cada fotografia possui uma lembrança.
Cada lembrança possui um afeto.
E todos eles juntos formam a “Morada Presente”.
A ideia de morada também pode ser compreendida como um espaço de permanência. As fotografias não impedem que o tempo passe, mas oferecem uma maneira de reencontrar aquilo que passou.
A infância não volta.
As pessoas mudam.
Os espaços se transformam.
Os objetos envelhecem.
Mas a lembrança pode permanecer.
A fotografia funciona como uma ponte.
Ela liga aquilo que foi registrado ao olhar de quem observa.
Essa ponte não é fixa. Cada vez que a fotografia é observada, uma nova relação pode surgir.
Uma mesma imagem pode significar uma coisa hoje e outra daqui a alguns anos.
Isso acontece porque nós também mudamos.
A memória acompanha essas mudanças.
E a fotografia permanece aberta a novos significados.
A produção de “Morada Presente” parte justamente dessa possibilidade.
Não quero apresentar uma infância perfeita ou idealizada.
Quero apresentar fragmentos.
Fragmentos de cuidado.
Fragmentos de brincadeiras.
Fragmentos de família.
Fragmentos de espaços.
Fragmentos de objetos.
Fragmentos de sentimentos.
Esses fragmentos não formam uma história completa, mas formam uma experiência.
A infância aparece como um conjunto de pequenas coisas que, juntas, produzem uma sensação.
É por isso que o texto “Nostalgia” possui uma estrutura de lista. A memória também funciona assim. Ela não necessariamente chega como uma narrativa pronta. Às vezes, chega como uma palavra.
“Colo.”
“Piscina.”
“Catavento.”
“Pipoca.”
“Televisão.”
“Família.”
“Amor.”
Cada palavra abre uma possibilidade de lembrança.
A fotografia faz algo semelhante.
Uma imagem abre uma porta.
E, quando essa porta se abre, outras coisas podem aparecer.
Essa é a razão pela qual considero as fotografias desta produção como moradas.
Elas guardam.
Elas despertam.
Elas aproximam.
Elas fazem lembrar.
Mas também fazem pensar.
Pensar sobre quem fomos.
Pensar sobre quem nos tornamos.
Pensar sobre aquilo que permanece.
Pensar sobre aquilo que mudou.
A produção também apresenta uma relação com a ausência. Aquilo que está na fotografia está presente visualmente, mas pode estar ausente fisicamente.
A criança cresceu.
O momento passou.
O verão terminou.
O espaço mudou.
A rotina desapareceu.
Mesmo assim, a imagem continua.
Essa presença da ausência é uma das características que tornam a fotografia tão relacionada à memória.
Ela mostra algo que esteve diante da câmera, mas que já não existe exatamente daquela maneira.
O registro permanece como vestígio.
Boris Kossoy (2001) contribui para essa compreensão ao pensar a fotografia como uma forma de relação com o passado e com os vínculos afetivos que permanecem depois do instante registrado.
A fotografia, então, não é somente passado.
Ela é passado observado no presente.
É justamente nesse ponto que o título do trabalho ganha força.
“Morada Presente” representa aquilo que continua habitando o agora.
As lembranças da infância não estão somente atrás de mim.
Elas participam daquilo que sou.
A relação com minha mãe participa daquilo que sou.
As experiências familiares participam daquilo que sou.
Os espaços participam daquilo que sou.
Os objetos participam daquilo que sou.
E as fotografias ajudam a tornar essas relações visíveis.
Por isso, as oito figuras desta produção não devem ser vistas como imagens isoladas.
Elas formam um percurso.
Um percurso que começa no cuidado, passa pelo olhar, pela convivência, pelo amor, pela transformação, pela nostalgia e pelo cotidiano, até chegar à ideia de morada.
A última imagem reúne esses elementos justamente para mostrar que todas essas lembranças pertencem a uma mesma história.
A minha história.
Mas, ao mesmo tempo, a produção não pretende impedir outras interpretações.
Quem observa pode encontrar suas próprias lembranças.
Pode lembrar da própria mãe.
Da própria infância.
De uma janela.
De uma piscina.
De um brinquedo.
De uma televisão antiga.
De uma cor.
De uma casa.
De alguém que fez parte de sua vida.
Essa possibilidade de identificação amplia o trabalho.
A memória deixa de ser somente individual e encontra espaço na experiência de quem observa.
A produção artística passa, então, a funcionar como um convite à lembrança.
Não uma lembrança obrigatória, mas uma possibilidade.
Uma fotografia pode provocar uma memória.
Uma memória pode provocar um sentimento.
Um sentimento pode provocar outra imagem.
E assim a experiência continua.
Ao finalizar essa etapa, percebo que “Morada Presente” não representauma tentativa de voltar ao passado.
Representa uma tentativa de olhar para o passado com os olhos do presente.
É uma forma de reconhecer a criança que fui, as pessoas que fizeram parte da minha infância, os espaços que me acolheram e os pequenos acontecimentos que continuam tendo significado.
A fotografia é o meio que possibilita esse reencontro.
A memória é aquilo que dá continuidade.
O afeto é aquilo que dá sentido.
E a arte é o espaço onde esses elementos podem se encontrar.
Dessa forma, as oito figuras apresentadas nesta seção constituem fragmentos de uma mesma morada. Uma morada construída não com paredes, mas com imagens, palavras, objetos, cores e sentimentos.
Uma morada onde o passado não está completamente distante.
Uma morada que existe no presente.
Uma morada que continua sendo transformada sempre que uma fotografia é observada e uma lembrança é despertada.
É nesse sentido que compreendo a produção “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”.
Não como uma tentativa de conservar tudo.
Mas como uma tentativa de conservar aquilo que importa.
Não como uma tentativa de impedir o tempo.
Mas como uma forma de reconhecer o que permaneceu apesar dele.
Não como uma tentativa de voltar a ser criança.
Mas como uma forma de perceber que aquela criança continua fazendo parte de quem sou.
A fotografia torna possível esse encontro.
A memória reconstrói o caminho.
O afeto mantém a ligação.
E a produção artística transforma tudo isso em imagem.
4. RESULTADOS E REFLEXÕES SOBRE A PRODUÇÃO ARTÍSTICA
4.1 A FOTOGRAFIA COMO ESPAÇO DE MEMÓRIA, AFETO E RECONSTRUÇÃO
A construção de Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto possibilitou compreender a fotografia para além de sua função de registrar momentos. Ao longo da produção artística, as imagens passaram a ser entendidas como formas de revisitar experiências, objetos, espaços e sentimentos que permanecem presentes mesmo depois que o tempo transforma as pessoas e os lugares. Nesse processo, fotografar não significou apenas produzir uma imagem, mas criar uma possibilidade de retorno simbólico às experiências que fazem parte da trajetória do sujeito.
A escolha das imagens relacionadas à infância, à família, à casa, aos brinquedos, à televisão antiga, à piscina de plástico, à janela e a outros elementos cotidianos foi realizada justamente porque esses objetos aparentemente simples carregam significados afetivos. Cada elemento escolhido funciona como uma espécie de ponto de acesso às lembranças. A fotografia, nesse sentido, permite que aquilo que poderia permanecer apenas na memória encontre uma forma visual de existência.
A pesquisadora Ecléa Bosi contribui para essa compreensão ao apresentar a memória como uma construção relacionada ao tempo vivido. Para Bosi (1994), recordar não significa simplesmente retornar ao passado exatamente como ele aconteceu. A lembrança é reconstruída a partir do presente, trazendo consigo novos sentidos e sentimentos. Dessa maneira, ao olhar novamente para uma experiência da infância, o indivíduo não encontra apenas aquilo que viveu, mas também aquilo que se tornou ao longo dos anos.
“Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado.” (BOSI, 1994, p. 55).
Essa perspectiva esteve presente durante a realização do trabalho. As lembranças utilizadas na produção não foram apresentadas como uma tentativa de reconstruir literalmente o passado, mas como uma maneira de observar o passado a partir do presente. O menino que aparece nas imagens, os objetos infantis e os espaços representados não funcionam somente como elementos de uma infância distante. Eles também representam aquilo que permanece no sujeito adulto, como sentimentos, valores, vínculos e experiências que continuam influenciando sua maneira de perceber o mundo.
A fotografia também estabelece uma relação importante com a ausência. Quando um momento é fotografado, ele deixa de existir como experiência presente, mas permanece como imagem. É justamente essa característica que torna a fotografia tão significativa para uma produção voltada à memória. A imagem permite observar novamente aquilo que já passou, mesmo sabendo que aquele instante não poderá ser repetido.
O pesquisador Boris Kossoy explica essa relação ao discutir a permanência da fotografia diante da passagem do tempo. Para ele, a fotografia possui uma dimensão documental, mas também afetiva, pois pode preservar vínculos e lembranças relacionados àquilo que foi fotografado. Assim, uma fotografia de infância pode representar muito mais do que a aparência de uma criança em determinado momento. Ela pode carregar relações familiares, sentimentos, lugares e acontecimentos que não estão necessariamente visíveis na imagem.
Essa característica pode ser percebida na composição apresentada na Figura 9.
Figura 9 – Morada Presente: a permanência das memórias no presente
Autoria: Wellesonn Ferreira da Silva Galo, 2026.
Fonte: Produção do autor, 2026.
Referência: KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
A presença dos objetos na composição também possui uma função importante. A fotografia de uma televisão de tubo, por exemplo, não representa somente um aparelho antigo. Para quem viveu determinada época, esse objeto pode despertar lembranças de momentos familiares, desenhos assistidos na infância, tardes em casa e situações que dificilmente seriam recuperadas apenas por meio de uma descrição escrita. O mesmo acontece com brinquedos, fotografias antigas, móveis, roupas, cores e outros objetos cotidianos.
Pierre Nora contribui para essa reflexão ao afirmar que a memória está relacionada a elementos concretos que ajudam a sustentar as lembranças. Nesse sentido, a memória não está separada dos espaços e dos objetos que fizeram parte da experiência. Ela encontra nesses elementos formas de permanecer e de ser retomada.
“A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto.” (NORA, 1993, p. 9).
Essa compreensão aproxima-se diretamente da proposta de Morada Presente. O próprio título do trabalho parte da ideia de que determinadas lembranças continuam encontrando espaço no presente. A “morada” não é compreendida apenas como uma casa física, mas como um espaço simbólico construído pelas experiências vividas. É nesse espaço que permanecem as lembranças de pessoas, lugares, objetos, brincadeiras, afetos e acontecimentos.
A produção artística também permitiu perceber que a memória não é formada apenas por grandes acontecimentos. Muitas vezes, são as pequenas situações do cotidiano que permanecem de maneira mais intensa. O gosto de um alimento, uma brincadeira, uma fala da mãe, uma televisão antiga, uma fotografia guardada, uma janela ou uma piscina de plástico podem adquirir grande importância quando associados às experiências pessoais.
Nesse aspecto, a nostalgia aparece como uma dimensão importante da produção. Ela não representa somente tristeza pelo que passou. A nostalgia também pode ser compreendida como uma forma de reconhecer a importância de determinadas experiências. Ao retornar visualmente a esses fragmentos, o sujeito percebe que algumas coisas mudaram, enquanto outras permanecem presentes em sua maneira de sentir e lembrar.
A imagem do menino com o urso de pelúcia diante da televisão de tubo, por exemplo, reúne elementos simples que podem parecer comuns quando observados separadamente. Entretanto, quando colocados dentro da proposta da obra, esses elementos passam a representar uma infância marcada pelo aconchego, pela imaginação e pela sensação de segurança. O urso deixa de ser apenas um brinquedo, assim como a televisão deixa de ser apenas um aparelho. Ambos passam a funcionar como símbolos de uma experiência vivida.
O mesmo acontece com a imagem da janela. A janela representa simultaneamente o espaço protegido da infância e a possibilidade de olhar para o mundo. A criança que observa o lado de fora não está apenas olhando uma paisagem. A cena pode ser interpretada como uma representação da curiosidade,da descoberta e do desejo de conhecer aquilo que existe além do espaço familiar.
Já a piscina de plástico representa uma memória compartilhada. A presença de outras crianças permite relacionar a fotografia à convivência, às brincadeiras e aos vínculos familiares. Nesse caso, a memória deixa de ser exclusivamente individual e passa a envolver outras pessoas que participaram daquela experiência.
A produção também evidencia a importância da cor e dos elementos visuais na construção da memória. A escolha do lilás, por exemplo, não acontece apenas por uma preferência estética. Dentro da narrativa construída, essa cor está associada ao afeto materno e à figura da mãe. Dessa forma, a cor passa a funcionar como um elemento capaz de representar uma relação afetiva.
Esse processo demonstra que a fotografia pode ser utilizada como uma linguagem capaz de reunir diferentes dimensões da experiência humana. Ela pode apresentar uma pessoa, mas também pode sugerir sua ausência. Pode mostrar um objeto, mas também despertar uma lembrança. Pode registrar um espaço, mas também revelar os sentimentos relacionados a ele.
A partir da produção realizada, percebe-se ainda que memória e fotografia não funcionam de maneira isolada. A fotografia provoca lembranças, enquanto as lembranças também orientam a maneira como determinadas imagens são construídas. Existe, portanto, uma relação de troca entre aquilo que se recorda e aquilo que se escolhe fotografar.
Nesse sentido, o trabalho não buscou apresentar uma infância idealizada ou perfeitamente organizada. Pelo contrário, a presença de diferentes objetos, cores, situações e fragmentos evidencia que a memória é formada por partes. Algumas lembranças são alegres, outras são acompanhadas de saudade, algumas provocam afeto e outras podem trazer uma sensação de ausência. Todas, porém, fazem parte da construção da identidade.
O conceito de “Morada Presente” surge justamente dessa percepção. As lembranças não permanecem apenas em fotografias antigas ou em objetos guardados. Elas continuam presentes na forma como o indivíduo percebe sua história e atribui significado às experiências. A fotografia torna visível essa permanência.
Ao finalizar a produção, foi possível perceber que fotografar a memória também é uma maneira de refletir sobre o próprio presente. Ao revisitar a infância, não se encontra apenas a criança que existiu, mas também o adulto que olha para ela atualmente. Por isso, cada imagem produzida carrega duas temporalidades: aquilo que foi vivido e aquilo que é compreendido hoje.
Dessa maneira, os resultados da produção artística mostram que a fotografia pode atuar como uma espécie de morada simbólica das lembranças. Ela possibilita reunir passado e presente em uma mesma composição, aproximando aquilo que já aconteceu daquilo que ainda permanece. Os objetos, espaços, cores e pessoas escolhidos ao longo do trabalho passam, assim, a construir uma narrativa visual sobre memória e afeto.
Ao final, Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto apresenta a fotografia não apenas como registro, mas como possibilidade de encontro com a própria história. As imagens construídas revelam que lembrar também é selecionar, reconstruir e atribuir novos significados às experiências. Nesse processo, o passado não permanece completamente distante, pois encontra no presente um espaço para continuar existindo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização deste trabalho, intitulado Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto, possibilitou compreender a fotografia como uma linguagem capaz de ultrapassar o simples registro de acontecimentos. Ao longo da pesquisa e da produção artística, foi possível perceber que uma imagem pode guardar sentimentos, relações, espaços e experiências que continuam fazendo parte da vida mesmo depois que o tempo passa. Dessa forma, fotografar tornou-se também uma maneira de olhar para o passado e compreender como determinadas lembranças permanecem presentes.
A construção das imagens permitiu revisitar diferentes momentos relacionados à infância e às relações familiares. A janela, a piscina de plástico, os brinquedos, a televisão de tubo, o urso de pelúcia, as fotografias, os objetos e as cores utilizadas na produção não foram escolhidos apenas por sua aparência. Cada elemento foi pensado como uma possibilidade de despertar lembranças e representar sentimentos. Assim, aquilo que poderia parecer simples ou cotidiano passou a adquirir um significado maior dentro da narrativa construída.
A pesquisadora Ecléa Bosi foi fundamental para compreender esse processo, principalmente ao tratar a memória como algo que se relaciona com o tempo vivido e com a maneira como o sujeito interpreta suas experiências no presente. Ao revisitar as lembranças da infância, percebeu-se que recordar não significa retornar exatamente ao momento vivido, mas reconstruí-lo a partir do olhar atual. Por isso, as imagens produzidas não procuram reproduzir o passado de maneira literal, mas apresentar a forma como essas experiências são lembradas e sentidas atualmente.
Nesse processo, a fotografia também se mostrou relacionada àquilo que permanece quando o momento já passou. O pesquisador Boris Kossoy contribui para essa compreensão ao destacar a dimensão documental e afetiva da fotografia. Uma imagem pode preservar algo de uma experiência mesmo quando as pessoas, os lugares e as circunstâncias que deram origem àquela fotografia já se transformaram.
A partir dessa perspectiva, as fotografias produzidas neste trabalho podem ser compreendidas como fragmentos de uma história pessoal. Elas não representam uma memória completa, pois a memória também é formada por aquilo que não pode ser fotografado: os cheiros, os sons, os sentimentos, as palavras, os abraços e as sensações. Entretanto, a imagem pode funcionar como um ponto de partida para que esses elementos sejam novamente lembrados.
Pierre Nora também contribui para essa reflexão ao relacionar a memória aos espaços, objetos e imagens. Sua compreensão de que a memória se encontra ligada ao concreto ajuda a entender por que determinados lugares e objetos possuem tanta força afetiva. Uma janela pode lembrar uma fase da vida, uma televisão antiga pode remeter às tardes de infância, enquanto um brinquedo pode representar uma sensação de proteção e companhia.
Nesse sentido, o conceito de “morada” presente no título do trabalho ganhou um significado simbólico. A morada não é somente o espaço físico onde as experiências aconteceram. Ela também representa o lugar construído dentro da memória, onde permanecem pessoas, objetos, sentimentos e acontecimentos importantes. É uma morada que não depende de paredes, pois pode ser acessada por meio de uma fotografia, de uma lembrança ou até mesmo de um pequeno objeto guardado.
A produção artística também mostrou que a memória não é formada somente por grandes acontecimentos. Muitas vezes, são justamente os pequenos momentos que permanecem de maneira mais significativa. Uma brincadeira na piscina, o tempo diante da televisão, uma tarde em casa, o colo de alguém querido ou a observação do mundo através de uma janela podem se transformar em referências importantes para a construção da identidade.
A nostalgia, presente em diferentes momentos da produção, também foi compreendida para além da ideia de saudade. Ela aparece como uma forma de reconhecer aquilo que foi importante. Ao olhar para a infância, existe a consciência de que aquele período não pode voltar da mesma maneira, mas também existe a possibilidade de reconhecer que parte daquela experiência continua presente. A criança lembrada não desaparece completamente, pois permanece nas histórias, nos afetos e nas formas de perceber a própria trajetória.
Outro aspecto importante foi compreender que a fotografia pode aproximar passado e presente. Ao construir as imagens, o passado foi observado a partir de uma perspectiva atual. Isso significa que o trabalho não buscou simplesmente recuperar uma infância distante, mas refletir sobre o que essas lembranças significam hoje. O olhar presente transformaa maneira de compreender aquilo que foi vivido.
Jorge Larrosa Bondía também contribui para pensar essa relação ao diferenciar informação e experiência. Sua reflexão permite perceber que lembrar não depende apenas de possuir informações sobre o passado. A experiência envolve aquilo que nos atravessa e produz algum significado. Nesse trabalho, as fotografias não foram utilizadas apenas para informar sobre uma infância, mas para expressar experiências que possuem valor afetivo.
Ao finalizar a produção, tornou-se possível perceber que Morada Presente é, sobretudo, uma tentativa de transformar lembranças em linguagem visual. As fotografias, os objetos, as cores e as composições construídas formam uma narrativa que não pretende contar toda uma história, mas apresentar alguns de seus fragmentos. Esses fragmentos são suficientes para revelar que a memória é construída por detalhes e que o afeto pode permanecer mesmo quando o tempo modifica aquilo que existia.
Portanto, o trabalho alcançou sua proposta ao aproximar fotografia, memória e afeto por meio de uma produção artística baseada em experiências e lembranças. A fotografia mostrou-se não apenas como um meio de registrar aquilo que passou, mas como uma possibilidade de reconstruir sentidos no presente. As imagens produzidas funcionaram como espaços simbólicos de encontro entre aquilo que foi vivido e aquilo que permanece.
Assim, Morada Presente conclui que algumas memórias não precisam ser preservadas exatamente como aconteceram para continuarem existindo. Elas podem ser reconstruídas, reinterpretadas e transformadas em imagens. O que permanece não é somente a fotografia, mas aquilo que ela é capaz de despertar. Nesse sentido, fotografar é também guardar, lembrar e dar um novo lugar às experiências que continuam fazendo parte de quem somos.
REFERÊNCIAS
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, 2002. DOI: 10.1590/S1413-24782002000100003. 
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. A edição de 1994 é registrada pela Universidade de São Paulo e pela Companhia das Letras. 
KOSSOY, Boris. Fotografia & História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. A obra trata da fotografia como fonte documental e de sua relação com a memória. 
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993. Tradução de Yara Aun Khoury. 
image4.png
image5.png
image6.png
image7.png
image8.png
image9.png
image10.png
image11.png
image12.png
image1.png
image2.png
image3.pngno cheiro de uma casa, nas festas, nas risadas, nas pessoas da família e em tantos outros detalhes que formam aquilo que pode ser chamado de memória afetiva. São experiências que podem parecer comuns quando acontecem, mas que posteriormente podem se tornar algumas das lembranças mais significativas de uma vida.
A fotografia torna-se, então, uma maneira de revisitar essas experiências. Ao olhar para uma imagem antiga, não encontramos apenas aquilo que a câmera registrou. Encontramos também a nós mesmos em outro momento da vida. O olhar atual encontra a pessoa que fomos, os lugares que habitamos e as relações que construímos. Nesse encontro, a fotografia deixa de ser somente um registro do passado e passa a participar de uma experiência presente.
É nesse sentido que a palavra “morada” ganha importância no desenvolvimento desta pesquisa. A memória pode ser compreendida como um espaço simbólico onde determinadas experiências continuam existindo. Não se trata de permanecer preso ao passado, mas de reconhecer que algumas pessoas, lugares, objetos e sentimentos continuam fazendo parte da nossa trajetória. A fotografia possibilita acessar essa morada e estabelecer novamente uma relação com aquilo que permanece.
A memória também está relacionada à maneira como cada pessoa vivencia o tempo. As lembranças não permanecem necessariamente com o mesmo significado ao longo da vida, pois novas experiências podem modificar a maneira como olhamos para aquilo que já vivemos. Nesse sentido, recordar também envolve interpretar o passado a partir do presente. A memória está relacionada ao tempo vivido e às experiências que possuem significado para cada indivíduo (BOSI, 2022, p. 53).
Essa compreensão é importante para esta pesquisa porque uma fotografia da infância pode adquirir novos sentidos muitos anos depois de ter sido produzida. Uma situação que naquele momento parecia comum pode passar a representar um período importante da vida. A imagem permanece, mas a pessoa que a observa mudou. Por isso, revisitar fotografias também significa revisitar a própria história a partir de um novo olhar.
Nesse processo, a nostalgia ocupa um espaço importante. Ela não será compreendida somente como desejo de voltar para um tempo que passou, mas como uma possibilidade de reconhecer afetos e experiências que continuam presentes. Uma fotografia pode provocar saudade de uma pessoa, de uma casa, de uma fase da vida ou até mesmo de uma sensação que já não conseguimos experimentar da mesma maneira.
A memória também se relaciona aos espaços, aos objetos e às imagens que ajudam a manter determinadas experiências presentes. Nesse sentido, os registros fotográficos podem assumir uma importância afetiva ao preservar fragmentos de histórias individuais e familiares. A memória encontra apoio em elementos concretos, como lugares, gestos, imagens e objetos, que podem contribuir para a permanência das lembranças (NORA, 1993, p. 9).
A pesquisa pretende, portanto, aproximar fotografia, memória e afeto por meio de uma produção artística que parte de experiências pessoais e de lembranças relacionadas à infância e à família. Fotografias, textos e diferentes elementos visuais serão utilizados para construir uma narrativa sobre aquilo que permanece, aquilo que foi transformado pelo tempo e aquilo que ainda pode ser reencontrado por meio da memória.
No primeiro capítulo, será desenvolvida uma reflexão sobre fotografia, memória e tempo vivido, buscando compreender a relação entre a imagem fotográfica e as lembranças que ela pode despertar. Serão utilizados autores como Boris Kossoy, Ecléa Bosi e Pierre Nora para discutir fotografia, memória, tempo, história, espaços e os elementos que contribuem para a permanência das lembranças. A discussão também abordará a experiência e a maneira como o presente interfere na percepção do passado.
No segundo capítulo, a pesquisa se aproxima mais diretamente da relação entre fotografia, família, infância, afeto e nostalgia, observando como os registros familiares, os objetos e os espaços podem funcionar como elementos de preservação e reconstrução das memórias. Nesse momento, as lembranças pessoais ganham maior espaço, estabelecendo uma ligação entre os conceitos discutidos anteriormente e as experiências que dão origem à produção artística.
O terceiro capítulo será dedicado à produção artística de “Morada Presente”. Nele serão apresentados os processos de criação, as fotografias produzidas e selecionadas, os textos e as escolhas visuais que fazem parte do trabalho. As lembranças da infância, da família e dos espaços vividos serão transformadas em elementos da produção, buscando construir uma narrativa visual e afetiva sobre aquilo que permanece.
Assim, “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto” procura compreender a fotografia não apenas como registro de um tempo que passou, mas como uma possibilidade de fazer esse tempo dialogar com o presente. A pesquisa parte de lembranças pessoais para refletir sobre experiências que, embora particulares, podem encontrar significado em outras histórias. Entre fotografias, palavras, afetos e memórias, o trabalho busca construir uma morada para aquilo que o tempo transforma, mas não consegue apagar completamente.
2. FOTOGRAFIA, MEMÓRIA E AFETO: IMAGENS QUE PERMANECEM
A fotografia está presente de diferentes maneiras na construção das memórias individuais e familiares. Uma imagem pode registrar um instante específico, mas sua importância não termina no momento em que é produzida. Com o passar do tempo, aquela mesma fotografia pode adquirir novos sentidos, principalmente quando passa a ser observada por alguém que possui uma relação afetiva com o que está representado. Um rosto, uma casa, uma criança, um objeto ou uma situação cotidiana podem funcionar como caminhos para lembranças que ultrapassam aquilo que aparece diretamente na imagem.
Em “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”, a fotografia é compreendida a partir dessa possibilidade de aproximação entre diferentes tempos. O trabalho não parte da fotografia somente como uma técnica de registro, mas como uma forma de acessar experiências que permanecem relacionadas à memória. As imagens utilizadas como referência para esta pesquisa estão ligadas principalmente à infância, à família, aos espaços de convivência e às pequenas situações do cotidiano que, embora possam parecer simples, carregam significados afetivos.
A escolha da fotografia como elemento central também está relacionada à sua capacidade de conservar visualmente aquilo que sofreu as transformações do tempo. Pessoas mudam, crianças crescem, casas são modificadas, objetos deixam de ser utilizados e determinadas situações não podem ser vividas novamente da mesma maneira. A fotografia permanece como um fragmento daquele momento e permite que ele seja revisitado posteriormente. Entretanto, aquilo que retorna não é necessariamente o acontecimento exatamente como ocorreu, mas uma experiência reconstruída pelo olhar presente.
Essa característica torna a fotografia especialmente importante quando relacionada à memória. Ao observar uma imagem antiga, não vemos somente uma representação de algo que aconteceu. Também podemos reconhecer elementos que despertam lembranças que não estão registradas visualmente. Uma fotografia de uma criança brincando pode fazer surgir a lembrança da casa onde aquela brincadeira aconteceu, das pessoas que estavam presentes, dos sons daquele ambiente ou da sensação de segurança associada àquele período. A imagem torna-se, assim, uma porta para outras dimensões da memória.
Boris Kossoy é um dos autores fundamentais para esta discussão porque sua reflexão sobre a fotografia considera a imagem como documento e como construção que precisa ser interpretada. Em sua abordagem, a fotografia está relacionada ao momento histórico e cultural em que foi produzida, ao assunto registrado, ao fotógrafo, à tecnologia empregada, ao espaço e ao tempo. Dessa maneira, compreender uma fotografia exige observar não somente sua aparência, mas também as circunstânciasque estão relacionadas à sua produção e aos sentidos que ela pode adquirir posteriormente (KOSSOY, 2001).
Essa perspectiva contribui diretamente para a proposta de “Morada Presente”, pois as fotografias escolhidas para o trabalho não são compreendidas como imagens isoladas. Cada uma delas está relacionada a uma experiência, a uma história e a uma relação afetiva. Uma fotografia familiar, por exemplo, pode apresentar pessoas reunidas em determinado momento, mas também pode carregar informações sobre uma época, uma forma de convivência, um espaço doméstico e os vínculos estabelecidos entre aqueles que aparecem na imagem.
A fotografia também possui uma dimensão relacionada àquilo que não está visível. O enquadramento seleciona uma parte da realidade e deixa outras partes fora da imagem. Por isso, aquilo que vemos em uma fotografia nunca corresponde à totalidade da experiência vivida. Existe sempre algo que permanece fora do enquadramento, mas que pode continuar presente na memória de quem viveu aquele momento. Essa diferença entre a imagem e a experiência é importante para esta pesquisa, porque permite compreender a fotografia como um fragmento capaz de despertar uma história maior.
Nesse sentido, a fotografia pode ser percebida como uma espécie de ponto de encontro entre o visível e o lembrado. Ela apresenta uma cena, mas pode provocar diferentes caminhos de interpretação. O que uma pessoa reconhece em determinada imagem pode ser completamente diferente do que outra pessoa percebe. Para quem não possui relação com aquela fotografia, ela pode representar apenas uma cena. Para quem viveu aquele momento, porém, a imagem pode carregar uma história inteira.
Essa dimensão afetiva aparece de maneira especial nas fotografias familiares. Durante diferentes períodos, os álbuns foram utilizados para reunir registros de aniversários, viagens, encontros, crianças, casamentos, reuniões e outros acontecimentos considerados importantes para a família. Esses conjuntos de imagens podem ser compreendidos como narrativas visuais, pois organizam fragmentos de uma história e permitem que diferentes momentos sejam revisitados.
Entretanto, a importância de um álbum não está somente na quantidade de fotografias que ele reúne. Algumas imagens permanecem importantes porque estão relacionadas a experiências que possuem um significado particular. Uma fotografia pode estar tecnicamente imperfeita, apresentar pouca qualidade ou registrar uma situação aparentemente comum e, ainda assim, possuir enorme valor afetivo. O que determina sua importância não é somente aquilo que está diante da câmera, mas a relação entre a imagem e a memória de quem a guarda.
É nesse ponto que a memória passa a ser compreendida como algo que não permanece completamente imóvel. O significado de uma lembrança pode se transformar conforme a pessoa vive novas experiências. Uma fotografia observada durante a infância pode ser percebida de uma maneira completamente diferente na vida adulta. O momento registrado continua sendo o mesmo, mas aquele que observa a fotografia já não é a mesma pessoa.
Ecléa Bosi contribui para essa compreensão ao relacionar memória e tempo vivido. A autora destaca que a memória não pode ser separada da experiência concreta de cada indivíduo e das condições culturais em que essa experiência acontece. Dessa forma, lembrar não significa simplesmente recuperar uma informação armazenada, mas estabelecer uma relação com aquilo que foi vivido e que continua produzindo significado no presente (BOSI, 2022, p. 53).
Essa compreensão é particularmente importante para “Morada Presente”, pois as fotografias relacionadas à infância não são utilizadas apenas para reconstruir acontecimentos antigos. Elas são utilizadas para perceber como essas experiências permanecem na pessoa que existe hoje. A fotografia da criança não mostra apenas quem fomos, mas também pode provocar perguntas sobre quem nos tornamos, sobre as pessoas que participaram da nossa formação e sobre aquilo que permaneceu ao longo do caminho.
A infância, portanto, ocupa um espaço significativo nesta pesquisa. As lembranças escolhidas estão relacionadas a experiências simples, como o colo de mãe, as brincadeiras, a piscina de plástico, o desenho animado na televisão de tubo, as festas, as risadas, os momentos com irmãos e primos e outros acontecimentos que fazem parte da vida cotidiana. Essas experiências não são importantes por serem extraordinárias, mas porque carregam afetos que permanecem.
O colo de mãe, por exemplo, pode ser lembrado não apenas como uma situação física, mas como uma sensação de proteção. A piscina de plástico pode representar mais do que uma brincadeira: pode trazer a lembrança do verão, dos irmãos, dos primos e das risadas. O desenho na televisão de tubo pode estar associado à rotina da casa e à sensação de estar protegido naquele espaço. São elementos que, quando reunidos pela memória, constroem uma experiência muito maior do que cada objeto isoladamente.
Nesse sentido, a fotografia pode funcionar como uma chave para acessar essas experiências. Ela não contém necessariamente toda a lembrança, mas pode despertar caminhos que levam até ela. Ao observar uma fotografia antiga, é possível lembrar de detalhes que não estão registrados na imagem. É justamente essa capacidade de provocar outras lembranças que torna a fotografia tão importante para a proposta artística.
Pierre Nora contribui para pensar essa relação entre memória e elementos concretos. Ao discutir os lugares de memória, o autor destaca a relação da memória com o espaço, o gesto, a imagem e o objeto. Essa compreensão permite aproximar a fotografia da ideia de preservação de experiências, já que a imagem pode funcionar como um elemento concreto ao qual a lembrança permanece associada (NORA, 1993, p. 9).
A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem; que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo (NORA, 1993, p. 9).
A reflexão de Nora encontra uma relação direta com a proposta deste trabalho porque a fotografia é justamente um desses elementos concretos que podem permanecer ligados a uma lembrança. Uma imagem pode guardar visualmente uma pessoa, um espaço ou um acontecimento, mas também pode servir como ponto de partida para acessar aquilo que não aparece nela. A fotografia passa a funcionar como uma espécie de lugar simbólico no qual uma experiência pode ser reencontrada.
Essa ideia também ajuda a compreender o título “Morada Presente”. A palavra morada não está sendo utilizada apenas para representar uma casa física. Ela se relaciona à ideia de um espaço afetivo onde determinadas lembranças continuam existindo. Uma casa da infância pode desaparecer ou mudar completamente, mas a experiência vivida naquele espaço pode continuar presente. Uma fotografia dessa casa pode permitir que ela seja novamente visitada pela memória.
Assim, a fotografia não impede a passagem do tempo, mas permite estabelecer uma relação com aquilo que o tempo transformou. O passado não retorna exatamente como aconteceu, mas pode ser percebido de outra maneira. O olhar atual encontra o fragmento antigo e atribui novos significados a ele. Essa relação entre passado e presente é uma das questões centrais da produção artística proposta nesta pesquisa.
Outro aspecto importante está relacionado às transformações na maneira de produzir e guardar fotografias. Atualmente, registrar uma situação tornou-se muito simples. Os celulares permitem produzir uma grande quantidade de imagens diariamente, muitas vezes sem que exista uma reflexão mais profunda sobre o momento fotografado. A fotografia passou a fazer partede praticamente todas as situações do cotidiano, desde encontros familiares até acontecimentos aparentemente banais.
Esse excesso de registros cria uma questão importante para “Morada Presente”: produzir muitas fotografias significa necessariamente produzir muitas memórias? A quantidade de imagens disponíveis não garante que todas elas tenham significado. Muitas fotografias permanecem armazenadas e nunca mais são observadas. Outras, porém, podem adquirir importância justamente porque estão ligadas a uma experiência que marcou profundamente quem as guarda.
É nesse ponto que a discussão de Jorge Larrosa Bondía sobre experiência se torna relevante. O autor diferencia experiência de informação e questiona uma sociedade marcada pelo excesso de informações e pela velocidade com que os acontecimentos são consumidos. Para Bondía, a experiência está relacionada àquilo que nos acontece e nos transforma, e não simplesmente à quantidade de informações que conseguimos acumular (BONDÍA, 2002, p. 20-28). 
A relação com a fotografia pode ser pensada a partir dessa diferença. É possível produzir centenas de imagens de um determinado período da vida e, ainda assim, poucas delas permanecerem realmente significativas. Uma fotografia torna-se importante quando está relacionada a algo que nos aconteceu, que nos atravessou e que continua produzindo algum tipo de sentido. Dessa maneira, o valor de uma imagem não depende somente do fato de ela registrar um acontecimento, mas da experiência que continua ligada a ela.
A nostalgia surge justamente nesse espaço entre a fotografia e a experiência. Ao reencontrar uma imagem antiga, podemos sentir saudade não apenas daquilo que aconteceu, mas da maneira como nos sentíamos naquele período. Pode existir saudade de uma casa, de uma pessoa, de uma rotina, de uma relação familiar ou até mesmo de uma versão de nós mesmos que já não existe da mesma maneira.
Por isso, a nostalgia presente em “Morada Presente” não será tratada somente como uma vontade de voltar ao passado. Ela aparece como uma possibilidade de olhar novamente para experiências que participaram da construção de uma história pessoal. A fotografia permite esse retorno, mas não como uma tentativa de recuperar exatamente aquilo que passou. O retorno acontece por meio do olhar atual, que reconhece, questiona e ressignifica.
Essa relação pode ser observada também na maneira como determinadas cores, objetos e pequenos detalhes despertam lembranças. Uma cor pode lembrar uma pessoa. Um objeto pode remeter a uma casa. Uma fotografia pode trazer de volta uma voz. Um espaço pode fazer surgir uma sensação. A memória não funciona de maneira isolada, mas por meio de associações entre diferentes elementos da experiência.
Nesse sentido, a produção artística deste trabalho parte da compreensão de que as lembranças não precisam ser grandiosas para serem importantes. A infância é construída por pequenos acontecimentos que, quando observados posteriormente, revelam uma dimensão afetiva muito maior. A fotografia permite reunir esses fragmentos e criar uma narrativa na qual cada imagem pode representar uma parte dessa experiência.
É também por isso que a escrita acompanha a fotografia na proposta de “Morada Presente”. Algumas lembranças não conseguem ser expressas apenas por uma imagem. A fotografia mostra, enquanto a palavra pode aproximar o observador daquilo que foi sentido. Textos sobre a infância, a família, a saudade e os pequenos acontecimentos cotidianos podem ampliar aquilo que a fotografia deixa em aberto.
A união entre imagem e palavra possibilita construir uma narrativa que não pretende contar uma história de maneira totalmente linear. As lembranças também não aparecem de maneira organizada. Elas podem surgir por associações, por detalhes e por sensações. Uma fotografia pode levar a outra lembrança, que pode levar a uma pessoa, depois a um lugar e, posteriormente, a uma sensação. Essa característica fragmentária faz parte da própria maneira como a memória é experimentada.
Dessa maneira, “Morada Presente” procura construir um espaço artístico em que fotografia, escrita e memória possam dialogar. As imagens funcionam como fragmentos de experiências, enquanto os textos ajudam a revelar aquilo que existe por trás delas. O objetivo não é transformar a memória em uma reprodução exata do passado, mas mostrar como ela continua sendo construída e reconstruída a partir do presente.
A fotografia, portanto, ocupa uma posição central porque permite materializar aquilo que muitas vezes permanece somente na lembrança. Ela oferece uma forma de olhar para pessoas, lugares e objetos que fizeram parte da vida e que continuam carregando significado. Ao mesmo tempo, a imagem não encerra a memória. Pelo contrário, pode abrir novos caminhos para lembranças que ultrapassam aquilo que foi registrado.
A partir dessas reflexões, compreende-se que a memória afetiva não está somente nas grandes histórias familiares, mas também nas experiências pequenas e cotidianas. O colo, a brincadeira, a casa, a piscina, a televisão, a festa, a fotografia e as pessoas queridas podem formar uma espécie de arquivo afetivo da existência. São fragmentos que, juntos, ajudam a construir a percepção de quem fomos e de quem somos.
É nessa perspectiva que o conceito de morada se torna uma metáfora para a memória. Assim como uma casa pode guardar marcas de diferentes momentos, a memória também reúne experiências, pessoas, lugares e afetos. Algumas dessas lembranças permanecem mais visíveis, enquanto outras ficam escondidas e reaparecem quando alguma imagem ou situação desperta sua presença.
“Morada Presente” nasce, portanto, da tentativa de olhar para essas lembranças sem tratá-las como algo encerrado no passado. O trabalho busca compreender como elas continuam participando do presente e como podem ser transformadas em produção artística. A fotografia funciona como um meio de acessar essas experiências, enquanto a criação artística possibilita reorganizá-las e atribuir novos sentidos.
Assim, este capítulo estabelece a base para compreender a fotografia como mais do que um registro. Ela é pensada como fragmento, vestígio, lembrança e possibilidade de reencontro. Ao aproximá-la da memória e do afeto, torna-se possível compreender por que determinadas imagens permanecem importantes e como elas podem transformar experiências pessoais em matéria para a arte.
A partir dessa compreensão, o trabalho avança em direção à sua produção artística, na qual as lembranças da infância, da família e dos espaços vividos deixam de ser apenas recordações e passam a participar diretamente da construção das imagens e dos textos. É nesse movimento que a memória encontra uma nova forma de existência, tornando-se presente novamente por meio da fotografia, da escrita e do afeto.
2.1 A FOTOGRAFIA COMO MORADA DAS LEMBRANÇAS
Pensar a fotografia como uma morada da memória significa compreender que algumas imagens permanecem relacionadas a experiências que ultrapassam o momento em que foram produzidas. Uma fotografia pode guardar o rosto de uma pessoa, o espaço de uma casa, uma brincadeira ou uma reunião familiar, mas também pode carregar sentimentos que não podem ser vistos diretamente. Quando a imagem é revisitada, aquilo que estava registrado visualmente pode despertar outras lembranças, fazendo com que uma experiência antiga volte a ocupar algum espaço no presente.
Em “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”, essa relação aparece principalmente através das lembranças da infância e dos vínculos familiares. O interesse pelas imagens não está somente naquilo que elas mostram, mas naquilo que conseguem provocar. Uma fotografia pode mostrar uma criança brincando, mas, para quem viveu aquele momento, ela pode trazer de volta o lugar, as pessoas que estavam presentes, as brincadeiras, os sons, as sensações e até pequenos detalhes que não foram registrados pela câmera.
A fotografia, nesse sentido, apresenta apenas uma parte da experiência. O enquadramento seleciona um instante e deixa muitas outras coisas forada imagem. Mesmo assim, aquilo que não aparece pode continuar presente na memória de quem participou daquele momento. É justamente nessa diferença entre o que a fotografia mostra e aquilo que a lembrança acrescenta que surge uma possibilidade importante para a produção artística.
Boris Kossoy compreende a fotografia como um fragmento e como um registro que precisa ser observado dentro de suas relações com o tempo, o espaço, o assunto fotografado e as circunstâncias de sua produção. Para o autor, a imagem fotográfica não deve ser considerada apenas pela sua aparência, pois ela está relacionada a diferentes informações e interpretações. Essa compreensão permite perceber que uma fotografia familiar pode possuir significados que vão muito além do conteúdo visível da imagem (KOSSOY, 2001).
Essa relação entre fotografia e memória aparece de maneira ainda mais evidente quando pensamos nas fotografias que sobrevivem às pessoas e aos lugares registrados. Kossoy afirma:
“As fotografias, em geral, sobrevivem após o desaparecimento físico do referente que as originou: são os elos documentais e afetivos que perpetuam a memória.” (KOSSOY, 2001, p. 156). 
Essa afirmação se aproxima diretamente da proposta de “Morada Presente”, porque muitas vezes aquilo que permanece não é o acontecimento em si, mas a possibilidade de reencontrá-lo por meio de um registro. Uma fotografia antiga pode continuar existindo mesmo depois que a criança retratada cresceu, que a casa foi modificada ou que determinada pessoa já não está presente da mesma forma. A imagem permanece como um elo entre diferentes momentos.
Por isso, a fotografia pode assumir uma função afetiva dentro das relações familiares. Guardar uma imagem significa, em muitos casos, guardar também uma parte de uma história. Não se trata necessariamente de uma decisão consciente de preservar a memória. Muitas vezes, a fotografia é simplesmente guardada porque possui algum significado para quem a possui. Anos depois, quando ela é reencontrada, pode revelar uma importância que talvez nem fosse percebida no momento em que foi produzida.
As fotografias de família também podem ser compreendidas como pequenas narrativas. Um conjunto de imagens apresenta diferentes momentos da vida e permite acompanhar mudanças. A criança que aparece em uma fotografia pode surgir posteriormente em outra idade; uma casa pode aparecer antes e depois de uma reforma; pessoas podem ser vistas em diferentes momentos de suas relações. Cada fotografia é um fragmento, mas a reunião desses fragmentos possibilita construir uma história.
Essa história, porém, não precisa ser completamente organizada ou linear. A memória também não funciona sempre como uma sequência ordenada. Uma lembrança pode aparecer a partir de um detalhe. Uma fotografia pode despertar outra imagem, que pode levar a uma pessoa, depois a um lugar e, finalmente, a uma sensação. Assim, recordar envolve também associações entre diferentes experiências.
É nesse aspecto que as lembranças da infância ganham importância dentro desta pesquisa. A infância é formada por muitos acontecimentos que, quando vividos, podem parecer pequenos. Com o passar dos anos, entretanto, alguns desses momentos passam a ser reconhecidos como experiências importantes. A memória afetiva permite que situações aparentemente simples adquiram novos significados quando são observadas a partir da vida adulta.
O colo de mãe é um exemplo dessa transformação. Para uma criança, receber colo pode ser apenas uma situação cotidiana. Mais tarde, essa lembrança pode representar proteção, cuidado, segurança e amor. Uma fotografia relacionada a esse momento talvez não consiga mostrar todos esses sentimentos, mas pode funcionar como um caminho para que eles sejam lembrados.
O mesmo acontece com as brincadeiras da infância. Uma piscina de plástico pode representar muito mais do que um objeto. Pode estar relacionada ao verão, aos irmãos, aos primos, às risadas e à sensação de liberdade daquele período. Uma televisão de tubo pode trazer de volta a lembrança de assistir a desenhos em determinado horário. Um brinquedo pode lembrar uma casa, uma pessoa ou uma rotina. São elementos que participam da construção da memória porque estão ligados a experiências.
Nesse sentido, os objetos também podem ocupar um lugar importante dentro da proposta de “Morada Presente”. Alguns objetos permanecem mesmo depois que o momento relacionado a eles passou. Eles podem funcionar como pontos de contato com o passado. Quando vistos novamente, não são apenas objetos, mas elementos capazes de despertar histórias.
Pierre Nora contribui para essa compreensão ao relacionar a memória a elementos concretos, como o espaço, o gesto, a imagem e o objeto. A memória pode encontrar nesses elementos formas de permanecer acessível e de continuar ligada a experiências individuais e coletivas (NORA, 1993, p. 9).
A fotografia se aproxima dessa ideia porque também pode funcionar como um objeto de memória. Uma imagem guardada em um álbum, em uma caixa ou até mesmo em um arquivo digital pode continuar relacionada a uma experiência específica. O suporte pode mudar, mas a relação afetiva pode permanecer.
No entanto, a memória não está simplesmente dentro da fotografia. A imagem não possui sozinha todos os significados que serão atribuídos a ela. Esses significados também são construídos por quem observa. Uma pessoa que não conhece determinada família pode olhar para uma fotografia e enxergar apenas algumas pessoas reunidas. Para alguém que pertence àquela história, a mesma imagem pode representar anos de convivência.
Essa diferença mostra que o valor afetivo de uma fotografia depende também da relação estabelecida com ela. Uma imagem tecnicamente simples pode ser extremamente importante para alguém. Uma fotografia desfocada, antiga ou aparentemente comum pode possuir mais força emocional do que uma imagem produzida com grande qualidade técnica. O que importa é aquilo que a fotografia representa.
Essa dimensão é fundamental para a produção artística desta pesquisa. As fotografias não serão selecionadas apenas pela sua beleza ou qualidade visual. O principal critério está na relação que estabelecem com a memória e com o afeto. Uma imagem pode ser escolhida porque desperta uma lembrança, porque representa uma pessoa importante ou porque consegue expressar uma sensação relacionada à infância.
A nostalgia também aparece nesse processo como uma forma de aproximação com aquilo que já passou. Sentir nostalgia não significa necessariamente querer voltar ao passado. Muitas vezes, significa reconhecer a importância de uma experiência depois que ela já não pode ser vivida da mesma maneira. A fotografia pode provocar esse sentimento porque coloca diante dos olhos algo que pertence a outro momento.
Quando uma pessoa adulta observa uma fotografia de sua infância, existe um encontro entre duas versões de si mesma. A criança aparece na imagem, enquanto o adulto observa. Entre essas duas pessoas existe o tempo, mas também existe uma continuidade. A fotografia permite perceber mudanças e permanências, mostrando que aquilo que fomos ainda participa de quem somos.
Essa relação com o tempo vivido também pode ser aproximada das reflexões de Ecléa Bosi. A autora compreende a memória em sua relação com a experiência e com o tempo vivido, mostrando que lembrar está ligado às condições concretas da vida e às experiências que possuem significado para cada indivíduo (BOSI, 2022).
A memória, portanto, não é apenas uma coleção de acontecimentos. Ela está relacionada à maneira como cada pessoa experimentou esses acontecimentos. Duas pessoas podem participar do mesmo momento e guardar lembranças completamente diferentes. Uma mesma fotografia pode despertar sentimentos diferentes em cada pessoa que a observa.
Isso também acontece dentro das famílias. Uma fotografia pode representar uma experiência coletiva, mas cada integrante pode possuir uma lembrança particular daquele momento. O registro é o mesmo, mas as memórias associadas a ele podem ser diferentes. Essa característicareforça a dimensão subjetiva da fotografia e da memória.
Em “Morada Presente”, essa subjetividade é importante porque a produção parte de experiências pessoais. As imagens não pretendem representar uma infância universal. Elas partem de lembranças específicas e de situações que possuem significado dentro de uma trajetória particular. Entretanto, essas lembranças pessoais podem despertar identificação porque experiências como brincar, estar com a família, sentir proteção ou sentir saudade fazem parte de diferentes histórias humanas.
A fotografia permite transformar essas experiências em matéria artística. Quando uma lembrança é fotografada, selecionada, acompanhada por uma palavra ou colocada ao lado de outra imagem, ela deixa de existir somente como recordação pessoal e passa a fazer parte de uma construção visual. A criação artística permite reorganizar os fragmentos da memória e apresentar novas relações entre eles.
Por isso, a escrita também possui um papel importante neste trabalho. Existem sentimentos que uma fotografia não consegue apresentar sozinha. A imagem pode mostrar uma pessoa, mas a palavra pode falar sobre o que essa pessoa representa. Pode mostrar uma janela, mas o texto pode contar o que significava olhar por aquela janela. Pode mostrar uma piscina, mas a escrita pode trazer as risadas, os irmãos e a sensação daquele dia.
A união entre fotografia e texto cria uma possibilidade de ampliar a memória. A fotografia apresenta o fragmento visual, enquanto a escrita abre caminhos para aquilo que não está representado diretamente. As duas linguagens se complementam e permitem construir uma narrativa afetiva.
Essa escolha também está relacionada aos textos produzidos para o trabalho, como aqueles que falam sobre o gosto da infância, o colo de mãe, a piscina, a janela, a cor lilás e a nostalgia. Esses textos não funcionam apenas como legendas das fotografias. Eles fazem parte da própria experiência artística, pois procuram transformar lembranças e sentimentos em palavras.
A cor, por exemplo, pode carregar uma lembrança particular. Uma cor pode estar relacionada a uma pessoa querida, a uma casa ou a determinado período. Da mesma maneira, um objeto aparentemente simples pode adquirir significado quando associado a uma memória. A produção artística pode explorar justamente essas relações entre elementos visuais e afetivos.
Nesse sentido, “Morada Presente” não procura construir uma representação perfeita da infância. O objetivo é trabalhar com fragmentos. Algumas lembranças aparecem completas, enquanto outras surgem apenas por meio de pequenos detalhes. Essa fragmentação não representa uma falha da memória, mas uma característica importante da maneira como lembramos.
A fotografia também possui essa característica fragmentária. Ela não registra uma vida inteira, mas apenas um instante. Entretanto, esse instante pode carregar uma quantidade enorme de significados. Uma única imagem pode abrir caminhos para várias histórias, pessoas e sentimentos.
É por isso que a fotografia pode ser compreendida como uma morada. Ela oferece um lugar para que determinado fragmento permaneça e possa ser revisitado. A memória, por sua vez, amplia esse fragmento, acrescentando experiências, sentimentos e significados que não estão visíveis na imagem.
A morada também pode ser entendida como uma casa afetiva. Algumas pessoas carregam dentro de si lembranças de lugares onde viveram, mesmo depois de terem deixado esses lugares. Uma fotografia de uma casa pode recuperar visualmente uma parte daquele espaço, mas a memória pode reconstruir também os sons, os cheiros, as pessoas e as experiências que aconteceram ali.
Essa relação entre casa e memória é especialmente importante para o título do trabalho. “Morada Presente” sugere que aquilo que foi vivido continua encontrando espaço no presente. A memória não é apresentada como algo distante, mas como algo que permanece participando da vida atual.
A produção artística, portanto, funciona como uma maneira de percorrer essa morada. Fotografar, selecionar imagens, escrever, observar e organizar os elementos são ações que permitem revisitar experiências e perceber novos sentidos. O processo artístico torna-se também um processo de investigação sobre a própria memória.
Nesse percurso, a nostalgia não precisa ser evitada. Ela pode fazer parte da criação. A saudade de uma pessoa, de uma fase da vida ou de uma casa pode se transformar em imagem, palavra, cor e composição. O sentimento deixa de ser apenas algo interno e passa a encontrar uma forma visual.
Assim, a fotografia torna-se um ponto de encontro entre aquilo que permanece e aquilo que mudou. Ela permite olhar para uma experiência passada sem precisar fingir que o tempo não passou. Pelo contrário, é justamente a consciência da passagem do tempo que torna algumas imagens tão importantes.
A fotografia de uma criança mostra que aquela criança existiu, mas também mostra que ela cresceu. A fotografia de uma casa mostra que aquele espaço existiu daquela maneira, mas também permite perceber que ele pode ter mudado. A fotografia de uma pessoa preserva um rosto e um momento, mas não impede que a vida continue. É nessa tensão entre permanência e transformação que a imagem ganha força.
Dessa forma, a fotografia participa da construção de uma memória afetiva porque consegue manter determinados fragmentos acessíveis. Ela não substitui a lembrança, mas pode despertá-la. Não contém toda a experiência, mas pode abrir caminhos para que ela seja novamente sentida.
“Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto” parte justamente dessa possibilidade. As imagens são compreendidas como fragmentos de uma trajetória, enquanto os textos e as escolhas artísticas procuram revelar aquilo que esses fragmentos despertam. A infância, a família, os espaços, os objetos e os sentimentos tornam-se elementos de uma narrativa construída a partir do presente.
Ao final desta discussão, a fotografia pode ser compreendida não apenas como algo que guarda uma imagem, mas como algo que guarda possibilidades de lembrança. Uma fotografia pode permanecer durante décadas e, ainda assim, continuar provocando sentimentos diferentes a cada reencontro. É nesse movimento que ela se transforma em uma espécie de morada: um espaço onde uma experiência passada continua encontrando novas formas de existir no presente
Figura1Infânciacomomemóriaeafeto
Fonte: Acervo pessoal da autora.
A fotografia apresentada evidencia a relação entre imagem e memória afetiva discutida neste capítulo. O registro de um momento da infância permite observar não apenas aquilo que está representado, mas também as lembranças e os sentimentos associados àquele período. Elementos presentes na imagem, como o ambiente, os objetos e a própria presença da criança, tornam-se pontos de acesso a experiências que continuam fazendo parte da memória no presente. Dessa forma, a fotografia deixa de ser apenas um registro visual e passa a atuar como uma forma de preservar e revisitar afetos. 
2.2 INFÂNCIA, NOSTALGIA E OS FRAGMENTOS DA MEMÓRIA
A infância ocupa um lugar particular na construção da memória porque reúne experiências que, muitas vezes, são vividas sem que exista consciência sobre a importância que poderão adquirir posteriormente. Brincadeiras, conversas, momentos em família, objetos, lugares e pequenas situações do cotidiano podem permanecer guardados durante muitos anos. Quando essas experiências são revisitadas na vida adulta, elas podem adquirir novos significados, principalmente porque passam a ser observadas a partirde uma outra percepção do tempo e da própria trajetória.
Em “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto”, a infância aparece justamente como um território de lembranças que continua produzindo sentidos no presente. Não se trata de tentar reconstruir a infância exatamente como ela aconteceu, mas de observar os fragmentos que permaneceram e compreender por que determinadas lembranças continuam importantes. A fotografia participa desse processo porque oferece uma imagem concreta para aquilo que muitas vezes existe apenas como lembrança.
Uma fotografia de infância pode parecer simples para quem a observa de fora. Pode mostrar uma criança brincando, uma família reunida, uma casa ou uma festa. Entretanto, para quem esteve naquele momento, a imagem pode carregar uma quantidade muito maior de significados. O registro visual é apenas uma parte da experiência. A memória acrescenta aquilo que não foi fotografado: as vozes, os cheiros, as brincadeiras, as emoções e as relações estabelecidas naquele período.
Essa diferença entre o que foi vivido e o que é lembrado torna-se importante para compreender a memória como algo que se transforma. A lembrança não permanece necessariamente igual ao acontecimento original. Conforme a pessoa cresce, novas experiências passam a interferir na maneira como ela interpreta aquilo que viveu anteriormente. Assim, uma fotografia antiga pode provocar uma percepção que não existia quando a imagem foi produzida.
Ecléa Bosi contribui diretamente para essa compreensão ao pensar a memória como um trabalho de reconstrução do passado. A autora observa que lembrar não significa simplesmente repetir uma experiência anterior, mas reconstruí-la a partir das condições do presente. Nesse sentido, a lembrança está relacionada à pessoa que recorda, às suas experiências e à maneira como ela percebe sua própria trajetória.
Bosi afirma que:
“Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado” (BOSI, 1994, p. 55). 
Essa compreensão ajuda a perceber por que uma mesma fotografia pode produzir sentimentos diferentes em momentos diferentes da vida. A imagem permanece praticamente igual, mas aquele que a observa se transformou. Uma criança que aparece em uma fotografia pode ser reconhecida posteriormente pelo adulto como parte de sua própria história, mas o significado daquele momento será construído a partir de tudo aquilo que aconteceu depois.
Essa reconstrução da memória também aparece nos pequenos detalhes. Uma fotografia pode não registrar diretamente o cheiro de uma comida, o som de uma música ou a sensação de estar dentro de uma determinada casa, mas esses elementos podem surgir quando a imagem é observada. A fotografia funciona como um estímulo que permite à memória estabelecer relações com outras experiências.
É nesse movimento que a infância passa a ser compreendida não como um período isolado, mas como uma parte da trajetória que continua presente. Algumas experiências da infância permanecem como referências afetivas. O colo de mãe, por exemplo, pode representar proteção mesmo depois que a pessoa se torna adulta. Uma brincadeira com irmãos ou primos pode permanecer associada à sensação de pertencimento. Uma casa pode continuar sendo lembrada mesmo depois de ter sido modificada ou deixada para trás.
Essas lembranças não dependem necessariamente de acontecimentos extraordinários. Pelo contrário, muitas vezes são justamente as situações mais simples que permanecem com maior força. O desenho animado na televisão de tubo, a piscina de plástico, as brincadeiras no quintal, o suco de uva com pipoca, o algodão doce, as festas, as bexigas coloridas e as risadas podem formar um conjunto de pequenas experiências que ajudam a construir a memória afetiva.
A escolha desses elementos para a produção artística está relacionada à intenção de mostrar que a memória também é construída pelo cotidiano. Não são apenas os grandes acontecimentos que merecem ser lembrados. Existem momentos que parecem comuns quando são vividos, mas que posteriormente passam a representar uma fase inteira da vida.
A fotografia pode contribuir para preservar esses momentos porque transforma um instante em uma imagem que pode ser observada novamente. Entretanto, o significado da fotografia não está somente no registro. Ele está também na relação estabelecida entre a imagem e a experiência. Uma fotografia de uma piscina de plástico, por exemplo, pode representar para uma pessoa uma tarde comum. Para outra, pode representar uma infância inteira.
Essa dimensão subjetiva permite aproximar fotografia e nostalgia. A nostalgia surge quando algo do passado volta a produzir efeitos no presente. Uma fotografia antiga pode provocar saudade de uma pessoa, de um lugar, de uma rotina ou até mesmo de uma maneira de viver que não existe mais. Mas essa saudade também pode trazer consigo carinho e reconhecimento.
Dentro de “Morada Presente”, a nostalgia não é compreendida apenas como vontade de retornar ao passado. Ela é utilizada como uma possibilidade de olhar novamente para experiências que participaram da formação pessoal. Ao revisitar uma fotografia, é possível perceber que algumas coisas mudaram, enquanto outras continuam presentes de alguma maneira.
A nostalgia também pode revelar aquilo que sentimos falta sem necessariamente conseguirmos explicar. Uma pessoa pode olhar para uma fotografia de sua infância e não sentir saudade exatamente do acontecimento registrado. Pode sentir saudade da sensação de segurança daquele período, da convivência familiar ou da simplicidade das relações. A fotografia torna-se, então, uma espécie de disparador de sentimentos.
Esse aspecto é importante para a produção artística porque permite trabalhar com aquilo que está entre a imagem e a lembrança. A fotografia apresenta uma realidade visual, enquanto o texto e a memória acrescentam outras camadas. Dessa maneira, a obra pode mostrar não apenas o que aconteceu, mas aquilo que aquele acontecimento significa hoje.
As lembranças também podem estar relacionadas a objetos. Alguns objetos permanecem durante muitos anos e acabam carregando marcas de diferentes períodos da vida. Um brinquedo antigo, uma televisão, uma roupa, uma fotografia, um móvel ou qualquer outro elemento pode despertar uma lembrança quando volta a ser observado.
Esses objetos possuem uma característica semelhante à fotografia: eles continuam existindo enquanto o contexto em que foram utilizados pode desaparecer. Por isso, quando reencontrados, podem produzir uma sensação de aproximação com uma época anterior. Não é o objeto sozinho que produz a lembrança, mas a relação que a pessoa possui com ele.
O mesmo acontece com os espaços. Uma casa da infância pode permanecer na memória mesmo depois de modificada. Uma janela pode lembrar a maneira como uma criança observava o mundo. Um quintal pode trazer de volta brincadeiras. Um quarto pode estar relacionado a momentos de proteção e descanso. Esses espaços formam parte da experiência e podem permanecer como referências afetivas.
A ideia de “morada” presente no título do trabalho aproxima-se justamente dessa relação entre memória e espaço. A memória pode guardar lugares que já não existem da mesma forma. Mesmo quando a pessoa deixa fisicamente determinado espaço, ele pode continuar existindo como experiência dentro dela.
Nesse sentido, a fotografia pode registrar uma parte desses lugares e permitir que eles sejam revisitados. Uma imagem da casa não consegue reproduzir toda a experiência de viver naquele espaço, mas pode ajudar a recuperar lembranças relacionadas a ele. O registro visual funciona como uma passagem entre o espaço que existiu e a lembrança que permanece.
Essa relação entre espaço e memória também dialoga com Pierre Nora, quando o autor discute a maneira como a memória se relaciona com elementos concretos. A imagem, o espaço e o objeto podem servir como pontos de ligação entre o presente e aquilo que foi vivido anteriormente (NORA, 1993).
A fotografia familiartambém pode assumir essa função porque reúne diferentes pessoas e momentos em um mesmo conjunto de imagens. Quando uma família observa seus registros antigos, não está apenas olhando fotografias. Está também reconstruindo histórias. Uma fotografia pode fazer surgir uma lembrança que outra pessoa da família complementa, criando uma narrativa coletiva.
Essa característica aproxima a memória individual da memória familiar. Mesmo quando uma lembrança pertence a uma pessoa específica, ela pode estar relacionada a experiências compartilhadas. As lembranças da infância, por exemplo, muitas vezes envolvem pais, irmãos, primos, avós e outras pessoas que participaram daquele cotidiano.
Por isso, a fotografia pode funcionar como um ponto de encontro entre diferentes memórias. Uma mesma imagem pode despertar lembranças distintas em diferentes pessoas, mas todas podem reconhecer algum aspecto daquela experiência. A fotografia, nesse caso, deixa de ser somente um registro individual e passa a fazer parte de uma história compartilhada.
Essa dimensão familiar é importante para o trabalho porque muitas das lembranças utilizadas na produção artística estão relacionadas às pessoas que fizeram parte da infância. O afeto não está separado das imagens. Ele aparece justamente nas relações que essas imagens ajudam a lembrar.
A lembrança de uma mãe, por exemplo, pode estar relacionada à sensação de cuidado. A lembrança de irmãos e primos pode estar associada às brincadeiras. A lembrança de uma casa pode estar ligada à sensação de pertencimento. Dessa forma, a fotografia pode representar diferentes dimensões de uma mesma experiência.
A memória afetiva também pode ser despertada por cores. Uma determinada cor pode lembrar uma pessoa, uma casa ou um período específico. Em “Morada Presente”, essa possibilidade aparece na lembrança relacionada ao lilás, associado a uma pessoa querida. Nesse caso, a cor deixa de ser apenas uma escolha estética e passa a carregar uma dimensão emocional.
Essa relação entre cor e memória amplia as possibilidades da produção artística. A obra não precisa depender somente da fotografia original. Elementos como cores, texturas, palavras e objetos podem ser utilizados para reconstruir sensações associadas às lembranças. A criação artística permite que a memória seja traduzida para diferentes linguagens.
A palavra também desempenha um papel importante. Algumas experiências são difíceis de representar visualmente. Uma fotografia pode mostrar um rosto, mas não consegue mostrar completamente o sentimento relacionado àquela pessoa. A escrita pode contribuir para revelar essa dimensão.
Por isso, os pequenos textos que acompanham as imagens fazem parte da própria construção de “Morada Presente”. Eles não são apenas explicações das fotografias. São fragmentos de memória transformados em linguagem. O texto sobre o colo de mãe, por exemplo, aproxima a imagem de uma experiência de proteção e cuidado. O texto sobre a janela transforma um espaço físico em uma lembrança sobre crescimento, descoberta e passagem do tempo.
A produção artística passa, então, a trabalhar com diferentes fragmentos. Uma fotografia pode representar um acontecimento; uma palavra pode representar uma sensação; uma cor pode representar uma pessoa; um objeto pode representar uma fase da vida. Quando esses elementos são colocados juntos, eles constroem uma narrativa que não depende de uma única imagem.
Essa forma fragmentada de construir a memória também permite aproximar o trabalho da própria maneira como as lembranças aparecem. Nem sempre lembramos de tudo. Algumas imagens permanecem muito claras, enquanto outras desaparecem parcialmente. Algumas lembranças são despertadas por detalhes aparentemente pequenos.
Essa característica não precisa ser corrigida na produção artística. Pelo contrário, pode ser incorporada como parte do processo. O trabalho pode apresentar fotografias, textos e elementos visuais que funcionam como fragmentos, permitindo que o observador construa relações entre eles.
Assim, a nostalgia deixa de ser apenas um sentimento de saudade e passa a ser também uma matéria para a criação. O que foi vivido pode ser reorganizado artisticamente para produzir uma nova experiência no presente. A fotografia antiga encontra uma nova composição, o texto transforma uma lembrança em narrativa e os elementos visuais criam outras possibilidades de interpretação.
Esse processo também permite compreender que a memória não é somente algo que recebemos do passado. Ela continua sendo construída no presente. Cada vez que uma fotografia é observada, uma lembrança pode ser reorganizada. Cada vez que uma história é contada, novos detalhes podem aparecer. Cada vez que uma experiência é transformada em arte, ela ganha uma nova possibilidade de existência.
É justamente nesse ponto que “Morada Presente” encontra sua proposta artística. O trabalho não pretende congelar a infância em uma imagem perfeita ou apresentar o passado como algo que pode ser recuperado exatamente como aconteceu. A intenção é mostrar que determinadas experiências continuam vivendo dentro de nós e podem ser revisitadas de diferentes maneiras.
A fotografia, nesse processo, torna-se uma espécie de porta. Ela permite entrar em uma lembrança, mas não determina completamente aquilo que será encontrado. Cada pessoa pode estabelecer relações diferentes com a imagem. Para quem produziu o trabalho, determinadas fotografias estarão ligadas a experiências pessoais. Para quem observa, elas podem despertar suas próprias memórias.
Essa possibilidade de identificação também amplia o sentido da obra. Embora a pesquisa parta de experiências pessoais, temas como infância, família, saudade e pertencimento podem ser reconhecidos por outras pessoas. Uma fotografia específica pode pertencer a uma história particular, mas o sentimento despertado por ela pode encontrar correspondência em outras histórias.
Dessa maneira, a produção artística transforma uma memória individual em uma possibilidade de diálogo. O que começa como uma lembrança pessoal passa a ser apresentado como imagem, palavra e experiência estética. A memória deixa de estar somente guardada e passa a ser compartilhada.
Ao reunir fotografias, textos, cores e lembranças, “Morada Presente” constrói uma narrativa sobre aquilo que permanece. A infância aparece não como um lugar para onde seja possível voltar fisicamente, mas como uma parte da história que continua participando da vida. A fotografia permite visitar esse espaço novamente e perceber que algumas experiências ainda possuem significado.
A nostalgia, portanto, não representa somente aquilo que foi perdido. Ela também revela aquilo que foi importante. Sentir falta de uma casa, de uma pessoa, de uma brincadeira ou de uma fase da vida demonstra que essas experiências deixaram marcas. A fotografia ajuda a tornar essas marcas visíveis.
Assim, este tópico reforça a compreensão da memória como algo vivo, subjetivo e afetivo. As fotografias da infância não funcionam apenas como documentos de acontecimentos antigos. Elas são fragmentos capazes de despertar experiências, sentimentos e relações que continuam presentes.
É a partir desses fragmentos que a pesquisa se aproxima cada vez mais da produção artística. O que foi lembrado passa a ser selecionado, fotografado, escrito e reorganizado. A memória deixa de ser somente objeto de reflexão e começa a se transformar em matéria para a criação.
Dessa forma, “Morada Presente: Fotografia, Memória e Afeto” encontra na infância um ponto de partida para pensar sobre o tempo, a saudade e a permanência. As pequenas experiências que pareciam comuns tornam-se importantes quando revisitadas. A fotografia permite que elas sejam novamente observadas, enquanto a arte possibilita que sejam transformadas e apresentadas sob uma nova perspectiva.
2.3 FOTOGRAFIA, AFETO E A PRESENÇA DA AUSÊNCIA
A fotografia possui uma relação muito particular com aquilo que já passou. Ao registrar uma pessoa, um lugar, um objeto ou simplesmente um instante comum do cotidiano, ela transformaaquele momento em algo que pode permanecer mesmo depois que o tempo avançou. Por isso, olhar uma fotografia não significa apenas observar uma imagem antiga. Muitas vezes, significa encontrar novamente algo que já não está presente da mesma maneira. Uma pessoa pode ter mudado, uma casa pode ter sido modificada, uma criança pode ter crescido e até mesmo um lugar que fazia parte da rotina pode ter desaparecido, mas a fotografia permanece como uma espécie de ponto de encontro entre o passado e o presente.
É nesse sentido que a fotografia se aproxima do afeto. Algumas imagens possuem uma força que não está necessariamente relacionada à qualidade técnica da fotografia, mas ao que ela representa para quem a observa. Uma fotografia simples, feita em um momento cotidiano, pode carregar muito mais significado do que uma imagem produzida de maneira planejada. Isso acontece porque, para além daquilo que aparece diante dos olhos, existe toda uma história ligada àquela imagem. Existem pessoas, sentimentos, acontecimentos, cheiros, lugares, conversas e pequenas situações que não aparecem na fotografia, mas que são despertadas por ela.
Boris Kossoy discute justamente essa capacidade da fotografia de permanecer ligada às experiências que deram origem ao registro. Para o autor, a imagem fotográfica não se limita ao instante em que foi produzida, pois continua estabelecendo relações com a memória de quem a observa. Nesse sentido, a fotografia pode ser compreendida como um vestígio de algo que aconteceu e que não pode mais ser repetido da mesma maneira.
As fotografias, em geral, sobrevivem após o desaparecimento físico do referente que as originou: são os elos documentais e afetivos que perpetuam a memória. A cena gravada na imagem não se repetirá jamais. O momento vivido, congelado pelo registro fotográfico, é irreversível. (KOSSOY, 2001, p. 156).
A ideia apresentada por Kossoy ajuda a compreender por que determinadas fotografias conseguem provocar sentimentos tão fortes mesmo muitos anos depois de terem sido produzidas. O momento registrado não volta a acontecer, mas a fotografia permite que ele seja novamente visitado. Não se trata de voltar literalmente ao passado, mas de estabelecer uma relação com ele a partir da imagem. A fotografia funciona, então, como uma presença de algo que já não existe da mesma forma.
Essa relação entre presença e ausência está muito presente nas fotografias familiares. Ao observar uma imagem antiga, muitas vezes percebemos que algumas das pessoas fotografadas já não estão ao nosso lado, que os lugares mudaram ou que nós mesmos já não somos aquela pessoa que aparece na fotografia. Mesmo assim, a imagem continua sendo capaz de aproximar aquilo que o tempo afastou. É como se a fotografia criasse uma possibilidade de permanência dentro daquilo que naturalmente está sujeito à mudança.
Nesse processo, o afeto ocupa um papel fundamental. Uma fotografia de uma mãe, por exemplo, pode representar muito mais do que o rosto ou o corpo daquela pessoa diante da câmera. Ela pode carregar a lembrança de um cuidado, de uma infância, de uma casa, de uma voz ou de uma frase que ficou guardada na memória. O mesmo acontece com fotografias de irmãos, primos, amigos ou outros familiares. Cada pessoa pode olhar para uma mesma imagem e encontrar nela significados diferentes, porque a memória não é construída apenas pela imagem, mas também pelas experiências vividas.
Essa relação pode ser percebida nas lembranças da infância que atravessam esta pesquisa. O colo de mãe, a piscina de plástico, as brincadeiras, o desenho na televisão, as festas, o algodão doce, as bexigas coloridas e as risadas são elementos aparentemente simples. Entretanto, quando associados à memória, deixam de ser apenas objetos ou acontecimentos cotidianos e passam a representar uma determinada maneira de sentir a infância.
A fotografia permite que esses pequenos elementos ganhem outra dimensão. Uma piscina de plástico pode deixar de ser somente uma piscina e passar a representar um dia inteiro de verão. Uma fotografia de uma mãe pode carregar a lembrança de proteção. Uma janela pode representar a curiosidade de uma criança diante do mundo. Um objeto antigo pode despertar uma sensação que nem sempre conseguimos explicar completamente por meio das palavras.
É justamente nesse ponto que a fotografia se aproxima da ideia de “morada” presente no título deste trabalho. A imagem pode funcionar como um lugar simbólico onde determinadas lembranças permanecem. Ela não guarda o passado de maneira completa, porque nenhuma fotografia consegue registrar tudo aquilo que foi vivido. Ela guarda apenas um fragmento. Porém, esse fragmento é suficiente para despertar outras partes da experiência que permanecem na memória.
Pierre Nora afirma que “a memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto” (NORA, 1993, p. 9). Essa afirmação estabelece uma relação muito próxima com a proposta deste trabalho, pois mostra que a memória não está separada das coisas que fazem parte da nossa experiência. Ela pode estar presente em uma fotografia, em um espaço conhecido, em um objeto guardado ou até mesmo em um gesto aparentemente pequeno.
Quando penso nas fotografias que fazem parte desta pesquisa, percebo que elas não foram escolhidas apenas porque são imagens bonitas ou porque registram momentos importantes. Muitas delas foram escolhidas porque despertam alguma coisa. Existe nelas uma capacidade de provocar lembranças que talvez permanecessem adormecidas se a imagem não estivesse ali. É como se cada fotografia tivesse uma porta de entrada para uma experiência passada.
Essa experiência também mostra que a memória não permanece exatamente igual ao longo dos anos. Aquilo que lembramos na infância pode ganhar outro significado quando somos adultos. Uma situação que antes parecia comum pode adquirir importância posteriormente. Uma fotografia que durante muito tempo ficou guardada pode ser reencontrada e provocar sentimentos diferentes daqueles sentidos no momento em que foi feita.
Ecléa Bosi explica essa transformação ao afirmar que “a memória é, sim, um trabalho sobre o tempo, mas sobre o tempo vivido, conotado pela cultura e pelo indivíduo” (BOSI, 2022, p. 53). A memória, portanto, não deve ser entendida como uma reprodução perfeita do passado. Ao lembrar, reconstruímos nossas experiências a partir de quem somos no presente.
Essa compreensão é importante para esta pesquisa porque as fotografias utilizadas não são apresentadas como provas de um passado que precisa ser reconstruído exatamente como aconteceu. Elas são utilizadas como possibilidades de aproximação com aquilo que foi vivido. A fotografia apresenta um fragmento, enquanto a memória acrescenta aquilo que não aparece na imagem.
Uma fotografia de uma criança sorrindo, por exemplo, mostra apenas uma expressão registrada pela câmera. Ela não mostra necessariamente o que acontecia antes ou depois daquele momento. Não mostra os pensamentos da criança, as conversas que estavam acontecendo, os sentimentos das pessoas ao redor ou tudo aquilo que tornou aquele instante especial. Entretanto, ao observar a imagem, essas outras lembranças podem surgir.
É por isso que fotografia e memória se complementam. A fotografia oferece uma imagem concreta, enquanto a memória amplia essa imagem por meio das experiências e dos afetos. O que está dentro da fotografia pode ser pequeno, mas o que ela provoca pode ser muito maior.
A ausência também faz parte dessa relação. Fotografar significa registrar algo que, naquele momento, está presente. Porém, com a passagem do tempo, a fotografia passa a representar também aquilo que não está mais ali. Pessoas envelhecem, crianças crescem, casas mudam, objetos são perdidos e relações se transformam. A fotografia permanece como uma marca desse tempo anterior.
Nesse sentido, a fotografia pode provocar sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que aproxima, também evidencia a distância. Pode trazer alegria ao lembrar um momento feliz, mas também pode provocar saudade. Pode fazer

Mais conteúdos dessa disciplina