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APG — Pâncreas, Insulina
e Glândulas Adrenais
Estudo Dirigido Detalhado
APG 1 (Caneta Azul): Pâncreas e Insulina — Objetivos 5.1, 5.2 e 5.3
APG 2 (Caneta Vermelha): Glândulas Adrenais — Objetivos 1, 2 e 3
Referências bibliográficas principais:
Moore — Embriologia Clínica | Junqueira & Carneiro — Histologia Básica
Guyton & Hall — Tratado de Fisiologia Médica | Silverthorn — Fisiologia Humana
Sumário
APG 1 — Pâncreas e Insulina
Objetivo 5.1 — Anatomia, Histologia e Fisiologia do Pâncreas
Objetivo 5.2 — Insulina e Glucagon: Regulação do Metabolismo
Objetivo 5.3 — Mecanismos Descompensatórios e Compensatórios da Glicemia
APG 2 — Glândulas Adrenais
Objetivo 1 — Anatomia, Histologia, Embriologia e Fisiologia das Adrenais
Objetivo 2 — Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal e Glicocorticoides
Objetivo 3 — Glicocorticoides: Metabolismo e Sistema Imune
Referências Bibliográficas
APG — Pâncreas & Adrenais
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APG 1
Pâncreas e Insulina
Caneta Azul — Objetivos 5.1, 5.2 e 5.3
APG — Pâncreas & Adrenais
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APG 1 — Pâncreas e Insulina
Objetivos do APG 1 (extraídos da foto — caneta azul):
5.1 Entender a anatomia, histologia e fisiologia do pâncreas;
5.2 Explicar como os hormônios insulina e glucagon regulam o metabolismo (síntese e
liberação);
5.3 Discutir os principais mecanismos descompensatórios e compensatórios da glicemia.
Nota: embora o objetivo 5.1 não mencione explicitamente a embriologia, ela será abordada conforme
solicitado, com base em Moore, por ser fundamental para compreender as anomalias congênitas e a
organização ductal do órgão.
Objetivo 5.1 — Anatomia, Histologia e Fisiologia do Pâncreas
1. Embriologia do Pâncreas (Moore — O Desenvolvimento Humano)
O pâncreas é um órgão de origem endodérmica, que se desenvolve a partir de dois brotos (evaginações)
do intestino anterior (foregut), na região do futuro duodeno. O conhecimento do desenvolvimento
embrionário é essencial para entender as anomalias congênitas do pâncreas, como o pâncreas divisum, o
pâncreas anular e a agenesia do pâncreas dorsal.
1.1 Formação dos brotos pancreáticos (4ª a 5ª semana)
Por volta da 4ª semana de desenvolvimento, surgem dois divertículos endodérmicos na porção caudal do
intestino anterior, na região que se tornará o duodeno:
Broto pancreático dorsal: é o maior dos dois, surge primeiro (por volta do 26º dia pós-concepção) e
se desenvolve a partir da parede dorsal do duodeno, crescendo dentro do mesentério dorsal. Ele dará
origem à parte superior da cabeça, ao istmo (colo), ao corpo e à cauda do pâncreas definitivo, além
do ducto pancreático acessório (de Santorini).
Broto pancreático ventral: é menor, surge por volta do 33º dia e se desenvolve a partir do divertículo
hepático (brotamento da base do colédoco), portanto intimamente associado ao desenvolvimento do
fígado e das vias biliares. Inicialmente apresenta duas porções (direita e esquerda); a porção esquerda
regride, permanecendo apenas a direita. Ele dará origem ao processo uncinado e à parte inferior da
cabeça do pâncreas, além de formar a porção proximal do ducto pancreático principal (de
Wirsung).
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APG — Pâncreas & Adrenais
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1.2 Rotação e fusão dos brotos (6ª a 7ª semana)
À medida que o duodeno rotaciona para a direita e assume a forma de "C" (em consequência da rotação do
estômago e do mesentério ventral), o broto ventral é carregado dorsalmente, junto com o colédoco. Por
volta da 7ª semana, o broto ventral, agora situado posteriormente ao broto dorsal, funde-se com este. O
tecido conjuntivo, os vasos sanguíneos e o estroma do pâncreas derivam do mesoderma circundante.
Com a rotação do intestino médio e o crescimento dos órgãos, o pâncreas assume posição retroperitoneal
(exceto a cauda, que permanece intraperitoneal dentro do ligamento esplenorrenal).
1.3 Fusão dos sistemas ductais
Após a fusão dos brotos, seus ductos se anastomosam. O sistema ductal definitivo é formado da seguinte
maneira:
O ducto pancreático principal (de Wirsung) é formado pela fusão do ducto do broto ventral (porção
proximal) com a porção distal do ducto do broto dorsal. Ele desemboca no duodeno na papila maior
(carúncula maior), geralmente junto com o colédoco, na ampola hepatopancreática (ampola de
Vater), circundada pelo esfíncter de Oddi.
A porção proximal do ducto do broto dorsal frequentemente persiste como o ducto pancreático
acessório (de Santorini), que desemboca na papila menor, cerca de 2 cm acima da papila maior. Está
patente em aproximadamente 70% dos adultos.
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APG — Pâncreas & Adrenais
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Figura 1 — Sucessivos estágios do desenvolvimento do pâncreas da 5ª à 8ª semana (esquema baseado em Moore). Observar os
brotos dorsal e ventral, a rotação do broto ventral com o colédoco e a fusão dos ductos (Wirsung e Santorini).
1.4 Diferenciação das porções exócrina e endócrina
As células epiteliais dos brotos pancreáticos são pluripotentes e dão origem tanto à porção exócrina
(ácinos e ductos) quanto à porção endócrina (ilhotas de Langerhans). A diferenciação é controlada por
fatores de transcrição como PDX1 (pancreatic and duodenal homeobox 1) e PTF1A (pancreas-specific
transcription factor 1a). A via Notch é crítica para a diferenciação ductal e acinar; na sua ausência, as
células embrionárias se comprometem precocemente com a linhagem endócrina.
As primeiras células endócrinas (produtoras de glucagon) aparecem por volta da 9ª semana; as células
beta (produtoras de insulina) tornam-se detectáveis por volta da 10ª a 11ª semana. As ilhotas de
Langerhans estão bem formadas por volta da 12ª a 16ª semana, e a secreção de insulina inicia-se por volta
da 10ª semana, sendo importante para o crescimento fetal.
1.5 Anomalias congênitas (correlação clínica — Moore)
Anomalia Mecanismo embriológico Manifestação clínica
Falha na fusão dos ductos dorsal e ventral; o
pâncreas é drenado principalmente pelo ducto de
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Pâncreas
divisum
Santorini (papila menor). Ocorre em ~10% da
população.
Geralmente assintomático; pode predispor
à pancreatite recorrente devido à
drenagem insuficiente pela papila menor.
Pâncreas
anular
O broto ventral (ou seus dois lobos) circunda
completamente a 2ª porção do duodeno antes de
fundir-se.
Estreitamento/obstrução duodenal;
vômitos não biliosos no recém-nascido;
pode se manifestar tardiamente com dor e
obstrução.
Agenesia do
pâncreas
dorsal
Falha no desenvolvimento do broto dorsal;
ausência de corpo e cauda.
Rara; pode cursar com diabetes e
insuficiência exócrina variável.
Pâncreas
ectópico
Tecido pancreático em local anormal (estômago,
duodeno, divertículo de Meckel, jejuno).
Geralmente assintomático; pode causar
sangramento, obstrução ou pancreatite
ectópica.
2. Anatomia do Pâncreas
O pâncreas é uma glândula mista (exócrina e endócrina), de cor amarelo-acinzentada, com
aproximadamente 15 cm de comprimento e peso entre 70 e 120 g. Situa-se transversalmente no abdome
superior, retroperitonealmente (exceto a cauda), no nível de L1–L2, profundamente ao estômago, entre a
curva em C do duodeno (direita) e o hilo do baço (esquerda).
Figura 2 — Anatomia macroscópica do pâncreas: cabeça, processo uncinado, colo (istmo), corpo e cauda, em relação com o
duodeno, baço e vasos esplênicos. O ducto de Wirsung percorre o eixo longitudinal do órgão.
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2.1 Divisões anatômicas
Cabeça (caput pancreatis): porção mais volumosa, alojada na curva em C do duodeno (2ª porção).
Inclui o processo uncinado, que se projeta medialmente e posteriormente, passando atrás dos vasos
mesentéricos superiores. A veia mesentérica superior e a artéria mesentérica superior passam
anteriormente ao processo uncinado e posteriormente ao colo.
Colo / Istmo (isthmus): porção estreitada entre a cabeça e o corpo, com ~2 cm de comprimento.
Situa-se anteriormente àconfluência da veia mesentérica superior com a veia esplênica, que forma a
veia porta. É o sítio cirúrgico de eleição para a ressecção pancreática (procedimento de Whipple).
Corpo (corpus): porção mais longa, estende-se para a esquerda, cruzando a aorta, a veia cava inferior,
a artéria mesentérica superior, o rim esquerdo e a glândula adrenal esquerda. Sua face anterior é
coberta pelo omento menor e forma parte do assoalho da bolsa omental (bursa omentalis), estando em
contato com a face posterior do estômago.
Cauda (cauda): porção terminal mais estreita, estende-se até o hilo do baço, dentro do ligamento
esplenorrenal (portanto, intraperitoneal). É rica em ilhotas de Langerhans.
2.2 Ductos pancreáticos
Ducto pancreático principal (de Wirsung): percorre todo o órgão da cauda à cabeça, recebe ductos
intercalares e intralobulares. Na cabeça, une-se ao colédoco formando a ampola hepatopancreática (de
Vater), que desemboca na papila maior do duodeno. O esfíncter de Oddi (músculo liso circular)
controla a saída de bile e suco pancreático.
Ducto pancreático acessório (de Santorini): quando presente, drena a parte superior da cabeça e
desemboca na papila menor, ~2 cm proximal à papila maior.
2.3 Irrigação arterial, drenagem venosa e linfática
Arterial: Cabeça — ramos pancreáticos duodenais anteriores e posteriores (artéria gastroduodenal,
ramo da hepática comum) + ramos da artéria mesentérica superior. Corpo e cauda — artéria esplênica
(ramos pancreáticos: artéria pancreática magna, artéria pancreática dorsal, artéria caudal do pâncreas).
Venosa: drenam para o sistema porta (veia esplênica e veia mesentérica superior → veia porta). Isso
explica por que metástases pancreáticas vão primeiramente para o fígado.
Linfática: linfonodos pancreatoduodenais, esplênicos, mesentéricos superiores e celíacos → cisterna
do quilo → ducto torácico.
Inervação: parassimpática (vago — estimula secreção exócrina e endócrina), simpática (T6–T10 —
vasoconstrição e inibição da secreção; fibras aferentes de dor).
3. Histologia do Pâncreas (Junqueira & Carneiro)
O pâncreas é envolvido por uma fina cápsula de tecido conjuntivo que envia septos para o interior do
órgão, dividindo-o em lóbulos. O estroma interlobular contém ductos, vasos, nervos e tecido adiposo. O
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parênquima é composto por duas porções funcionalmente distintas: a porção exócrina (~98% do volume)
e a porção endócrina (~2%, as ilhotas de Langerhans).
Figura 3 — Corte histológico do pâncreas (HE). Observam-se os ácinos exócrinos (roxo-escuros, basófilos), os ductos
pancreáticos e as ilhotas de Langerhans (aglomerados claros, mais pálidos), que correspondem à porção endócrina.
3.1 Porção exócrina
A porção exócrina é uma glândula acinosa túbulo-acinosa composta serosa, semelhante à glândula
parótida, porém sem ductos estriados.
Ácinos pancreáticos: formados por células acinares (serosas) de forma piramidal, com núcleo esférico
basal, citoplasma basófilo na base (rico em RER — síntese de proteínas) e grânulos de zimogênio
eosinófilos no ápice (contêm enzimas digestivas inativas: tripsinogênio, quimotripsinogênio,
proelastase, procarboxipeptidase, amilase, lipase, colipase, fosfolipase A2, nucleases). A secreção é
regulada por colecistocinina (CCK) e secretina.
Células centroacinares: células achatadas claras no centro dos ácinos, que são o início dos ductos
intercalares. Características exclusivas do pâncreas (não existem na parótida).
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Ductos: ductos intercalares (centroacinar → intralobular) → ductos interlobulares → ducto
pancreático principal. As células ductais secretam água e bicarbonato (HCO₃⁻), sob estímulo da
secretina, neutralizando o quimo ácido do estômago. Não há ductos estriados.
3.2 Porção endócrina — Ilhotas de Langerhans
As ilhotas de Langerhans são aglomerados esféricos ou ovais de células endócrinas, dispersos entre os
ácinos, mais numerosos na cauda do pâncreas. Existem cerca de 1 milhão de ilhotas no pâncreas humano.
Cada ilhota é envolvida por uma delicada rede de fibras reticulares e é extremamente vascularizada por
capilares fenestrados (sinusoides), o que permite a liberação rápida dos hormônios na corrente sanguínea.
A irrigação das ilhotas é organizada como um sistema portal: o sangue passa primeiro pelas células
periféricas (alfa) e depois pelas centrais (beta), permitindo regulação parácrina.
Tipo
celular
Proporção
Localização na
ilhota
Hormônio
produzido
Função principal
Células
beta (β)
~60–70% Centro da
ilhota
Insulina e
amilina
Hipoglicemiante: captação de glicose,
glicogênese, lipogênese, síntese proteica
Células
alfa (α)
~20–25% Periferia da
ilhota
Glucagon Hiperglicemiante: glicogenólise,
gliconeogênese, cetogênese
Células
delta (δ)
~5–10% Dispersas Somatostatina Inibe secreção de insulina, glucagon,
hormônio do crescimento e TSH; inibe
secreção exócrina pancreática e motilidade
GI
Células
PP (F)
~1–2% Dispersas, mais
na cabeça
Polipeptídeo
pancreático
Inibe secreção exócrina pancreática e
contração da vesícula biliar; estimula
secreção gástrica
Células
épsilon (ε)
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1. Insulina — Síntese e Liberação
1.1 Síntese da insulina (células beta das ilhotas de Langerhans)
A insulina é um hormônio peptídico de 51 aminoácidos, com duas cadeias (A — 21 aa e B — 30 aa)
unidas por duas pontes dissulfeto. Sua síntese segue a via clássica de proteínas secretoras:
No RER, é sintetizada a pré-pró-insulina (110 aa), com um peptídeo-sinal que é clivado, formando a
pró-insulina (~86 aa) no lúmen do RER.
A pró-insulina é transportada para o complexo de Golgi, onde é empacotada em grânulos de secreção.
Dentro dos grânulos, a pró-insulina é clivada por prohormônio convertases (PC1/3 e PC2) e
carboxipeptidase E, liberando:
Insulina ativa (cadeias A + B);
Peptídeo C (C-peptide) — 31 aa, liberado em quantidade equimolar com a insulina. Sua dosagem
sérica é útil clinicamente para avaliar a secreção endógena de insulina (pois a insulina exógena não
contém C-peptídeo).
A insulina é armazenada nos grânulos na forma de cristais de zinco-insulina (complexo hexamérico
com Zn²⁺), que se dissociam em monômeros ativos após a exocitose.
1.2 Mecanismo de liberação de insulina — "secreção estimulada por glicose"
A glicose é o principal estímulo para a secreção de insulina. O mecanismo (modelo canônico) é o
seguinte:
A glicose entra na célula beta pelo transportador GLUT2 (alta Km, independente de insulina),
garantindo que a entrada seja proporcional à glicose sanguínea.
A glicose é fosforilada pela glicocinase (GK) (enzima "sensor de glicose", alta Km) → glicose-6-
fosfato.
Glicólise + ciclo de Krebs + fosforilação oxidativa → aumento da razão ATP/ADP intracelular.
O ATP sensível fecha os canais de K⁺ sensíveis ao ATP (KATP) (formados por SUR1 e Kir6.2) na
membrana → despolarização da membrana.
A despolarização abre canais de Ca²⁺ voltagem-dependentes (L-type) → influxo de Ca²⁺ →
aumento do Ca²⁺ citosólico.
O Ca²⁺ dispara a exocitose dos grânulos de insulina (complexo SNARE: sinaptobrevina, sintaxina,
SNAP-25), liberando insulina + C-peptídeo + amilina na circulação porta.
Correlação farmacológica:
As sulfonilureias (ex.: glibenclamida, gliclazida) fecham os canais KATP ligando-se à subunidade
SUR1, mimetizando o efeito da glicose e estimulando a secreção de insulina — usadas no diabetes
tipo 2. O diazóxido abre esses canais, inibindo a insulina (usado em insulinomas).
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A secreção de insulina é bifásica:
1ª fase (fase aguda, 3–5 min): liberação rápida de insulina pré-formada (grânulos junto à membrana).
Está ausente no diabetes tipo 1 e precocemente reduzida no tipo 2.
2ª fase (fase tardia, prolongada): liberação sustentada, envolve mobilização de grânulos do pool
reservatório e nova síntese. Dura enquanto o estímulo glicêmico persistir.
1.3 Outros estímulos e inibidores da secreção de insulina
Estimulam a secreção de insulina Inibem a secreção de insulina
• Hiperglicemia (principal)
• Aminoácidos (arginina, leucina)
• Ácidos graxos livres (em concentrações elevadas)
• Hormônios incretinas: GLP-1 (glucagon-like peptide-1) e GIP
(gastric inhibitory polypeptide) — efeito incretina (~50% da resposta
insulínica pós-prandial)
• Acetilcolina (parassimpático — vago)
• Sulfonilureias, meglitinidas
• β-agonistas (em baixa concentração)
• Hipoglicemia
• Somatostatina (células delta —
parácrina)
• Adrenalina/noradrenalina (α2-
adrenérgico — simpático, importante no
estresse/jejum)
• Diazóxido
• Cortisol em excesso crônico (leva a
resistência)
• Fármacos: tiazídicos, β-bloqueadores
1.4 Mecanismo de ação da insulina — Receptor de insulina e via de sinalização
O receptor de insulina é um receptor tirosina-quinase (RTK) transmembrânico, composto por duas
subunidades α (extracelulares, ligam insulina) e duas subunidades β (intracelulares, com atividade
tirosina-quinase), unidas por pontes dissulfeto (α₂β₂).
Ligação da insulina à subunidade α → mudança conformacional → autofosforilação dos resíduos de
tirosina nas subunidades β.
O receptor ativado fosforila substratos do receptor de insulina (IRS-1, IRS-2), que servem de docking
para outras proteínas.
Duas vias principais são ativadas:
Via PI3K → Akt/PKB (via metabólica): fosfatidilinositol-3-quinase → PIP3 → PDK1 → Akt
(PKB). Efeitos: translocação de GLUT4 para a membrana (músculo e adipócito), ativação da
glicogênio sintase, síntese de proteínas e lipídios, inibição da gliconeogênese.
Via RAS → MAPK (via mitogênica/crescimento): crescimento celular, proliferação,
diferenciação, síntese de DNA.
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Figura 4 — Mecanismo de ação da insulina: ligação ao receptor tirosina-quinase, ativação da cascata IRS/PI3K/Akt,
translocação dos transportadores GLUT4 para a membrana plasmática e captação de glicose, além dos efeitos sobre
glicogênese, lipogênese e síntese proteica.
1.5 Efeitos metabólicos da insulina (Guyton)
A insulina é o hormônio da abundância — atua no estado pós-prandial promovendo o armazenamento
de energia. Seus principais efeitos por tecido:
Tecido Efeitos da insulina
Fígado • ↑ Glicogênese (ativa glicogênio sintase, inibe fosforilase)
• ↓ Glicogenólise e ↓ gliconeogênese (inibe fosfoenolpiruvato carboxiquinase — PEPCK,
glicose-6-fosfatase)
• ↑ Lipogênese (síntese de ácidos graxos → VLDL)
• ↓ Cetogênese (inibe oxidação de ácidos graxos e corpos cetônicos)
• ↑ Síntese proteica, ↓ proteólise
Músculo
esquelético
• ↑ Translocação de GLUT4 → ↑ captação de glicose
• ↑ Glicogênese (estoque de glicogênio muscular)
• ↑ Síntese proteica (aumenta transporte de aminoácidos, atividade ribossômica)
• ↓ Proteólise
Tecido adiposo • ↑ Translocação de GLUT4 → ↑ captação de glicose → glicerol-3-fosfato →
triacilgliceróis
• ↑ Lipoproteína lipase (LPL) → captação de ácidos graxos das lipoproteínas
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• ↓ Lipase sensível a hormônio (LHS) → ↓ lipólise → ↓ ácidos graxos livres no sangue
• Promove armazenamento de gordura
Em resumo: a insulina diminui a glicose sanguínea (aumentando captação e estoque), diminui ácidos
graxos livres (inibe lipólise, aumenta lipogênese) e promove síntese proteica. É um hormônio anabólico
por excelência.
2. Glucagon — Síntese e Liberação
2.1 Síntese do glucagon (células alfa das ilhotas)
O glucagon é um hormônio peptídico de 29 aminoácidos, sintetizado pelas células alfa a partir do pré-
pró-glucagon (160 aa), processado pela prohormônio convertase 2 (PC2) nas células alfa. O mesmo gene
(GCG) é processado diferentemente em outros tecidos: no intestino, o processamento pelo PC1/3 produz
GLP-1 e GLP-2 (incretinas), e no cérebro produz glicagon-like peptides. Isso é um exemplo de
processamento tecido-específico.
2.2 Estímulos e inibidores da secreção de glucagon
Estimulam glucagon Inibem glucagon
• Hipoglicemia (principal estímulo)
• Aminoácidos (especialmente arginina, alanina)
• Jejum/prolongada falta de carboidratos
• Exercício físico
• Estresse (adrenalina via β-adrenérgico, cortisol)
• Colecistocinina (CCK)
• Ácidos graxos em níveis baixos
• Hiperglicemia
• Insulina (efeito parácrino inibitório sobre células alfa)
• Somatostatina
• Ácidos graxos livres elevados
• GLP-1
• Corpos cetônicos
2.3 Mecanismo de ação do glucagon
O glucagon atua por receptor acoplado à proteína G (Gs) na membrana celular → ativa adenilato
ciclase → ↑ AMPc → ativa proteína quinase A (PKA) → fosforilação de enzimas-chave. O principal
órgão-alvo é o fígado (o músculo esquelético não tem receptores para glucagon — por isso a
glicogenólise muscular não libera glicose no sangue, mas sim lactato).
2.4 Efeitos metabólicos do glucagon
No fígado:
↑ Glicogenólise (ativa fosforilase, inibe glicogênio sintase via PKA) → liberação de glicose
↑ Gliconeogênese (induz PEPCK, frutose-1,6-bifosfatase, glicose-6-fosfatase;aumenta captação
de lactato, glicerol, aminoácidos gluconeogênicos)
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↑ Cetogênese (promove β-oxidação de ácidos graxos e forma corpos cetônicos — acetoacetato, β-
hidroxibutirato, acetona)
↓ Lipogênese e ↓ glicogênese
↑ Ureogênese (metabolismo de aminoácidos)
No tecido adiposo: ativa lipase sensível a hormônio → ↑ lipólise → ↑ ácidos graxos livres (substrato
para gliconeogênese e cetogênese hepática).
No músculo cardíaco: efeito inotrópico positivo (aumenta contratilidade — usado em alguns casos de
choque por β-bloqueio).
Em resumo: o glucagon é o hormônio do jejum/hipoglicemia — eleva a glicose sanguínea (glicogenólise
+ gliconeogênese), mobiliza gorduras (lipólise) e promove cetogênese. É o principal hormônio contra-
regulador da insulina.
3. Outros hormônios das ilhotas
Somatostatina (células delta): inibe a secreção de insulina e glucagon (parácrina), inibe GH, TSH,
prolactina; inibe secreção gástrica, pancreática exócrina e motilidade gastrointestinal. Atua como
"freio" geral do sistema digestivo-endócrino.
Amilina (células beta, co-secretada com insulina): retarda esvaziamento gástrico, suprime glucagon,
promove saciedade. Análogos (exenatida, pramlintida) usados no diabetes.
Polipeptídeo pancreático (células PP): inibe secreção exócrina pancreática e contração da vesícula
biliar.
Objetivo 5.3 — Mecanismos Descompensatórios e Compensatórios da
Glicemia
O que este objetivo exige:
Compreender como o organismo mantém a glicose dentro de limites estreitos (homeostase), quais
são os mecanismos compensatórios ativados quando a glicose sai da faixa normal (hipoglicemia
ou hiperglicemia), e quais são os mecanismos descompensatórios que levam à doença (diabetes,
cetoacidose, coma hipoglicêmico).
1. Homeostase glicêmica normal
A glicose sanguínea em jejum é mantida entre 70–99 mg/dL (3,9–5,5 mmol/L). Após refeição, eleva-se
para ~120–140 mg/dL, retornando ao jejum em 2 horas. Essa homeostase é garantida pelo balanço entre:
Hormônios hipoglicemiantes: insulina (o único hormônio que reduz a glicose).
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Hormônios hiperglicemiantes (contra-reguladores): glucagon (principal), adrenalina, cortisol,
hormônio do crescimento (GH). Esses hormônios garantem o aporte de glicose ao cérebro (que
depende quase exclusivamente de glicose como energia, exceto no jejum prolongado, quando usa
corpos cetônicos).
1.1 Estado pós-prandial (absortivo)
Após refeição rica em carboidratos: ↑ glicose portal → ↑ secreção de insulina (1ª e 2ª fases) + ↓ glucagon.
Resultado: captação de glicose por músculo e adipócito (GLUT4), glicogênese hepática e muscular,
lipogênese, síntese proteica. A glicose retorna ao nível basal.
1.2 Estado de jejum (pós-absortivo)
Após 2–4 horas sem comer: ↓ glicose → ↓ insulina + ↑ glucagon. Resultado: glicogenólise hepática
(estoque de ~12–24 h), gliconeogênese hepática (a partir de lactato, glicerol, aminoácidos — alanina),
lipólise (ácidos graxos como energia alternativa). O cérebro continua recebendo glicose. No jejum
prolongado (>2–3 dias): cetogênese hepática → corpos cetônicos → cérebro passa a usar cetonas como
energia, poupando proteína muscular.
2. Mecanismos compensatórios da hipoglicemia
Hipoglicemia é definida como glicose 600 mg/dL), hiperosmolaridade,
desidratação grave, sem cetose significativa.
3.3 Complicações crônicas da hiperglicemia (mecanismos descompensatórios)
A hiperglicemia crônica causa dano tecidual por várias vias:
Via da poliol (aldose redutase): glicose → sorbitol → acúmulo osmótico (retinopatia, neuropatia,
catarata).
Formação de AGEs (produtos finais de glicação avançada): glicose reage com proteínas → cross-
linking → disfunção endotelial, espessamento membrana basal (nefropatia, retinopatia, aterosclerose).
Ativação da PKC (proteína quinase C): disfunção vascular.
Estresse oxidativo: disfunção mitocondrial.
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Complicações: microvasculares (retinopatia → cegueira; nefropatia → insuficiência renal; neuropatia) e
macrovasculares (doença coronariana, AVC, arteriopatia periférica → amputação).
4. Resumo dos mecanismos compensatórios vs. descompensatórios
Situação
Mecanismo compensatório
(fisiológico)
Mecanismo descompensatório (patológico)
Hipoglicemia ↓ Insulina; ↑ glucagon, adrenalina,
cortisol, GH → glicogenólise +
gliconeogênese → normaliza glicose
Falência da resposta (ex.: DM1 com falha de
glucagon + hipoglicemia não percebida) →
neuroglicopenia → convulsão/coma; excesso de
insulina exógena
Hiperglicemia
pós-prandial
↑ Insulina (1ª e 2ª fases) + ↓ glucagon
→ captação periférica + estoque →
normaliza
Deficiência de insulina (DM1) ou resistência +
falência beta (DM2) → hiperglicemia sustentada
→ glicosúria, desidratação, cetoacidose,
complicações crônicas
Jejum
prolongado
↓ Insulina, ↑ glucagon → glicogenólise
→ gliconeogênese → cetogênese
(cérebro usa cetonas) → mantém
glicose e preserva proteína
Excesso de cetogênese (DM1 sem insulina) →
cetoacidose;jejum extremo → hipoglicemia por
esgotamento de substratos
Estresse/doença
aguda
↑ Cortisol, adrenalina, glucagon →
hiperglicemia de estresse (fornece
energia ao cérebro e músculo)
Excesso prolongado (Síndrome de Cushing,
sepse) → diabetes tipo 2 induzido por
esteroides, imunossupressão
APG — Pâncreas & Adrenais
19
APG 2
Glândulas Adrenais
Caneta Vermelha — Objetivos 1, 2 e 3
APG — Pâncreas & Adrenais
20
APG 2 — Glândulas Adrenais (Suprarrenais)
Objetivos do APG 2 (extraídos da foto — caneta vermelha):
1. Entender a anatomia, histologia, embriologia e fisiologia das glândulas adrenais;
2. Morfofisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e sua relação com os glicocorticoides;
3. Explicar como funcionam os glicocorticoides e a sua relação com o metabolismo e o sistema
imune.
Objetivo 1 — Anatomia, Histologia, Embriologia e Fisiologia das
Glândulas Adrenais
1. Embriologia das Glândulas Adrenais (Moore)
Um ponto fundamental: o córtex e a medula da glândula adrenal têm origens embrionárias
completamente distintas. O córtex deriva do mesoderma (mesotélio celômico / crista urogenital),
enquanto a medula deriva do neuroectoderma (células da crista neural — origem simpática). Essa dupla
origem explica as diferentes funções e as diferentes patologias de cada porção.
1.1 Desenvolvimento do córtex adrenal
5ª–6ª semana: células do mesotélio celômico (epitélio que reveste a crista urogenital, entre o
mesonefro e a raiz do mesentério dorsal) proliferam e formam o primórdio adrenogonadal, que se
separa em primórdio adrenal e primórdio gonadal. A primeira onda de células forma o córtex fetal
(zona fetal) — grande, voluminoso, que produz andrógenos (DHEA, DHEA-S) convertidos em estriol
pela placenta (unidade feto-placentária).
6ª–7ª semana: uma segunda onda de células mesoteliais envolve o córtex fetal, formando o córtex
definitivo (zona definitiva) mais externa, que produzirá glicocorticoides e mineralocorticoides.
8ª–9ª semana: o primórdio adrenal se separa do restante do mesotélio, torna-se encapsulado e assume
posição cranial ao rim (metanefro) em desenvolvimento. Nesta fase, a glândula adrenal é muito maior
que o rim (proporcionalmente).
Nascimento: a adrenal pesa ~8–9 g (tamanho quase adulto), representando ~0,4% do peso corporal. A
zona fetal é enorme.
Pós-natal: a zona fetal sofre involução rápida por apoptose, desaparecendo por volta dos 6–12
meses. A zona glomerulosa e a zona fasciculada estão presentes ao nascimento; a zona reticulada só
se diferencia completamente por volta dos 3 anos de idade. No adulto, a adrenal pesa ~4–5 g e
representa apenas ~0,01% do peso corporal.
1.
2.
3.
1.
2.
3.
4.
5.
APG — Pâncreas & Adrenais
21
1.2 Desenvolvimento da medula adrenal
7ª semana: células da crista neural (neuroblastos simpáticos / cromafinas) migram da região do
tronco simpático para o interior do córtex fetal, invadindo a porção medial ao longo da veia central.
Essas células se diferenciam em células cromafins da medula, que produzem catecolaminas
(adrenalina ~80%, noradrenalina ~20%). A produção de catecolaminas é detectável por volta da 10ª
semana.
A organização cortical-medular é funcionalmente importante: o sangue rico em cortisol do córtex
passa para a medula (sistema portal cortical-medular), e o cortisol induz a enzima feniletanolamina-
N-metiltransferase (PNMT), que converte noradrenalina em adrenalina. Por isso a medula adrenal
produz principalmente adrenalina (diferente dos gânglios simpáticos, que produzem só noradrenalina).
Figura 5 — Desenvolvimento embrionário da glândula adrenal: (A–C) migração das células da crista neural (cromafins) para o
interior do córtex fetal (mesodérmico); (D) formação das zonas definitivas (glomerulosa, fasciculada, reticulada) e da medula,
completando-se a zonificação por volta dos 3 anos de idade pós-natal.
1.3 Correlações clínicas embriológicas
Hiperplasia adrenal congênita (HAC): defeito enzimático na esteroidogênese (mais comum: 21-
hidroxilase) → ↑ ACTH por falta de feedback → hiperplasia cortical → excesso de andrógenos →
virilização de fetos do sexo feminino (genitais ambíguos), perda de sal (forma perdedora de sal).
Insuficiência adrenal congênita: defeitos de desenvolvimento (SF-1, DAX-1) → hipoplasia adrenal.
1.
2.
3.
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APG — Pâncreas & Adrenais
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Neuroblastoma: tumor de células da crista neural (medula/simpático), mais comum em crianças.
Feocromocitoma: tumor de células cromafins da medula → excesso de catecolaminas → hipertensão
paroxística.
Tecido adrenal ectópico: remanescentes corticais ao longo da trajetória migratória (ao longo dos
vasos, no retroperitônio, no testículo/ovário).
2. Anatomia das Glândulas Adrenais
As glândulas adrenais (ou suprarrenais) são duas glândulas endócrinas pareadas, em forma de pirâmide
(direita, mais triangular) ou meia-lua (esquerda), pesando ~4–5 g cada no adulto. Localizam-se no espaço
retroperitoneal, sobre o pólo superior de cada rim, dentro da fáscia renal (fáscia de Gerota), separadas do
rim por tecido adiposo perirrenal.
2.1 Relações anatômicas
Adrenal direita: triangular, situada entre o pólo superior do rim direito e a veia cava inferior.
Anteriormente: fígado (lobo direito) e veia cava inferior. Medialmente: veia cava inferior.
Posteriormente: diafragma.
Adrenal esquerda: semilunar, situada medial ao pólo superior do rim esquerdo. Anteriormente: bolsa
omental, estômago, pâncreas e artéria esplênica. Medialmente: aorta abdominal. Posteriormente:
diafragma.
2.2 Irrigação e drenagem (muito ricas em sangue — maior fluxo por grama de tecido do corpo)
Artérias (3 ramos para cada glândula): artéria suprarrenal superior (ramo da frênica inferior), artéria
suprarrenal média (ramo direto da aorta), artéria suprarrenal inferior (ramo da artéria renal).
Drenagem venosa: veia suprarrenal direita → drena diretamente na veia cava inferior (curta e larga —
risco cirúrgico). Veia suprarrenal esquerda → drena na veia renal esquerda (mais longa).
Microcirculação: as artérias formam plexo subcapsular → capilares sinusoides centrípetos (córtex →
medula) → veia central → veia suprarrenal. Esse arranjo em sistema portal garante que a medula
receba sangue rico em cortisol (induz PNMT).
Inervação: medula — fibras simpáticas pré-ganglionares (T5–T11, nervo esplâncnico maior) que
fazem sinapse diretamente nas células cromafins (as células cromafins são equivalentes a neurônios
pós-ganglionares modificados). Córtex — principalmente regulação hormonal (ACTH, angiotensina
II, K⁺), com pouca inervação direta.
3. Histologia das Glândulas Adrenais (Junqueira & Carneiro)
Cada glândula é envolvida por uma cápsula de tecido conjuntivo denso, da qual partem septos finos com
vasos e nervos. O parênquima é dividido em duas regiões morfológica e funcionalmente distintas: córtex
(externo, ~90% do volume, origem mesodérmica, produz hormônios esteroides) e medula (central, ~10%,
origem da crista neural, produz catecolaminas).
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APG — Pâncreas & Adrenais
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Figura 6 — Corte histológico da glândula adrenal (HE). (A) Baixo aumento: córtex (C) e medula (M). (B) Médio aumento:
cápsula, zona glomerulosa, zona fasciculada (células claras, ricas em lipídios — "spongiocytes") e zona reticular. A medula (não
mostrada em B) apresenta células cromafins poligonais em cordões.
APG — Pâncreas & Adrenais
24
3.1 Córtex adrenal — três zonas concêntricas
As células corticais são típicas de glândulas esteroidogênicas: núcleo esférico, citoplasma rico em REL
(retículo endoplasmático liso), mitocôndrias com cristas tubulares (não lamelares) e gotículas de lipídios
(colesterol — substrato para esteroides). Em HE, as células da fasciculada parecem claras/vacuolizadas
("esponjócitos") devido à dissolução dos lipídios durante o processamento.
Zona Proporção Organização histológicaHormônios Regulação principal
Zona
glomerulosa
(ZG)
~15% Células pequenas, com
poucos lipídios, dispostas
em aglomerados
arredondados (glomus =
novelo) sob a cápsula.
Citoplasma eosinófilo.
Mineralocorticoides
(principal: aldosterona)
Sistema renina-
angiotensina-
aldosterona (SRAA)
e K⁺ plasmático. Não
depende de ACTH de
forma importante.
Zona
fasciculada
(ZF)
~75% Células grandes
("esponjócitos"),
poliédricas, ricas em
lipídios (claras em HE),
dispostas em longas
colunas radiais (fascículos)
separadas por capilares
sinusoides.
Glicocorticoides
(principal: cortisol) e
pequena quantidade de
andrógenos
ACTH
(adenohipófise) —
eixo HHA
Zona
reticular
(ZR)
~10% Células menores, mais
eosinófilas (poucos
lipídios), dispostas em
cordões anastomosados
(rede = reticulum) em
contato com a medula.
Contém lipofuscina
(pigmento de desgaste).
Andrógenos adrenais
(DHEA, DHEA-S,
androstenediona) e
pequena quantidade de
glicocorticoides
ACTH (e possível
fator estimulante de
andrógenos adrenais
— ainda não
caracterizado)
Mnemônico útil: "GFR → A C D" — Glomerulosa → Aldosterona; Fasciculada → Cortisol; Reticular
→ DHEA (andrógenos).
3.2 Medula adrenal
A medula é composta por células cromafins (ou feocromócitos): células grandes, poligonais, com
citoplasma granular basófilo, dispostas em cordões curtos ou aglomerados ao redor de sinusoides e da veia
central. O nome "cromafim" deriva da reação com sais de cromo (cromo-afinidade), que oxidam as
catecolaminas produzindo pigmento marrom. As células contêm grânulos de secreção com catecolaminas:
~80% das células: produzem adrenalina (epinefrina) — grânulos menos densos (contêm PNMT,
induzida pelo cortisol do córtex).
•
APG — Pâncreas & Adrenais
25
~20% das células: produzem noradrenalina (norepinefrina) — grânulos mais densos.
Além das células cromafins, a medula contém neurônios simpáticos ganglionares esparsos, fibras
nervosas pré-ganglionares (nervo esplâncnico) e vasos. A medula é, funcionalmente, um gânglio
simpático modificado: as fibras pré-ganglionares liberam acetilcolina sobre as células cromafins, que
respondem liberando catecolaminas diretamente no sangue (função endócrina), em vez de inervar um
órgão-alvo.
4. Fisiologia das Glândulas Adrenais (Guyton; Silverthorn)
4.1 Hormônios do córtex — esteroidogênese
Todos os hormônios corticais são sintetizados a partir do colesterol (captado das LDL plasmáticas —
receptor LDL, ou sintetizado de novo). A etapa limitante é o transporte do colesterol para a mitocôndria
pela proteína StAR (steroidogenic acute regulatory protein), estimulada por ACTH (na ZF/ZR) ou
angiotensina II/K⁺ (na ZG). As enzimas são da família do citocromo P450 (CYP).
Hormônio Zona Enzima-chave Ação principal
Aldosterona Glomerulosa Aldosterona
sintase
(CYP11B2)
Retenção de Na⁺ e água, excreção de K⁺ e H⁺ no
túbulo contorcido distal e coletor renal (via receptor
mineralocorticoide → canais ENaC, Na⁺/K⁺-
ATPase). Regula pressão arterial e volume.
Cortisol Fasciculada 11β-hidroxilase
(CYP11B1)
Glicocorticoide: gliconeogênese, anti-inflamatório,
imunossupressor, resposta ao estresse. Detalhado no
Objetivo 3.
DHEA / DHEA-S /
androstenediona
Reticular 17,20-liase
(CYP17)
Andrógenos fracos; convertidos em testosterona/
estradiol nos tecidos periféricos. Importantes no
adrenarca (pube), na libido feminina e como fonte de
estrogênio na mulher pós-menopausa.
Enzima 11β-HSD2 (proteção tecidual):
O cortisol também se liga ao receptor mineralocorticoide com alta afinidade. Para evitar que o
cortisol (em concentração ~1000× maior que a aldosterona) ative excessivamente os receptores
mineralocorticoides no rim, as células tubulares renais expressam a enzima 11β-hidroxiesteroide
desidrogenase tipo 2 (11β-HSD2), que converte cortisol em cortisona (inativa). Defeito nesta
enzima (ou inibição por alcaçuz — ácido glicirrizínico) causa "hiperaldosteronismo aparente" com
hipertensão e hipocalemia.
•
APG — Pâncreas & Adrenais
26
4.2 Hormônios da medula — catecolaminas
São sintetizadas a partir da tirosina: tirosina → DOPA (tirosina hidroxilase — etapa limitante) →
dopamina → noradrenalina (dopamina β-hidroxilase, nas vesículas) → adrenalina (PNMT, no citoplasma,
induzida por cortisol). São armazenadas em grânulos com ATP e cromograninas, e liberadas por exocitose
sob estímulo colinérgico (ACh dos nervos esplâncnicos) durante o estresse agudo (reação "luta ou fuga").
Efeitos das catecolaminas (via receptores adrenérgicos α e β):
Cardiovasculares: ↑ frequência e contratilidade cardíacas (β1), vasoconstrição cutânea/renal/visceral
(α1), vasodilatação muscular e coronariana (β2) → ↑ pressão arterial, redireciona sangue para músculo
e cérebro.
Metabólicos: ↑ glicogenólise hepática e muscular (β2), ↑ gliconeogênese, ↑ lipólise (β3 em
adipócitos) → ↑ glicose e ácidos graxos (energia para luta/fuga). Inibe secreção de insulina (α2).
Respiratórios: broncodilatação (β2).
Oculares: midríase (α1 — dilata pupila).
GI: relaxamento da musculatura lisa intestinal (β2), contração de esfíncteres (α1) — inibe digestão.
Sudorese: estimula glândulas sudoríparas (colinérgicas simpáticas).
Objetivo 2 — Morfofisiologia do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal
(HHA) e sua Relação com os Glicocorticoides
1. Organização morfológica do eixo HHA
O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) é o sistema neuroendócrino responsável pela regulação da
secreção de glicocorticoides (cortisol) e, em menor grau, de andrógenos adrenais. É composto por três
níveis hierárquicos:
Hipotálamo (núcleo paraventricular — PVN): neurônios parvocelulares sintetizam e secretam o
hormônio de liberação de corticotrofina (CRH — corticotropin-releasing hormone), peptídeo de
41 aa, além da vasopressina (AVP/ADH), que potencializa o efeito do CRH. Esses hormônios são
liberados nos terminais nervosos da eminência mediana e transportados pelo sistema porta
hipotálamo-hipofisário para a adenohipófise.
Adenohipófise (lobo anterior): as células corticotróficas expressam receptores para CRH (GPCR →
AMPc → PKA) e produzem a proopiomelanocortina (POMC), um pró-hormônio que é clivado em:
ACTH (adrenocorticotropic hormone — 39 aa), β-lipotrofina, β-endorfina, MSH (hormônio
melanócito-estimulante — compartilha sequência com ACTH). O ACTH é liberado na circulação
sistêmica.
Glândula adrenal (córtex — zona fasciculada e reticular): o ACTH se liga ao receptor MC2R
(receptor de melanocortina 2) na superfície das células corticais → Gs → AMPc → PKA → ↑
expressão de StAR e enzimas esteroidogênicas → ↑ síntese e liberação de cortisol (principal) e
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1.
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3.
APG — Pâncreas & Adrenais
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andrógenos adrenais. O ACTH também tem efeito trófico (manutenção do tamanho e função das zonas
fasciculada e reticular — sem ACTH, há atrofia cortical).
APG — Pâncreas & Adrenais
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APG — Pâncreas & Adrenais
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Figura 7 — Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA): estresse e regulação circadiana estimulam o hipotálamo a liberar CRH,
que estimula a adenohipófise a liberar ACTH, que por sua vez estimula o córtex adrenal a produzir cortisol. O cortisol exerce
feedback negativo sobre a hipófise e o hipotálamo, fechando o loop regulatório.
2. Feedback negativo (alça de regulação)
O cortisol livre (não ligado à globulina ligadora de corticosteroides — CBG) exerce feedback negativo
em dois níveis:
Longo loop: cortisol inibe a secreção de CRH pelo hipotálamo e de ACTH pela adenohipófise
(receptores de glicocorticoide no hipotálamo e hipófise). É o mecanismo principal.
Curto loop: o próprio ACTH inibe a secreção de CRH pelo hipotálamo.
Ultra-curto loop: o CRH inibe sua própria secreção.
Esse feedback garante que os níveis de cortisol sejam mantidos dentro de limites fisiológicos. Quando o
cortisol está alto, CRH e ACTH caem; quando o cortisolestá baixo (ex.: insuficiência adrenal primária), o
feedback é removido e o ACTH dispara (muito elevado — causa hiperpigmentação, pois o ACTH
compartilha sequência com α-MSH, que estimula melanócitos).
Correlação clínica — uso crônico de glicocorticoides exógenos:
O uso prolongado de prednisona/cortisol exógeno suprime o eixo HHA por feedback negativo,
levando à atrofia do córtex adrenal (por falta de ACTH trófico). A suspensão abrupta pode causar
crise adrenal (insuficiência adrenal aguda): hipotensão, choque, hipoglicemia, morte. Por isso, a
retirada de esteroides deve ser gradual (tapering), permitindo a recuperação do eixo.
3. Ritmo circadiano (ritmo diurno do cortisol)
A secreção de cortisol não é constante — segue um ritmo circadiano controlado pelo núcleo
supraquiasmático (SCN) do hipotálamo (relógio biológico), sincronizado pelo ciclo claro-escuro:
Pico: ~30 min após acordar (pico matinal, 6–8 h) — prepara o organismo para a atividade diária (↑
glicose, ↑ tônus vascular, ↑ alerta).
Declínio ao longo do dia.
Nível mais baixo (nadir): por volta da meia-noite (0 h), durante o sono profundo.
Além do ritmo, há secreção pulsátil (pulsos a cada ~1–2 h) sobreposta ao ritmo circadiano.
O estresse (físico: cirurgia, trauma, infecção, hipoglicemia, dor; psicológico: ansiedade, medo) superpõe-
se ao ritmo circadiano e estimula o eixo HHA (via CRH e AVP), elevando o cortisol independentemente
do horário. Isso é fundamental para a sobrevivência: o cortisol mobiliza energia, mantém a pressão arterial
(permissivo às catecolaminas) e modula a inflamação.
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APG — Pâncreas & Adrenais
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4. O cortisol como hormônio do estresse — eixo HHA na resposta ao estresse
Na resposta ao estresse, o eixo HHA é ativado em paralelo com o sistema simpático-adrenal (luta ou
fuga). O cortisol tem funções permissivas e protetoras:
Energia: mantém glicose disponível para o cérebro (gliconeogênese, inibe captação periférica de
glicose, mobiliza aminoácidos e ácidos graxos).
Cardiovascular: efeito permissivo sobre a ação vasoconstritora das catecolaminas (up-regula
receptores α-adrenérgicos) — sem cortisol, ocorre hipotensão e choque (crise adrenal).
Anti-inflamatório/imunomodulador: limita a resposta inflamatória para que não se torne danosa
(evita tempestade de citocinas). Detalhado no Objetivo 3.
Modulação do SNC: humor, cognição, memória (em excesso crônico → atrofia hipocampal,
depressão).
5. Patologias do eixo HHA (correlação clínica)
Doença Mecanismo ACTH Cortisol
Doença de Cushing (adenoma
hipofisário secretor de ACTH)
ACTH excessivo →
hiperplasia adrenal bilateral
→ ↑ cortisol
↑↑ ↑↑ (sem
ritmo
circadiano)
Síndrome de Cushing (causas:
carcinoma adrenal, corticosteroides
exógenos, carcinoma ectópico de ACTH
— ex.: carcinoma de pulmão de
pequenas células)
Cortisol excessivo
(endógeno ou exógeno)
↓ (feedback, exceto
ACTH ectópico)
↑↑
Doença de Addison (insuficiência
adrenal primária — tuberculose,
autoimune)
Destruição do córtex
adrenal → falta de cortisol
e aldosterona
↑↑ (sem feedback)
→ hiperpigmentação
↓↓
Insuficiência adrenal secundária
(hipopituitarismo, retirada abrupta de
esteroides)
Falta de ACTH → atrofia
adrenal (zona fasciculada/
reticular; glomerulosa
preservada — aldosterona
normal)
↓ ↓
•
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APG — Pâncreas & Adrenais
31
Objetivo 3 — Glicocorticoides: Funcionamento, Relação com o
Metabolismo e o Sistema Imune
1. Mecanismo de ação dos glicocorticoides
Os glicocorticoides (cortisol endógeno; prednisona, dexametasona, metilprednisolona exógenos) são
hormônios lipofílicos (esteroides), que atravessam a membrana celular por difusão simples e atuam por
mecanismo genômico (principal, lento — horas a dias) e também por mecanismos não-genômicos
rápidos (minutos).
1.1 Mecanismo genômico clássico
No citoplasma, o glicocorticoide liga-se ao receptor de glicocorticoide (GR — NR3C1), que está
inativo em complexo com proteínas de choque térmico (HSP90, HSP70, HSP40) e imunofilinas.
A ligação causa dissociação das HSPs, exposição do sinal de localização nuclear (NLS), dimerização
do receptor e translocação para o núcleo.
No núcleo, o complexo GC-GR dimerizado liga-se a sequências específicas do DNA chamadas GRE
(glucocorticoid response elements) na região promotora de genes-alvo, modulando a transcrição.
Existem dois modos principais:
Transativação (genes ativados): ↑ transcrição de genes anti-inflamatórios e metabólicos: anexina
A1 (lipocortina-1) (inibe fosfolipase A2 → ↓ ácido araquidônico → ↓ prostaglandinas e
leucotrienos), IκBα (inibidor de NF-κB), receptor β2-adrenérgico, enzimas gliconeogênicas
(PEPCK, glicose-6-fosfatase), etc.
Transrepressão (genes inibidos): o GR monomerizado interage diretamente com fatores de
transcrição pró-inflamatórios — NF-κB, AP-1, NFAT — impedindo sua ligação ao DNA.
Resultado: ↓ transcrição de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, IL-2, IL-6, TNF-α, IFN-γ),
quimiocinas, moléculas de adesão (ICAM-1, VCAM-1), COX-2, iNOS, PLA2. Este é o principal
mecanismo do efeito anti-inflamatório e imunossupressor.
1.
2.
3.
◦
◦
APG — Pâncreas & Adrenais
32
Figura 8 — Mecanismo de ação genômico dos glicocorticoides: difusão através da membrana, ligação ao receptor
citoplasmático (GR), translocação nuclear, transativação (genes anti-inflamatórios: anexina A1/lipocortina, IκBα) e
transrepressão (bloqueio de NF-κB/AP-1 → ↓ citocinas, COX-2). Efeito líquido: potente ação anti-inflamatória e
imunossupressora.
1.2 Mecanismos não-genômicos (rápidos)
Além da via genômica (que leva horas), os glicocorticoides têm efeitos rápidos (minutos): ativação de
eNOS (via PI3K/Akt → vasodilatação), interação com membranas celulares, inibição da liberação de
histamina por mastócitos. Esses efeitos explicam a ação rápida em crises asmáticas e reações anafiláticas.
2. Efeitos metabólicos dos glicocorticoides (Guyton)
O cortisol é um hormônio catabólico e hiperglicemiante — eleva a glicose sanguínea e mobiliza
substratos energéticos, opondo-se à insulina. Seus efeitos por tecido:
Tecido/processo Efeito do cortisol Consequência
Fígado ↑ Expressão de enzimas gliconeogênicas (PEPCK,
frutose-1,6-bifosfatase, glicose-6-fosfatase); ↑
captação de aminoácidos; ↑ glicogênio hepático
(paradoxal — por indução da glicogênio sintase)
↑↑ Glicose sanguínea
(gliconeogênese); aumento de
estoque de glicogênio hepático
Músculo
esquelético
↓ Captação de glicose (antagoniza insulina —
"resistência à insulina fisiológica"); ↑ proteólise (↑
quebra de proteínas → aminoácidos para
gliconeogênese); ↓ síntese proteica
Fraqueza muscular, atrofia (em
excesso crônico — miopatia
esteroide); ↑ aminoácidos
plasmáticos
APG — Pâncreas & Adrenais
33
Tecido adiposo ↑ Lipólise (libera ácidos graxos livres — substrato
energético); mas ↑ apetite e redistribuição de gordura
para tronco e face (em excesso)
↑ Ácidos graxos livres; em excesso:
"bufa de búfalo", face de lua cheia,
obesidade central (Síndrome de
Cushing)
Pâncreas Inibe secreção de insulina (em altas concentrações);
↑ glucagon
Hiperglicemia; pode causar
"diabetes esteroide"
Osso ↓ Absorção intestinal de Ca²⁺ (inibe vitamina D); ↑
excreção renal de Ca²⁺; ↓ osteoblastogênese, ↑
apoptose de osteoblastos; ↑ osteoclastogênese
(RANKL)
Osteoporose, necrose avascular (em
uso crônico)
Cartilagem/
criança
Inibe eixo GH-IGF-1; inibe proliferação de
condrócitos
Retardo de crescimento em crianças
Cardiovascular Efeito permissivo: ↑ expressão de receptores α-
adrenérgicos; ↑ resposta vascular a catecolaminas; ↑
angiotensinogênio
Mantém tônus vascular e pressão
arterial; em excesso: hipertensão
Água e
eletrólitos
Em altas concentrações, liga receptor
mineralocorticoide (leve): retenção de Na⁺ e água,
perda de K⁺
Edema, hipocalemia (em excesso);
aumenta taxa de filtraçãoglomerular
Por que o cortisol é chamado de "glicocorticoide"?
Por seu efeito principal de elevar a glicose sanguínea (gluco-) e por ser produzido no córtex adrenal
(-corticoide). O nome "cortisol" deriva do córtex. O termo "corticoide" abrange glicocorticoides,
mineralocorticoides e andrógenos adrenais.
3. Efeitos dos glicocorticoides sobre o sistema imune e a inflamação
Os glicocorticoides são os mais potentes anti-inflamatórios e imunossupressores conhecidos, e por isso
são amplamente usados na prática clínica (asma, artrite reumatoide, lúpus, doenças inflamatórias
intestinais, rejeição de transplantes, reações alérgicas, choque). Seus efeitos ocorrem em múltiplos níveis:
3.1 Efeitos sobre a inflamação (anti-inflamatórios)
Inibição da fosfolipase A2 (via indução de anexina A1/lipocortina-1) → ↓ liberação de ácido
araquidônico → ↓ prostaglandinas (COX) e leucotrienos (LOX) — reduzem vasodilatação, edema e
dor.
↓ COX-2 e iNOS (transrepressão) → ↓ prostaglandinas inflamatórias e óxido nítrico (edema).
↓ Citocinas pró-inflamatórias: IL-1, IL-2, IL-6, TNF-α, IFN-γ, GM-CSF (transrepressão de NF-κB/
AP-1).
↓ Moléculas de adesão (ICAM-1, selectinas) → ↓ migração de leucócitos para o tecido inflamado.
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Efeito sobre leucócitos: causa leucocitose neutrofílica (neutrófilos deixam de se aderir ao endotélio
— "desmarginação" — aparecem no sangue, mas não chegam ao tecido); ↓ linfócitos, monócitos,
eosinófilos e basófilos (sequestro em linfonodos, apoptose de linfócitos T).
↓ Fibroblastos e colágeno → atraso na cicatrização, pele fina, estrias.
↓ Permeabilidade vascular → reduz edema.
↓ Febre (inibe IL-1 e TNF-α — pirógenos endógenos).
3.2 Efeitos sobre a imunidade (imunossupressores)
Célula/
componente
imune
Efeito do glicocorticoide
Linfócitos T ↓ Produção de IL-2 (principal fator de crescimento de T) → ↓ proliferação de clones T; ↑
apoptose de timócitos e linfócitos T ativados; ↓ função citotóxica (CD8+). Por isso inibe
imunidade celular (rejeição de transplantes, doenças autoimunes).
Linfócitos B Em altas doses: ↓ produção de anticorpos (menos sensível que os T). Usados em doenças
mediadas por autoanticorpos.
Macrófagos /
monócitos
↓ Quimiotaxe, ↓ fagocitose, ↓ apresentação de antígenos (↓ MHC classe II), ↓ produção de
citocinas (IL-1, TNF-α, IL-6).
Neutrófilos ↑ Contagem sanguínea (desmarginação), mas ↓ migração para tecidos e ↓ função
bactericida.
Eosinófilos /
basófilos
↓ Contagem (apoptose, sequestro) → úteis em doenças alérgicas e parasitárias
(eosinofílicas).
Mastócitos ↓ Liberação de histamina (efeito não-genômico rápido) → úteis em anafilaxia.
Complemento Pouco efeito direto, mas reduz quimiotaxia complemento-mediada.
Custo clínico da imunossupressão:
O uso crônico de glicocorticoides predispõe a infecções oportunistas (tuberculose reativada, fungos,
herpes, Pneumocystis jirovecii), pois suprime tanto imunidade celular quanto humoral. Também
pode mascarar sinais de infecção (febre, inflamação local), atrasando o diagnóstico.
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4. Síndrome de Cushing vs. Doença de Addison — correlação clínica integrada
4.1 Hipercortisolismo (Síndrome de Cushing)
Manifestações do excesso de cortisol:
Metabólicas: hiperglicemia/diabetes, intolerância à glicose, dislipidemia, obesidade central ("face de
lua cheia", "corcova de búfalo", tronco obeso com membros finos — devido à lipólise periférica e
lipogênese central).
Musculoesqueléticas: fraqueza muscular proximal (atrofia), osteoporose, fraturas, necrose avascular
da cabeça femoral.
Cutâneas: pele fina, fragilidade capilar (hematomas fáceis), estrias violáceas (abdome, flancos),
cicatrização lenta, hirsutismo (andrógenos).
Cardiovasculares: hipertensão arterial (efeito mineralocorticoide + permissivo catecolaminérgico),
aterosclerose precoce.
Imunológicas: imunossupressão → infecções frequentes.
Neuropsiquiátricas: insônia, labilidade emocional, depressão, psicose (em altas doses).
Reprodutivas: irregularidade menstrual, impotência, diminuição da libido.
Eletrolíticas: hipocalemia, alcalose metabólica (em excesso muito grande — ativa receptor
mineralocorticoide).
4.2 Insuficiência adrenal (Doença de Addison — primária)
Manifestações da falta de cortisol (e aldosterona, na primária):
Metabólicas: hipoglicemia (falta de gliconeogênese), perda de peso, anorexia, fraqueza, fadiga.
Cardiovasculares: hipotensão arterial, tontura, sincope (falta do efeito permissivo sobre
catecolaminas; perda de Na⁺ e água por falta de aldosterona).
Eletrolíticas: hiponatremia, hipercalemia, acidose metabólica (falta de aldosterona).
Cutâneas: hiperpigmentação (palmas, dobras, mucosas) — ACTH elevado (sem feedback)
compartilha sequência com α-MSH → estimula melanócitos. (Na insuficiência secundária, ACTH está
baixo → não há hiperpigmentação.)
Gastrointestinais: náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia.
Crise adrenal (Addisoniana): descompensação aguda diante de estresse (infecção, cirurgia) →
choque hipovolêmico, hipoglicemia grave, confusão, coma — emergência médica, tratada com
hidrocortisona IV + soro glicosado + correção de K⁺.
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Referências Bibliográficas
MOORE, K. L.; PERSAUD, T. V. N.; TORCHIA, M. G. O Desenvolvimento Humano — Embriologia Clínica. 10ª
ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. (Capítulo 11 — Sistema Digestório; desenvolvimento do pâncreas; Capítulo 12 —
Sistema Urogenital; desenvolvimento das glândulas adrenais.)
JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Histologia Básica — Texto e Atlas. 13ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2017. (Capítulo 16 — Sistema Endócrino: pâncreas endócrino, glândulas adrenais; Capítulo 15 — Sistema Digestório:
pâncreas exócrino.)
GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. (Capítulos 78–
79 — Insulina, glucagon e diabetes; Capítulo 77 — Hormônios adrenais.)
SILVERTHORN, D. U. Fisiologia Humana — Uma Abordagem Integrada. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
(Capítulo 22 — Metabolismo e crescimento; Capítulo 23 — Hormônios integrados: pâncreas e adrenais.)
COSTANZO, L. S. Fisiologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018. (Capítulos de endocrinologia.)
BORON, W. F.; BOULPAEP, E. L. Fisiologia Médica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
MACHADO, A. B. M. Embriologia Humana. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed.
NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier.
Imagens: obtidas de domínio público e acervos educacionais (adaptadas de Moore, Junqueira, Netter e literatura científica),
utilizadas exclusivamente para fins didáticos acadêmicos.
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APG — Pâncreas & Adrenais
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APG — Pâncreas, Insulinae Glândulas Adrenais
Estudo Dirigido Detalhado
Sumário
APG 1 — Pâncreas e Insulina
Objetivo 5.1 — Anatomia, Histologia e Fisiologia do Pâncreas
1. Embriologia do Pâncreas (Moore — O Desenvolvimento Humano)
1.1 Formação dos brotos pancreáticos (4ª a 5ª semana)
1.2 Rotação e fusão dos brotos (6ª a 7ª semana)
1.3 Fusão dos sistemas ductais
1.4 Diferenciação das porções exócrina e endócrina
1.5 Anomalias congênitas (correlação clínica — Moore)
2. Anatomia do Pâncreas
2.1 Divisões anatômicas
2.2 Ductos pancreáticos
2.3 Irrigação arterial, drenagem venosa e linfática
3. Histologia do Pâncreas (Junqueira & Carneiro)
3.1 Porção exócrina
3.2 Porção endócrina — Ilhotas de Langerhans
4. Fisiologia do Pâncreas (Guyton & Hall; Silverthorn)
4.1 Função exócrina — Suco pancreático
4.2 Função endócrina — Visão geral
Objetivo 5.2 — Insulina e Glucagon: Regulação do Metabolismo (Síntese e Liberação)
1. Insulina — Síntese e Liberação
1.1 Síntese da insulina (células beta das ilhotas de Langerhans)
1.2 Mecanismo de liberação de insulina — "secreção estimulada por glicose"
1.3 Outrosestímulos e inibidores da secreção de insulina
1.4 Mecanismo de ação da insulina — Receptor de insulina e via de sinalização
1.5 Efeitos metabólicos da insulina (Guyton)
2. Glucagon — Síntese e Liberação
2.1 Síntese do glucagon (células alfa das ilhotas)
2.2 Estímulos e inibidores da secreção de glucagon
2.3 Mecanismo de ação do glucagon
2.4 Efeitos metabólicos do glucagon
3. Outros hormônios das ilhotas
Objetivo 5.3 — Mecanismos Descompensatórios e Compensatórios da Glicemia
1. Homeostase glicêmica normal
1.1 Estado pós-prandial (absortivo)
1.2 Estado de jejum (pós-absortivo)
2. Mecanismos compensatórios da hipoglicemia
3. Mecanismos descompensatórios — Hiperglicemia e Diabetes Mellitus
3.1 Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1 — autoimune)
3.2 Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2 — resistência à insulina + deficiência relativa)
3.3 Complicações crônicas da hiperglicemia (mecanismos descompensatórios)
4. Resumo dos mecanismos compensatórios vs. descompensatórios
APG 2 — Glândulas Adrenais (Suprarrenais)
Objetivo 1 — Anatomia, Histologia, Embriologia e Fisiologia das Glândulas Adrenais
1. Embriologia das Glândulas Adrenais (Moore)
1.1 Desenvolvimento do córtex adrenal
1.2 Desenvolvimento da medula adrenal
1.3 Correlações clínicas embriológicas
2. Anatomia das Glândulas Adrenais
2.1 Relações anatômicas
2.2 Irrigação e drenagem (muito ricas em sangue — maior fluxo por grama de tecido do corpo)
3. Histologia das Glândulas Adrenais (Junqueira & Carneiro)
3.1 Córtex adrenal — três zonas concêntricas
3.2 Medula adrenal
4. Fisiologia das Glândulas Adrenais (Guyton; Silverthorn)
4.1 Hormônios do córtex — esteroidogênese
4.2 Hormônios da medula — catecolaminas
Objetivo 2 — Morfofisiologia do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HHA) e sua Relação com os Glicocorticoides
1. Organização morfológica do eixo HHA
2. Feedback negativo (alça de regulação)
3. Ritmo circadiano (ritmo diurno do cortisol)
4. O cortisol como hormônio do estresse — eixo HHA na resposta ao estresse
5. Patologias do eixo HHA (correlação clínica)
Objetivo 3 — Glicocorticoides: Funcionamento, Relação com o Metabolismo e o Sistema Imune
1. Mecanismo de ação dos glicocorticoides
1.1 Mecanismo genômico clássico
1.2 Mecanismos não-genômicos (rápidos)
2. Efeitos metabólicos dos glicocorticoides (Guyton)
3. Efeitos dos glicocorticoides sobre o sistema imune e a inflamação
3.1 Efeitos sobre a inflamação (anti-inflamatórios)
3.2 Efeitos sobre a imunidade (imunossupressores)
4. Síndrome de Cushing vs. Doença de Addison — correlação clínica integrada
4.1 Hipercortisolismo (Síndrome de Cushing)
4.2 Insuficiência adrenal (Doença de Addison — primária)
Referências Bibliográficas