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136 PAULO E SUAS CARTAS demonstraram a autenticidade de sua fé, de seu crescimento no discipulado e de seu direito à liderança por meio dessas PAULO E A REDAÇÃO DE CARTAS A epistolografia helenística em geral A forma e a estrutura de uma carta Até cerca de cem anos atrás, estudiosos dispunham apenas das obras clássicas da Grécia antiga, incluindo cartas altamente literárias, para comparar com as car- tas de Paulo. Então, nas décadas que antecederam a Primeira Guerra Mundial, Adolf Deissmann traduziu e analisou muitos papiros não literários descobertos fazia pouco tempo, especialmente papiros do Egito. Deissmann defendeu uma clara dissociação entre a retórica rebuscada das cartas clássicas e a prosa simples e comum dos papiros, imaginando que, na forma e no estilo, Paulo se aproximava bem mais dos papiros do que das cartas clássicas.⁴¹ Hoje em dia os estudiosos situam as cartas de Paulo entre esses dois extremos da escala que vai da escrita formal à informal, mas estilo pessoal e, às vezes, até casual das cartas ainda mostra maior afinidade com seus equivalentes não literários.⁴² A estrutura simples das breves e singelas cartas helenísticas, mesmo quando significativamente ampliada na forma ou na extensão, é responsável por uma maioria considerável das cartas do Novo Testamento atribuídas a Paulo. (1) A carta começava com uma introdução, na qual havia (a) nome do autor, (b) os destinatários e (c) uma breve saudação. (2) Continuava com rápidas palavras de ação de graças e/ou um desejo ou oração pelo bem-estar dos destinatários. (3) corpo da carta vinha a seguir, (a) transmitindo as principais informações que o escritor queria comunicar, seguidas, quando necessário, de (b) uma seção de pedidos ou exortações aos destinatários. A carta então terminava com (4) saudações As maneiras em que Paulo mais divergia desse formato convencional provinham da natureza nitidamente teológica de sua correspondência. Tanto a introdução quanto as ações de graças eram explicitamente cristãs, e as ações de graças rotineiramente antecipavam temas-chave no corpo propriamente dito 40 Veja esp. John S. Pobee, Persecution and martyrdom in the theology of Paul (Sheffield, Reino Unido: JSOT, 1985). 41 Adolf Deissmann, Light from the ancient East, ed. rev. (New York/London, Reino Unido: Harper & Bros./Hodder & Stoghton, 1922), p. 146-251. 42 E.g., David E. Aune, The New Testament in its literary environment (Philadelphia: West- minster, 1987), p. 218. 43 Cf. McRay, Paul, p. 265; Holladay, A critical introduction to the New Testament: interpreting the message and meaning Jesus Christ (Nashville: Abingdon, 2005), p. 267-71.PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 137 das cartas.⁴⁴ O corpo das cartas era grandemente expandido e cuidadosamente elaborado; e com frequência o volume de exortações ultrapassava considera- velmente os paralelos nos papiros. Saudações finais muitas vezes recapitulavam temas-chave e acrescentavam os nomes de uma ou mais pessoas que, junta- mente com Paulo, enviavam cumprimentos aos destinatários.⁴⁵ Ainda assim, em comparação com grandes poetas e dramaturgos da Grécia do quarto e quinto séculos a.C., o estilo de Paulo permaneceu relativamente simples. A CARTA GRECO-ROMANA TÍPICA Saudação Saudações de X para Y Oração e/ou ação de graças Corpo Informação principal Exortação ou pedido Saudação final Usos de retórica Mais difícil de encaixar no modelo não literário de redação da época é a retó- rica de Paulo. Três grandes gêneros retóricos existiam no antigo mundo medi- terrâneo: judicial (ou forense), deliberativo e epidítico. A retórica judicial era usada em tribunais (ou em situações equivalentes) para proferir um veredito. A retórica deliberativa predominava na assembleia quando oradores apresen- tavam argumentos favoráveis e contrários a várias linhas de ação que estavam sendo consideradas. A retórica epidítica se concentrava em elogiar ou condenar, especialmente em discursos fúnebres ou concursos de oratória em vários ambientes públicos.⁴⁶ Algumas das cartas de Paulo refletem combinações de dois ou mais des- ses gêneros retóricos, e algumas são mais difíceis de classificar do que outras, mas tentativas de análise podem ajudar a esclarecer. Gálatas parece ser judicial nos vere- ditos condenatórios que Paulo pronuncia contra judaizantes, 2Tessalonicenses emprega basicamente retórica deliberativa quando Paulo recomenda determi- nada perspectiva sobre a escatologia para acalmar o ardor de alguns na igreja esp. Peter T. O'Brien, Introductory thanksgivings in the letters of Paul (Leiden/New York: Brill, 1977). Sobre a forma em si, cf. Jeffrey T. Reed, "Are Paul's thanksgivings JSNT61 (1996): 87-99. 45 Veja esp. Jeffrey A. D. Weima, Neglected endings: the significance of the Pauline letter closings (Sheffield, Reino Unido: SAP, 1994). Witherington, Paul quest, p. 116. Para uma apresentação e análise detalhadas, veja Stanley E. Porter, org., Handbook of classical rhetoric in the Hellenistic period (Leiden/New York: Brill, 1997).138 PAULO E SUAS CARTAS tessalonicense, ao passo que Efésios contém grandes doses de discurso epidítico, louvando a Deus por aquilo que, em Cristo, fez pela humanidade. Potencialmente ainda mais esclarecedores são os esquemas dos antigos discursos helenísticos. Assim como nas cartas, as peças de oratória continham uma série de seções especificadas que podiam ser modificadas ou subdivididas de várias maneiras, sendo possível acrescentar-lhes outras subseções ou supri- mir subseções existentes. mais comum desses esquemas incluía exordium (ou introdução), a narratio (explicando a natureza da questão a ser analisada), a propositio (a tese a ser defendida), a probatio (argumentos ou provas), a refuta- tio (refutando os argumentos contrários) e a peroratio (resumo e apelo final). 47 Abaixo (p. 171) apresentaremos uma síntese bastante persuasiva proposta nesses moldes para Gálatas. Os bons redatores de discursos refletiam cuidadosamente sobre três dimen- sões gerais de seu estilo oratório: ethos, pathos e logos. Ethos envolvia "um apelo ao caráter moral do pathos, "um apelo às e logos, "um apelo à lógica".⁴ A seção de probatio ou de provas no corpo da carta podia ela própria com- binar esses três elementos. Bons escritores e oradores reconheciam que cada um dos três atrairia e persuadiria diferentes tipos de ouvintes em diferentes momen- tos, de modo que todos permaneciam importantes. Naquela época, tal como hoje, apelos emocionais podiam às vezes conquistar mais apoio para uma causa do que a lógica ou um exemplo moral!⁴⁹ Muitas aplicações de análise retórica a cartas escritas como as de Paulo têm sido rejeitadas sob a alegação de que cartas não são discursos. No entanto, uma vez que cartas antigas eram escritas para serem lidas em voz alta, havia inevita- velmente alguma sobreposição entre as duas formas. Não podemos supor que cada carta seja de Paulo, seja de qualquer outra pessoa necessariamente se conformava com um esquema retórico específico; mas as propostas feitas pelos estudiosos devem ser testadas caso a caso, em vez de serem rejeitadas ou aceitas in totum simplesmente porque determinado estudioso está convencido de que as cartas tinham ou não uma dimensão retórica 47 Witherington, Paul quest, p. 117-8. próprio Witherington tem escrito nos últimos anos vários comentários sociorretóricos sobre livros do Novo Testamento, ressaltando com deta- lhes aquilo que ele acredita serem os gêneros retóricos e os contornos por trás de cada um. Duane Watson tem feito o mesmo em vários artigos com análises das cartas. 48 Gorman, Apostle of the crucified Lord, p. 85. 49 Cf. esp. Thomas H. Olbricht; Jerry L. Sumney, orgs., Paul and pathos (Atlanta: SBL, 2001). 50 Para advertências valiosas quanto ao uso da análise retórica em cartas, veja Stanley E. Porter, "The theoretical justification for application of rhetorical categories to Pauline epistolary litera- ture", in: Stanley E. Porter; Thomas H. Olbricht, orgs., Rhetoric and the New Testament (Sheffield: JSOT, 1993), p. 100-22. Para uma resposta equilibrada, veja Janet Fairweather, "The Epistle to the Galatians and classical rhetoric", TynBul 45 (1994): 1-38, 213-43.PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 139 Modificações judaicas Um número bem menor de cartas judaicas, em comparação com as greco-roma- nas, foi preservado desde a antiguidade. Aquelas que ainda existem se parecem, às vezes, com cartas puramente helênicas por causa do avanço de culturas não judaicas em comunidades judaicas em muitos lugares ao redor do império. Outras se parecem mais com algumas das formas de cartas que mais adiante veremos nas denominadas "Cartas Gerais". Não é de surpreender que Paulo introduza muitas técnicas judaicas de argumentação e análise, em especial em suas cita- ções e aplicações de textos do Antigo Testamento. Várias formas de interpretação midráshica apresentam uma ampla gama de recursos de comentários exegéticos destinados a explicar o significado e/ou a importância de textos obscuros ou então a atualizar para a época do autor leis e textos centenários que, à primeira vista, não parecem ser tão relevantes quanto outrora.⁵¹ Interpretações pesher entendem que cumpre-se na época do autor profecia antiga, seja preditiva, seja tipológica. Outros inúmeros recursos interpretativos hebraicos também aparecem inseridos ao longo das cartas de Paulo.⁵² Considerações adicionais Em um mundo de viagens e comunicações sem precedentes, mas ainda bastante distante da tecnologia de hoje, as cartas, especialmente as de Paulo, substituíam a presença pessoal de alguém. As questões sérias, sobre as quais acharíamos necessidade de conversar pessoalmente com alguém, simplesmente não podiam, salvo raras exceções, ser tratadas dessa maneira no antigo mundo mediterrâ- neo, caso a pessoa vivesse muito longe.⁵³ Talvez o exemplo mais impressionante disso nas cartas seja o pronunciamento por Paulo do veredito de excomunhão (ou morte?) contra o ofensor incestuoso em Corinto (1Co 5.1-5). Mais do que acontecia com muitas cartas helenísticas, Paulo usou a forma epistolar para tratar de controvérsias ideológicas e comportamentais que atormentavam 51 Judah Goldin, "Midrash and Aggadah", in: Mircea Eliade, org., The encyclopedia of religion (New York: Macmillan, 1987), vol. 9, p. 512. 52 Para um bom panorama, veja Richard N. Longenecker, Biblical exegesis in the apostolic period, ed. rev. (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 1999), p. 6-35. Quanto a uma análise mais geral do uso por Paulo do Antigo Testamento, veja esp. Richard Hays, Echoes of Scripture in the letters of Paul (New Haven/London, Reino Unido: Yale University Press, 1989); Christopher D. Stanley, Paul and the language of Scripture (Cambridge/New York: CUP, 1992); Craig A. Evans; James A. Sanders, Paul and the Scriptures of Israel (Sheffield: JSOT, 1993); James W. Aageson, Written also for our sake: Paul and the art of biblical interpretation (Louisville: WJKP, 1993); e Francis Watson, Paul and the hermeneutics of faith (London, Reino Unido/New York: T&T Clark, 2004). 53 Robert W. Funk, "The apostolic parousia: form and significance", in: William R. Farmer; C.F.D. Moule; R.R. Niebuhr, orgs., Christian history and interpretation (Cambridge/New York: CUP, 1967), p. 249-68.140 PAULO E SUAS CARTAS seus leitores.⁵⁴ Mais do que acontecia com a maioria das cartas não literárias e informais, Paulo se dirigia a comunidades inteiras (i.e., igrejas ou grupos de igrejas), e não a meras pessoas. Conforme veremos, até mesmo as quatro cartas dirigidas a indivíduos (1 e 2Timóteo, Tito e Filemom) têm como destinatários também as congregações que esses homens lideram. Gêneros e formas constituintes Os principais gêneros epistolares O autor anônimo que no primeiro século a.C., em nome de certo Demétrio, escreveu uma obra chamada Sobre estilo, ele detalhou e exemplificou nada menos de 21 subgêneros de carta. O mais comum desses subgêneros incluía cartas de amizade, cartas de família, cartas de elogio e condenação, cartas de mediação e acusação, cartas de contabilidade e cartas apologéticas. As cartas de exortação e conselho eram tão comuns que poderiam ser ainda subdivididas nas catego- rias dissuasão, admoestação, consolação, repreensão, censura e assim por diante.⁵⁵ Em nossa análise de cada uma das cartas do Novo Testamento apresentaremos sugestões de classificações plausíveis de acordo com esses e outros gêneros epis- tolares relacionados. Uma classificação das cartas greco-romanas estudada com menos rigor inclui correspondência mais pública ou oficial. Aqui é possível identificar três grandes grupos: a um órgão "cartas executivas ou administrativas" e "cartas de um cidadão a funcionários públicos". Essas categorias amplas podem, por sua vez, gerar tipos mais específicos de carta, tais como cartas diplomáticas, éditos régios, elogios honoríficos, cartas de recomendação e outros parecidos com eles.⁵⁶ Vários desses tipos também aparecerão em nossas análises das cartas de Paulo. É óbvio que, quanto maior a precisão com que conseguirmos identificar o gênero de uma carta, o que por sua vez oferece pistas sobre os propósitos de seu autor e as maneiras pelas quais destinatários originais devem tê-la entendido, melhor estaremos em posição de interpretar seu significado para a sua época e a importância para a nossa. 54 Veja esp. Barrett, Paul: an introduction to thought (London, Reino Unido/Louisville: Geoffrey Chapman/WJKP, 1994), p. 22-54. 55 A respeito de todas essas categorias, com inúmeros exemplos reais do antigo mundo mediterrâneo, veja Stanley K. Stowers, Letter-writing in Greco-Roman antiquity (Philadelphia: Westminster, 1986). Cf. tb. John L. White, Light from ancient letters (Philadelphia: Fortress, contexts, methods and ministry & formation (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: Apollos/ 1986). Para uma lista concisa, com definições, veja deSilva, An introduction to the New Testament: IVP, 2004), p. 532-4. 56 Cf. esp. M. Luther Stirewalt Jr., Paul the letter writer (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans, 2003), p. 25-55.PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 141 Formas literárias incorporadas em cartas De igual maneira os intérpretes fazem bem em entender formas literárias que compõem determinada carta. Embora nenhuma carta inteira corresponda ao antigo gênero de diatribe, em vários trechos de Romanos Paulo está levan- tando objeções hipotéticas à sua linha de raciocínio e respondendo a elas (e.g., Rm 2.1-4,17-24; 3.1-9,27-31; 4.1-3,9-12; 6.1-4,15-18 etc.). Com base em adversários reais ou imaginários, é justamente isso que a antiga diatribe fazia Várias das cartas de Paulo contêm listas de virtudes ou de depra- vações. Essas incluem extensas listas de atributos e ações essenciais que cris- tãos devem ou praticar ou evitar. Pensa-se, por exemplo, em Romanos 1.29-31, 1Coríntios 6.9,10 e Gálatas 5.19-23. Comparações com as listas de virtudes e depravações preponderantes encontradas em vários documentos judaicos, gregos ou romanos da época nos permitem avaliar rapidamente semelhanças e diferenças essenciais em relação ao cristianismo primitivo. A humildade, por exemplo, era muito mais valorizada no judaísmo e no cristianismo do que na filosofia e reli- gião greco-romanas, nas quais eram, com frequência, vistas como mesmo continua válido hoje em dia em uma variedade de culturas não cristãs, o que sugere que a humildade é um traço de caráter que crentes devem cultivar cuidadosamente para que outros possam ver com clareza a diferença que Jesus pode fazer na vida de alguém. A Primeira Carta aos Coríntios contém vários exemplos razoavelmente claros, junto com vários exemplos questionados, de slogans ou lemas adotados por alguns da congregação coríntia. Dessa forma, a maioria dos comentaristas concorda que o próprio Paulo não poderia ter afirmado que todas as coisas são permissíveis para o cristão (1Co 6.12), ainda mais no contexto em que advoga que os crentes estão livres da lei judaica. Por consequência, a NIV coloca essa declaração entre aspas nas duas vezes em que ela aparece nesse versículo, enten- dendo que as palavras restantes refletem a refutação, por Paulo, de uma pers- pectiva que alguns na igreja em Corinto estavam defendendo vigorosamente. Mas será que podemos usar esse mesmo método para prescindir do texto pro- blemático de 14.34,35, que, ao que parece, impõe silêncio a todas as mulheres na igreja? É provável que não. Esses versículos não têm a brevidade ou memo- rabilidade típica dos slogans, nem os versículos 36 a 38 soam naturalmente como uma refutação.⁵⁹ 57 Stanley K. Stowers, The diatribe and Paul's Letter to the Romans (Chico: Scholars, 1981). 58 Craig A. Evans, "Jesus' ethic of humility", TJ 13 (1992): 127-38. 59 Cf. ainda William W. Klein; Craig L. Blomberg; Robert L. Hubbard Jr., Introduction to bibli- cal interpretation, ed. rev. (Nashville: Nelson, 2004), p. 436-7 [edição em português: Introdução à interpretação bíblica, tradução de Maurício Bezerra Santos Silva (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017)].142 PAULO E SUAS CARTAS Também relevante para os debates sobre os papéis de gênero no lar e igreja são as regras da casa. Essas seções das cartas de Paulo (encontradas mais na extensamente em Ef 5.22-6.9 e 3.18-4.1) delineiam as responsabilidades de quem tem autoridade e de quem é subordinado em relacionamentos como governo e cidadãos, senhores e escravos, pais e filhos, marido e esposa, e outros membros da igreja, e assim por diante. Uma vez mais uma comparação com os deveres não cristãos da época faz com que as perspectivas contracultu- ralmente positivas de Paulo sobre os papéis das mulheres se destaquem de modo notável, ainda que ele não chegue a apoiar a "liberação feminina" total que algu- mas pessoas defendem hoje em dia.⁶⁰ Por fim, podemos chamar a atenção para unidades independentes de textos doutrinários sucintos que afirmam inúmeras verdades teológicas (e esp. cristoló- gicas) essenciais, muitas vezes com uma estrutura poética no texto grego. Esses têm sido alternadamente chamados de credos, confissões de fé ou até mesmo texto de Filipenses 2.6-11 oferece o exemplo mais claro desses "hinos" e nos alerta para casos em que é bem provável que Paulo esteja adotando (e às vezes adaptando) material tradicional que teria sido comumente conhecido na igreja primitiva. Outros textos com alta probabilidade de serem credos ou hinos pauli- nos incluem Colossenses 1.15-20 e 1Timóteo Uma vez que, dentre essas passagens, encontramos algumas das afirmações mais sublimes sobre Jesus e ainda assim necessariamente anteriores às principais cartas de Paulo escritas na década de 50, surgem fortes indícios de que a "cristologia elevada" apareceu no início da história cristã, e não simplesmente em alguma data tardia, separada do tempo e contexto originais de Jesus por duas ou três gerações e por uma ou mais culturas.⁶² Ainda outros segmentos das cartas de Paulo, conquanto talvez concentrados unicamente em uma doutrina cristã, também parecem suficientemente separáveis de seu contexto e com estilo cuidadosamente estruturado para podermos consi- derá-los tradição pré-paulina. Vez ou outra a menção, por Paulo, a estar passando adiante aquilo que havia recebido confirma explicitamente essa hipótese. É pro- vável que o mais significativo de todos esses exemplos seja o tratamento dado à morte, ao sepultamento e à ressurreição de Cristo, incluindo uma lista de todas as primeiras testemunhas daquele acontecimento notável (1Co 15.3-7). Até mesmo Gerd Lüdemann, um renomado ateu e cético que atribui a experiência dos discí- pulos com a ressurreição a visões subjetivas e a realização de desejo, reconhece que 60 Veja esp. William J. Webb, Slaves, women and homosexuals (Carlisle/Downers Grove: Pater- noster/IVP, 2001). 61 Para uma análise completa, veja Robert J. Karris, A symphony of New Testament hymns (Col- legeville: Liturgical, 1996). 62 Veja esp. o texto todo de Hurtado, Lord Jesus Christ (Grand Rapids: Eerdmans, 2003) [edição em português: Senhor Jesus Cristo: devoção a Jesus no cristianismo primitivo (São Paulo: Paulus/Aca- demia Cristã, 2012)].PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 143 o testemunho que Paulo repete aqui deve ter constituído uma instrução catequé- tica fundamental para todos novos cristãos. Se Paulo se converteu em 32 d.C., então, menos de dois anos após a morte de Jesus, a crença em sua ressurreição física era reconhecida como doutrina central. Independentemente de como se opte por explicar essa crença, é impossível alegar que é resultado de uma lenda helenística décadas depois que o contexto judaico original e a verdade sobre o assunto haviam sido A natureza situacional do gênero epistolar resultado de todo esse debate sobre o gênero "carta" é que as cartas são as mais situacionais dos quatro principais gêneros que constituem o Novo Testamento (evangelhos, atos, cartas, apocalipse). Quer dizer, são as mais adequadas a uma situação específica na vida das igrejas às quais são dirigidas. Embora os outros três tipos de textos também tenham sido escritos para grupos específicos de cren- tes, a natureza de seus respectivos conteúdos sugere que deveriam ser espalhados rápida e bem mais amplamente. Alguns dos conteúdos das cartas de Paulo são, é claro, bem mais gerais do que outros. Romanos é o exemplo mais claro de uma carta com grandes trechos de material rapidamente generalizável. Ainda assim, mesmo nessa carta, como acontece de modo mais geral com todas as cartas, sem- pre temos de conhecer máximo possível sobre o público específico a que ela foi originalmente destinada. À semelhança de cartas de muitos tipos ao longo da história humana, muitos detalhes podem ser bastante pessoais, muitas ins- truções podem se limitar a pessoas ou situações específicas, e muitas maneiras de ver questões complexas podem estar pressupostas porque o autor já conhece bem os destinatários e também sabe o que eles já sabem Por esse motivo, é necessário desenvolver um mecanismo para identificar as instruções em uma carta a fim de determinar o que será aplicado sem alteração a todos os cristãos de todas as épocas e lugares e o que talvez tenha de ser aplicado de maneiras radicalmente diferentes, conforme diversos contextos determi- narem. Quatro princípios para o reconhecimento de material específico a uma situação podem ser formulados como perguntas: (1) contexto imediato se justapõe a uma ordem aparentemente contraditória? (2) Determinada instrução parece contradizer o ensino de outras passagens nos escritos do mesmo autor? 63 Cf. ainda Gerd Lüdemann, com a colaboração de Alf Özen, What really happened to Jesus: a historical approach to the resurrection (Louisville: WJKP, 1995), p. 15. excelente introdução à interpretação das cartas à luz de sua natureza situacional apa- rece em Gordon D. Fee; Douglas Stuart, How to read the Bible for all its worth, ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan, 2003), p. 55-87 [edição em português: Entendes que lês?: um guia para enten- der a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, 3. ed. rev. ampl., tradução de Gordon Chown (São Paulo: Vida Nova 2011)].144 PAULO E SUAS CARTAS (3) O fundamento lógico de uma ordem específica não funciona absolutamente em uma cultura diferente da original? (4) A carta introduz um contexto espe- cífico para um ensino em particular? Complementando essas questões, há duas perguntas que, se respondidas afirmativamente, sugerem aplicação atemporal normativa: (5) Acaso determinada ordem apela à maneira pela qual Deus ini- ou cialmente estabeleceu as coisas na época do Antigo Testamento ou à maneira pela qual ele as está restabelecendo na época do Novo Testamento? (6) Deter- minado ensino reflete um amplo princípio transcultural declarado ou implícito no texto? O esmiuçamento e exemplos de todos esses princípios podem ajudar o intérprete novato a progredir nessa área.⁶⁵ PROCESSO DE REDAÇÃO DE CARTAS Em nosso mundo de mensagens de texto enviadas por celulares, e-mails e inúme- ras outras maneiras de entrar quase instantaneamente em contato com as pessoas, é fácil esquecer como era enfadonho na antiguidade o processo de se comunicar com alguém que estava fisicamente distante. Basicamente, as duas únicas opções eram mandar um amigo para falar diretamente com aquela pessoa ou enviar uma carta. Com frequência ambos processos entravam simultaneamente em ação. As informações eram postas por escrito para que um mensageiro não esquecesse ou distorcesse que remetente quis dizer, mas, como era necessário um por- tador para entregar a correspondência, essa pessoa agia como intérprete do que estava sendo comunicado, dando ainda mais detalhes sobre seu significado e as intenções de seu autor. Em um mundo com elevado índice de analfabetismo, muitas pessoas inteli- gentes e até mesmo abastadas nunca aprenderam a escrever. Portanto, elas tinham de fazer uso de escribas profissionais para transformar seus pensamentos em palavras escritas em papiro. Ainda assim, a minoria que era capaz de escrever muitas vezes achava mais fácil ou mais prático pagar a alguém com experiência em tomar ditado para transcrever suas palavras enquanto falava em voz alta. termo técnico grego para esse escriba era amanuensis. Um número seleto des- ses amanuenses também havia aprendido uma forma de taquigrafia, o que lhes permitia anotar as palavras de alguém na velocidade normal em que eram ditas. Como judeu com formação rabínica, Paulo devia estar entre os leitores e escritores mais bem treinados de seu mundo. Ainda assim, está claro que ele fez uso de um amanuense pelo menos uma vez, e é provável que tenha proce- dido assim com todas as suas cartas. Em Romanos 16.22, Tércio se identifica 65 Veja ainda Craig L. Blomberg, Making sense of the New Testament: three crucial questions (Grand cruciais Rapids/Leicester, Reino Unido: Baker/IVP, 2004), p. 131-6 [edição em português: Questões do Novo Testamento, tradução de Degmar Ribas (Rio de Janeiro: CPAD, 2009)]; Klein; Blomberg; Hubbard, Introduction to biblical interpretation, p. 485-98.PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 145 explicitamente como aquele que transcreveu a carta. Em 1Coríntios 16.21, Gálatas 6.11, Colossenses 4.18, 2Tessalonicenses 3.17 e Filemom 19, Paulo faz referência a escrever as palavras finais da carta "de próprio punho", que dá a entender que, com exceção dessas conclusões, tudo foi escrito por um amanuense. A ocorrência de pós-escritos semelhantes em outras cartas, junto com fato de que escritores antigos geralmente usavam escribas o tempo todo ou então rara- mente, sugere que Paulo pode ter composto todas as suas cartas de forma parecida. Mas que tipo de "ditado" estava envolvido? Quatro abordagens diferentes para anotar pensamentos de alguém são identificadas em textos greco-roma- nos antigos. Primeiro, ditado literal, palavra por palavra, podia ocorrer. Segundo, um amanuense podia apanhar pensamentos ou palavras de um autor e edi- tá-los para adequação estilística, ao mesmo tempo que conteúdo permane- cia inalterado. Terceiro, os remetentes secundários podiam dar sua contribuição, em questões de estilo ou de conteúdo, o que escriba tinha de levar em conta. Finalmente, em casos raros (basicamente, em textos remanescentes, limitados a Cícero), um autor poderia dar instruções sobre a forma e o conteúdo de uma carta, mas deixar que o amanuense de fato a Essas opções pesam diretamente no debate sobre algumas das cartas atribuídas a Paulo serem ou não realmente pseudônimas. Contudo, antes de passar para esse debate, cabe mais uma palavra sobre esse tópico. Nunca devemos perder de vista fato de que Paulo viveu em uma cultura oral. Como bem poucos cristãos seriam suficientemente ricos para possuir uma cópia do pergaminho de uma das cartas de Paulo, a maioria, para poder se fami- liarizar com o ensino de Paulo, dependia inteiramente de ouvir as cartas serem lidas em voz alta na igreja. Sem dúvida, assim que uma carta chegava à igreja à qual era destinada, a igreja toda ouviria sua leitura do começo ao fim na próxima vez que as pessoas se reunissem. Entretanto, como as cartas eram reconhecidas como normativas e úteis, haveria repetidas leituras, e, por fim, assim como os judeus fizeram com as Escrituras hebraicas, trechos consecutivos das cartas de Paulo seriam lidos domingo a domingo juntamente com sequências semelhantes de textos dos Evangelhos. Por fim, esse sistema de lecionário tornou-se fixo e, mais tarde, seria abreviado para cobrir apenas trechos selecionados do Antigo e do Novo Testamentos. Mas a ideia a se destacar aqui é que o conhecimento pelos primeiros cristãos dependia de o autor da carta elaborar sua mensagem de uma 66 A respeito de todas as informações dadas até aqui sobre o processo de redação de cartas, veja texto todo de E. Randolph Richards, The secretary in the letters of Paul (Tübingen: Mohr, 1991). Uma ampliação desse material em um texto mais acessível é encontrada em idem, Paul and first-century letter writing: secretaries, composition and collection (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: Apollos/IVP, 2004), em que Richards claramente opta por uma combinação da segunda e da terceira abordagens mencionadas aqui.146 PAULO E SUAS CARTAS forma memorável, para que seus ouvintes (e não leitores) rapidamente viessem a assimilar, preservar e transmitir o conteúdo da carta. Recursos estilísticos de vários tipos nas cartas de Paulo demonstram que ele estava de fato preocupado com essas questões mnemônicas.⁶⁷ problema da pseudonímia Por uma série de razões que serão analisadas nas introduções às cartas pertinentes, nos últimos dois séculos muitos estudiosos chegaram à de que até seis das cartas do Novo Testamento atribuídas a Paulo não foram realmente escritas por ele. Com frequência 2Tessalonicenses tem sido suspeita de ser pseudônima, embora muitos argumentos a favor de sua autenticidade continuem de pé. Colos- senses tem sido objeto de um pouco mais de dúvida; Efésios perceptivelmente ainda mais; e as Cartas Pastorais, pela grande maioria de estudos especializados sobre o assunto. Os motivos mais centrais para esses vereditos têm relação com os estilos e conteúdos característicos dessas cartas quando contrastadas com outros sete, e em grande parte não contestados, escritos Até recentemente, a maioria dos estudiosos que chegava a essas conclusões também defendia que a pseudonímia era um recurso (ou até mesmo gênero) literário reconhecido nos antigos mundos judaico e greco-romano, de modo que usá-la não refletia intenção alguma de enganar alguém. Eles também defen- diam que é improvável que alguém tenha sido enganado por seu uso. Motivos para atribuir um documento a alguém renomado de uma era passada podiam incluir: obter maior autoridade para a obra; a percepção de estar simplesmente prosseguindo na tradição teológica ou ideológica daquela pessoa (de tal modo que o crédito deveria ser dado mais ao mestre do que ao aluno); a possibilidade (particularmente no caso de literatura apocalíptica) de alguém ter tido algum tipo de experiência extática ou visionária na qual o autor acreditava que estava temporária, mas intimamente ligado à pessoa nominada; ou simplesmente era uma convenção-padrão em certos gêneros de ficção (esp. no caso de narrativa de 67 Polhill, Paul and his letters, p. 121. Para maiores detalhes, veja John D. Harvey, Listening to the text: oral patterning in Paul's letters (Grand Rapids: Baker, 1998). Para uma análise detalhada de um dos mais comuns e complexos desses recursos mnemônicos, veja Ian H. Thomson, Chiasmus in the Pauline Letters (Sheffield, Reino Unido: SAP, 1995). 68 Periodicamente modelos matemáticos têm sido empregados para tentar testar essas diferenças e ver se elas variam suficientemente para se qualificarem como "resultado estatístico significativo". Os resultados têm sido variados; mas, na maioria das vezes, a resposta tem sido negativa. Para uma avaliação dos mais importantes desses estudos e para a análise mais ambiciosa feita até hoje, com uma defesa veemente da autenticidade de todas as treze cartas atribuídas a Paulo, veja George K. Barr, Scalometry and the Pauline Epistles (London, Reino Unido/New York: T & T Clark, 2004). Cf. também Kenneth J. Neumann, The authenticity of the Pauline Epistles in the light of stylostatis- tical analysis (Atlanta: Scholars, 1990).PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 147 despedida ou testamento final de alguém). Defensores dessa abordagem "inócua" da pseudonímia recorreram a textos das Escrituras hebraicas amplamente con- siderados pseudônimos (mais notadamente Daniel), a inúmeros escritos inter- testamentários (em particular da literatura apocalíptica) atribuídos a patriarcas e heróis da história judaica antiga, bem como a cartas greco-romanas atribuídas sob pseudônimo a personagens bem conhecidos como Sócrates, Platão, Pitágo- ras, Apolônio de Tiana e Diógenes, Cínico.⁶⁹ CARTAS CONTESTADAS E NÃO CONTESTADAS DE PAULO Não contestadas Um pouco contestadas Gálatas 2Tessalonicenses Romanos Colossenses 1Coríntios 2Coríntios Muito contestadas 1Tessalonicenses Efésios Filemom 1Timóteo Filipenses 2Timóteo Tito Essas supostas analogias, no entanto, precisam ser avaliadas à luz de várias observações. Em primeiro lugar, judaísmo pré-cristão parece ter aceitado todas as atribuições de autoria do Antigo Testamento e entendido que todos os seus docu- mentos canônicos tinham origem realmente profética. Em segundo lugar, não havia dificuldade alguma em reconhecer que um documento que acabara de ser divul- gado no segundo ou no primeiro séculos a.C., e atribuído a, digamos, Enoque, não poderia ter vindo de um personagem da era antediluviana. Contudo, é bem dife- rente para um cristão da segunda geração atribuir um documento a alguém que viveu apenas uma geração antes dele, que é o que estudiosos do Novo Testamento afirmam costumeiramente. Em terceiro lugar, paralelos na forma e no conteúdo entre as cartas do Novo Testamento e as cartas pseudepigráficas do mundo hele- nístico são bem poucos. Por fim, e mais importante, todas as evidências inequívo- cas que temos de reação cristã a casos de pseudepígrafe conhecidos na época (i.e., de meados do segundo século em diante) mostram que essa prática era rejeitada. Aliás, atribuições corretas de autoria, uma vez que davam condições à igreja de 69 Para uma defesa evangélica dessa perspectiva, veja esp. David G. Meade, Pseudonymity and canon (Grand Rapids: Eerdmans, 1986). Para um estudo desse gênero greco-romano específico de literatura, veja Charles D.N. Costa, Greek fictional letters (New York: OUP, 2001).148 PAULO E SUAS CARTAS avaliar a apostolicidade de determinado documento (i.e., que foi escrito por um apóstolo ou por um colaborador próximo de um apóstolo), tiveram um papel mais preponderante do que qualquer outro critério isolado na aceitação de um texto cristão primitivo como legítimo para ser usado e considerado como Escrituras. Mas e se cristianismo do primeiro século e do início do segundo teve uma atitude diferente? Muita coisa mudou em meados do segundo século, quando essa nova religião quase perdeu de vista suas raízes judaicas e ficou firmemente arrai- gada no helenismo. E há alguns textos cristãos do segundo século que, depen- dendo da interpretação de certos detalhes controversos, podem, em determinadas condições, ser entendidos como aprovação limitada de pseudepígrafe. Esses tex- tos incluem: comentários de Serapião sobre o apócrifo Evangelho de Pedro; os comentários de Tertuliano sobre os Atos de Paulo, bem como de que Marcos dependeu de Pedro, e Lucas, de Paulo; e vários comentários espalhados no frag- mento muratoriano sobre livros a serem incluídos no cânon. Até mesmo uma referência mishnaica ao ponto de vista do judaísmo do segundo ou terceiro séculos sugere que as palavras de um discípulo poderiam ser tratadas como se fossem de seu mestre. (Acerca dos dois mais sugestivos desses textos cristãos e judaicos, veja abaixo, p. 620.) Dessa forma, em princípio os estudiosos das Escrituras não devem necessariamente fazer objeção a certos tipos de sugestões pseudepigrá- ficas, da mesma forma que não precisam se preocupar com as parábolas serem um tipo de ficção poética que visa comunicar verdades inspiradas e No entanto, a mais recente fornada de análises detalhadas, tanto sobre essas afirmações específicas acerca dos pseudepigráficos quanto sobre os documentos muitas vezes citados como analogias, tem lançado sérias dúvidas sobre cris- tãos terem ou não aceitado de forma generalizada essa convenção literária ou sobre essa convenção até mesmo ter ou não existido, pelo menos entre os autores dos textos que fazem paralelo mais próximo com as cartas do Novo Testamento. E mais, esses estudos têm demonstrado que o conceito de propriedade literária estava difundido no antigo mundo mediterrâneo, de modo que o mais provável é que a pseudepígrafe, quando de fato ocorria, pretendia enganar pessoas, levan- do-as a crer que certos textos de fato vieram das pessoas a quem foram atribuí- dos. Desse modo, se alguma das cartas atribuídas a Paulo foi na verdade escrita por uma segunda geração de discípulos do apóstolo, o mais provável é que seus autores quisessem que o mundo cristão imaginasse que Paulo realmente as escre- veu. Além disso, todas as evidências que temos de debates no cristianismo pri- mitivo sobre a autoria e/ou canonização das cartas de Paulo sugere que a igreja acreditava sim que o próprio Paulo escreveu essas cartas. 70 Cf. o panorama breve de Terry L. Wilder, "Pseudonymity and the New Testament", in: David & A. Black; David S. Dockery, orgs., Interpreting the New Testament, ed. rev. (Nashville: Broadman Holman, 2001), esp. p. 301-8. Wilder considera essas evidências pouco convincentes.PAULO: VIDA E MINISTÉRIO 149 Essa conclusão não exclui uso de amanuenses, mesmo de alguns que podem ter tido maior liberdade literária para pôr por escrito, em seu próprio estilo e até mesmo com suas ênfases características, pensamentos e as instruções de Paulo. Paulo ainda teria sido responsável por aprovar cada palavra dessas obras, de modo que essa hipótese continua sendo bem diferente da de alguém com- por documentos em nome de outra pessoa depois da morte desta.⁷¹ Mas estu- dos recentes questionam sim a ideia de que primeiros cristãos poderiam ter escrito em nome de Paulo (ou de qualquer outro líder falecido) impunemente, usando um recurso literário aceito. E, ao contrário do que muitos gostariam que acreditássemos, argumentos contra a autoria paulina não são tão A compilação e a canonização das cartas de Paulo É curioso que os únicos sete livros do Novo Testamento que foram seriamente questionados nos primeiros debates cristãos sobre cânon são todos da última terça parte do Novo Testamento, depois dos Evangelhos, de Atos e das cartas paulinas. Esses sete eram: Hebreus (por causa das incertezas sobre quem escre- veu); Tiago (por causa de suas aparentes contradições com Paulo); 2Pedro (por- que seu estilo era muito diferente do de 1Pedro); Judas, 2 e 3João (porque eram muito curtas e de natureza bastante situacional); e Apocalipse (por causa das controvérsias em torno de como interpretá-lo). Todos esses tópicos voltarão a ser abordados quando tratarmos de cada um desses livros. Em contrapartida, as cartas de Paulo começaram rapidamente a circular além das comunidades ou pessoas a quem foram dirigidas. Logo se tornaria natu- ral juntar duas ou mais delas em pequenas coleções, em particular quando duas cartas foram escritas à mesma igreja. Romanos, 1 e 2Coríntios e Gálatas foram reconhecidas como cartas que continham teológico de Paulo e poderiam ter formado uma unidade natural de quatro cartas. O mesmo também poderia ter acontecido com Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses, por serem de tamanho parecido e terem vários tópicos comuns, especialmente em Gálatas e Filipenses e em Efésios e Colossenses. Também é possível que Paulo tenha seguido a prática comum na antiguidade de fazer para si cópias de suas cartas, mantendo-as em Roma em um códice parecido com um caderno, e que, depois 71 respeito de todas as ideias dessa subseção, veja esp. Terry L. Wilder, Pseudonymity, the New Testament, and deception (Lanham/Oxford: UPA, 2004); e Jeremy N. Duff, "A reconsideration of pseudepigraphy in early Christianity" (Oxford: tese de doutorado, 1998). 72 Para uma defesa da autenticidade de todas as denominadas cartas dêutero-paulinas, veja Bo Reicke, Re-examining Paul's letters: the history of the Pauline correspondence, edição de David P. Moessner; Ingalisa Reicke (Harrisburg: Trinity, 2001). 73 Cf. esp. F.F. Bruce, The canon of Scripture (Leicester, Reino Unido/Downers Grove: IVP, 1988) [edição em português: 0 cânon das Escrituras: como livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como Escrituras Sagradas?, tradução de Carlos Osvaldo Pinto (São Paulo: Hagnos, 2011)], esp. p. 198-203.150 PAULO E SUAS CARTAS de sua morte, seus discípulos tenham preservado e copiado a coleção Quer surgimento de um cânon paulino tenha sido gradual, quer tenha ocorrido em vagalhões repentinos, quer tenha acontecido de uma só vez, o surgimento de um cânon paulino se tornou necessário para combater as heresias do segundo século e desempenhou um papel decisivo nessa luta, assim como muitas das car- tas de Paulo enfrentaram heresias do primeiro século.⁷⁵ No início a sequência das cartas variava, mesmo quando todas as treze cartas começaram a ser compiladas. Da mesma maneira, à medida que todo o cânon do Novo Testamento começou a tomar forma, as cartas de Paulo às vezes eram colo- cadas no início, às vezes depois dos Evangelhos, com frequência depois de Atos e, por vezes, até depois das Cartas Gerais.⁷⁶ Contudo, por fim elas se estabelece- ram depois de Atos, que, do ponto de vista cronológico e temático, era a posição em que faziam sentido, pois foram escritas depois dos acontecimentos descritos nos Evangelhos, mas, de modo concomitante com muitos dos acontecimentos de Atos, em muitos dos quais próprio Paulo desempenha até mesmo um papel direto. A sequência em que as cartas de Paulo foram finalmente organizadas adotou uma abordagem usual de compilação dessas obras na antiguidade. Elas foram dispostas simplesmente em ordem decrescente de extensão, primeiro em relação às cartas dirigidas a igrejas e em seguida com referência àquelas dirigidas a pessoas. Apenas duas exceções violam esse padrão. De modo compreensível, quando duas cartas foram escritas à mesma igreja ou pessoa, elas foram mantidas juntas. Além disso, Efésios é um pouco mais longa do que Gálatas, ainda que venha depois desta. É possível que em algum momento Gálatas tenha sido colocada à frente do grupo de quatro cartas, que também incluía Efésios, Filipenses e Colossen- ses, por causa de sua referência ao (palavra grega para "regra" ou "cânon", princípio regulador para a escolha de livros da Bíblia) em TEOLOGIA PAULINA Paulo por ele mesmo O elevado número de livros que vieram da pena de Paulo cria problemas singu- lares para poder sintetizar sua teologia. Deve-se tentar relacionar os temas prin- cipais de cada carta individualmente e só depois disso criar uma grande síntese Randolph Richards, "The codex and the early collection of Paul's letters", BBR 8 (1998): 151-66. 75 Para um panorama e crítica de todas as principais opções, veja Stanley E. Porter, "When and how was the Pauline canon compiled? An assessment of theories", in: Stanley E. Porter, org., The Pauline canon (Leiden/Boston: Brill, 2004), p. 95-127. 76 Veja as tabelas em McRay, Paul, p. 274-5. 77 Cf. ainda William R. Farmer, com a colaboração de Denis M. Farkasfalvy, The formation of the New Testament canon (New York: Brill, 1983), p. 79-81.