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Carl Rogers   Tornar se Pessoa

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o
que está se passando... É engraçado, porque sinto que, no fundo, não fiz grande coisa para
isso. A única parte ativa que tomei consistiu em estar alerta e em agarrar uma idéia quando ela
passava... É uma espécie de sentimento como... ‘bem, o que é que eu vou fazer agora, uma
vez que já vi o que acontece?...’ Não se tem mão nisso, pode-se falar e deixar correr. E,
aparentemente, é tudo. No entanto, isso me deixa com uma sensação de insatisfação, com a
sensação de não ter feito nada. Isso fez-se sem o meu conhecimento e sem o meu acordo... O
fato é que não estou seguro da qualidade do reajustamento porque não consegui vê-lo ou
verificá-lo... Tudo o que posso fazer é observar os fatos verificar que olho para as coisas de um
modo diferente, que sinto menos ansiedade, que estou muito mais ativo. Em geral tudo vai
melhor. Sinto-me muito feliz com o caminho que as coisas tomaram. Mas tenho a impressão de
ser um espectador.” Um pouco mais tarde, continuando a aceitar, embora contrariado, o
processo que nele se opera, acrescenta: “Parece-me que trabalho melhor quando
conscientemente tenho apenas fatos à minha frente e deixo a sua análise prosseguir por si,
sem lhe prestar qualquer atenção.” 
A vivência imediata perdeu quase completamente os seus aspectos determinados e
torna-se a vivência de um processo ou seja, a situação é vivenciada e interpretada na sua
novidade e não como passado. 
O exemplo dado no sexto estágio sugere a qualidade que tento descrever. Um outro
exemplo, tomado numa área bem determinada, nos é dado por outro cliente, no decurso de
uma entrevista de acompanhamento em que ele descreve as diferentes qualidadçs quç seu
trabalho criativo adotou. Habitualmente tentava ser ordenado: “Começa-se pelo princípio e
avança-se com regularidade até o fim.” Agora tem consciência de que o seu processo interior é
diferente: “Quando trabalho uma idéia, esta se revela totajmente, tal como a imagem latente
que aparece quando se revela uma fotografia. Não há um ponto de partida para chegar a um
outro ponfo, mas espalha-se por toda a superficie. De início, tudo o que se vê é um vago
contorno e pergunta-se o que será que vai aparecer; e então, gradualmente, uma coisa se
encaixa aqui, outra ali e, de repente, tudo se toma claro.” “É óbvio que ele não passou
simplesmente a acreditar no processo, mas que o experimenta como ele é e não em termos de
coisa passada.” 
O eu torna-se cada vez mais simplesmente a consciência subjetiva e reflexiva da
experiência. O eu surge cada vez menos freqüentemente como um objeto percebido e muito
mais freqüentemente como alguma coisa sentida em processo e na qual se confia. 
Vou buscar um exemplo na entrevista mencionada anteriormente. Nesta entrevista, o
cliente, porque está relatando a sua experiência depois do tratamento, toma novamente
consciência de si como objeto, mas é evidente que isso não representa a qualidade da sua
experiência do dia-a-dia. Após ter relatado um grande número de transformações, diz:
“Realmente, não tinha relacionado essas coisas com o tratamento até hoje à tarde... (sorrindo).
Puxa! Talvez algo tenha acontecido. Porque a partir de então minha vida tem sido diferente.
Meu rendimento cresceu. Minha confiança aumentou. Vi-me metido em situações que antes
teria evitado e, por outro lado, tomei-me menos audacioso em situações onde antes me
mostrava atrevido”. Fica bem claro que só posteriormente ele se deu conta do que fora o seu
eu. 
Os construtos pessoais são provisoriamente reformulados, a fim de serem revalidados
pela experiência em curso, mas, mesmo então, se mantêm maleáveis. 
Um cliente descreve o modo como um construto se modificou no intervalo entre
entrevistas, perto do fim da terapia. 
“Não sei o que é que (se modificou), mas sinto-me absolutamente diferente no que diz
respeito às minhas recordações da inifincia, e uma parte da hostilidade para com minha mãe e
para com meu pai se evaporou. Substituí o ressentimento que sentia em relação a eles pela
aceitação do fato de que houve um grande número de coisas inconvenientes que me fizeram.
Mas, sobretudo, descobri com intensa alegria a idéia — agora que me apercebi do que não
está certo — de que eu posso fazer algo a respeito, corrigindo os erros deles.” Nesse caso, a
maneira como o indivíduo constrói sua experiência com os pais foi profundamente alterada. 
Citarei um outro exemplo, extraído de uma entrevista com um cliente que sempre sentiu
que devia agradar às pessoas: “Eu vejo agora... como seria — que não tem importância
nenhuma o fato de não lhe agradar. Quer lhe agrade quer não, a coisa não tem para mim
qualquer importância. Se eu pudesse dizer essas coisas às pessoas — entende?... a idéia de
dizer qualquer coisa espontaneamente... sem se preocupar se isso agrada ou não. — Oh, meu
Deus!, dizer praticamente tudo: mas isso é verdade, percebe?”. E um pouco mais tarde
interroga-se a si mesmo com incredulidade: 
“Quer dizer que, se eu pudesse ser realmente aquilo que tenho vontade de ser, tudo
estaria certo?”. Ele está lutando para reconstruir alguns dos aspectos fundamentais da sua
experiência. 
A comunicação interior é clara, com sentimentos e símbolos bem combinados e com termos
novos para sentimentos novos. 
Há a experiência de uma efetiva escolha de novas maneiras de ser Uma vez que todos
os elementos da experiência estão disponíveis para a consciência, a escolha toma-se real e
efetiva. Vejamos o caso de um cliente que acaba de se dar conta disso: “Estou tentando
encontrar uma maneira de falar que seja uma forma de escapar ao meu terror de tomar a
palavra. Pensar em voz alta talvez seja a maneira de consegui-lo. Mas eu tenho tantos
pensamentps qe apenas poderia fazer isso até um certo ponto. Mas talvez pudesse deixar que
as minhas palavras fossem uma expressão dos meus pensamentos reais, em vez de tentar
aplicar frases já feitas a cada situação.” Aqui, o indivíduo começa a sentir a pqssibilidade de
uma escolha efetiva. 
Um outro cliente começa a contar uma discussão que tivera com a mulher: “Eu não
estava àssim tão zangado comigo. Não me irritei muito comigo. Compreendi que estava
reagindo como uma criança e, de alguma maneira, foi exatamente isso que decidi fazer.” 
Não é fácil encontrar exemplos que ilustrem esse sétimo estágio, porque é relativamente
pequeno o número de clientes que atinge plenamente esse ponto. Vou tentar resumir de uma
maneira breve as qualidades desse ponto final do contínuo. 
Quando o indivíduo atingiu, no seu processo de transformação, o sétimo estágio,
encontramo-nos a nós mesmos englobados numa nova dimensão. O cliente integrou nesse
momento a noção de movimento, de fluxo, de mudança, em todos os aspectos da sua vida
psicológica, e isso toma-se a sua principal característica. Ele vive no interior dos seus
sentimentos, conhe cendo-o com uma confiança fundamental neles e aceitandoos. Os modos
como constrói a sua experiência estão em permanente alteração e seus construtos pessoais
modificam-se devido a cada novo acontecimento vivido. A natureza da sua experiência é a de
um processo, sentindo a novidade de cada situação e interpretando-a de uma maneira nova,
recorrendo aos termos do passado apenas na medida em que o novo é idêntico ao passado.
Vive a experiência de um modo imediato, sabendo ao mesmo tempo que está vivenciando. Ele
aprecia a exatidão na diferenciação dos sentimentos e das significações pessoais da sua
experiência. A comunicação interior dos diferentes aspectos de si mesmo é livre e sem
bloqueios. Comunica-se livremente nas relações com os outros, e estas relações não são
estereotipadas, mas de pessoa a pessoa. Tem consciência de si mesmo, mas não como de um
objeto. É antes uma consciência reflexiva, uma vida subjetiva