A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
185 pág.
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Pré-visualização | Página 24 de 50

membros de azeite andam untados
Daquelas cirandagens salpicados.
em que a palavra cirandagem desviada do seu sentido vernáculo (=sarandalha) alimpaduras que se apartam cirandando
(joeirando) e se lançam fora, tem já a acepção brasileira de restos imprestáveis, imundície miúda, guloseimas vis.
Nenhum outro poeta que mereça lembrado ou mesmo que o não mereça, mas com obra conhecida, nos depara este
sáfaro período da poesia no Brasil. A música do parnaso foi publicada em 1705, mas os seus poemas são incontestavelmente
dos últimos anos do século anterior, nos quais passou também a atividade literária do seu autor. Outrossim poetou nesta
época Sebastião da Rocha Pita, acaso a melhor figura literária dela. A sua produção poética, porém, nos seria totalmente
desconhecida não foram os documentos relativos às academias literárias de que fez parte, existentes na Biblioteca Nacional
e as transcrições deles feitas por Fernandes Pinheiro.56 Há notícia vaga e insegura de que escrevera também um romance em
verso castelhano. É como historiador que ele tem um lugar na nossa literatura colonial.
Só para o fim da terceira década do século XVIII, se nos antolham alguns escritores em prosa mais estimáveis que os
aludidos. Seguindo de perto o seu aparecimento o das academias literárias aqui fundadas desde meados da segunda década,
não é porventura indiscreto ver neles influências destas.
Como assembléia ocasional de literatos que reciprocamente se recitavam os seus versos e prosas, havia academias no
Brasil ainda em antes do século XVIII. Gregório de Matos, notavelmente, e elas se refere nos seus versos satíricos.57 Mas
como associações literárias e regularmente organizadas datam de 1724. Foi nesta era criada a primeira, a Academia Brasileira
dos Esquecidos. Para em tudo imitar as da metrópole, cujo arremedo era, fundava-se conforme aquelas com a proteção real,
sob os auspícios do vice-rei, ou antes estabelecida por ele no seu próprio palácio. Nestes termos, imagem acabada do estilo
da época e seu, lhe noticia a fundação Rocha Pita, que foi um dos seus membros mais conspícuos:
“A nossa portuguesa América (e principalmente a província da Bahia), que na produção de engenhosos filhos pode
competir com Itália e Grécia, não se achava com as academias introduzidas em todas as repúblicas bem organizadas, para
apartarem a idade juvenil do ócio contrário das virtudes e origem de todos os vícios e apurarem a sutileza dos engenhos. Não
permitiu o vice-rei que faltasse no Brasil esta pedra de toque no estimável oiro dos seus talentos, de mais quilates que o das
suas minas. Erigiu uma doutíssima academia, que se faz em palácio na sua presença. Deram-lhe fama as pessoas de maior
graduação e entendimento que se acham na Bahia, tomando-o por seu protetor. Têm presidido nela eruditíssimos sujeitos.
Houve graves e discretos assuntos, aos que se fizeram elegantes e agudíssimos versos; e vai continuando nos seus progressos,
esperando que em tão grande proteção se dêem ao prelo os seus escritos, em prêmio das suas fadigas.”58
A Academia dos Renascidos fundava-se em 1759 com quarenta sócios de número, ou efetivos, e oitenta supranumerários,
ou correspondentes. A maioria versejava ou fazia prosa oficial ou acadêmica. Glosando motes, versificando temas
preestabelecidos ou também amplificando retoricamente assuntos oferecidos aos seus curtos engenhos, nenhum destes
versejadores ou prosistas tinham virtudes literárias por que perdurasse na memória dos homens e as suas obras, ainda as
impressas, é como se não existissem.
No Rio de Janeiro foi instituída em 1736 a Academia dos Felizes, e mais tarde, em 1752, a dos Seletos, que de fato se
resumiu a uma sessão magna literária, como diríamos hoje, consagrada a celebrar o governador e capitão-general Gomes
Freire de Andrade, que a presidiu.59 Tinham estas reuniões a vantagem de serem prazo dado e auditório fácil e benévolo de
letrados e poetas e portanto um estímulo oferecido ao seu estro.
Criadas quando acaso já não correspondiam às condições da sua origem européia, mais por imitação das do Reino,
vontade e inspiração oficial do que como uma exigência e produto na incipiente cultura indígena, tiveram as academias
literárias no Brasil, uma existência transitória e inglória. Mas não de todo inútil e sem efeito nessa cultura e na literatura que
a devia representar. Apesar da origem oficial, e de serem um arremedo, havia porventura nelas um sentimento de emulação
com a metrópole, e portanto um primeiro e leve sintoma do espírito local de independência. Acaso a denominação da
primeira, de Academia Brasileira dos Esquecidos, revê o despeito dos seus fundadores contra o esquecimento dos letrados
coloniais na formação das academias portuguesas anteriores. O propósito que não só essa, mas a dos Renascidos e a dos
Felizes declaradamente tiveram, de estudar sob os seus diversos aspectos o Brasil e a sua história, traduz evidentemente um
íntimo sentimento de apego à terra, com a intenção, ainda certamente pouco consciente, da parte que no seu desenvolvimento
devia caber aos seus letrados.
A qualificação que todas, apesar do oficialismo da sua origem ou existência, se deram de Brasileiras (brasílica), quando
ainda não existia ou não era vulgar o patronímico da terra, porventura já revela um sentimento de separação, do qual não
tinham quiçá esses acadêmicos consciência, mas que o despeito ou motivos menos egoísticos, como a ufania da sua terra,
criara. Como quer que seja apontavam todas ao progresso das letras e da cultura espiritual do Brasil, e trabalhando, ainda
mal, como trabalharam, por esse propósito, trabalharam primeiro pela nossa emancipação intelectual e, por esta, sem aliás
disso se aperceberem, pela nossa emancipação nacional. Isso, entretanto, não as impediu de continuarem a fazer a mesma
obra literária dos portugueses, e fazerem-na inferiormente. Sobre haverem iniciado o comércio e trato recíproco dos homens
de letras do Brasil, convocando-os de toda a parte dele para se lhes associarem, tiveram o efeito imediatamente útil de
chamar a atenção e despertar o gosto e o amor do estudo da nossa história e das nossas cousas. São testemunho desse seu
influxo a História da América Portuguesa, com que Rocha Pita realizou um dos propósitos da Academia Brasílica dos
Esquecidos, e a História militar do Brasil, de José de Mirales, sócio da dos Renascidos, e confessadamente escrita por sua
influência.60
Estes, com Nuno Marques Pereira, o autor do Peregrino da América, são os escritores de prosa mais conhecidos desta
fase da nossa literatura. Deles, porém, só merecem a atenção da história literária Rocha Pita e Marques Pereira.
De Nuno Marques Pereira não sabem os biógrafos senão que nasceu em Cairu, na Bahia, em 1652, e faleceu em Lisboa
em 1728. Dos seus estudos, vida e feitos nada se conhece, que não seja suspeito de infundado. Era presbítero secular. No
intuito piedoso de denunciar ou de emendar os costumes do Estado, que se lhe antolhavam péssimos, escreveu o livro citado,
único lavor literário que se lhe sabe, e cujo título completo lhe define o estímulo e propósito. Chama-se compridamente:
Compêndio narrativo do peregrino da América em que se tratam vários discursos espirituais e morais com muitas advertências
e documentos contra os abusos que se acham introduzidos pela milícia diabólica no Estado do Brasil.61
O Peregrino da América, como abreviadamente se lhe chama, não é de modo algum um conto ou novela, não tem o
menor parentesco com a chamada literatura de cordel, cousa que no Brasil é do século XIX, quando aqui apareceu como
imitação seródia ou contrafação da portuguesa, então já em decadência. Não se pode dizer que o livro de Marques Pereira
haja iniciado o gênero romanesco ou novelístico no Brasil. É, porém, uma ficção, como o são também os Diálogos das
grandezas do Brasil. Uma ficção