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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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de recomendação ao seu insípido poema. O que era nos seus predecessores novidade interessante, reveladora de um sentimento,
uma emoção, uma inspiração nova na poesia portuguesa, era nele simples repetição, não levantada por algum talento superior
de expressão.
Destas duas dúzias de poetas menores, o único, além de Sousa Caldas, que porventura se destaca por uma inspiração
mais sincera e dons de expressão que o extremam, é José Bonifácio de Andrada e Silva, o José Bonifácio, principal cooperador
da nossa independência nacional. As circunstâncias que o fizeram e em que foi poeta, lhe explicam o destaque.
José Bonifácio nasceu em Santos, São Paulo, aos 13 de junho de 1763. Feitos os seus primeiros estudos no Brasil e
completos os seus dezoito anos, passou-se a Portugal, e ali, em Coimbra, se formou em filosofia e leis. Fundada em 1774,
pelo duque de Lafões, a Academia Real das Ciências de Lisboa, foi, com o patrocínio daquele magnate, seu membro e
depois secretário. Ao mesmo apoio deveu a comissão especial de estudar nos principais centros científicos europeus ciências
naturais e metalurgia. Dez anos empregou nestes estudos, percorrendo os principais países da Europa, onde os podia com
mais proveito fazer. De volta a Portugal, foi nomeado intendente geral das minas, com a graduação de desembargador,
recebendo também o grau de doutor em ciências naturais e o encargo de inaugurar na Universidade de Coimbra uma cadeira
de metalurgia e geognosia, a qual regeu até à invasão francesa de 1807. Criado, por motivo desta invasão, um batalhão
acadêmico, foi dele José Bonifácio major e logo depois tenente-coronel. Mais tarde serviu o cargo de intendente de polícia
do Porto. Em 1819 retirou-se, com licença, para o Brasil. Vivia em S. Paulo, sua província natal, quando sobrevieram os
acontecimentos de 1820 e 1821 e começaram no Rio de Janeiro os primeiros movimentos da Independência. Estes despertaram-
lhe o sentimento nacional, acaso adormecido por cerca de quarenta anos de existência portuguesa. Fez-se parte conspícua
nesse movimento, do qual foi, com D. Pedro, o principal protagonista. Como ministro e conselheiro muito ouvido do recém
fundado império e deputado à sua assembléia constituinte, teve um grande papel nessa primeira fase da construção do país
sob o novo regime, sendo, pelos seus talentos e capacidades, a primeira figura dela. A excessiva energia que, como primeiro-
ministro, empregou contra os seus oposicionistas, ia comprometendo a causa que tão bem servira. Em todo caso motivou a
excitação dos ânimos que produziu os sucessos donde resultou a demissão de José Bonifácio e o seu exílio.
Era José Bonifácio uma natureza pessoalíssima, de índole autoritária e violenta. Como todos os políticos do seu
temperamento, tanto era despótico no poder como abominava o despotismo em não sendo ele o déspota. Nimiamente
orgulhoso e demasiado convencido da sua superioridade, aliás real, no meio político donde o expulsavam, doeu-lhe
profundamente o exílio a que o constrangiam os seus adversários, desterrando-o da pátria cuja independência, com mais
presunção que razão, exclusivamente se atribuía. Encheu-se de despeito e raiva contra o soberano, a quem com mau gosto
reprochou de ingrato, contra os políticos seus adversários, e até contra a pátria. Foi neste estado d’alma de homem que se crê
indispensável e a quem dispensam, de homem soberbo de si e humilhado pelos mesmos a quem se julgava proeminente e
tinha por seus devedores, que repontou em José Bonifácio, aos sessenta e dois anos, o estro poético de que já dera amostras
quando estabelecido em Portugal. Facit indignatio versum. Em Bordéus, em cujos arredores se fixara durante o exílio,
publicou o volume das Poesias avulsas, de Américo Elísio, em 1825. A sua forte e não comum cultura literária e científica,
e grandes experiências da vida, fortificaram-lhe o engenho poético. A paixão real fez o resto. Era um apaixonado e estava
apaixonado. Aquela deu-lhe aos versos, não obstante o ressaibo arcádico que se lhe descobre no estilo, no feitio e até na
alcunha com que se disfarçou o autor, uma vida, uma emoção, uma sinceridade como se não encontra em nenhum dos poetas
seus patrícios e contemporâneos, e que fazem dele acaso o único que tem personalidade e que, por isso, possamos ouvir
ainda hoje. Ao contrário de toda a poesia do tempo, a sua, ao menos a inspirada da sua situação atual, é pessoal, vibrante das
suas paixões políticas e patrióticas e dos seus mesmos sentimentos egoístas, do seu orgulho, da sua soberba, da sua vaidade
malferida, e que ele não procura dissimular. Soam nelas queixas, reproches, imprecações e brados pela liberdade que ele
próprio, de essência despótico, recusara aos seus antagonistas quando no poder. E mais, sem embargo de queixas e exprobrações
que chegam à negação da pátria,
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram:
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou à justiça.
Vivíssimo amor dela e fervorosos anseios por ela. Ainda quando, por distrair-se das suas angústias de repúblico despeitado,
recorre aos prazeres reais ou imaginários de que Baco era o patrono clássico, o pensamento saudoso e amargurado se lhe
volve à pátria distante:
Em bródio festivo
Mil copos retinam;
Que a nós não nos minam
Remorsos cruéis;
Em júbilo vivo
Juremos constantes
De ser como dantes
À pátria fiéis
.........................................
Gritemos unidos
Em santa amizade
Salve, ó liberdade!
E viva o Brasil!
Sim, cessem gemidos,
Que a pátria adorada
Veremos vingada
Do bando servil.
A sua forte cultura, desempeçada do caturrismo português por longo comércio com a melhor da Europa, e aliviada do
aparelho escolástico e clássico pela sua paixão, deu-lhe à expressão poética mais calor, mais vida e movimento do que tinha
a do tempo. Há versos seus que, pela liberdade e personalismo da sua inspiração, pelo subjetivismo dos sentimentos,
exuberância usual da expressão e despejo de apetites, como que aventam já o Romantismo. A sua ode A Natureza, no seu
sincretismo do pseudoclássico com o que se chamava romântico nas terras por onde José Bonifácio peregrinou, é exemplo
e testemunho de que nele a nova corrente literária começava, ainda a despeito seu, a influir. Lembre-se que José Bonifácio
traduziu para nova língua, em verso, o pseudo Ossian, um dos ídolos do Romantismo.
Manifestações patrióticas como as de José Bonifácio, mas sem a vibração das suas, são aliás comuns na poesia desta
fase. Raro será dos citados o poeta em que se não deparem. Ainda portugueses pela retórica, são já brasileiros pelo coração.
Vimos como Caldas Barbosa, predecessor imediato desses poetas, não obstante as condições em que se lhe desenvolveu o
engenho e em que poetou, conservou um íntimo sentimento da sua terra e espontaneamente o exprimia. O poema de Fr.
Francisco de S. Carlos superambunda de manifestações do mesmo sentimento. Joaquim Lisboa consagra à terra natal uma
descrição em verso, da qual aliás só se salva a intenção. Bartolomeu Cordovil celebra em seus poemas as cousas e melhorias
do seu Goiás. Natividade Saldanha, esse mais que todos, canta as glórias do seu Pernambuco e os seus heróis, comparando-
os aos da poesia e história clássicas. De envolta, celebrando o Brasil, proclama aos brasileiros:
Ó jovens brasileiros,
Descendentes de heróis, heróis vós mesmos
Pois a raça de heróis não degenera,
Eis o vosso modelo:
O valor paternal em vós reviva
A pátria que habitais comprou seu sangue,
Que em vossas veias pulsa.
Imitai-os, porque eles no sepulcro
Vos chamem com prazer seus caros filhos.
Vilela Barbosa festeja a primavera do seu “pátrio Brasil”, retoricamente ainda, mas revendo o sentimento, desajudado
de engenho, que o inspirava. O mesmo é exato dizer