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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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primeira geração
romântica, no tom geral do seu entusiasmo político literário. Aumentando na segunda geração romântica, nunca mais
desapareceria esse matiz das nossas letras, sob este aspecto expressão exata do nosso humor nacional.
Ao contrário do que até então se passava, a educação literária da maioria dos escritores dessa geração se fizera aqui
mesmo. Por desgosto da metrópole, entraram a abandonar-lhe a escola, até aí assídua e submissamente freqüentada. Falavam,
pois, a língua que aqui se falava, e naturalmente a escreviam como a falavam, sem mais arremedo do casticismo reinol. A que
escreveram, e não é por ventura este um dos seus somenos méritos do ponto de vista da nossa evolução geral, mérito que
avultará quando de todo nos emanciparmos literariamente de Portugal, não é mais a que aqui antes deles se escrevia. É outro
o boleio da frase, a construção mais direta, a inversão menos freqüente. Usam mais comumente dos tempos compostos dos
verbos, à francesa ou à italiana. Refogem ao hábito clássico português de nas suas orações de gerúndio começá-las por ele.
Colocam os pronomes oblíquos segundo lhes pede o falar do país e não conforme a prosódia portuguesa, que entra então a
ser aqui motivo de chufa e troça. Usam de extrema e até abusiva liberdade no colocá-los. Dão maior extensão a certas
preposições. A forma do modo finito seguido de um infinitivo com preposição à maneira portuguesa, preferem a do infinito
seguido de gerúndio. E propositadamente, ou propositalmente, como escrevem segundo aqui soa, empregam vocábulos de
origem americana ou africana, já perfilhados pelo povo. Aceitam as deturpações ou modificações de sentido das formas
castiças aqui popularmente operadas, e começam a dar foros de literários a todos esses vocábulos ou dizeres, de fato
lidimamente brasileiros e para nós vernáculos, por serem de cunho do povo que aqui se constituía em nação distinta e
independente. São, entretanto, parcos de estrangeirismos, quer de vocabulário, quer de sintaxe. O fundo da língua conserva-
se neles mais puro, embora sem afetação de casticismo. Sua linguagem e estilo são por via de regra nativos, infelizmente até
sem as qualidades essenciais à boa composição literária. Sempre crescendo e avultando segue esta maneira, que começou
com eles, até depois da segunda geração romântica. Só na segunda fase do que chamamos modernismo, com a introdução
dos estudos filológicos segundo o seu novo conceito, e da sua reação sobre o da língua nacional, consoante os mesmos
programas do ensino oficial entraram a chamar à nossa, inicia-se aqui um movimento em contrário àquela indiferença pelo
apuro desta. Começa-se então a fazer timbre de escrever bem segundo os ditames gramaticais e os modelos chamados
clássicos. A mesma crítica, que até aí descarava este relevante aspecto da obra literária, principia a prestar-lhe atenção e a
notá-lo, ainda quando ela própria o desatende. Não sei quem ao cabo tem razão. Foi mais firme já o meu parecer da
necessidade de conservarmos o português castiço estreme quanto possível nas modificações que o seu novo habitáculo
americano lhe impõe. Começo a convencer-me da impossibilidade de tal propósito. Não o poderíamos realizar senão
artificialmente como uma reação erudita, sem apoio nas razões íntimas da mentalidade nacional e com sacrifício da nossa
espontaneidade e originalidade. Nem teria tal reação probabilidade de definitivamente vingar numa população que será
amanhã de muitos milhões, originariamente de várias e diversas línguas. Não se pode admitir que a gente brasileira se
submeta a uma disciplina lingüística de todo oposta aos instintos profundos das suas necessidades de expressão determinadas
pela variedade de seus falares ancestrais e pelas exigências imediatas da sua situação social e moral.
Apenas a literatura não deve esquecer que ela é, sobre o aspecto da expressão, uma força conservadora. Sem oferecer
resistência caprichosa e desarrazoada à natural evolução da língua que lhe serve de instrumento, cumpre-lhe não se lhe
submeter enquanto os seus resultados não tiverem a generalidade de fatos lingüísticos indisputáveis. A intromissão inoportuna
da literatura nessa evolução, sobretudo para lhe aceitar indiscretamente todas as novidades inventadas com pretexto dela,
não pode senão prejudicá-la naquilo que justamente é importante da sua existência, a sua faculdade de expressão. Se ela,
porém, por outro lado, se ativesse rigorosamente ao casticismo português, no genuíno sentido deste vocábulo, o brasileiro
acabaria por ficar alheio aos seus escritores e estes aos seus patrícios, por motivo da descorrelação entre a língua falada por
uns e a escrita por outros.
E é talvez esta a mais íntima causa da falta de simpatia — agora talvez maior do que dantes — entre os nossos escritores
e o nosso povo. Nesta sociedade descomedidamente igualitária, como talvez outra não exista, o escritor e o público vivem
inteiramente alheados um do outro pelo pensamento e pela expressão. A reação vernaculista dos maranhenses durante
justamente esta primeira fase romântica, não obstante os preclaros modelos de Sotero dos Reis, João Lisboa, Odorico
Mendes e Gonçalves Dias, ficou estéril. Destes nomes, o único que sobrevive na memória do povo é o de Gonçalves Dias,
o poeta dos versos simples e populares da Canção do Exílio.
Também o segredo da popularidade persistente dos poetas da segunda geração romântica não está somente em que eles
foram os de mais rico e sincero sentimento que jamais tivemos, mas em que o exprimiram numa língua e forma poética ao
alcance de todos, sem artifício de métrica nem arrebiques de estilo. O mesmo acontece com os principais romancistas dessa
fase. Macedo e Alencar, como o documentam os registros da Biblioteca Nacional e vos informarão os livreiros e mais que
tudo o provam as suas constantes reimpressões, continuam a ter mais leitores do que os romancistas de hoje, apesar de não
terem por si os reclamos do noticiário camaradeiro e das parcerias de elogio mútuo.
Os nossos escritores da primeira geração romântica, se não menos artistas, são também em suma menos artificiosos que
os do mesmo período em Portugal. A sua arte literária, quando a têm, é ingênua e canhestra, o que lhes dá ao estilo algo, não
de todo desagradável, dos primitivos. Com exceção do pomposo Porto Alegre e de certos poetas menores, como Norberto
em algumas das sua infelizes tentativas épicas e dramáticas, os melhores deles escrevem se não singelamente, o que parece
incompatível com o nosso gênio literário, todavia em estilo menos torcido e enfático que o geral da ex-metrópole, e do qual
não escaparam no mesmo período os melhores dali, porventura com a única exceção relevante de Garrett. Esta relativa
simplicidade é uma das virtudes mais estimáveis dos bons poetas da segunda geração romântica. Pecam, entretanto, os de
ambas estas gerações pelo excesso de sentimentalismo e de romanesco que, principalmente na ficção em prosa, roça neles
pela pieguice e pelo amaneirado do pensamento e da expressão. Não tem ainda as preocupações de forma que chamamos de
artísticas. E não eram desses artistas natos da palavra escrita que, sem intenção nem rebusca, acham a forma excelente.
Apenas Gonçalves Dias na maior parte da sua obra, e Porto Alegre no seu tão mal julgado quanto desconhecido Colombo,
e alguma vez na sua prosa característica, a encontraram. Porto Alegre, cujo bom gosto era menos apurado que o de Gonçalves
Dias, prejudicou-se no entanto pela sua inclinação bárbara, mas muito da índole literária nacional, ao pomposo e reluzente
do estilo e ao rebuscado do pensamento e da forma.
Capítulo IX
MAGALHÃES E O ROMANTISMO
FAVORECIDO PELA AUTONOMIA de fato resultante da mudança da Corte portuguesa para cá, pelo apartamento intelectual
da metrópole começado a operar com a criação de faculdades, escolas, institutos