A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
115 pág.
sociedade_etica_politica

Pré-visualização | Página 23 de 32

concreto que está muito 
reduzido. É o Cristo e a virgem Maria, são os santos, os heróis, os reis e não se vai além disso. É 
como na Grécia clássica também de deuses, deusas, os heróis e reis e não se vai muito além disso. 
Quer dizer, sempre o universal concreto e havia aquela correspondência que eu já falei na 
biografia, ou seja, esses universais concretos entrando com paradigmas, como modelos, como 
santos, no caso da santidade, como modelos que podem e devem ser seguidos por todos os 
homens que compõem uma certa comunidade. Então o príncipe, o rei é como se um modelo vivo 
para os seus súditos. E é justamente essa idéia que cai por terra com o advento do homem 
burguês. Porque passa-se a fotografar simplesmente a pessoa comum, uma pessoa que tem 
dinheiro, por exemplo, dou alguns exemplos, aqueles quadros maravilhosos da pintura flamenga, 
quando a pintura representava a figura do Cristo, da ressurreição do Cristo, por exemplo, e o 
pintor punha na margem esquerda, em baixo quase da moldura junto do quadro, ele punha sempre 
em atitude de oração, um pequeno casal, em contraste violento com o tamanho do Cristo, um 
pequeno casal rezando. Aquelas pessoas não são literalmente ninguém, estão muito bem vestidas 
e tem dinheiro e pagaram o quadro, pagaram o artista. Essa pessoa que paga o artista, que não 
tem nome é justamente o burguês. E a toda uma história belíssima na litografia das práticas da 
 81
renascença italiana, e também dos países baixos que mostra exatamente essa evolução, quer 
dizer, a figura do Cristo, do santo, da virgem, começa a entrar um pouco em decadência e se 
acentua mais simplesmente, por exemplo a mulher do comerciante instalada em seu pequeno 
trono burguês, muito limpo, muito asseado, muito bem composto, e ela, uma pequena balança 
pesa o ouro conquistado, comerciado pelo seu marido. Então começa a surgir essa idéia de que o 
burguês sem ser santo, sem ser herói, sem ser rei, sem ter nenhuma insígnia especial, tem apenas 
o seu dinheiro, mas ele merece também ser fotografado, quer dizer, retratado por um grande 
pintor como Rembrandt, por exemplo. 
 
República e Espaço Público 
 
Marilena Chauí 
 
Como o poder estava marcado pela ética da esfera privada, o poder estava marcado pela idéia de 
que o governante era quem tinha que ser virtuoso. O que acontece com os pensadores que vão 
criar a nova idéia da política? Que vão dizer que existe sim a rés pública, a coisa pública, o 
espaço público? O que eles vão fazer? 
 
Maquiavel, Política e Ética 
 
Eles vão dizer que o espaço público, a rés pública, o poder político não podem ser regidos pelos 
valores do espaço privado, portanto, pelos valores da ética, pelos valores da virtude. E eles vão se 
separar, e essa é a grande separação feita por Maquiavel, eles vão separar o público e o privado 
dizendo: o privado é o campo da ética, o público é o campo da política. E a política e a ética não 
têm mais nada em comum. 
 
Lógica de Forças 
 
O que vai ser dito é o campo da política não é regido pela virtude do governante. O campo da 
política é regido por uma lógica, que é a lógica das relações de força. E, para que o campo da 
política não seja o campo da violência e da guerra, é preciso lidar com esse campo de forças ou, 
 82
portanto, com os conflitos, com as divisões que caracterizam a sociedade. É preciso lidar com 
essas divisões, com esses conflitos, com essas diferenças de um modo tal, que a política não seja 
a guerra, que a política não seja a pura força, a pura violência, aquela que tem uma lógica das 
forças, que é encarnada no poder político como um pólo, que simboliza para o todo da sociedade 
uma unidade que ela própria não tem. 
 
Instituições 
 
E que se realiza através das instituições e através da lei. E, portanto, o importante é a qualidade 
da lei e a qualidade das instituições, a qualidade do direito e da justiça, a qualidade das decisões, 
e não mais a pessoa ou as pessoas que ocupam o campo político são ou não virtuosas. E a virtude 
é, portanto, com ela a ética se torna alguma coisa própria da vida privada. 
 
Itinerário do Novo Homem 
 
Gerd Bornheim 
 
Mas esse homem, que quer ser posto como novo, que quer ser dono de si, autônomo, para isso ele 
tem que seguir um certo itinerário, lançar mão de certos recursos e eu vou enumerar alguns 
desses recursos. 
 
Capitalismo 
 
O capitalismo, sabe-se que o próprio Marx reconhecia, que na Idade Média a organização da 
igreja era tão forte, tão absoluta que ela decidia até mesmo o desenvolvimento da economia. Quer 
dizer, em última instância, diria Marx, tudo é econômico. Mas de repente há uma instância 
ideológica que é a igreja, no caso que, das diretivas gerais dentro das quais se desdobrava a 
economia, toda ela. Bem, isso é rompido também pelo homem burguês. Basta lembrar, por 
exemplo, que é na Veneza do século XV em que surge o primeiro banco, e que assim acumula-se, 
ou seja, começa a acumular de fato o capital. E a grande transformação que se estabelece aqui, 
agora, é simplesmente o seguinte, é que a moeda, que sempre foi considerada essencialmente um 
 83
meio, para facilitar a troca, a moeda é essencialmente esse meio, ela é como que alienada de sua 
característica fundamental. E a moeda passa a ser um fim em si mesmo. Ela passa a ser uma 
realidade abstrata no sentido em que ela se desvincula do conjunto da rede de trocas que é sua 
motivação original. Pois é a partir daqui que o capitalismo adquire um aspecto de dominação 
sobre as estruturas sociais, suas mazelas que é surpreendente para a evolução do homem e 
especialmente para a evolução do homem burguês. 
 
Liberdade 
 
A liberdade tem toda uma história, não existe uma essência supra-histórica, perene, estável da 
liberdade. A não ser que queira começar, digamos, uma espécie de transcendência que é própria 
do homem. O homem não se perde na imanência como um animal, ele tem consciência das 
coisas. Então essa transcendência lhe dá uma certa superioridade em tudo que ele pode quase que 
se dispor das coisas de uma ou de outra maneira. Aqui estaria a origem da liberdade. 
 
O burguês, porém, ele vai elaborar um outro conceito de liberdade, e quem elaborou esse 
conceito fundamentalmente, no ponto de partida essencial é Descartes, mais uma vez. E de tal 
maneira que se pode estabelecer uma relação entre a concepção cartesiana do conhecimento e a 
concepção que ele tem da liberdade. E a inovação da liberdade reside em dois pontos: em 
primeiro lugar, para ele liberdade e livre arbítrio são sinônimos, é a mesma coisa. Tudo se resume 
agora à capacidade que o homem tem de escolha. E em segundo lugar, essa redução ou esse livre 
arbítrio, ele se entende, pura e simplesmente a partir daquela autonomia do homem burguês. Que 
não ocorria na Idade Média. Lá o homem era um súdito do rei, do papa, de Deus. Então esse ser 
súdito, o livre arbítrio era como que tolhido por essa subordinação essencial do homem medieval. 
Agora quando o homem se torna autônomo, ele tem o livre arbítrio. O livre arbítrio é toda a 
liberdade desse burguês, que se torna realmente um senhor. Isso fundamenta todo o projeto de 
vida dele. Ele é autônomo, ele trabalha, é merecedor do que tem, ele tem casa própria, acumula o 
seu capital, elabora a realidade toda, transforma tudo num objeto que ele pode manipular. Então 
se pode perceber que há de fato uma correspondência entre o modo como se constitui o objeto em 
Descartes, o princípio de manipulabilidade, digamos, se insere dentro da essência mesmo do 
 84
objeto e o homem, com livre arbítrio, que vai poder de fato manipular esse objeto constituído, 
construído pelo próprio homem. 
 
Contrato Social 
 
Mas há uma última