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independia do Estado ou comunidade política. Nela o 
homem convertia-se em um cidadão do cosmos, não da Pólis (Vasquez, 1989, p. 242). 
 
Epicuristas 
 
 O epicurismo, com representantes como Epicuro, na Grécia, e Tito Lucrécio Caro, em 
Roma, surgiu no mesmo contexto histórico em que surgiu o estoicismo. 
 Os epicuristas também partiam da idéia de que a moral não mais se definia em relação à 
Polis, mas em relação ao universo. Também para eles a física, não mais a Política, seria a 
premissa da Ética. Tudo o que existe (a alma e as formas da matéria) seria formada por átomos 
materiais que possuiriam um certo grau de liberdade, na medida em que se poderiam desviar-se 
ligeiramente na sua queda. 
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Os fenômenos físicos e humanos não seriam determinados por qualquer intervenção 
divina. Os homens não teriam porque temer os deuses e poderiam e deveriam fugir da dor e 
buscar o prazer. 
 O móvel da conduta humana seria o prazer. Embora houvesse diversos prazeres, nem 
todos seriam igualmente bons. Haveriam prazeres fugazes e imediatos, que seriam os corporais, e 
os duradouros e estáveis, que seriam os espirituais. 
 Os prazeres espirituais seriam os que contribuiriam para a paz da alma e a auto suficiência 
(autarcia) do ser. Eles poderiam ser alcançados pelo homem que se retirasse da turbulência social, 
que reconhecesse a si mesmo, que superasse o temor do mundo sobrenatural e que compartilhasse 
o diálogo no jardim com um grupo de amigos. 
A Ética epicurista também dissolveu a unidade entre a moral e a política presente nos 
sofistas, em Platão e em Aristóteles. A moral não mais se realizaria no Estado ou comunidade 
política, mas no indivíduo que recolhesse em si mesmo; e que se distanciasse da turbulência do 
mundo. 
 Aristipo evidencia que o móvel primordial da conduta humana seria o prazer. Por 
conseqüência o móvel secundário e correlato da conduta humana seria a fuga da dor. 
Compreendia que somente o prazer seria desejado por si mesmo desde a infância sem uma 
vontade deliberada. Quando o homem o alcançasse, não procuraria outra coisa (Abbagnano, 
1995, p. 383 e 384). 
 Epicuro realça que a felicidade seria prazer enquanto satisfação de desejos físicos. Mas, 
como o prazer e a dor compõe a existência, seria necessário buscar um prazer comedido e 
constante, por meio do desejo saciado e do equilíbrio entre as partes do organismo. 
 A conduta humana fundada no equilíbrio, na tranqüilidade, na amizade, na auto-
suficiência, no destemor (da morte e dos deuses), representaria um remédio para enfrentar a 
solidão e a insegurança de nossas vidas de qualidade superior àqueles que os vínculos da vida 
política poderia proporcionar. Assim, seria possível ser feliz mesmo sob a pobreza material, a 
guerra, a perseguição política, a doença, enfim, sob qualquer circunstância da existência humana. 
 Epicuro buscou fundar uma Ética que permitisse a cada homem descobrir que ele pode se 
libertar das imposições da necessidade, do destino e dos deuses. Enfim, que enquanto senhor de 
si mesmo, livre dos constrangimentos da existência, pode e deve buscar ser feliz. Segundo 
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Epicuro “ Quem compreendeu que nada há de temível no fato de estar morto, a nada temerá na 
vida” ( Epicuro apud Abrão, 1999, p. 74 ). 
 
2.3. O Mundo Medieval Ocidental e a Ética 
 
 O Mundo Medieval Ocidental articulou-se a partir de uma formação social e econômica 
senhorial e feudal. Esta formação teve origem no interior do Baixo Império Romano por meio da 
ruralização da sua população, do retrocesso demográfico, do esvaziamento do comércio, do 
refluxo monetário, das guerras civis e das invasões. 
Entre os séculos VI e VII a formação social e econômica senhorial e feudal se consolidou. 
A escravidão deu lugar a servidão; a sociedade escravista deu lugar a sociedade medieval como 
um sistema de dependências e de vassalagens estratificado e hierárquico; a unificação econômica 
e política romana deu lugar a fragmentação econômica e política na forma de unidades 
autárquicas feudais ou comunas urbanas; a moral e a Ética racionalista e escravista deu lugar a 
uma moral e a uma Ética profundamente condicionada por meio de elementos religiosos. 
 A crise do poder temporal com o fim do Império Romano do Ocidente e o advento dos 
inconstantes e instáveis reinos romano-germânicos, a insegurança provocada pelas invasões, 
doenças e fome e a expansão do poder espiritual por meio do crescimento organizativo, 
doutrinário e econômico da Igreja, geraram um ambiente favorável para o desenvolvimento de 
uma nova subjetividade. As interpretações do mundo de cunho natural e social deslocou-se da 
natureza e do homem para Deus; da razão para a fé; da Filosofia para a Teologia, e da vida social 
concreta para os dogmas religiosos. De forma a coroar a nova subjetividade o poder temporal 
passou a estar atrelado ao poder espiritual. 
 No mundo medieval ocidental desenvolveu-se uma Moral feudal e cristã. A Igreja, 
concebida como instrumento de Deus e ordenadora do poder espiritual, e a aristocracia feudal, 
concebidos como homens de linhagens e ordenadores do poder temporal, foram os arquitetos da 
referida Moral. 
 A aristocracia feudal concebia-se como possuidora, por natureza, de uma serie de 
qualidades morais elevadas que a distinguiam dos homens comuns e dos servos. A aristocracia 
não teria que provar estas qualidades, apenas vivenciá-las. Edificou-se a Moral cavalheiresca, 
exaltadora da guerra, do ócio e das virtudes cavalheirescas (cavalgar, desenvolver habilidades 
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com as armas, apreender técnicas e táticas militares e tecer loas à mulher amada) e cultuadora da 
honra, da coragem e da valentia. Moral que também acomodava e legitimava práticas como a 
crueldade (no trato com os servos, com os vencidos nas guerras etc), a hipocrisia, a traição, o 
direito de pernada etc. 
 A Igreja edificou a Moral monástica, exaltadora da humildade, da pobreza e da 
contemplação divina. Moral que também acomodava, na esfera privada, práticas como a gula, o 
fausto, a felonia, a luxuria. 
 Os servos e os homens livres das cidades (artesãos, mercadores etc), embora reconhecidos 
pela Igreja e pela aristocracia como possuidores do direito a vida e reconhecidos como seres 
humanos, não foram reconhecidos como possuidores de uma vida moral. Todavia, almejavam 
liberdade e independência pessoal; cultivavam laços de ajuda mútua e de solidariedade; e 
estabeleceram uma relação íntima com o meio natural (especialmente a terra) e o trabalho, 
expresso por meio de um universo simbólico e ritualístico diversificado. Estes anseios foram 
projetados na perspectiva do paraíso, isto é, do mundo de liberdade e de igualdade alcançável na 
esfera do mundo sobrenatural, divino. 
 
2.3.1. Ética Religiosa 
 
 A Ética cristã partia de um conjunto de verdades reveladas ao homem por Deus. Estas 
verdades definiriam Deus como criador do homem e do mundo, das relações que o homem 
deveria manter com Deus e da vida moral para que os homens pudessem alcançar a salvação no 
outro mundo. 
 Deus seria um ser pessoal, bom, onipresente, onisciente e onipotente. Deus seria o fim 
último, bem superior e valor supremo do homem, alcançado por meio da obediência e do 
cumprimento dos seus mandamentos. A essência da felicidade (a beatitude) seria a contemplação 
de Deus. Deus encontraria-se acima da sociedade e do Estado ou comunidade política; o amor 
divino acima do amor humano; e a ordem sobrenatural acima a ordem natural. 
 A doutrina cristã das virtudes incorporaria as virtudes morais fundamentais - que seriam a 
prudência, a fortaleza, a temperança e a justiça; as virtudes de escala humana voltadas para a 
regulação das relações entre os homens - que seriam o