TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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TRATADO 
DE 
Direito Penal Allemão 
TRATADO 
DE 
Direito Penal Allemão 
PELO 
D". FRANZ VON LISZT 
 professor da Universidade de Halle 
TRADUZIDO DA ULTIMA EDIÇ ÃO E COMMENTADO 
PELO 
Dr. José Hygino Duarte Pereira 
ex-professor da Faculdade de Direito do Recife 
ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal 
UNICA TRADUGÇÃO AUTORISADA PELO AUTOR 
TOMO II 
RIO DE JANEIRO 
F. BRIGUIET & C. - Editores 10 \u2022 19 Rua Nova do 
Ouvidor 16 e 18 
7422-96 1899 
PARTE ESPECIAL 
§ 79. \u2014 Exame do systema 
LITTERATURA. \u2014V. Liszt, Z., 8º, 133. Cons. as 
monographias mencionadas no § 12. I 
 I.\u2014A distincção entre os bens jurídicos que o crime 
ameaça e que a pena protege, \u2014 e portanto a 
distincção entre os interesses que pela lei gozam de 
protecção juridica e propriamente da do direito penal 
\u2014 serve de base á classificação das materias da parte 
especial da nossa sciencia, base hoje geralmente ac-
ceita nos tratados deste ramo do direito. 
O bem jurídico, objecto da protecção do direito, 
em ultima analyse é sempre a existencia humana nas 
suas diversas fórmas e manifestações. Ella é que é o 
bem jurídico, isto é, o centro de todos os interesses 
juridicamente protegidos. Mas a existencia humana nos 
apparece como existencia do homem considerado na 
sua individualidade ou como exis- 
tenc
ia dos membros da communhão na sua collecti-vidade. 
Todos os interesses atacados pelo crime e protegidos 
pelo direito penal se distinguem conse-quentemente 
em bens do individuo e em bens da collectividade. 
T. 11 1 
2 TRATADO DE DIREITO PENAL 
II.\u2014Bens do individuo. 
Quando se diz que a existencia do individuo 
deve ser objecto da protecção do direito, isto signi 
fica que a ordem juridica, como ordem de paz, lhe 
assegura o livre exercicio de suas faculdades. Este é| 
o supremo interesse, o bem jurídico do individuo. 
Das differentes direcções dessa manifestação do 
proprio ser deve resultar a divisão dos bens jurí 
dicos individuaes. 
A protecção do livre exercicio das faculdades 
comprehende em primeiro logar, como condição de toda 
manifestação da existencia humana, a protecção da vida 
physica, a integridade do corpo. E' este pois o primeiro e o 
mais importante dos bens jurídicos individuaes. 
Comprehende mais todas as direcções da actividade, que, 
como manifestações do individuo eminentemente pessoaes, a 
elle se prendem de um modo inseparavel. Obtemos assim um 
segundo grupo, o grande grupo dos interesses que podem ser 
classificados como bens juridico* incorporeos (immateríaes). 
Pertencem a este grupo: 1.°, a consideração pessoal 
entre os membros da communhão (a honra); 2.°, a liberdade 
individual -, 3.*, a livre disposição do proprio corpo nas 
relações sexuaes (a honra sexual), e bem assim a conservação 
do sentimento moral; 4.º, os direitos de família; 5.º. a 
liberdade religiosa; 6.*, a inviolabilidade do domicilio (direito 
domestico), bem como a preservação das relações pessoaes e 
sociaes contra toda intervenção indebita (segredo da 
correspondencia epistolar etc.); 7.% a consciencia de poder 
estar seguro da protecção da «ordem de paz \u2022 em todas as 
manifestações da propria actividade (paz jurídica). 
Aos bens incorporeos contrapomos um terceiro grupo de 
interesses individuaes, que se distingue do segundo sob 
todos os pontos de vista: o dos 
 
EXAME DO BTSTEMÀ 3 
direitos patrimoniaes. Assignala a diflerença especifica 
o facto de que taes interesses não são eminentemente 
pessoaes, não se acham indissoluvelmente ligados ao 
individuo; nos direitos patrimoniaes a actividade 
individual é materialmente ligada, desses direitos 
resulta um império sobre cousas ou pessoas, que pôde 
ser separado de quem o tem, transferido a outrem e 
apreciado em dinheiro. Nelles a personalidade 4I0 
titular do direito fica completamente na penumbra; o 
bem jurídico da propriedade não muda de natureza, 
quando é transferido de A para B. A esta natureza 
especial dos direitos patrimoniaes corresponde a 
protecção, que o direito lhes dispensa, summamente 
desenvolvida e que de nenhum modo se esgota em 
preceitos prohíbitivos. 
Entre os bens puramente incorpóreos e os direitos 
patrimoniaes interpõe-se, facilitando a transição 
daquelles para estes, um quarto grupo de interesses 
juridicamente protegidos, que Gareis, Kohler e outros 
denominam com muita propriedade direitos 
individuaes ('). E' a individualidade espontânea e 
creadora, o talento eminentemente pessoal do cultor 
das artes plásticas, do sábio investigador, do inventor 
industrial, que para as suas producções pede protecção 
jurídica. Até aqui os direitos indi-viduaes e os bens 
puramente incorpóreos se tocam, mas não se 
confundem. A idéa artística precisa de fórma para 
externasse; a força creadora do espirito 
(\u2022) Gareis, Encyclopãdie, 79, nota 1?, indica a littoratura. Posteriormente 
elle introduzi" a denominação de «direito» de individualidade» (1892). Contra a 
idéa e M denominação pronunciam-so v. Meyer, 7811 Merkel, 837, v. Ihering, 
Rechisschuiz gegen injuriose Rcchtsver-leimngen, Dogmat. Jahrb., 28.*, 166 
(oap. 10). No sentido do texto a expressão direito individual foi empregada pela 
2.* camará criminal na dec. de 29 de Março de 81, 4, 36, bem como pela Ia 
camará civil na dec. de 2 de Outubro de 86, 18.*, 28 (das dec. de dir. civ.). 
 
TRATADO DE DIREITO PENAL 
só se manifesta na matéria e pela matéria. Com 
esta corporificação da idéa, porém, torna-se possível 
que ella se separe do seu autor (embora somente 
em parte), que seja transferida a outrem (com 
quanto incompletamente), e apreciada em di 
nheiro (comquanto de um modo imperfeito). Eu 
posso transmittir ao editor a obra em manuscrípto, 
por mim composta, para que elle a publique, ou ao 
emprezario o autographo da minha opera, rara que 
elle a faça representar. Essa transmissibilidade appro- 
xima os direitos individuaes dos direitos patrimoniaes, 
sem que uns e outros inteiramente coincidam (a); 
e assim a formação de um novo grupo especial se 
impõe como uma necessidade do systema. fj 
Best'arte obtemos a seguinte classificação dos 
crimes que attentam contra os bens do individuo: 
1.°, crimes contra o corpo e a vida; 
2.°, crimes contra os bens incorpóreos; 
3.°, crimes contra os direitos individuaes; 
4.°, crimes contra os direitos patrimoniaes. 
A estes quatro grupos accresce um quinto con-
cernente aos crimes que se assignalam, não pelo 
objecto, mas pelo modo, e especialmente pelo meio da 
aggressao; os crimes que consistem no abuso de 
instituições publicas, bem como no abuso de descobertas 
e inventos humanos, para a lesão de interesses juridi-
camente protegidos (§ 43, I, 2). O Estado, commi-
nando penas contra taes attentados e criando assim um 
grupo de infracções homogéneas, não converte 
interesses até então não existentes ou não prote- 
(*) Não se esqueça que a conversão do direito de autor em direito 
de reproducçâb (isto é, uma transformação substancial) é consequência 
de toda transferencia por parte daquelle. O direito á marca não pôde ser 
separado da firma que a marca designa, e só pôde ser transferido com 
esta. Cons. também a dec. do Trib. do Imp. de 2 de Julho de 85, 12.°, 
827. 
 
 
EXAME DO 8YSTEMÀ 5 
gidos em novos bens jurídicos, mas completa o arsenal 
das armas necessárias para a protecção de interesses 
desde muito existentes e desde muito protegidos, 
embora de um modo insufficiente. A este grupo 
pertencem os crimes de perigo commum, o abuso de 
matérias explosivas e a falsificação da moeda, de 
documentos e de mercadorias. 
III. \u2014 Bens jurídicos da collectívidade. 
Podjpmos distinguir três grupos. O Estado, como 
tal, nos representa a collectívidade; a administração 
publica com a sua acção tutelar e promotora de in-
teresses, a actividade, o
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