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texto argumentativo aula 27-08-2013

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Texto1: Cota para negros na universidade
1-Um “Oh!” prolongado de surpresa e indignação percorreu o auditório do teatro da PUC de São Paulo. Foi lá pelo início dos anos 80. O orador, negro, americano, pastor e teólogo metodista, concluíra sua brilhante exposição afirmando incisivamente: “Deus é negro!”. No palco, algumas celebridades latino-americanas da época, como o sandinista Comandante Ortega, da Nicarágua, e algumas estrelas refulgentes da teologia da libertação. No auditório, uma multidão do que se definia como esquerda cristã, expoentes de uma das facções do futuro PT. Abertos os debates, o teólogo negro foi alvo de irados questionamentos. Que prova tinha ele de que Deus é negro? E ele explicou: “Deus é negro porque Ele é a vítima!”. Argumentava com os fundamentos da crença daquele mesmo público: a vítima sacrificial que em Cristo fundara o cristianismo.
	2- Quando cheguei à Universidade de Cambridge, na Inglaterra, pela primeira vez, em 1976, fazia pouco tempo que vários dos mais importantes “colleges” haviam começado a receber mulheres. Fundada em 1200, a provavelmente mais importante universidade do mundo mantivera-se como reduto masculino. Dois “colleges” femininos só foram estabelecidos tardiamente.
	3- A mudança recente e radical era uma medida prática, que um amigo resumiu com alguma ironia. A universidade constatou que metade do gênero humano é constituída de mulheres e que as mulheres são tão inteligentes quanto os homens. Cambridge, ao excluir as mulheres, privava-se de metade das inteligências que poderia recrutar. Os “colleges” de Cambridge medem seu prestígio, sobretudo, pelos êxitos científicos e pelo número de Prêmios Nobel que têm. Só um deles, o Trinity, tem mais Prêmios Nobel que a Itália.
	4- Creio que essas duas histórias ajudam a compreender o que de fato interessa. Seria um equívoco se a adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras tivesse por objetivo apenas resolver uma injustiça histórica. A universidade não é boa para isso, até porque essa não é sua função. De nada adianta adotar o regime de cotas na universidade, se a escola elementar e a escola média continuarem na indigência em que se encontram. A decadente qualidade de ensino nesses níveis de escolarização é que constitui uma das principais fábricas de injustiça social neste país, e não só de injustiça racial. A porta dos fundos não fará justiça a ninguém.
	5- Os alunos que são barrados no vestibular não o são por sua raça. Eles o são, negros ou brancos, porque não atingem o nível mínimo e básico de conhecimento para ingressar na universidade. Seu destino é decidido na precária escolaridade prévia que os inabilita para seguir adiante. A escola deficiente é apenas o reflexo de outras muitas injustiças próprias de um país em que ainda há trabalho escravo. A crônica degradação geral das condições de vida de grande parcela da população não será corrigida com o regime de cotas. A cota não supre o saber inexistente e necessário para seguir um bom curso universitário.
	6- Certamente é justa a demanda dos afrodescendentes que vem sendo feita, no geral, por quem não é afrodescendente. A fórmula, porém, copiada do modelo americano, não só não resolve essa injustiça, como cria outras, como se viu em vestibular do Rio de Janeiro. A universidade deve ser pensada em termos universais. Ela se torna pobre por não abrigar talentosas vítimas da injustiça social de todas as condições sociais; e esse é o verdadeiro problema.
	7- Quando vejo uma criança cheirando cola ou perambulando pelas ruas, seja ela negra ou branca, fico pensando na vítima que nela há, que é a sociedade inteira. As estratégias de sobrevivência dessa criança, mesmo na sua não rara nocividade, mostram-nos uma maravilhosa competência para driblar as adversidades da vida. Essa mesma competência poderia torná-la um médico que salva vidas, um engenheiro que constrói estradas, um arquiteto que sonha moradias, um físico ou biólogo que desvenda mistérios da vida e do mundo, um paisagista que semeia flores, um juiz que faz justiça, um agrônomo que sacia a fome de tantos com o fruto da fartura.
	8- O verdadeiro sujeito dessa questão não é o negro, é a vítima. Nem toda vítima é negra e, hoje, nem todo negro é vítima. O débito não é primordialmente a injustiça, e sim o empobrecimento da sociedade que na vítima há. É inútil lamentar o passado. É preferível construir o futuro, que não existirá enquanto houver vítimas. A proposição do regime de cotas é apenas uma indicação dos sintomas de nossas enfermidades sociais. Mas dificilmente será o remédio, enquanto a máquina poderosa de exclusão continuar funcionando e a sociedade e o Estado se mostrarem tão pouco criativos no diagnóstico e na solução.
 José de Souza Martins - professor de Sociologia da USP
 Maio/03
Questões:
No 1º parágrafo, o sociólogo americano expõe uma opinião acerca de Deus e fundamenta-a. 
a) Qual é essa opinião? 
b) Que argumento a comprova?
Qual é a opinião do autor sobre o sistema de cotas para o ingresso na universidade? 
Que argumentos ele utiliza para justificar sua opinião? 
4- A expressão “porta dos fundos” que aparece no final do 4º parágrafo refere-se a: 
( ) a escola pública brasileira; 
( ) o sistema de cotas para ingresso nas universidades;
( ) a decadente qualidade de ensino da escola fundamental e média.
A partir das idéias presentes no texto pode-se dizer que: 
( ) O autor considera o sistema de cotas uma forma de inclusão social;
( ) O autor não concorda com o sistema de cotas;
( ) O autor propõe que haja cotas para todos os injustiçados sociais.
6- Expresse sua opinião sobre o sistema de cotas para entrada na universidade. 
7- Dê dois argumentos para justificar a opinião expressa na questão anterior. 
8- Organize as respostas dadas às duas questões anteriores, na produção de um texto argumentativo. 
Texto 2: Contra o abuso
Redes de TV erram ao proteger apenas parte das crianças e dos adolescentes do país de programas impróprios
§1 É hipócrita a resistência das emissoras de TV à classificação indicativa da programação por faixas de horário. Agitam a bandeira da liberdade de expressão, mas pretendem apenas obter salvo-conduto para continuar tratando crianças e adolescentes de forma discriminatória.
§2 As redes respeitam a classificação indicativa por faixa de horário, produzida pelo Ministério da Justiça, apenas no território abrangido pelo fuso horário de Brasília. Mais de 26 milhões de jovens em Estados como Mato Grosso do Sul, Amazonas e Roraima – em todo o Nordeste nos quatro meses do horário de verão – ficam suscetíveis a programas inadequados para sua idade já no início da noite.
§3 As “dificuldades técnicas”, imiscuídas em interesses comerciais, alegadas pelas emissoras para respeitar o fuso horário decerto existem. Mas não justificam, aos olhos olhos da lei, o duplo padrão de proteger a infância e a juventude apenas no centro-sul.
§4 Estão claras as atribuições legais para o controle da programação de rádio e TV no Brasil. Ao Executivo federal está reservado o papel de classificar os conteúdos “para efeito indicativo” (art. 21 da Carta). À sociedade, por meio do Ministério Público e do Judiciário, cabe exercer as sanções e as precauções em caso de desrespeito ou ameaça “aos valores éticos e sociais da pessoa e da família” (art. 221).
§5 O Estatuto da Criança e do Adolescente especifica esse último princípio: “As emissoras [...] somente exibirão, no horário recomendado para o público infantojuvenil, programas com finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas (art. 76)”. No art. 254, estabelece sanções – que vão de multa até suspensão temporária da programação – à emissora que