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MULTICULTURALISMO E DIREITOS HUMANOS: UMA QUESTÃO A SER PENSADA. José Augusto de Souza Neto ¹ RESUMO: O presente texto apresenta uma pesquisa científica sobre a pergunta de como se fazer respeitarem os direitos garantidos na Constituição Brasileira e na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, especificamente, em sociedades multiculturais. Para tanto, na segunda parte do artigo se oferece uma análise conceitual sobre o multiculturalismo, bem como faz-se uma abordagem da formação de identidades modernas aliada a influência da globalização no Brasil, buscando expor como a questão multicultural foi aos poucos tomando conta do país e formando uma nação onde existem várias culturas. PALAVRAS-CHAVE: Direitos Humanos - Multiculturalismo – Cultura – Brasil. INTRODUÇÃO Desde os primórdios da existência desta terra por muitos chamada de Vera ou Santa Cruz já existiam aqui neste território varias etnias e culturas diferentes, cada tribo de índios àquele tempo tinha seus costumes e tradições que foram extremamente fundamentais para a formação histórica do país que temos hoje. No inicio do século XVI deu-se inicio ao processo de descobrimento deste território que tratamos logo acima, caravelas comandadas por Pedro Álvares Cabral e tendo a tripulação basicamente portuguesa ancoraram e desceram em erra firme, este foi o primeiro passo para a colonização e processo de formação cultural do Brasil de hoje. Durante muito tempo historiadores e pessoas faziam a pergunta, o que seria do Brasil não fossem os portugueses que descobriram e colonizaram esta terra? A resposta é óbvia, não seria diferente em muita coisa, talvez no idioma e no que aprenderíamos nas aulas de história. A partir da Revolução Francesa e da Independência dos Estados Unidos da América, o desenvolvimento dos direitos humanos acontece e chega a sua primeira fase, que é a da positivação. Com a positivação de certos direitos naturais, pertencentes a todo ser humano, em textos legais situados no ordenamento jurídico de vários países, outras nações passam a trazer esses direitos como direitos fundamentais, no Brasil esses direitos foram positivados apenas na Constituição de 1988. A segunda fase de transformações dos direitos humanos é a de sua propagação e generalização, no início do século XIX. Como já dito anteriormente os direitos humanos são inerentes à pessoa, independentemente de sua posição social, raça, credo, origem, gênero e etc. Essa propagação dos direitos humanos surge também como uma espécie de desenvolvimento para o mesmo, a partir da Segunda Guerra Mundial, no século XX, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é o primeiro passo na determinação de alguns direitos, com esta declaração objetivam-se direitos de grupos específicos de pessoas, como deficientes físicos, mulheres, imigrantes, refugiados, crianças, idosos e etc.. Dessa forma, os direitos humanos são apresentados com a concepção individualista da sociedade, característica da cultura ocidental, em que se pode falar de individualismo religioso, político, moral, jurídico, estético etc. O professor indiano R.C. Pandeya², da Universidade de Delhi, trás em seu discurso a forma como os direitos humanos são encarados para os orientais. Para um hindu, não existem direitos só pelo fato de ser humano, pois os direitos devem ser conquistados e são resultados de obrigações. Se concederem direitos a um hindu é porque existem obrigações para esse hindu. Se há uma carta de direitos humanos, deve haver uma carta de obrigações para os seres humanos. OBJETIVOS Pesquisar e identificar artigos publicados nos últimos cinco anos, que trabalham com a temática do multiculturalismo associada aos direitos humanos, bem como analisar a produção sobre essa temática, visando ressaltar as principais discussões e questões presentes, e as diferentes abordagens sobre a questão multicultural. METODOLOGIA A pesquisa tem caráter bibliográfico, portanto o ponto de partida foi o levantamento de artigos publicados nos portais de periódicos existentes nas plataformas digitais indicadas, o Portal de Periódicos do Capes e o Portal de Periódicos Scielo. Num segundo momento, foi feita uma análise dos artigos destacando-se os seguintes aspectos: temas abordados, principais autores que fundamentam os diferentes trabalhos, metodologias utilizadas e conclusões mais relevantes. O terceiro momento foi dedicado a um balanço crítico dos textos e suas contribuições para o desenvolvimento deste trabalho. Foram lidos 11 artigos científicos, para a elaboração deste trabalho. MULTICULTURALISMO NA REALIDADE BRASILEIRA No multiculturalismo, existe a convivência em um país, região ou local de diferentes culturas e tradições. Há uma mescla de culturas, de visões de vida e valores. O multiculturalismo é pluralista, como já se pode observar, pois aceita diversos pensamentos sobre um mesmo tema, abolindo o pensamento único. Há o diálogo entre culturas diversas para a convivência pacífica e com resultados positivos a ambas. No momento atual, a questão multicultural preocupa muitas sociedades. O debate multicultural é intenso nos Estados Unidos e também na Europa. No entanto, no Brasil a questão multicultural tem uma especificidade. Nosso país é um país construído com uma base multicultural muito forte, onde as relações inter- étnicas têm sido uma constante através de toda sua história, uma história dolorosa e trágica principalmente no que diz respeito aos indígenas e aos afro-descendentes. A nossa história está marcada pela eliminação do “outro” ou por sua escravização, que também é uma forma de negação de sua identidade e de seus direitos. Esses “outros” que são massacrados e deixados de lado na construção da identidade brasileira. Nesse sentido, o debate multicultural no Brasil nos coloca diante dessa questão, desses “outros”, pessoas históricas que foram massacradas, mas que souberam resistir e hoje continuam afirmando suas identidades fortemente nas nossas sociedades, mas numa situação de relações de poder assimétricas, de subordinação e exclusão ainda muito acentuadas. Existe hoje a necessidade de se estudar as igualdades nas diferenças e as diferenças na igualdade. O Multiculturalismo é responsável por isso, todos iguais em um mesmo país porém vistos de maneira diferente pelo próximo e tendo consequências drásticas com isso. Uma frase do sociólogo português Boaventura Souza Santos³ sintetiza de maneira especialmente oportuna esta tensão: “temos direito a reivindicar a igualdade sempre que a diferença nos inferioriza e temos direito de reivindicar a diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza”. Nesse sentido, não se deve opor igualdade à diferença. De fato, a igualdade não está oposta à diferença e sim à desigualdade. Diferença não se opõe à igualdade e sim à padronização, à produção em série, a tudo o “mesmo”, à “mesmice”. O que estamos querendo trabalhar é, ao mesmo tempo, negar a padronização e lutar contra todas as formas de desigualdade presentes na nossa sociedade. Nem padronização nem desigualdade. E sim, lutar pela igualdade e pelo reconhecimento das diferenças. A igualdade que queremos construir assume a promoção dos direitos básicos de todas as pessoas. No entanto, esses todos não são padronizados, não são os “mesmos”. Têm de ter as suas diferenças reconhecidas como elemento de construção da igualdade. Considero que essa temática, nos próximos anos, vai suscitar uma grande discussão, um debate difícil, que desperta muitas paixões, mas que é fundamental para se avançar na afirmação da democracia. Hoje em dia não se pode mais pensar em uma igualdade que não incorpore o tema do reconhecimento das diferenças, o que supõe lutar contra todas as formas de preconceito e discriminação. O multiculturalismo pode ser abordado de forma relativista e de forma universalista. Na abordagem relativista quando não se estabelecem critérios mínimos para o diálogo entre culturas, isto é, tudo é aceito e tudo é correto. O julgamento interno é mais importante do que o julgamento externo (da sociedadeinternacional). Nessa concepção do multiculturalismo, não se pode falar em direitos humanos de geração. Ao contrário, estes continuam garantindo aqueles, pois não existe direito à igualdade e à liberdade sem educação, saúde, emprego etc. Não existe a possibilidade de proteção internacional dos direitos humanos nessa visão. O multiculturalismo também pode ser universalista, ou seja, permitir a propagação e convívio de diferentes idéias, desde que esteja estabelecido um denominador mínimo, comum entre as partes para o início do diálogo (valores universais). Esse mínimo a ser respeitado são os direitos humanos. No universalismo, o julgamento externo sobrepõe-se ao interno. No multiculturalismo universalista, pode-se defender o caráter geral da Declaração Universal de Direitos Humanos (para todos, em qualquer nação, em qualquer tempo). Esta seria a base para o convívio entre os povos. Imaginem - se em um condomínio não existissem regras de convivência, sobre como possuir animais, sobre como jogar o lixo fora, sobre os horários de festas e etc. Provavelmente os conflitos seriam maiores. Assim, a defesa dos direitos humanos universais é compatível com o pluralismo e com o multiculturalismo universalista, mas é totalmente inviável em um ambiente de multiculturalismo relativista. Pode-se dizer que é uma visão ocidental e limitada. O direito à diferença e o respeito às tradições culturais devem ter um limite, e este limite são os direitos humanos. Falar de tolerância em situações abusivas aos direitos humanos é ser indiferente. A defesa do pluralismo não pode ser deturpada, pois o ser humano precisa estar acima de qualquer tradição ou prática. Destaco que a concepção relativista e universalista do multiculturalismo somente será importante quando possuírem um objeto moral também importante, que são os direitos humanos. Tradições e costumes que não afetam esse catálogo mínimo de direitos não devem sofrer alteração por um julgamento externo, o da sociedade internacional. Aí, prevalece o entendimento do grupo social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Garantir direitos mínimos, que são os direitos humanos, é assegurar que todos terão liberdade moral, dignidade, e outros direitos assim capacitando os indivíduos a que realizem seus trabalhos e cumpram suas metas com liberdade e consciência. Uma lista mínima de direitos não me parece atentar contra identidades culturais deste ou daquele povo. Creio ser necessária pelo menos uma regra mínima como ponto de partida para o diálogo entre culturas: a de não prejudicar terceiros. Parece-me que universalizar um direito tem um peso muito forte na sociedade internacional, o que permite tirar um pouco da carga desta expressão com a universalização de um valor, que é o de respeito à dignidade humana, como ocorre em quase todas as religiões do mundo. A partir daí pode-se permitir que as mais diversas tradições culturais se manifestem com toda plenitude e liberdade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, Norberto. Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1988; PAIXÃO, Marcelo. Brasil 2000 - novos marcos para as relações raciais. SANTOS, Boaventura de Souza. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitanismo multicultural. Rio de Janeiro: 2003. GONÇALVES, Luiz Alberto de Oliveira; SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. O Jogo das Diferenças: o multiculturalismo e seus contextos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Ed. 2000. (Original 1992). REIS, Marcos Vinicius. Multiculturalismo e Direitos Humanos; FERRETTI, Sergio. Multiculturalismo e Sincretismo; RODRIGUES, Antonio Greco. Multiculturalismo; HAMEL, Marcio Henan. Multiculturalismo e direitos humanos: implicações epistêmicas quanto ao universalismo e relativismo cultural; ¹José Augusto de Souza Neto Bacharelando em Direito na Faculdade Ruy Barbosa com previsão de formatura em 2018.1 ²PANDEYA, R.C. Fundamentos filosóficos de los derechos humanos. Perspectiva hindu. In Los fundamentos filosóficos de los derechos humanos. Unesco/Serbal: Barcelona, 1985, p. 299. ³ Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick.