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Filosofia Filosofia © Copyright 2013 da Laureate. É permitida a reprodução total ou parcial, desde que sejam respeitados os direitos do Autor, conforme determinam a Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal, art. 5º, inc. XXVII e XXVIII, "a" e "b". Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Sistema de Bibliotecas da UNIFACS Universidade Salvador - Laureate International Universities) M528f Melo, Naurelice Maia de Filosofia. / Naurelice Maia de Melo, Ueliton Lemos dos Santos. – Salvador: UNIFACS, 2013. 215 p. ISBN 978-85-87325-69-3 1. Filosofia. I. Santos, Ueliton Lemos dos. II. Título. CDD: 107 Sumário ( 1 ) Perspectivas sobre filosofia, conhecimento, ciên- cia e relações que tecem com a vida, 21 ( 2 ) Passeando sobre a origem e organização do universo: olhares cosmogônicos e cosmológicos, 47 ( 3 ) Reflexões sobre o conhecimento e olhares sobre o pesamento clássico, 67 ( 4 ) Dialogando com os temas: ética e moral, 91 ( 5 ) Correntes do pensamento filosófico e concepções éticas: uma interface necessária I, 115 ( 6 ) Correntes do pensamento filosófico e concepções éticas: uma interface necessária II, 137 ( 7 ) Reflexões acerca das temáticas: relação com o sa- ber, multiculturalismo e interculturalismo, 157 ( 8 ) Ideologia, alienação e trabalho: uma reflexão tripar- tite em prol da reconquista do humano que há em nós, 183 Prezada e prezado estudante, A equipe da disciplina Filosofia convida você a rea- lizar caminhos. Caminhos de descobertas e redescobertas, visto que, desde a leitura da primeira página desse material, inquietações serão suscitadas e não serão esgotadas na última página, ao contrário, convidarão a novas perspectivas, por exemplo, sobre filosofia, conhecimento, ciência e relações que tecem a vida, mediante fundamentos conquistados pelos pas- seios sobre a origem e organização do universo com olhares cosmogônicos e cosmológicos, tecendo as reflexões sobre o conhecimento, com atenção ao pensamento clássico, à ética e moral, inclusive, interfaceadas com correntes do pensamento filosófico. Vamos, em parceria e com posturas colaborativas tecer reflexões acerca das temáticas: relação com o saber, multicul- turalismo e interculturalismo. Buscaremos compreensões a respeito da ideologia, da alienação e do trabalho na qualidade de reflexão tripartite em prol da reconquista do cultivo do humano que há em nós. Nesse processo perene de autocompreensão, diversas sensações podem ser experimentadas, favorecendo os modos de entendimento da realidade e de construção de quem somos. Desejamos que a cada instante seja possível superar as dificuldades que por ventura surjam, sabendo que pode- mos contar um com outro na qualidade de equipe maior que reúne docente, discentes e todos que, imbuídos do desejo de aprender, encontrem as forças e alegrias imanentes às con- quistas que temos a realizar em prol tanto de posturas eman- cipatórias quanto de dias melhores. Abração para você! Autores e Equipe de Filosofia! ( 1 ) Perspectivas sobre filosofia, conhecimento, ciência e relações que tecem com vida “Não se ensina Filosofia, mas a filosofar” Kant Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Ao iniciarmos nossa caminhada junto aos saberes da Filosofia, muitas vezes surgem questionamentos a respeito do motivo pelo qual é preciso dedicar atenção aos conhecimentos, temas e pensamentos filosóficos. Esse posicionamento questionador é justo, uma vez que a formação básica nem sempre contempla os conteúdos filosóficos de modo adequado ou coerente com a própria proposta da Filosofia, falamos aqui de propostas como aquelas pautadas na máxima do pensador Kant, conforme citado por Borges e Souza (2012), “não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar”. Fi lo so fia 18 Nesta perspectiva, constam os riscos que fazem com que o “ensino de filosofia” seja tomado por posturas afasta- das do atual contexto social, causando uma impressão equi- vocada a respeito da Filosofia e tornando-a, de certo modo e infelizmente, uma fonte de informações que requerem aten- ção a elementos históricos (e requerem de fato) sem que estes possam significar (significam, de fato) uma trajetória que está presente hoje nas relações que tecem nosso ambiente tanto pessoal quanto social e as demais esferas da vida. Felizmente, esta não consiste na única perspectiva. Contamos também com modos socialmente engajados, dinâmicos e altamente competentes de proceder junto à Filosofia. Contamos ainda, com pessoas que concluíram o ensino médio em uma ocasião na qual não tiveram acesso a esse campo do saber e, portanto, ao chegar a cursos de graduação mantiveram, pela primeira vez, a relação com a disciplina que tem por título “Filosofia”. Afirmamos, pela primeira vez com a disciplina, pois ousa- mos dizer que: com a postura filosófica, o contato não é pri- meiro. Ao contrário, por muitos momentos somos convidados e convidadas a pensar sobre questões que remetem a temas filosóficos, mesmo que não tenhamos no momento a consciência de que somos já pessoas filosofantes. Esperamos que a sua experiência com a Filosofia tenha ocorrido conforme a segunda situação que descrevemos no parágrafo anterior. Caso não tenha sido dessa forma ou não tenha ocorrido o acesso a esta disciplina, não há motivo para preocupação, pois assumimos aqui o compromisso com você e com a aprendizagem. Adotamos a linguagem neces- sária, assumindo posturas criteriosas e acessíveis, trazendo nas primeiras unidades os saberes introdutórios importantes para que, cada um de vocês (independente das relações que antes teceram ou não com este campo do saber) possa estu- dar, pesquisar, conhecer os pressupostos básicos da Filosofia Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 19 e, a partir deles e com eles conquistar seus próprios modos de pensar a respeito das temáticas propostas, encontrando ainda caminhos possíveis para aliar às posturas que você já vem dedicando à vida. Quais posturas são estas? Àquelas de pes- soas que compreendem as circunstâncias concretas da vida, que bem identificam as relações de ideologia imbricadas nas relações de poder e dominação social, pessoas atentas aos fundamentos éticos de uma vida, de uma formação e profis- são; pessoas que, diante dessas e outras percepções, buscam o exercício constante de maneiras reflexivas, críticas e criativas de lançar olhares sobre a vida em suas instâncias diversas, fazendo valer, assim, a máxima kantiana. O que é, então, Filosofia? Onde seria possível (embora inadequado, devido ao teor próprio da Filosofia) apresentar uma definição única para Filosofia, preferimos caminhar, assim como Luckesi e Passos (2004) aplicam com relação ao conhecimento, junto a aproximações conceituais. Começando pela origem etimológica, a palavra Filosofia corresponde a philo (amor, amizade) + sophia (sabedoria). Desse modo, a filosofia é também correspondente à busca pelo conheci- mento1, à busca pelo saber, sem que estes sejam instituídos na qualidade de verdades absolutas a serem impostas, ao contrá- rio, a filosofia é também correspondente ao movimento ques- tionador, à perplexidade. É importante também considerar que algumas apro- ximações conceituaisapresentam a Filosofia como ciência. Essas perspectivas, geralmente, têm por fundamento o pen- samento aristotélico, conforme você pode acompanhar na lei- tura a seguir. 1. A respeito do conhecimento, por gentileza, visite nossa Unidade 03, na qual tecemos com você diálogos sobre, dentre outros temas, o ato de conhecer, seus elementos, processo etc. Fi lo so fia 20 Trecho selecionado de “O que é Filosofia e para que serve?” (autoria de: Maura Iglesias) Se perguntarmos a dez físicos “o que é a física”, eles responderão, pro- vavelmente, de maneira parecida. O mesmo se passará, provavelmente, se perguntássemos a dez químicos “o que é química”. Mas, se pergun- tarmos a dez filósofos “o que é a fi- losofia”, ouso dizer que três ficarão em silêncio, três darão respostas pela tangente, e as respostas dos outros quatro vão ser tão desencontrada que só mesmo outro filósofo para entender que o silêncio de uns e as respostas dos outros são todas abor- dagens possíveis à questão proposta. Para quem ainda está fora da filoso- fia, a coisa pode estar parecendo confusa. Mas a razão da dificuldade é fácil de explicar: talvez seja possí- vel dizer e entender o que é a física, de fora da física; e dizer e entender o que é a química, de fora da química. Mas, para dizer e entender o que é a filosofia, é preciso já estar dentro dela. “O que é a física” não é uma questão física, “o que é a química” não é uma questão química, mas “o que é a filosofia” já é uma questão filosófica - e talvez uma das carac- terísticas da questão filosóficas que seja o fato de suas respostas, ou tentativas de resposta, jamais es- Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 21 gotarem a questão, que permanece assim com sua força de questão, a convidar outras respostas e ou- tras abordagens possíveis. E já que os filósofos não vão mesmo entrar num acordo, deixemos de lado o problema da definição. Entremos de uma vez na filosofia, mais propria- mente na metafísica de Aristóteles, onde este está justamente em busca de uma “sophia” (sabedoria) que seja a maior, a mais importante, a primeira sabedoria2. [...] [A partir da perspectiva aristoté- lica, Maura Iglesias elucida:] o saber filosófico: 1) é um saber “de todas as coisas”, um saber universal; em um certo sentido, nada está fora do campo da filosofia; 2) é um saber pelo saber; um saber livre, e não um saber que se constitui para resolver uma dificuldade de ordem prática; 3) é um saber pelas causas; o que Aristóteles entende por causa não é exatamente o que nós chamamos por esse nome; de qualquer forma, saber pelas cau- sas envolve o exercício da razão, e esta envolve a crítica: o saber filosó- fico é, pois, um saber crítico. Fonte: REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 2. Querido e querida estudante, aqui a autora apresenta uma citação de Aristóteles que evidencia a sabedoria/sophia, na qualidade de ciência (de considerações correlatas a estas advém os modos de significar o saber filosófico com a ciência) e apresenta suas características principais, suprimimos a citação por motivos didáticos e mantivemos as considerações de Maura Iglesias a respeito da cita- ção de Aristóteles que suprimimos, pois, além de favorecer a proposta dos nossos estudos, foi ela- borada de modo elucidativo e acessível. Fi lo so fia 22 Outras perspectivas que têm por referencial de ciência a sua concepção moderna, entretanto, não aceitam a filoso- fia na condição de ciência, pois o saber filosófico, mesmo que correlato à ciência, não é um saber científico, não consta de um método único e absoluto, nem busca defender uma ver- dade como sendo aquela também única e absoluta. Veja a seguir as elucidações sobre encontros entre ciên- cia, conhecimento e filosofia e, ainda, entre estes e as rela- ções que tecem a realidade, uma vez que tanto a Filosofia, quanto à Ciência estão muito próximas de nossas vidas, nas mais diversas instâncias relacionais, em ambientes acadêmi- cos, ou mesmo no simples caminhar de uma calçada em dire- ção a um destino, qualquer que seja. A Filosofia e a Ciência constituem expressões do modo de ser e agir da pessoa. Vamos juntos nessa unidade realizar exercícios essenciais de desconstrução de paradigmas (mode- los/padrões) para assim estarmos aptos à construção de per- cepções mais flexíveis e reflexíveis da existência, um eterno retorno modificado e transformado do ser sendo na realidade. Nesta unidade, você estudante, está convidado a “caminhar” pelas diversas compreensões que o termo ciên- cia adquiriu ao longo do processo de “desenvolvimento” da história do pensamento da humanidade. Para tanto, alguns dos principais expoentes estão postos à luz da reflexão e, sobretudo, da problematização científico-filosófica. Nesse caminhar, a filosofia é o “farol” a guiar os pensamentos na incessante busca da verdade. Mas, o que é a verdade? É possível conquistá-la? De que forma/maneira? Essas são questões/problemas que impulsio- naram e continuam a impulsionar o caminhar da Ciência e da Filosofia. A concepção mitológica de representação da realidade consiste na tentativa de acalmar e tranquilizar as pessoas Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 23 frente aos fenômenos sociais/naturais daquela época (perí- odo antigo), eis que em seguida, surge o “Thauma” (espanto/ admiração) imbricado à dúvida essencial. Essas personifica- ções divinas, extraordinárias, podem ser tão próximas dos seres terrenos pessoas comuns, “iguais” umas às outras, com desejos e sentimentos semelhantes aos residentes do Olimpo. A admiração, o espanto, seguido da dúvida, fez nas- cer a Filosofia, cuja etimologia é conhecida por todos como o amante do saber, não seu senhor, dono ou possuidor, apenas o amante que busca incessantemente conquistá-lo paulatina- mente todos os dias de sua existência. Muitos pensadores antigos da Grécia poderiam ser convocados aqui para declarar seus pensamentos a respeito da Filosofia e também de uma ciência incipiente. Entretanto, acreditamos ser nesse momento Empédocles (490 - 430 a. C.) o que mais contribuições nos trazem. Esse declarava a existên- cia de quatro elementos constituintes da realidade (diferente dos Jônios, Tales, Anaximandro, Anaxímenes e outros, cada um desses pensadores elegeram um elemento essencial origi- nário do kosmo). Os primeiros pensadores que dão expressão filosófica ao problema da existência de uma causa supre- ma de todas as coisas são os filó- sofos Jônios: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, todos eles de Mileto, na Ásia Menor, às margens do mar Egeu. Todos eles viveram en- tre os séculos VII e V a. C. (MONDIN, 2003, p. 17) Fi lo so fia 24 O ar, o fogo a terra e a água para Empédocles consti- tuem toda a existência, são movidos e misturados segundo dois princípios universais: Amor (philia, em grego) - respon- sável pela força de atração e união e pelo movimento de crescente harmonização das coisas; Ódio (neikos, em grego) - respon- sável pela força de repulsão e de- sagregação e pelo movimento de decadência, dissolução e separa- ção das coisas. (COTRIM, 2010, p. 77) Empédocles compreendia que a realidade composta de todas as coisas existentes, está submetida às forças cíclicas desses princípios. Amor e Ódio motores invisíveis, mas, per- feitamente sentido por todos até hoje. Para conhecera origem Outro expoente desse período foi Demócrito (460 - 370 a. C.), responsável pelo atomismo. Ele acreditava que a realidade era constituída de partículas invisíveis e indivisíveis, denomina- das “átomo” (não divisível: a = negação; tomo = divisível). Curiosidade! “As doutrinas dos Milésios constituem um primeiro e rudimentar exemplo de monismo, termo atribuído a todas as filosofias que imaginam que a realidade multiforme deriva de um único princípio. Em metafísica, o monismo contrapõe-se ao dualismo - defendido de maneira dife- rente por Platão e por Descartes - e ao pluralismo de Aristóteles”. (NICOLA, 2010, p. 15) Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 25 Imagine que eles chegaram a essas conclusões sem fazer uso de nenhum instrumento tecnológico de última geração, como poderosos microscópios, reatores etc. Apenas com o uso e desenvolvimento do pensamento racional, foram capazes de contribuir significativamente para o aprimora- mento das percepções do homem frente à realidade consti- tuinte, a tal ponto que ainda hoje, com mais de dois mil anos passados, estudamos e atualizamos seus pensamentos. A concepção de ciência no período da Grécia Antiga referia-se a uma forma de especulação racional, e se afas- tava da técnica e das preocupações práticas. A ciência grega antiga almejava o desenvolvimento do conhecimento racio- nal de ideias imutáveis, objetivas e universais. Por outro lado, dando um pequeno salto no tempo e no espaço na história do desenvolvimento do pensamento humano, chegamos ao período medieval. Neste momento, cabe dar destaque, sobretudo à supressão da razão em favore- cimento à fé, os elementos originários do pensamento filosó- fico são postos de lado para dar lugar a Fé (verdade) revelada por Deus aos homens e intermediada pela Igreja Católica. Isso significava que toda investiga- ção filosófica ou científica não pode- ria, de modo algum, contra riar as verdades estabelecidas pela fé católi- ca. Em outras palavras, os filósofos não precisavam mais se dedicar à busca da verdade, pois ela já teria Para pensar um pouco Querido e querida estudante! Em sua opinião, como o pensamento de Empédocles e Demócrito podem ser atualizados para os nossos dias? Fi lo so fia 26 sido revelada por Deus aos homens. Restava-lhes, apenas, demonst racionalmente as verdades da fé. (COTRIM, 2006, p. 108) No decurso do período medieval, destacam-se quatro momentos: • Primeiro momento: Padres apostólicos, (século I a II) fazem parte desse período padres e apóstolos. • Segundo momento: Padres Apologistas, (século III a IV) destacavam-se por fervorosas apologias ao cristianismo e atitudes veementes contra a filosofia pagã, seus principais representantes foram Justino, Origenes e Tertuliano. • Terceiro Momento: Padres da Patrística, (século IV a VIII) tentativa de reaproximação com o pensamento racional na figura de Platão, seu principal represen- tante foi Santo Agostinho. • Quarto Momento: Padres da Escolástica: (século IX a XI) reaproximação com os escritos do filósofo grego Aristóteles, destaca-se nesse momento, Santo Tomás de Aquino. Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lusitano_st-agostinho-1.jpg http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anonymous_Cusco_School_-_Saint_Tho- mas_Aquinas,_Protector_of_the_University_of_Cusco_-_Google_Art_Project.jpg Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 27 A imagem nos evidencia: à esquerda, Santo Agostinho e à direita, Santo Tomás de Aquino, os dois principais expo- entes do período medieval. Eles que buscaram na filoso- fia de Platão e Aristóteles, respectivamente, os argumentos necessários para a fundamentação de sua Fé. A Filosofia a serviço da Fé cristã, nesse momento da história da huma- nidade, pouco se pôde desenvolver no continente europeu. Tanto nos aspectos filosóficos, quanto científicos e tecnoló- gicos, visto o caráter dominante do Teocentrismo. Com a Renascença, surgem novas concepções de vida e realidade, muda-se o foco do olhar. Antes, sobre Deus (Idade Média) a vida terrena é uma preparação para vida sobrenatural. Agora, sobre o novo ser humano (Idade Moderna) autonomia do mundo da cultura em relação a todo fim transcendente. Nos séculos XV e XVI a ciência faz progressos não só nos estudos da natureza, mas também no do homem e no das suas produções, especialmente na Filologia. Graças aos avanços desta disciplina na Re- nascença, os autores antigos. Espe- cialmente os filósofos, não são mais estudados, como na Idade Média, para serem colocados a serviço da teologia, mas por si mesmos, com a finalidade de se conhecer seu ver- dadeiro pensamento. (MONDIN, 2003, p. 11) Enfim conseguimos alcançar a Idade Moderna e nova- mente nos deparamos com mais uma realidade paradoxal. Não mais, Fé versus Razão, mas sim, Filosofia e Ciência, Fi lo so fia 28 instâncias essenciais ao sujeito que é autor e ator de sua pró- pria condição humana. Embora existam fervorosas discussões sobre a consi- deração de cientificidade da filosofia, torna-se evidente e ao mesmo tempo contraproducente aceitar tal perspectiva, haja vista que uma das fundamentais necessidades de ser ciên- cia é a especificação não só metodológica, mas, sobretudo de objeto. A Filosofia enquanto pensamento sistemático está presente em todas as ciências, visto o escopo investigativo no desvelamento da realidade. Assim, presente em todas as ciên- cias, mas, não sendo uma ciência, a filosofia busca a universa- lidade, enquanto a ciência busca as particularidades próprias de seus objetos. Filosofia e Ciência não são adversárias. Ambas se relacionam e se complementam, de tal forma se constituiu a Filosofia da Ciência, uma perspectiva de problematização dos postulados e paradigmas científicos, essa atividade tam- bém é conhecida como epistemologia, crítica metodológica da ciência. A epistemologia propõe-se a re- sponder às seguintes questões: ‘O que é o conhecimento cientí- fico? Em outras palavras, em que consiste propriamente o trabalho do cientista? Que faz ele quando faz ciência? Interpreta, descreve, explica, prevê? Faz ele apenas conjecturas ou verdadeiras as- serções (gerais e singulares) que espelham fielmente os aspectos (gerais e singulares) dos fatos? E quando o cientista explica o que é que ele explica dos ‘fatos’: sua função, origem, gênese, essência, Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 29 fim? Qual o status lógico das leis na ciência? São elas resultados de procedimentos indutivos (e o que quer dizer indução para a ciên- cia?), ou antes, conjecturas da imaginação científica que deverão sujeitar-se a uma terrível luta (provas empíricas) pela existên- cia? Ademais, em que sentido se fala em causalidade (e de causas) nas ciências empíricas? Quando, então, podemos dizer que uma teoria é melhor do que outra? Que queremos dizer quando afir- mamos que as ciências empíricas são objetivas? Qual é o papel da experiência na pesquisa cientí- fica? Essas interrogações britam da pergunta inicial sobre o que seja o conhecimento científico. (MONDIN, 2003, p. 29) Outros autores participam da mesma ideia de complemen- taridade entre Filosofia e Ciência, a exemplo disso podemoscitar Fritjof Capra, PhD. em Física e especialista em teoria sistêmica. O objetivo da ciência é, creio eu, adquirir conhecimento sobre a realidade sobre o mundo. A ciên- cia é uma maneira particular de adquirir conhecimento, parecida com muitas outras maneiras. E um aspecto do novo pensamento na ciência é que esta não é a única maneira, e não é necessariamente Fi lo so fia 30 a melhor, mas apenas uma dentre muitas maneiras. O termo ciência, para mim, con- hecimento sistemático do universo físico, é recente, como sabem. No passado, era chamada de filosofia natural. Portanto, a ciência e filoso- fia não estavam separadas. De fato, a primeira formulação matemática, por Newton, de ciência no mod- erno sentido da palavras é ainda chamada de Princípios Matemáti- cos da Filosofia Natural. (CAPRA, 1991, p. 25) As reflexões desenvolvidas a partir das contribuições de Capra e Mondin nos levam a indagar sobre os caminhos e descaminhos que por muitas vezes tomamos ao longo de nos- sas existências. Por diversos momentos somos conduzidos no nosso modo de ser e agir, e nem sequer nos damos conta, falta- -nos a perspectiva epistemológica do pensar sobre si, e, sobre- tudo a nossa condição humana, nos submetemos da mesma maneira que o indivíduo do período medieval, na expectativa e promessa de uma vida de glórias no paraíso e batemos no peito ingenuamente, proclamando somos livres, sou livre. É preciso considerar e desenvolver um olhar sistêmico e holístico sobre a realidade, não é cabível a separatividade, mas sim, a interconexidade das realidades, as dificuldades não precisam ser compartimentalizadas para serem supe- radas, visto que todas essas situações interagem sobre si e sobre a realidade constituinte como uma enorme teia de ara- nha, o que é feito a um fio, é sentido por toda a teia. Nessa Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 31 perspectiva, as relações estão sendo tecidas e a qualidade dos fios depende também de cada um que tece. Chegamos a importantes reflexões as quais, sem dúvida alguma, provocam grandes inquietações, pois, con- sistem na desconstrução de ‘verdades’ adquiridas ao longo de uma vida de estudos, de leituras, de aulas etc. O que fazer agora? Abandonar tudo isso? Ou fechar os olhos para o novo? Não, essas não serão as melhores soluções, o ideal é que con- sigamos somar saberes, os mais variados e diversificados possíveis, para que possamos entender o devir dialógico e dialético na construção do ser integral. Abaixo está disposto um quadro demonstrativo sobre as principais perspectivas das concepções da Física dos sécu- los XVII até a contemporaneidade. Para conhecer um pouco mais Falamos de novas perspectivas sistêmicas e holísticas, sabemos verdadeiramente o que tudo isso significa? Segundo Edgar Morin (2007), sistema consiste em uma relação entre partes que podem ser muito diferentes uma das outras e que constituem um todo que é, simultane- amente, organizado, organizando e organizador. Sobre isso, tem-se o ditado antigo: o todo é mais do que a soma de suas partes, porque a adição das qualidades ou pro- priedades das partes não chega para conhecer as do todo, surgem qualidades ou propriedades novas, devido à orga- nização dessas partes em um todo, são as emergências. A realidade é a manifestação desse todo holístico e sistê- mico, é preciso desenvolver as habilidades e competências necessárias à tomada de consciência do ser integral. Fi lo so fia 32 Física dos séculos XVII, XVIII e XIX Física Contemporânea Grande avanço da física com René Descartes, autor de O Discurso do Método (“Penso, logo existo”). Física quântica, conjunto de teorias que incluem a física ondulatória, a qual não se obedece às leis previsíveis da física clássica. Visão mecanicista do mundo, que concebe a natu- reza como uma máquina, que obedece a relações de causa previsíveis. Os objetos passam a ser encarados também sob o aspecto fluido e em eterna mudança. Física Newtoniana é cha- mada de física clássica, cujo aspecto mais desenvolvido é a mecânica. Visão influenciada pela filo- sofia oriental (o cosmo é visto como um elemento vivo, orgâ- nico, espiritual e material). Os experimentos eram leva- dos a cabo para testar ideias especulativas e verificáveis. As forças geradoras de movimento não são exterio- res aos objetos, mas proprie- dade intrínseca da matéria. Fonte: ANDREETA. J. P. ; ANDREETA. M. L, Quem se atreve a ter certeza. Mer- curyo. São Paulo. 2004. Adaptado pelos autores (Naurelice Maia e Ueliton Lemos). O quadro evidencia as constantes mudanças que a ciên- cia da Física sofreu e ainda sofre pelo seu processo de desen- volvimento. Atualmente, duas são as mais relevantes teorias: a chamada Física Quântica e a Teoria da Relatividade Geral. O intuito dessas duas teorias reside na tentativa de compreensão sobre o comportamento da realidade, haja vista que ela não se apresenta de forma tão estática e previ- sível como se imaginava. Compreender a realidade pressu- põe que a relação unilateral sujeito - objeto deixe de existir, é preciso conceber uma nova perspectiva investigativa na qual sujeito - objeto relacionam-se mutuamente, relação dialógica e dialética, sistêmica e holística. Nesta perspectiva, filosofia e Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 33 ciência tornam-se um importante caminho no desvelamento do saber sobre de si e o conhecimento da realidade. Estamos chegando ao final de nossa unidade com novas ideias, novos olhares frente à realidade, consciente da inexistência da verdade absoluta seja ela a verdade científica ou mesmo verdade filosófica. Mas sim, verdades provisórias que se transformam e se adaptam no devir tempo-espacial. Nesse sentido, aceitar as mudanças significa não estagnar, é estar sempre disposto à perplexidade, o thauma grego. A evolução do conhecimento científico não é unicamente de crescimento e de extensão do sa- ber, mas também de transformações, de rupturas, de passagem de uma teoria para outra. As teorias cientí- ficas são mortais e são mortais por serem científicas. A visão de Popper registra com relação à evolução da ciência vem a ser a de uma seleção natural em que as teorias resistem durante algum tempo não por serem verdadeiras, mas por serem as mais adaptadas ao estado contemporâneo dos conhecimentos. Kuhn traz outra ideia, não me- nos importante: é que se pro- duzem transformações revolu- Para pensar um pouco Como você percebe as mudanças da realidade, estamos verdadeiramente conscientes dessas transformações, ou simplesmente ignoramos por não saber/querer participar? Fi lo so fia 34 cionárias na evolução científica, em que um paradigma, princípio maior que controla as visões do mundo, desaba para dar lugar a um novo paradigma. Julgava-se que o princípio da organização das teorias científicas era pura e simplesmente lógico. Deve ver- se, com Kuhn, que existem, no interior e acima das teorias, in- conscientes e invisíveis, alguns princípios fundamentais que controlam e comandam, de forma oculta, a organização do conheci- mento científico e a própria uti- lização da lógica. A partir daí, podemos com- preender que a ciência seja “ver- dadeira” nos seus dados (verifica- dos, verificáveis), sem que por isso suas teorias sejam “verdadeiras”. Então, o que faz que uma teo- riaseja científica, se não for sua “verdade”? Popper trouxe a ideia capital que permite distinguir a teoria científica da doutrina (não científica): uma teoria é científica quando aceita que sua falsidade possa ser eventualmente demon- strada. Uma doutrina, um dogma encontram neles mesmo a au- toverificação incessante (referên- cia ao pensamento sacralizado dos fundadores, certeza de que a tese está definitivamente provada). O Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 35 dogma é inatacável pela experiên- cia. A teoria científica é biode- gradável. [...] A partir daí, o conhecimento progride, no plano empírico, por acrescentamento das “verdades” e, no plano teórico, por elimina- ção dos erros. O jogo da ciência não é o da posse e do alargamento da verdade, mas aquele em que o combate pela verdade se con- funde com a luta contra o erro. (MORIN, 2001, p. 22-23) O conhecimento científico e ou filosófico contribuem sistematicamente para uma revolução na forma de ser e agir do indivíduo, é preciso que tenhamos a sensibilidade de renun- ciar os pseudos saberes, saberes que temos como verdadeiros e imutáveis, pois de outra forma continuaremos a reproduzir comportamentos e atitudes determinadas por forças exteriores. Fazendo uma alusão a Karl Jaspers, que afirma, em dado contexto, a filosofia na qualidade de perturbadora da paz, propomos aqui também a filosofia como perturbadora da ciência. Ela tem como escopo o fomento das inquietações na busca contínua de posturas mais assertivas e coerentes à dignidade do ser pessoa. Portanto, urge que façamos o exer- cício de reflexão individual, utilizando das perspectivas da filosofia e da ciência, para a conquista da vida autêntica. Fi lo so fia 36 Sín t eSe Durante a realização dessa unidade, tivemos a opor- tunidade de tomar conhecimento sobre os caminhos da Fi- losofia e da Ciência desde o período antigo (grego), passando pela Idade Média, período de grande entrave ao desenvolvi- mento racional, visto o predomínio das forças religiosas cris- tãs. Em seguida, com a Renascença, muda-se a perspectiva, volta-se novamente o olhar para o ser humano e sua produção cultu ral, filosófica e científica, surge o modernismo com as contribuições da Física até alcançarmos a contemporaneidade com a postura da reflexividade, a qual é exigida ao sujeito, ator e autor de sua existência condutas inquisidoras frente aos desafios que são postos pela própria condição de existir. qu eStão pa r a r eflex ão 1) Considere a citação abaixo e desenvolva um argumento evidenciando seu posicionamento a respeito da mensagem proposta pela citação. “Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla face do erro e da ilusão, O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem, em absoluto, como tais. Erro e ilusão parasitam a mente humana desde o aparecimento do Homo sapiens. Quando consideramos o passado, inclusive o recente, sentimos que foi dominado por inúmeros erros e ilusões. Marx e Engels enunciaram justamente em A ideologia alemã que os homens sempre elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem, do que devem fazer, do mundo onde vivem. Mas nem Marx nem Engels escaparam destes erros.” Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 37 (MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do fu- turo. São Paulo, SP: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000) 2) Após os estudos realizados nessa unidade, como você compreende as perspectivas filosóficas e científicas? E de que forma elas influenciam nossa conduta social? lei t u r aS i n dica daS ALVES, R. Filosofia da Ciência. São Paulo: Edições Loyola, 2000. ______. O que é científico? São Paulo: Edições Loyola, 2007. ALVES, R. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo: Edições Loyola, 2010. CAPRA, F. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982. HEISENBERG, W. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contra- ponto, 2000. PRIGOGINE, I. O Fim das Certezas. São Paulo: Editora Unesp, 1996. MORIN, E. ; MOIGNE, J-L. L. Inteligência da Complexidade Epistemológica e Pragmática. Lisboa: Instituto Piaget, 2007. Si t eS i n dica doS www.edgarmorin.org.br/ www.rubemalves.com.br/ http://www.brasilescola.com/ http://ghiraldelli.wordpress.com/2007/11/21/ciencia-e-filosofia/ Fi lo so fia 38 r ef er ênci aS ANDREETA, J. P.; ANDREETA, M. L. Quem se atreve a ter certeza? São Paulo: Mercuryo, 2008. BORGES, D. A.; SOUZA, M. A. “Não se ensina filosofia, mas a filosofar”. Disponível em: <http://meuartigo.brasilescola. com/filosofia/nao-se-ensina-filosofia-mas-filosofar.htm>. Acesso em: 13 out. 2012. CAPRA, F. Pertencendo ao Universo. São Paulo: Cultrix, 1991. COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2006. LUCKESI, C. C.; PASSOS, E. S. Introdução à Filosofia: apren- dendo a pensar. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2004. MONDIN, B. Curso de Filosofia. 12. ed. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. ______. Curso de Filosofia. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2003, v. 2. MONDIN, B. Introdução à Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 14. ed. MORIN, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Ber- trand Brasil, 2001. REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Pe rs pe ct iv as s ob re fi lo so fia , co nh ec im en to , c iê nc ia e r el aç õe s qu e t ec em a v id a 39 ( 2 ) Passeando sobre a origem e organização do universo: olhares cosmogônicos e cosmológicos “Dizem que o que todos procura- mos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físi- co, tenham ressonância no inte- rior de nosso ser e de nossa reali- dade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos”. (CAMPBELL, 1991, p.17) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Na unidade anterior você acompanhou saberes e reflexões tanto sobre a Filosofia quanto a respeito da Ciência. Nessa perspectiva, algumas inquietações podem ser apresentadas. Por exemplo: o que havia antes da iniciativa racional de compreensão da realidade e dos fenômenos físi- cos, naturais? Quais circunstâncias favoreceram a conquista da racionalidade? Ou, os modos de relação com a realidade sempre estiveram fundamentados na razão? Conquistar os caminhos para as respostas às inquie- tações mencionadas corresponde a disponibilidade para um passeio que nos leve à Antiguidade. Convidamos você para esse passeio. Na bagagem, vamos precisar da dedica- ção aos modos diferenciados de entendimento da realidade, diferenciados das formas que hoje encontramos até mesmo cristalizadas, por assim dizer. Por exemplo: durante a forma- ção básica, crianças estudam o ciclo hidrológico e, portanto, 44 Fi lo so fia compreendem porque chove, podem lançar o olhar sobre a chuva vendo-a na qualidade de fenômeno climático, meteo- rológico, natural. Durantenosso passeio, entretanto, vamos visitar a época na qual essas informações não eram assim tão claras. Ao contrário, a chuva poderia ser percebida não na qualidade de fenômeno natural, mas de expressão das vonta- des, por exemplo, vindas do Olimpo. As narrativas míticas apresentavam, dentre suas carac- terísticas, a presença de seres fantasiosos, eventos guiados por deuses, manifestações de poderes além daqueles natu- rais. O que move a iniciativa mítica ou o que a impulsiona é a vontade que os seres humanos têm de compreender a rea- lidade da qual participam. A chuva que mencionamos. Por exemplo, hoje conhecemos o ciclo hidrológico, mas neste nosso passeio, estamos visitando condições do Século XII a. C. e essas explicações ainda não existiam. De todo modo, havia o desejo pela compreensão do entorno, do dia, da noite; da vida, da morte; era preciso ter acesso a informações que narrassem a origem de tudo o que havia. Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabal- ho, das raças, das guerras, do poder etc.). [...] Para os gregos, mito é um discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira a narrativa, porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público, baseada, Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 45 portanto, na autoridade e confi- abilidade da pessoa do narrador. E essa autoridade vem do fato de que ele ou testemunhou diretamente o que está narrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos narrados. Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem auto- ridade? Acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses, que lhe mostram os acontecimentos passa- dos e permitem que ele veja a ori- gem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o mito - é sagrada, porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável. (CHAUÍ, 2003, p. 34-35) Neste nosso passeio, fica claro que o ser humano sem- pre sentiu a necessidade de conhecer, de buscar a compreen- são da sua realidade, de entender os fenômenos. O convite neste momento é para pensarmos a respeito dos “riscos” desse sentimento de necessidade ou desejo de conhecer. Em estruturas sociais e políticas das mais variadas, a autonomia do pensar e o desejo pelo conhecimento se constituem como riscos, pois podem ameaçar a “ordem” estabelecida, podem afrontar situações de desigualdades, explorações etc. Por outro lado, condições que contêm ou narrem a respeito de como se dá a realidade, podem promover a aceitação geral dos “ouvintes” e, aceitando a narrativa, o desejo de conhecer é saciado (ilusoriamente saciado). 46 Fi lo so fia Os mitos, conforme Aranha e Martins (2000), apresenta- vam as funções de acomodar, justificar e tranquilizar as pessoas frente à realidade, assim como tinham a função de fixar mode- los exemplares para os comportamentos. Reveja a citação de Chauí apresentada, desta vez, com atenção aos termos finais da citação: “O mito é, pois, incontestável e inquestionável”. Outra característica da narrativa mítica: ela é dogmática. O mito, se questionado, perde seu motivo de ser, perde sua força. Sendo questionado, evidencia que não promoveu a acomodação, nem a tranquilidade, menos ainda pode justifi- car ou estabelecer modelos de conduta (as relações de obedi- ência estão presentes em diversas narrativas míticas, assim como as consequentes punições da desobediência aos deu- ses). Como é possível notar em narrativas míticas como nos mitos de Pandora, Prometeu, Édipo, dentre outros. Seguindo por nosso passeio, foi a partir do movimento, por assim dizer, questionador frente às narrativas míticas que tivemos as iniciativas pautadas na razão e que, junto a outros elementos, realizamos o processo de transição da cosmogo- nia à cosmologia. Vamos continuar nosso passeio, agora com atenção à cosmogonia; logo mais, durante nossa caminhada nesta Unidade 02 iremos dialogar a respeito da cosmologia. Você já sabe que os mitos correspondem às narra- tivas sobre a origem de algo. Portanto, é uma genealogia. Utilizando as palavras de Chauí (2003, p. 35), “a narração da origem é [...] uma genealogia, isto é, narrativa da geração dos seres, das coisas, das qualidades, por outros seres, que são seus pais ou antepassados”. A esse respeito, a autora exem- plifica com a narrativa mítica da origem do amor, ou o nas- cimento de Eros (orientamos pesquisa sobre Eros no nosso quadro “Ampliando o Conhecimento”). Além de correspon- der a uma genealogia, os mitos são também teogonia e cos- mogonia, conforme segue: Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 47 A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer) e do substan- tivo genos (nascimento, gênese, descendência, gênero, espé- cie). Gonia, portanto, quer dizer: geração, nascimento a partir da concepção sexual e do parto. Cosmos, como já vimos, quer dizer mundo ordenado e organizado. Assim, a cosmogonia é a narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo, a partir de forças geradoras (pai e mãe) divinas. Teogonia é uma palavra composta de gonia e theós, que, em grego, signi- fica: as coisas divinas, os seres divinos, os deuses. A teogonia é, portanto, a narrativa da origem dos deuses, a partir de seus pais e antepassados. (CHAUÍ, 2003, p. 36). Retomando nosso passeio para a contemporaneidade. Como a expressão mito é hoje aplicada? Além de significar os modos de representação da realidade com as características e funções que já elucidamos, constam outros usos do termo mito. Conforme Buzzi (2007, p. 85) “a palavra mito é usada habitualmente para significar alguma crença dotada de vali- dade mínima e de pouca verossimilhança. Por exemplo: ‘a Atlântida não passa de um mito’”. Importa considerar que esse é um uso habitual do termo e não corresponde aos sig- nificados que encontram fundamentos nos estudos sobre o pensamento primitivo (primitivo aqui pelo olhar antropoló- gico, portanto, não significa inferior). De todo modo, correspondendo ou não aos sentidos e significados originários do mito, é fato que atualmente a expressão é utilizada para designar coisas que não são reais, diante das quais, alguém pode dizer “- É mito!”. Outro uso da expressão mito na atualidade está associado tanto a pes- soas quanto a personagens que marcaram seu tempo e fica- ram ou tendem a ficar, por assim dizer, eternizados por atos heroicos, no sentido do poder simbólico e não concreto, esta- belecendo relações com o imaginário coletivo. São possíveis 48 Fi lo so fia também outras formas de poder, ainda no campo simbólico, que reforçam condições severas, destrutivas capazes de dire- cionar para os caminhos da desumanização. Portanto, importa que cada um de nós experimente o exercício da razão e da criticidade, assim como da sensibili- dade e percepções afetivas frente ao tecido social e ao nosso modo próprio de tecer quem somos. Estávamos, neste nosso passeio, no período da Antiguidade quando nosso “relógio” não se conteve em ficar apenas “lá”e tecemos as associações com o contemporâneo. Agora, vamos retornar aos caminhos míticos e seu contexto para que possamos descobrir como ocorreu a transição deste modo (mítico) de representação da realidade para os modos racionais de compreendê-la. Embora para alguns autores o advento da razão ganhe o título de “milagre grego”, não compartilhamos desse modo de pensar, dentre outros motivos, devido ao processo histórico que fez culminar no afastamento de perspectivas cosmogôni- cas (que narram a origem/organização do mundo conforme as formas que engendraram-no) e aproximação de perspectivas cosmológicas, correspondentes à busca sobre origens e funda- mentos conforme o empenho do logos, da razão. Os elementos principais, e suas circunstâncias, que favoreceram a passagem da perspectiva mítica para a racional foram: a moeda, a escrita alfabética, a lei escrita, o calendário, o advento da polis (cidade-estado grega), o cidadão da polis e a própria política, as viagens marítimas e a vida urbana. Os modos de entendimento da realidade foram pas- sando por modificações, assim como as formas de perceber a si mesmo e ao entorno; pois, novas condições e circunstâncias começaram a participar do ambiente grego. Com as viagens marítimas, foi possível visitar luga- res nos quais as narrativas míticas indicavam como morada Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 49 dos heróis, deuses, seres fantásticos repletos de poderes, titãs. Esses lugares eram habitados por outras pessoas, tão humanas quanto qualquer mortal. Portanto, conforme Chauí (2003, p. 37), “As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação do mundo, que passou, assim, a exigir uma explicação sobre sua origem, explicação que o mito já não podia oferecer”. A moeda, assim como a invenção da escrita alfabé- tica e do calendário, correspondeu ao poder de abstração. No caso da moeda, era preciso compreender o valor em seu teor mais abstrato, era preciso calcular o valor correspondente às mercadorias. Emitida e garantida pela polis, a moeda faz reverter seus benefí- cios para a própria comunidade. Além desse efeito político de democratização de um valor, a moeda sobrepõe aos símbolos sa- grados e afetivos o caráter racio- nal de sua concepção: muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é o artifício racional, con- venção humana, noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes. (ARANHA, MARTINS, 2003, p.81-82) No caso da escrita alfabética, favoreceu tanto a gene- ralização quanto à abstração, pois era preciso representar a ideia correspondente ao significado de cada coisa. A respeito do calendário, favoreceu a passagem da perspectiva mítica 50 Fi lo so fia para a racional devido à necessária capacidade de abstra- ção para calcular o tempo de acordo com elementos naturais (estações, horas, dias), conforme elucida Chauí (2003, p. 37) “revelando, [...] uma capacidade de abstração nova, ou uma percepção do tempo como algo natural e não como um poder divino incompreensível”. A vida urbana também exerceu forte influência sobre o “advento” do pensamento racional, conforme segue: [A respeito da vida urbana] Com predomínio do comércio e do arte- sanato, dando desenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o prestígio das famí- lias da aristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados; além disso, o surgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de poder e de prestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagens consti- tuídas pelas famílias), fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes, às técnicas e aos conhecimentos, fa- vorecendo um ambiente onde a Filosofia poderia surgir. (CHAUÍ, 2003, p. 37) A lei escrita também figura dentre os elementos do processo histórico de passagem do mito à perspectiva racio- nal, pois com a lei escrita as noções em torno da justiça reque- rem diálogos, a justiça não é mais associada aos desígnios dos Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 51 deuses, mas está posta aos debates, às discussões, portanto, é uma justiça que compreende a dimensão propriamente humana (não mais divina). O mesmo ocorre com o advento da polis, cidade-estado grega, o advento do cidadão e da pró- pria política, pois havia o espaço destinado aos debates sobre temas comuns, como ocorria na ágora (praça pública). Sendo necessário decidir sobre os rumos da cidade, da justiça, da cidadania, da política e da lei, não mais caberia a justifica- tiva pautada na cosmogonia, nem com fundamentos na teo- gonia para as ações; era preciso investigar para compreender, conquistando, assim, gradativamente, o espaço para a busca racional sobre o princípio de todas as coisas. Vamos juntos neste passeio, dedicando agora atenção à cosmologia. O termo cosmologia é decorrente da soma de duas outras palavras: cosmo (universo) + logia (corresponde a logos, razão), que significa, doutrina ou narrativa a res- peito da origem, da natureza e dos princípios que ordenam o mundo ou o universo, em todos os seus aspectos. A cosmo- logia, portando, difere da cosmogonia, embora as duas este- jam relacionadas às narrativas frente à origem e organização do universo. O conceito de cosmologia nos direciona ao entendi- mento de que os primeiros filósofos gregos ansiavam res- postas sobre a origem ou causa primeira da formação do universo, da vida e sua finalidade. Nesse momento, a Grécia, representada pelas suas cidades-estados, ou Polis, vivia um intenso movimento sociocultural e econômico, essas revolu- ções interferiram substancialmente na forma de ser e agir dos gregos, sobretudo, na concepção de realidade. O filósofo Batista Mondin, em sua obra Curso de Filosofia Vol. 1 (2003), nos traz uma significativa ideia sobre a importância de Tales ao desenvolvimento do pensamento filosófico ocidental. 52 Fi lo so fia A filosofia nasceu não na Grécia propriamente dita, mas nas colô- nias do Oriente e do Ocidente, a saber, na Jônia e na Magna Gré- cia. Cerca de 624 a. C. em Mile- to, nasceu Tales, o pai da filosofia grega e de toda a filosofia ocidental. Matemático e astrônomo, atri- bui-se a ele muitas descobertas. Foi considerado um dos sete sá- bios da Antiguidade. Diógenes Laércio narra que ele morreu ao cair em uma cisterna enquanto observava os astros, aproximada- mente 526 a. C. Pelo que se sabe, Tales foi o pri- meiro pensador que se pôs ex- pressa e sistematicamente a per- gunta: “Qual é a causa última, o princípio supremo de todas as coisas?” A pergunta se justifica- va pelo fato de que, apesar da apa- rente diversidade, há em todas as coisas algo de comum: em todas as coisas observáveis encontra-se água, terra, ar e fogo. (MONDIN, 2003, p. 17) Tales representa o início de uma era de novos olhares sobre a realidade, a busca da origem do universo não mais está relacio- nada aos seres divinos, ou olímpicos, muito ao contrário, o uso da razão impôs aos filósofos uma nova perspectiva material, a subs- tância primordial que para os gregos era chamada de “arché”. Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni zaçã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 53 A seguir, quadro demonstrativo e painel ilustrativo dos principais pré-socráticos e suas mais relevantes contribuições. Quadro 1: Demonstrativo dos filósofos pré-socráticos NOME ANO ELEMENTO PRINCIPAL CONTRIBUIÇÃO Tales de Mileto 623-546 a. C. Água Origem da vida é a água Anaximandro de Mileto 610-547 a. C. Ápeiron Ápeiron, o indeterminado, massa geradora de todos os seres Pitágoras de Samos 570- 490 a. C. Números Representam a ordem e a harmonia do universo Heráclito de Éfeso Séc. V a. C. 2* Fogo A vida é um fluxo constante impulsionado por forças contrárias Parmênides de Eléia 510-470 a. C. Ser Princípio lógico de identidade e princípio de não contradição Zenão de Eléia 488-430 a. C. Movimento Reflexões sobre o conceito de: movimento, espaço, infinito e tempo Empédocles de Agrigento 490-430 a. C. Quatro elementos naturais Os elementos são movidos pelos princípios universais opostos, o amor e o ódio Demócrito de Abdera 460-370 a. C. Atomismo Partícula não divisível * Não se sabe exatamente o ano de seu nascimento, atribui-se, portanto o período Séc. V. Fonte: Adaptado de Cotrim (2006) 54 Fi lo so fia Painel ilustrativo dos pré-socráticos: Tales de Mileto Parmênides de Eléia Pitágoras de Samos Demócrito Heráclito de Éfeso Zenão de Eléia Anaximandro Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 55 Na tentativa de encontrar a substância primordial ou princípio substancial, esses pensadores, mediante suas refle- xões, legaram a toda humanidade relevantes contribuições ao desenvolvimento da forma racional de compreensão da reali- dade, que posteriormente fora traduzido tanto pela Filosofia quanto pela Ciência. Aprofundando nossas reflexões. Quais são as implicações dos Jônios em nossa atual con- juntura social? Por que e para quê o estudo desses pensado- res gregos se fazem necessários a minha formação/atuação nas esferas pessoal, acadêmica e profissional? Como poderíamos lançar o olhar sobre a realidade na qual vivemos e que tece- mos, deixando de compreender seus fundamentos originários e a trajetória própria da iniciativa racional de compreensão da realidade e, ainda, do desejo que, na qualidade de humani- dade, sempre tivemos de aprender e buscar saberes, mesmo quando não tínhamos o referencial da razão, conforme você pode acompanhar com os estudos sobre cosmogonia? Essas indagações são perfeitamente naturais e necessá- rias. Portanto, acreditamos que é justamente nesse momento que começamos a pensar, pois, o simples ato de questionar nos possibilita uma infinidade de possibilidades de não mais aceitarmos os “pacotes” prontos e acabados. É preciso que se descubra a finalidade do estudo para se fomentar a necessidade do aprendizado, ou seria o contrá- rio? É preciso reconhecer a necessidade para melhor atender as finalidades? Para esses questionamentos, acreditamos não ter uma resposta pronta e definitiva, apenas dispomos de simples compreensões que em dado momento de nossa condição humana nos é dada a possibilidade de expressar. Heráclito e Parmênides, dois dos principais pré-socráticos, nos auxiliam 56 Fi lo so fia significativamente ao esclarecimento desses dilemas existen- ciais. Vejamos o que eles nos falam! Heráclito considera que a realidade é dinâmica e, por- tanto, um estado de permanente mudança (realidade mobilista) vir-a-ser. Parmênides, ao contrário, defende a permanência das essencialidades, a mudança é uma ilusão, é contingente e não substancial. Com referência a esses posicionamentos, percebe- mos que durante nossa vida, em nossas condições existenciais, precisamos adotar posturas que compreendam essas duas perspectivas, ora a mudança é uma realidade, ora a permanên- cia é a essencialidade e única garantia de autenticidade. O fato é que não se trata mais de adotar uma única e exclusiva pos- tura, pensar-repensar, construir-descontruir, significar-ressig- nificar são mais que pares de palavras, são verdadeiramente modos de ser e existir frente à multiplicidade dos fenômenos existentes na realidade conjuntural. Sín t eSe O estudo das perspectivas cosmogônicas e cos- mológicas nos possibilitou a compreensão de um dos prin- cipais períodos filosóficos da humanidade. Além das consid- erações histórico-sociais inerentes ao aprendizado, constam, nesta unidade, elementos que possuem o escopo no fomento da realização de relevantes reflexões, a fim de atualizar e con- textualizar o legado deixado pelos pensadores originários, exercício de aproximação teórico conceitual a práxis cotidi- ana que torna-se indispensável ao estudante na contempora- neidade. qu eStão pa r a r eflex ão 1. Elabore um comentário explicativo sobre as características e funções das narrativas míticas e estabeleça relações com a Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 57 contemporaneidade. 2. Considere as citações abaixo e desenvolva seu posiciona- mento frente às adversidades sociais contemporâneas. • De fato, ou uma coisa é ou não é. Se é, não pode vir- -a-ser, porque já é. Se não é, não pode vir-a-ser, porque do nada não se tira nada. (MONDIN, 2003, p. 31). • Tudo é vir-a-ser, tudo muda, tudo se transforma. O mundo, o homem, as coisas estão em incessante trans- formação. (MONDIN, 2003, p. 26). lei t u r aS i n dica daS BULFINCH, T. O Livro de Ouro de Mitologia história de Deuses e Hérois. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 2 reimpressão. São Paulo: Palas Athena, 1991. REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. Si t eS i n dica doS http://www.filosofia.com.br/ http://www.mundoeducacao.com.br/ r ef er ênci aS ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: in- trodução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. ______. Temas de Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000. 58 Fi lo so fia BUZZI, A. R. Introdução ao Pensar: o Ser, o Conhecimento, a Linguagem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 2 reimpressão. São Paulo: Palas Athena, 1991. CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003. COTRIN, G. Fundamentos da Filosofia história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006. MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. Pa ss ea nd o so br e a o rig em e or ga ni za çã o do u ni ve rs o: o lh ar es co sm og ôn ic os e co sm ol óg ic os 59 ( 3 ) Reflexões sobre o conhecimento e olhares sobre o pensamento clássico Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos “Tudo que se vê não é Igual ao que a gente Viu há um segundo Tudo muda o tempo todo No mundo” Trecho de Como uma Onda. Lulu Santos. Disponível em: <http:// letras.mus.br/lulu-santos/47132/>. Acesso em: 21 out.2012. O trecho de música citado permite lembrar os diálogos tecidos na unidade anterior, especialmente quando lançamos o olhar sobre a cosmologia, com atenção a Heráclito. O devir,a mudança constante, a condição perene de que tudo é mutá- vel. “Como uma onda no mar”. Na contemporaneidade, não precisamos viver essa contenta entre o referido pensador e 64 Fi lo so fia Parmênides que, como você já sabe, propôs que tudo é uno, fixo, imutável. Hoje, podemos tecer reflexões sobre as duas condições (do mutável e do imutável) em prol da busca pelo conhecimento. Hoje, falamos em complexidade. Falamos nas integrações necessárias entre os sentimentos, os pensamen- tos e as ações nas diversas instâncias da vida, seja pessoal, acadêmica, profissional etc. Nesta unidade, vamos dialogar, dentre outros saberes, a respeito da trajetória clássica grega do pensamento, ou seja, sobre o que houve depois da transição da perspectiva cosmo- gônica para a cosmológica. Ou, ainda, o que dizer da inicia- tiva que sempre tivemos, na qualidade de humanidade, de conhecer, de desvelar ou perceber os dados da realidade. Seja como uma onda no mar, seja como uma gota no oceano, esta- mos todos em relação com as iniciativas capazes de promo- ver e conquistar conhecimentos. É por este termo e com ele que vamos continuar nossos diálogos. “Há muita vida lá fora, aqui dentro, sempre”. A origem etimológica latina do termo conhecimento, cognoscere, aponta para as possibilidades de saber. No âmbito da filosofia são várias as formas de compreensão a respeito do que é conhecimento e de como é possível conquistá-lo, de acordo com os pressupostos teóricos e/ou metodológicos de cada expressão da teoria do conhecimento, conforme você estudou durante nossa Unidade 01. A respeito do conhecimento, elegemos, para sociali- zar com você, a aproximação conceitual feita por Luckesi e Passos (2000), correlacionando-o à elucidação da realidade. Escolhemos este olhar, pois está próximo do movimento que reúne o ato de conhecer com as possibilidades de engajamento social, pois, conforme os respectivos autores (2000, p. 32, grifo nosso): “o conhecimento que se transforma em consciência social é um instrumento básico na luta pela transformação”. R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 65 A palavra elucidar tem sua ori- gem no latim. Ela é composta pelo prefixo reforçativo “e” e pelo verbo “lucere”, que quer dizer “trazer à luz”. Então, elucidar, do ponto de vista de sua origem vocabular, significa “trazer a luz muito fortemente”, “iluminar com intensidade”. Desse modo, conhecer, entendido como eluci- dar a realidade, quer dizer uma forma de “ilumina” de “trazer à luz” a realidade. [...] A luz do elucidar tem a ver com a in- cidência da “luz da inteligência” sobre a realidade, tem a ver com inteligibilidade. O conhecimento, como elucidação da realidade, é a forma de tornar a realidade in- teligível, [...] cristalina. É o meio pelo qual se descobre a essência das coisas que se manifesta por meio de suas aparências. Assim sendo, enquanto a realidade, por meio de suas manifestações apa- rentes, manifestar-se ia como misteriosa, impenetrável, opaca, oferecendo resistências ao seu desvendamento (desvendar/des- vendar=tirar a venda) por parte do ser humano, a elucidação se- ria a sua iluminação, a sua com- preensão, o seu desvelamento (desvelar/des-velar=tirar o véu). (LUCKESI; PASSOS, 2000, p. 15) 66 Fi lo so fia Todos nós estamos diante da realidade na qualidade de pessoas dotadas da capacidade de elucidar. Cada um, con- forme seus desejos, suas escolhas, criatividades, afinidades etc., lançamos o olhar sobre o mundo e construímos quem somos também no âmbito das relações. Desse modo, pode- mos dizer que somos seres cognoscentes e participamos de processos nos quais tecemos relações, de modos variados, com a realidade cognoscível. Aqui, já mencionamos elemen- tos do processo do conhecimento. Vejamos. Os elementos do processo do conhecimento são: sujeito (cognoscente), objeto (cognoscível), ato de conhecer e seu resul- tado. Aplicamos o termo cognoscente para significar a dispo- sição ao conhecimento, ou aquele que conhece. A expressão cognoscível corresponde à realidade que pode ser conhecida. Elementos do processo de conhecimento Fonte: Elaboração própria Na qualidade de elemento do processo do conheci- mento, sujeito cognoscente é a pessoa que estabelece relação com a realidade a ser conhecida (objeto), buscando criterio- samente as percepções e os entendimentos necessários a respeito dela, portanto, organiza os saberes, conquista e exer- cita a habilidade de percepção, abstração, inteligibilidade. O Sujeito Objeto Resultado Ato de conhecer+ = Eleme ntos d o proc esso do con hecim ento R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 67 objeto cognoscível pode ser também o próprio ser humano, as relações humanas em dada comunidade, um fenômeno físico/natural, um fenômeno social etc. Portanto, o objeto não corresponde a uma coisa material no sentido que comumente é atribuído ao termo objeto, mas a toda e qualquer realidade a ser conhecida. A respeito do ato de conhecer e do resul- tado (também conhecido por produto), são, respectivamente, o processo da relação entre sujeito e objeto e o conceito, con- forme segue: [...] O ato de conhecer é o proces- so de interação que o sujeito efet- ua com o objeto, de tal forma que, por recursos variados, vai tentan- do captar do objeto a sua lógica, a possibilidade de expressá-lo conceitualmente. Então, o sujeito interage com o objeto para desco- brir-lhe, teoricamente, a forma de ser. [...] o resultado do ato de conhecer é o conceito produzido, o conhecimento propriamente dito, a explicação ou a compreen- são estabelecidas, que podem ser expostas ou comunicadas. (LUCKESI; PASSOS, 2002, p. 17) Conforme os modos distintos de estabelecer relações com a realidade, contamos com formas também distintas de conhecimento. De acordo com Araújo et al. (2000), são três as maneiras básicas pelas quais o sujeito conhece o objeto. Essas maneiras se distinguem com relação as vias de acesso às pro- priedades do objeto, podendo ser pelos sentidos, pelo raciocí- nio ou pela crença. 68 Fi lo so fia Quando o sujeito cognoscente entra em contato com o objeto cognoscível mediante os sentidos, dizemos que esse é um tipo de conhecimento sensorial ou empírico: “o universo dos objetos físicos é, pois, conhecido pela sensação de suas características. O sujeito cognoscente estabelece com eles uma relação física, apoderando-se de suas propriedades sen- síveis” (ARAÚJO et al. 2000, p. 32). Além de entrar em contato com a realidade mediante às sensações, o ser humano pode ir além da percepção sen- sorial, o ser humano é dotado do poder de abstração, bem como de associação/relação entre os dados percebidos, cons- tituindo, assim, o tipo de conhecimento lógico ou intelectual. A combinação dos dados pos- sibilita analisar, comparar, ar- ticular e unir, gerando conceitos, definições e leis indispensáveis ao entendimento (e consequente utilização) da realidade. É pelo raciocínio que percebemos o con- junto dos objetos formais, tais como as figuras geométricas, os números, a relação causa-efeito, a gravitação dos corpos etc. (ARAÚJO et al., 2000, p. 32) Dentre os modos de relação com a realidade, consta também aquela que não pode ser mediada nem pela percep- ção sensorial, nem pelas associações racionais, pois remetem a instâncias da realidade fundamentadas na fé, outrotipo de conhecimento, a saber: o conhecimento de fé. Conforme Araújo et al. (2000, p. 34), “o conhecimento de fé baseia-se, pois, na autoridade de terceiros. Constitui um voto de confiança no que outros afirmam”. Corresponde não a observações, R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 69 percepções ou associações entre dados da realidade, mas está próximo às perspectivas de revelação mediada pela fé. Constam também outros olhares, igualmente válidos, a respeito dos tipos de conhecimento, apontando, por exemplo, para o conhecimento do senso comum ou popular, o conheci- mento religioso, o conhecimento científico e o conhecimento filosófico. Por motivos de elucidação didática, preferimos socializar com você a perspectiva de conhecimento sensorial ou empírico, lógico ou intelectual e de fé. Deixamos o convite para que pesquise outros olhares a respeito dos tipos de conhe- cimento, ampliando seus estudos e saberes, considerando, ainda, que, ao longo das nossas unidades, você poderá com- preender a respeito do conhecimento conforme o pensamento filosófico, por exemplo, do empirismo e do racionalismo. E a Filosofia? O que dizer do modo filosófico de lan- çar o olhar sobre a realidade? Ou, como seria o processo do conhecimento para a pessoa que se porta na qualidade de, por assim dizer, “sujeito” filosofante? Você recorda que, durante nossa Unidade 1, propomos que somos já pessoas filosofan- tes? Convidamos você, mais uma vez, para que encontre suas próprias respostas. Nesse sentido, oferecemos informações que subsidiarão essa iniciativa. Vamos, portanto, dialogar a respeito da atitude e da reflexão ou sobre quais característi- cas fazem com que a atitude seja filosófica. E a reflexão? Para atendermos esses subsídios necessários, utilizamos: perspec- tivas didáticas apresentadas por Chauí e fundamentos pro- postos por Saviani (1998). A atitude filosófica apresenta duas características fun- damentais: negativa e positiva. É negativa porque nega ao que está posto sem que antes seja compreendido, nega as afir- mações gerais que são impostas para que sejam cegamente seguidas. Portanto, querido(a) estudante, muitas vezes, já desempenhamos essa primeira característica da atitude 70 Fi lo so fia filosófica em nosso cotidiano, pois somos pessoas dedicadas ao conhecimento, pessoas que buscam ver para além do que está posto, para além dos recursos de dominação social, pes- soas que desejam e buscam realizar a autonomia, a liberdade de pensar. Entretanto, não é apenas exercitando esse tipo de negação que podemos dizer que nossa atitude é filosófica. É preciso, também, propor. Além de negativa, no sentido já elucidado, a atitude filosófica é também positiva ou propositiva. Uma vez que não aceitamos determinados modos de significação da realidade, precisamos propor nossos próprios modos de entendimento, criando nossos conceitos e o fazemos quando assumimos posturas questionadoras. Mediante a citação a seguir, você pode saber mais sobre as características negativa e positiva da atitude filosófica e como, relacionadas, elas constituem a atitude crítica! A primeira característica da ati- tude filosófica é negativa, isto é, um dizer não aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido [...]. A segunda característica da atitude filosó- fica é positiva, isto é, uma inter- rogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma in- terrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interroga- ção sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. “O que é?”, “Por que é?”, “Como é?”. Es- R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 71 sas são as indagações fundamen- tais da atitude filosófica. A face negativa e a face positiva da ati- tude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica. [...] Em geral, julgamos que a palavra “crítica” significa ser do contra, dizer que tudo vai mal, que tudo está errado, que tudo é feio ou desagradável. Crítica é mau hu- mor, coisa de gente chata ou pre- tensiosa que acha que sabe mais que os outros. Mas não é isso que essa palavra quer dizer. A palavra “crítica” vem do grego e possui três sentidos principais: 1) capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente; 2) exame racional de todas as coisas sem preconceito, sem prejulgamento; 3) atividade de examinar e aval- iar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um com- portamento, uma obra artística ou científica. (CHAUÍ, 2003, p. 18) Quanto à reflexão filosófica, temos também carac- terísticas específicas. Na obra “Educação: do senso comum à consciência filosófica”, o pesquisador Dermeval Saviani aponta e contextualiza alguns aspectos da reflexão filosófica. Compreende que nem todo refletir é filosófico; para sê-lo, é preciso atender às características: radical, rigorosa e de con- junto. Querido (a) estudante, importa compreender que esses 72 Fi lo so fia termos não se apresentam conforme comumente significa- dos. Ser radical, neste caso, não significa ter um posiciona- mento fixo, inflexível; ao contrário, remete à busca das raízes e está em relação com os demais aspectos (rigor e conjunto). Muitos são os autores e autoras que buscam dessa fonte ao discorrer sobre a reflexão filosófica. É um modo sério e subs- tancial, com linguagem clara, acessível e conteúdo pertinente às variadas faces do viver. Para saber mais sobre a reflexão filosófica (radical, rigo- rosa e de conjunto), por gentileza, acompanhe a leitura do quadro que segue. Trecho selecionado de “A reflexão filosófica” Radical: a palavra latina radiz, radicis significa “raiz”, e no sentido figurado, “fundamento, base”. Portanto, a filo- sofia é radical não no sentido corriqueiro de ser inflexí- vel (nesse caso seria a antifilosofia), mas na medida em que busca explicitar os conceitos fundamentais usa- dos em todos os campos do pensar e do agir. Por exem- plo, a filosofia das ciências examina os pressupostos do saber científico, do mesmo modo que, diante da decisão de um vereador em aprovar determinado projeto, a filo- sofia política investiga as “raízes” (os princípios políticos) que orientam a ação. Rigorosa: enquanto a “filosofia de vida” não leva as con- clusões até as últimas consequências, nem sempre exa- minando os fundamentos delas, o filósofo deve dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor. É assim que os filósofos inovam nos seus caminhos de reflexão, tal como o fizeram Platão, Descartes, Espinosa, Kant, Hegel, Husserl, Wittgenstein. [...] São inúmeros os métodos filosóficos em que se apoiam os filósofos para desenvolver um pensamento rigoroso, fundamentado a partir de argumentação, coerente em suas diversas partes e, portanto, sistemático. Além disso, o filósofo usa de lin- guagem rigorosa para evitar as ambiguidades das expres- sões cotidianas, o que lhe permite discutir com outros filósofos a partir de conceitos claramente definidos. R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 73 Fonte: ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: intro- dução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003, p. 89-90. Foi com atenção racional àbusca das raízes, de modo criterioso e de conjunto que os primeiros pensadores come- çaram a busca pelo conhecimento a respeito do princípio de todas as coisas, conforme você estudou em unidades anterio- res. Agora, vamos juntos, nesse momento, entender um pouco mais sobre a continuidade dessa trajetória, recordando a tran- sição da perspectiva cosmogônica para a cosmológica. Vamos seguir nosso passeio lançando o olhar sobre os Sofistas. Por seu significado etimológico, a palavra sofista signi- fica “sábio”. Mas, em que consiste essa sabedoria? Se recordar- mos as unidades anteriores, iremos perceber que, em dados momentos históricos-sócio-espaciais, houve transformações profundas sobre a forma pela qual o indivíduo compreen- dia a realidade: primeiro, com as representações mitológicas (cosmogonia); depois, com os Jônios (cosmologia, tentativa de encontrar o arché, substância primordial) e, agora, os sofistas. Qual seria a sua proposta? Os sofistas voltaram seus olhares não mais para os deuses, nem para as substâncias primordiais, mas sim e, sobretudo, para o próprio indivíduo. Acreditavam eles que as respostas não mais estariam fora do ser humano, mas o Por isso, o filósofo sempre “inventa conceitos”, criando expressões novas ou alterando o sentido de pala- vras usuais. Aliás, quanto souberam fazer isso os gregos no nascimento da filosofia. De conjunto: a filosofia é globalizante, porque examina os problemas sob a perspectiva de conjunto, relacionando os diversos aspectos entre si. Nesse sentido, a filosofia visa ao todo, à totalidade. Mais ainda, o objeto da filosofia é tudo, porque nada escapa a seu interesse. Daí sua fun- ção de interdisciplinaridade [bem como sua importância frente às mais diversas áreas de formação], ao estabelecer o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos. 74 Fi lo so fia contrário. O interesse pelo ser humano e suas relações políti- cas na sociedade caracterizam o sofista. Mas, quem eram essas pessoas? A quem eram destina- das suas aulas? Os sofistas eram professores itinerantes, vendiam seus conhecimentos às pessoas que estivessem dispostas a pagar. Eles contribuíram de modo significativo para o desenvolvi- mento do poder argumentativo, pois os conteúdos de suas aulas correspondiam essencialmente ao desenvolvimento da argumentação e habilidade retórica. Entretanto, foram dura- mente criticados por pensadores, tais como Sócrates e Platão. Por quais motivos foram os sofistas alvos de críticas severas? Os sofistas não apresentavam o compromisso com a busca pelo conhecimento verdadeiro, visto que os conheci- mentos dos sofistas são relativistas e despreocupados com a verdade (aletheia). Sabemos que os modos contemporâneos de conhecimento apontam para os caminhos de que não há uma verdade única e absoluta, uma vez que os saberes são circunstanciados. Portanto, o (conhecimento) é construído mediante as relações que tecemos com o mundo em sua com- plexidade, frente ao momento histórico e à diversidade de condicionantes sociais existentes. Entretanto, o relativismo dos sofistas, conforme o olhar socrático, corresponde à ausên- cia de compromisso com o saber genuíno, associando a prá- tica sofista a interesses imediatizados e não aos caminhos que oportunizassem a autonomia do pensar e a conquista do conhecimento verdadeiro. Os sofistas ensinavam aos seus discípulos que não pode haver conhecimento verdadeiro, mas só um conhecimento provável, por causa de sua origem sensível, e R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 75 que não existe uma lei moral ab- soluta, mas somente leis conven- cionais. O fim supremo da vida é o prazer: esta é a única meta apropriada à dimensão rigorosa- mente empírica do conhecimento. (MONDIN, 2003, p. 40) A seguir, estão dispostos os quadros de Protágoras e Górgias, dois dos principais sofistas e suas contribuições mais expressivas ao pensamento filosófico grego. Protágoras, nascido em Abdera na década entre 491 e 481 a. C., mor- reu por volta do fim do Século V. Criador do axioma “O Homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são” (princípio do homo mensura). (REALE; ANTISERI, 2003, p. 76) Górgias, nascido em Leôncio na Sicília aproximadamente em 487-380 a. C., considerado um dos grandes oradores da Grécia, aprofundou o subjetivismo relativista de Protágoras a ponto de defender o ceticismo absoluto e afirmava que: a) Nada existia; b) Se existisse, não poderia ser conhecido; c) Mesmo que fosse conhecido, não poderia ser comunicado a ninguém. (COTRIM, 2006, p. 85) Seguindo em nosso passeio pela Filosofia Antiga, che- gamos a Sócrates, um marco do pensamento filosófico oci- dental. Ainda hoje, seus ensinamentos constituem pauta de fervorosos debates, tanto em centros acadêmicos, quanto à mesa de um bar, haja vista a atualidade de seus ensinamentos. 76 Fi lo so fia Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/84/UWASocrates_gobeirne.jpg Sócrates nasceu na cidade de Atenas (469-399 a. C.), filho de um escultor (Sofronisco) e uma parteira (Fenareta), simples e modesto quanto aos recursos financeiros, fora con- vocado a participar de várias campanhas militares, desta- cando-se por sua coragem e heroísmo. Contudo, o fato mais marcante de sua vida deu-se quando, em visita ao oráculo de Delfos, Sócrates foi considerado como o homem mais sábio entre seus concidadãos. Sócrates, então, se pôs a refletir e verificou que sua sabedoria reside em reconhecer a impossi- bilidade de se conhecer tudo e que há muito a ser desvelado pelo homem ao longo de sua vida. O estilo de Sócrates assemelhava- se, exteriormente, aos dos sofis- tas, embora não “vendesse” seus conhecimentos. Desenvolvia o sa- ber filosófico em praças públicas, conversando com os jovens, sem- pre dando demonstrações de que era preciso unir a vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 77 fazer, a consciência intelectual à consciência prática ou moral. Tanto quanto os sofistas, Sócrates abandonou a preocupação dos filósofos pré-socráticos em expli- car a natureza e se concentrou na problemática do homem. No en- tanto, contrariamente aos sofistas, Sócrates opunha-se, por exemplo, ao relativismo em relação à questão da moralidade e ao uso da retórica para atingir interesses particulares. (COTRIM, 2006, p. 86) A Maiêutica e a Ironia foram constitutivos do seu método de investigação filosófica. O método socrático, dialé- tico, consistiu na realização constante de perguntas ao inter- locutor, a tal ponto que se reconhece que o saber tido como absoluto não passa de uma compreensão, ou pseudo saber. Logo, o sujeito põe-se ao exercício da reflexão de novas pers- pectivas e desenvolvimentos, nascendo, assim, ideias ori- ginais. A parturição de ideias consiste essencialmente no esvaziamento e reconhecimento de que o que se sabe é apenas uma dentre tantas outras infinitas ideias. Reconhecendo-se que não se sabe tudo, o indivíduo tem a possibilidade de abertura ao novo. A ironia é a característica peculiar da dialética socrática, não apenas do ponto de vista formal, mas tam- bém do ponto de vista substancial. Em geral, ironia significa ‘simula- ção’. Em nosso caso específico, in- dica o jogo brincalhão, múltiplo e 78 Fi lo so fia variado das ficçõese dos estratage- mas realizados por Sócrates para levar o interlocutor a dar conta de si mesmo. [...] A ‘refutação’ (élen- chos), em certo sentido, constituía a pars destruens do método, ou seja, o momento em que Sócrates levava o interlocutor a reconhecer a sua própria ignorância. (REALE; ANTISSERI, 2003, p. 97-98) No quadro a seguir, você pode conhecer um pouco mais sobre o método socrático e, tecendo as relações com a contemporaneidade, poderá perceber a atualidade dessa proposta, uma vez que convida a elaboração das próprias ideias e conceitos frente à realidade. Trechos selecionados sobre o método socrático Trecho de “Teoria do conhecimento na Antiguidade” O método socrático, que é um método indutivo, envolve duas fases. A primeira, chamada ironia, consiste em fazer perguntas ao interlocutor que o obriguem a justifi- car, sempre com maior profundidade, seu ponto de vista, até que ele perceba que tipo de falha ou equívoco pode estar contido em seus argumentos. Essa é a fase destru- tiva, pois leva as pessoas a admitirem a própria ignorân- cia a respeito de um assunto. São destruídas as opiniões [...] do conhecimento espontâneo, muitas vezes baseados em estereótipos e preconceitos. A segunda parte, cha- mada maiêutica (parto), é a construção de novos concei- tos baseados em argumentação racional. Assim, Sócrates, com suas perguntas, aniquila o saber constituído para, depois, ainda através de perguntas e da contraposição de ideias, reconstruí-lo a partir de uma base mais sólida e de um raciocínio coerente e rigoroso. Fonte: ARANHA, M. L. A. ; MARTINS, M. H. P. Temas de Filo- sofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000, p. 84. R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 79 Platão e Aristóteles são outros dois importantes pen- sadores do período antigo grego. O primeiro foi discípulo de Sócrates e desenvolveu uma filosofia dualística, separando a realidade em dois mundos: o sensível e o inteligível. Trecho de “Ironia e Maiêutica de Sócrates” A ironia socrática era, antes de tudo, o método de pergun- tar sobre uma coisa em discussão, de delimitar um con- ceito e, contradizendo-o, refutá-lo. O verbo que originou a palavra (eirein) significa mesmo perguntar. Logo, não era para constranger o seu interlocutor, mas antes para purificar seu pensamento, desfazendo ilusões. Não tinha o intuito de ridicularizar, mas de fazer irromper da apo- ria (isto é, do impasse sobre o conceito de alguma coisa) o entendimento. Porém, sair do estado aporético exigia que o interlocutor abandonasse os seus pré-conceitos e a relatividade das opiniões alheias que coordenavam um modo de ver e agir e passasse a pensar, a refletir por si mesmo. Esse exercício era o que ficou conhecido como maiêutica, que significa a arte de parturejar. [...] Significa que ele, Sócrates, não tinha saber algum, apenas sabia perguntar mostrando as con- tradições de seus interlocutores, levando-os a produzirem um juízo segundo uma reflexão e não mais a tradição, os costumes, as opiniões alheias, etc. E quando o juízo era exprimido, cabia a Sócrates somente verificar se era um belo discurso ou se se tratava de uma ideia que deveria ser abortada (discurso falso, errôneo). Assim, ironia e maiêutica, constituíam, por excelência, as principais formas de atuação do método dialético de Sócrates, desfazendo equívocos e deslindando nuances que permitiam a introspecção e a reflexão interna, pro- porcionando a criação de juízos cada vez mais fundamen- tados no lógos ou razão. Para refletirmos um pouco! Considerando o exposto nesta unidade, como você compre- ende a postura filosófico-reflexiva dos Sofistas e de Sócrates? 80 Fi lo so fia Aristóteles foi discípulo de Platão, mas, com o passar dos tempos, o aluno diverge das ideias do seu mestre e rompe com seus ensinamentos, passando a desenvolver uma filoso- fia fundada na lógica. Ele acreditava que, a partir da existên- cia do ser, se pode alcançar a essência da realidade. Segue quadro demonstrativo evidenciando seus prin- cipais posicionamentos filosóficos: PLATÃO Nasceu em Atenas (427-347 a. C.) Teoria do Conhecimento Ética Política Única forma de alcançar o conhecimento, superação da opinião (Filodoxia), para o amor a sabedoria (Filosofia) Orientação ao desprezo dos prazeres mundanos, o importante é alcançar a esfera inteligível Acredita que o Estado que quer viver bem procura realizar a Justiça e a Verdade ARISTÓTELES Nasceu em Estagira (384-322 a. C.) Teoria do Conhecimento Ética Política Relação Ato - Potência; Quatro causas: 1. Material; 2. Formal; 3. Eficiente; 4. Final Acredita que, para o homem ser feliz, deve viver de acordo com sua essência, isto é, de acordo com a sua razão, a sua consciência reflexiva O Estado é uma criação da natureza e que o homem é, por natureza, um animal político Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/80/Aristotle_1.jpg Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Platon-2.jpg R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 81 Sócrates, Platão e Aristóteles são três importantes representantes do pensamento filosófico ocidental. Suas ideias e teorias transformaram e direcionaram o caminhar da Humanidade ao longo de uma trajetória tempo-espacial. Eles, inquietos diante das diversidades apresentadas pela estrutura social, política e filosófica de sua época, passaram a questionar a realidade, cada um ao seu modo de observar e interpretar. A nós, fica a herança de, a partir dessas concepções filosóficas, adotarmos uma postura crítica e reflexiva diante da realidade contemporânea. Nisso consiste o desafio no qual e pelo qual, frente a uma sociedade pasteurizada e homogê- nea, buscamos ser diferentes, nem melhor nem pior, apenas diferentes, perturbadores da “ordem”. Sín t eSe Durante esta unidade, dialogamos sobre o conheci- mento na qualidade de elucidação da realidade, explicitando os elementos do processo do conhecimento e comentando alguns dentre os modos de conhecer, com dedicação às car- acterísticas da atitude e da reflexão filosóficas. Foram propos- tas reflexões sobre a importância da postura autônoma frente à compreensão da realidade, sabendo que o conhecimento é uma necessária via de acesso à transformação social como ocorreu no mundo grego antigo (contexto no qual estudamos sobre sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles), como vem ocor- rendo ao longo da nossa trajetória, como esperamos que con- tinue a ocorrer a cada instante que a experiência da perplexi- dade lance seus convites. 82 Fi lo so fia qu eStõeS pa r a r eflex ão 1. Sócrates afirma: “Quanto mais sei, mais sei que nada sei”. De que forma você compreende essa máxima? Quais relações são possíveis entre a referida máxima socrática e o conhe- cimento tanto em suas perspectivas conceituais quanto com relação a seus elementos? 2. Segundo Protágoras, o Homem é a medida de todas as coi- sas. Como você interpreta essa frase na atualidade social? lei t u r aS i n dica daS HELFERICH, C. História da Filosofia. São Paulo: Imfe, 2006. NICOLA, U. Antologia Ilustrada da Filosofia das origens à Idade Média. São Paulo: Globo, 2005. Si t eS i n dica doS http://www.consciencia.org/ http://www.filosofia.org.br/ r ef er ênci aS ARANHA, M. L. A.; MARTINS,M. H. P. Filosofando: in- trodução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000. ARAÚJO, S. M. et al. Pra Filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2003. R efl ex õe s so br e o co nh ec im en to e ol ha re s so br e o pe ns am en to c lá ss ic o 83 CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003. COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2006. LUCKESI, C. C.; PASSOS, E. S. Introdução à Filosofia: apren- der a pensar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2002. MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. REALE, G.; ANTISSERI, D. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. ( 4 ) Dialogando com os temas: ética e moral “O homem é sempre homem en- quanto existe como verbo ser ab- erto para a liberdade”. (KUTSCHERAUER, 2003, p. 59) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Caro (a) aluno (a), bem-vindo(a)! Esta unidade tem por objetivo a consolidação e aplica- ção dos conhecimentos referentes à temática Ética e Moral. Com ela, você terá a oportunidade de exercitar a postura reflexiva, crítica, criativa e, sobretudo, autônoma, uma vez que diálogos serão propostos ao longo das linhas, parágrafos e páginas desta unidade. Assim, boa leitura e excelentes aprendizados. 88 Fi lo so fia A proposta desta unidade consiste em desvendarmos os mistérios e contradições acerca da problemática existente entre os termos Ética e Moral. De certo que, por várias vezes, ao decurso de nossa existência, ouvimos e até afirmamos que são palavras com mesmo sentido e significado, ou mesmo, quando não afirmamos erroneamente que a moral é ampla- mente superior à ética e esta, por sua vez, é descaracterizada e menosprezada frente à realidade constituída. Essas são apenas algumas dentre outras inquietações que nortearão nosso dialogo. Mas, o que é a Ética e o que é a Moral, finalmente? O estudo etimológico (origem das palavras) dos termos consiste em um bom ponto de partida para o entendimento do que é proposto. Dessa forma, Ética é uma palavra de ori- gem grega Éthos, que, segundo Abbagnano (2000), é a ciên- cia da conduta humana, que estuda a finalidade e os meios de realização desse modo de ser pessoa. A ética, tornando- -se examinadora da moral, teoriza acerca das condutas, estu- dando as concepções que dão suporte à moral. A moral, por sua vez, é de origem latina, Mos-mores, representa a forma de valores que direcionam o bem viver na sociedade. Poder-se-ia dizer que a moral normatiza e dire- ciona a prática das pessoas, por referir-se às situações parti- culares e quotidianas, não chegando à superação desse nível. São, pois, dois caminhos diferentes que resultam em status também distintos; o primeiro, de ciência (ética), e o segundo, de objeto (moral). Segundo Vasquez (1980), o Ser moral não significa receber passivamente as regras do grupo, mas aceitá-las ou recusá-las livre e conscientemente. A finalidade da moral consiste na forma como regula o comportamento: D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 89 • Individual – relacionado ao modo de ser, pensar e agir individual. • Social – A comunidade dita as normas e elas são seguidas. Quanto à formação da consciência moral, têm-se qua- tro momentos a serem observados, segundo Araújo (1996): • Anomia, palavra de origem grega, “a” = negação, ausência, + nomos, lei = sem lei. • Heteronomia, do grego héteros, “outros” + nomos, “lei” = lei estabelecida ou imposta por outrem. • Socionomia do latim socius, companheiro, colega, e do grego nomos, lei = lei interiorizada pelo indivíduo. • Autonomia, do grego autós, “próprio” + nomos, “lei” = lei própria. Esses momentos evidenciam comportamentos da pes- soa no exercício das relações sociais. • Anomia - É a etapa do comportamento puramente instintivo, que se orienta apenas pelo prazer e pela dor, mais presente nas crianças. • Heteronomia - Ocorre quando se obedece às ordens para receber a recompensa ou para evitar o castigo. Entre adultos, é o caso do motorista que observa as leis do trânsito só para não ser multado. • Socionomia - Os critérios morais vão se afirmando por meio de suas relações com outras pessoas, as ações realizadas pelo indivíduo ensejam a aprovação ou sim- plesmente evitam a censura dos outros. Entre adultos, é o caso do motorista que dirige preocupado consigo mesmo e, sobretudo, com o que os outros pensam dele. • Autonomia - Nesse momento, a pessoa interiorizou as normas morais e passa a comportar-se de acordo 90 Fi lo so fia com elas. É a etapa mais elevada do comportamento moral. É o caso do motorista que, na direção do auto- móvel, orienta-se pelas leis do trânsito e por seus pró- prios princípios internos de conduta. Nesse momento, suponho que se faz necessário refletir- mos um pouco sobre esses momentos, observando, sobretudo nossas ações diárias frente à realidade social. Como estou condu- zindo minha vida? Minhas ações são verdadeiramente efetivas? Vamos juntos dialogar e aprofundar essas reflexões. As discussões relativas à ética datam desde os primei- ros momentos da formação social, na qual e pela qual as rela- ções entre os pares careciam de um princípio norteador. A ética possui o escopo (finalidade) na dissolução dos conflitos oriun- dos do exercício da liberdade indiscriminada, vejamos o posi- cionamento de Aristóteles evidenciado por Pegoraro (1995). Aristóteles situa o conflito na estrutura ontológica do ser hu- mano, na matéria e na forma, na composição da alma e do corpo. Esta componente metafisica é a raiz da oposição entre sensibili- dade e razão, paixão e inteligên- cia, sabedoria e prática e desejo. A ética aristotélica propõe a su- peração do conflito pela prática das virtudes morais que, aos pou- cos subordinam a paixão à razão. Quando isto acontece, o homem torna-se senhor de si mesmo. (PEGORARO, 1995, p. 12) D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 91 Por outro lado, Platão considera que a conduta humana deve estabelecer uma relação necessária entre o bem ético e o bem absoluto, mais uma vez a dualidade existencial que se reflete na realidade a partir das relações estabelecidas, o indi- víduo conduz sua existência, almejando o mundo suprassen- sível, perfeito e ordenado. Então, o primeiro entendimento acerca dessas poucas palavras reside em que a ética é o meio de superação dos lití- gios inerentes ao ser humano e à sociedade, dimensionando o agir individual e coletivo na construção de uma existência justa e feliz. Observe que, no primeiro entendimento, a ética não se condiciona, não está subjugada a nenhuma forma a não ser àquela proveniente do próprio indivíduo. Isso já nos indica um caminho. Como despertar essa consciência para uma ética individual que reflita na coletividade de forma equitativa? Diversas foram e são as contribuições dos filósofos e pensadores ao longo do percurso da história da humani- dade. Essas repousam, inicialmente, na discussão entre o ser e o dever ser, o problema da autenticidade e essencialidade frente à forma e ao conteúdo. A alternativa encontrada como meio de superação a essa dualidade existencial consiste na possibilidade do vir a ser. Aqui o indivíduo tem a oportunidade de realização. Contudo, são necessárias algumas ações no sentido do des- pertar da consciência. • Consciência de si: movimentode reflexão, olhar sobre si mesmo. • Consciência do outro: movimento de atenção, olhar para a realidade que o confronta. O despertar dessas consciências fomenta no indivíduo 92 Fi lo so fia um olhar crítico, reflexivo e criativo frente à sociedade con- juntural, transcendendo qualquer tipo ou forma de controle social estabelecido, o vir a ser é o projeto essencial de realiza- ção da pessoa, é processo de construção contínuo do indiví- duo fundado na compreensão de si e na apreensão e cuidado com o outro. O exercício ético é a realização do vir a ser em todas as suas potencialidades. Por um ato de vontade, o indivíduo exercita a liberdade e garante a dignidade, uma simples equa- ção pessoal. Vamos, novamente, realizar um exercício reflexivo: quanto, de um tempo de 24 horas, reservamos para refletir- mos sobre a nossa condição humana? Observando nossas ações, nossos sentimentos e sentido que damos à vida, será esse tempo suficiente? Devo considerar que não estamos nos referindo aos momentos em que assistimos a novelas, filmes, tampouco em que navega nos sites de relacionamentos etc. e, muito menos ainda, àquele tempinho que antecede o dor- mir cheio de sono e cansaço após o dia de trabalho, mas, a um momento específico, reservado por cada um de nós, sobre cada um de nós mesmos. Essa atividade evidencia a impor- tância que aferimos a nós próprios no resgate ou fortaleci- mento da dignidade. CONSCIÊNCIA DE SI + CONSCIÊNCIA DO OUTRO = CONSCIÊNCIA CRÍTICA VONTADE + LIBERDADE = DIGNIDADE ÉTICA D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 93 A moral está inserida nesse devir (vir a ser) existencial/ social. Ela constitui o conjunto de normas e valores estabele- cidos e aceitos por todos em uma comunidade. As suas prin- cipais características são: • Temporalidade - Os conjuntos de normas e valores sociais estabelecidos estão susceptíveis a mudanças com o passar dos tempos. • Cultura - As diversas culturas constituídas elabo- ram suas normas sociais próprias, havendo ou não a possibilidades de semelhanças entre culturas. • Social - As sociedades desenvolvem suas normas e seus valores com o escopo na ordem social para a busca da felicidade e justiça. Está com algumas dúvidas? Vamos, juntos, entender melhor essas características. Por temporalidade, compreendemos que é a própria passagem do tempo, e como tal, as coisas relativas a ele estão sujeitas às mudanças. Por exemplo, os valores morais recebi- dos por mim quando criança pelos meus pais são bem espe- cíficos, para não dizer rígidos, tradicionais. Por outro lado, é comum observarmos, atualmente, que as crianças recebem valores morais de seus genitores de uma forma mais flexível e sem tantos controles, algo típico de uma realidade maleável e flexível. Devo salientar o cuidado de se emitir algum tipo de juízo de valor. Não devo, sob o risco de estar errado, afir- mar que antes era melhor do que hoje, ou seu inverso. Os con- textos valorativos temporais precisam ser observados no seu tempo determinado. Por cultura, observa-se a premissa de ser toda a pro- dução humana. Assim como os homens são diferentes, da mesma forma/maneira o são suas culturas, mais uma vez 94 Fi lo so fia ressaltando-se o cuidado no juízo em atribuir valor compara- tivo sobre culturas, como afirmar que uma é melhor ou pior que outras, quando, em verdade, são apenas diferentes. Por exemplo, a cultura desenvolvida pelo homem do campo no contato com a natureza em todas as potencialidades não é nem melhor nem pior que a cultura do homem acadêmico, cientista. Essas culturas são apenas distintas e, às vezes, complementares. Por social, as sociedades de uma forma geral são consti- tuídas por pessoas, que, em sua própria natureza, são distin- tas. Assim, a cultura produzida pelas relações estabelecidas também o são. Por exemplo, os valores morais típicos de uma cidade capital são bem distintos de uma cidade do interior do Estado, porém, em hipótese alguma, inferiores. Essas características dialogam entre si. Observe algu- mas variações a fim de torná-las mais entendíveis: é possível termos sociedade em um mesmo período com valores cul- turais distintos. A sociedade brasileira e a sociedade norte- -americana são, por exemplo, duas constituições sociais devidamente estabelecidas e participantes do mesmo tempo (hoje), porém com distinções morais claras e evidentes. Os estados brasileiros em uma escala menor também são um bom exemplo: a relação entre os estados da região nordeste e os estados da região do sul, todos pertencentes a uma única unidade federativa, regidos pela mesma Constituição Federal, mas com claras distinções morais, nem melhores nem piores, apenas diferentes. Um dos grandes desafios que nos são impostos atu- almente consiste exatamente na aceitação da diferença, do outro que me é estranho. Isso caracteriza um problema ético- -moral, sobretudo pela falta de compreensão que o indiví- duo tem sobre si, quiçá dos demais, fruto de relações cada vez mais efêmeras e sem sentido. Estamos criando uma nova D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 95 cultura, a cultura dos sem sentido, fundada na ausência de valores morais e, principalmente, dos princípios éticos. Esse é o momento de pararmos e refletirmos sobre a forma como conduzimos nossas vidas: qual é o sentido do meu e do seu existir enquanto pessoa relacional potencial? Autores como Leonardo Boff e Hugo Kutscherauer contri- buem, significativamente, para elucidação dessa questão. Vejamos o que o primeiro nos diz. Como construir uma plataforma comum sobre a qual todos possa- mos nos assentar e nos entender? Para viver como humanos, os homens e mulheres precisam criar certos consensos, coorde- nar certas ações, coibir certas práticas e elaborar expectativas e projetos coletivos. Sempre houve tal fato desde os primórdios da construção das comunidades hu- manas. Surge, então, a questão da validade de uma referência ética e moral comum que possa con- gregar a todos. Qual base para essa referência comum? Hoje as relações são extrema- mente complexas. Postula-se uma referência de totalidade dos seres humanos, habitantes do mesmo planeta, que agora se descobrem como espécie, interde- pendentes, vivendo numa mesma casa e com um destino comum. Se não criarem um acordo quan- to a exigências éticas e morais 96 Fi lo so fia mínimas, como poderão coexistir pacificamente, preservar o lar co- mum e garantir um futuro para todos. (BOFF, 2003, p. 27) Esse é um chamamento à tomada de consciência frente à responsabilidade que nos é imposta através das ações que realizamos. Somos todos responsáveis para além de nossas intenções e efeitos, não nos é dada à oportunidade de declinar diante de uma consequência negativa de um ato feito. Nossa responsabilidade deve repousar essencialmente nos princí- pios éticos, que consistem em responder por tudo, mesmo quando essas consequências tenham extrapolado qualquer planejamento inicial. O problema, ou melhor, a dificuldade reside aí tam- bém. Infelizmente, é bastante comum ouvirmos afirmações do tipo: “Sobre essas consequências não tenho responsabi- lidade, visto que transcenderam o projeto inicial. Como não foram previstas, não posso responder”. Isso é um erro. Urge que tenhamos ações melhor planejadas, a fim de que sejam reduzidos seus efeitos e que, assim, os excessos sejam estan- cados pelo exercício da responsabilidade. De outra forma só nos restaria representar a Éticacomo uma lata de lixo, sobretudo quando nossas ações são despro- vidas de atenção e cuidados para com o outro. O filosofo H. Kutscherauer corrobora com essa afirma- ção dizendo: O homem que procure a perfeição pela vocação de serviço ao outro e ao mundo, não só será ético senão que também, em função do outro D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 97 (verdadeira transcendência de si) esquecerá o que está procurando; é a vantagem de qualquer virtude negativa: não ser, sendo aqui ser é tomado como verbo e não como substantivo. (KUTSCHERAUER, 2003, p. 38) A ética compreendida, dessa forma, resume-se aos princípios de preservação à dignidade da pessoa humana, ou à preservação da vida em todas as suas expressões. Assim, em qualquer que seja o período histórico, sociedade ou cultura, as ações humanas fundadas na observância desses princípios serão éticas. Dessa forma, a ética é atemporal e universal. A grande inquietação acerca desse entendimento é que, cada vez mais, constatamos o inverso desses princípios. Somos condicionados por uma educação finalista a buscar sempre a autorrealização sob qualquer justificativa, sendo esse o equívoco identificado na atualidade. Não é errado almejar uma vida confortável e provida de bens materiais, o problema é quando só se busca isso, e de todas as formas, muitas vezes, inclusive, sobrepondo-se a outras pessoas e utilizando-as como meio e não como um fim em si mesmo. A ética pressupõe, em sua essencialidade, o exercí- cio da liberdade na conquista da dignidade pessoal. Porém, como ser livre se, em um convívio social estabelecido, se faz imprescindível à limitação do indivíduo perante o outro? Nossas relações sociais nos constituem na mesma medida e proporção que limita nossa liberdade individual. Esse é um relevante paradoxo existencial. Como você, na qua- lidade de estudante, concebe suas relações? E de que forma você exercita sua liberdade diante da realidade conjuntural? 98 Fi lo so fia Essas são questões fundamentais para a conquista da essen- cialidade do ser pessoa, cuja constituição é pautada em prin- cípios éticos e na observância dos preceitos morais. Querido(a) aluno(a), em tempos passados, essa per- gunta fundamental nos atormentaria, visto a sua dificuldade no encontro de uma resposta coerente e que satisfaça suficien- temente. Aceitar as limitações como nos são impostas seria o mesmo que domesticar as pessoas como fazemos aos animais de uma forma geral. Por outro lado, ir de encontro a essas limi- tações, por sua vez, é o mesmo que sugerir o estabelecimento da anarquia conjuntural, e o resultado consistiria em uma possível aniquilação da espécie, uma vez que todos fariam o que bem quisessem na satisfação de seus desejos individuais. Então, o que fazer diante desse paradoxo? Como proceder? A resposta não seria outra, senão o despertar do próprio indivíduo enquanto ser, verbo, e não substantivo, como habi- tualmente vemos e vivemos na realidade. Para Kutscherauer (2003), o ser substantivo pode-se comprar em prateleiras de ofertas de mercado, o verbo não, visto que verbo necessita do sujeito para conjugá-lo. Quando o homem se entrega a seu sentir-se (e sem medo de amar- se), descobre sua relação com os valores do vir-a-ser-humano: o sujeito da ética é o homem. O homem é protagonista consciente de seu caminhar (ou de seu voar, tanto faz); pode ser protagonista trágico ou cômico, pode ter o equilí- brio entre apolíneo e o dionisíaco, podendo, por momentos, predomi- nar ou um ou outro etc. [...] (KUTSCHERAUER, 2003, p. 57) D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 99 O ser sendo se dá pela conjugação do verbo frente às diver- sas manifestações existenciais fenomênicas. Assim, a ética é a exteriorização objetiva do íntimo do indivíduo consciente e livre. A Liberdade é um pulsar que ama continuar pulsando: somente um ser vivo pode um dia vir-a-ser livre. A Liberdade é um dom ex- clusivo do que é vivo e se reconhece como tal; e esse reconhecimento se expande, se integra e unifica na diversidade, pela vida do outro e do mundo. A Ética do ser homi- nal não apresenta o mundo pela fragmentação: ela convoca o ser (verbo) de cada um ao alcance da sua Liberdade própria. E essa Liberdade não nos é ofertada como consolo futuro. Na abertura ética para a Liberdade, a própria Liber- dade é a condição de possibilidade para a instauração da Liberdade participativa. A ética, então, sendo essa abertura para a liberdade, se torna caminho da essencialização do ser (verbo) do homem, no homem e pelo homem vivente (presente): a Ética é o caminho da realização de uma comunidade humana fundada na participação afetiva e efetiva. O homem tem uma ética quando é um homem livre. (KUTSCHERAUER, 2003, p. 77) 100 Fi lo so fia Após essas passagens, nos questionamos novamente acerca da moral: como esta se insere no contexto social? É sabido, e percebido por todos, o seu papel normativo, inclu- sive, deve-se considerar como de grande relevância, mas, em hipótese alguma, como um meio de supressão das identida- des humanas. A moral, como a conhecemos hoje, reside exclusiva- mente no dever ser, normatizando e condicionando compor- tamentos socioculturais nas mais diversas modalidades de manifestação, nos aspectos político, religioso, pessoal, fami- liar, laboral etc. O desafio proposto atualmente consiste na transmutação ótica. É preciso lançar um novo olhar, olhar diferente frente a essa realidade, um olhar emancipató- rio capaz de fomentar no indivíduo estados consistentes de consciência, possibilitando-o à construção contínua de sua identidade. Essa é uma possibilidade de superação dos processos de dominação social. Para tanto, requere-se do indivíduo ape- nas o desejo, a vontade de saída da zona de conforto estabele- cida, que, para alguns, representa uma gaiola bonita, segura e confortável, enquanto que, para outros, embora com todas essas benesses, não passa de gaiola, instrumento de limitação das potencialidades individuais humanas. A moral reformulada de mil for- mas enfatiza um “dever ser” e impulsiona a fugir ou, o que é pior, a ignorar o ser. Conformar um dever ser compulsoriamente, desconhecendo o próprio ser (ser, aqui é tratado como verbo e não aceito como substantivo), as- fixiando sua potente expressão, é fonte de angustia e desequilí- D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 101 brios. O dever ser da moral tem como parâmetro a uniformidade do comportamento, seja qual for a sua intencionalidade. Essa des- graçada circunstância degrada qualquer expressão comporta- mental da universalidade de ser; ou melhor, inibe-o até degradá-lo perdendo a sua autoidentificação. (KUTSCHERAUER, 2003, p. 77) A uniformidade identitária acentua-se extraordina- riamente quando veículos de comunicação de massa deter- minam comportamentos, modos de ser e agir, determinam, inclusive, nosso pensar. Não somos mais criados. De certo que estamos em uma linha de produção, produzimos coisas, “humanoides”, pseudo-humanos, reprodutores de comporta- mentos previamente estabelecidos. Ser autônomo! Como? De que forma/maneira? Até que ponto o que pensamos no íntimo de nossas mentes é o resultado de um processo de autoconhecimento, ou mero condicionamento social que me faz pensar que sou eu que estou pensando o objeto pensado? Essa é a problemá- tica da autenticidade do Ser na mais profunda concepção, o pensar que reflete sobre o agir. Umaresposta a essa indagação já foi dada. Consiste na busca da essencialidade através da dúvida. O indagar sugere ao indivíduo sempre a possibilidade de obtenção/ construção de novas possibilidades de reinterpretação e Ser humano é ser autônomo. Estamos deveras distante do ideal originário?! (Para reflexão) 102 Fi lo so fia ressignificação da realidade estabelecida nas diversas con- cepções existenciais. Arduini (2007), em sua obra Ética responsável e criativa, sugere o resgate à essencialidade da pessoa humana pela pers- pectiva antropológica, respeitando e preservando a dignidade. Nosso compromisso é recuperar e manter a dignidade antropológi- ca. Deve-se restaurar o respeito à pessoa. Não se trata de arrogân- cia, mas de sustentar o significado vivo da antropologia ontológica. É necessário renovar a consciên- cia humana, que anda esfarrapa- da. Deve-se substituir a consciên- cia suja pela consciência limpa. O ser humano não pode mais ser visto como objeto traste, cisco, coisa e banalidade. Para recriar a dignidade pessoal, a consciência precisa sublevar-se e exigir res- peito concreto e efetivo. (ARDUINI, 2007, p. 38) Antropologia (estudo ou reflexão acerca do ser humano) ontológica, corrente filosófica que trata do ser enquanto ser, não é simples antropologia e nem pura onto- logia, mas a conjugação das ciências na busca pelo resgate do indivíduo enquanto ser de plenitude, renovado, fim em si mesmo, indivíduo novo, que estabelece e reconstrói relações holísticas e sistêmicas em todas as suas dimensões. O filosofo Kutscherauer (2003) evidencia três idiossin- crasias (disposição do temperamento do indivíduo, que o faz D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 103 reagir de maneira muito pessoal à ação dos agentes exter- nos) essenciais e naturais no indivíduo com o escopo no dire- cionamento das ações pessoais integrais frente à realidade: poder, posse, prazer. O agir humano, de uma forma geral, consiste no resul- tado da conjugação equacional dessas características, a saber. O poder da posse do prazer, O poder do prazer da posse, A posse do poder do prazer, A posse do prazer do poder, O poder da posse do poder, O prazer do poder da posse. (KUTSCHERAURER, 2003, p. 67) Observa-se facilmente que, quando um está em desta- que, os outros dois se encontram em apoio. Portanto, não se trata de tentar excluir algumas dessas características essen- ciais através de moralismo falacioso e fragmentador, mas, sobretudo, de equacioná-los de forma a possibilitar ao indiví- duo sua plena realização enquanto ser Ético de relação. Como resolver essa equação pessoal? Observe que não é resolver no sentido de término, mas sim na acepção de prover a si e à realidade conjuntural ações éticas transformadoras em um clico espiral ascendente, alter- nando entre si as três características. Assim, querido (a) aluno (a), concluímos o estudo desta unidade com a reflexão acerca das idiossincrasias Posse, Poder e Prazer. Observando, porém, todo o caminho de cons- trução e elucidação dos termos Ética e Moral nas diversas expressões e manifestações individuais e coletivas. 104 Fi lo so fia Sín t eSe Nesta unidade, tivemos a oportunidade de realizar significativas reflexões sobre um tema de extrema relevância na atualidade: Ética e Moral. Dialogamos no intuito de con- struirmos, juntos, saberes verdadeiramente consistentes e efe- tivos, desde a compreensão da simples etimologia dos termos a profundas reflexões de suas variações existenciais. Consciência de Si, consciência do Outro, Liberdade, Identidade e outros dilemas Éticos/Morais permearam toda esta unidade. No escopo, está o despertar urgente do ser co- gnoscente, fazendo com que, a partir desses saberes, as ações sejam pautadas em princípios emancipatórios e autônomos, ressaltando a real necessidade do outro enquanto extensão in- dividual e como provedor de constructos identitários. qu eStõeSpa r a r eflex ão 1. Considere a citação e desenvolva uma reflexão buscando associar a teoria à práxis da realidade conjuntural: • O existir é um relacionar-se inicialmente consigo mesmo, mas, igualmente, com os nossos semelhantes próximos, classes, sociedade, nação, natureza e tam- bém com o cosmo. • Tal fato requer competência que se deriva de um pleno conhecimento de si e do ser humano, assim, como de uma visão holística sobre o sentido do existir dentro de um universo como um todo. (SÁ, 2008, p. 20) 2. Reflita sobre a citação e construa um argumento evidenci- ando seu posicionamento e relacionando-o à sociedade con- temporânea: • [...] que significa dizer: “essa pessoa não possui D ia lo ga nd o co m o s t em as : é tic a e m or al 105 ética?” significa dizer: “essa pessoa não possui princí- pios, age oportunisticamente, consoante às vantagens que possa auferir; dela não se poderá esperar nenhum comportamento coerente e previsível, porque não pos- sui uma opção fundamental de vida. [...] • Que significa dizer “essa pessoa não possui moral”? Significa: “essa pessoa não possui virtudes, mente, engana clientes, rouba dinheiro público, explora tra- balhadores, faz violência em casa”. (BOFF, 2003, p. 30) lei t u r aS i n dica daS ARDUINI, J. Antropologia: ousar para Reinventar a humani- dade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002. BUBER, M. Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo: Perspec- tiva, 1982. ______. Sobre Comunidade. São Paulo: Perspectiva, 1987. ______. Eu e Tu. 2. ed. São Paulo: Moraes, 2000. ______. Que es el Hombre? México: Fondo de Cultura Económica, 2000. BUZZI, A. R. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1972. FROMM, E. Análise do Homem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1983. FROMM, E. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar Edi- tores, 1983. 106 Fi lo so fia GALANTINO, N. Dizer Homem Hoje: novos caminhos da Antropologia Filosófica. São Paulo: Paulus, 2003. KUTSCHERAUER, H. O. A ética do amante. Salvador: Arcá- dia, 2003. LÉVINAS, E. 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Mas esta relação está também so- cialmente condicionada, precisa- mente porque o indivíduo é um ser social ou um nexo de relações sociais.” (VÁZQUEZ, 2004, p. 70) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Nesta unidade, vamos seguir por caminhos medievais e modernos com atenção a duas estações: conhe- cimento e ética. Durante nossas unidades, você já estudou sobre a diferença entre ética e moral, bem como teve a opor- tunidade de tecer reflexões a respeito da necessária postura ética frente às relações que estabelecem nosso tecido social. Nesta unidade, assim como na unidade seguinte, você irá apreciar os fundamentos de correntes do pensamento filo- sófico, percebendo que, ao longo do tempo, as formas de pen- sar e elaborar saberes não foram postas de modo aleatório como eventos isolados; ao contrário, estiveram engajadas em um contexto maior, em uma teia de relações. A primeira estação não é nova para você, que já vislum- brou a introdução a seus saberes, durante a Unidade 1, que trata da Filosofia e da Ciência (quanto à Patrística e à Escolástica), bem como durante a Unidade 3, mediante diálogos sobre o 112 Fi lo so fia conhecimento e dedicação ao pensamento clássico grego, com estudo sobre sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles. O método socrático favoreceu a elaboração própria de conceitos, assim como o dualismo platônico defendia que o conhecimento verdadeiro só poderia ser alcançado no mundo inteligível (mundo das ideias). Aristóteles apresentou contri- buições em campos variados do saber. Sem negar as diferenças e peculiaridades dos referi- dos pensadores, as perspectivas de todos eles se encontra- ram, pois marcaram o que conhecemos por concepção ética grega, também chamada por concepção ética clássica ou ética dos antigos. Consistiu em concepção na qual constam: racio- nalidade, ação conforme a natureza e relações entre a ética e a política. Por gentileza, leia atentamente detalhamento na citação a seguir. Podemos resumir a ética dos antigos em três aspectos prin- cipais: 1. o racionalismo: a vida virtuosa é agir em conformidade com a razão, que conhece o bem, o deseja e guia nossa vontade até ele. A vida virtuosa é aquela em que a vontade se deixa guiar pela razão; 2. o naturalismo: a vida virtuosa é agir em conformidade com a natureza (o cosmo) e com nossa natureza (nosso éthos), que há a parte do todo natural. Agir voluntariamente não é, portanto, agir contra a necessidade natu- ral (sobre esta não temos poder nenhum) e sim agir em harmo- nia com ela, de tal maneira que o possível, desejado e realizado C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 113 por nossa vontade realize nossa natureza individual e coloque em harmonia com o todo da na- tureza; 3. inseparabilidade entre ética e política: isto é, a insepa- rabilidade entre a conduta do indivíduo e os valores da socie- dade, pois somente na existên- cia compartilhada com outros encontramos liberdade, justiça e felicidade. A ética, portanto, [em sua con- cepção grega ou clássica] era con- cebida como educação do caráter do sujeito moral para dominar racionalmente impulsos, apetites e desejos, para orientar a vontade rumo ao bem e a felicidade, e para formá-lo como membro da cole- tividade sociopolítica. Sua finali- dade era harmonia entre o caráter subjetivo virtuoso e os valores co- letivos, que também deveriam ser virtuosos. (CHAUÍ, 2003, p. 313-314) Voltemos nosso olhar para o período medieval euro- peu. Diferente da Antiguidade Clássica Ocidental, na qual tivemos iniciativas de atenção à racionalidade, no medievo, os horizontes vislumbrados não atribuíam o mesmo crédito à razão. Nessa época, a perspectiva teocêntrica submeteu a razão à fé, conforme você pode notar durante nossa Unidade 1 e acompanhar nos estudos a seguir. 114 Fi lo so fia Patrística e Escolástica foram duas relevantes correntes do pensamento filosófico medieval. Tinham, em seu escopo, a tentativa de “conciliação” entre a Fé e a Razão (compreender razão como filosofia grega antiga). Essa aliança consistia em demonstrar racionalmente as verdades reveladas por Deus aos Homens, mediante a fé e expressas nas sagradas escri- turas, Bíblia. Dessa forma, aumentava significativamente o poder de argumentação, visto sua fundamentação lógica filo- sófica, facilitando, assim, o convencimento dos descrentes e hereges frente à doutrina religiosa cristã. A Patrística tem início por volta do Século IV e segue até o Século VIII. Santo Agostinho é seu principal repre- sentante, que busca em Platão a sustentação filosófica para sua fé. Escreveu diversas obras, tendo destaques: A Cidade de Deus e As Confissões. A partir dessas obras, o filósofo Danilo Marcondes (1997) destaca três principais contribui- ções de Santo Agostinho ao desenvolvimento do pensamento filosófico ocidental, sendo elas: o estabelecimento das rela- ções entre teologia e filosofia, a teoria do conhecimento com ênfase na questão da subjetividade e, por fim, a teoria da his- tória destacada na Cidade de Deus. Danilo Marcondes nos traz uma reflexão bastante interessante sobre a problemática da verdade em Santo Agostinho, na qual fica evidenciado “resgate” do legado filo- sófico grego platônico. Vejamos. Santo Agostinho se pergunta então como pode a mente huma- na, mutável e falível, atingir uma verdade com certeza infalível. Sua resposta a essa questão se en- contra em sua teoria da ilumina- ção divina, elaborada com base na C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 115 teoria platônica da reminiscên- cia. O diálogo De magistro (Sobre o mestre) nos permite compreender bem a posição agostiniana a este respeito. Seu ponto de partida e desenvolvimento são semelhantes em muitos pontos ao diálogo Me- non de Platão, em que se discute o que é a virtude (areté) e se esta pode ser ensinada. A resposta de Platão é negativa: a virtude não pode ser ensinada, ou já a trazemos conos- co, ou nenhum mestre será capaz de introduzi-la em nossa alma, uma vez que é uma característica da própria natureza humana. A função do filósofo é precisamente de despertar essa virtude ador- mecida na alma de todos os indi- víduos. Santo Agostinho começa igualmente se interrogando sobre o que é ensinar e o que é apren- der, o que torna esse diálogo em sua parte inicial um dos textos clássicos da pedagogia. Indaga- se, em seguida, sobre o papel da linguagem, o que faz do diálogo também um dos clássicos da teo- ria da linguagem e do significado [...] Santo Agostinho conclui na linha das concepções tradicionais na Antiguidade [...] que, dada a con- vencionalidade do signo linguísti- co - isto é, as palavras variam de 116 Fi lo so fia língua para língua e são sinais arbitrários das coisas -, este não pode ter qualquer valor cognitivo mais profundo; não é através das palavras que conhecemos; logo não podemos transmitir conhe- cimento pela linguagem.A pos- sibilidade de conhecer supõe algo de prévio, que torna inteligível à própria linguagem. Sua posição é assim, na mesma direção da fi- losofia platônica, inatista, ou seja, supõe que o conhecimento não pode ser derivado inteiramente da apreensão sensível ou da ex- periência concreta, necessitando um elemento prévio que sirva de ponto de partida para o próprio processo de conhecer. (MARCONDES, 2000, p. 111). Assim, fica demonstrada não somente a relação esta- belecida entre Santo Agostinho e Platão, mas, sobretudo, o posicionamento desses filósofos frente à problemática da ver- dade como algo inato. Santo Agostinho afirma que é preciso antes crer para somente depois conhecer; crer-se por revela- ção divina, de forma intuitiva, as verdades são reveladas pela fé. Posteriormente, a razão, através de seus métodos investi- gativos, buscará realizar os devidos esclarecimentos. A Escolástica, por sua vez, foi o resultado da criação de várias escolas pelo rei Carlos Magno em parceria com as Instituições Católicas. Daí vem o nome Escolástica. Segundo Cotrim (2006), esse período do pensamento filosófico pode ser separado em três fases: C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 117 1ª FASE 2ª FASE 3ª FASE Do Século IX ao fim do Século XII, caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. Do Século XIII ao princípio do Século XIV, caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo destaque as obras de Tomás de Aquino. Nessa fase, considera-se que a harmonização entre fé e razão pode ser parcialmente obtida. Do Século XIV até o Século XVI, decadência da escolástica, marcada por disputas que realçam as diferenças entre fé e razão. Fonte: Cotrim (2006). Elaboração: Naurelice Maia e Ueliton Lemos. Tomás de Aquino (1226-1274) buscou em Aristóteles os argumentos e as reflexões necessários para defender a Fé. Acreditava que a realidade sensorial é fundamental para a conquista do conhecimento e, assim, destacou cinco princí- pios basilares. • 1º Princípio da Não Contradição • 2º Princípio da Substância • 3º Princípio da Causa Eficiente • 4º Princípio da Finalidade • 5º Princípio do Ato e da Potência Tomás de Aquino é considerado pela Igreja Católica como Doutor Angélico, que significa Doutor por Excelência, em virtude de sua relevante contribuição ao pensamento religioso. Esse fato se constata na sua obra intitulada Suma Teológica, na qual ele sugere cinco provas da existência de Deus. 118 Fi lo so fia 1. Primeiro motos - tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, este outro ser, para que se mova, necessita tam- bém que seja movido por outro ser. E assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro mo- tor movente, cairíamos em um processo indefinido. Logo conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus. 2. A causa eficiente - todas as coisas que existem no mundo não possuem em si próprias a causa eficiente de suas existências. De- vem ser consideradas efeitos de alguma causa. [...] essa causa pri- meira é Deus. 3. Ser necessário e ser Contin- gente - este argumento é uma variante do segundo. Afirma que todo ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Ora, se todas as coisas que existem pode deixar de ser, então, alguma vez nada existiu. Mas, se assim fosse, também nada agora existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em fun- ção de algo que já existia. É preciso admitir, então, que há um ser que sempre existiu, um ser absoluta- C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 119 mente necessário, que não tenha fora de si a causa da sua existência, mas, o contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus. 4. Os graus da perfeição - em re- lação à qualidade de todas as coi- sas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos da perfeição. Assim, afirmamos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. [...] Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo pleno. Esse ser é Deus. 5. A finalidade do ser - todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma fun- ção, um objetivo, uma finalidade, semelhante à flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum ser inteli- gente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo, esse ser é Deus. (COTRIM, 2006, p. 118-119) 120 Fi lo so fia Querido(a) estudante, compreendendo o contexto do medievo, sabendo que a iniciativa racional só teria espaço se a serviço da fé, quais teriam sido os fundamentos defendidos para a vida ética? Você já pensou sobre a interface: conheci- mento, ética e período medieval? Seria mesmo moral e até ético condenar uma pessoa à morte devido aos caminhos de dedicação à conquista de novos conhecimentos, pautando-os na razão? A concepção ética medieval esteve correlata aos pres- supostos do conhecimento da época. O conhecimento só ocorreria em sua forma legitimada se estivesse posto a favor da fé. Toda e qualquer iniciativa da razão deveria servir de fundamento às verdades reveladas pela fé, relacionando, por- tanto, conhecimento e revelação. Quanto à vida justa e ética, seria aquela conforme os desígnios divinos. Portanto, a concepção ética do medievo corresponde à ética e à moral cristã, à fé revelada, à perspec- tiva teocêntrica. Diferente da concepção ética da antiguidade clássica grega, que associava a ética à racionalidade e polis (cidade-estado); a virtude está presente na fé, na esperança e na caridade. O modo de valorar a realidade era guiado pelos dogmas religiosos. A vida moral, assim como a ética, na qua- lidade de doutrina moral, esteve intimamente relacionada à purificação e salvação. Durante a Unidade 1, você estudou sobre momentos que marcaram a trajetória filosófica no período medieval europeu. No terceiro e quarto momentos, percebeu a influ- ência de Platão e Aristóteles, respectivamente, sobre o pensa- mento filosófico de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Agora com atenção à concepção ética da época, em que medida ocorreram esses encontros com suas aproximações e diferenças? C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 121 A purificação da alma, em Platão, e a sua ascensão libertadora até el- evar-se à contemplação das ideias, transforma-se em Santo Agostin- ho na elevação ascética até Deus, que culmina no êxtase místico ou felicidade, que não pode ser alcançada neste mundo. Contu- do, Santo Agostinho se afasta do pensamento grego antigo ao sub- linhar o valor da experiência pes- soal, da interioridade, da vontade e do amor. A ética agostiniana se contrapõe, assim, ao racionalismo ético dos gregos. [...] [Quanto a Tomás de Aquino,] a ética tomista coincide nos seus traços gerais com a de Aristóteles, sem esquecer porém que se trata de cristianizar a suamoral como, em geral, a sua filosofia. Deus, para Santo Tomás, é o bem objetivo ou fim supremo, cuja posse causa gozo ou felici- dade, que é um bem subjetivo (nis- to se afasta de Aristóteles, para quem a felicidade é o fim último). Mas, como em Aristóteles, a con- templação, o conhecimento (como visão de Deus) é o meio mais ade- quado para alcançar o fim último. Por este acento intelectua lista, aproxima-se de Aristóteles. (VÁZQUEZ, 2004, p. 278-279, grifo nosso) 122 Fi lo so fia Com a “chegada” da modernidade, a trajetória realizada e os horizontes vislumbrados estão em consonância à perspec- tiva antropocêntrica, visto que o ser humano ocupa o espaço central. Temos, então, correntes do pensamento filosófico e con- cepções éticas que são distintas de iniciativas, tais como a da patrística e da escolástica. Quanto às concepções éticas, faze- mos referências àquelas pautadas no movimento iluminista, para depois lançarmos o olhar para as concepções moderna e contemporânea. A respeito das correntes do pensamento filo- sófico, você as verá logo mais, com atenção ao positivismo, materialismo, empirismo, racionalismo e criticismo kantiano. Com o movimento iluminista, a vida ética e os modos de valorar a realidade, bem como as normas morais passam a encontrar seus fundamentos afastados das posturas dog- máticas e teocêntricas Nesta perspectiva, conforme Aranha e Martins (2004, p. 353), a norma moral está fundada “na lei natural (teses jusnaturalistas), no interesse (teses empiristas, que explicam a ação humana como busca do prazer e evitação da dor) e na própria razão (tese kantiana)”. Ampliando o conhecimento A autonomia da razão para legislar supõe a liberdade e o dever. Todo imperativo se impõe como dever, mas essa exi- gência não é heterônoma – exterior e cega – e sim livremente assumida pelo sujeito que se autodetermina. Exemplificando, suponhamos a norma moral “não roubar”: Para pensar um pouco! Considerando a atual conjuntura social, quais reflexões éticas podem ser tecidas a respeito das intencionalidades atribuídas tanto à razão quanto à fé? Como você compre- ende a relação entre Fé e Razão? São perspectivas concili- áveis ou não? C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 123 • para a concepção cristã, o fundamento da norma se encontra no sétimo mandamento de Deus; • para os teóricos jusnaturalistas (como Rousseau), ela se funda no direito natural, comum a todos os seres humanos; • para os empiristas (como Locke, Condilac), a norma deriva do interesse próprio, pois o sujeito que a deso- bedece será submetido ao desprazer, à censura pública ou à prisão; • para Kant, a norma se enraíza na própria natu- reza da razão; ao aceitar o roubo e consequentemente o enriquecimento ilícito, elevando a máxima (pessoal) ao nível universal, haverá uma contradição: se todos podem roubar, não há como manter a posse do que foi furtado. Fonte: (ARANHA, 2004, p.354) Com referência ao contexto iluminista, assim como a vida ética, a questão do conhecimento também se apre- senta afastada das perspectivas teocêntricas e dogmáticas. Vamos seguir nesta caminhada, agora com atenção ao conhe- cimento, conforme as perspectivas racionalista e empirista, para, em seguida, lançarmos o olhar sobre o criticismo kan- tiano e outras correntes do pensamento filosófico. Racionalismo e Empirismo constituem importantes modos de compreensão desse período, tendo como princi- pais expoentes René Descartes (1596-1650) e John Locke (1632 -1704), respectivamente. Descartes é considerado o pai da filosofia moderna. Acreditava que, na busca pelo conhecimento, o primeiro passo consiste em por em dúvida tudo o que já se sabe, a chamada dúvida metódica, elevando-a ao mais alto grau no processo de desvelamento sobre a realidade, até que, enfim, 124 Fi lo so fia estabelece a verdade imune à duvida. A única verdade alheia à dúvida é a certeza da existência de meus pensamentos, então, penso, logo existo ou cogito ergo sum. Descartes assumiu uma tendên- cia idealista, isto é, uma tendên- cia a valorizar a atividade do sujeito pensante em relação ao objeto pensado. Em outras pala- vras, uma tendência a ressaltar a prevalência da consciência subje- tiva sobre o ser objetivo, e a con- siderar a matéria como algo ape- nas conhecível, se é que o é, por dedução que se sabe da mente. (COTRIM, 2006, p. 139) Este importante filósofo moderno contribuiu, de forma bastante significativa, para o próprio desenvolvimento do pensar filosófico, como também favoreceu, significativa- mente, o avanço das ciências de uma forma geral. Ele escreve uma obra intitulada, Discurso do Método, em que enuncia quatro regras fundamentais na condução do sujeito pensante que anseia a verdade. • 1ª Regra da evidência: só aceitar algo como verda- deiro desde que seja absolutamente evidente por sua clareza e distinção. • 2ª Regra da análise: dividir cada uma das dificulda- des surgidas em tantas partes quantas forem necessá- rias para resolvê-las melhor. • 3ª Regra da síntese: ordenar o raciocínio indo dos problemas mais simples para os mais complexos. • 4ª Regra da enumeração: realizar verificações C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 125 completas e gerais para ter absoluta segurança de que nenhum aspecto do problema foi omitido. Fonte: Contrim (2006) Elaboração: Naurelice Maia e Ueliton Lemos. As quatro regras basilares descritas acima possuem o escopo em tornar a busca e produção do conhecimento em um exercício metódico, na qual e pela qual os resultados obti- dos possam estar sujeitos à verificação e análise racional. Em contrapartida ao pensamento racionalista, que visa o conhecimento mediante à razão, tem-se a corrente filosófica denominada empirismo, que compreende a origem do conhe- cimento na experiência sensível. Para esse caminho, o empirismo, convidaremos John Locke para nos acompanhar. Locke escreve uma obra deno- minada Ensaio acerca do entendimento humano (1690), em que ele combate fervorosamente a doutrina das ideias inatas, o inatismo. Para ele, todos nós, ao nascermos, somos iguais a uma tábula rasa, ou para atualizar sua fala, igual a uma mídia de DVD original, sem gravação alguma, e que, somente a par- tir das experiências sensíveis ao longo da existência, passa a ser gravada. Sendo assim, os estímulos capitados através dos sentidos geram sensações e, por conseguinte, transformam- -se em conhecimento. As experiências sensoriais e a atividade de reflexão são os modos de conhecimento defendidos por Locke. O primeiro Curiosidade! A palavra Empirismo é derivada do grego Empeiria e significa que o conhecimento é o resultado das experiências sensíveis. “Nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sen- tidos” (Aristóteles). 126 Fi lo so fia consiste basicamente na percepção da realidade pelos senti- dos. O segundo, a reflexão, consiste na ação de pôr em dúvida, crer e raciocinar sobre as sensações iniciais. A reflexão é o ato voltar-se sobre si mesmo. Empirismo e racionalismo encontram suas interfa- ces com a ética: o primeiro, conforme mencionamos em “Ampliando o Conhecimento”, no que diz respeito à norma; o racionalismo, naquilo que se refere à moral, com atenção à vontade, à liberdade e à inteligência. A sabedoria,objetivo da filoso- fia, é um estado e uma conduta nos quais “a inteligência mostra à vontade o partido que ele deve tomar”. Todavia, como o homem concreto não se identifica com a alma, com essa substância pen- sante revelada pela atividade racional; como tampouco se iden- tifica com o corpo, conhecido pela física, trata-se de resolver o conflito entre a urgência da ação e as exigências do método. Des- cartes resolve esse conflito pro- pondo uma “moral provisória”. Não elabora regras de conduta universais. Não pretende ser um reformador. Aliás, nessa matéria, é bastante conservador estar mais preocupado com o aperfeiçoa- mento individual capaz de levar os indivíduos a fazerem uma justa apreciação dos bens. Nessa hierar- quia dos bens, o lugar supremo deve ser conferido à liberdade, não ao saber. “Não basta jul- C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 127 gar bem para agir bem”, diz ele, porque a moral não deriva ape- nas do conhecimento. (REZENDE, 2002, p. 109) Querido (a) estudante, a nossa quinta unidade chegou ao fim. Na próxima unidade, continuaremos o nosso caminho sobre as correntes do pensamento e as suas interfaces éticas. Sín t eSe Durante a realização desta unidade, você, querido (a) estudante, teve a oportunidade de vislumbrar importantes correntes do pensamento filosófico. Essas, por sua vez, se mostram perfeitamente atuais; discussão entre fé e razão, ciência e religião, razão e experiência, dentre outras, fazem parte de nosso cotidiano em maior ou menor grau. Acredita- mos não ser necessário adotarmos uma postura unilateral, escolhendo um ou outro caminho, mas sim entender que es- sas e muitas outras formas de compreensão dos fenômenos existentes na realidade compõem nossa maneira de ser e ex- istir, sobretudo quando nas manifestações ética e moral. qu eStõeS pa r a r eflex ão 1. São Tomás de Aquino e Santo Agostinho marcam um período da história da Humanidade. Como poderíamos atu- alizar seu pensamento frente à relação entre Fé e Ciência na contemporaneidade? 2. Qual foi o maior fator de discordância entre os racionalis- tas (idealistas) e os empiristas (realistas)? 128 Fi lo so fia lei t u r aS i n dica daS DESCARTES, R. Discurso do Método Regras para a Direção do Espírito. São Paulo: Martin Claret, 2000. MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janei- ro: JZE Jorge Zahar Editor, 2000. MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1. MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 2. REALE, M. Introdução à Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2007. Si t eS i n dica doS http://www.rescogitans.com.br/ http://www.consciencia.org/ http://www.cfh.ufsc.br/ r ef er ênci aS ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: In- trodução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2004. CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003. COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia. Rio de Janei- ro: JZE Jorge Zahar Editor, 2000. C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia I 129 VÁZQUEZ, A. S. Ética. 25. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. ( 6 ) Correntes do pensamento filosófico e concepções éticas: uma interface necessária II “A vida está imersa em mistério e incerteza, conclamando natural- mente por apoios que geralmente desfazem o mistério e a incerteza, incidindo em novos paradoxos existenciais. Impor ética única a todos é o grande paradoxo, porque não é atitude ética, em termos da convivência comum. Em vez da prepotência, as éticas carecem de modéstia, porque é mais digno conviver com gente modesta sem- pre capaz de reavaliar posições em nome do bem comum. Para evitar a petrificação de propostas, é im- portante que sempre se reavaliem, também para poder aprender de outros horizontes”. (Pedro Demo, 2005, p. 71) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Querido (a) estudante, Nesta unidade, prosseguiremos em nosso caminho sobre as correntes do pensamento e suas interfaces éticas. Vimos, na Unidade 5, questões de grande relevância do período medieval e moderno. Aqui, daremos continuidade aos nossos estudos até alcançarmos a contemporaneidade, com um importante filósofo existencialista Jean Paul Sartre. Seguindo pistas da nossa epígrafe e considerando a pluralidade de horizontes, bem como as trajetórias do conhe- cimento, condições distintas passam a garantir a possibili- dade do conhecimento verdadeiro, conforme cada corrente do pensamento filosófico. Parâmetros, também distintos, vão orientando as reflexões sobre os valores, conforme cada con- cepção ética, cada época, cada contexto, contando com pro- postas, muitas vezes, à frente do seu próprio tempo. 134 Fi lo so fia Por um lado, tem-se a experiência; por outro, a razão, na qualidade de caminho legítimo para conduzir ao conhe- cimento verdadeiro. Empirismo e racionalismo, portanto, reportam-se a caminhos distintos e contraditórios, conforme você estudou na unidade anterior. Além destas correntes do pensamento filosófico, tivemos, dentre outras, o criticismo kantiano. Neste, podemos, de certo modo, reunir as duas ins- tâncias (experiência e razão). Para compreender a questão do conhecimento em Kant, vamos, antes, lançar o olhar sobre a questão da autonomia e da Ilustração. O contexto no qual viveu Immanuel Kant corresponde, assim como a época de pensadores racionalistas e empiris- tas, à modernidade. Importa considerar, conforme já mencio- namos na unidade passada, a perspectiva antropocêntrica. Acrescentamos, agora, a informação sobre a Ilustração (Aufklärung), ou o movimento que Kant propõe de saída da menoridade, chamado também de Esclarecimento. Conquistar a maioridade, conforme o pensamento kan- tiano, remete à conquista do modo independente e autônomo de pensar. A realização desta maioridade não está associada à idade específica, mas ao modo de conduzir as próprias ações sem permitir que elas estejam pautadas nas vias que outros “determinem”, direta ou veladamente. A conquista da maioridade não consiste em um movimento simples; ao con- trário, Kant elucida a respeito de estar à frente de sua época. Conforme Rezende (2002, p. 127), “ela [a maioridade] é um estágio alcançável com dificuldade”. Pessoa crítica é a que tem posições independentes e refletidas, é capaz de pensar por si própria e não aceita como verdadeiro o simples estabe- lecimento por outros como tal, mas só após o seu exame livre e funda- C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 135 mentado. Uma época esclarecida é aquela em que os homens atingem a sua maioridade pela capacidade não só de pensarem autonoma- mente, mas também de não se deixarem manipular e dominar. Em vista disso ela é um estágio alcan- çável com dificuldade, o que levou Kant a dizer que sua época não era ainda uma época esclarecida, mas em via de esclarecimento. Os homens atingem essa etapa por si sós, lentamente, desde que não cedam à covardia e à preguiça, não se deixem torturar, nem se- jam impelidos a atingi-la me- diante artifícios e pelo empregoda força. A liberdade é o espaço adequado ao esclarecimento. Por ter sido fundado no ímpeto do homem à liberdade, o Esclare- cimento foi o principal movimento do pensamento moderno, que ainda hoje nos situa em um horizonte co- mum ao de Kant. (REZENDE, 2002, p. 127) E você, está à frente do seu tempo? Estar situado “em um horizonte comum ao de Kant”, prezando pelo exercício da maioridade (conforme proposta da Aufklärung), seria já um modo de estarmos à frente do nosso tempo? Ou vivemos em ambientes nos quais as inicia- tivas que prezam pela saída da “menoridade da razão” e con- quista da autonomia são já elementos comuns? O que você 136 Fi lo so fia pensa sobre questões como estas? E você, está à frente do seu tempo? E, ao mesmo instante, dedica-se a modos de sentir, pensar e agir que estejam socialmente engajados? Agora que você já sabe em que consiste a Ilustração, veja em “Trechos Selecionados” como Kant elabora a questão do conhecimento, superando a dicotomia entre o pensamento racionalista e o empirista, culminando no criticismo kantiano. Trecho selecionado de “Tipos de Juízo e Conhecimento” e “Estruturas do sentir e conhecer” (autoria de: Gilberto Cotrim) Tipos de Juízo e Conhecimento [...] Uma das questões mais importantes que domi- nam o pensamento de Kant é o problema do conhecimento, a questão do saber. Na Crítica da Razão Pura, ele distingue duas formas básicas do ato de conhecer: • O conhecimento empírico (a posteriori): aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, que é posterior à experiência. Exemplo: a afirmação “Este livro tem a capa verde”. Para fazer essa afirma- ção, foi necessário ter primeiro a experiência de ver o livro e assim conhecer a sua cor; portanto, trata-se de um conhecimento posterior à experiência; • O conhecimento puro (a priori): aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que é anterior à experiência, nascendo puramente de uma operação racional. Exemplo: a afirmação “Duas linhas paralelas jamais se encontram no espaço”. Essa afirma- ção (juízo) não se refere a esta ou aquela linha para- lela, mas a todas. Constitui, assim, um conhecimento universal. Além disso, é uma afirmação que, para ser C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 137 válida, não depende de nenhuma condição específica. Trata-se, portanto, de um conhecimento necessário. O conhecimento puro, portanto, conduz a juízos uni- versais e necessários, enquanto o conhecimento empírico não possui essa característica. Os juízos, por sua vez, são classifi- cados por Kant em dois tipos: • Juízo analítico: aquele em que o predicado já está contido no sujeito. Ou seja, basta analisar o sujeito para deduzir o predicado. Exemplo: a afirmação “o quadrado tem quatro lados” analisando o sujeito. Da afirmação, o quadrado, deduzimos, necessariamente o predicado: tem quatro lados. Kant também chamava os juízos analíticos de juízos de elucidação; pois o predi- cado simplesmente elucida algo que já estava contido no conceito do sujeito. • Juízo sintético: aquele em que o predicado não está contido no conceito do sujeito. Nesses juízos, acres- centa-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado, assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informa- ções e ampliam o conhecimento. Por isso, Kant também os denomina juízo de ampliação. Exemplo: a afirmação “Os corpos se movimentam”. Por mais que analisemos o conceito corpo (sujeito), não extrairemos dele a infor- mação representada pelo predicado se movimentam. Por fim, analisando o valor de cada juízo, Kant distin- gue três categorias: juízo analítico [...], juízo sintético a poste- riori [...] e juízo sintético a priori. Estruturas do sentir e conhecer [...] Kant buscou saber como é o sujeito a priori, isto é, o sujeito antes de qualquer experiência. Conclui que existem no ser humano certas estruturas que possibilitam a experiência 138 Fi lo so fia (as formas a priori da sensibilidade) e determinam o entendi- mento (as formas a priori do entendimento). Vejamos: • Formas a priori da sensibilidade: são o tempo e o espaço. Kant dirá que percebemos e representamos a realidade sempre no tempo e no espaço. Essas noções são “intuições puras”, existem como estruturas básicas na nossa sensibilidade e são elas que permitem a expe- riência sensorial. • Formas a priori do entendimento: de forma seme- lhante, os dados que são captados por nossa sensibili- dade são organizados pelo entendimento de acordo com certas categorias. As categorias são “conceitos puros” existentes a priori no entendimento, tais como o con- ceito de causa, necessidade, relação e outros, que servi- rão de base para emissão de juízos sobre a realidade. O conhecimento, portanto, seria o resultado de uma interação entre o sujeito que conhece (de acordo com suas próprias estruturas a priori) e o objeto conhecido. Isso sig- nifica que não conhecemos as coisas em si mesmas (o ser em si), isto é, como elas são independes de nós. Só conhecemos as coisas tal como as percebemos (o ser para nós), os fenômenos, isto é, as coisas são conhecidas de acordo com nossas pró- prias estruturas mentais. Para Kant, sua filosofia representava uma superação do racionalismo e do empirismo, pois argumentava que o conhecimento é o resultado de dois grandes ramos: a sensibi- lidade, que nos oferece dados dos objetos; e o entendimento, que determina as condições pelas quais o objeto é pensado. Fonte: Cotrim (2006, p.161-163) Seguindo nossa trajetória, vamos conhecer sobre o Positivismo, corrente do pensamento criada por Augusto C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 139 Comte (1789 - 1857) e dedicada, dentre outros fundamentos, à valorização do método científico baseado nos fatos e nas experiências, aplicando-os às relações e ações que constituem a sociedade, culminando na física social. Sendo assim, o refe- rido pensador é considerado pai da Sociologia, que inicial- mente teve o nome de Física Social. Conforme Rezende (2002), a proposta de Augusto Comte com relação à Física Social, como foi inicialmente chamada a sociologia, correspondeu tanto à criação de uma ciência dos fenômenos sociais quanto ao estabelecimento de “uma base racional e científica para uma reforma intelectual e moral da sociedade pela instauração do espírito positivo nas organizações das estruturas sociais e políticas” (REZENDE, 2002, p. 150). Importa considerar que a expressão “espírito positivo” (assim como “positivo”, “postura positivista” e outras equi- valentes) não corresponde ao sentido popularmente atribu- ído ao termo positivo, na qualidade de algo necessariamente assertivo e bom, mas às iniciativas que pautam as reflexões e ações, inclusive sobre a organização social, em medidas racionais e organicistas, reguladas pelos critérios próprios ao método da ciência em sua concepção moderna, sem que sejam consideradas as circunstâncias ou condições que não estejam contempladas nos critérios do método e da razão (conforme a racionalidade compreendida pelo positivismo). Comte desenvolveu a Lei dos três estados de evolução do conhecimento: 1. Estado teológico - atribui os fatos aos seres sobre- naturais, Deus. 2. Estado metafísico - substituição do estado teológico por forças abstratas.3. Estado científico/positivo - a compreensão dos 140 Fi lo so fia fenômenos mundanos são resultados da observação e da razão. Conforme o Positivismo, as relações sociais são analisadas sob prismas semelhantes àqueles utili- zados para observação dos fenômenos físicos e naturais. A sociologia [com relação às ciên- cias e demais considerações] [...] significa o ponto de partida da moral, da política e da religião. Moral, política e religião positi- vas. Ela [a sociologia] compreende duas partes: a) a estática social, que estuda a harmonia prevale- cente entre as diversas condições da existência e estabelece a ordem social; b) a dinâmica social, que investiga o desenvolvimento or- denado da sociedade (estuda a lei dos três estados) e estabelece as leis do progresso. (REZENDE, 2002, p. 150) Com referência a esses fundamentos, o positivismo cunhado por Comte propunha uma perspectiva ética diante da vida social que aceitasse a ideia de “Ordem e Progresso”, que estivesse pautada na razão positiva que acaba por limitar Curiosidade! Conforme Rezende (2002, p. 155), “Os positivistas parti- ciparam do movimento pela proclamação da República, em 1889, e na Constituição de 1891, e, por sua influência, a bandeira brasileira passou a ostentar o lema clássico do positivismo, Ordem e Progresso.” C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 141 a manifestação coletiva de desconfortos capazes de culminar em revoluções, uma vez que assumia a perspectiva linear da ordem sem espaço para as contradições. A própria “dinâmica social” proposta pelo positivismo não está associada às ini- ciativas de mudanças sociais; ao contrário, está correlata ao reforçamento da ordem. Neste contexto positivista, seria ético, portanto, man- ter a ordem (mesmo que entre muitos) para conquista do progresso (mesmo que para poucos). Convidamos você a algumas reflexões. Seria de fato ético “mover” uma sociedade rumo à aceitação de valores já postos, sob formas que pode- mos chamar de evolucionismo conservado, quando muito era preciso ainda conquistar, para que houvesse um dia o campo próprio de respeito ao ser humano e ao seu trabalho (já que estamos situados à época industrial.)? Você estaria de acordo com mecanismos de sustentação de relações que tecem a sociedade que, de certa forma, pautassem valores e perspec- tivas éticas, não na busca de melhores condições de vida para todos? Estamos propondo a você essas reflexões, na quali- dade de itens para pensar sobre a necessária interface: pos- tura positivista, sociedade e ética. Com o materialismo marxista, as formas de entendi- mento sobre as relações que tecem a sociedade se apresentam de modo distinto ao perfil positivista pautado no cienti- ficismo, ou seja, na noção de que todo e qualquer conheci- mento só é legítimo se conquistado, mediante o método científico (espécie de endeusamento da ciência, do método em sua perspectiva moderna); ao contrário, conforme a pers- pectiva materialista, a concepção de ser humano passa a ser relacionada à condição histórico-social. Em que consiste a afirmação de que o materialismo mar- xista relaciona o ser humano à condição histórico-social? Quais são os fundamentos dessa afirmação e por qual motivo ela 142 Fi lo so fia ganha destaque frente a tantas outras correntes do pensamento filosófico? Certamente, você já ouviu falar em Karl Marx. Aqui vamos mencionar os principais aspectos de sua proposta. Ampliando o conhecimento! “Segundo Marx, o homem real é, em unidade indisso- lúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propria- mente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. O homem é, antes de tudo, práxis: isto é, define-se como um ser produtor, transformador, criador; mediante o seu tra- balho, transforma a natureza externa, nela se plasma e, ao mesmo tempo, cria um mundo à sua medida, isto é, à medida de sua natureza humana. Esta objetivação do homem no mundo externo, pela qual produz um mundo de objetos úteis, corresponde à sua natureza de ser produ- tor, criador, que também se manifesta na arte e em outras atividades. Ademais, o homem é um ser social. Só ele produz, pro- duzindo ao mesmo tempo determinadas relações sociais (relações de produção) sobre as quais se elevam as demais relações humanas, sem excluir as que constituem a supe- restrutura ideológica da qual faz parte a moral. O homem é também um ser histórico. As várias relações que contrai em uma determinada época constituem uma unidade ou formação econômico-social que muda histo- ricamente sob o impulso de suas contradições internas e, particularmente, quando chega ao seu amadurecimento a contradição entre o desenvolvimento das forças produ- toras e das relações de produção. Mudando a base eco- nômica, muda também a superestrutura ideológica e, evidentemente, a moral.” Fonte: Vázquez (2004, p. 291-292, grifo nosso) Karl Marx (1818-1883) desenvolve a ideia materialista da história, utilizando-se da forma dialética no processo contínuo das rela- ções de produção social. O modo de produção material é o reflexo das condicionantes sociais. Karl Marx. Fonte: http://commons.wikimedia.org/ wiki/File:Karl_Marx.jpg C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 143 Diferente de Comte, Marx não compreendia a socie- dade, menos ainda as relações que a constituem, como o fun- cionamento de um organismo, seguindo a leis específicas que mantêm sua ordem. Ao contrário, o estudo das relações que tecem a sociedade ganha com Marx a atenção frente aos processos de alienação, ideologia e relações de poder diver- sas, reflexos, por sua vez, dos meios de produção material da vida. São conceitos fundamentais em Marx: mais valia, luta de classes, alienação, movimento dialético, ideologia etc. A todo momento interfaceada com a ética, essa corrente do pensamento, materialismo histórico e dialético, constitui tamanho marco no âmbito da Ética, que, mesmo datada ao contexto da Modernidade, participa das concepções éticas contemporâneas. Mais uma vez, percebemos pensadores à frente do seu tempo. De acordo com Vázquez (2004), a con- cepção ética contemporânea abrange não “só” as doutrinas éticas atuais, pois abraçam também aquelas que surgiram no Século XIX e permanecem atuais. Por exemplo, Hegel e Marx compartilharam da mesma época moderna, entretanto, no que diz respeito às concepções éticas, o primeiro está situado no âmbito que lhe foi próprio - o da modernidade- o segundo, por sua vez, no âmbito da contemporaneidade. Vejamos! Friedrich Hegel Fonte: http://commons.wikime- dia.org/wiki/File:Hegel.jpg Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 - 1831) defende a ideia de que a realidade conjuntural não é estática, mas o oposto, é dinâmica e, por muitas vezes, se mostra contrária em si. As contradições são o movi- mento de TESE + ANTÍTESE = SÍNTESE (movimento de auto- melhoramento dialético). 144 Fi lo so fia A razão é, para Hegel, a realiza- ção construída, e o ser é, em sua própria essência, razão. O homem é pensante, e então pensa o seu pensamento; deste modo o objeto do pensamento é o próprio pensa- mento, a racionalidade produz o racional, a razão é o seu próprio objeto. A ética segundo Hegel é conceitual, logo pensada como nous, espírito, o “espírito auto- consciente”, tendo a liberdade como fundamento, a vida ética é a formaçãoabsoluta que vai de- terminar a participação efetiva do sujeito na vida comunitária. (NEVES, 2006, p. 15) Você já estudou, durante nossas unidades, a respeito da questão do conhecimento conforme o criticismo kantiano, per- cebeu o modo pelo qual a razão era compreendida, bem como a Ilustração/maioridade, os tipos de juízo etc. A questão moral em Kant, portanto, relacionada a seus fundamentos, é normativa e corresponde ao que conhecemos por formalismo kantiano. Hegel, ainda que por caminhos diferentes, também apresenta contribuições à concepção ética moderna, uma vez que seu pensamento filosófico está no âmbito da abstração, sendo idealista. Importa aqui ressaltar a autonomia da razão e a postura antropocêntrica como elementos de importân- cia maior, principalmente, quando recordamos que, durante o período medieval (por motivos que já estudamos ao longo das unidades), este espaço não foi possível. Em Karl Marx, a razão também é importante, mas este, por assim dizer, inaugura um modo concreto de percebê-la. C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 145 Por esses, dentre outros motivos, o modo de percepção da ética em Karl Marx, ainda que com data de período moderno, é considerado próprio à concepção ética contemporânea. Por sua fundamentação, meu método não só difere do hege- liano, mas é também sua antítese direta. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob o nome de ideia, transforma em um su- jeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas a sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material trans- posto e traduzido na cabeça do homem. (MARX, 18-- apud REZENDE, 2002, p. 181) De acordo com Marx, o ser humano constrói a si mesmo conforme condição histórico-social, uma vez que é um ser concreto, que ele chama de real, o que o distingue das concep- ções idealistas e essencialistas. O que e como conhecemos, como somos, o que fazemos etc. são, portanto, coisas relacio- nadas às relações materiais que tecem a vida. Propomos uma aproximação com a proposta sartriana. Avante! Sartre (1905-1980), pensador contemporâneo, propõe a corrente do pensamento filosófico que conhecemos por Existencialismo. Nesta, a máxima fundamental é a de que “a existência precede a essência”. Portanto, o ser humano esco- lhe seu próprio ser, construindo a si mesmo, mediante suas escolhas, a condição de liberdade e responsabilidade necessá- rias e consequentes a esse processo de autoconstrução. 146 Fi lo so fia Considerando que não há um determinismo, nem essência que preceda a existência, é do próprio ser humano a responsabilidade sobre quem ele é, e, ainda, sobre o outro, uma vez que Sartre propõe que, escolhendo a si mesmo, o ser humano, escolhe a humanidade. [...] Se o homem fosse um ser cheio, total, pleno, com uma es- sência definida, ele não poderia ter nem consciência nem liber- dade. Primeiro, porque a consciên- cia é um espaço aberto a múltiplos conteúdos. Segundo, porque a liberdade representa a possibili- dade de escolha. Por intermédio de suas escolhas, o homem constrói a si mesmo e torna-se responsável pelo que faz. Assim, para Sartre, se o homem não expressasse esse vazio de ser, sua consciência já es- taria pronta, acabada, fechada. E, nesse caso, ele não poderia mani- festar liberdade, pois estaria preso à realidade estática do ser pleno, do ser em-si. (COTRIM, 2006, p. 203) Aqui concluímos a nossa sexta unidade, em que demos continuidade aos nossos estudos sobre as correntes do pensa- mento e suas interfaces éticas. Até a próxima! Considerando essa perspectiva de incompletude do ser, como você tece as reflexões no âmbito da ética? C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 147 Sín t eSe Kant, Comte, Marx, Hegel e Sartre são os autênticos protagonistas desta unidade. Eles nos oferecem verdadei- ras possibilidades de reflexão sobre condições da nossa atu- alidade. Desde as perspectivas racionais empíricas, expressas pelo criticismo Kantiano, até o existencialismo sartriano, que remete o indivíduo à própria responsabilidade de ser e consti- tuir-se pessoa pelo exercício de sua autonomia. qu eStõeS pa r a r eflex ão 1. Considerando os posicionamentos de Augusto Comte e Karl Marx, como você compreende a organização social de nossa atualidade? 2. Com que (quais) (dos) pensador (es) estudado (s) nesta uni- dade você mais se identificou? E como ele (s) poderia (m) ser atualizado (s) às necessidades e aos desafios impostos pela contemporaneidade? lei t u r aS i n dica daS HELFERICH, C. História da Filosofia. São Paulo: Imfe, 2006. REALE, G.; ANTISSERI, D. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2000, v. 2. MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 2. Si t eS i n dica doS http://www.kant.org.br/ http://www.culturabrasil.pro.br/ http://www.hegelbrasil.org/ 148 Fi lo so fia http://www.sartre.org/ http://www.mundodosfilosofos.com.br/ r ef er ênci aS COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. DEMO, P. Éticas Multiculturais: sobre convivência humana possível. Rio de Janeiro: Vozes, 2005. NEVES, M. H. F. Bem-Aventurada Vida Ética: leitura e repre- sentação da individualidade, necessidade e trabalho no sistema hegeliano. Revista Eletrônica Estudos Hegelianos. Revista Se- mestral do Sociedade Hegel Brasileira – SHB. Ano 3º - N.º 04 Junho de 2006. Disponível em: <http://www.hegelbrasil.org/ rev04c.htm> Acesso em: 02 nov. 2012. REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 11. ed. Rio de Janei- ro: Zahar, 2002. VÁZQUEZ, A. S. Ética. 25. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. C or re nt es d o pe ns am en to fi lo só fic o e co nc ep çõ es é ti ca s: u m a in te rf ac e ne ce ss ár ia II 149 ( 7 ) Reflexões acerca das temáticas: relação com o saber, multiculturalismo e interculturalismo “Cada cultura é, na verdade, multicultural, assim como cada um de nós é, na verdade, multi- cultural.” (CORTINA, 2005, p. 163) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos E dessa forma, multicultural, estamos envolvidas e envolvidos em diversos modos de aprendiza- gem. Em diversas relações de saber. Conforme Marconi e Presotto (2010), assim como a essência da cultura compre- ende ideias, abstrações e comportamentos, a natureza da cul- tura remete à aprendizagem. Pois, a cultura compreende os modos aprendidos de vida conforme cada época e espaço, conforme as tradições e as formas pelas quais indivíduos e grupos as comunicam, aprendem e transformam. Durante unidades anteriores, você estudou sobre o processo do conhecimento e seus elementos principais, com- preendeu que a trajetória do conhecimento consta de propos- tas distintas (algumas divergentes, outras complementares). Agora vamos seguir nossos diálogos com atenção às relações com o saber que, assim como a cultura, também tem sua pers- pectiva multi. 154 Fi lo so fia Curiosidade Cotidianamente, o termo “culto” ou “inculto” é utili- zado designando pessoas que têm ou não têm cultura. Entretanto, este é um olhar equivocado. Veja no trecho a seguir: “Muitas vezes, a palavra cul- tura é empregadapara indicar o desenvolvimento do indivíduo por meio da educação, da in- strução. Nesse caso, uma pessoa ‘culta’ seria aquela que adquiriu domínio no campo intelectual ou artístico. Seria ‘incluta’ a que não obteve instrução. Os antrop- ólogos não empregam os termos culto ou inculto, de uso popular, nem fazem juízo de valor sobre esta ou aquela cultura, pois não consideram uma superior à out- ra. Elas apenas são diferentes em nível de tecnologia ou integra- ção de seus elementos. Todas as sociedades - rurais ou urbanas, simples ou complexas - possuem cultura. Não há indivíduo huma- no desprovido de cultura exceto o recém-nascido e o homo ferus; um, porque ainda não sofreu o pro- cesso de endoculturação, e o outro, porque foi privado do convívio hu- mano.” (MARCONI; PRESOTTO, 2010, p. 21) R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 155 O convívio, as relações entre as pessoas e seus ambien- tes e a aprendizagem promovem a (as) cultura (as), assim como favorecem o saber. Charlot (2000) elucida que a relação com o saber e a aprendizagem estão associadas ao modo pró- prio de construção do humano, de autoconstrução, processo que entrelaça três instâncias correlatas umas às outras e fun- damentais: hominização, singularização e socialização. Nascer significa ver-se submetido à obrigação de aprender. Aprender para construir-se, em um triplo processo de “hominização” (tor- nar-se homem), de singularização (tornar-se um exemplar único de homem), de socialização (tornar- se membro de uma comunidade, partilhando seus valores e ocu- pando um lugar nela). Aprender para viver com outros homens com quem o mundo é partilhado. Aprender para apropriar-se do mundo, de uma parte desse mun- do, e para participar da construção de um mundo pré-existente. Apren- der em uma história que é, ao mesmo tempo, profundamente minha, no que tem de única, mas que me es- capa por toda parte. Nascer, apren- der, é entrar em um conjunto de rela- ções e processos que constituem um sistema de sentido, onde se diz quem eu sou, quem é o mundo, quem são os outros. (CHARLOT, 2000, p. 53, grifos nossos) 156 Fi lo so fia Sobre a relação com o saber, Charlot (2000) afirma tam- bém que corresponde à relação que o sujeito estabelece com o mundo, com ele mesmo e com o outro. “É relação com o mundo como conjunto de significa- dos, mas, também, como espaço de atividades, e se inscreve no tempo”. (CHARLOT, 2000, p. 79). A relação com o saber com- preende o tempo em seus aspectos referentes tanto ao passado quanto ao presente e ao futuro. Portanto, remete às trajetórias próprias da humanidade e de cada ser. Remete também às rea- lizações e aos modos atuais de existência (do indivíduo e da humanidade) e às possibilidades frente ao projetar-se. Relação do sujeito com o próprio sujeito favorece a compre- ensão de si mesmo na qualidade de cognoscente, sem prescindir do movimento incessante de conquista e construção do próprio ser. O referido movimento, por sua vez, não ocorre no iso- lamento. A relação com o saber, portanto, é também a rela- ção que o sujeito estabelece com o outro. O conjunto de suas implicações, esteja manifesto em alegrias ou dissabores, é constituinte indispensável à aprendizagem e às aprendiza- gens. Nessa perspectiva, percebemos o diferente e vislum- bramos as idiossincrasias que, sendo nossas, também nos fazem dessa forma, mas não desiguais. Atualmente, ouvimos e muitas vezes afirmamos que é preciso “aceitar o diferente”, respeitar as diversidades exis- tenciais próprias de cada ser ou grupo social. Mas, sabemos o que essa postura significa? Quem é esse ser diferente que teima a me afrontar cotidianamente? E, quais são essas diver- sidades estabelecidas? Por que não são “normais” como nós, e pertencentes ao nosso grupo? Será que eles não sabem que estão “errados” e, portanto, precisam juntar-se a nós? Esses são apenas alguns questionamentos e problemá- ticas iniciais para a realização da reflexão sobre cultura e seus desdobramentos. R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 157 Por cultura, nós compreendemos toda a ação humana que possui uma intencionalidade em um dado espaço e em um momento temporal, ou seja, consiste na produção e transformação do seu meio para satisfação de necessidades, expressos tanto em ordem material, quanto nos aspectos ima- teriais. Assim, dessa forma, é permitida ao sujeito a possi- bilidade de construção de sua própria cultura individual integrada à social, mediante às relações estabelecidas na rea- lidade conjuntural. Adela Cortina, filósofa contemporânea de origem espa- nhola, nos apresenta um entendimento bastante interessante sobre a concepção de cultura. Cultura, o conjunto de modelos de pensamento e de conduta que dirigem e organizam as ativi- dades e produções materiais de um povo, em sua tentativa de adaptar o meio em que vive a suas necessidades, e que pode diferenciá-lo de qualquer outro. (CORTINA, 2005, p. 148) Observando a citação, temos o entendimento de cul- tura enquanto produção humana, mas também, enquanto um agente diferenciador. Veja! Agente de diferença e não de desigualdade. Não existe problema em sermos diferen- tes, muito ao contrário. Na diversidade dos opostos, cresce- mos e nos fortalecemos enquanto ser social crítico e criativo da realidade. Essa é a saída do enclausuramento da vaidade humana, que soberbamente pensa e acredita ser sua cultura maior e melhor que as demais. Eis o desafio. 158 Fi lo so fia “São as desigualdades que devem ser combatidas, não as diferen- ças, essas só nos enriquecem” (Olivien C. A. ,2007) Como e de que forma desenvolver uma mentalidade de conciliação entre os diversos primando por suas característi- cas idiossincráticas? ”Apenas” nisso consiste o problema do novo século. A realidade é multiversa e, portanto, o são as estrutu- ras sociais, que, em um mesmo território, e em um mesmo tempo, agregam um conjunto variado de fenômenos, mui- tas vezes conflitantes, e tidos como inconciliáveis. Não nega- mos essa realidade em um ato de sublimação. Sabemos de sua existência e, mediocremente, criamos alternativas pífias de superação expressas pelo multiculturalismo radical ou mesmo através do multiculturalismo assimilacionista. Vamos entender um pouco mais sobre eles? Em principio, poderíamos dizer que o multiculturalismo con- siste em um conjunto variado de fenômenos sociais, que derivam da difícil convivência e/ou co- existência em um mesmo espaço social de pessoas que se identifi- cam com culturas diferentes. Os problemas que se apresentam não procedem tanto do fato de haver diferentes culturas quanto do fato de que pessoas de diferentes bagagens culturais tenham de conviver em um mesmo espaço social, seja uma comunidade po- R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 159 litica, seja uma comunidade real em seu conjunto, em que o mais das vezes uma das culturas é a dominante. Os procedimentos tentados para organizar as diferenças culturais compõem uma escada cujo degrau inferior é o multiculturalismo radical, que se pronuncia por umapolítica de apartheid, ao estilo do que existiu na África do Sul, e o seguinte é o assimilacionismo de maior ou menor porte. As políticas da apartheid defendem a separação dos diferentes grupos culturais, que vivem em diferen- tes lugares, inclusive físicos, en- quanto a assimilação das culturas é relegada pela dominante foi o modo habitual de proceder dos grupos imigrantes, aos quais se pede que abandonem sua própria cultura e adotem a do novo país. (CORTINA, 2005, p. 140-141) Convidamos você a realizar um exercício de aproxi- mação conceitual à prática existencial. Vamos juntos reduzir a escala do multiculturalismo radical e do multiculturalismo assimilacionista e veremos o quão presentes essas situações estão em nosso cotidiano. Em nossas esferas relacionais, muitas vezes observa- mos e mesmo até tomamos atitudes que deixam muito claro a separatividade. Por um simples ato ou gesto não permito 160 Fi lo so fia que outras pessoas se aproximem de mim, por considerar minha estrutura cultural superior a deles. Esse é o princípio da intolerância religiosa, da segregação econômica e do repú- dio aos tido como “minorias”. De outra forma, isso também se faz quando adoto posturas autoritárias frente às pessoas, impondo-as um modelo de ser e agir semelhante ao meu, cul- minando em posturas que podemos considerar como uma condição etnocêntrica. Muito infelizmente essas situações estão se tornando cada vez mais comuns. Negligenciamos com nossa identi- dade por considerar o de fora mais interessante e/ou mais correto do que nossas próprias considerações existenciais. A temática dessa realidade foi contemplada de diver- sas maneiras e por muitas pessoas: filósofos, artistas, poe- tas, músicos etc. Aqui, neste momento, buscamos Renato Manfredini Júnior (1960 - 1996), mais conhecido como Renato Russo, vocalista da banda de rock Legião Urbana, na sua música Índios do álbum Dois, de 1986. índios legião urbana Quem me dera ao menos uma vez Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem Conseguiu me convencer que era prova de amizade Se alguém levasse embora até o que eu não tinha Quem me dera ao menos uma vez Esquecer que acreditei que era por brincadeira R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 161 Eu quis o perigo e até sangrei sozinho Entenda Assim pude trazer você de volta pra mim Quando descobri que é sempre só você Que me entende do início ao fim E é só você que tem a cura pro meu vício De insistir nessa saudade que eu sinto De tudo que eu ainda não vi Que se cortava sempre um pano- de-chão De linho nobre e pura seda Quem me dera ao menos uma vez Explicar o que ninguém consegue entender Que o que aconteceu ainda está por vir E o futuro não é mais como era an- tigamente Quem me dera ao menos uma vez Provar que quem tem mais do que precisa ter 162 Fi lo so fia Quase sempre se convence que não tem o bastante Fala demais por não ter nada a dizer Quem me dera ao menos uma vez Que o mais simples fosse visto Como o mais importante Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente Quem me dera ao menos uma vez Entender como um só Deus ao mes- mo tempo é três E esse mesmo Deus foi morto por vocês Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste Quem me dera ao menos uma vez Acreditar por um instante em tudo que existe E acreditar que o mundo é perfeito E que todas as pessoas são felizes Quem me dera ao menos uma vez Fazer com que o mundo saiba que seu nome Está em tudo e mesmo assim Ninguém lhe diz ao menos, obrigado R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 163 Quem me dera ao menos uma vez Como a mais bela tribo Dos mais belos índios Não ser atacado por ser inocente Eu quis o perigo e até sangrei sozinho Entenda Assim pude trazer você de volta pra mim Quando descobri que é sempre só você Que me entende do início ao fim E é só você que tem a cura pro meu vício De insistir nessa saudade que eu sinto De tudo que eu ainda não vi Nos deram espelhos e vimos um mundo doente Tentei chorar e não consegui Fonte: Legião Urbana. Índios. Disponível em: <http://letras.mus. br/legiao-urbana/1300285/>. Acesso em: 25 nov 2012. Sabemos que a proposta do autor não correspondeu diretamente ao multiculturalismo ou à relação com o saber. Mencionamos a música na qualidade de convite para tais reflexões, na perspectiva de alusão aos conhecimentos aos 164 Fi lo so fia quais nos dedicamos nesta unidade, sem reduzir o signifi- cado e os sentidos da composição em sua amplitude. É possível tecer relações entre trechos da música tanto quanto a ação multiculturalista radical e assimilacionista, praticada na população brasileira, quanto a elementos da relação com o saber. Por exemplo, em momentos tais como: - “Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais sim- ples fosse visto / Como o mais importante / Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. Quem nos diz ser o mais importante, quem é esse complexo que não permite ao simples sua vez? E mais, vemos um mundo doente mediante espelhos que nos é dado. A menos que se tenha mudado, a finalidade do espelho é a observação da imagem refletida, então, o mundo doente consiste no resultado da ação indivi- dual e coletiva em negligenciar a própria constituição identi- tária e assim nos descaracterizamos e adoecemos. - “Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que eu não tinha”. Considerando a relação com o saber na qua- lidade de relação do sujeito com o tempo, com ele próprio e com o outro; muitas vezes essas relações se dão estereoti- padas e ideologicamente movidas para a dominação social e realização de posturas etnocêntricas. Lógico que não seria “amizade” uma colonização! Mas ideologicamente já se apre- sentou nessas vestes e tomou quase que por assalto os aces- sos à liberdade dos modos próprios de ser de um grupo social, subjulgando sua cultura e impondo sobre ela outras formas de ser. Ou, em outra associação (aqui seguimos com elas de modo livre, sem que conduzam ao sentido originário da composição, conforme já mencionado antes das apresenta- ções desses trechos da música): no âmbito dos relacionamen- tos entre as pessoas, quantas vezes os sentidos peculiares R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 165 à amizade sucumbem às relações de interesse que podem “levar embora” até o que o outro “não tinha” sem que per- cebam, a priori, o fim utilitário de algumas relações sob as vestes de “amizade” ou, agora em sentido de metáfora, rela- ções de “colonização”. O cultivo da perspectiva da esperança é bem-vindo e por esses e outros caminhos, podemos aqui recordar Charlot (2010, p. 53): Nascer significa ver-se submeti- do à obrigação de aprender [...]. Nascer, aprender, é entrar em um conjunto de relações e processos que constituem um sistema de sentido, onde se diz quem eu sou, quem é o mundo, quem são os outros. (CHARLOT, 2010, p. 53) - “Quem me dera ao menosuma vez / Explicar o que ninguém consegue entender / Que o que aconteceu ainda está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente”. Aqui podemos lançar o olhar sobre a relação com o saber, com atenção à relação do sujeito com o tempo e este em suas instâncias - passado, presente e futuro, interligadas - uma vez que tecemos (presente) as relações que fazem nosso ambiente e somos também tecidos pelo contexto histórico-social (pre- sente) e suas tradições (passado) materiais e imateriais, construindo, assim, o projeto do vir-a-ser (futuro) tanto na qualidade de indivíduo quanto na qualidade ser social, na mutabilidade das relações que constituem a vida. A dificuldade do multiculturalismo não é meramente política e econômica (essas são apenas consequências). Compreendemos que o cerne da questão passa pelo caráter 166 Fi lo so fia idiossincrático no qual e pelo qual nos tornamos seres huma- nos, verdadeiramente humanos, ou nos relacionamos com o saber, no qual e pelo qual experimentamo-nos, enquanto indivíduo e sociedade, mediante processos de hominização, singularização e socialização; em relação que estabelecemos com nosso próprio ser, com o mundo e com o outro. Não se trata, portanto, de manter as diversas culturas, como se fos- sem espécies biológicas e fosse pre- ciso defender a “biodiversidade”. Trata-se antes de tomar consciên- cia de que nenhuma cultura tem a solução para todos os problemas vitais e de que pode aprender com outras, tanto soluções das quais carece como a se compreender a si mesma. Nesse sentido, uma ética intercultural não se encontra em assimilar as culturas relegadas à vencedora, nem tampouco com a coexistência das culturas, mas convida a um diálogo entre as culturas, de forma que respeitem as diferenças e esclareçam con- juntamente o que consideram irrenunciáveis para construir, a partir de todas elas, uma con- vivência mais justa e feliz. Tendo em conta, por outro lado, que a compreensão de outros é obtida por meio da convivência e do diálogo é indispensável para au- tocompreensão. (CORTINA, 2006, p. 144) R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 167 Nesse caminho de autocompreensão, buscamos quem somos, como somos, com quem somos; buscamos tri- lhar as descobertas, conhecer as origens e as possibilidades de futuro. Neste (e em outros) caminho, importa também o olhar quanto à ética, seja no sentido de humanidade e/ou no âmbito das idiossincrasias. Cortina (2006, p. 144) afirma que “para levar a termo o projeto de uma ética intercultural, é preciso enfrentar proble- mas antropológicos, psicológicos, éticos, jurídicos, políticos.” A proposta de se constituir uma nova perspectiva, pau- tada em uma ética intercultural, representa um meio de supe- ração do desafio imposto pela intransigência. Isso representa a não menos aceitação das diferenças naquilo que pode ser acrescido enquanto aspectos positivos, fruto de uma autên- tica relação dialógica, na qual a compreensão de si fica dire- tamente relacionada ao outro de forma recíproca e imediata e nasce a identidade assumida pelo exercício da liberdade, res- peitando a dignidade da diversidade do ser. Em si tornando uma realidade à proposta intercultural, acreditamos que muitas de nossas dificuldades relacionais dei- xariam de existir, pois de certo que somos o outro do outro e, na mesma medida e proporção, nos fazemos diferentes e até, mui- tas vezes, contrários em diversas situações, negligenciamos, e por que não, determinamos o outro em seu modo de ser agir e pensar, julgamos diariamente comportamentos e atitudes, sem ao menos nos questionarmos sobre nossa “autoridade”, ou melhor, dizer “pseudoautoridade”. Aceitar o diferente, em sua essência, já pode ser considerado um ato de soberania sobre os demais. Por outro lado, acreditamos ser o mais acertado a ação de lançar o olhar sobre o olho que nos olha. O que isso quer dizer? É preciso conceber o outro como a mim mesmo, sem distinção e despido das contingências sociais que, em muitas 168 Fi lo so fia oportunidades, provocam verdades que apenas figuram como elementos de separatividade. Cada cultura é na verdade multi- cultural, assim como cada um de nós é na verdade multicultural. As culturas, assim como as tradições, nascem, se transformam e podem morrer quando carecem de capacidade para responder aos no- vos desafios apresentados pelo en- torno. Mas não nascem e se trans- formam radicalmente separadas de si - é exatamente o que ocorre. Al- gumas nascem de outras, ou então se transformam, quando se sentem incapazes de responder ao entorno, tomando de outros elementos que se mostram mais apropriados para fazer frente aos novos desafios. (CORTINA, 2006, p. 163) Assim como Cortina, o filósofo e antropólogo Edgar Morin, através de suas variadas obras, nos apresenta signifi- cativas contribuições para superação da “separatividade”. Ele defende a perspectiva de uma realidade “complexa”. O que seria isso? Complexo = complicado? Difícil? Essa problemática existencial, segundo o autor, deve ser suplantada por uma nova forma de compreensão da rea- lidade. Essa perspectiva é o que ele denomina pensamento complexo, no qual a concepção de realidade se apresenta ao sujeito como parte dele próprio, sendo um todo integrado, sistêmico e dinâmico, na qual tudo é dialogizável. R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 169 Edgar Morin Fonte: ht t p://pt .w i k iped ia .org /w i k i / F i c h e i r o :E d g a r _ M o r i n _ I M G _ 0 5 5 8 . jpg Acesso em 02 dez 2012 Em um primeiro sentido, a palavra complexus significa “o que está tecido”. E é esse tecido que é preciso conceber. Mas quando vemos as inúmeras interações que se fazem entre as células de nosso corpo e, no interior delas, entre as molécu- las, é evidente que não se pode ter nenhuma certeza sobre o que se passa localmente neste ou naquele ponto. [...] Como a complexidade reconhece a par- cela inevitável de desordem e de eventualidade em todas as coisas, ela reconhece a par- cela inevitável de incerteza no conhecimento. [...] A complexi- dade repousa ao mesmo tempo sobre o caráter de “tecido” e sobre a incerteza. (MORIN, 2001, p. 564) O complexo é a concepção da realidade sob uma forma sistêmica e holística, sendo que o todo não constitui um sim- ples resultado das somas de suas partes. Na verdade, o todo representa a conjugação existencial própria do ser sendo, vivendo e participando, existindo. À medida em que nos relacionamos, modificamos e transformamos nosso universo, construímos e desenvolve- mos culturas, produzimos conhecimento. Esses fenômenos da existência humana figuram na vida como fios de uma teia, que é tecida e desenvolvida ao longo e a medida das escolhas terrenas. Assim, a qualidade de nossas relações são unica- mente responsabilidades intrínsecas ao indivíduo em relação consigo e com o outro nas suas mais variadas manifestações existenciais. 170 Fi lo so fia O que é feito a um fio repercute direta ou indireta- mente em todos os demais constituintes da teia. Não se trata de uma perspectiva ingênua e desprovida de sentido, quiçá romântica, mas, muito ao contrário, o destino de um é com- partilhado por todos os integrantes. Dessa forma, as divergênciase contradições culturais não passariam de “pseudos” referenciais humanos e, assim, deixaríamos de atribuir tanta relevância a situações/proble- mas que teimam em nos demandar tempo e energia. Em outras palavras, a teia da vida consiste em redes dentro de redes. Em cada escala, sob estreito e mi- nucioso exame, os nodos da rede se revelam como redes menores. Tendemos a arranjar esses siste- mas, todos eles aninhados den- tro de sistemas maiores, em um sistema hierárquico colocando os maiores acima dos menores, à maneira de uma pirâmide. Mas isso é uma projeção humana. Na natureza, não há ‘acima’ ou ‘abaixo’, e não há hierarquias. Há somente redes aninhadas dentro de outras redes. (CAPRA, 1996, p. 44-45) Tecer um fio desta teia constitui estabelecer um elo relacional social, à medida em que são feitos os vários fios desta teia. Significa que estão sendo criadas as redes sociais, que, por conseguinte, produzem conhecimentos e cultura e valores (normas sociais específicas). R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 171 “O comportamento das pessoas é moldado e delimitado pela iden- tidade cultural delas, a qual, por sua vez reforça a sensação de fazer parte de um grupo maior”. (CAPRA, 2002, p. 99) O pensamento complexo consiste na união entre as partes e as multiplicidades. Somos unidades participantes de uma múltipla diversidade conjuntural autônoma e dinâmica rumo à construção de uma identidade planetária na qual todos somos um. Considerando que constituímos a mesma, complexa e integrada realidade, como então é possível a exploração de uma pessoa ou grupo por outra pessoa ou grupo? Sabendo que cons- truímos nosso ser de modo também relacional, em ambientes multiculturais, tendo ainda o olhar lançado sobre a condição humana de autoconquista e autoconstrução, com atenção aos processos de hominização, singularização e socialização, bem como as relações do sujeito com o mundo, com ele mesmo e com o tempo, como podem ocorrem as vias de alienação que che- gam, infelizmente, a provocar a reificação do humano? As respostas para questionamentos como estes não são postas nem dadas como informações absolutas. Convidamos você, querido (a) estudante, para tecermos em parceria os possí- veis caminhos de compreensão e transformação de realidades pautadas nos processos ideológicos de dominação social, den- tre outras dominações diretas e indiretas, simbólicas e concre- tas. É nesta perspectiva que seguimos durante nossa Unidade 8 com o fundamento básico (sobre alienação, o mundo do tra- balho e os processos ideológicos de dominação social) para a conquista de reflexões que possam bem guiar as elaborações 172 Fi lo so fia das próprias respostas e, sobretudo, das próprias perguntas e inquietações frente ao mundo. Vamos adiante! Você é pessoa convidada. Encontraremos você durante a Unidade a seguir. Sín t eSe Nesta unidade tivemos a oportunidade de realizar- mos profundas reflexões, desde as relações do saber com as perspectivas de hominização, singularização e socialização, passeando pela problemática da diversidade cultural e seus desdobramentos, até alcançarmos o ápice no pensamento complexo através das contribuições de Morin e Capra. Assim, esta Unidade tem uma peculiaridade: seu escopo consiste no chamamento da responsabilidade na condução e direciona- mento de nossa existência diante da vida como uma represen- tação sistêmica e holística. qu eStão pa r a r eflex ão’ 1. Reflita sobre a citação, e estabeleça uma relação com sua atual condição existencial. A inteligência parcela, compartimentada, mecanicista, disjuntiva e reducionista rompe o complexo do mundo em fragmentos disjuntos, fraciona os problemas, separa o que está unido, torna unidimen- sional o multidimensional. É uma inteligência míope que acaba por ser normalmente cega. Destrói no embrião as possibilidades de com- preensão e de reflexão, reduz as possibilidades de julgamento corre- tivo ou da visão a longo prazo. Por isso, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior é a incapacidade de pensar sua mul- tidimensional idade; quanto mais a crise progride, mais progride a in- capacidade de pensar a crise; mais os problemas se tornam planetários, mais eles se tornam impensáveis. Incapaz de considerar o contexto e o complexo planetário, a inteligência cega tornar-se inconsciente e R efl ex õe s ac er ca d as te m át ic as : R el aç ão c om o s ab er , m ul ti cu lt ur al is m o e in te rc ul tu ra lis m o 173 irresponsável. (MORIN, 2001, p. 43) 2. Conforme Morin (2001, p. 18), “o pensamento que une o modo de conhecimento se prolonga para o plano da ética, da solidariedade e da política. Há uma ética da complexidade que é uma ética da compreensão”. Como você compreende essa citação e de que forma sua proposta pode ser realizada? lei t u r aS i n dica daS ARDUINI, J. Antropologia: ousar para Reinventar a Human- idade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002. BAUMAN, Z. Comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. ______ Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. FROMM, E. Análise do Homem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1983. ______ O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983. GALANTINO, N. Dizer Homem Hoje: Novos Caminhos da Antropologia Filosófica. São Paulo: Paulus, 2003. Si t eS i n dica doS http://www.fritjofcapra.net/ http://www.edgarmorin.org.br/ http://www.ebah.com.br/content/ABAAABG1MAH/etica-ad- ela-cortina http://filosofarpreciso.blogspot.com.br/2009/06/bernard-char- lot-ensinar-com-significado.html 174 Fi lo so fia r ef er ênci aS CAPRA, F. A teia da Vida. São Paulo: Ed. Cultrix, 1996. ______. As Conexões Ocultas. São Paulo: Ed. Cultrix, 2002. CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. 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Isto é devir, metamorfose que, como um forte gole de transformações, faz-nos crer no infindável ter-se inse- guro, ter-se incompleto, ter-se físico, ter-se além físico, ter-se no físico [...] do qual a ciência tenda apoderar-se, tenta consolidar- se, tenta explicar-se. E acaba por provar o sempre estar e não estar, o real, o utópico (não lugar) onde alianças sempre surgem. Elos. Es- peranças. Sempre ‘novas alian- ças’“. (MAIA, 2003, p. 26) Naurelice Maia de Melo e Ueliton Lemos dos Santos Iniciamos o conjunto de unidades com aten- ção à ciência, ao conhecimento, à filosofia. E seguimos nossoscaminhos passeando sobre a origem e organização do uni- verso, com reflexões sobre o pensamento clássico, a moral, as concepções éticas, interfaceadas com correntes do pensa- mento filosófico, e a relação com o saber, reunidas às consi- derações a respeito do multiculturalismo e interculturalismo. Nesta unidade 8, tomamos por epígrafe um trecho da expressão poética que faz livre alusão, dentre outros aspectos, à obra do físico Ilya Prigogine e da filósofa Isabelle Stengers. De certo modo, começamos nossos diálogos e concluímos os escritos com olhares sobre à ciência. Na unidade anterior, você estudou os constituintes da relação com o saber e observou, dentre eles, a relação do sujeito com o tempo (passado, pre- sente e futuro). Quem dera os olhares sobre o tempo fossem todos eles como os destinados por Charlot, De Masi, Prigogine, 180 Fi lo so fia Stengers. Pelas pessoas dedicadas à ciência (em sua concepção contemporânea) e por aquelas dedicadas à poesia. Quem dera o tempo não fosse instituído, por assim dizer, como mercado e as pessoas não fossem reificadas por- que, atentas a incessante autoconstrução, não sucumbiriam ao “status” das coisas. E a “tirania da precisão” não encon- trasse espaço entre as relações. Quem dera as pesquisas, nas diversas áreas, fossem tão genuínas quanto à concep- ção grega de ciência, que, contemplativa, não encontrava o sentido da posse. Diferente da concepção moderna que, com o advento do método, acabou por conduzir a si mesma aos caminhos do cientificismo. Quem dera fosse a ciência (agora em sua concepção contemporânea, da era das incertezas, e das “saídas” dos esta- dos excessivos de controle) compreendida em escala maior e os jargões que pesam sobre a expressão “senso comum” pudessem compreender, como propõe Rubem Alves, que do senso comum emerge o bom senso; ou, como iniciativas de Gramsci, que defendem a possibilidade e necessidade de que os saberes filosóficos estejam dedicados a todas as pessoas (sobretudo às comuns), saindo dos limites de acesso apenas àqueles de concepções elitistas, inclusive, para os quais não haveria o desejo de sair de onde já estão e os saberes, todos eles, culminariam em instrumentalização para manter privi- légios de poucos. Quem dera que as circunstâncias fossem assim de fato dadas, doadas, mas só o são quando para reforçamento dos processos que tornam alheio ao ser humano a sua própria humanidade e, neste sentido, importa que o “quem dera” não se realize. Que seja fortalecido o lugar para o “quem constrói”, que sejamos elaboradores da existência, guardando o respei- toso encantamento ante o seu devir. Mas, os imediatismos sus- tentados pelas ideologias e alienações acabam por diminuir a Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 181 esfera da percepção complexa, integrada e integradora da rea- lidade e por aumentar a esfera das ausências da humanidade no próprio humano, por estar alheio a si mesmo3. Embora de lugar comum, qual significado da alienação? O termo alienação, conforme sua origem latina (alie- nare), significa transformar em alheio, atribuir a outro o que é próprio de alguma pessoa, “tornar” alheio o que é propria- mente nosso. Alienus corresponde àquilo que é alheio, que pertence a outro. Os processos de alienação, de modo geral e com o teor social, buscam tornar alheio até mesmo a autono- mia do pensar de cada indivíduo, a exemplo dos programas televisos que podemos chamar de verdadeiros entorpecentes sociais para aqueles indivíduos que, frente a eles, não discer- nem a realidade e não exercitam a crítica e o posicionamento próprio que lhe integra seu modo de sentir, pensar e agir. 3. ...até um dia... No qual, ainda que lenta e progressivamente, a esfera do humano não seja apenas uma esfera, seja a realidade que (re)integra e emancipa. Você sabia? “A palavra alienação. Em direito, designa a transferência da propriedade de um bem a outra pessoa. Nesse sentido, costuma-se dizer que ‘os bens do devedor foram alienados’. Em psicologia, refere-se ao estado patológico do indiví- duo que se tornou alheio a si próprio, sentindo-se como um estranho, sem contato consigo mesmo ou com o meio social em que vive. Na linguagem filosófica contemporânea, corresponde ao processo pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou influenciados por outros e se transformam em uma força estranha colocada em posição superior e contrária a quem a produziu. Nesta acepção, a palavra deve muito de seu uso a Marx.” Fonte: COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e gran- des temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 28. 182 Fi lo so fia Conforme Cotrim (2006, p. 28), “o termo alienação havia sido usado primeiramente por Hegel para designar o processo pelo qual os indivíduos colocam as suas potencia- lidades nos objetos por eles criados”. Em Hegel, portanto, ainda conforme Cotrim (2006), a alienação corresponderia ao modo de tornar externa a criatividade humana. Expressá-la corresponderia à construção de obras no mundo; “nesse sen- tido, o mundo da cultura seria uma alienação do espírito humano, uma criação do homem, que nela se reconheceria” (COTRIM, 2006, p. 29). Este significado atribuído à alienação não corresponde ao sentido que contemporaneamente é aplicado ao referido termo no âmbito da Filosofia (corresponde ao que hoje é tam- bém chamado de objetivação), mesmo estando situado em contexto filosófico, neste caso quanto ao idealismo hegeliano. Na contemporaneidade, os diálogos em torno da alie- nação têm por referencial o significado que o termo assume a partir da perspectiva de Karl Marx. Aquele significado, utili- zando palavras de Cotrim (2006, p. 28), correlato ao “processo pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou influencia- dos por outros e se transformam em uma força estranha colo- cada em posição superior e contrária a quem a produziu”. Diferentemente de Hegel, Marx identificou, nesse processo de ex- teriorização da criatividade hu- mana, dois momentos distintos: O primeiro seria o da objetiva- ção, que se refere especificamente à capacidade de o homem se obje- tivar, se exteriorizar nos objetos e nas coisas que cria, o que é algo próprio do saber-fazer humano. Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 183 O segundo momento, para o qual Marx reserva o termo alienação, seria aquele em que o homem, principalmente no capitalismo, após transferir suas potenciali- dades para os seus produtos, deixa de identificá-los como obra sua. Os produtos “não pertencem” mais a quem os produziu. Com isso, são “estranhos” a quem os produziu, seja no plano econômi- co, psicológico seja no social. (COTRIM, 2006, p. 28-29) As diversas instâncias da vida podem estar mediadas (ou não) pelos processos de alienação. Importa que tenha- mos a percepção atenta e socialmente engajada, exercitando as características da reflexão filosófica, conforme estudamos na Unidade 3, buscando as raízes, de modo não aleatório e conforme a perspectiva de conjunto. Agindo no mundo de modo diferenciador, não pautado em diferenças tidas pelas desigualdades das amarras dos preconceitos tão limitadores, mas em sentido genuinamente diferenciador, de pessoa que, desculpe o jargão popular,deixam sua marca no mundo. Estamos a caminho da descoberta de novas inquie- tações e também de respostas para questões que propomos anteriormente. Como podem ocorrer as vias de alienação? Vejamos antes algumas dentre as instâncias da vida nas quais elas estão presentes. As vias de alienação se configuram nas diversas instân- cias da vida, constam nas relações tanto sociais quanto pesso- ais, no consumo, no lazer, nas estruturas políticas partidárias e não partidárias, na esfera do trabalho etc. Lançaremos o 184 Fi lo so fia olhar sobre o alienação nas instâncias do consumo, do lazer e do trabalho. Refletindo e ampliando o conhecimento. Trechos selecionados de “Trabalho: Liberdade e Submissão” Por Gilberto Cotrim Antes de refletirmos sobre o consumo alienado, con- sideremos primeiramente o brutal abismo socioeconômico que separa rico e pobre no mundo inteiro. Podemos dizer que bem mais da metade da humanidade ainda enfrenta o drama agudo da fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde e à educação. Enquanto isso, pequena parcela de, aproxima- damente, 15% da população mundial concentra 80% da renda econômica do planeta. Ou seja: enquanto a grande maioria não tem o mínimo necessário para sobreviver, uma minoria pode se dar ao luxo de consumir quase tudo e esbanjar o supérfluo. Assim, é principalmente entre a parcela da população de bom poder aquisitivo que ocorre o fenômeno de consumo alienado. Não tem muito sentido falarmos em consumo alie- nado entre a multidão de famintos, esmagada pela miséria. Como podemos definir o termo consumo? Consumir significa utilizar, gastar, dar fim a algo, para alcançar deter- minado objetivo. O ser humano necessita de objetos exterio- res para a sua sobrevivência e realização. Por isso, os homens produzem, em sociedade, os objetos para o seu consumo. [...] Karl Marx observou que produção é ao mesmo tempo consumo, pois quando o trabalhador produz algo, além de consumir matéria-prima e os próprios instrumen- tos de produção, que se desgastam ao serem utilizados, ele também consome suas forças vitais nesse trabalho. Por outro lado, completa o filósofo, consumo é também produção, pois os homens se produzem através do consumo. Isso se verifica Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 185 de forma mais imediata na nutrição, processo vital pelo qual consumimos alimentos para “produzir” nosso corpo. Porém, o consumo nos produz não apenas no plano físico, mas tam- bém nos aspectos intelectual e emocional, como ser total. Há, portanto, uma relação dialética entre consumo e produção. A produção cria não só bens materiais e não mate- riais, mas também o consumidor para esses bens. Se não fosse assim, a produção não teria sentido. Ou seja, quando se produz algo, é preciso que alguém consuma essa produção. Mas onde está a alienação no consumo? Se entendemos que os homens se formam interagindo com o mundo objetivo, consumir significa participar de um patrimônio construído pela sociedade. Assim, além de atender às necessidades indi- viduais, o consumo expressaria também a forma pela qual o indivíduo está integrado à sociedade. No entanto, observamos nas sociedades contempo- râneas a exclusão da maior parte das pessoas do consumo efetivo do patrimônio produzido. Além disso, vemos que o circuito produção-consumo não visa atender prioritaria- mente às necessidades individuais, mas sim às necessidades de expansão do sistema capitalista, de busca permanente de lucratividade, o que levou à mercantilização de todas as coi- sas. Nesse sistema, como apontou o historiador contemporâ- neo Immanuel Wallerstein, há algo de absurdo: “acumula-se capital a fim de se acumular mais capital. Os capitalistas são como camundongos em uma roda, correndo sempre mais depressa a fim de correrem ainda mais depressa.” Fonte: COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e gran- des temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 31. É fato que vivemos em ambiente movido pelo sistema capitalista, não estamos aqui propondo a aceitação ou não aceitação deste, mas oferecendo o fundamento básico neces- sário para os caminhos já mencionados de conquista tanto 186 Fi lo so fia das respostas quanto das novas inquietações. Estamos, ainda, ousando um apelo. O apelo ao devido cuidado frente às relações (todas elas) para que não descambem em modos efetivos ou velados de alienare. Quanto ao consumo alienado, a mídia figura den- tre os meios para sua realização, criando pseudo necessida- des e estabelecendo padrões. Não é, infelizmente, raro que a dimensão da conquista dos modos próprios de ser, de sen- tir, de pensar e de agir esteja submersa e suplantada pelas vias de consumo alienado, nutrindo a neofilia e culminado em modos de experimentar um “poder” sobre os elementos materiais postos, suplantando também a autonomia do pro- cesso de construção de identidade própria. [...] Agentes influenciadores, por exemplo, os meios de comunica- ção de massa, atribuem status aos produtos lançados no mercado, substituindo o valor de uso pelo valor de posse. Importa recordar que o processo de alienação edifica nas pessoas um constante vazio que precisa ser preenchido. O con- sumo alienado está entre as medi- das mais utilizadas para atender este fim, consiste na busca in- saciável pelo novo. [Entretanto], o sentido de “novo” não corresponde à disposição aos novos e diversos modos de compreender e interp- retar a realidade, mas ao consumo das novidades oferecidas pelo mer- cado, nutrindo a neofilia. De acor- do com Cotrim (2006), neofilia sig- nifica o amor pelas novidades do Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 187 mercado, um amor obsessivo que pode ser configurado como uma doença cultural que é alimentada pelos grandes produtores econômi- cos. Encontra eco em estratégias como as diversas opções de paga- mento que atraem consumidores e consumidoras que, na busca in- saciável pelo “novo”, conquistam sempre dívidas para comprar a mercadoria que provavelmente não será bem usufruída, pois quando novos modelos forem lançados no mercado a mercadoria adquirida deixa de causar “satisfação” e atri- bui espaço para outros “sonhos” de consumo [que em última instân- cia comprometem a construção de cada “exemplar único de ser huma- no”]. [...] Mediante o consumo alie- nado homens e mulheres buscam, com a posse de bens, preencher o vazio produzido tanto pelo trab- alha do alienado quanto por outras formas de alienação, não sabendo [não sabem por devido aos proces- sos ideológicos de dominação so- cial] que dessa forma se tornarão desconhecedores das reais neces- sidades humanas e cada vez mais suscetíveis aos apelos do mercado e à ausência do poder de reflexão, crítica e intervenção social. (MELO, 2007, p. 36, grifo nosso). 188 Fi lo so fia A figura a seguir favorece reflexões a respeito do con- sumo e do ser humano, bem como quanto às relações de posse e ausências de construções genuínas da identidade. De qual modo você percebe a relação entre o consumo alie- nado, a imagem e os dias atuais? Caso deseje, visite o AVA deste componente curricular e socialize seus comentários e percepções. Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anticonsumismo.JPG Acesso em 08 dez 2012. Tendo conquistado o fundamento básico necessário para compreensão sobre o consumo alienado, vamos seguir nossos diálogos lançando o olhar sobre as vias de alienação que se configuram no lazer. Você sabia que até mesmo o lazer que é (ou precisaria, deveria ser) uma expressão genuína de estar bem e satisfação, muitas vezes ocupa o lugar de elemento manipulador capaz de alienar? Conforme Cotrim (2006, p. 34), “O processo de alienação na sociedade industrial afeta também a utilização do tempo livre destinado ao lazer”. A indústria cultural e de di- versão vende peças de teatro, filmes, livros, shows, jornais e re- vistas como qualquer outra mer- cadoria. E o consumidor alienado compra seu lazer da mesma ma- neira como compra seu sabonete. Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 189 Consome os “filmes da moda” e frequentam os “lugares badala- dos” sem um envolvimento autêntico com o que faz. Agindo desse modo, muitos se esforçam e fingem que estão se divertindo, pensam que estão se divertindo, querem acreditar que estão se divertindo. Na verdade [diz Lob- senz], “através da máscara da alegria se esconde uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer”. A lógica capitalista afeta até mesmo a relação do indivíduo com as obras de arte. Reduzidas ao nível de mercadorias, estas passam a obedecer à lei da oferta e da procura. Tornam-se puros negócios fabricados pela indústria cultural, expressão criada pelos filósofos Adorno e Horkheimer. E o que era fruto da espontaneidade criativa do sujeito se transforma em produção padronizada de ob- jetos de consumo com vistas à ob- tenção de lucros econômicos. (COTRIM, 2006, p. 34) Querido (a) estudante, à citação de Cotrim associamos considerações a respeito das discussões em torno das perspec- tivas de modernindade/pós-modernidade, com referência às reflexões quanto à vida pós-industrial, uma vez que logo mais dedicaremos atenção à esfera do trabalho. Compartilhamos com você um modo de pensar a respeito do tempo, da contem- plação do belo, da busca por conhecimentos genuínos. 190 Fi lo so fia Muitas vezes, a ausência de “um envolvimento autên- tico com o que faz” (COTRIM, 2006, p. 34) encontra suas ori- gens no aceleramento sobre o qual a sociedade industrial impôs, por assim dizer, à dimensão do tempo. É inspiradora a afirmação de De Masi (2006, p. 237) “o mundo clássico grego entendeu aquilo que queríamos ignorar: que ‘duas coisas são irredutíveis a todo o racionalismo - o tempo e a beleza’, como diria Simonjee Weil”. Ainda com toda a dedicação à racionalidade, o pensa- mento grego clássico preservou as relações ante o belo, o sen- tido de busca pelos saberes e a não aceleração do tempo, de modo que, com toda a racionalidade, as subjetividades estive- ram também no cenário sem que fossem esquecidas em nome de fins outros que hoje se revelam, por exemplo, no acúmulo do capital, como a metáfora já explicitada dos camundongos que correm cada vez mais depressa, depressa demais. Desse modo, a esfera do aproximado tende a ser dimi- nuída em nome da precisão própria às relações pautadas em racionalidades excessivas, movimento que reside na contra- mão do movimento complexo e integrador sobre o qual você já estudou nestes nossos diálogos. Conforme De Masi (2006, p. 237), “o universo da precisão é algo diferente, não supe- rior ao mundo do mais ou menos, do aproximado. Sabemos Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 191 medir, mas não sabemos amar e viver, refletir e dialogar melhor do que faziam os gregos”. Importa considerar que a percepção aproximativa proposta por De Masi (2006) não corresponde à perspec- tiva aproximativa da sociedade rural. Seria tanto extremada quanto a precisão da sociedade industrial. Em linhas gerais e, seguindo o tom de apresentação dessas reflexões aqui asso- ciadas aos processos de alienação, a ausência do autêntico envolvimento4, a perspectiva de De Masi (2006) é de aten- ção ao, por assim dizer, lugar de cada coisa e do ser. O lugar da máquina, enquanto máquina, enquanto coisa. O lugar do humano, enquanto humano, enquanto ser. Durante milênios, até o fim do Século XVIII, a humanidade vi- veu sob o signo do mais ou me- nos, do misterioso, do mágico, inerme face às pestilências, aos raios, às invasões. A esfera emo- tiva nos ajudou a sobreviver em tanta miséria, mas preenchendo os vazios deixados pela esfera racional. Depois o Iluminismo e a industrialização conquistaram à razão um trono do qual ela reinou primeiro com otimismo e sabedoria, depois e aos poucos com pessimis- mo e tirania - a tirania da precisão do “tudo programado”, do “tudo sob controle”. O homem não é uma máquina predisposta pela natureza para ser veloz, repeti- 4. Querido(a) estudante, lembramos a você que a ausência do autêntico envolvimento, assim como a redução das relações e percepções até mesmo no âmbito da arte às mercadorias aqui está associada à citação de Cotrim, alguns parágrafos anteriores, vale a pena retornar e dar mais uma conferida. 192 Fi lo so fia tiva e precisa. Isto é, não é uma máquina. Pelas suas exigências de velocidade, repetitividade e precisão, ele criou aparelhos de grande alcance, mais eficazes do que ele mesmo. Para si deixou intacto o monopólio da criativi- dade, da ambiguidade, da ideia vaga, da ironia, do imprevisto, da mudança, da descontinuidade, da complexidade, do riso, do pranto, de tudo aquilo que o torna hu- mano. (DE MASI, 2006, p. 232, grifo nosso) Nessa tirania da precisão apontada por De Masi (2006), a relação com o tempo passa a estar pautada no atendimento às exigências da esfera produtiva de tal modo que a dedica- ção às iniciativas contemplativas, criativas, teóricas, próxi- mas às subjetividades fica comprometida, devido ao estado de “obcecados pela falta de tempo”, mas há a perspectiva de esperança e de dias melhores. Nesse sentido, por gentileza, acompanhe a leitura dos trechos selecionados a seguir. Trechos Selecionados “do universo da precisão à recuperação do aproxi- mado” por domenico de Masi O tempo calculado a palmo pelos gregos e por minuto pelos florentinos da época dos Médici está hoje dilatado pelos funcionários que o medem em segundos e pelos cientistas que o medem em nanossegundos. Assim, o mais ou menos transformou-se em precisão, a precisão virou ideia fixa e os nossos corações estão compreendidos no espaço apertado dos Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 193 átimos medidos. As estatísticas nos dão um número crescente de anos, mas nós estamos obcecados pela falta de tempo. [...] O grande relógio da produção planetária procede sem pausas, como o relógio de Metropolis, marcando o seu estado de avanço com o indicador das cotações da bolsa e com as cifras decimais do Produto Interno Bruto. Em pri- meiro lugar não está o progresso do espírito, mas a declara- ção de renda e o andamento do PIB. Se o número crescente de desocupados desperta alguma preocupaçãoé apenas pela sua eventual repercussão no poder aquisitivo das massas consumidoras e na tranquilidade dos ricos ameaçada pela receada raiva dos pobres. [...] É preciso começar por uma melhora em nossa vida capaz de conjugar estética, ética e filosofia com técnica e eco- nomia. Essa ecologia do trabalho não é impossível. Uma vez delegada a precisão às máquinas, é preciso recuperar muitos aspectos do sistema aproximativo, que não será mais aquele tosco e primitivo da era rural. Enriquecido pela experiência industrial, deverá alargar seus limites de oportunidade, con- jugando lucidez racional com calor emotivo. Reapropriamo-nos, portando, do aproximativo: não daquele imposto pela ignorância durante os séculos de socie- dade rural, mas de uma aproximação reinventada em termos pós-industriais, nutrida pela relatividade de Einstein, pela possibilidade de falsificação de Popper, pela psicanálise de Freud, pela literatura de Joyce, pela biologia de Crick e Watson, pela matemática de Gödel, pela pintura de Escher. O aproxi- mado recoloca o sujeito no campo das suas especulações que recupera o flexível e o imprevisto, que derruba as barreiras entre exterior e interior, entre forma e conteúdo, entre presente e futuro. Uma aproximação pós-moderna, capaz de valorizar a experiência solidária do terceiro setor, de reduzir o estresse do 194 Fi lo so fia trabalho, de inaugurar novas formas desestruturadas de orga- nização e novas formas criativas de ócio. Fonte: DE MASI, D. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós- -industrial. 9. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. p. 238-239. Os processos de alienação, portanto, implicam também sobre o modo pelo qual as pessoas estabelecem as relações com o tempo, como que estivéssemos ainda na concepção moderna de trabalho que estabelece a noção de tempo útil. Tanto nas formas consumo e de lazer, quanto no mundo do trabalho, a alienação marca a sua presença e torna-se capaz de despir as pessoas de sua humanidade, uma vez que as espe- cificidades propriamente humanas ficam submersas, perdi- das na dita falta de tempo, ou melhor, novamente utilizando a expressão de De Masi, o ser humano torna-se obcecado pela falta de tempo. O ambiente Grego Antigo, agora quanto à nar- rativa mítica em torno de Cronos, talvez, sequer pudesse ima- ginar o quanto permaneceria (e permanece) atual, mesmo em nosso século, toda essa trama em torno do poder, a violência própria a Cronos e sua literal iniciativa devoradora. A “ecologia do trabalho” proposta por De Masi mos- tra-se como possível via de problematização dessas relações para que não sejam aceitas. Mas como superar essas obces- sões? Seria esse um caminho de conquista de espaço para as “formas criativas de ócio”? Mais alguns itens para nossa lista de inquietações e perguntas. Aqui seguimos em prol dos fun- damentos. Vamos adiante. Poucas vezes refletimos sobre o significado de palavras que parecem já óbvias em nosso cotidiano. Algumas dentre elas podem guardar seus significados próximos aos já asso- ciados a elas, outras palavras, entretanto, podem soar como uma verdadeira caixa de surpresas. É este segundo caso o que ocorre com o termo trabalho, uma vez que a origem Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 195 etimológica aponta para sentidos distintos do trabalho na qualidade de realização, transformação da natureza e huma- nização. Vejamos cada questão por vez. Conforme Sandroni (2006, p. 849), o trabalho cor- responde a “toda atividade humana voltada para a trans- formação da natureza com o objetivo de satisfazer uma necessidade”. Ribeiro (2003, p. 195) afirma: “denominamos trabalho à ação transformadora (material ou intelectual) do homem, realizada na natureza e na sociedade em que vive”. Nas duas citações, a significação de trabalho está asso- ciada à atividade transformadora. O trabalho corresponde às ações capazes de modificar o estado das coisas, transfor- mando-as, atendendo a dadas finalidades. Não apenas as coi- sas são transformadas. O trabalho está também relacionado à produção da cultura e ao processo próprio de humanização. Além de transformar a natureza, humanizando-a, [...] o trabalho transforma o próprio homem. [...] Pelo trabalho o homem se auto- produz: desenvolve habilidades e imaginação; aprende a conhecer as forças da natureza e a desafiá- las; conhece as próprias forças e limitações, relaciona-se com os companheiros e vive os afetos de toda relação; impõe-se uma disci- plina. O homem não permanece o mesmo, pois o trabalho altera a visão que ele tem do mundo e de si mesmo. (ARANHA; MARTINS, 1996, p. 98, grifo nosso) 196 Fi lo so fia Quanto ao termo. Qual o significado próprio à palavra “trabalho” mediante origem etimológica? Conforme Aranha (2006, p. 76): “Analisando a etimologia da palavra trabalho, descobrimos na origem o vocábulo latino tri- paliare, do substantivo tripalium, que designava um aparelho de tortura formado por três paus ao qual eram atados os condena- dos e que também servia para manter presos os animais difíceis de ferrar. Assim, vemos na própria etimologia da palavra a asso- ciação do trabalho com tortura, sofrimento, pena, labuta.” Percebemos um contracenso. O trabalho corresponde à transformação, autoprodução, “realização”? Ou, corresponde à tortura, punição, sacrifício? Depende das circunstâncias e condições na qual o trabalho seja realizado. Ao longo da nossa trajetória, na qualidade de humani- dade, o ato de trabalhar apresentou tanto a esfera da autopro- dução quanto da punição. Na Antiguidade Grega, tivemos érgon e ponos, assim significados: Na Antiguidade Grega o trabalho, na condição de “ponos”, era uma atividade própria ao escravo, não devendo o cidadão realizá-lo. O trabalho manual era compreen- dido como atividade inferior. Aqueles que faziam parte da ci- dadania e, portanto, das reflexões capazes de decidir o destino da polis (cidade estado) deveriam ter tempo livre para pensar, para criar (érgon), cabendo aos escra- vos o tipo de atividade inferior. Há, portanto, uma distinção so- cial entre os sentidos do trabalho na qualidade de “érgon” e “po- nos”, sendo este desprezado. Por Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 197 exemplo, para Aristóteles a ação pode ser configurada como livre e como ação fabricante de artefa- tos, mediante à técnica. Ação livre, para Aristóteles, é a ativi- dade digna aos homens; já a ação fabricante é aquela destinada aos escravos. (MELO, 2007, p. 25) No período medieval, o trabalho correspondeu ao sacrifício do corpo, disciplinando-o para purificação e salva- ção da mente e da alma. A preguiça condenada por ser um pecado, não favorecia a salvação. Nesse contexto do medievo, conforme Ribeiro (2003, p. 198), a ociosidade entre senhores, nobreza e clero “não era sinônimo de preguiça, mas de abs- tenção às atividades manuais para se dedicar a funções mais nobres, como a política, a guerra, a caça, o sacerdócio, enfim ao exercício do poder”. Tanto na Antiguidade quanto na Idade Média tivemos o trabalho relacionado às vias de exploração e sofrimento para muitos e, para alguns (poucos), às vias de emancipação e cria- ção. Na Idade Moderna, diferentedo que ocorria no medievo, a pessoa que desempenhava o ato de trabalhar não possuía mais as ferramentas para o trabalho. Portanto, a propriedade sobre os meios de produção pertenciam a outros e não àque- les que vendiam a sua força de trabalho sendo “livres”, cul- minando no sentido burguês atribuído tanto ao trabalho livre quanto à própria liberdade. Frente a essa questão da liberdade, Ribeiro (2003, p. 198) elucida: “Essa é por excelência a concepção burguesa da liberdade individual do homem: ele é livre para usar a força de seu corpo como uma máquina natural e para escolher 198 Fi lo so fia de modo soberano o que deseja para si mesmo”. Entretanto, sob quais condições ocorriam essas escolhas e de que modo poderiam ser realizadas ou não? [...] A busca da produção de ex- cedentes para a troca no mer- cado, mediante à introdução de novas técnicas de produção e de organização do trabalho, fazia desaparecer a propalada livre escolha. Afinal, como seria pos- sível o trabalhador sobreviver em uma economia de mercado, senão submetendo-se às imposições de quem detinha os recursos que o sistema exigia? Assim, o artesão, que na manufatura medieval detinha as ferramentas e uma autonomia no uso de seu tempo, desapareceu submetendo-se ao império do capital. Ocorreu, por- tanto, a separação entre o trabalha- dor e a propriedade dos meios de produção (capital, ferramentas, máquinas, matérias-primas, ter- ras). Desse modo, podemos afir- mar que a essência do sistema capitalista encontra-se na sepa- ração entre o capital e o trabalho. Essa separação criou dois tipos de homens livres: o trabalhador livre assalariado, que vivia ex- clusivamente de seu trabalho, ou seja, da venda de sua força de trabalho, e o burguês, ou capi- talista, proprietário dos meios de Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 199 produção. A novidade em relação aos modelos anteriores de socie- dade é que, a conceder a liberdade para todos os indivíduos, a socie- dade estabeleceu uma espécie de contrato social, em que ficavam definidos os direitos e deveres de cada parte. Instituía-se nesse mo- mento a divisão da sociedade em classes sociais. [...] O período da Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, foi o momento em que essa separação se consolidou. (RIBEIRO, 2003, p. 198-199) Mediante à concepção da referida espécie de contrato social, bem como as concepções de liberdade e (já que havia os direitos e deveres) e igualdade, surge a concepção de rea- lização (não mais punição, nem servidão) associada ao ato de trabalhar. (RIBEIRO, 2003). Importa, contudo, recordar a questão da incompletude humana, assim como da existência e conquista/construção do próprio ser em movimento constante, incessante; de tal modo que não há uma realização plena do indivíduo, o humano está sempre em busca de, sempre em construção, em autoela- boração, está a caminho e no caminho de si mesmo e das rela- ções que tece e pelas quais é também tecido, conforme você já estudou, nessa teia complexa que constitui a vida. Portanto, a realização plena pelo trabalho não encon- tra, necessariamente, um lugar, tanto porque não há uma realização humana plena, absoluta, total (o humano corres- ponde ao vir-a-ser, ao projeto que faz de si), quanto porque no mundo do trabalho, assim como nas expressões de consumo 200 Fi lo so fia e de lazer, as vias de alienação se tornam ainda mais latentes. Significa, então, que o encontro entre trabalho e rea- lização é nulo? Não necessariamente. A perspectiva de que não há uma realização plena, absoluta, não nega a possibi- lidade de realizações tanto individuais quanto sociais; pois, na busca pela construção de si mesmo e de sua realidade social, bem como no caminho e a caminho da felicidade, o ser humano encontra momentos de realização, realiza-se e per- manece projetando-se. Na Idade Moderna, sobretudo com a Revolução Industrial, as formas de produção pautadas tanto no fordismo quanto no taylorismo corresponderam à produção em série, de modo que trabalhadores produzissem cada vez mais em tempo cada vez menor. A noção de tempo útil faz-se presente na condição do tempo da produção. O trabalhador socialmente engajado, neste contexto, representava, portanto, uma ameaça e medidas cada vez mais pautadas em processos de alienação buscavam manter a ordem, a obediência. O trabalho repetitivo e fragmentado nas fábricas e indústrias cedeu lugar à reifica- ção do humano, ou seja, a “transformação” do ser humano em coisa, a coisificação do trabalhador, como que este, no lugar de pessoa, fosse uma extensão da máquina. Considerando que as pessoas são dotadas da habili- dade racional, que podem discernir, pensar, escolher. Como são justificadas tantas vias de efetiva alienação? Considerando ainda que os grupos que dominam (seja na esfera do traba- lho ou nas demais relações de poder) são constituídos por uma parcela menor da sociedade, como continuam a manter as vias de exploração e alienação? Mais itens para nossa lista e chegamos ao momento de, uma vez tendo conquistado os fundamentos básicos para começarmos a tecer possibilidades de respostas que, por questões óbvias, não esgotam inquieta- ções desse teor. Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 201 Querido estudante, em conjunto com essas reflexões, vamos recordar outras perguntas que constam no final da unidade anterior. Você lembra? Vamos refrescar a memó- ria: Considerando que constituímos a mesma, complexa e integrada realidade, como então é possível a exploração de uma pessoa ou grupo por outra pessoa ou grupo? Sabendo que construímos nosso ser de modo também relacional, em ambientes multiculturais, tendo ainda o olhar lançado sobre a condição humana de autoconquista e construção, com atenção aos processos de hominização, singularização e socialização, bem como as relações do sujeito com o mundo, com ele mesmo e com tempo. Como podem ocorrer as vias de alienação que chegam, infelizmente, a provocar a reificação do humano? As explorações, dominações, alienações, em esferas diversas da vida, são geralmente mantidas pelos processos ideológicos de dominação social que fazem com que todas essas circunstâncias e situações ocorram sem que, ao menos, as pessoas possam percebê-las. Uma vez não percebendo, qual necessidade haveria de buscar superá-las? Para melhor compreensão, vamos seguir com os signi- ficados de Ideologia. O termo ideologia foi difundido pelo filósofo, militar e político Destutt de Tracy (1754–1836), à época da Revolução Francesa, para significar a ciência dedicada ao estudo das ideias, sua origem e desenvolvimento. Compreendida em sentido amplo, a palavra ideo- logia significa um conjunto ou sistema de ideias, logicamente or- denado e/ou o conjunto de ideias peculiar a determinados segmen- 202 Fi lo so fia tos da sociedade. Tomando Karl Marx por referência podemos compreender a palavra ideologia em sentido mais específico. Marx significa “ideologia” como um sistema de pensamento também logicamente ordenado que, longe de ser neutro, está imbuído de instrumentos, iniciativas e dis- cursos destinados à manutenção de uma classe sobre outra, bem como dos processosde exploração e alienação. (MELO, 2007, p. 38) Por gentileza, observe que a palavra Ideologia consta de sentido amplo e sentido específico, constam também outros modos de lançar o olhar sobre a Ideologia. Aqui nosso propó- sito corresponde ao sentido específico que é atribuído à pala- vra a partir das contribuições do pensamento de Karl Marx. Esse sentido específico ou restrito é adotado hoje (inclu- sive por pensadores não marxistas) no âmbito da Política, da Filosofia, da Economia, da História, da Educação e em outras áreas do saber. É o sentido próximo aos ocultamentos da rea- lidade, às formas de mostrar mentiras como que elas fossem verdades, à manutenção de lacunas onde deveriam constar as devidas medidas explicativas e buscas de saberes, às ações e intencionalidades manipuladoras que acabam por conduzir as pessoas às atitudes e, quiçá, intenções, por sua vez, mani- puladas, infelizmente, sem que percebam (esse é um dos pila- res da ideologia) esse fenômeno social. No mundo do trabalho, especialmente no contexto moderno, a ideologia mascara as desigualdades sociais, de tal Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 203 modo que, se elas “não existem”, se “não há” exploração nem alienação, se os operários desempenham suas funções “sem” que ocorra o descompasso entre o real valor de sua força de trabalho e a remuneração atribuída, então todos estão “feli- zes” e podem seguir com a “manutenção” da “paz”. Entretanto, a contemporaneidade oferece espaço (na realidade, espaço não oferecido, mas historicamente conquis- tado/em conquista) para profissionais socialmente engaja- dos, reflexivos, críticos, transformadores, criativos. Também, entretanto, vivemos ainda (em grande proporção) os ran- ços das relações de reificação e subordinação do humano. E, sobre a paz, importa lembrar composição do Rappa “paz sem voz, não é paz, é medo!”. Para combinar com a menção à música do Rappa, uti- lizamos aqui a expressão de Ribeiro (2003, p. 203): “na razão do mercado, o medo”. Mas o medo, nesta expressão, não está apenas para os menos favorecidos e explorados pelas relações de trabalho que se configuraram na modernidade. O medo está para todos, devido à ameaça de revoluções, quando as contradições ficam mais evidentes, assim como as condições de pobreza e miséria... A máxima produtividade [...] transformava a sociedade do tra- balho em sociedade da barbárie, marcada pela luta entre o capital e o trabalho. A utopia do cresci- mento infinito, sem contradições, parecia haver atingido seu limite. Diante das tensões surgidas, as elites sustentavam a necessidade de fazer algo além da repressão e da caridade, para evitar um de- sastre social maior. [...] O próprio 204 Fi lo so fia Engels [que compartilhava e atu- ava junto às propostas e pensa- mentos de Marx], escrevendo em 1892, reconhecia algumas melho- rias nas condições dos trabalha- dores de Londres, provenientes das ameaças engendradas pela pobreza: “As repetidas epidemias de cólera, tifo, varíola e outras enfermidades indicaram ao bur- guês britânico a necessidade ur- gente de proceder ao saneamento de suas cidades, a fim de que ele e sua família não se tornas- sem também vítimas dessas epi- demias”. (RIBEIRO, 2003, p. 203-204) Por um lado, o medo da “paz sem voz [que] não é paz”, o medo provocado pelos processos de alienação e ideologia que buscam manter as submissões; por outro, o medo de ver abalada a permanência dos privilégios e, até mesmo, da vinda, frente aos riscos quanto às condições de saúde. O primeiro lado do medo aqui mencionado encontrou suas revoluções e ganhou um pouco de voz; mas, o segundo lado... Este, no lugar de voz, conquistou (conquista) grito e manteve (mantém), de modos diversos, guardadas as proporções com o contexto con- temporâneo, garantir os privilégios e impor as submissões, mantendo, dessa forma, o modelo de estrutura social atual. É inegável que tanto o taylorismo, quanto o fordismo, assim como a máxima produtividade, apresentaram suas contribuições para os processos de industrialização e modos de pensar a Administração, a Economia, as relações de poder, produção etc. Inegável. Contudo e, sobretudo, importa Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 205 o cuidado frente ao humano (não reificando-o), dedicando atenção às implicações diversas da “tirania da precisão”, dos recursos ideológicos de dominação social, dos processos de alienação. Importa o cuidado à construção do ser humano em suas relações de hominização, singularização e sociali- zação, em suas relações com o tempo, com ele próprio e com o mundo, este compreendido em suas relações complexas. Podemos caminhar junto a esse cuidado com a “ecologia do trabalho”, com perspectivas toyotistas de flexibilização da produção, com outros modos que sejam, mas só estaremos nesse caminho se não formos nem como os “operários bovi- nos” nem como aqueles que buscam manter essa prática. Sobre “operários bovinos” ou “homem-boi” “Para executar [...] tarefas pouco complexas, Taylor idealizava o operário do tipo bovino: o ‘homem- boi’, imbecil, forte e dócil. Desse modo, eliminava-se aquele trab- alhador politizado e resistente ao controle. O método, ao pretender ‘punir os indolentes’ e ‘premiar os produtivos’, ocultava o interesse na domesticação do trabalhador- cidadão”. (RIBEIRO, 2003, p. 205) Cabe, portanto, e dentre outras iniciativas, compre- ender os fundamentos necessários para superar os proces- sos ideológicos de dominação que se apresentam nas mais variadas instâncias da vida. Nesse sentido, voltemos à pers- pectiva conceitual de ideologia, seguindo com suas funções e 206 Fi lo so fia características e, estando atentas e atentos a ela, estaremos (já estamos, embora não absolutamente) em melhores vias desse caminho que não aquelas da alienação. “A ideologia é um fenômeno com- plexo que privilegia a aparência das coisas. Ela encobre ou dificul- ta o conhecimento da realidade so- cial, não nos deixando vê-la como é. [...] é um fenômeno social cheio de sutilezas. Mais que ideias que se impõem, a ideologia tem uma dimensão prática, pois ideias im- pulsionam os homens à ação e a própria ação altera as ideias que não têm autossustentação. Esse é um processo histórico, recíproco, que ocorre ao nos associarmos para garantir a reprodução da vida biológica e cultural.” (ARAÚJO, 2003, p. 145 e 149) As funções da ideologia giram, portanto, em torno da mani- pulação e dominação social. Algumas dentre essas funções são: • Assegurar as relações dos seres humanos entre si e com suas condições de existência, adaptando os indiví- duos às tarefas prefixadas pela sociedade; • Camuflar as diferenças de classe e os conflitos sociais; • Assegurar a coesão entre as pessoas; • Promover a aceitação sem críticas das tarefas mais penosas e pouco recompensadas, em nome da “von- tade Deus” ou do “dever moral” ou simplesmente como decorrente da “ordem natural das coisas”; Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e háe m n ós 207 • Manter a dominação de uma classe sobre a outra. (ARANHA; MARTINS, 1996, p. 37) Para atender a essas funções e sustentar as vias de dominação social, realizando-as e promovendo ocultações da realidade, a ideologia apresenta um conjunto que com- preende diversas características: generalização do particular, prescrição de normas, abstração, fetichização da mercadoria, lacuna ou discurso lacunar, inversão da realidade, explica- ção da realidade, alienação, naturalização, homogeneização, ocultação, representação social, universalização. Veja a seguir a descrição, conforme Araújo (2003) e Aranha (2006), de cada uma dessas características. • Generalização do particular: “a ideologia ignora as especificidades dos fenômenos sociais. Trata de forma generalizada as diferentes realidades da família, da pátria, da educação, do trabalho, ocultando as condi- ções sociais desiguais de realização dos objetivos a que os homens se propõe”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Prescrição de normas: “a ideologia prescreve nor- mas para a conduta humana e, por isso, tende a manter a ordem social”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Abstração: “na medida em que não se refere ao concreto, mas ao aparecer social. A ‘ideia de trabalho’ aparece desvirtuada da análise histórica concreta das condições nas quais certos tipos de trabalho brutali- zam, em vez de enobrecer; por exemplo, o operário na linha de montagem”. (ARANHA, 2006, p. 81) • Fetichização da mercadoria: “a mercadoria feitichi- zada exerce domínio sobre o produtor e fascínio sobre o consumidor, como se tivesse vida própria. [...] A ideolo- gia vale-se desse processo e transforma as relações entre homens em relações entre coisas”. (ARAÚJO, 2003, p. 165) 208 Fi lo so fia • Lacuna ou discurso lacunar: “há ‘vazios’, ‘partes silen- ciadas’ que não podem ser ditas, sob pena de desmascarar a ideologia; por exemplo, ao se afirmar que o salário paga o trabalho, oculta-se o fato de que o valor produzido pela força de trabalho é maior do que o recebido e que a dife- rença é apropriada pelo capitalista (é o que Marx denomi- nava mais-valia)”. (ARANHA, 2006, p. 82) • Inversão da realidade: “a ideologia detém-se nos efeitos dos fenômenos, encobrindo suas causas. Não é raro, por exemplo, as reivindicações populares por melhores condições de vida e de trabalho serem rotu- ladas como um problema de ‘falta de cultura’, ou a fome de parcela significativa da população brasileira ser explicada pela falta do hábito de plantar do nosso povo”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Explicação da realidade: “a ideologia explica o que acontece, a partir do ponto de vista dos que domi- nam. Tende a justificar posições sociais privilegiadas e impede, muitas vezes, que autoridades políticas, eco- nômicas, religiosas, científicas sejam questionadas. Nesse sentido, prevalece a opinião do deputado, do ministro, do religioso, do pesquisador, do intelectual, como porta-vozes da verdade. É o argumento de auto- ridade”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Alienação (na qualidade de característica da ide- ologia): “a ideologia produz um afastamento do pro- dutor em relação a seu produto, impedindo-o de achar significado em seu trabalho. A alienação projeta-se também, em outras dimensões da vida, instalando o conformismo e a indiferença diante de determinadas situações sociais”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Naturalização: “a ideologia naturaliza as ações Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 209 humanas, como a discriminação contra índios, por exemplo, para que aceitemos as desigualdades sociais e justifiquemos o fato de “sempre” ter existido vio- lência contra eles. Aponta a verdade como inscrita na ordem das coisas, considerando uma ordem natural de acontecimentos em detrimento do processo histórico”. (ARAÚJO, 2003, p. 165) • Homogeneização: “a ideologia homogeneíza a apa- rência das classes sociais originalmente dividida em razão do antagonismo de interesses no processo de produção e de repartição dos bens. A ideologia apre- senta-nos uma realidade sem conflitos e sem contradi- ções”. (ARAÚJO, 2003, p. 165) • Ocultação: “a ideologia prima por ocultar o verda- deiro conhecimento da realidade. Dada a inter-relação de suas características, a ideologia tende a esconder as intenções predominantes nas ações, mascarando a existência de contradições na convivência social. Assim, ela é parcial, deixa opaca a realidade e auxi- lia a dominação. A ideologia escamoteia a essência dos fenômenos, deixando ver apenas sua aparência”. (ARAÚJO, 2003, p. 165) • Representação social: “a ideologia tem a capaci- dade de representar a realidade, criando imagens e conceitos que dão significado às relações sociais obje- tivas. Ela trabalha com símbolos e criações mentais. Um exemplo é a concepção de pátria-mãe, que conota proteção e amparo a todos os cidadãos, como se não existissem diferenças de tratamento e assistência aos problemas sociais”. (ARAÚJO, 2003, p. 164) • Universalização: “as ideias e os valores do grupo dominante são estendidos a todos; por exemplo, 210 Fi lo so fia apesar dos interesses divergentes, o empregado adota os valores do patrão como se fossem também os seus”. (ARANHA, 2006, p. 82) Reunindo a compreensão dos saberes aqui elucida- dos à ação que almeja emancipação, autonomia, engajamento crítico e social, bem como às posturas filosóficas e éticas, podemos conquistar acessos à superação das alienações e dominações e colocamo-nos dispostas e dispostos à apren- dizagem constante que constrói nosso ser de modo também relacional, criamos caminhos, trilhamos caminhos, compar- tilhamos caminhos e neles o nosso modo peculiar, genuíno, humano de tecer e ser tecido junto aos ambientes que passa- mos e ao ser que escolhemos elaborar em nós. Desejamos a você a disponibilidade constante às (re) descobertas e agradecemos por sua parceria e companhia ao longo dos diálogos que constituímos. Sabendo que mais que leitores, mais que autores, mais que graduandas e graduan- dos, mais que pessoas dedicadas à Filosofia, habitamos todos sobre esse espaço maior que é a nossa “casa”, sem promover as desigualdades, cultivamos as diferenças “simplesmente” porque compreendemos tanto a beleza quanto a responsabili- dade peculiares ao movimento de construção de quem somos e construção de como escolhemos a humanidade, seguindo em prol de dias melhores, de modo não ingênuo porque crí- tico, reflexivo, socialmente engajado. Mas de modo nutrido e movido pela esperança. Abraços afetuosos e fraternos! Sín t eSe Trabalho, ideologia, alienação, tempo útil, tempo ocioso, produção, transformação, ética, moral etc. Ao longo Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 211 de nossas unidades, essas e outras tantas temáticas foram evi- denciadas e postas à luz da reflexão filosófica com um único intuito, um único objetivo, nos tornarmos seres humanos, verdadeiramente humanos, sujeitos participantes, críticos e reflexivos, frente aos desafios postos no próprio existir, que consigamos todos reconhecer as diferenças e assim pautar- mos nossas ações em um sentido de promoção da qualidade de vida. Não se trata de uma tentativade velamento das dificuldades, mas, muito ao contrário, é urgente que tomemos consciência para realizarmos uma revolução comportamen- tal, harmonizar e não homogeneizar, preservar e não suplan- tar. qu eStõeS pa r a r eflex ão 1. Em que consiste o processo de alienação e quais relações estabelece com ideologia e o mundo do trabalho? 2. Escolha um dentre os itens a seguir e elabore sobre ele um comentário explicativo, relacionando-o com a sociedade atual. • Reificação • Tirania da precisão • Ocultação da realidade lei t u r aS i n dica daS DE MASI, D. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. DE MASI, D.; FREI BETTO. Diálogos criativos. Mediação e co- mentários: José Ernesto Bologna. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. SANTOS, B. S. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna. 5. 212 Fi lo so fia ed. Rio de Janeiro: Graal, 2010, 176 p. ______. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modern- idade. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2006, 348 p. Si t eS i n dica doS http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/marx---alien- acao-do-espirito-absoluto-de-hegel-a-realidade-concreta.htm http://www.senac.br/BTS/321/bts32_1-artigo1.pdf http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0019.asp http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/c_deak/ CD/4verb/ideolog/index.html r ef er ênci aS ARAÚJO, S. M. As várias faces da ideologia. In:______ et al. Para Filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2003, p.p 145-172. ARANHA, M. L. A. Alienação e Ideologia. In: ______. Filoso- fia da Educação. São Paulo: Moderna, 2006, p. 75-88. ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: in- trodução à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996. COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. DE MASI, D. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na socie- Id eo lo gi a, a lie na çã o e tr ab al ho : u m a re fle xã o tr ip ar ti te e m pr ol d a re co nq ui st a do h um an o qu e há e m n ós 213 dade pós-industrial. 9. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. MAIA, I. Mudanças. In: JANSEN, C. et al. Bahia: Poetas do Recôncavo. Salvador: Know How Editora, 2003. MARCONI, M. A.; PRESOTTO, Z.M. N. Antropologia: uma introdução. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MELO, N. M. Trabalho e Pessoa Enquanto Existência Relacio- nal/Potencial. In: ARAÚJO, A.; MELO, N. M. ; RIBEIRO, V. P. Filosofia, Ética e o Mundo do Trabalho. Salvador: FTCEaD, 2007. RIBEIRO, L. C. Trabalho e Realização. In: ARAÚJO, S. M. et al. Para Filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2003, pp.193-222. SANDRONI, P. Dicionário de Economia do Século XXI. 2. ed. Rio