Receituário Agronômico
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Receituário Agronômico


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Receituário Agronômico 
 
Prof. Jair Campos Moraes 
 
CAPÍTULO 1 
 
Introdução ao Receituário Agronômico 
 
1.1. Histórico 
 
 A comercialização de produtos fitossanitários vinculada a uma receita agronômica é 
uma exigência legal ou prática recomendada em muitos países há algum tempo. Como 
exemplo pode-se citar que na Califórnia, EUA, em 1978, já existiam cerca de 2.800 
agrônomos credenciados a autorizarem a venda de produtos fitossanitários. No Brasil, tal 
medida tornou-se obrigatória desde 11 de julho de 1989, data da publicação da Lei Federal 
no 7.802. 
 Entretanto, desde o início da década de 70 as preocupações com o uso 
indiscriminado de produtos fitossanitários eram motivo de discussões, em razão do 
crescente número de ocorrências de acidentes com agricultores e agressões ao ambiente 
registradas no nosso país, especialmente no Rio Grande do Sul. Esse fato motivou uma 
recomendação de restrição a vendas de produtos fitossanitários na \u201cI Convenção Regional 
do Centro de Estudos de Toxicologia do Rio Grande do Sul\u201d realizada em 3 de agosto de 
1974. Nela os convencionais propunham um sistema de bloqueio regional para produtos 
fitossanitários altamente tóxicos ou persistentes e a comercialização desses através de 
receita agronômica assinada por um agrônomo. 
 No ano seguinte, 1975, durante o \u201cSimpósio sobre Toxicologia dos Pesticidas e 
Envenenamento Ambiental\u201d, organizado pela Sociedade de Agronomia do Rio Grande do 
Sul, foi ratificada a necessidade de implantação do Receituário Agronômico para a venda 
de pesticidas. Já em 1976, foi apresentado um trabalho que relatava a experiência posta em 
prática, e com sucesso, pela Associação dos Engenheiros Agrônomos do Nordeste do Rio 
Grande do Sul, na qual obteve-se uma redução no uso de produtos fitossanitários, na região 
de Santa Rosa (RS), pela venda controlada (pela cooperativa), através de prescrição técnica. 
 Em 1977, o Conselho de Desenvolvimento Agropecuário do Rio grande do Sul 
recomendou a implantação do Receituário Agronômico naquele estado. Atendendo a essa 
recomendação, o Banco Central do Brasil, através da \u201cCarta Grupal no 2.697\u201d, determinou 
que as verbas destinadas aos tratamentos fitossanitários somente fossem liberadas mediante 
a apresentação da receita agronômica. Estava, dessa forma, implantado de fato o 
Receituário Agronômico no Estado do Rio Grande do Sul. Contudo, somente em 1989, 
como mencionado anteriormente, foi publicada uma lei federal tornando obrigatório o 
Receituário Agronômico em todo o território nacional. 
 Dentre as vantagens da adoção do Receituário Agronômico, podem-se destacar: 
a) Contribuição para uma maior conscientização do uso de produtos 
fitossanitários; 
b) valorização do meio ambiente, com medidas efetivas para protegê-los; 
c) facilitar a adoção do manejo integrado de pragas (MIP), processo que 
envolve a condução de cultura supervisionada; 
d) indução ao emprego de produtos fitossanitários mais seguros e mais 
eficientes; 
e) criação de um corpo de assistência técnica de alto nível, valorizando a 
classe; 
f) criação de novas condições para uma comunicação mais efetiva entre 
técnicos e agricultores; 
g) permissão para maior rigor nas fiscalizações dos problemas de ordem 
toxicológica. 
Os conceitos fundamentais do Receituário Agronômico, resumidamente, são: 
a) Busca da origem do problema fitossanitário com vista a atingi-lo com o 
máximo de eficiência e o mínimo de insumos; 
b) exige do técnico (Engenheiro Agrônomo ao Florestal) conhecimento 
profissional para que se possa realmente atingir os objetivos a que se 
propõe; 
c) impõe e assume toda a responsabilidade profissional, em toda a sua 
amplitude, através de seu documento base; a receita agronômica; 
d) é antes de tudo uma metodologia de trabalho a ser seguida por quem atua 
na área fitossanitária. Não confundir Receituário Agronômico com 
receita agronômica; a receita é apenas o instrumento final de todo o 
processo desenvolvido, envolvendo características técnicas e éticas. 
 
 
1.2. Legislação 
 
 A Lei 7.802, de 11 de julho de 1989, posteriormente regulamentada pelo Decreto no 
98.816, de 11 de janeiro de 1990, também conhecida como a \u201cLei dos Agrotóxicos\u201d, é 
bastante abrangente, pois trata da pesquisa, experimentação, propaganda comercial, 
utilização, comercialização, fiscalização, etc., até o destino final dos resíduos e embalagens. 
Além disso, prevê penalidades a todos os segmentos envolvidos em atividades agrícolas 
que promovam danos ao meio ambiente e à saúde humana. 
 Após a promulgação dessa Lei Federal, foram publicadas Leis Estaduais, Leis 
Municipais, Resoluções e Normas de Entidades de Classe (CREA, CONFEA), visando à 
adequação dos diferentes setores à nova legislação vigente. No Estado de Minas Gerais, por 
exemplo, foi publicada a Lei no 10.545, em 13 de dezembro de 1991, regulamentada pelo 
Decreto no 33.945, em 18 de setembro de 1992, que trata desse assunto (Receituário 
Agronômico). 
 É importante ressaltar que as leis devem ser consultadas no caso de dúvidas, e, 
principalmente, respeitadas. Dessa forma, neste capítulo serão feitos, a seguir, apenas 
comentários ou citações de alguns pontos fundamentais (artigos completos ou apenas 
parágrafos e/ou incisos) do Decreto no 98.816 (Anexo1): 
A) Os principais conceitos desse Decreto podem ser encontrados no artigo 2o, no 
qual foram destacados: 
 Art. 2o - Para os efeitos deste Regulamento, entende-se por: 
 VII - comercialização - a operação de comprar, vender, permutar, ceder ou repassar 
os agrotóxicos, seus componentes e afins; 
 IX - utilização - o emprego de agrotóxicos e afins, através de sua aplicação, visando 
a alcançar uma determinada finalidade; 
 XII - resíduo - a substância ou mistura de substâncias remanescentes ou existentes 
em alimentos ou no meio ambiente, decorrente do uso ou não de agrotóxicos e afins, 
inclusive qualquer derivado específico. Tais como produtos de conversão e de degradação, 
metabólitos, produtos de reação e impureza, considerados toxicológica e ambientalmente 
importantes; 
 XV - registro de empresa e de prestador de serviços - o ato privativo dos órgãos 
competentes estaduais, municipais e do Distrito Federal, concedendo permissão para o 
funcionamento do estabelecimento ou unidade prestadora de serviços; 
 XVI - classificação - a diferenciação de um agrotóxico ou afim em classes, em 
função de sua utilização, modo de ação e potencial ecotoxicológico ao homem, aos seres 
vivos e ao meio ambiente; 
 XX - agrotóxicos - os produtos químicos destinados ao uso nos setores de produção, 
no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de 
florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, 
hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim 
de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como as 
substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e 
inibidores de crescimento; 
 XXI - componentes - os princípios ativos, os produtos técnicos, suas matérias-
primas, os ingredientes inertes e aditivos usados na fabricação de agrotóxicos e afins; 
 XXII - afins - os produtos e os agentes de processos físicos e biológicos que tenham 
a mesma finalidade dos agrotóxicos, bem como outros produtos químicos, físicos e 
biológicos utilizados na defesa fitossanitária, domissanitária e ambiental, não enquadrados 
no inciso XX; 
 XXIII - agente biológico de controle - o organismo vivo, de ocorrência natural ou 
obtido através de manipulação genética, introduzido no ambiente para o controle