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1 aarrttaauudd ee oo sseeuu dduupplloo rriiccaarrddoo ffeerrrreeiirraa ddee aallmmeeiiddaa 2 3 Personagens ANTONIN ARTAUD DOUTOR FERDIERE Tempo da acção 1943/1946 Pós II Guerra Mundial A 11 de Fevereiro de 1943, Antonin Artaud é admitido no Hospital Psiquiátrico de Rodez, extremamente magro, sujo, desdentado e saído de uma sucessão errante de internamentos que durante seis anos o conduziram de Rouen a Sainte-Anne, em Paris. Os seus amigos surrealistas Robert Desnos e Paul Eluard, confiaram-no ao doutor Gaston Ferdière. Este psiquiatra, próximos dos surrealistas e director do Hospital Psiquiátrico, acolheu Artaud, ministrando-lhe uma série de choques eléctricos, prática conhecida por terapia electro- convulsiva. A peça Artaud e o seu duplo dá uma visão dos anos vividos por Antonin em Rodez, recuperando algumas das suas cartas e textos originais e estreou em Vila Real pela mão da A TROUXA MOUXA TEATRO, com Tiago Pires como Artaud e Gilmar Albuquerque como Ferdiere. A encenação foi de Marlene Castro. 4 5 1. ARTAUD São quase quatro da manhã e não consigo dormir! Deve ser da mudança de hora… e desta chuva teimosa e incansável… ping ping ping… estou farto! Com esta idade sinto-me só, profundamente só, e aquela esperança que tinha aos dez anos de idade, esfumou-se. Não me lembro de me ter visto assim, sonâmbulo. Será que são lombrigas? Excesso de alguma coisa? Ou a alma que se vai recompondo e formulando novos presságios: estarei careca aos 50 anos? (silêncio) O acaso das horas transmite tão facilmente as horas… e é a prova que a magia é real. Quando tinha dez anos de idade, tinha os olhos azuis e sabia o que era o azul. Sabia o que havia nas mãos dos pobres e sentia cada vértebra estalar quando esticava o pescoço para perceber o número de pássaros pendurados nas mansardas. Tinha mais que um pescoço para olhar para trás e ficar aceso com os olhos em água. Dantes eu sabia que deitar as palavras ao chão era incriminar as tentativas de viver e só isso bastava para que os peixes apanhassem um nome que eu lhes punha. Jogava ao berlinde e sentia o sol a saber a cerejas. Bronzeava-me com lençóis, chuva e malmequeres. Agora, estou despojado de tudo. De ninfas na cerveja, do onírico respirar da plateia. Um homem repleto de nada. Descoberto como um caracol à geada. FERDIERE (entrando) Bom dia! Como se sente hoje? ARTAUD Descoberto, como um caracol na geada. FERDIERE Tem frio? ARTAUD Sim, bastante. FERDIERE Podemos resolver isso de imediato. Quer que mande aumentar a temperatura do quarto? ARTAUD Não é necessário, obrigado. FERDIERE Talvez mais um cobertor? ARTAUD Não é necessário, obrigado. FERDIERE Mas não sente frio? ARTAUD Não é esse frio a que me refiro. FERDIERE É aquele ao qual eu me refiro? 6 ARTAUD Não. É um frio cultural. FERDIERE Sente-se desenraizado? Não podemos trazer para cá ninguém da sua família ou algum dos seus amigos. Vai ter de se habituar a viver assim, nestas condições. ARTAUD Não me refiro à minha família quando digo que sinto frio. Ela pouco pode fazer em relação a isso. FERDIERE Então, temo que não o tenha estado a perceber desde o início. Explique-se melhor, se puder. ARTAUD Sinto frio, e isso não passa apenas pelo mau estar físico. Prolonga-se ao resto do corpo, penetra as entranhas e atinge a alma. Se acaso ainda a tiver. FERDIERE É uma certeza ou apenas uma desconfiança? ARTAUD É uma forma que encontrei para mim próprio para explicar e aguentar este desterro forçado. FERDIERE Tem consciência daquilo que está a dizer? ARTAUD Sim, perfeitamente. Já perguntou a um prisioneiro se gosta de estar na sua cela? Pergunte-lhe e verá! Aposto que não… mas é uma suspeita, apenas e nada mais… FERDIERE Não tenha assim tanta certeza disso. Tem escrito? ARTAUD Pouco. FERDIERE O que é que tínhamos combinado? Esqueceu-se… ARTAUD Não preciso escrever, tenho tudo na cabeça. FERDIERE Pois, ainda bem. Mas não perca isso, escreva. ARTAUD Não perco. Só se me arrancarem a cabeça. FERDIERE Ainda à volta do teatro? ARTAUD Sim. FERDIERE O quê? 7 ARTAUD Pensei num manifesto. FERDIERE Costumam ser interessantes. ARTAUD Alguns. FERDIERE Diga-me, considera o seu manifesto interessante? ARTAUD Considero-o um protesto. FERDIERE Um protesto… Contra quem? ARTAUD Um protesto contra uma concepção de cultura distinta da vida, como se de um lado estivesse a cultura e do outro a vida. Como se a verdadeira cultura não fosse um meio sublimado de compreender e exercer a vida. FERDIERE Complementam-se uma à outra, quer dizer? ARTAUD Sim. FERDIERE Tem andado a pensar muito nisso? ARTAUD Sim. FERDIERE E em teatro, simultaneamente? ARTAUD O teatro é como a peste. É um delírio comunicativo. Não consigo fugir dele. FERDIERE Gosto muito de o ouvir falar sobre teatro, e concordo em parte com as suas concepções de popularização da cultura. ARTAUD Desculpe-me, mas está errado. Não falei em popularização da cultura mas sim na percepção que a cultura deve ser ela própria arte. FERDIERE Para muitos é impossível. ARTAUD Para muitos a impossibilidade é arte. Não ter o que se quer pode desembocar numa obra de arte. A ausência e a sua consciência podem ser arte. FERIDERE 8 A consciência da ausência poderá ser arte, mas quando se populariza a arte em demasia, não se corre do risco dela ser canibalizada pelo povo? ARTAUD O povo precisa de comer, tanto a arte como sopa. Se uma alimenta a outra educa. São dois géneros de alimento para a alma. FERDIERE Não está mal pensado. Quando sair daqui poderá, melhor que ninguém, aplicar na prática tudo aquilo que defende. ARTAUD Há alguma esperança em sair daqui? FERDIERE Isso apenas depende de si. O que quer fazer? ARTAUD Em relação à minha presença neste hospital? FERDIERE Sim. ARTAUD Quero sair. FERDIERE (rindo) Sente-se mal em Rodez, então? ARTAUD Eu sinto-me óptimo. Mas você é que não acha que me sinto assim e não assina os malditos papéis para que eu possa ir embora daqui. Eu sinto-me melhor, se quer saber. FERDIERE Pois claro… ARTAUD Pois claro… diz sempre isso… gostava que assumisse tudo o que me está a fazer! FERDIERE Seja mais concreto por favor. ARTAUD Seja mais concreto, seja mais concreto… sempre a mesma coisa… ser mais concreto… FERDIERE Custa-lhe ser mais concreto, só um bocadinho mais? ARTAUD Você é um dos responsáveis por isto tudo! Entrou na engrenagem da maquinação da minha suposta loucura. Eu não sou louco! Já o disse milhares de vezes a tantos outros como você que me confundiram com um louco. Eu não o sou! Eu não sou o louco que procuram! FERDIERE Sim, você não é louco… pode estar um pouco perturbado com tudo o que lhe aconteceu nestesúltimos anos, mas tenho me esforçado por provar a sua sanidade. Veja só. Quando cá 9 chegou, a 11 de Fevereiro de 1943, pesava 55 quilos, estava desdentado, sujo e hirsuto. Veja como engordou e como está. Você vai melhorar! ARTAUD Como choques eléctricos? Diga-me como é que hei-de melhorar com choques eléctricos? Repare na minha mão. Conseguia mexe-la de trás para a frente, girava-a sobre o pulso. Como esta. Está morta graças aos choques eléctricos dados por si! FERDIERE Você mostrava evidentes sintomas de delírio. ARTAUD Como chegou a essa conclusão? FERDIERE Analisando tudo aquilo que escrevia. ARTAUD Aquilo que você me incentivava a escrever! FERDIERE Sim. Eu incentivava-o a escrever. Mas de um pedaço da sua arte evoluiu para um campo de delírio que me cabia mitigar. Lembra-se disso? ARTAUD Não me consigo lembrar de nada. Fiquei apenas com este corpo, esta mão doente… a perder cabelo e a memória… mas continuo saudável… e você é o único que não quer ver que eu melhorei! FERDIERE Digamos que as últimas indicações são positivas… mas não quero com isto dizer que esteja completamente recuperado. Não está. ARTAUD Mas posso vir a estar e voltar ao princípio, recomeçar tudo de novo no teatro. O teatro é o lugar onde se refaz a vida, ouça bem isto. E depois eu irei dizer-lhe quem é que está louco! FERDIERE Gosto de o ver falar assim. ARTAUD Não seja cínico. Estou farto disso. Da sua hipocrisia, da forma como tolera aquilo que eu digo e penso. Está a roubar tudo para si! FERDIERE Não roubo nada para mim e muito menos estou a ser cínico. Gosto que escreva. ARTAUD Para depois encontrar em cada figura, em cada metáfora, em cada letra de cada palavra um pedaço da minha loucura? Não. Prefiro estar calado… Além disso, desconfio que você usa as minhas coisas em proveito próprio. FERDIERE Como é capaz de dizer uma coisa dessas? Eu sou o clínico responsável por si. 10 ARTAUD Você é um cínico irresponsável, que me quer ver morrer, que quer ver morrer o teatro que eu trago dentro de mim. Ouvi na rádio que numa tertúlia falavam do teatro e da peste… FERDIERE Uma coincidência… você falou nisso há pouco, não falou? ARTAUD Foi, por acaso falei… e por acaso, você estava ai quando eu falei nisso… só por acaso… FERDIERE Você não detém a exclusividade dos pensamentos à volta do teatro… ARTAUD Claro que não, mas é no mínimo estranho que estando eu aqui preso os meus pensamentos circulem lá fora! FERDIERE Agora vou reagir… está a ser incorrecto e isso não lhe admito! ARTAUD Não me mace com a correcção. Não tem moral para falar disso! Quero sair daqui, quero respirar o ar de Paris! Quero respirar o ar de Paris… FERDIERE Quando melhorar irá sem duvida respirar… inspirar e expirar… inspirar e expirar… metodicamente… inspira, expira… acalme-se. ARTAUD Não posso acalmar-me! Eu quero ir embora! Eu quero passear nas ruas de Paris! FERDIERE Acalme-se! Enfermeira! Enfermeira! 2. ARTAUD (escrevendo) Tal como a peste, o teatro é um terrível apelo às forças que impelem o espírito, pelo exemplo, para a fonte originária dos conflitos. Se o teatro essencial se compara à peste não é por ser contagioso mas por, tal como a peste, ser a revelação, a apresentação, a exteriorização dum profundo intimo de crueldade latente, por meio da qual todas as potencialidade perversas do espírito, quer de um individuo, quer de um povo, são localizadas. Assim como a peste, o teatro é o tempo do mal, por excelência, o triunfo dos poderes obscuros que são alimentados por um poder ainda mais profundo, até à extinção. O teatro contemporâneo é um teatro decadente porque perdeu, por um lado, o sentido do sério e, por outro, o do riso: porque abdicou da sisudez e de efeitos que são imediatos e dolorosos, numa palavra, porque abdicou do perigo. Porque perdeu o sentido do verdadeiro humor, o sentido do poder de desintegração física e anárquica que há no riso… Porque perdeu o sentido do verdadeiro humor, o sentido do poder de desintegração física e anárquica que há no riso… (riso descontrolado) FERDIERE 11 Esteve a escrever? ARTAUD Sim. FERDIERE Pode mostrar-me? ARTAUD Não sei se deva. FERDIERE Por pudor literário ou existe outra razão? ARTAUD Por medo aos choques eléctricos. FERDIERE Oh… vá lá… não esteja receoso… ARTAUD Não vou mostrar… FERDIERE Está bem, não mostre. Mas previno-o que assim se torna mais difícil fazer um diagnóstico correcto da sua situação clínica. ARTAUD Não me interessa. Diga-me uma coisa: com que intenção retiraram todos os relógios daqui? FERDIERE Isso preocupa-o? ARTAUD Deixa-me intrigado… os vossos planos, para além de alienarem a noção de espaço, também passam pela ocultação do tempo? FERDIERE O tempo só preocupa ainda mais as cabeças em agonia. Não bastam os sedativos. Há que retirar os relógios e qualquer contacto com a sua marcha. ARTAUD A minha cabeça não está em agonia… FERDIERE Talvez sim, ou talvez não. Quem o pode saber? ARTAUD E este cheiro… é premeditado também? FERDIERE Temos de manter a máxima assepsia do local. ARTAUD Este cheiro… não saber as horas… não consigo escrever, se é que lhe interessa saber. FERDIERE Nem uma linha? 12 ARTAUD Nem isso. FERDIERE De certeza que escreveu uma linha, pelo menos uma. Não o acho capaz de desistir de uma linha. Uma simples linha, não escreveu? ARTAUD Não escrevi. Nada. FERDIERE E os seus sonhos? Tem sonhado? ARTAUD Não tenho sonhado. FERDIERE Não seja assim. Toda a gente sonha. Você deve ter tido os seus sonhos, por mais esquisitos que lhe possam parecer. Vá, deite tudo cá para fora, eu escuto. ARTAUD Não sonho. FERDIERE Quer falar de teatro então? Gosto de o ouvir falar de teatro. Se bem se lembra, fui eu que impulsionei essa sua faceta, que acho simultaneamente estranha e extremamente criativa. Vamos falar de teatro, vá! ARTAUD Você não iria entender o meu ponto de vista. Tudo o que eu digo é doença, delírio… a minha suposta loucura… FERDIERE Não. Como me pode acusar de uma coisa dessas? Escute: eu estou aqui para o ajudar, só para o ajudar. Vá, fale, não tenha receio. Você que fala tanto na crueldade está a ser cruel agora, com todos esses joguinhos… ARTAUD Sem um elemento de crueldade como fundamento de todo o espectáculo, não é possível haver teatro. FERDIERE Não estamos propriamente numa sala de um teatro… ARTAUD Cale-se! No estado de degenerescência em que nos encontramos, é através da pele que se fará penetrar de novo a metafísica nos espíritos. FERDIERE Bravo! Conseguiu! Excelente frase. Pode repetir? ARTAUD Reagi a uma provocação sua, nada mais. FERDIERE 13 Reagiu mas com conteúdo! Respondeu muito bem! Agora vou reagir eu: parabéns! ARTAUD Está a brincar comigo? FERDIERE Não estou nada. Gostei dessa ideia de teatro, parabéns… embora me pareça um pouco incipiente a ideia… ARTAUD Um pouco, talvez… FERDIERE Mas folgo em saber que continua a escrever. Acertei? ARTAUD Se isso o deixa feliz, eu confirmo. Escrevo regularmente. FERDIERE Deixa-me feliz. E você, não é feliz? ARTAUD Porque pergunta isso? FERDIERE Não é feliz? A escrever? ARTAUD Isso não interessa agora. Além disso, o que lhe interessa a minha felicidade? FERDIERE Interessa e muito. Não é feliz? ARTAUD Pois se lhe interessa, não! Não sou feliz. FERDIERE O que lhe faz falta? ARTAUD A minha solidão neste quarto faz-me querer ser ainda mais que issoque você quer que eu seja. Encarar os outros é a primeira parte da minha terapia. Olhar as plantas, daqui de cima, completa a locução diária que a mim mesmo lembro. Sinto que estou a morrer. Dói-me o estômago e a cabeça e sei que são os primeiros sinais que a morte se aproxima. Já foram os primeiros sinais desta doença. FERDIERE Não diga asneiras! Você vai sair daqui, são e salvo. Quando estiver curado… ARTAUD Como se você me quisesse deixar sair daqui… FERDIERE Sai, um dia sai. ARTAUD E você? Como é sua vida lá fora? 14 FERDIERE Desculpe? ARTAUD Ouviu muito bem. Perguntei-lhe sobre a sua vida lá fora, longe deste hospital. FERDIERE Faz questão que eu lhe responda? ARTAUD Porque é que responde às minhas perguntas com outra pergunta? Concentre-se naquilo que digo e responda! FERDIERE Não se zangue. O que quer saber de mim? ARTAUD Comece pelo mais vulgar. FERDIERE O mais vulgar… tomo o pequeno-almoço as sete da manhã. Depois venho para aqui. Almoço as treze horas e lancho as dezassete. Janto, invariavelmente, as vinte horas. Tenho dois filhos. O mais velho é recruta e a mais nova ainda estuda. Diz que quer seguir os passos do pai. Outra psiquiatra na família! ARTAUD E a sua mulher? Não tem mulher? FERDIERE Interessa-lhe saber se tenho mulher? ARTAUD Interessa. FERDIERE Acha interessante para a nossa conversa saber se eu tenho mulher? ARTAUD Não acho nada interessante é responder com perguntas. Eu faço o mesmo, assim. Não quer falar sobre a sua mulher? FERDIERE Acha que eu estou a fugir à questão? ARTAUD Acha que eu não estou a dar conta que sim? FERDIERE Não tenho mulher. ARTAUD Não tem presentemente ou nunca teve? FERDIERE Nunca tive. Menti quando disse que era casado. Sou viúvo. ARTAUD 15 Viúvo? E os filhos? São de quem? FERDIERE O primeiro da minha primeira mulher. O segundo, da segunda. ARTAUD Nunca mais as viu desde então? FERDIERE Nunca mais as vi. ARTAUD Acabaram assim o relacionamento, sem mais nem menos? FERDIERE Mais complicado que isso. ARTAUD Complicado? FERDIERE Sim, bem mais. ARTAUD Como? FERDIERE Suicidaram-se, as duas. ARTAUD As duas? Uma de cada vez? FERDIERE Sim. ARTAUD Isso é que é ter sorte. Desculpe a ironia. FERDIERE Está desculpado pelo seu inocente cinismo. ARTAUD Mas deixe que lhe diga que não me admira nada o suicídio de ambas. FERDIERE Ai sim? ARTAUD Sim. FERDIERE Porque diz isso? ARTAUD Você é detestável. Nem sei como os seus filhos aguentam cheirar o mesmo ar que você respira. FERDIERE Está a dizer que cheiro mal? 16 ARTAUD Estou, cinicamente. E cinicamente olho para a sua figura e concluo que o doente, o psicótico, é você e não eu. FERDIERE Acha que “sou” ou que tenho alguma doença? ARTAUD Acho que você é um doente, mais ainda que eu. Nunca ninguém se suicidou por ter estado em contacto comigo. Consigo sim, duas pessoas. FERDIERE Espero que você não se suicide, então. ARTAUD Não lhe darei esse prazer, de arrastar o meu corpo frio por estes corredores desumanizados, como já vi muitos, os que estiveram fechados nas celas. Quando morrer, o meu corpo irá cheirar a rosas e a erva de Paris. Sabe a que cheira Paris? FERDIERE Diga me você. ARTAUD Paris cheira aquilo que nos quisermos que cheire, como qualquer cidade, vila ou rua. A verdade, a beleza está em nós. Somos nós que inventamos os cheiros, a arte, o teatro… FERDIERE Sempre a representar… ARTAUD Sempre a poesia… FERDIERE Não está em nenhum palco… ARTAUD Não é preciso estarmos em cima de um palco para haver teatro. Suprimimos o palco e a sala que são substituídos por um local único, sem barreiras. Há uma comunicação directa entre o espectador, você, e o espectáculo, eu e aquilo que digo e faço. Você está colocado no meio da acção, é envolvido por ela e afectado. FERDIERE Pois… ARTAUD Neste palco, você faz várias coisas, age… FERDIERE Naturalmente… ARTAUD Então, diga lá: porque razões se suicidaram as suas duas mulheres? Nojo? Partilha do mesmo espaço? Aposto que você nem sabe foder e elas, frustradas, suicidaram-se. Você não chegava para elas… nem para uma, nem para outra… 17 FERDIERE Cale-se. ARTAUD E além disso era pérfido. FERDIERE Não sou nem nunca fui pérfido. ARTAUD É isso, você matou-as com a sua perfídia… Estou a imaginar a cena: luzes foscas, música miserável de burguês, cortinados a condizerem com a cor das paredes da sala… você chega a casa e pergunta “O jantar está pronto?” e ela responde “Ainda não tive tempo.” Então você diz “Quero jantar, estou estafado!” e ela responde “Estou no banho, espera!”. Então, tomado por uma raiva, a raiva que acumula há tantos anos por não conseguir compreender a vida, dirige- se à banheira, amordaça-a, prende-a e enche a banheira de água a ferver, obrigando-a a manter-se dentro dela com uma faca encostada à garganta! Quando ela sai da banheira, as queimaduras moldam-lhe o corpo e só lhe apetece morrer de ódio e vergonha! Então, a faca descuidada no lavatório serve para o suicídio, e você vê-a a cortar os pulsos dentro da banheira, enquanto a carne e o sangue cozem juntos naquela panela branca da desumanidade… FERDIERE Cale-se! Não fui assim cruel! ARTAUD Uma imagem de teatro obedece a todas as exigências da vida…você matou as suas mulheres! Você é um demente lunático! FERDIERE Você está louco! Eu não as matei, elas suicidaram-se! ARTAUD Não, você é que é louco! Elas suicidaram-se porque não o aguentam por perto, a espreitar tudo o que se faz ou diz! FERDIERE Você é um filho da puta cruel! ARTAUD Sem um elemento de crueldade, não é possível haver teatro! É através da pele que se fará penetrar de novo a metafísica nos espíritos! Este hospital é o meu palco! FERDIERE Enfermeira! Enfermeira! Blackout. Luz em Ferdiere. Artaud tombado no chão. FERDIERE 18 Artaud acusa-me de ser um bárbaro, e todos os cuidados médicos que teve neste hospital foram objecto de mil reclamações. Sofre de delírio parafrénico de tipo alucinatório, além de ter uma história de consumo de ópio, láudano e mescalina. Porra, ele almoçou em minha casa, na minha mesa! A minha mulher foi um anjo de paciência! Convidar uma pessoa como estas que não se sabe comportar à mesa, que arrota e se peida constantemente não é muito agradável. Administrei muitos choques eléctricos na minha vida. Devo ser responsável por cerca de quatrocentos mil, directamente ou indirectamente, ordenados aos meus médicos subordinados ou nas clínicas onde dava consultas. Todos os psiquiatras o fazem, pois é preferível combater com choques eléctricos uma crise de melancolia que pode desembocar em suicídio. É preferível fazê-lo a dar ansioliticos ou soporíferos, em doses muitas vezes perigosas. 3. FERDIERE Bom dia! Cá estou eu de novo! Não fala? Está muito calado hoje. Vá, vamos lá a falar. Já ontem esteve assim o dia todo, apesar de ter passado bem a noite. A enfermeira avisou-me disso assim que cheguei. Não sei o que se passa consigo. Julgo que as doses estão a ser administradas correctamente, não há nenhum erro na prescrição nem me parece que o diagnóstico tenha sido feito levianamente. Se prefere manter esse silêncio por teimosia, o problema é seu e apenas seu. Mas aviso-o que deve começar a tomar consciência dos seus actos. É para seu próprio bem. Não quer falar, está visto. ARTAUD Você está louco… e não eu… nem mesmo todos aquelesque passaram pelas suas mãos. Você é o único doente neste hospital. FERDIERE Persiste em negar a sua patologia. Isso não leva a lado nenhum. Tem de admitir a sua doença. É o primeiro passo para a cura. ARTAUD A partir de hoje não admito nada na sua presença. Tire as conclusões que tirar, mas eu não admito mais nada. FERDIERE É pior para si. Enquanto não der ordem, você não sai daqui. ARTAUD Você não me mete medo. FERDIERE Você também não me mete medo nenhum. E digo-lhe mais, baterei palmas quando o enterrar e estarei atrás de si a tocar a sineta. Estou farto da sua presença tosca no meu hospital! ARTAUD Não pense que me assusta com as suas ameaças, muito menos com as suas palmas. Não temo as suas ironias, já não me dizem nada… apesar de me terem atrasado a vida em três 19 anos! E nem a morte temo mais. Só ela me poderá libertar deste corpo queimado e prejudicado, única e somente por si. Quando morrer, voltarei a Paris! FERDIERE Farei com que não fuja nem regresse nunca mais a Paris. ARTAUD Não me pode impedir disso. Eu voltarei a Paris. Nas flores ou mesmo em cinzas. As flores de Paris terão a minha cara, obstinada e cinzelada pelas suas mãos carniceiras. FERDIERE Você está louco. Vou aumentar a dose de choques eléctricos. ARTAUD Não me interessam já os choques eléctricos, benditos sejam! Essa luz vai-me levar aos Campos Elísios, às ruas cheias de fantasia, impregnadas de poesia, de vida e de amor! As suas ruas estão cheias de fantasmas! FERDIERE Os meus fantasmas estão mortos e enterrados. A seguir irá você. ARTAUD Ouça o que lhe digo… você está com medo. Começa a medir as almas que puniu, em prol de uma suposta medicina e de uma cura desajustada! FERDIERE O meu dever é curar. ARTAUD Você não sabe o que é curar uma alma! Não sabe compreender as almas, não sabe de nada! As leis, os costumes, concedem-lhe o direito de medir o espírito e essa jurisdição soberana e terrível, exerce-a segundo seus próprios padrões de entendimento. FERDIERE O meu dever é curar lunáticos como você! ARTAUD Não me faça rir. Para si um sonho meu ou as imagens que me perseguem não passam de uma salada de palavras! Foda-se! Os loucos são vítimas da ditadura social. E em nome da individualidade, reclamo a liberdade, quero-me libertar do estigma de amaldiçoado da sensibilidade, já que não está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham. FERDIERE Você piora de dia para dia, seu velho decrépito! ARTAUD Engana-se. Eu sou um atleta do coração. Velho, mas consciente desta realidade em que estou imerso. Recorde isto, quando conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais só tem a superioridade da força. FERDIERE Porque não se cala? 20 ARTAUD Não me posso calar ao vê-lo aí, armado em superior. FERDIERE Cale-se imediatamente! ARTAUD Era assim que falava com as suas mulheres? FERDIERE Cale-se! ARTAUD Estou a ver que sim. Ameaçava-as e elas, coitadas, caíam nas suas ameaças prepotentes. Se calhar ainda lhes dava alguns choques eléctricos! FERDIERE Cale-se, já disse! ARTAUD Não me calo! Eu sou o louco que a sociedade não quer ouvir! FERDIERE Cale-se! ARTAUD Loucos, sifilíticos, cancerosos, meningíticos, incompreendidos como eu. Há um ponto em todos nós que nenhum médico jamais entenderá: estamos além da vida, os nossos males são desconhecidos pelo homem comum, ultrapassamos o plano da normalidade e daí a severidade na punição dos homens! FERDIERE Calado! ARTAUD Não somos loucos, somos médicos maravilhosos, conhecemos a dosagem da alma, da sensibilidade, da medula, do pensamento! Deixem-nos em paz, deixem os doentes em paz, não pedimos nada aos homens, só queremos aliviar as nossas dores! FERDIERE (bate-lhe. Artaud cai) Ouça bem o que lhe vou dizer. A vida está aqui, no que vemos e mais nada! Não irá para Paris! Estamos em guerra! ARTAUD Eu irei para Paris! FERDIERE Não irá parar ao antro da pior corja do mundo e de que você é exemplo perfeito! Actores pedintes, músicos, putas… merda como você é! ARTAUD A única merda que Paris tem é você, seu filho da puta! FERDIERE (bate-lhe e Artaud quase desmaia) 21 Acorde. Então? Componha-se que está a chegar a enfermeira. Não quero que suspeitem de nada, de tudo aquilo que se passou aqui hoje. Nem daquilo que se passou durante este tempo todo… quantos anos? Já fez bem as contas? Quase quatro… você chegou quase na Primavera. Desde então, passaram-se três natais, três frios e sombrios natais. Que lhe diz o Natal? Pouco, pouquíssimo, já vi… então? Componha-se. Penteie-se. Tire esse fio de sangue dos lábios. E esse sorriso irónico. As enfermeiras não compreendem a sua ironia, já sabe? Fazem-me todos os dias queixa de si… “o senhor Artaud é um mal-humorado que não se aguenta. Perguntamos se se sente bem, responde que não é da nossa conta. Perguntamos se quer um cobertor, diz que o frio que sente é mental… não se percebe!” ARTAUD Você não se cala? FERDIERE Vamos, componha-se. Vou chamar uma enfermeira. Quer alguma coisa para beber? Hoje pode beber um copo de whisky. Sabe que vai fazer três anos que está aqui? Três longos anos… e o teatro, adiado… para sempre… ARTAUD O teatro não se adia, seu esquizofrénico. O teatro estará sempre presente, até na condição mais iníqua, aquela a que me obrigou. FERDIERE Não me diga que essas merdas que você diz e escreve podem ser aproveitadas numa peça de teatro… que merda de peça de teatro que seria. ARTAUD Seria apenas se os actores não sentissem o que dizem. Como você, seu demente. Os dementes não sentem o que dizem quando desejam a morte a quem lhes dá os carros e as casas. FERDIERE Cale-se, imbecil! Componha-se, eu volto já! (vai buscar aparelho de choques eléctricos) ARTAUD Nunca perdi um átomo de lucidez e nunca me escapou um gesto inconsciente nestes nove anos de internamento em Le Havre, Rouen ou Sainte-Anne. As únicas perdas de consciência tive-as nos últimos de dois meses, que advieram do coma dos choques eléctricos, aqui em Rodez. Passei nove anos em asilos de alienados e os métodos de cura ainda hoje me revoltam. Mas o pior método de todos é este, chama-se choque eléctrico, e consiste em ensopar um paciente numa descarga voltaica atroz. Ferdière impôs-mos várias vezes nestes três anos, o que me fez perder a memória do meu ser que se encontrava bem consciente… FERDIERE Ainda não perdeu essa mania, do teatro? (vai ligando o aparelho de choques eléctricos em volta de Artaud) ARTAUD O teatro é o lugar… 22 FERDIERE (interrompendo) …onde se refaz a vida… já ouvi essa, milhares de vezes… ARTAUD Porco! Imita-me em tudo! Você é um imitador, é o inimigo da arte. FERDIERE Meu caro, pode ter a certeza que sou apenas um seu inimigo. ARTAUD Dói-me a cabeça… FERDIERE A dor física não é nada literária valha-o Deus… ARTAUD … e apetece-me morrer… FERDIERE Deixe-se disso. Uma guerra lá fora, você aqui dentro, a salvo da ocupação nazi e ainda pensa nisso? O suicídio não é a solução. (silêncio) Ou acha que é? ARTAUD Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos actos, da realidade. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri há muito tempo, já me suicidei.Suicidaram-me, quero dizer. Mas o que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer a sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu “clochard”, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir. FERDIERE Você é ridículo… mas já que quer literatura, veja bem o que eu escrevi. Muito engraçado, acho eu. Ai vai. Quem sou? De onde venho? Eu sou … (silêncio) Ferdiere e basta dizê-lo como sei dizê-lo, imediatamente vereis o meu corpo actual voar em estilhaços e em dois mil aspectos notórios refazer um novo corpo onde nunca mais podereis esquecer-me. (Enorme choque eléctrico. Black-out) ARTAUD (no escuro) Fui eu que escrevi isso!