Prévia do material em texto
1 CCuurrssoo ddee MMoonniittoorriizzaaççããoo HHeemmooddiinnââmmiiccaa BBáássiiccaa ee AAvvaannççaaddaa ppaarraa MMééddiiccooss eemm SSiimmuullaaççããoo 2 Índice 1 ANATOMIA E FISIOLOGIA CARDIOVASCULAR 3 2 PRESSÃO ARTERIAL SISTÊMICA, PRESSÃO VENOSA CENTRAL, PRESSÃO DA ARTÉRIA PULMONAR 17 3 INTERPRETAÇÃO DAS CURVAS DE MONITORAÇÃO 40 4 DÉBITO CARDÍACO E VARIÁVEIS CALCULADAS 47 5 TRANSPORTE DE OXIGÊNIO 56 6 INTERPRETAÇÃO DOS NÍVEIS DE LACTATO 64 7 INTERPRETAÇÃO DOS GRADIENTES SANGUÍNEOS E TECIDUAIS DE CO2 67 8 SATURAÇÃO VENOSA DE OXIGÊNIO – USO E LIMITAÇÕES 73 9 FISIOPATOLOGIA DOS DIFERENTES ESTADOS DE CHOQUE 75 10 INTERAÇÃO PULMÃO-CORAÇÃO 90 11 DISFUNÇÃO MIOCÁRDICA 105 12 REPOSIÇÃO VOLÊMICA 114 13 ÍNDICES DINÂMICOS DE AVALIAÇÃO DE RESPONSIVIDADE VOLÊMICA 122 14 DROGAS VASOATIVAS 133 15 METAS DO TRATAMENTO DO CHOQUE 145 16 MONITORIZAÇÃO MINIMAMENTE INVASIVA 150 17 CATETER DE ARTÉRIA PULMONAR (SWAN-GANZ) 169 18 ABORDAGEM HEMODINÂMICA PELA ECOCARDIOGRAFIA 189 19 AVALIAÇÃO DA MICROCIRCULAÇÃO NOS ESTADOS DE CHOQUE 198 20 MODELOS EXPERIMENTAIS DE CHOQUE 205 21 OTIMIZAÇÃO PERIOPERATÓRIA NO PACIENTE DE ALTO RISCO CIRÚRGICO 218 3 CAPÍTULO 1 ANATOMIA E FISIOLOGIA CARDIOVASCULAR Introdução Apesar de toda riqueza de aspectos técnicos e sofisticação dos equipamentos desenvolvidos para monitorização hemodinâmica, o conhecimento básico da anatomia e da fisiologia cardiovascular é fundamental para o entendimento e a aplicação clínica dos dados hemodinâmicos. Serão expostos, a seguir, somente noções fundamentais de anatomia e aspectos ligados à fisiologia que tenham significância e interesse prático. O domínio desses conceitos será fundamental à compreensão dos demais itens que serão expostos em outros capítulos. Anatomia e fisiologia aplicada Coração direito e esquerdo Do ponto de vista funcional, o coração pode ser descrito como duas bombas funcionando separadamente (Figura 1), cada uma trabalhando de forma particular e gerando pressões diferentes, comandadas por um sistema especializado de condução de impulsos elétricos que garante sincronismo, organização e eficiência na contração. O lado direito do coração tem a função básica de receber o sangue “venoso” no átrio direito e conduzí-lo até os vasos pulmonares, através de valvas de baixa resistência e com oposição mínima da resistência vascular pulmonar. Quando em condição normal, podemos entender o lado direito do coração como um conjunto de estruturas mais adelgaçadas e frágeis, funcionando dentro de um sistema de baixas pressões. Brônqui o Circulação pulmonar Artéria pulmona r Veia cava superior Alvéol o Veia pulmonar Aort a Átrio esquerdo Valva mitral Valva aórtica Ventrícul o esquerdo Valva pulmona r Ventrícul o direito Átrio direito Veia cava inferior Valva tricúspide Circulação sistêmica Leito capilar pulmonar Figura 1 – Anatomia do sistema cardiovascular simplificada. 4 Já o coração esquerdo recebe o sangue oxigenado nos pulmões e deve vencer a grande resistência representada pela circulação sistêmica e pelos aparelhos valvares, constituindo-se em um sistema mais muscularizado, trabalhando com altas pressões. Colocado entre as duas bombas, podemos identificar a circulação pulmonar e a sistêmica. A circulação pulmonar é representada por um circuito de baixa resistência e baixas pressões, ao passo que a sistêmica é caracterizada por resistência e pressões elevadas. A circulação pulmonar e o lado venoso da circulação sistêmica têm elevadas complacências, podendo coletar grandes volumes de sangue. Volume sanguíneo total ou volemia compreende aproximadamente 8% do peso corpóreo e encontra-se distribuído de maneira não uniforme ao longo do território arterial, venoso e capilar. A maior parte do volume sanguíneo encontra-se no território venoso. Uma fração bem menos significativa está no leito arterial e uma porção ainda menor encontra-se nos capilares da microcirculação. As variações de pressão, resultantes de mudanças no volume sanguíneo, podem ser detectadas em vários pontos da circulação. Os eventos cardíacos são habitualmente classificados como sistólico e diastólico. Esses termos dizem respeito à atividade dos ventrículos. Os períodos sistólico e diastólico não ocorrem de forma simultânea em átrios e ventrículos, de tal forma que, quando os ventrículos se encontram na sístole (fase de contração e ejeção), os átrios encontram-se na diástole (fase de relaxamento e enchimento) e vice-versa. Mesmo os fenômenos atriais e ventriculares não são completamente sincrônicos; sístole e diástole ventricular esquerda são fenômenos de mais curta duração, começando e terminando antes que no lado direito. Em corações estruturalmente normais, esses dessincronismos têm pouco significado na maioria das condições clínicas observadas, podendo-se assumir que os dois lados do coração funcionam ao mesmo tempo (Figura 2). Na fisiopatogenia e fisiopatologia das arritmias e bloqueios, eles adquirem maior importância clínica. Na insuficiência cardíaca congestiva (ICC) avançada, quando essas alterações de sincronia se acentuam e acabam por gerar prejuízo hemodinâmico fazendo com que, em alguns casos, seja necessário tratamento através de marcapassos especiais que promovem a ressincronização das camâras cardíacas. Figura 2 – Ciclo cardíaco elétrico e mecânico. FM: fechamento da válvula mitral; AA: abertura da válvula aórtica; FA: fechamento da válvula aórtica; AM: abertura da válvula mitral; FT: fechamento da válvula tricúspide; AT: abertura da válvula tricúspide; AP: abertura da válvula pulmonar; FP: fechamento da válvula pulmonar; B: bulha; VE: ventrículo esquerdo; ECG: eletrocardiograma. 5 Sístole A sístole ventricular compreende três períodos (Figura 3). O período inicial é conhecido como período de contração isovolumétrica. Ele acontece logo após o QRS do eletrocardiograma produzido pela despolarização ventricular. A onda inicial de despolarização produz uma contração da musculatura dos ventrículos, gerando aumento da pressão intraventricular. Enquanto a pressão não for suficiente para abrir as valvas pulmonar e aórtica, prolonga-se o período de contração isovolumétrica. É durante esse período inicial da sístole que a maioria do oxigênio miocárdico (aproximadamente 80%) é consumida. A segunda fase da sístole ventricular é o período de ejeção rápida. Tão logo a pressão ventricular seja suficiente para abrir as valvas, o encurtamento da fibras musculares se processa de forma acentuada, gerando contração ventricular e propiciando o rápido esvaziamento do sangue contido nos ventrículos. 80% a 85% do volume sanguineo ventricular é ejetado durante essa fase, que acontece ao longo do segmento ST no eletrocardiograma. Na terceira fase, conhecida como período de ejeção lenta, as pressões ventriculares e circulatórias tendem a se equalizar progressivamente. A ejeção torna-se, portanto, mais lenta e reduzida até que as pressões pulmonares e sistêmicas superem as pressões de ejeção ventricular, fechando as respectivas valvas e encerrando a sístole. O fechamento das valvas pulmonar e aórtica dá origem à segunda bulha na ausculta cardíaca. Durante essa última fase sistólica ventricular, os átrios encontram-sena diástole, recebendo o influxo sanguíneo proveniente das veias pulmonares e veia cava, respectivamente. O aumento do volume atrial, nessa fase, gera um pico pressórico conhecido como onda "v" no traçado pressórico atrial. Esta última fase correlaciona-se com a inscrição da onda T no eletrocardiograma. Diástole Durante a transição entre sístole e diástole existe uma progressiva e contínua mudança de volumes e pressões nas diversas cavidades cardíacas e grandes vasos. Da mesma forma que a sístole, a diástole é precedida de um fenômeno elétrico conhecido como repolarização. Logo após a repolarização, as fibras musculares cardíacas começam a se relaxar dando origem à diástole. É nesse período também que ocorre a perfusão coronariana e, consequentemente, do músculo cardíaco. A primeira fase da diástole ventricular é o período de relaxamento isovolumétrico. Nesse período, todas as valvas encontram-se fechadas e o gradiente pressórico entre átrios e ventrículos ainda não é grande o suficiente para abrir os aparelhos valvares. No ECG, esse Contração isovolumétrica Após o QRS Todas as valvas Ejeção ventricular rápida Ocorre durante o ST 80% - 85% do volume ejetado Ejeção ventricular lenta Ocorre durante a onda T Átrios em diástole Figura 3 – Sístole entricular. 6 período é o que se segue à onda T, identificando-se eventualmente uma pequena onda cohecida como onda “U”. Na medida em que existe maior relaxamento ventricular e maior enchimento atrial, com consequente aumento de pressões nessas câmaras, as valvas se abrem iniciando a segunda fase da diástole chamada de período de enchimento rápido. Durante essa fase, aproximadamente dois terços do volume ventricular são preenchidos de forma passiva, porém rápida. Após o enchimento rápido, as pressões atriais e ventriculares tendem a se equalizar de forma progressiva ao longo de uma terceira fase, conhecida como período de enchimento lento. Ao final do período de enchimento lento, o fluxo atrioventricular encontra-se bem reduzido, ocorrendo então a sístole atrial que é o último fenômeno da diástole e determina o volume diastólico final dos ventrículos. Esse fenômeno ocorre logo após o traçado da onda P no eletrocardiograma e gera a onda "a" na curva de pressão atrial. No encerramento da diástole, fecham-se as valvas atrioventriculares detectando-se na ausculta cardíaca a primeira bulha (Figura 4). Débito cardíaco É a quantidade de sangue bombeada pelo coração durante um determinado intervalo de tempo. Essa medida de fluxo constitui um dos melhores parâmetros para aferir a performance cardíaca global. • O débito cardíaco corresponde ao produto entre a freqüência cardíaca e o volume sistólico (DC = FC x VS). • O volume sistólico corresponde à quantidade de sangue ejetado na raiz da aorta em cada sístole ventricular. Do ponto de vista prático, esse volume pode ser estimado pela diferença entre o volume diastólico final e o volume ventricular ao final da sístole, conhecido como volume sistólico final. O volume sistólico é determinado pela interação de: pré-carga, pós- carga e contratilidade (Figura 5). • Quando o volume sistolico é expresso como uma fração do volume diastólico final, costuma ser chamado de fração de ejeção (por exemplo, como é feito na avaliação ecocardiográfica). Variações na freqüência cardíaca podem produzir grandes variações no débito, constituindo-se no mecanismo hemodinâmico compensatório mais rápido e mais comumente visto. Relaxamento isovolumétrico Após a onda T Todas as valvas fechadas Antecede a queda da pressão intraventricular Termina no dip diastólico Enchimento ventricular rápido Valvas atrioventriculares abertas Cerca de 2/3 do enchimento ventricular Sístole atrial Após a onda P Produz a onda “a” no traçado atrial Ejeta o volume remanescente Figura 4 – Diástole ventricular. 7 Dentro de determinados limites, o aumento da freqüência determina um aumento proporcional no débito cardíaco. Na presença de aumento muito acentuado na FC, o consumo de oxigênio eleva-se proporcionalmente. Há redução no período diastólico, que determina menor perfusão coronariana e menor tempo de enchimento, acarretando em menor força contrátil e menor volume sistólico, respectivamente. Na determinação do volume sistólico, podemos dizer que a pré-carga depende do volume de sangue que chega ao coração através do retorno venoso. Dessa forma, corresponde, diretamente, ao grau de estiramento miocárdico no final da diástole. A medida do volume diastólico final dos ventrículos é a melhor maneira de aferir a pré-carga. Como a medida direta beira-leito dessa variável é muito difícil, utiliza-se freqüentemente a medida da pressão diastólica final dos ventrículos como uma estimativa aceitável da pré-carga. A relação entre o estiramento miocárdico e a performance cardíaca foi enunciada no início do século XX, quando Frank e Starling demonstraram que quanto maior o estiramento diastólico maior seriam volume sistólico e força de contração ventricular. Essa lei postula também que existe um limite para o estiramento, a partir do qual maiores tensões produziriam um declínio na performance cardíaca. A utilização da medida da pressão (e não do volume) como estimativa da pré-carga traz consigo um importante fator de erro. A parede miocárdica ventricular possui uma propriedade dinâmica, conhecida como complacência, correspondente à razão entre variação de volume e variação da pressão resultante. Pré-carga Pós-carga Contratilidade Volume sistólico Freqüência cardíaca Débito cardíaco Figura 5 – Determinantes do débito cardíaco. 8 A elasticidade ventricular pode estar modificada em múltiplas condições clínicas, traduzindo-se como cenários de baixa (disfunção diastólica e hipertrofia ventricular, por exemplo) ou alta complacência. Diante de uma curva de baixa complacência, pequenas variações do volume ventricular podem gerar grandes variações na leitura da pressão. De forma contrária, diante de uma complacência alta, mesmo grandes variações de volume induziriam apenas a pequenos aumentos da pressão. O fato de pressão e volume não serem variáveis de comportamento paralelo tem grande impacto na interpretação clínica dos dados hemodinâmicos (Figuras 6 e 7). Estiramento/volume Quanto maior o estiramento, maior a contração, até um limite fisiológico, a partir do qual acontece piora da função ventricular Função ventricular Figura 6 – Curva de Frank-Starling. 9 Dá-se o nome de pós-carga à carga contra a qual o músculo cardíaco exerce sua força contrátil. O termo, geralmente, se refere ao ventrículo esquerdo, mas pode se referir ao ventrículo direito, quando mencionado (p.ex.: pós-carga do VD). A pós-carga é melhor definida como a pressão existente na raiz da artéria que se origina do ventrículo (aorta ou pulmonar). Ela depende de múltiplos fatores: - volume e massa de sangue ejetado; - massa e espessura da parede ventricular; - características anatômicas e funcionais da circulação e dos vasos. Uma forma de se estimar a pós-carga é por meio do cálculo das resistências arteriais sistêmica ou pulmonar, respectivamente, para os ventrículos esquerdo e direito (como será discutido no capítulo “Variáveis calculadas: resistência e trabalho”). Entretanto, deve-se ter em mente que a resistência vascular é apenas um dos componentes da pós-carga. Existe uma relaçãoinversa entre a pós-carga e o volume sistólico: quanto maior a pós-carga, maior a resistência à ejeção do sangue e, portanto, menor o volume sistólico. Em corações normais, em que a contratilidade encontra-se preservada, essa relação tem pouco significado, porém, na presença de disfunção miocárdica, a redução no débito cardíaco pode ser de extrema importância em situaçoes de aumento da pós carga (Figuras 8 e 9). Volume Pressão A B C A: Complacência normal B: Complacência baixa C: Complacência alta Figura 7 – Curvas de complacência ventricular. 10 PPóóss--ccaarrggaa//rreessiissttêênncciiaa Débito cardíaco Pós-carga Volume sistólico AA BB Figura 9 – Pós-carga e volume sistólico. AA == nnoorrmmaall BB == ddiissffuunnççããoo mmiiooccáárrddiiccaa 11 Contratilidade ou inotropismo refere-se à capacidade intrínseca de encurtamento das fibras miocárdicas independente das variações na pré-carga. Principais determinantes da contratilidade • Presença de disfunção miocárdica • Sistema nervoso autônomo simpático • Oxigenação miocárdica • Alterações metabólicas, particularmente os estados acidóticos Diante de alterações da contratilidade, o impacto de pré e pós-carga sobre o volume sistólico e débito cardíaco podem ser muito mais importantes. Provavelmente, o melhor representante da contratilidade, à beira-leito, é a fração de ejeção ventricular Oxigenação miocárdica • Chamamos de consumo miocárdico de oxigênio a quantidade de oxigênio utilizada para o seu funcionamento. (Figura 10) • O consumo de oxigênio é proporcionalmente alto, mesmo em repouso absoluto. Normalmente, o miocárdio consome 65% a 80% do oxigênio oferecido pela circulação coronária. • Até o momento, não se dispõe de técnicas não-invasivas eficazes para aferir a oxigenação miocárdica. AAnnaattoommiiaa ccoorroonnaarriiaannaa PPrreessssããoo ddiiaassttóólliiccaa Tempo diastólico EExxttrraaççããoo ddee OO22 HHeemmoogglloobbiinnaa SSaaOO22 FFrreeqqüüêênncciiaa ccaarrddííaaccaa PPrréé--ccaarrggaa PPóóss--ccaarrggaa Contratilidade OOffeerrtt Demanda Figura 10: Determinantes da Oxigenação Miocárdica 12 A análise funcional da circulação coronariana mostra que a irrigação sanguínea miocárdica é menor na sístole e maior durante a diástole (Figura 11). Isso ocorre em decorrência da compressão vascular que a massa miocárdica dos ventrículos exerce diretamente sobre os vasos durante a sístole, dificultando o enchimento destas artérias. Durante o relaxamento ventricular propiciado pela diástole, as artérias coronárias são irrigadas com maior facilidade. Como o ventrículo direito tem menor espessura muscular, a redução sistólica do fluxo coronariano é menos evidente. Uma pressão diastólica aórtica adequada é fundamental para a circulação coronariana e oxigenação dos dois ventrículos (e, como veremos em outros capítulos, um dos princípios para utilização do balão intra-aórtico, em situações específicas). Na vigência de FC muito elevada (acima de um nível crítico, que varia de acordo com as características e condições de cada indivíduo), a redução do intervalo diastólico passa a ser um mecanismo importante de disfunção miocárdica por comprometer sua capacidade de oxigenação e relamento/enchimento. Alterações Hemodinâmicas Relacionadas a Variações da Pressão Intratorácica e Ciclo Respiratório As alterações das Pressões Intratorácicas promovidas pelos ciclos respiratórios podem interferir em aspectos hemodinâmicos do paciente, tanto naqueles em ventilação espontânea, como naqueles em ventilação mecânica e esses conceitos serão importantes para entendermos alguns métodos de avaliação hemodinâmica discutidos nos próximos capítulos. A inspiração espontânea promove aumento da pressão negativa intratorácica e consequente queda da pressão intrapleural, diminuindo também a P no átrio direito e melhorando assim o retorno venoso. O contrário acontece na expiração – há um aumento na P intrapleural e consequente queda no retorno venoso. De acordo com o princípio de interdependência ventricular, o aumento do retorno venoso, seguido pelo aumento de volume no VD durante a inspiração espontânea, empurra o septo Sístole Diástole Coronária E Coronária D Pressão aórtica Fluxo sanguíneo Figura 11 – Fluxo coronariano e ciclo cardíaco. 13 intraventricular em direção ao VE, aumentando sua pressão e consequentemente diminuindo seu enchimento por diminuição da complacência desta câmara. A diminuição da P intrapleural durante a inspiração também é transmitida ao VE , diminuindo sua P diastólica final, enquanto a P extratorácica permanece igual, aumentando o gradiente de P que tem que ser gerado para iniciar a contração do VE e determinando aumento de pós- carga, alteração essa que é mal tolerado em pacientes cardiopatas. O uso de PEEP associado à ventilação espontânea promove queda mais importante nas P de via aérea e intratorácica e pode exacerbar essas alterações, gerando instabilidade hemodinâmica. O uso de ventilação mecânica, por sua vez, aumenta as P inspiratórias e intrapleural, promovendo efeitos opostos àqueles promovidos pela ventilação espontânea, determinando diminuição do retorno venoso e pré carga do VD. O aumento da P intrapleural também é transmitido ao pericárdio, comprimindo o coração. Há aumento da pós carga do VD (aumento da Palveolar é maior do que aumento da P pleural), aumento da pré carga do VE (como o aumento da P alveolar é maior do que aumento da P pleural, o sangue armazenado nos capilares pulmonares é ejetado ao VE) e diminuição da pós-carga do VE (pressões pleurais positivas promovem o esvaziamento ventricular, pois o aumento da P intratorácica “espreme” o VE, facilitando seu esvaziamento, ao mesmo tempo em que a P transmural da aorta cai). No paciente com volemia adequada, essas alterações acarretam em melhora do trabalho cardíaco, o mesmo não acontece naqueles com volume intravascular diminuído. Bases fisiológicas da termodiluição Os princípios fisiológicos aplicados à determinação do débito cardíaco, através da termodiluição, são os mesmos aplicados à determinação do débito cardíaco através da diluição de corantes e equação de Stewart-Hamilton. Por exemplo, podem ser utilizados: líquido frio, na modalidade de mensuração intermitente pelo cateter de artéria pulmonar; líquido aquecido, na mensuração contínua com o referido cateter ou outras substâncias / corantes, a depender da tecnologia empregada. Pode-se simplificar o método da termodiluição para melhor compreensão prática. Uma quantidade conhecida e fixa de um líquido resfriado é injetada na circulação sanguínea proximal (átrio direito) e a temperatura é registrada de forma contínua no leito distal (artéria pulmonar). O líquido frio determina uma queda da temperatura produzindo uma curva cujo traçado depende do fluxo sanguíneo (débito cardíaco). Quanto menor o fluxo sanguíneo, maior será a queda na temperatura, e vice-versa (quanto maior o tempo de contato - definido pela menor velocidade de fluxo - maior a queda na temperatura). Dessa maneira, a área sob a curva de registro seqüencial da temperatura será inversamente proporcional ao fluxo sanguíneo, o que permiteuma aferição precisa de sua magnitude (Figura 12 - abaixo). 14 Além do rigor técnico necessário para a determinação do débito cardíaco através da termodiluição, outros aspectos conceituais são relevantes. A utilização de soro gelado (ao invés de soro em temperatura ambiente) torna o método mais preciso pelo maior gradiente de temperatura entre o sangue e o soro injetado. Quanto maior o volume de soro frio injetado, menor será a variabilidade na leitura do débito cardíaco, que estará sendo estimado, então, em um intervalo de tempo de 3 a 5 segundos. Por esses mesmos motivos, a presença de arritmias ou interferência respiratória poderá ter grande influência nas medidas. A mensuração do débito cardíaco é completamente inválida quando da presença de grave refluxo tricúspide (em geral, podendo superestimar sua leitura). Bases fisiológicas da oximetria A captação de oxigênio acontece primariamente nos pulmões, constituindo o primeiro passo para o processo de oferta de oxigênio aos tecidos. O oxigênio captado nos pulmões é transportado no sangue em duas formas: - dissolvido no plasma (2%); - combinado à hemoglobina (98%). A pressão parcial do oxigênio (PO2) é medida em mmHg e traduz a pressão exercida pelo oxigênio dissolvido no plasma. O coeficiente de diluição do oxigênio no plasma é muito baixo de maneira que para uma PO2 normal de 100 mmHg existem apenas 0,31 ml de oxigênio dissolvido em 100 ml de sangue. Caso fosse esta a única forma de transportar oxigênio, necessitaríamos de um débito cardíaco de 120 l/min para atender às nossas necessidades básicas (cerca de 24 vezes maior que o débito cardíaco normal de um adulto jovem). A saturação de oxigênio (SO2) refere-se à quantidade de oxigênio que é transportado no sangue ligado à hemoglobina. Cada molécula de hemoglobina é capaz de carregar quatro moléculas de oxigênio, constituindo o principal veículo para o transporte de oxigênio aos tecidos. A saturação de oxigênio arterial é, normalmente, de 95% a 100%, enquanto a venosa é de 60% a 80%. A saturação venosa de uma amostra de sangue colhida da extremidade distal de um cateter pulmonar é também chamada de saturação venosa mista por representar a média da saturação do sangue proveniente de todos os órgãos do organismo. Geralmente, os tecidos captam apenas 25% do total de oxigênio ofertado, reservando os 75% restantes para períodos de maior atividade metabólica. O estudo da relação entre PO2 e SO2, através da chamada curva de dissociação da oxi- hemoglobina, mostra um comportamento não-linear entre essas duas variáveis (Figura 12A). 15 A conformação sigmóide da curva mostra que variações da PO2 nos limites superiores produzem pouca modificação na SO2, ao passo que nos limites inferiores espera-se grandes modificações na SO2. A curva de dissociação da hemoglobina sofre a influência de diversos fatores, deslocando-se para a direita (redução da afinidade pelo oxigênio) na presença de acidose, hipercapnia, febre ou aumento da 2,3DPG. Nessa condição, é necessário maior PO2 para saturar uma mesma quantidade de hemoglobina, porém a liberação de oxigênio encontra-se facilitada. Todavia, como existe redução na capacidade transportadora total, a quantidade de oxigênio que pode ser liberada aos tecidos estará reduzida. Na presença de alcalose, hipocapnia, hipotermia ou redução da 2,3DPG, a curva de dissociação da hemoglobina desloca-se para a esquerda (aumento da afinidade pelo oxigênio) e para um mesmo valor de PO2 a SO2 será mais elevada, melhorando a captação pulmonar de oxigênio. No entanto, a liberação de oxigênio aos tecidos estará reduzida, prejudicando sua liberação final aos tecidos. Alguns cateteres pulmonares dispõem de sistemas de espectrofotometria de reflexão em sua extremidade, possibilitando a monitorização contínua dessa variável (saturação venosa mista). Essa técnica baseia-se na transmissão e recepção de luz através de fibras ópticas na corrente sanguínea pulmonar. O equipamento emite luzes em dois comprimentos de onda diferentes dirigidos para a máxima absorção da oxi-hemoglobina e da hemoglobina desoxigenada. A reflexão das luzes é captada determinando-se a fração entre absorção nos dois comprimentos de onda. Através dessa fração, e do valor do hematócrito do paciente, torna-se possível estimar o valor da SvO2. Os principais fatores de erro na leitura da SvO2 por espectrofotometria são o posicionamento inadequado do cateter e a calibração incorreta do valor da hemoglobina/hematócrito. A entrada periódica do valor do hematócrito e a calibração in vivo são muito importantes para garantir a confiabilidade dos dados. 16 Como a SvO2 reflete o excedente de oxigênio que retorna ao coração após a passagem do sangue pela microcirculação e partindo do fato de que, na maioria das situações, a saturação do sangue arterial (SataO2) é algo próximo de 100%, a subtração 1 – SvO2 será igual à taxa de extração de oxigênio do organismo em questão (TEO2). Esse racional, associado a evidências clínicas fornecem embasamento científico para o uso da SvO2 como guia terapêutico. Evidências experimentais mais recentes demonstraram que as variáveis SvO2 e SvcO2 (ou saturação venosa central - proveniente do sangue colhido da veia cava ou átrio direito - facilmente obtida da amostra de sangue colhida através de um cateter venoso central comum) apesar de diferentes em termos absolutos, apresentavam mesma tendência de variação. Um estudo clínico que utilizou a SvcO2 como meta terapêutica dentro de um protocolo de atendimento precoce a pacientes com sepse grave e choque séptico, demonstrou redução significativa de mortalidade, validando o uso dessa variável na prática clínica. Bibliografia recomendada Baxter Education Programs. Understanding continuous mixed venous oxygen saturation monitoring with the Swan-Ganz oximetry TD system. Edwards Critical-Care Division, Santa Ana, CA, 1991. Dantzker DR. Cardiopulmonary critical care. WB Saunders, Philadephia, PA, 1997. Headley JM. Invasive hemodynamic monitoring: physiological principles and clinical applications. Edwards Critical-Care Division, Irvine, CA, 1986. Hurst JW. The heart. McGraw-Hill Book Co, New York, 1999. Civetta, Taylor & Kirby´s. Critical Care. Lippincott Williams & Wilkins. Philadelphia, 2009. 17 CAPÍTULO 2 PRESSÃO ARTERIAL SISTÊMICA, PRESSÃO VENOSA CENTRAL, PRESSÃO DA ARTÉRIA PULMONAR PRESSÃO ARTERIAL Introdução A pressão arterial (PA) é aquela gerada na parede das artérias, resultante dos batimentos cardíacos e da resistência da parede do vaso ao fluxo sanguíneo. A PA não é igual em todas as artérias, sendo maior à medida que a artéria está mais distante do coração. Esse efeito ocorre devido ao efeito da gravidade no fluxo sanguíneo. O valor normal da pressão arterial sistólica (PAS) é 90 a 120 mmHg e da diastólica (PAD) 60 a 80 mmHg. A pressão arterial média (PAM) corresponde a seguinte fórmula: A PAM é o principal determinante da perfusão até o valor de 65 a 70 mmHg. Desta forma, este é o objetivo a ser alcançado no estado de choque, de forma a otimizar a perfusão. Métodos de aferição da pressão arterial Método não-invasivo auscultatório • Este método é o mais comumente usado para mensuração da pressão arterial. Para sua realização é necessário um esfigmomanômetro e de um estetoscópio. A medida da pressão por esse método baseia-se na obstrução parcial do fluxo sanguíneo pelo manguito, que produz vibrações e sons de baixa freqüência (sons de Korotkoff).O primeiro som ouvido corresponde à sístole e o último, à diástole. Nas Tabelas 1 e 2 observam-se as principais vantagens e desvantagens deste método. Muitas destas desvantagens estão associadas a valores inadequados de pressão arterial, os quais podem ser minimizados com a utilização de um manguito correto (Tabela 3). Tabela 1 – Vantagens e desvantagens do método não-invasivo auscultatório Vantagens • Equipamento mínimo • Equipamento de fácil manuseio Desvantagens • Variação de examinador • Necessidade de calibração freqüente do aparelho • Inapropriado tamanho do manguito, principalmente, em obesos e pessoas muito magras. • Pressões sistólicas falsamente baixas podem ser obtidas pelo hiato auscultatório • Em pacientes em choque e com severa vasoconstrição, as medidas não são fidedignas. • Método descontínuo Tabela 2 – Problemas na mensuração da pressão arterial pelo método não-invasivo auscultatório Problema Causa 18 Falsa leitura para cima • Manguito muito pequeno • Manguito não centralizado na artéria braquial • Braço abaixo do nível do coração • Braço muito obeso Falsa leitura para baixo • Manguito muito grande • Braço acima do nível do coração • Identificação errônea dos sons de Korotkoff Tabela 3 – Tamanho do manguito de acordo com a faixa etária Faixa etária Circunferência do braço (cm) Tamanho do manguito (cm) Recém-nascidos Crianças pequenas Crianças maiores Adultos Adultos de braços grandes Obesos 6-11 10-19 18-26 25-35 33-47 46-66 2,5 x 5 6 x 12 9 x 18 12 x 23 15 x 33 18 x 36 Método não-invasivo oscilatório automatizado • Esse método tem como base a medida da pressão arterial através de curvas de medidas, realizada por software validado para tal fim (Tabela 4). O uso do manguito de tamanho adequado é fundamental para uma medida fidedigna neste método (Tabela 2). Tabela 4 – Vantagens e desvantagens do método não-invasivo oscilatório automatizado Vantagens • Elimina a variação do examinador • Método não-invasivo • Possibilidade de medidas mais freqüentes em comparação ao método auscultatório Desvantagens • A atividade muscular pode ser confundida pelo equipamento, fornecendo falsos valores de pressão arterial. • Incômodo para alguns pacientes • Possibilidade de congestão venosa por medidas freqüentes • Medidas freqüentes podem dar falsos valores • O procedimento é difícil de ser realizado em pacientes com lesões cutâneas • Em pacientes em choque, vasoconstritos, seus valores não são fidedignos. • Método descontínuo Método invasivo Considerações A pressão por esse método é medida através de um cateter introduzido na artéria, o qual é conectado em uma coluna líquida. A medida da pressão é obtida através de um transdutor de pressão que faz a leitura e converte o sinal pressórico em elétrico. Por este método, observam- se valores numéricos e curvas que correspondem à medida da pressão arterial. As características das ondas arteriais são todas iguais, variando apenas na amplitude. Por exemplo, o pico sistólico na artéria aorta (território de alta pressão) será maior que o pico sistólico na artéria pulmonar (território de baixa pressão) (Figura 1). 19 Figura 1 – Representação da onda da pressão aórtica, à esquerda, e da onda da pressão da artéria pulmonar, à direita. Nota-se uma diferença nos valores pressóricos. “S” é o pico sistólico e corresponde à despolarização ventricular e à abertura das válvulas semilunares. “D” é o nó dicrótico, que corresponde à queda da pressão ventricular e ao fechamento das válvulas semilunares. O nó dicrótico separa a sístole da diástole. O nível mais baixo da onda é a pressão diastólica final. Devido a fatores como distância do coração, força da gravidade e calibre da artéria, as ondas de pressão podem apresentar pequenas mudanças no formato, mas sem alterar suas características (Figura 2). Figura 2 – Curvas de pressão. Quadrante superior direito = Aorta distal Quadrante superior esquerdo = Aorta proximal Quadrante inferior direito = Artéria pediosa 20 Por outro lado, quadros hiperdinâmicos, como anemia, febre e hipertireoidismo, os quais proporcionam uma rápida ejeção ventricular, acentuam o pico sistólico da onda, enquanto quadros que diminuem a velocidade de ejeção ventricular, como miocardiopatias ou pacientes com estenose aórtica, tendem a apresentar um pico sistólico menos acentuado e mais prolongado que o normal. Nas Tabelas 5 e 6, encontramos as principais indicações, contra-indicações, complicações e vantagens da medida da pressão arterial invasiva. Tabela 5 – Indicações, contra-indicações relativas e complicações da medida invasiva da pressão arterial. Indicações • Cirurgia cardiopulmonar • Grandes cirurgias vasculares, torácicas, abdominais ou neurológicas. • Instabilidade hemodinâmica • Uso de drogas vasopressoras e de vasodilatadores endovenosos • Uso de monitorização da pressão intracraniana • Emergência hipertensiva associada à dissecção de aorta ou acidente vascular cerebral • Necessidade de gasometria arterial mais que três vezes por dia Contra- indicações relativas • Doença vascular periférica • Doenças hemorrágicas • Uso de anticoagulantes ou trombolíticos • Punção arterial é contra-indicada em áreas infectadas Complicações • Embolização arterial e sistêmica • Insuficiência vascular • Necrose isquêmica • Infecção • Hemorragia • Injeção acidental de drogas intra-arterial • Trombose • Espasmo arterial • Hematoma local • Dor local • Fístula arteriovenosa Tabela 6 – Vantagens e desvantagens da medida invasiva da pressão arterial Vantagens • Método contínuo e mais confiável em doentes instáveis Desvantagens • Método invasivo • Maior risco de complicações • Necessidade de pessoal treinado para a inserção do cateter • Em mãos não capacitadas, pode não perceber valores distorcidos e considerar falsos valores como verdadeiros. Técnica de cateterização da artéria radial • Realizar o teste de Allen: comprimir, simultaneamente, a artérias radial e ulnar com os polegares. Estimular o paciente para abrir e fechar a mão repetidamente. Em seguida, pedir ao paciente para relaxar a mão. Enquanto exercer compressão sobre a artéria radial, soltar a artéria ulnar e observar a coloração da mão. Quando a circulação colateral par meio da artéria ulnar está adequada, a mão recupera a coloração em 5 a 10 segundos. O teste pode 21 ser repetido testando a artéria radial também. Em caso do teste não ser satisfatório, desconsiderar a punção arterial neste sítio. • Manter o paciente em decúbito dorsal e imobilizar a mão conforme a figura 3. • Localizar a punção do vaso que será próximo do túnel do carpo. • Anestesiar e introduzir o cateter com uma inclinação de 30 graus (Figura 3). • Quando refluir o sangue, introduzir o cateter através da agulha e, em seguida, retirá-la. Então, conectar o sistema de monitorização. Fixar o cateter e realizar o curativo. Técnica de cateterização da artéria femoral • Manter o paciente em decúbito dorsal e checar a situação do sistema arterial. • Palpar o pulso femoral e puncionar a 5 cm abaixo da dobra inguinal. • Anestesiar o tecido cutâneo local. • Puncionar com uma inclinação de 45 a 60 graus, sempre aspirandoaté refluir o sangue. Quando refluir, desconectar a seringa da agulha e fazer a oclusão do orifício. Em seguida, seguindo a técnica de Seldinger, passar o fio-guia pela agulha e retirar a mesma. • Pelo fio-guia, passar o dilatador com o objetivo de deixar livre o caminho no subcutâneo para a introdução do cateter propriamente dito. Em seguida, retirar o dilatador deixando o fio-guia. • Em seguida, passar o cateter pelo fio-guia. Figura 3 – Cateterização da artéria radial. 22 • Este é o momento de retirar o fio-guia e fazer a oclusão da saída do cateter, evitando refluxo excessivo de sangue, até que seja possível conectar o sistema que medirá a pressão. • Fixar o cateter à pele e realizar o curativo. • Na Tabela 7, observam-se as principais vantagens e desvantagens dos principais sítios de punção arterial. Tabela 7 – Vantagens e desvantagens dos locais de punção arterial Artéria radial Vantagens • Superficial de fácil manuseio • Local de fácil acesso • Baixo risco de insuficiência vascular distal • Confortável para o paciente Desvantagens • Taxas de complicações elevadas, se usadas prolongadamente. • Possível lesão de estruturas nervosas por edema ou punção • Artéria fina e por isso predispõe a obstrução e formação de trombo Artéria braquial Vantagens • Fácil canulação e acomoda cateteres de maior calibre • Melhor circulação colateral Desvantagens • Mais desconfortável • Difícil manuseio • Lesões de estruturas nervosas • Obstruções e trombos Artéria femoral Vantagens • Acomoda cateteres de maior calibre • Canulação mais fácil em pacientes hipovolêmicos e com instabilidade hemodinâmica Desvantagens • Desconfortável • Manuseio difícil • Trombose • Formação de aneurisma Condições clínicas que afetam a morfologia da onda • Várias condições, como arritmia, hipovolemia, hipertensão, hipotensão, miocardiopatia, dentre outras, podem alterar os padrões de onda da pressão arterial (Figura 4). 23 Considerações importantes em relação à pressão arterial invasiva A monitoração invasiva da PAM constitui metodologia imprescindível durante a avaliação contínua de um paciente do ponto de vista hemodinâmico em estados de choque. O estado de choque consiste em desequilíbrio entre oferta e consumo oxigênio e nutrientes às células, o que pode ser encontrado antes que ocorra queda da PA para níveis inferiores a 65 mHg. Quase que invariavelmente, o conceito de hipotensão arterial é incorporado à definição dos diversos tipos de choque. Assim, reconhece-se claramente a importância da restauração da pressão arterial como meta terapêutica. Como foi dito anteriormente, a PAM é o principal determinante da perfusão (associada ao débito cardíaco), já que a pressão venosa central, em indivíduos sadios, é próxima de zero. A manutenção de um nível adequado de PAM propicia, em geral, adequada perfusão. Discute- se qual o nível de PAM que se deve manter nos diferentes pacientes em estados de choque. Do ponto de vista prático, recorre-se às seguintes evidências: - o tempo de hipotensão arterial está correlacionado com desenvolvimento de disfunção orgânica; - o nível de hipotensão arterial é variável no que concerne ao início da hipoperfusão, no entanto existe relação direta entre níveis crescente de PAM e perfusão até 65 a 70 mmHg. Níveis de PAM acima dos citados não implicam em ganho de perfusão. O estado cardiovascular prévio parece ser o principal determinante do nível de hipotensão arterial que leva a hipoperfusão. Em geral, a hipovolemia, em graus variados, contribui sobremaneira para o início e a perpetuação da hipotensão arterial. Figura 4 - A = Curva de pressão arterial na circulação sistêmica; B = Curva de pressão arterial na circulação pulmonar. S= Pico sistólico (corresponde a despolarização ventricular e abertura das válvulas semilunares) D= Nó dicrótico ( ponto de separação entre a sístole e a diástole) O nível mais baixo da onda é a pressão diastólica final. A B 24 Outros fatores que interferem na PAM são a contratilidade miocárdica e a resistência vascular sistêmica (tônus vascular). Pressão arterial invasiva: avaliação de pré-carga • No final da década de 1990, surgiram os conceitos de que a variação da pressão sistólica (VPS) e a variação da pressão de pulso (PP) entre a inspiração e expiração poderiam ser determinantes importantes de pré-carga (Figuras 6 e 7). Figura 6 – Variação da pressão arterial sistólica durante o ciclo respiratório. PS Máx: pressão sistólica máxima PS Mín: pressão sistólica mínima VPS: variação da pressão sistólica A VPS > 5 mmHg está associada a hipovolemia, com valor preditivo positivo melhor que a pressão venosa central ou a pressão de oclusão de artéria pulmonar. 25 Estudos com pacientes sépticos e hipovolêmicos confirmaram que essas variáveis dinâmicas seriam mais sensíveis e específicas que as variáveis estáticas, como a pressão venosa central (PVC) e a pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO), na determinação do estado volêmico destes pacientes. Na Figura 8, observa-se um exemplo de reposição volêmica orientada pelo PP. Nota-se que a PVC e PAPO estavam em valores supostamente normais, contudo houve grande melhora da PP e do índice cardíaco após a infusão de líquidos. Figura 7 – Variação da pressão de pulso (∆PP). PPMax: pressão de pulso máxima; PP min: pressão de pulso mínima. PP = PAS – PAD PPMax = maior PAS na inspiração – maior PAD na inspiração PPMin = menor PAS na expiração – maior PAD na expiração ∆PP > 13% está associado a hipovolemia, sendo que esta variável possui um valor preditivo positivo melhor que a variação de pressão sistólica, a pressão venosa central ou a pressão de artéria pulmonar ocluída. Ciclo Inspiraçã Expiração ) x 100 26 Considerações finais para análise da curva de pressão arterial Nas figuras a seguir, observam-se inúmeras situações que apontam para uma leitura não fidedigna da pressão arterial. O médico deve estar atento às morfologias da onda da pressão arterial apresentadas nas Figuras 9 a 13. Delta = Pmax – Pmin Pmed % 54 20% POAP = 18 mmHg PVC = 8 mmHg Índice cardíaco = 3,2 ml/m2 POAP = 21 mmHg PVC = 7 mmHg Índice cardíaco = 4,5 ml/m2 Hidroxietilamido 6% 500ml Figura 8 – Reposição volêmica com base no delta de pressão de pulso. 27 Figura 9 – Curva normal (características) - Ascensão rápida - O pico é igual ou maior ao pressurizador - Descenso abaixo da linha de base Descenso Ascensão (pico) Pressurizador 28 Figura 10 – Curva amortecida (características) - Causas: extensões amolecidas/bolhas/filtro do monitor - Linhas arredondadas - O pico é menor que o do pressurizador - Pouca interferência - Descenso somente até a linha de base Linhas arredondadas Pico menor Descenso somente até a linha de base 29 Figura 11 – Curva subamortecida (características) - Causas: extensões muito longas/filtro do monitor - Ascensão rápida - Linhas retas - Pico > pressurizador - Traçado com muita interferência - Descenso abaixo da linha de base e com “reverberação”Pressurizador Linhas retas, pico > pressurizador Interferência Descenso abaixo da linha de base, “reverberação” 30 PRESSÃO VENOSA CENTRAL Considerações gerais A PVC foi introduzida na prática médica no início da década de 1960. Desde o início, foi notado que havia um potencial para o uso dessa variável em doentes críticos, porque havia uma correlação entre a PVC e as seguintes variáveis: - retorno venoso; - pressão atrial direita; - pressão diastólica final do ventrículo direito. Após essas correlações iniciais, foi notado que, quando a PVC (valor normal entre 0 a 8 mmHg) estava baixa, poderia sugerir hipovolemia e, quando alta, havia a possibilidade de sobrecarga volumétrica ou de falência ventricular. A PVC é considerada a reserva líquida do organismo. Através do acesso venoso central que possibilita a medida da PVC é possível também coletar exames com freqüência sem incomodar o paciente, entre eles a gasometria venosa central. O estado perfusional pode ser avaliado através da medida da saturação venosa de O2 obtida da gasometria venosa central. Apesar das limitações que a saturação venosa de O2 na veia cava ou no átrio direito impõe, considera-se que seu valor abaixo de 70%, sugere desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio pelos tecidos. Portanto, a saturação venosa central pode ser usada como parâmetro para guiar estratégias terapêuticas como reposição volêmica, uso de inotrópico, transfusão de concentrado de hemácias. Na Tabela 8, observam-se as principais indicações e contra-indicações da cateterização venosa central. Figura 12 – Curva de vazamento (características). - Causas: vazamento nas conexões/dânula aberta/cateter exteriorizado - Ascensão lenta - Pico < pressurizador - Descenso lento, inclinado até a linha de base Descenso lento até a linha de base Ascensão lenta Pressurizador 31 Tabela 8 – Indicações e contra-indicações da cateterização venosa central Indicações • Reposição volêmica • Incapacidade de acessos periféricos • Inserção de marcapasso, cateter de artéria pulmonar. • Monitorização da pressão de átrio direito • Administração de nutrição parenteral total, drogas vasopressoras e outras substâncias hiperosmolares. Contra- indicações • Flebite ou trombose • Queimaduras e cirurgias que impeçam a cateterização • Diátese hemorrágica por qualquer causa • Alto risco de pneumotórax • Pacientes agitados (relativa) • Suspeita de lesão da veia cava superior Limitações Muitas situações limitam o uso da PVC e, por isso, ela nunca deve ser usada como marcador único de volemia. Contudo, uma PVC baixa sempre representa hipovolemia. Em situações de hipovolemia, em que ocorre venoconstrição, a PVC pode estar normal ou até alta. Alterações anatômicas na veia cava (tumor, hematoma etc.) tornam as medidas da PVC não confiavéis. Doenças pulmonares, alteração de complacência do ventrículo direito e valvopatia tricúspide tornam a mensuração da PVC sem utilidade. Outros fatores que interferem na interpretação da PVC são a ventilação com pressão positiva e o uso da pressão expiratória final positiva. Por tudo isto, a utilidade da PVC como marcador de volemia adequada deve ser vista com ressalva. Como e onde medir a PVC Essa variável sofre tantas interferências que é necessária a padronização de sua técnica de medida para não haver mais uma variável interferindo na sua análise. Nunca se deve analisar um valor isolado e se observar a tendência de valores. A PVC tem valores muito semelhantes se medida nos seguintes locais: - átrio direito; - veia cava superior; - veia cava inferior; - veia ilíaca. Contudo, situações que aumentam a pressão intra-abdominal ou intratorácica podem interferir na medida. Na Tabela 9, observam-se as orientações para medida da pressão venosa central e na Tabela 10 estão resumidas as principais complicações associadas à cateterização venosa. Tabela 9 – Orientações para medir a PVC • Paciente em posição supina. A medida deve ser realizada no final da expiração nos pacientes intubados e no final da inspiração em pacientes em respiração espontânea. • O zero do transdutor (zero hidrostático) deve estar ao nível da linha axilar média do paciente e no quarto espaço intercostal – linha do coração. Se movimentar a altura da cabeceira do leito do paciente, a medida ficará alterada, com necessidade de zerar o sistema novamente. • Pode ser utilizado o método da coluna de água ou o transdutor de pressão, de modo que este último apresenta vantagem de mostrar a curva que representa a onda atrial direita. 32 Tabela 10 – Complicações associadas à cateterização venosa central • Hemorragia durante e após a punção • Erosão vascular • Arritmias atriais e ventriculares por irritação do cateter • Infecções • Sobrecarga hídrica acidental • Complicações tromboembólicas • Embolia gasosa • Perfuração de câmaras cardíacas • Pneumotórax • Hemotórax Técnica de cateterização venosa central • Pode ser feita através das veias: - subclávia; - jugular; - femoral. Tabela 11 – Equipamentos necessários • Médico habilitado e um assistente • Material: - material para assepsia, avental, máscara, luvas e campo estéril. - anestésico - gazes estéreis - porta-agulha e fios de sutura - cateter venoso e seringa - solução e equipo para infusão Técnica de cateterização da veia subclávia • O paciente deverá ficar em posição de Trendelenburg, para evitar embolia aérea à punção do vaso, com a cabeça virada para o lado oposto ao da punção. • Assepsia e colocação de campos estéreis. • Identificação do local de punção que, em geral, é na junção do terço médio com o terço inferior da clavícula. Nesse ponto, será feito o botão anestésico e tentada a punção venosa com a agulha de prova que foi a mesma utilizada para anestesiar. • Introduzir a agulha, aspirando o sangue até refluir. Após o refluxo do sangue, desconectar a seringa e, em seguida, passar um fio-guia pela agulha. Depois, retirar a agulha e passar um dilatador pelo fio-guia. Após passar o dilatador, deve-se retirá-lo e deixar o fio-guia por onde, em seguida, será inserido o cateter (técnica de Seldinger). • Retirar o fio-guia, deixar o cateter e conectar o equipo de soro. Verificar se a infusão está adequada e em seguida abaixar o frasco de soro para um nível abaixo do cateter, verificando se o sangue reflui, manifestando-se como um dos sinais de sucesso do procedimento. • Fixar o cateter à pele e elevar a cabeceira do paciente. • Após o procedimento, realizar ausculta de tórax e solicitar um exame radiológico de tórax para avaliar complicações e posição do cateter. Técnica de cateterização da veia jugular interna – acesso posterior • O paciente deverá ficar em posição de Trendelenburg, para evitar embolia aérea à punção do vaso, com a cabeça virada para o lado oposto ao da punção. • Localizar a veia jugular interna. • Assepsia e colocação dos campos estéreis. 33 • Identificação do local de punção que, em geral, é exatamente acima do ponto onde a veia jugular externa cruza com o músculo esternocleidomastóideo. Nesse ponto, será feito o botão anestésico e tentada a punção venosa com a agulha de prova que foi a mesma utilizada para anestesiar. • Introduzir a agulha com uma inclinação de 30 graus, em direção à fúrcula esternal. Aspirar continuamente até surgir sangue na seringa. Quando aspirar o sangue, desconectar a seringa e em seguida passar um fio-guia pela agulha. Depois retirara agulha e passar um dilatador pelo fio-guia. Após passar o dilatador, deve-se retirá-lo e deixar o fio-guia por onde, em seguida, será introduzido o cateter (técnica de Seldinger). • Retirar o fio-guia, deixar o cateter e conectar o equipo de soro. Verificar se a infusão está adequada e em seguida abaixar o frasco de soro para um nível abaixo do cateter, verificando se o sangue reflui, manifestando-se como um dos sinais de sucesso no procedimento. • Fixar o cateter à pele e elevar a cabeceira do paciente. • Após o procedimento, auscultar os pulmões e solicitar um exame radiológico simples de tórax, para confirmar a posição do cateter. Técnica de cateterização da veia jugular interna – acesso anterior • O paciente deverá ficar em posição de Trendelenburg, para evitar embolia aérea à punção do vaso, e com a cabeça virada para o lado oposto ao da punção. • Localizar a veia jugular interna (ver “Técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar”). • Assepsia e colocação dos campos estéreis. • Identificação do local de punção que, em geral, é exatamente no ápice do triângulo do músculo esternocleidomastóideo. Nesse ponto, será feito o botão anestésico e tentada a punção venosa com a agulha de prova que foi a mesma utilizada para anestesiar. • Introduzir a agulha com uma inclinação de 30 graus, em direção ao mamilo homolateral. Aspirar continuamente até surgir sangue na seringa. Quando aspirar o sangue, desconectar a seringa e em seguida passar um fio-guia pela agulha. Depois, retirar a agulha e passar um dilatador pelo fio-guia. Após passar o dilatador, deve-se retirá-lo e deixar o fio-guia por onde, em seguida, será introduzido o cateter (técnica de Seldinger). • Retirar o fio-guia, deixar o cateter e conectar o equipo de soro. Verificar se a infusão está adequada e, em seguida, abaixar o frasco de soro para um nível abaixo do cateter, verificando se o sangue reflui, manifestando-se como um dos sinais de sucesso do procedimento. • Fixar o cateter à pele e elevar a cabeceira do paciente. • Após o procedimento, auscultar os pulmões e solicitar um exame radiológico simples de tórax, para confirmar a posição do cateter. • Na Tabela 12, observam-se as principais vantagens e desvantagens de cada acesso para cateterização venosa central. Tabela 12 – Vantagens e desvantagens dos diversos acessos venosos Acessos Vantagens Desvantagens Veia subclávia • Fácil acesso • Assepsia fácil em pacientes traqueostomizados • Fácil locação do cateter • Reduzida incidência de trombose • Risco de embolia aérea • Possível laceração da artéria subclávia • Risco de pneumotórax e hemotórax • Lesão nervosa • Perfuração traqueal • Perfuração do cuff do tubo endotraqueal 34 • O risco de complicações aumenta em pacientes em ventilação mecânica e com doença pulmonar obstrutiva crônica Veia jugular interna • Via direta para o átrio direito • Fácil locação do cateter • Baixa incidência de laceração arterial e pneumotórax em comparação à veia subclávia • Risco de embolia aérea • Possível laceração da artéria carótida • Risco de pneumotórax mais a esquerda que à direita • Perfuração traqueal • Perfuração do cuff do tubo endotraqueal • Lesão do ducto torácico quando puncionar a veia jugular à esquerda Veia femoral • Acesso fácil em comparação à veia jugular e subclávia • Aumenta o risco de infecção • Contra-indicado em pacientes com sepse abdominal • Dificuldade na assepsia • Aumento do risco de trombose venosa e embolia pulmonar • Dificuldade de acesso em pacientes obesos • Em pacientes agitados aumenta as chances de perda do cateter Veia cefálica ou basílica • Acesso fácil e com risco mínimo de sangramento em pacientes com diátese hemorrágica • Nenhum risco de pneumotórax • Dificuldade em locar o cateter em obesos e pacientes edematosos • Dificuldade de fixação em pacientes agitados • Perda do cateter é comum • Risco de infecção Aplicação clínica da saturação venosa central A medida da pressão venosa central mostrou-se pouco sensível e específica na detecção de hipovolemia como já foi descrito anteriormente. Entretanto, a medida da saturação venosa central (sangue coletado do cateter venoso central) mostrou-se eficaz em inúmeras situações clínicas (Figuras 14 a 16). 35 PRESSÃO DA ARTÉRIA PULMONAR Considerações A pressão da artéria pulmonar é uma das variáveis mensuráveis mais importantes em hemodinâmica, principalmente pela medida da pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO), visto que a mesma representa a pré-carga de ventrículo esquerdo. A forma da onda de pressão da artéria pulmonar é muito característica (ver “Técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar”). Significado clínico das pressões da artéria pulmonar Pressão sistólica de artéria pulmonar (PSAP) O aumento da PSAP está associado à embolia de pulmão, hipoxemia, doença pulmonar obstrutiva crônica e sepse. Os valores normais estão entre 15 a 25 mmHg. Figura 14 – Saturação O2 venosa central – aplicação clínica. CHOQUE - ScvO2 < 60% ScvO2 > SátrioO2 > SvO2 ↑↑↑↑ disfunção orgânica e mortalidade PARADA CARDÍACA - ScvO2 < 40 % 100% de mortalidade CHOQUE CARDIOGÊNICO oculto em ICC crônica ScvO2 ~ 26.4%- 36.8% ↑↑↑↑ de Lactato ScvO2: saturação venosa central; ICC: insuficiência cardíaca - Em situações de choque com ScvO2 < 60% está associado a aumento de disfunção orgânica e mortalidade. -Em parada cardíaca a ScvO2 < 40 % está associado a mortalidade. -Em ICC, a ScvO2 entre 26,4%-36,8% está associado a aumento de lactato. 36 Pressão diastólica de artéria pulmonar (PDAP) Qualquer patologia cardíaca que aumente a pressão diastólica final de ventrículo esquerdo aumentará a PDAP. Em adição, todos os fatores que aumentam a PSAP aumentarão a PDAP. A hipovolemia diminui tanto a PSAP quanto a PDAP. Situações como estado de choque e tamponamento cardíaco estreitam a pressão de pulso. Devemos lembrar que situações como insuficiência mitral (onda V) distorcem as ondas de pressão da artéria pulmonar. Os valores normais da PDAP ficam em torno de 6 a 12 mmHg. Pressão de artéria pulmonar ocluída (PAPO) A PAPO é uma medida de pré-carga de ventrículo esquerdo. Seus valores estarão diminuídos em estados hipovolêmicos e aumentados em estados hipervolêmicos, apesar de não ser uma regra fixa. Situações como estenose e insuficiência mitral, alterações da complacência ventricular e disfunções ventriculares estão associadas ao aumento de PAPO. Durante a oclusão da artéria pulmonar, podemos observar onda A ou onda V, se houver estenose mitral ou insuficiência mitral, respectivamente. Devemos lembrar que a PAPO apresenta nítida relação com a pressão capilar pulmonar, contudo não representa a mesma coisa (ver “Técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar”). A pressão capilar pulmonar é um pouco mais elevada que a PAPO. Valores de PAPO > 15 mmHg estão associados ao aumento de líquido no espaço intersticial pulmonar. A determinação da PAPO requer rigor na sua medida como se observa na Tabela 13. Tabela 13 – Interpretação da PAPO Determinar a verdadeira posição da PAPO • Avaliar o formato da onda após a oclusão • Em geral, a PAPO é menor que a pressão arterial pulmonar diastólica e que a pressão pulmonar média. • Quando o cateter está colocado muito distalmente, a saturação venosa mista estará falsamente elevada. • O gradiente entre a pressão da artériapulmonar diastólica e a PAPO é de 1 a 4 mmHg • Avaliar o exame radiológico de tórax Aplicação clínica da PAPO • Desde a década de 1960, alguns estudos mostram uma relação linear entre valores acima de 15 mmHg de PAPO e acúmulo de líquidos nos pulmões. • A PAPO reflete a pressão do átrio esquerdo que, por sua vez, reflete a pressão do ventrículo esquerdo. • PAPO é a melhor avaliação, à beira do leito, da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo e isto representa, indiretamente, a pré-carga do ventrículo esquerdo. • Essa situação é muito importante, uma vez que o intensivista pode construir uma curva relacionando aumentos progressivos da PAPO e incrementos do volume sistólico, otimizando a pré- carga • Em situações como choque séptico e síndrome da angústia respiratória aguda, a PAPO pode não ser a medida mais fidedigna da verdadeira pressão no capilar; alguns estudos 37 buscam uma variável mais fidedigna para representar a pré- carga do ventrículo esquerdo. Problemas enfrentados na medida da PAPO • A região do leito capilar pode não refletir a verdadeira pressão capilar principalmente em pacientes com choque séptico e SARA • As oscilações pressóricas durante os ciclos respiratórios podem interferir na determinação da PAPO • Em pacientes com PEEP > 12 cmH2O, o traçado pode refletir a pressão alveolar se o cateter não estiver na zona 3 (Figura 17). • Avaliação da PAPO através de uma régua, como é feito habitualmente, sofre influências da subjetividade do observador. • Em cateteres longos em demasia, o mesmo pode produzir artefatos durante as medidas. Interpretação clínica da PVC e da PAPO (Tabelas 14 e 15) A PVC e a PAPO possibilitam a interpretação mais adequada das variáveis hemodinâmicas, auxiliando de forma importante o diagnóstico e o tratamento das diversas síndromes do choque. A PVC traduz o retorno venoso ao coração direito, bem como possibilita, através da comparação com a pressão de artéria pulmonar ocluída (PAPO), inferir sobre disfunção cardíaca direita isolada ou secundária à disfunção ventricular esquerda e possibilita sugerir o diagnóstico de hipertensão arterial pulmonar. A grande limitação da utilização isolada da PVC como parâmetro de volemia recai sobre diversas condições que afetam sua medida. Do ponto de vista prático, a pressão da artéria pulmonar ocluída reflete, em geral, a pressão diastólica final do ventrículo esquerdo (PDFVE), e a pressão venosa central, a pressão diastólica final do ventrículo direito (PDFVD). O cateter de artéria pulmonar (Swan-Ganz) permite, à beira do leito, aferir essas pressões. Figura 16 – PAPO – Zonas de pressão. A zona 1 apresenta um excesso de ventilação. Na zona 2 o fluxo é determinado pela diferença entre a PAP e PA. A zona 3 é o melhor local para realizar a medida da PAPO. O fluxo nesta região é determinado pela variação da pressão arteriovenosa. PA: pressão alveolar; Pv: pressão venosa; Pa: pressão arterial; PAP: pressão arterial pulmonar; PA: pressão arterial; Q: fluxo. Zona 1 PA > Pa > Pv Zona 2 Pa > PA > Pv Zona 3 Pa > Pv > PA Ventilação em excesso da perfusão Q = PAP-PA Q= ∆∆∆∆P arteriovenoso 38 É importante reconhecer a relação pressão/volume e as variações entre os lados direito e esquerdo do coração em situações de normalidade e estados patológicos. A Tabela 14 destaca os efeitos de processos comumente encontrados nas relações entre PVC e PAPO. Assim, devemos sempre considerar essas situações na interpretação da PVC e da PAPO, em pacientes gravemente enfermos. Outra análise prática importante é a relação entre a pressão diastólica da artéria pulmonar e a PAPO. Quando esse gradiente é superior a 5 mmHg, na vigência de uma pressão média de artéria pulmonar elevada, podemos afirmar que esta não é secundária à falência ventricular esquerda. Pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo, a magnitude da hipertensão arterial pulmonar parece se relacionar com má evolução. Tabela 14 – Condições clínicas que apresentam discrepância entre valores de PVC e PAPO PAPO > PVC PVC > PAPO • Falência cardíaca esquerda • Isquemia • Miocardiopatia • Valvulopatia mitral • Valvulopatia aórtica • Hipertensão arterial sistêmica • Falência cardíaca direita • Isquemia • Valvulopatia tricúspide • Síndrome do desconforto respiratório agudo • Embolia pulmonar • Cor pulmonale • Hipertensão pulmonar Adaptado de Mouchawar A, Rosenthal M. A pathophysiological approach to the patient in shock. Int Anesthesiol Clin 31(2):1-20, 1993. Tabela 15 – Condições clínicas associadas a mudanças nas ondas A e V Causas de ondas A gigante Causas de ondas V gigante • Bloqueio AV total • Arritmias reentrantes • Marcapasso ventricular de câmara única • Estopia ventricular • Estenose mitral • Estenose tricúspide • Insuficiência mitral • Insuficiência tricúspide • Hipervolemia • Defeito do septo ventricular Bibliografia: Akamine N, Fernandes Jr. CJ, Knobel E. Fisiopatologia dos estados de choque. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. Atheneu, São Paulo, p. 3, 1998. Brierre SP, Summer W, Happel KI, Taylor DW. Interpretation of pulmonary artery catheter tracings. Clin Pulm Med 9(6):335-41, 2002. Fundamental Critical Care Support. Standardized curriculum of the principles of critical care. Society of Critical Care Medicine, 2. ed, 1998. Levy MM. Monitorização da função cardíaca e da perfusão tecidual. Crit Care Clin 14:4, 1996. 39 Perret C, Tagan D, Feihl F, Marini JJ. Pathophysiological background. In: The pulmonary artery catheter in critical care. Blackwell Science, London, p. 129, 1996. Rivers EP, Ander DS. Central venous oxygen saturation monitoring in the critically ill patient. Cur Op Crit Care 7(3):204, 2001. Rothenberg DM. Pulmonary artery catheter: what does the literature actually tell us. Int Anesthesiol Clin 38(4):171, 2001. Vellinek H, Krafft P. Right atrial pressure predicts hemodynamics response to apneic positive airway pressure. Crit Care Med 28(3):672, 2000. Walsh JT, Hildick-Smith DJR. Comparison of central venous and inferior vena caval pressures. Am J Cardiol 85(4):518, 2000. 40 CAPÍTULO 3 INTERPRETAÇÃO DAS CURVAS DE MONITORAÇÃO Introdução Ao monitorar as pressões de maneira invasiva no paciente grave, é muito importante a identificação e o entendimento dos componentes e formatos das ondas pressóricas. Em determinadas doenças podem ocorrer algumas alterações das morfologias quando dos valores mensurados. A técnica de aferição realizada de maneira adequada favorece a interpretação e tomada de decisões apropriadas. Dependendo do tipo de onda estudada e do local a, as ondas das curvas apresentam características pertinentes a cada regiãol monitorada. Para proceder a inserção do cateter de artéria pulmonar é imprescindível o reconhecimento das morfologias das ondas das curvas de pressões das câmaras cardíacas, bem como da artéria pulmonar e da pressão de oclusão desta. A orientação da posição do cateter no trajeto de inserção para atingir um posicionamento adequado é guiada pelos valores e pela morfologia encontrada nas ondas(1, 2). O intensivista deve estar familiarizado com as ondas e os valores normais dos seguintes locais: • átrio direito; • ventrículo direito; • artéria pulmonar; • oclusão de artéria pulmonar; • artéria aorta; • artéria radial; • artéria femoral; • artéria pediosa. As ondas das curvas de pressão podem sofrerelevações e quedas por alterações decorrentes do volume sanguíneo, da tensão do miocárdio, e da pressão intratorácica. Assim, podem-se detectar alterações nos valores pressóricos bem como na morfologia das ondas de acordo com as modificações dinâmicas decorrentes de intervenções terapêuticas. Pressão intratorácica A pressão intratorácica pode influenciar os valores pressóricos, visto que o coração se encontra alojado na fossa cardíaca dentro da caixa torácica. De acordo com o modo ventilatório e a fase do ciclo respiratório, a pressão intratorácica pode ser positiva ou negativa. A relação entre o tipo de modo ventilatório aplicado ao paciente e o ciclo respiratório faz com que tome-se o devido cuidado para mensurar a pressão de maneira correta. Especificamente, a pressão de átrio direito e a pressão de oclusão da artéria pulmonar são as que sofrem maior impacto no tocante a técnica adotada para realizar a mensuração. Pode se observar na Figura 01 a oscilação que existe das curvas de pressão de acordo com o tipo de modo ventilatório aplicado ao paciente. 41 Figura 01 - Relação entre a variação das ondas de pressão com o ciclo respiratório durante a respiração espontânea e sob ventilação mecânica. Modificado de Daily, E. No modo ventilação espontânea, sem pressão positiva, pode-se observar que durante a inspiração, devido a geração de pressão negativa dentro da caixa torácica para propiciar a entrada do ar, as pressões das camaras cardíacas diminuem, e pode ser observado pela queda da a curva. Por esta razão, este efeito da pressão torácica deve ser eliminado para melhor aferir as pressões desejadas, sendo a mensuração realizada ao final da expiração antes que as pressões diminuam com a inspiração. O mesmo raciocínio é aplicado nas situações em que o paciente se encontre em ventilatório mecânica com pressão positiva. Neste caso, ocorrerá aumento da pressão intratorácica decorrente da pressão positiva aplicada pela ventilação mecânica durante a inspiração. Semelhante ao modo em ventilação espontânea, deve-se eliminar o efeito da pressão intratorácica sobre o coração, assim as pressões de enchimento devem ser mensuradas ao final da expiração(1). Volume sanguíneo O volume sanguineo contribui para a manutenção da pressão arterial e das pressões de enchimento cardíaco. Assim variações do volume sanguineo pode levar a diminuição dos valores pressóricos bem como alterações da morfologia das ondas de curvas de pressões. O sistema cardiovascular é um sistema de vasos comunicantes e pode ser dividido em duas circulações: a sistêmica e a cardiopulmonar. As duas circulações apresentam características distintas alta e baixa resistência, sistêmica e cardiopulmonar, respectivamente. A circulação sistêmica está associada a pressão arterial sistêmica, retorno venoso e as pressões de enchimento do coração direito. Enquanto a circulação cardiopulmonar está associada ao fluxo sanguíneo em território pulmonar e as pressões de enchimento do coração esquerdo. Em relação a pressão arterial, alterações do volume sanguíneo podem levar não só a diminuição dos valores pressórico mas também influência na morfologia da curva de pressão. Do ponto de vista prático, ao analisar a fórmula da pressão arterial (PA) pode-se observar a contribuição do volume sanguíneo. PA = Débito cardíaco (DC) x Resistência vascular sistêmica (RVS), onde DC = Volume Sistólico (VS) x Frequência Cardíaca (FR). De forma objetiva, o conteúdo intravascular é ejetado pelo coração para os tecidos e células. Este conteúdo está diretamente associado a manutenção da pressão arterial, sendo um fator independente da mesma. 42 Tensão do miocárdio A tensão na parede miocárdica pode alterar a morfologia das ondas de curva que se tornam sinais de determinadas doenças como será descrito a seguir. Especificamente estas alterações ocorrem nas curvas das pressões de enchimento do coração, principalmente na pressão de átrio direito que está relacionada ao volume sanguíneo venoso central e a complacência do compartimento. As curvas de pressão venosa central/pressão de átrio direito (PVC/PAD) e pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) correspondem as pressões de enchimento das respectivas câmaras esquerdas. A PVC/PAD e a POAP apresentam curvas com características semelhantes, pois representam o ciclo mecânico dos átrios, direito e esquerdo, respectivamente. As ondas das curvas são as mesmas, mas ao correlacionar o ciclo mecânico e o ciclo elétrico pode se observar que há um atraso no aparecimento das mesmas. As curvas de átrio apresentam cinco componentes, três ondas ascendentes e duas descendentes, conforme a Figura 02. A onda a é correspondentente à sístole atrial, onda c ao fechamento da valva tricúspide, onda v ao abaulamento das valvas átrio-ventriculares em direção ao átrio durante a sístole ventricular, o descenso x ao relaxamento atrial e inicio da sístole ventricular e, por fim o descenso y que corresponde o esvaziamento rápido atrial. Figura 02 – As ondas de pressão venosa central de um paciente em ventilação mecânica (inferior) com o traçado eletrocadiografico (ECG) (acima). A onda a representa a contração atrial – reforço pré-sistólico e ocorre imediatamente a após a despolarização atrial que é representada pela onda p no ECG. A onda c representa o abaulamento da valva tricúspide no fase inicial da sístole ventricular e é seguido pela onda v causada pelo enchimento atrial durante a sístole ventricular. Em situações normais, onde não existe alteração de ritmo cardíaco e não há comprometimento valvar, a onda de átrio direito e seus respectivos componentes podem ser identificados pelo monitor (Figura 02). Normalmente a aferição da pressão de átrio direito deve se basear pela onda a, visto que esta fase é a que ocorre no final da sístole atrial e onde os ventrículos se encontram praticamente preenchidos, gerando a pressão diastólica final que é a pressão a ser medida. A aferição dessa pressão ou a pressão venosa central deve ser realizada na fase expiratória do ciclo respiratório, esteja o paciente sob ventilação espontânea ou sob ventilação mecânica. Caso o paciente esteja sob respiração espontânea, deve se localizar a onda antes que as pressões diminuam com a inspiração; caso o paciente esteja sob ventilação mecânica, deve se localizar a onda antes que as pressões aumentem com a inspiração(3). 43 Existem varias situações que podem alterar a morfologia normal da curva de PVC, como: 1 – Na fibrilação atrial que há ausência da onda a e a onda c pode se tornar mais proeminente; se houver fibrilação “caótica” dos átrios a curva de da fibrilação poderá ser vista na curva de PVC. Figura 03 – Curva de PVC na fibrilação atrial 2 – Na presença de dissociação A-V ou ritmo juncional onde a contração atrial pode ocorrer durante a sístole ventricular, podem ocorrer ondas com pico elevados, em canhão, devido a contração atrial ocorrer contra a válvula tricúspide fechada. Figura 04 – Curva de PVC no bloqueio átrio ventricular total 3 – Na regurgitação tricúspide, sangue é ejetado retrogradamente durante a sístole ventricular do ventrículo direito para dentro do átrio direito. Isto leva a origem de uma grande onda que é a fusão da onda c com a onda v no traçado da PVC. Figura 05 – Curva de PVC na regurgitação tricúspide. 4 – Na estenose tricúspide, o movimento da massa sanguínea do átrio direito para o ventrículo direito ocorre contra uma grande resistência propiciando acentuação da onda a e atenuação do descenso y. 44Figura 06 – Curva de PVC na estenose tricúspide 5 - Similarmente, se a complacência ventricular direita estiver diminuída seja por doença miocárdica ou pericárdica, a onda a será acentuada. 6 - Nas situações em que ocorre pericárdio constrição, um íngreme descenso y será visualizado, o que diferencia do tamponamento cardíaco no qual a PVC será monofásica, com um breve descenso y e apenas a descendente x com maior visibilidade. Figura 07 – Curva de PVC na pericardite constritive Figura 08 – Curva de PVC no tamponamento cardíaco Para mensurar a PVC nas situações com ausência da contração atrial como a fibrilação atrial, ritmo juncional, ritmo do marcapasso ou ritmo ventricular a medida da pressão deve ser estimada pela média no final do complexo QRS, onde normalmente a onda a apareceria. Para mensurar a POAP, após inflar o balonete do cateter de artéria pulmonar, deve-se reconhecer a onda a. Para reconhecer a onda da curva de POAP, semelhante a curva de átrio direito, deve-se relacionar com o traçado eletrocardiográfico. A onda a da curva de POAP ocorre logo após o QRS (Figura 09). 45 Figura 09 – Relação entre o traçado eletrocardiográfico e a curva de pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP). Importante destacar que durante a inserção do CAP, caso o paciente insuficiência mitral, pode ocorrer o aparecimento da onda v gigante (Figura 10) que dificulta a diferenciação entre as curvas de POAP e a curva de PAP (Figura 11). Figura 10 – Relação da onda v giante com o traçado eletrocardiográfico (ECG). A onda v gigante ocorre após a onda T do ECG. 46 Figura 11 – Curva de POAP com onda v gigante apresenta morfologia semelhante a curva de pressão da artéria pulmonar. Pode-se perceber que a onda v gigante da POAP ocorre logo após a onda T em relação ao traçado eletrocardiográfico(ECG). Enquanto o pico sistólico da curva de PAP ocorre antes ou coincide com a onda T do ECG. Para realizar a inserção do CAP é preciso reconhecer a morfologia das curvas de pressão das respectivas camaras cardíacas direitas além dos valores pressóricos habituais encontrados nas mesmas. Figura - Curva de Pressão de Artéria Pulmonar (PAP) Bibliografia: TS A. Hemodynamic wave form recognition: WB Saunders Company; 1993. Daily EK. Hemodynamic Waveform Analysis. J Cardiovasc Nurs. 2001;6(22):87 - 8. Banner T. Invasive cardiac output measurement technology. In: RR CJTRK, editor. Critical Care. 2nd edition ed. Philadelphia: JB Lippincott Company; 1996. 47 CAPÍTULO 4 DÉBITO CARDÍACO E VARIÁVEIS CALCULADAS Introdução A monitorização hemodinâmica é utilizada no cenário da terapia intensiva com o objetivo de identificar instabilidades cardiovasculares e suas causas, além de monitorar a resposta a um determinado tratamento. Essa monitorização pode ser realizada através de ferramentas que permitam medir parâmetros diretos (variáveis mensuradas) como, por exemplo, pressões de enchimento cardíaco, pressão arterial, pressão da artéria pulmonar e variáveis que traduzam fluxo, como DC. Através das medidas diretas pode-se também obter medidas que são calculadas e que podem auxiliar nas decisões clínicas, desde que analisadas em conjunto com outros parâmetros. As 4 categorias de choque (hipovolêmico, cardiogênico, obstrutivo e distributivo) são geralmente caracterizadas por variáveis hemodinâmicas específicas. Essas variáveis podem ser medidas por uma variedade de ferramentas invasivas e não invasivas, sendo que alguns parâmetros hemodinâmicos que podem ser calculados corroboram para avaliar o status cardiovascular global. MEDIDAS FISIOLÓGICAS DIRETAS (COMUNS) ENCONTRADAS EM MONITORES NA UTI Monitorização não invasiva: � ECG; � oximetria de pulso; � pressão arterial; � pressão venosa central; � frequência cardíaca. Monitorização invasiva: � cateterização arterial; � cateterização venosa central; � cateter de artéria pulmonar; � doppler esofágico. VARIÁVEIS HEMODINÂMICAS PRIMÁRIAS Determinantes fisiológicos do sistema cardiovascular As variáveis calculadas são medidas que estão sujeitas a sofrerem interferências em seus cálculos. Isto significa que na prática clínica deve haver o devido cuidado ao interpretar as mesmas, sendo mais prudente entender o significado das variáveis que a compõe. Os termos das variáveis hemodinâmicas primárias (Tabela 14.1) são necessários para o entendimento das variáveis mensuradas e, conseqüentemente, estão associados às variáveis calculadas. Tabela 14.1 – Termos fundamentais no entendimento das variáveis mensuradas e calculadas Pré-carga � Definida como a tensão da parede ventricular gerada pelo volume no final da diástole. Depende da relação pressão/volume. � É um importante determinante do débito cardíaco. Pós-carga � Definida como estresse da parede ventricular durante a sístole para vencer a resistência imposta para a ejeção ventricular, isto não é sinônimo de resistência vascular. 48 � Depende do tamanho do ventrículo, da pressão desenvolvida durante a sístole e da espessura da parede ventricular. � Não se pode medir fidedignamente a pós-carga devido às variáveis envolvidas na sua determinação. Por outro lado, não se deve chamar de pós- carga do ventrículo direito, nem de pós-carga do ventrículo esquerdo, o cálculo da resistência vascular pulmonar e sistêmica, respectivamente, como já salientado acima. � É outro importante determinante do débito cardíaco. Contratilidade � Outra variável difícil de ser medida na prática. � Provavelmente, o melhor representante da contratilidade à beira-leito, é a fração de ejeção ventricular. Quanto à monitoração invasiva com cateter de artéria pulmonar, a variável que se aproxima da fração de ejeção é o trabalho sistólico ventricular. Impedância arterial � Muito difícil de ser medida. � Muitos autores consideram a impedância arterial como um dos componentes da pós-carga, o que pode interferir diretamente no trabalho miocárdico. � A resistência vascular sistêmica é uma aproximação grosseira da impedância arterial. Complacência ventricular � Determinada pela relação entre as mudanças de volume e as mudanças na pressão transmural do ventrículo no final da diástole. � Fatores como massa muscular, espessura da parede, geometria e volume ventriculares influenciam na complacência ventricular. VARIÁVEIS HEMODINÂMICAS MENSURADAS As variáveis hemodinâmicas obtidas pela monitoração invasiva podem ser classificadas em: � Mensuráveis (Tabela 14.2): aquelas obtidas por medida direta pelo uso de dispositivos apropriados. � Calculadas ou derivadas (Tabela 14.3): aquelas obtidas por fórmulas que integram as variáveis mensuráveis. Partindo do princípio que a demanda metabólica pode sofrer alterações decorrentes da doença, não há valores de débito cardíaco ou DO2 normais. Esses parâmetros variam para atingir o que a demanda metabólica exige, ou seja, adequação ou não da DO2. Tabela 14.2 – Variáveis hemodinâmicas mensuráveis Variável (abreviatura) Unidade Variação normal Pressão arterial sistólica (PAS) Pressão arterial diastólica (PAD) mmHg mmHg 100-140 60-90 Pressão sistólica da artéria pulmonar (PSAP) Pressão diastólica da artéria pulmonar (PDAP) Pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO) mmHg mmHg mmHg 15-30 4-12 2-12 Pressão sistólica ventricular direita (PSVD) Pressão diastólica final ventricular direita (PDFVD) mmHg mmHg 15-30 0-8 Pressão venosacentral (PVC) mmHg 0-8 Débito cardíaco (DC) L/min Varia com a superfície corporal 49 VARIÁVEIS HEMODINÂMICAS CALCULADAS Para a determinação das variáveis calculadas é necessário obter as variáveis mensuradas através de ferramentas com cateteres arteriais, venosos e monitores específicos. Tabela 14.3 – Variáveis hemodinâmicas calculadas ou derivadas Variável (abreviatura) Cálculo Variação normal Pressão arterial média (PAM) PAM = PAD + (PAS-PAD)/3 65-100mmHg Pressão média da artéria pulmonar (PMAP) PMAP = PDAP + (PSAP – PCPO)/3 9-16mmHg Índice cardíaco IC = DC/ASC 2.8-4.2L/min/m2 Volume sistólico (VS) VS = DC/FC Índice sistólico (IS) IS = VS/ASC 30-65mL/batimento/m2 Resistência periférica total (PAM/DC)/80 Resistência vascular sistêmica (RVS) (PAM-PVC)/DC x 80 Índice de resistência vascular sistêmica (IRVS) IRVS = PAM – PVC x 80 /IC 1.600-2.400 dyna.seg.cm-5/m2 Resistência vascular pulmonar (RVP) (PMAP-PAPO) x 80/DC Índice de resistência vascular pulmonar (IRVP) IRVP = [APM – PAPO] x 80 / IC 250-430 dyna.seg.cm-5/m2 Trabalho sistólico do ventrículo esquerdo VS x (PAM -PAPO) Índice de trabalho sistólico do ventrículo esquerdo (ITSVE) ITSVE = [IS x (PAM–PAPO)]/ASC 44-64 g.min/m2 50 Trabalho sistólico do ventrículo direito (TSVD) VS x (PMPA-PVC) Índice de trabalho sistólico do ventrículo direito (ITSVD) ITSVD=TSVD/ASC 7-12 g.min/m2 Área de superfície corpórea (ASC) – m2 Peso (Kg) 0,425 x altura (cm) 0,725 x 0,007184 DO2 global DC x (SaO2-SvO2) Hb x 1,36 x1000 Índice DO2 global IC x (SaO2-SvO2) Hb x 1,36 VO2 global DC x SaO2 x Hb x 1,36 x 1000 Índice VO2 global IC x SaO2 x Hb x 1,36 x 1000 As variáveis calculadas, em geral, são pouco utilizadas pelo intensivista, principalmente, porque a interpretação das mesmas pode ser muito difícil devido às interferências que podem sofrer. Com o aprofundamento dos conhecimentos sobre hemodinâmica e o melhor entendimento das limitações dessas variáveis calculadas ou dependentes, sua importância clínica praticamente desapareceu. Entretanto, em conjunto com as variáveis mensuráveis, que são as mais importantes, essas variáveis podem auxiliar no raciocínio sobre diagnóstico e evolução do tratamento e os entendimentos do seu significado e de seus determinantes podem auxiliar na compreensão da fisiologia circulatória. As variáveis calculadas também podem ajudar a elucidar o tipo de choque predominante, bem como na identificação de componentes relevantes sobre o tipo do estado de choque. Para exemplificar, um choque distributivo devido ao choque séptico pode apresentar fluxo inadequado após a ressuscitação adequada com fluidos, o que pode caracterizar um componente cardiogênico. No choque distributivo, após ressuscitação volêmica, observa-se um aumento no débito cardíaco e uma diminuição do tônus vasomotor. O DC, o trabalho sistólico, a DO2 e a SvO2 estão diminuídas no choque cardiogênico, hipovolêmico e obstrutivo, mas podem estar com valores numéricos absolutos normais ou até aumentados no choque distrubutivo, o que não significa necessariamente que estejam adequados às necessidades do organismo. Como a maioria dos choques reflete uma DO2 inadequada nos tecidos, o principal objetivo da ressucitação é adequar a DO2, o que na maioria das vezes se traduz em aumento dos valores numéricos prévios à intervenção. CLASSIFICAÇÃO DAS VARIÁVEIS CALCULADAS Variáveis calculadas relacionadas ao ventrículo esquerdo Resistência vascular sistêmica e índice de resistência vascular sistêmica: A resistência vascular sistêmica é a resistência ao fluxo sanguíneo causada pelo leito vascular sistêmico. Ela ocorre por um diferencial de pressão entre a PAM e a PVC dividida pelo fluxo, no caso, DC. 51 Segundo a lei de Poiseuilles, o principal componente da resistência é o diâmetro vascular. Quanto menor o diâmetro vascular maior a resistência e, consequentemente, menor a velocidade sanguínea. Essa resistência deve ser superada pelo ventrículo esquerdo para bombear o sangue através da circulação sistêmica. Pode ser medida pela seguinte fórmula: Resistência vascular sistêmica (RVS) RVS = PAM – PVC x 80 DC Índice de resistência vascular sistêmica (IRVS) IRVS = PAM – PVC x 80* IC * 80: representa um fator de conversão das unidades para o padrão cgs. O IRVS é determinado utilizando-se o índice cardíaco ao invés do débito cardíaco, dessa forma leva-se em conta a superfície corpórea. O IRVS (ou RVS) é representante indireto do estado vasomotor da grande circulação, e por isso muito criticável. Isto significa que o IRVS estará aumentado (ex.: choque cardiogênico, tamponamento cardíaco) ou diminuído (ex.: choque séptico, anafilático), dependendo da presença de vasoconstrição ou vasodilatação, respectivamente. A sepse é a etilogia mais comum de baixa RVS na UTI. Mediadores inflamatórios como TNF, IL- 1, fator de ativação plaquetária e protaglandinas levam a uma baixa resistência vascular sistêmica na sepse. Essa baixa resistência é a causa da hipotensão nesses casos, mesmo concomitante a um DC normal ou até elevado. A RVS baixa persistente, nesses casos, por mais de 24h é um preditor de mortalidade. Outras causas de choque distributivo incluem anafilaxia, ingestão de drogas, pancreatite, cirrose, lesão neurogênica, Beribéri, intoxicação por salicilatos, síndrome vasoplégica, após revascularização do miocárdio, e insuficiência adrenal. Essa variável proporcionará um entendimento mais fácil do estado de choque, podendo facilitar a utilização das drogas vasoativas. Entretanto, há dois conceitos que tornam essa variável muito criticável e inviabiliza a sua utilização de forma isolada: não considerar a pulsatilidade do fluxo sanguíneo e, por isso, não permitir avaliar adequadamente a impedância arterial; a análise da RVS assume uma razão linear entre fluxo e pressão, o que não ocorre na maioria dos casos. Observação: no choque séptico, pode-se encontrar DC elevado com PAM normal. Nessa situação a RVS estará baixa e não se deve atuar sobre ela, pois se trata de um mecanismo de adequação. Isto quer dizer que não se utiliza vasopressor para elevar a RVS, e sim para garantir pressão de perfusão adequada. CLASSIFICAÇÃO DAS VARIÁVEIS CALCULADAS Variáveis calculadas relacionadas ao ventrículo esquerdo Resistência vascular sistêmica e índice de resistência vascular sistêmica: A resistência vascular sistêmica é a resistência ao fluxo sanguíneo causada pelo leito vascular sistêmico. Ela ocorre por um diferencial de pressão entre a PAM e a PVC dividida pelo fluxo, no caso, DC. Segundo a lei de Poiseuilles, o principal componente da resistência é o diâmetro vascular. Quanto menor o diâmetro vascular maior a resistência e, consequentemente, menor a 52 velocidade sanguínea. Essa resistência deve ser superada pelo ventrículo esquerdo para bombear o sangue através da circulação sistêmica. Pode ser medida pela seguinte fórmula: Resistência vascular sistêmica (RVS) RVS = PAM – PVC x 80 DC Índice de resistência vascular sistêmica (IRVS) IRVS = PAM – PVC x 80* IC * 80: representa um fator de conversão das unidades para o padrão cgs. O IRVS é determinado utilizando-se o índice cardíaco ao invés do débito cardíaco, dessa forma leva-se em conta a superfície corpórea. O IRVS (ou RVS) é representanteindireto do estado vasomotor da grande circulação, e por isso muito criticável. Isto significa que o IRVS estará aumentado (ex.: choque cardiogênico, tamponamento cardíaco) ou diminuído (ex.: choque séptico, anafilático), dependendo da presença de vasoconstrição ou vasodilatação, respectivamente. A sepse é a etilogia mais comum de baixa RVS na UTI. Mediadores inflamatórios como TNF, IL- 1, fator de ativação plaquetária e protaglandinas levam a uma baixa resistência vascular sistêmica na sepse. Essa baixa resistência é a causa da hipotensão nesses casos, mesmo concomitante a um DC normal ou até elevado. A RVS baixa persistente, nesses casos, por mais de 24h é um preditor de mortalidade. Outras causas de choque distributivo incluem anafilaxia, ingestão de drogas, pancreatite, cirrose, lesão neurogênica, Beribéri, intoxicação por salicilatos, síndrome vasoplégica, após revascularização do miocárdio, e insuficiência adrenal. Essa variável proporcionará um entendimento mais fácil do estado de choque, podendo facilitar a utilização das drogas vasoativas. Entretanto, há dois conceitos que tornam essa variável muito criticável e inviabiliza a sua utilização de forma isolada: não considerar a pulsatilidade do fluxo sanguíneo e, por isso, não permitir avaliar adequadamente a impedância arterial; a análise da RVS assume uma razão linear entre fluxo e pressão, o que não ocorre na maioria dos casos. Observação: no choque séptico, pode-se encontrar DC elevado com PAM normal. Nessa situação a RVS estará baixa e não se deve atuar sobre ela, pois se trata de um mecanismo de adequação. Isto quer dizer que não se utiliza vasopressor para elevar a RVS, e sim para garantir pressão de perfusão adequada. Trabalho sistólico do VE e índice do trabalho sistólico de VE É o trabalho realizado pelo ventrículo esquerdo para ejetar um determinado volume de sangue através da aorta e pode ser calculado através do produto do volume sistólico e a pressão média da aorta durante a ejeção. Trabalho sistólico de ventrículo esquerdo (TSVE) TSVE = VS x [(PAM–PAPO) x 0,0136] Índice de trabalho sistólico de ventrículo esquerdo (ITSVE) ITSVE = IS x [(PAM–PAPO) x 0,0136] Para determinação fidedigna do trabalho sistólico do ventrículo esquerdo, é necessário um conhecimento, em tempo real, da pressão e do volume ventricular que, na prática, não é 53 factível. O índice que mais se aproxima do trabalho sistólico do ventrículo esquerdo é o ITSVE, melhor indicador da função inotrópica do ventrículo esquerdo. O ITSVE pode sofrer influência da pré e da pós-carga. Isto significa que o entendimento do ITSVE depende da análise dessas duas variáveis. Na prática, nunca se deve tomar conduta com base em um valor numérico de uma única variável. Pode-se traçar uma curva de função ventricular ao relacionar uma variável de pré-carga, como a POAP, e o índice de trabalho sistólico de ventrículo esquerdo (Figura 14.1). Assim, pode-se perceber que na medida em que a pré-carga se eleva, aumenta proporcionalmente o trabalho sistólico até um limite acima do qual o ventrículo começa a falir. A grande limitação desse método é a utilização de uma variável pressórica de pré-carga para estimar uma variável volumétrica. Índice Cardíaco: O débito cardíaco é definido como o volume de sangue que um ventrículo ejeta durante 1 minuto, representado pelo volume sistólico X a frequência cardíaca. O débito cardíaco depende das características do sistema de condução, principalmente da resistência da árvore vascular. O fluxo sanguíneo é inversamente proporcional a resistência e diretamente proporcional a efetiva pressão de perfusão (o gradiente de pressão entre o sistema arterial e venoso distal). O IC representa o fluxo sanguíneo global corrigido pela superfície corpórea. Isso é muito importante, pois o débito cardíaco varia com o tamanho do indivíduo. Deve-se lembrar que o IC, assim como o DC, sofre interferência da pré-carga, pós-carga e da função inotrópica do coração. Índice cardíaco (IC) IC = DC/ASC ASC: área de superfície corporal. Variáveis calculadas relacionadas ao ventrículo direito Resistência vascular pulmonar e índice de resistência vascular pulmonar: Resistência vascular pulmonar (RVP) RVP = PMAP – PAPO x 80* DC Índice de resistência vascular pulmonar (IRVP) IRVP = PMAP – PAPO x 80* IC * 80: representa um fator de conversão de unidades para o padrão cgs. A interpretação da RVP é complexa porque sua medida sofre os mesmos problemas já descritos para a RVS, e porque não há uma relação linear entre a pressão média de artéria pulmonar e o débito cardíaco. Outro importante problema com essa variável é que a mesma é muito sensível às variações por erros de medida, devido aos baixos valores pressóricos do sistema pulmonar. Após a análise crítica da RVP, pode ser vista com muito cuidado como um indicador da resistência dos vasos pulmonares de pequeno calibre. Quando não há estenose da artéria pulmonar ou nenhuma outra obstrução, o RVP ou IRVP pode representar o estado vasomotor da circulação pulmonar. Isto significa que a RVP estará aumentada quando houver vasoconstrição, e diminuída quando houver vasodilatação. Observação: é importante observar se há gradiente maior que 5mmHg entre PDAP e POAP. Quando presente denota hipertensão arterial pulmonar não secundária à disfunção ventricular esquerda (ex.: hipertensão pulmonar secundária à SARA). 54 Trabalho sistólico do ventrículo direito e índice do trabalho sistólico do ventrículo direito: Trabalho sistólico de ventrículo direito (TSVD) TSVD = [VS x (PMAP–PVC)] x 0,0136 Índice de trabalho sistólico de ventrículo direito (ITSVD) ITSVD = [IS x (PMAP–PVC)] x 0,0136 A análise do trabalho sistólico do ventrículo direito sofre os mesmos problemas da análise do trabalho sistólico do ventrículo esquerdo. Essa variável sofre interferência de pré-carga, pós- carga e contratilidade do ventrículo direito. Isto significa que, em situações em que os valores de pré-carga e pós-carga estão dentro da normalidade, o TSVD só estará normal se a função inotrópica do ventrículo direito estiver preservada. Pelas definições prévias de pré-carga e pós-carga, fica muito difícil analisar essa variável de forma isolada. No início da década de 1990, uma nova tecnologia foi introduzida nos cateteres de artéria pulmonar. Essa técnica permitiu a medida da fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD), pelo uso da técnica da termodiluição Esse método de medida da FEVD foi validado por meio da medida feita por ventriculografia contrastada. Pela medida da FEVD, outras variáveis foram geradas e novas avaliações da pré- carga e da função sistólica do ventrículo direito foram introduzidas. Para mensurar a FEVD é necessário conectar o debitomêtro ao monitor multiparamétrico para capturar o traçado eletrocardiografico. Isso é necessário, pois o software plota os complexos QRS’s na curva de termodiluição. Variáveis de função do coração direito Variáveis (abreviações) Fórmulas Valores normais Fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD) Medida direta por termodiluição 0,40-0,60 Índice de volume diastólico final do ventrículo direito (IVDFVD) IVDFVD = IS/FEVD 60-100mL/m2 Índice de volume sistólico do ventrículo direito (IVSVD) IVSVD = IS – IVDFVD 30-60mL/m2 Índice sistólico (IS) = IC/FC; índice cardíaco (IC) = DC/ASC; FC: frequência cardíaca; DC: débito cardíaco; ASC: área de superfície corpórea. Essa técnica, apesar de promissora, apresenta problemas técnicos quando é utilizada em pacientes com fibrilação atrial,frequência cardíaca >150bpm e extrassístoles frequentes. Esse problema ocorre, pois a não identificação das ondas R do ECG diminui a acurácia da mensuração da FEVD. Ainda, a FEVD apresenta valores diferentes dependendo da fase do ciclo respiratório em que é medida. Em pacientes com insuficiência tricúspide, esse método fica invalidado devido à existência de fluxo bidirecional para o átrio direito e para artéria pulmonar durante a sístole. A possibilidade da avaliação da função ventricular direita, através da fração de ejeção do ventrículo direito, à beira do leito de forma contínua, trouxe uma nova perspectiva não só para determinar a função ventricular, mas por permitir o cálculo do IVDFVD. Há vários estudos mostrando uma boa correlação entre o IVDFVD e o IC. Alguns estudos mostram que o índice de volume diastólico final de ventrículo direito menor que 140mL/m2 está associado ao recrutamento do índice cardíaco, quando se infundem fluidos. Outros estudos mostraram também boa correlação do IVDFVD com IVSFVD e ITSVE.No entanto, estudos ainda 55 mais recentes demonstram que não há evidência consistente que suporte o uso de medidas diretas ou indiretas do volume diastólico final como preditor de responsividade de pré-carga. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar da série de variáveis, mensuradas e calculadas, não se deve tratar um paciente com base em um dado numérico isolado, seja este uma variável mensurada ou calculada. O doente grave é complexo e as condutas devem ser tomadas baseando-se em um conjunto de observações clínicas, laboratoriais e as oriundas da monitoração adequada. Nenhuma monitorização hemodinâmica melhora o prognóstico se não estiver acoplado com um tratamento responsável pela melhora do prognóstico Nenhum valor absoluto de PVC, POCP, VDFVD ou ADFVE é preditor de responsividade de pré- carga. Mudanças na PVC e na POAP não refletem mudanças no DC e no VS em pacientes hemodinamicamente instáveis Apesar de aumentos nos volumes diastólicos finais de VE e VD aumentarem o volume sistólico, valores conhecidos num único ponto do tempo não são úteis para fazer essa predição. BIBLIOGRAFIA: Akamine N, Fernandes Jr. CJ, Knobel E. Fisiopatologia dos estados de choque. In: Knobel E. Condutas do paciente grave. 2nd ed. São Paulo: Atheneu; 1998. p. 3. Braunwald E. Assessment of cardiac function. In: Libby BZ. Heart disease. A textbook of cardiovascular medicine. 4th ed. Philadelphia: WB Saunders;1992. p. 419-43. Levy MM. Monitorização da função cardíaca e da perfusão tecidual. Crit Care Clin 1996;14:4. Perret C, Tagan D, Feihl F, Marini JJ. Pathophysiological background. In: The pulmonary artery catheter in critical care. London: Blackwell Science; 1996. p. 129. Voelker W, Gruber HP, Ickrath O, Unterberg R, Kirsch KR. Determination of right ventricular ejection fraction by thermodilution technique. Intensive Care Med 1988;14:461-6. Melo J, Peters JI. Low systemic vascular resistance: differential diagnosis and outcome. Crit Care 1999;3:71-7. Calzia E, Ivány Z, Radermacher P. Determinants of blood flow and organ perfusion in functional hemodynamic monitoring. Pinsky M R and Payen D (eds) in Update in Intensive care and Emergency Medicine. 56 CAPÍTULO 5 TRANSPORTE DE OXIGÊNIO Introdução Das inúmeras variáveis hemodinâmicas passíveis de serem aferidas com a utilização da monitorização invasiva, à beira do leito, demonstrou-se que pressão venosa central (PVC), pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO), pressão arterial média (PAM) e índice cardíaco (IC) têm menor importância biológica, pois não predizem a sobrevida do doente grave nos estágios iniciais de uma determinada doença. Conhecimentos adquiridos mais recentemente demonstraram que o estado de choque reflete um desequilíbrio entre oferta (DO2) e consumo de O2 (VO2), considerando: - DO2: função precípua da circulação; - O2: componente sanguíneo mais dependente de fluxo, porquanto tem a maior taxa de extração, não podendo ser armazenado. Seu transporte aos sítios celulares de utilização guarda boa correlação com a sobrevida. Autor Evid Tipo de estudo Intervenção Prognóstico Resultados Fleming et al. (1992) II Prospectivo, randomizado e controlado IC ≥ 4,5 l/min/m² IDO2 ≥ 670 ml/min/m² IVO2 ≥ 166 ml/min/m² volume mais inotrópicos Mortalidade/falências orgânicas Menor mortalidade Menor número de falências Menor tempo no CTI Menor uso do respirador Tuchsmid t et al. (1992) II Prospectivo, randomizado e controlado IC > 6 l/min/m² volume mais inotrópicos Mortalidade Tempo no CTI Sem diferenças Boyd et al. (1993) II Prospectivo, randomizado e controlado Pré-operatório IDO2 ≥ 600 ml/min/m² volume mais inotrópicos Mortalidade no pós- operatório/tempo no CTI/tempo no hospital Menor mortalidade Menor taxa de complicações Yu et al. (1993) II Prospectivo, randomizado e controlado IDO2 ≥ 600 ml/min/m² volume mais inotrópicos Mortalidade Tempo no CTI Tempo no hospital Sem diferença Hayes et al. (1994) II Prospectivo, randomizado e controlado IC ≥ 4,5 l/min/m² IDO2 ≥ 670 ml/min/m² IVO2 ≥ 170 ml/min/m² volume mais inotrópicos Mortalidade Tempo no CTI Tempo no hospital Maior mortalidade Sem diferença nos tempos 57 Poder-se-ia afirmar que as variáveis capazes de avaliar DO2 e/ou VO2 são as que mais se relacionam ao prognóstico e, portanto, são as que devem ser mais frequentemente mensuradas. Da observação prospectiva dos padrões cardiorrespiratórios de pacientes graves que sobreviveram, foram estabelecidos objetivos terapêuticos a serem atingidos. O passo seguinte seria documentar que a aplicação prospectiva de protocolos que visam incrementar a DO2 e o VO2 teria a capacidade de reduzir a morbidade e mortalidade e a incidência de insuficiência orgânica, o que foi constatado por Shoemaker. Por vários anos, o incremento farmacológico do transporte de oxigênio para níveis supranormais foi considerado objetivo terapêutico. Recentemente, documentou-se que, em pacientes sépticos sem evidência de um débito de oxigênio, a terapia supranormal não confere vantagens prognósticas (Tabela 1). A adequação da oxigenação tissular depende do volume de O2 transportado aos tecidos (DO2) e daquele consumido (VO2). A relação oferta/consumo pode ser determinada pela análise de cinco fatores facilmente mensuráveis e de um sexto que não é mensurável. Fatores mensuráveis • Concentração de hemoglobina • Porcentagem da hemoglobina saturada com O2 no sangue arterial (SaO2) • Débito cardíaco (DC) • Consumo de O2 (VO2) • Afinidade da hemoglobina pelo O2 (P50) Fator não mensurável • Distribuição da perfusão Transporte de oxigênio Bishop et al. (1995) II Prospectivo, randomizado e controlado IC ≥ 4,5 l/min/m² IDO2 ≥ 670 ml/min/m² IVO2 ≥ 166 ml/min/m² Mortalidade/falência, tempo no CTI/tempo no hospital/uso de respirador Menor mortalidade Menor número de falências Tempo e respirador iguais Gattinoni et al. (1995) I Prospectivo, randomizado, controlado e multicêntrico IC > 4,5 l/min/m² volume mais inotrópicos Falências orgânicas Tempo de CTI Não houve melhora no prognóstico Alia et al. (1999) II Randomizado e controlado IDO2 > 600 ml/min/m2 Mortalidade Falências orgânicas Sem diferenças Lobo (2000) II Prospectivo, randomizado e controlado IDO2 > 600 ml/min/m2 IVO2 > 170 ml/min/m2IC > 4,5 l/min/m2 Mortalidade Complicações Menor mortalidade Menores complicações Velmahos (2000) II Prospectivo, randomizado e controlado IDO2 > 600 ml/min/m2 IC > 4,5 l/min/m2 IVO2 > 170 ml/min/m2 Volume + drogas Mortalidade Falências orgânicas Tempo no CTI Sem diferenças 58 • Volume de O2 transportado pelo leito vascular sistêmico por minuto. É um produto do conteúdo arterial de O2 (CaO2) pelo DC. DO2 = CaO2 x DC • O CaO2 é a soma do oxigênio ligado quimicamente à hemoglobina com aquele fisicamente dissolvido no plasma, ou seja: CaO2 = (Hb 1,34 x SaO2) + (PaO2 x 0,0031) • Em que 1,34 é uma estimativa do volume de O2 (ml) capaz de se ligar a 1 g de hemoglobina (Hb), quando está totalmente saturada, e 0,0031 é o coeficiente de solubilidade de O2 no plasma. A Figura 1 esquematiza a oferta de oxigênio aos tecidos. Hemoglobina • A contribuição da hemoglobina à DO2 varia com o grau e a duração da anemia, demanda metabólica e diâmetro vascular. • A anemia está associada a alterações na viscosidade sanguínea e no tônus vascular. A viscosidade dobra quando o hematócrito é elevado de 20% a 40% e essa alteração é ainda maior nos indivíduos arteriopatas. • Nas anemias leves, observa-se aumento periférico na captação de O2, ou seja, há maior extração de O2 pelos tecidos. • Em anemias mais severas, pode-se detectar um verdadeiro estado hiperdinâmico com elevação do DC e queda da RVS. • Enquanto parece não haver dúvidas quanto à necessidade de transfusão sanguínea no paciente grave com anemia severa, a reposição para valores de Hb maiores ou iguais a 10 g/dl (ou hematócrito em torno de 33%) já não é tão clara. • O conceito de um hematócrito ótimo, no qual o transporte de O2 seria máximo, ficou definido em condições experimentais como menores que o valor fisiológico. Ressalta-se que essa conclusão é válida em condições de repouso, não podendo ser extrapolada para situações de alta demanda energética e de estados hiperdinâmicos, em que níveis maiores de Hb parecem corresponder a maior capacidade transportadora de O2. • Deve-se, inicialmente, melhorar as condições hemodinâmicas e, posteriormente, elevar a concentração de Hb, se existirem evidências de que a hipóxia tissular (baixa pressão venosa de O2) esteja causando disfunções orgânicas. • Recentemente, um estudo multicêntrico sugeriu que Hb > 7 g/dl seria adequada para pacientes graves, não havendo justificativa de se elevar a Hb acima de 10 g/dl (exceto em pacientes cardiopatas). Saturação arterial de oxigênio • A contribuição da saturação arterial de O2 (SaO2) ao transporte de oxigênio é linear. • Normalmente, níveis de PaO2 de 60 mmHg ou mais, com curva normal de dissociação da hemoglobina, correspondem a SaO2 aceitável. Curva de dissociação da oxi-hemoglobina • Manipulações na curva de dissociação da hemoglobina podem ser importantes em pacientes graves com transporte de O2 limítrofe. • Precauções no sentido de se evitar hipofosfatemia, acidose prolongada e transfusão de sangue estocado podem impedir a queda do 2-3DPG e, assim, evitar o desvio da curva para a esquerda, o que implicaria menor liberação tissular de O2. 59 • A alcalose respiratória também deve ser evitada, podendo-se corrigi-la através da ventilação mecânica. • O desvio da curva de dissociação de hemoglobina para a direita é vantajoso na maioria dos pacientes. Débito cardíaco • O maior determinante da capacidade transportadora de O2 pela circulação é o débito cardíaco (DC), e os seguintes fatores determinam sua magnitude: - frequência cardíaca; - pré-carga; - pós-carga; - contratilidade. • A pré-carga relaciona-se ao estiramento da fibra ventricular no período telediastólico, correspondendo a uma medida do volume diastólico final. • A manipulação terapêutica da pré-carga do VE, por meio de reposição volêmica, promove alterações no desempenho cardíaco de acordo com o mecanismo de Frank Starling. Ainda que a PAPO seja utilizada na prática para estimar a pré-carga, esse pressuposto pode ser inadequado em doentes graves em função do frequente comprometimento da função diastólica. • A literatura é pródiga em relatos documentando a falta de sensibilidade de variáveis como PAM, FC, PVC, PAPO e hematócrito em predizer a volemia. • A mensuração do volume diastólico final reflete com maior precisão o enchimento ventricular. • A relação entre pressão diastólica final (aferida na prática clínica como a PAPO) e volume diastólico final de um determinado ventrículo (complacência) não é linear, sendo representada por meio de curva com concavidade superior (Figura 2). • Quanto maior o enchimento de um dado ventrículo, menor a sua complacência ou, ainda, para os mesmos volumes, maiores pressões serão geradas. • A presença de sepse e a frequente administração de drogas inotrópicas tendem a reduzir a complacência ventricular, limitando a avaliação da PAPO como índice de pré-carga. 60 • O uso clínico da PVC, como indicador da PAPO, pressupõe a existência de alguma relação entre as funções ventriculares direita e esquerda. • Em condições de alterações dessa relação, como ocorre frequentemente em doentes sépticos, queimados ou cardiogênicos, o uso clínico das pressões de enchimento do VD estaria seriamente limitado como indicador da pré-carga do VE. • O guia mais fidedigno da adequação volêmica não é uma medida isolada de pressão ou volume, mas sim o monitoramento dinâmico das respostas fisiológicas secundárias à expansão volêmica. • A determinação da contratilidade ventricular à beira do leito não é possível com a monitorização hemodinâmica invasiva. Entretanto, podemos inferir a função ventricular através da construção de uma curva cujos pontos na abscissa representam a estimativa da pré-carga (PAPO) e na ordenada os valores correspondentes ao trabalho ventricular, avaliado pelo índice de trabalho sistólico do ventrículo esquerdo (ITSVE). • A pós-carga refere-se a fatores que determinam a velocidade de encurtamento das fibras ventriculares durante a sístole. Em termos clínicos, esses fatores contribuem à impedância oferecida ao fluxo sanguíneo do ventrículo. • Incluem-se: - viscosidade sanguínea; - complacência ventricular; - distensibilidade dos grandes vasos; - tônus arteriolar. • Ainda que não seja fisiologicamente correto imputar à RVS o conceito de pós-carga, é clinicamente útil mensurar alterações na RVS como alterações na pós-carga (ver “Interpretação das curvas pressóricas”). Consumo de oxigênio • Em condições normais de repouso em humanos, a taxa de consumo de oxigênio (VO2) representa apenas um quarto (25%) do transporte sistêmico de O2. Em função dessa abundância no transporte de O2, VO2 é normalmente determinado pelas demandas metabólicas e não é afetado por pequenas variações no transporte. VO2 representa a soma de todas as reações oxidativas e, por isso, reflete o estado global do metabolismo tissular. Todavia, VO2 representa o montante de O2 sendo extraído naquele momento e não obrigatoriamente aquele necessário à demanda metabólica. Em condições normais, a captação de O2 pelas células é independente da oferta. Apenas quando a oferta de O2 cai abaixo de um nível crítico (8 a 10 ml/kg/min em animais) é que o consumo de O2 começa a declinar, propiciando o aparecimento da acidose láctica (dependência fisiológica da oferta de O2). • As condições patológicas frequentemente encontradas em pacientes graves (sepse, insuficiência respiratória, hipertensão pulmonar, doença pulmonarobstrutiva crônica) determinam prejuízo na capacidade tissular de extração de O2. Decorrendo disso, o VO2 torna-se mais dependente da oferta de O2, podendo elevar-se progressiva e proporcionalmente às elevações no transporte de O2 induzidas pela manipulação terapêutica. • Aumento significativo e imediato do VO2 em resposta a um aumento no DO2 sugere que o metabolismo tissular estava inadequado e, possivelmente, limitado pelo transporte (dependência patológica da oferta de O2). Assim, podemos através do monitoramento dinâmico do VO2, diante de manipulações terapêuticas da oferta, determinar a eventual adequação circulatória. Essa visão foi progressivamente alterada nos últimos anos por diversos motivos. • A presença de variáveis comuns ao transporte e consumo de oxigênio caracteriza o acoplamento matemático, o que inviabiliza a propalada dependência patológica de oxigênio. Outros postularam que essa dependência poderia ser fruto de variações espontâneas de 61 DO2 e VO2. Observações recentes não confirmaram a chamada dependência patológica, quando se determina o consumo de oxigênio por mensuração direta (calorimetria indireta). • A abordagem lógica seria aquela que assumimos na última década em que priorizamos a terapêutica do "suficiente" em detrimento da otimização progressiva do transporte de oxigênio como fizemos no passado. • A literatura e a nossa própria experiência nos autorizam a monitorizar o doente grave de forma a guiar com mais precisão a eventual reposição volêmica e dessa maneira aperfeiçoar o transporte de oxigênio suficiente para reduzir a acidose láctica e atender à demanda metabólica (Figura 3). • Outra alternativa é utilizarmos a relação entre IC e T.Ex.O2 (medidas independentes) para se avaliar o VO2 (ver “Débito cardíaco”). Essa relação nos permite verificar que, em alguns pacientes, o aumento da DO2 não é acompanhado pelo aumento do VO2 (a saturação venosa aumenta em paralelo ao aumento da DO2). Essa observação demonstra que o acoplamento matemático nem sempre está presente. • Apenas a monitorização hemodinâmica invasiva permite a coleta do sangue venoso misto definido como a mistura de todo o sangue que atravessou leitos capilares capazes de extrair O2. • Amostras de sangue coletadas da porção proximal da artéria pulmonar têm a propriedade única de refletir de forma global o equilíbrio entre oferta e consumo de O2 dos tecidos perfundidos. Pressão venosa mista de oxigênio • A força primária que move O2 do capilar em direção à célula é o gradiente de pressão parcial. A difusão de O2 é diretamente proporcional à diferença entre a PO2 capilar e a celular. A PO2 capilar reflete o conteúdo arterial de O2, fluxo sanguíneo local e extração local de O2. A PO2 capilar terminal representa o equilíbrio entre todos esses fatores. • Da soma e mistura desse sangue capilar terminal afluente de todos os tecidos perfundidos, origina-se a PvO2, importante indicador global da oxigenação tecidual. • Seu valor normal é de aproximadamente 40 mmHg. Reduções abaixo desse nível estão obrigatoriamente associadas a decréscimo na relação oferta-consumo de O2 em tecidos perfundidos. Uma elevação acima desse nível pode ser o primeiro indício de sepse incipiente. • A análise da PvO2 deve levar em consideração que o sangue venoso misto não representa tecidos não perfundidos. Representa inadequadamente tecidos hipoperfundidos e que a hiperperfusão de alguns tecidos pode elevar artificialmente o seu valor. Exemplificando, um paciente séptico normovolêmico pode ter inicialmente uma PvO2 maior que 45 mmHg. Evolutivamente, observa-se queda daquele valor para 38 mmHg. Essa queda pode representar uma das seguintes condições: - Queda na DO2, em função de comprometimento cardíaco ou hipovolemia. - Hipoperfusão de alguns tecidos até então normoperfundidos. - Resolução do processo séptico traduzindo a normalização da perfusão em tecidos até então hiperperfundidos. Saturação venosa de oxigênio (SvO2) • Aproxima-se da PvO2 em significância e utilidade na maioria das circunstâncias. Seu valor normal é aproximadamente 75% (faixa aceitável 68% a 77%). Valores acima desse nível indicam um aumento na relação oferta/consumo de O2, refletindo menor taxa de extração de O2, estando associados à cirrose, sepse, pancreatite, politraumatismo etc. Valores inferiores a 68% podem estar associados à anemia, hipoxemia, aumento das demandas energéticas ou decréscimos no DC (Figura 4). 62 • Uma forma alternativa de se monitorizar a SvO2 é mediante cateteres pulmonares especiais. Esses cateteres dispõem de um sistema de fibra óptica que se comunica com um equipamento que faz análise espectrofotométrica do sangue que passa pela circulação pulmonar. • Dessa forma, é possível o acompanhamento contínuo da SvO2 sem inconvenientes, riscos e custos das coletas seriadas de sangue venoso misto. Esses sistemas de monitorização têm sido acoplados aos modernos cateteres de débito cardíaco contínuo e deverão substituir com vantagens os métodos atuais de monitorização. Saturação central de oxigênio (ScO2) • É a saturação da hemoglobina no sangue venoso central medido por um cateter venoso central locado na veia cava superior. • Em condições normais a ScO2 colhida na veia cava superior é menor do que a mesma saturação colhida na veia cava inferior, pois o a ScO2 representa mais a região cefálica do corpo, onde o cérebro apresenta um alto consumo de oxigênio. Também, em condições normais, a saturação da cava inferior reflete a alta saturação venosa do rim, um órgão que apresenta uma circulação com um importante shunt. • Entretanto, em condições de choque circulatório, com vasoconstrição renal e esplâncnica, a ScO2 (cava superior) tende a ser maior. Ou seja, seus valores baixos indicam com segurança uma oferta critica de oxigênio para os tecidos. • Um importante estudo mostrou diminuição de mortalidade em pacientes em quadros iniciais de choque séptico tratados com o objetivo clínico de restauração da ScO2. Os guias de condutas modernos no tratamento da sepse sugerem o uso da ScO2 como uma meta de tratamento e avaliação da relação oferta e consumo de oxigênio. Bibliografia: Bishop MH, Shoemaker WC, Appel PL et al. Prospective, randomized trial of survivor values of cardiac index, oxygen delivery, and oxygen consumption as resuscitation end-points in severe trauma. J Trauma 38:780-7, 1995. Boyd O, Grounds M, Bennett D. A randomized clinical trial of the effect of deliberate perioperative increase of oxygen delivery on mortality in high-risk surgical patients. JAMA 270:2699-708, 1993. Fernandes Jr. CJ, Akamine N, Knobel E. Monitorização hemodinâmica, transporte de oxigênio e tonometria. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. São Paulo, Atheneu, pp. 75-102, 1998. Gattinoni L, Brazzi L, Pelosi P et al. A trial of goal-oriented hemodynamic therapy in critically ill patients. N Engl J Med 333:1025-36, 1995. Hayes MA, Yau EHS, Timmins AC et al. Response of critically ill patients to treatment aimed at achieving supranormal oxygen delivery and consumption: relationship to outcome. Chest 103:886-95, 1993. Lobo SMA, Salgado PF, Castilho VGT et al. Effects of maximization oxygen delivery on morbidity and mortality in high-risk surgical patients. Crit Care Med 28(10):3396-404, 2000. Tuchschmidt J, Fried J, Astiz M et al. Elevation of cardiac output and oxygen delivery improves outcome in septic shock. Chest 102:216-20, 1992. Yu M, Levy MM, Smith P et al. Effect of maximizing oxygen delivery on morbidity and mortality rates in critically ill patients: a prospective, randomized, controlled study. Crit Care Med 21:830- 8, 1993. YuM, Levy MM, Smith P et al. Effect of maximizing oxygen delivery on morbidity rates in critically ill patients: a prospective, randomized, controlled study. Crit Care Med 21:830-8, 1993. Dellinger RP, Carlet JM, Mansur H, et al. Surviving Sepsis Campaing guidelines for management of severe sepsis and septic shock. Intensive Care Méd 30:536-55, 2004. 63 CAPÍTULO 6 INTERPRETAÇÃO DOS NÍVEIS DE LACTATO Introdução: Alguns pacientes gravemente enfermos desenvolvem disfunção de múltiplos órgãos apesar de manterem razoavelmente adequados seus parâmetros hemodinâmicos. A correção de déficits perfusionais não reconhecidos parece ser uma meta adicional a ser perseguida nesses pacientes, no que diz respeito à preservação da função orgânica. Sabe-se que a simples correção da hipotensão arterial (embora fundamental) não é uma meta suficientemente precisa; contudo, a identificação de índices confiáveis de adequada função celular permanece um desafio. Níveis séricos de lactato são uns dos melhores indicadores disponíveis para avaliar o metabolismo celular em pacientes graves, mesmo sabendo que a interpretação desse teste nem sempre é direta. Contudo, reconhece-se que, apesar da complexidade das vias bioquímicas relacionadas à cinética do lactato sanguíneo, este tem se mostrado um melhor preditor prognóstico que as variáveis derivadas da oxigenação tecidual – oferta e consumo de oxigênio. O nível sérico de lactato, tanto isoladamente no início quanto ao longo do tempo, é um bom fator prognóstico em uma série de condições clínicas graves. Assim, é imperativo a correta interpretação dos níveis séricos de lactato, especialmente em pacientes graves, para se poder não só elucidar os mecanismos fisiopatológicos que produziram sua elevação, mas também as vias pelas quais poder-se-ia interferir nesses mecanismos. De forma sucinta, três tópicos devem ser discutidos para se atingir essas metas: - mecanismos fisiológicos da produção de lactato; - mecanismos fisiopatológicos que interferem na cinética do lactato (produção versus depuração); - interpretação clínica dos níveis de lactato nos diferentes contextos clínicos (síndromes de choque). Bioquímica Inicialmente, devemos ressaltar que a única forma de se detectar a hiperlactatemia é através da dosagem direta do lactato sérico pois essa não se correlaciona bem com o grau de acidose medido pelo ph ou base excess. O lactato é o produto final da glicólise anaeróbia e é, normalmente, produzido em uma taxa de 1 mmol/kg/hora ou, aproximadamente, 1.500 mmol/dia. A única fonte de lactato é o piruvato. A reação para a glicólise anaeróbia é a seguinte: Glicose + 2 ATP + 2 H2PO4 ⇒ 2 lactato + 2 ADP + 2 H2O Deve-se ter em mente que a glicólise anaeróbia é um fenômeno que ocorre em maior ou menor grau, mesmo em pessoas sadias, em equilíbrio com a glicolise aeróbia de acordo com a oferta de glicose e de oxigênio. A maior parte da produção fisiológica de lactato ocorre no músculo esquelético, intestino, cérebro e eritrócitos circulantes. O lactato gerado nesses tecidos pode ser extraído pelo fígado e convertido em glicose (via gliconeogênese) ou pode ser utilizado como substrato primário para oxidação (fonte de energia). Assim, poder-se-ia concluir que a hipóxia tecidual (metabolismo anaeróbio) seria a principal causa de aumento do lactato sérico. Entretanto, qualquer situação que aumente a glicólise 64 (aumento da demanda metabólica, por exemplo) poderia aumentar os níveis de lactato sem significar hipóxia tecidual. No próximo tópico, destacar-se-ão os principais mecanismos da hiperlactatemia. Fisiopatologia da hiperlactatemia A concentração normal de lactato no sangue é menor que 2 mmol/l, em repouso, e até 5 mmol/l durante o exercício. Inúmeras condições podem concorrer, simultaneamente ou não, para hiperlactatemia. Deprivação de oxigênio (hipóxia tecidual), sepse (infecções, em geral, podem aumentar localmente ou de forma sistêmica os níveis séricos de lactato), infusão de adrenalina, deficiência de tiamina, alcalose (metabólica ou respiratória), disfunção hepática e intoxicação por nitroprussiato podem elevar os níveis séricos de lactato. Do ponto de vista fisiopatológico, a hipóxia tecidual eleva os níveis de lactato por aumentar a glicólise anaeróbia (para manter a produção energética celular mais próxima do normal). A síndrome de choque é a grande responsável por essa situação. Intoxicação por nitroprussiato (cianeto) também eleva o lactato sérico por esse motivo. A sepse pode causar hiperlactatemia por vários motivos: - hipóxia tecidual (principalmente nas fases iniciais do choque séptico); - por inibição da piruvatodesidrogenase – enzima que inicia a oxidação do piruvato na mitocôndria; - glicólise aumentada, por elevação da demanda metabólica. Estes dois últimos fatores explicariam hiperlactatemia na sepse a despeito da hipóxia tecidual. A infusão de adrenalina também eleva a glicólise. Tiamina serve como co-fator para a piruvatodesidrogenase. Assim, deficiência de tiamina pode ser acompanhada por hiperlactatemia. Finalmente, hiperlactatemia pode ser secundária à disfunção hepática. A diminuição da depuração de lactato é a base fisiopatológica nessas situações. No entanto, isoladamente não parece ser uma causa freqüente. Disfunção hepática também colabora para hiperlactatemia observada nos pacientes sépticos. Infusão de lactato como ocorre através da infusão de Ringer Lactato ou solução de Hartmann raramente é causa de hiperlactatemia significativa ou persistente em doentes sadios e mesmo em doentes em choque. A Tabela 1 descreve, do ponto de vista didático, as principais causas de hiperlactatemia de acordo com a presença ou não de hipóxia tecidual. Tabela 1 - Causas de Hiperlactatemia Com hipóxia tecidual Sem Hipóxia Tecidual • Choque Hipodinâmico • Sepse Grave ou Choque Séptico • Exercício físico • Alterações enzimáticas (déficit de tiamina) • Sepse • Depuração deficiente • Drogas, toxinas Interpretação clínica da hiperlactatemia O principal mecanismo de hiperlactatemia nos pacientes com choque é a hipóxia tecidual. A síndrome do choque pode ser dividida em duas categorias fisiopatológicas: - síndromes de baixo fluxo (débito cardíaco deprimido); 65 - síndromes com alto fluxo (débito cardíaco elevado). Na primeira categoria, estão colocados o choque cardiogênico, o hipovolêmico e o obstrutivo. Na segunda, inclui-se o séptico, o anafilático e o secundário à insuficiência adrenal aguda. A interpretação clínica nessas duas categorias é distinta (Tabela 2). Nas síndromes de baixo fluxo, o principal componente fisiopatológico da hiperlactatemia é a hipóxia tecidual. Assim, nessa fase de hiperlactatemia, há uma concomitância de achados que traduzem baixa oferta de oxigênio aos tecidos. Em primeiro lugar, observa-se sinais clínicos de baixa perfusão tecidual, como diminuição do nível de consciência (por vezes agitação), da diurese, do enchimento capilar e, posteriormente, hipotensão arterial. Do ponto de vista laboratorial, encontra-se aumento do déficit de base, da diferença venoarterial de oxigênio e de dióxido de carbono, bem como diminuição da saturação venosa mista de oxigênio que obedece a um paralelismo com a queda do débito cardíaco. Observa-se também dependência estrita do consumo em relação à oferta de oxigênio. É notória a observação de hiperlactatemia persistente nesses pacientes como sinal de mau prognóstico, principalmente pelo vínculo fisiopatológico entre hiperlactatemia e hipóxia tecidual persistente – um dos “motores” da disfunção demúltiplos órgãos. Outro dado, ainda peculiar a esse grupo de pacientes, é que o lactato sérico persiste em níveis elevados nos pacientes que não atingem um débito cardíaco elevado (diferente do que acontece durante o choque séptico). Nas síndromes de alto fluxo (choque distributivo), análise fisiopatológica (já revista) e clínica são mais complexas. Em virtude da interação de vários componentes fisiopatológicos concorrendo para hiperlactatemia e os mesmos oscilarem em intensidade dependendo do estágio da doença, a interpretação clínica dos níveis de lactato merece alguns cuidados. Primeiro, nas fases iniciais de ressuscitação desses pacientes, possivelmente encontraríamos hipóxia tecidual e dependência do consumo em relação à oferta de oxigênio. Assim, durante as primeiras 48 a 72 horas em que o lactato sérico se mantém elevado, o prognóstico, em geral, não é bom. Em contrapartida, após essa fase, em que o débito cardíaco foi restaurado, a saturação venosa mista de oxigênio supera 65% e, habitualmente, o comportamento da oferta e do consumo de oxigênio são imprevisíveis. O lactato sérico pode ser normal mesmo na vigência de disfunção orgânica galopante. Em outras palavras, o poder prognóstico do nível sérico do lactato (uma vez que pode ser normal) perde em acurácia. Independentemente do mecanismo preponderante da hiperlactatemia (hipóxia tecidual, inibição da piruvato desidrogenase e diminuição da depuração hepática), a mesma sinaliza atividade patológica, servindo como um guia de resolução do processo (principalmente nas fases iniciais). Assim, nesses pacientes o nível sérico de lactato é especialmente útil nas fases inicias, devendo ser analisado com cautela em fases posteriores na evolução clínica desses pacientes. Embora existam diferenças entre esses dois grupos, poder-se-ia empregar algumas regras para interpretação e utilização clínica dos níveis séricos de lactato: - A mensuração sérica do lactato deve estar disponível a todas as UTIs e constar na avaliação rotineira dos pacientes gravemente enfermos. - Todos os intensivistas devem estar familiarizados com as complexas vias bioquímicas que estão envolvidas na hiperlactatemia e os vários fatores que interferem na cinética do lactato sérico. - O valor isolado do lactato sérico é de pouca utilidade. Na verdade, a evolução dessa variável, ao longo do tempo, é de maior utilidade clínica. - Níveis séricos de lactato não podem e não devem substituir a avaliação clínica completa e o tratamento não deve ser guiado unicamente pelos níveis séricos do lactato. A combinação dessa mensuração com outras (pCO2-gap, por exemplo) pode ser mais informativa. - Acidose láctica traduz uma anormalidade de base e não é, por si só, uma alteração fisiopatológica a ser revertida. 66 - Finalmente, embora existam limitações na interpretação dos níveis séricos do lactato em pacientes sépticos, não traduzindo hipóxia tecidual stricto sensu, hiperlactatemia sugere a presença de importantes alterações metabólicas celulares. Em qualquer paciente grave, hiperlactatemia persistente deve ser encarada como sinal de mau prognóstico. Tabela 2. Classificação fisiopatológica dos estados de choque Hipóxia tecidual SvO2 CAV (O2 ou CO2 ) Síndrome de baixo fluxo Sim Baixa Elevada Síndrome de alto fluxo Variável Normal ou elevada Normal ou baixa Tabela 3 – Limitações do método • Definição de acidose láctica: pH < 7,35 e lactato > 5 mMol/l • Mecanismo multifatorial: isquemia/hipóxia ou alteração metabólica? • Na ausência de doenças graves, a hiperlactatemia normaliza-se dentro de uma hora • Em doenças graves, a hiperlactatemia pode durar várias horas ou dias • Efeito da “lavagem do lactato” Recomendações Não interpretar isoladamente. Identificar acidose láctica tipo B (associada a déficit intracelular de oxigênio), pois tem tratamento diferenciado. Abordar inicialmente a acidose láctica como secundária a isquemia/hipóxia global ou regional. Hiperlactatemia persistente está associada a mau prognóstico.em diversos cenários clínicos. Bibliografia: Kellum JA. Metabolic acidosis in the critically ill: lessons from physical chemistry. Kidney Int (Suppl):66;S81-6, 1998. Santos OFP, Montes JCM, Capone Neto A. Equilíbrio ácido-básico e acidose láctica no paciente grave. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. 2. ed. São Paulo, Atheneu, pp. 433-45, 1998. Vincent JL. End-points of resuscitation: arterial blood pressure, oxygen delivery, blood lactate, or...?. Intensive Care Med 22(1):3-5, 1996. Smith I. Base excess and lactate as prognostic indicators for patients admitted to intensive care. Intensive Care Med. 2001 Jan;27(1):74-83. Rivers E. Early goal-directed therapy in the treatment of severe sepsis and septic shock. N Engl J Med. 2001 Nov 8;345(19):1368-77 67 CAPÍTULO 7 INTERPRETAÇÃO DOS GRADIENTES SANGUÍNEOS E TECIDUAIS DE CO2 Introdução Durante os estados de choque, desde sua instalação até sua reversão, o fluxo sanguíneo assume um padrão de irregularidade na sua distribuição. A detecção dessa irregularidade pode ser feita mediante a análise dos gradientes de CO2. Como já foi destacado, o fluxo sanguíneo é direcionado pela demanda metabólica. Sempre que houver elevado metabolismo celular, haverá aumento da produção celular de CO2 com conseqüente aumento do fluxo sanguíneo para a região. Este conceito é importante, pois elevados gradientes de CO2 poderão caracterizar baixo fluxo relativo, em que, embora acima do normal, não estaria adequado àquela situação metabólica. Assim, de forma simplista, qualquer inadequação do fluxo tecidual pode ser traduzida por elevados gradientes de CO2. Outra premissa importante é que elevações desses gradientes precedem o início do metabolismo anaeróbio, característica do choque. Esta última colocação nos alerta para a precocidade dessa variável durante estados de inadequação de fluxo sanguíneo. A Figura 1 ilustra a relação entre oferta (fluxo), consumo de oxigênio (VO2) e CO2 (tecidual ou venoso misto). VOVO 22 COCO 22 Oferta Oferta de de oxigêniooxigênio- DO- DO 22 Q Q Hipoperfusão Hipoperfusão M etab olism o M etab olism o anaerób io anaerób io Produção de lactatoProdução de lactato Figura 1 – Relação entre oferta (Q) e consumo (VO2) de oxigênio e CO2 (tecidual ou venoso misto). Note que a concentração, ou a pressão parcial, de CO2 aumenta antes do início do metabolismo anaeróbio. Fisiologia da formação dos gradientes de CO2 É possível calcular gradientes de CO2 na circulação sistêmica ou em territórios pré- determinados. O gradiente veno-arterial está inversamente relacionado ao débito cardíaco, quando as coletas de sangue são feitas em artéria periférica e na artéria pulmonar (sangue venoso misto). Quando a intenção é avaliar a adequação de fluxos sanguíneos regionais, as coletas devem ser realizadas na artéria que nutre aquela região e na veia que a drena. 68 O mesmo raciocínio é válido para a análise da PCO2 tecidual (obtida através da análise através da tonometria gástrica, por exemplo). Isto é, hipercarbia tecidual, na ausência de hipercarbia sistêmica, seria a tradução de hipofluxo tecidual, absoluto ou relativo. O grande modelo de hipercarbia venosa mista, quando a PaCO2 (pressão parcial arterial de CO2) está normal ou mesmo baixa, é a parada cardiorrespiratória. Nesta condição, os mecanismos responsáveis pela hipercarbia venosa incluem: - acúmulo de CO2 tecidual e venoso misto (fluxo estagnante); - produção anaeróbia de CO2; - diminuição do fluxo sanguíneo pulmonar, com conseqüentediminuição do CO2 expirado no ar alveolar (aumento do espaço morto fisiológico). Do ponto de vista fisiológico, o CO2, junto a moléculas de água, é fruto do metabolismo aeróbio celular. Sempre que este metabolismo estiver preservado, o fluxo sanguíneo para aquela região mantém as pressões parciais de CO2 (PCO2) semelhantes entre tecido e sangue venoso daquela região. A partir do momento em que houver uma queda progressiva do fluxo, as PCO2 tornam- se distintas entre os sangues arterial e venoso e o tecido. A resultante final é o alargamento patológico de dois gradientes fisiológicos: veno-arterial e tecido-venoso ou mesmo tecido- arterial. Outro fator importante na geração de gradiente veno-arterial patológico é a diminuição do fluxo sanguíneo pulmonar, com o aumento do espaço morto fisiológico. Isto é, unidades alveolares tornam-se menos perfundidas, diminuindo sua capacidade de eliminar o CO2 oriundo do metabolismo celular. Como conseqüência, há acúmulo de CO2 no sangue venoso, alargando o gradiente veno-arterial. Por fim, destaca-se a produção anaeróbia de CO2, fruto do tamponamento de ácidos (láctico, por exemplo) e, principalmente, do H+ não reidrolizado ao ADP, em virtude da ausência de O2 (hipóxia tecidual). No entanto, há de se supor que a produção aeróbia de CO2 cai em condições de hipóxia tecidual, o que diminui sua concentração tecidual. Diante destas condições fisiológicas, há de se concluir que o principal determinante do alargamento patológico dos gradientes veno-arterial e tecido-venoso de CO2 é o fluxo sanguíneo. Do ponto vista prático, analisamos os gradientes entre as PCO2 e não entre as concentrações de CO2 (CCO2). Em geral, existe uma relação, dentro de limites fisiológicos, entre PCO2 e CCO2. No entanto, esta relação depende da saturação de oxigênio da hemoglobina, do consumo de oxigênio e do pH (Figura 2). Estas interações fisiológicas serão novamente consideradas ao interpretarmos o efeito Haldane tecidual, que pode ser considerado um limitante da interpretação do gradiente tecido-arterial de CO2. 69 Figura 2 – Efeito de 50% de aumento no fluxo sanguíneo sobre os gradientes veno-arteriais de PCO2 a dois níveis basais de SvO2. Notem que o mesmo gradiente de PCO2 reflete uma maior diferença no conteúdo veno-arterial de CO2 quando a SvO2 é menor. Interpretação clínica dos gradientes de CO2 Durante a avaliação hemodinâmica e perfusional do paciente gravemente enfermo, freqüentemente recorre-se a variáveis de oxigenação tecidual como oferta e consumo de oxigênio, saturação venosa mista de oxigênio e lactato sérico. A incorporação da análise dos gradientes de CO2, associada às variáveis derivadas do oxigênio, permite avaliação mais precisa da distribuição e adequação do fluxo sanguíneo nestes pacientes. Uma das principais características da análise do gradiente veno-arterial e tecido-arterial de CO2 é sua precocidade em se alterar. Estudos clínicos e experimentais revelam a elevação destes gradientes precedendo qualquer alteração hemodinâmica (pressão arterial e venosa central, freqüência cardíaca etc.) ou elevação dos níveis séricos de lactato. Conforme demonstra a Figura 1, sinais de hipofluxo, traduzidos por hipercarbia, precedem o início do metabolismo anaeróbio. Em condições fisiológicas, o DC é direcionado pela demanda metabólica. Como existe uma relação estável entre consumo de oxigênio (VO2) e produção de CO2 (VCO2) – quociente respiratório – pode-se concluir que há também relação entre DC e VCO2. Assim, elevações da demanda metabólica resultam em aumento da VCO2 e do DC, mantendo estável o gradiente veno-arterial de CO2. Em condições clínicas de baixo DC, como hipovolemia e choque cardiogênico, há elevação do gradiente veno-arterial, simplesmente pelo efeito de estagnação de CO2, uma vez que há lentificação do fluxo tecidual adicionando mais CO2 por unidade microcirculatória, gerando hipercarbia venosa. Outro fator adicional, como já destacado, é a diminuição do fluxo pulmonar. Quando a ventilação pulmonar está mantida, a PaCO2 pode estar normal ou mesmo baixa. Por este motivo utilizamos o gradiente veno-arterial de CO2 ao contrário da utilização pura e simples da PvCO2. Este entendimento é importante uma vez que, a partir de determinados valores do DC, aumentos adicionais não reduzem mais o gradiente, a não ser que haja mudança na produção 70 de CO2. Observem na Figura 3 que é possível titular a dose dobutamina através da análise do gradiente veno-arterial, uma vez que a dose mais elevada ocasionou elevação do gradiente ao invés de continuar a diminuí-lo. Concomitantemente, houve elevação do consumo de oxigênio, levando ao aumento do VCO2. 0 2 4 6 8 10 DOB 0 DOB 5 DOB 10 DOB 15 CI Delta-PCO2 0 20 40 60 80 100 120 140 DOB 0 DOB 5 DOB 10 DOB 15 SvO2 VO2 Efeito Calorigênico Figura 3 – Efeito de doses crescentes de dobutamina sobre índice cardíaco (IC), ∆PCO2 veno- arterial, SvO2 e consumo de oxigênio (VO2). Todo este racional pode ser utilizado para o gradiente tecido-arterial de CO2, utilizando a tonometria gástrica. Isto é, gradiente tecido-arterial alargado significa que há baixo fluxo tecidual proporcional ao VCO2 ou ao VO2. O grande desafio, no entanto, é interpretar qual nível de gradiente de CO2 indicaria hipóxia tecidual. Como mencionado, a produção anaeróbia de CO2 é contraposta pela diminuição de sua produção aeróbia. Estudos experimentais e clínicos apontam que este gradiente se eleva significativamente quando o fluxo sanguíneo está bastante comprometido. No entanto, existe, como vimos, uma relação curvilinear entre fluxo e gradiente de CO2, de tal sorte que reduções mais significativas do fluxo são traduzidas, necessariamente, por elevações abruptas do gradiente. Assim, a solução seria comparar dois mecanismos de hipóxia tecidual, a isquêmica e a hipóxica, para se distinguir os efeitos do fluxo e da anaerobiose sobre os gradientes de CO2. Para responder à pergunta, dois estudos experimentais, conduzidos por Vallet et al., utilizaram modelos de hipóxia isquêmica e hipóxica e analisaram os gradientes veno-arterial e gástrico-arterial de CO2. No primeiro estudo, os autores isolaram o fluxo sanguíneo de um dos membros de cães. A oferta tecidual de oxigênio foi reduzida de duas formas. Hipóxia isquêmica foi obtida ao se reduzir o fluxo e a hipóxia hipóxica, diminuindo-se o conteúdo arterial de O2 (através da diminuição da PaO2). Este estudo demonstrou que o alargamento do ∆PCO2 veno-arterial, durante isquemia, foi secundário à diminuição do fluxo e redução da depuração tecidual do CO2. Em contraste, hipóxia hipóxica não foi capaz de alargar o ∆PCO2, na presença de fluxo constante. Outro experimento, dos mesmos autores, mensurou o fluxo da mucosa gástrica (através da técnica de laser Doppler) em paralelo à mensuração dos gradientes veno-arterial e gástrico- arterial de CO2. Hipóxia isquêmica foi induzida por tamponamento cardíaco e hipóxia hipóxica, por diminuição das frações inspiradas de O2. Diferentemente do estudo anterior, hipóxia hipóxica induziu alargamento do ∆PCO2 apenas gástrico-arterial (não mensurado no primeiro experimento), enquanto que o gradiente veno-arterial só se elevou durante isquemia (Figura 71 4). Os autores concluíram que, em virtude das peculiaridades da perfusão tecidual das camadas mais superficiais do trato gastrointestinal (hipóxia tecidual “fisiológica” e mecanismo de contra- corrente), queda adicional da oxigenação tecidual acarreta, com mais facilidade, hipercarbia tecidual com conseqüente aumento do gradiente. No entanto, o fluxo continuou sendoo principal determinante do alargamento do ∆PCO2. Figura 4 – Efeito da indução de hipóxia isquêmica (HI) e hipóxia hipóxica (HH) sobre os gradientes veno-arterial e gástrico-arterial (g-a) e sobre o fluxo de mucosa gástrica (FMG). Efeito Haldane tecidual Para manter o gradiente tecido-arterial de CO2, o fluxo está sempre acoplado à demanda metabólica. Conseqüentemente, o fluxo estará acoplado ao consumo de O2 e à produção de CO2. No entanto, situações de aumento de fluxo e de oxigenação tecidual acarretam aumento da saturação da hemoglobina do sangue que drena aquela área tecidual. Quando ocorre aumento da saturação venosa da hemoglobina há, em paralelo, diminuição da drenagem do CO2 tecidual, pois, como é sabido, boa parte do CO2 produzido nos tecidos é carreada para a região pulmonar pela hemoglobina. Esta é uma situação que hiperóxia tecidual pode surgir em concomitância à hipercarbia tecidual, dificultando o entendimento da própria hibercarbia tecidual que, em geral, significa hipoperfusão tecidual. Análise combinada da diferença veno-arterial de CO2 com a diferença arteriovenosa dos conteúdos de O2 para detecção de metabolismo anaeróbio Infelizmente, a análise isolada de variáveis derivadas do oxigênio e do CO2 ou mesmo dos níveis séricos de lactato é incapaz de adequadamente determinar o início do metabolismo anaeróbio em pacientes graves. Contudo, a análise combinada da diferença veno-arterial de CO2 [∆PCO2] com a diferença arteriovenosa dos conteúdos de O2 [C(a-v)O2] parece ser um bom marcador de metabolismo anaeróbio. Em recente publicação, os autores demonstraram que esta análise combinada é o melhor marcador de início de metabolismo anaeróbio, diagnosticado através da elevação dos níveis séricos de lactato. A explicação fisiológica para este achado repousa no entendimento, já mencionado neste capítulo, da relação entre produção de CO2 e consumo de O2 (quociente respiratório). Notem que, quando o metabolismo anaeróbio se instala, existe uma queda da produção de CO2 e do consumo de O2. No entanto, como há também produção anaeróbia de CO2, esta relação aumenta. O conteúdo de CO2 cai menos que o consumo de O2, fazendo com que a razão entre ∆PCO2/C(a-v)O2 aumente. A utilidade clínica desta análise, comparando-a, por exemplo, à simples análise dos níveis séricos de lactato, necessita de mais estudos clínicos comprobatórios. Conclusões É importante incorporar a análise dos gradientes de PCO2 na avaliação da perfusão tecidual. O alargamento dos gradientes de PCO2 indica hipofluxo tecidual, absoluto ou relativo. A razão entre ∆PCO2/C(a-v)O2 parece ser um marcador confiável de metabolismo anaeróbio sistêmico. Bibliografia Fernandes Jr. CJ, Akamine N, Knobel E. Monitorização hemodinâmica, transporte de oxigênio e tonometria. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. Atheneu, São Paulo, pp. 75-102, 1998. Jacob SM, Takala J. Interpretation of changes in regional and mucosal PCO2 gradients: the Haldane effect. In: Vincent JL. Yearbook of Intensive Care and Emergency Medicine. Springer- Verlag, Berlin, pp. 736-42, 2000. 72 Meknotso-Dessap A, Castelain V, Anguel N et al. Combination of venoarterial PCO2 difference with arteriovenous O2 content difference to detect anaerobic metabolism in patients. Intensive Care Med 28:272-7, 2002. Vallet B, Tavernier B, Lund N. Assessment of tissue oxigenation in the critically ill. In: Vincent JL. Yearbook of Intensive Care and Emergency Medicine. Springer-Verlag, Berlin, pp. 715-25, 2000. 73 CAPÍTULO 8 SATURAÇÃO VENOSA DE OXIGÊNIO – USO E LIMITAÇÕES Saturação venosa central de oxigênio (SvcO2) É coletada através de cateter venoso central, locado na desembocadura da veia cava superior. Representa o sangue venoso oxigenado que retorna parte superior do corpo, cabeça e membros superiores, excluindo toda a parte visceral abdominal, região esplâncnica e membros inferiores. Saturação venosa mista de oxigênio (SvO2) É coletada através da cateter de artéria pulmonar, em sua via distal que esta locado na arterial pulmonar. O sangue venoso misto representa o sangue venoso oxigenado de todas as partes do corpo. O sangue da veia cava superior e da veia cava inferior, se encontram no átrio direito, juntamente com a drenagem do seio coronário e da rede de Trebesius que drena a arvore brônquica. Começam a se misturar e homogenizar passando do átrio direito para o ventrículo e chegando na artéria pulmonar totalmente homogenizado, ou seja totalmente “misturado”, este é o por quê de se chamar de sangue venoso misto (misturado). A saturação venosa de oxigênio pode representar: 1. fluxo sanguineo 2. demanda metabólica, ou seja a relação entre a oferta de oxigênio e o consumo de oxigênio Fluxo sanguineo Em situações em que existe comprometimento do fluxo sanguineo aos tecidos, ou seja, situações em que se encontre diminuído. O sangue arterial ao passar lentamente pelas células, estas retiram o máximo de oxigênio, pois grosseiramente para explicação didática, pode se dizer que as células interpretam como se houvesse uma demora para o sangue passar por ali novamente. Desta maneira retiram o máximo de oxigênio para suprir sua necessidade que implica na produção de energia, adenosina trifosfato (ATP), retornado menos sangue oxigenado para o coração direito. Por outro lado, se existe um estado de hiperfluxo, o sangue passa tão rápido que não dá tempo para a célula retirar o oxigênio, o que faz com que o sangue venoso retorne mais oxigenado para o coração direito. Demanda de oxigênio Os tecidos e células apresentam necessidades básicas de oxigênio para poder manter a síntese de energia e adequar a homeostasia do organismo como um todo. Isto reflete a manutenção da oferta de oxigênio(DO2) e o consumo de oxigênio(VO2) para determinada demanda de oxigênio. Em situações em que a necessidade de oxigênio está aumentado, o VO2 aumenta para adequar esta situação. Ao aumentar o consumo, caso não ocorra um aumento proporcional da DO2, o VO2 é adequado pelo aumento da taxa de extração de oxigênio, o que implicara em diminuição da oxigenação do sangue retornado ao coração direito, ou seja, diminuição da saturação venosa de oxigênio. São exemplos de situações que podem aumentar a demanda de oxigênio: – Agitação psicomotora – Febre – Convulsão – Desacoplamento a ventilação mecânica – Dor Nas situações em que ocorre diminuição da demanda de oxigênio pelas células e tecidos, o VO2 se encontra diminuído, assim a taxa de extração também diminui o que faz com que sangue venoso retorne mais oxigenado para o coração direito. 74 Em resumo, grosseiramente, assumindo que a SVO2 “normal” é por volta de 75%, pode se dividir em duas situações: 1. SvO2 > 75% a. DO2 aumentada i. Hiperoxia ii. Poliglobulinemia iii. Aumento do fluxo (índice cardíaco) b. VO2 diminuido i. Hipotermia ii. Anestesia 2. SvO2 < 75% a. DO2 diminuída i. inadequação do DC, ii. anemia, iii. hipoxemia b. VO2 aumentado i. Febre ii. Dor iii. Convulsões iv. Agitação psicomotora v. Desacoplamento a ventilação mecânica 75 CAPÍTULO 09 FISIOPATOLOGIA DOS DIFERENTES ESTADOS DE CHOQUE Introdução Quando pensamos em choque, temos em mente diminuição da pressão arterial, hipoperfusão tecidual e disfunção orgânica. Contudo, quando entendemos melhor essa síndrome, podemos conceituá-la como um desequilíbrio entre oferta e utilização do oxigênio tecidual e celular, sem necessariamente ocorrer hipotensão arterial. Muitas vezes,os sinais de disfunção orgânica (oligúria, confusão mental, taquipnéia etc.) são as primeiras manifestações de choque. Classificação dos estados de choque Podemos classificar os estados de choque sob vários aspectos do ponto de vista fisiopatológico e este entendimento é muito importante para direcionar o tratamento e o entendimento da fisiopatologia. Classificação dos estados de hipóxia O estado de choque cursa com má perfusão tecidual. A hipóxia decorrente deste estado pode ser classificada como: - hipóxia estagnante: quando o baixo fluxo (ou o baixo débito cardíaco) é o principal componente; - hipóxia anêmica: quando a hipóxia é determinada pela queda do conteúdo arterial de oxigênio secundária à queda importante dos níveis de hemoglobina; - hipóxia hipóxica: quando a hipóxia é determinada pela queda do conteúdo arterial de oxigênio secundária à queda importante da SaO2; - hipóxia citotóxica ou histotóxica: quando fluxo e conteúdo arterial de oxigênio estão adequados, mas há disfunção mitocondrial. Portanto, não há capacidade de utilização tecidual de oxigênio. Por ordem de importância, hipóxia estagnante e citotóxica são as mais importantes quando comparadas à hipóxia anêmica e hipóxica. Contudo, em termos de tratamento, podemos agir em todos os tipos de hipóxia tecidual, com exceção da hipóxia citotóxica ou histotóxica, para a qual as formas de tratamento são ineficazes na grande maioria das vezes. Classificação dos estados de choque quanto ao estágio evolutivo Os estados de choque podem, também, ser classificados quanto ao seu estágio evolutivoem três grupos: - choque compensado (Fase I); - choque descompensado (Fase II); - choque irreversível (Fase III). Choque compensado Caracterizado pelos seguintes mecanismos compensatórios: - aumento da freqüência cardíaca e da contratilidade miocárdica mediado por catecolaminas; - vasoconstrição do sistema venoso; - vasoconstrição do sistema arterial. Nessa fase, o paciente pode manter níveis aceitáveis de pressão arterial, não necessariamente oligúrico e confuso, porém apresenta acidose metabólica e má perfusão tecidual. A reversão do quadro no início é mais efetiva. 76 Choque descompensado Caracterizado por falência dos mecanismos compensatórios e, com isso, as disfunções orgânicas tornam-se mais acentuadas. As principais disfunções orgânicas são a cardiovascular, renal, metabólica, pulmonar e a neurológica. Choque irreversível Caracterizado por uma falta de resposta cardiovascular à infusão de volume e de drogas vasoativas. Como podemos notar, o diagnóstico e o tratamento dos estados de choque, em fase precoce, possibilitam uma reversão mais efetiva quanto menor o número de disfunções orgânicas. Por isso, devemos estar atentos a outros sinais como oligúria, acidose e alteração do nível de consciência. Classificação dos estados de choque: quanto ao padrão de fluxo É fundamental para o tratamento do estado de choque definir se a síndrome é de baixo ou alto fluxo (Tabela 1). Com base nessa classificação você definirá a melhor estratégia de tratamento. Tabela 1 – Classificação dos estados de choque: quanto ao padrão de fluxo Hipóxia tecidual DO2/VO2 dependência SvO2 (CaO2-CvO2) ou (CvCO2-CaCO2) Síndrome de baixo fluxo Sim Sim Baixa Elevada Síndrome de alto fluxo Variável Não necessariamente Normal ou elevada Normal ou baixa DO2: oferta de O2; VO2: consumo de O2; SvO2: saturação venosa mista de O2; (CaO2-CvO2): diferença entre o conteúdo arterial e venoso de O2; (CvCO2-CaCO2): diferença entre o conteúdo venoso e arterial de CO2. Classificação dos estados de choque: quanto ao padrão hemodinâmico Os estados de choque podem ser classificados de acordo com seu padrão hemodinâmico em quatro grandes grupos (Tabela 2). A sobreposição entre os quatro grandes grupos pode ocorrer. Tabela 2 – Classificação dos estados de choque com base nos padrões hemodinâmicos Hipovolêmico • Hemorragia • Desidratação • Seqüestro de líquidos Cardiogênico • Falência ventricular esquerda • Infarto agudo do miocárdico • Miocardite/miocardiopatia • Arritmias/distúrbios de condução • Lesões valvares • Disfunção miocárdica da sepse Obstrutivo • Embolia pulmonar 77 • Tamponamento cardíaco • Pneumotórax hipertensivo Distributivo • Vasoplégico (choque séptico, intoxicação por monóxido de carbono, qualquer choque prolongado etc.) • Neurogênico • Anafilaxia • Hipotireoidismo/hipocortisolismo • Síndrome de hiperviscosidade Choque hipovolêmico É o mais freqüente tipo de choque que ocorre nos pacientes que sofreram trauma e o mais freqüentemente encontrado em pacientes de terapia intensiva. Qualquer distúrbio que leve a uma perda de fluidos pode levar ao choque hipovolêmico (Tabela 3). Tabela 3 – Características hemodinâmicas e de oxigenação do choque hipovolêmico • A pressão arterial pode ser normal ou perto dos níveis normais em estágios iniciais, porém, na sua evolução, hipotensão arterial se instalará. • Débito cardíaco baixo ou normal. Na fase inicial, o debito cardíaco poderá estar normal graças aos mecanismos compensatórios. Contudo, na evolução a queda do débito cardíaco será uma constante • Pressão venosa central diminuída • Pressão da artéria pulmonar ocluída diminuída • Oferta de O2 (DO2) aos tecidos diminuída • Saturação venosa de O2 (SvO2) diminuída. Esta diminuição ocorre por aumento da taxa de extração de O2 • A diferença entre a pressão parcial de CO2 na mucosa gástrica e a pressão parcial de CO2 no sangue arterial (pCO2-gap) estará aumentada • Níveis de acido láctico aumentado Como nesse tipo de choque ocorre uma diminuição das pressões de enchimento (PVC e PAPO) e, conseqüentemente, queda do débito cardíaco devido a uma diminuição do estiramento da fibra muscular cardíaca (Figuras 1 e 2), o choque hipovolêmico poderá apresentar dois tipos de hipóxia tecidual: - hipóxia tipo anêmica: quando houver perda sanguínea secundária a um trauma; - hipóxia tipo estagnante: pela diminuição do debito cardíaco e conseqüentemente baixo fluxo. 78 Apesar de não haver uma classificação geral para o choque hipovolêmico, a hipovolemia pode ser classificada de acordo com a gravidade, com base em dados clínicos, principalmente em pacientes politraumatizados (Tabela 4). 79 Tabela 4 – Classificação da gravidade da hipovolemia Classe I Classe II Classe III Classe IV Perda sanguínea ou de fluidos ~ 750 ml 750 a 1500 ml 1500-2000 ml > 2000 ml Freqüência cardíaca < 100 bpm > 100 bpm > 120 bpm > 140 bpm Pressão arterial Normal Normal Diminuída Diminuída Pressão de pulso (mmHg) Normal ou ↓ ↓ ↓ ↓ Freqüência respiratória 14-20 20-30 30-40 > 35 Volume urinário (ml/h) > 30 20-30 5-15 < 5 Estado mental Ansiedade leve Ansiedade moderada Confuso Confuso e letárgico Adaptado do ATLS. Nos últimos anos, surgiu o conceito de choque hipovolêmico oculto. Este tipo de choque pode ser caracterizado por hipoperfusão oculta, em que as variáveis de perfusão/oxigenação tecidual (lactato arterial e saturação venosa mista ou central) poderão estar alteradas enquanto outras variáveis (pressão arterial, diurese, pressão venosa central, pressão ocluída de artéria pulmonar etc.) poderão estar normais. A Figura 3 mostra que elevação do lactato nas primeiras 24 horas é significativa nos não-sobreviventes em relação aos sobreviventes,diferente das medidas de pressão de artéria pulmonar ocluída (PAPO). A elevação progressiva e não corrigida de lactato nas primeiras horas da internação aumenta muito o tempo de permanência na UTI (Figura 4). 80 Choque cardiogênico Esse tipo de choque pode acontecer em diversas situações, e a mais freqüente é o choque cardiogênico associado ao infarto agudo do miocárdico (IAM). O choque cardiogênico ocorre em 5% a 10% dos casos de IAM. A melhor maneira de entender esse tipo de choque é a observação das curvas de Frank- Starling. Nesse diagrama, observamos que as pressões de enchimento cardíacas aumentam desproporcionalmente aos valores de índice cardíaco semelhantes ao desenvolvido em pacientes com função ventricular normal. Outra importante alteração, nesse tipo de choque, é a diminuição da complacência ventricular, que leva ao aumento da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo (Figura 5). A Figura 6 está esquematizando a fisiopatologia do choque cardiogênico. 81 Como esse tipo de choque é caracterizado por uma queda do débito cardíaco e da pressão arterial, teremos uma hipóxia tecidual do tipo estagnante, pois há importante diminuição do fluxo. Além das alterações descritas, a diminuição da contratilidade é outro fator fundamental na caracterização do choque cardiogênico. A contratilidade diminuída sofre grande influencia da pré-carga e da pós-carga como podemos notar na Figura 7. Na tabela 5 encontramos os principais achados hemodinâmicos desta condição. 82 Tabela 5 – Achados hemodinâmicos e de oxigenação mais freqüentes em pacientes com disfunção miocárdica • Pressão arterial sistólica < 90 mmHg • Pressão venosa central AUMENTADA • Pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO) > 18 mmHg; no entanto, em pacientes desidratados ou com infarto agudo de ventrículo direito, esses valores podem estar normais ou diminuídos • Índice cardíaco (IC) BAIXO, variando entre 1,8 e 2,2 l/min/m2 • Fração de ejeção ventricular DIMINUIDA • O pCO2-gap pode estar AUMENTADO • Oferta de O2 (DO2) DIMINUIDA • Saturação venosa mista (SvO2) DIMINUIDA devido ao aumento da taxa de extração de O2, • Hiperlactatemia Devemos lembrar que os achados hemodinâmicos podem variar de acordo com a etiologia do choque cardiogênico. Como no exemplo anterior, o choque cardiogênico devido ao IAM do ventrículo direito pode apresentar uma PAPO diminuída ou normal e um IC diminuído. Não há uma classificação geral para todos os tipos de choque cardiogênico, mas na Tabela 6 observamos uma classificação clínica de Killip e uma classificação hemodinâmica de Forrester que podem ser utilizadas em pacientes com IAM. Tabela 6 – Classificação clínica e hemodinâmica dos pacientes com IAM Classificação de Killip Características clínicas Mortalidade hospitalar Grupo I Grupo II Grupo III Grupo IV • Sem sinais de congestão • B3, estertores basais • Edema agudo de pulmão • Choque cardiogênico < 6% < 17% 38% 81% Classificação Forrester Características hemodinâmicas Mortalidade hospitalar 83 Grupo I Grupo II Grupo III Grupo IV • PAPO < 18 mmHg, IC > 2,2 l/min/m2 • PAPO > 18 mmHg, IC > 2,2 l/min/m2 • PAPO < 18 mmHg, IC < 2,2 l/min/m2 • PAPO > 18 mmHg, IC < 2,2 l/min/m2 3% 9% 23% 51% Choque distributivo • Pode ser classificado em: - choque vasoplégico; - choque neurogênico; - choque anafilático; - choque por hipotireoidismo/hipocortisolismo; - choque por hiperviscosidade. • Dentre as causas de choque vasoplégico, podemos citar: - sepse; - intoxicação CO; - hipotensão prolongada; - doenças mitocondriais; - parada cardiorrespiratória, intoxicação por cianeto e por metformina. • O choque vasoplégico pode ser causado por inúmeras situações, porém apresentam mecanismos semelhantes para hipotensão (Figura 8). Choque séptico É o mais freqüente e o mais importante representante desse grupo. Por isso reconhecer e entender os diversos conceitos que envolvem infecção e choque séptico (Tabela 7) é muito importante. Tabela 7 – Definições da conferência de consenso (SCCM/ACP) Infecção • Fenômeno microbiano caracterizado por uma resposta inflamatória reacional à presença de microorganismos ou à invasão de tecido 84 normalmente estéril àqueles organismos Bacteremia • Presença de bactéria viável no sangue Síndrome da resposta inflamatória sistêmica • Resposta inflamatória sistêmica a uma variedade de insultos clínicos graves • A resposta é manifestada por duas ou mais das seguintes condições: - Temperatura > 38°C ou < 36°C - Freqüência cardíaca > 90 bpm - Freqüência respiratória > 20 movimentos/min ou PaCO2 < 32 torr (< 4,3 kPa) - Leucócitos > 12.000 células/mm3 ou < 4.000 células/mm3 ou > 10% de formas jovens (bastões) Sepse • È a presença da síndrome da resposta inflamatória decorrente de uma infecção • Não é necessário identificação de uma bactéria, mas o foco infeccioso tem que ser bem definido (pneumonia, abscesso etc.) Sepse grave • Sepse associada à disfunção orgânica, hipoperfusão ou hipotensão • Hipoperfusão e anormalidades da perfusão podem incluir, mas não estão limitadas à acidose, oligúria ou alteração aguda do estado mental Choque séptico • Sepse com hipotensão, a despeito de adequada ressuscitação hídrica • Pacientes que estão sob agentes inotrópicos ou vasopressores podem não estar hipotensos no momento em que as anormalidades da perfusão são mensuradas Hipotensão • PA sistólica < 90 mmHg ou redução de > 40 mmHg da linha de base na ausência de outras causas de hipotensão Síndrome da disfunção de múltiplos órgãos • Presença de função orgânica alterada em pacientes agudamente enfermos, nos quais a homeostase não pode ser mantida sem intervenção Devido a sua própria fisiopatologia complexa, intervenções terapêuticas e eventos clínicos correlacionados, o choque séptico pode apresentar inúmeros padrões hemodinâmicos e de oxigenação (Tabela 8). Tabela 8 – Classificação do choque séptico quanto ao padrão hemodinâmico Choque séptico hiperdinâmico • Pressão arterial diminuída ou pode ser normal • Pressão venosa central diminuída; mas se houver alteração da complacência ventricular direita, pode haver um aumento desproporcional • Pressão ocluída da artéria pulmonar diminuída • Débito cardíaco normal ou elevado • A resistência vascular pulmonar estará normal, mas pode haver aumento se houver associação com a síndrome do desconforto respiratório do adulto ou com congestão pulmonar • A saturação venosa mista (SvO2) em geral, está aumentada (SvO2 > 75%) • Os níveis de lactato podem estar normais ou aumentados Choque séptico hipodinâmico • Pressão arterial diminuída • Pressão venosa central pode estar diminuída se houver hipovolemia; mas se houver alteração da complacência ventricular direita pode haver um aumento ventricular direito, pode haver um aumento desproporcional 85 • Pressão da artéria pulmonar ocluída (PAPO) diminuída se houver hipovolemia; contudo a PAPO pode estar normal ou aumentada • Débito cardíaco baixo devido à depressão miocárdica associada à sepse • A resistência vascular pulmonar estará normal; mas pode haver aumento se houver associação com a síndrome do desconforto respiratório agudo ou com congestão pulmonar • SvO2, emgeral, baixa • Os níveis de lactato em geral estão aumentados Choque neurogênico Em geral, as lesões intracranianas não levam ao choque, por isso, é importante a investigação de outras causas. Por exemplo, o choque associado ao trauma de crânio, em geral, é hipovolêmico. Outro exemplo é o choque neurogênico associado à hemorragia subaracnóide, cuja fisiopatologia é desconhecida. O choque neurogênico associado à lesão medular é bem conhecido e muito freqüente em pacientes com trauma raquimedular. É devido à perda do tônus simpático, causando hipotensão arterial, aumentando o efeito fisiopatológico da hipovolemia. Os achados hemodinâmicos mais freqüentes são: - pressão arterial sistólica aproximadamente de 100 mmHg, em posição supina, mas é muito sensível à mudança de decúbito; - hipotensão postural e bradicardia associada à hipotensão são características importantes desse tipo de choque; - diminuição das pressões de enchimento (pressão venosa central e pressão ocluída de artéria pulmonar) devido ao aumento do território venoso por perda da atividade simpática; - débito cardíaco normal ou diminuído. Em geral, a queda do débito cardíaco está associada a uma queda importante das pressões de enchimento. - a saturação venosa mista (SvO2) estará diminuída se houver queda importante do débito cardíaco. Como o choque neurogênico é associado a trauma, até que se prove o contrário todo choque no politraumatizado com ou sem lesão medular deve ser tratado como choque hipovolêmico. Anafilaxia É um estado caracterizado por insuficiência respiratória, freqüentemente associado ao choque, podendo ou não estar associado à urticária e/ou angioedema, que ocorre minutos após a exposição a um antígeno específico. Inúmeras substâncias na natureza podem causar choque anafilático (Tabela 9). Tabela 9 – Substâncias que podem causar choque anafilático • Antibióticos – penicilinas/anfotericina B aminoglicosídeos/cefalosporinas/etc. • Antiinflamatórios não-esteroidais e analgésicos • Venenos – cobras/aranhas/etc. • Agentes diagnósticos – contrastes • Hormônios – insulina/ACTH/etc. • Anestésicos – lidocaína • Pólens • Comidas – chocolate/ovos/etc. • Derivados do sangue • Outros – heparina/diuréticos • Etc. Os achados hemodinâmicos mais freqüentes são: 86 - pressão arterial sistólica e diastólica diminuídas; - pressão ocluída de artéria pulmonar e pressão venosa central diminuída; - débito cardíaco aumentado inicialmente, mas tende a diminuir com a evolução do quadro; - a resistência vascular pulmonar pode estar normal, mas pode estar aumentada devido à hipoxemia; - saturação venosa mista (SvO2) tende a estar diminuída, devido ao choque e à hipoxemia; - devemos lembrar que os padrões hemodinâmicos podem variar de acordo com outras condições associadas. O choque anafilático é uma emergência e como tal precisa de tratamento rápido e adequado. Por isso, na maioria dos casos, dispensa monitorização com cateter de artéria pulmonar. Choque obstrutivo Geralmente ocorre quando o esvaziamento do ventrículo direito está prejudicado (embolia pulmonar) ou há diminuição do enchimento do ventrículo direito (tamponamento cardíaco) ou pneumotórax hipertensivo. No choque obstrutivo, a hipóxia tecidual é do tipo estagnante devido ao baixo débito cardíaco, podendo ocorrer freqüentemente a hipóxia hipoxêmica associada. Choque obstrutivo por embolia pulmonar Na embolia pulmonar, as características da apresentação hemodinâmica dependerão de fatores como: - tamanho do êmbolo; - número de êmbolos; - velocidade de instalação do quadro e condições associadas (insuficiência cardíaca, hipovolemia etc.); - o organismo adapta-se melhor a êmbolos pequenos, em pequena quantidade e com velocidade de instalação gradual. Na Tabela 10 estão as características hemodinâmicas da embolia pulmonar. Tabela 10 – Achados hemodinâmicos e de oxigenação tecidual observados habitualmente na embolia pulmonar Embolia pulmonar não maciça Embolia pulmonar maciça Freqüência cardíaca Normal ou aumentada Raramente aumentada ou muito aumentada Pressão arterial média Normal Diminuída Pressão venosa central Normal* Aumentada ou raramente normal Pressão da artéria pulmonar ocluída Normal Normal ou raramente aumentada** Índice cardíaco Normal ou raramente aumentado Diminuído Resistência vascular pulmonar Aumentada ou raramente normal Aumentada Pressão de artéria pulmonar Normal ou raramente aumentada Aumentada*** Saturação venosa mista (SvO2) Normal ou diminuída Diminuída 87 Lactato arterial Normal Aumentado *Depende da presença ou não de insuficiência tricúspide, hipovolemia e da função ventricular direita. **Isto ocorre raramente devido à disfunção ventricular esquerda importante associada. ***Em algumas situações, a PAP não aumenta muito, pela queda do débito cardíaco. Choque obstrutivo por tamponamento cardíaco No caso do tamponamento cardíaco, sua apresentação hemodinâmica dependerá de fatores associados como: - hipovolemia; - velocidade de acúmulo dos líquidos; - respostas do sistema nervoso simpático e doenças associadas (insuficiência cardíaca, trauma, insuficiência renal crônica, neoplasia etc.). A hipovolemia pode mascarar os sinais clínicos e hemodinâmicos do tamponamento cardíaco. A velocidade de acúmulo de líquido é um fator importante na apresentação clínica e hemodinâmica do tamponamento cardíaco. O organismo pode tolerar de 1 a 2 litros de líquidos, acumulados em semanas ou meses, sem aumentar as pressões intracardíacas de forma importante. No entanto, estas podem aumentar rapidamente com pequenos volumes (100 ml, por exemplo), caso esse volume se acumule em minutos a horas. A resposta do sistema nervoso simpático pode ser atenuada por drogas, como bloqueadores beta-adrenérgicos, vasodilatadores etc. Esta alteração de resposta pode influenciar de forma importante a hemodinâmica do paciente. Os achados hemodinâmicos e de oxigenação encontrados no tamponamento cardíaco são: - pressão arterial pode, inicialmente, estar aumentada devido à resposta adrenérgica. No entanto, na evolução, tenderá a diminuir (PAS ≅ 90 a 100 mmHg). Outro comportamento da pressão arterial é o aparecimento do pulso paradoxal, o qual é definido como a queda da pressão arterial sistólica em mais de 10 mmHg durante a inspiração; - pressão venosa central aumentada; - pressão ocluída da artéria pulmonar aumentada; - resistência vascular pulmonar poderá estar aumentada se hipoxemia e acidose estiverem associadas; - pressão sistólica da artéria pulmonar, em geral, é normal, mas a pressão diastólica da artéria pulmonar é igual à pressão do átrio direito. Algumas vezes, pode-se detectar a equalização das pressões intracardíacas; - diminuição do débito cardíaco; - diminuição da oferta de O2 (DO2); - saturação venosa mista diminuída; - hiperlactatemia. Considerações importantes Não é necessário monitorização com cateter de artéria pulmonar para diagnóstico e tratamento de pneumotórax hipertensivo e tamponamento cardíaco. Habitualmente não é necessária a monitorização com cateter de artéria pulmonar nos casos de choque por embolia salvo nos casos em que se deseja monitorizar a pressão da artéria pulmonar durante a trombólise. Por outro lado, o ecocardiograma seriado pode realizar essa função com muito menos risco. Considerações finais A avaliação clínica do paciente em choque inicia-se durante o exame físico, em que o examinador observará alterações do nível de consciência, pele, temperatura, freqüência cardíaca, amplitude de pulso e do padrão respiratório. Nessafase inicial, os dados de história e 88 de exame físico ajudarão a formular a hipótese diagnóstica sobre a possível etiologia do choque, bem como o seu estado evolutivo (choque compensado, reversível e irreversível). Quando não é possível o diagnóstico da etiologia do choque, com base em dados clínicos, devemos utilizar a monitorização hemodinâmica e das variáveis de oxigenação para auxiliar no diagnóstico, bem como no tratamento. Quando utilizamos adequadamente esses dados, resolvemos a grande maioria dos problemas diagnósticos relacionados à etiologia do choque. Em situações clínicas, nas quais o diagnóstico etiológico do choque fica difícil, mesmo utilizando as variáveis hemodinâmicas e de oxigenação, um período de observação e de medidas hemodinâmicas seriadas pode elucidar o diagnóstico. Na Tabela 11, encontraremos um resumo dos padrões hemodinâmicos. Tabela 11 – Resumo dos padrões hemodinâmicos no choque IC POAP SvO2 Lactato Diagnósticos ↑ ↓ ↓ NL NL ou ↓ NL ou ↓ ↑ ↓ ↓ ↓ ↑ ↑ • Choque séptico e fluxo adequado • Choque séptico e hipofluxo • Hipovolemia e sepse: - Depressão miocárdica e sepse - Hipofluxo e VO2 baixo ↓ ↓ ↓ ↑ • Choque hipovolêmico ↓ ↓ ↓ ↓ ↑ NL ou↑ ↑ NL ou ↓ ↓ ↑ ↓ ↓ ↑ NL ou↑ NL ou↑ NL ou↑ • Choque cardiogênico devido à disfunção do miocárdio • Choque cardiogênico devido a defeito mecânico (rotura do septo ventricular agudo) ICVD > ICVE • Choque cardiogênico devido à insuficiência mitral aguda. Ondas V na PAPO são características • Infarto de VD • Aumento das pressões de câmaras direitas associado a PAPO normal ou baixa é característico ↓ NL ou ↓ ↓ ↑ • Choque obstrutivo devido à embolia de pulmão. O aumento das pressões de câmaras direitas + PAPO NL ou ↓ + shunt pulmonar muito aumentado são característicos ↓ ↑ ↓ ↑ • Choque obstrutivo devido a tamponamento cardíaco. A equalização das pressões entre as câmaras cardíacas é característica ↓: baixo; ↑: alto; NL: normal; IC: índice cardíaco; PAPO: pressão ocluída da artéria pulmonar; SvO2: saturação venosa da artéria pulmonar; ICVD: índice cardíaco de ventrículo direito; ICVE: índice cardíaco de ventrículo esquerdo. Bibliografia: Advanced trauma life support course for physicians, 3. ed., 1996. Fundamental critical care support. Standardized curriculum of the principles of critical care. Soc Crit Care Med, 2. ed., 1998. Akamine N, Fernandes Jr. CJ, Knobel E. Fisiopatologia dos estados de choque. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. Atheneu, São Paulo, p. 3, 1998. Blow O, Magliore l, Claridge JA. The golden hour and the silver day: detection and correction of occult hypoperfusion within 24 hours improves outcome from major trauma. The Journal of Thrauma: Injury, Infection, and Critical Care 47:964, 1999. 89 Claridge JA, Crabtree TD. Persistent occult hypoperfusion is associeted with a significant increase in infection rate and mortality in major trauma patients. Journ Thraum 48(1):8, 2000. Davies CH. Revascularization for cardiogenic shock. QJM 94(2):57, 2001. Drummond e Silva. Choque. Artes Médicas, São Paulo, 1996. Gloria Darovic: Hemodynamic monitoring, Saunders Company, p. 441, 1995. Levy MM. Monitorização da função cardíaca e da perfusão tecidual. Crit Care Clin 14:4, 1996. Hollenberg SM, Kavinsky CJ. Cardiogenic shock. Ann Inter Med 131(1):47, 1999. Leach RM, Treacher DF. The pulmonary physician in critical care. Oxigen delivery and consumption in critical ill. Thorax 57(2):170, 2002. DN, Oliver JA. Mechanisms of disease: the pathogenesis of vasodilatory shock. New Engl J Medicine 345(8):588, 2001. Londry Perret C, Tagan D, Feihl F, Marini JJ. Pathophysiological background. In: The pulmonary artery catheter in critical care. Blackwell Science, London, p. 129, 1996. 90 CAPÍTULO 10 INTERAÇÃO PULMÃO-CORAÇÃO Introdução: Recentes estudos em diversas condições normais e patológicas têm evidenciado múltiplas interações entre os mais diversos órgãos, fatos anteriormente insuspeitados. Desta forma, conhecemos hoje interações entre pulmão e coração, pulmão e rim, fígado e rim, fígado e pulmão, cérebro e sistema imunológico além de inúmeros outros. A interação cardiopulmonar já é descrita desde 1873 com a descrição do pulso paradoxal de Kussmaul durante a pericardite constrictiva. Sabe-se que a interação entre coração e pulmão ocorre a cada ciclo respiratório através das alterações pressóricas causadas pela variação de volume corrente no interior da caixa torácica e sua influência sobre os órgãos situados no seu interior. A função básica dos sistemas cardiovascular e respiratório é a de oferecer adequado fornecimento de oxigênio e nutrientes para atender a demanda metabólica dos diversos tecidos. A descrição clássica da anatomia e fisiologia não expressam de forma clara as complexas interações entre o coração e o pulmão. O coração e os pulmões encontram-se abrigados dentro do tórax, uma cavidade que limita seus volumes máximos, que encontra-se sob constante movimentação e sujeito a interferências de diversos processos patológicos e do suporte mecânico ventilatório. O coração e os grandes vasos encontram-se praticamente abraçados pelos pulmões, desta forma a pressão torácica constitui-se na pressão a que estão sujeitas suas superfícies. Mudanças no padrão respiratório e manobras utilizadas no tratamento de doentes graves produzem grandes modificações no volume pulmonar e na resistência arterial da pequena circulação, proporcionando condições muito distintas para o funcionamento cardíaco mesmo na ausência de uma alteração hemodinâmica primária. Mecanismos de Interação Cardiopulmonar: A interação cardiopulmonar ocorre normalmente a cada ciclo respiratório, conforme já citado, tanto em pacientes em ventilação espontânea quanto em ventilação mecânica. A respiração espontânea podem produzir alterações hemodinâmicas através de mecanismos básicos: a) mudanças no volume pulmonar e b) mudanças na pressão intratorácica (PIT). a) Mudanças no volume pulmonar • Reflexo de insuflação de Hering-Breuer : também chamado reflexo inibitório inspiratório. É iniciado pelo estimulação de receptores de estiramento localizados na musculatura lisa que envolve grandes e pequenas vias aéreas, quando os pulmões aumentam seu volume. Os pulmões são insuflados e há estiramento destes receptores que por via aferente vagal, inibem o centro respiratório na ponte. Sua função é facilitar o término da inspiração. Há também o reflexo de deflação de Hering-Breuer ou reflexo excito-inspiratório, iniciado por diminuição da atividade dos mesmos receptores do reflexo de insuflação e pela estimulação de outros proprioceptores ativados pela deflação ou diminuição dos volume pulmonar. Por via vagal há a estimulação do centro respiratório que inicia uma inspiração. São mais evidentes em crianças ou em adultos com grandes volumes correntes. • Aumentos do volume pulmonar: quando o volume é de até 12 ml/Kg há supressão vagal e aumento da frequência cardíaca. Volume pulmonar acima de 15ml/kg há supressão simpática e depressão cardiovascular (bradicardia, vasodilatação e inotropismo negativo). 91 • Expiração forçada: exala seu volume de reserva expiratório (VRE) e atinge o seu volume residual (VR) (Figura 1). Ao se iniciar uma inspiração forçada desde o VR até a capacidade pulmonar total(CPT), a resistência dos vasos intra-alveolares aumenta progressivamente, ocorrendo com o contrário com os vasos extra-alveolares (Figura 2). Os vasos intra-alveolares vão sendo comprimidos pelos alvéolos que estão sendo insuflados e a pressão intersticial que rodea os vasos extra-alveolares vai se tornando mais negativa pelo efeito da pressão pleural na inspiração, com aumento da pressão transmural destes vasos Figura 1: Volumes e capacidades pulmonares. Figura 2: Relação entre vasos intra- alveolares, extra-alveolares, volume e capacidade pulmonar (VR, CRF e CPT) e resistência vascular pulmonar (RVP). 92 (Figura 3). Já ao nível do VR os vasos intra-alveolares encontram-se dilatados e os extra- alveolares colapsados pelo efeito da pressão pleural. Em suma, há diminuição da RVP ao nível da CRF. Acima da CRF há aumento progressivo da RVP. • Mecanismo Humoral: a produção de substâncias depressoras do miocárdio pela hiperdistensão alveolar crônica. Apesar deste efeito estar bem documentado em modelos animais bem controlados, o seu significado clínico em humanos não está estabelecido até o momento. b) Mudanças na Pressão Intratorácica (PIT). O Redução da PIT: • aumento do retorno venoso (fluxo limitado). • aumento da pós-carga do ventrículo esquerdo. O Aumento da PIT: • diminuição do retorno venoso (efeito primário) • diminuição da pós-carga do ventrículo (efeito secundário, exceto na insuficiência do ventrículo esquerdo) o Retorno Venoso (RV) : baseado na lei de Ohm, o retorno venoso é diretamente proporcional à diferença de pressões entre a região complascente do sistema circulatório (pequenas veias ) — pressão circulatória média (PCM) — e o átrio direito (PAD) e inversamente proporcional à resistência venosa (rV): RV= PCM-PAD / rV (Figura 4). Figura 3: Relação entre vasos intra- alveolares, extra-alveolares, volume e capacidade pulmonar (VR, CRF e CPT) e resistência vascular pulmonar (RVP). 93 Retorno Venoso AD Pulmões Veias PCM = 10 VE Capilares PAD = 0PAD = 0Resistência RV = PCM - PADResistência A diminuição da Pressão Pleural (Ppl) durante a inspiração, diminui ou negativa a PAD e determina aumento do RV. No repouso, a Ppl e portanto a PAD estão em torno de - 4mmhg. Por conta disso, a pressão intravenosa das veias que adentram no tórax (próximo de - 4mmhg, pela contigüidade com o átrio) é tão pequena que estas veias são colapsadas pela pressão intratorácica. Neste ponto o retorno venoso se torna máximo, e nem aumentos de contratilidade cardíaca ou Ppl mais negativas são capazes de aumentar mais o RV, visto que as veias torácicas já se encontram completamente colapsadas (Figura 5). Guyton e o Retorno Venoso RV PAD PCM P Pleural Frank-Starling e o Débito Cardíaco DC PAD Figura 5: Direita: Curva de RV proposta por Guyton: Porção horizontal da curva a Ppl tona-se mais negativa, a pressão transmural do AD e dos vasos intratorácicos aumenta e estes vasos colapsam ao entrarem no tórax. Neste ponto, aumentos adicionais do RV são impossíveis. Esquerda: Curva de função cardíaca descrita por Frank e Starling: Maior a PAD, maior o débito cardíaco. Lembrar que aumentos da PCM ou diminuição da rV também irão aumentar o RV ( vide lei de Ohm).Para aumentar a PCM e determinar aumento do RV, basta que se administre volume ou use vasoconstritores (Figura 6). Figura 4: Esquema demonstrando relação entre pressões, resistência e retorno venoso. RV = retorno venoso. PCM = Pressão Circulatória Média. PAD = Pressão do Átrio Direito. 94 Guyton-Frank-Starling RV / DC PAD PCM Infusão de Volume Guyton-Frank-Starling RV / DC PAD PCM Diminuição da Complacência C = V / P Figura 6: Desde que a função do ventrículo esquerdo seja boa, infusão de volume e redução da complacência venosa com vasoconstritores têm efeitos semelhantes sobre o RV e assim sobre a curva de função cardíaca. Aumento da pós-carga do ventrículo esquerdo. Dentro do tórax podemos identificar o pulmão, uma “bomba impulsionando ar, envolvendo o coração, uma bomba impulsionando sangue. Esta curiosa condição permite que mudanças na pressão intratorácica tenham interferência sobre a drenagem venosa para o coração e também sobre a ejeção de sangue do ventrículo esquerdo para a circulação sistêmica. Assim como já descrevemos, durante uma inspiração forçada, produzindo-se grande negativação da pressão intratorácica, ocorre uma significativa queda da pressão no átrio direito e na circulação pulmonar. Como resultado o fluxo sanguíneo para o átrio direito é aumentado ao mesmo tempo em que o fluxo sanguíneo para o átrio esquerdo é reduzido. A negativação da pressão intratorácica promove também queda da pressão ventricular esquerda impondo ao miocárdio um maior trabalho para manter a pressão arterial sistêmica. Esta combinação de maior afluxo de sangue para o tórax e maior dificuldade em seu esvaziamento pode produzir aumento do volume sanguíneo pulmonar, fenômeno altamente prejudicial para os miocardiopatas (Figura 7). 95 É neste contexto que entram em discussão 2 aspectos fisiológicos muito importantes: • A pressão Transmural : é a pressão exercida na parede do vaso ou do coração, resultante da diferença de pressão aplicada do lado de dentro e do lado de fora (neste caso: pressão intraventricular ou pressão intravascular – pressão pleural ou intratorácica). • A lei de Laplace : define a tensão circunferencial — força aplicada por um fluido dentro de uma estrutura cilíndrica e que tende a abrir este cilindro ao longo do seu comprimento. É diretamente proporcional à pressão transmural e ao raio do cilindro e inversamente proporcional à espessura de suas paredes (Figura 8). PA o 15 PP l 0 Pt m 15 PA o 20 PPl +50 Pt m 15 PA o 10 PPl -50 Pt m 15 Manobra de Valsalva Manobra De Mueller PAo = Pressão Aórtica Ptm = Pressão Transmural PPl = Pressão Pleural Figura 7: Representação esquemática dos efeitos de manobras respiratórias sobre o ventrículo esquerdo. 96 T = P.r e Laplace Pressão transmural Tensão Deste modo, durante uma inspiração espontânea, diminui-se a Ppl e aumenta-se a pressão transmural, aumentando a tensão circunferencial. Como a tensão circunferencial é uma força que tende a “abrir o ventrículo” ao longo de seu comprimento e a contração é um evento exatamente no sentido oposto, a pós carga do ventrículo esquerdo é intensamente aumentada (Figura 9). FIGURA 8: T = TENSÃO CIRCUNFERENCIAL. P = PRESSÃO TRANSMURAL. R = RAIO. E = ESPESSURA (VIDE TEXTO). 97 Função de Ventrículo Esquerdo RV DCP = 100 P = -3 Ptm = 103 Função de Ventrículo Esquerdo Ptm = 120 RV DCP = 100 P = -20 Função de Ventrículo Esquerdo Função de Ventrículo Esquerdo Ptm = 80 RV DCP = 100 P = 20 Figura 9: efeito da pressão intratorácica-pleural sobre a pressão transmural, tensão circunferencial do VE e seuimpacto sobre o DC e o RV. Interação Cardiopulmonar durante Ventilação Mecânica com Pressão Positiva: Na ventilação com pressão positiva podemos encontrar pressão venosa central (PVC) e pressão capilar pulmonar elevadas, mesmo sem hipervolemia, resultante do aumento da pressão alveolar. Durante ventilação mecânica com pressão positiva, o ciclo respiratório, que se constitui-se da inspiração onde as pressões intratorácicas aumentam devido ao fluxo de ar que é gerado para os alvéolos, com aumento da pressão alveolar e sua transmissão aos vasos intratorácicos (veias e artérias) e câmaras cardíacas. Dessa forma ocorre, durante a inspiração aumento da pressão atrial direita e compressão da veia cava inferior (pelo aumento das pressões pleurais – Figura 10) com consequente redução do fluxo sanguíneo no seu interior e do retorno venoso (redução da pré-carga) do ventrículo direito (VD), redução da pós-carga do VD e da pré-carga da ventrículo esquerdo (VE) e posterior redução do débito cardíaco do VE, conforme notado 98 através da medida de fluxo nos vasos intratorácicos como a própria veia cava inferior, artérias pulmonares e aorta (Figura 11). Figura 10: RNM demonstrando colapsabilidade da VCI durante ventilação mecânica com pressão positiva – inspiração (a � b). VCI = Veia Cava Inferior. Figura 11: Gráfico de medida de fluxo demonstrando, após início da inspiração, queda do fluxo inicialmente na VCI, posteriormente na artéria pulmonar e 99 Ao mesmo tempo em que tudo isso está ocorrendo, através do aumento da pressão alveolar e da pressão que envolve os capilares pulmonares, ocorre aumento da pós-carga do VD, e esse aumento acaba por ser maior que a pressão que envolve o leito arterial pulmonar (aumento da pressão transpulmonar). Também devido a esse fato, ocorre um temporário aumento da pré- carga do átrio esquerdo (AE) pois pelo fato de se aumentar a pressão em torno dos capilares um fenômeno de “squeezing”ocorre e o sangue que está no seu interior é “ordenhado” para o interior do mesmo. A pós-carga do VE reduz devido a pressão positiva transcardíaca (efeito contrário ao observado na Figura 9 que demonstra tal fato em pacientes em respiração espontânea. Tais informações são demonstradas na Figura 12. Esses achados durante a monitorização hemodinâmica em pacientes com ventilação mecânica controlada, sem respiração espontânea, com volume corrente de 8,0 ml/Kg, na presença de ritmo sinusal permite distinguir aqueles que são responsivos a aumento do fluxo sanguíneo aos demais órgãos nos diversos estados de choque, através da expansão da volemia com fluídos (os chamados fluídos responsivos). Devemos nos atentar que a presença de responsividade a fluídos não significa, nem é sinônimo de hipovolemia, da mesma forma que a não fluído responsividade não significa nem é sinônimo de hipervolemia. Significa que a infusão de fluídos será capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e o débito cardíaco aos demais órgãos. 100 Esses achados não ocorrem em pacientes que não são classificados como responsivos a fluídos (Figura 13). Figura 12: Efeito da ventilação com pressão positiva sobre a pressão alveolar e sua transmissão às demais estruturas (coração, pleura) e vasos. 1 – Colapso da veia cava superior (VCS) distensão da veia cava inferior (VCI) com aumento da pressão pleural (Ppl). 2 – Aumento da pressão atrial direita, tanto por aumento da Ppl quanto por aumento da pós carga do VD. 3 – Compressão completa dos capilares alveolares (Zonas I e II de West) com efeito “squezzing”(vide texto). 4 – Compressão incompleta dos capilares alveolares (Zona III de West). 5 – Redução da pós-carga do VE 101 Sua interpretação também deve ser realizada com base na curva de Frank-Starling onde a porção ascendente da mesma representa os pacientes cujo débito cardíaco é dependente da adição de fluídos e na porção plana da curva encontram-se os não dependentes de fluídos (Figura 14). Figura 14: Curva de Frank-Starling. Esses fenômenos descritos acima podem ser identificados durante a monitoração da curva da pressão arterial invasiva (PAI), através da curva de pletsmografia (habitual ou através de dispositivos específicos para tal), monitoração da curva de pressão venosa central, variação do volume sistólico (VVS) e outros, com a percepção de redução da amplitude máxima durante o ciclo respiratório (Figura 15 e 16). O uso da ecocardiografia a beira leito tem sido cada vez mais difundida e usada por intensivistas para avaliação hemodinâmica e dessa forma pode-se também identificar a presença de distensão da VCI ou colapso da VCS, conforme já descrito no texto (Figura 17). A sensibilidade e especificidade de cada método será descrito conforme oportunidade. Figura 13: Efeitos da ventilação mecânica em pacientes não classificados como responsivos a fluídos. 102 BA C Figura 15: A e B) Curva de PAI demonstrando a Pressão de Pulso (PP), variação de pressão sistólica (SPV) e seus componentes △Up e △Down e sua correlação com ciclo respiratório. B) Presença dos componentes citados em A e a demonstração da ocorrência da variação da pressão de pulso (△PP). C) Curva ROC demonstrando a sensibilidade e a especificidade do △PP, comparando com outras variáveis de monitorização hemodinâmica. Círculos abertos (o) representam △PP, quadrados preenchidos (■) a variação da pressão sistólica (SP), círculos preenchidos (●) a pressão de átrio direito (RAP) e quadrados abertos ( ) a pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP). 103 B A Figura 16: A) Presença de variação da curva de pletismografia captada por software especial demonstrando a variação pletismográfica máxima (POP max) e mínima (POP min) para cálculo do índice de variação pletsmográfica (PVI), cuja interpretação é realizada da mesma forma que o △PP. B) Curva ROC do PVI (círculos abertos (O)) quando comparado ao △PP (círculos fechados (●)). A B Figura 17: Imagem de ecocardiografia demonstrando colapso de VCS durante a inspiração (A ) e distensão da VCI durante inspiração (B). Conforme dados de literatura ID VCI > 18% prevê fluido-responsividade com sensibilidade e especificidade de 90% para ambos. Já o IC VCS > 36% prevê fluido-responsividade com sensibilidade e especificidade de 90% e 100%, respectivamente. ID VCI = Índice de Distensibilidade da Veia Cava Inferior (VCI). IC VCS = Índice de Colapsabilidade da Veia Cava Superior (VCS). O ventrículo Direito: Constitui-se numa câmara muito pouco muscularizada e tem como oposição à sua ejeção a resistência vascular pulmonar. Na presença de resistência vascular pulmonar elevada (hipertensão pulmonar primária ou secundária, principalmente se aguda), o ventrículo direito facilmente entra em falência e torna-se dilatado. Como a membrana pericárdica é relativamente inelástica, estando o ventrículo direito dilatado o ventrículo esquerdo não dispõe de espaço para um adequado enchimento diastólico, tornando-se insuficiente por um mecanismo de interdependência. Hipóxia prolongada e compressão de vasos pulmonares por hiperdistensão pulmonar são as causas mais comuns de aumento na resistência vascular pulmonar. 104 Interações com Importância Clínica: Apesar das múltiplas interações identificáveis,somente algumas têm importância clínica habitualmente. Ventilação com pressão positiva em hipovolêmicos: nesta situação o retorno venoso para o coração direito e a ejeção ventricular esquerda ficam comprometidos, acentuando a condição de baixo fluxo e hipotensão arterial sistêmica. Esforço inspiratório em cardiopatas: a negativação da pressão pleural induz a uma acentuada redução na pressão aórtica e no débito cardíaco. Efeito do PEEP em SARA ou DPOC: o efeito pode ser benéfico ou prejudicial, na dependência de melhorar a oxigenação (o que produz queda na resistência vascular pulmonar) ou produzindo hiperinsuflação pulmonar (produzindo aumento da resistência vascular pulmonar. Trabalho respiratório e cardíaco no desmame do respirador: a súbita passagem de um regime de pressão pleural positiva para outro com pressão negativa determina acentuado aumento no consumo de oxigênio miocárdico o que pode descompensar pacientes coronarianos. Recomendações: Como pudemos ver acima, as interações conhecidas podem ser prejudiciais ou vantajosas para as diferentes condições fisiopatológicas. Desta forma, verifique quais são as condições cardiovasculares básicas dos pacientes e procure antecipar quais os efeitos que mudanças ventilatórias poderão produzir em sua evolução. Dê maior atenção às condições destacadas nos itens 2 e 3. Lembre-se que uma gasometria normal não garante adequada oxigenação tecidual e que diversos comportamentos hemodinâmicos podem ser decorrentes de interação cardiopulmonar. Bibliografia: Abel JA, Salerno TA, Panos A et al. Cardiovascular Effects of Positive Pressure Ventilation in Humans. Ann Thorac Surg 43:198-206,1987. Pinsky MR. Cardiopulmonary Interactions: The Effects of Negative and Positive Changes in Pleural Pressure on Cardiac Output in Cardiopulmonary Critical Care. WB Saunders Company, Philadelphia PA. 1997. Wallis TW, Robotham JL. Mechanical Heart-Lung Interaction with Positive End-Expiratory Pressure. J Appl Physiol 54:1039-47, 1983. Scharf S, Magder S & Pinsky M. Respiratory-circulatory interactions in healty and disease. Marcel Dekker 2000 . Co. pub. 105 CAPÍTULO 11 DISFUNÇÃO MIOCÁRDICA Introdução A função cardíaca é determinada por inúmeros fatores, dentre eles: - adequação da oferta à demanda de oxigênio do miocárdio; - pré e pós-carga; - inotropismo e sincronismo; - freqüência cardíaca. Relação oferta – demanda de oxigênio do miocárdio A eficiência da contratilidade miocárdica está diretamente relacionada à disponibilidade de O2 e a falta deste pode determinar diferentes graus de disfunção, desde menores como hipocontratilidade da parede relacionada (hipocinesia), até ausência de contratilidade (acinesia) ou movimentação em direção oposta à do músculo adjacente (discinesia) nos casos mais graves de isquemia aguda. Pode-se observar também algum grau de deterioração em situações de aumento da demanda de oxigênio como acontece na sepse, no trauma, na anemia (especialmente a aguda), no hipertireoidismo, no exercício ou durante episódio de taquiarritmia. Pré-carga Representa a capacidade de distensão da fibra miocárdica no final da diástole (complacência ventricular). De acordo com a Lei de Starling, quanto maior for a distensão da fibra, maior será a força de contração promovida por ela. A força de contração cardíaca está diretamente relacionada ao grau de estiramento da fibra miocárdica ao final da diástole e este estiramento é proporcional ao volume diastólico final do VE, portanto, a pré-carga corresponde ao volume diastólico final (de difícil mensuração à beira leito) que, em indivíduos normais, guarda boa correlação com pressões de enchimento (PVC e POAP). A relação entre pressão e volume é dada por uma curva de complacência que tende a se alterar sobremaneira na doença grave (Figura 1). Figura 1 – O doente grave desenvolve uma família de curvas pressão-volume, variando em uma mesma curva ou em curvas diferentes, conforme o momento hemodinâmico. 106 Fatores que alteram complacência ventricular • Hipertrofia • Isquemia • Idade avançada • Hipóxia • Acidose • Sepse • Vasopressores • Inotrópicos • Dilatação ventricular • Nitroglicerina • Antagonistas do cálcio Pós-carga Representa a força que o ventrículo tem que desenvolver para vencer a resistência a sua frente. Conceitualmente, trata-se da pressão transmural do ventrículo. Na prática, convencionou-se representá-la pelo cálculo da resistência vascular sistêmica, embora não corresponda verdadeiramente à pós-carga. Contratilidade É a capacidade de contração da fibra muscular cardíaca. Pode estar alterada por doença miocárdica intrínseca, ação de drogas inotrópicas negativas ou efeito de variadas citocinas inflamatórias como acontece na sepse, na pancreatite, no trauma etc. Freqüência cardíaca (FC) Corações normais toleram amplas faixas de variação sem prejuízo hemodinâmico. A doença grave e seu consequente hipermetabolismo impõem ao coração um estado hipercinético, a fim de atender à demanda metabólica aumentada. Todavia, à medida que a FC se eleva, abrevia-se o período diastólico, ocasionando redução do enchimento ventricular. A disfunção cardíaca é a condição fisiopatológica em que o coração é incapaz de atender à demanda metabólica do organismo Apresentação hemodinâmica Insuficiência cardíaca sistólica • Redução do volume sistólico (IC < 2,8 l/min/m2) • Aumento das pressões de enchimento (POAP > 18 mmHg) • Fração de ejeção (ECO) tipicamente reduzida (< 0,5) Insuficiência cardíaca diastólica • Volume sistólico reduzido freqüentemente mascarado por elevação da FC • Aumento das pressões de enchimento de câmaras esquerdas (POAP > 18 mmHg) • Fração de ejeção (ECO) pode ser normal ou elevada Insuficiência cardíaca direita • Volume sistólico reduzido por redução da pré-carga de VE • Aumento das pressões de enchimento de câmaras direitas (PVC > 12 mm) Em relação aos parâmetros de oxigenação tecidual de um paciente com insuficiência cardíaca sistóloica (disfunção VE), poderíamos destacar a queda da saturação venosa mista de oxigênio e o aumento da taxa de extração de O2, determinados pelo baixo débito. A Figura 2 ilustra como esses parâmetros se alteram na ICC. 107 Observem que o coração disfuncionante, representado por uma pequena locomotiva, tem dificuldades para o transporte de O2 (baixo débito/fluxo lento), que transita lentamente pelos tecidos e as céluas, por sua vez, compensam esse déficit aumentando sua taxa de extração de O2. Consequentemente, o reduzido conteúdo venoso de O2 implica em uma SvO2 < 65%. Figura 2 – Parâmetros de oxigenação: insuficiência cardíaca. As figuras a seguir demonstram de forma esquemática a relação entre DC e perfusão sistêmica em um contexto de insuficiência ventricular esquerda (Figura 3) e a relação entre débito ventricular direito e congestão venosa em um contexto de insuficiência ventricular direita (Figura 4). 108 Figura 3 – Esquema do circuito cardiovascular na insuficiência cardíaca esquerda. O DC está diminuído, resultando em diminuição da perfusão sistêmica e aumento da P diastólica final (esvaziamento incompleto). A congestão e a hipertensão vascular pulmonar (causados pelo aumento da P no AE) levam a edema pulmonar. 109 Figura 4 – Esquema do circuito cardiovascular na insuficiência cardíaca direita.Uma queda no débito ventricular direito resulta em hipertensão e congestão venosa sistêmica (retrógrada), 110 levando a edema generalizado. Pode ocorrer uma queda correspondente no fluxo sanguíneo pulmonar (também por comprometimento importante do débito direito), e consequentemente no enchimento ventricular esquerdo e no débito cardíaco sistêmico, nos casos mais avançados de IC direita. Interdependência ventricular O ventrículo direito é freqüentemente comprometido no doente grave. Por apresentar massa muscular menos desenvolvida que a do VE, o VD é mais complacente e sofre menos influências da pré-carga. (Figura 5) Entretanto, qualquer evento que determine aumento da pós-carga do VD, como alterações inflamatórias e de volemia efetiva encontradas nos estados inflamatórios (sepse, pancreatite, grandes queimados), congestão pulmonar por falência de VE, insuficiência respiratória e necessidade de ventilação mecânica, DPOC ou embolia pulmonar (aumento da resistência ou pressão pulmonar - condições freqüentes nos doentes críticos), acarreta disfunção, elevando o seu volume diastólico final e podendo comprometer a função do VE por meio de fatores que interferem na interdependência ventricular. Figura 5 – Figura ilustrando as diferenças marcantes entre os ventrículos direito (mais complacente) e esquerdo (menos complacente). A necessidade de grandes reposições de volume aliada ao aumento da impedância à ejeção ventricular direita, oferecida pela hipertensão pulmonar aguda nesses casos, torna o VD particularmente vulnerável à falência. 111 Além dos efeitos diretos no miocárdio, causados por toxinas e mediadores liberados no processo séptico, leucotrienos e outros prostanóides também são responsáveis por hipertensão pulmonar, que frequentemente culmina na síndrome do desconforto respiratório do adulto e exige assistência ventilatória mecânica com pressão expiratória final positiva, aumentando ainda mais a pós-carga do VD. Nessas condições, ocorre aumento do volume e da pressão diastólica final, e a cavidade ventricular direita muda sua configuração: o formato habitual de meia-lua desaparece e o septo interventricular que normalmente apresenta uma convexidade para o VD torna-se retificado ou mesmo desviado para o interior do VE (movimento paradoxal do septo), reduzindo seu tamanho, sua complacência e consequentemente a pré-carga do VE e o débito cardíaco para a circulação sistêmica (Figura 6), o que agrava a disfunção do VE, podendo levar a colapso circulatório e óbito. Figura 6 – A sobrecarga de um determinado ventrículo determina alterações na complacência do ventrículo contíguo através da interdependência ventricular Alterações cardiocirculatórias na sepse A relação entre depressão miocárdica clínica e efeitos de substâncias depressoras do miocárdio, circulantes no soro de pacientes sépticos, já é sugerida desde os trabalhos pioneiros de Lefer et al., em meados de 1970. Foi finalmente confirmada pelos estudos de Parrillo et al., que estabeleceram um forte elo entre as observações – in vivo e in vitro – e a presença de substâncias depressoras do miocárdio no quadro séptico. Verificou-se que a incubação de endotoxina com macrófagos ativados produzia sobrenadante com atividade depressora vascular e miocárdica. Constatou-se o papel dos mediadores inflamatórios, cujas principais citocinas geradas em berço séptico são o fator de necrose tumoral (TNF) e interleucina 1β (IL-1β) que, em última análise, induzem a liberação da oxidonítrico-sintetase, forma induzida (NOS-2), levando à produção de óxido nítrico e, conseqüentemente, depressão miocárdica, com redução concomitante do cálcio intracelular. A tentativa de inibição das citocinas com anticorpos monoclonais, e do óxido nítrico com L- NAME e L-NMMA, não reverteu completamente a depressão miocárdica experimental, sugerindo que o tema ainda está aberto a novas contribuições. Em desacordo com a hipótese puramente funcional, documentamos em achados histopatológicos evidente miocardite intersticial em 27% dos 71 pacientes sépticos submetidos à necropsia. Posteriormente, constatou-se a liberação de macromoléculas, como a troponina I, pelos miócitos lesados. Não se trata de isquemia coronariana propriamente, mas de uma ação citotóxica local. Observa-se, com freqüência, a redução da pós-carga na sepse (diminuição da resistência vascular sistêmica por disfunção endotelial e fatores inflamatórios), o que pode mascarar eventual disfunção miocárdica ou retardar seu reconhecimento. 112 A mensuração do débito cardíaco torna-se muito insensível para detectar depressão miocárdica, pois o mesmo pode não se alterar devido aos mecanismos compensatórios já citados. A própria utilização da mensuração das pressões de enchimento, para construção de curvas de Starling, é inadequada devido às freqüentes alterações de complacência ventricular do paciente séptico. Dessa forma, as pressões de enchimento não refletem, no geral, a pré-carga ventricular. A intensa estimulação catecolaminérgica, dando suporte a um franco estado hiperdinâmico, tende a ocultar uma função ventricular deprimida. A monitoração hemodinâmica tem sido questionada recentemente devido ao seu baixo poder discriminatório no diagnóstico da condição. Com essas limitações, o diagnóstico da depressão miocárdica à beira leito fica pautado na determinação da fração de ejeção do ventrículo esquerdo e ao uso de marcadores como a troponina. O ecocardiograma bidimensional e a ventriculografia radioisotópica podem ser considerados padrões para o diagnóstico dessa condição. A avaliação da fração de ejeção é importante, principalmente nas fases iniciais do choque séptico, pois guarda relação prognóstica. A queda da fração de ejeção do VE para menos de 50% caracteriza o acometimento do coração na sepse, em um paciente sadio. A elevação da fração de ejeção inicialmente rebaixada, no contexto séptico, é indicativo de bom prognóstico. Contudo, o achado de fração de ejeção normal não afasta o comprometimento do coração. A necessidade de um exame de acurácia superior se impõe. As enzimas CK-mb e mioglobina mostraram-se insensíveis e inespecíficas. A troponina tem se mostrado superior às demais no diagnóstico da lesão miocárdica isquêmica e recentemente tornou-se útil também para o diagnóstico e prognóstico da miocardite séptica (Tab.1). Tabela 1 – Ecocardiograma versus troponina I em dez pacientes sépticos FEVE < 0,5 FEVE > 0,5 Total TnI > 0,6 ng/ml 4 (40%) 2 (20%) 6 (60%) TnI < 0,6 ng/ml 0 (0%) 4 (40%) 4 (40%) Total 4 (40%) 6 (60%) 10 (100%) Fernandes CJ, Akamine N, Knobel E. Intensive Care Medicine 25:1165-8, 1999. Segundo parecer do Fórum Internacional de Sepse de 2008, os níveis séricos de troponina podem discriminar pacientes sépticos mais graves e com mortalidade precoce maior de maneira significativa e sua dosagem deve ser incluída na rotina de admissão desses pacientes. A disfunção miocárdica na sepse ainda é assunto desafiador por sua complexa fisiopatologia que determina, muitas vezes, prognóstico tão desfavorável e por envolver mecanismos diversos como mediação inflamatória, síntese de NO, isquemia, alterações no metabolismo do Ca, antagonismo dos receptores de endotelina, apoptose e miocardite intersticial, processos com muito a esclarecer. BibliografiA: Darovic GO, Yacone-Morton LA. Monitoring cardiac output. In: Darovic GO. Hemodynamic monitoring: invasive and noninvasive clinical application. 2. ed. Philadelphia, W.B. Saunders Company, pp. 323-46, 1995. Fernandes Jr. CJ, Akamine N, Knobel E. Cardiac troponin: a new serum marker of myocardialinjury in sepsis. Intensive Care Med 25:1165-8, 1999. 113 Fernandes Jr. CJ, Iervolino M, Knobel E et al. Interstitial myocarditis in sepsis. Am J Cardiol 74:958, 1994. Henning RJ, Darovic GO, Adler D. Specific monitoring considerations for patients with cardiac disease. Hemodynamic monitoring: invasive and noninvasive clinical application. 2. ed. Philadelphia, W.B. Saunders Company, pp. 647-62, 1995. Wu AHB. Increased troponin in patients with sepsis and septic shock: myocardial necrosis or reversible myocardial depression? Intensive Care Med 27:959-61, 2001. 114 CAPÍTULO 12 REPOSIÇÃO VOLÊMICA Introdução O termo volemia representa o volume de sangue contido dentro do sistema circulatório. Em adultos normais, este volume corresponde a 8% do peso corpóreo, totalizando cerca de 5 a 6 litros. As alterações da volemia quase nunca representam um fenômeno hemodinâmico isolado, constituindo-se, na maioria das vezes, em cenários complexos nos quais identificamos distúrbios eletrolíticos, metabólicos, hematológicos e hormonais associados. A hipovolemia é um achado muito comum e sua correção constitui-se na intervenção mais freqüente da medicina intensiva. Estima-se que 80% do tempo gasto em terapias intensivas são dedicados a esta importante ação terapêutica. Neste capítulo consideraremos apenas os aspectos gerais que envolvem a reposição volêmica. Suas particularidades, em condições clínicas específicas, serão abordadas em outros capítulos deste livro. Aspectos clínicos Uma regra terapêutica universal é adequar a oferta de nutrientes à demanda metabólica. Desta forma, a correção da hipovolemia tem como fundamento básico aumentar a oferta de oxigênio de modo a satisfazer a necessidade tecidual. Este aumento da oferta resulta de dois mecanismos: - aumento da pré-carga que produz aumento do débito cardíaco e da pressão arterial; - aumento do conteúdo sanguíneo de oxigênio. Destes componentes básicos, o aumento do débito cardíaco e da pressão arterial são habitualmente os principais determinantes da oxigenação tecidual. Resumidamente, podemos dizer que a correção da hipovolemia visa aumentar a oferta de oxigênio aos tecidos através do aumento do débito cardíaco e da pressão arterial. A medida absoluta da volemia tem pouco valor clínico. Do ponto de vista hemodinâmico, tem maior importância o conceito de volemia relativa, isto é, a relação entre o conteúdo (volemia absoluta) e o continente (complacência vascular). Até mesmo pacientes com volemia normal comportam-se como hipovolêmicos na presença de vasodilatação (complacência elevada) ou como hipervolêmicos diante de vasoconstrição (complacência baixa). Um exemplo claro desse fenômeno é representado pelos pacientes com cirrose. Eles apresentam medidas de volemia muito elevadas e comportam-se como hipovolêmicos como decorrência da presença de grandes quantidades de substâncias vasodilatadoras produzidas na insuficiência hepática. De um ponto de vista prático e funcional, podemos afirmar que são hipovolêmicos os pacientes que se beneficiaram de reposição volêmica, independente da estimativa de seu volume sanguíneo absoluto. Outro aspecto fisiológico significativo é a distribuição do sangue ao longo do sistema circulatório. Cerca de 80% do volume sanguíneo encontra-se represado no território venoso. Aproximadamente 15% encontra-se na microcirculação capilar e os 5% restantes em vasos arteriais. Como decorrência, perdas sanguíneas no território venoso determinam quedas mais lentas da pressão e do fluxo. Contrariamente, perdas sanguíneas arteriais determinam rápida queda de fluxo e pressão. A constrição venosa é um mecanismo comum de compensação, capaz de mobilizar grandes quantidades de sangue em direção ao coração, propiciando rápida e eficiente compensação da hipovolemia por aumento da pré-carga. De modo geral, somente perdas volêmicas superiores a 20% necessitam de outros mecanismos de compensação hemodinâmica além da venoconstrição. 115 Causas de hipovolemia • Diversos fatores podem produzir redução do volume sanguíneo. Listamos abaixo as principais causas e mecanismos. • Perdas de fluidos orgânicos: - perda de fluidos gastrointestinais: vômitos, diarréia, laxantes, ostomias e sondagens; - poliúria; - febre; - perdas de fluidos para o terceiro espaço. • Reposição insuficiente: - jejum prolongado; - prescrição insuficiente de fluidos intravenosos. • Hemorragias. • Queimaduras. • Traumatismos e cirurgias. • Obstrução intestinal. • Inflamação de órgãos intra-abdominais. • Sepse. • Pancreatite. • Derrames intracavitários: ascite e hidrotórax. Monitorização da hipovolemia A hipovolemia está associada freqüentemente a outros fenômenos. Sua caracterização é feita pela identificação dos fatores desencadeantes, dos mecanismos de compensação ou de suas conseqüências. Exame físico • Entre os dados indicativos de hipovolemia encontramos: - perda grande e súbita de peso; - redução no turgor da pele; - redução na umidade das mucosas e conjuntivas; - redução no volume urinário; - redução no fluxo capilar da pele; - hipotermia; extremidades frias - hipotensão postural; - taquicardia e hipotensão sistólica; - vasoconstrição cutânea e cutis marmórea; - redução do sensório ou confusão mental. A Tabela 1 mostra as alterações dos parâmetros vitais encontradas de acordo com o volume de sangue perdido, adaptada da ATLS (Advanced Trauma Life Support). Tabela 1 – Alterações dos sinais vitais de acordo com a perda volêmica ou sanguínea ATLS Classe I Classe II Classe III Classe IV Perda sanguínea 700 ml 750-1.500 ml 1.500-2.000 ml > 2.000 ml % da volemia Até 15% 15%-30% 30-40% > 40% FC < 100 Entre 100-120 > 120 > 140 PA Normal Normal Diminuída (PA sistólica) Diminuída 116 FR 14-20 20-30 30-40 > 35 Diurese > 30 20-30 5-15 Desprezível Exames laboratoriais • Diversos exames laboratoriais podem se alterar como decorrência de hipovolemia. • Destacamos a seguir os padrões mais comuns de alteração: - aumento da densidade e osmolaridade urinária; - aumento do hematócrito; - hipernatremia; - hiperproteinemia; - aumento da relação uréia/creatinina no sangue; - elevação do ácido láctico sérico; - alcalose metabólica (precoce); - acidose metabólica. Parâmetros hemodinâmicos A hipovolemia pode determinar o surgimento de várias alterações nos parâmetros hemodinâmicos. Citamos a seguir as alterações mais comuns seguidas de uma rápida discussão dos aspectos mais importantes: - taquicardia; - queda nas pressões: pressão venosa central, pressão da artéria pulmonar ocluída, pressão arterial sistêmica; - queda na pressão de pulso: pressão sistólica – pressão diastólica; - pulso paradoxal ou grande interferência do ciclo respiratório na pressão arterial sistêmica sistólica e pressão de pulso; - redução no volume diastólico final aferido por ecocardiografia, mapeamento cardíaco ou cateter volumétrico de artéria pulmonar. Valores baixos de pressão são sempre sugestivos de hipovolemia. No entanto, diante de valores normais ou mesmo elevados ainda pode existir hipovolemia significativa. Este fato se deve à volemia constituir-se em um parâmetro volumétrico que está sendo avaliado mais comumente através de medidas de pressão. A relação dinâmica que existe entre volume e pressão é conhecida como complacência, cujo comportamento pode ser visto na Figura 1. Figura 1 – A: faixa de alta complacência, a infusão de volume produz pequenos aumentos de pressão;B: faixa de complacência intermediária, a infusão de volume 117 produz aumentos proporcionais de pressão; C: faixa de baixa complacência, a infusão de volume produz grandes aumentos de pressão. Melhor que estimar a volemia pelo valor absoluto das pressões é observar o seu comportamento após uma infusão de fluido. Pequenas elevações de pressão após infusão de volume mostram que estamos ainda na faixa de variação em que a complacência é baixa. Quando pequenas infusões de volume determinam grandes aumentos de pressão, estamos diante de uma complacência reduzida, em que a volemia relativa provavelmente já foi otimizada. O risco de edema agudo de pulmão é tanto maior quanto mais elevado for o gradiente entre a pressão de oclusão da artéria pulmonar e a pressão dentro das pequenas vias aéreas. Bases lógicas da reposição volêmica A identificação de hipovolemia em pacientes graves pode ser extremamente confusa e difícil. Como a sua repercussão é muito danosa, devemos sempre adotar uma estratégia consistente diante de qualquer cenário clínico em que ela possa estar presente. Quando existem sinais evidentes de hipovolemia, a reposição volêmica é logicamente indicada. Quando os indícios são duvidosos ou mesmo escassos e frágeis, devemos igualmente instituir uma reposição volêmica e observarmos a evolução. De forma simples, devemos admitir que tudo que melhora após uma oferta de fluido era resultante de hipovolemia. Outro aspecto muito importante é o conhecimento de que existem grandes e rápidas variações na relação de conteúdo e continente vascular. Isto exige uma constante vigilância hemodinâmica e reposições volêmicas freqüentes de modo a ajustar a volemia a cada condição diferente de complacência vascular. Classificação dos índices dinâmicos de responsividade a fluidos Obtenção de algumas medidas hemodinâmicas e cálculos determinam os índices de responsividade a fluídos e nos permitem melhor adequação da volemia e da resposta volêmica, são eles: Índices baseados na variação da pré-carga induzida pela ventilação mecânica e parâmetros derivados do volume sistólico: variação da pressão sistólica, variação da pressão de pulso, variação do volume sistólico e variação da velocidade de pico do fluxo aórtico – limitados por qualidade do dado, ritmo sinusal, ventilação controlada e volume corrente > 8ml/kg. Índices baseados na variação da pré-carga induzida pela ventilação mecânica e parâmetros não derivados do volume sistólico: variação do período de pré-ejeção do VE, variação da curva de pletismografia, índice de colapsabilidade da veia cava superior, índice de distensibilidade da veia cava inferior, índice pressórico da colapsibilidade da veia cava – limitados por por qualidade do dado, ritmo sinusal, ventilação controlada; diâmetro da cava pode não ser influenciado por arritmias e ciclos espontâneos. Índices baseados em diferentes manobras de redistribuição da pré-carga: variação da PVC, passive leg raising, teste da variação sistólica respiratória – limitados por limitados por qualidade do dado, ritmo sinusal, ventilação controlada. Medidas dinâmicas são mais sensíveis e fidedignas, mas têm limitações. Que fluido utilizar? Existe uma grande diversidade de soluções expansoras de volume. De acordo com sua composição, existe uma maior ou menor conveniência de seu emprego em condições clínicas específicas. Uma regra geral a ser obedecida é a de utilizar preferencialmente uma solução que contenha, sobretudo, os elementos que foram perdidos no mecanismo de instalação da hipovolemia. Assim, devemos repor predominantemente água na presença de diabetes insipidus e repor soro fisiológico quando a hipovolemia foi resultado de vômitos. 118 Outro fato a ser considerado são os mecanismos de doença e a necessidade de correção mais rápida da hipovolemia. As soluções colóides conseguem corrigir os parâmetros hemodinâmicos mais rapidamente que as cristalóides. Desta forma, quando a hipovolemia necessita ser corrigida rapidamente, tal como na presença de isquemia cerebral ou miocárdica, os colóides devem ser empregados preferencialmente. Fora das condições de absoluta emergência, os cristalóides devem ser empregados por diversos motivos, como menor preço e menor interferência com a coagulação. Quando estudarmos a distribuição da água nos compartimentos intravascular, intersticial e intracelular, veremos diferentes efeitos entre colóides e cristalóides. De uma forma geral, os cristalóides têm menor potencial expansor, menor tempo de efeito sobre a volemia e a água fica depositada preferencialmente no interstício e no espaço intracelular. Já os colóides têm maior impacto como expansores, seus efeitos são mais duradouros e a água tende a ficar dentro do espaço intravascular. Colóides têm custo muito superior, apresentam limites na quantidade de uso e encontram-se associados a efeitos colaterais mais importantes que os cristalóides. Mostramos na Tabela 2 a constituição das principais soluções empregadas, o tempo de duração de seus efeitos e a distribuição entre os diversos espaços corpóreos. Tabela 2 – Características físico-químicas dos diferentes líquidos utilizados para reposição volêmica Soluções Na (mEq/l) K (mEq/l) Cl (mEq/l) Ca (mEq/l) Glicose (mg/dl) Lactato (mg/dl) Osmol (mosml/l) T1/2 (h) Ponc (mmHg) IV IT IC Glicose 5% (g/l) 50 g – – – – 278 – 278 – – + ++ +++ NaCl 0,9% – 154 – 154 – – – 308 – – + ++ ~ NaCl 7,5% – 1.283 – 1.283 – – – 1.025 – – ++ – – Ringer Lactato – 130 4 110 3 – 27 275 – – + ++ ~ NaHCO3 8,4% – 1.000 – – – – – 2.000 – – ++ – – Albumina 5% (g/l) 50 g 130 – 130 – – – 308 2,5 20 ++ ~ ~ Gelatina (g/l) 30 g 152 5 100 – – – 320 3,5 30 ++ + ~ Dextran 40 (g/l) 50 g 154 – 154 – – – 310 2,5 27 + + ~ Dextran 70 (g/l) 60 g 154 – 154 – – – 310 25,5 59 ++ ~ ~ Amido 6% (g/l) 60 g 154 – 154 – – – 310 25,5 20 ++ ~ ~ T1/2: meia-vida; Ponc: pressão oncótica; IV: intravenosa; IT: intersticial; IC: intracelular. Soluções glicosadas Soluções glicosadas não se constituem propriamente em expansoras de volume. O seu emprego só tem justificativa como complementação da recomposição da água intracelular nos casos em que a hipovolemia foi resultante da perda predominante de água livre. 119 Solução salina isotônica A solução de cloreto de sódio a 0,9%, apesar de ser isotônica, contém quantidades ligeiramente superiores ao plasma de cloro e sódio. Em quantidades excessivas, podemos observar hipercloremia e raramente acidose. Ringer e Ringer Lactato A solução de ringer contém sódio em menor quantidade que a solução salina, mantendo isotonicidade às custas da adição de cálcio e potássio em concentrações próximas às do plasma. Adicionando-se lactato, foi possível reduzir a quantidade de cloreto propiciando uma menor incidência de acidose hiperclorêmica. A capacidade tamponante do lactato da solução não tem importância clínica reconhecida. Solução salina hipertônica A solução salina hipertônica a 7,5% tem a propriedade de mobilizar fluido intracelular e intersticial na proporção de 1:4, ou seja, para cada 250 ml infundidos, a expansão volêmica é de 1.235 ml. Os efeitos hemodinâmicos das soluções hipertônicas, sobretudo aumento da pressão arterial sistêmica, não podem ser explicados apenas pelo incremento induzido da volemia, devendo existir mecanismos neuro-humorais associados à hiperosmolaridade súbita. A hipernatremia e hiperosmolaridade são ocorrências comuns. O uso dessas soluções ainda encontra-serestrito à ressuscitação pré-hospitalar ou quando pretendemos utilizar pequenos volumes de infusão. Albumina As soluções de albumina a 5% são isooncóticas em relação ao plasma e mantêm seus efeitos por aproximadamente 2 a 3 horas. Em concentração a 25%, são capazes de mobilizar do espaço intersticial e intracelular 4 a 5 vezes o volume infundido, constituindo-se em grande expansor e com efeitos mais prolongados. O grande problema da albumina é o seu custo elevado. Existem ainda indícios de que o seu emprego possa aumentar o edema na presença de aumento da permeabilidade capilar, reduzir a resposta imunológica em pacientes graves, além do risco de transmissão de doenças. Gelatina As soluções de gelatina constituem-se em soluções colóides ligeiramente hiperoncóticas, mas com efeito muito fugaz. Em virtude do surgimento de soluções de efeito mais duradouro, com menor incidência de anafilaxia e custo semelhante, o uso dessas soluções está praticamente abandonado. Dextran Os dextrans são polímeros de glicose produzidos através do cultivo de bactérias em meios contendo sacarose. São produzidos dextrans com peso molecular diferentes, conhecidos como dextran-40 e dextran-70. Estas soluções estão implicadas com anafilaxia, insuficiência renal, coagulopatia por inibição plaquetária e interferência com testes laboratoriais envolvendo hemácias. As soluções de peso molecular menor foram abandonadas por terem efeito muito curto e por terem maior potencial de efeitos danosos. A melhoria na técnica de produção fez cair a taxa de efeitos graves de 5% para 0,032%, em 20 anos. Amido Soluções de amido polimerizadas através de ligações hidroxietílicas constituem-se em boa opção para recomposição volêmica. Os preparados contendo amido com peso molecular de 120 600.000 dáltons e com 6% de ligações hidroxietílicas garantem potencial oncótico durante 24 horas. O encontro de anafilaxia, coagulopatia e insuficiência renal é bastante limitado e não se constitui em fatores restritivos ao uso. A presença do amido pode eventualmente determinar o aumento dos níveis séricos de amilase, podendo dificultar ou confundir o diagnóstico de pancreatite. Como infundir? Uma das regras gerais para a reposição volêmica é: faça a infusão sempre o mais rápido possível. Logicamente existem fatores limitantes no ritmo de infusão, sobretudo em cardiopatas, porém a regra acima sempre deve ser respeitada. Identificando-se hipovolemia em um cardiopata, a instituição de fluidos deve ser imediata, mesmo que ele só consiga tolerar pequenas quantidades de líquido e em um ritmo muito lento. Nesses casos, o ideal é que a reposição seja cuidadosamente monitorada, podendo-se usar parâmetros como SvO2 e lactato no acompanhamento. Outra regra importante é: reavalie constantemente a volemia, pois a relação entre conteúdo e continente vascular é extremamente dinâmica. Identificada ou suspeitada a hipovolemia, selecionamos um fluido de reposição e instituímos prontamente sua correção. Uma sugestão para guiar a ressuscitação volêmica é o esquema de Weil adaptado, mostrado na Tabela 3. Tabela 3 – Estratégia de ressuscitação volêmica guiada pelas alterações nas pressões de enchimento cardíacas Procedimento PVC mmHg PAPO mmHg Infusão Inicial < 5 < 10 200 ml/10 min < 10 <14 100 ml/10 min ≥ 10 ≥ 14 50 ml/10 min Durante � > 5 � > 7 Interromper Infusão 10 min � ≤ 2 � ≤ 3 Continuar 2 < � ≤ 5 3 < � ≤ 7 Pausa de 10 min � > 5 � > 7 Interromper Pós-pausa 10 min Ainda � > 2 Ainda � > 3 Interromper � ≤ 2 � ≤ 3 Repetir Este esquema utiliza como guia as variações de pressão após uma infusão de líquidos. De acordo com a resposta, ele identifica a curva de complacência, reajustando o ritmo de infusão. Em intervalos curtos de 10 minutos são feitas novas avaliações. Na maioria das vezes, a intensidade ou gravidade da hipovolemia nos obriga ao emprego de soluções por via intravenosa, no entanto, vale sempre lembrar que a via digestiva é uma excelente via para manutenção básica da volemia. Metas da reposição volêmica. Quanto infundir? Sabemos que a reposição volêmica está atingindo seus objetivos quando os sinais que nos faziam suspeitar de hipovolemia vão desaparecendo. Desaparecimento da confusão mental, melhora do sensório, maior fluxo urinário, normalização das pressões e características cutâneo- mucosas são indicações claras de melhora. No entanto, a hipovolemia ainda pode estar presente mesmo após a correção destes parâmetros mais simples. 121 Como vimos no início do capítulo, o propósito da reposição volêmica é recompor a oferta de oxigênio. Por isso fazemos reposição volêmica enquanto as metas de perfusão e oxigenação não foram atingidas. Desta forma, a infusão de fluidos deve ser mantida enquanto observarmos a melhora dos níveis de ácido láctico, da saturação venosa mista de oxigênio, da diferença venoarterial de gás carbônico e do pgCO2 gap. Estado volêmico ideal é aquele em que temos o volume circulante efetivo restaurado, mantendo as variáveis hemodinâmicas adequadas à manutenção da oferta tecidual de O2 , com normalização do metabolismo oxidativo. Mostramos a seguir a Tabela 4 contendo as metas gerais da reposição volêmica. Tabela 4 – Metas gerais da reposição volêmica Manter o esquema de reposição volêmica • Enquanto corrige as alterações clínicas • Enquanto atinge as metas globais de oxigenação • Enquanto atinge as metas regionais de perfusão • Enquanto diminui a necessidade de drogas vasoativas • Enquanto não surgem efeitos colaterais prejudiciais • Colóides não-protéicos têm limite de 20 ml/kg em 24 horas Podemos considerar como metas hemodinâmicas: PVC 8-12mmHg, PAM >= 65mmHg, débito urinário >= 0,5ml/kg/h, SvO2>= 70%, sem deixar, no entanto, de observar continuamente as variáveis hemodinâmicas e de perfusão tecidual. A ameaça de edema agudo costuma ser um fator que limita a reposição volêmica, sobretudo quando existem fatores associados como insuficiência cardíaca, insuficiência renal, síndrome de resposta inflamatória sistêmica. No entanto, devemos sempre lembrar que a prioridade do tratamento é garantir a oxigenação tecidual. A reposição volêmica deve ser interrompida apenas quando as metas terapêuticas já foram atingidas. Caso elas ainda não tenham sido obtidas, torna-se necessário, em algumas condições, o emprego concomitante de ventilação mecânica e oxigenação complementar. Bibliografia: Alderson P, Schierhout G, Roberts I et al. Colloids versus crystalloids for fluid resuscitation in critically ill patients. Cochrane Injuries Group Cochrane Database of Systematic Reviews. Issue 3, 2002. Alderson P, Bunn F, Lefebvre C et al. The Albumin Reviewers. Human albumin solution for resuscitation and volume expansion in critically ill patients. Cochrane Injuries Group Cochrane Database of Systematic Reviews. Issue 3, 2002. Bunn F, Alderson P, Hawkins V. Colloid solutions for fluid resuscitation. Cochrane Injuries Cochrane Database of Systematic Reviews. Issue 3, 2002. Bunn F, Roberts I, Tasker R et al. Hypertonic versus isotonic crystalloid for fluid resuscitation in critically ill patients. Cochrane Injuries Group Cochrane Database of Systematic Reviews. Issue 3, 2002. Fernandes Jr. CJ, Akamine N, Knobel E. Reposição volêmica. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. Atheneu, São Paulo, pp. 103-10, 1998. Rivers E et al. Early Goal-Directed Therapy in the Threatment of Severe Sepsis and Septic Schock, N Engl J Med 2001;345:1368-77 122 CAPÍTULO 13 ÍNDICES DINÂMICOS DE AVALIAÇÃO DE RESPONSIVIDADE VOLÊMICA No tratamentodo choque, dentre todas as intervenções, a infusão de fluidos na maioria das vezes sem dúvida é a mais utilizada e a mais eficaz, aumentando a pré-carga e conseqüentemente o débito cardíaco e a oferta de oxigênio. Por outro lado a infusão de fluidos pode ser deletéria quando não indicada, levando à congestão e edema pulmonar, sobrecarga ventricular direita e edema nos tecidos. No dia-a-dia do intensivista em 80% do seu tempo ele se depara com a questão: “O meu paciente pode se beneficiar com a infusão de fluidos?” Esta questão nem sempre é fácil de ser respondida e deve ser baseada não só em parâmetros clínicos, mas também em dados obtidos das várias modalidades de monitorização hemodinâmica. Outro aspecto importante é que nem sempre responsividade à fluidos traduz a necessidade de sua infusão, esta necessidade deve ser guiada pelos parâmetros de perfusão tecidual como lactato, coeficiente respiratório, gradiente veno-arterial de CO2 e saturações venosa mista e central. Conceitos O benefício hemodinâmico esperado com a expansão volêmica e o aumento da pré-carga e conseqüentemente do volume sistólico e débito cardíaco. Entretanto esta relação não é linear conforme descrito por Frank e Starling (Figura 1). Parâmetros estáticos Pressões de Enchimento Classicamente, a pressão atrial direita / pressão venosa central (PAD/PVC) e a pressão capilar pulmonar (PCP) são utilizadas como guias para identificar pacientes “pré-carga responsivos” pela maioria dos médicos de terapia intensiva e várias diretrizes recomendam o uso destas medidas. No entanto, muitos estudos clínicos enfatizam o valor questionável destas pressões de enchimento na predição da eficácia da expansão volêmica. Nestes estudos os valores médios da 123 PAD e PCP não foram significativamente diferentes entre os respondedores e não respondedores. Mesmo quando houve diferença, uma sobreposição dos valores individuais foi observada, portanto nenhum valor limite permite diferenciar os respondedores dos não respondedores. Isso acontece porque o determinante destas pressões não é um fator único, mas uma resultante do retorno venoso associado à função miocárdica (Figura 2), além de influências de outros fatores como complacência vascular, pressão intra-abdominal (PIA) e pressão expiratória final (PEEP). Na prática, essas pressões podem ser utilizadas como guia, mas é necessária uma avaliação critica de não interpretar um valor isolado, mas as variações destas pressões frente á um teste com fluidos. Grandes variações nos valores sugerem um sistema de baixa complacência e pouco responsivo a fluidos e vice-versa. Nas fases iniciais de choque, as pressões de enchimento baixas geralmente correspondem à hipovolemia e podem ser utilizadas como metas de ressuscitação volêmica, como por exemplo, a estratégia de “Terapia Precoce Guiada por Metas” descrita por Rivers em pacientes sépticos. Por outro lado, pressões elevadas não garantem que o paciente não é responsivo à volume. Alterações cíclicas do fluxo sanguíneo durante a ventilação mecânica A ventilação mecânica induz variações cíclicas no fluxo sangüíneo da veia cava e conseqüentemente no fluxo da artéria pulmonar e fluxo aórtico (Figura 3). Na beira do leito estas alterações de fluxo são refletidas com as oscilações da pressão de pulso, cuja magnitude é altamente dependente do estado volêmico do paciente. 124 De acordo com o princípio de Frank-Starling, a diminuição na inspiração da pré-carga do ventrículo direito, leva á uma diminuição do débito no ventrículo direito e no fluxo sangüíneo pulmonar, que por sua vez reduz o enchimento e o débito do ventrículo esquerdo. Três outros mecanismos também podem participar na variação respiratória do volume de ejeção dos ventrículos: • A pós-carga do ventrículo direito aumenta durante inspiração devido ao aumento da pressão alveolar ser maior que o aumento da pressão pleural. Sendo assim o aumento da pressão transpulmonar impede a ejeção do ventrículo direito. • A pré-carga do ventrículo esquerdo aumenta durante a inspiração porque o maior aumento da pressão alveolar em relação ao aumento da pressão pleural expulsa o sangue dos capilares para o lado esquerdo do coração. • A pós-carga do ventrículo esquerdo está reduzida pelo aumento da pressão transmural, facilitando a ejeção para a aorta. Em resumo, durante a inspiração o volume de ejeção do ventrículo esquerdo está aumentado pelo aumento da pré-carga e redução da pós-carga, enquanto o volume de ejeção do ventrículo direito está diminuído pela redução da pré-carga e aumento da pós- carga. A redução do débito cardíaco direito provoca uma redução do enchimento e débito cardíaco esquerdo que só se manifesta alguns batimentos cardíacos adiante devido ao tempo de transito pulmonar do sangue (aproximadamente 2 segundos), ou seja, na expiração. Em situações de hipovolemia as variações geradas pelo ciclo respiratório são de maior intensidade (Figura 4): 1. O sistema venoso, em particular a cava superior, submetido ao aumento da pressão pleural está mais propenso à colapso. Desta forma, a redução do diâmetro da veia cava reduz o retorno venoso. 125 2. O aumento inspiratório da PAD pode ser maior pela maior transmissão da pressão pleural quando o átrio não está completamente cheio e, portanto, mais complacente. 3. Presença maior de áreas de Zona I e II de West (Figura 5) aumentando o efeito da pressão positiva da inspiração na pós-carga do ventrículo direito. 4. Quanto mais baixa a pré-carga, mais sensíveis ficam os ventrículos à sua variação( porção ascendente da curva de Frank-Starling) . Por outro lado a hipervolemia contrabalança esses quatro mecanismos e aumenta a quantidade de sangue forçada dos capilares pulmonares para o átrio esquerdo durante cada insuflação (Figura 6). Com isso, em condições hipervolêmicas, a magnitude da variação respiratória é baixa, sendo seu principal componente o aumento inspiratório do débito do ventrículo esquerdo. 126 Parâmetros dinâmicos Variação da pressão arterial sistólica O volume sistólico do VE é o principal determinante da pressão sistólica. A análise das mudanças respiratórias na pressão sistólica é um bom preditor de resposta a um teste volêmico. O cálculo da diferença entre o valor máximo e mínimo da pressão sistólica durante um ciclo ventilatório (variação da pressão sistólica- ∆PS) foi o primeiro índice proposto para estudar as variações respiratórias. Pacientes com ∆PS maior que 10mmHg podem se beneficiar com expansão volêmica. Para discriminar o que acontece na inspiração e expiração o ∆PS foi 127 divido em dois componentes: ∆Up e ∆Down. Eles são calculados usando uma pressão sistólica no final da inspiração como pressão de referência (Figura 7). ∆Up é a diferença entre o valor máximo da pressão sistólica num mesmo ciclo respiratório e a pressão sistólica de referência. Ela reflete um aumento na pressão sistólica, que resulta do aumento no débito do VE relacionado a um aumento na pré-carga do VE ou um aumento na pressão aórtica extramural relacionada a aumento na pressão pleural, reduzindo a pós-carga. ∆Down é a diferença entre a pressão sistólica de referência e o valor mínimo da pressão sistólica no mesmo ciclo respiratório. Ela reflete a diminuição expiratória na pré-carga de VE e volume sistólico relacionada à diminuição inspiratória no volume sistólico do VD. ∆Down pode ser considerado como um indicador de resposta a infusão de volume.O valor de 5 mmHg foi encontrado com valores preditivo e negativo de 95% e 93% respectivamente. Este valor de ∆Down foi significativamente correlacionado com o aumento do volume sistólico induzido pela expansão volêmica. (r =0.76). Variação da pressão de pulso A pressão de pulso (diferença entre a pressão sistólica e pressão diastólica) é diretamente proporcional ao volume sistólico do VE e inversamente relacionado à complacência arterial. A pressão de pulso não é diretamente influenciada por mudanças cíclicas na pressão pleural, pois a pressão pleural induzida pela insuflação pulmonar afeta tanto a pressão sistólica quanto a diastólica. Um valor de ∆PP maior que 13% discrimina respondedores (incremento do débito cardíaco em 15% após infusão de volume) e não respondedores com valor preditivo positivo e negativo de 94% e 96% respectivamente e, significativamente correlacionado com aumento do débito cardíaco (r2= 0,85; p<0,001). O valor de base do ∆PP foi relacionado ao aumento percentual 128 no índice cardíaco em resposta a infusão de volume, quanto mais alto o ∆PP antes da expansão volêmica maior a resposta no índice cardíaco. ∆PP foi um indicador mais confiável do que variações na pressão sistólica. O cálculo é feito da seguinte maneira (Figura 8): ∆PP(%) = 100 × (PPmax - PPmin) /(PPmax + PPmin)/2 Onde PPmax and PPmin são os valores máximo e mínimo da pressão de pulso num mesmo ciclo respiratório respectivamente . Limitações As variações pressão de pulso, assim como outras variáveis dinâmicas têm algumas limitações ao uso: 1. A curva da pressão arterial é obtida por cateteres preenchidos por fluído e vários fatores podem distorcer o sinal (bolhas de ar, dobras, coágulos, complacência do sistema, comprimento da extensão). 2. Pacientes em ventilação espontânea variam o esforço inspiratório podendo falsear as variações da pressão de pulso. 3. Pacientes com arritmia (fibrilação atrial, extra-sístoles freqüentes) tem variações batimento a batimento no tempo de enchimento ventricular e volume sistólico. Nestes casos a variação da pressão arterial pode não refletir os efeitos da ventilação mecânica. 4. Volumes correntes inferiores a 8 ml/kg podem não gerar alterações de fluxo nos vasos intra-torácicos. A figura 9 mostra um “check list” para a utilização da variação da pressão de pulso. 129 Medidas dinâmicas da PVC Variação respiratória da PVC: Pacientes em ventilação espontânea podem ter a responsividade à fluidos avaliada por mudanças na pressão atrial direita associadas ao ciclo respiratório. A inspiração espontânea provoca uma queda da pressão pleural seguida de queda da PAD, resultando em aumento do retorno venoso. Uma queda da pressão atrial direita maior que 1 mmHg durante a inspiração tem boa correlação com responsividade à fluidos. Amplitude da descendente “y”: Valores maiores que 4 mmHg na amplitude da descendente “y” são considerados como não respondedores a expansão de volume. Índice pressórico de colapsabilidade da veia cava (CVCi): A amplitude da onda de PAD sofre variações cíclicas durante a ventilação mecânica. Esta medida é feita entre a onda “a” e a descendente “x” na fase inspiratória (PVCins) e fase expiratória (PVCexp). (Figuras 10 e 11) Cvci(%) = (PVCexp - PVCins)/ PVCexp x 100 Os achados demonstraram que Cvci maior ou igual a 5% identifica os pacientes com variações da pressão de pulso maior que 13% em pacientes no pós-operatório de cirurgia cardíaca em ventilação mecânica. 130 Variações no diâmetro da veia cava A veia cava inferior (VCI) termina no assoalho do átrio direito, ela carreia 80% do retorno venoso para o átrio direito. Seu trajeto é somente relacionado à pressão intra-abdominal. Ela pode ser facilmente visualizada pelo ecocardiograma sob ventilação mecânica. Foi demonstrado que a relação do diâmetro da veia cava inferior e a pressão venosa central (PVC) tem duas porções: a primeira determina que qualquer aumento na PVC induz um aumento importante no diâmetro da VCI e a segunda de que um aumento na PVC é incapaz de dilatar a VCI. O aumento da PVC relacionada à transmissão da pressão pleural ao átrio direito causada pela ventilação mecânica pode desmascarar a reserva de pré-carga da VCI. O diâmetro máximo da VCI é sempre observado durante insuflação e o diâmetro mínimo na expiração. 131 A veia cava superior (VCS) termina no topo do átrio direito. Seu trajeto é intratorácico. Ela carreia 20% do retorno venoso ao átrio. A VCS pode ser visualizada pelo eco trans-esofágico. Foi observado que o aumento cíclico na pressão intratorácica pode induzir um colapso parcial ou completo do vaso. Em um estudo com 22 pacientes sob ventilação mecânica com lesão pulmonar aguda relacionado à sepse,foi demonstrado uma diminuição inspiratória importante no volume sistólico de VD em pacientes hipovolêmicos particularmente se relaciona a colapso cíclico de VCS. Em outro estudo com 66 pacientes sépticos em ventilação mecânica foi recentemente demonstrado que um índice de colapsibilidade de 36% prediz um aumento no índice cardíaco em 11% após expansão volêmica com especificidade de 100% e sensibilidade de 90%. Variações dinâmicas da pletismografia A monitorização da variação da onda da oximetria de pulso (∆Pplet) é outro índice que tem boa correlação com a variação da pressão de pulso e tem sido estudado como preditor de responsividade a fluidos. Recentemente Faissel et all, demonstraram em pacientes sépticos sob ventilação mecânica que ∆Pplet > 14% tem grande correlação com ∆PP > 12% (r2 = 0.71, p < 0.001). ∆Pplet = 100 × (Ppletmax - Ppletmin) /(Ppletmax + Ppletmin)/2 Elevação passive das pernas A manobra de elevação passiva dos membros inferiores consiste em elevar a 30 graus os membros inferiores por até um minuto. Esta manobra induz uma translocação do volume venoso das pernas para o compartimento intratorácico, aumentando transitoriamente o retorno venoso e conseqüentemente o débito cardíaco. Em um estudo prospectivo utilizando esta manobra associada ao Doppler esofágico mostrou-se que os pacientes que tiveram um aumento de pelo menos 10% do fluxo aórtico após 30 segundos de elevação dos membros inferiores, obtiveram um aumento do débito cardíaco após a infusão de 500 ml de solução salina com uma sensibilidade de 97% e especificidade de 94% (Figura 12). Esta abordagem é de fácil realização, pode ser repetida várias vezes, testes volêmicos são proporcionais ao tamanho do paciente, a sobrecarga de volume em pacientes não respondedores é reversível e pode ser utilizada em pacientes com ritmo cardíaco irregular e ciclos respiratórios espontâneos.Deve-se atenção especial em pacientes com analgesia 132 inadequada que podem aumentar o débito cardíaco por uma resposta adrenérgica à dor. Nestes casos observa-se um aumento do débito cardíaco por aumento da freqüência cardíaca. Bibliografia: Coudray A, Romand JA, Treggiari M, Bendjelid K. Fluid responsiveness in spontaneously breathing patients: a review of indexes used in intensive care. Crit Care Med. 2005 Dec;33(12):2757-62. Bendjelid K, Romand JA. Fluid responsiveness in mechanically ventilated patients: a review of indices used in intensive care. Intensive Care Med. 2003 Mar;29(3):352-60. Epub 2003 Jan 21. Rivers E, Nguyen B, Havstad S, et al. Early goal-directed therapy in the treatment of severe sepsis and septic shock. New England Journal of Medicine. 2001;345:1368–1377.Michard F, et al. Relation between Respiratory Changes in Arterial Pulse Pressure and Fluid Responsiveness in Septic Patients with Acute Circulatory Failure. Am J Respir Crit Care Med. 2000; Vol 162. pp 134–138 Michard F, Teboul JL. Predicting fluid responsiveness in ICU patients. A critical analysis of the evidence. Chest. 2002;121:2000-8. Michard F. Changes in arterial pressure during mechanical ventilation. Anesthesiology. 2005;103:419-28. De Backer D, Heenen S, Piagnerelli M, Koch M, Vincent JL. Pulse pressure variations to predict fluid responsiveness: influence of tidal volume. Intensive Care Med. 2005;31:517-23. Magder S. How to use central venous pressure measurements. Curr Opin Crit Care Med. 2005. 11:264-270 Magder S.Central venous pressure monitoring.Curr Opin Crit Care. 2006 Jun;12(3):219-27 Westphal GA, Silva E, Caldeira Filho M, Roman Gonçalves AR, Poli-de-Figueiredo LF Variation in amplitude of central venous pressure curve induced by respiration is a useful tool to reveal fluid responsiveness in postcardiac surgery patients.Shock. 2006 Aug;26(2):140-5 Feissel M, Teboul JL, Merlani P, Badie J, Faller JP, Bendjelid K. Plethysmographic dynamic indices predict fluid responsiveness in septic ventilated patients. Intensive Care Med. 2007 Jun;33(6):993-9. Epub 2007 Mar 29. Monnet X, Rienzo M, Osman D, Anguel N, Richard C, Pinsky MR, et al. Passive leg raising predicts fluid responsiveness in the critically ill. Crit Care Med. 2006;34:1402-7. 133 CAPÍTULO 14 DROGAS VASOATIVAS Introdução Os distúrbios hemodinâmicos podem desencadear um contingente de alterações que impedem a oferta de oxigênio celular em vários níveis. A associação de um débito cardíaco inadequado e uma distribuição irregular do fluxo sanguíneo regional pode contribuir para a alteração da função celular. Além disso, o fluxo sanguíneo microvascular e a capacidade de extração de oxigênio podem estar alterados por várias razões. A introdução de agentes vasoativos ao tratamento dos pacientes com sérios distúrbios perfusionais visa corrigir as alterações cardiovasculares, no intuito de restaurar a oferta de oxigênio e de nutrientes aos tecidos, reequilibrando essa oferta às demandas metabólicas. Embora existam bases teóricas e práticas para utilização desses compostos no contexto do choque, não existe na literatura qualquer estudo que tenha aferido o impacto dessa medida sobre a morbimortalidade desses pacientes. Todos os estudos clínicos envolvendo drogas vasoativas são, em geral, direcionados às alterações, em curto prazo, nas variáveis hemodinâmicas, ou mesmo, na perfusão orgânica. Esse capítulo procurará relatar e analisar criticamente os diversos estudos, tentando destacar o papel dos principais compostos na complexa inter-relação hemodinâmica e perfusional do paciente com síndrome do choque. Ao final, proporá uma utilização racional do uso desses agentes vasoativos. É mister pontuar, no entanto, que essa proposição, embora embasada nas evidências disponíveis, não se constitui uma regra geral, e cada paciente deve ser analisado no contexto de sua complexidade fisiopatológica. Efeitos sobre os diversos receptores A Tabela 1 sintetiza os principais efeitos dos agentes vasoativos sobre os receptores celulares, adrenérgicos e dopaminérgicos. Os agentes adrenérgicos atuam sobre receptores específicos, localizados na membrana celular que, uma vez estimulados, desencadeiam um processo bem conhecido de ativação da enzima adenilciclase, aumentando os níveis intracelulares de 3’5’adenosina-monofosfato (AMPc). O efeito final, ou resposta modulada, dependerá da localização e do tipo celular (miocárdio ou sistema vascular). Tabela 1 – Efeitos das diferentes catecolaminas sobre os diferentes receptores Receptor Catecolamina α β1 β2 DA1 DA2 Isoproterenol 0 ++ +++ 0 0 Dopamina 0-3 mcg/kg/min 2-10 mcg/kg/min > 10 mcg/kg/min 0/+ + ++ + ++ ++ + + + ++ ++ ++ ++ ++ ++ Dopexamina 0 + +++ + + Dobutamina + +++ ++ 0 0 Adrenalina +++ ++ +++ 0 0 Noradrenalina +++ ++ + 0 0 Fenilefrina +++ 0 0 0 0 Os receptores β1 se localizam, principalmente, no miocárdio, aumentando o inotropismo e o cronotropismo cardíaco. 134 Os receptores β2 são encontrados, entre outros, nos vasos sanguíneos (vasodilatação) e nas células adiposas (lipólise). É bastante conhecido o efeito termogênico desses agentes, principalmente da adrenalina, incrementando os níveis de glicose e de lactato. Esses receptores são também encontrados na musculatura lisa brônquica (relaxamento), nos pneumócitos tipo II (aumento da produção de surfactante) e nos mastócitos, reduzindo a produção de mediadores, como, por exemplo, fator de necrose tumoral-α (TNF-α) e interleucina-6 (IL-6). Atualmente, reconhecem-se os receptores β3 que parecem desenvolver importante papel na regulação da taxa metabólica e não têm sido detectados no pulmão. Eles são preferencialmente estimulados pela noradrenalina, seguida por adrenalina e isoproterenol, e seletivamente antagonizados pela molécula SR58894. Os mecanismos envolvidos na mediação dos efeitos β-agonistas estão agora razoavelmente bem estabelecidos. A ocupação de um receptor β por um agonista resulta em alterações conformacionais que levam à ativação da subunidade α da proteína-Gs. A ativação dessa subunidade, por sua vez, ativa a adenilciclase, a qual converte o ATP em AMPc, que é o segundo mensageiro da função dos receptores β. AMPc ativa a proteína kinase-C, que fosforila certas proteínas-chave, com conseqüente resposta celular característica. Por sua vez, os receptores α-adrenérgicos são subdividos em α1 e α2. Os receptores α1, localizados nos vasos sanguíneos, são responsáveis, quando estimulados, pela vasoconstrição. Já os receptores α2 propiciam a constrição dos vasos venosos de capacitância e inibem o feedback da noradrenalina, liberada nas fibras simpáticas. Finalmente, os receptores dopaminérgicos atuam no relaxamento da musculatura lisa vascular, esplâncnica e renal, diminuindo a recaptação tubular de sódio, promovendo natriurese. Catecolaminas As catecolaminas permanecem ainda como a principal opção no suporte hemodinâmico dos pacientes com síndrome do choque. Diferem, fundamentalmente, quanto à ação sobre a pressão arterial, débito cardíaco e redistribuição de fluxo, como mostra a figura 1. Atualmente, os estudos procuram discernir a melhor combinação de drogas no sentido de aumentar o débito cardíaco e redistribuir a oferta de oxigênio para áreas menos privilegiadas durante o estado de choque. Conhecendo esse perfil, pode-se, mais consistentemente, optar por uma ou outra droga, ou mesmo, a combinação delas. 135 Isoproterenol É uma catecolamina sintética similar com potente ação não seletiva nos receptores β- adrenérgicos. Age minimamente nos receptores -adrenérgicos. Atua quase que seletivamente sobre receptores β-adrenérgicos, aumentando frequência cardíaca e contratilidade miocárdica. Considerando que a frequência cardíaca e a contratilidade miocárdica aumentam, o consumo miocárdico de oxigênio se eleva paralelamente. Por sua atividade sobre receptores β2, produz vasodilatação arterial, reduzindo a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial diastólica. O efeito resultante dessas propriedades farmacológicas é o aumento do débito cardíaco em pacientes normovolêmicos. Pode-se não observar queda da pressão arterial em virtude da compensação pelo aumento do débito cardíaco. Diminui a pressão na artéria pulmonar e relaxa a musculaturalisa brônquica, produzindo broncodilatação. A dose inicial é de 0,01 mcg/kg/min e deve ser ajustada pelo efeito hemodinâmico desejado. A freqüência cardíaca e a pressão arterial devem ser monitoradas cuidadosamente. A ação nos receptores β-adrenérgicos do miocárdio pelo isoproterenol aumenta o risco de taquicardia excessiva, taquiarritmias e isquemia. Desta maneira, seu uso é restrito a poucas situações. O principal uso do isoproterenol, atualmente, é no pós-operatório de transplante cardíaco, em que o débito cardíaco pode ser dependente da freqüência cardíaca e não existe a inervação normal do enxerto. Em situações de normovolemia, de pressão arterial regularizada (mesmo que com vasopressores) e quando o débito cardíaco está baixo associado à bradicardia e hipertensão arterial pulmonar, o isoproterenol pode ser utilizado. Efeitos colaterais do uso do isoproterenol incluem palpitações, cefaleia, rubor e, raramente, bradicardia paradoxal. Dobutamina Isoproterenol (Iso) Dopexamina (Dopex) Dobutamina (Dob) Dopamina (Dopa) Adrenalina (Adre) Noradrenalina (NA) Fenilefrina (Fe) PRESSÃO ARTERIAL FLUXO Fe NA Dopa Adre Dob Dopex Iso Figura 1. Catecolaminas. Painel da esquerda: efeitos α e β adrenérgicos; painel da direita: efeitos na pressão arterial e no fluxo sanguíneo. Am J Respir Crit Care Med vol 183, 2011 136 É uma catecolamina sintética com especial afinidade sobre receptores β-adrenérgicos. No miocárdio, atua sobre receptores β1, promovendo inotropismo e cronotropismo positivos e, na parede vascular, sobre receptores β2, resultando em vasodilatação. A dobutamina é uma mistura racêmica de dois isômeros (negativo e positivo), em que o positivo atua sobre receptores β1 e β2, e o negativo sobre β1 e α1.O efeito balanceado sobre os receptores β2 e α1 resulta em pouca ação vasodilatadora deste fármaco. As alterações hemodinâmicas resultantes da infusão da dobutamina são: aumento da freqüência cardíaca e do índice cardíaco e diminuição da resistência vascular sistêmica. Dobutamina pode determinar hipotensão arterial em pacientes hipovolêmicos, em que o mecanismo compensatório de aumento do débito cardíaco não acontece, constituindo-se um sinal indireto de hipovolemia. A dose habitual para incrementar o débito cardíaco é de 2 a 20 mcg/kg/min. É o inotrópico de primeira escolha no choque cardiogênico com síndrome de baixo débito. Embora o incremento do débito cardíaco possa resultar em aumento da pressão arterial, em situações de choque cardiogênico com hipotensão arterial severa há necessidade de se associar uma droga vasopressora, habitualmente a noradrenalina é a mais utilizada. Cuidado importante com o uso das catecolaminas, em especial a dobutamina, é o aumento do consumo de oxigênio pelo miocárdio em decorrência do inotropismo e cronotropismo positivo. Desta maneira, o seu uso constitui risco de se aumentar a área isquêmica em pacientes com coronariopatia. A menor dose possível deve ser titulada para se evitar aumento da área isquêmica em doença coronariana aguda ou crônica. Utiliza-se dobutamina também em situações em que há débito cardíaco insuficiente – como na disfunção miocárdica da sepse, por exemplo. Os sinais que apontam débito cardíaco insuficiente, indicando a necessidade de dobutamina, incluem oligúria/disfunção renal, queda da SvO2 ( ou ScVO2) e aumento do lactato. O uso da dobutamina nesta situação visa aumentar o fluxo de sangue global aos tecidos, consequentemente aumento da oferta de oxigênio aos tecidos. Não há comprovação de melhora na distribuição de fluxo sanguíneo regional com o uso de dobutamina. Dopamina É o precursor imediato da noradrenalina (NA) na via biossintética das catecolaminas endógenas. Possui a propriedade de interagir com receptores dopaminérgicos e adrenérgicos. Os receptores dopaminérgicos são os primeiros a serem ativados, em dosagem inferior a 4 mcg/kg/min. Essa interação propicia vasodilatação dos leitos arteriais renal e esplâncnico. Em dose intermediária, de 5 a 10 mcg/kg/min, atua basicamente sobre receptores β- adrenérgicos, aumentando o débito cardíaco. Em doses superiores a 10 mcg/kg/min, atua sobre receptores α-adrenérgicos, proporcionando vasoconstrição arterial e venosa, aumentando a resistência arterial periférica, com conseqüente aumento da pressão arterial, da pressão venosa central e da pressão ocluída da artéria pulmonar. Os principais efeitos da infusão de dopamina são o aumento do débito cardíaco e da oferta de oxigênio aos tecidos. Outros importantes efeitos relatados: aumento da pressão arterial e da diurese. No entanto, os efeitos sobre perfusão renal são controversos (ver o tópico, nesse capítulo, sobre fluxo regional e drogas vasoativas) e não está indicado o uso de dopamina para aumentar fluxo esplâncnico. Dopexamina É uma catecolamina sintética, que atua, preferencialmente, em receptores dopaminérgicos, subtipo DA1, e β2-adrenérgicos. Além desses, tem fraca ligação com receptores β1 e DA2. 137 As principais alterações induzidas pela dopexamina são o aumento da freqüência cardíaca e do débito cardíaco (propriedade resultante da interação com os receptores citados e da diminuição da recaptação sináptica da noradrenalina), diminuição da resistência vascular sistêmica e vasodilatação renal e esplâncnica. A dose habitual de dopexamina é de 1 a 10 mcg/kg/min. Os estudos que examinaram os efeitos da dopexamina em pacientes graves (sépticos e cardiogênicos) mostraram que em pacientes com choque séptico poderia haver hipotensão arterial (ação agonista β2). Porém, por essa propriedade farmacológica, sua utilidade foi testada sobre as perfusões esplâncnica e renal. Colardyn et al. demonstraram que dopexamina aumenta o índice cardíaco combinado com queda da resistência vascular sistêmica. Houve moderada diminuição da pressão arterial sistêmica. Em um estudo de otimização perioperatória em pacientes cirúrgicos de alto risco, Boyd et al. relataram um aumento importante da DO2 e uma diminuição de mortalidade de 75%. Não é possível imputar à dopexamina esta redução da mortalidade. Apenas um estudo randomizado, com uma amostra importante de pacientes (talvez multicêntrico) possa responder essa questão. Smithies et al. relataram um aumento no pHi em dez pacientes sépticos refletindo melhora da perfusão da mucosa gástrica. Em pacientes com choque cardiogênico, aumenta o débito cardíaco e, algumas vezes, a pressão arterial. A grande limitação do uso da dopexamina é o aumento importante da freqüência cardíaca. Trata-se de uma droga alternativa à dobutamina em situações de disfunção de receptores β (choques cardiogênico e séptico). Adrenalina Trata-se de uma catecolamina endógena, em humanos, sintetizada, armazenada e liberada por células da medula adrenal. Sua ação é dose-dependente, com potente ação sobre os receptores e adrenérgicos. Em baixas doses (0,005 a 0,02 mcg/kg/min), estimula, predominantemente, os receptores β- adrenérgicos, isto é, provoca aumento do débito cardíaco e vasodilatação periférica. A resultante é a melhora da perfusão tecidual e o alargamento da pressão de pulso. Em doses maiores, a ação é predominantemente em receptores α, aumentando a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial, com efeitos variáveis sobre o débito cardíaco. Em geral, é tratada como agente de segunda escolha em situações de choque isovolêmico resistente à dopamina e/ou dobutamina. Nesses pacientes, a infusão de adrenalina, apesar de aumentar a pressão arterial e o débito cardíaco, pode elevar os níveis de lactato, em virtude do seu efeito metabólico e/ou sobre a oxigenação tecidual. Mais recentemente, algunsautores relataram prováveis efeitos deletérios da adrenalina sobre a perfusão e oxigenação esplâncnica. Esses estudos mostraram que a adrenalina diminui o pH intramucoso gástrico. Annane e cols (2007), em elegante estudo, demonstraram que no tratamento do choque séptico ao comparar grupo de pacientes que receberam a associação de noradrenalina e dobutamina e de pacientes que receberam adrenalina apenas, não encontraram diferença de mortalidade. No entanto a adrenalina não é primeiro agente de escolha no tratamento do choque séptico pelos seus possíveis efeitos colaterais metabólicos e redução na perfusão esplâncnica. As indicações mais frequentes da adrenalina continuam a ser a parada cardiorrespiratória e, como segunda linha, em estados de choque com objetivo de incremento de débito cardíaco e pressão arterial. Noradrenalina 138 É o mais potente vasopressor administrado exogenamente, aumentando a resistência vascular periférica e a pressão de perfusão em situações de vasoplegia (sepse, por exemplo), devido ao seu forte efeito α1-adrenérgico. Noradrenalina (NA) aumenta a contratilidade miocárdica, via estimulação dos receptores β1 e α. Sua utilização, especialmente no contexto do choque séptico, poderia ser justificada por essas propriedades farmacológicas. Na maioria dos estudos envolvendo pacientes sépticos, NA foi administrada após a falência de outros vasopressores, como dopamina ou combinação de dopamina com dobutamina, para melhorar o status hemodinâmico. Em geral, a dose de NA foi tateada segundo os valores hemodinâmicos prévios. Os principais resultados desses estudos foram: significante aumento da pressão arterial, aumento ou não do índice cardíaco e manutenção da pressão da artéria pulmonar ocluída. Pode ser utilizada em outras situações de instabilidade hemodinâmica, como na fase de ressuscitação do choque hipovolêmico e na hipotensão arterial induzida por choque cardiogênico ou anafilático. Nos pacientes com choque cardiogênico, é imprescindível a associação com inotrópico positivo. A dose habitual de NA varia entre 0,1 a 1 mcg/kg/min. Porém, não há um limite intransponível. Como todas as drogas vasoativas, esse limite é o surgimento de efeitos colaterais. Estudos tem comparado o uso de dopamina e noradrenalina como vasopressores no choque. Embora não exista comprovação sólida de redução na mortalidade, a noradrenalina é atualmente o vasopressor de primeira escolha no choque em geral pelo seu menor potencial de causar arritmias cardíacas, De Backer e cols (2010). Especificamente no choque séptico, metanálise recente mostrou redução na mortalidade e no número de arritmias com o uso de noradrenalina em comparação com dopamina, Vasu TS e cols (2011). Para a próxima versão da Surviving Sepsis Campaign a noradrenalina deverá ser o vasopressor de primeira escolha no choque séptico, diferentemente da última versão de 2008 que coloca dopamina e noradrenalina com o mesmo nível de recomendação. Fenilefrina É uma catecolamina sintética que atua quase que exclusivamente em receptores α, aumentando a pressão arterial por vasoconstricção. Baixo potencial para induzir taquicardia, tem início de ação rápido e curta duração. Sua utilização clínica, em pacientes com choque, é restrita a alguns centros há escassos estudos clínicos com esta droga. Em estudo piloto com pacientes sépticos comparando noradrenalina e fenilefrina as variáveis hemodinâmicas sistêmicas não tiveram diferença. Mas os índices de perfusão hepatoesplancnico e de função renal foram piores com a fenilefrina. Outro estudo com pacientes com sepse comparando as duas drogas não houve diferença nos índices de perfusão esplâncnica ou renal. Devido à escassez de estudos o uso da fenilefrina é limitado. Poderá ter utilidade em situações de vasodilatação sistêmica, como no choque neurogênico ou após circulação extracorpórea. A dose habitual da fenilefrina varia entre 0,2 a 0,9 mcg/kg/min. Inibidores da fosfodiesterase Aumentam a contratilidade miocárdica e o débito cardíaco com pequeno aumento (3% a 5%) no consumo de oxigênio e na taxa metabólica. Possuem uma conhecida ação vasodilatadora, diminuindo a resistência vascular sistêmica e pulmonar, com conseqüente, hipotensão arterial e pulmonar respectivamente. Assim, a infusão dos inibidores da fosfodiesterase constitui uma alternativa para aumentar o transporte de oxigênio, ou mesmo, adicional aos β-adrenérgicos, quando estes são ineficazes ou apresentam efeitos secundários indesejáveis, especialmente em situações de insuficiência cardíaca predominantemente direita e falha com uso de dobutamina. 139 Dois inibidores da fosfodiesterase, amrinona e milrinona são os disponíveis no mercado, embora o segundo é o mais utilizado. Essas drogas aumentam as concentrações intracelulares de AMPc, sem ligação agonista com receptores β-adrenérgicos, com ação farmacológica dependente da atividade da proteína kinase. A despeito dos efeitos benéficos cardiovasculares, amrinona, em uso prolongado, está associada a uma incidência de 3% de trombocitopenia, em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, e é instável em algumas soluções. A dose de ataque da amrinona é de 0,75 a 3 mg/kg, seguida de uma dose de manutenção de 4 a 10 mg/kg/min. Milrinona tem uma incidência desprezível de trombocitopenia e é estável em todas as soluções IV padrões. A dose de ataque da milrinona é de 50 mcg/kg e de 0,375 a 0,75 mcg/kg/min, respectivamente, respeitando-se uma dose total de 1,13 mg/kg. A meia-vida é longa, em relação à dobutamina, e seus metabólitos são de excreção renal, portanto deve ser corrigido para a função renal. No choque cardiogênico a milrinona é considerada apenas quando outros agentes inotrópitos mostrarem-se ineficazes devido à sua meia-vida elevada e o risco de piorar hipotensão arterial. Levosimendan Levosimendan é um novo agente inotrópico positivo com propriedades vasodilatadoras. O efeito inotrópico é mediado por alterações conformacionais na troponina C tornando-a mais sensível ao cálcio. Em outras palavras, o aparato contrátil apresenta maior eficácia às mesmas concentrações intracelulares de cálcio. Já o efeito vasodilatador é mediado pela abertura de canais de potássio na musculatura lisa vascular. O perfil farmacocinético deste composto é bastante complexo, uma vez que possui um metabólito que permanece ativo por uma semana, explicando, possivelmente, seus efeitos hemodinâmicos, além do período de infusão. Outra característica importante do levosimendan, principalmente no contexto da insuficiência cardíaca grave, é que seu efeito não é atenuado pelo uso concomitante de β-bloqueadores, pelo contrário, há evidência de otimização do seu efeito com uso destes medicamentos. Do ponto de vista hemodinâmico, promove aumento do débito cardíaco secundário ao efeito inotrópico positivo. Diferentemente de outros inotrópicos, não tem ação sobre o relaxamento diastólico, pois seu efeito é cálcio-dependente. Além disso, promove a redução das pressões de enchimento (PVC e PAPO) por suas propriedades vasodilatadoras. Comparativamente à dobutamina, essa redução é mais significativa. Ao combinar os efeitos de vasodilatação e não interferir negativamente no período diastólico,produz aumento do fluxo coronariano (propriedade anti-isquêmica). Sua principal indicação é a insuficiência cardíaca aguda (ou crônica agudizada) grave. Três grandes estudos com levosimendan demonstraram a segurança e a eficácia da droga em pacientes que tiveram infarto agudo do miocárdio recente e evoluíram com insuficiência cardíaca. Levosimendan foi aprovado para uso intravenoso (frasco de 5 ml contém 12,5 mg de levosimendan) no Brasil e na Europa. A dose e a duraçãodo tratamento devem ser individualizadas de acordo com a condição clínica do paciente. O tratamento deve ser iniciado em dose de ataque de 12 mcg/kg, infundidos em 10 minutos, seguidos por uma infusão EV contínua de 0,1 mcg/kg/min. A dose pode ser titulada até 0,2 mcg/kg/min. A duração da infusão não deve ultrapassar 24 horas. Não deve ser utilizada em pacientes hipotensos. Vasopressina É um hormônio sintetizado no hipotálamo, transportado e armazenado na hipófise. Seus principais efeitos são: antidiurético e vasoconstrictor. É liberado em resposta à elevação da osmolaridade plasmática, hipovolemia grave e/ou hipotensão. Provoca vasoconstrição pela 140 interação com receptores V1 presentes na musculatura lisa vascular e exerce seu efeito antidiurético pela ativação de receptores V2 presentes nos ductos coletores renais, aumentando a absorção de água livre. Em baixas concentrações, promove vasodilatação coronariana, cerebral e da circulação pulmonar. A vasopressina vem sendo utilizada na prática clínica há mais de cinco décadas, principalmente no tratamento da hemorragia de varizes esofágicas e dos diabetes insipidus. Estudos experimentais e clínicos mais recentes têm demonstrado benefícios com o uso de vasopressina durante a parada cardíaca e no período pós-ressuscitação, melhorando, mais que a adrenalina, o fluxo para órgãos vitais e cérebro na fibrilação ventricular resistente à desfibrilação. A vasopressina tem sido utilizada com boas perspectivas no controle da hipotensão por vasodilatação generalizada após circulação extracorpórea e no choque séptico. Hipotensão essa secundária a baixos níveis de vasopressina, lesão endotelial difusa, liberação de mediadores inflamatórios e ativação dos canais de potássio ativados por ATP na musculatura vascular lisa. Baixas doses de vasopressina estão associadas à redução da dose de outras drogas vasoativas e são geralmente suficientes para aumentar a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial, sem alterar o débito cardíaco. Uma ação potencialmente benéfica da vasopressina é a constrição seletiva das arteríolas glomerulares eferentes, mantendo a filtração glomerular, mesmo quando há uma redução global no fluxo sanguíneo renal, enquanto a maioria das aminas vasoativas contrai ambas arteríolas aferentes e eferentes, com conseqüente redução da filtração glomerular. Nos pacientes com choque séptico ocorre depleção dos estoques de vasopressina na hipófise, pela liberação intensa nas fases iniciais do choque, disfunção autonômica, elevação sérica dos níveis de noradrenalina com efeito inibitório central na liberação de vasopressina e aumento da produção de óxido nítrico endotelial na hipófise posterior, também reduzindo a liberação da vasopressina. Pacientes com choque séptico são muito sensíveis à infusão de baixas doses de vasopressina, pois sua ação vasoconstritora ocorre independentemente de receptores adrenérgicos, freqüentemente deprimidos pela sepse. Ainda, a vasopressina aumenta a sensibilidade vascular a outros agentes vasopressores e incrementa a liberação do cortisol, cujos níveis séricos podem estar comprometidos por insuficiência adrenal absoluta ou relativa na sepse. Há vários estudos clínicos considerando a infusão de vasopressina em pacientes com choque séptico. A maioria dos estudos mostrou que a infusão de vasopressina eleva a pressão arterial e diminui as necessidades de noradrenalina. Por todos estes motivos, no choque vasoplégico refratário a vasopressores adrenérgicos, a infusão de vasopressina em associação a outro vasopressor parece ser promissora no restabelecimento da perfusão tecidual, devendo ser devidamente avaliada em estudos multicêntricos prospectivos. No choque séptico, a adição de baixas doses (0,01-0,04 U/min) de vasopressina à noradrenalina pode aumentar a pressão arterial e reduzir a necessidade desta catecolamina, notadamente quando se inicia a vasopressina quando as doses de noradrenalina não muito altas (5-14 g/min). Doses mais altas de vasopressina não são recomendadas pelo risco de comprometer a perfusão em território esplâncnico, vasoconstricção coronariana e sistêmica, redução do débito cardíaco e hiponatremia. Prostaglandinas Estudos em animais e em humanos provêm considerável evidência de que as prostaglandinas, com propriedades vasodilatadoras (PGI2 e PGE1), podem ter efeitos benéficos sobre a perfusão tecidual na síndrome da angústia respiratória aguda (SARA), sepse e choque séptico. Esses efeitos incluem vasodilatação pulmonar, aumento do número de capilares perfundidos, manutenção do fluxo sanguíneo para região esplâncnica, inibição da agregação plaquetária, da ativação de neutrófilos e de macrófagos. 141 Esses fármacos possuem a propriedade de aumentar a capacidade de extração de oxigênio pelas células, constituindo-se alternativa em pacientes com débito cardíaco otimizado, porém com níveis elevados de lactato e/ou com pCO2-gap alargado (tonometria gástrica). Em pacientes sépticos, PGI2 significativamente aumenta o VO2 e o fluxo microvascular cutâneo. Bihari et al encontraram substancial aumento da DO2 após infusão de PGI2 e maior VO2 em pacientes não-sobreviventes, revelando, talvez, áreas com déficit de oxigênio. Recentes estudos mostraram que PGI2 aumenta o pHi gástrico em pacientes sépticos. Em pacientes com isquemia-reperfusão – pós-choque cardiogênico ou clampeamento de aorta – podem apresentar importantes alterações na capacidade de extração de oxigênio, sendo, provavelmente, útil também nessas situações. Pacientes com insuficiência hepática fulminante parecem também se beneficiar da infusão de prostaglandinas. Cabe, no entanto, ressaltar que as evidências disponíveis nessas situações são ainda fracas, não autorizando seu uso clínico rotineiro. Fluxo regional e drogas vasoativas Quando se intenciona utilizar drogas vasoativas, no contexto das síndromes do choque, algumas premissas devem estar bem contempladas: - efeito a ser alcançado (débito cardíaco versus pressão arterial, por exemplo); - efeito sobre o metabolismo celular (aumento da oferta de oxigênio versus efeito calorigênico, por exemplo); - efeitos sistêmico e regional (eleva o débito cardíaco, porém diminui a perfusão orgânica em particular – direcionamento de fluxo). Assim, alguns compostos podem elevar as variáveis sistêmicas como débito cardíaco e oferta de oxigênio e, paradoxalmente, diminuem a perfusão esplâncnica ou renal. Dois exemplos auxiliam o entendimento dessa questão. A infusão de dopamina pode elevar o débito cardíaco e a oferta de oxigênio. Pode ainda elevar a pressão arterial. No entanto, seus efeitos sobre perfusão renal e esplâncnica não são direta e sistematicamente favoráveis. Em comparação à NA, especialmente em sépticos, essa última pode ter um perfil mais adequado para esses dois leitos vasculares (particularmente em pacientes extremamente vasoplégicos). Outro exemplo é a infusão de adrenalina que pode, da mesma forma, otimizar as variáveis sistêmicas, mas desviando o fluxo da região esplâncnica (não de forma sistemática). Assim, devemos sempre interpretar os efeitos hemodinâmicos da infusão de qualquer droga vasoativa, observando as variáveis sistêmica e regional que traduzem perfusão tecidual, e a verdadeira necessidade de uso de uma droga vasoativa quando as essas variáveis de oxigenação tecidual encontram-se adequadas. Parâmetros de avaliação da eficácia das drogas vasoativas Como todo o tratamento instituído, a administração de drogas vasoativas deve seguir um racional que envolve uma metodologia de administração com concomitante análise de resultados. De forma análoga à ventilação mecânica, deve-se planejar o momento de suspendertais compostos a partir do instante que se começa a infusão dos mesmos. Existem parâmetros clássicos que norteiam a administração desses agentes, e podemos, didaticamente, dividi-los em hemodinâmicos e metabólicos (Tabela 2). Tabela 2 – Parâmetros hemodinâmicos: volemia, pressão arterial e débito cardíaco Volemia • Podemos dispor do cateter de Swan-Ganz, que permite aferir a pressão ocluída da artéria pulmonar (PAPO) • Admite-se como ideal (exceto em pacientes com lesão pulmonar grave) 142 um valor máximo que, a partir de então, não exista incremento adicional no débito cardíaco • Existe importante relação entre PAPO e drogas vasoativas • Como regra, vasopressores (dopamina, NA e adrenalina) aumentam a PAPO, através da venoconstrição pulmonar. Assim, podemos encontrar uma PAPO “normal” durante a administração de drogas vasoativas, sem que isso represente normovolemia Pressão arterial • É o grande determinante junto ao débito cardíaco da perfusão tecidual • A manutenção de uma pressão arterial média acima de 65 mmHg garante, na maioria das vezes, adequada pressão de perfusão • Em pacientes idosos e hipertensos, esse valor pode ser maior para garantir adequado débito urinário e normalização de um possível envolvimento neurológico (torpor) • Para se alcançar uma pressão arterial média adequada devemos, sempre, restaurar a volemia e, não sendo suficiente, lançar mão de vasopressores • Noradrenalina parece ser a primeira escolha, segunda a dopamina. Adrenalina parece deteriorar a perfusão tecidual em pacientes sépticos • Vasopressina (baixa dose e infusão contínua) pode ser associada à noradrenalina em casos selecionados Débito cardíaco • Deve ser otimizado para garantir oferta de oxigênio adequada aos tecidos • Não existe nenhuma sustentação para valores pré-estabelecidos para o débito cardíaco • Enquanto existir sinais de hipoperfusão tecidual, sistêmica ou regional, deve-se aumentar o débito cardíaco • A melhor droga para esse fim, tanto do ponto de vista sistêmico, quanto regional, é a dobutamina • Aumento indiscriminado do débito cardíaco, sem um racional fisiológico, pode aumentar a mortalidade desses pacientes Parâmetros metabólicos: DO2, VO2 e saturação venosa mista de O2 (SvO2), lactato e PgCO2 ou pHi O2 • Durante a fase de ressuscitação, o consumo de oxigênio pode traduzir, de certa forma, a demanda metabólica. • Enquanto se otimiza os parâmetros hemodinâmicos, como pressão e débito cardíaco, o VO2 pode ser um guia. • Quando o VO2 aumenta, após cada uma das manobras terapêuticas, pode- se afirmar que há déficit de oxigênio. Diz-se que a VO2 é dependente do DO2. • O aumento da oferta, sem aumento concomitante do consumo, traduz, sistemicamente, que não se deve aumentar mais a oferta. • Uma maneira simples de verificar o consumo, sem entrar nas limitações da utilização da equação de Fick, é utilizar a relação índice cardíaco/taxa de extração de oxigênio (ver “Débito Cardíaco”). SvO2 • Utilizada como primeiro parâmetro de oxigenação sistêmica, que reflete a adequação do DC. • Deve-se manter a SvO2 (ou ScVO2)> 65%, em pacientes com SaO2 > 90% e Hb > 8 g/dl, comprovadamente na fase aguda do choque. Pertinente considerar que o paciente portador de insuficiência cardíaca crônica está adaptado a situações de baixo fluxo. O alvo de SvO2 ou ScVO2 deverá ser individualizado caso a caso. Lactato • Mesmo considerando que nem sempre hiperlactatemia (especialmente na sepse) traduz disóxia tecidual, pode-se utilizar o lactato como marcador 143 metabólico de “gravidade”. • A diminuição progressiva dos níveis de lactato significa, de um lado, boa oxigenação tecidual e, de outro, diminuição da atividade metabólica e boa depuração hepática. • Mesmo em fases avançadas do choque séptico, o lactato pode estar normal concomitante à disfunção de múltiplos órgãos. pCO2 da mucosa gástrica (PgCO2) • É o único parâmetro clínico que pode revelar hipoperfusão regional na vigência de parâmetros sistêmicos normais. Não é utilizado na clínica. • Quando um paciente mantiver uma diferença entre a PgCO2 e a PaCO2 maior que 10 mmHg, pode-se otimizar o fluxo para mucosa gástrica. Alternativamente pode-se utilizar o gradiente sistêmico veno-arterial de PCO2 para auxiliar na otimização de fluxo, tanto através da infusão de fluidos quanto de inotrópicos. • Dobutamina é a droga de escolha nestes casos. Impacto sobre mortalidade e disfunção de múltiplos órgãos em pacientes com choque A otimização da pressão arterial média não alterou de maneira uniforme a taxa de mortalidade. A existência da dependência patológica entre oferta e consumo de oxigênio em pacientes críticos permanece controversa e é debatida freqüentemente. Dessa forma, a otimização dos parâmetros de oferta e de consumo de oxigênio torna-se uma medida terapêutica que não encontra fortes evidências na literatura. A avaliação cuidadosa da verdadeira relação risco-benefício que possibilite a determinação do agente vasoativo ótimo permanece um desafio para os pesquisadores e clínicos que convivem com pacientes graves. Rudis et al. conduziram uma cuidadosa revisão sistemática da literatura sobre o uso de vasopressores e inotrópicos em pacientes sépticos com respeito à escolha de agentes, efeitos alcançados, dose e segurança. Eles concluíram que não existem recomendações definitivas que apontem a superioridade de um agente vasoativo uma vez que poucos estudos comparativos estão disponíveis. A utilização correta de drogas vasoativas é um desafio constante. Muitos pesquisadores desistiram de investigá-las ou diminuíram a intensidade de seus esforços no sentido de mostrar os virtuais benefícios desses compostos no restabelecimento da hemodinâmica do paciente com choque, embora ainda existam estudos em andamento na tentativa de adequar as indicações específicas. Procurar as melhores evidências, ou em outras palavras, seu uso racional, resulta em uma revisão metodológica de nossa prática clínica, bem como, em nossas pesquisas. A busca da restauração de parâmetros fisiológicos aqui discutidos parece ainda ser o objetivo terapêutico mais adequado. Bibliografia: Hollenberg SM. Vasoactive drugs in circulatory shock. Am J Respir Crit Care Med vol 183. pp 847-855, 2011. Givertz MM, Fang JC. Approach to the patient with hypotension and hemodynamic instability. In: Irwin and Rippe`s Intensive Care Medicine. 7th edition, 2011. Silva E. Uso racional de drogas vasoativas. In: Drummond JP, Silva E. Choque. Artes Médicas, São Paulo, pp. 121-38, 1996. Silva E, Fernandes CJ, et al. Drogas vasoativas. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. São Paulo, Atheneu, pp. 123-142, 2006. Rudis MI, Basha MA, Zarowitz BJ. Is it time to reposition vasopressors and inotropes in sepsis? Crit Care Med 24:525, 1996. 144 Silva E, Andrade J, Dias F. Uso de drogas vasoativas no paciente séptico. In: Sepse – clínicas brasileiras de terapia intensiva. Atheneu, São Paulo, 1999. Silva E, De Backer D, Creteur J, Vincent JL. Effects of vasoactive drugs on gastric mucosal pH. Crit Care Med 26:1749-58, 1998. Zaristsky AL. Cathecolamines, inotropic medications, and vasopressor agents. In: Chernow B. Essentials of critical care pharmacology. Baltimore: Williams & Wilkims, p. 255, 1994. 145 CAPÍTULO 15 METAS DO TRATAMENTO DO CHOQUE Introdução A terapêutica dos estados de choque é guiada por algumas premissas importantes: - Estabilização dos parâmetros hemodinâmicos e de oxigenaçãotecidual em tempo ideal guiado por metas a fim de diminuir disfunção orgânica, reverter danos iniciais e melhorar prognóstico. - Tratamento da causa de base. - Prevenção e/ou tratamento das disfunções orgânicas secundárias. Estabilização dos parâmetros hemodinâmicos e de oxigenação tecidual Volemia – infusão de líquidos Independente do tipo de choque, a intervenção inicial a ser considerada deve ser a reposição volêmica, devendo-se sempre interpretar a condição de volemia atual, à luz dos dados clínicos e hemodinâmicos disponíveis. Quanto maior o aparato tecnológico e mais adequada sua interpretação, mais correta será a determinação da condição volêmica e mais precisa será sua reposição. Antes de discutirmos reposição volêmica propriamente, cabem algumas observações sobre as opções de fluidos a serem utilizados: 1. A preocupação inicial não deve se voltar ao tipo de solução a ser infundida, mas sim à quantidade de líquido que o paciente necessita. 2. Metanálises recentes contrariam algumas expectativas em relação ao uso de albumina. A utilização desta em pacientes graves pode estar relacionada a aumento de mortalidade e, em pacientes sépticos, a aumento da pressão oncótica intersticial. 3. A infusão de cristalóides, apesar de acarretar deslocamento de parte importante do líquido administrado para o espaço intersticial, permanece como a opção mais barata, de mais fácil acesso, com menos contra-indicações e resultados semelhantes aos colóides. A reposição de fluidos deve obedecer aos seguintes princípios: 1. Tipo de fluido: Cristalóide 2. Tempo de infusão: curto 3. Definição de meta: mensurável e a curto prazo – 6horas 4. Protocolo de segurança: Definição de limites Alguns parâmetros clínicos e hemodinâmicos podem auxiliar no cálculo do volume adequado, a fim de garantir que a reposição seja feita da forma mais próxima do ideal e menos iatrogênica. Aliteratura mostra queé possível atingir metas de perfusão tecidual de o paciente estiver monitorizado apenas com um cateter venoso central (PVC e ScO2) e lactato arterial, entretanto, quanto melhor monitorizado o paciente estiver, mais dados poderão ser levados em consideração, são eles: 1. PA, FC, diurese – Monitorização multiparamétrica 2. PVC e deltaPVC - CVC 3. POAP x DC – Cateter de Arteria pulmonar 4. deltaPP – PA invasiva 5. Colapsabilidade VCS / distensibilidade VCI – Eco hemodinâmico 6. VO2, ScO2 e lactato – gasometria arterial e venosa 6. pCO2-gap - gasometria arterial e venosa 146 Tabela 2 – Parâmetros indicadores de restauração adequada de volemia durante ressuscitação hídrica Diminuição da FC, aumento da PAM e da diurese Aumento da PVC e da PAPO Aumento concomitante da PAPO e do DC. Quando o aumento da PAPO não proporciona aumento adicional do DC, deve-se interromper a infusão de líquidos Aumento do VO2. Quando este não aumenta mais, temos um bom indicador para interromper a infusão de líquidos Manter SvO2 acima de 65% Manter ScO2 acima de 70% nas fases precoces Diminuição dos níveis séricos de lactato Queda do gradiente entre PvCO2 e PaCO2 Uso de drogas vasoativas Quando a reposição volêmica, isoladamente, não é capaz de restaurar a pressão arterial e/ou débito cardíaco, está indicado o uso de drogas vasoativas, a fim de manter PAM acima de 65 mmHg (vasopressores) e débito cardíaco suficiente para SvO2 acima de 65%, considerando- se hemoglobina acima de 10 g/dl (inotrópicos). Embora existam várias controvérsias sobre o uso de drogas vasoativas, algumas evidências indicam o uso racional desses compostos, de acordo com a indicação: - Vasopressores: utilizados para aumentar PAM através da elevação da resistência vascular periférica, quando a meta de PAM acima de 65mmHg não for estabelecida com reposição volêmica, mesmo após PVC acima de 12mmHg e ScO2 acima de 70%. Os principais vasopressores utilizador na prática clínica são: dopamina, noradrenalina, adrenalina e fenilefrina. A diferença entre eles está no perfil de interação com receptores alfa e beta. - A bibliografia médica é pouco esclarecedora em relação à droga ideal. No entanto, algumas evidências indicam que dopamina e noradrenalina são as mais seguras e eficazes no tratamento da hipotensão arterial em pacientes com choque que não responderam à restauração da volemia. Poucas diferenças podem nortear a utilização de uma ou outra, de acordo com a situação clínica. - A necessidade de associação de vasopressores à dobutamina, pode determinar a escolha de um agente diferente para um determinado paciente, uma vez que dopamina aumenta, de forma mais importante, a FC e pode induzir mais arritmias e noradrenalina pode ocasionar diminuição do DC (efeito inotrópico negativo). - Dois dogmas devem ser esquecidos: dopamina em dose dopaminérgica não melhora a função renal especialmente em pacientes sépticos e noradrenalina, principalmente no choque séptico, não deteriora a perfusão esplâncnica e renal, podendo até otimizá-las. - Todo o paciente com choque deve ter adequadamente restaurada sua volemia. Admite-se como tal a elevação da PAPO até se atingir um plateau em relação ao débito cardíaco. Consider a pressão oncótica do paciente e a possibilidade de lesão pulmonar na determinação da PAPO. - Com a volemia adequada, avaliar débito cardíaco, pressão arterial, saturação venosa mista de oxigênio e lactato. Classificar, então, o paciente como hiperdinâmico 147 ou hipodinâmico, e com pressão de perfusão normal ou baixa. - Dobutamina: agente de escolha para aumentar o DC, especialmente em pacientes com má perfusão periférica, que mantém ScO2 abaixo de 70% após a volemia restabelecida e Hb> 10mg/dL. A dose habitual efetiva é de 5 mcg/kg/min. Deve-se titular a dose de acordo com o objetivo a ser atingido. Variáveis que devem ser monitoradas durante a infusão de dobutamina FC e ECG contínuo PAM e diurese DC e SvO2 Lactato arterial Gradiente PvCO2-PaCO2 Dessa forma, uma vez otimizada a volemia e na presença de disfunção orgânica, podemos abordar a indicação de droga vasoativa de acordo com as seguintes recomendações (Figura 1): Figura 1 – Uso racional de drogas vasoativas nas síndromes do choque. Desta forma podemos estabelecer as seguintes condutas: - Paciente hiperdinâmico (DC e SvO2 altos) e com pressão arterial normal (pressão de perfusão): avaliar a evolução do lactato ao longo do tempo. Lactato com tendência a queda ou normal, manter reposição de líquidos, sem uso de drogas vasoativas (alternativamente verificar PgCO2). - Paciente hiperdinâmico (DC e SvO2 altos) e com pressão arterial média baixa, inferior a 65 mmHg (baixa pressão de perfusão): iniciar vasopressor. A escolha da NA como vasopressor nesses casos baseia-se em estudos sobre perfusão renal e esplâncnica. - Paciente hipodinâmico (DC e SvO2 baixos) e com pressão arterial normal: iniciar dobutamina. Doses crescentes de 2,5, 5 e 10 mcg/kg/min até atingir um DC adequado, com SvO2 e lactato normais (alternativamente verificar PgCO2). - Paciente hipodinâmico (DC e SvO2 baixos) e com pressão arterial baixa: iniciar dobutamina associada à noradrenalina. São os casos de pior prognóstico. - Em todos os casos em que o débito cardíaco (fluxo) foi restaurado e os índices de perfusão orgânica estão dentro do limite da normalidade, porém há evidências de hipóxia tecidual, considerar drogas que melhorem a captação de oxigênio pelos tecidos, como a prostaciclina e N-acetilcisteína. Ainda sem recomendação classe I pela literatura. Clearance de Lactato O Clearance de lactato é um parâmetroque tem se mostrado um fator preditivo isolado de mortalidade hospitalar em estudos recentes, e pode ser colocado como meta para tratamento do choque futuramente. A redução do lactato sérico em mais de 10% em 6 horas demonstrou ser tão eficaz em predizer mortalidade quanto atingir a meta de 70% de ScO2. Tratamento da causa de base 148 O tratamento da causa de base é colocado como segundo item não por razões didáticas e sim pela lógica do tratamento desses pacientes. Na imensa maioria dos pacientes, a estabilização dos parâmetros hemodinâmicos e de oxigenação tecidual precedem ou são concomitantes ao tratamento da causa de base. Nesse tópico, apenas descreveremos as intervenções clássicas, baseadas em evidências para os principais tipos de choque. Choque cardiogênico Uma vez que sua principal causa é o infarto agudo do miocárdio, as intervenções terapêuticas que aumentam a sobrevida desses pacientes, como reperfusão precoce (trombólise ou angioplastia), anticoagulação e antiagregação, devem ser iniciadas. Uma vez instituído o choque cardiogênico, qualquer que seja a etiologia, o suporte hemodinâmico é indicado e pode ser mecânico (balão intra-aórtico) ou farmacológico (inotrópicos). Outras causas de deterioração aguda da função miocárdica passíveis de tratamento incluem as complicações mecânicas (insuficiência mitral, tamponamento cardíaco e ruptura de parede do VE), além das arritmias, que devem ser prontamente diagnosticadas e tratadas a fim de melhorar o prognóstico do doente. A taxa de mortalidade é elevada. Choque hipovolêmico A principal evidência aponta para reposição volêmica agressiva nas primeiras horas – medida fundamental para evolução favorável desses pacientes (profilaxia de disfunções orgânicas secundárias). Intervenções cirúrgicas se impõem em alguns casos (hemostasia). O uso de soluções hipertônicas vem ganhando notoriedade em algumas situações, mas não atingiu nível de evidência I. Aquecer o paciente também é medida a ser considerada. Choque séptico As três intervenções terapêuticas que alteram mortalidade são: resolução do foco infeccioso - antibioticoterapia/drenagem de coleções; suporte hemodinâmico e de oxigenação tecidual; aporte nutricional adequado. Deve-se considerar ainda controle glicêmico, uso de corticóide no choque refratário e ventilação protetora. Prevenção e/ou tratamento das disfunções orgânicas secundárias O ponto fundamental da prevenção de disfunções orgânicas é a ressuscitação hemodinâmica precoce e adequada. Nos casos de choque séptico, é fundamental também a instituição de antibioticoterapia adequada, já no início do quadro. Reforça-se o conceito de que não se pode prescindir de adequada reposição volêmica. Essa intervenção é mais importante, no início da terapêutica, que a instituição de drogas vasoativas, por exemplo. Uma vez realizado o diagnóstico precoce e instituída a terapêutica adequada, pode-se evitar o desenvolvimento de disfunções orgânicas. Muitos pacientes desenvolvem disfunções orgânicas como complicação do estado de choque prévio, que podem acometer simultaneamente vários órgãos ou sistemas, como SNC, pulmões, sistema cardiovascular, rins e sistema digestivo, caracterizando a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos, com elevada taxa de mortalidade. O tratamento específico de cada uma dessas disfunções é tema para várias páginas de dissertação e engloba uma abordagem multidisciplinar que foge do escopo desse capítulo. Considerações Finais Tão importante quanto o diagnóstico precoce do estado de choque é o seu pronto tratamento e 149 reavaliação periódica a fim de atingir as metas pré estabelecidas em 6 horas, com o objetivo de diminuir a mortalidade, complicações e disfunções orgânicas secundárias. As principais medidas terapêuticas e metas a serem buscadas são: - Restauração da volemia visando atingir PVC acima de 12mmHg e PAM acima de 65mmHg - Paciente que se mantém hipotenso após reposição volêmica deve receber vasopressor para meta de PAM acima de 65mmHg - Inotrópicos estão indicados nos casos em que após reposição volêmica e PAM acima de 65mmHg o paciente apresentar ScO2 abaixo de 70% e/ou clearance de lactato abaixo de 10% - Tratar causa base concomitante ao tratamento do choque. Bibliografia: Fernandes Jr. CJ, Akamine N, Knobel E. Monitorização hemodinâmica, transporte de oxigênio e tonometria. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. Atheneu, São Paulo, pp. 75-102, 1998. Silva E. Uso racional de drogas vasoativas. In: Drummond JP, Silva E. Choque. Artes Médicas, São Paulo, pp. 121-38, 1996. Silva E, Friedman G, Gutierrez G. Perfusão tecidual na sepse: sistêmica e regional. In: Silva E, Friedman G. Sepse. São Paulo, Atheneu, pp. 199-220, 1999. Task Force of the American College of Critical Care Medicine, Society of Critical Care Medicine. Practice parameters for hemodynamic support of sepsis in adult patients in sepsis. Crit Care Med 27(3):639-60, 1999. Dellinger RP, Carlet JM, Mansur H, et al. Surviving Sepsis Campaing guidelines for management of severe sepsis and septic shock. Intensive Care Med 30:536-55, 2004 Arnold RC et al. Multicenter study of early lactate clearance as a determinant of survival in patients with presumed sepsis. SHOCK, 32(1): 35-39, 2009 150 Capítulo 16 MONITORIZAÇÃO MINIMAMENTE INVASIVA Introdução A introdução do conceito de cateterização da artéria pulmonar na medicina, em busca de variáveis hemodinâmicas invasivas, aconteceu décadas antes da utilização do chamado cateter de Swan-Ganz (cateter com tecnologia de flutuação de balão) à beira leito. Contudo, a migração da utilização desses cateteres de laboratório para a prática clínica talvez tenha “saltado” alguns passos importantes. A idéia de que o conhecimento detalhado de um painel de variáveis hemodinâmicas de pacientes graves se traduziria em vantagem de sobrevida foi difundida e o cateter de artéria pulmonar tornou-se ‘standard of care’ sem aproriada avaliação clínica e de custo-efetividade, transformando-se em sinônimo de monitorização de pacientes com grave insuficiência cardíaca ou respiratório. Surge então a pergunta - por que monitorizar? O objetivo da monitorização hemodinâmica é oferecer uma visão geral do estado circulatório do paciente, com o propósito de informar e direcionar o médico à definição do diagnóstico, estabelecer estratégias de tratamento e definir o prognóstico. A fim de ser considerada o mais fiel possível, a monitorização deve fornecer informação útil, no tempo certo e com número limitado de complicações que possam ser atribuídas à técnica. Medir variáveis de fluxo, como débito cardíaco ou volume sistólico, é cada vez mais relevante no manuseio de um paciente grave e, até pouco tempo atrás, dispunhamos apenas do cateter de artéria pulmonar (CAP) para obter tais informações. As controvérsias que cercam a utilização do CAP (CONNORS, 1996; HARVEY, 2006), como complicações associadas a sua inserção e uso, baixa acurácia das suas medidas, interpretação incorreta dos dados, falta de estudos contundentes com seus benefícios e até dúvidas relacionadas ao possível aumento de mortalidade, fizeram com que novas tecnologias - pouco ou minimamente invasivas, se tornassem disponíveis para tentar oferecer os mesmos dados . Mesmo com todos esses novos métodos disponíveis, o que se nota é que a curva de utilização de técnicas invasiva vem se tornando decrescente ao longo da última década (WIENER, 2007). Esta tendência vem sendo constatada de maneira bem evidente na prática clínica, em diversos grupos de pacientes graves.A despeito das controvérsias, descreveremos ao longo do capítulo alguns dos novos métodos de monitorização menos invasivos e suas possíveis vantagens, revendo assim técnicas de mensuração de volume sistólico e débito cardíaco que resgatam alguns conceitos fisiológicos conhecidos, e introduzindo o conceito potencial de “monitorização em larga escala”, em que mais pacientes possam vir a se beneficiar - não somente aqueles muito graves, usualmente selecionados para a introdução do CAP. A literatura deve mostrar nos próximos anos cada vez mais custo-efetividade associada às tecnologias menos invasivas traduzidas em endpoints como redução de complicações e tempo de internação, especialmente nos grupos de pacientes de UTI atualmente considerados ‘submonitorizados”. Os métodos mais antigos criaram uma ambiente de inércia entre evidência científica e prática clínica e a utilização de tecnologias minimamente invasivas confiáveis, de monitorização contínua, podem trazer uma perspectiva de mudanças mais rápidas em prol do cuidado do paciente grave. Não é objetivo deste capítulo uma extensa discussão dos artigos já publicados, mas sim um overview sobre o que temos disponível até o momento. 151 Conceito de Monitorização Minimamente Invasiva Difícil encontrar definição completa sobre o tema na literatura, mas de forma objetiva, consideramos monitorização minimamente invasiva aquela que apresenta características como instalação simples, rápida, com baixo índice de complicações diretamente atribuíveis ao método, ou ainda reaproveita dispositivos pré-instalados (como cateter venoso periférico/central e cateter arterial), sem demandar novo procedimento específico para sua instalação; é facilmente conduzido pela enfermagem, e pode ser utilizado nos diversos ambientes que cuidam do paciente grave, além da UTI (como departamento de emergência e centro cirúrgico), fornecendo, de forma clara, dados replicáveis e confiáveis quando comparados às técnicas mais invasivas. Análise de Contorno de Pulso: Evolução e Limitações Análise de contorno de pulso (arterial pulse contour analysis) é uma técnica de mensuração e monitorização do volume sistólico batimento-a-batimento, utilizando o formato de onda da pressão de pulso arterial. Apresenta como vantagem o fato de que a maioria dos pacientes graves já dispõe de cateter arterial invasivo para monitorização da pressão arterial média, tornando-a virtualmente não-invasiva/minimamente invasiva. Os principais conceitos que originaram essa metodologia remontam à primeira metade do século XVIII. Após a morte de William Harvey que contestou a teoria então vigente de que o sangue era sugado ativamente pelo fígado e coração e propôs o modelo de circulação dupla – pulmonar e sistêmico, o Reverendo Stephen Hales (1677-1761) executou a primeira aferição da pressão arterial através da medida da elevação de uma coluna de sangue em um tubo de vidro amarrado a uma artéria de uma cobaia. Em sua publicação “Haemastaticks” (1733), foi também o primeiro a definir, de forma precisa, as capacidades volumétricas do coração, através do preenchimento com cera das câmaras cardíacas esquerdas de uma ovelha, em um modelo experimental de choque hemorrágico. Após sacrificar o animal, mediu o volume do molde obtido com a cera e estimou o volume sistólico do coração do animal. Conhecendo a freqüência cardíaca da cobaia, foi possível calcular, pela multiplicação desses valores, o então denominado “volume-minuto” cardíaco. Mais de um século e meio depois, um fisiologista alemão (Otto Frank, 1865-1944) deu seqüência a esses estudos com suas publicações “Die Grundform des arteriellen Pulses”, 1899 e “Schätzung des Schlagvolumens des menschlichen Herzens aufgrund der Wellen-und Windkesseltheorie”, em 1930. Otto Frank utilizou analogias entre os conceitos de Hidrodinâmica, Eletromagnetismo e Eletrodinâmica, para propor um modelo teórico-prático em que era possível calcular e entender os determinantes da circulação sangüínea em animais. Nesse modelo, a circulação poderia de forma análoga e complementar ser representada por um circuito elétrico e/ou hidráulico. O coração seria a bomba hidráulica que impulsionaria o líquido em um circuito fechado totalmente preenchido por esse mesmo material, exceto em uma pequena bolsa ou câmara, que conteria ar (de onde surge o termo “windkessel”, do alemão, “câmara-de-ar”). O líquido, ativamente impulsionado pela bomba, encontraria a bolsa de ar e o comprimiria, ao mesmo tempo em que esse ar empurraria a água novamente para fora do compartimento. A compressibilidade do ar simularia a elasticidade e extensibilidade das grandes artérias, quando o sangue é bombeado pelo coração, ou seja, simularia a complacência do sistema arterial. Quando esse líquido saísse da câmara, encontraria a resistência oferecida pelo próprio circuito à sua circulação no trajeto de retorno à bomba (no desenho, didaticamente, isso foi representado por uma mangueira de calibre menor, ilustrando uma maior resistência à saída da água). Essa resistência simularia a resistência vascular periférica. Como na época as fórmulas básicas da hidrodinâmica já eram bem conhecidas (P = R x fluxo; C = V / P) e, com o auxílio da analogia com o modelo 152 elétrico estudado através da Lei de Ohm [Diferença de Potencial (U) = Ri], foi possível realizar as primeiras estimativas de fluxo (i) e, conseqüentemente, débito cardíaco. Décadas depois, os modelos de Windkessel foram aprimorados de forma a tentar tornar as representações mais próximas do real e dar maior precisão aos cálculos. Nessa ótica, os modelos de “Windkessel de 3-elementos” (1930) e “4-elementos” (1982) foram desenvolvidos. Esses modelos constituíram a base para a compreensão de que hoje dispomos sobre a dinâmica da circulação sangüínea nos seres humanos. Paralelamente, em 1904, uma outra linha de pesquisa se consolidava com Joseph Erlanger (fisiologista norte-americano, 1874-1965). Em seu estudo “Experimental Study of Blood Pressure and of Pulse Pressure in Man”, descreveu, pela primeira vez, que o volume sistólico seria diretamente proporcional à pressão de pulso gerada na raiz da aorta. Essa relação, aparentemente intuitiva hoje, gerou, à época, grande avanço, na medida em que abriu perspectivas para novas maneiras de se estimar o débito cardíaco, até então calculados pela relação entre pressão, resistência e fluxo, com uma série de limitações. Ainda no início do século XX, as limitações dos métodos acima descritos para o cálculo do débito cardíaco começaram a ser mais bem esclarecidas. Algo que mesmo hoje em dia, com todo o avanço tecnológico, ainda é reconhecido como verdadeiro, foi dito pela primeira vez em 1939 por Wezler K: é necessário calibrar as medidas calculadas por algum método independente mais acurado. Esses métodos “mais acurados” passaram a ser conhecidos ainda na primeira metade do século XX, quando as primeiras medidas de débito por diluição de contraste foram realizadas, inicialmente com uma substância conhecida como verde indocianina e baseadas na injeção de um composto (idealmente inexistente no organismo) na circulação central, recuperado na circulação arterial, anotando-se o tempo de trânsito do mesmo e construindo-se uma curva de diluição – concentração x tempo, da qual é possível se derivar o débito cardíaco. No entanto, o corante indocianina verde não mostrou comportamento e farmacodinâmica ideais. Nos anos seguintes, uma série de descobertas não só explicitaram ainda mais as limitações (Quadro 1) das estimativas de débito cardíaco obtido nos modelos de Windkessel e análise da pressão de pulso (através de comparações com métodos mais acurados- diluição por contrastee fluxometria eletromagnética), mas também trouxeram explicações consistentes para essas imprecisões, trazendo contribuições teóricas (tabela 2) que aprimoraram ainda mais essas medidas. Descrições da necessidade da correção da onda de pulso pela complacência arterial (1927), consolidadas com trabalhos de Remington em 1948 e Langewouters em 1984, alem de correções para impedância e resistência do sistema arterial (1993) são exemplos desses avanços. Em 1970, um trabalho clássico propôs a primeira mensuração de débito cardíaco pelo cálculo da área sob a curva da pressão arterial, mais precisamente, sob sua porção sistólica. Esse trabalho trouxe os referenciais que são utilizados até hoje nos algoritmos do aparelho PICCO® (“Pulse contour cardiac output”, Pulsion Medical Systems- Alemanha) . Com o surgimento do cateter de artéria pulmonar (originalmente descrito por Ganz W, Donoso R, Marcus HS, Forrester JS e Swan HJC, em 1971), e sua consagração como standard of care, houve um aparente esquecimento de todo esse conhecimento teórico, que não foi aproveitado em métodos concorrentes de mensuração do DC. Entretanto, os crescentes questionamentos em relação ao uso do “cateter de Swan Ganz”, despertou novamente o interesse por métodos alternativos, retomando o conceito de análise de contorno de pulso, que hoje pode ser aplicado de maneira mais confiável, à beira leito, em vista dos atuais avanços eletrônicos e na melhor capacidade de processamento dos monitores. 153 Quadro 1. As principais limitações dos modelos vigentes, sumarizadas por Linton e Linton (2001): 1. As variáveis utilizadas pelos modelos de Windkessel e de análise da área sob a curva de pulso eram obtidas, na sua maioria, pela análise da curva de pressão obtida em artérias radiais. Esse método não considerava nenhuma fórmula para o cálculo da transferência de pressão aorta-radial 2. Os modelos de Windkessel (e mesmo o modelo da área sob a curva) não consideravam a importância da reflexão da onda de pressão na impedância e morfologia da onda de pulso 3. As melhores performances dos modelos de Windkessel na comparação com métodos de aferição de débito cardíaco mais acurados aconteciam apenas quando a impedância do sistema vascular era calculada por medidas invasivas de fluxo aórtico 4. As margens de erro nas medidas de débito se tornavam mais evidentes quando se tratavam de valores extremos 5. Grande variabilidade das medidas em contextos de variação da resistência vascular periférica, como, por exemplo, no uso de agentes alfa-agonistas (trabalhos com animais em uso de fenilefrina) Quadro 2. Relação da Pressão de Pulso com Volume Sistólico a) As flutuações da pressão sangüínea em torno de um valor médio são causadas pelo impacto do volume de sangue (volume sistólico) no conduto arterial em cada sístole b) A magnitude da variação de pressão – conhecida como pressão de pulso, é uma função da magnitude da variação do volume sistólico c) Um fator de particular importância é a complacência da parede arterial d) Obviamente, quanto maior a complacência, menor será a resistência vascular ao aumento pulsátil na pressão arterial e menor será a pressão necessária para distender o vaso a fim de acomodar um determinado volume sistólico Principais tecnologias existentes LiDCO plus O grupo de investigadores que desenvolveu e publicou a metodologia que deu origem ao equipamento LiDCO plus, foi pioneiro na fase de ressurgimento do interesse por técnicas minimamente invasivas de mensuração de DC. Linton e colaboradores, em uma publicação de 1993, descreveram e patentearam um novo método de aferição do débito cardíaco pela curva de diluição de uma dose de lítio injetada (dye dilution curve) em uma veia central. Descreveram também as propriedades de um sensor íon-específico necessário à execução do método e validaram a técnica em 9 pacientes em pós-operatório de cirurgia cardíaca (comparando as medidas com termodiluição). A partir da observação de que o cloreto de lítio inexiste no organismo e da inferência de que doses baixas dele - detectáveis por um sensor, através de alteração de voltagem na membrana - não causariam nenhum efeito adverso em seres humanos, passaram a injetar 0,6 mmol da solução em veia central, após instalação do sensor junto ao cateter de pressão arterial invasiva radial. Uma curva de diluição de Lítio era então obtida após a passagem da substância pela circulação pulmonar, coração esquerdo, aorta e artéria radial, onde estava instalado o sensor (Figura 1.1). Os dados eram analisados por um software de computador que construía as curvas e, utilizando-se da fórmula descrita (Figura 1. 3), o débito cardíaco 154 era prontamente calculado, e essa medida passava a ser o método de calibração para o sistema (figura 2). FIGURA 1 – Curva de diluição do Cloreto de Litio 1.1 1.2 1.3 DC (l/min) = dose LiCl (mmol) x 60____ ASC (mmol x litro-1 x s) x (1-Htc) (1.1) as áreas A/B são aquelas consideradas para o cálculo do débito, minimizando o impacto da recirculação do lítio; (1.2) Gráfico representativo da recirculação do Lítio após injeção única em veia central; (1.3) Fórmula para cálculo do Débito cardíaco (DC): ASC = “área sobre a curva” (igual a A+B+B/2); Htc o hematócrito do paciente; 1-Htc representa o plasma, já que o Lítio só se dissolve nesse componente do sangue * Extraído de Linton RAF, Brit J Anaesth, 1993 e Linton, Cardiov Res, 1995. Figura 2. Método de Diluição do Cloreto de Lítio para obtenção de Débito Cardíaco Em 1995, os mesmos autores publicaram uma proposta de modificação no método, tentando minimizar ainda mais os efeitos da recirculação do lítio na morfologia da curva 155 obtida (Figura 1.2.). Ao invés da derivada da área sobre a curva, propuseram o cálculo do logaritmo da integral, identificando com essa alteração as seguintes vantagens: melhora do desempenho em estados hipodinâmicos (onde a definição curva de primeira passagem x demais curvas de recirculação é difícil); medidas mais acuradas - passaria a utilizar toda a área sob curva na análise; método mais rápido na execução (paciente perde menos sangue pelo sensor) e maior facilidade na programação do software. Basicamente o método é descrito em 3 passos: 1º. Passo: Transformação da onda de pressão em uma onda volume-tempo. A pressão e volume estão relacionados em circuitos hidráulicos através da complacência desses circuitos. O método utiliza essa medida, incorporando ajustes para sua variabilidade entre pacientes e sua não-linearidade nas diversas faixas de pressão. Através de um modelo matemático em que se associam pressão e complacência corrigida por idade/sexo/superfície corpórea, transforma-se a curva de pressão arterial em uma curva volume-tempo, ou seja, aplicam-se os conhecimentos acumulados em estudos da complacência da aorta e sua relação com índices antropométricos. 2º. Passo: Derivar volume sistólico nominal e a duração do ciclo cardíaco. Com os dados do primeiro passo (curva volume-tempo), calcula-se a média de todos os valores de volume em um espaço de tempo (equivalente a uma reta, já que o formato da onda é sinusoidal). Calcula-se então a diferença entre cada valor (“beat-to-beat”) e essa média, elevando-se ao quadrado e, posteriormente, extraindo-se a raiz quadrada (de forma análoga ao cálculo do desvio padrão). O resultado final é uma onda positiva em relação à reta médiatraçada inicialmente. Os valores obtidos são os volumes sistólicos nominais e estão diretamente relacionados ao volume sistólico real (autocorrelação) obtido pela multiplicação do valor nominal por um fator de calibração obtido através do método de diluição do cloreto de lítio. Uma possível vantagem é o fato de o cálculo ser feito em função da duração total do ciclo e não apenas do tempo sistólico utilizado nos métodos que medem débito cardíaco pela área sob a curva, como forma de tentar minimizar a interferência da onda de reflexão no cálculo. Tarefa que pode ser difícil já que o nó dicrótico dessas ondas é a referência e esse nem sempre é facilmente detectável, podendo diminuir, assim, a acurácia do método. 3º. Passo: Cálculo do débito cardíaco. A multiplicação do volume sistólico nominal pela duração completa de cada um dos ciclos cardíacos é igual ao débito cardíaco. Autor/ano Casuística Método validação Observações Linton, 2001 Intraoperatório de cirurgia cardíaca TDCO Trabalho de apresentação do método Hamilton, 2002 PO cirurgia cardíaca LiDCO® Duração calibração 8h Jonas, 2002 UTI LiDCO® Comparação calibrações a cada 2,5h; 5h e 8h 156 Pittman, 2004 CTI por 24h LiDCO® - Heller, 2002 Intraoperatório 2,5-8,5h LiDCO® - Mappes, 2001 Perioperatório - - Pittman, 2005 PO cirurgia cardíaca ou cirurgia de grande porte LiDCO ® Eficácia mantida em caso de “damping” Apesar da alta correlação das medidas efetuadas por esse método com a as medidas de débito por termodiluição e outros métodos (nunca antes demonstradas com os algoritmos conhecidos até então), ainda assim os autores reconhecem a grande e complexa rede de interações entre os determinantes do débito cardíaco e seguem as recomendações primeiramente publicadas por Wezler K, em 1939, e, posteriormente, reiterada por tantos outros de que é necessário um método de calibração independente para qualquer que seja a metodologia de análise de contorno de pulso adotada, no caso, a aferição do débito cardíaco pela curva de diluição do lítio. O cloreto de lítio foi estudado em animais e seres humanos, sendo considerado droga segura para utilização no método de calibração (inicialmente recomendado a cada 8 horas; hoje se tolera 24 horas com manutenção da acurácia). As possíveis limitações e contra- indicações ao seu uso são: transtornos psiquiátricos em uso de lítio; peso < 40 Kg (contra- indicação até o momento); não recomendado no primeiro trimestre de gestação; interferência de bloqueadores neuromusculares (ideal aguardar 15-30 após sua utilização para calibrar o sistema); fornecer sódio plasmático (na voltagem do sensor) e hematócrito; shunt D para E; insuficiência aórtica grave e presença de balão intra-aórtico podem trazer limitações na interpretação do sistema. A injeção de lítio para medida do débito não necessariamente precisa ser feita em veia central, como ficou demonstrado em 2 estudos: Kurita e cols. (1999) e Garcia-Rodríguez e cols. (2002). Veias periféricas permitem o cálculo com boa acurácia, sendo que veias mais proximais e calibrosas são preferidas. Os dispositivos atualmente comercializados (LiDCO Plus®) dispõem de recursos adicionais que auxiliam no cuidado do paciente à beira-leito: cálculo da variação da pressão de pulso, variação do volume sistólico e pressão sistólica continuamente (variáveis relacionadas a responsividade a fluidos); aferição do débito por médias a intervalos de tempo pré- determinados (úteis, por exemplo, nos casos de fibrilação atrial, onde ainda assim medidas de débito confiáveis podem ser efetuadas); fácil interface gráfica e recursos de software (figura 3) que permitem geração de relatórios, impressão de planilhas e atualizações. Outros recursos permitem cálculo de resistência vascular sistêmica (o valor da pressão venosa central é necessário para tal) e oferta de oxigênio (DO2) e a nova versão do software incluiu a capacidade de registrar e manter nas telas a saturação venosa de oxigênio e a inclusão do ITBV como parâmetro mensurável através da técnica de diluição do cloreto de lítio. Tabela 2 . Principais trabalhos de validação dessa metodologia. 157 Autor/ano Casuística/espécies Método validação Obervações Kurita, 1997 Suíno CAP, FEM - Mason, 2001 Cães CAP - Linton, 2000 Cavalos CAP - Corley, 2002 Potros neonatos CAP - Garcia-Rodríguez, 2002 Humanos CAP - Linton, 2000 Humanos TDTP - Linton, 1997 Humanos CAP - Pearse R, 2005 Humanos - EGDT otimização pré-operatória e redução complicações e permanência hospitalar 158 Figura 3. Interfaces gráficas (valores absolutos e curvas de tendência) do equipamento LiDCO plus para monitorização PiCCO A tecnologia PiCCO oferece monitorização hemodinâmica minimamente invasive e parâmetros volumétricos. A base do método PiCCO é a termodiluição transpulmonar (calibração e parâmetros específicos) e Análise do Contorno de Pulso Arterial (parâmetros contínuos). A analise de contorno de pulso clássica deriva o volume sistólico da área sob a curva sistólica. A figura 4 ilustra a seqüência de cálculos para obtenção do DC após calibração. Os parâmetros fornecidos pelo equipamento, através dos dois métodos, estão no quadro 3 e estão disponíveis de forma absoluta e indexada.O uso do PiCCO está indicado quando monitorização hemodinâmica é necessária em pacientes de centro cirúrgico, unidades de terapia intensiva clinica, cardíaca, cirúrgica e queimados, em que acesso arterial invasivo e venoso central estão instalados. Por exemplo: estados de choque, insuficiência cardíaca grave, cirurgias de grande porte, trauma e transplantes. 159 Figura 4. Fórmula e ilustração da termodiluição transpulmonar como método de calibração do PiCCO. TERMODILUICAO PARA CALIBRACAO DO SISTEMA CALIBRAÇÃO P t Injecao t T PCCO = cal • HR • ⌠⌠⌠⌠ ⌡⌡⌡⌡ Systol e P(t) SVR + C(p) • dP dt ( ) dt 160 Quadro 3. Parâmetros da tecnologia PiCCO (Pulsion Medical Systems, Alemanha) No paciente cardiopata grave, temos a possibilidade de monitorizar importantes parâmetros que avaliam função cardíaca e resposta à terapêutica instituída. A mensuração do DC derivado do Pulse Contour é contínua e imediatamente responsiva, o que determina uma vantagem vital no manuseio de drogas muito potentes e com rápido inicio de ação - como as utilizadas no suporte do cardiopata. Os parâmetros volumétricos do PiCCO como Volume Diastólico Final Global (GEDV - equivale ao volume de sangue contido nas 4 câmaras ao final da diástole) e Volume Sangüíneo Intratorácico (ITBV) em combinação com Água Pulmonar Extravascular (EVLW) começam a ser diretamente aplicados na pratica clinica. Diferente de PVC e POAP, não há necessidade de interpretação associada a outras variáveis. Diversas publicações cientificas têm confirmado a precisão de parâmetros como o GEDV. Ao contrario da radiografia de tórax e índices de oxigenação, EVLW se correlaciona bem com a quantidade total de água pulmonar e com o grau de lesão pulmonar aguda, constituindo-se em um dos mais importantes parâmetros atuais para estudo do seu valor preditivo e utilidade em classificação e evolução da síndrome do desconforto respiratório agudo.A Fração de Ejeção Global (GEF) reflete a fração ejetada do Volume Diastólico Final Global do coração. Dessa forma, a GEF pode ser usada para diagnostico e acompanhamento de insuficiência cardíaca. Outro parâmetro de função cardíaca independente de pré-carga e o Índice de Função Cardíaca (CFI). O Índice de Permeabilidade Vascular Pulmonar mostra a relação entre EVLW e volume sangüíneo nos vasos pulmonares e auxilia a discriminar o edema pulmonar do tipo hidrostático do de permeabilidade. Parâmetros da Termodiluicao Transpulmonar Parâmetros da Analise de Contorno de Pulso Debito cardiaco (DC) Debito Cardíaco Volume Diastolico Final Global (GEDV) Pressão Arterial (PA) Volume Sanguineo Intratoracico (ITBV) Freqüência Cardíaca (FC) Água Pulmonar Extravascular (EVLW) Volume Sistólico (VS) Índice de Permeabilidade Vascular Pulmonar (PVPI) Variação de Volume Sistólico (VVS) Índice de Função Cardíaca (CFI) Variação de Pressão de Pulso (VPP) Fração de Ejeção Global (GEF) Resistência Vascular Sistêmica (RVS) Índice de Contratilidade do Ventrículo Esquerdo (dPmx) 161 Quanto à configuração, os parâmetros do PiCCO podem ser obtidos utilizando um cateter venoso central e um cateter de inserção arterial para termodiluição e pressão arterial invasiva (Pulsiocath) em varias versões e tamanhos (para artérias femoral, braquial) conforme ilustrado abaixo na montagem do sistema (figura 5): Figura 5. Esquematização da interface equipamento (PiCCO) – paciente durante a monitorização. setup Cateter Venoso Central Local de injeção/sensor de temperatura Cateter de Termodiluicao PULSIOCATH Cabo do sensor de temperatura do injetato Transdutor de Pressao PULSION PCCI AP 13.03 16.28 TB37.0 AP 140 117 92 (CVP) 5 SVRI 2762 PC CI 3.24 HR 78 SVI 42 SVV 5% dPmx 1140 (GEDI) 625 Cabo de interface de temperatura Cabo de Pressao 162 Doppler Esofágico O Doppler esofágico CardioQTM associa um software com um probe (sonda) esofágico descartável de pequeno diâmetro, fácil de usar, capaz de transmitir e receber um sinal de ultrassom. Oferece a possibilidade de avaliar e otimizar a condição hemodinâmica de pacientes gravemente doentes ou em perioperatório de cirurgias de grande porte, através de administração controlada (guiada) de fluidos e drogas. Figura 6. Ilustração do Doppler Esofágico CardioQ (fonte: site da Deltex Medics) Recente revisão de regimes de restrição hídrica intraoperatória concluíram que expansão volêmica judiciosa está associada a redução de complicações em cirurgias de grande porte (NOBLETT, 2006); em cirurgia torácica também nota-se tendência para regime ”seco” com evidência sugerindo redução de complicações pulmonares no pós-operatório. O consenso é evitar hipoperfusão tecidual e ativação da resposta inflamatória ao mesmo tempo em que se previne sobrecarga hídrica. Os pacientes submetidos a tais procedimentos são freqüentemente idosos, com comorbidades associadas, incluindo cardiopatia, classificados como de alto risco cirúrgico. Algumas vezes submetidos a jejum prolongado e preparo intestinal, o que contribui para potencias estados de desidratação ou hipovolemia. Métodos minimamente invasivos como o Doppler Esofágico (DE) podem auxilliar a monitorizar variáveis de fluxo no perioperatório desses pacientes Alguns estudos mostram redução do tempo de internação e diminuição de complicações quando o DE é utilizado para otimizar a volemia no período intraoperatório, como por exemplo 163 em procedimentos ortopédicos, de coloproctologia e durante cirurgia cardíaca (McKENDRY, 2004). A otimização de fluidos guiada com acurácia nesses pacientes de alto risco, pode prevenir hipovolemia perioperatória e subseqüente hipoperfusão da mucosa intestinal, evitando efeitos deletérios na integridade da barreira de mucosa e conseqüente translocação e resposta inflamatória sistêmica. Nos estudos que utilizaram o DE (CardioQ, da Deltex Medics – figura 6 - e Hemosonic 100, da Arrow International), o probe de 7mm foi posicionado, através da boca ou nariz, na porção inferior do esôfago (a 35-40cm da arcada dentária). Movimentos de rotação com o probe foram realizados até que se obtivesse o melhor sinal de Doppler do fluxo sanguíneo da porção média da aorta descendente. Então, diversos algoritmos de ressuscitação volêmica intra ou perioperatória realizados por períodos curtos (8-12hs) são descritos e seguidos nesses estudos. Fluxo de tempo corrigido (FTc) de menos de 0.35 segundos é considerado indicativo de possível hipovolemia e normalmente os algoritmos indicam bolus (250mL) de volume (colóide), observando aumento de volume sistólico e FTc. Se o Ftc permanecer abaixo de 0.35 segundos, o bolus deve ser repetido. Caso o Ftc exceda 0.35 segundos e o aumento do volume sistólico não exceda 10% pode ser indicado interromper a expansão volêmica. FloTrac FloTrac é o nome dado ao sensor que compõe o dispositivo de monitorização minimamente invasiva da empresa Edwards Lifesciences, Irvine, CA, USA. Este sensor associado ao monitor Vigileo (Figura 7) mede débito cardíaco continuamente através da pressão arterial invasiva do paciente no intraoperatório ou na UTI. O monitor precisa de informações como idade, altura e peso para iniciar a medida de parâmetros de fluxo e do débito cardíaco. Diferente dos equipamentos LiDCO e PiCCO, o FloTrac não utiliza calibração externa, pois possui um algoritmo que compensa continuamente as alterações da fisiologia vascular (complacência e resistência) do paciente. Na construção do algoritmo, comparações foram feitas entre volume sistólico (VS) conhecidos com pressão de pulso (PP) comparáveis. Além disso, correlações estatísticas forneceram um modelo matemático que consegue uma avaliação quantitativa dos efeitos do tônus vascular no VS. Os fundamentos para essas correlações são: VS conhecidos, PP correspondentes comparáveis, dados contínuos da pressão arterial e idade, gênero e ASC do paciente. A ausência de calibração externa ainda é motivo de discussões importantes na comparação dos métodos minimamente invasivos. Quando um sistema de mensuração contínua é incapaz de adaptar-se às alterações de variáveis independentes (ex. complacência aórtica, resistência vascular), ele deve ser calibrado para estabelecer um novo ponto de referência como resultado das mudanças na fisiologia do paciente. Dessa forma, o software e algoritmo do FloTrac devem ser capazes de se adaptar a tais mudanças. O algoritmo procura por alterações características no formato da onda de pressão arterial que refletem mudanças no tônus. O sistema analisa períodos de 20 s (a 100 Hz)- 2000 pontos da curva são analisados antes de fornecer o dado (portanto o VS não aparece batimento-a- batimento). Figura 7. Sistema FloTrac e Monitor Vigileo. 164 Bioimpedância A avaliação da composição corporal por Bioimpedância é fundamentada na passagem de uma corrente de baixa voltagem e freqüência pelo corpo do paciente, determinando-se a resistência oferecida pelos diversos tecidos do organismo. Impedância é exatamente a resistência à passagem da corrente elétrica, e está inversamente relacionada à condutividade elétrica. Considerando o fato de que o tecido gorduroso tem um conteúdo aquoso baixo, pode-se deduzir que a condução da corrente elétrica por ele será mais difícil quando comparada à condução pelo tecido muscularque é constituído predominantemente por água. A Tomografia de Impedância Elétrica usa uma técnica em que a imagem da condutividade ou permissividade de parte do corpo é inferida através de medidas elétricas da superfície. Os eletrodos são colados na pele (cobrindo a superfície em disposição circular) e pequenas correntes alternadas são aplicadas a alguns ou todos os eletrodos. Os potencias elétricos resultantes são medidos e o processo é repetido em inúmeras configurações diferentes de corrente aplicada. Algumas aplicações propostas incluem a monitorização da função pulmonar, (área estudada em diversos centros no mundo, inclusive Brasil); detecção de tumores de mama e foco epiléptico. Recentemente foi publicado um artigo de renomado estudioso de hemodinâmica sobre a aplicação prática da bioimpedância. Shoemaker e col. (2007) comparararam dados do CAP (invasivo) com monitorização não-invasiva contínua (débito cardíaco) através da bioimpedância, a fim de avaliar capacidade de predizer prognóstico e guiar a terapêutica em pacientes graves logo após a admissão no departamento de emergência e/ou centro cirúrgico. A função respiratória também foi monitorada por saturação arterial de oxigenação e perfusão/oxigenação tecidual através das tensões transcutâneas de CO2 e O2 indexadas para a fração inspirada de oxigênio. Os resultados mostraram que os sobreviventes tinham pressão arterial média, índice cardíaco e saturação arterial de oxigênio superiores aos não-sobreviventes e na avaliação final dos autores, a monitorização não-invasiva foi considerada mais segura, mais simples, mais fácil, mais rápida e mais barata do que o CAP e os dados comparados mostraram acurácia aceitável e facilmente disponível em qualquer cenário do hospital. Uma vez que débito cardíaco é derivado de fórmulas e utiliza os achados da bioimpedância, costuma-se empregar, nesses casos, o termo ecocardiografia de impedância. 165 Algumas limitações do método incluem colocação inadequada dos eletrodos, artefatos de movimentação, edema pulmonar e derrame pleural, doenças valvares cardíacas, arritmias e interferências elétricas de outros instrumentos. Monitorização em larga escala Monitorização hemodinâmica avançada é indicada em um grupo seleto de pacientes. No entanto, a severidade da doença não é o parâmetro ideal para a decisão de monitorizar um paciente grave. O momento desta decisão é importante, uma vez que pacientes muito graves monitorados tardiamente podem não se beneficiar, ao passo que pacientes menos graves, com comorbidades que os classificam como alto risco de complicações, quando monitorados precocemente podem apresentar evolução melhor. Em uma avaliação puramente clínica, podemos hiperestimar o risco de alguns pacientes ou ainda subestimar a incidência de complicações - a ponto de questionar a internação dos mesmos na UTI, o que pode resultar em “submonitorização” desses pacientes. Ou seja, acabamos por admitir pacientes com alto risco de complicações e muitas vezes manter apenas monitorização eletrocardiográfica, coleta de exames periódica e controle de diurese (nem sempre com sonda vesical); muitas vezes esses pacientes não possuem sequer cateter venoso central. A introdução de técnicas de monitorização não-invasiva de débito cardíaco abre a perspectiva de ampliar o alcance da monitorização adequada - o grupo de pacientes que anteriormente não era ”elegível” à monitorização invasiva (“menos grave”) certamente se beneficiará de técnicas mais rápidas, seguras e confiáveis em fornecer dados como variáveis de fluxo e responsividade a fluidos, propiciando um ‘painel de informações’ mais completo e ideal para a tomada de decisões, assegurando, por exemplo, oportunidade de ressuscitação perioperatória mais segura. A natureza minimamente invasiva dessas técnicas pode proporcionar ainda a introdução de ‘protocolos guiados por objetivos’, desde a admissão dos pacientes nos departamentos de emergência ou no centro cirurgico, não se limitando apenas à UTI. Além disso, tais protocolos podem ser facilmente compreendidos e guiados pela equipe de enfermagem. Como interpretar os resultados dos estudos com essas tecnologias: para onde estamos caminhando. Alguns cuidados devem ser tomados na interpretação dos dados apresentados pelos diversos estudos que estão surgindo com as tecnologias minimamente invasivas. A leitura minuciosa dos artigos e das tabelas de dados deve ser seguida de uma avaliação estatística rigorosa para entender se as ferramentas adequadas foram utilizadas para comparará-las com o ‘standard of care’ (técnica de termodiluição, de preferência intermitente, no CAP) e se a mesma mostrou eficácia capaz de substituir a primeira. Particularmente, não acreditamos que o CAP seja o gold standard, já que os estudos não comprovaram esse status de monitorização de escolha superior, mas sim trata-se de “a existente para a época”. Dessa forma, a avaliação isolada de coeficientes de correlação torna-se insuficiente e a avaliação de bias e limites de concordância (2DPs), conforme a ferramenta de Bland-Altman (1986) é mais adequada para esses propósitos de comparação entre duas tecnologias. Mais recentemente, o trabalho de Critchley and Critchley (1999) estabeleceu que a porcentagem de erro (percentage error) médio não deve ser maior do que ±30% para permitir que uma tecnologia substitua a outra. Algumas séries de casos ou estudos de pequeno porte mostraram que a tecnologia de análise de contorno de pulso sem calibração (Flotrac/Vigileo, Edwards Lifesciences, Irvine, CA) apesar de apresentar resultados (valores de índice cardíaco) aparentemente considerados aceitáveis ou confiáveis, quando comparados ao CAP, mostravam pontos dos gráficos fora dos guidelines de 166 Critchley and Critchley e portanto essas diferenças de erros poderiam induzir tomada de decisões terapêuticas inadequadas. O estudo de Sander e cols (2006), por exemplo, comparou medidas de débito cardíaco (em 4 timepoints – no pré e pós-operatório) através de 3 métodos em 30 pacientes submetidos a cirurgia de revascularização miocárdica: análise do formato da curva arterial (Flotrac), do CAP e de termodiluição transpulmonar (PiCCO) e mostrou que os dados obtidos no Vigileo subestimaram os dados obtidos pelo CAP, com porcentagens de erro variando de 36 a 70%, e sugerindo que novos algoritmos e atualização do software são necessárias. Houve melhor correlação do dados obtidos com o CAP e o PiCCO. Outro estudo interessante para se discutir é o multicêntrico publicado por Uchino e cols (2006), que reúne dados coletados em UTIs de 10 diferentes hospitais (Austrália, Japão, Reino Unido e Bélgica),e foi desenhado para comparar características e resultados de pacientes monitorizados por CAP ou PiCCO. Um dos objetivos do estudo seria testar a hipótese de associação de melhor resultado clínico (por exemplo, menor tempo de internação em UTI) com a monitorização minimamente invasiva, no entanto, apresentou problemas já no recrutamento e incluiu apenas 300 pacientes em 12 meses ao invés dos 500 planejados. Na análise interina, a duração média da internação na UTI foi de 10.5± 10.7 dias para o CAP e 9.8±10.3 dias para os pacientes monitorizados com PiCCO. A diferença foi mínima e, para provar uma redução de 20% no tempo de internação, seriam necessários incluir 3000 pacientes – o que não aconteceu. A análise do estudo mostra que pacientes que foram monitorados com PiCCO apresentaram maior mortalidade, maior tempo em ventilação mecânica, maior tempo de internação hospitalar e balanço hídrico mais positivo . Contudo, após correção para fatores de confusão, mostrou que a escolha da monitorização não influencioumaiores desfechos, mas novamente cita o balanço hídrico positivo como preditor independente de desfecho clínico (parece ser uma tendência dos recentes estudos em terapia intensiva e/ou pós-operatório de pacientes graves). Os resultados, no entanto, não são significantes para definir eficácia, uma vez que nenhum dos métodos de monitorização foi testado para algum algoritmo de tratamento ou objetivo terapêutico definido. Terminamos esse capítulo citando que as tecnologias minimamente invasivas têm trazido nos estudos recentemente publicados um tópico de discussão interessante e pouco explorado anteriormente: custo-efetividade (PEARSE, 2005; MCKENDRY, 2004; GUNN, 2005). Muito mais do que explorar endpoints de mortalidade, nem sempre factíveis de se alcançar - pelos tamanhos amostrais ou pela dificuldade de pareamento de grupos de pacientes graves - os protocolos de ressuscitação volêmica guiados (goal-directed therapy) por essas técnicas (há artigos publicados com LiDCO, CardioQ e PiCCO) têm demonstrado significante redução de custos devido à redução de complicações, diminuição do tempo de internação e alta do paciente em melhor estado geral, o que se traduz também em menor custo de assistência pós- alta. Conclusões A monitorização hemodinâmica fundamentada na utilização do CAP está em declínio ao redor do mundo, principalmente porque outras tecnologias menos invasivas para medir débito cardíaco se tornaram disponíveis. Uma vez que ainda não está totalmente claro se dados hemodinâmicos derivados dessas técnicas alteram a evolução ou o prognóstico dos pacientes graves (assim como também não foi demonstrado com o CAP), estes novos equipamentos devem ser submetidos à avaliação clínica criteriosa, por meio de protocolos. Dessa forma, será possível determinar se a baixa efetividade é exclusiva do CAP ou se é característica de todos os monitores hemodinâmicos que aferem o débito cardíaco. Medir variáveis de fluxo como débito cardíaco ou volume sistólico é relevante no manuseio desses pacientes, especialmente o cardiopata grave e até recentemente, dispunhamos apenas do cateter de artéria pulmonar (CAP) para obter tais informações. 167 Hoje o mercado disponibiliza diversas técnicas de monitorização focados em variáveis de fluxo e responsividade a fluidos. A base do desenvolvimento dessas novas tecnologias foi a análise de contorno de pulso, aplicada à beira leito como resultado dos avanços eletrônicos e na capacidade de processamento dos aperelhos. A monitorização do paciente grave deve fornecer informação útil, no tempo certo e com número limitado de complicações diretamente atribuídas ao método. A técnica ideal deve ser segura, ter acurácia, minimamente invasiva, ser de uso fácil, custo-efetiva e deve transcender os cenários de cuidado contínuo, uma vez que o objetivo da monitorização hemodinâmica é fornecer um panorama do estado circulatório do paciente a fim de auxiliar o médico na definição do diagnóstico, estratégias terapêuticas e prognóstico. Atualmente nenhum instrumento de monitorização preenche todos esses critérios. Referências Bibliográficas Connors AF, Speroff TS, Dawson NV, Thomas C, Harell FE, Wagner D, et al. The effectiveness of right heart catheterization in the initial care of critically ill patients. SUPPORT Investigators. JAMA 1996; 276:889–97. Harvey, S et. al. An evaluation of the clinical and cost-effectiveness of pulmonary artery catheters in patient management in intensive care: a systematic review and a randomised controlled trial. Health Technology Assessment 2006; Vol. 10: No. 29. Wiener, RS, et. al. Tends in the Use of the Pulmonary Artery Catheter in the United States, 1993-2004. JAMA, July 25, 2007 - Vol 298, No. 4, p423. Linton NW, Linton R: Estimation of changes in cardiac output from arterial blood pressure waveform in the upper limb. Br J Anaesth 2001, 86:486-496. Linton RA, Band DM, Haire KM: A new method of measuring cardiac output in man using lithium dilution. Br J Anaesth 1993, 71:262-266. Linton R, Band D, O’Brien T, Jonas M, Leach R: Lithium dilution cardiac output measurement: a comparison with thermodilution. Crit Care Med 1997, 25:1796-800. Pearse, RM. et al. Equipment review: An appraisal of the LiDCO™plus method of measuring cardiac output. Critical Care, June 2004 Vol 8 No 3. S. E. Noblett, et. Al. Randomized clinical trial assessing the effect of Doppler-optimized fluid management on outcome after elective colorectal resection. British Journal of Surgery, 2006; 93: 1069–1076. Pearse, R. et al. Early goal-directed therapy after major surgery reduces complications and duration of hospital stay. A randomised, controlled trial. Critical Care 2005; Vol 9 No 6, p R687. Chytra, I, et. al. Esophageal Doppler-guided fluid management decreases blood lactate levels in multiple-trauma patients: a randomized controlled trial. Critical Care Vol 11 No 1. McKendry M, McGloin H, Saberi D, Caudwell L, Brady AR, Singer M: Randomised controlled trial assessing the impact of a nurse delivered, flow monitored protocol for optimisation of circulatory status after cardiac surgery. BMJ 2004, 329:258-261. Gunn, S.R., et. al. Equipment review: The success of early goal-directed therapy for septic shock prompts evaluation of current approaches for monitoring the adequacy of resuscitation. Critical Care, August 2005 Vol 9 No 4. WC Shoemaker et al (2007) Non-invasive heamodynamic monitoring to predict outcome and guide therapy in acute critical illness. Int J Int Care Spring 2007 Michael Sander, Claudia D Spies, Herko Grubitzsch et al . Comparison of uncalibrated arterial waveform analysis in cardiac surgery patients with thermodilution cardiac output Measurements. Critical Care 2006, 10:R164 Bland JM, Altman DG: Statistical methods for assessing agreement between two methods of clinical measurement. Lancet 1986, 1:307-310. 168 Critchley LA, Critchley JA: A meta-analysis of studies using bias and precision statistics to compare cardiac output measurement techniques. J Clin Monit Comput 1999, 15:85-91. Shigehiko Uchino, Rinaldo Bellomo, Hiroshi Morimatsu, Makoto Sugihara, Craig French et al, and the PAC/PiCCO Use and Likelihood of Success Evaluation [PULSE] Study Group Pulmonary artery catheter versus pulse contour analysis: a prospective epidemiological study.. Critical Care 2006, 10:R174 169 Capítulo 17 CATETER DE ARTÉRIA PULMONAR (SWAN-GANZ) DESCRIÇÃO, INDICAÇÃO, TÉCNICA E COMPLICAÇÕES. INTRODUÇÃO O cateter de artéria pulmonar (CAP) foi introduzido na década de 1970, por Swan & Ganz (por isso sua denominação de cateter de Swan-Ganz), para monitorização hemodinâmica nos pacientes com síndrome coronariana aguda. Seu uso foi ampliado, auxiliando no diagnóstico, monitorização e guia terapêutico do paciente grave. Provêem variáveis hemodinâmicas diversas que devem ser interpretadas à luz do quadro clínico do paciente sendo importante ressaltar que o CAP é uma ferramenta, e que semelhante a outros métodos de monitoração mensura e estima variáveis as quais devem ser obtidas e interpretadas de forma adequada para que a conduta aplicada possa ser benéfica ao paciente. Encontra-se incerto na literatura o quanto realmente o CAP muda a evolução e o prognóstico dos pacientes, sendo esse um dos motivos pelos quais seu uso vem decaindo nos últimos anos devido à dificuldade em demonstrar benefícios no desfecho clinico, além do avanço de outros tipos de monitorização menos invasivas. Na década de 90 iniciou-se discussão sobre o uso do cateter de artéria pulmonar e seu uso passou a ser controverso. Em 1996, Connors et al. publicaram um estudoobservacional sobre o uso do CAP em cinco hospitais universitários e demonstraram que o uso do CAP associava-se a maior mortalidade e custos quando comparado a casos-controle que não o utilizaram. Esse estudo causou grande impacto, mesmo não havendo dados de como as informações obtidas com o CAP foram aplicadas. Posteriormente Harvey não reproduziu em seus estudos as evidências em relação a benefício ou malefício do uso do CAP, no entanto, novamente, não foi avaliada a interpretação do dado que justificava a intervenção realizada. Existem vários pontos que podem corroborar com o real beneficio do CAP e devem ser checados durante seu uso como mensuração correta ( zeragem, calibração, eliminação de artefatos e leitura ), interpretação correta (faz-se baseado no conhecimento apropriado da fisiologia e na integração de elementos do CAP), aplicação correta (mesmo quando os dados são obtidos e interpretados de maneira correta, não é raro encontrar a informação aplicada de forma errada). TIPOS DE CATETERES DE ARTÉRIA PULMONAR CATETER DE ARTÉRIA PULMONAR INTERMITENTE. Esse cateter foi o originalmente idealizado por Swan & Ganz. Possui 110 cm de comprimento, com graduação a cada 10 cm, indicada no corpo do cateter. Sua circunferência varia de 7,0 a 9,0 Fr. É fabricado na cor amarela, sendo à base de poliuretano ou látex. Esse cateter possui as seguintes características: Lúmen distal: termina na ponta do cateter, usado para mensurar a pressão da artéria pulmonar (PAP) quando o balonete encontra-se desinflado, ou a pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) quando o mesmo encontra-se insuflado e encunhado (Figuras 1A e 1B). 170 A) B) FIGURA 1: A) Indica CAP localizado no tronco da artéria pulmonar. B) Indica CAP localizado nos ramos distais da artéria pulmonar com balonete insuflado (detalhe da seringa insuflada no canto inferior direito). OLD corresponde a orifício do lúmen distal. Lúmen proximal: termina em uma abertura situada a 26 cm da ponta do cateter. Através desse lúmen é medida a pressão de átrio direito (PAD). Lúmen do termistor: contém os cabos que medem a temperatura sanguínea da artéria pulmonar e geram a curva de variação térmica associada ao tempo e volume de sangue, a qual é utilizada para calcular o débito cardíaco. Sua abertura localiza-se na superfície do cateter – 4 cm da ponta. Lúmen de enchimento do balão: termina em um balão de látex na ponta do cateter. Ao insuflar o balão com 1,5 mL de ar (capacidade total de enchimento do balão) ocorre migração do cateter da artéria pulmonar em direção aos capilares, com oclusão do mesmo e medida da POAP. As características do cateter descritas acima podem ser verificadas na Figura 2. Podem existir variações desse cateter com outros lúmenes: Lúmen acessório: sua abertura localiza-se próximo àquela que mede a PAD e é usada para administração de drogas e fluidos, porém essa infusão pode influenciar as medidas pressóricas. A B C D E F G OLD FIGURA 2: Esquema do CAP com as características descritas na texto, dito como Padrão ou Standard (originalmente idealizados pelos doutores Swan & Ganz). Conforme indicação da figura: A – Balonete B – Conector do Termistor C – Seringa (3,0 ml) D – Via de conexão da seringa para insuflar e desinsuflar o balonete. E – Via do Lúmen Distal (Medida da pressão de Artéria Pulmonar). F - Via do Lúmen Proximal (Medida da Pressão de Átrio Direito). G – Via Acessória 171 Lúmen para instalação de marcapasso: conforme descrito para inserção conjunta de marcapasso provisório. Nesse caso as distâncias entre os orifícios dos lúmenes sofrem uma discreta mudança. A Figura 3 (A e B) demonstra um exemplo de CAP com algumas dessas variações. A) B) FIGURA 3: Esquema representativo do CAP com variações nos lúmens originais com vias acessórias para (A) infusão de fluídos e (B) associação de marcapasso provisório. CATETER DE ARTÉRIA PULMONAR COM DÉBITO CARDÍACO CONTÍNUO POR TERMODILUIÇÃO E OXIMETRIA VENOSA MISTA CONTÍNUA (SVO2). Traz como evolução a medida contínua do débito cardíaco (DC) pelo método de termodiluição por aquecimento do sangue sendo possível através da associação de um filamento térmico com 10cm de comprimento, que envolve o CAP e permanece no interior do ventrículo direito (VD), estando de 15 a 25 cm da ponta do cateter conforme visto na Figura 4. Ao contrário do CAP com débito cardíaco intermitente, onde um volume predeterminado de solução salina com temperatura inferior a sanguínea era injetado, nesse, um filamento térmico, gera energia (≈7,5W) randomizada e aleatória que aquece o sangue em torno do cateter (que permanece sempre menor que 44ºC, o que é seguro tanto para o miocárdio quanto para os elementos do sangue) e essa variação é captada e determina o fluxo sanguíneo. A Figura 5 demonstra de forma esquemática a variação da temperatura pelo filamento e a medida do débito cardíaco contínuo. Essas informações são atualizadas a cada 55 segundos com atualização de tendências a cada 3 a 6 minutos, sendo a medida do débito cardíaco contínua, porém em tempo quase real. Estudos mostraram que a medida do débito cardíaco contínuo apresenta excelente correlação com o débito cardíaco intermitente, mesmo com uso por tempo prolongado do cateter (Tabela 1). 172 TABELA 1: A tabela acima aponta os estudos que demonstraram boa correlação entre a medida do débito cardíaco de forma intermitente e contínua através do CAP. Variáveis Estudadas Concordância Autores Ano População Idade N n r Erro DP Yeldermann 1990 UTI ni 54 222 0,94 0,3% 11,5% Boldt et al. 1994 UTI ni 35 404 ni 0,03 L/min 0,52 L/min Haller et al. 1995 UTI 24-79 14 163 0,91 0,35 L/min 1,01 L/min Böttiger et al. 1995 TH 48±11 20 192 0,89 0,240 L/min 1,79 L/min Burchell et al. 1997 UTI ni 21 202 0,49 L/min 1,01 L/min Mihm et al. 1998 UTI ni 47 372 0,92 0,12 L/min 0,84 L/min Medin et al. 1998 UTI 17-77 20 306 0,87 ni ni Zöllner et al. 1999 CC 29-86 20 240 0,89 0,52 L/min 1,29 L/min Schmid et al. 1999 UTI 51-81 56 167 0,85 0,052 L/min 0,90 L/min Singh et al. 2002 CC 57.1±11.6 20 400 0,78 - 0,095 L/min 0,729 L/min Legenda: N = Número de pacientes, n = número de medidas realizadas, DP = desvio padrão, ni = não indicado, r = coeficiente de correlação, UTI = unidade de terapia intensiva, TH = transplante hepático e CC = cirurgia cardíaca. A) B) FIGURA 4: CAP com medida de débito cardíaco contínuo. Notar a presença do filamento térmico no interior do ventrículo direito que, de forma aleatória e randomizada aquece o sangue em torno do cateter, gerando variação de temperatura e medida do débito cardíaco. 173 Outra monitorização presente nesse modelo é a medida contínua da saturação venosa de oxigênio na artéria pulmonar. Essa é realizada através de duas fibras ópticas (Figura 6) incorporadas em um dos lúmenes do cateter, onde através da espectrofotoscopia de reflexão dois padrões de luz são emitidos e refletidos, sendo então captados pela segunda fibra óptica, encaminhada a um microprocessador que interpreta e calcula a diferença entra a hemoglobina total e a oxihemoglobina, aferindo assim a SVO2 (Figura 7). A Figura 8 demonstra esquemado CAP com medida da SVO2 e dos seus demais componentes. FIGURA 5: Demonstração esquemática da emissão randômica de pulso pequenos de energia (≈7,5W) com geração de calor e variação de temperatura sanguínea e medida do débito cardíaco contínuo. FIGURA 6: Representação da porção distal do CAP demonstrando balonete insuflado com a emissão do padrão de luz para leitura da SVO2. FIGURA 7: Demonstração da medida da SVO2 através da emissão e reflexão de dois padrões de onda e sua interpretação por monitores especializados. 174 CATETER DE ARTÉRIA PULMONAR VOLUMÉTRICO. A avaliação da volemia e da pré-carga tornou-se uma realidade através da mensuração da fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD), volume sistólico final do ventrículo direito (VsfVD), volume diastólico final do ventrículo direito (VdfVD) e o índice do volume diastólico final do ventrículo direito (IVdfVD) a partir da década de 80 através do CAP Volumétrico. Inicialmente tal tecnologia foi associada ao CAP de DC intermitente (já não mais utilizado), porém com a possibilidade de mensuração contínua do DC em tempo quase real essa tecnologia foi agregada possibilitando essas medidas associadas. Para isso o CAP possui, além dos lúmenes e tecnologias já citadas, um termistor de resposta (com eletrodos próxima e distal inseridos a 6,0 e 16 cm respectivamente, conforme demonstrado na Figura 9) que de forma mais sensível e precisa (em até 20 milissegundos) captam a variação da temperatura. Quando ocorre variação de 80% da temperatura para a linha de base, inicia-se a captura dos batimentos cardíacos e a inclusão desses em uma curva com ao menos três desses sendo consecutivos (para isso um cabo capta o sinal do ECG do monitor multiparamétrico e o transmite ao software). Analisando-se a distância do ponto na curva até a linha de base, afere-se a FEVD (Figura 10 e 11) FIGURA 8: Modelo esquemático de CAP com vias de medida de SVO2. FIGURA 9: CAP Volumétrico mostrando eletrodos proximal (seta contínua) e eletrodo distal (seta pontilhada) para medida da variação da temperatura e medida da FEVD. 175 Através da FEVD pode-se calcular obter outros dados com índice de volume sistólico (IVS), índice do volume diastólico final do ventrículo direito (IVdfVD), índice do volume sistólico final do ventrículo direito (IVsfVD), da forma demonstrada abaixo. IVS = IC/ FC IVdfVD = IVS/ FEVD IVsfVD = IVdfVD – IVS Para a realização correta de tais dados, o software necessita de uma correta aferição do intervalo R-R do ECG, sendo essa técnica limitada para pacientes com arritmia cardíaca (principalmente com intervalo R-R irregular) e extremos de frequência cardíaca (tanto taquicardia quanto bradicardia). Outro fator limitante às medidas seriam os extremos de temperatura. Dados de literatura demonstram que a medida da FEVD é um método seguro e simples e quando comparada ao ecodopplercardiograma bidimensional existe uma correlação com r2 = 0,74 e p < 0,001. Além de dados de volemia a FEVD pode auxiliar na introdução e retirada de inotrópicos em pacientes com disfunção de VD ou nos pacientes sob ventilação mecânica com pressão expiratória final positiva (PEEP) como aquelas com síndrome do desconforto respiratório agudo (ARDS). A comparação entre a FEVD medida pelo CAP e outros métodos apresenta grande dificuldade, visto a inexistência de um gold-standard praticável a beira leito padronizado. Segundo alguns autores, o IVdfVD aparenta ser o dado que melhor se correlaciona para medida da pré-carga e avaliação da volemia do paciente, sendo a variável que melhor se correlaciona à variação do IC, sendo superior à POAP e à PVC. INDICAÇÕES: Algumas indicações do uso do CAP são citadas abaixo: FIGURA 10: Medida do DC e captura dos pontos de três batimentos cardíacos consecutivos, na curva, após de variação de 80% da temperatura para linha de base. FIGURA 11: Demonstração das fórmulas usadas para cálculo da FEVD e seus pontos (C1, C2 e C3) no gráfico do DC. 176 • Infarto agudo do miocárdio associado a choque cardiogênico • Infarto agudo do miocárdio associado a complicações mecânicas • Infarto agudo do ventrículo direito • Insuficiência cardíaca refratária • Hipertensão pulmonar (manejo, diagnóstico diferencial das etiologias de hipertensão pulmonar secundária e resposta a vasodilatadores) • Choque e instabilidade hemodinâmica (classificação dos estados de choque, diagnóstico etiológico e manejo clínico) • Perioperatório de cirurgia cardíaca e cirurgia de aorta. • Pré-eclâmpsia com complicações • Trauma • Choque séptico • Sepse (principalmente nos pacientes que não respondem às medidas iniciais e que evoluem para disfunção orgânica, caracterizando sepse grave) • Insuficiência respiratória aguda • Pacientes pediátricos (principalmente nos casos de hipertensão pulmonar, choque refratário à reposição volêmica e/ou doses baixas ou moderadas de drogas vasoativas, insuficiência respiratória grave requerendo ventilação com pressões altas em vias aéreas, disfunção de múltiplos órgãos em raras ocasiões). O uso de CAP no período perioperatório indicado apenas pela idade do paciente não parece adequado. Não existem dados que possibilitem avaliar qual o impacto do uso do CAP em complicações e mortalidade dos pacientes submetidos a procedimentos neurocirúrgicos. Não se recomenda a utilização do CAP para guiar o aumento da oferta de oxigênio para valores supranormais em pacientes com SIRS, disfunção orgânica da sepse, trauma ou complicações pós-operatórias. A publicação dos dados (já citados) que geraram dúvidas sobre o uso do CAP desencadeou uma série de eventos nos anos de 1996 e 1997 com a participação de várias especialidades e sociedades (American Association of Critical Care Nurses, American College of Chest Physicians, American College of Critical Care Medicine, American Thoracic Society, European Society of Intensive Care Medicine e Society of Critical Care Medicine) com o intuito de tornar seguro o seu uso (desde a passagem até a interpretação dos seus dados). MATERIAIS E TÉCNICAS DE PASSAGEM DO CAP: Todo material utilizado para passagem do CAP deve ser examinado e conferido com cuidado pelo médico. Alguns aspectos gerais devem ser considerados para uma adequada performance e podem ser circunstancialmente tão importantes que se tornam limitantes à introdução do cateter. Todo o equipamento de monitorização deve estar posicionado, calibrado e zerado (Figura 12). Figura 12: Material necessário para cateterização da artéria pulmonar. 177 Após a escolha do sítio de punção, o paciente deve estar posicionado de forma a permitir fácil introdução. O paciente deve colaborar com a realização do procedimento ou uma sedação eficaz deverá ser empregada. Condições cardiopulmonares mínimas devem ser garantidas para viabilizar o procedimento, mesmo que seja necessária ventilação mecânica, emprego de inotrópicos e reposição volêmica prévia ou concomitante. Técnica de inserção: A introdução do CAP deve seguir os princípios gerais do cateterismo de veias centrais através da técnica de Seldinger. Em nossa instituição a punção venosa é realizada com auxílio do USG na tentativa de minimizar as complicações associadas. A Tabela 2 descreve alguns aspectos da inserção do CAP. Tabela 2: Aspectos básicos da inserção do CAP Preparo do paciente •Instrua o paciente sobre os aspectos técnicos do procedimento, garantindo a sua colaboração. • Proceda à sedação se tiver dúvidas quanto à cooperação do paciente • Nos casos instáveis, é sempre mais seguro garantir suporte ventilatório antes de proceder à inserção do cateter. • Coloque o paciente preferencialmente em decúbito dorsal horizontal, com a cabeça virada para o lado oposto à inserção do cateter. • Eletrocardiograma, testes de coagulação sanguínea e radiografia de tórax devem ser sempre verificadas antes do procedimento • Lidocaína profilática não está indicada mesmo em pacientes com arritmias ventriculares. Escolha do sítio/antissepsia e assepsia • Sempre que possível utilize a via jugular, (pois o pneumotórax é a complicação mais frequente e mais grave. • Na maioria dos pacientes, a veia jugular interna direita é mais calibrosa, mais retificada e menos sujeita a obstáculos. • Use sempre paramentação completa incluindo avental, máscara Material: • Pressurizador • Conexões • Zero • Calibragem • Introdutor 178 e gorro. • Use campos estéreis, grandes, o que permitirá manipulação mais confortável de todos os materiais. Punção venosa e introdução de fio-guia • O uso da USG como guia à punção minimiza suas complicações. • Utilize os guias com ponta curva e flexível, procurando não introduzi-los até o ventrículo direito pelo risco de arritmias. Dilatação e colocação do introdutor • É durante a dilatação que ocorrem os acidentes hemorrágicos • Introduza o dilatador somente o suficiente para atingir o lúmen da veia evitando sua transfixação • Coloque a seguir o introdutor e teste sua permeabilidade instalando um soro de manutenção na via lateral • Lembre-se de que o introdutor valvulado não bloqueia a entrada de ar no sistema • Coloque a tampa do introdutor quando houver demora na introdução do cateter para evitar embolia gasosa • Fixe o introdutor na pele para permitir maior segurança na manipulação Colocação do protetor do cateter, teste do balão e inserção • A proteção de plástico (Figura 13), colocada em torno do cateter, é indispensável para futuros reposicionamentos. • A inserção não deve ser demorada, pois com o aquecimento do cateter a rigidez ideal para sua introdução vai sendo perdida. • Conecte todas as vias de pressão e proceda a zeragem e calibração do sistema de oximetria (Figura 14). • Antes de introduzir o cateter, verifique a integridade do balão em sua extremidade (Figura 15). Progressão do cateter • Quanto mais baixo o débito cardíaco, mais lenta deve ser a progressão do cateter, que deve ser acompanhada pelas curvas de pressão de acordo com o esquema que se segue. • Arritmias são comuns durante a permanência do balão insuflado dentro do ventrículo direito, por isso evite mantê-lo nessa posição por períodos prolongados. • Logo após introduzir 15 cm do cateter, o balão já ultrapassou o introdutor; insufle o balão no máximo de volume e proceda a sua introdução. • Entre 20 a 30 cm de introdução deveremos observar o traçado característico de um atriograma, com as ondas características (Figura 16). • No intervalo de 30 a 45 centímetros, notaremos súbita mudança no traçado, observando-se grande amplitude sistólica nas curvas indicativas de seu posicionamento no ventrículo direito (Figura 17). • Após essa fase, a pressão diastólica eleva-se sugerindo a passagem da extremidade do cateter para a artéria pulmonar. Outro dado será a presença de nó dicrótico (Figura 18). • Finalmente, próximo de 50 a 60 cm, a curva de pressão volta a ser semelhante a um atriograma, indicando que o balão ocluiu a luz da artéria pulmonar cateterizada (Figura 19). • Caso não exista correspondência entre o comprimento introduzido do cateter e o traçado de curva esperado, desinfle o balão e repita o procedimento do seu início. • Grandes dificuldades no posicionamento indicam: punção de local inadequado, débito cardíaco muito baixo ou alterações 179 anatômicas severas como disfunções valvares ou cardiomegalia pronunciada. • Em casos extremos, recorra à radioscopia, para o correto posicionamento. Teste de oclusão ou “capilarização” • Reposicione e coloque a ponta do cateter o mais próximo possível, evitando rupturas vasculares e trombose. • Em posição proximal, a leitura da pressão é mais confiável. • Insufle o balão sempre de forma cuidadosa e acompanhando o traçado da curva pressórica: injete somente a quantidade mínima de ar para obter a leitura da pressão ocluída Curativo, vigilância e troca do sistema • Curativo seco e permeável deve ser aplicado junto ao introdutor • Diariamente, deve ser vigiado o aspecto da pele. • Caso a pele torne-se eritematosa ou purulenta, todo o sistema deve ser trocado, puncionando-se um sítio diferente. • O tempo máximo de monitorização com um mesmo sistema é de seis dias Kit Swan-Ganz • Cateter Swan-Ganz 7 fr (débito contínuo) • Kit introdutor percutâneo 8,5 fr • Kit monitorização completo • Xylocaína 2% s/v fap 20 ml • Água bidestilada 10 ml ampola • Heparina 5.000 ml fap • Solução de glicose 5% 500 ml fr PVC • Solução fisiológica 0,9% 500 ml fr PVC • T com sensor de temperatura • Compressa de gaze estéril com 10 • Luva estéril 7,5 • Equipo macro longo • Polifix 2 vias • Agulha descartável 30 X 07 • Torneirinha 3 vias • Mononylon 3.0 3-171 envelope Confirmação da Posição do Cateter/ Pesquisa de complicações • Faça um exame físico procurando complicações no local da punção, região cervical e torácica. • Solicite radiografia de tórax após a passagem do cateter e faça novo controle a cada 24 horas, investigando complicações. 180 !! Figura16: Traçado característico de atriograma. ! ! Figura 17: Traçado característico de ventriculograma Figura 14: Calibração do sistema de oximetria. Figura 13: Colocação do protetor plástico precedendo a inserção do CAP. Figura 15: Teste da Integridade do balão. 181 ! ! Figura 18: Traçado característico de artéria pulmonar. Notar presença do nó dicrótico ! ! Figura 19: Traçado característico da pressão da artéria pulmonar ocluída. COMPLICAÇÕES A incidência das complicações associadas ao CAP varia de acordo com a experiência do operador estando entre 0,1 a 0,5%. Foram descritas em estudos retrospectivos ou análise de casos individuais com poucos estudos prospectivos sobre elas. Devido a esse fato sua real incidência é desconhecida. Podem ser classificadas de acordo com as diferentes fases do procedimento e estão descritas na Tabela 3. Tabela 3: Complicações da cateterização da artéria pulmonar Punção Venosa/ Inserção do Introdutor/ Fio Guia Posicionamento do CAP Permanência do CAP Retirada do CAP/ Introdutor Pneumotórax Arritmia Arritmia Arritmia Hemotórax Lesões estruturais Infecção Lesões estruturais Hematoma Mau posicionamento Trombose/embolia Nós Punção arterial BRD Endocardite Embolia gasosa Embolia gasosa BAVT Infarto pulmonar Quebra do cateter Mau posicionamento Ruptura do balão, Artéria Pulmonar u VD 182 Dissecção venosa Ruptura da artéria pulmonarPseudoaneurisma da artéria pulmonar Hemorragia Embolia gasosa Medidas ou interpretações errôneas Ruptura do VD Complicações durante a Punção Venosa/ Inserção do Introdutor/ Fio Guia: As complicações decorrentes da inserção do introdutor são as mesmas de qualquer punção venosa central. Relatos de literatura demonstram sucesso em 96% das vezes em que se tenta puncionar um acesso venoso central, porem em 7% dos pacientes podemos observar complicações, mesmo com uso da ultrassonografia (USG). Grande parte das publicações relata maior incidência de pneumotórax e hemotórax com o uso do acesso venoso subclávio (Figura 20). A cateterização da veia jugular interna teria menor incidência de complicações e facilitaria o posicionamento do cateter, sendo considerada a via de acesso venoso preferido para esse procedimento. Nesse sítio a punção acidental da artéria carótida é a complicação mais comum com relatos dessa complicação em até 10% dos casos. Outros exemplos de complicações do procedimento estão descritos na Tabela 4. A USG nos proporcionou estudar melhor a anatomia. Quarenta e nove porcento das veias jugulares internas são realmente laterais à artéria carótida, 44% são anterolaterais, 5% são anteriores e 2% são mediais a ela. Após a associação dessa técnica relatos de literatura chegar a descrever zero porcento de complicação de punção venosa. Complicações Durante o Posicionamento do CAP: Durante a passagem ou posicionamento do CAP podem ocorrer as complicações descritas abaixo. Figura 20: Pneumotórax à esquerda produzido durante a tentativa de punção da veia subclávia. Observa-se o CAP introduzido pela veia subclávia direita que se encontra mal posicionado, formando uma alça no ventrículo direito. 183 Arritmias Cardíacas que podem ocorrer em 60% a 70% das cateterizações da artéria pulmonar (Tabela 4). Apesar de alta incidência o uso profilático de antiarrítmico não é uma recomendação aceita e praticada. Tabela 4: Arritmias observadas durante o posicionamento do CAP • Extra-sístoles atriais e ventriculares • Taquicardia ventricular • Fibrilação ventricular • Bloqueio transitório do ramo direito • Bloqueio AV completo (em pacientes com bloqueio do ramo esquerdo preexistente) A mais comum é o aparecimento de extra-sístoles ventriculares. Em até 20% das cateterizações, pôde-se documentar episódios de taquicardia ventricular não sustentada (5 a 30 extra-sístoles ventriculares consecutivas). Em menos de 3% dos casos, as arritmias se sustentaram e houve necessidade de tratamento. O bloqueio do ramo direito pode ocorrer em 6% a 12% das inserções de CAP. A localização superficial do ramo direito abaixo da valva tricúspide o torna vulnerável a traumas pelo cateter. Se existir previamente bloqueio do ramo esquerdo, o aparecimento do bloqueio do ramo direito poderá causar bloqueio completo (BAVT). Quando o bloqueio do ramo direito ocorre, ele tende a desaparecer em 24 horas. Não há relatos sobre a incidência de bloqueio de ramo completo, mas por se tratar de complicação potencialmente fatal existem sugestões do uso profilático de marcapasso cardíaco (mesmo que externo) em pacientes de alto risco ou da utilização de CAP/marcapasso nos portadores de bloqueio de ramo esquerdo. Entretanto, parece ser consenso que na presença de infarto agudo do miocárdio com bloqueio de ramo esquerdo (novo), medidas profiláticas deverão ser tomadas. As lesões estruturais geralmente são achados de necrópsia. Existem descrições de petéquias e perfurações na valva pulmonar, tricúspide, parede atrial, ventricular e da artéria pulmonar. Embora não existam dados disponíveis para se avaliar qual a importância clínica dessas lesões, elas certamente poderiam levar a aumento de morbidade. O mau posicionamento do CAP pode ocorrer e é detectado quando as curvas de pressão apropriadas não são observadas ou pela radiografia de tórax de controle (Figuras 20 e 21). Estudos demonstraram que 2,6% dos CAP não puderam ser colocados na artéria pulmonar. A real incidência do insucesso em se posicionar adequadamente o CAP, entretanto, é desconhecida. Fatores que corroboram para sua ocorrência seriam baixo débito cardíaco, insuficiência tricúspide ou dilatação de câmaras cardíacas direitas. Se necessário, a radioscopia pode auxiliar no posicionamento. A perfuração cardíaca é uma complicação rara, mas extremamente grave. Geralmente, ocorre em pacientes submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica com infarto recente. Além da presença do miocárdio enfraquecido pelo infarto, a solução de cardioplegia pode tornar o cateter mais rígido. Figura 21: CAP introduzido de forma excessiva, posicionado na periferia, produzindo infarto pulmonar distal. 184 Complicações durante a permanência do CAP: A incidência de infecção em CAP é menor que o relatado com outros cateteres venosos centrais, talvez por menor manipulação dos lúmenes. Na década de 1970, a incidência de sepse relacionada ao CAP era de 2%, e os relatos mais recentes apontam um índice de 0% a 1%. Estudos recentes relatam uma incidência maior de colonização do CAP após o quinto dia de permanência. Cultura da ponta do CAP identificou bactérias em 5,8 a 33% dos cateteres estudados, com risco de aumento de 0,3 a 0,5% por dia de permanência do mesmo. A incidência de bacteremia relacionadas ao CAP é maior, variando de 1% a 6% e a incidência de infecção local é de 17%. Lesão endocárdica não infecciosa pode ser encontrada em até 90% das necrópsias de pacientes que estavam em uso de CAP. A incidência de endocardite infecciosa é desconhecida, existindo relatos de valores menores que 2%. Apesar de a maioria das arritmias ocorrer durante o posicionamento do CAP, elas podem surgir em qualquer período do seu uso. Essas arritmias são decorrentes da irritação mecânica causada pelo cateter e podem ser persistentes, necessitando de remoção do mesmo. Muitas vezes, as arritmias são secundárias ao retorno parcial do cateter para dentro do ventrículo direito ou pela formação de alças dentro dele. A literatura médica relata baixa incidência de ruptura de artéria pulmonar, variando de 0,034% a 0,125%. A mortalidade relatada nesses casos se encontra entre 45% a 70%. A verdadeira incidência pode estar subestimada, fazendo com que a mortalidade seja superestimada. Geralmente se apresenta como hemoptise, muitas vezes maciça, exigindo medidas de emergência como intubação seletiva, broncoscopia ou abordagem cirúrgica. Os prováveis mecanismos envolvidos incluem: - Insuflação do balão causando lesão da íntima com consequente ruptura da parede durante as medidas da pressão de oclusão. - Migração distal do cateter durante a desinsuflação do balão, levando à perfuração da artéria por sua extremidade. - Insuflação excêntrica do balão fazendo com que a extremidade do cateter se projete além dele. Nessa situação, durante a insuflação do balão, a extremidade do cateter poderia ser pressionada contra a parede (Tabela 5). Tabela 5: Fatores de risco identificados para rotura da artéria pulmonar • Idade maior que 60 anos: • Hipertensão pulmonar: • Circulação extracorpórea. • Cardioplegia por hipotermia endurecendo o cateter • Hipotermia • Anticoagulação • Uso crônico de corticosteróides • Lavagem do cateter (flushing) em posição de oclusão Pseudoaneurisma da artéria pulmonar é uma complicação tardia da rotura da artéria pulmonar. Acontece a rotura da artéria pulmonar com formação de um coágulo contido pelas estruturas vizinhas. O desenvolvimento do pseudoaneurisma ocorre em dois dias a sete meses, sendo diagnosticado geralmente na