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Universidade Federal do Rio de Janeiro Da Violência Pulsional Ao Ato de Criação Artística Pedro Cattapan 2004 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. ii A criatividade e a arte da psicanálise no mundo contemporâneo Pedro Cattapan Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica. Orientadora: Marta Rezende Cardoso Rio de Janeiro Janeiro/2009 iii Da Violência Pulsional Ao Ato de Criação Artística Pedro Cattapan Orientadora: Marta Rezende Cardoso Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica. Aprovado por: __________________________________________________ Presidente, Profa. Dra. Marta Rezende Cardoso Prof. Dr. Joel Birman Dra. Ivanise Fontes Rio de Janeiro Janeiro/2009 iv Cattapan, Pedro. Da violência pulsional ao ato de criação artística/ Pedro Cattapan. Rio de Janeiro: UFRJ/IP, 2004. x, 111 f.; 29,7 cm Orientadora: Marta Rezende Cardoso Dissertação (Mestrado) – UFRJ/IP/Programa de Pós- graduação em Teoria Psicanalítica, 2004. Referências Bibliográficas: f. 111-116. 1. Criação artística 2. Violência 3. Alteridade. I. Cardoso, Marta Rezende. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Instituto de Psicologia/ Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica. III. Título v Ao meu irmão Felipe vi AGRADECIMENTOS Ao CNPQ, pela bolsa de estudos a mim concedida. À minha orientadora Profa. Dra. Marta Rezende Cardoso, pela atenção e dedicação. Aos meus pais e meu irmão Bernardo, pela força e pelo apoio. À minha namorada Tatiana, pelo carinho e pelo incentivo. Ao meu amigo Pedro e a outros inspiradores artistas amigos. Aos professores doutores Joel Birman e Teresa Pinheiro, pelas esclarecedoras aulas. A Pedro Henrique Rondon, pela cuidadosa revisão. E aos professores do Departamento de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica. vii RESUMO Da Violência Pulsional Ao Ato De Criação Artística Pedro Cattapan Orientadora: Marta Rezende Cardoso Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Teoria Psicanalítica. Essa dissertação é dedicada ao estudo do processo de criação artística, tendo em vista a sua articulação com a questão da violência pulsional. Esta está referida à ação da pulsão de morte e seus efeitos de desestruturação da instância egóica. O ego pode fazer uso de certos mecanismos visando dar conta daquilo que lhe é radicalmente estrangeiro, “marcas” que tendem a resistir de forma particularmente intensa à ação das pulsões de vida. Buscou-se diferenciar o processo de criação artística da sublimação que visa, prioritariamente, a restauração da unidade, a serviço do ego e de Eros. No ato de criação artística opera-se a assimilação de uma alteridade interna, sem que se obture, no entanto, a abertura a essa estraneidade, via singular de integração do material “intraduzível” na unidade egóica. Contemplamos nesta pesquisa a dimensão criadora da subjetividade humana, própria à tensão entre pulsão de morte e as pulsões de vida, já que nessa abertura ao traumático que o ato de criação artística promove, processa-se, ao mesmo tempo, uma elaboração psíquica e a atualização do encontro com a alteridade. Palavras-chave: Criação Artística, Violência, Alteridade, Dissertação (Mestrado), Psicanálise. Rio de Janeiro Janeiro/2004 viii ABSTRACT From Drive Violence To The Act Of Artistic Ability Pedro Cattapan Tutor: Marta Rezende Cardoso Abstract of the Dissertation presented to the Post-graduation Programme of Psychoanalytic Theory, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, as a part of the requisites for obtaining the Master’s Degree in Psychoanalytic Theory. This dissertation is intended to studying the process of artistic creation, from the perspective of its articulation to the issue of drive violence. This violence is referred to the action of the death drive and its effects that shatter the ego’s structure. The ego can utilize certain mechanisms aiming at dealing with what is radically stranger to itself - the “traces” that tend to resist in a specially intense way to the action of the life drives. We tried to distinguish the process of artistic creation from sublimation, which aims as a priority at the restoration of the unity, at the service of the ego and of Eros. In the act of artistic creation the assimilation of the inner otherness is effected, without closing, however, the path to this strangeness, unique way to the integration of the “untranslatable” material into the ego unit. In this research we regard the creative dimension of human subjectiveness, characteristic to the tension between death drive and life drives. In this staying open to what is traumatic – promoted by the act of artistic creation – a psychic working through and the updating of the encounter with otherness are processed simultaneously. Key-words: Artistic creation, Violence, Otherness, Dissertation (Master’s Grade), Psychoanalysis. Rio de Janeiro Janeiro/2004 ix SUMÁRIO INTRODUÇÃO…………………………………………………...…....página 1 I SOBRE A SUBLIMAÇÃO......................................................................página 7 I.1 Primeiras teorizações sobre a sublimação..................................................página 9 I.1.1 Sublimação e arte......................................................................................página 11 I.2 Duas sublimações.....................................................................................página 13 I.2.I O artista Leonardo da Vinci.....................................................................página 13 I.2.2 Artista versus cientista.............................................................................página 15 I.3 O ego e a sublimação...............................................................................página 20 I.3.1 O ego, a ciência e a arte...........................................................................página 23 I.4 A sublimação na origem..........................................................................página 27 II O ATO ARTÍSTICO..............................................................................página 30 II.1 As relações entre o pulsional “disruptivo” e oego.................................página 31 II.1.1 O trauma..................................................................................................página 32 II.1.2 A teoria da sedução generalizada............................................................página 35 II.1.3 As marcas do trauma...............................................................................página 37 II.1.4 As marcas e a atividade artística.............................................................página 41 II.2 Freud e o ato............................................................................................página 44 II.2.1 O ato e a ligação......................................................................................página 45 II.2.2 O ato fora do “eixo da representação” ....................................................página 49 II.3 O ato artístico em sua especificidade......................................................página 50 II.3.1 O ato artístico como resposta à violência pulsional............................... página 52 II.3.2 O “tratamento” da violência psíquica......................................................página 57 II.3.3 O endereçamento.....................................................................................página 63 III SOBRE A INSPIRAÇÃO ARTÍSTICA...............................................página 68 III.1 A inspiração.............................................................................................página 69 III.1.1 Da sublimação à inspiração....................................................................página 73 III.1.2 A inspiração e a experiência-limite.........................................................página 77 III.2 A criatividade..........................................................................................página 82 III.2.1 Impasses e aproximações entre a criatividade e a inspiração.................página 82 III.2.2 Os elementos feminino e masculino.......................................................página 86 x III.2.3 O olhar do outro e a criatividade.............................................................página 89 III.3 O fascínio................................................................................................página 91 III.3.1 A gênese de uma postura estética...........................................................página 93 III.3.2 A postura estética do artista....................................................................página 97 CONCLUSÃO....................................................................................página 104 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................página 111 INTRODUÇÃO A criação artística apresenta-se como um fenômeno misterioso, instigante, para o público em geral, de modo que os artistas, desde muito tempo, têm ocupado lugar de destaque em nossa civilização. Parece-nos que a arte e os artistas trazem esta “aura de mistério” em parte por conta da afetação que as obras de arte provocam no público, em parte por conta do fascínio que desenvolvemos pelas personalidades criadoras que pagam alto preço para realizar seus trabalhos. É freqüente encontrarmos na história e nos depoimentos de vários grandes artistas uma descrição de seus trabalhos artísticos como algo que se impõe a eles, que os domina e a que sentem-se submetidos. Através desses depoimentos podemos reconhecer que a mente criadora destes sujeitos apresenta- se como enigmática não só para o público em geral, mas também para eles mesmos. Freud, também fascinado pelas artes e pelos artistas, interessou-se por estudá-los – de fato, a criação artística diz respeito a um modo de funcionamento psíquico particular, a uma singular forma de expressão do sujeito e isso não poderia deixar de interessar a Freud, ou a nós mesmos, como pesquisadores que se orientam pela investigação psicanalítica. Freud, de fato, voltou-se inúmeras vezes para uma investigação da mente e da obra dos grandes artistas, como podemos perceber em trabalhos como “Escritores criativos e devaneio” (1908e), “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (1910c), “O Moisés de Michelangelo” (1914b), “O estranho” (1919h), “Dostoievski e o parricídio” (1928b) entre outros. Entretanto, sempre reconheceu o conhecimento psicanalítico que pôde adquirir do processo criativo 2 presente nos artistas como insuficiente, e assim mais freqüentemente tratou de analisar as obras e os artistas do que o processo criativo propriamente dito. Pois é justamente sobre o processo criativo que recai nosso interesse porque parece-nos que o “mistério” da arte diz respeito à própria criação – é como se emergisse a pergunta: Como é possível realizar a criação artística? O que permite ao artista criar? Deste modo, perguntamo-nos sobre a natureza da criação artística. É, em parte, por conta de também nos fascinarmos pela criação artística que desejamos investigá-la no intuito de compreender melhor o que é necessário para sua realização. Mas há também outro motivo para nossa investigação, motivo de grande importância porque resulta da observação e da oportunidade de ter experimentado na clínica psicanalítica o atendimento de alguns pacientes que eram artistas. Vale ressaltar aqui a importância da clínica analítica na construção de questões tanto práticas quanto teóricas. No atendimento clínico destes artistas o que se destacou como uma problemática particularmente pregnante a estes sujeitos foi a intensidade dos efeitos destrutivos da pulsão de morte, e a possibilidade elaborativa através da criação artística. Conseqüentemente, reconhecer uma resposta à pulsão de morte no cerne da criação artística parece-nos tarefa fundamental para realizar uma investigação mais aprofundada deste processo. De acordo com nossa observação, acreditamos que a psicanálise pode e deve voltar-se ao estudo dos processos psíquicos que proporcionam a criação da obra de arte porque este trabalho psíquico apresenta-se – e Freud sempre manteve esta posição – como uma resposta privilegiada à demanda pulsional, sendo capaz de direcionar a violência inerente à pulsão para uma elaboração psíquica. De fato, desejamos enfatizar uma estreita articulação entre a criação artística e a violência psíquica. Portanto, tornar- 3 se-á de grande importância para nossa dissertação que assinalemos a presença do disruptivo pulsional na atividade artística. Este posicionamento implica um estudo mais aprofundado da violência psíquica, o que nos remete a um exame do trauma psíquico. A questão da violência a que nos referimos compreende a ação da pulsão de morte, com seus possíveis efeitos desestruturadores da instância egóica. Esta instância pode fazer uso de vários mecanismos de defesa como forma de “sobreviver” ao que há de estranho a ela, ao que resiste à ação das pulsões de vida. A atividade artística, como tentativa de defesa, visaria dominar a invasão pulsional do id no ego. Estas relações de domínio merecem ser estudadas mais aprofundadamente pois remetem-nos a uma organização precária de um aparelho psíquico que tem de se haver com o encontro com o disruptivo pulsional, o que, em outros termos, nos reporta a uma invasão do outro radical interno no ego – a uma prevalência da pulsão de morte no jogo de forças pulsionais. Os violentos efeitos da pulsão de morte no psiquismo, e as tentativas deste para lidar com aquela, estão à espera de investigação, especialmente por conta da relevância que o tema ganha na contemporaneidade.Tanto na clínica psicanalítica contemporânea quanto nas abordagens psicanalíticas sobre a “cultura atual”, a violência psíquica aparece como problemática emergente que põe em questão tanto as suas causas quanto as possibilidades de “tratar” essa violência. É a segunda questão que encontra em nossa pesquisa uma possibilidade de ser mais bem elaborada. Um estudo aprofundado do processo de criação artística apresenta-se como importante via para conhecermos melhor alguns possíveis meios que o psiquismo humano pode desenvolver para lidar com as violentas forças pulsionais: os artistas, 4 sujeitos dominados pela violência pulsional – diferentemente dos sujeitos em situações patológicas graves, os quais são afetados pela violência interna de forma estagnante e destrutiva – conseguem, através da criação artística, tanto elaborar quanto conferir destinos menos destrutivos à pulsão avassaladora. Delineia-se deste modo um questionamento principal, ou seja, a situação-problema de nossa dissertação: qual a natureza das relações entre a violência psíquica e a criação artística? Esta questão leva- nos a também investigar através de quais mecanismos o artista consegue dar conta dos efeitos violentos da pulsão que se expressam em sua arte. Acreditamos que nossa tentativa de responder a estas questões poderá trazer luz sobre o tratamento da violência psíquica e deste modo, contribuir para a construção de um conhecimento psicanalítico acerca de um dos problemas cruciais do mundo contemporâneo – a violência avassaladora que verificamos como presente tanto em quadros psicopatológicos graves quanto em fenômenos sociais não menos graves. O processo de criação artística possibilitaria, simultaneamente, a assimilação de uma alteridade interna radical e a abertura a essa estraneidade, constituindo-se, assim, como via possível de expressão desse material “intraduzível” na unidade egóica. Pretendemos, assim, contemplar o aspecto criador próprio à tensão entre a pulsão de morte e as pulsões de vida pois nesta abertura ao traumático promovida pela criação artística efetua-se um processo de elaboração psíquica, de representação, cuja particularidade é a da manutenção desse encontro com a alteridade. Ao nosso ver, a noção de sublimação – que costumeiramente é empregada em psicanálise como referência nos estudos sobre a criação artística – mostrou-se obscura no plano teórico e também insatisfatória por não remeter-se a este violento embate pulsional que parece fazer-se presente no processo criativo dos artistas. Deste modo, 5 nosso percurso, no que se refere a esta pesquisa, iniciou-se ao buscarmos investigar criticamente as relações entre sublimação e criação artística. Nossa tentativa de aproximar a criação artística dos efeitos violentos da pulsão de morte busca diferenciar, deste modo, o processo de criação artística do processo de sublimação, pois o segundo visa prioritariamente a restauração da unidade a serviço do ego e de Eros, bloqueando a expressão da violência pulsional. Para que alcancemos nosso objetivo, pretendemos, portanto, iniciar nossa abordagem do tema da criação artística pela trilha que Freud construiu: a noção de sublimação. No entanto, a sublimação apresenta-se como apenas o início de uma abordagem do tema da criação artística. Após uma apreciação do tema da sublimação através de autores que se dedicaram ao estudo desta como processo de inserção na cultura, será preciso que a comparemos à criação artística com a intenção de especificar o que é próprio desta e, portanto, o que exige aprofundamento maior, pois escapa a um estudo geral das realizações culturais. Apenas tendo terminado esta primeira etapa de nosso trabalho, sempre a partir de Freud, é que poderemos voltar-nos para um estudo mais detido do próprio ato de criação artística. Será também ao estudar o ato artístico que deveremos ater-nos a um aprofundamento tanto dos efeitos disruptivos da pulsão – e portanto num estudo do traumático – quanto da resposta criativa a esses efeitos. Porém, este estudo escapará de seu objetivo se, após uma apreciação do ato artístico e de suas particularidades, numa terceira etapa não investigarmos que situação psíquica permitiria que este ato de criação artística se realize – afinal, nem todo sujeito consegue realizar este trabalho bem como o próprio artista não parece criar quando quer, e sim quando pode. Deste modo, as condições da criação artística – ou se 6 quisermos, a inspiração (Laplanche, 1999) – serão um ponto de grande importância para compreendermos o que viabiliza o “tratamento” dado à violência psíquica que se observa na atividade artística. O método de nossa investigação se balizará no estudo, aprofundamento e articulação de textos caros aos assuntos em questão. Empreenderemos uma pesquisa em psicanálise; deste modo, articularemos conceitos, termos, teorizações de Freud e de outros autores tanto em psicanálise quanto em outros saberes afins, que nos permitam elaborar uma linha de raciocínio que venha trazer luz sobre as questões que aqui levantamos. Nossa dissertação sobre a criação artística e sua relação com a violência psíquica se enriquecerá, portanto, se, além do olhar psicanalítico sobre a atividade artística, voltarmo-nos para outros pontos de vista sobre o assunto. Desse modo, o olhar dos próprios artistas sobre seu trabalho de criação será valorizado nesta dissertação, sendo que um enfoque especial será dado ao que Vincent Van Gogh escreveu a respeito do assunto – afinal, a vida e a obra deste pintor foram marcadas por uma tensão constante entre a violência psíquica e a arte. O ponto de vista dos pensadores da arte também será vislumbrado à medida que nos oferecem instrumentos outros para o estudo do processo de criação artística pois nos auxiliarão na compreensão do que caracteriza a estética e a obra de arte – pontos importantes para uma compreensão do que é particular ao processo de criação artística e que também trarão luz sobre o aspecto violento desta. Acreditamos que, após a passagem pelas três etapas acima anunciadas, nossas questões poderão ser clarificadas e, conseqüentemente, poderemos ter um maior conhecimento sobre quais mecanismos estão em jogo na criação artística, que permitem que a violência que afeta o artista seja dominada. 7 I SOBRE A SUBLIMAÇÃO Desde o início de sua história a psicanálise contém múltiplas referências ao nosso objeto de estudo – a criação artística. Freud interessou-se intensamente pelo assunto, abordando-o inúmeras vezes em seus textos, e para realizarmos um estudo devidamente rigoroso, é necessário que nos balizemos inicialmente naquilo que ele produziu sobre o tema. Afinal, as trilhas que daí se seguiram – a ampliação da teoria e os problemas que se levantaram acerca da criação artística – dizem respeito às primeiras abordagens dessa questão, ou seja, ao que Freud trabalhou e ao que deixou de trabalhar sobre a arte e suas particularidades. Como mencionamos acima, o interesse de Freud pelos artistas e pelo trabalho de criação foi objeto de alguns de seus textos, como "Escritores criativos e devaneio" (1908e [1907]), "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" (1910c), "O Moisés de Michelangelo" (1914b) e "Dostoievski e o parricídio" (1928b). Revela-se aí o grande fascínio de Freud pelas artes e fica patente o esforço que faz para contemplar em sua obra esta realização cultural. Um ponto que nos chama a atenção é a constante associação que Freud estabelece entre o trabalho do artista e a sublimação. É comum encontrarmos nos textos que ele dedica à sublimação uma ilustração do papel que esta teria no processode produção artística, por isso pensamos que é necessário aprofundarmos o estudo sobre a sublimação. Vale ressaltar, porém, que nossa intenção não é esgotar as leituras possíveis 9 que o texto freudiano abre acerca desse tema que constitui um ponto-chave na teoria psicanalítica. Na obra de Freud a sublimação seria uma das quatro vicissitudes da pulsão (Freud, 1915c), e para exemplificá-la ele sempre apelou ao trabalho da produção artística. Em toda sua obra ele faz menção ao termo sublimação, apesar de nunca ter apresentado de fato uma elaboração mais sistemática dessa noção, assim como fez, por exemplo, com os conceitos de pulsão e de recalque. Nesse quarto destino da pulsão, ... tanto o objeto quanto o objetivo são modificados. Assim, o que originariamente era um instinto [pulsão] sexual encontra satisfação em alguma realização que não é mais sexual, mas de uma valoração social ou ética superior (Freud, 1923a [1922], p. 272). Esta passagem, retirada do breve texto "Dois verbetes de enciclopédia", publicado em 1923, tem, como qualquer verbete de enciclopédia, apenas o objetivo de definir os conceitos apresentados. Apesar de aparentemente clara, essa explicação não nos parece, porém, plenamente satisfatória, pois não é capaz de dar conta das exigências metapsicológicas (análise dos pontos de vista econômico, tópico e dinâmico) aí envolvidas; ela é apenas descritiva. Outros autores igualmente constatam a insuficiência da abordagem da sublimação por Freud. No Vocabulário de psicanálise, Laplanche e Pontalis reafirmam a importância de buscar-se uma conceituação da sublimação na teoria freudiana, mas também sinalizam a fragilidade de sua teorização: Na literatura psicanalítica recorre-se freqüentemente ao conceito de sublimação; é efetivamente o índice de uma exigência da doutrina, e é difícil imaginar como poderia ser dispensado. A ausência de uma teoria coerente da sublimação permanece sendo uma das lacunas do pensamento psicanalítico (Laplanche & Pontalis, 1982, p. 497). 10 É nos escritos dos comentadores da obra freudiana que poderemos encontrar a busca pelo rigor que procuramos, embora, cabe dizer, estes ainda permaneçam, de certa forma, limitados às idéias avançadas por Freud. Será também a obra freudiana o ponto de partida de nossa investigação. Seguiremos, portanto, um percurso histórico-crítico do desenvolvimento da noção de sublimação em Freud, visando enfatizar as mudanças e incrementos promovidos na construção teórica dessa noção. I.1 Primeiras teorizações sobre a sublimação A primeira vez que o termo "sublimação" surge na obra freudiana é numa carta enviada a Fliess, datada de 2 de maio de 1897 (“Carta 61”). Nesta, Freud se refere à sublimação como um aprimoramento de lembranças através da fantasia (Freud, 1950a [1887-1902]). As fantasias teriam um caráter de sublimação, à medida que constituiriam uma forma de depurar o que foi ouvido pelo sujeito. Freud afirma que a sublimação diria respeito ao próprio trabalho de organização da fantasia a partir do que foi “ouvido”. Assim, da matéria bruta, sólida – o que ainda não foi capaz de produzir sentido – produz-se o gasoso; ou seja – acrescentaríamos nós – a fantasia, a organização do psíquico e a construção de sentido. No famoso “caso Dora”, Freud vai continuar explorando a articulação entre sublimação e trabalho clínico, pontuando que ela ocorre na relação transferencial não como "reimpressão" de alguma "experiência psíquica prévia", mas como “edição revista” destas experiências (Freud, 1905e [1901], p. 111). Reconhecemos nestas primeiras abordagens da sublimação a elaboração de uma concepção segundo a qual ela envolveria um trabalho psíquico de natureza distinta daquele operado na produção do sintoma. O que parece estar em jogo aí é algo da ordem de uma elaboração, no sentido 11 que este termo ganhará posteriormente em "Recordar, repetir e elaborar" (Freud, 1914g). Não se trata apenas de uma rememoração do material inconsciente, mas de um trabalho de apropriação desse material, e que resulta de uma modificação do funcionamento psíquico. Dessa forma, a linha de raciocínio iniciada na “Carta 61” encontra continuidade nesse olhar mais clínico sobre o papel da sublimação. Porém, já no “caso Dora”, Freud também se referira à sublimação partindo de um outro ponto de vista, apontando-a como um "redirecionamento" da "... disposição sexual indiferenciada da criança ..." (Freud, 1905a [1901], Op. cit., p. 56) para "objetivos assexuais mais elevados". Esta nova visão sobre a sublimação foi desenvolvida num outro estudo publicado também em 1905 e dedicado mais diretamente a essa noção: os "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", conforme podemos observar na seguinte passagem: Os historiadores da cultura parecem unânimes em supor que, mediante esse desvio das forças pulsionais sexuais das metas sexuais e por sua orientação para novas metas, num processo que merece o nome de sublimação, adquirem-se poderosos componentes para todas as realizações culturais (Freud, 1905d, p. 167). A sublimação aparece, assim, como a condição psíquica que permite as realizações culturais. A sublimação também é vista, aí, como desvio do que é sexual para o não-sexual. A respeito deste ponto, cabe assinalar o que Freud acrescenta na seqüência do trecho acima citado: as pulsões sexuais remetem-nos à natureza perversa da pulsão. Nos "Três ensaios", as pulsões perversas serão consideradas como sendo aquelas que não estariam integradas à função genital. Partindo das contribuições de Freud, Jean Laplanche vem enfatizar que o trabalho da sublimação implica um esforço para dar conta das pulsões perversas, lembrando-nos que “Freud constantemente afirma que o destino sublimatório é, em 12 primeiro lugar, aquele dos restos não-integrados das pulsões pré-genitais” (Laplanche, 1999, p. 313). Deste modo, podemos associar as pulsões perversas ao que este autor denomina "restos não-integrados das pulsões pré-genitais". A sublimação visaria incluir estes restos na organização genital. Compreende-se, então, que a sublimação retiraria sua energia das pulsões perverso-polimorfas, ou seja, daquelas pulsões que "ficaram de fora" da égide da genitalidade. Queremos com isso sublinhar que estas podem ser também reconhecidas como pulsões parciais, em oposição à idéia de uma unificação das pulsões em torno de um propósito – a função genital. Laplanche também propõe que compreendamos a dessexualização como a passagem da pulsão do plano do sexual para aquele da autoconservação (Id., 1989). Até o momento da escritura do “caso Dora” o estudo da noção de sublimação não continha nenhuma referência a uma possível relação entre esta e a criação artística. Será justamente nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (Freud, 1905d, Op. cit.) que Freud estabelecerá, pela primeira vez, um elo entre sublimação e arte. I.1.1 Sublimação e arte No final dos "Três ensaios", Freud reconhece, então, a arte como sublimação: ...[o] processo de "sublimação" [seria aquele] no qual as excitações hiperintensas provenientes das diversas fontes da sexualidade encontram escoamento e emprego em outros campos, de modo que de uma disposição em si perigosa resulta um aumento nada insignificante da eficiência psíquica. Aí encontramos uma das fontes da atividade artística, e, conforme tal sublimação seja mais ou menos completa, a análise caracterológica de pessoas altamente dotadas, sobretudo as de disposição artística, revela uma mescla, em diferentes proporções, de eficiência, perversão e neurose (Freud, 1905d, p. 225. O grifo é nosso). Grifamos nesta citação certos pontosque têm especial interesse para nós. Agora o termo sublimação é empregado pela analogia entre aquilo que se passa no terreno 13 psicológico e o fenômeno físico original: opera-se um trabalho de transformar o sólido e “inferior” da "disposição em si perigosa", no gasoso e “superior” aumento da "eficiência psíquica". Examinando a noção de sublimação na obra freudiana podemos identificar a herança dos sentidos que ela comporta nas outras disciplinas: por um lado, a idéia de mudança do estado sólido para o gasoso da física, ou a de purificação advinda da alquimia, à medida que aquilo que poderia ser “perigoso” é desviado para a atividade sublimatória; por outro lado, encontramos, aí, o sentido da "ação de exaltar, engrandecer" própria da estética, através, como diz Freud, dessa idéia de aumento “nada insignificante” da eficiência psíquica, assim como através desse deslumbramento que as pessoas possuidoras de disposição artística são capazes de provocar, o que se deduz da afirmação de Freud de que seriam “altamente dotadas”. Neste rico trecho que escolhermos destacar, Freud nos oferece significativas contribuições, tais como a idéia da existência de uma "disposição artística", resultado de uma mescla de eficiência, perversão e neurose. Ele parece reconhecer nos artistas a presença de alguma organização psíquica que não se limitaria nem à categoria de neurose, nem à de perversão, nem poderia, tampouco, ser encarada como mera "eficiência psíquica". O artista é parcialmente eficiente em dar conta da "disposição perigosa"; ele não está a salvo da neurose nem da perversão. Um problema começa a se revelar, antes mesmo da tentativa de relacionar a sublimação com o processo de criação artística: Freud havia apresentado a sublimação como uma faculdade psíquica situada na base de "todas as realizações culturais", porém, ao tratar da atividade artística, fala-nos de sujeitos com disposição artística. Podemos concluir, então, que a sublimação é mais abrangente do que a atividade artística, já que a arte seria apenas uma das modalidades de realização cultural. Ela 14 constituiria, na verdade, um tipo específico de sublimação à qual somente alguns teriam acesso. I.2 Duas sublimações Em “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (Freud, 1910c, Op. cit.), encontramos uma apreciação bem mais detalhada e aprofundada sobre a sublimação. Neste texto são mencionados aspectos desse processo cuja importância parece-nos fundamental. Neste artigo, a arte é tratada como um tipo de sublimação distinto de uma outra de suas modalidades, a qual também se fará presente na trajetória de Leonardo da Vinci. É necessário aprofundarmos nosso estudo destes diferentes tipos de sublimação. Em primeiro lugar, voltemos nosso olhar para a atividade artística de Leonardo, tal como Freud a analisa. I.2.1 O artista Leonardo da Vinci Nesse artigo sobre o artista Leonardo da Vinci, Freud se dedica à pesquisa sobre ele não somente em função da enorme admiração e curiosidade que nutre pelo trabalho do mestre florentino, mas aos seus olhos ele representaria o exemplo extremo do artista, como indicado na seguinte passagem: A mesma luta penosa frente a um trabalho, a fuga final e a indiferença quanto ao seu destino futuro, tudo isso pode acontecer a muitos artistas, mas não há dúvida de que esse comportamento ocorre em Leonardo em grau mais elevado (Id., ibid., p. 76. O grifo é nosso). Quanto à nossa investigação sobre a disposição artística, identificamos neste trecho algumas pistas sobre a relação que Leonardo trava com suas paixões, o que vem indicar uma possível via para melhor compreendermos a questão: 15 Leonardo não era insensível à paixão; não carecia da centelha sagrada que é direta ou indiretamente a força motora – il primo motore – de qualquer atividade humana. Apenas convertera sua paixão em sede de conhecimento; entregava-se, então, à investigação com a persistência, constância e penetração que derivam da paixão... (Id., ibid., p. 83). Sobre o termo paixão, tendemos a associá-lo às intensidades psíquicas a que podemos opor as representações; deste modo, podemos aproximar as paixões daquilo que consideramos como pulsões. Neste trecho Freud nos fala, de fato, da paixão como il primo motore, como força motora cuja característica básica seria a persistência, a constância e a penetração – análise muito semelhante àquela que fará das pulsões no célebre artigo metapsicológico a elas dedicado (Id, 1915c, Op. cit.). Visto sob este ângulo, o trabalho do artista envolveria um movimento de desvio da pulsão sexual para a atividade de investigação, aspecto que se articula com o que Freud, no texto dos "Três ensaios", considerara como pulsão de saber. No artigo de 1905, ele havia explicado que a pulsão de saber tem sua origem, em parte, na pulsão escopofílica perversa, sendo também uma forma sublimada de dominação (Id., 1905c, Op. cit.). Queremos aqui ressaltar uma das particularidades do trabalho do artista: ele resultaria do desvio do sexual para a pulsão de saber, a pulsão de investigação. O que aqui vemos esboçar-se é a idéia de que no trabalho do artista entrariam simultaneamente em jogo uma sublimação e a ação disruptiva das pulsões parciais perversas, como deixa entrever essa concepção acerca da pulsão de saber. Esta compreensão do trabalho artístico está em total acordo com a idéia de "obra inacabada", que exige trabalho – pois se a sublimação é falha, o aparelho psíquico permanecerá trabalhando por uma sublimação mais "consistente", ou seja, uma sublimação suscetível de desviar as pulsões parciais para o registro da autoconservação, 16 do “dessexualizado”. A atividade de investigação do artista, por si só, vem evidenciar este trabalho insuficiente, já que mantém o disruptivo em cena. Afinal, como lemos no texto de Freud sobre Leonardo, esta atividade compulsiva traz cada vez mais questões para o artista, que não consegue dar por terminada sua obra. Joel Birman propõe que este texto sobre Leonardo possa nos fazer apreender um dos aspectos mais importantes envolvidos no processo de sublimação: ... a sublimação poderia ser concebida como (...) uma transformação direta da pulsão perverso-polimorfa numa produção de espírito (...). Vale dizer (...) a sublimação não implicaria mais numa dessexualização da perversidade polimorfa originária. Portanto, aquela não seria a resultante de uma operação anterior do recalque... (Birman, 2002, p. 104). Concordando com o autor, pensamos que esta sublimação em Leonardo da Vinci não corresponde ao modelo de sublimação apresentado nos “Três ensaios”. No artigo de 1905 a sublimação implicava uma dessexualização, enquanto a atividade artística de Leonardo, segundo Birman, aponta, ao contrário, para uma “transformação direta”. No entanto, o modelo da dessexualização não será abandonado por Freud. Dois processos bem diferentes começam a poder se distinguidos. Através de uma análise da sublimação implicada na atividade científica de Leonardo, poderemos melhor explorar os dois processos em questão. I.2.2 Artista versus cientista Até aqui temos privilegiado apenas uma das atividades de Leonardo – a arte. Sabemos, porém, que o mestre foi também um expoente no que se refere às primeiras pesquisas científicas, cujo esboço foi iniciado no período do Renascimento. Em Leonardo, as duas atividades revelam-se, entretanto, conflitantes. 17 Em seu percurso, a atividade de investigação, que originalmente esteve atrelada à criação artística, desenvolve-se numa busca de conhecimento sobre o mundo, busca mais vinculada ao trabalho científico, mais afastada, portanto,da arte. Freud observa que, à medida que se dedica à pesquisa científica, Leonardo passa a empenhar-se menos no trabalho artístico. Ele parece encontrar na ciência a possibilidade de construção de um ideal de conhecimento sobre o mundo – o que fará, aliás, de maneira muito eficaz. Observemos atentamente mais um trecho desse artigo: Depois da pesquisa, quando tentou voltar ao seu ponto de partida, o exercício da arte, sentiu-se perturbado pelo novo rumo de seus interesses e pela mudança na natureza de sua atividade mental. O que o interessava num quadro era, acima de tudo, um problema; e após o primeiro via inúmeros outros problemas que surgiam (...). Não conseguia mais limitar suas exigências, ver a obra de arte isoladamente, separando-se da vasta estrutura da qual sabia que era parte integrante (Freud, 1910c, Op. cit., p. 85. O grifo é nosso.). O artista usara o pesquisador para servir à sua arte; agora o servo tornou-se mais forte que o senhor e o dominou (Id., ibid., p. 85). Levando-se em conta o que temos procurado realçar até agora sobre a sublimação, baseando-nos ainda nas contribuições do estudo de Jean Laplanche desse artigo de Freud sobre Leonardo (Laplanche, 1989, Op. cit.), podemos acrescentar que neste são introduzidas duas vertentes bem distintas da sublimação: a artística e a intelectual-científica. Na verdade, essas duas tendências são tratadas numa relação de oposição, e parece-nos inevitável questionarmo-nos se se trataria nas duas vertentes desse mesmo destino pulsional, ou seja, a sublimação. Em sua linha de argumentação, Laplanche vem justamente sugerir este questionamento. O principal problema nesse Leonardo de Freud, do ponto de vista da sublimação, consiste em que ora nos são apresentadas duas atividades (pintura e investigação intelectual) igualmente sublimadas e em luta uma contra a outra, ora, e mais freqüentemente, a sublimação só é evocada para a atividade intelectual e a luta entre as duas atividades é, em última instância, a incapacidade (...) de retornar, pelo menos parcialmente, ao pulsional. De modo que a atividade pictórica seria algo muito mais próximo do pulsional, daquilo 18 que Freud chama de desejo de viver, do que a atividade intelectual (Id., ibid., p. 79-80). Desta passagem, podemos aprender algo que nos parece de grande importância para nossa pesquisa: a atividade artística e a intelectual supõem modos diferentes de funcionamento psíquico, sendo que a artística é concebida como uma atividade mais próxima da pulsão, ou seja, se constitui como uma atividade situada entre o pulsional e a sublimação intelectual. Vale lembrar que esta visão a respeito dos artistas e cientistas, desenvolvida no artigo sobre Leonardo, objeto dos comentários de Laplanche, já se anunciava em "Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna": A relação entre a quantidade de sublimação possível e a quantidade de atividade sexual necessária varia muito, naturalmente, de indivíduo para indivíduo, e mesmo de profissão para profissão. É difícil conceber um artista abstinente, mas certamente não é nenhuma raridade um jovem savant abstinente. Este último consegue por sua autodisciplina liberar energias para seus estudos, enquanto naquele provavelmente as experiências sexuais estimulam as realizações artísticas (Freud, 1908d, p. 181). Logo, as experiências sexuais impõem-se como força motriz para a realização artística em cujo cerne estão as pulsões sexuais perversas, quer dizer, as pulsões não domesticadas. À sublimação científico-intelectual, a do savant, procuramos associar as já mencionadas "realizações culturais", ou seja, as realizações que inserem o homem na cultura. O trabalho psíquico de representação, de inscrição no inconsciente, de entrada numa cadeia de representações – pressupondo deslizamentos, associações e, portanto, a organização psíquica – parece estar vinculado com o trabalho científico-intelectual. Na pesquisa científica, o sujeito se distingue do objeto, processo que se torna possível em função da representação. O trabalho de representação é justamente um trabalho de separação, pois a representação – se acompanhamos os artigos "Os instintos e suas 19 vicissitudes" (Freud, 1915c) e "O inconsciente" (Id., 1915e) – é um representante psíquico da pulsão, não podendo ser confundido com a própria pulsão. Se retomamos o texto de Laplanche, podemos, assim, melhor compreender o que este autor busca dizer ao apontar para uma "incapacidade de retornar ao pulsional" como sendo característico da sublimação "intelectual": a representação que buscamos articular a esta modalidade de sublimação resulta justamente de uma ruptura com o que é pulsional. Assim como as outras vicissitudes da pulsão, a sublimação constitui uma resposta à pulsão. Aquilo que não é capaz de produzir sentido – as próprias moções pulsionais – passa a ser "domesticado" pelas cadeias representacionais. Logo, estas permitem que o sujeito possa partilhar significações na cultura. A ciência, como trabalho intelectual, articula-se mais facilmente com a idéia de um processo que pressupõe uma rede de representações. Consideramos que o processo de criação artística não pode ser explicado por esta mesma via. Há na arte algo de disruptivo, de impulsivo, hipótese a cuja elaboração nos dedicaremos com mais vagar em nosso segundo capítulo. Duas modalidades bem distintas de sublimação vêm à luz: uma que diz respeito à inclusão das pulsões perversas na organização psíquica, e que se opera através do trabalho de representação; outra – própria da criação artística – na qual parece ter lugar um estranho engendramento da força pulsional disruptiva e do trabalho de representação o qual, afinal de contas, tem que ser suposto como presente no resultado final que é a produção da obra de arte. Enquanto no processo de pesquisa intelectual-científica o sujeito busca dar conta do objeto através da representação, a dimensão de ato parece estar na base do processo da criação artística. A sublimação artística, por sua própria essência, se dá no e pelo ato artístico, o que sugere a presença de algo que escapa ao domínio da representação. O 20 artista parece ser, inicialmente, dominado pelo objeto para, num momento posterior, utilizar-se do trabalho artístico e assim tentar dominá-lo. Como já tivemos oportunidade de sublinhar, Leonardo era dominado pelo "problema" que o impelia a uma busca de resolução na criação da obra, “separando-se da vasta estrutura da qual sabia que era parte integrante” (Freud, 1910c, Op. cit., p. 85). Portanto, o trabalho de criação artística não parece perfeitamente "encaixar-se” no modelo da sublimação, como representação. Retornaremos à questão do domínio da pulsão nos capítulos posteriores. Visando continuar a explorar esses dois modos de sublimação dos quais nos fala Freud a partir de Leonardo da Vinci, voltemo-nos, ainda, para algumas contribuições suas a respeito dessa dupla face da sublimação. Freud vai novamente recorrer à idéia de “predisposição especial” para explicar a ocorrência da sublimação (Id., ibid., p. 88). Lembremo-nos que quando aborda a sublimação artística, Freud traz a predisposição como sendo uma condição necessária à sublimação; porém, quando tem em vista a sublimação intelectual-científica, a qual podemos relacionar com o processo representacional, seu posicionamento é outro: A observação da vida cotidiana das pessoas mostra-nos que a maioria conseguiu uma boa parte das forças resultantes do instinto [pulsão] sexual para sua atividade profissional. O instinto [pulsão] sexual presta-se bem a isso, já que é dotado de uma capacidade de sublimação: isto é, tem a capacidade de substituir seu objetivoimediato por outros desprovidos de caráter sexual e que possam ser mais altamente valorizados (Id., ibid., p. 86). Reencontramos, aqui, a idéia já levantada nos "Três ensaios" segundo a qual a sublimação seria um processo comum a todo ser humano, aquilo que torna a vida social possível. Essa idéia também perpassara o artigo "Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna" (Id., 1908d, Op. cit.). Observamos que ora se fala da sublimação como processo abrangente, ora da sublimação artística propriamente dita, a qual além de 21 possuir características específicas, não pode, em nosso entender, ser confundida com o processo da sublimação, no sentido de um processo geral de socialização. Em "Além do princípio do prazer" (1920g), Freud será ainda mais preciso quanto à hipótese de uma "predisposição especial" como condição do ato artístico. Este fenômeno diz respeito a uma situação econômica, mais capaz de favorecer a sublimação, do que a uma condição dinâmica – esta, diz Freud, está presente em todos os seres humanos (Id., ibid.). O artista possuiria alguma particularidade em relação às quantidades em jogo em seu aparelho psíquico, condição para a realização do trabalho de criação. Se a noção de predisposição artística parece-nos ainda nebulosa, pensamos, entretanto, ter podido clarificar o nosso entendimento sobre a sublimação em geral. Retomando o que tivemos ocasião de desenvolver sobre a "sublimação como processo geral de socialização", lembramos que esta modalidade de sublimação apoiada no trabalho de representação tem em sua base um processo de dessexualização, o que supõe uma passagem para o plano da autoconservação. Sabemos que o dualismo pulsão de autoconservação X pulsão sexual ganhará complexidade em Freud quando do reconhecimento da autoconservação como função do ego. Isto nos apresenta agora a tarefa de nos debruçarmos sobre as relações entre a instância do ego e a sublimação. I.3 O ego e a sublimação No texto dedicado ao conceito de narcisismo (Freud, 1914c) e principalmente em O ego e o id (1923b), no qual Freud enuncia a Segunda Tópica, o desenvolvimento do conceito de ego ganha destaque. Vale ressaltar que o processo de sublimação passa a ser visto, de certa forma, como agenciador da constituição da instância do ego. 22 Em O ego e o id, Freud sustenta que o próprio movimento da libido objetal, que se dá no abandono do objeto sexual e no conseqüente investimento no ego, implica uma "espécie" de sublimação. Freud levanta, assim, a hipótese segundo a qual toda sublimação seria mediada pelo ego. Esta concepção justifica uma sutil novidade introduzida na definição de sublimação: desde "Os instintos e suas vicissitudes" (1915c, Op. cit.) esta passa a ser definida não só como desvio dessexualizante da meta, mas também como desvio do objeto da pulsão. O ego, de acordo com O ego e o id, oferece- se ao id como objeto de investimento. A partir destes novos postulados, a função do ego passa a ser ancorada na luta pela manutenção da unidade narcísica e o ego, portanto, é tanto a instância recalcante quanto o ”agente da sublimação”. Para a realização dessa unificação narcísica, o trabalho do recalque revela-se fundamental. Ao reconhecermos que a libido objetal retorna para o próprio ego como sublimação, outra questão relevante apresenta-se para nós: seria a própria origem do ego o resultado de um processo de sublimação? Reconhecendo esta possibilidade, temos que supor que a sublimação consiste num trabalho voltado para a tentativa de "fechamento", de ligação, a serviço da unidade, da síntese: um trabalho de Eros (a tendência a unir e ligar), à medida que o ego é a própria instância onde se forja a construção dessa unidade e onde as ligações se efetuam. Promovendo uma dessexualização, a sublimação visa incluir no ego o que é de origem sexual. Assim, constatamos que o recalque visa excluir e a sublimação, incluir, em prol da unidade egóica. Ainda em O ego e o id (Freud, 1923b, Op. cit.), Freud confere à instância do ideal do ego uma importância bem maior do que aquela que havia postulado em "Sobre o narcisismo: uma introdução" (Id., 1914c, Op. cit.). Abordando a origem do ideal do 23 ego, Freud mostra que esta instância comporta uma modificação no ego, resultante do complexo de Édipo, ou seja, ela seria, de certa forma, herdeira do Édipo. Ainda sobre o ideal do ego: “O que pertencia à parte mais baixa da vida mental de cada um de nós é transformado, mediante a formação do ideal no que é mais elevado na mente humana pela nossa escala de valores” (Id., 1923b, Op. cit., p. 49). Neste ponto, encontramos uma via de aproximação do processo de formação dessa instância com o de sublimação, pois esta consiste justamente na possibilidade de transformar o que é mais "baixo" no que é mais "elevado". Isto nos permite deduzir que a própria instância do ideal do ego resultaria de um processo de sublimação. Desse modo, a constituição do ideal remete-nos à sublimação intelectual, à medida que nela se opera a produção de um sentido que visa conter aquilo que é disruptivo na pulsão, ligando essa força através da construção dos ideais e fechando, assim, o acesso direto ao que há de mais "baixo". O ideal do ego, como herdeiro do Édipo, evidencia a internalização da interdição e das regras e normas sociais de conduta, permitindo ao sujeito sua inserção na cultura – ele se torna apto para as relações e realizações culturais. Tendo em vista esta importante relação entre o ego e a sublimação vislumbramos aquela modalidade mais geral de sublimação à qual temos nos referido, sublimação que parece funcionar a partir dos mesmos mecanismos que aqueles implicados na sublimação de tipo "científico-intelectual". Isto reafirma a nossa idéia de que essas duas modalidades diriam respeito ao mesmo processo. Teremos, no entanto, que avançar ainda mais no estudo do papel do ego no processo de sublimação "científico-intelectual", para que possamos vir a desenvolver uma outra hipótese: a de que a criação artística é um processo de natureza diversa, com características singulares. 24 I.3.1 O ego, a ciência e a arte O material que pudemos encontrar em O ego e o id acerca da participação da instância egóica no processo de sublimação será aqui articulado às duas vertentes do trabalho de Leonardo da Vinci, conforme acima destacado – a científica e a artística. J. Birman (2002, Op. cit.) propõe que a sublimação científica e sua busca de dar um "fechamento" estaria referida ao falo, como objeto totalizador, e a artística não o teria como referência, mantendo-se no lugar da incompletude, aberta para os efeitos disruptivos da pulsão. Este autor também propõe que reconheçamos na referência ao falo a estética do belo, sendo que a estética do sublime seria aquela sem referência fálica (Id., 2000). Estas categorias apontam para algo que estaria além da dualidade sublimação artística x sublimação científica, apontando para o fato de que a criação artística "verdadeira", a que conduziria à produção da obra de arte, funciona num registro de incompletude. Considerando o ego como instância que busca esse "fechamento narcísico-fálico", devemos ainda explorar a questão de suas formas de funcionamento, seja no processo de sublimação, seja no de criação artística. Uma passagem de "O mal-estar na civilização" vem em nosso auxílio. Neste trecho, Freud enuncia três medidas paliativas a que os homens apelam para suportar os sofrimentos da vida: ...derivativos poderosos [poderosas distrações], que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas (...). Voltaire tinha os derivativosem mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade científica constitui também um derivativo desta espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental (Freud, 1930a [1929], p. 83. O grifo é nosso.). 25 Nesta passagem, assim como no estudo sobre Leonardo, percebemos com clareza como as artes e a ciência devem ser tratadas como vertentes sublimatórias cujos mecanismos de base são distintos. O apelo aos denominados “derivativos poderosos” que Freud relacionara com a atividade científica reafirma o que ele desenvolvera em textos anteriores, onde a sublimação é definida como meio de “extrair luz de nossa desgraça”. Ou seja, onde a sublimação é definida como meio de desviar o disruptivo, próprio à sexualidade perverso-polimorfa, através da ligação egóica. Para que isto se dê, a libido objetal deve ser transformada em libido narcísica, o que implica um processo de dessexualização, suscetível de dar conta do caráter disruptivo das pulsões. Aí tem lugar um enriquecimento do ego a partir do incremento de libido em seu campo, libido antes investida no objeto. Porém, ao nos depararmos com a idéia de “satisfação substitutiva”, que teria lugar na criação artística, processo que encontra sua eficácia no nível das fantasias, vemo-nos diante de um novo terreno a ser investigado. Freud parece também estar buscando positivar a singularidade do processo de criação artística. Analisando ainda a passagem acima citada, perguntamo-nos se não seria possível traçarmos uma aproximação entre os mecanismos envolvidos nesse processo e o mecanismo de formação dos sintomas, já que sabemos que estes consistem em satisfações substitutivas, ou seja, satisfações ordenadas pelo registro da fantasia. Mas devemos estar atentos ao que Freud especifica: ele não utiliza, aí, a expressão "formação substitutiva", conforme o faz ao se referir à formação de sintomas, mas faz uso da expressão satisfações substitutivas, o que aponta para uma outra modalidade própria ao funcionamento psíquico na atividade artística. As satisfações substitutivas, relacionadas à arte, não seriam menos eficazes que as "poderosas distrações", o que marca uma diferença com relação à formação dos 26 sintomas, ponto que Freud abordará posteriormente nesse mesmo livro, e que se remete, por sua vez, à idéia de “eficácia questionável”. Na atividade artística encontramos um mecanismo psíquico diferente daquele que estaria na base do processo de sublimação, capaz de “inflar” o ego, como é o caso das "poderosas distrações". As "satisfações substitutivas", como diz Freud, apenas diminuem nossa desgraça, mas não têm o poder de contenção que têm as "poderosas distrações". O trabalho egóico que se opera no processo de criação artística, não sendo referido ao falo, como propõe Birman, não promove o fechamento característico nem da formação sintomática nem da sublimação científica, mantendo o sujeito em contato com sua própria desgraça – este seria o efeito do não-fechamento. Os mecanismos utilizados pelo ego para realizar este fechamento são o recalque e a sublimação. Segundo o que Freud desenvolve em seu artigo dedicado às pulsões (Freud, 1915c, op. cit.), a sublimação consiste num destino da pulsão, assim como o recalque. A sublimação e o recalque, os dois destinos da pulsão mais elaborados, estão intimamente relacionados com a representação, diferentemente dos outros destinos, a saber, "a transformação no oposto" e o "retorno sobre a própria pessoa". O processo representacional, intelectual, está na base do processo de sublimação, se entendemos este como processo psíquico de inserção no espaço cultural, como a própria atividade do pensamento e da linguagem. Na sublimação encontra-se um caminho para a descarga e, assim, possibilita-se uma produção de relações e associações entre representações, o que torna o psiquismo apto a responder à demanda pulsional. Estas observações nada irrelevantes encaixam-se bem naquilo que avançamos sobre a sublimação "científico-intelectual", considerando que ela está a serviço de uma maior eficiência do aparelho psíquico. Podemos ir ainda além, pontuando que ela está a 27 serviço da unidade egóica, pois pressupõe uma assimilação daquilo que ficou de fora, em função do recalque. Deste modo, a "sublimação-representação" não se revela como processo especial cuja existência seria privilégio de alguns – este caráter de exceção parece servir apenas para o viés artístico da sublimação, e não para a "sublimação-representação referida à inserção cultural tratada por Freud como "avanço em intelectualidade" em "Moisés e o monoteísmo: três ensaios" (Freud, 1939 [1937-1938], Op. cit.). Jean Laplanche também defende este ponto de vista segundo o qual a sublimação diz respeito ao trabalho psíquico propriamente dito: A sublimação, tal qual nós fomos levados a conceber, nada tem de um processo à parte. Ela é, deveríamos dizer, o processo normal de aculturação pelo qual o ego tenta, sem findar, secar o Zuydersee do id, transpondo por partes as pulsões de morte em pulsões de vida (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 321-322). E ainda: ...o início da sublimação nos reenvia ao início da pulsão sexual (Id., ibid., p. 328). No capítulo seguinte discorreremos sobre a questão do conflito entre pulsão de morte e pulsões de vida, e sua implicação em nossa reflexão. Por ora o que mais nos interessa destacar nesta passagem de Laplanche é que a sublimação, implicada no próprio trabalho da representação, aponta para algo de fundamental do funcionamento do psiquismo humano. Quando nos voltamos para sua obra Problemáticas III: a sublimação (Laplanche, 1989, Op. cit.), deparamo-nos com uma abordagem sobre a própria origem do aparelho psíquico, compreendido como um aparelho de tradução no qual recalque e sublimação são mecanismos de defesa necessários para a organização do ego. Estas respostas garantem o fechamento numa unidade que impede a “irrupção do fundo do inconsciente” (Id., ibid., p. 23) – o que temos aqui tratado como "o que fica de 28 fora do trabalho de representação". O processo de representação consiste no próprio processo de instauração do psíquico. A sublimação nos conduz, portanto, para a origem – para a origem do aparelho psíquico como aparelho de resposta à demanda pulsional. I.4 A sublimação na origem Jean Laplanche promove interessante articulação entre as idéias de sublimação e origem do aparelho psíquico em seu livro dedicado ao estudo da sublimação (Id., ibid.). Suas posições estão em sintonia com a idéia que temos buscado desenvolver a respeito da articulação entre o processo de sublimação e o de inscrição psíquica. Para este autor, a visão freudiana de sublimação apresenta vários problemas, inclusive o de sua definição metapsicológica que, para ele, jamais foi efetivamente sistematizada. Outra questão que Laplanche levanta é a obscuridade com a qual nos deparamos quando tentamos precisar em que consistiria esse sexual desviado de seu objetivo e objeto. Estes pontos nebulosos foram investigados pelo autor com a finalidade de desenvolver uma conceituação mais apurada da sublimação. Explorando o artigo de Freud sobre Leonardo, Laplanche destaca um trecho por ele reconhecido como o “mais lúcido” que Freud teria escrito sobre o tema. Versa sobre as três diferentes vicissitudes do "impulso de pesquisa" após uma “enérgica repressão [recalque]”: a inibição neurótica, a sexualização do pensamento e a sublimação.Referindo-se à sublimação, Freud escreve: ...o terceiro tipo, que é o mais raro e mais perfeito, escapa tanto à inibição do pensamento quanto ao pensamento neurótico compulsivo. É verdade que nele também existe a repressão [recalque] sexual, mas ela não consegue relegar ao inconsciente nenhum componente instintivo [pulsional] do desejo sexual. Em vez disso, a libido escapa ao destino da repressão [recalque] sendo sublimada desde o começo em curiosidade e ligando-se ao poderoso instinto [pulsão] de pesquisa como forma de se fortalecer. Também neste caso a pesquisa torna-se, 29 até certo ponto, compulsiva e funciona como substituto da atividade sexual (Freud, 1910c, Op. cit., p. 88. O grifo é nosso.). Partindo deste trecho, Laplanche desenvolve a idéia de “sublimação desde o começo", sublimação originária, o que significa, dentre outros aspectos, remeter a sublimação à origem do psíquico. É assim que vai enfatizar que “...apoio e sublimação, de uma certa forma, andariam (...) emparelhados” (Laplanche, 1989, Op. cit., p. 91). O autor não nega a existência de sublimações secundárias, mas atribui à originária significativa importância, marcando uma grande mudança na forma de se conceber a sublimação. Ele propõe que as verdadeiras sublimações seriam as originárias “...como Freud nos deu a entender, especialmente a propósito dessa sublimação (...) que é a intelectualidade de Leonardo” (Id., ibid.,, p. 91). Estando essa modalidade de sublimação situada na origem do psíquico, acaba sendo também destacada a compreensão da sublimação como inscrição de representações. No entanto, esta sublimação originária, que diz respeito à inscrição das representações, e que fala da sublimação como aspecto geral do processo de humanização, não dá conta da “predisposição artística” que pressupõe uma peculiaridade especial, a de estar situada além do processo de representação. Relembremos que Laplanche teoriza que “a atividade pictórica seria algo muito mais próximo do pulsional” (Id., ibid., p. 79) que a sublimação "intelectual-científica". Esta proposição, em consonância com nossa hipótese acerca da "predisposição artística", salienta o aspecto disruptivo presente na criação artística. Nosso estudo acerca da singularidade deste processo de criação artística pede uma análise desse caráter disruptivo que nos parece estar no centro da atividade artística. A própria condição de ato no processo de criação artística remete-nos para um 30 registro que estaria além da representação. Dedicaremos o próximo capítulo a essa vertente da questão. II O ATO ARTÍSTICO “Não quero suprimir de maneira alguma o sofrimento, pois freqüentemente é ele que faz os artistas se expressarem mais energicamente.” (Millet apud. Van Gogh, 1914 [1853-1890], p. 147) O ato artístico, o movimento criador, tem fascinado os homens na História de tal modo que a arte tem sido tratada e reverenciada através de um apelo quase místico, sagrado (Sousa, 2002), misterioso e enigmático. Acerca deste mistério que paira sobre a arte, Jean Guillaumin lembra-nos, partindo do ponto de vista tanto dos artistas quanto do público, que “...o segredo da arte é aquele mesmo do homem e ao se dominar um, domina-se o outro, o que é tornar-se, por deslocamento, senhor de seu próprio destino” (Guillaumin, 1998, p. 36. A tradução é nossa). Esta passagem já indica como a arte traz em si algo que se aproxima da origem da psique humana, algo que se busca dominar. Esta concepção de ato como tentativa de domínio é compartilhada por nós, e tentaremos apreendê-la melhor neste capítulo. A arte do século XX buscou voltar nosso olhar da obra acabada para o próprio ato artístico (Argan, 1992), e nesse sentido a action painting de Jackson Pollock apresenta-se como o ápice dessa busca. Mesmo que a arte dos séculos anteriores nem sempre tenha dirigido o olhar do público para o ato, esta dimensão tem sido há muito tempo reconhecida como o que vem caracterizar o próprio processo da criação. Que a criação artística seja dependente do ato criador, parece-nos uma proposição fundamental. Fazer a obra é condição necessária para que reconheçamos determinado 32 sujeito como artista, criador. Deste modo, considerando que a criação artística se dá no próprio ato, devemos investigar o que o possibilita, ou seja, temos que explorar os fundamentos, a origem desse ato. Através de nosso estudo, visamos compreender melhor a singularidade do ato de criação artística. Não pretendemos com isso esgotar o tema da arte e, portanto, “desvendar” o seu mistério. Nosso objetivo é compreender o que está na base do próprio impulso criador. A nossa meta não está voltada para o resultado final desse processo, ou seja, para a própria obra de arte, embora essa vertente do tema perpasse, em alguns momentos, o nosso percurso, tendo em vista que, como finalidade última do processo artístico, a questão da natureza da obra pode trazer elementos importantes acerca das particularidades desse ato que a realiza. Para analisarmos os fundamentos do impulso criador, é necessário examinarmos o que Freud avançou sobre a dimensão do pulsional disruptivo e impulsivo aí implicado, aspecto que, desde o capítulo anterior, vimos articulando com o processo de criação artística, tendo em vista, agora, o seu caráter de ato. II.1 As relações entre o pulsional “disruptivo” e o ego O conflito entre o ego e o que escapa a seu trabalho de unificação, emergindo como força disruptiva frente a esta unidade, constitui um tema central na obra freudiana. Isto nos conduz ao plano do conflito da “pulsão versus representação”, como indicamos no capítulo anterior. O que está subjacente à idéia de um ego mal sucedido, de forma mais radical, em sua tarefa de barrar uma irrupção excessiva da força pulsional em seu território, é a noção de trauma. Passamos, então, a uma análise da questão do 33 trauma e seus efeitos, tendo em conta que o ato de criação artística é impulsionado por uma força pulsional disruptiva. II.1.1 O trauma Em psicanálise a noção de trauma está associada aos efeitos disruptivos da pulsão no aparelho psíquico. É também a essa noção que Freud recorrerá ao explorar a questão da origem do aparelho psíquico, em função da demanda pulsional. Desde a última década do século XIX até o final de sua obra, Freud tratou da temática do trauma apelando a ela em sua reflexão sobre a origem do psíquico, sobre a natureza de determinadas patologias e também de certas problemáticas relativas à cultura. Já nos primeiros textos onde vemos constituir-se uma teoria do trauma (Breuer & Freud, 1893-1895), essa noção surge articulada com a idéia de um encontro no qual um outro sedutor promove um excesso de excitação (pulsional) de ordem sexual. Este encontro pode ser considerado impactante e violento, por colocar o indivíduo numa situação de passividade e impotência – de impossibilidade de defesa. A noção de trauma, apesar das importantes modificações sofridas ao longo do percurso freudiano, sempre comportou um aspecto de grande importância: a dimensão da alteridade. A questão do outro como aquele que "instaura" a pulsão sexual e, conseqüentemente, o trabalho psíquico, é um ponto fundamental em nossa visão sobre o trauma. Alguns anos após o abandono da hipótese de que um fato real de sedução poderia levar à patologia histérica, e da ênfase que passa, então, a ser dada à fantasia, (conforme a famosa “Carta 69” para Fliess, datada de 21 de setembro de 1897 [Freud, 1950a [1887-1902], p. 351), o caráter traumático da origem do psíquico – tendo em vista o encontro com a alteridade – reaparecerá, apesar de Freud não fazer uso,para este 34 propósito, do termo trauma. Isto pode ser observado particularmente no momento em que ele sublinha a importância da sedução materna – nos “Três ensaios” (Freud, 1905d, Op. cit.) – situação que estaria na origem da pulsão sexual, se consideramos a idéia freudiana de apoio. Merece igualmente menção o caso do “Homem dos Lobos” onde Freud busca incessantemente a cena primária que teria originado a neurose de seu paciente (Freud, 1918b). Vislumbramos, assim, a presença subjacente da idéia de um encontro traumático como sendo o elemento de instauração da psicossexualidade. Com as contribuições de “Além do princípio do prazer” (Freud, 1920g), o trauma ganha novo vigor na teoria freudiana, sendo recolocado no centro de sua estrutura. É esta concepção do traumático, de 1920, que nos servirá de guia em nosso percurso. Este texto põe em relevo a questão da incapacidade de defesa por parte do aparelho psíquico diante do excesso pulsional veiculado na situação traumática. O problema da ineficácia das ligações, da ausência de respostas ou defesas do aparelho, a questão da passividade e sua articulação com a noção de trauma são temas que, a partir desse momento, passam ao primeiro plano da teoria. Vale lembrar que o trabalho de ligação é função da instância egóica. O ego trabalha a serviço do Logos, da razão, do saber, do domínio, enquanto o traumático não é outra coisa senão um “rombo” neste Logos. É o Pathos (ou o excesso, a quantidade, o pulsional) que se faz presente de modo violento: o trauma causa “impressões corpóreas cujo efeito imediato traduz-se em violência” (Maciel Júnior, 2001, p. 107). Além disto, provoca e obriga o aparelho psíquico a trabalhar contra esse excesso pulsional invasivo, com dispêndio de grande quantidade de libido. Ao nos referirmos a essa movimentação de libido, deparamo-nos com a questão das intensidades, que desempenham papel especial nos caminhos tomados pelo conflito pulsional. Não é por acaso que a 35 importância do trauma é justamente reafirmada no momento da emergência do novo dualismo pulsional. O traumático pode ser compreendido como o excesso pulsional que vem romper, como numa “invasão”, o trabalho egóico de assimilação e ligação. Em uma de suas conceituações da pulsão, Freud define-a como exigência de trabalho ao aparelho psíquico (Freud, 1915e, Op. cit.), o que permite supor que o traumático esteja referido à pulsão por excelência. A pulsão, sendo energia livre, não inserida na organização narcísico-egóica, é a própria pulsão de morte ou pulsão de autodestruição, apresentando-se como o estranho, Unheimlich (Freud, 1919h), o “sem possibilidade de sentido” para a "célula narcísica". A. Maciel Júnior afirma que “...o transbordamento da pulsão de morte não é outra coisa senão o resultado de um sentimento intenso que coloca o ego em uma situação de impotência...” (Maciel Junior, 2001, p.105). Fundamentando-se na obra de G. Deleuze e F. Guattari, o autor mostra-nos que a transformação ocorrida no psiquismo por conta do trauma é acompanhada do que ele denomina sentimentos intensos. Ainda partindo de Gilles Deleuze, sublinha que o que provoca sentimentos intensos é sentido, mas não é da ordem da representação. A violência inerente ao trauma impossibilitaria o trabalho de representar. Thanatos impõe-se ao aparelho cujo estado de impotência, de passividade radical, é correlativo da impossibilidade de dar conta dessa “invasão”. A relação entre o ego e a “invasão” da pulsão de morte ganha relevo. Se consideramos a pulsão de morte como destrutiva, temos que observar que ela assim se apresenta a partir do ponto de vista do ego, pois constitui uma ameaça à unidade narcísica, apontando para a castração, em oposição à organização do ego, centrada no phallus e no narcisismo (Birman, 2000, Op. cit.). A pulsão de morte aponta, em última 36 instância, para uma alteridade radical – aquilo que se apresenta como totalmente estranho ao ego. Ela é a evidência de um além da representação, da violenta imposição de uma outra coisa ao "invólucro egóico". O quadro que se esboça com as defesas enfraquecidas ou com um aparelho incapaz de operá-las é o do trauma, se o concebemos como abertura à “experiência”, sendo o trauma aqui pensado como encontro com a alteridade, neste caso, uma alteridade radical, como sublinhamos acima. Jean Laplanche aprofundará essa visão sobre o traumático, desenvolvendo a partir dela sua “teoria da sedução generalizada” (Laplanche, 1970). Passamos, então, a uma breve apresentação de alguns pontos desta teoria, pontos de especial interesse em nossa pesquisa. II.1.2 A teoria da sedução generalizada Esta teoria repensa a relação primária entre a mãe e o bebê à luz da noção de sedução. Inspirando-se em alguns textos de Freud, dentre os quais podemos destacar o “Projeto” (Freud, 1950a [1887-1902]), os “Três ensaios” (Id., 1905d, Op. cit.) e, principalmente, a conferência sobre a feminilidade (Id., 1933a) – “... onde Freud escreve que a mãe é o primeiro sedutor”, como nos lembra Porret (1994, p. 118. A tradução é nossa.) – Laplanche pressupõe uma sedução originária por parte da mãe em relação ao bebê, objeto de investimento dela. A sedução aponta para a particularidade desta relação. A condição de sedutora por parte da mãe é apoiada na suposição de que ela vem implantar a sua sexualidade inconsciente no bebê que não tem a possibilidade de ligar essa força. Esta situação possui, assim, um caráter traumático, situação de passividade diante da pulsão sexual do 37 outro. É a “contaminação” da sexualidade da mãe que provoca um trabalho do bebê, na tentativa de dar conta do sexual, vivido por ele como enigma. A noção de mensagem enigmática é um elemento central na "teoria da sedução generalizada", e é particularmente importante em nosso estudo sobre o traumático e a criação artística. Nos termos do autor, a mãe transmite uma “mensagem enigmática” que é traumática, à medida que impõe o pulsional; mas ela simultaneamente possibilita o início do trabalho de resposta à pulsão: o trabalho de representação, que instaura o psíquico. É o "sopro de vida humana" advindo do outro. O estado de passividade, de ausência de defesas do bebê ante a violenta mensagem da mãe, coloca-nos diante da noção de desamparo, sobre a qual Freud voltará a debruçar-se ao final de sua obra (Freud, 1930a, Op. cit.) mas cuja origem situa-se no “Projeto” de 1895 (Id., 1950a [1887-1902], Op. cit.). A noção de desamparo originário é apresentada para pontuar a dependência, ao nível mesmo da necessidade que todo ser humano tem do outro em sua constituição. A respeito do desamparo e de sua relação com a constituição psíquica, escreve J. Birman: Sob o desamparo, o sujeito se encontra diante da pressão constante das forças pulsionais, que o perpassam em diferentes direções e o inundam. O sujeito é tomado pelo excesso, de cabo a rabo. Por isso mesmo, ele é obrigado, por um lado, a realizar um trabalho de ligação daquelas forças irruptivas, constituindo um campo de objetos capazes de oferecer um horizonte possível de satisfação e, por outro, deve se impor as exigências de nomeação daquelas forças (Birman, 2000, Op. cit., p. 44). Laplanche sustenta ainda que é o trabalho egóico de sublimação que permite a ligação da energia disruptiva e violenta do traumático, ou seja, da pulsão de morte que ele associa à natureza essencialmente “perversa” da pulsão. Cabe observar que essa visão sobre o processo de sublimação, tendo em vista a sua articulação com a pulsão de morte, só se torna viável em função de Laplanche considerar a pulsão de morte como pulsão-sexual-de-morte (Laplanche, 1970, Op. cit.).O dualismo pulsional se 38 caracterizaria, então, pelo conflito entre as pulsões-sexuais-de-morte – que dizem respeito à energia anárquica, livre, des-ligada – e as pulsões-sexuais-de-vida ou Eros, que se caracterizam pela energia ligada. Deparamo-nos, neste ponto, com uma passagem na qual o autor é bastante claro em sua definição da sublimação: Se é o eu, agente maior de Eros, que retoma a responsabilidade pelos interesses vitais, e se sua energia é, como diz Freud, "dessexualizada e sublimada", então a sublimação, a mutação da pulsão quanto a seus objetivos e seus objetos, vai aparecer, na verdade, como a transferência, a transposição da energia sexual de morte em energia sexual de vida, o ato de domar, a ligação de uma pulsão anárquica e destrutiva em suas origens (Id., 1999, p. 312). A sublimação aparece, portanto, como alternativa à autoviolência. Como o próprio Laplanche pontua numa entrevista concedida a Marta R. Cardoso, “... o ser humano está condenado a sublimar a pulsão-de-morte ...” (Cardoso, 2000, p. 62). Na elaboração apresentada em nosso capítulo anterior, procuramos relacionar o trabalho de sublimação com o da inscrição de representações. Este, por sua natureza tradutiva, deixa um resto que resulta daquilo que o psiquismo não pôde assimilar e daquilo que seria inassimilável, ou – se usamos os termos próprios a esse modelo tradutivo – daquilo que não foi possível traduzir e do que seria intraduzível. Caberá a nós explorarmos mais essa dimensão própria ao "inassimilável", visando melhor dar conta desse caráter disruptivo que, conforme já avançamos, pensamos estar na base do ato de criação artística. II.1.3 As marcas do trauma O trauma causa no psiquismo efeitos que estão além do processo de representação. Isto nos dirige para a categoria do "inassimilável". Estes efeitos podem ser considerados em termos de "marcas do trauma" conforme propõe Lucia Grossi dos Santos (Santos, 2002). A idéia de marca resultante do vivido traumático, expressa bem a 39 violência inerente ao encontro traumático. Para podermos articular a idéia de marca à noção de "inassimilável", devemos ainda voltar-nos para uma compreensão do aparelho psíquico a partir de uma perspectiva tradutiva, tal como a que encontramos no aparelho “neuronal” da “Carta 52” de Freud a Fliess, datada de 6 de dezembro de 1896 (Freud, 1950a [1887-1902], Op. cit., p. 317-18). Nesta carta é apresentado um modelo de aparelho de memória muito semelhante àquele publicado posteriormente em A interpretação dos sonhos (Id., 1900a). Mas há aí uma diferença de grande significação em nosso estudo. No modelo proposto em 1896, entre a função da "Percepção" e o registro mnêmico II, a "Inconsciência", encontramos o registro I, o registro das “indicações de percepção”. Isto significa supor que haveria algo percebido pelo aparelho que não estaria ainda inserido nas cadeias associativas de representações do inconsciente, não produzindo, portanto, sentido algum. Com o reconhecimento deste registro I, podemos deduzir que o encontro traumático estaria na base desses “índices de percepção” – as marcas. Além disso, podemos reconhecer que a tradução para o registro das representações pode não ocorrer por conta de uma irredutibilidade das marcas às possibilidades de associação e de contenção de energia; deste modo as marcas apontam tanto para algo "intraduzível", "inassimilável", quanto para a insistência no aparelho de uma energia disruptiva, violenta, indomada. Baseando-nos em Mal-estar na atualidade, podemos situar estas marcas no registro do corpo, sendo este justamente “... um território ocupado do organismo, isto é, um conjunto de marcas impressas sobre e no organismo pela inflexão promovida pelo Outro” (Birman, 2000, Op. cit., p. 62). Tal concepção coaduna-se com o que desenvolve Maciel Júnior a respeito do trauma, conforme assinalamos. Ou seja, este outro promove impressões corpóreas que se expressam em violência. O corpo do qual nos fala Birman 40 é um corpo ainda fragmentado: trata-se de núcleos separados, não há organização em torno de uma unidade; não há, portanto, representação. Se não há representação, o pulsional é pura afetação, até que o aparelho psíquico venha responder a essa força. Se relacionarmos essas afirmações de Birman com a "teoria da sedução generalizada" de Laplanche, reconheceremos nas marcas o efeito pulsional no corpo, movimento de erogeneização deste, lembrando que o pulsional implica um outro que instaura a sexualidade no sujeito. As marcas remetem para algo da ordem do excesso pulsional, para o que escapa à representação; dizem respeito ao que o outro instaura no sujeito e que permanece ativo, em seu interior, como violento, intraduzível. As marcas demandam descarga, são excitatórias e, portanto, são da ordem da intensidade pulsional, do afetivo. Já as representações são qualitativas, produzem sentido e ligam aquilo que antes era pura intensidade. As representações, ao se associarem em cadeias no aparelho, ligam a energia; a insistência das marcas é justamente a evidência da falha deste trabalho. Ao localizarmos as marcas – a partir do contexto da Primeira Tópica – entre a "Percepção" e as cadeias de representações do Inconsciente, podemos melhor organizar nosso pensamento. Mas uma nova exigência se apresenta: é preciso que localizemos as marcas em relação ao ego, pois é este quem sofre a “invasão” da força pulsional disruptiva. É no modelo da Segunda Tópica que encontramos a base para pensarmos as relações entre o ego e a força pulsional disruptiva, subjacente às marcas. Baseando-nos em “O ego e o id” (Freud, 1923b, Op. cit.), tendemos a localizar as marcas no espaço do id; afinal é esta instância que aponta para aquilo que, sendo inconsciente, não pode ser limitado nem ao recalcado, nem ao ego inconsciente. É no id que Freud localiza as pulsões, e a idéia que estamos apresentando a respeito das marcas 41 permite-nos associá-las à energia não ligada, à pulsão de morte que irrompe no ego quando não é barrada pelo recalque. As marcas ilustram o caráter avassalador do id sobre o ego, que fica sujeito a ter que satisfazer suas exigências, impostas de forma imperativa. Em “Moisés e o monoteísmo: três ensaios” (Freud, 1939a [1937-1938]), Freud sustenta que as marcas devem ser consideradas não apenas como advindas do trauma vivido pelo indivíduo; elas são, também, de alguma maneira, transmitidas através das gerações, sem serem "ensinadas" – o termo usado por Freud neste texto não é o de marca mas sim fóssil, mas isto não nega a idéia segundo a qual o trauma deixa uma marca; trata-se de elementos que não podem vir a situar-se na categoria das representações em cadeia. Em La consignation du sublimable (1994), J.-M. Porret aborda a questão das marcas, ainda que para tal faça uso do termo traço. O autor também articula esta noção com a dimensão de alteridade, que considera como sendo a própria base do trauma psíquico, apelando ainda à teoria de Laplanche: Os significantes enigmáticos maternos (por exemplo, o prazer-desprazer inconsciente que ela pode sentir concernindo a erogeneidade do seio) não induziriam na criança senão traços sob a forma de sensações, ou seja afetos, enigmáticos certamente (Porret, 1994, p. 120. A tradução é nossa.). É então na recepção dos significantes enigmáticos, ou seja, no encontro e na internalização do que advém do outro, que os traços são produzidos. O autor continua seu raciocínio enfatizando que esses traços “corporais mnêmicos” não são equivalentes das representações: dizem respeito ao que há de irrepresentável. Podemos inferir que se trata aqui justamente do que temos denominadomarcas. O que é intraduzível na transmissão de uma mensagem, a marca, tende a repetir-se e os esforços do psiquismo 42 em dominar esta “interferência” da marca mostram-nos com clareza a verdade do funcionamento do psiquismo humano: o conflito como condição inevitável. Através dos autores que temos estudado podemos tratar as marcas do traumático a partir da perspectiva do outro interno. É justamente a insistência deste outro interno intraduzível em busca de expressão, de adentrar-se no ego buscando um caminho para a descarga – impondo-se, ao mesmo tempo, como externo e interno – que irá promover uma fissura nessa unidade. As marcas farão o ego "revirar-se" em busca de uma possível assimilação desse radical "corpo estranho". Por este prisma, as marcas psíquicas, enquanto não são integradas pela tendência unificadora, remetem-nos para a energia livre veiculada pela ação da pulsão de morte. II.1.4 As marcas e a atividade artística A importância da noção de marca para a compreensão do processo de criação artística reside no fato de que os efeitos intensos desses elementos não podem ser incluídos no modelo de inscrição da sublimação "intelectual-científica" pois, de acordo com o que desenvolvemos em nosso primeiro capítulo, estas implicam uma ineficácia no fechamento egóico. Esta característica de não-fechamento egóico, própria ao ato de criação artística, é suposta por Freud em seu artigo sobre Leonardo da Vinci (Freud, 1910c, Op. cit.). Freud mostra que a arte de Leonardo trazia cada vez mais perguntas que não encontravam respostas, não permitiam uma síntese. Inferimos, assim, que o que não produz sentido, o que não é passível de ligação, pode fazer-se presente sob essa nova forma. Essa questão revela-se de grande utilidade para integrarmos a problemática da inscrição psíquica no campo da produção artística. Mesmo que o modelo de inscrição de 43 representações até então estudado não possa ser diretamente aplicado ao processo de criação artística, consideramos que alguma espécie de inscrição psíquica tem lugar aí, pois trata-se, afinal, de um ato criador de uma obra. J. Derrida (1967) trabalha a questão da inscrição psíquica por trilhas diferentes das nossas. Mas suas idéias são de grande utilidade para nós, já que ele também enfatiza o caráter disruptivo ou violento presente na inscrição psíquica, como temos procurado sustentar no que concerne à criação artística. Ao nos determos no pensamento de Derrida, nossa intenção é bem pontual – a de reforçar a dimensão de violência presente no próprio efeito da marca, da impressão no psíquico, tão frisada por este pensador. Em “Freud e a cena da escritura”, texto da obra A escritura e a diferença (1967), o autor propõe uma leitura bastante original sobre a maneira como se produz a inscrição no aparelho psíquico. Enfatiza que a escritura não se limita apenas a uma escritura fonética. Todavia, o que mais nos importa aí é a abordagem que o autor propõe sobre a maneira pela qual a escritura é feita. Ele ressalta a importância da força, da energia disruptiva (e por que não chamá-la pulsional?) para que ocorra a produção de sentido, observando este aspecto, em primeiro lugar, nas facilitações das quais Freud fala em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895 (Freud, 1950 [1887-1902], Op. cit.). Derrida denota o caráter violento inerente a esse movimento de inscrição, conforme podemos constatar na seguinte passagem: ... abertura do seu espaço, efração, abertura de um caminho apesar das resistências, ruptura e irrupção abrindo caminho (...) inscrição violenta de uma forma, traçado de uma diferença numa natureza ou numa matéria, que só são pensáveis como tais na sua oposição à escritura. A estrada abre-se numa natureza ou numa matéria... (Derrida, 1967, Op. cit., p. 203). Essa visão nos fala da importância da intervenção de uma força para que a inscrição possa efetuar-se, para que ocorra a produção de sentido. A exigência da pulsão 44 força a inscrição no aparelho. Como temos indicado até aqui, é no próprio processo de produção de sentido que a violência pulsional poderá ser contida. Esta escritura da qual nos fala Derrida não está referida a um sentido a ser descoberto, escondido nas profundezas; também não está referida a nada que possa encerrá-la num sistema organizado. Ao contrário, trata-se de uma escritura fragmentária, em franca oposição à idéia de unidade. Com o auxílio de suas proposições podemos sublinhar o fato de que o que é violento vem expressar-se pela via da inscrição. As observações de Derrida ajudam-nos a perceber nas marcas este traçado violento de uma diferença psíquica. O fato de o autor mostrar que a escrita é fragmentária e que se opõe à unidade remete-nos, novamente, ao problema das marcas psíquicas, tal como o temos estudado: antes de efetuar-se a inscrição propriamente dita, é preciso que tomemos como dado necessário o acontecimento da marca traumática. Na nossa interpretação do texto do autor, a proposta de que esta escrita se opõe à idéia de conceito afasta-a da representação, aproximando-a de uma atividade em que a marca se expressa, a nada remetendo, a nada se associando. Nos momentos em que esse autor reflete sobre a arte, nós nos beneficiamos ainda mais em nossa trajetória. Lembremos que a própria ocorrência da marca é violenta para o psiquismo. Derrida fala-nos dessa violência como um traçado de uma diferença numa natureza ou numa matéria – no caso da arte, esta “imagem” apresentada por ele chega mesmo a deixar de ser uma metáfora que pode ser entendida como sendo a própria descrição do trabalho do artista: “Ora um corpo verbal não se deixa traduzir ou transportar para uma outra língua. É aquilo mesmo que a tradução deixa de lado. Deixar de lado o corpo é mesmo a energia essencial da tradução. Quando ela reinstitui um corpo, é poesia” (Id., ibid., p. 198). 45 A arte consistiria, portanto, numa tradução em que o que está de fora expressa-se como corpo. Nosso olhar sobre o ato artístico vem, então, demandar um estudo dessa convocação do registro do corpo, tendo em vista o que Birman elabora sobre as marcas e o corpo (Birman, 2000, Op. cit.): as marcas indicariam o efeito da pulsão no corpo. Compreendemos que o artista encontrará outros meios para expressar-se que não o da representação. A arte seria uma forma de fazer a marca evidenciar-se na criação – dar possibilidade à instauração de um corpo através de uma “gramática individual”, segundo as palavras de Derrida. A idéia de “gramática individual” direciona, por sua vez, nosso olhar para o registro do ato, envolvido nessa convocação do corpo. II.2 Freud e o ato Temos delineado uma elaboração sobre o ato artístico, considerado aqui como ato singular, pois de algum modo cria uma inscrição e ao mesmo tempo possibilita a atualização e expressão daquilo que é disruptivo e violento, que é da ordem da ação da pulsão de morte. Freud não era indiferente à questão do ato, tendo produzido inúmeros textos nos quais está presente esta temática, desde os chamados escritos pré-psicanalíticos. Paul- Laurent Assoun elabora um excelente estudo sobre o ato em Freud (Assoun, 1985), e que nos servirá, aqui, de guia. 46 II.2.1 O ato e a ligação Desde o momento em que Freud se volta para a problemática da histeria (Breuer & Freud, 1893-1895, Op. cit.), a dimensão do ato é tematizada em sua investigação. Podemos citar, por exemplo, a referência à catarse ou à natureza de certos sintomas nos casos clínicos relatados. Porém, uma teorização mais focada no ato encontra-se no “Projeto para uma psicologia científica” (1950a[1887-1902],op. cit.). Nesta obra, identificamos a emergência de uma teorização sobre o ato, neste caso, relacionada à questão da ligação da energia psíquica. No “Projeto”, Freud se refere à importância dos atos no funcionamento psíquico através da noção de “ação específica” (Freud, 1950a [1887-1902], p. 370). As excitações pulsionais demandam uma descarga que alivia a tensão que elas provocam, ainda que esta descarga só possa ocorrer por meio de uma ação específica. Como P.-L. Assoun frisa em seu artigo "De l’acte chez Freud": “Há, desde então, realização, pelo objeto e pelas condições externas, do programa da 'détente'...” (Assoun, 1985, p.150. a tradução é nossa). Esta observação aponta para a suposição de uma retenção da libido que, como veremos em seguida, está relacionada à ligação da libido – ação que permite uma quiescência da libido, através do vínculo ao objeto que é explorado para obtenção de algum prazer, ou seja, de alguma descarga. Este objeto só pode ser explorado pelo bebê desamparado através de uma "ajuda externa" que lhe permite realizar a ação específica. Assoun mostra que a esfera do "ato específico" surge a partir do momento em que “... a estratégia da inércia é contrariada, criando um tipo de elo de retroação com o exterior” (Id., ibid., p. 151). A questão da ação específica indica que para que uma quantidade de energia possa encontrar uma descarga, é preciso que parte dessa energia 47 tenha sido ligada. O que está em jogo nesta regulação de energia descarregada é o teste de realidade: o aparelho psíquico tem de se haver com a realidade para poder descarregar sua energia, em contraposição à descarga alucinatória que não satisfaz a demanda. (Freud, 1900a, Op. cit.). Posteriormente, no artigo dedicado aos dois princípios de funcionamento mental (Id., 1911b), Freud afirmará que o “agir” diz respeito ao princípio de realidade. Sob o domínio do princípio de prazer encontraríamos apenas descargas motoras descontroladas. Assoun mostra a presença de uma instância psíquica que seria responsável por essa modificação da descarga motora em um “agir” que se efetua sobre a realidade – trata-se do ego. De acordo com o que já avançamos acerca desta instância psíquica organizadora, podemos supor que o “agir” aponta para um ato que se coaduna com a exigência de unidade narcísica, estando submetido às vicissitudes que regulam esta exigência – o recalque e a sublimação. Dando continuidade a sua análise do texto de 1911 e, baseando-se no modelo da Segunda Tópica, o autor sustenta que o agir diz respeito a uma negociação entre o ego e o id sobre a fronteira da realidade – aqui o agir estaria referido a uma formação de compromisso. Investigando a questão sob um outro ângulo, o do domínio do ego sobre a motilidade, Freud nos indica um ego que se opõe ao ato. Um interessante desenvolvimento desta idéia pode se encontrado em Totem e tabu (Id., 1912-13). Freud propõe que o suposto ato de parricídio e banquete canibalístico cometido pelos filhos na horda primeva passa a ser expiado por toda a humanidade, herdeira deste momento inaugural da cultura. Todos nós o desejamos e punimo-nos por isso, repetindo psiquicamente algo que outrora foi da ordem de um ato propriamente dito1. Este 1 O ato que teve de ser refreado exibe para nós uma outra forma de compreensão do ato: a de um ato ainda sem ligação, que examinaremos mais à frente 48 mecanismo pressupõe um trabalho de elaboração e simbolização que estaria na base do refreamento do ato, em nome da vida cultural e em nome da sua substituição por símbolos mas que, mesmo assim, manteria o sentimento de culpa pelo ato desejado (Freud, 1930a). É este refreamento do ato que possibilitará o "avanço em espiritualidade" mencionado por Freud em “Moisés e o monoteísmo” (Freud, 1939 [1937-1938], Op. cit.) e que diz respeito ao trabalho de representação. Para este “avanço” realizar-se é necessário o trabalho do recalque, através da ação do ego que vem impedir que a sexualidade disruptiva do id domine o psiquismo. O trabalho da sublimação viria possibilitar a formação dos ideais. O recalque visa conter a realização de um ato, mas temos que reconhecer que o retorno do recalcado também pode exercer- se através da realização de um ato. No entanto, neste caso, este ato já se encontraria submetido à lógica da ligação libidinal; por isso mesmo, opera-se uma formação de compromisso. Em psicanálise, os termos atuação e ato historicamente remetem-nos aos atos falhos (Id., 1901b) e ao acting out (Id., 1914g) os quais resultam exatamente de uma formação de compromisso entre os sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente, do retorno do recalcado e, conseqüentemente, uma perspectiva de substituição de uma idéia ou representação inconsciente. É para a dimensão de representação que temos de voltar-nos quando investigamos os atos através deste prisma. Entretanto, o ato artístico não pode ser enquadrado dentro desta lógica, pois a atividade artística comporta, como temos pontuado, uma dimensão disruptiva. Isto significa supor que algo falha na formação de compromisso; não há uma resolução do mesmo tipo daquela implicada nos atos falhos, por exemplo. 49 No estudo dos atos sintomáticos da neurose obsessiva é que Freud abordará uma outra dimensão do ato, o que o orientará na direção de sua relação com o pulsional, em sua vertente disruptiva. O ato obsessivo, a ação compulsiva, evidencia um aspecto que não é passível de ser harmonizado nessa concepção do ato exposta acima – o ato entendido a partir do viés da ligação. Assoun chama a nossa atenção para o fato de que se o trabalho de representação na neurose obsessiva se expressa tão claramente através desse processo de intensificação do pensamento que marca essa patologia, este mesmo trabalho se revela falho quando se trata do ato compulsivo (Assoun, 1985, Op. cit.). O caráter compulsivo do ato obsessivo aponta para algo de uma ordem diferente daquele “agir” dominado e regulado pelo ego. O fato de ser compulsivo, por si só, aponta para a falta de controle por parte do ego. “O que nos interessa então nelas [nas ações compulsivas], é o que, na ação, se cristaliza de um bloqueio da representação ao mesmo tempo que de uma descarga” (Id., ibid., p. 159. A tradução é nossa.). O próprio Freud pontua: ... o processo de repressão [recalque] que acarreta a neurose obsessiva deve ser considerado como um processo que só obtém êxito parcial, estando constantemente sob a ameaça de um fracasso (Freud, 1907b, p. 114). Sabendo que o trabalho de recalcamento é função do ego, podemos supor que a falta de controle dessa instância esteja na base do fenômeno da compulsão. Ainda que reconheçamos a presença desse aspecto compulsivo próprio ao ato sintomático do neurótico obsessivo, este é, efetivamente, um sintoma neurótico, implicando, portanto, uma formação de compromisso: este ato tem um sentido; associa- se às idéias recalcadas. Acreditamos ser este um dos pontos com que Freud se preocupa ao salientar que os atos obsessivos “... que de início se destinavam principalmente a manter a defesa aproximam-se progressivamente dos atos proibidos pelos quais o 50 instinto [a pulsão] pôde expressar-se na infância” (Id., ibid., p. 115). O ato obsessivo expressa, ao mesmo tempo, uma defesa e um ataque pulsional. Ainda sinalizando o caráter contraditório que a neurose obsessiva apresenta, Assoun expõe, de forma clara, seu ponto de vista sobre os atos obsessivos: ... um trabalho psíquico de deslocamento que dá ao ato seu sentido metafórico (no eixo da representação), mas também o ato "real" – objeto do interdito– que simultaneamente se esconde no ato ritual e se realiza nele” (Assoun, 1985, Op. cit., p. 160. A tradução é nossa.). O caráter compulsivo que esse ato comporta aponta também para o que Assoun chama de ato “real” – ato que ultrapassa o terreno da representação, apresentando-se de forma disruptiva. Sabemos que em 1920, em “Além do princípio do prazer” é que Freud estudará o ato à luz dessa outra perspectiva – por conta do fenômeno da compulsão à repetição, fenômeno que imporá um profundo questionamento da prevalência do princípio do prazer na vida psíquica. II.2.2 O ato fora do "eixo da representação" A compulsão à repetição se ancora numa lógica totalmente distinta daquela que antes orientava Freud em sua análise do fenômeno das compulsões. Trata-se, agora, de uma lógica que se situa além da representação: é a repetição do mesmo, sem possibilidade de associação à cadeia de representações. Estes atos, que Freud associara às neuroses traumáticas, evidenciam uma falha no processo de elaboração – de ligação, em última instância – na impossibilidade, justamente, de uma formação de compromisso. Estes atos não pressupõem uma produção de sentido, pois estão aquém da representação. Isto vem novamente conduzir-nos aos efeitos das marcas do trauma. 51 Assim, deparamo-nos com o aspecto violento do ato ainda sem ligação de energia. A violência, vale lembrar, se exerce contra o ego, que se acha em um estado de passividade diante de uma energia pulsional não-ligada que o invade. Nas neuroses traumáticas o ato compulsivo aponta, portanto, para o efeito avassalador da pulsão de morte. As marcas do trauma não entram na cadeia associativa e dessa forma é o mesmo fenômeno que tende a se repetir. Não é possível que a energia opere um deslizamento numa cadeia, o que permitiria a emergência do novo através da repetição. O ato se situará sob a vigência da desfusão pulsional, como Freud postula em “O ego e o id” (Freud, 1923b, Op. cit.): é a desfusão entre as pulsões de vida e de morte que termina por tornar avassaladores os efeitos da pulsão de morte, impedindo um efetivo trabalho de ligação. O ato que resulta de uma compulsão à repetição revela a precariedade do funcionamento do aparelho psíquico que responderá à pulsão com uma descarga motora. A representação não entra em jogo e com isso os destinos pulsionais possíveis ficam limitados a uma alternância no eixo passividade-atividade e ao retorno da energia pulsional sobre a própria pessoa. II.3 O ato artístico em sua especificidade O ato artístico é um ato criador, e deste modo não podemos abordá-lo como sendo da mesma ordem da compulsão à repetição que fundamentalmente se refere à repetição do mesmo. Na verdade, o ato de criação artística não parece encaixar-se em nenhuma das vertentes anteriormente analisadas quanto ao ato. Por uma razão clara não pode ser identificado com uma “passagem ao ato”, movida pela compulsão à repetição: esta ocorre justamente na impossibilidade de significar, elaborar, enfim, representar. A 52 criação da obra de arte, como resultado do trabalho artístico, resulta, inegavelmente, de um trabalho elaborativo. Mas terá o processo de criação a mesma natureza daquele envolvido na produção das representações? Nossa hipótese, já esboçada anteriormente, é que não se trata do mesmo tipo de processo, à medida que a inscrição de representações, gerenciada pela busca de unidade egóica, é um processo distinto daquele que fundamenta o trabalho artístico que parece justamente desafiar a manutenção da unidade. A respeito deste ponto, a posição de João A. Frayze-Pereira (2002) sugere, igualmente, a idéia de uma assimetria existente entre o eixo da arte e aquele que consideramos como o eixo da "sublimação-representação". Ao enfatizar a convocação do corpo nas artes performáticas contemporâneas, este autor escreve: ... uma ação artística como essa acaba por colocar a arte numa situação que, se não escapa inteiramente ao campo da sublimação, pelo menos interroga o conceito que classicamente conecta a arte ao corpo teórico da psicanálise, pois (...) o conceito de sublimação implica "a idéia de um apaziguamento pulsional" ... (Frayze-Pereira, 2002, p. 267). Se o ato criativo não é redutível à compulsão à repetição, isto também pode ser pensado em relação ao processo de sublimação, ou seja, à contenção de energia através da ligação representacional. Também não podemos conceber o ato artístico como análogo ao ato sintomático compulsivo próprio à neurose obsessiva, na qual o sujeito está incapacitado de criar, e em que o ato compulsivo marca a esterilidade do pensamento e da conduta. O ato de criação não se caracterizaria, então, nem pela não- inscrição inerente à compulsão à repetição, nem pela fixidez própria ao sintoma obsessivo, que não "abre espaço" para a possibilidade da produção de uma outra coisa. 53 Se até aqui tentamos dar conta daquilo que no ato de criação em geral é distinto do ato de criação artística, temos agora a tarefa de procurar definir, de forma positivada, esta modalidade de ato. II.3.1 O ato artístico como resposta à violência pulsional Desde os primeiros textos dedicados ao assunto e, principalmente no artigo “Dostoievski e o parricídio” (1928a), Freud enfatiza a questão do excesso pulsional implicada no ato de criação artística. Jean Guillaumin também recorre a esta dimensão de excesso, fundamentando-se na precariedade do trabalho egóico nos sujeitos artistas, como condição para essa saída criativa encontrada para a angústia (Guillaumin, 1998, Op. cit.). Como indicamos anteriormente, a idéia de uma precariedade egóica é correlativa de uma “invasão” no aparelho psíquico daquilo que é disruptivo e traumático para o ego. A compreensão desta modalidade de ato como resposta ao efeito do traumático sobre o ego ganha força aqui. Marta Rezende Cardoso, em seu artigo “Violência, domínio e transgressão” (2002) ajuda-nos a explorar esta hipótese do “ato como resposta” ao traumático, através de sua análise sobre a “pulsão de domínio”, onde estabelece um contraponto desta noção com a idéia de uma “dominação da pulsão”. A autora propõe que a “pulsão de domínio” indica a ação da força pulsional em seu estado bruto, não-ligado, de energia livre. Considerando a idéia de uma “dominação da pulsão”, faz referência, dentro deste jogo de forças, a uma resposta, uma modalidade de defesa que estaria situada aquém da simbolização, da ligação, o que sinaliza uma precariedade do ego em representar ou recalcar a violência da pulsão de morte. É interessante notar que a noção de domínio é enfatizada neste artigo como distinta de 54 uma elaboração psíquica. Esta abordagem da “pulsão de domínio” viabiliza pensarmos a possibilidade de algum “tratamento” dado à pulsão, mas que não resulta numa sublimação ou num recalcamento, que suporiam um “fechamento” do ego – o não comprometimento de sua unidade narcísica – ainda que esse “tratamento” da força pulsional deva ser entendido como resposta ao traumático. A idéia de "domínio" permite-nos esboçar certos mecanismos que estariam em jogo no ato artístico. A possibilidade de “dominar” a pulsão, implícita neste ato, diz respeito a esse não-fechamento de sentido, a esse modo de “tratamento” da pulsão que mantém ativas as marcas do traumático e a abertura ao “outro”. Articulando essa problemática da “pulsão de domínio” com a do ato de criação, concluímos que este constitui uma resposta a uma situação onde o sujeito se encontra, paradoxalmente, passivo – passivo diante da pulsão. Isto parece-nos próximo do que ocorre no brincar da criança no jogo do "Fort-Da" (Freud, 1920g,Op. cit.). Não basta, neste caso, que se verbalize as palavras "Fort" e "Da" para que a criança possa dominar a sua angústia diante da separação materna: é preciso efetivamente atuar para que um processo de elaboração interna, ainda que de caráter elementar, possa ser desencadeado. Tanto o jogo do "Fort-Da" quanto o processo de criação artística revelam a possibilidade de uma inscrição, mas que se faz pela intermediação do próprio agir. A partir dessa aproximação, levantamos a hipótese de que assim como esse brincar, o ato de criação artística consiste numa tentativa de encontrar uma via para dar conta do excesso de angústia. A alternância nos pólos da passividade-atividade implicada no jogo do "Fort-Da" revela-se particularmente útil para compreendermos o caráter de resposta que o ato artístico comporta. Da passividade diante da experiência traumática, diante de 55 um outro interno ”intraduzível”, o sujeito passa à posição ativa, à resposta a este outro. É no manejo da pulsão que se realiza a expressão artística (Kahn, 2003). Freud sublinha também essa dimensão de passividade pulsional própria ao artista tanto em seu artigo sobre Leonardo da Vinci (1910c, Op. cit.) quanto naquele que dedica a Dostoievski (1928a, Op. cit.), sendo que neste ele chega a reconhecer o caráter masoquista subjacente a essa situação de passividade. Como resposta aos efeitos disruptivos, violentos e, portanto, intraduzíveis, o ego precisa reagir e deste modo, a proposição apresentada por Guillaumin sobre o ato criativo como “reação criadora negativa”, parece-nos muito rica (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 15-6). Este autor supõe que a necessidade de criar uma obra de arte surge como resposta a uma precariedade: uma dificuldade do psiquismo em delimitar o território da tópica psíquica. Esta precariedade seria própria dos artistas, ponto de sintonia com o que Freud diz a respeito da “disposição para a atividade artística”, conforme mostramos em nosso primeiro capítulo. A suposição de uma precariedade do ego reafirma a importância do caráter disruptivo do id e de seu papel na criação artística. Esta idéia de precariedade pode ser entendida à luz do que Cardoso desenvolve no artigo supracitado (Cardoso, 2002, Op. cit.), ou seja, nesse quadro tenderia a ocorrer uma invasão de energia não-ligada no ego, resultando num ataque violento e destrutivo. Em contrapartida, a criação se oferece “... como reconstrução do aparelho psíquico” (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 17. A tradução é nossa.). Visando compreender esta resposta criativa do ego, e inspirado na idéia freudiana (de 1920) de uma reação terapêutica negativa, Guillaumin formula a hipótese da “reação criadora negativa”, enfatizando com esta noção essa vertente compulsiva da criação artística. Vale precisar, 56 porém, que isto não se confunde com a ação de uma compulsão à repetição, como no caso da reação terapêutica negativa. Segundo o autor, através da obra de arte o artista cria uma tópica extraterritorial onde é projetado seu aparelho psíquico. É nesta tópica – a própria obra – que o conflito psíquico é “despejado”, e é nela que poderá ser elaborado. Isto virá atenuar a angústia advinda dos embates do traumático com o ego – o artista precisa da obra para defender- se do ataque pulsional disruptivo que abala a organização egóica. É nesse sentido que ele pode tornar-se “escravo da própria obra” (Id. Ibid., p. 16. A tradução é nossa), pois ela é a possibilidade que ele encontra de haver-se com o que há de mais “violento” em si mesmo. Guillaumin compreende esta tópica extraterritorial da obra como uma autocriação projetiva na qual estariam em jogo “... mecanismos psíquicos, por sua vez muito primitivos (... ) sutilmente agenciados” (Id., ibid., p. 19. A tradução é nossa.). A proposição de que os mecanismos em jogo seriam primitivos destaca a importância dos destinos pulsionais postos em ação quando o recalque não pode se dar; referimo-nos aos destinos da pulsão aquém do recalque: a “transformação no oposto” e o “retorno sobre a própria pessoa”. É através do ato de criar a obra que se poderá viabilizar algum manejo e alguma elaboração desse embate psíquico. Esta posição encontra eco também em Harold P. Blum, que reconhece nos auto-retratos de Van Gogh uma possibilidade de elaboração de uma visão diferente de si mesmo, apaziguadora – ainda que parcialmente – de sua angústia (Blum, 2003). O estudo do auto-retrato também vem realçar a função projetiva de autocriação, da criação de um outro eu. A obra é um duplo do artista que pode ser manipulada e elaborada por este, mas que leva em si mesma o caráter de “estranho”, 57 Unheimlich (Freud, 1919h, Op. cit.), do outro interno que se expressa como enigma radical. A obra é uma outra possibilidade de se organizar aquilo que, não se representando, “apresenta"-se ao sujeito. Guillaumin afirma: Eu sugiro desde agora que o segredo [da obra de arte] é aquele do próprio corpo do criador, retornado projetivamente de dentro para fora (...) e fixado em seguida cuidadosamente pela técnica nessa nova posição (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 22. A tradução é nossa.). A referência que o autor faz ao segredo da obra como sendo o do corpo do artista, evoca o que desenvolvemos anteriormente a respeito das marcas do trauma e de sua importância no processo de criação artística. Nesta passagem também encontramos uma indicação sobre o papel do mecanismo do “retorno sobre a própria pessoa”, tópico a que retornaremos adiante. Esta passagem de Guillaumin introduz, ainda, uma outra temática de interesse para nós: a técnica do artista. Esta é relativa às habilidades do artista no manejo de um ato que, de outro modo, seria intensamente violento, puramente disruptivo, como é no caso das “passagens ao ato”. O tão valorizado domínio da técnica diz respeito ao domínio sobre o ato – e deve ser diferenciado de uma simples contenção. O que queremos sublinhar nessa busca de “domínio da técnica” é o fato de o ato ter que ser efetivamente realizado. A noção de “reação criadora negativa”, reação que consiste no próprio ato de criação, por ser inspirada na noção de “reação terapêutica negativa”, pode ser comparada com as reações violentas nas quais a possibilidade de mediação e elaboração revelam-se demasiadamente precárias ou mesmo ausentes. Mas, vale insistir, estas duas "reações" são muito distintas. Se o artista, como nos indica Guillaumin, pode se tornar “escravo da obra”, isto se dá como tentativa de proteger-se e proteger o outro da violência que, de outra maneira, revelaria a sua face destrutiva: 58 ... a operação de criação, destinada sem dúvida a ordenar uma nova diferenciação-separação do ego e do mundo com a ajuda do que eu considero como uma verdadeira tópica auxiliar, deixa sempre (...) um resto, um inacabado o qual a obra leva em conta. O criador pôde evitar se destruir ou destruir seus objetos num corpo a corpo direto, intercalando a obra entre ele e aqueles (Id., ibid., p. 14. A tradução é nossa.). II.3.2 O "tratamento" da violência Supor que através da criação da obra o artista venha a proteger-se e a proteger o outro de sua violência interna, aponta para mais uma característica da atividade artística, ponto que já procuramos esboçar: a propriedade da arte de dar algum “tratamento” à violência, tendo em vista a singularidade desse manejo. Como mostramos anteriormente, este manejo não se limita a uma contenção, como ocorre na inscrição de representações, com “fechamento” de sentido. A obra de arte, ela própria, é a elaboração possível, a mediação criada pelo artista para poder dar conta de um id avassalador, daquilo que escapaà tradução. É esta tentativa de dizer o que não pode ser dito que encontramos no famoso sorriso enigmático da Mona Lisa de Da Vinci, como Freud (1910c, Op. cit.) indica. A arte, como tentativa de representar o irrepresentável, ao mesmo tempo em que coloca o artista em situação de trabalho, não é capaz de apaziguar sua angústia, mas apenas de direcioná-la – é isto que queremos dizer quando sugerimos que na atividade artística ocorre um tratamento dado à violência. O caráter de um trabalho não-apaziguador mostra-se neste lamento que Vincent Van Gogh faz numa carta a Théo, seu irmão: E eis a causa primeira e última de meu desvario. Você conhece esta frase de um poeta holandês: "Estou ligado à terra por laços dos mais que terrestres". É o que senti com muita angústia – antes de mais nada – em minha doença mental. 59 Infelizmente tenho uma profissão que não conheço o suficiente para me exprimir como desejaria (Van Gogh, 1914 [1853-90], p. 375). A incapacidade de se “exprimir como desejaria” não detém o artista. Ao contrário, é ela que o move a tentar dominar a pulsão. O direcionamento dado à pulsão apresenta-se como fator determinante, tanto através do “retorno sobre a própria pessoa”, quanto da “transformação no oposto”, já que o recalque parece falhar e o trabalho de contenção é barrado. Lembremos que Freud se refere às quatro vicissitudes da pulsão como defesas do ego ao ataque pulsional (Freud, 1915c, Op. cit.), mesmo que estas duas primeiras vicissitudes não impeçam que o caráter disruptivo da pulsão venha a exercer- se. Ao tematizar estes destinos pulsionais mais elementares e seu papel no processo de criação artística, Guillaumin ressalta que o caráter destrutivo da pulsão sofre uma "mudança em seu oposto": “... pode-se dizer que o artista cria para tentar fazer prevalecer o amor sobre o ódio” (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 68. A tradução é nossa), de modo que, tendo em vista a segunda teoria pulsional, essa passagem contém a idéia do trabalho de Eros sobre a "demoníaca" pulsão de morte. O autor dá seguimento a sua análise sobre as complexas combinações dos destinos “anteriores” da pulsão com o recalque, que se dão no processo de criação artística: ... a combinação de elementos reunidos , "ser ativo (no lugar de ser passivo) + ser construtor e bom (no lugar de cruel e destruidor)", constitui, mesmo se ela é frágil, uma estrutura original e talvez específica. (...) [No] "retorno sobre a própria pessoa" (...) a preposição "sobre" é tomada ao mesmo tempo no sentido literal e no sentido simbólico. (...) [A] obra é o artista e o artista é sua própria mãe ... (Id., ibid., p. 68-69. A tradução é nossa.). A possibilidade de estabelecermos uma comparação entre a “reação criadora negativa” e a destrutiva reação terapêutica negativa pode ser uma proposta pertinente para compreender-se a capacidade que a arte tem, de dar conta dos efeitos devastadores 60 da pulsão. A reação terapêutica negativa – fonte de inspiração de Guillaumin na construção de sua noção de “reação criadora negativa” – foi habilmente explorada por J.B. Pontalis (1981). Seu estudo permite-nos avançar ainda mais em nossa reflexão sobre o ato artístico, como “reação criadora negativa”. Assim como Guillaumin, Pontalis chama nossa atenção para o termo “reação”, mas no caso desse artigo, a reação em questão é a “reação terapêutica negativa”. Este autor concebe-a como efeito de uma ação. A ação seria a invasão do outro internalizado, conforme apresentamos no estudo que fizemos anteriormente sobre as marcas do trauma. Na situação a que Pontalis se refere, esta invasão se dá de forma irredutível, impossibilitando a formação de vias mediadoras e, portanto, a de uma diferenciação entre o que é da ordem do ego e o que advém desse outro, invasor interno. Essa incapacidade de mediação tem como resultado uma não-diferenciação, uma ineficiência do ego quanto a defender-se da ação da pulsão de morte a não ser através de uma reação, como medida extrema. O paciente que produz a reação terapêutica negativa utiliza-se deste recurso para se proteger contra a autodestruição. O artista, ainda que de forma distinta, também se protege da autodestruição através da obra. O sujeito continua a sofrer o ataque interno, mas encontra uma via reativa que lhe possibilita existir além do outro. O artista também sofre com as invasões de um outro interno avassalador, não-diferenciado do ego, e sua resposta também se dá por meio de uma reação. Porém, uma distinção fundamental impõe-se aqui: na reação criadora negativa, a própria criação do objeto artístico evidencia uma elaboração possível para este ataque interno e para a construção dos limites entre o ego e o outro. É exatamente esta particularidade, esta tópica 61 extraterritorial que permite, em última instância, uma elaboração, pois o aspecto indomável do outro é “transferido” para a obra. Elaborando esta noção – a reação criadora negativa – Guillaumin explicita ainda que o artista sofre para criar, e o resultado da criação de uma obra o satisfaz apenas temporariamente. Fazer a obra de arte revela-se necessário para que o artista possa encaminhar sua angústia, mas sem extingui-la. Um outro trecho de carta de Van Gogh a seu irmão Théo ilustra o que estamos tentando mostrar: É preciso que eu me resigne, é bem verdade que um monte de pintores ficam loucos, é uma vida que leva a ficar meio abstraído, para dizer o mínimo. Se eu me relanço em cheio no trabalho, muito bem, mas continuo sempre louco (Van Gogh, 1914 [1853-1890], Op. cit., p.389). Outros objetos terão, imperativamente, de ser criados e, se isso não ocorrer, o artista tenderá a um auto-ataque ou a um ataque ao outro. Em momentos de crise, com estranha lucidez, Van Gogh evidencia a insistência dessa vertente destrutiva no artista: “Gostaria apenas que pudessem nos provar algo tranqüilizante e que nos consolasse de maneira que não nos sentíssemos mais culpados ou infelizes, e que assim pudéssemos caminhar sem nos perdermos na solidão ou no nada, e sem ter que a cada passo temer ou prever nervosamente o mal que sem querer poderíamos estar causando aos outros” (Id., ibid., p.308). A ineficiência da quiescência da libido não significa que a produção artística não pressuponha uma inscrição psíquica. Quer dizer, sim, que se trata de uma inscrição de ordem diferente daquela que reconhecemos na sublimação sob a estética do belo, que se fecha na unidade. J.L. Bonnat, em Van Gogh: écriture de l’oeuvre (1994) reconhece o trabalho artístico como a construção de uma possibilidade de inscrever o que não pode ser inscrito em palavras, encontrando na obra de Van Gogh um ótimo exemplo para sua hipótese. No trecho seguinte, este autor mostra como Van Gogh criou sua própria “escrita”: 62 Sua "escritura na pintura" é feita (...) das estrias, barras, círculos, quadrados ou losangos deformados, bastões justapostos e traçados uniformes que ele formava no âmago de seus "empastamentos" vigorosos, sólidos (Bonnat, 1994, p. XIV. A tradução é nossa.). Consideramos que o que esta "escrita" tem de particular é o fato de permitir que as marcas traumáticas participem efetivamente da expressão, não sendo excluídas. A arte, a poesia, como nos lembra Boris Eizykman, possibilita que as “metamorfoses e a simultaneidade” (Eizykman, 2003, p. 552. A tradução é nossa.) de sentidos habitem o processo secundário – caracterizado pelo fechamento do sentido. Este autor desenvolve seu raciocínio afirmando que a poesia aponta para a própria plasticidade pulsional, o que está de acordo com a hipótese anteriormente levantada por nós sobre a "expressão das marcas". Parece ser tambémem torno dessa mesma dimensão do ato artístico – como forma de inscrição na qual as marcas se impõem – que Edson L. A. de Sousa afirma: ... a sensibilidade (os sentidos do corpo) vem operar como motor de um processo de apreensão do mundo (...) O artista é um tradutor que não só precisa construir seus instrumentos de leitura, suas gramáticas e dicionários de mão, como precisa também fundar o texto que vai traduzir (Sousa, 2002, p. 144). A abordagem de Sousa dá ênfase ao caráter tradutivo da inscrição psíquica, tema que temos explorado a partir da noção de que a mensagem enigmática do outro, ao ser internalizada, continua a exigir tradução. Deste artigo de Sousa, destacamos a indicação que faz dos dois pilares por onde se operaria o processo de criação artística: o primeiro deles é o endereçamento a um outro. O segundo é a possibilidade de “dar forma a mundos informes” (Id., ibid., p. 145), ou seja, o trabalho de tradução/inscrição e elaboração que a obra permite. 63 Com relação a este segundo pilar, relativo à construção que o artista promove, relativo à sua "escrita", cabe relembrar que é a projeção para uma tópica extraterritorial que torna possível essa inscrição, “inscrição-limite”, acrescentaríamos nós, das marcas. O que é projetado é o próprio aparelho psíquico do artista. A obra é a construção desta tópica projetada onde os conflitos internos podem ser repetidos, manipulados e elaborados sob a estética do sublime, “tratamento” do traumático que não está orientado para a via de fechamento narcísico-fálico. A obra é um outro corpo e, ao mesmo tempo, uma extensão do corpo do artista e dos enigmas que traz. Este corpo da obra é, ao mesmo tempo, expressão e elaboração do corpo do artista e isto vale para todas as artes, mesmo para as literárias, como pontua Guillaumin. O ato criador evidencia uma precária elaboração interna onde a palavra não é suficiente para conter e ligar a energia não-ligada, que continua a expressar-se; o estilo, de acordo com Guillaumin, apresenta-se como evidência disso e, afinal, é o domínio deste que transforma um romance ou um poema numa obra de arte. O violento excesso pulsional, em função da ineficiência do seu recalque sobre ele obriga à descarga, o que se dará no próprio ato, no fazer da obra, “tratado” pela técnica e expresso no estilo. O "tratamento" do excesso pulsional não resulta num fechamento do ego, o que quer dizer que este ego continua a “sofrer” e a responder através da criação. A própria precariedade, tanto do ego quando da prótese criada (a obra de arte), permite-nos reconhecer que o movimento compulsivo próprio ao trabalho artístico, não faz calar a angústia, mas, sem dúvida, permite um domínio da energia des-ligada, como a noção de "reação criadora negativa" indica. O complexo jogo de atividade-passividade envolvido na produção da obra de arte interroga-nos sobre a dimensão de endereçamento que a obra comporta. Sendo esta 64 uma reação, uma resposta, está implícito o lugar de um outro a quem esta reação se endereça. II.3.3 O endereçamento A obra, como projeção de um conflito psíquico, é sempre uma mensagem endereçada a algum público além do público comum: é endereçada a um “outro indefinido” (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 355. A tradução é nossa.). Aprendemos com Laplanche que o outro ao qual se endereça a resposta é o outro do encontro traumático. Porém, é o público comum que efetivamente receberá a obra de arte e o enigma que ela comporta. Mais que isso, é o público que se submeterá a ela, assim como o artista se submeteu passivamente ao trauma. Desse modo, o público terá de se haver com este caráter "estranho" e sedutor que a obra comporta. Freud já indicara o caráter de endereçamento da obra de arte em seu artigo sobre os escritores criativos (1908e), porém a contribuição de Laplanche, ao estudar a criatividade artística (Laplanche, 1989, Op. cit.), acentua de forma decisiva essa dimensão do endereçamento, através da categoria de mensagem enigmática. Reconhecemos também no pensamento de Sousa (2002, Op. cit.) uma grande ênfase dada à idéia de que o que se endereça ao outro é o próprio enigma, o disruptivo. Este autor defende a idéia de que a operação artística visa “...desfocar (...) certos vícios interpretativos, deslocando pensamentos cansados e interpretações repetitivas” (Id., ibid., p. 145). O público tem de se haver com o "estranho" que o artista imprime na obra. A partir desta passagem, compreendemos que o caráter provocativo da arte, tão valorizado pelos movimentos de vanguarda do início do século XX (Argan, 1992, Op. cit.), deve-se, em grande parte, ao "tratamento" e ao endereçamento da violência sofrida pelo artista em seu conflito com uma alteridade interna radical. Esta mensagem atingirá 65 o público e lhe provocará efeitos disruptivos. A transmissão da mensagem enigmática, da verdade interna do sujeito, é inerente ao caráter artístico da obra. Surpreendentemente, o pensamento de Martin Heidegger em A origem da obra de arte (1950), distante da produção psicanalítica, vai também enfatizar a importância do endereçamento da verdade, através da obra de arte, para um público. Para compreendermos o que Heidegger desenvolve sobre o endereçamento de uma verdade teremos de entrever alguns pontos importantes de seu livro mencionado. Ao estudar a obra de arte este autor busca compreender o que seria próprio da obra de arte. Seu foco, diferente do nosso, é a própria obra de arte e não a criação artística. Todavia, os dois objetos de estudo estão estreitamente entrelaçados, e a partir de sua pesquisa muito podemos aprender acerca do processo de criação. No início de sua investigação, Heidegger escreve: ... a obra de arte é ainda algo de outro, para além de seu caráter de coisa? Este outro, que lá está, é que constitui o artístico. A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é (...). A obra dá publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa (Heidegger, 1950, p. 13. O grifo é nosso). Reconhecemos nesta constatação de que a "coisa" da obra dá a conhecer "outra coisa", o que temos tratado como o "convívio" na obra de arte de uma inscrição com as marcas, com o que não pode ser dito, significado. Seguindo sua investigação, o autor postula: “Na obra de arte, a verdade do ente pôs-se em obra. A arte é o pôr-se-em-obra da verdade” (Id., ibid., p. 30). Ele explicará em que consiste esta verdade que reconhece na obra: “Verdade deve pensar-se no sentido da (...) desocultação (Unverborgenheit) do ente”. (Id., ibid., p. 40). O autor explica-nos que o ente (o ser), por sua essência, fecha-se em si mesmo, não se permite "acesso" – o homem não pode alcançá-lo; mas, na obra de arte, uma “abertura” se faz no 66 ente de modo que ele é “desocultado”, o que não significa que o homem passe a conhecer aquele. Ao contrário, a desocultação do ente significa um reconhecimento da impotência do homem diante do ser: O homem é impotente para dominar uma larga parte do que há no ser. Só pouco é conhecido. O conhecimento permanece algo de aproximado, o dominado algo de incerto. Nunca o ente, como poderia demasiado facilmente parecer, está de baixo do nosso poder ou até na nossa representação (Id., ibid., p. 42. O grifo é nosso.). A “desocultação” do ser não poderia ser compreendida como a expressão das marcas, do outro interno enigmático? Esta seria a verdade que a arte comporta: a verdade do não-inscrito, da não-totalidade do ego. Para Heidegger, a essência do próprio criar é a desocultação do ser – a criação implicaria a transmissão desta desocultaçãodo ser. Se há uma transmissão, deparamo-nos enfim com a questão do encaminhamento para um outro. Heidegger mostra-nos que para uma obra de arte ser reconhecida como tal é necessário que um outro faça este reconhecimento. Reconhecer uma obra como tal não diz respeito ao conhecimento dos peritos em arte, historiadores, críticos, etc., mas sim um reconhecimento da “desocultação do ente” que, em nossa interpretação, aponta para um reconhecimento do disruptivo, do não-traduzido. A obra, no pensamento deste autor, para ser obra de arte, tem que comportar uma característica de “salvaguarda”, ou seja, de que alguém vai reconhecer a verdade que ela transmite, como podemos ler na passagem abaixo: Assim como uma obra não pode ser obra sem ser criada, assim como precisa essencialmente de criadores, assim também o próprio criado não pode tornar-se ser sem os que salvaguardam. Mas, quando uma obra não encontra os que salvaguardam, ou não os encontra imediatamente, de tal modo que eles respondam à verdade que acontece na obra, isso não significa de modo algum que a obra permaneça obra, mesmo sem os que salvaguardam. Ela permanece sempre, se aliás é uma obra, ligada aos que salvaguardam (...). Mesmo o esquecimento em que a obra pode cair não é nada; é ainda uma salvaguarda. Vive ainda na obra (Id., ibid., p. 53-54). 67 O que o pensamento deste autor nos mostra é que a obra de arte só pode ser tratada como tal se nela está implicado um endereçamento, e que um público possa ser afetado por aquele. Se o endereçamento faz parte da especificidade da obra de arte, também faz parte da especificidade do processo de criação. Maria Luiza S. Persicano defende posição semelhante: A arte (...) tem um pé apoiado na irracionalidade e salta para a razão a partir da realidade do outro. "A tarefa do artista é a criação de uma realidade nova", que consiste em criar um mundo próprio, mas que faça sentido ao outro e que suscite no outro a convicção de realidade nova e diferente. A criação da obra de arte (...) se endereça à alteridade (Persicano, 2002, p. 181. O grifo é nosso). Só há criação artística se o endereçamento da mensagem enigmática se põe em jogo. Agora que chegamos a essa descoberta tão importante - o fato de não podermos pensar na criação artística sem pensar em seu caráter de endereçamento – reconhecemos ainda com maior clareza o quão essencial é o lugar da relação do artista com o outro no processo de criação. Podemos supor que a obra, como possibilidade de ligação, impede um ataque destrutivo ao outro. No caso da criação artística, a reação ao outro interno seria destrutiva se não fosse mediada pela obra; assim, apesar de o público sofrer também passivamente a experiência da obra, a violência que sofre passa a ser impressionantemente reduzida. Para enfrentar o caráter violento da mensagem, alguma energia passa a ser manejada e o trabalho elaborado que é uma obra de arte passa a garantir ao público o que o artista não teve: recursos para dar conta da violência destrutiva do ataque interno. A arte constrói, está a serviço de Eros e, nesta perspectiva, é o oposto da violência – o que não significa que a própria energia que a move não seja uma energia pulsional des-ligada, disruptiva e portanto, violenta. 68 A questão de endereçamento sinaliza um modo de relação com o outro, própria do artista, implicando tanto o outro interno quanto o público. Uma específica relação com o outro interno é necessária para que a criação se realize. Procuraremos desenvolver no próximo capítulo um estudo que possa apontar para a real dimensão desta relação tão particular com o outro interno, que revela alternância entre uma situação de passividade ante o ataque, e uma reação na qual se promove um endereçamento da violência interna, do excesso pulsional. III SOBRE A INSPIRAÇÃO ARTÍSTICA “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.” (Pessoa, 1922, p. 82) Na História da Arte as condições psíquicas para a realização da atividade de criação artística vêm sendo indicadas por alguns termos que se repetem com uma certa freqüência, dentre eles o “dom”, a “verve artística” ou a “inspiração”. Estes termos parecem sempre apontar para algo de específico no psiquismo do artista que lhe permite ser criativo. Lembremos que o próprio Freud escreve-nos a respeito de uma “predisposição artística”, como tivemos oportunidade de apontar nos capítulos anteriores. Compreender que condições psíquicas são estas que estão em jogo no artista para possibilitar-lhe criar a obra de arte, parece-nos ter importância fundamental para nosso estudo. A partir do que estudamos até aqui podemos empreender uma investigação mais aprofundada do tema, uma vez que nossa pesquisa levou-nos a algumas importantes hipóteses acerca da criação artística. No capítulo II pudemos concluir que essa criação necessariamente implicaria um endereçamento, e portanto a remissão do disruptivo pulsional a um outro. Também 70 pudemos desenvolver naquele capítulo que este endereçamento tem um caráter de resposta, de reação ao estrangeiro interno – o outro internalizado “intraduzível” – mas que, de fato, esta resposta/reação é recebida pelo público. Desse modo, podemos reafirmar a idéia de que a criação artística se realiza a partir da passividade do artista ao outro interno invasor, ao qual associamos as marcas psíquicas do trauma. Cabe aqui, neste capítulo, aprofundarmo-nos nesta complexa relação do sujeito com o outro interno intraduzível, com o traumático que marca a atividade artística, como meio para compreendermos as condições psíquicas necessárias para a criação artística. Como eixo principal de nossa investigação mais uma vez recorreremos aos estudos que Jean Laplanche desenvolveu sobre a criação artística – afinal este autor dá particular importância a essa relação do artista com o outro inassimilável. Este autor propõe que consideremos esta particular relação a partir de um daqueles termos historicamente freqüentes na caracterização do “segredo” do trabalho artístico – a inspiração (Laplanche, 1999, Op. cit.). Mais que os termos “dom” ou “verve artística”, o termo inspiração enfatiza a dimensão do outro – dimensão que comporta uma apreciação do aspecto disruptivo e violento que destacamos como presente na criação artística. III.1 A inspiração A inspiração do artista diz respeito à sua afetação pelas musas, como é ilustrado por inúmeros exemplos na História da Arte. Podemos depreender daí que o artista é afetado por um outro de tal modo que este fenômeno o impulsiona e o motiva a produzir as obras de arte. Podemos reconhecer na inspiração um estado de fascinação do artista 71 pela “Musa inspiradora”, estado no qual o sujeito “abre-se à experiência” e deixa-se influenciar por ela. Esta abertura à experiência aproxima-nos do que estudamos no capítulo II a respeito dos efeitos da violenta pulsão de morte no aparelho psíquico – a invasão de uma energia livre que impede o fechamento narcísico. E é justamente esta aproximação que Laplanche desenvolve em Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.). Ao estudar a criação dos artistas, Laplanche mostra-nos que, além da tentativa de dar um “tratamento” à violência do outro interno traumático, o motor do trabalho dos artistas tem de ser observado também sob o ponto de vista da inspiração que, segundo sua hipótese, implica um retorno à relação primária sobre a qual tivemos oportunidade de discorrer no capítulo II. Este autor buscara articular a relação primária à sedução infantil ocorrida muito cedo, recorrendo, para isso, ao artigo de Freud sobre Leonardo daVinci (Freud, 1910c, Op. cit.). Ainda debruçado sobre este artigo, Laplanche reconhece-o como um estudo no qual pode-se observar a sedução e a relação primária claramente relacionadas à inspiração do artista: a lembrança de infância do artista é interpretada por Freud como uma indicação da experiência de sedução da mãe em direção ao bebê. Freud ainda levanta a hipótese de que um reencontro com esta mãe, que saiu de cena muito cedo na vida de Leonardo, será buscado na realização de toda sua obra artística. O que Laplanche ressaltará é o fato de que é da própria particularidade da relação entre a mãe e a criança que se trata na sedução, e esta relação é que estaria na base do fenômeno da inspiração. É importante relembrarmos que a abordagem de Laplanche à relação primária, além de tratar do “paraíso perdido” da união mãe-filho, salienta o “inferno descoberto” na experiência de passividade ante um violento invasor- 72 sedutor – na instauração do “demoníaco” da pulsão, e do conflito que move o trabalho para contê-la. Em consonância com a constatação de uma expressão do disruptivo na arte (ver cap. I e II acima), consideramos a inspiração como fator necessário para a criação artística; porém vale lembrar que Laplanche faz uma ressalva a esta asserção na entrevista concedida a Marta R. Cardoso (2000, Op. cit.): nem todo artista vivenciaria a inspiração; porém, apenas aqueles que a experienciam é que poderiam, com justiça, ser chamados de artistas. Estes seriam justamente os sujeitos que teriam de utilizar-se de uma “reação criadora negativa” para dar conta desse outro invasor, como Guillaumin (1998, Op. cit.) nos propõe – apenas um sujeito que experimenta uma situação em que suas defesas se encontram precárias diante do traumático, necessita responder através da criação da obra de arte. Na inspiração, o artista retorna, portanto, àquela situação de passividade do encontro traumático com um outro invasor. A possibilidade de um retorno àquela situação aponta para uma posição de submissão à mensagem do outro, posição que reconhecemos como referida ao que Freud chama de feminilidade (Freud, 1933a [1932]), termo que nos auxiliará bastante na compreensão da experiência de inspiração. Vale lembrar que, ao final de sua conferência sobre o assunto, Freud escreve que uma “consulta” aos poetas pode nos ensinar mais a respeito da feminilidade; com esta proposição ele discrimina os poetas como sujeitos que, necessariamente, vivenciariam a experiência de feminilidade. Laplanche lança a hipótese de que a inspiração implica uma postura estética específica diante do mundo: uma postura na qual a experiência da “abertura” prevalece sobre um “fechamento hermético”, o enigma é sustentado, a 73 condição de desamparado é reconhecida – o que na nossa interpretação do texto freudiano, é justamente o que Freud busca realçar ao tratar do tema da feminilidade. A feminilidade – como nos esclarece Birman (2000, Op. cit.) – articula-se à estética do sublime, termo com o qual já estamos trabalhando desde os capítulos anteriores e que salienta o não-centramento, o não-fechamento narcísico-fálico, e o conseqüente reconhecimento da alteridade radical. A inspiração, portanto, também se remeteria a esta estética, pois deve ser vislumbrada como retorno à passividade da relação primária, como experiência da feminilidade, do desamparo. Escreve Laplanche, sempre remetendo-nos à ação do outro sobre o sujeito: Ora, a inspiração se conjuga no outro. Seu sujeito não é "o" sujeito, mas o outro: exatamente como é para a sedução, a perseguição, a revelação. Em ressonância com o outro adulto originário, este outro, em momentos privilegiados, vem reabrir a ferida do inesperado, do enigma (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 334. A tradução é nossa.). Conforme nossa investigação, feminilidade e a inspiração supõem uma possibilidade de sustentar-se a passividade ante o outro e, desta maneira, a situação de desamparo. Isto fica de acordo com nossa leitura de Heidegger: a verdade inerente à obra de arte, segundo este autor – a desocultação do ser – aponta para uma compreensão de que a criação artística sustenta o reconhecimento da experiência avassaladora do disruptivo. E Heidegger frisa que é justamente isso que caracteriza tal obra como artística. Vale a pena voltarmo-nos aqui para um depoimento do famoso escultor Alberto Giacometti, citado por Laplanche, para entendermos do que se trata na inspiração, esta abertura para o que está fora do processo representacional, para o não- ligado, para a incompletude, e que remete à relação com a “verdade”: “A arte me interessa muito, mas a verdade me interessa infinitamente mais” (Giacometti, apud Laplanche, 1999, Op. cit., p. 330. A tradução e o grifo são nossos.) – este depoimento 74 indica para nós que a criação da obra de arte é conseqüência de uma busca, de um lançar-se em direção ao enigmático, ao disruptivo. Para compreendermos por que Laplanche precisou recorrer a esta noção de inspiração para teorizar sobre a produção criativa do artista, teremos de voltar-nos para a gênese desta proposição. Sua origem pode ser remontada ao livro Problemáticas III – A sublimação (Laplanche, 1989, Op. cit.). Deste modo, vemo-nos novamente diante da sublimação, porém agora com uma tarefa específica: a de compreender como Laplanche desenvolveu seu pensamento a partir de uma teoria da sublimação, para chegar a formular a hipótese da inspiração que está na base da criação artística. III.1.1 Da sublimação à inspiração No artigo Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.), Laplanche deseja fazer- nos entender que haveria uma diferença entre as noções de sublimação e inspiração, porém esta hipótese nem sempre esteve clara para ele. Desde seu livro sobre a sublimação (1989, Op. cit.), ele defende um ponto de vista sobre a sublimação como resposta ao ataque pulsional – ao traumático – através da inscrição psíquica, como nos familiarizamos em nosso percurso. Nesse livro, o autor utiliza-se da noção de “traumatofilia” para tentar dar conta da origem da sublimação de Leonardo. Ele define a noção de traumatofilia como “... a tendência para reexperimentar indefinidamente o traumatismo, mas também para elaborá-lo, simbolizá-lo” (Laplanche, 1989, Op. cit., p. 176), e podemos depreender daí que estaria em jogo nesse processo uma particular sensibilidade à sedução traumática. O sujeito parece de algum modo buscar repetir uma situação traumática, mas não de forma autodestrutiva, e sim criando a partir do “vivido”. 75 Laplanche teoriza ainda que uma “traumatofobia”, ou seja, uma postura de aversão ao trauma, e a “traumatofilia”, diriam respeito ao mesmo fenômeno (loc. cit.) – o fascínio e o desconforto são ambos evidências da experiência de sedução, permitindo- nos uma melhor compreensão da ambivalência presente na passividade inicial do ser humano, à qual o artista retorna. A sensibilidade ao traumático se expressa tanto na fascinação pelo outro sedutor quanto no pavor diante de um outro violento e invasivo. Em seu livro sobre a sublimação (1989, Op. cit.), Laplanche iniciara uma problematização à qual já nos referimos nesta dissertação, e na qual levanta a questão de saber se o que ocorre no caso da experiência artística deve ser tomado como uma sublimação ou, ao contrário, como algum outro processo psíquico. Nesse livro o autor indica que há uma diferença entre a atividade artística e a sublimação, e esboça algumas hipóteses a respeito das particularidades do processo artístico, como a de que a atividade artística estaria mais próxima do pulsional do que a sublimação intelectual (ver cap. I). Esta hipótese continuaráa ser sustentada em sua obra posterior, mas a idéia da traumatofilia não parece ter sido explorada nesse estudo de 1989 em todas as possibilidades que implica. Pensamos que isso se deve em parte a que o autor, nesse momento, oscilava entre a idéia de que a traumatofilia é um processo que diz respeito às atividades sublimatórias em geral, e a de que ela seria um processo especial, próprio da atividade artística. A noção de traumatofilia reaparecerá em Sublimation et/ou inspiration (Laplanche, 1999, Op. cit.), expressando-se desta vez mais claramente não como fenômeno que remete à “sublimação como processo geral”, e sim como fenômeno ligado ao processo de criação artística em particular. 76 Voltando-se novamente para o estudo da origem da criação, e mais particularmente para o estudo de como se dá a recepção da mensagem enigmática no caso do artista, o autor percebe que existem três maneiras pelas quais os seres humanos podem responder àquela mensagem. A primeira seria uma foraclusão da mensagem, ou seja, não haveria tradução ou inscrição; a segunda seria uma tradução/inscrição da mensagem, sendo que o resto, próprio do trabalho de representar, é recalcado – processo que promove um fechamento egóico em relação ao não-assimilado e também ao "inassimilável", ao traumático. A terceira maneira é também uma tradução/inscrição, mas que de algum modo sustenta uma abertura ao traumático; esta abertura permite a manutenção de uma afetação, o que nos remete à noção de traumatofilia encontrada no livro de 1989 e que podemos, de acordo com a proposição de Laplanche, reconhecer no processo de inspiração dos artistas. O artista inspirado é aquele que sustenta a “abertura”, definida assim por Laplanche: “A abertura é precisamente estar disponível para o outro que virá surpreender-me” (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 332. A tradução é nossa.) e então possibilitar a criação. O fechamento à afetação, nesta linha de raciocínio, é também o fechamento da criatividade do sujeito. Se a inspiração é correspondente ao fenômeno da traumatofilia, devemos compreender que o sujeito, além de estar “aberto” pelo trauma – o que quer dizer que suas defesas estão enfraquecidas – também está aberto para o trauma, ou seja, que ele se lança diante da experiência traumática. Recapitulando o desenvolvimento de nossas investigações até aqui: no capítulo anterior supúnhamos um processo de ligação capaz de manter especialmente viva a potencialidade dos elementos não-ligados, os quais continuam produzindo efeitos. Agora compreendemos que os elementos não-ligados são a fonte maior da inspiração na 77 criação artística. O que é realçado pela noção de inspiração/traumatofilia é que além de o artista ser aquele sujeito capaz não somente de viver a experiência do traumático e de dar um “tratamento” à violência através da criação, ele também manteria essa abertura, de modo que o recalque não consegue fazer-se dominante – ao contrário: revela-se frágil. A inspiração não é, deste modo, o processo criativo propriamente dito, mas o momento psíquico que necessariamente precede e possibilita a criação artística. É conseqüência da inspiração que possa ocorrer o trabalho de inscrição psíquica no qual o ego mantém-se aberto ao id – mais especificamente, à expressão das marcas, ao outro interno invasor. Podemos, a partir daí, compreender por que a noção de inspiração/traumatofilia é particularmente importante para a produção artística, e por que não pode ser utilizada para explicar a sublimação como processo geral – já que pressupõe um não-fechamento. No primeiro capítulo desta dissertação, destacamos na obra de Freud um olhar sobre os artistas que supõe uma “predisposição especial” para a atividade artística. Esta perspectiva está de acordo com a constatação da especificidade da inspiração diante do processo sublimatório em geral. O artista teria uma “predisposição especial" e esta seria sua capacidade de se inspirar, o que implica a precariedade egóica e a particular dificuldade de estabelecer fronteiras entre as territorialidades psíquicas que Guillaumin tanto enfatiza (1998, Op. cit.). O que está no cerne desta noção de inspiração é a grande sensibilidade diante do trauma, já indicada na proposição de uma traumatofilia/traumatofobia em 1989. A relação entre o trauma e a criação já foi estudada por nós, porém Auterives Maciel Júnior desenvolve uma linha de raciocínio que merece ser examinada 78 atentamente, pois também exalta a “tendência para reexperimentar o traumatismo” como condição da criação, escopo semelhante ao de Laplanche. O ponto de vista de Maciel Júnior é especialmente fértil para nossa dissertação, porque também observa a possibilidade de a criação realizar-se à luz do violento encontro com o outro. Dessa forma, este autor enfatiza o caráter “desesperado” tanto do movimento da inspiração quanto do ato de criação, esclarecendo-nos quanto a que relação é esta que o artista mantém com esse outro intraduzível. Se a inspiração é observada por este prisma, a “pulsão de domínio”, como Marta R. Cardoso a define (ver cap. II), é que se apresentará no jogo de forças entre o ego e o id. A violência pulsional seria avassaladora na experiência “aberta” da inspiração. A. Maciel Júnior desenvolve em sua tese O que nos faz pensar? As condições do pensamento na experiência-limite (Maciel Júnior, 2001, Op. cit.) uma concepção da condição para a criação como sendo a “abertura” ao que é traumático. O autor utiliza-se de uma abordagem particular do conceito de experiência-limite e da idéia de um pensamento “do Fora”, desenvolvidos por Michel Foucault e Gilles Deleuze, para estudar as possibilidades da ocorrência do fenômeno da criação como resposta possível à violência. Com um exame enfocado no que o autor escreve sobre a criação buscaremos captar a relevância que a idéia de uma experiência-limite tem, para trazer uma maior compreensão da inspiração. III.1.2 A inspiração e a experiência-limite Para compreendermos a perspectiva adotada por Maciel Júnior sobre as condições da criação, teremos de habituar-nos com alguns termos e conceitos com que o 79 autor trabalha, particularmente os já mencionados "pensamento relacionado 'ao Fora'" e "experiência-limite". De que se trata neste pensamento relacionado “ao Fora”? Para este autor, em conformidade às reflexões de Foucault, trata-se de um pensamento que desafia o saber racional, o Logos. Este pensamento, acrescenta Maciel Júnior, seria algo de fora da consciência, que se impõe à mente: forças exteriores, ou melhor, estranhas ao aparelho psíquico, impõem-se a este, exigindo um trabalho de assimilação. Estas forças exteriores possuem um caráter traumático, ou seja, de encontro com um outro numa situação de passividade. Elas acossam o aparelho a produzir a última possibilidade que lhe resta de defesa contra a violência: a criação – é esta situação que o autor, “inspirado” na obra de Foucault, denomina experiência-limite. Esta compreensão do que é a experiência-limite define-se como muito semelhante à noção de inspiração com que estamos trabalhando; todavia Maciel Júnior não explicita se esta criação diz respeito ou não à criação artística. Este autor informa-nos, entretanto, que a criação deve ser compreendida como o engendramento do pensamento “do Fora”. A partir do que apreendemos de sua definição de pensamento “do Fora”, como desafiador do Logos, acreditamos que podemos articulá-lo com a tentativa de inscrição e/ou expressão das marcas do trauma, e com o não-fechamento egóico. Mas o que este autor acentua como foco de sua investigação no estudo deste tipo de pensamento não é suafinalidade, ou seja, a inscrição, a representação, e sim o modo como este pensamento se opera. Este enfoque no modo e não na finalidade deste tipo de pensamento salienta o aspecto ousado e compulsivo deste “enfrentamento” do pulsional. 80 Maciel Júnior ensina-nos que este pensamento só pode operar-se na experiência- limite, quando não há mais defesa possível por parte do ego diante do enigma do outro, e buscamos articular isso à inspiração. O psiquismo é impelido, forçado a criar, e é só sob esta pressão que algo é criado, pois a natureza da pulsão de vida é conservadora, no sentido de não “querer” abandonar o que já edificou, o que já está construído (Freud, 1920g. Op. cit.), nem mesmo o sintoma. Vale a pena ressaltar a importância que Maciel Júnior dá ao entendimento dessa experiência-limite como um encontro, pois um encontro pressupõe um outro, uma alteridade, tal como a idéia de inspiração. O pensamento “do Fora” ocupa um lugar privilegiado no pensamento deste autor para pensar a alteridade. Este pensamento se refere ao “...limite do saber, a um impensado radical, isto é, a um inconsciente” (Maciel Júnior, 2001, Op. cit., p. 97) e deste modo – podemos acrescentar – a um outro radical intraduzível em relação ao ego. Este pensamento aparece como repetição que insiste por uma elaboração, o que nos aproxima de uma concepção do aparelho psíquico como aparelho de tradução em que o que não se pode traduzir é o outro enigmático e invasivo que Laplanche (1970, Op. cit.) e Pontalis (1981) reconhecem na mãe que promove uma sedução avassaladora. Este pensamento não é simplesmente um trabalho do ego buscando dar sentidos, significações, representações; devemos compreendê-lo como uma imposição do que está “de fora”, ou seja, a alteridade radical. Deste modo, é o pensamento que se impõe ao aparelho, e não o contrário – em outras palavras, o psiquismo é invadido por um pensamento donde podemos reconhecer uma vetorização de fora (que interpretamos como fora do sistema representacional) para dentro, o que em outras palavras é a violenta irrupção do pulsional: afetação causada pela sedução. 81 O autor nos fala de uma aposta no intolerável, na experiência-limite, para definir o pensamento “do Fora”. Este é a ousadia de experimentar, possibilidade do novo e invenção de resposta quando não há resposta satisfatória – pois para o traumático não há resposta satisfatória. Desenvolvendo este tema, o autor explica-nos que para permitir-se o novo e criar em cima dele é preciso rearranjar valores, abandonar alguns mas, principalmente, criar outros – portanto, o efeito deste pensamento na experiência-limite seria, então, da construção de uma estética. E não é isto que o artista faz? Não é ele quem cria novos valores e, com isso, uma nova estética a partir da obra de arte? O trabalho do artista, ao nosso ver, seria paradigmático para se compreender o pensamento realizado na experiência-limite. Sendo assim, pode-se levantar a hipótese de que o artista se lança em direção ao trauma numa busca “desesperada” para tentar dominá-lo através da criação. O que permite o trabalho de criação, o trabalho do artista, é, antes de tudo, esta “abertura” à alteridade. Os sujeitos que são tomados pela estética do belo evitam ao máximo essa abertura; temem o outro, temem uma ameaça à unidade egóica, enquanto o artista embarca nesta aposta no que Maciel Júnior chama de caos, como lemos na passagem abaixo: ...o caos deixa de ser uma ameaça de dissolução e passa a ser condição de criação. O homem que retorna do caos, tendo desafiado as associações regradas e determinadas pelas opiniões, é como se retornasse do país dos mortos (Maciel Júnior, 2001, Op. cit., p. 121). O termo caos empregado pelo autor pode ser mal compreendido, por isso é preciso que esclareçamos a que se refere. O caos de que Maciel Júnior fala significa um “potencial de possibilidades de ser” e não “pura desordem”. São estas possibilidades de ser que se impõem na irredutibilidade do outro interno de ser simbolizado. 82 Levando em conta a citação de Maciel Júnior, o movimento que reconhecemos no artista em relação ao traumático, ao ponto “duro” do outro internalizado, seria o seguinte: ele busca lançar-se em direção à afetação e, num momento seguinte, retornar do “país dos mortos” para poder, através desta experiência, enriquecer sua criatividade. O retorno do “país dos mortos” remete-nos ao mito greco-romano de Orfeu, paradigmático na compreensão do trabalho artístico: em busca de resgatar Eurídice, sua amada e musa inspiradora, o músico e poeta Orfeu desceu às profundezas dos infernos, encontrou-a lá, mas como nos lembra P. Commelin, Plutão e Prosérpina (...) impuseram uma condição, isto é, que ele não a olhasse antes de haver passado os limites dos infernos. Dirigia-se Orfeu para as saídas das moradas infernais por um caminho em declive, e Eurídice caminhava atrás dele; já os namorados quase alcançavam as portas do mundo, quando, impaciente por ver aquela que o seguia (...) o desgraçado amante se voltou (Commelin, 1983, p. 231). Sabemos o final da história: Orfeu perdeu novamente sua amada. Tal como Orfeu, os outros artistas mergulham nos infernos pulsionais na busca do encontro com o outro sedutor e inspirador para, na volta desta “viagem”, tentar representar e assim apoderar-se da “musa inspiradora” – no entanto, a musa não pode ser alcançada, ela se presentifica sem ser representada, “vista”. O artista a traz até as portas do mundo através de sua obra, e ali ela se expressa; mas na tentativa de representá-la o artista percebe que não alcançou o resultado almejado. No entanto, é este mergulho que permite que a criatividade do artista se exerça – no mito de Orfeu, este personagem, após perder Eurídice pela segunda vez, inspirou-se para cantar sua tristeza. Toda a lógica deste movimento, no qual reconhecemos a inspiração/traumatofilia, supõe uma “entrega” por parte do artista ao outro (ao fora), um “deixar-se afetar” pelas forças pulsionais, que parece-nos relacionar-se com a origem da criatividade do artista. 83 Um olhar mais detido sobre a criatividade, como veremos, destacará alguns pontos importantes na nossa busca de compreender a “disposição artística”. O termo criatividade em si já nos remete para alguma especificidade da possibilidade de se efetuar o trabalho de criação – um aprofundamento no estudo da "criatividade" trará luz às relações entre esta, a inspiração e a criação artística. III. 2 A criatividade A contribuição de Donald Winnicott para o estudo da criatividade é de grande importância (Winnicott, 1971) para compreendermos melhor as condições para que ocorra a criação artística. Porém, seu olhar sobre o tema, bem como seu posicionamento teórico em geral, é bastante distinto do nosso. Portanto, para podermos relacionar com rigor seu olhar sobre a criatividade com o nosso sobre a inspiração, torna-se muito importante que conheçamos bem sua concepção de criatividade, para então podermos aproximá-las; desta maneira, desejamos pontuar nossa particular leitura do texto deste autor enquanto apreciamos seu pensamento. III.2.1 Impasses e aproximações entre a criatividade e a inspiração Winnicott expande para as mais variadas atividades humanas a compreensão do que é a criatividade, e não a resume ao trabalho artístico. Ele se refere ao “viver criativamente” como indício de saúde – não bastaria que o sujeito “aceitasse a castração”, seria preciso ser criativo. O viver criativo opõe-se à submissão à realidade externa – se esta submissão ocorre, viver passa a significar um estéril ajustar-se e adaptar-se a essa realidade. Aprincípio este ponto de vista sobre a criatividade parece 84 contrário ao nosso, afinal temos valorizado a importância do estado de inspiração para compreendermos a criatividade e pudemos entrever que nesse estado de inspiração há uma submissão à experiência, há uma passividade. No entanto, se examinarmos melhor este ponto, veremos que esta oposição pode ser reconhecida como falsa. Quando encontramos em Winnicott a idéia de uma não-submissão à realidade externa devemos reportar-nos à diferença entre realidade externa e realidade psíquica. A inspiração, por conta de uma invasão do outro interno intraduzível, diz respeito a uma realidade interna, e não à externa. Acreditamos poder compreender esta idéia de submissão à realidade externa de acordo com o que Freud escreve em Neurose e psicose a respeito da relação do ego com o mundo externo: [nas neuroses transferenciais] o ego se defende contra o impulso instintual [pulsional] mediante o mecanismo de repressão [recalque] (...). Não é contradição que, empreendendo a repressão [recalque], no fundo o ego esteja seguindo as ordens do superego, ordens que, por sua vez, se originam de influências do mundo externo que encontraram representação no superego (Freud, 1924b [1923], p. 167-168. O grifo é nosso.). Por conta desta passagem, torna-se possível reconhecer a submissão à realidade externa como a submissão à representação da realidade externa no psiquismo, o que implica a neurose. A criatividade, sob este escopo, apontaria para algo além da produção de uma neurose e além da submissão à representação; assim concluiríamos que com um “viver criativo” evitar-se-ia o recalque que impede a “livre” expressão – portanto percebemos que é possível correlacionar a possibilidade de criar à estética do sublime e à inspiração. Através da leitura que Jurandir F. Costa faz do texto winnicottiano, encontramos outras possíveis articulações entre criatividade e inspiração. Este autor oferece-nos uma boa metáfora para a criatividade proposta por Winnicott: “...o moinho de água ou vento, que aproveita a força da natureza para a realização de 85 trabalhos úteis” (Costa, 2000, p. 18) – deste modo, a criatividade diria respeito a um “deixar-se tomar” pela força pulsional, pelo excesso para, a partir dessa afetação, criar. O próprio Winnicott não associa esta criatividade às pulsões sexuais tal como o fazemos, mas sim a uma idéia de espontaneidade que diz respeito a uma pura expressão, a uma pura agressividade (Winnicott, 1950). Não compartilhamos deste ponto de vista que pressupõe que existiria vida psíquica além do pulsional. Acreditamos que, apesar desta importante diferença entre a base teórica do estudo deste autor e a do nosso, algumas de suas hipóteses e inferências podem ser-nos úteis, à medida que chamam atenção para algumas questões que também temos trabalhado. Além disso, em seu artigo "Playdoier pelos irmãos", Jurandir F. Costa desenvolve uma leitura particular do texto de Winnicott na qual reconhece o pulsional na criatividade, ao escrever que “Para Winnicott, portanto, a relação da pulsão com a instância que limita seu fluxo é de instigação recíproca. Uma incita a outra a se tornar mais forte e expansiva, dando andamento ao movimento criativo” (Costa, 2000, Op. cit., p. 21), o que reaproxima a leitura winnicottiana sobre a criatividade da nossa sobre a criação artística compreendida como reação egóica às pulsões do id avassalador. Ultrapassado este problema, parece que nos deparamos com outro: Winnicott é enfático na afirmação de que não se deve confundir a criatividade com as obras de arte, pois estas são o produto da primeira, que também pode produzir, por exemplo, uma brincadeira. No entanto, de fato, a partir do raciocínio de Laplanche, devemos concordar com Winnicott: a inspiração – o “enriquecimento” pela experiência que permite a criação – não necessariamente leva à criação da obra de arte, mas é condição para que aquela se realize, e este também parece ser o olhar do autor inglês sobre a criatividade. 86 O sujeito só criará se puder vivenciar esta posição passiva ao outro interno irrepresentável para, a partir daí, responder com o endereçamento de sua produção. A respeito do endereçamento, Winnicott teoriza que, na saúde, toda relação é criatividade, o que segundo ele quer dizer que o indivíduo coloca algo de si próprio no outro e isto traz o prazer de sentir-se vivo. Portanto o endereçamento faria parte do que este autor chama de viver criativo. No entanto, o caráter de resposta que temos enfatizado não parece estar presente aí, e sim sua idéia de espontaneidade que, ao nosso ver, não dá conta do caráter compulsivo e “desesperado” que reconhecemos no trabalho de criação. Na leitura de José Outeiral e Luiza Moura, o viver criativo ao qual Winnicott se refere é examinado sob outro prisma, estabelecendo-se como uma noção importante que devemos levar em conta no que diz respeito às condições da criação artística: O viver criativo se constitui para Winnicott na capacidade de transitar entre o dentro e o fora, abandonar-se a estados não-integrados, com a confiança de que é possível uma reintegração. Esta confiança, que permite flexibilidade e permeabilidade ao self, é herdeira de uma experiência precoce (Outeiral & Moura, 2002, ps. 3-4)2. Acreditamos que esta leitura também vislumbra a compreensão de que o sujeito só pode criar se estiver diante de uma experiência de não-fechamento egóico e, deste modo, de afetação que, no ponto de vista de Laplanche, refere-se à inspiração – um retorno à relação primária que temos abordado através do que Maciel Júnior reconhece por experiência-limite. Relembrando o que Maciel Júnior nos ensina, é apenas por conta de uma afetação ocasionada pelo encontro com o outro que o sujeito poderá criar algo numa tentativa de inscrever, de produzir significados. Interpretamos este encontro com o outro 2 A noção de self em Winnicott é um tanto obscura. Uma possível interpretação compreende o self como uma concepção do aparelho psíquico como um todo, não se restringindo nem à instância egóica nem a qualquer outra. 87 radical como um retorno à relação primária, como Laplanche propõe a respeito da inspiração; acreditamos ser este o ponto de vista que Winnicott busca exprimir na seguinte passagem: A mãe correspondeu à criatividade primária da criança, tornando-se assim o objeto que a criança estava pronta para encontrar. (A criança não poderia ter criado a mãe, mas o significado da mãe para ela depende da sua criatividade.) (Winnicott, 1956, p. 411. O grifo é nosso.). O posicionamento de Winnicott em relação à criatividade, como vemos, possibilita algumas associações com a perspectiva com que vimos trabalhando. Mas ainda não exploramos alguns pontos importantes da abordagem deste autor ao tema – em particular o que ele chama de elemento feminino e elemento masculino do psiquismo. III.2.2 Os elementos feminino e masculino A grande riqueza do ponto de vista de Winnicott sobre a criatividade está exatamente no que este autor elabora acerca dos elementos feminino e masculino. Em seu artigo sobre a criatividade (Winnicott, 1975, Op. cit.), este autor busca compreendê- la através da idéia de uma expressão do elemento feminino, o qual se opõe a um elemento masculino. A definição que este autor dá é que esse elemento feminino puro diz respeito à pura existência, espontaneidade – experiência primeira em que não se separam ainda sujeito e objeto. Acreditamos poder aproximá-lo do que Freud chama de o primeiro “Ego da Realidade” em "Os instintos e suas vicissitudes" (1915a, Op. cit.),ou ainda daquele estágio inicial de indiferenciação do ego descrito em Mal-estar na civilização (1930a [1929], Op. cit.) que se refere à origem do “sentimento oceânico” discutido por Freud nesse artigo. Também podemos associar este elemento feminino à 88 idéia de afirmação desenvolvida em A negativa (Freud, 1925h) que pressupõe uma não- contenção da expressão psíquica. Deste modo, ao articularmos o elemento feminino às categorias freudianas, podemos reconhecer que este elemento, essencial para a criatividade, diz respeito a um “momento” primitivo do aparelho psíquico, aquém da representação. É quando Freud trata do “Ego-prazer/desprazer”, no artigo das pulsões (1915a, Op. cit.), e da expulsão ou primeira negação de A negativa (1925h), que poderemos encontrar uma resposta do aparelho à moção pulsional, fazendo surgir uma divisão entre mundo interno e mundo externo. Parece-nos viável a aproximação deste momento ao que será chamado de elemento masculino por Winnicott, pois este autor explica-nos que este elemento aponta para os investimentos libidinais, as relações de prazer/desprazer e as respostas à pulsão. O elemento masculino pressupõe uma separação entre “sujeito” e “objeto”, afinal refere-se a um impulso endereçado ao objeto. Segundo Winnicott o elemento feminino “é”, enquanto o masculino “faz”. A criatividade, por ser proveniente do elemento feminino – em oposição ao masculino – pode ser relacionada à possibilidade de permitir-se influenciar pelo mundo externo, de permitir-se afetar e assim enriquecer o mundo psíquico com a experiência. Portanto, a criatividade pode, mais uma vez, ser relacionada ao que chamamos de inspiração ou traumatofilia; de fato, Porret nos chama a atenção para o fato de que esta criatividade a que Winnicott se refere é ... uma criatividade originária que encontra sua origem na relação mãe-bebê. Ele [Winnicott] liga esta criatividade primária à transmissão à criança pela mãe de um elemento feminino puro (quer dizer, não ainda contaminado pela masculinidade)... (Porret, 1994, p. 132.. A tradução é nossa.). Deste modo, a observação de Porret permite-nos reconhecer no elemento feminino os efeitos da sedução materna e uma conseqüente passividade do bebê, o que 89 nos aproxima da noção laplancheana de inspiração, mesmo reconhecendo que a sedução para Winnicott não tem o caráter violento que Laplanche enxerga. A experiência da criatividade sozinha não leva à criação da obra de arte, e o mesmo vale para a inspiração – é preciso que ocorra uma “reação criadora negativa” para a criação de uma obra de arte realizar-se, o que nos remete à participação do elemento masculino. De fato, Winnicott explica-nos que tais elementos nunca estão totalmente dissociados, e é por isso mesmo que o impulso criativo pode ocorrer – nele, encontramos o elemento feminino expressando-se através de uma atividade que implica o elemento masculino. A leitura que Outeiral e Moura fazem da teorização de Winnicott sobre a criatividade, buscando articulá-la à criação artística, esclarece-nos bastante sobre o pensamento daquele autor e aproxima-se de nossas hipóteses: ...a obra de arte seria um espaço onde se tentaria conciliar o dentro e o fora, o elemento feminino e o masculino, o ser e o fazer. Isto é, a obra se torna uma busca desesperada de um self integrado e não o reflexo de uma integração. Compulsivamente o artista buscaria a construção de si próprio nas manifestações artísticas, ao mesmo tempo em que se expõe à admiração do espectador, numa tentativa de se constituir através do olhar do outro (Outeiral & Moura, 2002, Op. cit., p. 9). Tal ponto de vista, ao denotar o aspecto “desesperado” do fazer a obra para construir territorialidades (aqui, o self, e na perspectiva de Guillaumin a fronteira entre o ego e o id), apresenta-se próximo ao pensamento que buscamos desenvolver. A obra de arte é concebida, assim, como um lugar de expressão do conflito psíquico e também tentativa de elaborá-lo. Esta leitura remete-nos novamente a um olhar sobre a criação como resposta, o que em nossa interpretação diz respeito à resposta ao id invasor. Encontraremos ponto de vista semelhante sobre a criatividade no pensamento de Maria Luiza S. Persicano, se considerarmos suas observações a respeito do cérebro 90 humano do mesmo modo como tomamos a enunciação de um aparelho neuronal por Freud no Projeto de 1895 (Freud, 1950a [1887-1902], Op. cit.); isto é, tomando o sistema neuronal como metáfora do psíquico. Persicano escreve: ...posso afirmar que a criatividade ou capacidade criadora podem ser entendidas como a capacidade de atualizar os potenciais inexplorados do cérebro nunca antes usados pela espécie ou pelo indivíduo – um excesso de potencialidades diante da ausência de necessidades imediatas, para o qual a vazão é a criação... (Persicano, 2002, p. 196). Deste modo, interpretamos que a criatividade remete-nos às potencialidades de ser (o caos) de que Maciel Júnior fala, e também para a traumatofilia proposta por Laplanche. O uso do termo criatividade denota em si mesmo quão enriquecedora é a experiência da traumatofilia, ainda que perigosa, porque uma submissão ao outro evidencia um sujeito desamparado, indefeso. III.2.3 O olhar do outro e a criatividade Devemos voltar-nos para a passagem citada de Outeiral e Moura (em particular para o último parágrafo) se quisermos compreender melhor a complexidade que a idéia de criatividade abarca. Estes autores realçam um ponto importante da teorização winnicottiana, ainda não abordado por nós. Para enfatizar este ponto, devemos remeter- nos a outro trecho daquele texto: Buscas compensatórias de se constituir a partir do olhar do outro podem se manifestar durante toda a vida, tanto numa compulsão a manter situações de sedução com diferentes parceiros, como numa exposição de si próprio em criações artísticas a serem admiradas por diversos observadores (Outeiral & Moura, 2002, Op. cit., p. 8). As duas passagem do texto de Outeiral e Moura a que nos referimos remetem- nos à seguinte hipótese: O artista busca constituir-se através do olhar do outro, idéia 91 que também é defendida por Rabain (2003). Complexificando o que elaboramos sobre o endereçamento da obra para o outro, percebemos que este movimento está intimamente ligado com o aspecto elaborativo da obra. Através da resposta do outro à obra, o artista poderá elaborar algo do que é interno e enigmático. Logo, o público poderá ocupar o lugar de um outro que oferece instrumentos ao artista para poder representar e manejar as territorialidades psíquicas, e conseqüentemente construir uma representação de si mesmo. Esta busca por representar-se através do olhar do outro será sempre falha, daí Outeiral e Moura enfatizarem o aspecto compulsivo deste trabalho artístico. François Gantheret (2003) compartilha deste ponto de vista sobre essa busca incessante do artista, lembrando-nos da tragicidade da tarefa artística de representar o que não pode ser representado, tal como buscamos enfatizar ao remetermo-nos ao mito de Orfeu. Freud, em Escritores criativos e devaneio (1908e [1907], Op. cit.), também realça a importância da resposta do público para a obra do artista como viabilização da possibilidade desse representar-se. Mas diferentemente de Freud e em consonância com Laplanche (1999, Op. cit.), acreditamos não poder reduzir o apelo ao público, em última instância, a uma busca de construção narcísica, de “fechamento” – como enfatizamos no capítulo anterior, o endereçamento deve ser explicado principalmente pelo seu caráter de reação ao outro inassimilável. A criatividade, deste modo, não é somente uma noção semelhanteà da inspiração3 por apresentar-se como condição da criação na qual o sujeito se abre para a afetação; ela enriquece e enfatiza a complexa relação do artista com o outro invasor interno ao qual reage, mas ao qual apela em sua busca de alguma possibilidade de 3 O próprio Laplanche, em Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.) reconhece o termo “criatividade” como mais explicativo do fenômeno que investiga. 92 construção de uma representação de si mesmo. É a esta dimensão de apelo que o pensamento de Winnicott vem trazer luz. O que se delineia como fenômeno de grande importância nesta particular relação do artista com o outro – uma reação e um apelo na construção de uma representação – é o fascínio que o artista desenvolve por esse outro. O artista apresenta-se submetido ao olhar, à sexualidade, à invasão de um outro ao qual ele apela. A idéia de que um fascínio se expressa aí está, de certa forma, implícita na noção de inspiração. Ainda assim, ela pode esclarecer-nos algo mais sobre a relação entre o sujeito artista e o outro invasor – poderemos compreender melhor por que esse outro interno “atrai” o artista, e por que mantém um caráter sedutor, como percebemos na relação que os poetas desenvolvem com suas Musas. III.3 O fascínio A questão do fascínio é uma interessante via a ser explorada, porque reporta-nos ao “perder-se no outro”, a uma abertura à invasão “territorial” do outro; no entanto, a experiência do fascínio não é exclusiva ao artista. O sujeito submetido à autoridade do líder e o sujeito apaixonado (Freud, 1921c) são dois exemplos em que Freud também reconhece esta experiência de fascinação por um outro, e não implicam necessariamente que o sujeito que os vivencia seja um artista. Deve-se ressaltar que nos voltamos para o estudo do fascínio pois este termo expressa tanto um estado de passividade quanto uma busca pelo encontro com o outro, e os dois exemplos tomados do texto freudiano apenas realçam o que observamos. O que se apresenta como fundamental para nossa investigação é o que há de comum em todas essas situações de fascinação, incluída a inspiração artística: a postura de “entrega”, de passividade a um outro sedutor. 93 A partir das duas posturas estéticas com que temos trabalhado – a saber, a estética do belo e a do sublime – podemos reconhecer duas possibilidades de fascinação bem diferentes. O fascínio pelo belo nos remeteria para uma posição passiva diante do falo, e o fascínio pelo sublime – e este é o caso do artista – nos remeteria à inspiração. O que fascina o artista é algo que vem do outro e que demanda tradução, algo de “duro” na mensagem enigmática. Neste caso, é preciso permanecer exposto, aberto a uma alteridade que não fecha essa “ferida”, para que se possa construir algo da ordem do novo, fora da lógica do recalque ou da foraclusão. Encontramos uma ilustração desta experiência de fascínio no artista, intimamente ligada à inspiração e à estética do sublime numa passagem quase didática das cartas que Vincent Van Gogh escreveu a seu irmão Théo: Eu mesmo não sei como pinto; venho sentar-me com uma tela branca frente ao local que me impressiona, vejo o que tenho diante dos olhos, e digo a mim mesmo: esta tela deve tornar-se alguma coisa – e volto insatisfeito – coloco-a de lado e depois de ter descansado eu a olho com uma certa angústia – e continuo insatisfeito, porque aquela maravilhosa natureza está muito na minha cabeça para que eu possa estar satisfeito – mas no entanto vejo na minha obra um eco do que me impressionou, vejo que a natureza me contou algo, falou comigo, e que anotei isto em estenografia. No meu estenograma pode haver algumas palavras indecifráveis – erros ou lacunas – no entanto, resta alguma coisa do que o bosque, a praia ou a figura disseram... (Van Gogh, 1914 [1853-1890], Op. cit., p. 96-97). Van Gogh mostra-nos como é invadido por um outro (no caso, a “natureza”), de modo que este outro o fascina e o leva ao trabalho “desesperado” de tentativa de tradução/inscrição psíquica. O enfoque de nosso estudo sobre o tema do fascínio traz consigo a necessidade de investigarmos mais atentamente estas posturas estéticas referidas. As conseqüências de estar fascinado pelo falo ou “inspirado”, são muito diferentes. Marie-Claude Lambotte é uma autora que, a partir de sua clínica, no atendimento de melancólicos, 94 pôde reconhecer a gênese do que ela chama de “uma postura estética” durante a análise destes sujeitos, e assim estudar as diferenças no funcionamento psíquico dependendo de qual seja a postura estética pela qual o sujeito se regula. Seus textos que tratam deste tema nos serão de grande importância, pois nos permitirão compreender melhor os efeitos das posturas estéticas que temos estudado nas possibilidades de criação; além do mais, podemos destacar na obra desta autora um olhar bastante original sobre o fascínio. III.3.1 A gênese de uma postura estética Lambotte desenvolveu, a partir de alguns de seus estudos a respeito da melancolia (2000, 2002, 2003), uma compreensão de como se desenvolve uma postura estética que retirava seus pacientes melancólicos de uma situação “mortificada”. Para isso, foi-lhe muito cara a elaboração do conceito de objeto estético, diretamente relacionado com a idéia de fascínio, como veremos mais adiante. Para compreendermos do que se trata exatamente neste conceito de objeto estético, será preciso que sigamos o pensamento da autora em torno do tema da melancolia, até chegarmos ao ponto que desejamos – a gênese de uma postura estética não referida ao fechamento narcísico, ou seja, a estética do sublime. Uma das características principais do quadro da melancolia, para Lambotte, é que o sujeito melancólico vê o mundo “sem relevo”. Isto quer dizer que não há fascínio pelos objetos do mundo: todos têm o mesmo valor, o que, no final das contas, é nenhum valor, porque algo só se torna valioso em comparação com outra coisa – quando o sujeito tem o mesmo interesse por todas as coisas, não parece apropriado falarmos nem em interesse nem em valor. No entanto, esta autora propõe-nos que esta postura do melancólico diante do mundo esconde uma outra – a de que, por trás deste “mundo 95 fútil”, que não lhe desperta interesse, há um “mundo ideal” (a autora conta-nos que seus pacientes, ao se referirem a este outro mundo, utilizam-se de termos como “luz”, “fusão”, “segurança”). Este mundo ideal é concebido através da idéia de um absoluto que o sujeito é incapaz de alcançar, um absoluto do qual o sujeito foi privado, o que termina por causar uma relação de “ou tudo ou nada” com as coisas: “ou eu tenho tudo, ou fico com o nada!”. Isto, no ponto de vista do melancólico, justificaria sua postura negativista. Pois justamente na clínica dos sujeitos melancólicos a autora descobriu uma possibilidade de estes sujeitos saírem dessa relação de “ou tudo ou nada” para tomarem um objeto e o investirem (algo que poderíamos esperar como improvável na melancolia), o que quer dizer que o melancólico acaba por reconhecer algum relevo neste “mundo chato” em que vive – o objeto investido é o que Lambotte denomina objeto estético. Ele evidencia o aparecimento do interesse, do valor. Para entendermos como ocorre esse “surgimento” de uma postura estética, é preciso que acompanhemos o pensamento da autora mais detidamente. Ela nos ensina que o sujeito melancólico “... se diz já morto por ter afirmado o reverso de toda empreitada, em outros termos, o reverso do desejo” (Lambotte, “A propos de la mélancolie: le défaut de perspective”, p. 3. A tradução é nossa.). Se ele já está morto,os objetos não o atraem, pois a escolha objetal é sempre uma escolha diante da morte; o interesse opõe-se à morte. O melancólico está fascinado pelo “mundo do absoluto” de tal modo que parece-nos correto afirmar que tal fascínio apresenta-se como mortífero (Lambotte, 2002), paralisante. Este fascínio aponta para o fato de que nenhum objeto mundano poderá satisfazê-lo, daí Freud dizer-nos em "Luto e Melancolia" (1917e [1915], Op. cit.) que o melancólico sabe algo da trágica verdade de todo homem. Mas 96 no fundo, lembra-nos Lambotte, há uma crença do melancólico de que naquele “mundo do absoluto” poderia haver a possibilidade de satisfação, de completude de seu narcisismo, porém ele é incapaz de alcançá-la. Acreditamos que tal fascínio diz respeito a um sujeito voltado para a estética do belo que reconhecemos agora como paralisante, por reportar-se a uma crença numa completude absoluta. A autora aposta numa compreensão de por que as coisas se dão desta forma na melancolia, assim como Freud o faz, através da proposição de que muito cedo em sua vida o sujeito foi bruscamente abandonado pelo objeto, pelo outro – que tanto ela quanto Freud, Winnicott e Laplanche reconhecem na figura materna. Por conta desse abandono, o sujeito passa a identificar-se ao desaparecimento do objeto ou, dito de outra forma, à falta do objeto. O melancólico não consegue representar esta perda e o efeito disto é traumático, já que o que não pôde ser representado incide violentamente no aparelho, demandando trabalho psíquico. Reforçando o aspecto traumático deste encontro, Lambotte remete-nos a um “olhar indiferente da mãe” em relação ao bebê, que causaria um enigma indecifrável, pois obstrui a construção de uma imagem de si mesmo não tão precária. O melancólico sofre, portanto, da nostalgia de um encontro não realizado com o outro. Porém, como já adiantamos acima, Lambotte percebeu que o melancólico poderia desenvolver algum tratamento4 do traumático e sair de uma postura de fascínio mortificante. Havia um interesse por parte de alguns de seus pacientes, ao longo do tratamento, pela atividade de composição. Com isto, a autora quer dizer que, mesmo na descrição desafetada que estes pacientes faziam do mundo, percebera uma ordenação tal que mostrava-se como uma composição de um ambiente, um espaço com “... um apelo 4 O termo “tratamento” é aqui empregado no mesmo sentido proposto no capítulo II. 97 ao ‘ver’, dito de outra forma, à contemplação.” (Lambotte, A propos de la mélancholie: le défaut de perspective, Op. cit., p. 9. A tradução é nossa.). Esse processo é o que esta autora chama de criação de um contexto. A criação de um contexto tem por conseqüência uma nova “visada” sobre os objetos: passa-se a atribuir-lhes valores, pois que uma ordenação jamais será neutra, por mais que o tente. Se há valores para os objetos, algum será mais valioso que outros – o objeto estético – de modo que a visão de um “mundo chato” vai, aos poucos, ganhando relevos. A formação de um contexto implica um complexo de relações entre os vários elementos deste contexto, possibilitando a formação de uma rede associativa – cadeia de representações, ou seja, a inscrição psíquica. O objeto estético é aquele, na definição de Lambotte, que incita o sujeito a “abrir os olhos”, é o objeto da contemplação, do fascínio. Nas palavras desta autora, “...a construção estética se esforça por deixar visível o que, precisamente, ficava invisível...” (Lambotte, 2002, Op. cit., p. 36. A tradução é nossa.). O objeto estético servirá de possibilidade de expressar o que antes era tomado como “mundo do absoluto” – o outro sedutor internalizado – através do investimento num objeto outrora banal, o que, em nossa interpretação, põe em questão a própria crença na união com o absoluto. A postura estética que surge com a criação do contexto e do objeto estético remete-nos à estética do sublime, pois a apreciação do objeto agora volta-se para o “invisível” – ou, se quisermos, o “indizível” – e não para um “absoluto” que fecha sentidos. O fascínio que encontramos nesta postura diante do objeto estético é de outra ordem que não aquela mortífera: agora, o sujeito se coloca num trabalho psíquico que expressa a tentativa de tradução ao mesmo tempo que se submete aos efeitos do “intraduzível”. 98 A autora cita a pintura de naturezas-mortas como um exemplo do trabalho de tornar o objeto banal em estético – os ready-made de Marcel Duchamp (Argan, 1992, Op. cit.) também se apresentam como um bom exemplo. Porém, Lambotte frisa que o objeto estético não deve ser confundido com o objeto artístico, porque o primeiro é criado num contexto clínico, durante o tratamento e só tem valor para aquele sujeito naquela análise – a experiência do objeto estético, portanto, é singular. Se este é assim definido, não podemos confundi-lo com o objeto artístico que possui um valor compartilhado numa cultura, numa sociedade, numa época. Tomamos todas estas considerações de Lambotte como pertinentes; no entanto, temos de reconhecer que se o objeto estético não é necessariamente artístico, o objeto artístico é necessariamente estético, pois reconhecemos como característica de todo objeto artístico essa propriedade de “expressar o invisível”. Dito de outra maneira, uma postura estética referida ao sublime deve ser anterior à criação artística, e esta deve estar condicionada àquela. Torna-se importante que relacionemos o que a autora nos ensina sobre a tomada de uma postura estética e o fascínio pelo objeto estético, com os pontos de vista sobre as condições da criação artística que abordamos na intenção de esboçar um quadro geral do que pudemos avançar em nosso percurso sobre a inspiração dos artistas. III.3.2 A postura estética do artista Lambotte pôde privilegiadamente observar a construção de uma “visada” estética na clínica dos melancólicos; no entanto, acreditamos que suas descobertas permitem que articulemos suas considerações a respeito da importância e do caráter da construção de uma “visada” estética, às condições da criação da obra de arte e, assim, à 99 noção de inspiração. É a própria Lambotte quem relaciona a construção do objeto estético ao trabalho artístico: Devemos nos esforçar a todo custo para reinserir aquele [o objeto de gozo, um objeto que permite a descarga, a satisfação econômica] dentro de um contexto, de um meio, mediante um trabalho psíquico que consiste em um trabalho de (re) composição, de arranjo, do mesmo modo que, através da disposição dos elementos do quadro, o pintor dá testemunho de sua maneira de exprimir o gozo (Lambotte, 2002, Op. cit., p. 30. A tradução é nossa.). A autora reaproxima o trabalho artístico da gênese de uma estética – que interpretamos como a estética do sublime – quando conta-nos que o pintor alemão Caspar David Friedrich era impelido por uma busca da “verdade” que poderia ser comparada à tomada de uma postura estética como a que observou na clínica, com seus pacientes melancólicos. Esta busca orientava Friedrich na concepção e na produção de suas obras que tentavam, em vão, reproduzir essa “verdade”, da mesma maneira que o melancólico busca a “verdade” através do objeto estético – e aqui devemos lembrar-nos também de Giacometti e sua busca da “verdade”. É esta busca sempre falha (Gantheret, 2003) que permite o trabalho artístico. Podemos reconhecer na construção do objeto estético a busca de alcançar e transmitir a verdade do conflito psíquico, expressão da violência das marcas do trauma, aquém da inscrição tal como interpretamos o que Heidegger observa acerca da obra de arte. É notávela apreciação que este pensador faz do quadro de Van Gogh em que vemos pintados dois sapatos de camponeses (Heidegger, 1950). Heidegger mostra-nos a transformação do objeto banal num objeto que “expressa algo mais”, que desoculta o ente e, acrescentamos nós, que se apresenta como o objeto estético tal como Lambotte o concebe. O que parece esboçar-se nesta transposição do modelo de Lambotte para o plano dos artistas, não é uma concepção destes como melancólicos, mas sim uma percepção, 100 na clínica, de um processo de fascínio e inspiração por um outro referido a uma “abertura” do psiquismo que, como temos visto, possibilita a criação. É digno de nota que Laplanche, ao estudar a inspiração, parece reconhecê-la também no plano clínico – no processo analítico (1999, Op. cit.) – sendo que o mesmo acontece no estudo de Winnicott sobre a criatividade (1971, Op. cit.). De fato, é bastante freqüente nos estudos psicanalíticos sobre a criação artística uma tentativa de compará-la à criação que se realiza em análise (Gantheret, 2003; Gagnebin-De M'Uzan, 2003; Kahn, 2003). Não nos parece apropriado, neste momento, investigarmos estas possíveis relações entre a criação artística e a analítica pois isso nos afastaria demais de nosso objetivo de compreender as condições da criação artística. Mas vale pontuar que um estudo aprofundado das relações entre estes dois processos criativos pode mostrar-se bastante frutífero, pois traria luz, ao mesmo tempo, sobre a importância da criação no trabalho analítico e também sobre as possibilidades elaborativas do artista. Voltemo-nos, deste modo, à nossas considerações sobre a postura estética do artista. Para isso, vale a pena comentarmos um pouco mais sobre o artista a que Lambotte se refere – Friedrich – e sua postura estética diante do mundo. Caspar David Friedrich, como nos ensina Giulio Carlo Argan em sua obra Arte moderna (1992, Op. cit.), foi um representante do movimento romântico nas artes plásticas, movimento que surgiu como crítica ao neoclássico. O neoclássico aspirava a atingir modelos de equilíbrio, proporção, clareza; a técnica deveria ser “...um instrumento racional que a sociedade construiu para suas necessidades e que deve servir a ela” (Id., ibid., p. 21). Ainda sobre o neoclássico, a escolha do que deve ser reconhecido como belo deveria ser um ato crítico e racional. Podemos associar este movimento artístico a um movimento encontrado também nos indivíduos: a dinâmica 101 egóica de assimilação, ordenação, ligação e fechamento de sentido, mais voltada a um domínio do processo secundário (Freud, 1900a). Buscava-se um ideal de que o mundo é racional e passível de ser organizado, decifrado e ordenado, onde a estética do belo era exaltada. Argan ainda nos explica que o movimento romântico, opondo-se ao neoclássico, chamava a atenção para as particularidades, ao invés de uma idéia de domínio do universal. A razão passava a não mais ser tomada como o modo de compreensão do mundo. Os românticos acreditavam que era preciso deixar-se afetar pelas sensações, pelos sentimentos, pelas intensidades, para se ter uma verdadeira compreensão do mundo; daí surge a necessidade de estar “aberto” às novas experiências, pois através delas é que conseguiríamos alcançar a “verdade”. O mundo passava a ser visto como misterioso e enigmático, e não mais compreensível racionalmente. Reconhecemos nesta postura diante do mundo aquilo que tratamos por estética do sublime – uma postura que sustenta que o “indecifrável” deve expressar-se, e desta expressão advém a criatividade. O romantismo “abriu os olhos” do sujeito moderno para o fascínio, para a afetação, para a verdade do sujeito fragmentado, incapaz de traduzir tudo, falto. O fato de Lambotte procurar num expoente do movimento romântico alemão (Friedrich) aproximações com uma postura que permite a construção de um contexto e de objetos estéticos, não se faz por acaso – Laplanche recorda-nos que foram justamente os românticos que deram tanto vigor ao termo “inspiração” e à sua importância no processo criativo (Laplanche, 1999, Op. cit.). Se o romantismo “abriu os olhos” do sujeito moderno para o fascínio, para o aspecto disruptivo e violento da arte, de modo algum devemos entender que a arte anterior a esse movimento não remetesse ao fascínio pelo outro enigmático. Ao nos 102 referirmos ao neoclássico e ao romantismo, estamos nos referindo à ideologia dos movimentos artísticos, e não às obras de arte. Argan esclarece-nos bastante sobre este ponto nesta passagem em que escreve sobre os termos clássico e romântico: A cultura artística moderna mostra-se de fato centrada na relação dialética, quando não de antítese, entre esses dois conceitos. (...) São duas concepções diferentes do mundo e da vida, associadas a duas mitologias diversas, que tendem a se opor e a se integrar (...). Teorizar períodos históricos significa transpô-los da ordem dos fatos para a ordem das idéias ou modelos (...). Se existe um conceito de arte absoluta, e esse conceito não se formula como norma a ser posta em prática, mas como um modo de ser do espírito humano, é possível apenas tender para este fim ideal, mesmo sabendo que não será possível alcançá-lo, pois alcançando-o cessaria a tensão e, portanto, a própria arte (Argan, 1992, Op. cit., p. 11). O fascínio do artista reporta-nos à inspiração, posição de passividade ao outro que tem sido reconhecida por nós como a postura característica e condicional à realização da obra de arte em qualquer grande artista. Por exemplo em Leonardo da Vinci, e portanto bem antes dos Românticos, esta postura fica exemplificada na célebre frase “o olho é a janela da alma”, como Freud nos lembra em seu artigo de 1910. Parece ser exatamente este o processo criativo vinculado à inspiração e ao fascínio que encontramos no "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" de Freud: Leonardo pintava na busca do “conhecimento”, que Freud interpretou como sendo uma busca da relação com a mãe sedutora afastada muito cedo do bebê Leonardo. Esta particular relação com a mãe quando internalizada, inspirou e fascinou o artista na produção de suas obras-primas como a “Sant’Ana” a que Freud se refere. Assim, um quadro geral a respeito de nossas investigações pode ser, então, traçado: tanto em Giacometti quanto em Friedrich, Van Gogh e Leonardo percebemos uma mesma postura estética que se faz notar no fenômeno da inspiração. Um ponto em comum no escopo de Freud, Laplanche e Lambotte permite-nos levantar a hipótese de que as Musas inspiradoras dos grandes artistas – sejam elas a “verdade” (Friedrich e 103 Giacometti), o “conhecimento” (Leonardo), a “natureza” (Van Gogh), etc. – são os modos encontrados pelos artistas para tentar nomear o inominável: a experiência de sedução invasiva, traumática com a mãe e ocorrida muito cedo, que por um motivo peculiar àquela relação específica não instrumentalizou o aparelho psíquico daquele sujeito, de forma que o excesso se impôs diante da precariedade egóica numa experiência-limite. Este estado de passividade ao outro tem como contrapartida um processo de criação que se opera como tentativa frustrada do ego de, ao mesmo tempo, reagir e encontrar este outro. Para este processo realizar-se, como vimos, é necessário que o sujeito fascine-se por algum objeto do “mundo das coisas”, tornando-o estético, porque este lhe permitirá empreender seu projeto ambivalente tanto de separação quanto de encontro deste outro sedutor, que caracteriza a criação da obra de arte. O encontro, o “perder-se” no outro, não se realiza totalmente, mas o artista é capaz de fazer com que o outro interno avassalador se expresseatravés da obra que possibilita ao artista dar algum tratamento à violência desse encontro. A separação completa não se efetua mas, como já examinamos, o artista constrói alguma elaboração deste conflito interno tanto por conta da construção de uma tópica extraterritorial – a obra (Guillaumin, 1998, Op. cit.) – quanto por conta de seu apelo ao olhar do outro sobre a obra que, como Winnicott ressalta, pode instrumentalizar o artista a desenvolver alguma representação de si mesmo. Como vemos, o projeto é “malsucedido” em suas duas ambições: não há encontro nem separação. O que se apresenta é uma “abertura” ao outro interno, mas na qual o sujeito não “convalesce” como nas neuroses traumáticas. É a possibilidade de 104 sustentar esta abertura – a estética do sublime – que viabiliza o processo de criação do artista. Estas importantes hipóteses sobre o processo de criação artística e sua relação com o outro interno demonstram ao mesmo tempo um desenvolvimento e uma articulação de alguns pontos de vista que nos permitiram uma visão mais clara da importância do fenômeno da inspiração para a ocorrência de uma criação artística – e desta para um tratamento do traumático reexperimentado naquela. Entretanto, nossas investigações também nos remetem ao fato de que, por mais que tenhamos avançado em nosso estudo, os mistérios da arte não foram desvendados – ao contrário – percebemos que esses mistérios não podem ser desvendados porque dizem respeito àquilo que escapa à compreensão, à representação e, por isso mesmo, a arte continuará fascinando- nos e impelindo-nos a pesquisar mais e mais. Assim, fazemos nossas as palavras de José Outeiral e Luiza Moura quando, ao observarem suas próprias posturas ante Frida Kahlo, Camille Claudel e Coco Chanel – mas que podemos estender à nossa postura ante os grandes artistas em geral – escrevem: ... vemo-nos, frente a essas artistas, numa situação paradoxal: buscamos desvendá-las, mas são justamente os seus mistérios que nos fascinam. Ao mesmo tempo em que elas, como os demais artistas, também parecem viver um dilema: a necessidade urgente de se comunicarem e a necessidade igualmente urgente de não serem decifradas (Outeiral & Moura, 2002, Op. cit., p. 18). Conclusão Após nossa investigação acerca da criação artística ter-nos movido de um estudo da sublimação para um estudo das condições psíquicas necessárias para que o ato de criação artística se realize, podemos propor algumas importantes conclusões a respeito das complexas relações entre a criação artística e a violência psíquica. Aprendemos com a noção de inspiração que uma condição fundamental para a realização da criação artística é que o sujeito repita uma postura de passividade e não- fechamento à mensagem enigmática do outro, semelhante àquela do bebê em relação à mãe na experiência muito inicial do encontro traumático, ou seja, na relação primária. Nesta postura, as defesas contra o efeito avassalador do outro sedutor “intraduzível” e internalizado estão ausentes e, surpreendentemente, é nesta mesma postura que se coloca o sujeito diante da violenta pulsão que desperta a criatividade. Ao nos aprofundarmos no estudo das condições psíquicas para a criação artística, pudemos associar aquela noção de inspiração articulada à “abertura” ao traumático à construção de uma estética que interpretamos como sendo a própria estética do sublime. Esta estética diz respeito a uma “abertura” do psiquismo que se realiza porque a unidade narcísica é colocada em questão – uma postura que permite um “viver criativo”. O aspecto criativo do encontro com o pulsional e, mais especificamente, com a pulsão propriamente dita – a pulsão de morte – é ressaltado numa concepção da experiência do excesso pulsional como sendo um defrontar-se com um “potencial de possibilidades de ser” que não se realiza por conta das ligações psíquicas administradas pelo ego sob a predominância de Eros. 106 Ao nosso ver, a postura estética do sublime não deve ser confundida com a sublimação. A segunda encontra mais afinidade com o que tratamos por estética do belo, ou seja, uma estética voltada para um fechamento narcísico-fálico. Já a estética do sublime – necessária para a criação artística – articula-se à posição de feminilidade, a qual diz respeito à possibilidade de sustentar a trágica situação de desamparo diante do outro, ao reconhecimento da fragmentação psíquica – do “intraduzível” que nos habita e ao qual incessantemente buscamos responder. O desamparo, a fragmentação, a ação das marcas psíquicas “intraduzíveis” do trauma, dizem respeito a uma verdade psíquica de cujo contato, de cujo conhecimento, o recalque protege o ego. Isto quer dizer que o recalque, na criação artística, não é bem sucedido quanto a afastar o efeito das marcas; estas expressam-se na obra. Para a tomada de uma postura estética não voltada para o fechamento – e, portanto, que expresse a verdade psíquica – é preciso que o sujeito seja tomado pelo violento excesso pulsional de tal modo que, numa experiência-limite na qual as defesas falham e tenha-se de reconhecer a expressão da pulsão, torne-se possível sustentá-la – o que impele ao movimento de criar. Aí está em jogo uma situação psíquica de tamanha tensão na qual o sujeito responde “desesperadamente” ao que não tem resposta. A experiência do excesso, da “invasão” do outro interno “intraduzível” não pode ser dissociada da passividade, da precariedade do ego em se defender – a criação artística é a resposta (ou defesa) possível à violência que se faz em ato. É neste fenômeno – o ato – que o aspecto disruptivo da pulsão e a outra face desta moeda, ou seja, a precariedade egóica, aparecem mais claramente: é neste “momento” que o artista lançar-se-á no impulso criador que o domina, e no qual ele poderá dominar o que é excessivo e 107 violento da pulsão, ao contrário do que ocorre nas passagens ao ato que estão marcadas pelos intensos efeitos violentos da pulsão de morte. A precariedade egóica dos artistas também é particularmente observada ao tratarmos das condições psíquicas para a criação da obra de arte. Uma particular constituição psíquica em que a internalização do outro faz-se de tal forma que o sujeito não pode defender-se dos efeitos violentos da sexualidade, remete-nos a um ego frágil, de organização precária, e que tem de recorrer aos destinos pulsionais aquém do recalque para lidar com aquela violência. Através do “retorno sobre a própria pessoa”, a partir da tomada da obra como uma projeção egóica, o psiquismo pode direcionar a violência psíquica para esta territorialidade psíquica exterior que a obra constitui. Através da “transformação no seu oposto” o psiquismo pode alternar da passividade ao outro sedutor, para a atividade como resposta a ele. Esta resposta implica um endereçamento do “intraduzível” da mensagem enigmática ao outro, de modo que aquele que recebe a obra – o público – é afetado pelos efeitos disruptivos que esta traz. Esta complexa busca de domínio sobre o pulsional é própria da obra de arte: ela protege o artista e o público da violência, e ainda permite um trabalho elaborativo. Assim, o ego do artista não se organiza em função de um recalque com uma tal força que possa bloquear e conter o disruptivo – isto inviabilizaria a criação, tal como pode-se perceber na esterilidade criativa do neurótico obsessivo. O ego do artista também não “convalesce”, como ocorre nas neuroses traumáticas. O ego do artista é invadido pelo disruptivo pulsional, pela expressão das marcas do trauma, e seu estado de passividade revela-se como traumatofilia e traumatofobia ao mesmo tempo – ou seja,o sujeito sente-se seduzido e, ao mesmo tempo, busca repelir o que é da ordem do traumático. Sua resposta tem um caráter de reação devido à ineficácia do trabalho de 108 recalque e sublimação que deveria permitir uma contenção do excesso e uma demarcação das territorialidades egóicas. Esta reação é uma “reação criadora negativa”, pois é através desta reação (que constitui a própria obra) que o sujeito pode elaborar alguma discriminação entre seu ego e o “invasor” interno do id – o outro irrepresentável. Se não há nem falência egóica nem uma poderosa contenção pulsional no ato artístico, podemos compreender a singularidade deste ao enfatizarmos que ele se dá num “tratamento” à violência psíquica daquilo que escapa à possibilidade de representação: através da transmissão ao outro daquilo que é enigmático e disruptivo, negando a posição de passividade e protegendo-se da autoviolência – o artista encontra uma via particular de domínio do pulsional. Queremos exprimir com o termo “tratamento” a ação dos destinos pulsionais incapazes de contenção pulsional já citados mais acima: a “transformação em seu oposto” e o “retorno para a própria pessoa”. Deste modo, podemos perceber que é exatamente a confecção da obra de arte que impede o artista de “convalescer” por conta de um ataque interno pelo qual é constantemente ameaçado. A criação da obra aponta para a possibilidade de representar sem fechar-se para o irrepresentável. Como vimos, para a realização da obra é preciso que o sujeito tenha desenvolvido uma postura estética diante do mundo. Para isto efetuar-se, é preciso “escolher” um objeto de fascinação – o objeto estético no qual o artista encontra a possibilidade de expressar a ambivalência da sedução vivida em relação ao outro: atração e repulsa pelo traumático. A obra de arte precisa ocupar este lugar de objeto estético, pois a possibilidade de estes movimentos ambivalentes se desenvolverem é própria dela. Apenas encontrando um espaço razoavelmente seguro para experimentar a 109 inspiração/traumatofilia e também reagir à auto e heteroviolência através do endereçamento é que pode-se falar na criação de uma obra de arte. O artista é aquele que não só é capaz de vivenciar a experiência do traumático e dar conta desse excesso através da criação, como também aquele que busca esta abertura, enquanto as pessoas em geral fecham-se: recalcam e sublimam em nome da unidade narcísica. O artista, impulsionado que é em sua inspiração pelo excesso pulsional, pela violência das pulsões diante a que permaneceu especialmente exposto, responde a isto em ato, movimento externo/interno, paradoxalmente progressivo e regressivo, processo de criação que põe em marcha, subjacente à aprimorada elaboração que esse processo exige, mecanismos elementares e primários, aquém do recalque e que não podem ser reduzidos à noção de sublimação. Deste modo, nosso estudo abre uma nova via não só para o estudo da criação artística em psicanálise, mas também outra via na abordagem do tema da sublimação, a qual não corresponde à “abertura” ao pulsional característica da arte, mas ao contrário, a um fechamento. Deste modo, pudemos explorar uma linha de pensamento acerca da criação artística que enfatiza a singularidade e a importância deste processo de domínio da pulsão na vida psíquica do artista. Entretanto, um olhar sobre como o público experimenta o efeito estético da obra de arte foi por nós salientada apenas como sendo o receptor da mensagem enigmática veiculada pela obra. Seria de grande importância para a compreensão dos efeitos psíquicos que a obra causa no público se, a partir do que foi elaborado nesta pesquisa, desenvolver-se um estudo aprofundado dos efeitos da obra de arte – desta vez não no artista, mas sim no público – isto traria luz à continuidade dos efeitos do pulsional disruptivo que agora agiriam sobre o público, bem como aos 110 processos psíquicos a que este poderia recorrer para dominar a pulsão e haver-se com a “abertura”. Os autores que estudamos em nosso percurso, além de relacionar esta “abertura” do psiquismo à atividade artística, preocupam-se também em associá-la à clínica psicanalítica. Se reconhecermos a hipótese de que a expressão da criatividade do sujeito seria um “índice de saúde” psíquica, compreenderemos a importância da “abertura” do psiquismo na inspiração para uma pesquisa a respeito da clínica analítica. Parece-nos particularmente importante no prosseguimento de nossas investigações o intuito desses autores de aproximar a “abertura” psíquica que reconhecemos como condição da arte, daquela que ocorre na análise. Deste modo, somos levados a indagar: Se esta “abertura” também ocorre na psicanálise, pode-se aproximar a criação artística daquela que ocorre na análise? O que diferenciaria o artista do analisando? A finalidade de uma análise seria tornar o analisando “artista de sua própria vida”? Estas importantes questões ainda não podem ser respondidas a partir do material que desenvolvemos, mas elas nos fazem defrontar-nos com um horizonte que ainda está por ser explorado com mais aprofundamento daquilo que apenas pudemos vislumbrar por meio da realização desta dissertação. Nossa intenção é de, em outro momento, dar seguimento a nossa investigação por estas vias acima esboçadas – afinal as pesquisas voltadas para tal possível articulação entre a criação artística e a analítica parecem-nos frutíferas para uma melhor compreensão tanto da prática clínica quanto do “tratamento” da violência que o artista realiza. Acreditamos que nossa investigação, além de levar-nos aos questionamentos acima, esclareceu-nos bastante acerca da precariedade do psiquismo do artista e da intrincada relação que o autor passa a ter tanto com sua obra quanto com “o outro” a 111 quem a endereça. Assim, tal conhecimento permite o desenvolvimento de novos escopos na pesquisa de casos clínicos graves no que diz respeito à passividade aos efeitos disruptivos da pulsão, com a finalidade de “tratar” a violência a que estão submetidos – não para torná-los artistas, mas para permitir-lhes tomar outra postura estética diante do mundo e experienciar um “viver criativo”. Finalizando, é importante que ressaltemos que além dos problemas acima mencionados que se apresentam diante de nós, há algo próprio da criação artística que, justamente por estar ligado ao pulsional – às marcas, como tivemos oportunidade de enfatizar – não pode ser representado, ou seja, não pode ser dito, e permanece sempre misterioso e inacessível ao nosso conhecimento. Mas, como já foi frisado, é isto mesmo que nos fascina e faz com que a produção destes sujeitos seja tomada pela cultura como objeto de grande valor – a obra de arte. Bibliografia ARGAN, G.C. (1992) Arte moderna, São Paulo, Companhia das Letras, 1993. 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