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Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 1 FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DE PROFESSORES COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 2 INTRODUÇÃO Nas últimas décadas do século XX, educadores, legisladores, estudiosos, instituições e governos emitiram ou manifestaram opiniões sobre a formação de professores.. Na fase de denúncia, a LDB 4024/61 questionou o modelo de currículo (3 + 1) que vinha sendo adotado nos cursos de Licenciatura, passando a exigir um currículo mínimo, composto por um núcleo de matérias com vistas a uma adequada formação cultural e profissional com ênfase na formação do educador. No bojo dessa prerrogativa de mudança, diferentes orientações1 (Parecer 292/62, Parecer 672/69, Resolução 9/69) foram dadas, tendo nas “matérias pedagógicas” um eixo cur- ricular responsável pela formação do professor, pois “o que ensinar” (conhecimentos adquiridos na área específica) preexiste ao “como ensinar” [o método (Didática)], bem como prescinde de um conhecimento prévio sobre o aluno (Psicologia do Desenvolvimento e da Educação), a instituição Escola (Estrutura e Funcionamento do Ensino) em seus objetivos, organização, política pública e de uma Prática de Ensino (sob a forma de estágio supervisionado - nas escolas da comunidade, nos moldes dos “internatos” dos cursos de Medicina) para atender a exigência de treinamento profissional. (CHAGAS, 1980) Embora tenha havido estes esforços novas denúncias, criticando o “verniz pedagógico” que foi dado aos cursos de formação: expressão essa que se refere, nos anos 1980 e 1990, à dita necessidade de se ter uma base comum nacional de formação de educadores, articulada com as disciplinas de conteúdo específico e as integradoras, na formação do professor das áreas específicas. Reivindicava-se a definição de um corpo fundamental de conhecimentos; a formação pedagógica sólida e não fragmentada; o desenvolvimento do conteúdo específico na ótica do ensino; a valorização da relação “prática-teoria-prática” - articulação entre a teoria e a prática desde o começo do curso – a revisão do modelo curricular adotado; o acompanhamento e a supervisão permanente nos estágios curriculares; a prática pedagógica; a interdisciplinaridade; a delimitação dos saberes da docência; a autonomia pedagógica, a constituição de uma identidade profissional do docente A partir destas denúncias, em diferentes momentos, buscaram-se perspectivas de superação que foram construídas a partir do debate no seio da categoria: em reuniões científicas, associações profissionais, instituto/fundações e periódicos, entre outros. Numa síntese sobre o A ESCOLHA DO MAGISTÉRIO COMO PROFISSÃO NETO, Samuel de Souza (UNESP/RC); CARDOZO, Aline Sckatelberg (UNESP/RC); SILVA, Delmar Benelli da (UNESP/RC); RIBEIRO, Brenda do Prado (UNESP/RC); SILVA, Juliana de Souza (UNESP/RC); BRUM, Esther Vieira (UNESP/RC); CEREGATTO, Luciana (UNESP/RC); CESANA, Juliana (UNICAM/PPGEF); BENITES, Larissa Cerignoni (UNESP/RC); MOTTA, Adriana Ijano (EMEIEF Maria Apparecida de Luca Moore) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 3 assunto, FIORENTINE e colaboradores (2000) observaram que, nos últimos anos, as pesquisas sobre a formação de professores apresentaram os seguintes pressupostos: - a partir de 1960 – uma maior valorização do conhecimento específico a ser ensinado; - a partir de 1970 – maior ênfase nos aspectos didáticos e pedagógicos e nas tecnologias de ensino; - a partir de 1980 – maior destaque para as dimensões sócio-política e ideológica; - a partir de 1990 – início do enfoque sobre a prática docente e os saberes pedagógicos. Considerando este quadro esse estudo deu continuidade ao projeto “O corpo”, tendo como um de seus objetivos apresentar um diagnóstico sobre os professores, considerando a escolha da docência como profissão, bem como o exercício da profissionalidade docente A DOCÊNCIA COMO PROFISSÃO: A IDENTIDADE PROFISSIONAL EM QUESTÃO Esta realidade pode ser constatada, em parte, na Resolução CNE/CP 1/2002 e na Resolução CNE/CP 2/2002 ao se propor uma concepção de formação de professores, para a educação básica, em que a ênfase na prática pedagógica perpassa todo o currículo na elaboração do Projeto Pedagógico e propõe-se um corpo de conhecimentos para a formação docente. Porém, o trabalho docente, em sua prática, pode ocorrer em ambientes formais e não formais, escolares e não escolares; e a docência (e os saberes provenientes dessa prática) se constitui na base da identidade da profissão docente. Neste contexto, CONTRERAS (2002, p. 73) utiliza-se do termo profissionalidade para designar “o modo de resgatar o que de positivo tem a idéia de profissional no contexto das funções inerentes ao trabalho docente”, abarcando três dimensões: - obrigação moral – tendo como componentes a preocupação com o bem estar dos alunos e com a ética, perpassando as relações de afetividade e motividade; - compromisso com a comunidade – estabelecendo, inicialmente, com os professores e, a seguir, com a sociedade como um todo intervenção nos problemas sociais e políticos, e compreendendo a escola como um local de preparação para a vida futura, como agente regulador da sociedade (liberdade, igualdade, justiça); - competência profissional – transcende o domínio de habilidades e técnicas e emerge a partir da interação entre a obrigação moral e o compromisso com a comunidade. Esse dimensionamento exige que se enfrente o desafio da mudança em três níveis: o das mentalidades, das práticas e dos compromissos. “Por mentalidade quero significar a maneira de pensar, julgar e agir. (...) O desafio das práticas significa tornar as vivências e experiências objetos de análise e reflexão. Em geral, não há preocupação com o contexto em que são construídas e consolidadas as nossas práticas, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 4 em outras palavras, não reconstruímos a trajetória histórica da nossa prática. Finalmente, o desafio do compromisso significa transitar do discurso para a ação, articular o real possível e o ideal, destruir as fantasias que cercam o mundo dos planejamentos e programas, gestar e gerir propostas capazes de dialogar com as práticas e as realidades, resgatar o sentido do planejar para a ação”. (MACHADO, 1996, p. 103-104) Dessa leitura vem o questionamento de que na construção dessa profissionalidade precisamos saber: Qual é a nossa concepção de professor? O que esperamos de nossos alunos? Como vamos colocar isto na prática? Como, nós nos inserimos neste contexto? Porém, visando aprofundar este contexto se propõe quatro formas de ações (ORTIZ, 2003, p. 6): Descrever: O que faço? O objetivo desta ação é descrever eventos concretos de ensino em que se revê suas ações distanciados do contexto, o que permite maior organização e possibilidade de enxergar seu plano de aula, como se desenrolou sua aula naquele dia. Essas descrições não precisam ser complexas ou técnicas, mas devem considerar e dar voz à ação dos praticantes. Informar: O que significa isto? Qual o significado das minhas ações? Implica a busca dos princípios que embasam, conscientemente ou não, as ações realizadas. Ao informar, o professor pode perceber e verbalizar as teorias que ele próprio foi percebendo e internalizando no decorrer de sua história como aluno e como professor, as quais permeiama sua ação e/ou o seu texto. Confrontar: Como me tornei assim? Como cheguei a agir dessa forma? Este é momento de confrontar idéias e razões, de interrogar as teorias que embasam as ações, de questionar o senso comum com o objetivo de entender por que se ensina do modo como se ensina. Reconstruir: Como posso fazer diferente? Aprender é reconstruir, remodelar, transformar, integrar o novo ao conhecido. Pela reconstrução dos seus conceitos e visões, o professor pode alterar a sua prática, compreendendo que o ensino não é uma realidade imutável, definida pelos outros, mas contestável na sua essência. De forma que possa decidir o que é melhor para a sua prática (teorização). Portanto aproxima-se a teoria da prática, o pensamento da ação, o professor do pesquisador, visando a sua emancipação, a sua autonomia. No processo de formação, a autonomia, responsabilidade e a capacitação são características tradicionalmente associadas a valores profissionais que deveriam ser indiscutíveis na profissão docente (CONTRERAS, 2002). No âmbito desse processo, então, se pergunta: há necessidade de um “novo” profissional e redimensionamento dos elementos constitutivos dessa profissão ou bastaria ressignificar os conhecimentos e saberes docentes já existentes? Na construção da identidade de uma profissão já não se encontrariam os aspectos objetivos e subjetivos que a delimitam Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 5 como corpo de conhecimento, ética e altruísmo? ‘A profissionalidade docente se refere às qualidades da prática profissional dos professores em função do que requer o trabalho educativo (CONTRERAS, 2002). Dessa forma, a profissionalidade não consiste apenas ensinar, mas engloba todos os valores e pretenções que o docente deseja alcançar na profissão. Gimeno Sacristán apud Papi (2005) afirma que para que haja um entendimento sobre a profissionalidade docente, é necessário que se entenda o conceito de prática educativa, a qual deve ser entendida de forma ampla e não apenas delimitada pela prática didática dos professores. A educação envolve outras esferas, sejam elas de determinações políticas, econômicas ou culturais e isso faz com que os professores não tenham domínio total sobre a prática, uma vez que tais setores interferem na vida escolar. Portanto, assim como a constituição da profissionalidade docente não é um fenômeno simples, a constituição da identidade dos professores também apresenta certas particularidades e configura-se como um fenômeno complexo. De acordo com estudos de Pimenta (2002), a identidade não pode ser considerada um dado imutável, nem externo que possa ser adquirido, mas é um processo de construção do sujeito historicamente situado. A profissão de professor, como as demais, emerge num dado momento e contexto histórico como resposta às necessidades que foram postas pelas sociedades, adquirindo estatuto próprio e legalidade. Neste contexto algumas profissões deixaram de existir, enquanto que outras surgiram nos tempos atuais e outras, ainda, adquiririam tal poder legal que se cristalizariam a ponto de permanecerem como práticas altamente formalizadas e significados burocráticos. Outras não chegariam a desaparecer, mas se transformariam no decorrer das novas demandas da sociedade, como é o caso da profissão de professor. No caso da educação escolar, Pimenta (2002) constatou que no mundo contemporâneo o crescimento quantitativo dos sistemas de ensino não tem correspondido há um resultado formativo (qualitativo) adequado às exigências da população envolvida, nem às exigências das demandas sociais, passando a exigir uma nova identidade profissional do professor. De modo que uma identidade profissional se constrói a partir da significação social da profissão, da revisão constante dos significados sociais da profissão e da revisão das tradições. Ela se constrói também através do significado que cada professor, enquanto ator ou autor, confere à atividade docente no seu cotidiano a partir de seus valores, de seu modo de situar-se no mundo, de sua história de vida, de suas representações, de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido que tem em sua vida o ser professor (PIMENTA, 2002). Portanto, a identidade do professor é construída ao longo de sua trajetória como profissional do magistério. No entanto, é no processo de sua formação que são consolidadas as opções e intenções da profissão. Assim, a identidade vai sendo construída com as experiências e história pessoal, no coletivo e na sociedade (PIMENTA e LIMA, 2004). Porém, visando aprofundar o que foi arrolado escolheu-se como trabalho de campo Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 6 uma escola municipal da cidade de Limeira, visando levantar junto ao corpo de professores a compreensão que eles têm do magistério, visando resegnificar a própria profissão. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Como caminho para este percurso escolheu-se a pesquisa de análise qualitativa, do tipo descritiva, visando num segundo momento passar para a pesquisa ação, que supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, sendo o ambiente natural a principal fonte dos dados e o pesquisador o principal instrumento. A técnicas utilizadas nesta investigação foram o questionário, a observação e a fonte documental. Porém, para o momento estaremos apresentando, apenas, os dados do questionário. O questionário composto por 12 questões foi encaminhado para 35 professoras, tendo a devolutiva de 31 (88,57%). Das 12 questões trabalhadas estaremos apresentados os resultados das questões (seis) vinculadas ao magistério. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os dados relativos a questão da docência foram coletados tendo como fonte de informação o questionário, a observação de aulas e a entrevista. Porém, nesse momento estaremos apresentando os dados relativos, apenas, ao questionário. Na primeira questão “O que levou você a optar pelo Magistério?”, o que se encontrou foram indícios de que a escolha desta profissão ocorreu em função da (o): afetividade, socialização primária, questões de gênero e desejo de transformação social foram os aspectos que mais motivaram as participantes na escolha da profissão (Figura 2). Estas respostas reportam para o fato de que as professoras gostam de crianças, tiveram influência familiar, pelo fato de serem mulheres e, ainda, por ter uma vontade muito grande de modificar a sociedade. O item afetividade foi o que se destacou dentre as respostas das professoras, compreendendo 23% do total das respostas obtidas. Que s tão 1 23% 19% 16% 16% 10% 10% 6% afetiv idade soc ialização primária ques tao de gênero transformação soc ial genérico socialização secundária opção espiritual Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 7 Figura 1: Respostas referentes a primeira questão do questionário aplicado. A décima segunda questão visou complementar a primeira ao colocar: “Se não fosse a docência, em qual campo de atuação você gostaria de estar trabalhando? Por quê?” Categorias encontradas (Figura 6): Figura 6: Respostas referentes à décima segunda questão do questionário aplicado. - Área de humanas I. Nesta primeira categoria as respostas que se destacaram foram: magistério/docência, pois “nunca pensei em trabalhar em outro campo”. - Área de humanas II. Outros campos da área de humanas, priorizando o trabalho com pessoas. Foram destacadas as seguintes atividades: direito, comércio, serviçosocial e psicologia. - Área de humanas III. Dentre esta categoria as respostas que emergiram são: trabalhar em outros campos como escritora, decoradora e designer, arquitetura, administração, gastronomia e artes. - Área da saúde. Gosta de trabalhar com pessoas e destacaram as áreas que envolvem a medicina. - Área de exatas. De forma geral também gosta de trabalhar com pessoas e gostaria de ser bancária. - Voluntário. Um participante afirmou que gostaria de trabalhar no voluntariado. Com relação a esta pergunta houve um predomínio da área das Humanidades 77% do total das respostas. Nas análises de conteúdo apresentadas em relação às diferentes questões do questionário vinculadas a docência, magistério observou-se que oito participantes (25,8%) eram aqueles que queriam fazer o magistério e não tinham, ou admitiam, outra opção, mas os demais participantes apresentaram outros interesses, podendo caracterizar aquilo que Levenfus (1997b) denominou de uma escolha sem conhecimento da profissão e de si mesmo ou que recebeu influência da família sem levar em consideração os interesses da pessoa. Para aqueles que não tinham dúvida dessa escolha, o grande balizador foi a dimensão afetiva ou afetivo-social sugerindo como colocou Contreras (2002), na obrigação moral da profissionalidade docente, a preocupação, o respeito e o interesse pelos escolares o que implicaria numa afetividade e moralidade. Ques tão 1 2 27% 27% 23% 17% 3% 3% área de humanas I área de humanas II área de humanas III área da s aúde área de ex atas v oluntar iado Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 8 A segunda questão deste bloco “Como você definiria o magistério?” caracteriza-se por identificar dimensões da profissionalidade docente. Figura 2: Respostas referentes à segunda questão do questionário aplicado. Dentre as respostas obtidas, as que mais se destacaram foram a dimensão afetivo- social, a dimensão pessoal-profissional e a dimensão social. Foi possível verificar que a dimensão afetivo-social se destacou alcançando 54% das respostas das professoras (Figura 2). Esta dimensão se caracterizou por considerar o magistério como algo prazeroso e gratificante, pois se vê a progressão dos alunos, no entanto é uma profissão pouco valorizada. Um total de 3 pessoas não respondeu a esta questão. Considerando a questão 3a “Dentro da profissão o que você mais gosta de fazer?” observaram-se as seguintes categorias: - dimensão afetivo-social que compreende conviver e ter contato com as crianças. - dimensão cognitiva moral que tem a ver com a progressão dos alunos e formação do cidadão. - dimensão cognitiva está ligada à vontade de aprender coisas novas. - dimensão experiencial relaciona-se à prática pedagógica e à viabilização de projetos. - não respondeu Verificou-se que o maior número de respostas se concentrou na categoria - dimensão afetivo-social que teve como resultado 54% das respostas das docentes. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 9 Figura 3a: Respostas referentes à terceira questão do questionário aplicado. A questão 3b diz “Dentro da profissão o que você menos gosta de fazer?”. Entre as respostas analisadas encontraram-se as seguintes categorias: - Gestão escolar. Nesta categoria foram encontradas respostas que se referem à parte burocrática (preenchimento de papéis e reuniões); às frustrações que o sistema educacional propõe e à dupla jornada de trabalho. - Dimensão cognitiva. A resposta encontrada nesta categoria foi: alunos que não progridem. - Dimensão moral. A resposta encontrada nesta categoria foi: presença de professores irresponsáveis. - Não Respondeu - Dimensão motora. A resposta encontrada nesta categoria foi: dar aula de Educação Física. - Genérico. A resposta encontrada nesta categoria foi: não vê algo que não goste. A categoria referente a parte democrática da gestão escolar de destacou como sendo o ponto negativo da profissão atingindo 67% das respostas das professoras conforme observado na Figura 3b. Figura 3b: Respostas referentes a terceira questão do questionário aplicado. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 10 A questão número 4 pergunta: “Quais disciplinas ou conteúdos tidos como importante, no processo de formação, para o exercício da docência?” As categorias de respostas encontradas para esta questão foram: Figura 4: Respostas referentes à quarta questão do questionário aplicado. - Disciplinas Humanas. As respostas desta categoria foram: didática, psicologia e filosofia. Um total de 14 professoras respondeu esta categoria que abarcou 46% das respostas (Figura 4). - Genérico. As respostas desta categoria foram: disciplinas teóricas que exigiam somente a memorização. - Não respondeu. - Prática Pedagógica. - Ética. A resposta desta categoria foi: respeito pelo cliente. - Disciplinas do núcleo comum. As respostas desta categoria foram: matemática, história e geografia. As disciplinas relacionadas às Humanidades e ao conteúdo teórico foram as que mais se destacaram dentre as respostas obtidas. A quinta questão se caracteriza por “Qual o conhecimento ou saber que você considera mais importante para a prática pedagógica?” Respondendo ao que tinha sido fundamental, em termos de conhecimento, para a docência e prática profissional, os participantes assinalaram como disciplinas importantes a didática, psicologia, sociologia acrescentando num outro momento a filosofia, temáticas que envolviam a cidadania e a ética e a experiência ou saber da experiência. Tais conhecimentos assinalados fazem parte daquilo que se denominou chamar de saberes da docência. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 11 Figura 5: Respostas referentes a quinta questão do questionário aplicado. Na análise dos dados referentes a esta pergunta utilizou-se da proposta de Tardif (2002) visto que ela abrangia de forma ampla todas as respostas averiguadas, como: - Saberes da Formação Profissional. O conteúdo destes saberes foram definidos de acordo com as respostas de 11 professoras (36%): cidadania e ética, valores que ajudam os alunos a progredir na sociedade; didática; psicologia; sociologia e filosofia. - Saberes da Experiência. Um total de 10 professoras (32%) fez parte desta categoria e responderam: a troca de experiência; conhecimento das crianças e reflexão da prática pedagógica. - Saberes Curriculares. As respostas desta categoria foram feitas por 6 professoras e consistia em dominar o conteúdo e estar atualizado. - Genérico. Três professoras responderam que o conhecimento mais importante para a prática pedagógica são os conhecimentos teóricos e práticos. - Não Respondeu. Apenas uma professora não respondeu esta questão. O bloco de conhecimentos assinalado não é estanque, mas apresentam uma correlação com os saberes da formação profissional e saber experiencial nos estudo de Tardif (2002) por envolver, no primeiro caso, os conhecimentos provenientes da ciências da educação, ideologia educacional bem como o saber pedagógico. No entanto, quando se fala no saber experiencial, o único que é desenvolvido fora da universidade por envolver um conhecimento tácito, este abarca a socialização primária e a socialização secundária. Porém há outros autores como Pimenta (2002) que vão apresentar outro recorte do que foi colocado, localizandoos diferentes componentes que foram assinalados nos saberes pedagógicos, conhecimento e saberes da experiência. CONCLUSÃO Com relação ao que se propôs apresentar foi observado que a dimensão reflexiva do docente se realizou através das compreensões apresentadas no que diz respeito à docência. A docência, entendida como a base da identidade do professor, foi analisada na Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 12 perspectiva de que as atitudes das docentes abarcavam os três aspectos principais (a obrigação moral, o compromisso com a comunidade e a competência profissional) do exercício da profissionalidade, tendo como componentes: afetividade, moralidade, urbanidade, cooperação e diálogo. Foi identificado que a autonomia docente passa pelo processo de reflexão e compreensão de aspectos atitudinais, ou seja vinculados aos saberes da formação profissional (que envolve uma dimensão pessoal e uma dimensão profissional) traduzidos na forma de se “colocar-se no lugar do aluno”. Dessa forma, concluiu-se que o trabalho realizado na escola, envolvendo o exercício da profissionalidade docente, propiciou boas reflexões no âmbito pessoal e profissional, favorecendo, dessa forma, o relacionamento interpessoal e uma prática pedagógica mais dialógica e fundamentada na reflexão na e sobre a ação REFERÊNCIAS BRASIL Congresso Nacional. Lei nº 4024, de 20 de dezembro de 1961 ______ Conselho Federal de Educação. Parecer nº 292, de 14 de novembro de 1962. ______ Conselho Federal de Educação. Parecer nº 672, de 04 de setembro de 1969. ______ Conselho Federal de Educação. Resolução nº 9, de 6 de outubro de 1969. CONTRERAS, J. 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Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 14 as últimas décadas, as pesquisas sobre os saberes desenvolvidos pelos docentes em sua prática têm se intensificado, no sentido de torná-los públicos, desmistificando e contribuindo para que os mesmos conquistem o respeito e a consideração que sempre mereceram. O estudo1 aqui apresentado inscreve-se neste âmbito de investigação tendo como foco as descrições, explicações e interpretações dos professores sobre a sua prática pedagógica com o objetivo de evidenciar os fatores que contribuiriam para a constituição de sua identidade e dos seus saberes. O artigo de Tardif, Lessard e Lahaye (1991) sobre os saberes docentes, despertou o interesse da comunidade educacional no Brasil como um novo campo de estudo há pouco mais de dez anos. O tema se insere em um contexto maior e ocupa o lugar central nos debates internacionais e em pesquisas (Shulman, 1986a, 1986b e 1987; Zeichner (1994); Gauthier, Tardif e Mellouk, 1993; Gauthier et al, 1998; Perrenoud, 1996; Tardif, 2000a, 2000b, para citar alguns), estando na base das reformas na formação de professores implantadas em muitos países na América do Norte e Europa há cerca de duas décadas. Algumas das questões que mobilizam tais estudos buscam responder o que sabem os professores, quais os saberes que estão na base de sua profissão, se envolvem também atitudes e posturas, onde são adquiridos. Outros estudos (NÓVOA, 1992a, 1992b, 1998) buscam conhecer sua vida, trajetória pessoal e de formação, suas crenças, valores, e perspectivas, constituídas a partir das experiências vividas. O saber profissional, de acordo com Tardif (2000a) é aprendido na prática, pela experiência, em contato com a realidade do trabalho e com os demais atores sociais, no interior de um grande processo que é a socialização profissional. Na formação inicial, o reconhecimento da importância dos conhecimentos práticos do professor, como destaca o autor, significa o primeiro passo para possibilitar ao futuro profissional o discernimento para enfrentar o ineditismo do cotidiano, denominado por Schön (1983) como “estruturação ou construção do quadro de problemas”, em oposição ao modelo da racionalidade técnica, na qual imagina-se que a transposição de proposições teóricas e conhecimentos científicos da formação se efetue de forma direta e linear na resolução de futuros problemas da prática profissional. Conhecer quais são os saberes necessários, indispensáveis ao professor é importante, portanto, não só para dar visibilidade e condições de resgatar um profissionalismo em A EXPERIÊNCIA DO TRABALHO NA CONSTRUÇÃO DOS SABERES DOCENTES: IMPLICAÇÕES PARA A FORMAÇÃO INICIAL LIMA, Sônia Filiú Albuquerque (UEMS); GRIGOLI, Josefa A. G. (UCDB) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 15 crise (TARDIF, 2000a), como é fundamental para orientar os currículos de formação universitária. Que saberes são esses? OS SABERES DA DOCÊNCIA Gauthier (1998) situa os saberes dos professores no âmbito de uma problemática teórica geral. O que acontece quando o professor ensina? O que ele faz para instruir e educar as crianças? O que é precisosaber para ensinar? Se existe um repertório próprio ao ensino, que repertório é esse? Como é construído? Um dos mitos em relação aos saberes docentes é que ser professor é um ofício sem saberes, ou seja, basta conhecer o conteúdo, ou basta ter talento, ou basta ter bom senso, ou basta seguir a intuição, ou basta ter experiência, ou basta ter cultura. Por outro lado há também o mito de que os saberes docentes não têm ofício. Embora as faculdades de educação tenham produzido saberes formalizados a partir de pesquisas, esses saberes não se dirigiam ao professor real, cuja atuação se dá numa verdadeira sala de aula. A idéia era de que ao professor (como um técnico) cabia apenas aplicar as descobertas da ciência. Na verdade, os professores criticam com razão a não pertinência desses saberes “científicos” ao seu contexto de trabalho. Esse fracasso do projeto da ciência da educação, segundo o referido autor, também contribuiu para a desprofissionalização da atividade docente. É como se o saber cientifico sobre o ensino tivesse amputado de seu objeto real um professor real, numa sala de aula real, diante de um grupo de alunos reais. Segundo Tardif, Lessard e Lahaye (1991) os saberes docentes originam-se de quatro fontes: saberes da formação profissional; saberes disciplinares; saberes curriculares e saberes da experiência e argumentam sobre a necessidade dos programas de formação darem maior relevância aos saberes da experiência, pois os mesmos constituem-se fonte de referência para a prática docente. Os estudos apontam que os outros saberes parecem ser validados no exercício do cotidiano e permitem aos professores um distanciamento de outros conhecimentos adquiridos fora de sua prática. Colocam ainda em evidência que nos saberes da experiência os demais saberes são amalgamados. Tardif (2000a) apresenta uma caracterização dos saberes docentes a partir de estudos sobre o tema. Segundo eles esses saberes são: a) temporais: ou seja, são adquiridos através do tempo. Uma boa parte do que os professores desenvolvem em suas práticas provém de suas histórias de vida e de sua história de formação escolar. Eles trazem uma imensa bagagem de conhecimentos anteriores à sua formação acadêmica, de crenças e certezas sobre o que seja uma prática pedagógica. Essas certezas permanecem imunes às teorias dos cursos de formação e ao principiarem sua experiência profissional, tais crenças serão reativadas para solucionar os problemas do cotidiano. As primeiras experiências profissionais também são decisivas para desenvolver o sentimento de competência, a estruturação de uma rotina. Muito cedo essa experiência transforma-se em truques do oficio, modelos de gestão de classe e de ensino. Os saberes são temporais também porque se Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 16 desenvolvem ao longo da carreira, concorrendo para a construção da identidade docente, em um processo de socialização e adaptação às demandas institucionais. b) plurais e heterogêneos: provém de diversas fontes como já foi apresentado. São ecléticos quanto às concepções teóricas que fundamentam as ações do professor, ainda que contraditórias. Sua utilização é pragmática; como as várias ferramentas de um artesão para desenvolver a sua arte, estão a serviço da ação e é nela que adquirem significado e utilidade. As teorias, as habilidades se integram em função dos vários objetivos que buscam atingir simultaneamente. Dessa forma, os professores em seu cotidiano: “procuram controlar o grupo, motivá-lo [...] ao mesmo tempo prestam atenção individual a certos alunos da turma, procuram organizar atividades de aprendizagem, acompanhar a evolução da aprendizagem, [...] etc.” (TARDIF, 2000a, p. 15). c) personalizados: sendo a atividade docente essencialmente de interação humana, a personalidade do professor é absorvida no processo e, em certo sentido, é o ponto principal dessa interação. Dificilmente os conhecimentos serão objetivos. Não há tecnologias eficazes para controlar as situações de interação humana. O professor sabe que deverá contar com suas capacidades pessoais, consigo mesmo, para controlar o seu ambiente de trabalho (Ibid). d) situados: são elaborados em função de uma situação especifica de trabalho que se apresenta diante de seres humanos que devem interagir seus significados, negociando-os coletivamente. É a “contextualidade”, ou seja, os saberes estão ancorados em contextos, situações concretas que demandam habilidades, conhecimentos específicos. São produzidos nas diferentes interações e relacionados a situações de trabalho. A categoria trabalho parece ser central na análise dos autores, pois é através do mundo do trabalho que os outros conhecimentos serão validados, ou não. Os saberes da experiência ocupam, portanto, um lugar fundamental em relação aos demais saberes. Concluindo as contribuições dos autores, um aspecto que fica bem enfatizado é que ensinar é mobilizar uma variedade de conhecimentos compostos, reinventando-os no trabalho, adaptando-os e transformando-os. A experiência do trabalho não é apenas o lugar onde os conhecimentos são aplicados, mas é em si mesma um conhecimento do trabalho a respeito dos outros conhecimentos, não apenas faz parte de um corpo de saberes, mas, estabelece o lugar onde esses saberes são amalgamados e re-elaborados. A caracterização dos saberes apresentados pelos autores, a partir das pesquisas lança luz para o entendimento da epistemologia do métier docente. Nesta direção o estudo aqui apresentado busca colaborar na compreensão de como o professor aprende o seu fazer, do que é de fato decisivo na formação do seu pensamento que se manifesta em sua prática, a fim de que sua formação universitária possa ser mais efetiva. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 17 OUVINDO OS PROFESSORES O estudo apresentado a seguir iniciou-se há cerca de três anos em uma escola da rede municipal de Campo Grande - MS, escolhida intencionalmente pelas referências positivas a seu respeito, tendo alcançado os melhores resultados em 2003 nas avaliações do SAEB. O universo investigado compreendeu o grupo de professores e equipe técnico-administrativa. Relatamos aqui uma análise das entrevistas realizadas com os professores. Buscamos identificar os fatores atribuídos pelos professores como decisivos na elaboração de sua prática educativa. Os entrevistados são 8 professores que atuam da Educação Infantil à 4ª série do Ensino Fundamental, têm em média 42 anos, com uma experiência média na educação de 18 anos aproximadamente e todos com mais de 3 anos de permanência na escola. A entrevista foi organizada em 6 blocos compreendendo a vida escolar, a formação inicial, a experiência inicial, a formação continuada, a escola como local de formação e a prática e trajetória profissional. Apresento aqui os resultados e discussão relativos ao último bloco. As questões sobre a prática e a trajetória profissional objetivam conhecer, nas falas dos professores, como organizavam suas aulas, como avaliavam, sobre as mudanças ao longo de sua carreira, como aprenderam a prática desenvolvida, o que fariam se fossem recomeçar, o que pensam dos alunos e fatores que influenciaram a sua prática. Essas questões giravam em torno de uma questão central: como os professores aprenderam sua prática? A fala do professor, seus argumentos foram tomados como indicativos dos fatores que influenciaram a elaboração de fazer docente. É preciso levar em conta que essa fala não é super consciente, não é super racional, uma vez que as percepções podem ser falhas, os reais motivos podem estar no subconsciente e a memória é seletiva. Se a fala não é super conscientee super racional, é, contudo a forma mais próxima para a compreensão da realidade do professor. RESULTADOS E DISCUSSÃO Em geral, os professores demonstram gostar do que fazem, referem-se a uma seqüência didática planejada na sua prática, procurando contextualizar os conteúdos, utilizando materiais didáticos concretos, com métodos ativos em um clima descontraído e dialógico. Nas respostas dadas às questões apresentadas, foram destacadas todas as menções dos professores que referiam a fatores determinantes para o desenvolvimento da sua prática pedagógica. Esses fatores estão relacionados no quadro abaixo: Quadro 1: Fatores, apontados pelos professores, que influenciaram na elaboração de sua prática. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 18 Agrupamos estes fatores em cinco categorias para análise de acordo com a freqüência com que são mencionados e podem ser observadas na tabela a seguir: Tabela 1: Categorias de fatores, mencionados pelos professores, por freqüência e proporção, que influenciam a sua prática docente. (*) O total registrado refere-se ao número de posições expressas pelos respondentes e não ao número de sujeitos. Dentre as menções, observa-se que a grande maioria, 85%, refere-se à experiência como fonte do aprendizado da prática, se considerarmos que a experiência socializada é também uma forma de reconhecer o valor da experiência, ainda que vivida por um colega. Há apenas uma menção sobre a formação inicial: De vez em quando, a professora Selene (a professora da faculdade) falava assim...: Tudo que você for fazer se você não planejar você se enrola porque se você planeja uma coisa, você estuda e sabe aquilo que você vai fazer (J.). Mesmo nesta única menção referente à formação inicial, ela se apresenta válida porque a experiência ratifica sua legitimidade: Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 19 O que acontece? O aluno sempre tá testando o professor. Ele sabe quando você sabe o assunto ou quando você quer enrolar a aula, e quando ele percebe isso você não segura a sala, não tem como segurar [...]. E a Selene falava isso: Do momento que você planejou sua aula, você conhece sua turma, a primeira coisa, você tem que conhecer a sua sala, o ambiente onde você vai trabalhar [...] (J.). A fala da professora deixa transparecer a relação entre os planejamentos orientados pela professora da faculdade e a segurança que disso resulta na sala de aula. Observa-se nas falas dos professores, quando tratam especificamente da formação inicial, que essa influência em sua prática não é muito significativa. “O que ocorreu de positivo, só foi o grau de esclarecimento. Você aprimora... assim interiormente” (W.). Embora se atribua a essa formação certa importância, ela parece não ser significativa para o professor em sua prática: “Eu me especializei, eu amadureci mais dentro dos conteúdos específicos [...]. Só que pra vida prática... a gente só aprende trabalhando” (M.). E até muitas vezes essa formação não parece ser reconhecida, por eles, muito além de uma mera titulação: “Ah, você tem curso superior? Não?! Ah, vai fazer! Eu até brinco: vai fazer, se você for preso tem uma sala especial! [....] mas eu acho que o nível superior sempre te acrescenta algo, por mais vago que seja esse curso” (M.). Em geral não se nega a contribuição da formação inicial, mesmo que seja para outras aprendizagens válidas. No entanto, a relação entre essa formação e a prática é praticamente inexpressiva na fala dos professores. Não se duvida também que o esclarecimento mencionado, o aprimoramento “interno” tenha possibilitado posteriormente ao profissional fazer leituras diferenciadas da situação prática, que não seriam feitas sem aquele aprimoramento. No entanto, essa influência para o professor parece vaga ou insuficiente. Segundo Tardif (2000a, p. 19), nas disciplinas da formação, “aprender é conhecer, mas em uma prática, aprender é fazer, e aprender fazendo”. São lógicas distintas, cuja distinção tem um agravante quando as disciplinas são apresentadas de forma fragmentada, isoladas umas das outras. No modelo da racionalidade técnica não se leva em consideração as convicções, conhecimentos e crenças que os alunos já trazem antes da formação acadêmica, desconsiderando-se, portanto, os filtros cognitivos, sociais e afetivos mediante os quais os futuros professores irão processar as novas informações. Nesse sentido, quanto à experiência escolar, vários entrevistados reportam-se a professores que marcaram sua formação escolar: “A (aula) que eu mais gostava era Educação Física. [...] a forma dela explicar. Era uma forma diferente de todos os professores” (W., prof. de Ed. Física). As experiências desagradáveis da formação escolar foram também destacadas. Muitas vezes essas experiências parecem influenciar no sentido de motivar o professor a não reproduzir práticas daquele que o marcou negativamente. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 20 As experiências desagradáveis da formação escolar foram também destacadas. Muitas vezes essas experiências parecem influenciar no sentido de motivar o professor a não reproduzir práticas daquele que o marcou negativamente. Eu só lembro que no ginásio eu detestava muito Português e Matemática e hoje por ironia do destino eu sou professor de Matemática. [...] acho que muitas vezes é pelos próprios professores (...) era a forma de explicar que não fazia com que prendesse a atenção. [...] Naquela época o sistema era muito rígido. [...] se a gente não acertava, castigo na certa. [...] Ficar em pé atrás da porta, risos..., de costas para parede, algumas vezes. [...] qualquer coisa assim, a gente era punido (G., prof. de Matemática). Enquanto alguns eventos marcaram especialmente, muitos outros podem ter se perdido no esquecimento: Engraçado... eu não me lembro. A única coisa que eu me lembro foi uma professora da minha segunda série que me tratou muito mal. [...] Porque ela me agarrou assim na carteira, ai eu falei que não saía; ela: sai! Eu: não saio! E ela me puxou, eu e carteira junto. Eu nunca mais esqueci desta professora. É a única coisa que me lembro...(C.). Sobre essa formação escolar, Tardif (2000a) chama a atenção para o fato de que os professores são profissionais que estiveram imersos em seu local de trabalho, salas de aula, por cerca de 16 anos antes de começar a trabalhar e, essa vivência solidifica uma bagagem de conhecimentos anteriores que resistem à mudança nos cursos de formação. Nas situações inusitadas, que exigem uma improvisação do profissional, muitas vezes ele acaba reproduzindo padrões de prática de seus professores da infância, do repertório da experiência escolar, nem sempre consciente. Mesmo que os professores não tenham mencionado suas experiências escolares como fatores que influenciaram sua prática, quando perguntados diretamente sobre isso, percebe-se nas suas lembranças que, de forma indireta essas experiências foram também fatores determinantes. Essas experiências também estão no âmbito da prática. Caso fossem consideradas na tabela apresentada provavelmente aumentariam a porcentagem de fatores relativos à experiência prática. As menções referentes à formação continuada são também bem inexpressivas em relaçãoà importância dada aos professores aos saberes da experiência. A maioria mencionou a experiência inicial como momento de aprendizado da prática. Um aprendizado sofrido: “Foi um susto!” Situações difíceis: “Eu entrei na escola e um garotinho de oito anos falou assim: Você que vai ficar no lugar da outra professora? [...] Aí ele disse: pois aqui quem manda sou eu. Eu já mandei ela embora e se você não andar do meu jeito você também tá fora” (J.). Outra professora reconhece as pedras no caminho: “Naquele ano eu tive bastante dificuldade” (M.). Essas constatações parecem confirmar as conclusões de Tardif, Gauthier e outros Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 21 sobre a importância dos saberes da experiência. Isso tem diretas implicações para a formação inicial. 99 IMPLICAÇÕES PARA A FORMAÇÃO INICIAL A lei 9.394/96 (BRASIL), ao tratar sobre a formação inicial do profissional docente, estabelece no Art. 65 que devem ser destinadas à prática de ensino no mínimo 300 horas. Com a homologação da Resolução CNE/CP 02/2002 (BRASIL), as horas de formação prática passaram para 800, sendo 400 destinadas ao estágio supervisionado, e 400 destinadas à prática como componente curricular, vivenciadas ao longo do curso, o que denota estar havendo um entendimento, pelo menos na lei, de que a formação prática seja um elemento essencial na formação de professores. Contudo, uma mudança na lei, não muda uma cultura. Após quase cinco anos dessa resolução, a realidade dos programas de licenciaturas parece estar longe de evidenciar a importância e o lugar da prática nos currículos. A propósito dessa questão e com base em estudos de Gauthier, C. Tardif M. e Mellouk, M. (1993), Borges (2004) ressalta que “percebeu-se que essa estratégia, isolada, é frágil diante da cultura universitária alicerçada em bases disciplinares”. Em nossa experiência no ensino superior, ao tentarmos desenvolver projetos interdisciplinares de prática a partir dos primeiros anos da formação de professores, algumas resistências dessa cultura universitária foram, em um primeiro momento, expressas em pronun- ciamentos de professores universitários de uma licenciatura, tais como: “os acadêmicos das séries iniciais não estão maduros para a prática”, ou, “as práticas não serão significativas sem uma boa fundamentação teórica” e ainda, “a carga horária determinada nas Diretrizes Curriculares para os anos iniciais de formação de professores é excessiva”. Essa forma de resistência parece evidenciar valores e concepções de formação segundo o modelo da racionalidade técnica. Em decorrência de alguns discursos, até persuasivos, favoráveis a este modelo e provindo dos professores universitários, muitos acadêmicos, possivelmente sem muita reflexão, têm se colocado a favor da instrumentalização teórica precedendo a prática. Pode-se dizer que tal epistemologia da formação universitária é um forte elemento na atual cultura de formação docente. Em que sentido, essa lógica de formação tem contribuído para a construção dos saberes da prática do futuro professor? Pelo visto, pouco tem contribuído e até pode ter representado em um obstáculo. Os estudos, entre os quais este se insere, têm colaborado para evidenciar a necessidade de se repensar a formação universitária no sentido de possibilitar condições para que os futuros professores construam um repertório de conhecimentos baseados nos saberes profissionais da forma como os professores os mobilizam em seus contextos. Para isso, é necessário que a universidade esteja mais presente na escola e os profissionais da escola estejam mais presentes na universidade e mesmo que os professores das escolas sejam co-autores na formação dos acadêmicos, enquanto atuam, dessa forma, em sua própria formação continuada. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 22 Além dessa parceria que precisa ser estreitada ou construída, faz-se necessário conceber a formação teórica universitária, que tem seu lugar, como circundante de um eixo cen- tral: a prática. Como fazer isso? Quando se compreende a importância e quando se quer, as formas são criadas. Enquanto isso não acontece, vamos fingindo que formamos para a prática e nossos futuros professores fingindo que estão sendo formados. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Fixa Diretrizes de Educação Nacional. BRASIL. Resolução CNE/CP 2, de 19 de fevereiro de 2002. Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior. BORGES, M. C. F. O professor da Educação Básica e seus saberes profissionais. Araraquara: JM Editora, 2004. GAUTHIER, C. et al. Por uma teoria da Pedagogia. Pesquisas contemporâneas sobre o saber docente. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1998. GAUTHIER, C. TARDIF M. e MELLOUK, M. Le savoirs des enseignantes: unité at diversité. Que savent-ils? Quebec: Éditions Logique, 1993. LÜDKE, M. Desafios para a formação do professor: dados de pesquisas recentes. In SERBINO, R. BERNARDO, M. Educadores para o século XXI. São Paulo: UNESP, 2004. NÓVOA, A. Formação de professores e profissão docente. In: NÓVOA, A. Os professores e sua formação. Lisboa: D. Quixote, 1992a. ______. Os professores e suas histórias de vida. In: NÓVOA, A. Vida de professores. Porto: Porto, 1992b. ______. História da profissão docente: desafios para a pesquisa. Palestra proferida na PUC –Rio em 25 de agosto de 1998. PERRENOUD, P. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação. Lisboa: D. Quixote, 1996. SCHÖN, D. The reflective practitioner. 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São João Del rei: Fundação de Ensino Superior de São João Del Rei (FUNREI) revista Vertentes, n. 15 Jan/Jun, 2000b. TARDIF, M. LESSARD, C. e LAHAYE, L. Os professores face ao saber: um esboço de uma problemática do saber docente. Teoria e educação: Porto Alegre, n. 4, 1991. ZEICHNER, K. Formação reflexiva do professores: idéias e práticas. Lisboa: Educa, 1993. NOTAS 1 Trata-se de um recorte de pesquisa em andamento, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa “Prática Pedagógica e Formação de Professores”, vinculado ao Programa de Pós-graduação – Mestrado em Educação, da Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, MS, sobre o tema “A gestão pedagógica do ensino e aprendizagem na sala de aula: continuidades e rupturas”. O projeto conta com financiamento parcial da FUNDECT-MS. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 24 Este texto faz parte da pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da UniversidadeFederal de Mato Grosso, intitulada Aprendizagem da docência das professoras que atuam no 1º e 2º ciclos do ensino fundamental. Tal pesquisa objetivou investigar a contribuição da formação contínua para a aprendizagem da docência. Participaram da pesquisa seis professoras que atuam no 1º ciclo do ensino fundamental em uma escola da rede pública estadual, localizada no município de Várzea Grande/MT. Trata-se de uma pesquisa qualitativa em que lançamos mão de narrativa escrita e oral como instrumento para coleta de dados. Neste texto, abordaremos a formação de professores, focalizando a formação contínua, tendo como aporte teórico um conjunto de conceitos que permeiam a discussão na perspectiva da profissionalidade docente. No primeiro tópico, apresentaremos alguns enfoques sobre a formação de professores, mais diretamente, a formação contínua. Em seguida, traremos alguns dados da pesquisa ora apresentada. ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES SOBRE FORMAÇÃO (CONTÍNUA) DE PROFESSORES Vivemos atualmente, em uma sociedade considerada, por muitos teóricos, como pós-moderna, marcada pela inovação tecnológica e social; dessa maneira, o interesse sobre a formação de professores, nos últimos anos, ganhou destaque no campo da investigação entre os diversos estudiosos educacionais internacionais e nacionais. Existem diversas tendências históricas sobre a formação de professores. Algumas abordagens tomam, como referência, uma concepção mais crítica, mais reflexiva, que concebe o professor como profissional do ensino, ao passo que outras são mais tradicionais, com uma visão mais clássica, pautada na racionalidade técnica, ora positivista, ora empirista, que concebe o professor como um técnico, não considera o saber deste, só o saber científico. O trabalho na escola ou em um sistema escolar, a partir de uma abordagem mais crítica, mais reflexiva, requer novas e velhas concepções pedagógicas e uma nova cultura profissional, forjada nos valores da colaboração e do processo social, considerado como transformação educativa e social, em que o professor é um profissional do ensino e, como tal, pensa, executa, avalia etc., seu próprio trabalho pedagógico. A FORMAÇÃO CONTÍNUA DAS PROFESSORAS DO 1º CICLO DE UMA ESCOLA DA REDE PÚBLICA ESTADUAL DO MUNICÍPIO DE VÁRZEA GRANDE/MT DAMASCENO, Kelly Katia; MONTEIRO, Filomena Maria de A. (UFMT) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 25 Além disso, o saber do professor passa a fazer parte do corpo técnico, sendo considerado e aceito dentro da organização escolar e educativa. A possibilidade de inovação nas instituições educativas não pode ser proposta seriamente sem um novo conceito de profissionalidade do professor, que deve romper com inércias e práticas do passado, assumidas, passivamente, como elementos intrínsecos à profissão. Esse novo conceito refere-se aos modos como a constante acomodação profissional vai permitindo novas maneiras de os sujeitos professores se entenderem como profissionais capazes de desempenhar suas funções. Neste sentido, para dialogarmos com as percepções e os sentimentos dos professores, assumimos o conceito de profissionalidade do professor ou profissionalidade docente, definido por Gimeno Sacristán (1995, p.65) como sendo “[...] a afirmação do que é específico na ação docente, isto é, o conjunto de comportamentos, conhecimentos, destrezas, atitudes e valores que constituem a especificidade de ser professor”. O autor fala-nos então de um conjunto de aspectos relacionados diretamente ao modo como os professores desempenham e organizam seu trabalho pedagógico, o que, logicamente, pressupõe os múltiplos conhecimentos capazes de dar sustentação às ações que eles desenvolvem; porém, a definição de profissionalidade não é linear, envolve diferentes concepções e abordagens de ordem sociológica, antropológica, histórica, ideológica, enfim, diversos olhares. A partir desse conceito de profissionalidade, o professor e as condições de trabalho em que exerce a profissão são o núcleo fundamental da inovação nas instituições educativas, tendo como objetivo primeiro da educação o de ajudar as pessoas a serem mais livres, menos dependentes das influências econômicas, políticas e sociais dominantes. Assim, a profissionalidade do professor está diretamente ligada ao exercício de sua prática profissional, a qual está condicionada por uma rede de relações de poder. Se a prática é um processo constante de estudo, de reflexão, de discussão, de experimentação conjunta e dialética com o grupo de professores, aproximar-se-á da tendência emancipadora, crítica, assumindo um determinado grau de poder, que repercute no domínio de si mesmo. Desse modo, uma questão importante dentro da profissionalidade do professor é não se perder de vista que concepção de escola, ensino e currículo, tem-se em cada época histórica, pois, a partir disso, determinar-se-á que tipo de abordagem terá a formação de professores. Para tanto, faz-se necessário pensar uma formação docente a incerteza, a fim de lidar com a complexidade posta atualmente. Tudo isso envolve uma nova concepção de formação inicial e contínua, de todos que intervêm no processo educativo. No atual contexto social, econômico e político em que nos encontramos, há uma grande exigência de adequação do sistema educacional ao modelo econômico e tecnológico. Com isso, o conhecimento e a educação passam a ter uma grande importância, assim como a formação de professores se torna um campo de grande desafio. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 26 Nesse contexto, mudanças educacionais são necessárias e terão mais chances de êxito com o apoio dos professores. Nóvoa (1992) defende que a mudança educacional depende dos professores e da sua formação, para que ocorra transformação das práticas pedagógicas na sala de aula. O autor diz, ainda, que o desafio da formação de professores, [...] consiste em conceber a escola como um ambiente educativo, onde trabalhar e formar não sejam actividades distintas. A formação deve ser encarada como um processo permanente, integrado no dia- a-dia dos professores e das escolas, e não como uma função que intervém à margem dos projectos profissionais e organizacionais (McBride, 1989 apud Nóvoa, 1992, p.29), Para Imbernón (2004), situar a profissão numa sociedade em mudança, com um alto nível tecnológico e um vertiginoso avanço do conhecimento, implica não apenas a preparação disciplinar, curricular, mediadora, ética, institucional, coletiva, mas também uma importante bagagem sócio-cultural. Além de outros elementos que, até o momento, não pertenciam à profissão, como os intercâmbios internacionais, as relações com a comunidade, as relações com a assistência social etc. Assim, será necessário formar o professor na mudança e para a mudança. Entretanto, muita proposta de formação encaminhada atualmente, não condiz com a perspectiva de formação na e para a mudança, percebe-se uma concepção de ensino como intervenção e investigação baseada no paradigma processo-produto, em que o professor é concebido como técnico. Assim, a formação de professores, pensada como acúmulo de conhecimentos teóricos para serem aplicados, posteriormente, na prática, pode ser condizente com uma proposta de formação na lógica da racionalidade técnica, em que esses conhecimentos fazem parte de um conjunto de fatos, princípios, regras e procedimentos que se aplicam aos problemas instrumentais, em que a lógica da prática é considerada como “[...] um processo de preparação técnica, que permite compreender o funcionamento das regras e das técnicas no mundo real da sala de aula e desenvolver as competências profissionaisexigidas pela sua aplicação eficaz”. (Idem, p.108) Desse modo, a lógica da racionalidade técnica, segundo Schön (1987, apud Pérez- Gómez, op.cit., p.109) pode distinguir-se por dois tipos de situações práticas e dois de conhecimento apropriado para atuar eficazmente. O primeiro tipo é constituído pelas situações familiares, em que o profissional pode resolver os problemas mediante a aplicação rotineira dos princípios, regras, procedimentos e técnicas do conhecimento profissional. O segundo é constituído por situações que não lhes são familiar, nas quais o problema não está claramente definido e as características da situação não se ajustam perfeitamente às teorias e técnicas disponíveis. Neste caso, a prática é a ocasião apropriada para aplicar procedimentos de pesquisa aprendidos na teoria e orientados pelas regras e fases do método científico: generalização, elaboração da hipótese, derivação lógica de proposições e definição operativa de variáveis, recolha de dados, verificação de hipótese, inferência. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 27 Dessa forma, o investimento na formação docente é imprescindível, mas não é qualquer formação; tem que ser uma formação pautada em uma concepção de superação à lógica racionalidade técnica, ou seja, um pensamento e proposta de formação para que os professores possam refletir e agir sobre e na sua organização do trabalho pedagógico. Mizukami et al. (2002, p.42) afirmam que as políticas no campo da formação de professores deveriam ter alguns princípios, tais como: - Docentes como sujeitos e não como beneficiários. – Formação mais que treinamento. Em vez de receitas, o desafio está em pensar uma formação integral, não limitada à mera transferência de conteúdos, métodos e técnicas, mas sim, orientada, fundamentalmente, àquilo que se pede que os docentes alcancem com seus alunos: aprender a pensar, a refletir criticamente, a identificar e resolver problemas, a investigar, a aprender, a ensinar. Este seria, portanto, o significado dos termos educação e formação, concebidos diferentemente de capacitação e treinamento. Nesta perspectiva, a concepção de formação de professores adotada neste texto é de contínuo, ou seja, o desenvolvimento de uma vida toda, a partir da história pessoal e profissional, em que é constituída de aspecto cultural, social e econômico. Segundo Moita (1992, p.115), “Ninguém se forma no vazio. Formar-se supõe troca, experiência, interações sociais, aprendizagens, um sem fim de relações. [...] Um percurso de vida e assim um percurso de formação”; com isso, não podemos desconsiderar o percurso pessoal e profissional dos professores, muito pelo contrário, este percurso faz parte de seu desenvolvimento profissional. Para Marcelo (1999, p.26), o conceito de formação de professores, [...] é a área de conhecimentos, investigação e de propostas teóricas e práticas que, no âmbito de Didáctica e da Organização Escolar, estuda os processos através dos quais os professores - em formação ou em exercício - se implicam individualmente ou em equipe, em experiências de aprendizagem através das quais adquirem ou melhoram os seus conhecimentos, competências e disposições, e que lhes permite intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu ensino, no currículo e da escola, com o objectivo de melhorar a qualidade da educação que os alunos recebem. O mesmo autor ainda traz um conjunto de princípios considerados importantes em relação à formação de professores: 1) Concebe a formação de professores como um contínuo. 2) A necessidade de integrar a formação de professores em processos de mudança, inovação e desenvolvimento curricular. 3) A intrínseca relação dos processos de formação de professores com o desenvolvimento organizacional da escola. 4) A necessidade de articulação e integração entre a formação de professores em relação aos conteúdos propriamente acadêmicos e disciplinares, e a formação pedagógica dos professores. 5) A necessidade de integração teoria- prática na formação de professores. 6) A procura do isomorfismo entre a formação recebida pelo professor e o tipo de educação que posteriormente lhe será pedido que desenvolva. 7) A procura da individualidade como elemento integrante de qualquer programa de formação de professores. 8) O questionamento de crenças e práticas institucionalizadas. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 28 Além desses princípios para a formação de professores, Marcelo busca em Dewey três atitudes básicas importantes para se ter um ensino reflexivo; são elas - Mentalidade aberta, ou seja, a ausência de preconceitos, de parcialidades e de qualquer hábito que limite a mente e a impeça de considerar novos problemas e de assumir novas idéias, e ainda, integrar um desejo activo de escutar mais do que um lado, de acolher os factos independemente da sua fonte, de prestar atenção sem melindres a todas as alternativas, de reconhecer a possibilidade do erro mesmo relativamente àquilo em que mais acreditamos; - Responsabilidade, uma responsabilidade intelectual. Ser intelectualmente responsável quer dizer considerar as consequências de um passo projectado, significa ter vontade de adoptar essas consequências quando decorram de qualquer posição previamente assumida. A responsabilidade intelectual assegura a integridade, isto é, a coerência e a harmonia daquilo que se defende. - Entusiasmo, descrito como a predisposição para afrontar a actividade com curiosidade, energia, capacidade de renovação e de luta contra a rotina. (Marcelo, 1992, p.62) Essas atitudes, segundo Marcelo, se constituem em objetivos a serem alcançados pelos programas de formação de professores, mediante estratégias e atividades que possibilitem a aquisição de um pensamento e de uma prática reflexiva. Dessa maneira, a formação de professores, entendida como um conjunto de ações e atitudes que possibilitam o desenvolvimento pessoal e profissional dos professores, faz parte de um sistema escolar em que se encontra uma concepção de escola, currículo e ensino determinado por e para uma sociedade. No desenvolvimento pessoal e profissional docente, a discussão acerca formação contínua, faz-se necessário, pois há alguns anos, não é privilegio só dos profissionais da educação, mas das diferentes áreas, devido à característica do mundo social (do trabalho) regido por altas tecnologias e preconizado pela edificação da sociedade do conhecimento e de um novo tipo de homem: o homo studiosus. De fato, a profissão docente é uma das profissões que mais tem recebido solicitações para manter-se atualizada, qualificada, em face da realidade social. Para isso, o investimento na continuidade dos estudos dos professores, na perspectiva do desenvolvimento profissional, tem sido inquestionável e inevitável. Com o investimento em formação contínua, espera-se que a prática pedagógica seja transformada urgentemente, face a diversas críticas quanto à qualidade do ensino oferecido pela escola e à ineficiência em resolver determinados problemas pedagógicos (comuns ou não) no processo educativo. No entanto, é temeroso esperar resultados, em curto prazo, desses investimentos. Para Nóvoa (1992), a formação quase nunca conduz, diretamente, à ação inovadora, e é preciso ter consciência deste fato, se não quisermos cair em mistificações que nos dificultam uma apropriação interveniente das realidades educacionais. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 29 Neste sentido, a formação contínua é entendida como um processo educativopermanente de (des)construção de conceitos e práticas para corresponder às exigências do trabalho e da profissão docente, inserindo-se, não como substituição, negação ou mesmo complementação da formação inicial, mas como um espaço de desenvolvimento ao longo da vida profissional do professor, comportando objetivos, conteúdos, formas organizativas diferentes daquela, e que tem seu campo de atuação em outro contexto, porquanto [...] a formação continuada trata da continuidade da formação profissional, proporcionando novas reflexões sobre a ação profissional e novos meios para desenvolver o trabalho pedagógico. Assim, considera-se a formação continuada como um processo de construção permanente do conhecimento e desenvolvimento profissional, a partir da formação inicial e vista como uma proposta mais ampla, de hominização, na qual o Homem Integral, produzindo-se a si mesmo, também se produz em interação com o coletivo” (ANFOPE, 1994, apud Nunes, 2000, p. 9). Candau (1996, p.143) aponta para uma nova concepção de formação contínua, embora com diferentes perspectivas, porém, de forma geral, com princípios de consenso entre os profissionais da educação. Tais princípios prescrevem que - O locus da formação a ser privilegiado é a própria escola; isto é, é preciso deslocar o locus da formação continuada de professores da universidade para a própria escola de primeiro e segundo graus. (Atualmente Educação Básica). - Todo processo de formação tem de ter como referência fundamental o saber docente, o reconhecimento e a valorização do saber docente. - Para um adequado desenvolvimento da formação continuada, é necessário ter presentes as diferentes etapas do desenvolvimento profissional do magistério; não se pode tratar do mesmo modo o pro- fessor em fase inicial do exercício profissional, aquele que já conquistou uma ampla experiência pedagógica e aquele que já se encaminha para a aposentadoria; os problemas, necessidades e desafios são diferentes e os processos de formação continuada não podem ignorar essa realidade promovendo situações homogêneas e padronizadas, sem levar em consideração as diferentes etapas do desenvolvimento profissional. Nesse sentido, Mizukami et al. (2002a, p.28) consideram que A formação continuada busca novos caminhos de desenvolvimento, deixando de ser reciclagem, como preconizava o modelo clássico, para tratar de problemas educacionais por meio de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas pedagógicas e de uma permanente (re) construção da identidade do docente. Da mesma forma, Fusari (1998) contribui com o referencial, quando afirma que a formação contínua vai além de uma concepção de complementação; logo, a formação permanente do professor é uma necessidade inerente à própria natureza dinâmica e contraditória do fazer pedagógico, ao partir do pressuposto de que é o professor que detém um conhecimento em Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 30 primeira mão dos verdadeiros problemas da escola, e a escola (lugar de trabalho/profissionalidade) é o locus privilegiado e pólo desencadeador de formação contínua de professores. Na perspectiva da escola como locus da formação contínua, Marcelo (1992, p.54) coaduna com o enfoque ao dizer que “uma formação contínua centrada na actividade cotidiana da sala de aula, próxima dos problemas reais dos professores, tendo como referência central o trabalho das equipes docentes, assumindo, portanto uma dimensão participativa, flexível e activa/ investigadora”. Assim, o modelo de formação contínua que privilegia somente a oferta de cursos de curta duração, oferecida pelas instituições de ensino superior ou por outras agências formadoras, tem sido criticado, por não contribuir com a efetiva alteração das práticas pedagógicas. Segundo Mizukami et al.(2002b, p.192), considerar a escola como local de formação, em oposição à formação ocorrida somente em espaços das universidades ou em situações desvinculadas das vidas e culturas das escolas, parece ser compatível com a natureza dos processos de construção dos saberes docentes. Sob tal ótica, a escola passa a ser entendida como local de teoria e da prática, ambiente de produção do saber docente, e a formação docente, como processo relacionado ao conceito de aprendizagem permanente, envolvendo os saberes e as competências docentes como resultados de aprendizagens realizadas ao longo da vida, dentro e fora da escola, considerando outros espaços de conhecimento. Fusari (2004, p.18) concorda com a forte tendência atual de valorizar a escola como o locus da formação contínua. Entretanto, diz que algumas condições existentes na escola devem ser mantidas e outras ampliadas, tais como: [...] a estrutura da carreira, a forma de contrato, a jornada de trabalho, a estrutura e a gestão escolar podem facilitar ou dificultar a implantação e/ou implementação de projetos de formação contínua. [...] os professores da educação básica deveriam ser contratados (e, remunerados) para uma jornada de trabalho na qual teriam de atuar na docência (aulas), em atividades pedagógico-administrativas, e em atividades de formação contínua em serviço na própria escola (no coletivo) e fora dele. Além de grupos de formação, a escola poderia instituir modalidades de formação. Algumas são muito conhecidas, como ciclos de palestras e grupos de estudo. (gripo do autor) Além disso, o mesmo autor aponta, ainda, a necessidade da participação dos educadores em encontros e congressos regionais, estaduais e nacionais, nos quais conhecem pessoas diferentes, autores, obras, trocam experiências, ampliam contatos, trocam materiais etc., propiciando não só o enriquecimento profissional, mas também novas oportunidades para o enriquecimento pessoal e cultural dos educadores. Diante do exposto sobre a formação de professores, traremos a seguir a análise de alguns apontamentos a partir das narrativas das pesquisadas. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 31 ALGUNS DADOS DA PESQUISA Ao serem indagadas sobre a contribuição da formação contínua para a (re) construção da aprendizagem da docência, todas as professoras investigadas mencionaram que a formação contínua/cursos de capacitação contribuíram com a prática pedagógica. Com a formação continuada é uma forma de você está adquirindo novos conhecimentos, e também os transmitindo. Os cursos contribuíram, porque através deles adquiri novos conhecimentos. (Luz)(NE11) A formação continuada é sempre bem vinda para teoria e prática e melhoria da qualidade do ensino. Os cursos são para você discutir idéias, interagir informações, e melhorar a prática em sala de aula. (Aruak) (NE1) Com a evolução da tecnologia necessitamos estar a cada dia nos inovando, e é somente nos cursos de capacitação que aprendemos novas teorias que irão contribuir na melhoria de nossa prática pedagógica. (Helena) (NE1) Os cursos de capacitação nos levam a fazer uma reflexão de nossa prática pedagógica e assim procurarmos mudar a nova maneira de trabalhar em sala de aula com os nossos alunos. (Laura) (NE1) Alguns cursos que já participei me ajudaram muito, mas não são todos, aqueles que você vai lá, e é só blá, blá, blá, não adianta. É bom quando você participa de um curso que depois lá na sala de aula dá pra por em prática. (Emanuele) (NE1) A formação continuada é importante porque a gente tem que estar sempre inovando para ter uma boa formação. Os cursos que participo ajudam muito, não saberia trabalhar se não fizesse os cursos. Aprendi a prática e a cada curso você aprende mais. (Vitória) (NE1) As professoras pesquisadas enfatizam, como formação contínua, os vários cursosde capacitação de que elas vêm participando ao longo da carreira profissional; buscam, nesses cursos, a melhoria da prática docente. Entretanto, ressaltamos, conforme mencionamos no item anterior, que não é qualquer curso de capacitação que contribui efetivamente para a mudança e melhoria da prática docente. Mizukami et al. (2002a) apontam que cursos de curta duração, quando muito, fornecem informações que, algumas vezes, alteram apenas o discurso dos professores e pouco contribuem para uma mudança efetiva. Nessa perspectiva, segundo Nunes (2000), a formação contínua deveria proporcionar novas reflexões sobre a ação profissional e novos meios para desenvolver o trabalho pedagógico. Ainda sobre a formação contínua, os relatos que se seguem revelam que o Programa Gestar2 contribuiu, em diferentes aspectos, para as pesquisadas, O Gestar foi um dos primeiros que comecei e fui até o fim. O Gestar eu gostei. Nós trabalhamos em grupo, e eu era insegura demais, tinha medo até de falar. E com ele eu aprendi a me expressar, se fosse pra Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 32 eu ir lá na frente eu não ia, não gostava, e através do Gestar com as colegas eu comecei [...] (Helena)(NO2)3 O que eu aprendi mais foi com o Gestar, cada livro que a gente estudava, a gente tinha uma tarefa e poderia trabalhar na sala de aula. Eu trabalho muito com o material do Gestar. O Gestar deu continuidade ao PROFA, com a escola ciclada teve um inicio, com o conhecimento do Gestar completou o trabalho iniciado no PROFA. (Vitória) (NO2) O Gestar foi um curso que fiz e gostei muito. Teve didática, metodologia, que considero importante para ajudar melhorar nossa prática. O Gestar foi maravilhoso, me ajudou muito. E da experiência de ter sido formadora. Ali mesmo também era interessante porque as sugestões partiam de todos, cada um trazia, falava de sua experiência, era uma troca, onde aprendíamos também. A melhor formação que tive foi a do Gestar. (Aruak) (NO2) Eu aprendi muito no Gestar. O que eu mais aprendi é a forma de trabalhar. As mudanças de como trabalhar. São as mudanças que constantemente estão ai, e a formação continuada trás tudo isso, o jeito de trabalhar a maneira de trabalhar. Estou querendo dizer da metodologia, porque, não adianta nada você fazer um curso, e quando volta para sala de aula, você esta estabilizada [...] Até mesmo o meu papel enquanto formadora me ajudou muito a melhorar a abrir minha cabeça. (Luz) (NO2) Eu aprendi muito com o Gestar. Porque ali você fazia oficina. Tinha a parte teórica, mas também tinha a parte prática. (Laura) (grifo nosso) (NO2) Sobre o Programa Gestar, o espaço da escola foi utilizado para os encontros quinzenais. O curso foi dividido em quatro (04) módulos, e cada módulo com dois (02) livros denominados de TP (teoria e prática), intercalando momento de discussão e atividades de matemática e língua portuguesa, totalizando uma carga horária de 200 horas. As formadoras do Gestar foram duas professoras que participaram da capacitação oferecida pelos técnicos da Secretaria de Educação, mesmo sem terem a formação específica (licenciatura em Letras e em Matemática) exigida pelo Programa. Os relatos das professoras sobre o Gestar revelaram diferentes aspectos que fo- ram, particularmente, significativos para cada uma delas. No caso da professora Helena, a dimensão pessoal teve um enfoque maior, quando diz que o curso ajudou-a a se expressar melhor diante dos outros colegas. As outras professoras enfatizaram a metodologia do Gestar como sendo significativa para a prática docente. Para as professoras Aruak e Luz, a participação no Gestar foi importante também pelo fato de terem sido elas as formadoras do grupo. Assim, esse fato acaba contribuindo com a construção/reconstrução de suas aprendizagens da docência. Outro fato que talvez contribui com a formação dessas professoras esteja relacionado com o locus da formação. Ou seja, neste caso o espaço da escola. A professora Laura, em sua narrativa, amplia o relato quando traz um aspecto importante sobre a formação contínua, ou seja, que os próprios professores são responsáveis, de certa forma, por sua formação. Para alguns autores (Mizukami et al., 2002, Marcelo, 1999) esse Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 33 aspecto é essencial nas propostas de formação de professores. A narrativa dessa professora traz o que Merriam e Caffarella (in Marcelo, 1999, p.53) afirmam que é “aprendizagem autônoma”; esta aprendizagem se refere ao modo como a maior parte dos adultos adquire novas idéias, competências e atitudes... devido ao fato de serem aqueles que aprendem, que têm a principal responsabilidade de planificação, desenvolvimento e avaliação das suas próprias experiências de aprendizagem. Este autor ainda cita Knowles, que diz que “a aprendizagem autônoma não é um processo isolado, muito freqüentemente exige colaboração e apoio entre os que aprendem, professores, recursos, pessoas e companheiros” (idem, p.53). Desse modo, a aprendizagem autônoma está imbricada pela dimensão pessoal e pela troca de experiência com outros. A análise dos dados nos revelaram que as pesquisadas constroem/reconstroem suas aprendizagens da docência, a partir de experiências vivenciadas na formação docente, principalmente na formação contínua, em que o locus foi a própria escola. Nesta perspectiva de formação contínua, o Programa Gestar foi o mais citado nas narrativas das professoras. No entanto o desafio da formação continua permanece, ou seja, não só de busca de estratégias que possam enriquecer a metodologia do professor, como também contribuições teóricas que possam elucidar as situações vividas na prática docente. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA CANDAU, Vera M. F. Formação continuada de professores: tendências atuais. In: MIZUKAMI, M. da Graça N. e REALI, A. M. R. Formação de Professores: Tendências Atuais. São Carlos, SP: EdUFSCar, 1996. COLE, A. L. e KNOWLES, J. Gary. Teacher Education: Toward an Inquiry Orientation. In: MIZUKAMI, M. da Graça N. e REALI, A. M. R. Formação de Professores: Tendências Atuais. São Carlos, SP: EdUFSCar, 1996. FUSARI, José Cerchi. Formação contínua de educadores na escola e em outras situações. In: BRUNO, E., ALMEIDA, Laurinda e CHRISTOV, Luiza. (orgs). O coordenador pedagógico e a formação docente. 5ª ed. 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Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 35 O objetivo deste trabalho consiste na apresentação de algumas reflexões acerca da formação do professor, alicerçadas nas contribuições da pedagogia histórico-crítica, expressão teórica do marxismo no campo da educação. As idéias aqui trabalhadas contrapõem-se às veiculadas pelas pedagogias contemporâneas, especialmente a formação reflexiva (ALARCÃO, 1996; CANDAU, 1996; GIESTA, 2005; GIOVANNI, 2003; MIZUKAMI, 2002; NÓVOA, 1997; PÉREZ GOMEZ, 1997; PERRENOUD, 2002; ZEICHNER, 1993; e outros), cuja fundamentação teórica encontra-se na chamada epistemologia da prática (SCHÖN, 1997), que tem lugar nas pesquisas e nas políticas propostas para a formação inicial e continuada de professores em nosso país (BRASIL, 1998, 2006). Em linhas gerais, a formação reflexiva compreende a prática profissional como locus original de formação e de produção de saberes e de competências, o que justificaria a ênfase na valorização dos conhecimentos experienciais em processos formativos. [...] mais que conteúdos, disciplinas e pesquisa universitária, doravante são os saberes da ação, os docentes experientes e eficazes, e as práticas profissionais que constituem o quadro de referência da nova formação de professores (BORGES e TARDIF, 2001, p. 16) O fenômeno da valorização da prática na formação docente vem sendo associado por pesquisadores, tais como Pereira (2000), Imbernón (2001), Mizukami (2002), e outros, ao evento da complexidade das relações sociais, políticas, econômicas e culturais que caracterizariam a sociedade do século XXI, cuja marca essencial seria a competitividade e a produção e divulgação de novos conhecimentos de forma acelerada e vertiginosa. Nesse contexto, “a concepção de conhecimento científico nocional e imutável como substrato para a educação” (MIZUKAMI, 2002, p. 11) teria sido superada por uma perspectiva mais complexa de base interacionista, que responsabilizaria os próprios sujeitos pela construção de conhecimentos em situações de interação com um ambiente plural. Essa visão obriga superar a concepção de saber escolar como conjunto de conhecimentos eruditos, valorizados pela humanidade (ou seja, um saber de classe), para aderir a uma perspectiva mais complexa, a da formação do cidadão nas diversas instâncias em que a cidadania se materializa: democrática, social, solidária, igualitária, intercultural e ambiental. Essa perspectiva amplia e re-significa a concepção do saber escolar [...], colocando-o em diálogo com a realidade objetiva em que as práticas sociais se produzem. (MIZUKAMI, 2002, p. 12) A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA PERSPECTIVA DA PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA MAZZEU, Lidiane Teixeira Brasil (UNESP/Araraquara) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 36 Desse modo, os “conhecimentos eruditos”, “valorizados pela humanidade” – e desqualificados sob a justificativa de se tratarem de “um saber de classe” –, não seriam capazes de responder aos desafios colocados pela nova configuração da educação “de caráter mais relacional, mais dialógico, mais cultural-contextual e comunitário” (IMBERNÓN, 2001, p. 07). Tais desafios exigiriam um modelo de formação docente cuja concepção superasse o modelo da “racionalidade técnica”, compreendida como o domínio dos conteúdos e de suas técnicas de transmissão. Trata-se, então, “de considerar a chamada racionalidade prática como mais capaz de fazer frente à situação assim caracterizada” (MIZUKAMI, 2002, p. 12). Nosso questionamento a essa epistemologia refere-se à primazia da prática e à secundarização dos conteúdos teórico-científicos nos processos de formação docente que, em grande medida e à revelia de sua intenção, têm reforçado a dicotomia entre teoria e prática no desenvolvimento do trabalho educativo (MAZZEU, 2007). Consideramos que a superação da dicotomia entre teoria e prática não está na aproximação dos processos formativos ao cotidiano escolar, mas na necessidade de abstração dessa realidade para a efetiva compreensão da totalidade dos fenômenos que interferem no trabalho educativo em busca da concretização de sua essencialidade. Nesse sentido, defendemos a reflexão filosófica e o conhecimento científico como essenciais à formação do educador. Procederemos, a seguir, à apresentação da compreensão da educação escolar na pedagogia histórico-crítica para discutir o papel do educador e de sua formação no desenvolvimento do trabalho educativo. O PAPEL DA EDUCAÇÃO ESCOLAR NA FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS A pedagogia histórico-crítica compreende o ato educativo como um processo de humanização dos indivíduos devendo ser, portanto, ato consciente e intencional de produção e reprodução da humanidade histórica e coletivamente construída pelos homens, em cada indivíduo singular. Isso porque, diferentemente dos demais animais, o homem necessita produzir continuamente sua própria existência por meio de sua atividade essencial: o trabalho (SAVIANI, 2003). De acordo com Duarte (1993), o trabalho é a atividade por meio da qual o homem se apropria da natureza e a transforma criando os meios necessários para a satisfação de suas necessidades básicas de existência. Na medida em se apropria e transforma a natureza de modo intencional, o homem nela se objetiva criando uma realidade humana, o que Saviani (2003) categoriza como o “mundo da cultura”. É, portanto, por meio da própria atividade de produção e reprodução de sua existência que o homem humaniza a si mesmo numa relação dinâmica entre apropriação e objetivação que se efetiva na produção de instrumentos e objetos, usos e costumes, significações, relações sociais, conhecimentos, linguagem etc. Tais objetivações, ao se tornarem constituintes da realidade humana, do “corpo inorgânico”1 do homem, passam a ser, também, objeto de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 37 apropriação pelo próprio homem (DUARTE, 1993). Cada indivíduo, para se objetivar enquanto ser humano, enquanto ser genérico,precisa se inserir na história. Isso não pode ser compreendido como um ato de justaposição externa, mas como uma necessidade do próprio processo de formação do ser do indivíduo, ou seja, o indivíduo, para se constituir enquanto um ser singular, precisa se apropriar dos resultados da história e fazer desses resultados “órgãos de sua individualidade”. (DUARTE, 1993, p. 40) Podemos afirmar a partir dessas considerações que o processo de formação do indivíduo é em essência um processo educativo. O fato de o gênero humano ser externo ao homem impõe a necessidade da apropriação da cultura humana para que o indivíduo possa objetivar sua própria existência. Assim sendo, Saviani (2003) afirma, ao definir a especificidade da educação esco- lar, que os elementos da cultura humana não a interessam em si mesmos, mas enquanto há a necessidade de que os homens os assimilem como condição para a produção e reprodução do próprio homem, do gênero humano. Trata-se aqui de analisar o processo educativo como parte da dialética entre continuidade e ruptura na transmissão das “forças essenciais humanas” às novas gerações de seres humanos. Tendo em vista que a humanidade se desenvolve por meio de um processo histórico, ao mesmo tempo em que a nova geração é determinada e dependente das gerações anteriores, já que herda os meios de existência dessas gerações – “um modo de produção, com os respectivos meios de produção e relações de produção” –, a nova geração é também responsável pela transformação desses meios, operadas justamente sobre as bases das produções herdadas, o que impõe a transmissão e a assimilação desses elementos como condição para a criação do novo. Nesse contexto, cabe à educação “possibilitar que as novas gerações incorporem os elementos herdados de modo que se tornem agentes ativos no processo de desenvolvimento e transformação das relações sociais” (SAVIANI, 2003, p. 143). Desse modo, as duas questões centrais da pedagogia, compreendida como o processo por meio do qual o homem se tornam “plenamente humano”, referem-se ao problema da seleção dos conteúdos a serem ensinados e ao problema das formas, dos métodos e dos processos que tornem possíveis a transmissão e a assimilação desses conteúdos, desses saberes, visando a formação e o desenvolvimento do educando no contexto da prática social global. No que se refere ao primeiro aspecto, isto é, à identificação dos elementos culturais a serem assimilados pelos indivíduos humanos, Saviani (2003) postula a necessária compreensão do conceito de clássico como categoria indispensável para a seleção dos conteúdos do trabalho educativo. No sentido expresso pelo autor, clássico é “aquilo que se firmou como fundamental, como essencial” (SAVIANI, 2003, p. 13) na cultura humana, resistindo aos embates do tempo. É nesse sentido que o autor afirma, quanto à especificidade da educação escolar, que “clássico na Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 38 escola é a transmissão-assimilação do conhecimento” (SAVIANI, 2003, p. 18). O segundo aspecto refere-se à descoberta e à organização dos meios, isto é, “conteúdos, espaço, tempo e procedimentos” (SAVIANI, 2003, p. 14) por meio dos quais, cada indivíduo singular poderá se apropriar progressivamente dos elementos clássicos e essenciais para a constituição de seu processo de humanização. Nesse sentido, o saber sistematizado não basta para a existência da escola, sendo igualmente necessária a criação das condições de transmissão-assimilação desse saber. Trata-se da transformação do saber elaborado em saber escolar, dosado e seqüenciado com a finalidade de viabilizar sua transmissão e assimilação, permitindo que o educando adquira gradativamente e o mais possível, tanto o domínio do saber elaborado, quanto o modo como se produz esse saber. É necessário observar que nessa concepção de educação a primazia não é dada ao conhecimento espontâneo, assistemático, fragmentário, desarticulado. A pedagogia histórico- crítica considera a educação escolar como a forma mais desenvolvida de formação alcançada pelo processo histórico de desenvolvimento do gênero humano, que se encontra ligada, desde a sua origem (como expressão da modernidade), à necessidade de generalização do conhecimento sistematizado, científico. Não se trata, portanto, de negar o caráter essencial da educação escolar na promoção do saber científico, menos ainda, sua finalidade de preparar os indivíduos para os enfrentamentos postos pela prática social, mediante os avanços técnicos e científicos alcançados pelo desenvolvimento histórico do gênero humano. Trata-se de defender um posicionamento a favor da efetiva socialização desses saberes, retirando-os da esfera da lógica privada, do âmbito exclusivo dos detentores dos meios de produção, para promover de forma efetiva e igualitária todos os indivíduos humanos. Sendo assim, o trabalho educativo, considerado como atividade mediadora no contexto da prática social, deve ser compreendido e realizado de forma intencional, regido pela finalidade de garantir a universalização das máximas possibilidades geradas pelo processo histórico de desenvolvimento do gênero humano a todos os indivíduos, indistintamente, o que implica a concretização da socialização do saber elaborado e da instrumentalização do acesso a esse saber de modo a contribuir de forma afirmativa para a prática social dos educandos. O TRABALHO EDUCATIVO E A FORMAÇÃO DO EDUCADOR Tendo em vista o papel da educação escolar e do trabalho educativo na pedagogia histórico-crítica é imperativo compreender o papel da formação do educador para que este estabeleça uma relação consciente com o significado de sua atividade, isto é, com o compromisso histórico que a tarefa de preparar as novas gerações demanda tanto no que se refere à formação do educando como indivíduo singular, quanto no que refere à produção e reprodução da própria sociedade. De acordo com a pedagogia histórico-crítica, a formação docente deve estar Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 39 fundamentada em bases teóricas sólidas apoiadas na reflexão filosófica e no conhecimento científico como condição para a efetiva compreensão do homem como síntese de múltiplas determinações, assim como das vinculações do trabalho pedagógico no contexto da prática so- cial (SAVIANI, 1995). Conforme Saviani (1996), a reflexão filosófica possibilita ao educador a superação de uma compreensão sobre a prática pedagógica concebida de forma fragmentária, incoerente, desarticulada e simplista, porque guiada pelo senso comum, por uma compreensão unitária, coerente, articulada, intencional e cultivada, porque guiada pela consciência filosófica. Trata-se de uma reflexão crítica sobre os problemas que se apresentam na realidade educacional, fundamentada em um método de análise que atenda às exigências sintetizadas pelo autor nas categorias: radicalidade, rigor e globalidade. Sendo a pedagogia histórico-crítica expressão teórica do marxismo no campo da educação, essas categorias devem ser compreendidas a partir do referencial teórico-metodológico que as fundamenta. Conforme o materialismo histórico-dialético, não há como compreender os fenômenos humanos e sociais em sua totalidade ignorando o contexto histórico no qual se desenvolvem em suas múltiplas determinações. Desse modo, os problemas que se apresentam para a prática educativa devem ser investigados, analisados e compreendidos à luz da perspectiva histórica e crítica, para a qual o conhecimento da realidade não se dá pela experiência imediata, mas por meio de abstrações que permitam o estudo de sua gênese, assim como dos fatores que influenciaram e determinaramseu desenvolvimento. O método dialético analisa, portanto, as contradições existentes entre a essência e a aparência, investigando as relações entre as partes de forma a compreender o fenômeno em sua totalidade (KOSIK, 1976). Esse mesmo percurso deve ser seguido pela reflexão filosófica preconizada para a formação do professor. A categoria de radicalidade diz respeito ao necessário aprofundamento para se chegar às raízes, aos fundamentos do problema que se apresenta como objeto de reflexão ao educador. Uma visão superficial, pautada em impressões imediatas, imprecisas e fragmentárias, não basta para analisar criticamente as situações e circunstâncias que se apresentam ao trabalho educativo. É necessário que se vá ao fundamento, às bases que dão sustentação ao problema e que determinam sua manifestação como fenômeno na realidade. Essa categoria pauta-se na concepção de crítica radical preconizada por Marx em A Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, na qual o autor afirma que “ser radical é agarrar as coisas pela raiz” (MARX, 2005, p. 151). Nesse sentido, a essência de um fenômeno só pode ser compreendida por meio do estudo de sua gênese, analisando como se deu seu desenvolvimento e identificando quais fatores condicionaram sua manifestação. Duarte (2001) destaca, como um exemplo desse tipo de pensamento, a análise crítica desenvolvida por Vigotski acerca dos fundamentos filosóficos da obra de Piaget. Conforme o autor, Vigotski assume a atitude metodológica de não diluir sua análise nos aspectos particulares dos experimentos realizados e dos dados apresentados por Piaget. Vigotski procura analisar criticamente os fundamentos, o núcleo central da teoria piagetiana, evidenciando as posições Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 40 teóricas e filosóficas do autor, ou a ausência delas. Essa atitude, que permitiu a Vigotski abalar as próprias estruturas da teoria por ele analisada, deve ser tomada, segundo Duarte (2001), como exemplo do tipo de pensamento necessário aos educadores marxistas nos dias atuais, especialmente frente ao ecletismo tão em voga nas teorias pedagógicas do “aprender a aprender”2. A categoria de rigorosidade responde à exigência de procedimentos sistemáticos e metódicos para o desenvolvimento da análise, com a finalidade de questionar conclusões de senso comum e generalizações apressadas ensejadas por concepções abstratas de formação humana. De acordo com Lukács (1974) a rigorosidade é uma exigência do marxismo ortodoxo. A ortodoxia diz respeito, exclusivamente, ao método dialético que deve ser adotado, desenvolvido e aprofundado no mesmo sentido e com a mesma rigorosidade de seus fundadores, evitando-se tanto o dogmatismo quanto o ecletismo que caracterizam todas as tentativas realizadas para “superá-lo” ou “melhorá-lo”. Nesse sentido, podemos destacar o esforço dos pesquisadores da pedagogia histórico-crítica em colocar suas pesquisas a serviço da construção de uma pedagogia marxista, seguindo rigorosamente os fundamentos teórico-metodológicos da dialética marxista nas análises sobre os fenômenos educacionais. A categoria de globalidade responde à necessidade de um exame do problema em seus múltiplos aspectos e determinações, ou seja, uma visão de conjunto na qual o problema deve ser analisado em relação aos demais aspectos do contexto no qual se encontra inserido. Conforme Kosik (1976), a realidade ou a essência do fenômeno não se apresenta de modo imediato ao homem, mas apenas de modo mediato, isto é, por meio da investigação e da elucidação das relações existentes entre a essência e o fenômeno, entre o todo e as partes. Em outras palavras, a apropriação da realidade pelo pensamento só é possível pela mediação da teoria. Assim sendo, o autor afirma que o fenômeno possui uma estrutura própria que pode ser revelada e descrita a partir da análise de seus fundamentos e de suas determinações, possibilitando a compreensão do mesmo em sua totalidade. Considerando que a compreensão da realidade não se dá de modo imediato, a análise dos problemas educacionais deve, portanto, seguir o princípio da investigação dialética, buscando compreender a realidade de cada fenômeno como um momento do todo, como síntese de múltiplas determinações e em sua globalidade. Conforme Saviani (1996), essas categorias não são auto-suficientes nem devem ser compreendidas como justaposições cuja somatória permitiria o surgimento da reflexão filosófica. A profundidade [radicalidade] é essencial à atitude filosófica do mesmo modo que a visão de conjunto [globalidade]. Ambas se relacionam dialeticamente por virtude da íntima conexão que mantém com o mesmo movimento metodológico, cujo rigor [criticidade] garante ao mesmo tempo a radicalidade, a universalidade e a unidade da reflexão filosófica. (SAVIANI, 1996, p. 17-18) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 41 Trata-se, portanto, de uma reflexão pautada no método dialético que possibilita ao educador o desenvolvimento da capacidade de refletir com profundidade e rigorosidade sobre os problemas educacionais. Tal atividade tem como finalidade favorecer a compreensão desses problemas em sua totalidade, bem como a análise dos condicionantes do trabalho educativo para o encaminhamento de possibilidades efetivas para a formação do educando, considerando a concepção histórico-social de formação humana (SAVIANI, 1996). Nesse sentido, o conhecimento científico (o saber clássico) se apresenta como instrumento valioso para o desenvolvimento do trabalho educativo, tanto no que se refere à compreensão da realidade na qual se efetiva a prática pedagógica, tendo em vista as finalidades e os objetivos da educação escolar, quanto no que se refere ao próprio conteúdo do conhecimento científico, como instrumento direto de formação humana. Sendo assim, a atividade educativa comprometida com os objetivos e finalidades da educação escolar, tal como concebida pela pedagogia histórico-crítica, não prescinde de uma formação do educador com bases sólidas, fundamentada em conhecimentos científicos. Tais conhecimentos orientam as análises e proposições acerca do desenvolvimento do trabalho educativo, o qual implica a transmissão-assimilação desses conhecimentos de forma sistemática, direta e intencional, tendo em vista a formação do homem como ser genérico, conhecedor da realidade concreta que determina sua existência na sociedade de classes, bem como das possibilidades de transformação consciente dessa realidade. No entanto, a classe dominante vem se apropriando desse conhecimento e colocando-o a serviço de seus próprios interesses, promovendo o esvaziamento da educação escolar pública destinada à classe dominada. Como conseqüência, temos que a formação do educador também vem sendo esvaziada por concepções que se fundamentam na epistemologia da prática que, ao estabelecer a primazia da prática, propõe o cerceamento da formação do educador ao âmbito da cotidianidade, o que a nosso ver, configura-se como um retrocesso para a formação intelectual3. O próprio fenômeno da formação continuada pode ser visto como o resultado de um processo histórico de empobrecimento cultural do professor justificado pelo esvaziamento da educação escolar e pelas necessidades de formação de indivíduos adaptados à lógica do capital, que alcançou dimensões consideráveis nas políticas educacionais implementadas nos últimos anos no Brasil. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALARCÃO, Isabel (org.). Formação reflexiva de professores. Porto: Porto Editora, 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Referenciais para Formação de Professores. Brasília: MEC/SEF, 1998.BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. Parecer CNE/CP nº 09/2001. Diário Oficial da União de 18/01/ 2002, Seção 1, p.31. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne>. Acesso em fevereiro de 2006. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 42 BORGES, Cecília; TARDIF, Maurice. “Apresentação”. In: Educação & Sociedade, Campinas, ano XXII, nº. 74, p. 11-26, abril/2001. CANDAU, V. M. F. “Formação continuada de professores: tendências atuais”. In: MIZUKAMI, M. G. N.; REALI, A. M. M. R. (orgs.). Formação de professores: tendências atuais. São Carlos, SP: EdUFSCar, 1996, pp.139-152. DUARTE, Newton. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões? Quatro ensaios crítico- dialéticos em filosofia da educação. Campinas: Autores Associados, 2003. DUARTE, Newton. Vigotski e o aprender a aprender: crítica às apropriações neoliberais e pós- modernas da teoria vigotskiana. 2 ed. Campinas: Autores Associados, 2001. DUARTE, Newton. A individualidade para si: Contribuições a uma teoria histórico-social da formação do indivíduo. 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NOTAS 1 As características do gênero humano não são dadas ao homem, isto é, não são transmitidas pela herança genética, mas resultantes das atividades produzidas pelos homens durante seu processo de desenvolvimento. São, portanto, características históricas e sociais. As categorias de “corpo inorgânico” em Duarte (1993) e de “segunda natureza” em Saviani (2003) correspondem a essas características externas ao corpo biofísico do homem e que precisam ser produzidas e reproduzidas como garantia de sobrevivência tanto do indivíduo, como do próprio gênero humano. 2 Sobre a crítica às pedagogias do “aprender a aprender”, vide Duarte (2001; 2003). 3 A propósito do esvaziamento do trabalho do professor vide Facci (2004). Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 44 INTRODUÇÃO A constatação da existência de crianças que apresentam dificuldade na aprendizagem aponta a necessidade do conhecimento de situações escolares onde a aprendizagem não se realiza, quais as conseqüências da vivência de fracasso escolar e a melhor maneira de o professor intervir para reverter o quadro desolador no qual se encontram essas crianças. Faz-se também necessário um maior domínio teórico da especificidade do processo de escolarização e das vivências do contexto escolar. REFERENCIAL TEÓRICO Dificuldade de Aprendizagem O fato de existirem crianças que não conseguem alcançar sucesso na aprendizagem escolar sempre incomodou os estudiosos das diversas áreas do saber. Muitos deles, segundo Campos (1997), analisando os problemas de aprendizagem, chegaram a variados termos e definições. Para a autora, os termos mais utilizados na escola são dificuldade ou problema de aprendizagem. A dificuldade de aprendizagem refere-se a alguma desordem na aprendizagem geral da criança e provém de fatores reversíveis e normalmente não tem causas orgânicas. Não é um termo que pode ser considerado sinônimo de déficit intelectual ou mesmo deficiência men- tal. García (1998), em seus estudos, considera algumas áreas do conhecimento, ao referir-se às dificuldades na aprendizagem: as dificuldades de aprendizagem da linguagem (DAL), as dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita (DALE) e as dificuldades de aprendizagem da matemática (DAM). Dentre as dificuldades de aprendizagem, Pelegrini e Golfeto (1998) especificam os Transtornos Específicos do Desenvolvimento das Habilidades Escolares – TEDHE, nos quais há uma perturbação na normalidade de habilidades da criança desde muito cedo, prejudicando a sua competência acadêmica. Manifestados já nos primeiros anos de escolaridade, um de seus A FORMAÇÃO DOCENTE COMO FATOR DE REVERSÃO DO INSUCESSO ESCOLAR DOS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL CRUZ, Sônia Aparecida Belletti (Mestre em Educação Escolar, Professora PEBII, Vice-Diretora de Escola Pública Estadual); STEFANINI, Maria Cristina Bergonzoni (FCLAR/UNESP) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 45 diagnósticos importantes é diferenciar os transtornos sem causas neurológicas, daqueles que são delas provenientes, como a paralisia cerebral. Estão relacionados a dificuldades da criança em articular os fatores biológicos, psicológicos e sociais e, segundo os autores, estão presentes mais nos meninos do que nas meninas. Para estes autores, os TEDHE muitas vezes estão associados a síndromes, como o Transtorno de Déficit de Atenção, Transtorno de Conduta ou Transtornos Específicos do desenvolvimento da fala e da linguagem. Já na perspectivado fracasso escolar estar relacionado ao aluno, às suas condições internas de aprendizagem, Weiss (1997) enfoca o histórico pessoal e familiar da criança. Essa perspectiva é, normalmente, considerada pela escola como a causa da maioria dos casos de baixo desempenho escolar, pois muitas crianças vêm de lares desestruturados, com pais que não acompanham os estudos dos filhos e os próprios alunos não têm interesse em aprender. Pesquisas de Jacob; Loureiro (1986) e Machado; Marturano; Loureiro; Linhares e Bessa (1984) indicam que, em relação ao desenvolvimento escolar, essas crianças demonstram dificuldade na interação social ao confrontar-se com novas situações em seu cotidiano, além de serem menos curiosas e criativas. Os estudos mostram que essas crianças parecem demonstrar pouca capacidade adaptativa tanto em casa, como na escola, isto é, apresentam dificuldade em adaptar-se aos dados da realidade que as cerca, comprometendo as possibilidades de seu desenvolvimento cognitivo e emocional. Formação de Professores e aprendizagem dos alunos Quando observamos uma sala de aula e constatamos a presença de crianças que apresentam baixo desempenho em relação à leitura, à escrita e à interpretação e resolução de problemas matemáticos, fica fácil comprovar a importância do papel do professor para reverter esse quadro de insucesso escolar. A respeito da ação docente, muito se questiona a relação entre competência e amor que o professor estabelece no seu fazer cotidiano. Kramer e André (1984), citando Mello, mencionam que “as professoras que não sabem o que fazer, amam”. As autoras mostram que a forte relação afetiva estabelecida pelo professor com os alunos e as suas manifestações de identificação com as crianças no auxílio do cumprimento das tarefas e no estabelecimento de normas disciplinares contribuem, muitas vezes, para o sucesso escolar dos alunos. Campos (1997) salienta que os cursos de formação de professores devem apresentar qualidade e valorizar o papel desse profissional no contexto de sala de aula. Ele deve formar-se para ser um docente reflexivo sobre os problemas de cada situação cotidiana, sem deixar de apoiar-se em estudos e pesquisas de fundamentos científicos. Para Marcelo (1998), quando o professor intervém na aprendizagem do aluno, além de processar o conhecimento-na-ação (aquele conhecimento dinâmico e espontâneo sobre como Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 46 fazer as coisas), ele processa a reflexão-na-ação, que é o seu pensar sobre o que está fazendo enquanto faz. É a sua atuação consciente que inclui improvisação, combinação e recombinação de elementos de uma certa situação. Buscando compreender a maneira como ocorre a prática pedagógica, a autonomia e a identidade profissional do professor e como ele resolve problemas e conflitos encontrados no contexto escolar, Chakur (2002) apresenta os níveis de profissionalidade docente: no Nível I, o professores demonstra profissionalidade fragmentada, com desvio de identidade e prática pedagógica com rotinas cristalizadas, levando à resistência de mudanças; suas atitudes são repressivas e descomprometidas com a aprendizagem dos alunos; aceita desvios de função. No Nível II, os professores encontram-se com semi-identidade, prática mais flexível, presa ainda às práticas tradicionais; seus esquemas começam a descristalizar. Nível III, os professores mantém- se com autonomia responsável e identidade profissional; mais flexíveis, adequam a matéria ao nível do aluno e são criteriosos na utilização do material didática; utilizam soluções políticas, cooperativas e inovadoras, baseadas na reflexão. Para Marin (1996) é preciso que os cursos de formação de professores adotem um paradigma com fundamentos histórico e social, para que busquem levantar histórico de vida, processo de socialização, expectativas, crenças, valores, enfim, as representações iniciais dos alunos (futuros professores), que deverão ser articuladas com os conteúdos do próprio curso, incorporando neles “uma concepção mais ecológica que permita a articulação das vivências dos alunos com um projeto político pedagógico de curso em que os desejos que temos em relação à formação de professores se concretizem” (p. 163). Considerando que a eficiência da intervenção do professor junto aos seus alunos está estreitamente relacionada à qualidade de sua formação, nosso trabalho tem como objetivo saber o que dizem os professores sobre seu trabalho em sala de aula e sua relação com os alunos com dificuldades de aprendizagem, bem como, compreender a influência da formação do professor sobre suas ações no ambiente escolar. METODOLOGIA Nosso trabalho é um estudo descritivo, de caráter qualitativo, embasado nos moldes apresentados por Selltiz e col. (1965), Lüdke e André (1986), Triviños (1992) e Minayo (1998). Consta da descrição e interpretação dos resultados obtidos por meio de entrevista semi-estuturada, com questões abertas, realizada com oito professores do Ensino Fundamental numa escola pública estadual, situada no centro da cidade de Araraquara - SP. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os depoimentos dos professores foram organizados em categorias para que fizéssemos a análise qualitativa. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 47 a) Como é a relação do professor com seus alunos Nesta categoria, os professores consideram bom o relacionamento deles com as crianças com dificuldade na aprendizagem. As afirmações dos professores a respeito de sua relação com os alunos: “Eu preciso ter muito jeito com ela. Ela é muito carente. Ela gosta que eu a toque, passe a mão no cabelo, dê um beijnho, elogie. Ela gosta muito de mim. Ele também. Eu não sou uma profa. autoritária. Eu sou muito maleável com eles. Ele me entregou um bilhete: “Para minha querida profa” A gente se relaciona bem, não tenho problema com eles.” (prof. C-2ª s.) “A I. é outra que nunca me respondeu. Mas, eu tenho que ficar brava: ‘Você vai fazer!’ Aí, ela fica emburrada e o P. faz aquele bico. Eu falo: Que bico! Ele vai cair! (risos) Aí, ele quer rir. Mas eu não sei ficar brava por muito tempo, eu não consig! (risos). Daqui a pouco eu estou brincando. “Ela tem uma carência, tem que ficar sempre grudada. Se saio com eles, ela tem que estar sempre abraçada.” Outro dia, eu fiquei de mal dela a semana toda, até ela fazer tudo bonitinho.” (prof. D-2ª s.) “ ... acho que eles esperam muito da gente e eu sinto que eles buscam muita coisa, além do carinho, além do afeto. Eles buscam também explicações, eles querem esclarecer as coisas. Eles chegam pra gente pra tirar dúvidas.” (prof. F-3ª s.) “Eu comprei caderno de dez matérias e figurinhas pra ele. Tudo eu colava no caderno. No final da aula, ele vinha mostrar o caderno. É ele passou a ter capricho. Até canetas coloridas eu comprei pra ver se ele se interessava ...” “Sempre me beijando, falando que eu era bonita! Adorava fazer cartãozinho e mandar. Ela, não. Ficava no cantinho dela, me dava beijo na hora de ir embora. Mas, conversar, vir aqui, não. A gente percebia que ele é uma pessoa carente e queria que eu desse uma palavra de carinho.” (prof. H-4ª s.) Ao responderem que não têm queixa das crianças, um sujeito mostrou entusiasmo e satisfação ao responder que seu aluno com dificuldade de aprendizagem adora fazer cartãozinho para ele. Outro disse ficar de mal quando o aluno não executa suas atividades. São abordagens diferentes, que mostram acertadamente um esforço na relação professor/aluno que garanta bom resultado. Da parte das crianças, o que pudemos reter na fala dos sujeitos é que elas estão sempre buscando a aprovação e o apoio do professor.Mesmo quando o professor lhes parece exigente e punitivo, apesar de demonstrarem irritação, as crianças logo querem conversar com eles e agradá-los. Por isso, acreditamos ser um engano do professor considerar “carente” o aluno que deseja a sua atenção e quer estar próximo dele. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 48 Estas observações correspondem às afirmações de Tapia (2000), de que para a aprendizagem se efetivar, um dos pontos fundamentais na sala de aula é a relação que se estabelece entre o professor e o aluno. Em relação a essa afirmação do autor, ressaltamos que o bom resultado do aluno em sua aprendizagem depende do tipo e a qualidade da relação da criança com o professor. No decorrer da sua rotina escolar, as mensagens que o professor passa para a criança, antes, du- rante e depois das atividades é fator decisivo para a sua motivação e para a sua aprendizagem. Para Carvalho (1996), a maneira como professor e aluno se vêem, as manifestações de simpatia ou antipatia entre eles influenciarão positiva ou negativamente na produção escolar. Defendendo o mesmo ponto de vista, Morales (2000) ressalta que no contexto escolar, além do ato intencional de educar, o professor também ensina, sem querer, com o seu jeito de ser e com a maneira de se relacionar com os alunos. O autor salienta que na relação do professor com seus alunos, tudo é comunicação e reforça a idéia de que, até mesmo o modo de olhar seus alunos diz algo para eles. Segundo Morales (2000), aos olhos dos alunos, o professor ideal e desejado é aquele que se mostra competente para ensinar e controlar a classe. Sem, no entanto, deixar de criar um clima agradável e de relacionar-se, em termos de saber elogiar, ser compreensivo, paciente, atencioso e disponível para ajudar e tratar a todos de forma igualitária. Os alunos sentem- se seguros, pois esse professor mostra-se sensível às suas necessidades. Acreditamos, então, que o professor aceito e querido pelos alunos terá bom êxito em suas realizações. b) - seu trabalho no cotidiano escolar Nesta categoria, constatamos a manifestação de preocupação dos professores em relação ao seu fazer docente. Apresentamos as afirmações de alguns professores: “... dou aula uma semana na sala e já conheço os que vão ter dificuldade, mas vão e os que ou eu fazendo de tudo ou eu não fazendo quase nada, vão! E tem os que você tem que carregar no colo pra conseguir ir. Então, a gente acaba aprendendo com as crianças, a trabalhar com eles. Eu gosto do que eu faço, eu sempre gostei! É fácil lidar com a criança que vai bem. Você mostra o caminho, ela vai. Mas, é tão bom lidar com as que têm esses problemas e chega no final do ano, você consegue alguma coisa com elas.” (prof. D-2ª s.) “Procuro analisar minhas dificuldades. Então, vejo da minha parte um certo bloqueio. Não sei se isso faz parte daquela época em que a gente era discriminada quando não sabia alguma coisa. Então, eu fico sensibilizada com a criança e, às vezes, fico sem saber o que fazer. Estou pensando em mudar algumas estratégias, a metodologia de trabalho, preparar algumas coisas específicas para eles. E para isso eu vou precisar da ajuda da coordenadora da escola. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 49 Eu tenho algumas dúvidas. E na hora do SARESP, como será? E os meus alunos do ano passado, aqueles que tinham dificuldade, têm dificuldade ainda esse ano. E eu fico me perguntando como será depois que eles saírem daqui, como será depois da 4a série. Porque eu valorizo tudo o que a criança faz. E depois? Mas eu prefiro agir assim e deitar e dormir tranqüila. Do que ficar com remorso, pensando que eu poderia ter feito mais” (prof. F-3ª s.) “Avalio a situação de cada aluno, pra ver até que ponto ele vai chegar. Não generalizo, porque um é diferente do outro: ‘Olha, você fazendo isso pra mim, está bom!” Agora, tem aluno que vai dar conta de muito mais. Então, o papel do professor é trabalhar de acordo com o que o aluno pode render. No caso dessa menina que não dá conta de tudo, o meu papel é fazer com que ela domine a leitura. Se eu conseguir isso, eu consegui parte do meu objetivo.” (prof. G-4ª s.) Na análise destes relatos, constatamos que todos os sujeitos consideram-se dedicados e bons professores, embora digam buscar ajuda da coordenadora pedagógica da escola para resolver certos problemas de seus alunos e, em alguns casos, não saber o que fazer com os alunos. Outro, mostrando humildade, salienta que vai aprendendo a trabalhar as dificuldades dos alunos com eles mesmos. Porém, nenhum deles mostrou buscar suporte teórico na literatura especializada, demonstrando satisfazer-se com consultas a seus pares, permanecendo suas ações fundamentadas apenas no senso comum. Cavaco (1991), em seus estudos sobre o percurso profissional, também mostra a tendência dos professores em consultar os colegas, quando se defrontam com problemas relacionados aos alunos, afirmando que, muitas vezes, eles recorrem às redes informais de apoio para discutir problemas, trocar idéias, expor dúvidas e partilhar sucessos e fracassos. Porém, nem sempre, obtêm respostas de qualidade, pois elas podem constituir-se em esquemas de ações repetitivas e rotineiras e em receitas pobres e sem significado que, em nada contribuem para melhorar suas ações. De forma geral, os professores demonstram tranqüilidade e segurança ao relatar suas intervenções, manifestando o sentimento de que fazem o melhor para os alunos. Neste caso, as causas do não aprendizado dos alunos recairiam sobre eles mesmos e suas famílias? Algumas falas dos professores apontam uma resposta positiva para esta pergunta. Refletindo sobre elas, não podemos discordar dos professores sobre a forte interferência da idéia que os pais têm sobre a escola e do valor que dão ao conhecimento e o aprendizado dos filhos sobre o empenho escolar dos mesmos. Quanto à dificuldade na aprendizagem ser atribuída a problemas da criança, vemos na literatura por nós apresentada, que já é possível detectar o potencial da criança para aprender. Porém, acreditamos que, mais importante do que indicar o nível intelectual é proporcionar ajuda à criança para que ela se desenvolva. Vista como uma técnica que permite avaliar o desempenho Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 50 da criança, ao mesmo tempo em que é aplicado um suporte instrucional para ela aprender, a avaliação assistida é apresentada por Linhares (1998) como uma técnica que indica no aluno sua eficiência de aprendizagem e transferência desta aprendizagem e, portanto, contribui para a efetivação da aprendizagem. Apesar dos sujeitos terem dito que, em certos momentos, não sabem o que fazer para o aluno interessar-se em realizar suas atividades, consideramos positivo o fato de muitos relatarem com detalhes o sucesso dos alunos, emocionando-se com as conquistas deles e dizendo manifestar a eles sua alegria. Parecem não sentir obrigação de ensinar ou preocupação em passar uma imagem de bom professor; demonstram dedicação e carinho por esses alunos e, realmente, parecem desejar que eles aprendam. Esta constatação corresponde aos resultados obtidos por Bueno e Garcia (1996) em seus estudos sobre o êxito das crianças na escola. Segundo as autoras, a conduta de inter- esse pelos alunos e o cuidado dedicado a eles (denominado “desvelo”), asseguram a confiança que têm em si próprios e no professor, garantindo êxito na aprendizagem. Segundo os professores, essa atitude afetiva sempre éretribuída pela criança com gestos singelos, como por exemplo, um cartão que ela faz para o professor. Em contrapartida, o professor sente-se tocado demasiadamente por esse gesto, o que o faz gostar ainda mais dessa criança e, conseqüentemente, se desdobrar a ajudá-la. Outro aspecto que nos chamou a atenção foi o fato do professor garantir que é capaz de saber os resultados do aluno até o final do ano, só pelas observações que faz nas primeiras semanas de aulas. Afirma identificar quais alunos alcançarão sucesso e quais se sairão mal no desempenho escolar. O que normalmente acontece em conseqüência desta expectativa é que o professor investe mais naqueles que ele espera bom desempenho, os considerados “fortes”, deixando os “fracos” à própria sorte, o que lhes traz sucessivos fracassos. Analisando essa prática, chamada de profecia auto-realizadora, Carvalho (1996) afirma que a influência do professor na aprendizagem do aluno é decisiva, já que a diferenciação oferecida aos alunos faz realçar as suas características individuais. A esse respeito, Morales (2000) observou que os alunos menos motivados, menos interessados pelas atividades, recebem dos professores comentários negativos, mensagens que os desmotivam ainda mais. E aqueles que são mais ativos, mais motivados, recebem mais reforço positivo do professor. Ao responder-nos de forma emocionada e, em algumas vezes, com lágrimas nos olhos, o professor descreveu sua angústia em não ter certeza se suas ações são adequadas e de provável eficiência para sanar as dificuldades dos alunos. Consideramos que esse “sofrimento” manifestado pelo professor poderia ser amenizado ou mesmo evitado, se sua formação lhe assegurasse segurança e competência. De fato, só uma formação sólida e consistente, baseada em conhecimentos teórico, prático, científico e técnico torna o professor apto a compreender o aluno em seus aspectos físico e psicológico, tendo condições de intervir eficientemente para reverter os resultados negativos. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 51 CONSIDERAÇÕES FINAIS A criança que apresenta dificuldade de aprendizagem demonstra dificuldade em seu relacionamento com o professor, com os colegas e com o próprio processo ensino- aprendizagem, já que se sente incapaz de confrontar-se com novas situações e não tem perspectiva de sucesso. Apesar de sabermos que ela é capaz de superar tais dificuldades, através de atendimento e acompanhamento cuidadoso, não podemos desconsiderar que os freqüentes fracassos interferem negativamente na sua auto-estima e auto-competência. É necessário que o professor dispense a ela cuidados especiais para que volte a acreditar na sua capacidade de aprender e sinta-se feliz. Será que estas questões estão presentes entre os professores, ou pelo menos, se aproximam do que eles pensam? As respostas dos sujeitos mostrando como percebem seu trabalho nos leva à reflexão sobre a formação dos professores e a estreita relação dela com a aprendizagem dos alunos. Logicamente, um professor que, em sua formação obteve subsídios para saber avaliar sua atuação e a refletir sobre ela, aprendeu a tornar-se consciente de sua parcela de responsabilidade nos resultados das crianças e a empenhar-se em buscar os bons resultados. A respeito da opinião dos autores e das respostas dos sujeitos, perguntamo-nos se o professor está e sente-se preparado para lidar com as crianças consideradas diferentes. Podemos, até, perguntar se ele sente-se preparado para atuar com as chamadas crianças “normais”. Nosso questionamento corresponde à preocupação de estudiosos da questão da formação docente, quando sugerem permanente atualização e aprimoramento dos conhecimentos dos professores. Consideramos que, se o professor estiver munido dos conhecimentos que adquire em sua formação inicial e continuada e da sabedoria que acumula no seu fazer, saberá intervir acertadamente e obterá resultados gratificantes no processo ensino-aprendizagem. Mas, qual é o professor que se encontra, realmente, em condições favoráveis de observar seus alunos, avaliar suas capacidades, reconhecer suas dificuldades e intervir eficazmente, buscando e encontrando metodologias adequadas às particularidades de cada um? Qual é o professor que questionará suas ações e refletirá sobre elas, de maneira crítica? Sabemos que, se formos responder essas questões, teremos que considerar que, somente o professor “bem” formado profissional e pessoalmente atuará positivamente no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem dos alunos. E que, o conhecimento que utiliza na sala de aula, em sua atuação, ele adquiriu não só em sua formação docente, mas é fruto, também, da cultura de escola que ele tem, da idéia de escola que ele traz de suas vivências como aluno e de como o professor deve proceder. Portanto, a forma de intervenção do professor será mais ou menos eficiente, dependendo de como ele aprendeu a ensinar e como ele pensa que deve ensinar. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 52 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUENO, B. O. GARCIA, T. F. Êxito escolar: as regras da interação na sala de aula. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília. v. 77, n.186, p.263-281, maio/ago. 1996. CAMPOS, L. M. L. A rotulação de alunos como portadores de “distúrbios ou dificuldades de aprendizagem”: uma questão a ser refletida. Série Idéias, n.28, p.125-139. São Paulo: FDE, 1997. 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As primeiras turmas do MOVA na região do ABCD foram organizadas no município de Diadema, em 1995, expandindo-se aos poucos para as demais cidades. Há um discurso muito presente na região, em especial entre os munícipes e educadores ligados ao movimento, que apregoa os grandes resultados alcançados pelo Programa, tais como: a melhoria da qualidade de vida de seus educadores e educandos, por intermédio da alfabetização; a participação mais consciente e ativa de seus membros no plano sócio-cultural dos municípios; o despertar da consciência política das pessoas de baixa escolaridade; a melhoria do poder de articulação entre sociedade civil e governo, entre outros aspectos divulgados como positivos. Entretanto, uma análise sobre o movimento, iniciada durante a dissertação de mestrado e aprofundada na tese de doutorado da autora, indicou que por trás da aparente eficácia e eficiência das ações desenvolvidas no Programa, muitos problemas e limitações impedem, ou pelo menos relativizam as freqüentes manifestações de apoio e atribuições de méritos irrestritos ao MOVA. São inegáveis as contribuições do movimento popular à educação de jovens e adultos. Entretanto, a reflexão aqui apresentada é a de que a formação inicial e continuada dos educadores do Movimento de Alfabetização no ABCD, MOVA- Regional, aproxima-se, quer na sua estrutura organizacional, quer nas estratégias de sua implantação e desenvolvimento, mais da proposta neoliberal de educação do que das propostas dos movimentos populares de alfabetização dos anos 60 influenciados pelo ideário freireano. Entrevistas, depoimentos, documentos, dados censitários e de atendimento foram utilizados na análise, tendo como referenciais a teoria crítica, com especial ênfase nos estudos e pesquisas desenvolvidas na perspectiva educacional freireana. Embora a região compreenda sete municípios, o universo de pesquisa analisou os dados de apenas três municípios (Diadema, Santo André e Mauá) com vários anos de experiência no trabalho com a educação de jovens e adultos. Uma das clássicas frases de Paulo Freire: ninguém educa ninguém, mas todos se educam em comunhão, proferida em vários momentos de sua obra (FREIRE, 1974; 1985; 1996) aparece como um dos pressupostos de muitas ações destinadas à educação de jovens e adultos e também do MOVA-Regional. Os dados coletados durante a pesquisa empírica mostram que tal princípio vem sofrendo ao longo dos anos um processo de banalização, que em última instância A FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DOS EDUCADORES DO MOVA-REGIONAL PRADO, Edna; GREGO, Sonia M. Duarte (FCLAr/UNESP) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 55 tem contribuindo para a descaracterização do próprio professor enquanto profissional qualificado para o exercício do magistério. Num passado não muito distante a escola, enquanto instituição social, era a princi- pal fonte de transmissão dos conhecimentos acumulados na história da humanidade. Com o passar dos anos, novas formas de educação foram consideradas. Hoje são comuns as expressões: educação formal, correspondente à escolar; educação não-formal, correspondendo àquela que ocorre, ou pelo menos deveria ocorrer, nos movimentos populares e nas organizações não-governamentais e, finalmente, a educação informal que, mais antiga que as duas primeiras, acontece na família, na igreja, na comunidade. Segundo Gohn (1999) é a intencionalidade do ato pedagógico que distingue as duas primeiras da educação informal. A educação não-formal é apresentada nos dados coletados como uma das marcas do trabalho pedagógico desenvolvido no MOVA-Regional. Um dos pressupostos básicos da educação não-formal é o de que a aprendizagem se dá por meio da prática social. É a experiência das pessoas em trabalhos coletivos que gera um aprendizado. A produção de conhecimentos ocorre não pela absorção de conteúdos previamente sistematizados, objetivando ser apreendidos, mas o conhecimento é gerado por meio da vivência de certas situações-problema (GOHN, 1999). É consenso que os movimentos não fazem educação formal, dedicam-se à educação não-formal. Entretanto, as falas dos sujeitos da pesquisa, por apresentarem a ausência de rigor metodológico e marcas de espontaneísmo em muitas ações, permitem uma aproximação da prática pedagógica desenvolvida pelo MOVA-Regional à educação informal e, sendo assim, confirmam ser desnecessários tantos investimentos por parte dos parceiros envolvidos que, gradativamente, vêm deixando o movimento, conforme falas dos próprios coordenadores do MOVA. Nessas falas também é possível identificar a diferença entre o MOVA-Regional e uma sala de educação de jovens e adultos institucionalizada no que tange à profissionalização, no MOVA, há o predomínio da “criatividade”, da “espontaneidade”. O espontaneísmo mostra-se uma característica marcante do movimento, de tal maneira que a não relação da prática com uma teoria, por mínima que seja, tem gerado o imobilismo. A discussão sobre os limites e alcances da educação formal e não-formal perpassa, indiscutivelmente, o processo de formação docente. Vários são os autores que teceram considerações sobre a importância da formação dos educadores dos movimentos populares. Beisiegel (1992) ao referir-se aos círculos de cultura dos anos 1950 e 1960 mostra a importância da figura do educador no processo de conscientização dos educandos. Para ele, por mais que nos círculos de cultura a experiência e a fala do educando fossem centrais, o papel do educador era fundamental. Segundo suas próprias palavras, Certamente havia uma condução da “conscientização”. E esta condução era possibilitada por alguns procedimentos bem evidentes: pela seleção dos temas a serem debatidos nos “círculos de cultura”; pelo encaminhamento dos debates para o exame desses temas pré- selecionados; e pela explicitação, sob uma teoria, dos significados subjacentes às experiências de vida dos moradores. (BEISIEGEL, 1992. p. 179, grifo nosso) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 56 Gadotti(1997) também destaca, ao referir-se aos círculos de cultura, a importância do educador no processo de alfabetização, destacando inúmeras ações que este deve ter: [...] o coordenador do círculo de cultura deve ser um agente promotor de discussão e um observador atento às dificuldades de expressão do grupo. Deve-se procurar fazer com que todos participem, estimulando- os com perguntas e tentando prolongar o debate em torno da palavra geradora, que deverá estar escrita de modo destacado e ser visível para todos os alfabetizandos. Com essa finalidade, serão utilizados vários recursos didáticos, desde o quadro-negro até projetores de slides e videocassetes. (GADOTTI, 1997. p. 38) Os dados analisados mostram uma preocupação constante com a “formação” dos educadores em todo o MOVA-Regional. Em todos os municípios ocorre uma formação inicial, seguida de uma formação permanente, realizada através de reuniões periódicas. Quanto à formação inicial, as cargas horárias são diferentes. Diadema é o município que apresentava, no início do movimento regional, a menor carga horária, 15 horas, enquanto Santo André apresentava a maior carga, 50 horas iniciais. A formação inicial é entendida como o primeiro contato do educador recém selecionado com o histórico e a metodologia de trabalho na educação de jovens e adultos. Entre os principais aspectos trabalhados na formação inicial estão: a própria estrutura e funcionamento do MOVA; o conhecimento e a análise da conjuntura política, econômica e social brasileira; o resgate histórico da trajetória da educação popular e da EJA; as concepções de educação, alfabetização e letramento, os conhecimentos matemáticos indispensáveis ao adulto e a articulação teoria e prática ao longo do trabalho educativo. (MOVA-REGIONAL, 1997) Na tentativa de sanar as principais dificuldades apresentadas pelos novos educadores, cada cidade organiza seus períodos de formação de acordo com as suas especificidades. Entretanto, não há grandes diferenças e nem tampouco rigor teórico e metodológico sobre os aspectos a serem trabalhados. Embora os membros do MOVA-Regional não gostem da palavra cartilha, por ela possuir, segundo eles, um significado muito restrito, a superficialidade mostra-se como característica marcante dos cadernos de formação dos educadores. A formação continuada é vista como o aprofundamento constante das questões apresentadas aos educadores durante o primeiro contato com o universo da educação de jovens e adultos, apresentando, entre outros objetivos, a preocupação em proporcionar momentos de reflexão para que esses educadores possam aprofundar seus conhecimentos sobre as relações existentes entre economia, política e a alfabetização de adultos. Através da formação continuada dos educadores todo o material recolhido nas salas do MOVA ao longo da semana, como por exemplo, as experiências vividas, as informações trazidas dos centros comunitários, os temas geradores escolhidos no processo coletivo de discussão, as histórias dos bairros, de vida, são discutidas e sistematizadas com a intervenção da equipe técnico-pedagógica para serem trabalhadas nas semanas seguintes. De acordo com a documentação consultada, o material trazido pelos educadores para as reuniões de formação Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 57 continuada é a base para a sistematização do conteúdo a ser trabalhado com os educandos, contribuindo também, segundo a coordenação do movimento, para a melhoria da própria sistemática dos encontros de formação, uma vez que parte da realidade de educadores e educandos. O acompanhamento pedagógico dos educadores ocorre através de reuniões semanais, geralmente em horários alternados para garantir uma maior participação. Quanto à formação dos próprios coordenadores, Diadema era o único município a apresentar reuniões quinzenais; em Santo André, elas eram mensais e, em Mauá, bimestrais. Não há informações no material consultado sobre esse item nos demais municípios. No início do MOVA-Regional os municípios possuíam um fórum municipal. Mas hoje, os dados coletados nas entrevistas mostram que a situação não permanece a mesma. Em função das novas administrações municipais, apenas Santo André e Diadema mantém fóruns periódicos. Nesses fóruns são discutidas as questões do cotidiano, das reais necessidades dos educadores e dos educandos. A formação docente no MOVA também ocorre por meio de vários encontros regionais e nacionais. As falas dos entrevistados mostram que tais encontros têm sido produtivos para o fortalecimento do movimento, em especial no que diz respeito aos momentos destinados às trocas de experiências docentes. Entretanto, os dados coletados apresentam a questão político-partidária muito forte no discurso do movimento e nenhuma referência a aspectos teórico-filosóficos ou de ordem técnica que, em princípio, devem corresponder a pontos culminantes dos encontros de educação. Tais encontros parecem caracterizar-se por uma acentuada superficialidade. Antes dos encontros nacionais, as coordenações regionais promovem encontros menores, destinados a garantir uma maior participação dos educadores, educandos e delegados regionais na discussão sobre o tema do encontro nacional. Durante esses encontros, que geralmente têm a duração de uma semana, as aulas são suspensas, fato que pode colaborar para a não-continuidade dos alunos, isto porque, uma característica da educação de jovens e adultos é a grande evasão de seus alunos. Inúmeros fatores são apresentados pelos alunos como motivadores do abandono dos estudos, tais como: emprego, cansaço e as constantes suspensões de aula para passeios, festas e, como visto acima, encontros de professores. As falas dos entrevistados reforçam a importância atribuída pelos coordenadores do MOVA-Regional aos encontros nacionais para a troca de experiências e fortalecimento das práticas desenvolvidas e, mais uma vez, o envolvimento dos educadores com o MOVA de sua cidade. O estudo mostrou declarações carregadas de um sentimento ufanista, característica que ficou bem marcada durante a realização das entrevistas com os coordenadores e professores do MOVA dos municípios pesquisados, os quais se preocupavam em afirmar que o movimento local apresentava aspectos positivos. Entretanto, em suas falas, esses entrevistados não demonstravam explicitamente quais eram esses aspectos positivos, em especial, no que diz respeito à parte pedagógica de um movimento de educação popular. Apenas em um depoimento aparece a referência à organização de uma cooperativa a partir do conteúdo discutido em sala. Em outros, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 58 são apontados como positivos: o chamamento dos alunos feito pelos educadores (ida à comunidade), o poder do MOVA para eleger o prefeito de um dos municípios e o envolvimento dos educadores. De maneira geral, as várias referências feitas às trocas de experiências nesses encontros, apontada como aspecto positivo, assemelham-se mais à reprodução do senso comum, a práticas marcadas pelo pragmatismo, sem possuírem fundamentação teórico-pedagógica. O aspecto político mais uma vez se sobressai ao pedagógico. De acordo com Dossiê Educação, apresentado pela Revista Estudos Avançados. V.15 nº 42. São Paulo, maio-ago/2001, “nem sempre se procura e se consegue distinguir entre o que são exercícios de um jargão na moda daquilo que tem respaldo em investigações teóricas e empíricas.” (p.7). A questão do fortalecimento do grupo também ganha destaque nas falas. Mas, esse fortalecimento encontra-se mais ao nível individual, é o indivíduo que, numa perspectiva psicológica, se fortalece no grupo. De maneira geral, aseducadoras assemelham-se muito a seus educandos, também apresentam uma baixa auto- estima, também são carentes e precisam de reconhecimento. É inegável a importância do movimento e desse desejo de fortalecê-lo, mas não são visíveis as características que garantam por muito mais tempo sua existência; assim, esses encontros tornam-se frágeis, no que tange ao aspecto pedagógico. Por mais que as comunidades, as igrejas, os movimentos tenham semelhanças com a escola, ela guarda em si uma singularidade que vai muito além da educação não-formal e informal. A reflexão de Pinto (1997) sobre o papel do educador popular relaciona-se diretamente às questões acima e destaca, assim como Saviani (1997), as posições diferentes ocupadas por educadores e educandos, afirmando que o educador deve possuir uma consciência mais avançada. O educador deve ser o portador da consciência mais avançada de seu meio (conjuntamente com o filósofo, o sociólogo). Necessita possuir antes de tudo a noção crítica de seu papel, isto é, refletir sobre o significado de sua missão profissional, sobre as circunstâncias que a determinam e a influenciam, e sobre as finalidades de sua ação. (p. 48, grifo nosso) O trecho acima se mostra pertinente para elucidar uma das várias interpretações equivocadas do princípio freireano: ninguém educa ninguém, mas todos se educam em comunhão. Educadores e educandos são iguais no que diz respeito aos seus direitos e deveres enquanto membros de uma sociedade, também são iguais enquanto portadores de cultura, compreendida como o conjunto de suas crenças e valores, neste sentido, ambos se educam. Entretanto, colocá- los em posição de igualdade enquanto domínio do saber sistematizado pela humanidade constitui- se mais uma forma de alienação, isto porque, como uma pessoa pode ensinar a outra aquilo que não sabe? É preciso assumir, sem temer as críticas, que não é qualquer pessoa que pode ser professor. Como uma pessoa é capaz de alfabetizar a outra, à luz de uma Teoria Crítica, desconhecendo-se como massa de manobra de ideologia dominante. Em outro trecho de seu livro Sete lições sobre educação de adultos, Pinto (1997) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 59 reafirma a posição diferente entre educador e educando: “a ação do educador tem de consistir em encaminhar o educando adulto a criar por si mesmo sua consciência crítica, passando de cada grau ao seguinte, até equiparar-se à consciência do professor e eventualmente superá-la”. (p. 85, grifo nosso). A expressão em destaque vem ao encontro da idéia defendida por Saviani (1997). “Até equiparar-se” significa dizer que ambos (professor e aluno) se encontram em posições distintas. Segundo ele, há, inegavelmente, uma relação assimétrica entre professores e alunos, o que não significa ser ela responsável por um processo de submissão e passividade dos educandos diante da arrogância e autoritarismo docente, prática veementemente combatida por Paulo Freire. Mas é inegável que o professor deva ter, em princípio, mais domínio que seus alunos, sobre aquilo que pretende ensinar. Em essência, como afirma Amaral (2003 p. 18) “professor é aquele que ensina alguma coisa a alguém”. A fala do próprio Paulo Freire corrobora as afirmações acima: O professor só ensina verdadeiramente, na medida em que conhece o conteúdo que ensina, quer dizer, na medida em que se aproxima dele, em que o aprende. Neste caso, ao ensinar, o professor re-conhece o objeto conhecido. Em outras palavras, re-faz sua cognoscitividade na cognoscitividade dos educandos. (FREIRE, 1985 apud BARRETO, 1998. p. 70, grifo nosso) A tarefa de alfabetizar um adulto não é simples, ele encontra-se na fase mais complexa e plena da natureza humana, muitos já possuem família, trabalham e não podem ser tratados como crianças e nem tampouco vítimas de práticas espontaneistas. Refletindo uma maior preocupação em respeitar as especificidades da educação de jovens e adultos, a década de 90 destaca-se pela ampliação dos estudos e pesquisas destinados a essa modalidade de ensino, entretanto, segundo Borges (2002): [...] permanecem até hoje as idéias dos anos 70 e 80 em diversos estilos de re-edição. Persiste a idéia de que “qualquer pessoa que saiba ler e escrever pode se converter em alfabetizador e que qualquer educador possa ser educador de adultos”. [...] O papel que o profes- sor de jovens e adultos precisa desempenhar para, a partir do que sabe, desenhar esta nova escola, depende do seu envolvimento com toda a complexidade que abarca a compreensão dos processos de construção do conhecimento e a análise da trajetória da Educação Popular. (apud GADOTTI; ROMÃO, 2002. p. 98, grifo nosso) Ao educador, independentemente do tipo de educação, formal ou não-formal, é necessário o conhecimento de uma teoria que dê sustentabilidade ao processo de ensino. Somente um educador preparado é capaz de efetivamente garantir uma educação de boa qualidade. Mas o despreparo e a não-formação específica constituem-se, na grande maioria dos casos, as marcas do educador que trabalha na educação de jovens e adultos. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 60 Os professores que trabalham na EJA, em sua quase totalidade, não estão preparados para o campo específico de sua atuação. Em geral, são professores leigos ou pertencentes ao próprio corpo docente do ensino regular. Note-se que, na formação de professores, em nível médio e superior, não se tem observado preocupação com o campo específico da educação de jovens e adultos. Deve-se também considerar as precárias condições de profissionalização e de remuneração dos docentes. São elementos fundamentais: tanto a profissionalização quanto a formação adequada dos professores de jovens e adultos. Não se obterá ensino de qualidade sem um corpo docente qualitativamente preparado para o exercício de suas funções e, muito menos, com precária situação no que respeita à remuneração e condições de trabalho. (Comissão Nacional de Educação de Jovens e Adultos, 1994 apud GADOTTI; ROMÃO, 2002. p. 122) São comuns os questionamentos sobre a formação e atuação de pessoas não habilitadas na área da alfabetização, não só por parte dos especialistas em educação, mas de pessoas da população em geral, que vêem na formação docente um dos grandes entraves do movimento, tanto que o próprio coordenador reconhece ser frequentemente indagado sobre a capacidade de ensino dos educadores do MOVA-Regional. Hoje, os alfabetizandos não são mais os adultos cerceados do passado, nascidos na zona rural, migrantes nos grandes centros, sem experiências com a educação formal, nem tampouco os alfabetizadores são intelectuais, jovens ligados ao movimento estudantil ou militantes políticos, imbuídos de toda uma ideologia libertária para a construção de uma nova sociedade mais justa. Agora, grande parte dos alfabetizandos é de adolescentes e jovens nascidos nas periferias das grandes cidades, excluídos do sistema regular de ensino, quer pela necessidade de trabalho para o sustento da família, quer por não se adaptarem a ele ou ainda por serem portadores de necessidades físicas e educacionais especiais. E os educadores, em sua grande maioria mulheres, com escolarização em nível médio, sem muito engajamento político-social. Quanto ao perfil dos educadores, as fala dos sujeitos da pesquisa mostram que, em geral, não difere muito do perfil apresentado pelos educandos. A grande identificação do educador com o educando é também apontada por um dos educadores como um facilitador da ação de chamar os indivíduos da população local para iniciarem seus estudos, ou para voltarem a estudar. O fato de o educador ir até acasa do aluno é apresentado de forma positiva como uma tarefa inerente ao seu papel dentro da educação não-formal e contrário ao papel do professor dos programas institucionalizados. Como visto, a formação dos educadores do MOVA-Regional aproxima-se mais de práticas experimentalistas, pautadas no senso comum, não em teorias e metodologias comprovadamente estudadas, até porque, com um número tão reduzido de horas, como abarcar as especificidades de uma modalidade de ensino tão complexa? A esse respeito, é pertinente a afirmação apresentada pela Comissão Nacional de Educação de Jovens e Adultos (1994): [...] a maioria das iniciativas no campo da EJA não tem configurado um atendimento qualitativo satisfatório. A falta de uma política clara tem provocado a implantação destes serviços de maneira precária e Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 61 pedagogicamente inconsistente. As práticas pedagógicas não se conformam ao específico da educação de jovens e adultos, reproduzindo, muitas vezes o ensino regular de maneira inadequada e facilitadora. (Comissão Nacional de Educação de Jovens e Adultos, 1994 apud GADOTTI; ROMÃO, 2002, p. 123) A partir da distorção de outro princípio freireano: educar é um ato político, também presente em vários de seus textos (FREIRE, 1974; 1985; 1996) o discurso da importância da politização do ato pedagógico ganhou centralidade na formação de educadores populares e a essência do “o que ensinar” e “como ensinar” parece ter sido relegada a um segundo plano. Se no passado era ingênuo considerar a formação do educador exclusivamente em seu caráter técnico, hoje, não menos ingênuo parece ser tratar da formação docente prioritariamente sob seu aspecto político. Segundo Romão (2002), Alguns educadores desavisados entenderam que se tratava de transformar a cátedra numa tribuna ou num palanque e, levando a atitude ao extremo, abandonaram os conteúdos e os objetivos da escola básica, para transformarem todo seu “plano de curso” num discurso sobre a ideologia e a luta de classes, tornando temas tão importantes verdadeiros biombos da incompetência.” (apud GADOTTI; ROMÃO, 2002, p. 68, grifo nosso) A falta de conhecimentos técnicos e pedagógicos como indicam os dados da presente pesquisa, parece ser uma marca do MOVA-Regional, contrariando os pressupostos do próprio Paulo Freire: A segurança com que a autoridade docente se move implica uma outra, a que se funda na sua competência profissional. Nenhuma autoridade docente se exerce ausente desta competência. O profes- sor que não leve a sério sua formação, que não estude, que não se esforce para estar à altura de sua tarefa, não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe. O que quero dizer é que a incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor. (FREIRE, 1996. p. 103, grifos nossos) Ainda de acordo com Freire (1985), a politicidade da educação pressupõe a diminuição da distância entre o discurso de uma opção teórico-metodológica e sua prática efetiva. É uma contradição proclamar uma opção progressista e ter uma prática autoritária ou espontaneista. A opção progressista demanda uma prática democrática, em que a autoridade jamais se alonga em autoritarismo, mas que, por sua vez, jamais se amofina no clima irresponsável da licenciosidade. (FREIRE, 1985. p. 68, grifos nossos.) A compreensão equivocada de teorias e métodos que leva muitos professores à apropriação de discursos indevidos também é apontada por Amaral (2003) como um grande entrave para uma educação de boa qualidade: Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 62 A pedagogia de projetos e a proposta de interdisciplinaridade levaram os professores à falsa concepção de que trabalhar conteúdos é um mal: não se pode ser conteudista (e a palavra vem carregada de negatividade). O mito da oposição entre “transmissão de conhecimento” e “construção de conhecimento” tomou conta do imaginário dos professores, levando-os ao medo de ensinar (Amaral, 2000). Iludidos pela falácia de que ninguém ensina nada a ninguém, o professor não quer (ou não sabe?) mais ensinar. Não se pode negligenciar o conhecimento disciplinar: não se desenvolvem habilidades intelectuais no vazio! (AMARAL, 2003. p. 18) É o próprio Paulo Freire, autor da frase ninguém ensina nada a ninguém, que reforça a importância do conteúdo: Se o professor progressista, ao contrário do reacionário, deve esforçar- se por ‘desopacisar’ a realidade e ‘desmiopisar’ os alunos, ele não pode, jamais, deixar de lado o ensino do conteúdo em favor apenas da politização dos alunos. Do ponto de vista do professor progressista, nem a compreensão mágica do conteúdo segundo a qual, em si mesmo, ele é libertador, nem tampouco o descaso por ele como se a claridade política trabalhasse sozinha. A claridade política é necessária, indispensável mesmo, mas não é suficiente. (FREIRE, 1985. p. 69) O aspecto político partidário também se faz presente na escolha dos coordenadores e das equipes técnicas locais. Os educadores não precisam ser necessariamente professores formados. Basta terem, no mínimo, o ensino médio. É de sua responsabilidade arregimentar os alunos e conseguir um local para a implantação do núcleo. O educador recebe uma bolsa-auxílio paga com recursos de um convênio firmado entre Prefeitura e sociedade civil e mais vale-transporte (não são todos os programas que oferecem este subsídio) para a reunião pedagógica. Mais do que a própria formação docente, o principal critério de seleção dos educadores, de acordo com os documentos analisados, é o compromisso político-social e o engajamento nas atividades da comunidade em que estão inseridos. Os educadores do MOVA-Regional devem participar de atividades sociais, devem fazer parte de núcleos de associações e/ou núcleos de mobilização popular. Preferencialmente, devem ser lideranças populares. Ele deve ter um perfil de militante social, independente de posição partidária, mas uma pessoa que realmente esteja comprometida com o crescimento das pessoas, enfim, com o processo. A indicação do educador, feita pela entidade a qual ele está ligado, não é condição única para que a pessoa já se torne um educador do MOVA. Os indicados devem passar primeiro por todo o processo de formação inicial, e se considerados aptos pela equipe técnico-pedagógica voltam para as comunidades para o início do trabalho. Mas, sendo os próprios coordenadores e equipes locais os responsáveis pela seleção das pessoas indicadas pela comunidade, não é possível garantir que afinidades político- partidárias também não sejam critérios adotados para a escolha dos educadores. Embora os gestores do movimento afirmem que os membros da coordenação e equipe técnica são, com poucas exceções, professores habilitados dos programas municipais selecionados pela experiência Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 63 e por um trabalho significativo na educação de jovens e adultos, a observação e o contato de anos com a estrutura de gestão dos dois programas permitem afirmar que, em muitos casos, o critério preponderante na escolha da equipe de capacitação dos educadores é a afinidade e a militância político-partidária dos envolvidos. Tanto é que as equipes são, freqüentemente, desfeitas em função desses interesses. Os dados coletados fornecem indicativos de que o MOVA-Regional não tem alcançado plenamente seus objetivos, limitando-se, muitas vezes, à politização de seus educandos no plano discursivo. Pelo relato dos educandos, apenas como discurso politizado dos educadores eles não têm conseguido dominar o mecanismo básico de decodificação do código lingüístico e nem tampouco progredir nos estudos e, como conseqüência mais ampla, inserir-se enquanto cidadãos na sociedade atual. Desta forma, surge uma importante indagação: o MOVA-Regional, assim como os movimentos do passado pode ser considerado popular? A afirmação de Pinto (1997) parece apontar para uma resposta negativa, pois, segundo ele, para ser popular, “a educação tem que ser uma possibilidade igual para todos, em qualidade e quantidade. Por isso, a alfabetização é apenas o início de um processo educacional que de direito deve sempre visar aos graus mais altos do saber.” (p. 49). Pode ser popular um movimento que priva seus educandos de um saber mais sistematizado, através de educadores mais bem preparados e de uma verdadeira possibilidade de inserção social e continuidade nos estudos? A reflexão aqui apresentada não é contrária à educação não-formal, até porque, ela tem sido nos últimos anos a principal via de acesso da população adulta à alfabetização. A questão que se coloca é saber até que ponto efetivamente ela tem se caracterizado como educação não-formal ou tem se aproximado de práticas espontaneistas mais identificadas com a educação informal. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL, Ana Lúcia. Que tal avaliar para planejar? In: Revista do SINPEEM, jan/fev/ mar, 2003. BARRETO, Vera. Paulo Freire para educadores. São Paulo: Arte & Ciência, 1998. BEISIEGEL, Celso Rui. Política e Educação Popular. A teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Editora Ática, 1992. BRASIL, MEC. A experiência do MOVA-SP. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 1996. ______. Educação de Jovens e Adultos – A experiência do MOVA-SP. Gadotti, Moacir (org.). São Paulo: Instituto Paulo Freire, 1996. Educação hoje: questões em debate. Dossiê Educação. Revista Estudos Avançados. 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Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 65 INTRODUÇÃO Os currículos de formação de professores guiaram-se durante muito tempo por um interesse técnico em que se privilegiava um conhecimento fortemente marcado pelo paradigma positivista, no qual o professor devia resolver os problemas da prática por meio da aplicação de teorias e de técnicas científicas. A componente prática dos cursos era relegada para segundo plano e colocada normalmente no fim do curso. Não era dada atenção especial a formação de professores para a prática de ensino concreta e real nas escolas. Apesar de vários autores terem chamado a atenção para a importância da componente prática da formação inicial dos professores e para a incorporação dos saberes docentes na formação de professores, a componente prática nunca teve um significado relevante nessa formação. Isso deriva do facto de alguns autores defenderem que a Prática Pedagógica e os saberes dos docentes não são a componente mais importante na formação de professores e de ela apenas contribuir para formar professores conservadores que se limitam a imitar modelos fornecidos por outros professores mais experientes. Para além disso, existem autores que argumentam que a função da Universidade não é profissionalizar, mas somente fornecer aos estudantes instrumentos teóricos e conceptuais que serão mais tarde aplicados nos seus locais de trabalho. Vários autores defendem que as três funções de uma Universidade são o ensino, a pesquisa e a extensão não cabendo nela o exercício da prática e a profissionalização dos graduados. Até ao momento, a maior parte das Universidades permaneceram arraigadas a um modelo clássico assente num paradigma racionalista cartesiano. 1. SABERES DOCENTES E FORMAÇÃO DE PROFESSORES Os principais problemas relacionados com a fragilidade da formação prática dos cursos de formação de professores não se relacionam apenas com fragmentação a que está sujeito o conhecimento, mas situam-se, fundamentalmente, na dicotomia que existe na formação de professores entre a teoria e a prática. De acordo com Tardif (2004:270), os cursos de formação de professores são normalmente programados de acordo com um modelo “aplicacionista”, no qual os estudantes têm, numa primeira fase, as disciplinas e só depois é que têm um estágio para “aplicarem” os conhecimentos adquiridos nas disciplinas teóricas. No modelo aplicacionista há separação entre A INCORPORAÇÃO DOS SABERES DOCENTES NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DIAS, Hildizina Norberto (UP/Maputo); ANDRÉ, Marli (PUC/SP) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 66 a pesquisa, a formação e a prática. Os pesquisadores produzem conhecimento que é transmitido nos cursos de formação de professores e, por sua vez, os formadores transmitem-nos aos estudantes para que estes no futuro apliquem tais conhecimentos na prática. Para o mesmo autor, o modelo aplicacionista tem dois problemas principais: é idealizado segundo uma lógica disciplinar em que não há relação entre as disciplinas e em que “aprender” é conhecer e não é “fazer”; ooutro problema é que o modelo aplicacionista considera que os alunos são espíritos virgens e não se tem em consideração as suas crenças e representações anteriores. Com a evolução constante da Ciência e da Técnica, a sociedade e o mercado de trabalho exigem que as Instituições de Formação de Professores (IFP) tenham também a tarefa de proporcionar ao estudante uma formação profissionalizante. Um dos maiores desafios enfrentados, na actualidade, pelas IFP2 s é fornecer uma formação profissionalizante que permita a articulação imprescindível entre o “saber” e o “saber fazer”. A relação entre “saber fazer” e “saber fazer bem” implica necessariamente o aparecimento de uma epistemologia da prática que, como diz Alarcão (l996:11), baseando-se em Schon (l983), “tenha como ponto de referência as competências que se encontram subjacentes a prática dos bons profissionais “. O mais importante neste momento é procurar uma forma de conceber a formação de professores que seja holística e sistémica e que permita ao estudante (futuro professor) apreender a totalidade e a complexidade dos fenómenos educacionais relacionados com o ensino de uma certa disciplina e que tal compreensão conduza o estudante ao desenvolvimento de competências que são usadas pelos “bons” professores. Conforme Tardif (2004:240), o estudo dos saberes docentes produz mudanças nas concepções e nas práticas na formação de professores. A primeira mudança é o reconhecimento que os professores são “sujeitos de conhecimento” e que “deveriam ter o direito de dizer algo a respeito da sua própria formação profissional”. Em segundo lugar, é que a formação de professores deveria basear-se nos saberes que são, quotidianamente, usados pelos professores no exercício profissional. Segundo o mesmo autor, muitas teorias foram concebidas e não têm relação e/ou aplicação para as situações educacionais concretas. Em terceiro lugar, Tardif (op cit) considera que os cursos de formação de professores funcionam em torno de lógicas disciplinares em que as várias disciplinas aparecem separadas e fragmentadas, constituindo “unidades autónomas fechadas sobre si mesmas”. De forma concreta, Tardif (2004: 274-276) considera que a formação de professores deve introduzir quatro mudanças fundamentais: 1) os pesquisadores universitários devem começar a trabalhar nas escolas e a realizar pesquisas em colaboração com os professores de forma a construírem um repertório de saberes; 2) é necessário criar dispositivos de formação, de acção e de pesquisa que sejam úteis para os professores; 3) é preciso quebrar a lógica disciplinar nos cursos de formação de professores de forma a que seja possível impedir a fragmentação dos saberes e a criação de equipes de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 67 formação pluricategoriais; 4) os professores universitários devem começar a realizar pesquisas e reflexões críticas sobre as suas próprias práticas. Borges (2004:33-109) refere-se ao facto de que a relação entre os saberes docentes e a formação de professores ganha força devido à orientação profissonalizante que passa a dominar a formação de professores na década de 90. Tal orientação profissionalizante critica os modelos de formação de professores prevalecentes, destacando os factos de haver distanciamento entre a formação de professores e a realidade educacional; os professores queixam-se amiúde de que o que aprenderam na sua formação inicial serviu pouco para resolver os problemas que enfrentam no quotidiano das escolas onde trabalham. Tal declaração serve, de acordo com a mesma autora para reforçar o mito de que os professores “aprendem a ensinar com a prática, pela experiência do ofício” (p 33). Consideramos que a componente de formação de professores onde há maior possibilidade de integração e uso dos saberes docentes é a pedagógica. Tal componente integra habitualmente as disciplinas da Pedagogia, Didáctica, Psicologia e as actividades de Estágio e Prática Pedagógica. Vejamos a influência que os estudos sobre os saberes docentes podem ter para a ressignificação da área da Didáctica. 2. INCORPORAÇÃO DOS SABERES DOCENTES NA DIDÁCTICA A Didáctica pode ser definida como sendo uma área da Pedagogia que tem como objecto de estudo o processo de ensino/aprendizagem. Durante muito tempo, o objecto de estudo da Didáctica circunscrevia-se ao ensino1 e ela era definida como sendo “a ciência e a arte do ensino” (Haydt-2002:13). A Didáctica era assim definida pois havia muita primazia no trabalho do professor. Foi a partir da importância, que a aprendizagem do aluno ganhou, que a Didáctica passou a preocupar-se com o processo dinâmico e interactivo de ensinar e aprender que acontece entre o professor e o aluno (Haydt-2002). Enquanto alguns autores como, por exemplo, Nérici (1991) afirmam que a Didáctica tem como seu objecto de estudo certos elementos didácticos (aluno, objectivos, professor, conteúdo, técnicas de ensino e o meio geográfico, económico, cultural e social); outros, como Candau (1988) apontam três dimensões de estudo, respectivamente, a técnica, humana e sócio- política. A Didáctica tem uma importância fundamental na formação do professor pois é a disciplina que vai mostrar ao futuro professor, como é que ele deve transformar os objectivos educacionais, definidos pelas instâncias superiores da Educação, em conteúdos. Vai também fornecer os métodos e as estratégias que deverão ser usados para que o aluno aprenda os conteúdos dos programas. A Didáctica também dá indicações sobre os materiais didácticos mais adequados para o ensino e aprendizagem das matérias e sistematiza as formas mais correctas de avaliar a aprendizagem do aluno. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 68 As inovações nas práticas pedagógicas, na formação de professores e na investigação provocaram na década de 90 um movimento de “ressignificação” da Didáctica. De acordo com Pimenta (1997: 20/21), a ressignificação da Didáctica decorreu (i) “do maciço investimento na qualificação dos docentes, tanto na formação inicial quanto na formação em serviço (...); (ii) dos novos desafios do ensino em contextos inter/multiculturais; (iii) “da investigação sobre o ensino enquanto prática social viva; nos contextos sociais e institucionais nos quais ocorrem”; (iv) do desenvolvimento de pesquisas qualitativas em educação. Para Oliveira (2000:153), a Didáctica hoje tende a evoluir de uma Tecnologia do Ensino com base na Teoria Psicológica, para a Didáctica como Teoria Pedagógica. Para autora antes citada, a Didáctica busca, hoje em dia, “um fazer científico-tecnológico sobre o fenômeno do ensino, com base na visão dialéctico-materialista desse fenômeno, enquanto uma prática so- cial pedagógica” O elemento mais importante da ressignificação da Didáctica, com implicações directas para a formação dos professores, conforme Pimenta (2000:21), tem a ver com a construção da teoria didáctica partindo da prática e considerando os contextos sócio-teóricos/históricos em que tal prática ocorre. Para a mesma autora, a importância da prática pedagógica para ressignificar a Didáctica advém dos resultados das pesquisas qualitativas (cf. Pimenta -2000:22) e da pesquisa sobre “o professor reflexivo” desenvolvida na abordagem feita por Schön (1983), Zeichner (1988) e Elliot (1993), apud Pimenta (1997:23). Segundo Pimenta (2000), o movimento de “ressignificação” da Didáctica, tendo a prática como elemento principal para tal movimento, implicou também uma ressignificação epistemológica da Pedagogia e de outras ciências da educação que se relacionam com a Didáctica. Para a mesma autora, o grande desafio daDidáctica é constituir o seu objecto de estudo a partir do ensino “tomado como prática social. O estudo dos saberes docentes é importante para a Didáctica Curricular, na medida em que qualquer reforma curricular sobre a formação de professores terá de ter em conta os conhecimentos, competências, habilidades e destrezas que o professor deve possuir para exercer a sua profissão. Existe consenso que na sua prática quotidiana, os professores produzem certos saberes que derivam da sua experiência de vida e de trabalho em relação com os seus colegas de profissão. O movimento de ressignificação da Didáctica coloca a figura do professor como elemento fundamental. Tal facto significa considerar o professor como um intelectual reflexivo, que reflecte na acção e sobre a acção que ele realiza (paradigma de Schön - 1983). Ao colocar a figura do professor como o elemento fundamental emerge, necessariamente, a reflexão sobre os saberes e as experiências docentes. Apesar de sabermos que a Didáctica avançou em vários aspectos, sabemos que ainda existem muitos outros aspectos que deveriam estar contemplados no programa de Didáctica Geral e das Didácticas Específicas. Das reflexões que viemos efectuando ao nível da área da Didáctica identificamos cinco grandes lacunas na mesma área: Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 69 1) Construção do saber didáctico a partir da prática de ensino quotidiana dos professores nas escolas primárias e secundárias; 2) Adopção de uma perspectiva orientada para o ensino na diversidade; 3) Articulação mais adequada entre a componente teórico-reflexiva e a componente técnico-prática, de carácter instrumental; 4) Direccionar a Didáctica no sentido de se articular melhor com as outras áreas de conhecimento, adoptando, para além das perspectivas multidimensional e multidisciplinar que lhe são características, uma perspectiva inter e transdisciplinar; 5) Incorporação de novos temas como inteligências múltiplas, uso de novas tecnologias de comunicação e informação. Apesar das modificações introduzidas, e com base na nossa experiência como professoras de Didáctica e das leituras que efectuamos, podemos afirmar que a Didáctica é leccionada numa perspectiva demasiado teórica. Apesar de usarmos, como uma das fontes de conhecimento, as experiências dos estudantes, tais experiências assumem um carácter ilustrativo. Ainda não somos capazes de teorizar os conhecimentos do senso comum e de incorporá-los nos conteúdos leccionados. Temos muitas dificuldades de constituir o objecto de estudo da Didáctica partindo da prática de ensino real na sala de aulas. Não estamos sequer a realizar estudos etnográficos da prática escolar que permitam colher novos subsídios que venham enriquecer e inovar a teoria didáctica, de forma a elevar tanto a qualidade de formação de professores, bem como a própria prática de ensino nas escolas. Sentimos que parece existir dissonância entre as teorias e os preceitos que constituem o conhecimento didáctico leccionado na Universidade e nas Instituições de Formação de Professores e os saberes docentes que são, quotidianamente, construídos pelos professores nas Escolas. Tal dissonância pode estar a ser causada, tal como diz Francisco (2006: 39), pelo facto de a Pedagogia se ter centrado em referenciais da ciência clássica fundada num modelo positivista que estuda “os fenómenos através de relações de causalidade, priorizando análises meramente quantitativas e com isso desfigurando a complexidade da prática educativa”. A Didáctica ainda não está a ser capaz de usar os saberes docentes construídos na prática de ensino dos professores nas escolas. Colocamos como princípio fundamental da Didáctica a ligação entre a teoria e a prática, mas tal afirmação ainda se situa no plano discursivo das intencionalidades. Ainda não fomos capazes sequer de identificar as inadequações entre as teorias ensinadas na Universidade e as práticas de ensino nas escolas. Muitas vezes, questionamos a pertinência de certas teorias didácticas ou de certas práticas de ensino, mas ainda não as confrontamos para podermos confirmar as possíveis inadequações. As dificuldades que enfrentamos de usar os saberes da prática de ensino são de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 70 natureza epistemológica e metodológica. Como constituir uma epistemologia da prática? Como organizar os conhecimentos didácticos, a serem leccionados nos cursos de formação de professores, a partir de teorizações dos saberes didácticos dos professores? Que metodologias devem ser usadas para investigar os saberes da prática de ensino, apreendendo os significados reais que lhes são inerentes e compreendendo os contextos em que eles são criados? Como usar os saberes da prática sem sermos “praticistas”, articulando a teoria com a prática de ensino de forma a que as duas “andem de mãos dadas”, diminuindo a distância entre o que recomendamos que seja feito e o que realmente está a ser feito? A Didáctica que leccionamos continua a adoptar uma perspectiva universal, homogénea e monocultural, prescrevendo métodos, técnicas e estratégias para situações homogéneas e ideais. Toda a dimensão técnica é leccionada supondo a existência de uma escola ideal com turmas pequenas, com condições materiais ideais. Falamos do aluno da Escola Primária e Secundária de forma abstracta. Muitas vezes limitamo-nos a leccionar abordagens, modelos, teorias, métodos, oriundos de situações monoculturais, diferentes da nossa realidade, sem explicar muito bem ao estudante como deve fazer a aplicação prática dessas teorias. Com isto não queremos, de forma alguma, dizer que pretendemos deixar de lado o conhecimento universal já sistematizado na área da Didáctica, mas pretendemos trazer a nossa modesta contribuição para melhorar a qualidade de ensino e aprendizagem em situações de diversidade cultural e linguística. Por exemplo, a situação educacional moçambicana no ensino público é complexa. Existem escolas primárias públicas em que as turmas chegam a ter 80 alunos; em muitas escolas as crianças ainda se sentam no chão, debaixo das árvores, não possuem livros, nem material didáctico suficiente. Os perfis linguísticos2 dos alunos são diversos e heterogéneos e os programas e os manuais escolares não têm em consideração tais perfis diversificados. É urgente que tenhamos em conta a dimensão cultural do ensino de uma língua. Num país multilinguístico e multicultural como é o nosso não faz sentido que a Didáctica se mantenha numa perspectiva homogénea e monocultural e que “fechemos os olhos” à heterogeneidade e diversidade linguístico- cultural. Para estudarmos as formas de incorporação dos saberes docentes nos cursos de formação de professores, efectuamos um estudo de caso numa Escola Primária em Maputo, Moçambique. A pesquisa referida (Dias – 2007) visava reflectir sobre a incorporação dos saberes docentes na formação de professores em contextos de diversidade cultural. Nesta escola observamos as salas de aula de 5 professores. Usamos como técnicas de recolha de dados a observação participante, a entrevista, conversas e análise documental. Os resultados do estudo de caso mostraram que os professores desenvolvem certos saberes para melhor se adaptarem às suas condições de trabalho. Vimos que para além dos saberes da formação profissional, dos saberes disciplinares e dos saberes curriculares, os professores desenvolvem uma série de saberes práticos, derivados da sua experiência que se situam ao nível do “saber fazer” e “saber ser”. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES- 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 71 Notamos que os saberes da experiência derivam de uma reflexão sobre a prática de ensino, na qual o professor reflecte sobre a adequabilidade dos conteúdos, dos métodos e estratégias e dos meios usados. É a partir dessa reflexão que o professor vai planificar procedimentos didácticos e vai avaliar os efeitos das experiências que vai fazendo quotidianamente. Verificamos que as condições de trabalho precárias, as contradições enfrentadas, as zonas de desorganização deixadas pela planificação central, impulsionam e mobilizam as emoções, os desejos e a vontade do professor de modificar a realidade precária em que ele trabalha, respondendo assim às necessidades que tem. Os saberes docentes são fruto da reflexão crítica que os professores fazem da realidade educacional. Numa situação de diversidade, o professor deve prestar atenção particular aos saberes relacionais, comunicacionais e ao “saber ser e estar”. Concluímos que para leccionar na diversidade cultural, o professor deve saber: 1) trabalhar na incerteza e na complexidade; 2) ser afectivo, mobilizando carinho, atenção, cuidado, diminuindo a tensão e promovendo o relaxamento; 3) respeitar e considerar as diferenças entre os alunos, acompanhando o processo de formação de identidades culturais híbridas; 4) seleccionar formas de comunicação e interacção durante as aulas que sejam eficazes para o ensino e a aprendizagem. O estudo de caso permitiu identificar os saberes docentes em situações de diversidade cultural e de forma a incorporar tais saberes na formação de professores devemos, em primeiro lugar, sistematizá-los e, em segundo lugar, incluí-los nas disciplinas que tratam das questões acima referidas. Podemos tomar como exemplo a prática do silêncio na sala de aula. Com o estudo efectuado verificamos que existe um processo de ensino para que as crianças fiquem em silêncio. O professor treina a disciplina corporal por meio de recomendações diárias sobre a postura do corpo; ensina as crianças a controlar os movimentos do corpo, ensina a disciplinar a fala, a relaxar, a diminuir a tensão emocional. A educação para o silêncio é feita de forma gradual e sistemática. Consideramos que este conhecimento sobre a prática do silêncio pode ser perfeitamente integrado na formação de professores, tanto nas disciplinas da componente psicopedagógica, como nas disciplinas específicas. Ao nível da Didáctica e da Pedagogia, o silêncio pode ser tratado no tema sobre a relação pedagógica. São várias as áreas específicas que podem estudar o silêncio na sala de aulas. A integração de tal conteúdo será muito importante porque estaremos a ir ao encontro da prática docente nas escolas moçambicanas. Não queremos dizer que devemos transportar directamente o que os professores estão a fazer para as várias disciplinas, mas devíamos fazer uma verdadeira articulação entre a Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 72 prática e a teoria, i.e., já sabemos como decorrem as aulas, então iríamos explorar no âmbito teórico o que há, por exemplo, sobre o silêncio, a afectividade, o respeito, a formação de identidades, o processo de aculturação, etc.. Seria mais útil ensinar de forma mais profunda o que realmente o aluno precisa para poder dar aulas em ambientes diversificados. Haveria ganhos tanto ao nível teórico, como também ao nível prático. Ao nível teórico, aprofundaríamos assuntos que neste momento não estão a merecer a devida atenção como, por exemplo, a interacção silenciosa, a comunicação na aula por formas não-verbais, a afectividade, o desenvolvimento da criatividade, o tema da complexidade, da incerteza, a formação ao longo da vida, etc.. Nas várias disciplinas podíamos focalizar melhor os assuntos que são mais importantes para a prática. Do lado prático também teríamos ganhos porque o aprofundamento teórico traria resultados positivos para a prática de ensino. Por exemplo, em relação à educação para o silêncio, existem conhecimentos sistematizados sobre técnicas de relaxamento, mas observamos que os professores apenas mandam dormir, cantar e brincar. Seria importante levar para a escola outras técnicas já estudadas ao nível teórico, como o controle da respiração, exercícios sistematizados para aliviar as tensões, para aumentar a atenção, a concentração, etc.. O estudo dos saberes docentes é muito importante porque podemos identificar formas de trabalho no quotidiano escolar e transformá-las em conhecimentos que possam ser incorporados nos cursos de formação de professores. A conclusão a que chegamos com a pesquisa é que os saberes da experiência docente podem ser sistematizados e incorporados nos cursos de formação de professores. Partindo dos saberes docentes pode-se efectuar uma melhor articulação entre a teoria e a prática, porque saberemos como é que os professores estão a trabalhar e o que é necessário tomar, prioritariamente, como objecto de estudo ao nível teórico. Estaremos assim a contribuir para formar professores melhor preparados para a prática, pois a observação da prática não será vazia e não se discutirá apenas o que vemos no quotidiano, mas teremos de fazer um movimento necessário de verificar o que existe ao nível teórico de forma a compreender e enriquecer a prática observada com os conhecimentos que já foram e estão a ser construídos teoricamente. A incorporação dos saberes docentes nos cursos de formação de professores, deve ser acompanhado de mudanças na Didáctica em acção nestas instituições. Muitas vezes mudamos os currículos, retiramos e acrescentamos disciplinas, mas mudamos muito pouco as nossas práticas de formação. Falamos e escrevemos sobre mudanças educacionais para as escolas primárias e secundárias, mas esquecemo-nos de olhar para nós próprios. Continuamos a ter a mesma prática repetitiva que tínhamos há anos. Mudamos muito pouco. E a consequência disso é que os nossos estudantes irão, provavelmente, reproduzir os modelos que estão a receber na IFP. Continuaremos a falar sobre novos enfoques didácticos, sobre a criação de uma Didáctica Interdisciplinar, uma Didáctica Fundamental, Multicultural, etc. mas nada disto terá efeitos se as modificações não forem por nós operadas. Podemos introduzir conteúdos novos na Didáctica sobre o respeito ao outro, a consideração das diferenças e sobre estratégias teóricas para Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 73 diversificar o ensino, mas se continuarmos a não introduzir tais mudanças nos cursos de formação de professores e se não formos para a escola, nada terá efeito. Continuaremos a fazer pesquisa, dissertações e teses para obtermos títulos e prestígio académico, mas o nosso discurso continuará a ser um discurso de lamentação que introduz mudanças pequenas e às vezes irrelevantes, pois as nossas palavras caem no vazio. A nossa prática não está a corresponder às reflexões e às teorias que propomos. Consideramos que é urgente que as Instituições de Formação Professores modifiquem a sua prática quotidiana, que ensinem conhecimentos disciplinares e curriculares de forma rigorosa e com qualidade e que desenvolvam, em simultâneo, atitudes e valores referentes ao respeito ao outro, ao cuidado, ao afecto na própria instituição para que os futuros professores vivenciem tudo isso durante a sua formação. O futuro professor deve vivenciar e experimentar aprender numa situação em cuja prática quotidiana estejam presentes os elementos mínimos necessários para um ensino que valorize e articule convenientemente os conhecimentos, as destrezas e as atitudes a serem desenvolvidas nas dimensões cognitiva,afectiva e psicomotora. O estudo dos saberes docentes enriquece a teoria e melhora a formação de professores, pois possibilita uma melhor articulação entre a teoria e a prática. Ao estudarmos os saberes docentes temos também uma melhor percepção sobre o que define a profissionalidade docente, i.e., sobre os conhecimentos, comportamentos, destrezas, atitudes e valores que definem a especificidade de ser professor3. Consideramos que os currículos de formação de professores deveriam ser construídos com base na profissionalidade docente. A construção dos currículos com base na profissionalidade docente significa que os cursos de formação de professores devem ter disciplinas que forneçam conhecimentos específicos sobre a área de ensino, bem como é necessário que os cursos de formação de professores incluam também o desenvolvimento de comportamentos, destrezas, atitudes e valores. Os conhecimentos específicos, ligados à área da disciplina a ser no futuro leccionada (Português, Matemática, etc.), bem como a área psicopedagógica (Psicologia, Pedagogia, etc.) e geral (língua, Informática, etc.), devem ser ensinados de forma interdisciplinar de modo a reconstruir a unidade de estudo e do ensino de uma área do conhecimento que foi fragmentada pelas várias disciplinas. É importante que saibamos também desenvolver, no futuro professor, a reflexão, a imaginação, a criatividade, o espírito ético, o sentido estético e lúdico, a iniciativa, a auto-disciplina, a organização e a dedicação para que o estudante no futuro possa, por si, procurar informações, ser autónomo e criativo. As qualidades antes mencionadas são muito importantes, pois são essenciais para a formação ao longo da vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALARCÃO, Isabel. “Contribuição da Didáctica para a formação de professores – reflexões sobre o seu ensino”. In: PIMENTA, Selma Garrido (org.). Didática e formação de professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. 3.ed. São Paulo, Cortez Editora, 2000, pp. 159-190. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 74 BORGES, Cecília Maria Ferreira. O professor da educação básica e seus saberes profissionais. Araraquara, Junqueira Marin, 2004. CANDAU, Vera. (orgs.) Rumo a uma nova Didáctica. 10.ed. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 1988. DIAS, Hildizina Norberto I.P. Saberes docentes e formação de professores na diversidade cultural. São Paulo, PUC/SP, 2007. Relatório de pesquisa de Pós-Doutorado em Psicologia da Educação. FRANCISCO, Maria Amélia S. “Saberes pedagógicos e práticas docentes”. In: SILVA, Aida Maria M. et al. Educação formal e não-formal, processos formativos e saberes pedagógicos: desafios para a inclusão social. ENDIPE, Recife, 2006. pp. 27-49. GIMENO SACRISTÁN, José. “Consciência e ação sobre a prática como libertação profissional dos professores”. IN: Nóvoa, A. (org.). Profissão Professor. Porto, Porto, Editora, 1995, 61-92. HAYDT, Regina C.C.. Curso de Didática Geral. 7.ed. São Paulo, Editora Ática, 2002. LIBÂNEO, José Carlos. Didáctica. São Paulo, Cortez Editora, 1994. NÉRECI, I.G. Introdução à Didáctica Geral. 23.ed. Rio de Janeiro, Editora Científic, 1991. OLIVEIRA, Maria R.N.S. “A pesquisa em Didáctica no Brasil – da tecnologia do ensino à teoria pedagógica” In: PIMENTA, Selma Garrido (org.). Didática e formação de professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. 3.ed. São Paulo, Cortez Editora, 2000. PIMENTA, Selma Garrido. O estágio na formação de professores. Unidade teoria e prática? 3.ed. São Paulo, Cortez Editora, l997. TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 4.ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 2002. NOTAS 1 De acordo com Libâneo (1994:23) o ensino “corresponde a acções, meios e condições para realização da instrução”; por sua vez a instrução, para o mesmo autor, refere-se “à formação intelectual, formação e desenvolvimento das capacidades cognoscitivas mediante o domínio de certo nível de conhecimentos sistematizados”. 2 Há alunos monolingues, filhos de pais monolingues e outros de pais bilingues; há crianças que chegam à escola falando apenas a língua bantu; há bilingues em vários graus de conhecimento da língua portuguesa. 3 Definição de profissionalidade apresentada por Gimeno Sacristán (1995:65). Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 75 O tema formação de professores tem sido foco de inúmeras pesquisas e trabalhos publicados nas áreas da Educação e da Psicologia. Dos vários elementos que compõem a formação do educador, um se refere à obrigatoriedade da disciplina Psicologia da Educação no currículo dos cursos de magistério, licenciatura ou Pedagogia. Os estudos sobre o tema, geralmente, tratam da Psicologia como instrumento para aperfeiçoar as relações ensino- aprendizagem. Neste sentido, há poucas pesquisas sobre a maneira como esta ciência se configura na formação docente1. Em função disso, na pesquisa aqui descrita2, tivemos como finalidade investigar o lugar que o professor atribui à Psicologia em sua formação e em seu trabalho pedagógico, compreendendo a apropriação e a avaliação feitas por ele da Psicologia que lhe foi ensinada e as expectativas que possuía para esta área do conhecimento, entrevistando sete professores de uma escola pública municipal da cidade de São Paulo. A leitura do conteúdo destes depoimentos permitiu constituir quatro categorias de análise: a) a relação que estabelecem com a Psicologia, por meio de definições desta ciência, da presença dela no trabalho docente, de demandas para a Psicologia e para os psicólogos e do contato que os depoentes tiveram com os profissionais dessa área; b) como a Psicologia está presente nos cursos de formação; c) a maneira como os depoentes estabelecem a relação entre teoria e prática no processo formativo, priorizando a segunda como instrumento da primeira e, por fim, d) a situação da escola pública atual, que se configura como o cenário no qual se desenvolvem as relações entre a Psicologia e a Pedagogia. No que se refere à relação estabelecida com a Psicologia, os depoentes apresentaram definições que ora se aproximam do objeto de estudo da Psicologia, ora a definem por meio de sua função ou aplicabilidade. Em geral, a conceituação é do senso comum e trata de uma Psicologia de auto-ajuda. No trabalho pedagógico, a Psicologia é evocada para embasar as ações do profes- sor, principalmente nos casos do que entendem como dificuldades de aprendizagem. Ela traz o suposto controle da relação professor-aluno, do processo ensino-aprendizagem e da disciplina, com a possibilidade imaginária de realizar um trabalho individualizado. A Psicologia explica os problemas da escola, por meio de uma linha de pensamento diagnóstica e fornece ao docente conhecimento para o domínio das situações que se põem em seu cotidiano de trabalho, dando- lhe “jogo de cintura”. O mais relevante, para o professor, é a dimensão psicológica da relação com o aluno. Quando fazem demandas à Psicologia e aos psicólogos, pedem socorro, em virtude da vivência de desamparo, solidão e sobrecarga, que só pode ser compreendida se remetida à A PSICOLOGIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: A DESCONSTRUÇÃO DO MODELO TECNICISTA LARA, Aline Frollini Lunardelli (Universidade de Mogi das Cruzes) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 76 realidade escolar atual. A Psicologia é tomada como instrumento de explicação do que acontece na escola, em geral, e no trabalho pedagógico, em particular. A novidade no que diz respeito às demandas foi a presença da Psicologiana escola para trabalhar o sofrimento do professor, já que o desejo de ser um preceptor – alguém que atenderia individualmente cada aluno, como um professor particular – traz necessariamente frustrações. Assim, além de solicitar, em alguns momentos, o encaminhamento dos alunos que não aprendem, querem, na maioria das vezes, a Psicologia para aliviar angústias e, por isso, desejam o psicólogo na escola e não na formação. A experiência com eles, todavia, tem sido frustrante, porque consideram que a Psicologia está distante da realidade escolar vivenciada. A formação em Psicologia foi relatada como um amontoado de autores e teorias que se repetem de forma superficial e imprecisa. Pouco se lembram do que estudaram não só em Psicologia, mas nos cursos em geral. A principal queixa sobre a formação diz respeito à falta de vínculo entre os conteúdos aprendidos e a prática pedagógica, ou seja, à falta de aplicabilidade. Consideram que a boa formação é a que está voltada para a prática escolar; em conseqüência, formação ruim é formação “muito teórica”. Não percebem, todavia, que não aprenderam teorias. A relação entre teoria e prática, nesse sentido, permeou toda a fala dos entrevistados quando avaliaram sua própria formação. Desejam a prática, sinônimo de ter efeito, ser útil, ter aplicabilidade, ajudar a resolver problemas, ter função, ser concreto, aprender fazendo, ter contato com o psicólogo na escola e não na formação. A vontade de aprender com estudos de caso e, por isso, aproximar-se da prática, reforça a visão preceptorial, do atendimento individualizado de cada aluno. A denúncia sobre as condições escolares apresentou a descaracterização da instituição escolar e do professor. Os docentes trataram principalmente da dificuldade de exercer sua profissão. O exemplo mais citado de dificuldade foi a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. No cenário apresentado pelos professores entrevistados foi possível verificar que a formação, em geral, e a formação em Psicologia, em particular, têm como fundamento o princípio da racionalidade instrumental, ou seja, do ensino da Psicologia como técnica para melhorar ou aperfeiçoar a escola. Por isso, destacam tão veementemente a necessidade de aprender a prática, desvinculando-a da teoria. Contudo, a formação não tem tratado nem da teoria nem da prática, muito menos da relação entre elas. Ensina-se técnica com o objetivo último de promover a solução de problemas imediatos, distanciando-se de qualquer possibilidade de reflexão sobre o que acontece na escola atual que tem promovido sua descaracterização como instituição educativa e ainda sobre a formação dos educadores como parte desta descaracterização. Neste sentido, verifica-se que a Psicologia na formação de professores faz parte do que denominamos modelo de racionalidade instrumental presente nos processos formativos, promovendo a reprodução de uma Psicologia psicometrista, preconceituosa, classificatória, em detrimento da reflexão, das experiências intelectuais. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 77 O PREDOMÍNIO DA RACIONALIDADE INSTRUMENTAL NA FORMAÇÃO Essa pesquisa revela a falta de possibilidades de reflexão e da construção da autonomia do pensar nos processos formativos. Não há mais formação intelectual e cultural a quem pretende ser um formador. Os cursos ensinam modelos pedagógicos fundamentados em propostas psicológicas como receitas para se conseguir um ensino eficaz, desconectados do contexto educacional, além de preconceitos já superados pela própria ciência que inviabilizam o ensino das classes populares. Em nossa investigação verificamos que os depoentes tiveram contato com autores e textos da Psicologia e da Educação de maneira imprecisa e superficial, geralmente com a apresentação de fragmentos de propostas pedagógicas vinculadas a esses autores. Além disso, aprenderam, aí sim de maneira eficiente, a pensar de forma instrumental, pragmática, buscando metodologias, maneiras de agir, receituários e também aprenderam uma Psicologia que fundamenta a visão preceptorial de ensino. A crítica à realidade escolar é, geralmente, fundamentada em um modelo instru- mental de pensamento: a escola vai mal, e muito mal, porque não se encontrou um modo adequado de ensinar; os professores não tiveram contato com formas eficazes de conhecimento sobre desenvolvimento e aprendizagem. Mas no que consiste a lógica da racionalidade instrumental? De que forma ela permeia os processos de formação? No processo histórico da modernidade, de acordo com Leopoldo e Silva (1997), a razão esclarecedora foi condição de emancipação do homem em relação às forças da natureza e aos dogmas alheios ao domínio da pura razão, como os mitos. Esta finalidade racional está presente desde Bacon e Descartes: “Conhecer emancipa porque o conhecimento traz consigo o domínio da realidade” (Id. Ibid., p. 11). A conseqüência necessária para se atingir o domínio da realidade seria possuir o domínio técnico da natureza. A vinculação, no projeto de Bacon e Descartes, entre teoria e técnica, portanto, seria o único meio de aprimoramento da vida. A razão, por meio de um mesmo método objetivo – o físico-matemático – deveria conhecer todos os objetos, mesmo sendo tão distintos, como a Física e a Moral, para atender ao estatuto de cientificidade. Assim, “[...] o progresso do conhecimento ocorre de maneira solidária a uma restrição do exercício da racionalidade teórica” (Id. Ibid., p. 15). O que antes seria condição de domínio da natureza para o aprimoramento da vida, passa a ser condição de domínio do próprio homem, uma vez que, para conhecê-lo, tornou-se necessário submeter o objeto de estudo das ciências humanas – o próprio sujeito – ao paradigma de objetividade que teve seu auge com o positivismo. A razão instrumental, dessa forma, ganhou uma dimensão totalitária e a prática passou a ser entendida como derivação da teoria, mera aplicação técnica do conhecimento teórico- instrumental. A maior conseqüência, segundo o autor, do paradigma físico-matemático foi a Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 78 dissolução da realidade em objeto do conhecimento. A razão instrumental abandonou o sujeito e, no caso específico da Psicologia, transformou o sujeito em objeto manipulável, trouxe a representação da pessoa como coisa. Há, portanto, a identificação entre racionalidade e reificação. Para a Psicologia, a reificação do sujeito tornou-se a única possibilidade de conhecê-lo. Na razão instrumental, então, conhecer é saber fazer; é para controlar que se conhece. O progresso do conhecimento é o progresso do domínio, fazendo com que a intencionalidade pragmática da consciência intelectual seja conhecer para dominar. O autor argumenta que a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt traz a possibilidade de se considerar as contradições presentes no modelo tradicional da razão instrumental, identificando o caráter histórico da própria razão e, por isso, suas contradições, questionando a homogeneidade e uniformidade do objeto. A racionalidade técnica identifica, então, meios com fins. A confiança na razão e no seu progresso ilimitado enfraquece, segundo o autor, a visão crítica da racionalidade. A razão torna-se absoluta, exprimindo-se por meio da instrumentalização. O progresso, identificado à razão, traz o regresso e a subordinação do homem às próprias condições de dominação por ele criadas: “[...] esta representação reificada que o sujeito tem de si mesmo é que opera a regressão de uma pretensa emancipação a uma total submissão e controle, numa realidade histórico-social totalmente administrada pelos parâmetros funcionaisda razão instrumental” (Id. Ibid., p. 21, grifo do autor). Crochik (1990, p. 154) partilha dessa mesma tese: Assim, o processo de desenvolvimento social se legitima em si mesmo, é um fim em si próprio representado pela administração racional, uma administração tão racional, que a leva à irracionalidade, por esquecer que ela é meio para a felicidade humana. Mas, por levar o seu controle da natureza a um controle extremo sobre o homem, impede a individualização deste. O sistema da razão formal, de servo se transforma em senhor, o animal racional apartado de sua especificidade, se aliena de si mesmo ao não se diferenciar neste formalismo. A realidade administrada pela razão instrumental invade diversos âmbitos da vida humana e neles se incluiu a formação, compreendida como a formação do indivíduo na sociedade, em seus aspectos sociais, políticos, culturais e éticos. A preparação de professores faz parte desse contexto amplo, no qual, desde o século XIX, tem predominado o “saber fazer”. A técnica necessária para que o homem conhecesse e dominasse o mundo e, por meio disso, se emancipasse, tornou-se o aprisionamento do homem, pois abandonou sua relação com a teoria e passou a ser mera aplicação instrumental dela. Para Adorno e Horkheimer, segundo Leopoldo e Silva (1997), a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor, mas as instituições da sociedade e as formas históricas concretas contêm as condições de regressão ao mesmo tempo em que contêm as de esclarecimento: “[...] a emancipação se converte em submissão, na medida em que o Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 79 progresso da razão instrumental coincide com a regressão do humano à categoria de coisa” (Id. Ibid., p. 23). Neste sentido, ao analisar a formação de professores, como parte da regressão do esclarecimento, compreende-se o predomínio da razão instrumental que vem para habilitar os docentes a executar modelos pedagógicos com o objetivo de atingir a eficácia do ensino. O pensamento, a reflexão, a própria razão são apartados das finalidades educacionais. A formação destina-se a saber fazer – agir de maneira adequada, buscar métodos eficazes – ao invés de fazer saber – refletir, elaborar, produzir, construir conhecimentos e o próprio pensamento. Crochik (1990) enfatiza que o tecnicismo leva a uma posição anti-teórica e à busca de soluções imediatas, não refletidas. Esta ideologia da racionalidade tecnológica fortalece o pensamento e o comportamento padronizados, cujo critério é a eficácia sobre o meio. Além disso, coloca-se no lugar de questões políticas e, nesta perspectiva, “[...] não se trata de modificar a sociedade, mas de aperfeiçoá-la, e, como a técnica traz, da Filosofia Positivista, a imagem da neutralidade, as contradições sociais são suspensas e a técnica adentra no cotidiano através de um processo de racionalização crescente” (Id. Ibid., p. 153). O mesmo ocorre no processo de formação: não se trata de questionar, refletir, transformar a formação, mas de aperfeiçoá-la. Para isso, organizam-se cursos de aperfeiçoamento e reciclagem que têm como finalidade a introdução de novas metodologias no trabalho docente. Perde-se a possibilidade da formação de uma consciência política; em seu lugar tem-se “[...] a consciência tecnológica, uma consciência que reduz a si mesmo e aos outros, a objetos técnicos. Não precisamos dizer que é o grau mais avançado da reificação” (CROCHIK, 1990, p. 153). A técnica não é neutra, mas também não está inerentemente vinculada à dominação. As relações históricas, entretanto, mostram que quanto mais há progresso, com o desenvolvimento técnico, mais se aperfeiçoa a dominação. O avanço técnico, neste sentido, que poderia libertar o homem de diversas formas de trabalho massificadoras, o tem aprisionado. O RETORNO À TEORIA COMO RESGATE DA REFLEXÃO O resgate da autonomia pode ser possível pelo retorno à teoria; para tanto, segundo Adorno (1995), a teoria precisa desprender-se do pragmatismo, o que significa que o critério de validade de um conhecimento não pode ser sua utilidade prática. A formação, como auto-reflexão crítica que conduz à autonomia, deve passar pela análise da relação entre teoria e prática. Para o autor, a característica de nossa época é a aversão à teoria – seu atrofiamento – que gera a conseqüente fragilidade da práxis: os homens passam a desejar transformar o mundo sem interpretá-lo. O verdadeiro conceito de práxis se perde na formação do indivíduo com a destruição da teoria pelo primado da razão prática: “[...] Práxis sem teoria, abaixo do nível mais avançado do conhecimento, tem que fracassar e, segundo seu conceito, a práxis deveria realizá- lo. Falsa práxis não é práxis” (Id. Ibid., p. 211). Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 80 Falta auto-reflexão na práxis quando ela se transforma em fetiche, isto é, o espírito da práxis passa a ser a própria falta de espírito. Propagar esta antítese entre teoria e prática, segundo o autor, serve para denunciar/renunciar à teoria: [...] O espírito burguês reúne a autonomia e a aversão pragmatista pela teoria tão antinomicamente quanto a sociedade que o sustenta. O mundo, que a razão subjetiva tendencialmente só se limita ainda a reconstruir, na verdade deve ser continuamente transformado conforme sua tendência à expansão econômica e, contudo, sempre permanecendo o que é. O que mexe com isso é amputado do pensar: sobretudo, a teoria que quer algo mais que reconstrução. Dever-se-ia formar uma consciência de teoria e práxis que não separasse ambas de modo que a teoria fosse impotente e a práxis arbitrária, nem destruísse a teoria mediante o primado da razão prática [...] Pensar é um agir, teoria é uma forma de práxis [...] (ADORNO, 1995, p. 204). Adorno (1995) afirma que, quando a práxis serve apenas para responder “o que fazer”, ela transforma-se em ideologia. O autor analisa que a supervalorização da prática ocorre quando se perdeu a capacidade de se fazer experiências3: [...] O que, desde então, vale como o problema da práxis, e hoje novamente se agrava na questão da relação entre teoria e práxis, co- incide com a perda de experiência causada pela racionalidade do sempre-igual. Onde a experiência é bloqueada ou simplesmente já não existe, a práxis é danificada e, por isso, ansiada, desfigurada, desesperadamente supervalorizada (Id. Ibid., p. 203-204). O ativismo, dessa forma, conduz à regressão. No processo formativo de professores, teoria e prática são vistas de maneira dissociada: não se percebe que a ação prática só ocorre por meio da teoria, ou ainda, como aponta o autor, que o pensamento sempre que alcança algo importante, produz um impulso prático, mesmo que não seja visível de forma imediata. Ao contrário, a mediaticidade deve ser a característica do pensamento: este só ocorre quando não se aceita passivamente o desde sempre dado. Explicitar contradições ao invés de omiti-las deveria, neste sentido, constituir-se como finalidade de qualquer processo formativo, além, é claro, de resgatar a liberdade que o pensamento, a auto-reflexão – enfim, a teoria – podem produzir. Todavia, há na formação a crise da prática, explicitada pela angústia do não saber o que se deve fazer. Então, abandona-se a teoria e a práxis transforma-se em mero tecnicismo, busca por metodologias que se encaixem nos problemas pedagógicos enfrentados. Perdem-se os fins e até mesmo os meios. No entanto, encontrar os meios mais adequados para a solução imediata de dificuldades continua sendo o objetivo principal. Adorno fala do fascínio exercido pela práxis: “[...] Esta é uma dialética desesperada: do fascínio que a práxis impõeaos homens não é possível escapar senão através da práxis, ela porém, ao mesmo tempo – apática, estreita, carente de espírito – contribui enquanto tal para reforçar esse fascínio” (Id. Ibid., p. 207). A teoria pode gerar a liberdade desde que não seja orientada pelo fascínio exercido Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 81 pela prática, ou seja, desde que não tenha como finalidade resultados encomendados. A superação da dicotomia entre teoria e práxis e a conseqüente aversão à teoria só pode, para o autor, ocorrer pelo resgate da própria teoria: [...] Os que não param de gritar: Demasiado abstrato!, empenham-se num concretismo, numa imediatez, que estão abaixo do nível dos meios teóricos disponíveis. Isso favorece a práxis aparente. Os mais finórios dizem [...] que a teoria é repressiva; e qual atividade no interior do ‘status quo’ não o seria a seu modo? O agir imediato, no entanto [...] está incomparavelmente mais próximo da repressão do que o pensamento, o qual ajuda a respirar. O ponto arquimédico: como é possível uma práxis não-repressiva, como navegar entre as alternativas espontaneidade e organização; isso só pode ser descoberto, se é que é possível, através da teoria e não por outra via (ADORNO, 1995, p. 223, grifo do autor). A própria prática, apartada da teoria, é compreendida como técnica e, nesse sentido, a Psicologia, por meio de suas teorias de desenvolvimento e de aprendizagem pode, supostamente, oferecer técnicas, métodos de ensino e de controle dos processos de aprendizagem para aperfeiçoar as relações pedagógicas: Os homens inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. Os meios – e a técnica é um conceito de meios dirigidos à autoconservação da espécie humana – são fetichizados, porque os fins – uma vida humana digna – encontram- se encobertos e desconectados da consciência das pessoas (ADORNO, 2003, p. 132-133). Adorno (2003) enfatiza, ainda, a necessidade de fortalecer nas Universidades e nos cursos de preparação para o magistério uma Sociologia vinculada à pesquisa histórica de nossa própria época. Destaca, também a importância da presença da Filosofia na formação de professores. Ao discutir as decisões a respeito da educação, ressalta que modelos autoritários, impostos a partir do exterior contradizem a idéia de homem autônomo, emancipado, e, neste sentido, as mudanças curriculares ou os modismos pedagógicos implementados nas escolas, sem qualquer consulta aos docentes, constituem-se como momentos repressivos que produzem a pseudoformação. A pseudoformação não é uma formação pela metade; é a negação da formação cultural e em seu lugar é colocada a falsificação da formação, que exclui da consciência dos indivíduos os resquícios de espanto e resistência. Para Adorno (1996), a pseudoformação é a forma dominante da consciência atual. É produzida, dentre outros fatores, pela separação social entre o trabalho do corpo e o trabalho do espírito. Nas relações mais avançadas do capitalismo, as diferenças econômicas impedem os indivíduos de pensar no sentido e na finalidade da formação cultural. As relações sociais, assim, evitam que a cultura cumpra a promessa de liberdade. Segundo o autor, a formação deveria se referir ao indivíduo livre e à sua consciência, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 82 pressupondo uma sociedade autônoma, uma humanidade sem status e sem exploração. Neste sentido, nas sociedades capitalistas, a formação cultural é convertida em pseudoformação socializada. Todavia, Adorno (1996) afirma que a auto-reflexão crítica sobre a pseudocultura é a única possibilidade de manter viva a cultura em nossos dias, uma vez que, por se desenvolver em uma sociedade contraditória, a cultura tem duplo caráter: de formação e de pseudoformação. Esta fortalece a ideologia e promove uma formação regressiva. A pseudoformação – o pseudo-saber – invade e destrói a possibilidade de realizar experiências formativas como um processo progressivo, emancipador e contínuo. Em seu lugar promove vivências: aceleradas, fragmentadas, nas quais a imediaticidade deforma a capacidade de pensar, entender e sentir. A pseudoformação não é um passo para a formação: ao contrário, é seu principal inimigo. Na condição de não-saber, o indivíduo busca saber; mas no pseudo-saber, a pessoa julga-se sabedora. A pseudoformação, assim, é o pseudo-entendido, o pseudo-experimentado, que possui status de entendido e experimentado. Também com a finalidade de discutir a preparação para o magistério e criticar o tecnicismo presente nos modelos formativos atuais e, assim, resgatar os processos de formação, Patto (2004) reflete sobre o lugar das humanidades neste processo. A autora afirma que as dificuldades da escola pública não podem ser compreendidas como de cada professor individualmente, maneira como são interpretados os obstáculos da educação e que está na base da constituição dos cursos de reciclagem e aperfeiçoamento, além dos de licenciatura e Pedagogia. A escola pública é uma instituição e, portanto, tem caráter social. Por isso, o que deve ser visado não é ao professor individualmente, mas sim à escola. O que não se percebe, segundo a autora, é que o chamado “despreparo” do pro- fessor só se agrava com propostas milagrosas dos cursos de aperfeiçoamento porque continuam sendo apoiados em teorias psicológicas de desenvolvimento e de aprendizagem que entendem a relação professor-aluno abstraída do contexto educacional. Por isso, resgata o lugar das humanidades no processo formativo, defendendo a presença da Filosofia e da História na formação de professores, para desenvolver tanto a atitude filosófica diante da realidade escolar, quanto para compreender a gênese histórica dos fenômenos educativos. No que se refere à Psicologia na formação dos professores, a autora aponta que ela é ilusória como instrumento para entender as relações entre desenvolvimento e a aprendizagem a fim de que o professor possa ter o domínio absoluto desses processos. O que a Psicologia pode trazer é a “leitura” ou a “escuta” do que surge nos grupos de formação e o trabalho com a angústia presente nas relações educativas. Conclui que a: Formação é mais do que domínio de conhecimentos em determinado campo disciplinar e aprendizagem de técnicas de ensino ou de pesquisa. Sem negar a relevância deles, insisto que formação é sobretudo exercício permanente de presença ativa no mundo, pensada da perspectiva do compromisso ético. Penso que uma nova concepção Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 83 de formação docente deve começar com uma nova concepção de educador: seja alfabetizador no ensino fundamental, professor de matemática no ensino médio ou docente de história da educação no ensino superior, ele deve ser formado como trabalhador intelectual, pois só assim pode fazer a sua parte na realização histórica da humanização da vida (PATTO, 2004, p. 77, grifo da autora). Como resgatar processos formativos orientados para a busca das experiências intelectuais, para o retorno à teoria como práxis? Como formar professores para a autonomia, para a auto-reflexão, enfim, para o desenvolvimento do espírito, do pensamento, contra a barbárie, para que possam ser formadores? Como a Psicologia pode se inserir na formação de professores, promovendo a consciência crítica, ao invés de oferecer receitas para aperfeiçoar o ensino? A Psicologia certamente não podesalvar a escola. Mas criticá-la como forma de aperfeiçoamento das relações pedagógicas ou ainda como explicação naturalizante para os problemas de escolarização pode desvelar os danos que ela tem causado para a instituição es- colar e para a formação de professores. A Psicologia como parte de um processo de formação pode ser a própria desconstrução dessa Psicologia tecnicista, instrumental, utilitarista. Nesta desconstrução é tarefa fundamental historicizar o conhecimento produzido pela Psicologia em sua relação com a Educação, quando se quer uma Psicologia participante de um processo formativo. O projeto filosófico da formação diz respeito àquele apontado por Maia (2002) de considerar radicalmente a condição social e recuperar historicamente o processo dialético do esclarecimento, que se dá por meio da teoria: De uma práxis que se opunha à ideologia, a crítica atualmente se refugia na teoria, procurando fugir a meros termos operacionais ou estatísticas que vigiam o funcionamento ótimo da máquina administrativa, mas neste refúgio, ao contrário de furtar-se à práxis, a crítica não deixa de ser também prática e política (Id. Ibid., p. 64-65). Neste sentido, não é qualquer Psicologia que pode garantir processos de formação, mas sim aquela que questione as crenças sobre ensino e aprendizagem eficazes e, por isso, garanta uma outra inserção dos professores no ensino de seus alunos. Esta Psicologia teria a chance de pôr os professores a pensar seu próprio pensamento. De acordo com Adorno (1996), a única possibilidade de sobrevivência da formação é o exercício da auto-reflexão crítica sobre a pseudoformação. No caso da Psicologia, é fundamental refletir criticamente sobre sua presença nos processos de pseudoformação de educadores como possibilidade de resgatar o sentido da formação. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Theodor W. Notas marginais sobre teoria e práxis. In: _____. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Tradução Maria Helena Ruschel. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. p. 202-231. _____. Teoria da semicultura. Educação e Sociedade, ano XVII, n. 56, p. 388-411, dez. 1996. ______. Educação e emancipação. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. CROCHIK, José Leon. A personalidade narcisista segundo a Escola de Frankfurt e a ideologia da racionalidade tecnológica. Psicologia USP, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 141-154, 1990. LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Conhecimento e razão instrumental. Psicologia USP, São Paulo, v. 8, n.1, p. 11-31, 1997. MAIA, Ari Fernando. Televisão e barbárie: um estudo sobre a indústria cultural brasileira. 226f. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. PATTO, Maria Helena Souza. Formação de professores: o lugar das humanidades. In: BARBOSA, R. L. L. (Org.). Trajetórias e perspectivas da formação de educadores. São Paulo: UNESP, 2004. p. 61-78. NOTAS 1 Em consulta ao acervo do sistema SIBI/DEDALUS da Universidade de São Paulo e, mais especificamente, ao Instituto de Psicologia (IP) e à Faculdade de Educação (FE) do campus da capital, foram encontrados diversos trabalhos que tratam da formação de professores. Na FE há mais de dois mil livros, artigos, dissertações e teses sobre o tema. Já no IP é possível encontrar cerca de cento e vinte trabalhos referentes ao assunto. Quando a consulta é efetuada tendo como palavras-chave formação de professores e Psicologia o número de registros na FE se reduz para noventa e cinco. No IP, foram encontrados 92 registros. Como pôde ser observado por meio dos títulos dos materiais encontrados, a maioria diz respeito ao ensino de técnicas ou métodos que possam aperfeiçoar as relações de ensino e aprendizagem. A Psicologia aparece representada em algumas teorias para instrumentar o professor em seu trabalho pedagógico. A partir da década de 90 é possível verificar a presença de trabalhos que visam ao estudo da formação do professor e de seu compromisso político. Todavia, há poucos trabalhos que se referem à análise crítica dos cursos de aperfeiçoamento docente ou à presença da Psicologia na formação de educadores. 2 Dissertação de Mestrado intitulada “Formação docente e racionalidade instrumental: reflexões sobre a Psicologia a partir do depoimento de professores”, sob a orientação da Profa. Titular Maria Helena Souza Patto, Instituto de Psicologia, USP, SP, defendida em junho/2006. 3 “[...] aquilo que caracteriza propriamente a consciência é o pensar em relação à realidade, ao conteúdo – a relação entre as formas e estruturas de pensamento do sujeito e aquilo que este não é. Este sentido mais profundo de consciência ou faculdade de pensar não é apenas o desenvolvimento lógico formal, mas ele corresponde literalmente à capacidade de fazer experiências. Eu diria que pensar é o mesmo que fazer experiências intelectuais. Nesta medida, e nos termos que procuramos expor, a educação para a experiência é idêntica à educação para a emancipação” (Adorno, 1996, p. 151). Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 85 INTRODUÇÃO Neste artigo, são apresentadas análises preliminares de dados obtidos em pesquisa desenvolvida em nível de graduação, no período 2006-2007, que objetiva responder à seguinte questão: quais concepções sobre a profissão docente são aprendidas por alunos dos cursos de Licenciatura durante sua formação inicial para a docência? Na formação inicial de professores buscou-se resposta para a indagação feita. A formação inicial de professores resulta da interação de uma complexidade de fatores que permeiam e caracterizam o curso de licenciatura. Nesta etapa da formação do professor, reduzir sua aprendizagem à aquisição de conhecimentos da área específica a qual pertence o conteúdo que ele irá ensinar pode não ser uma boa idéia, se se pensar que a complexa realidade que espera pelo professor na escola e na sala de aula exigirá dele bem mais do que isso. Aprender a ensinar é um processo, nas palavras de Mizukami (2002, p. 22). Um processo permanente (MIZUKAMI et al., 2002), do qual faz parte a formação inicial. Precedendo ao ingresso do futuro professor na escola, os anos de licenciatura são destinados à aquisição de conhecimentos e habilidades para a profissão. Na condição de instituição formadora do professor por excelência, a universidade assume o compromisso de introduzir o futuro professor no complexo universo da educação e do ensino, facultando-lhe os saberes necessários à docência: saberes sobre a escola, sobre o aluno, sobre o processo de ensino-aprendizagem, sobre as novas propostas educacionais etc. Na formação inicial, surge a necessidade de colocar o futuro professor em contato com as possibilidades e dificuldades relativas à sua profissão e à educação, de modo mais abrangente. Ao final da licenciatura, espera-se que o professor tenha alguma clareza a respeito de aspectos relacionados à sua profissão; espera-se que consiga fazer suas opções teórico- metodológicas, ainda que estas, em sua prática profissional futura, não se confirmem; espera-se que tenha segurança, ainda que minimamente, para desenvolver sua prática educativa. Isso seria esperar muito de uma formação inicial? Por que não investir devidamente nesta formação tornando- a suficientemente capaz de subsidiar com sucesso os momentos iniciais do professor na escola, momentos esses que, muitas vezes, definem todo um percurso profissional? A licenciatura, enquanto ponto de partida oficial de uma formação profissional que habilita para a prática1, pode APRENDIZAGENS SOBRE A DOCÊNCIA NA FORMAÇÃO INICIAL: UMA INVESTIGAÇÃO ANALÍTICO-DESCRITIVADAS CONCEPÇÕES DE FUTUROS PROFESSORES SOBRE A SUA PROFISSÃO LOPES, Rosemara Perpétua (UNESP/IBILCE/Pedagogia); NONO, Maévi Anabel (UNESP/IBILCE/Educação) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 86 ser a chave para a satisfatória realização de um processo formativo permanente. Epistemologicamente, licenciar é conferir o direito a alguém de exercer algo (uma profissão). Seria a licenciatura apenas uma autorização, uma outorga, ou implicaria ela em algo mais, como, por exemplo, compromisso? Que contribuição ao processo contínuo de formação do professor pode (ou cabe à) a formação básica oferecer? As universidades formam professores. A licenciatura habilita o professor para as salas de aula. As grades curriculares dos cursos de licenciatura evidenciam a formação inicial oferecida, apontam na direção de como os futuros professores irão conceber e se relacionar com sua profissão. É a formação universitária moldando a visão de mundo do estudante, influindo na sua vida profissional. Os conhecimentos aprendidos pelo estudante na universidade orientam o pensar e o agir do professor na escola. Os conhecimentos adquiridos por esse profissional antes de iniciada a sua carreira - não somente os adquiridos nos anos de licenciatura, mas também os adquiridos nos anos de escolaridade - figuram como aprendizagens de uma formação que nunca se acaba. Quem é o profissional que atende pelo nome de professor? Quem é essa figura central dos discursos e estudos educacionais? Nas palavras de André (2001, p. 92-3), [...] professor não é, certamente, apenas aquele que ensina em determinada área específica, professor é também aquele que atua na instituição social, política e cultural, que é a escola, participando (consciente ou inconscientemente, de maneira competente ou não) das lutas políticas que se travam nela e por ela, e das experiências sociais e culturais que se desenvolvem no contexto escolar – lutas e experiências que ensinam tanto quanto (ou mais do que?) as áreas específicas em que ensinam. [...] Muitas são as dimensões do profissional professor [...]; sua formação deve, pois, abranger todas essas dimensões. Formar o professor não é apenas qualificá-lo em uma área específica, capacitá-lo teórica e metodologicamente para ensinar determinado conteúdo, mas é também formá-lo para enfrentar e construir a ação educativa escolar em sua totalidade. Embora longa, a citação acima se faz oportuna. Nela, André afirma que muitas são as dimensões do profissional professor e que todas essas dimensões deverão ser contempladas em sua formação. De outro modo, para quê se forma o professor? O professor é um profissional, não um missionário. Historicamente foi um missionário, na época dos jesuítas. Mas este tempo é passado (não é mesmo?). Independentemente do conteúdo específico que ensina – Língua Portuguesa, Matemática, Biologia, História, Geografia, Artes, e outros -, o professor é um profissional que atua no campo da educação. Nas palavras de André (idem, p. 100), [...] só estará habilitado para uma ação pedagógica pertinente e competente no ensino da Matemática, das Ciências, da Física, da Biologia, da Química, da Geografia, da História etc., um professor cuja formação tenha sido influenciada – marcada, determinada – pelas pesquisas na área específica ou nas áreas específicas na qual ou nas quais e para a qual ou para as quais se forma professor. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 87 Muitos autores estudam e escrevem sobre a profissão docente, sobre o professor e seus saberes (TARDIF, 2001; MIZUKAMI, 2004). Na literatura educacional, os diferentes paradigmas de formação do professor são objeto de análise (PÉREZ GÓMEZ, 1992). O perfil de um curso de licenciatura varia de acordo com o tipo de formação a ele veiculada. Na perspectiva de Pérez Gómez (1992, p. 110), a prática deveria assumir um papel central em todo o currículo dos cursos de formação docente, visto que, na vida profissional, na escola, o professor se defronta com variadas situações para as quais não encontra respostas pré-elaboradas. Não se pode negar que as situações incertas e conflituosas da sala de aula, enquanto reflexo de uma sociedade igualmente incerta e conflituosa, requerem atenção e superação constantes. À educação cabe responder às mudanças sociais e tecnológicas ocorridas ao longo do tempo. No campo de atuação do professor, o desafio da sala de aula (e, de modo mais abrangente, de um ensino de qualidade) permanece. Segundo Mizukami et al., [...] aprender a ser professor, nesse contexto, não é, portanto, tarefa que se conclua após estudos de um aparato de conteúdo e técnica de transmissão deles. É uma aprendizagem que deve se dar por meio de situações práticas que sejam efetivamente problemáticas, o que exige o desenvolvimento de uma prática reflexiva competente. Exige ainda que, além de conhecimentos, sejam trabalhadas atitudes, as quais são consideradas tão importantes quanto os conhecimentos. (2002, p. 12) No cenário educacional dos dias atuais, figura, ainda, a questão apresentada por Mizukami (2004), no artigo Aprendizagem da docência: algumas contribuições de L. S. Shulman. A questão é “como os professores aprendem a ensinar”. De acordo com o artigo, os professores precisam ter diferentes tipos de conhecimentos, a exemplo do específico, do pedagógico do conteúdo e do curricular. Os professores devem ter conhecimento das formas de transformar o conteúdo considerando os propósitos do ensino, assim como conhecimento das formas de comunicar tal compreensão, de modo a propiciar o desenvolvimento do conteúdo comunicado na mente do aluno. Os professores devem encontrar formas de comunicar conhecimentos para os outros. De acordo com um depoimento citado em Wilson, Shulman, Richert (1987, apud MIZUKAMI, 2004), quando se aprende a ser professor, deve-se aprender em termos de como se irá ensinar algo, de como isso irá afetar os estudantes e de como eles serão capazes de entender o conteúdo proposto2. Ao se falar em “o professor deve isto ou aquilo”, é sempre bom esclarecer que, muitas vezes, não é a boa vontade do professor que o leva à ação, mas sim fatores como formação, condições de trabalho e recursos favoráveis. Muitas vezes, o professor (já em exercício) sequer se dá conta de que é possível agir de outro modo. A desvalorização da profissão docente contribui para mantê-lo neste “estado de dormência”. Pode acontecer ainda que o professor vá para a escola munido de boas intenções, em busca da concretização de suas idéias e ideais. Ele quer fazer o melhor, e trabalha com afinco para isso, acreditando no que faz. No entanto, sozinho as Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 88 chances de sucesso nessa empreitada reduzem-se, podendo tornar-se nulas. Isto porque o pro- fessor não é uma ilha na escola, assim como também a escola não o é na sociedade. Segundo defende Libâneo (2001, p. 192), “[...] a profissão de professor combina sistematicamente elementos teóricos com situações práticas reais”. A este respeito, Libâneo faz a seguinte consideração: Atualmente, em boa parte dos cursos de licenciatura, a aproximação do futuro professor à realidade escolar acontece após ter passado pela formação “teórica” [inicial] tanto na disciplina específica como nas disciplinas pedagógicas. O caminho deve ser outro. Desde o ingresso dos alunos no curso, é preciso integrar os conteúdos das disciplinas em situações da prática que coloquem problemas aos futuros professores e lhes possibilitem experimentarsoluções. [...] os alunos [futuros professores] [diz ele] precisam conhecer o mais cedo possível os sujeitos e as situações com que irão trabalhar. O que Libâneo propõe é uma articulação entre teoria (acadêmica, por excelência) e prática (escolar). Como ele mesmo diz “[...] trata-se de uma formação centrada nas demandas da prática” (LIBÂNEO, 2001, p. 193). A relação entre organização (cultura) escolar e formação docente estabelecida pelo autor traduz-se na premissa de que a organização escolar é fonte e meio de aprendizagem profissional. O ponto de vista de Libâneo evidencia o fato de que o profes- sor não está isolado no ambiente escolar, ele determina esse ambiente, sendo por ele determinado. Numa época em que estudiosos consideram a racionalidade prática como o tipo de formação necessária aos futuros professores (PÉREZ GÓMEZ, 1992; ZEICHNER, 1993; SCHÖN, 1992), Libâneo apresenta a escola e sua organização como local de formação docente. A docência envolve uma multiplicidade de fatores, conforme se observa. Falar sobre docência é falar sobre sujeitos e processos. Sujeitos são idiossincráticos, culturais, sociais, históricos; processos são contínuos. A diversidade permeia o processo formativo do professor, da universidade à escola. O universo escolar espera pelo professor, seus saberes, suas práticas. E o professor, que expectativas tem sobre o universo escolar, o que sabe sobre o seu campo de atuação, sobre sua função - na escola e na sociedade -, sobre a função da escola, do ensino e da educação? Isso tudo tem muito peso na prática educativa. As concepções dos professores norteiam seu trabalho na escola (MARCELO GARCIA, 1997, p. 65). Professores em início de carreira vivem o drama da “adaptação”, por quê? Por que não tornar o ingresso do professor na escola mais sublime e menos traumático, conferindo-lhe previamente saberes sobre a realidade desse lugar e de seus ocupantes? ASPECTOS GERAIS DA PESQUISA Questões como as acima expressas motivaram a investigação sobre processos de aprendizagem da docência vividos por estudantes do quarto ano em cursos de licenciatura, formação básica aqui focalizada. Tal investigação resultará no Trabalho de Conclusão de Curso Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 89 de Graduação do Curso de Licenciatura em Pedagogia. Pressupondo ser a licenciatura um período caracterizado pela aquisição de saberes sobre a docência e período no qual é formada a visão do futuro professor sobre a sua profissão – visão, esta, que orientará a sua prática educativa na carreira inicialmente –, elaborou-se, como instrumento de coleta de dados, um questionário contendo oito perguntas abertas, referentes às seguintes temáticas: prática educativa na concepção do futuro professor, relação entre teoria (conhecimento) e prática (do professor), gestão escolar na concepção do futuro professor, aprendizagens ou saberes do futuro professor na formação básica, a importância das experiências de ensino na formação do professor. O questionário foi respondido por vinte estudantes de dois cursos de licenciatura: Curso de Licenciatura em Letras e Curso de Matemática Licenciatura, de uma universidade pública do interior paulista. Dos vinte estudantes, dez pertencem a cada um dos cursos mencionados; dos dez, cinco estudantes freqüentam o curso no período diurno e cinco no noturno. A coleta de dados foi realizada em sala de aula, no período de novembro de 2006 a março de 2007. Para realizá-la, contou-se com a colaboração de professores dos cursos envolvidos. Feita a coleta, procedeu-se à descrição e análise dos dados, tendo sido estabelecidos os seguintes eixos de análise: 1) Professor: da teoria à prática da sala de aula, no qual se buscou evidenciar as concepções dos estudantes sobre a prática educativa do professor em sala de aula, sobre o papel do professor na escola e na sociedade, sobre as teorias educacionais que orientam a prática educativa do professor; 2) A relevância das concepções do professor na prática educativa, no qual se buscou evidenciar as concepções dos estudantes questionados sobre o ensino e a educação, pressupondo, por sua abrangência, essas concepções são indicativas dos processos de aprendizagem vividos pelos futuros professores e também de suas concepções sobre a profissão para a qual se formam; 3) O papel do professor na gestão escolar, no qual se buscou evidenciar a concepção dos estudantes sobre gestão escolar e, mais especificamente, sobre o papel do professor na escola, evidenciado se, para os estudantes questionados, a ação do professor está restrita ou não à sala de aula; 4) Saberes e formação docente, no qual foi dado enfoque aos saberes aprendidos ou não pelo estudante na licenciatura, pressupondo serem esses saberes reflexo da formação do estudante; 5) Formação e trabalho docente, eixo no qual foi dado enfoque à interface existente concepções e práticas, ambas tributárias da formação profissional do estudante; 6) Experiência docente: formação que transcendo os estreitos limites da sala de aula da universidade, eixo no qual se buscou evidenciar a experiência de ensino dos estudantes questionados, discutindo a importância dessas experiências na formação do profes- sor. Atualmente, a investigação se encontra na etapa final de análise. O trabalho realizado até o momento tem revelado certa insegurança dos futuros professores quanto à profissão para a qual se formam e aparente fragilidade de suas concepções sobre a docência. Os estudantes mostram-se preocupados e receosos quanto ao que os espera depois da formatura na escola de ensino fundamental e médio, seu campo de trabalho. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 90 Em resposta ao questionário, os estudantes escreveram, entre outras abordagens, sobre o que aprenderam no curso que os forma, sobre o que não aprenderam e sobre o que gostariam de ter aprendido, mas não aprenderam. Nesse intuito, expressaram desejos e frustrações; escreveram sobre suas perspectivas e angústias. A criticidade marca o discurso dos sujeitos envolvidos na pesquisa, levando o leitor à reflexão sobre a importância da formação básica no percurso profissional do professor, afinal, os momentos iniciais do professor na escola podem ser cruciais à sua carreira, conforme afirma o estudante ALN43. Desiludido, melhor dizendo, frustrado em suas expectativas, o professor iniciante corre sério risco de abandonar ou tornar-se indiferente à profissão escolhida. [...] Já tive experiência como estagiária, professora substituta e monitora. Foram péssimos quando relativos ao ensino de escola pública. Na escola particular, encontrei dificuldades também, mas estas podiam ser sanadas com o conhecimento de prática de ensino que tivemos na graduação. Atualmente leciono apenas particularmente porque nesses casos há interesse de aprendizagem por parte do aluno e com isso posso aplicar o que aprendi na graduação. Fora isso, é impossível dar aula. O que fazemos é uma tentativa frustrada e um desgaste emocional intenso para educar (no sentido de “dar berço”) os [aos] alunos, uma vez que os pais delegaram tal responsabilidade para a escola. No caso da escola pública, pior, pois além disso, somos constantemente ameaçados. Viramos na verdade, uma descarga das frustrações dos alunos que não conseguem aprender e não vêem sentido nisto e portanto destrata [destratam] o professor a todo momento. Eu me desiludi totalmente e profundamente com a profissão do professor. (ALN4) A análise, cujo objetivo é evidenciar o que pensa o estudante que cursa o quarto ano de licenciatura sobre a sua profissão – a docência – vem revelando a precariedade de uma formação que não priorizao preparo do estudante para o ingresso na escola como professor, conforme evidencia o enunciado pelo estudante AMN4. Talvez discussões como esta sejam os conteúdos mais importantes para o professor. No curso de matemática aprendi a ficar bom em cálculo e não deixar nenhum aluno me pegar com perguntinhas chulas, mas o que direi para um aluno com problemas familiares, iniciando o uso de drogas ou que não respeita professor e colegas? Faça o exercício x e y? Quem sabe assim eles resolvam seus verdadeiros problemas e também goste da matemática... Parece irônico. (AMN4) Nas respostas, alguns estudantes demonstram mais do que insegurança; demonstram desespero e, algumas vezes, revolta, como no caso de AMN4. Ao discorrer sobre a realidade que espera por eles na escola, evidenciam seus temores e sua visão negativa do campo de atuação do professor. Alguns se declaram frustrados e ou decepcionados com o que viram nas escolas como estagiários, a exemplo de ALN4. Chama a atenção o modo como o estudante de licenciatura define sua profissão futura. No caso do estudante AMN4, uma visão pouco otimista da profissão marca seu discurso, como ilustra o trecho a seguir. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 91 A profissão PROFESSOR é a mais atuante na educação depois daquela recebida em casa pelos pais. Mas hoje vemos situações contraditórias a isso: pais que acham que professores são responsáveis pela educação dos filhos; professores que simplesmente transmitem idéias e não aprendizado; “prostitutas e prostitutos” do saber: fácil de se ganhar dinheiro lidando com pessoas carentes e cedentes de aprendizado. (AMN4) Ao escrever sobre a experiência de ensino que teve, o estudante ALN5 evidencia aspectos da formação básica vivida. O estágio de observação na rede pública é obrigatório no último ano. É interessante quando você consegue aprender alguma dica sobre dar aula com o professor. Mas me parece desnecessário quando tudo o que o professor da série “tal” faz é gritar e gritar; b) já lecionei língua portuguesa, mas somente para adultos e foi uma ótima experiência porque você se sente a vontade para falar de igual a igual, pode cobrar coisas deles que não são possíveis de serem feitas a uma criança. Já lecionei outras coisas que não língua portuguesa a crianças de várias idades. Também é legal, mas a gente tem que ter mais calma e paciência, além de saber dosar. (ALN5) Em suma, a investigação tem revelado que o preparo e as perspectivas dos estudantes envolvidos na pesquisa são negativos em relação à sua profissão, cujo campo de atuação é a escola. Embora receosos, inseguros e descontentes, esses estudantes em breve (em 2008) estarão na escola, atuando e sobrevivendo ao desafio de ensinar em condições adversas, contando apenas com as aprendizagens de uma formação inicial centrada numa realidade que não é a da escola de ensino fundamental e médio para a qual o professor se dirigirá. Nesse sentido, parece previsível o futuro que os aguarda nos primeiros anos da docência. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA PESQUISA REALIZADA Considerando o que a investigação tem revelado até o momento, o problema que se coloca é o da não percepção da realidade vivida. Na escola, se o professor não conseguir ir além do senso comum em relação à realidade que o cerca - especialmente o professor em início de carreira -, refletindo e agindo com segurança sobre essa realidade, suas chances de superar desafios e adversidades, assim como de sobreviver a mudanças educacionais constantes reduzem- se, podendo comprometer sua carreira e, até mesmo, sua saúde (mental). Realidades aparentes remetem ao mito da caverna, de Platão: é preciso enxergar além das sombras (realidade aparente vivida no interior da caverna), sem, contudo, deixar que os olhos acostumados à escuridão deslumbrem ao contemplar a claridade antes desconhecida. A formação de professores é um dos primeiros fatores a ser considerado quando se trata de qualidade da educação e do ensino (NÓVOA, 1997). Nesse sentido, convém lembrar o que afirma Marcelo Garcia (1997, p. 51), ao citar Kemmis (1987, p. 74): “[...] a educação só pode reformar-se transformando as práticas que a constituem”. Práticas e políticas que, conforme Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 92 enunciado pelo estudante ALN1, configuram o campo de atuação do professor, campo no qual a educação e o ensino acontecem. Ao meu ver, não é só o ensino que não está bem, e sim toda a educação brasileira, partindo do material didático defasado, da indisciplina, da progressão continuada (que faz com que muitos alunos, que não sabem nem escrever cheguem ao Ensino Médio), das políticas educacionais adotadas (com uma visão utópica do ensino), e da má administração escolar encontrada em várias escolas. Cabe, porém, inserir ao caótico sistema educacional brasileiro as péssimas condições de ensino a que muitos alunos são submetidos. Isto se dá devido a má remuneração dos educadores, as precárias condições de trabalho, etc., o que leva [faz] com que muitos se sintam desmotivados a exercer com primazia seus trabalhos. (ALN1) A escola, enquanto campo de atuação do professor, não pode figurar como uma estranha e ameaçadora realidade àquele que freqüenta o último ano de uma formação básica para a docência. De outro modo, da universidade à escola, o choque entre o estudado e o vivido se fará inevitável. Tomando-se a formação permanente como parâmetro, o contexto educacional apresentado pelo estudante ALN1 leva à reflexão sobre quais conhecimentos são necessários ao professor para atuar na instituição escolar, nos dias atuais. Uma investigação para além dos conhecimentos devidos à formação básica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRÉ, M. (Org.). O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001. LIBÂNEO, J.C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa, 2001. MARCELO, C. Pesquisa sobre a formação de professores: o conhecimento sobre aprender e ensinar. Revista Brasileira de Educação, n. 09, Set/Out/Nov/Dez 1998. MARCELO GARCIA, C. A formação de professores: novas perspectivas baseadas na investigação sobre o pensamento do professor. In: NÓVOA, A. (Coord.). Os professores e a sua formação. 3ª ed. Lisboa, Portugal: Dom Quixote, 1997. (Coleção Temas de Educação, v. 1). MIZUKAMI, M. G. N. Aprendizagem da docência: algumas contribuições de L. S. Shulman. Revista do Centro de Educação. Universidade Federal de Santa Maria, vol. 29, n. 02, 2004. Disponível em http://www.ufsm.br/ce/revista/revce/2004/02/a3.htm. Acessado em: 13/jun/2007. MIZUKAMI, M. G. N. et al. Escola e aprendizagem da docência: processos de investigação e formação. S. Carlos: Ed. UFSCar, 2002. NÓVOA, A. (Coord.). Os professores e a sua formação. 3ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1997. PÉREZ GÓMEZ, A. O pensamento prático do professor: a formação do professor como profissional reflexivo. In: NÓVOA, A. (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992, pp. 95-114. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 93 SCHÖN, D. A. Formar professores como profissionais reflexivos. In: NÓVOA, A. (Org.). Os professores e sua formação. Lisboa, Dom Quixote, 1992. TARDIF, M.. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. ZEICHNER, K. M. A formação reflexiva de professores: idéias e práticas. Lisboa, EDUCA, 1993. NOTAS 1 Segundo Marcelo (1998, p. 56), “os professores em formação possuem crenças e imagens anteriores [à formaçãobásica] que os acompanham ao longo de sua formação”. 2 Sobre os diferentes tipos de conhecimentos dos professores previstos por Shulman, ver Marcelo Garcia (1997). 3 No decorrer do texto, serão utilizadas as seguintes siglas: ALN4, AMN4, ALN5 e ALN1, significando, cada qual, respectivamente: Aluno de Letras do período Noturno, número quatro; Aluno de Matemática do período Noturno, número quatro; Aluno de Letras do período Noturno, número cinco, e Aluno de Letras do período Noturno, número um. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 94 INTRODUÇÃO O presente trabalho objetiva, fundamentalmente, problematizar a formação de professores como campo de conhecimento, tendo em vista as dificuldades presentes em sua constituição. Foi organizado a partir do levantamento da produção de setenta e três grupos de pesquisa participantes do I Simpósio dos Grupos de Pesquisa sobre Formação de Professores no Brasil, promovido pelo GT Formação de Professores da ANPEd, coordenado pelas autoras deste trabalho e realizado em julho de 2006, na PUC/SP. O Simpósio constou das seguintes etapas: 1ª. Conferência de abertura, proferida pela Profª Drª Maria do Céu Neves Roldão (Universidade do Minho – Portugal), intitulada - “A formação de professores como objeto de pesquisa - contributos para a construção do campo de estudo a partir de pesquisas portuguesas”, na qual foram lançadas as bases teóricas para a discussão dos trabalhos apresentados pelos grupos de pesquisa participantes do evento; 2ª. Distribuição dos grupos de pesquisa em Grupos de Trabalho (GTs), de modo que cada GT pudesse contar com propostas oriundas de diferentes instituições e regiões geográficas do país. Cada grupo de pesquisa participante apresentou o relato de seus trabalhos, a partir do seguinte roteiro de análise: objetivo principal; campo temático (tema e subtemas); população-alvo; quadro teórico; natureza da investigação; contribuições para o campo da formação de professores; desafios teórico-metodológicos; 3ª. Socialização dos resultados dos grupos de trabalho, por item do roteiro, em grande grupo; 4ª. Análise desses resultados, empreendida pelas seguintes pesquisadoras convidadas e seguida de debates: Maria da Graça Mizukami (Universidade Mackenzie), Menga Lüdke (PUC-Rio) e Maria do Céu Roldão (Universidade do Minho – Portugal), esta última cotejando os resultados obtidos nos grupos de trabalho com o referencial teórico apresentado por ela na conferência de abertura do evento. CONTEXTUALIZANDO O CAMPO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES A formação de professores, como objeto de pesquisa, vem sendo analisada por meio de levantamentos realizados a título de “estados da arte” ou “estados do conhecimento”, ou ainda “revisões de investigação”. ARTICULANDO CONHECIMENTOS E CONFIGURANDO O CAMPO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES LIMA, Emília Freitas de (UFSCar); PASSOS, Laurizete Ferragut (PUC/SP) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 95 As análises empreendidas pelo GT Formação de Professores (GARRIDO; BRZEZINSKI, 2001; LIMA et al., 2003) revelam, nas discussões acerca do campo de pesquisa sobre a formação de professores, que, nos anos 90 e nos três primeiros anos da presente década, têm predominado os estudos sobre Formação Inicial; Formação Continuada e Desenvolvimento Profissional Docente; Saberes Docentes e Aprendizagem Profissional. Quanto ao primeiro tema, destacam-se os estudos que analisam disciplinas constantes do currículo das licenciaturas. Com relação ao segundo, destacam-se estudos sobre os processos individuais da aprendizagem da docência e da produção e mobilização de saberes. Finalmente, ao terceiro tema correspondem trabalhos que focalizam aspectos relativos ao ensino em sala de aula, tanto dos cursos formadores quanto dos professores em formação. Os temas menos abordados têm sido: dimensão política da formação e da profissão docente; processos de construção da aprendizagem do início da docência; base de conhecimento profissional; ensino fundamental de 5ª a 8ª séries; ensino médio; políticas públicas de formação; ensino superior (nesse caso, encontram-se trabalhos sobre a formação na universidade, mas são raros os estudos sobre a formação dos professores da universidade). Têm sido silenciados temas como: profissionalização (valorização da carreira, condições de trabalho, apoios à formação, movimentos docentes organizados, relações com as instâncias administrativas e pedagógicas etc.); relações entre formação e gênero; lugar / papel da Formação Inicial no continuum da Formação de Professores; formação de professores e temas transversais dos PCN; formação de professores para atuar fora da escola (movimentos sociais, hospitais, presídios, crianças em situação de risco etc.); ensino profissionalizante; Educação de Jovens e Adultos; Educação Especial; Educação Rural, entre outros. Por outro lado, alguns temas aparecem como emergentes: professor formador; formação de professores a distância; formação de professores e informática; interdisciplinaridade; trabalhos na linha dos Estudos Culturais (relações entre cultura e escola, cidadania etc.- mais voltados para currículo-em-ação do que para Formação de Professores). Uma análise mais global permite identificar centralização em torno de alguns temas versus lacunas ou “desprestígio” em relação a temas importantes para a área. Permite, ainda, constatar que algumas dessas produções se alinhariam, por exemplo, com discussões sobre a prática pedagógica, outras com discussões sobre currículo. Portanto, as primeiras se identificariam mais proximamente com o GT de Didática e as últimas, com o de Currículo, na atual configuração organizativa da ANPEd. Talvez isso se deva ao que Roldão (2006, p.1) diagnostica como dificuldade própria da área de Educação e de outras áreas do campo das Ciências Sociais, tendo em vista “a complexidade dos objectos de estudo, inseridos na trama social e histórica tanto quanto por ela influenciados”, tornando “difícil a clarificação de territórios de pesquisa e campos bem definidos do conhecimento”. A partir daí, procurou problematizar o “campo de estudo FORMAÇÃO DE PROFESSORES”, definindo-o em termos de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 96 [...] conceitos estruturantes que tendencialmente deverão delimitar e centrar a investigação a produzir, tomando em devida conta as necessárias interfaces com o que designámos por campos adjacentes, mas que não podem ser subsumidos num campo difuso, porque demasiado amplo, que perde dessa forma parte do seu potencial interpretativo e teorizante (ROLDÃO, 2006, p.3)¹. Para ela, são conceitos estruturantes do campo de estudo Formação de Professores aqueles referentes aos processos de aprendizagem e desenvolvimento da construção do conhecimento e do desempenho profissional dos docentes, especificados em três elementos definidores da profissão docente: a função docente e sua natureza, o desempenho docente, e a natureza e componentes do conhecimento profissional. Já entre os campos adjacentes, são por ela identificados os do currículo e da didática, e os campos das culturas docentes e cultura organizacional de escola; e, num segundo nível de proximidade, e resultantes em larga medida do cruzamento das culturas profissional e organizacional, os domínios de estudo ligados ao pensamento e concepções dos professores, identidade profissional e percursos profissionais. Haveria, também, para a autora, campos próximos, nos quais estariam os trabalhos relacionados à formaçãoem outros contextos (formação de outros profissionais, formação de adultos e outras). No texto-base (op.cit.), esse esquema conceitual é apresentado com riqueza de detalhes e de argumentações e constituiu ferramenta fundamental para as discussões ocorridas no referido Simpósio. A partir, então, da revisão dos estudos na área de Formação de Professores e da contribuição da pesquisadora convidada – cujas idéias rapidamente delineamos – foi possível mapear, de maneira clara, as questões e problemas centrais do campo, que constituíram o ponto de partida para o debate realizado durante o Simpósio. ANALISANDO QUESTÕES E PROBLEMAS CENTRAIS DO CAMPO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES Após a realização dos trabalhos em grupos e de sua socialização no grande grupo, o debate dos resultados daí advindos – empreendido pelas Professoras Maria da Graça Mizukami, Menga Lüdke e Maria do Céu Roldão – enfatizou aspectos, que, a nosso ver, possibilitaram avanços importantes em direção à busca de configuração do campo da pesquisa em formação de professores. Alguns deles são indicados a seguir. Uma das principais questões destacadas foi aquela referente à presença de certa indefinição entre as concepções de professor pesquisador e pesquisador acadêmico e entre pesquisa e intervenção. Na raiz dessa questão está a concepção de pesquisa, que se encontra em plena evolução. Se, de um lado, temos de aceitar certa abertura, de outro não podemos perder os limites da função precípua da pesquisa, o que implica a necessidade de configurar Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 97 muito claramente o problema, a fim de procurar entendê-lo, esclarecê-lo. Neste caso, é essencial distinguir-se entre o problema, tal como é detectado na prática pedagógica e a problematização dele enquanto gerador de pesquisa. Por mais que se pareça com um jogo de palavras, localizar- se-ia aí a sutileza que distinguiria um relato de experiência sobre uma dada situação e uma pesquisa. Diretamente vinculada a esse tema está a questão do campo teórico-conceptual, envolvendo a natureza do conhecimento dos “acadêmicos” e dos “práticos”. Esses dois tipos de conhecimento não são de natureza diferente: o que ocorre é que o dos professores, sendo prático, só se constitui em conhecimento se for alimentado pelo conhecimento sistematizado. A resolução desta incomunicabilidade tem de ser superada por uma redefinição dessa relação. Foi também constatada, no conjunto da produção dos grupos de pesquisa, uma confusão entre metodologia, método e técnica, assim como fragilidade das elaborações teóricas, indispensáveis à construção do conhecimento. Destacou-se, ainda, a presença de muitas questões “suspensas” a respeito da “pesquisa colaborativa” e “pesquisa em cooperação”, como, por exemplo, as que dizem respeito a iniciativa, mérito e autoria. Chamou a atenção para o fato de que a base de tais pesquisas tem de ser a escola. O conjunto da produção apresentada permitiu detectar-se uma escassa presença de estudos envolvendo observação, o que confirma resultados de levantamentos feitos também no exterior. Tal indicador é preocupante, já que tais estudos são extremamente importantes para que se estabeleça o confronto entre a lógica do professor e a do pesquisador. Os resultados apontaram a ausência de pesquisas sobre avaliação da formação, o que constituiria importante indicação para futuros estudos. Apontaram, ainda, uma exacerbação do uso da “pesquisa qualitativa”, que ainda aparece nos trabalhos como em oposição à “quantitativa”. Além disso, foi percebida a presença de indefinição do significado de “pesquisa qualitativa” e de “pesquisa etnográfica”. Foi feita a defesa da importância de estudos meta-analíticos, que identifiquem regularidades e lacunas na produção da área. Com relação ao quadro teórico que fundamenta os trabalhos dos grupos de estudos participantes do Simpósio, foram destacados os seguintes aspectos: a) De modo geral, os grupos se apóiam em literatura semelhante sobre Formação de Professores; b) Como os grupos não explicitaram o entendimento de alguns termos básicos (reflexão, por exemplo), tal referencial pode ter conotações diferentes. Foi indicado como muito importante haver a “tradução” de nossas fontes teóricas, pois isso repercute nas opções metodológicas; c) O quadro teórico presente no trabalho dos grupos é amplo, tendo como referência várias áreas do conhecimento importantes, tais como a Psicologia, a Sociologia, a Psicanálise, a Antropologia. Se, de um lado, tal amplitude pode ser positiva, de outro é importante que a pergunta Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 98 de pesquisa tenha natureza educacional e não psicológica, antropológica ou social, embora a Educação se sirva dessas áreas. Essa é uma preocupação de natureza epistemológica, que indica o cuidado na salvaguarda dos campos, mas com diálogo entre eles, pois o conhecimento educacional não é a “aplicação” dos conhecimentos gerados em outras áreas. Foi, ainda, discutida uma questão de fundo no tocante à pesquisa sobre Formação de Professores: estaria ela contribuindo para enfrentar os problemas da escola básica? Nesse sentido foi destacado como preocupante, por exemplo, o fato de só ter havido, entre os setenta e três grupos presentes ao evento, um discutindo alfabetização e um pesquisando ensino técnico. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho constitui um embrião de estudo meta-analítico, com vista à difícil tarefa de configurar o campo da Formação de Professores. Cada uma das questões aqui levantadas possibilita desdobramentos e exige aprofundamentos que fogem ao escopo deste artigo. Não obstante suas proporções, possibilita a indicação de pontos importantes a serem considerados na produção da área. Permite, ainda, o estabelecimento de diálogo entre os pesquisadores, cuja dificuldade foi um dos aspectos destacados no referido evento, razão pela qual foi louvada a iniciativa de sua realização e indicada a necessidade de sua continuidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRÉ, M. (org.) Formação de professores (1990-1998). Brasília: MEC/INEP/COMPED, 2002. ______. A formação de professores nas pesquisas dos anos 1990. In: MACIEL, L.S.B.; SHIGUNOV NETO, A. Formação de professores: passado, presente e futuro. São Paulo: Cortez, 2004. GARRIDO, E.; BRZEZINSKI I., Análise dos trabalhos do GT Formação de Professores: o que revelam as pesquisas do período de 1992 a 1998. Revista Brasileira de Educação, n. 18, set./out./ nov./dez., 2001, p. 82-100. LIMA E. F. de; TERRAZZAN E. A.; BRZEZINSKI I.; GARRIDO E.; NÚÑEZ I. B.; PASSOS L. F.; RAMALHO B. L.; RIBAS M.H.. Análise dos trabalhos apresentados no GT8 no período de 1999 a 2003. Trabalho apresentado na 26ª Reunião Anual da ANPEd, na categoria de “Trabalho Encomendado”. Poços de Caldas / MG, 2003. ROLDÃO, M.C. A formação de professores como objecto de pesquisa - contributos para a construção do campo de estudo a partir de pesquisas portuguesas. Lisboa/Pt, 2006 (mimeo.) NOTAS ¹ O texto-base da Conferência: ROLDÃO, M.C. A formação de professores como objecto de pesquisa - contributos para a construção do campo de estudo a partir de pesquisas portuguesas. Lisboa/Pt, 2006 (mimeo.) foi publicado no n.1 da Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar (disponível em http://www.reveduc.ufscar.br:8080/) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 99 A ações de formação continuada no Brasil são recentes. Datam de meados da década de 60 einício da década de 70 as primeiras sistematizações dos órgãos públicos voltados ao aperfeiçoamento do pessoal docente (PALMA FILHO e ALVES, 2003), inclusive pelo Ministério da Educação (MEC) na modalidade de cursos. Em meados da década de 70 e 80 iniciou-se o trabalho de treinamento e formação permanente junto aos professores no então ensino de primeiro grau no Brasil. Os cursos funcionavam sob a forma representativa, ou seja, alguns poucos professores participavam das formações e depois “repassava” essa mesma formação aos demais docentes das escolas em que atuavam. Essa técnica de formação teve grande influência no modo de desempenhar ações de formação contínua para professores no país, pois acreditava-se, com base nos resultados positivos que esse tipo de formação apresentava à parcela de professores participantes destes “treinamentos”, na viabilidade e eficácia dos cursos para os profissionais do ensino. Concomitante ao desenvolvimento dessa prática de formação, a expansão da escola pública inaugura um novo período para a educação nacional, já que eram grandes as demandas que insidiam nesse setor emergente. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o discurso de democratização reforçou os desafios postos à escola pública e à atuação dos professores, já que vislumbrava o acesso de todos à escola. Dessa mudança decorreram inúmeras dificuldades de manutenção do sistema educacional, acarretando modificações significativas nas orientações e políticas educacionais que se seguiram. Um dos problemas encontrados com a abertura da escola à população e com os anseios de uma paridade democrática refletiu no exercício do magistério e na profissão docente. Data dessa época o recrutamento de professores sem qualificação para o exercício da profissão, especialmente das séries iniciais do ensino básico, e também a necessidade de realizar ações de capacitação dos docentes, cuja responsabilidade se estendia para além da educação de uma pequena elite. Entretanto, a envergadura do discurso político não teve uma extensão prática em termos da atuação pedagógica, ou no modo de processar o ensino. Os professores atuavam na diversidade sob a lógica da homogeneidade. No início da década de 90 o país passa por um intensificado processo de diminuição das ações do Estado, a qual teve reflexões também na área educacional _ processo observado especialmente a partir do governo de Fernando Collor de Melo, que acentuou políticas neoliberais, orientadas por acordos internacionais. AS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: ENTRE DISCURSOS E AÇÕES GALINDO, Camila Jose; INFORSATO, Edson do Carmo (UNESP/Araraquara) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 100 Meio à intensidade de mudanças, a formação continuada dos professores conquistou espaço de destaque nas ações governamentais e nas práticas à margem desta; conquistou avanços efetivados na forma de Lei, no desenvolvimento de pesquisas sobre a temática (da formação continuada de professores) e de ações de formação múltiplas, resultando ainda no aparecimento de um corpo teórico circunscrito e tematizado. Por outro lado, apesar desses avanços, especialmente referente ao campo legal, pouco se avançou nas práticas outrora aplicadas, já que o sistema privilegiado na viabilização das ações de formação continuada ainda decorria de pacotes sob a forma de cursos, sendo portanto pouca, senão bastante limitada (FUSARI, 1997; FALSARELLA, 2002), a repercussão dessas formações sobre a atuação profissional dos professores. AS POLÍTICAS A formação continuada dos docentes é marcada pela presença de um discurso promissor nos documentos legais da década de 90 e início do ano 2000 (BRASIL, 1996a; 1999; 2005) e justificada perante a necessidade de “inovação” do campo educacional _ tardio em relação ao contexto mundial. A publicação dos documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96 (BRASIL, 1996a), Referenciais de Formação de Professores – RFP (BRASIL, 1999) e Diretrizes Gerais da Rede Nacional de Formação Continuada de Professores – RNFC (BRASIL, 2005) refletem a primazia que a formação continuada dos professores da educação básica tem ocupado nas políticas do setor educacional no país. Algumas publicações (EDUCAÇÃO, 2004a; EDUCAÇÃO, 2004b; OECD, 2005) têm demonstrado que a formação continuada dos profissionais do ensino se faz hoje um foco das orientações internacionais em todo o mundo, sendo sobre ela centralizada a idéia de sucesso educacional com a efetivação de reformas pontuais. A obtenção de resultados positivos de alguns países que investiram na formação continuada de professores tem colaborado para a consecução de investimentos na qualificação dos docentes em larga escala nos âmbitos do poder executivo municipal, estadual e federal. Para além da influência que as diretrizes de organismos internacionais exercem sobre as políticas nacionais é perceptível que no seio dessas diretrizes, há sempre a idéia de que a qualificação dos profissionais é um indicador de qualidade na educação, tornando-a campo de investimento necessário, de viabilidade temporal e relativamente curta e que somada às facilidades de obtenção de investimentos para o custeio das mesmas, inside em melhorias no setor que há tempos se faz emergente. Reconhecido o avanço das ações nesta área, não podemos deixar de pontuar que, apesar dos ganhos que se obtiveram em termos legais, as políticas nacionais no Brasil têm sido oscilantes em direcionamentos práticos da formação em serviço e da formação continuada dos profissionais da educação. Essa oscilação nos leva a perceber a existência de propósitos distintos, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 101 percebidos tanto em termos conceituais e discursivos quanto os práticos, o que demonstra os interesses na captação de recursos para fins diversos, que não apenas aqueles voltados a formação continuada. A LEGISLAÇÃO E AS PRÁTICAS Dois documentos iniciaram a legalização da formação continuada dos professores no país: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96 (BRASIL, 1996a) e a Lei Federal 9424/96 (BRASIL, 1996b) que regulamentou o FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e da Valorização do Magistério). Posterior a essas publicações surge também os Referenciais para Formação de Professores (BRASIL, 1999) e as Diretrizes Gerais para Rede de Formação Continuada (BRASIL, 2005). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 (BRASIL, 1996a) estabelece o direito à formação continuada a todos os profissionais do ensino da educação básica em seu título VI, e aponta fundamentos e responsabilidades para com a formação continuada no país por meio dos seguintes artigos: Artigo 61 (dos profissionais da educação) – A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino [...] terá como fundamento: Parágrafo I – a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço. Artigo 63 (dos profissionais da educação) – Os institutos superiores de educação manterão: Parágrafo III – programas de educação continuada para os profissionais da educação nos diversos níveis. Artigo 67 (dos profissionais da educação) – Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando- lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: Parágrafo II – aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim. (grifo nosso). No artigo 70 do título VII, destinado aos recursos financeiros,essa mesma Lei explicita as responsabilidades financeiras da formação continuada: Artigo 70 (dos recursos financeiros) – considerar-se-ão como de manutenção e desenvolvimento do ensino as despesas realizadas com vistas à consecução dos objetivos básicos das instituições educacionais de todos os níveis, compreendendo as que se destinam a: Parágrafo I – remuneração e aperfeiçoamento do pessoal docente e demais profissionais da educação. (grifo nosso). O ‘direito’ estabelecido em Lei, entretanto, não parece ter se concretizado na realidade da maioria dos profissionais do ensino, mesmo tendo se passado mais de dez anos de existência dessa mesma Lei, modificada substancialmente como veremos adiante na discussão Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 102 acerca de outros documentos que versam sobre a formação continuada (BRASIL, 1999; 2005). Formulamos, no que se refere aos destaques da LDB 9394/96 (BRASIL, 1996a) para a formação continuada, algumas observações sobre as especificidades dessa formação, bem como sobre as possibilidades de sua concretização nos parâmetros da Lei, destacando os seguintes pontos: - A Lei traz uma generalidade no que se refere à concretização da formação continuada nos estabelecimentos de ensino no país, bem como do próprio conceito de formação continuada, pois: - No conectivo ‘inclusive’ (no artigo 61) transparece a idéia de que a formação continuada pode ser substituída pela formação inicial do professor, retirando-se assim, da formação continuada, o papel que lhe cabe; - No artigo 63 a generalidade do termo ‘educação continuada’ não deixa explícito se se trata da formação continuada propriamente dita ou da formação em serviço, uma vez que ambas fazem parte do que se denomina educação continuada; - O termo ‘aperfeiçoamento profissional continuado’ parece estabelecer certa distinção do que se entende por formação continuada, uma vez que o primeiro é de responsabilidade de órgãos públicos mantenedores da educação (ou sistemas de ensino), e de responsabilidade dos institutos de educação os ‘programas de educação continuada’. Haveria alguma atribuição de valor nessas responsabilizações ou um mal entendimento de termos? - A confusão terminológica da Lei, não permite inferências precisas quanto à atribuição institucional para a formação continuada dos professores, não havendo ainda menção sobre os sujeitos que devem envolver-se nessas ações de formação, nem mesmo se as mesmas podem ou não ser terceirizadas. O aparato legal para a formação continuada construído pelo Ministério da Educação não possibilitou, em decorrência da ausência de direcionamentos e especificações legais, a concretização de ações promissoras. Essas imprecisões no texto da Lei (BRASIL, 1996a) reforçam a não validade da mesma perante as práticas no setor, visto que é possível encontrar um percurso autônomo que antecede e ultrapassa a publicação da Lei. Em termos cronológicos, podemos ver ainda, a ação política na área com a criação da Ementa Constitucional 14 (BRASIL, 1996b) que estabeleceu um fundo para o financiamento da Educação, referente ao Ensino Fundamental e à Valorização do Magistério. Essa Lei, composta de 15% dos recursos referente ao Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Fundo de Participação dos Estados (FPE), Fundo de Participação dos Municípios (FPM), Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), passa a regulamentar os gastos orçamentários com o setor para Estados e municípios brasileiros. Em seu artigo 2º (BRASIL, 1996b) explicita que a aplicação do fundo deve ser realizada na “manutenção e desenvolvimento do Ensino Fundamental público, e na valorização de seu magistério”, e de acordo com o artigo 7º, na remuneração e na capacitação de professores, inclusive leigos. Com a criação do FUNDEF, algumas iniciativas em ações de formação continuada Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 103 puderam ser realizadas oficialmente no âmbito dos municípios pelas Secretarias ou Departamentos de Educação, o que possibilitou a realização de ações de formação em serviço em larga escala a partir da segunda metade da década de 90. A formação continuada de educadores no país ganhou mais legitimidade com a publicação dos Referenciais para Formação de Professores (RFP) (BRASIL, 1999), documento elaborado pelo MEC e publicado em fins da década de 90. Apesar de ser uma referência legal importante, ele deixa em aberto um aspecto central da formação continuada dos professores – erro anteriormente cometido pela LDB 9394/96 (BRASIL, 1996a) _ referente às ações e ao perfil dos sujeitos formadores; embora seja reconhecido o papel central que os formadores têm na concretização da formação continuada. Precisamente, o RFP (BRASIL, 1999, p.70) define que o papel da formação continuada no Brasil é o de “[...] propiciar atualizações, aprofundamento das temáticas educacionais [...] apoiar-se na reflexão sobre a prática [...] e promover processos constantes de auto-avaliação [...] para construção contínua de competências profissionais”. Tais atribuições evidenciam a estratégica posição do formador e o desafio a ser superado pelos sistemas de ensino em seus diferentes níveis da gestão educacional. Essa mesma responsabilidade, por sua vez, revela as debilidades históricas com as ações de formação continuada, como por exemplo, a ausência de processos de formação para os formadores. A inexistência desses processos limita as ações no confinamento das formações que historicamente se estabelecem sobre “[...] eventos pontuais – cursos, oficinas, seminários e palestras - que, de modo geral, não respondem às necessidades pedagógicas mais imediatas dos professores e nem sempre se constituem um programa articulado e planejado [...]” (BRASIL, 1999, p. 41). Nos sistemas estaduais de educação a responsabilidade para com a formação continuada é das Secretarias de Educação, hoje subdivididas em decorrência de processos de descentralização do setor educacional, nos âmbitos estaduais e municipais. Como nessas instâncias há uma ausência de quadros de formadores, verifica-se uma prática de terceirização de ações de formação continuada não raro sob um alto custo de serviços, resultados nem sempre eficazes e com falta de controle das ações, o que culmina, num distanciamento das ações de formação para com a realidade dos professores. Essa precariedade contribui sobremaneira também para que os modelos de gestão educacional apresentem grandes insuficiências em suas atribuições, e debilidades que inviabilizam ações efetivas e construtivas para essa área de atuação. Há duas principais críticas que o próprio documento (BRASIL, 1999, p. 46) reconhece no que se refere à administração, organização e metodologia da formação continuada que demonstram dificuldades na gestão: [...] falta de articulação entre várias instâncias de gestão do sistema, a descontinuidade dos projetos e programas de um governo para outro, a pressa com que as ações são planejadas e realizadas para atender às limitações do tempo político das administrações, a falta de incentivos Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 104 salariais ou institucionais para que os professores participem de programas de formação e a inexistência de tempo previsto na jornada de trabalho e no calendário escolar para formação em serviço [...] não se planeja de forma articulada ações extensivas e de profundidade, priorizando-se a alternativa de grandes eventos pontuais, cujo efeito é bastante relativo e discutível[...] não há como considerar suas reais necessidades e avanços em atividades desse tipo. Deste modo, a formação continuada dos professores, sob o descompasso e interrupções das propostas, não se efetiva, mesmo nos âmbitos mais estruturados de gestão educacional, o que tem requerido na atualidade, uma tomada de decisão precisa acerca dos objetivos da formação continuada para os anseios de uma sociedade em mudança, visto que ela tem, historicamente, se mostrado necessária. Há ainda nos RFP (BRASIL, 1999), preconizado também na LDB (BRASIL, 1996a) e em referenciais bibliográficos nacionais (GIOVANNI, 2001) a sugestão de realização da formação continuada no âmbito das instituições escolares. Entretanto, o problema da formação do formador ou responsável pela formação dos professores permanece, ficando a dúvida acerca do profissional capacitado para desenvolver tal tarefa na escola. Valendo considerar ainda que há restrições também quanto à inserção de outros profissionais alheios à escola. A escola como foco de formação do professores enseja a discussão acerca dos recursos e métodos disponibilizados para as ações formativas na escola – que também não encontra espaço nos RFP (BRASIL, 1999). Tais aspectos constituem complicadores carentes de resolução. Parece-nos que há uma necessidade emergente para um mapeamento sobre os entraves que dificultam a aplicabilidade da formação nos diversos níveis e instâncias onde ela ocorre. Esse levantamento de dados mais precisos sobre as diferentes realidades de ações de formação continuada, abre um caminho profícuo na resolução de problemas e dificuldades do desenvolvimento profissional do professor. Nesse sentido, de acordo com os RFP (BRASIL, 1999, p. 47), é possível encontrar alguns intervenientes do processo de formação contínua no país, que ainda se encontram precários, como por exemplo: [...] a inexistência de mecanismos de acompanhamento contínuo da prática pedagógica, de avaliação periódica dos resultados das ações desenvolvidas e de identificação de demandas de formação, colocadas pelas dificuldades que encontram os professores no exercício profissional, [que] prejudica a qualidade de formação, uma vez que estes são instrumentos de avaliação fundamentais para o planejamento e redimensionamento dos programas. (grifo nosso). Assim, tais observações nos levam a inferir que apesar da legalização – que constitui um avanço positivo – a formação continuada de professores apresenta características bastante pontuais que evidenciam um campo ainda em processo de formação. A avaliação e acompanhamento das práticas de formação continuada e, ainda, a identificação de demandas de formação são precisamente pontos essenciais para um planejamento Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 105 estratégico na área. A não contemplação prática, validada em documentação oficial reflete os duros caminhos a serem trilhados, bem como a ausência de uma cultura de informação, capacitação/formação coerente, interlocutora das legalizações e das necessidades do contexto educacional. Sabe-se, contudo, que o planejamento e a definição de estratégias requer capacidade de antecipar demandas e necessidades _ fator que nos dias atuais constitui um diferencial para proposta e/ou desenvolvimento de ações políticas para quaisquer setor, especialmente a educação, cujos objetivos são atingidos a longo prazo. Uma iniciativa importante, em face da carência de articulações e planejamento nos processos de formações realizados para os professores na educação básica no país, e da ausência de diretrizes norteadoras mais precisas e diferenciadas, está a recente institucionalização da formação continuada de professores por meio da criação, pelo MEC, da Rede Nacional de Formação Continuada (BRASIL, 2005). Essa rede se compõe pelo estabelecimento de uma parceria entre os órgãos: MEC, Sistemas de Ensino, e Centros de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação e baseia-se em quatro principais eixos: Redefinição e ampliação do financiamento da educação básica, Inclusão social, Democratização da gestão, Valorização\ formação inicial e continuada dos profissionais da educação, os quais visam atender os seguintes objetivos: 1) Institucionalizar o atendimento da demanda de formação continuada; 2) Desenvolver uma concepção de sistema de formação em que a autonomia se construa pela colaboração, e a flexibilidade encontre seus contornos na articulação e na interação; 3) Contribuir com a qualificação da ação docente no sentido de garantir uma aprendizagem efetiva e uma escola de qualidade para todos; 4) Contribuir com o desenvolvimento da autonomia intelectual e profissional dos docentes; 5) Desencadear uma dinâmica de interação entre os saberes pedagógicos produzidos pelos Centros, no desenvolvimento da formação docente, e pelos professores dos sistemas de ensino, em sua prática docente; 6) Subsidiar a reflexão permanente na e sobre a prática docente, com exercício da crítica do sentido e da gênese da sociedade, da cultura, da educação e do conhecimento, e o aprofundamento da articulação entre os componentes curriculares e a realidade sócio-histórica; 7) Institucionalizar e fortalecer o trabalho coletivo como meio de reflexão teórica e construção da prática pedagógica. Esses objetivos possuem uma similaridade com as orientações e as críticas contidas nos RFP (BRASIL, 1999, p. 22-23). Entretanto, a viabilidade das ações parece ser problemática, já que as instâncias responsáveis não apresentam estrutura para efetivá-las – caracterizando a histórica descontinuidade das políticas públicas no país, especialmente em ações educacionais. A política da RNFC se materializa no âmbito da esfera pública de ensino nas redes municipais e estaduais, habilitando os docentes atuantes nos níveis da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) por meio de ensino a distância (EAD), certificando-os em nível médio (para os professores atuantes na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental) e também, em nível superior (para docentes das disciplinas específicas do currículo Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 106 das séries finais do ensino fundamental e do ensino médio). Como se vê, a Rede materializa a formação em serviço no rol de ações de formação continuada. A efetivação da RNFC traduz os resultados da prática de recrutamento de professores leigos de formação em exercício da função docente nos referidos níveis de ensino em toda a extensão territorial brasileira. Um fator a ser considerado com essa política, se refere à interpretação dada ao conceito de formação continuada, visto que ela é colocada no âmbito prático em amplitude muito maior do que aquela postulada na LDB 9394/96 (BRASIL, 1996a) e também nos RFP (BRASIL, 1999). A RNFC considera a formação inicial como parte da política de formação continuada, sob ações de certificação em massa de profissionais (professores) não habilitados. (grifos nosso) As novas políticas (BRASIL, 2005) têm focado a formação inicial como eixo das ações formativas, o que nos leva a inferir uma dualidade de concepções acerca da formação de professores, especialmente do conceito de formação continuada. Elas têm considerado ação de formação continuada qualquer atividade formativa direcionada aos professores. Entretanto, certificar educadores que não possuem formação, apesar de representar um avanço, se configura como uma ação pontual circunscrita no campo da formação em serviço; portanto, o uso do termo “formação continuada” se faz no mínimo impróprio. É ainda pertinente destacar que, para um campo em construção, a incoerência não apenas teóricacomo também prática das ações oficiais terá repercussões tanto nas atividades educativas quanto na própria (re)constituição do campo da formação contínua dos professores. Esse postulado incide sobre as intenções formativas oficais (BRASIL, 2005), que preconizam formação em nível médio aos docentes da educação infantil e das séries iniciais do ensino fun- damental, pois há uma ambigüidade entre discurso e prática, que inviabiliza a realização efetiva de ações qualitativas para o campo em questão. Onde está o avanço prático da política para a formação dos professores? Os propósitos da RNFC (BRASIL, 2005) trazem a idéia de que uma capacitação mínima é suficiente para os que trabalham nas séries iniciais da educação básica. O conceito de formação continuada nesse contexto se traduz em medida paliativa de caráter econômico que entende que a formação de professores pode-se concretizar sob quaisquer modalidades, níveis e tempos. Outra consideração sobre a RNFC (BRASIL, 2005) é que a institucionalização da formação continuada dos professores no Brasil envereda para a estratégia e/ou tendência de focalização das políticas públicas que transitam entre a gestão dos sistemas e a articulação das ações de formação continuada sob a perspectiva de buscar ou identificar pontos e áreas estratégicas de ação. Isso implica considerar novas orientações para a denominada “autonomia” dos municípios e o delineamento de resolução de suas demandas educacionais. Apesar da imprecisão que as “Orientações Gerais” (BRASIL, 2005) encerra ao destacar a necessidade dos sistemas (re)pensar formas e/ou metodologias viáveis de identificação das defasagens (que não apenas sob a avaliação do rendimento escolar dos alunos _ como se tem, historicamente, tomado como base para as formações) _ parece iniciar-se um clima de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 107 tensão e surgimento de novas cobranças quanto às tarefas a serem “executadas” pelos professores e gestores municipais. Apesar das evidências de um salto qualitativo da formação continuada expressas na institucionalização da mesma, há uma problemática anunciada nessa política que requer mudanças estruturais de base nos âmbitos político-administrativos e em toda hierarquia da gestão educacional, que abrange desde a forma de elaboração, até a execução e avaliação dos processos educacionais e formativos, institucionalizados ou não. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Congresso Nacional. Lei Federal 9394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996a. ______. Congresso Nacional. Lei Federal 9424/96 de 24 de dezembro de 1996. Dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. Brasília, 1996b. ______. Ministério de Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Referenciais para Formação de Professores. Brasília, 1999. ______. Ministério da Educação, Secretaria da educação Básica. Orientações Gerais para Rede Nacional de Formação Continuada de Professores da Educação Básica. Brasília, 2005. EDUCAÇÃO e conhecimento: a experiência dos que avançaram. Brasília: Unesco, Ministério da Educação, 2004b. EDUCAÇÃO um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: UNESCO, 2004a. FALSARELLA, A. M. Políticas de capacitação e mudanças no cotidiano escolar. In SAMPAIO, M. M. F. O cotidiano escolar face às políticas educacionais. Araraquara: JM Editora, 2002, p. 69-96. FUSARI, J, C. Formação contínua de educadores: um estudo de representações de coordenadores pedagógicos da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. 1997. Tese (Doutorado). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997. GIOVANNI, L.M. Aprendendo sobre a profissão docente com o exercício da liberdade para refletir. In: Almeida, J.S.de (Org.) Estudos sobre a Profissão Docente. 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É o que declaram Vigotski e seus colaboradores.1 Segundo estes estudiosos, desde o nascimento, o sujeito vai, mediante as relações sociais que estabelece, considerando suas condições de vida, educação e atividade, se tornando homem. Vai se apropriando das qualidades humanas, que, ao contrário dos animais, não fazem parte da sua herança genética, mas são externas a ele e constituem a sua herança social. E, para que cada pessoa se torne homem, são necessárias apropriações das qualidades tipicamente humanas incrustadas nos objetos culturais, capazes de mover o seu desenvolvimento cultural. De acordo com o Enfoque Histórico-Cultural, cujo precursor é Vigotski (1896-1934), as qualidades humanas são caracterizadas por capacidades, habilidades e aptidões culturalmente constituídas, dentre as quais a capacidade de recordar, a memória voluntária, a percepção voluntária, a atenção voluntária, as diferentes formas de linguagem e de pensamento, a imaginação, as emoções, os sentimentos; todas externas ao sujeito no momento do seu nascimento (VYGOTSKI, 1995). Por serem externas ao sujeito, somente em processos mediados de atividade, tais qualidades são internalizadas e passam a constituir as qualidades inerentes à humanização de cada pessoa. Isto pressupõe níveis diferentes de humanização, considerando as condições concretas de vida, educação e atividade de cada sujeito. Considerando esta tese, é essencial, então, pensarmos sobre atividades que possam propiciar a aprendizagem dessas qualidades capazes de mover o desenvolvimento cul- tural do homem. Em especial, neste trabalho, buscamos discutir sobre contar e ler histórias como atividades promotoras de um amplo desenvolvimento das crianças pequenas, considerando seu ritmo e seu tempo – que são particulares, individuais e, neste momento, dando ênfase à “Caixa que conta Histórias” como recurso metodológico e motivador da aprendizagem da leitura na infância. Especialmente, focamos o trabalho desenvolvido em cursos de formação inicial de professores, alguns dos quais já atuam na educação das nossas crianças em diferentes municípios do Estado de São Paulo. Conforme explicitamos, na seqüência, desenvolvemos este trabalho teórico-prático com discentes dos cursos de Pedagogia da FUNDEC (Dracena, SP.) e da UNESP (Marília, SP.), bem como em atividade de pesquisa, cujos parceiros eram crianças de um grupo de 1º ano do CAIXAS QUE CONTAM HISTÓRIAS: RECURSOS DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS PARA SUBSIDIAR A FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DE PROFESSORES (AS) DA INFÂNCIA. LIMA , Elieuza Aparecida de (FUNDEC-Dracena; UNESP-Marília) GIROTTO , Cyntia Graziella Simões (UNESP-Marília) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 109 ensino fundamental e sua respectiva professora.2 Esses trabalhos de formação docente inicial serão o foco desta exposição, assim como os resultados parciais da pesquisa. Desde 2004, iniciamos discussões teóricase organizamos oficinas para confecção das referidas Caixas que contam Histórias, nos cursos de formação docente. Nosso intuito era e é constituir elos entre a teoria defendida e refletida por nós, alunos(as) e professoras, e a prática de sala de aula, quer seja na educação de zero a seis anos, quer seja nos anos iniciais do ensino fundamental. No ano de 2006, realizamos um trabalho de investigação colaborativo, em que a professora, parceira da pesquisa, juntamente com a equipe de pesquisadores (coordenadores e alunos da graduação de Pedagogia – bolsistas do Núcleo de Ensino da UNESP – Marília/SP.), organizou sua ação docente voltada para o aprendizado da leitura e da escrita em contextos significativos. Para tanto, dentre as várias atividades propostas, para a ambientação e criação de um entorno propício a esse aprendizado, como hora do conto, biblioteca móvel, jornal de parede, jornal mural, texto livre, projetos de leitura e escrita, dentre outras, organizou-se a atividade com a “Caixa que conta Histórias”, estudando as obras de Roseane Murray , autora da literatura infantil eleita para as proposições do ano letivo de 2006 naquela escola. Vale esclarecer que, também, por meio dessa investigação foi possível atuar na formação de professores, quer seja na formação inicial – alunas da graduação, quer seja na continuada – professora parceira de trabalho. PRESSUPOSTOS PARA A FORMAÇÃO TEÓRICA DO(A) PROFESSOR(A) DA EDUCAÇÃO INFANTIL. - Por favor, pode me dizer que caminho devo tomar para sair daqui? - perguntou Alice. - Isso depende muito de onde você quer ir - respondeu o gato. - Isso pouco importa - disse Alice. - Então não importa que caminho você tome. (trecho de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Caroll) Antes de centrarmos nossa discussão no trabalho com as “Caixas que contam histórias”, nos cursos de formação docente, é imprescindível refletirmos sobre os fundamentos que embasam este fazer pedagógico, trazendo à tona as contribuições de Vigotski e seus colaboradores. Os primeiros anos de vida marcam um momento da infância em que a criança está aberta para descobrir o mundo de pessoas e objetos que a cerca. Este é um momento propício para aprendizagens que subsidiam todo o desenvolvimento posterior do homem. Por isso, estudos recentes assinalam que, do nascimento aos dez anos, a criança vive os denominados “períodos sensíveis ao desenvolvimento”3 das formas iniciais e voluntárias de qualidades humanizadoras tais como: a memória voluntária, a atenção voluntária, diferentes formas de percepção, a imaginação, a função simbólica da consciência, as emoções, as formas de linguagem e de pensamento, os sentimentos, as premissas inerentes à personalidade (MUKHINA, 1996). Como tais capacidades psíquicas são externas ao sujeito ao nascer, para que elas Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 110 sejam apropriadas e desenvolvidas em níveis cada vez mais sofisticados, são essenciais condições adequadas de vida, de educação e de atividade. Isso significa que não é qualquer ação que provoca a aprendizagem destas capacidades, mas atividades nas quais elas sejam necessárias e faça sentido para quem as apropria. Para ampliar essa reflexão, Mukhina (1996, p. 43) explicita: As diferentes condições em que transcorre o desenvolvimento psíquico da criança interferem de maneiras distintas nesse desenvolvimento. As condições naturais – constituição do organismo, suas funções e sua maturação – são imprescindíveis; sem elas não pode haver desenvolvimento psíquico, mas não são elas que determinam as qualidades psíquicas da criança. Isso depende das condições de vida e da educação, sob influência das quais a criança assimila a experiência social. A experiência social é a fonte do desenvolvimento psíquico da criança; é daí, com o adulto como mediador, que a criança recebe o material com que serão construídas as qualidades psíquicas e as propriedades de sua personalidade. Nesse sentido, é fundamental planejar e organizar atividades mediante as quais a criança possa aprender o uso dessas capacidades em experiências inicialmente realizadas em relação com outras pessoas. Eis outra tese essencial para compreendermos o desenvolvimento infantil: a educação sistematizada pode provocar aprendizagens promotoras de desenvolvimento quando considera ações colaborativas entre a criança e o professor e entre as crianças e seus pares. Para Vigotskii (1988), essas ações colaborativas, feitas em conjunto, constituem o início do processo de apropriação dos conhecimentos, no nível interpessoal. Um segundo momento desta apropriação, é a realização das ações feitas externamente no nível intrapessoal, ou seja, no nível mental. Dessa forma, as relações possíveis de se estabelecerem na instituição educativa podem ser motivadoras de aprendizagens essenciais ao desenvolvimento cultural da inteligência e personalidade humanas. Uma vez que todos os processos psíquicos são realizados inicialmente nas relações entre as pessoas, constituem-se como [...] resultado da passagem para o interior das ações de orientação externa [...]. Graças ao processo de internalização, a assimilação de ações dirigidas sob orientação do adulto aperfeiçoa as ações psíquicas internas e impulsiona o progresso psíquico. (MUKHINA, 1996, p. 46). Em especial na educação das crianças pequenas, entre zero e seis anos, o fazer partilhado é fundamental no processo de apropriação de conhecimentos propulsores de um amplo desenvolvimento da inteligência e da personalidade infantis. Inicialmente, a criança realiza atividades com a parceria do adulto e outras pessoas mais experientes para, então, ao internalizar as ações práticas e mentais, poder fazê-las de modo independente. Do ponto de vista da teoria aqui defendida, esse trabalho pedagógico intencional e mediatizado é base essencial na criação de elos mediadores entre a criança e o conhecimento a Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 111 ser apropriado. O(a) professor(a), portanto, é um sujeito essencial nesse processo quando organiza o espaço, o tempo e os materiais na instituição de educação infantil, contemplando o tempo da criança e o espaço como historicamente formado a partir das experiências ali vivenciadas. Como mediador e criador de mediações, o professor assume seu papel precípuo como enriquecedor da atividade infantil e, também, se torna sujeito ativo como protagonista de sua prática pedagógica. Pelo exposto, a atividade do sujeito – quer seja a criança ou o(a) professor(a) – não se caracteriza como qualquer fazer no âmbito educativo. A atividade, no enfoque histórico-cul- tural, é o fazer que mobiliza o uso de capacidades mentais reorganizando-as em níveis cada vez mais sofisticados, na vivência em que o sujeito pode conciliar o objetivo a que quer chegar ao motivo que o impulsiona a agir, atribuindo sentido às suas ações. Para o fazer docente, essa tese tem uma implicação pedagógica fundamental: aos fazeres estéreis e esvaziados de sentido não são capazes de garantir aprendizados essenciais ao desenvolvimento amplo da criança e tampouco a envolve como sujeito ativo e capaz de fazer, de ser e de se relacionar como protagonista das suas aprendizagens. Considerando esses princípios teóricos cujas implicações pedagógicas precisam ser repensadas e efetivadas cotidianamente nas instituições de educação infantil, mas, sobretudo, urgem ser base teórica nos cursos de formação inicial e continuada de professores(as). Com base nisso, no item seguinte, discutimos sobre o contar e o ler histórias como uma possibilidade de atividade motora de aprendizagens e, conseqüentemente, de desenvolvimento amploda criança. O CONTAR E O LER HISTÓRIAS: FAZERES ESSENCIAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL Ao refletir sobre a leitura e as leituras na educação infantil, é possível pensar em uma diversidade de formas de leitura na infância: a leitura de mundo que a criança faz com todos os seus sentidos ao manusear objetos, ao perceber o movimento das plantas e dos animais, ao ver ilustrações de livros, ao olhar o que acontece ao seu redor... ao ouvir, ao tatear, ao degustar o que cai em suas mãos e, ainda, ao buscar desvendar os símbolos lingüísticos. Para nós – e nosso fundamento no trabalho de formação de professores (as), essa leitura é um descobrir e se apaixonar pelo mundo como Madalena Freire assinala com propriedade no texto “A paixão de conhecer o mundo” (1995). Essa paixão de conhecer o mundo caracteriza, por sua vez, inúmeras leituras possíveis de serem planejadas e organizadas, intencional e conscientemente, na rotina diária da educação infantil. Dentre elas, faremos uma reflexão particular sobre o ler e o contar histórias como maneiras de inserir ativamente – a partir do fazer ativo e intencional do(a) professor(a) – a criança desde pequenininha no mundo letrado. Ainda que ela não leia o texto escrito, efetivamente, terá oportunidade de perceber atitudes de leitores efetivos, apropriando-se paulatinamente de estratégias de leitura. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 112 Primeiramente, é essencial apontar que a hora do conto ou a hora da história é um momento fundamental na rotina de trabalho das crianças pequenas (LIMA, 2005). Salientando uma vez mais que ao compreendermos que os primeiros anos de vida são fundamentais ao processo de humanização e que, nesses anos, as crianças se desenvolvem de forma acelerada, aperfeiçoando a percepção, a atenção, a memória, o pensamento, a comunicação, os momentos de contar ou ler histórias são oportunidades significativas a um desenvolvimento amplo na infância. Conforme aponta Coelho (1989), as histórias podem ser contadas ou lidas e cada uma dessas atividades pode ser desenvolvida a partir de um recurso: simples narrativa, com o uso do livro, com gravuras, com flanelógrafo, com desenhos, com interferências do narrador e dos ouvintes, com dramatização, teatro de bonecos, dentre outros. Ao contar ou ler histórias, o(a) professor(a) utiliza-se de voz clara, cuja intensidade depende da própria história e do lugar onde a história é contada. A duração da narrativa ou da leitura da história é, pois, flexível e depende do envolvimento das crianças e, também, da idade delas. Para dar um exemplo quanto às especificidades de cada momento da infância, é possível explicitar que, as crianças bem pequenas ainda não desenvolveram uma atenção voluntária e têm mais dificuldade de permanecerem um tempo muito longo ouvindo histórias, ainda mais se a professora não provoca e mobiliza a atenção e a percepção das crianças, utilizando recursos diferenciados e tendo o contar e o ler histórias como parte da rotina das crianças (LIMA, 2001). Desta perspectiva, o êxito da narração depende, em grande medida, do envolvimento de todos os sujeitos na atividade de leitura. Parar constantemente a história para chamar a atenção das crianças acaba por levar ao fracasso da atividade: é preciso envolver as crianças, chamar a atenção delas para o ambiente e para a história a ser contada ou lida; por isso, a importância das conversas com a turma, localizando cada criança no tempo e no espaço dando-lhe a oportunidade de tornar-se sujeito ativo daquilo que experimenta cotidianamente na instituição educativa. Ao observar e ouvir as crianças, escutando-as com todos os seus sentidos, o(a) professor(a) tem instrumentos fundamentais para a escolha das histórias e para a otimização da atividade com os pequenos. Conversar com as crianças antes e depois dos momentos das histórias fundamenta novas atividades com a história contada ou viabiliza a introdução de novas histórias a serem lidas ou contadas. Isso significa que quando alguma criança interrompe a história é preciso se dirigir a ela seja com um olhar ou sorriso afetuoso indicando que depois de terminada a história ela terá voz e vez de se manifestar (HEVESI, 2004). Com isso, a partir das histórias podem surgir relatos escritos pelo(a) professor(a), desenhos das crianças, dramatização, modelagens, dobraduras e recortes, brincadeiras, construção de maquetes. Vale ressaltar, no entanto, que as histórias, poemas, cantigas devem ser lidas e contadas pelo seu valor em si mesmas, porque tais textos podem aguçar a escuta da criança. A criança, que é um dos maiores escutadores da realidade que a circunda, pode, por meio destas atividades, escutar a vida nas suas cores, formas, sons, cores; escutar os outros, adultos e seus colegas. A criança como sujeito capaz de perceber que a escuta é ato de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 113 comunicação que reserva maravilhas, alegrias, surpresas, entusiasmos, paixões e fantasias. A hora do conto pode ser motivada pelo uso da “Caixa que conta histórias”, conforme pudemos comprovar em nossa pesquisa. Essa maneira de contar histórias é uma alternativa metodológica para que a criança seja efetivamente envolvida nessa atividade e, sobretudo, por buscar mobilizar o uso de capacidades mentais essenciais ao seu desenvolvimento cultural: a memória, a atenção e a percepção voluntárias, a imaginação, a linguagem oral, o pensamento, as emoções, a função simbólica da consciência, a vontade, conforme já salientamos anteriormente. Vale mencionar que a “Caixa que conta Histórias” caracteriza-se por materiais reciclados: uma caixa de sapatos coberta por papel e grude, contendo histórias que as crianças gostam, objetos e imagens que retratem o texto escolhido ou mesmo fantoches e “dedoches”. Além disso, pode contemplar as histórias produzidas pelas crianças, cantigas preferidas e cantadas com o uso da caixa.4 Em suma, na “caixa” cabe a imaginação, a criação, a reciclagem, a arte manual, as palavras registradas nos livros (agora recontadas) dos adultos e das crianças e permite a mediação e a criação de mediações pedagógicas primordiais à educação potencializadora da humanização na infância. Tudo isso, repensamos continuamente nos cursos iniciais e continuados de formação docente Conforme assinala Vigotskii (1988), um bom ensino – uma educação potenciadora – é aquele que, ao se adiantar ao desenvolvimento o faz avançar a níveis cada vez mais elevados. Neste sentido, o trabalho do(a) professor(a) pode ser motivador desse desenvolvimento, tendo como um dos recursos pedagógicos as denominadas “Caixas que contam histórias”. EM SÍNTESE A leitura e as leituras possíveis na educação infantil vão além das palavras, mas contêm as palavras, os anseios e as necessidades de conhecimento das crianças. Nessas leituras, o(a) professor(a) é o sujeito mediador e criador de mediações entre a criança e a cultura historicamente elaborada, introduzindo os pequenos e as pequenas no mundo da fantasia, dos bens culturais e da apropriação de conhecimentos necessários ao seu desenvolvimento pleno. Não é possível, pois, restringir as linguagens na educação infantis, mas, ao contrário, faz-se fundamental refletir sobre elas e sobre sua importância no pleno e harmônico desenvolvimento da inteligência e da personalidade de nossas crianças que estão apaixonando-se pelo mundo ao agir ativamente sobre ele, transformando-o e sendo transformadas por ele. Dessa forma, urge que esses saberes sejam apropriados pelos(as) professores(as) no seu processo de formação inicial ou continuada, quer seja por meio das atividades de ensino ou de pesquisa. Comoeducadoras e formadoras de professores(as) dedicados à educação das crianças e como sujeitos e agentes ativos do processo educativo sistematizado devemos, portanto, assumir nossa tarefa de mediadores e criadores de mediações conscientes do nosso fazer, uma vez que, como profissionais da educação, temos que criar novos motivos de conhecimentos nos indivíduos desde o seu nascimento. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 114 Para concluir essa reflexão, ainda que não permanentemente, trazemos um trecho do livro “O pequeno Príncipe” para pensarmos que nossas crianças são mais que rosas a serem “regadas” e “cultivadas”: são sujeitos ativos no processo em que se humanizam e precisam de nossa escuta atenta e visível em todos os momentos de sua infância. E voltou, então, à raposa: - Adeus... – disse ele. - Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. - O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, para não se esquecer. - Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. - Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... – repetiu ele, para não se esquecer. - Os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. – Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa... - Eu sou responsável pela minha rosa... – repetiu o principezinho, para não se esquecer. (SAINT-EXUPÉRY, 2000, p. 72-74). REFERÊNCIAS CAROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. COELHO, B. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1989. FREIRE, M. A paixão de conhecer o mundo: relato de uma professora. 12.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. HEVESI, K. Relação através da linguagem entre a educadora e as crianças do grupo. In: FALK, J. (Org.). Educar os três primeiros anos: a experiência de lóczy. Tradução de Suely Amaral Mello. Araraquara: JM Editora, 2004. p. 47-56. LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978. ______. Uma Contribuição à Teoria do Desenvolvimento da Psique Infantil. In: VIGOTSKII, L.S. et al. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São Paulo: Ícone/EDUSP, 1988. p. 59-84. LIMA, E. A. de. Re-conceitualizando o papel do educador: o ponto de vista da Escola de Vigotski. 2001, Dissertação (Mestrado em Ensino na Educação Brasileira). Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP, Marília, 2001. ______. Infância e teoria histórico-cultural: (des) encontros da teoria e da prática. 2005, Tese (Doutorado em Ensino na Educação Brasileira). Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP, Marília, 2005. MUKHINA, V. Psicologia da idade idade pre-escolar. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Psicologia e Pedagogia) SAINT-EXUPÉRY, ANTOINE DE. O Pequeno Príncipe. 48.ed. 2.impr. Rio de Janeiro: Agir, 2000. p. 72-74. VIGOTSKII, L. S. Aprendizagem e desenvolvimento na idade escolar. In: VIGOTSKII, L. S.; LURIA, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 115 A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São Paulo, Ícone: Edusp, 1988. p. 103-117. VYGOTSKI, L.S. Problemas del desarollo de la psique. Obras Escogidas, Vol. III. Madrid: Visor, 1995. NOTAS 1 Dadas as diferentes maneiras de grafar o nome do estudioso russo Lev Semenovich Vigotski [Vygotski; Vygotsky, Vigotsky, Vigotskii, dentre outras], no presente texto opt amos por “VIGOTSKI”, salvo as referências bibliográficas que serão des c ritas assim como na versão original. 2 Trata -se das atividades articuladas ao projeto de pesquisa “ Ensinar e a prender a ler e a escrever em contextos significativos”, financiado pela FUNDUNESP ( processo nº114/2006), desenvolvido em uma escola pública do município de Marília. 3 De acordo com Mukhina (1996, p. 54), “cada idade se distingue por uma elevada receptividade seletiva para diferentes tipos de ensinamento. Em certa idade, determinadas ações instrutivas exercem influência máxima sobre o andamento do desenvolvimento psíquico. São os denominados períodos sensíveis de desenvolvimento . [Por exemplo,] sabe-se muito bem que o período sensível para ensinar a criança a falar situa-se [até por volta dos dois, três anos].” 4 No caso de nossa pesquisa, as crianças produziram suas caixas, a partir de sete livros de Roseana Murray ( Retratos, Risos de alegria, Receitas de olhar,Artes e ofícios, Silêncio dos descobrimentos, Tantos medos e outras coragens) a fim de recontarem a si mesmas, durante a “Hora do Conto”, bem como para as demais crianças da escola, durante a Feira anual, ocorrida ao final do ano letivo de 2006. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 116 Neste trabalho, são descritos e analisados dados parciais obtidos durante o desenvolvimento do projeto de pesquisa “Casos de ensino e processos de aprendizagem profissional no curso de Pedagogia” (FAPESP 2006/02065-9). Objetiva-se, na pesquisa em andamento, com término previsto para 2008, investigar possibilidades e limitações dos casos de ensino (MIZUKAMI, 2002; SHULMAN, 2002; NONO, 2001, 2005) como estratégias formativas e investigativas a serem utilizadas em curso de Pedagogia. Objetiva-se, também, explicitar, por meio do uso de casos de ensino, processos de aprendizagem da docência vividos por futuros professores, focalizando-se especialmente aspectos referentes à participação docente na gestão e organização escolares. O interesse pela investigação dos casos de ensino surge em um contexto em que diferentes estratégias formativas e investigativas dos processos de desenvolvimento profissional docente estão sendo estudadas, entre as quais os diários reflexivos, histórias de vida, auto- biografias, narrativas, experiências de ensino e aprendizagem (MARCELO GARCIA, 1999). O estudo aqui apresentado objetiva evidenciar algumas das contribuições do uso dos casos no que se refere aos processos de desenvolvimento profissional docente de alunos de Pedagogia. Sem pretender investigar de maneira exaustiva as potencialidades e limitações dos casos de ensino, espera-se encorajar a continuidade das pesquisas sobre essas ferramentas, ainda incipientes no Brasil. Resultados já obtidos em pesquisas realizadas e questões a serem ainda respondidas, principalmente no Brasil, onde os casos foram pouco investigados, fundamentaram a escolha dos casos de ensino como foco de investigação nesse projeto. Vale destacar estudo desenvolvido por Lundeberg (1999) que obteve resultados que mostram que casos de ensino contribuem para que futuros professores explicitem e reconheçam seus conhecimentos sobre ensino, permitindo-lhes, ainda, estabelecer relações entre aspectos teóricos e situações escolares específicas e contextualizadas e examinar suas próprias crenças sobre as melhores formas de ensinar. REFERÊNCIAS TEÓRICAS Por volta de 1980, Lee Shulman, então presidente da American Educational Re- search Association (AERA), afirma a necessidade de que programas de formação docente considerem o conhecimento de situações escolares específicas como um dos conhecimentos requeridos na prática docente que deveriam ser desenvolvidos na formação profissional. Num contexto de insatisfação diante dos programas de formação docente, espera-se que os casos de CASOS DE ENSINO NA FORMAÇÃO DO PEDAGOGO NONO, Maévi Anabel (UNESP/IBILCE) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUALPAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 117 ensino “[...] sejam mais engajados, mais exigentes, mais intelectualmente excitantes e estimulantes, mais adequados para estabelecer pontes entre aspectos teóricos e práticos, além de mais adequados para auxiliar professores iniciantes a ‘pensar como professores’” (SHULMAN, 1992, p. 01). Nesse contexto, diversos estudos passam a focalizar casos de ensino como instrumentos importantes para serem utilizados na formação dos professores e na investigação dos processos de desenvolvimento profissional docente. Tais estudos se fundamentam nas pesquisas acerca da natureza do conhecimento docente, nas experiências preliminares – ainda que esporádicas e não totalmente estruturadas – com casos de ensino em cursos de formação de professores e em outros campos profissionais como Medicina, Direito e Administração e na busca de métodos alternativos de ensino a serem utilizados nos programas de formação docente. Na literatura sobre casos de ensino, é possível encontrar uma variedade de definições, formas e propósitos de utilização de casos na formação de professores. De acordo com Merseth (1999), a definição mais comumente utilizada refere-se ao caso de ensino como um documento descritivo de situações ou eventos escolares reais, elaborado especificamente para ser utilizado como ferramenta no ensino de professores. Trata-se de uma representação multidi- mensional do contexto, participantes e realidade da situação. Os casos são narrativas elaboradas com o objetivo de dar visibilidade ao conhecimento sobre o ensino envolvido na situação descrita (ALARCÃO, 2003). O que define um caso é a descrição de uma situação com alguma tensão que possa ser aliviada; uma situação que possa ser estruturada e analisada a partir de diversas perspectivas e que contenha pensamentos e sentimentos do professor envolvido nos eventos (SHULMAN, 1992). De acordo com Alarcão (2003, p. 52), Os casos são a expressão do pensamento sobre uma situação concreta que, pelo seu significado, atraiu a nossa atenção e merece a nossa reflexão. São descrições, devidamente contextualizadas, que revelam conhecimento sobre algo que, normalmente, é complexo e sujeito a interpretações. Os casos que os professores contam revelam o que eles ou os seus alunos fazem, sentem, pensam, conhecem. [...] os casos só são casos (e não meros incidentes) porque representam conhecimento teórico e assumem um valor explicativo que vai para além da mera descrição. [...] Dado o caráter altamente contextualizado e complexo da actividade profissional do professor, a análise casuística de episódios reais apresenta-se-me como uma estratégia de grande valor formativo. Permite desocultar situações complexas e construir conhecimento ou tomar consciência do que afinal já se sabia. De acordo com Lundeberg, Levin e Harrington (1999), os casos têm sido utilizados com objetivo de permitir aos estudantes, em programas de formação docente, explorar a complexidade do ensino e pensar sobre como resolveriam dilemas da profissão. Recentemente, os casos vêm sendo utilizados com propósitos de investigar o pensamento dos professores e facilitar processos de reflexão em futuros professores. As formas de utilização dos casos de ensino descritas na literatura variam. Pitton Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 118 (1998) sugeriu que os casos poderiam ser utilizados de maneiras diversas, embora sempre com a presença de um instrutor que pudesse apresentá-los aos futuros professores/professores principiantes, utilizando estratégias para facilitar reflexões em torno das situações descritas e estabelecimento de relações com situações similares. Sugeriu, ainda, que os estudantes poderiam ser encorajados a ler individualmente e refletir sobre as situações a partir das questões colocadas. Pequenos grupos podem discutir os casos e, em seguida, apresentar suas considerações para um grupo maior de colegas. Os casos podem também ser utilizados para facilitar as discussões em classe. Os futuros professores podem escrever sobre as relações entre os casos apresentados e suas próprias experiências com situações de ensino. As análises dos casos, além de permitir que futuros professores exercitem suas capacidades de análise de situações práticas de ensino, parecem garantir acesso a ricas informações sobre seus processos de aprendizagem profissional e de construção do pensamento docente (HARRINGTON, 1999). Wassermann (1994) trata da necessidade de que as questões que acompanham os casos de ensino, orientando suas análises, estimulem o estabelecimento de relações entre conhecimentos teóricos e a situação prática descrita. A utilização de estratégias de estudo de casos de ensino parece oferecer vantagens para o desenvolvimento e a explicitação do conhecimento profissional dos professores e futuros professores. Entre tais vantagens, podemos destacar: provocação de uma prática reflexiva; familiarização com a análise e a ação em situações complexas que ocorrem em sala de aula; implicação do professor/futuro professor em seu processo pessoal de aprendizagem profissional; explicitação e desenvolvimento de crenças e conhecimentos do professor que estão na base de sua prática de sala de aula; análises de várias temáticas relacionadas a diversos aspectos do ensino; revisão de concepções sobre aprendizagem, ensino, avaliação, gestão escolar; estabelecimento de relações entre aspectos teóricos ligados ao ensino e situações específicas do dia-a-dia escolar. Ao analisar uma situação de ensino, o professor/futuro professor recorre aos seus conhecimentos acadêmicos e às suas experiências prévias, podendo examinar sua validade frente à complexidade das situações de sala de aula. O estudo de casos possibilita o estabelecimento de relações entre a teoria educacional e as particularidades das situações de ensino. Métodos de casos garantem aos futuros professores analisarem diferentes situações que poderão enfrentar no exercício da profissão. Ao apresentarem situações escolares singulares, os casos de ensino possibilitam a análise de questões estritamente relacionadas ao contexto escolar e de sala de aula – que envolvam as implicações sociais, econômicas e políticas da atividade de ensinar – e, ainda, permitem que professores e futuros professores discutam e analisem tais situações, refletindo sobre conhecimentos profissionais próprios da docência. Mizukami (2000, p. 156) considera os casos de ensino como: [...] importantes instrumentos de pesquisa – ao possibilitar não apenas apreender as teorias pessoais dos professores, o processo de construção de conhecimentos profissionais, o desenvolvimento do Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 119 raciocínio pedagógico, como também compreender o pensamento do professor – e de ensino – ao possibilitar o desenvolvimento profissional, a construção da base de conhecimento sobre o ensino, o desenvolvimento do raciocínio pedagógico e a construção do conhecimento pedagógico de conteúdos, que constituiria a especificidade da aprendizagem profissional. Nesta investigação, os casos de ensino são focalizados como um dos inúmeros instrumentos que podem ser utilizados em programas de pesquisa e formação de professores. Aparentemente, é a combinação de diversas estratégias formativas e investigativas que irá proporcionar e explicitar processos de aprendizagem profissional docente. Zeichner (1999) destaca que muitos estudos têm apresentado novas estratégias de ensino e pesquisa como supostamente capazes de resolver todos os problemas da formação de professores. Nesta investigação, entretanto, concorda-se com Levin (1999, p. 157) quando afirma queos casos de ensino não devem ser considerados como uma panacéia, mas como um dentre os diversos instrumentos existentes na área de ensino e pesquisa sobre Formação de Professores. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Nesta investigação, relativa à Formação Inicial de professores, pretende-se re- sponder à seguinte questão de pesquisa: quais as possibilidades formativas e investigativas do uso de casos de ensino em curso superior de Pedagogia, especialmente no conjunto de disciplinas que focalizam aspectos da aprendizagem da docência referentes à participação docente na gestão e organização escolares? Conforme definem as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia (Parecer CNE/CP 1, 15/05/2006), “As atividades docentes também compreendem a participação na organização e gestão de sistemas e instituições de ensino”. A gestão educacional deve configurar-se, de acordo com tais diretrizes, como uma das dimensões do campo de atuação do profissional formado no curso de Pedagogia. Neste sentido, investigar formas/estratégias de promoção de aprendizagens relativas à participação docente na gestão e organização escolares mostra-se bastante relevante. Ao apontar as possibilidades formativas e investigativas dos casos de ensino como foco central deste estudo, objetiva-se também analisar processos de aprendizagem da docência vividos por alunos do curso de Pedagogia. Espera-se, entretanto, ressaltar a importância, no âmbito dos estudos sobre Formação de Professores, da investigação de estratégias que permitam, ao mesmo tempo, a construção de conhecimentos sobre processos de aprendizagem profissional da docência e a intervenção em tais processos. A relevância desta investigação no quadro atual das pesquisas educacionais reside em suas contribuições ao investigar não apenas processos de aprendizagem da profissão docente, mas uma das estratégias que possa promovê-los e explicitá-los. Vale ressaltar que este projeto representa uma continuidade de dois estudos já realizados na área de Formação de Professores, com resultados promissores no que se refere Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 120 ao uso de casos de ensino como instrumentos de pesquisa e formação docente (NONO, 2001, 2005). A metodologia de casos utilizada envolve dois momentos distintos e complementares: 1) análise (individual e coletiva) de casos de ensino previamente selecionados pela pesquisadora e 2) elaboração de novos casos de ensino, pelos futuros professores, com base em experiências escolares vividas em situações de estágio na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental (esta etapa será realizada em um momento posterior às análises de casos, durante o segundo semestre letivo de 2007). Trata-se de um estudo descritivo-analítico, de natureza qualitativa, que vem sendo desenvolvido tendo como sujeitos 42 (quarenta e dois) alunos de graduação em Pedagogia (curso noturno em universidade pública), com ingresso no curso em 2006. No que se refere às análises de casos de ensino, até o momento, foram apresentados aos estudantes, no ano letivo de 2006 e no primeiro semestre letivo de 2007, 5 (cinco) casos selecionados com base nos objetivos da pesquisa, ou seja, casos de ensino que trouxessem situações que garantissem a análise de aspectos referentes à participação docente na gestão e organização das instituições de Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Funda- mental. Os casos foram retirados de livros e revistas voltados à educação. Dos casos analisados, apenas um deles foi analisado individualmente pelos sujeitos. Os demais casos foram analisados em pequenos grupos, definidos pelos próprios sujeitos, sob supervisão da pesquisadora. As análises foram orientadas por roteiros entregues junto aos casos de ensino. Após a entrega para a pesquisadora, pelos sujeitos, das respostas, por escrito, aos roteiros de questões, tais respostas foram discutidas por todo o grupo de sujeitos envolvidos na investigação, com mediação da pesquisadora. As respostas já entregues não foram alteradas pelos sujeitos após as discussões coletivas, com o intuito de que os dados obtidos permanecessem os mesmos. Os alunos puderam, entretanto, ao final da discussão com todo o grupo, registrar novas análises do caso de ensino, caso considerassem necessário, em ficha separada. Essa possibilidade de novos registros teve como objetivo verificar o potencial das discussões coletivas dos casos de ensino, orientadas por um mediador (no caso, a pesquisadora). Os dados obtidos até o momento da investigação – análises individuais e coletivas (pequenos grupos) de casos de ensino, registradas por escrito, e análises individuais escritas após a discussão coletiva (grande grupo, envolvendo os 42 sujeitos) mediada pela pesquisadora (feitas caso o sujeito considerasse necessário) – estão sendo analisados tendo como foco as possibilidades e limitações dos casos de ensino como estratégia formativa e investigativa a ser utilizada em curso superior de formação inicial de professores para a Educação Infantil e para os anos iniciais do Ensino Fundamental, especialmente nas disciplinas que focalizam aspectos da aprendizagem da docência referentes à participação docente na organização e gestão das escolas. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 121 DESCRIÇÃO E ANÁLISE PRELIMINAR DOS DADOS São apresentados, neste trabalho, dados referentes às análises dos sujeitos em torno do caso de ensino “Meu batismo de fogo” (WEISZ, 2002). O caso foi utilizado, nesta investigação, como instrumento de caracterização dos sujeitos da pesquisa. Trata-se de um caso no qual uma professora relembra momentos vividos quando ingressou no curso de formação e na profissão docentes. Ela destaca as dúvidas sobre os motivos que a levaram a optar pelo Curso Normal e a permanecer nele até o final. Além disso, a docente relata muitas dificuldades enfrentadas ao ingressar na profissão. Aponta lacunas em sua formação inicial e dilemas enfrentados diante de um grupo de crianças que pareciam encontrar na escola uma armadilha montada para que não pudessem se sair bem. Trata-se de um caso de ensino que não trouxe um episódio de ensino, especificamente, mas descrições e reflexões de uma professora a respeito de episódios vividos no início de sua trajetória profissional. A partir da análise desse caso de ensino, os alunos que acabavam de ingressar no curso de Pedagogia puderam explicitar diversos conhecimentos sobre: a) os motivos que os levaram a escolher o curso de Pedagogia; b) a área de atuação do pedagogo; c) sua trajetória como alunos e as aprendizagens vividas durante o tempo que passaram nos bancos escolares; d) os conhecimentos necessários para o professor ensinar e atuar na escola e e) como experiências com ensino podem influenciar sua formação como pedagogos. O estudo desse caso permitiu uma primeira aproximação aos saberes trazidos pelos alunos ao seu curso de formação inicial. Enquanto instrumento de intervenção nos seus processos de aprendizagem da profissão, a análise do caso estimulou o estabelecimento de processos reflexivos em torno de tais saberes e de seu processo de construção. No que se refere à escolha pelo curso de Pedagogia, é possível constatar um conjunto variado de fatores que, segundo as respostas obtidas, interferiram na opção dos alunos pelo curso. A vocação para a profissão e o desejo de trabalhar com crianças, de lecionar ou de atuar na gestão escolar aparecem como alguns dos motivos para a escolha da Pedagogia. Alguns alunos destacam que as condições financeiras em que viviam não permitiram que freqüentassem um curso pré-vestibular, o que determinou a escolha por um curso“menos concorrido”. A Pedagogia nem sempre é a primeira opção de curso superior dos alunos ingressantes. Em alguns casos, a escolha não foi exatamente pelo curso de Pedagogia, mas por cursar uma universidade pública e gratuita, no período noturno. Experiências escolares vividas durante a trajetória como aluno também aparecem como motivadoras para escolha do curso. Alguns alunos apontam o interesse por trabalhos sociais e pela Psicologia como motivos para a opção pela Pedagogia, considerando serem áreas relacionadas entre si. O interesse por atuar com pesquisa educacional também aparece como motivo da escolha pela Pedagogia. O desejo de mudar a realidade educacional, “[...] de fazer a diferença, minimizando a desigualdade no ensino” (A13, A39, A40, A36), de “[...] mudar a realidade atual do país, começando as melhorias já no ensino fundamental” (A35, A1, A26, A25) também aparece nas análises dos alunos. É Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 122 interessante notar que experiências vividas em contato com crianças também são apontadas como motivos para a escolha da Pedagogia. No que se refere aos conhecimentos dos alunos ingressantes no curso de licenciatura em Pedagogia a respeito do campo de atuação do pedagogo, é possível constatar, por meio dos dados obtidos, que alguns deles acreditam, ao ingressar no curso, ter conhecimento desse campo de atuação, enquanto outros apontam a necessidade de saberem mais a respeito das possibilidades de atuação deste profissional. Alguns alunos destacam que “O pedagogo, atualmente, tem um campo muito amplo de trabalho” (A42) e que “A Pedagogia é um curso muito abrangente diferente do que muitas pessoas pensam que a Pedagogia é simplesmente para dar aula. O campo de atuação do Pedagogo é muito amplo [...]” (A7, A11, A12, A21). De modo equivocado, alguns alunos confundem o pedagogo com o psicopedagogo, escrevendo que o pedagogo pode “[...] dar palestras, clinicar, fazer cursos paralelos e ser psicopedagogo” (A13, A39, A40, A36). Ainda de forma equivocada, alguns alunos se referem ao curso de Pedagogia em seu formato anterior às Diretrizes Curriculares Nacionais, destacando que a atuação deste profissional depende das “habilitações” cursadas. Interessante notar que alguns alunos vinculam o pedagogo ao pesquisador em educação. Alguns alunos destacam que o campo de atuação do pedagogo vai além do ambiente escolar, escrevendo que “[...] este profissional se faz necessário em empresas, trabalhando na área de Recursos Humanos” (A35, A1, A26, A25) e citando que “[uma integrante do grupo] conhece uma pedagoga que atua em uma clínica ajudando na educação de crianças excepcionais” (A2, A6, A28, A33). De modo geral, pode-se dizer que os ingressantes vinculam a profissão pedagogo às atividades de ensino e gestão nas escolas de Educação Básica, apontando, ainda, outras possibilidades de atuação, por exemplo, na elaboração de material didático e na área de recursos humanos. Ao serem solicitados a escrever sobre sua trajetória como alunos, os ingressantes do curso de Pedagogia destacam e analisam, principalmente, a organização das escolas em que estudaram e o preparo e atuação de seus professores. Entre os alunos, 11 deles declaram ter realizado seus estudos parte em escolas públicas e parte em particulares, 25 apenas em escolas públicas e 6 apenas em escolas particulares. A escola pública aparece associada, na maioria das análises, a professores mal preparados para ensinar e a instituições com estruturas inadequadas para o ensino e a aprendizagem. Ao se referir ao trabalho desenvolvido por seus professores, os ingressantes do curso de Pedagogia destacam a forma como eles se relacionavam com os conteúdos que ensinavam e analisam a metodologia de ensino que utilizavam. A18 escreve que sua professora era “[...] muito tradicional e rigorosa e o método de alfabetização foi aquela B+A=BA, apesar de sua rigidez era uma boa professora, pois a classe toda saiu alfabetizada”. Para A7, A11, A21, “[...] os professores eram muito mal preparados, não tendo didática”. Ainda no que se refere a sua trajetória escolar, os alunos do curso de Pedagogia analisam as aprendizagens que vivenciaram em seus tempos de escola. De modo geral, não Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 123 destacam conteúdos aprendidos em uma ou outra área de conhecimento. As aprendizagens relatadas se referem, muito mais, àquelas relacionadas à convivência com outras pessoas e à formação como cidadãos. A importância da escola está em “[...] ensinar ao aluno a importância de formar suas próprias opiniões, para não deixar ser manipulado” (A7, A11, A12, A21); “[...] na construção como pessoa, na aprendizagem, nos relacionamentos sociais em geral” (A13, A39, A40, A36); “[...] [garantir] a integração social, no amadurecimento pessoal [...]” (A20, A30, A31, A3); “[...] [ser] a base no nosso aprendizado do convívio social” (A2, A6, A28, A33). A aluna A42 sintetiza: “A escola tem extrema importância na nossa vida; como aluna, eu aprendi muita coisa: como conduzir minha vida em sociedade, a importância do estudo, enfim, adquiri conhecimentos e aprendi, de certa forma, a ser cidadã”. As alunas A35, A1, A26, A25 afirmam: “A escola nos iniciou na vida social, junto a comunidade, nos ensinou noções de respeito, a partilhar, nos deu responsabilidades e a necessidade de organização”. A partir da análise do caso de ensino, os alunos do curso de Pedagogia puderam explicitar os conhecimentos que acreditam ser necessários para o professor ensinar seus alunos e, além disso, atuar na escola. No que se refere aos conhecimentos necessários para o professor ensinar, há um destaque para os conhecimentos acadêmicos adquiridos na graduação. Alguns alunos citam as disciplinas que estão cursando na faculdade como importantes fontes de conhecimento para o professor. A42 afirma: “O professor precisa ter fundamentação em todas as disciplinas oferecidas na faculdade: filosofia, psicologia, história, etc. [...] é necessário conhecer algumas teorias e pensadores”. A5, A34, A19 apontam a necessidade da formação em Pedagogia: “A professora deveria ter a formação em Pedagogia para poder ter assim noções mais amplas do conhecimento na área de Educação como: filosofia, sociologia, cidadania, uma boa didática, etc.” Os alunos não chegam a explicitar de quais formas tais conhecimentos poderiam auxiliar o professor em seu trabalho diário com os alunos e como o professor deveria lidar com tais conhecimentos. A22, A23, A32, A37 se referem aos “[...] conhecimentos adquiridos na graduação: psicologia da educação, filosofia da educação, história da educação, organização escolar e outros” como possíveis de serem “aplicados” nas situações escolares. Em outra análise, realizada por A15, A16, A27, é possível constatar uma forma de encarar os conhecimentos acadêmicos como separados daqueles que serão construídos durante a atuação: “Deve-se ter um conhecimento tanto sobre a teoria que se aprende nos bancos universitários, como também na prática junto aos alunos [...]”. Ao cursar o primeiro ano da graduação em Pedagogia, ainda não parece clara aos alunos a relação entre as disciplinas cursadas na universidade e sua futura profissão. Além disso, aparentemente, caracterizam as aprendizagens vividas na universidade como teóricas, de certa forma desvinculadas da prática de sala de aula, sendo um conhecimento necessário ao professor saber “[...] relacionar a teoria à prática” (A42). Os alunos destacam, em suas análises, outros conhecimentos necessários para o professor ensinar, entre os quais, o conhecimento do conteúdo a ser ensinado, de métodos de ensino (inclusive metodologias“alternativas”), de materiais didáticos, de notícias relacionadas à educação, “[...] do que chamamos de didática” (A30) e, ainda, de “[...] Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 124 saber avaliar o desempenho do aluno” (A30). O conhecimento dos alunos também é apontado em diversas respostas dadas pelos estudantes de Pedagogia à questão referente aos conhecimentos necessários para o professor ensinar. Uma das alunas destaca que o importante, “[...] antes de qualquer conhecimento seja científico ou humano, é ter amor vivo pela Educação, assim vai ser menos difícil quando surgirem os desafios, os problemas do dia-a-dia da sala de aula, ou da profissão” (A24). O amor pela profissão também aparece como essencial na afirmação de A14, A18, A42, segundo as quais, “Além do embasamento teórico, também acreditamos ser necessário conhecer o contexto histórico-social no qual o aluno está inserido, numa reflexão constante da sua prática pedagógica, compromisso social e acima de tudo o amor pela profissão”. No que se refere aos conhecimentos necessários para o professor atuar na escola – indo além da sala de aula e, portanto, participando diretamente da organização e gestão escolares – alguns alunos apontaram não haver muita diferença em relação aos conhecimentos necessários para ensinar. As alunas A23, A22, A32, A37, por exemplo, ofereceram a mesma resposta para as questões referentes aos conhecimentos para ensinar e para atuar na escola. A aluna A31 escreve: “Parece-me que a resposta seria a mesma já que com estes conhecimentos adquiridos um passo já é dado. Resta a sabedoria para enfrentar problemas do dia-a-dia”. Outros alunos, aparentemente, não conseguiram citar conhecimentos diferentes daqueles necessários à atuação em sala de aula, como, por exemplo, a aluna A42, que afirma: “Além dos conhecimentos que já descrevi, o professor precisa ter domínio sobre a disciplina que irá lecionar” e as alunas A7, A11, A12, A21 que escrevem: “Para atuar em uma escola é preciso ter autonomia, saber sair de situações-problemas, ter domínio para saber se impor na sala de aula”. Outros alunos citaram conhecimentos além daqueles citados anteriormente. Entre tais conhecimentos, destacam-se aqueles referentes “[...] à estrutura do sistema escolar e toda a burocracia que o envolve. [...] A questão burocrática envolve também a elaboração do projeto político-pedagógico, a elaboração do plano de ensino, leis educacionais em geral” (A14, A18, A42, A24). A18 destaca que “Além dos citados na questão anterior, ele deve saber como a escola se organiza, não só a sala de aula, mas também na área de gestão, as burocracias, os estatutos que mantém o seu funcionamento geral”. Também são citados conhecimentos referentes à capacidade de relacionamento com as pessoas, além de características pessoais relacionadas à paciência e criatividade. A5, A34, A19 afirmam que “Ele tem que saber atuar não só apenas dentro da sala de aula, deve interagir com as outras pessoas e outras atividades. Deve ser sociável e criativo”. No caso de ensino “Meu Batismo de Fogo”, a autora relata uma experiência com ensino que vivenciou no início de sua carreira e que a afastou “[...] durante os doze anos seguintes da educação” (WEISZ, 2002, p. 12). Segundo ela, “[...] a experiência com esses meninos está na origem de tudo o que fiz depois e do rumo que minha vida profissional tomou” (p. 12). Diante desse relato e da análise realizada pela autora do caso em torno de sua experiência profissional, vivenciada enquanto ainda cursava o último ano do antigo Curso Normal, foi solicitado aos sujeitos da pesquisa que apontassem se já possuem algum tipo de experiência com ensino e, se sim, Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 125 quais as contribuições dela para sua formação como pedagogo. Dos 42 sujeitos, 24 declararam não possuir nenhum tipo de experiência com ensino e 18 apontaram já possuir algum tipo de experiência com ensino. Entre os alunos que declararam não possuir experiência, vale destacar que alguns deles, de certa forma, consideram este fato como negativo em sua formação, já que procuram, em suas respostas, apontar formas de suprir essa “lacuna”, como pode-se observar na escrita de A8, A4, A38, A17: “Concluímos que não temos nenhuma experiência na área, mas pretendemos adquirir o máximo de conhecimento possível para nos tornarmos ótimos profissionais” ou, ainda, nas respostas dadas por A20, que escreve que “Nunca tive experiência profissional. Porém, desde pequena, ajudo meus irmãos e primos menores a estudarem para as provas, a fazerem trabalhos escolares” e por A14 que destaca que “Infelizmente ainda não tenho nenhuma experiência nessa área, porém tenho muita vontade, pois sei que a teoria não vive sem a prática e vice-versa”. A experiência profissional parece ser encarada como necessária para a formação profissional, mesmo inicial. Em relação aos sujeitos que declararam já possuir algum tipo de experiência com ensino, estando, no período da coleta destes dados, no primeiro ano do curso de Pedagogia, foram apontadas experiências diversas: estágios realizados no curso de magistério, estágios remunerados em escolas particulares e/ou municipais, atuação como monitora em escolas de educação infantil e/ou anos iniciais do ensino fundamental, atuação como professora de língua portuguesa e língua estrangeira em escola particular, ‘professora’ de evangelização espírita, monitora em curso de datilografia, atuação como auxiliar pedagógico em escola particular, atuação como orientadora social em projeto do governo federal, trabalho voluntário em comunidade religiosa, trabalho como monitora em buffet de festas infantis, trabalho como professora de piano e, ainda, como cuidadora de crianças pequenas em residências de amigos. Ao analisar suas experiências, alguns alunos destacam aprendizagens vividas que serão importantes em sua carreira profissional. Para A13, A39, A40, A36, “[...] a contribuição disso em sua formação é como lidar com as crianças em sala de aula [...] tendo também conhecimento de jogos pedagógicos e contação de histórias”. Outros alunos também destacam a possibilidade de contato com crianças como grande contribuição das experiências anteriores com ensino para sua formação profissional. A33 afirma: “Conheci vários ‘tipos de crianças’, desde aquelas carentes, até as ricas mimadas”. Também se referindo às crianças, A2 escreve: “[...] pude conviver com diferentes tipos de crianças, cada qual da sua maneira e posso até dizer que me apaixonei também por aquelas consideradas mal-criadas. Estas últimas me espantaram, mas penso que se nem elas me fizeram desistir é porque estou na profissão certa”. São encontradas referências às crianças em outros trechos das respostas dos alunos, como no trecho em que A29 destaca que “Trabalhei com crianças carentes e tive a oportunidade de aprender muito com cada uma delas”. A18 destaca dificuldades vividas nas primeiras experiências com ensino e aponta formas de enfrentamento adotadas. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 126 Como a professora Telma [do caso de ensino], no início senti dificuldades principalmente com relação às formas de ensinar e avaliar, quais conteúdos, o que devo trabalhar, qual a melhor seqüência dos conteúdos, o que devo trabalhar primeiro, o que trabalhar depois. Pesquisando e estudando alguns assuntos e com a ajuda da Coordenadora Pedagógica da escola já sanei muitas dúvidas e melhorei minha prática, mas ainda me considero um pouco insegura.Vale ainda destacar a análise de A24 que, diferentemente da professora Telma, personagem do caso de ensino, que encerra seu relato com a frase “Esse foi meu batismo de fogo, e fez que eu me afastasse durante os doze anos seguintes da educação”, escreve: “Esta foi minha primeira e inesquecível experiência educacional, a partir desta me firmaria ou desistiria logo da Educação; creio que a primeira opção se cumpriu” (A24). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALARCÃO, I. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cortez, 2003. 102 p. (Coleção Questões da Nossa Época, 104). HARRINGTON, H. L. Case analyses as a performance of thought. In: LUNDEBERG, M. A.; LEVIN, B. B.; HARRINGTON, H. L. (Ed.). Who learns what from cases and how? The research base for teaching and learning with cases. 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Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 128 INTRODUÇÃO A voz abordada neste texto é a voz que permeia os processos humanos de interação por linguagem oral, integrante das formas de falar que, por sua vez, permeiam o desenvolvimento intelectual e da personalidade (VIGOTSKI, 2000). As formas de utilizar a voz na comunicação por linguagem oral se consolidam por processos similares aos que regem o desenvolvimento do ser humano: historicamente construído por experiências sociais e culturais. Compreende-se, neste contexto, que a utilização da fala é uma ação presente no habitus humano de ser e de fazer (BOURDIEU, PASSERON, 1986). Embora a voz seja emitida na maioria das vezes sem que se precise pensar para escolher os padrões mais aceitas por grupos sociais ou interlocutores específicos. Este fato não impede que as formas de falar sejam retraduzidas, continuamente, pela exposição a novas experiências e conceitos que, se utilizados e aceitos por grupos sociais com bons resultados, incorporam-se gradualmente ao habitus pré-existente. Isso é possível, pois a voz é um atributo humano passível de análise e de modificação (PITTAM, 1994), repleto de significado que produz uma diversidade de reações nos interlocutores viabilizando, ou não, empatia com o falante. Pode-se interpretar que as diferentes experiências com essas variações e seus efeitos moldam as formas de falar para diferentes grupos e em diferentes situações. Tal qual se constrói o comportamento vocal para as relações sociais, constroem- se as formas profissionais de falar e as variações vocais segundo fatores histórico-sociais das profissões, segundo experiências dos pares profissionais, segundo os modos mais aceitos de falar pela sociedade. A comunicação oral dos professores está presente na sala de aula durante as interações e a comunicação oral com os alunos no processo de ensinar e aprender, e nela encontram-se a voz, a fala e as variações possíveis de seus componentes. Por se tratar de um dos principais recursos do trabalho docente, e principalmente por compor os processos de interação que ocorrem em sala de aula durante a comunicação oral (BEHLAU, DRAGONE, NAGANO, 2004), a voz do professor merece atenção especial durante a formação profissional. Esta atenção focada principalmente para que o professor passe a ter com a voz uma relação mais consciente (relação definida por Duarte, 1993 ao abordar as formas pelas quais o indivíduo torna o objeto foco de sua objetivação) ofereceria a possibilidade de retraduções de suas formas de falar. DESPERTAR DA RELAÇÃO CONSCIENTE COM A VOZ NA FORMAÇÃO INICIAL DO PROFESSOR: EFEITOS NA PRÁTICA DOCENTE * DRAGONE** , Maria Lúcia Oliveira Suzigan ( UNESP) Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 129 O despertar do professor para sua própria voz, conforme o título desta tese sugere, tem o significado de tornar os processos envolvidos na produção da voz e no comportamento vocal fatos merecedores de maior atenção. Uma relação consciente com a voz envolve estabelecer com a emissão da voz e com o comportamento vocal relações que favoreçam o conhecimento de sua produção, das suas formas de utilização, de como este processo ocorre e de dominar suas possibilidades funcionais. É saber utilizar a voz como real recurso de trabalho, adaptando-a as situações diversas de sala de aula, transformando-a para valorizar as interações e à comunicação oral com seus alunos, para valorizar o conteúdo falado; significa saber valorizar a própria forma de falar maximizando pontos positivos, minimizando os negativos, e principalmente não gerando esforço e conseqüente desgaste vocal no decorrer do exercício da profissão. É anexar novas experiências vocais na construção da voz profissional, na apropriação pelo profes- sor de um de seus recursos de trabalho. Para compreender a voz nas situações de uso profissional torna-se necessário analisá-la sob a ótica das funções que lhe são atribuídas e das formas aceitas como preferenciais para alcançar ações de trabalho bem sucedidas. No caso da voz do professor é fato que ela é utilizada na maioria das ações docentes, com exigências de alta demanda e intensidade, em ambientes nem sempreadequados acusticamente, e para muitos alunos. É muito comum encontrar professores considerando suas vozes importantes porque as utilizam em grande parte de suas ações, porém não se percebe uma busca para avançar na compreensão, para melhor utilizá-la na função educativa, para fortalecer ou enfraquecer as interações e a comunicação oral em sala de aula nas quais se encontra a essência do trabalho docente. No campo educacional valoriza-se o conteúdo, mas, de forma alguma sem minimizar o valor implícito neste conteúdo, esquece-se que ele tem uma forma de ser expresso além do significado da palavra ou da estrutura gramatical, forma na qual residem a voz e o comportamento vocal. Estes conceitos, incorporados ao exercício desta profissão, obscurecem esta forma de falar, que tem significado nela mesma, que altera ou acrescenta significado à palavra falada. Nas últimas décadas houve uma relevante divulgação por parte dos profissionais da saúde, especificamente por fonoaudiólogos, de conceitos básicos de cuidados vocais para educadores em exercício ou em formação. Estas iniciativas buscavam difundir que a voz é passível de cuidados e que ser rouco não é fatídico, ou seja, rouquidão não pode ser algo esperado depois de alguns anos profissionais. Aos poucos estes fatos vêm sendo assimilados por esta classe profissional, lentamente. Na tentativa de compreender esta lentidão, a atenção dos estudiosos sobre o assunto se voltou para a compreensão da voz do professor na sala de aula, quanto a sua utilização na condução dos processos de ensinar e aprender, e regendo as interações com os alunos com toda gama de interferentes, procurando compreender seu valor real na sala de aula. Desta forma, gradualmente, revelou-se na produção científica uma voz que estava obscurecida na sala de aula, escondida nas entrelinhas dos estudos da educação e iluminada somente sob o foco da saúde vocal, pelos fonoaudiólogos. Ela aparece como aquela presente na comunicação oral do professor e nas suas relações envolvidas no processo de ensino e Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 130 aprendizagem. Destacou-se a necessidade de se compreender muito mais do que somente como o professor tem utilizado sua voz, pois, se a voz ocorre durante a ação do professor, há de se compreender melhor o trabalho docente, conhecer que ele é a engrenagem do processo de ensino- aprendizagem, e conhecer o professor como o gerenciador dessa engrenagem com toda sua capacidade, emoção e ação. A voz passou a ser compreendida como um dos micro-gestos do professor presente o tempo todo na sala de aula, pouco mencionada e explorada, mas provavelmente fator interferente nas relações entre professor e aluno (Dragone, 2000). Ainda alheios a este quadro que ora se desvenda, a maioria dos professores segue utilizando recursos vocais de forma a dar conta de suas necessidades, com opções construídas por suas histórias de vida pessoal e profissional, que nem sempre conduzem a um melhor desempenho com um mínimo esforço vocal. É fato que só se consegue escolher opções diferentes se o sujeito for exposto a várias delas, saber que elas existem, compreendê-las e praticá-las. Tal oportunidade pode surgir de várias formas na formação do indivíduo, sendo uma delas durante a formação profissional formal inicial ou continuada. Assim, supõe-se que se os professores fossem expostos à formação específica em voz e comportamento vocal poder-se-ia lhes dar a chance de compreender melhor a utilização da voz e as inúmeras opções para seu uso. Sob este cenário estruturaram-se os pilares deste estudo na compreensão de que pesquisas relacionadas à voz do professor, em se tratando de um objeto presente no núcleo do trabalho docente – a sala de aula, exigem olhares interdisciplinares (MARIN, 2005) para o fortalecimento das análises e relevância dos dados, segundo focos diversos e integrados, sem perder de vista o contexto no qual ela ocorre e nem o indivíduo professor que a origina. OBJETIVO Expor professores em formação no ensino superior a conceitos sobre voz e comunicação oral para observar e analisar os resultados, desta exposição, durante os processos de interação com alunos em sala de aula. MATERIAL E MÉTODO Este projeto de pesquisa foi aprovado por Comitê de Ética com seres humanos, e consolidou-se cumprindo o rigor metodológico de obtenção de termos de consentimento livre e esclarecido de todos os participantes, além das autorizações institucionais dos locais nos quais a pesquisa ocorreu. Optou-se por uma pesquisa analítico-descritiva cujos dados foram coletados no ano de 2005, a partir das respostas a um questionário inicial por 133 sujeitos graduandos do último ano de cursos superiores de formação para o magistério de três Instituições de Ensino Superior do interior do estado de São Paulo, com a finalidade de compor o perfil dos participantes. Em seguida foi oferecido um Curso de Extensão em Voz e Comunicação Oral, com 32 horas de Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 131 duração, gratuito, a todos respondentes do questionário inicial, com carga horária semelhante a uma disciplina curricular dos cursos de graduação. Somente 17 somente dos sujeitos que responderam ao questionário inicial participaram do curso por motivos diversos, fora do controle direto do pesquisador, tais como: dificuldade em realizar o curso em horários letivos, agendamento do curso pelas instituições em épocas coincidentes com congressos nos quais os alunos tinham interesse em participar e divulgação sem foco direto nos alunos prováveis sujeitos da pesquisa. O conteúdo do curso priorizou o despertar de uma relação mais consciente com a voz entre os participantes, como um elemento inicial de reflexão e de autopercepção do professor sobre suas formas de falar e os impactos prováveis nos alunos, sendo assim os demais conceitos trabalhados durante o curso passaram a compor um universo de opções passíveis de serem realizadas pelos professores durante a aula (formas de falar diferenciadas, sem tensão, com funções definidas, de impacto positivo e corretamente utilizadas nos diferentes momentos da aula). Foram realizados registros em áudio das vozes dos participantes (/a/ prolongado) antes e depois do curso, com a finalidade de avaliar as faixas de referência de normalidade vocal, constatando a possibilidade de aprimoramento. Três (3) professoras participantes do curso, já atuantes no magistério em séries iniciais da Educação Básica, alunas dos cursos de graduação, foram eleitas para serem observadas e filmadas em sala de aula durante a realização de uma atividade didática completa, antes e depois do curso, num espaço de tempo médio de três meses e meio, no qual o Curso de Extensão em Voz e Comunicação Oral configurou-se como a única variável na rotina destas professoras. Obteve-se 540 minutos de imagens em vídeo, que foram editadas e organizadas aleatoriamente, segundo três momentos da aula (GIOVANNI, 1996): motivação para aprender, ação de ensinar e aprender e expressão do conhecimento, configurando 20% das amostras em vídeo configurando- se como representativas da situação real. Os dados obtidos passaram por três dimensões de análise quantitativa e qualitativamente: (1) análise da pesquisadora, também observadora em sala de aula, que estendeu o olhar da câmera de vídeo para a movimentação na sala de aula e para as impressões das ações comunicativas presenciadas, respeitando os três momentos da aula; (2) análise das amostras em vídeo por seis fonoaudiólogas, avaliando a voz e o comportamento vocal e verbal, e (3) por seis educadoras avaliando a comunicação oral em sala de aula e os processos de interaçãocom os alunos e com os objetivos de cada momento da aula. Os dados das análises (2) e (3) foram apontados em escala linear de 10 cm, sem demarcação de graduação, cujo limite à esquerda representava a pior performance esperada e o da direita a melhor de cada atributo, e medidos em centímetros posteriormente, quanto maior o valor melhor a performance. As médias obtidas para cada atributo em cada momento da aula foram obtidas e analisadas estaticamente fortalecendo os achados qualitativos. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 132 RESULTADOS: A realidade estrutural dos cursos de ensino superior para formação de professores é de estruturas curriculares densas sem espaços para atividades extracurriculares como o agendamento de um curso sobre voz e comunicação oral segundo formato planejado no método desta tese, com formato de disciplina curricular, e desta forma foram necessárias adaptações segundo as possibilidades estruturadas pelos coordenadores dos cursos e a diminuição da am- plitude da coleta de dados pela impossibilidade de realizar o curso em uma das instituições de ensino. O curso priorizou o despertar de uma relação mais consciente com a voz entre os participantes, como um elemento inicial de reflexão e de autopercepção do professor sobre suas formas de falar e os impactos prováveis nos alunos, sendo assim os demais conceitos trabalhados durante o curso passaram a compor um universo de opções passíveis de serem realizadas pelos professores durante a aula (formas de falar diferenciadas, sem tensão, com funções definidas, de impacto positivo e corretamente utilizadas nos diferentes momentos da aula). As condições metodológicas propostas permitiram que o curso pudesse ser considerado a variável principal no período de estudo, pois foi o único fato diferenciado que ocorreu na formação dos professores participantes além da formação, da qual já participavam, de nível superior. E, a análise dos dados obtidos permitiu afirmar que ao participarem de um curso desta natureza os professores atuantes nos momentos iniciais da Escola Básica reagiriam de forma a modificar seu comportamento vocal durante a comunicação oral em sala de aula, e que esta reação poderia gerar respostas na interação com os aluno. A definição das três professoras a serem observadas revelou-se significativa pela diversidade de sua formação (uma de ensino público, duas ensino privado), de atuação nos anos iniciais de Ensino Básico (ensino infantil, fundamental e alfabetização), da natureza das instituições de atuação (privada, pública e projeto de extensão em parceria pública-privada). Todas iniciantes e todas ainda em formação no ensino superior, professoras corajosas ao permitirem a exposição e análise de suas aulas, retratos da realidade! A aulas de três professoras foram analisadas sob dimensões diversas antes e depois do curso, com focos também diversos tecendo pareceres que combinados compuseram um retrato das modificações percebidas na voz e na comunicação oral das professoras durante os processos de interação entre elas e seus alunos no interior da sala de aula. Ficou evidente que houve benefícios para a aula relacionados à voz e comunicação oral das professoras e aos atributos comunicativos envolvidos na interação entre professor e alunos, permeando o processo de ensinar e aprender. As observações em sala de aula e das imagens dos registros em vídeo pela pesquisadora permitiram a constatação de alguns aspectos modificados após o curso nas aulas de todas as professoras: - melhor qualidade de vocal, ressonância da voz e articulação de fala. Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 133 - maior quantidade de busca de contatos verbais e tentativas de mantê-los. Outros aspectos foram mais particulares e as modificações ocorreram especificamente segundo as necessidades de cada uma das professoras. Como relacionado no Quadro 1 a seguir: Quadro 1: Aspectos particulares antes e depois do curso pela observação das aulas Embora os benefícios constatados, quando quantificados, não tenham revelado diferenças muito grandes em valores absolutos (ver Tabelas 1 e 2) entre as situações observadas antes e depois do curso, a maior parte deles foi estatisticamente significante revelando que a participação das professoras no curso foi positiva com relação às modificações observadas na utilização de voz e fala em sala de aula. A análise qualitativa realizada pelas fonoaudiólogas foi devidamente quantificada e os dados obtidos tratados estatisticamente, estabelecendo com maior precisão quais dos aspectos observados tiveram maior destaque por serem significantes, conforme exposto abaixo na Tabela 1. Antes do curso Depois do curso - pouco contato verbal - utilização de mais contatos verbais com voz audível e projetada no ambiente. - opção de agudizar e tensionar a voz cada vez que precisava de intensidade - voz mais projetada e fala intensa sem tensão ou mudança de tom - voz rouca-moderada com tensão fonatória e psicodinâmica inadequada - rouca discreta/moderada com emissões menos tensas e psicodinâmica adequada ao contexto Formação inicial e continuada de professores IX CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2007 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 134 Tabela 1: Valores médios dos atributos vocais e de fala e de fala obtidos pelas professoras antes e depois do curso de extensão segundo avaliação das fonoaudiólogas Teste Wilcoxon: p-valor 0,05 * valores estatisticamente significantes # valores com tendência a significância Neste caso cada atributo vocal e de fala, em cada momento observado da aula (Motivação para a Ação de ensinar e aprender, Ação de ensinar e aprender e Expressão do conhecimento) foi analisado estabelecendo-se resultados associados às questões particulares de cada situação do processo de ensinar e aprender. A estes resultados foi possível associar algumas observações não formais das avaliadoras em questão que ilustraram a realidade da sala de aula que permearam constantemente as modificações dos atributos vocais e de fala, que, embora melhorados, ocorreram em contexto com dificuldades outras importantes no processo de ensinar e aprender. O Quadro 2 resume os resultados desta dimensão de análise, e traz as principais observação sobre a ação das professoras. Quadro 2: Atributos vocais e de fala com diferenças significativas antes e depois do curso e observações das fonoaudiólogas sobre as dificuldades das professoras. MOMENTOS DA AULA ATRIBUTOS Motivação para a ação Ação para aprender Expressão do conhecimento antes depois p-valor antes depois p-valor antes depois p-valor Articulação 7,33 7,13 0,931 7,07 7,85 0,240 6,99 7,61 0,074# Entonação 5,34 5,88 0,239 5,17 7,03 0,019* 5,24 6,76 0,023* Loudness 5,40 7,12 0,007* 6,40 7,33 0,206 7,07 6,68 0,446 Pitch 5,94 6,29 0,758 5,46 7,57 0,002* 6,11 6,46 0,349 Ressonância 6,02 6,77 0,088# 6,34 7,26 0,144 6,43 6,88 0,316 Ritmo 6,54 6,56 0,586 6,48 8,20 0,015* 6,56 7,16 0,206 Velocidade de fala 6,73 7,03 0,828 6,52 7,58 0,009* 6,87 7,18 0,679 Qualidade da voz 6,24 6,47 0,422 5,55 7,92 <0,001* 5,87 6,54 0,267 Psicodinâmica 4,92 5,52 0,296 4,16 6,61 0,003* 4,71 6,14 0,055# Atributos vocais e de fala com diferenças significativas para melhor antes e depois do curso Observações das fonoaudiólogas sobre as dificuldades das professoras Momento motivação para aprender - loudness Momento Ação de ensinar e aprender - entonação, pitch, ritmo e velocidade de fala