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1 IV - TIPOS DE CONHECIMENTO (2ª parte) 4 – CONHECIMENTO CIENTÍFICO (O texto abaixo foi extraído de: BERVIAN, Pedro A., CERVO, Amado L. O Histórico do Método Científico. In: Metodologia Científica. 5. ed., São Paulo: Prentice Hall, 2002) “O conhecimento científico vai além do empírico, procurando conhecer, além do fenômeno, suas causas e leis. Para Aristóteles o conhecimento só se dá de maneira absoluta quando sabemos qual a causa que produziu o fenômeno e o motivo, porque não pode ser de outro modo; é o saber através da demonstração. A ciência, até a Renascença1, era tida como um sistema de proposições rigorosamente demonstradas, constantes e gerais que expressam as relações existentes entre seres, fatos e fenômenos da experiência. O conhecimento científico era caracterizado como: a) certo, porque sabe explicar os motivos de sua certeza, o que não acontece com o conhecimento empírico; b) geral, no sentido de conhecer no real o que há de mais universal e válido para todos os casos da mesma espécie. A ciência, partindo do indivíduo concreto, procura o que nele há de comum com os demais da mesma espécies; c) metódico e sistemático. O cientista não ignora que os seres e fatos estão ligados entre si por certas relações. O seu objetivo é encontrar e reproduzir esse encadeamento. Alcança-o por meio do conhecimento ordenado de leis e princípios. A essas características acrescentam-se outras propriedades da ciência, como a objetividade, o interesse intelectual e o espírito crítico. A ciência, assim entendida, era o resultado da demonstração e da experimentação, só aceitando o que fosse provado. Hoje a concepção de ciência é outra. A ciência não é considerada como algo pronto, acabado ou definitivo. Não é a posse de verdades imutáveis. (p. 09) Atualmente, a ciência é entendida como uma busca constante de explicações e de soluções, de revisão e de reavalição de seus resultados, apesar de sua falibilidade e de seus limites. Nessa busca sempre mais rigorosa, a ciência pretende aproximar-se cada vez mais da verdade através de métodos que proporcionem controle, sistematização, revisão e segurança maior do que possuem outras formas de saber não-científicas. Por ser algo dinâmico, a ciência busca renovar-se e reavaliar-se continuamente. A ciência é um processo em construção.”(p. 10) MÉTODO CIENTÍFICO (O texto abaixo foi extraído de: RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa Social: métodos e técnicas. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 1999) “Quando uma pessoa utiliza o método científico para investigar ou estudar a natureza, está pensando cientificamente. Assim, todo cientista deve pensar cientificamente quando está pesquisando um fenômeno mediante o método científico. Mas o que significa pensar 1 Renascença: movimento artístico e científico dos sécs. XV e XVI, que pretendia ser um retorno à Antigüidade Clássica. 2 cientificamente? Significa pensar criticamente. Seguindo as idéias de Vieira Pinto2 , significa compreender a exigência de que o conhecimento deve ser submetido por parte do pesquisador a uma reflexão para descobrir conexões necessárias entre as idéias e revelar as condições que definirão a verdade dos enunciados emitidos: (p. 25) O pensamento deve proceder segundo determinações regulares que assegurarão a certeza dos resultados obtidos no empenho de conhecer a realidade... Saber que sabe, porque sabe e como sabe. (PINTO, 1985: 38) Cabe destacar que qualquer pessoa, no dia-a-dia, “pode pensar como cientista”; basta que pense criticamente a realidade, usar a evidência empírica, ter um raciocínio lógico e possuir uma atitude céptica (questionamento constante das crenças e conclusões). Existem diversas etapas que devem estar presentes no uso do método científico: � Observação O método científico fundamenta-se na observação do mundo que nos rodeia. Dita observação, definida em termos amplos, não está restrita apenas ao que vemos; inclui todos os nossos sentidos. Portanto, devemos aprender a observar da maneira mais aberta possível para que possamos questionar-nos sobre o que, porque e como são os fenômenos. As primeiras observações podem ser informações de nossa própria experiência ou dados obtidos por meio da leitura de algum texto. O mais importante é que essas observações devem ser sensíveis, mensuráveis e passíveis de repetição, para que possam ser observadas por outras pessoas. � Formulação de um problema O segundo passo do método científico é a formulação de um problema ou pergunta. O pesquisador deve ser curioso. Os seres humanos por natureza são curiosos. Por exemplo, leve uma criança de três anos de idade ao zoológico. Lamentavelmente, em algumas escolas se exige que a criança se sente direitinho em cadeiras ordenadas, sem fazer perguntas. Logicamente, uma sala de aula científica deveria estar cheia de mão levantadas, fazendo uma quantidade de perguntas. E um barulho produtivo. Em seu dia-a-dia, libere suas inibições. Seja curioso, faça perguntas. Existe apenas uma pergunta boba... aquela que você não faz e para a qual nunca tem resposta! Faça pergunta e trabalhe para chegar a uma resposta. A pergunta deve ser passível de resposta. A ciência pode responder a muitas perguntas, mas existe algumas a que não pode responder. Por exemplo: por que estou no mundo? A expressão por que implica propósito e pede resposta de um criador. Esta pergunta não pode ser respondida pela ciência, pois a ciência não pode testar um criador para os seres humanos. Esta pergunta só pode ser respondida pela fé das pessoas. (p. 26) O Pesquisador deve fazer uma pergunta baseada na observação de um fenômeno. Às vezes, a pergunta é escolhida para resolver um problema específico. Outras vezes, a pergunta surge da curiosidade. De fato, a curiosidade tem resultado em importantes contribuições para compreender a natureza e para criar as bases de uma ciência aplicada. Se desejamos uma resposta, a pergunta deve ser realista. Não existe pesquisador ou grupo de pesquisadores que trabalhem isolados do mundo. Por exemplo: um experimento planejado para determinar a estrutura molecular do vírus HIV é realista. As melhores perguntas são formuladas utilizando como, que, e quando. As perguntas que incluem a expressão por que não têm uma resposta fácil desenvolvida pelo método científico. 2 PINTO, Álvaro Vieira. Ciência e existência. São Paulo: Paz e Terra, 1985. (p. 38) 3 (...) � Hipóteses A terceira etapa do método científico é a formulação de uma hipótese. Em temos simples, uma hipótese é uma resposta possível de ser testada e fundamentada para uma pergunta feita relativa ao fenômeno escolhido. O pesquisador examina a literatura sobre o fenômeno, obtém a maior quantidade de conhecimento possível, para responder ao problema formulado. Essa tentativa de resposta é a hipótese. Ao formular a hipótese, o pesquisador iniciante não deveria preocupar-se com chegar à melhor hipótese. As diversas etapas do método científico testarão a hipótese. Um aspecto extremamente importante da hipótese é a possibilidade de ser rejeitada. Deve existir um meio para testar a possível resposta e tentar rejeitá-la. Se o pesquisador formula uma hipótese que não pode ser testada ou rejeitada, a ciência não pode ser utilizada para decidir o que está certo ou errado. Por exemplo, temos a seguinte pergunta: Deus está acordado? Daí, formulamos a seguinte hipótese: “Deus está acordado”. Não existe forma de testar cientificamente o estado de sonolência de Deus. Mudemos a palavra Deus para Pedro Malan; a hipótese agora é testável. Outro aspecto que cabe destacar é o fato de aceitar uma hipótese falsa. Esse fato pode ser um momento importante paraa ciência. Muitos trabalhos excelentes (p. 27) têm sido realizados quando os pesquisadores tentam conhecer os motivos pelos quais aprovaram a hipótese. Nesses momentos, surge a ciência como arte. A preparação do pesquisador, o pensamento crítico, sua experiência podem levar a novas descobertas científicas. (...) � Experimentação A quarta etapa do método científico é a manipulação e comparação dos resultados. Em termos gerais, um experimento é uma ou várias atividades levadas a cabo em condições muito específicas. O experimento é uma manipulação intencional. Os elementos manipulados são as variáveis e sempre existe um elemento não manipulado (elemento controle). Particularmente nas ciências sociais, é difícil realizar uma comparação entre um tratamento e uma situação de controle. Devemos reconhecer, porém, que a informação mais útil para o desenvolvimento humano deriva da ciência experimental. � Análises A quinta e última etapa do método científico consiste na aceitação ou rejeição da hipótese. Por meio desse processo, utilizamos os resultados para construir, reforçar ou questionar determinada teoria. Deve-se lembrar que uma teoria não é mais que uma hipótese confirmada por diversos pesquisadores em várias oportunidades. As teorias científicas explicam a natureza, unificando fatos aparentemente isolados ou corroborando diversas hipóteses. São as explicações mais poderosas, existentes em um momento dado, para saber como o universo, a natureza, a vida surgiram, de que estão feitos e que acontecerá com eles. Considerando que o homem é parte do universo e da natureza, a ciência tem capacidade de explicar o passado, o presente e o futuro desse homem.” (p. 29) Para exemplificar, observemos as palavras de Otaviano Pereira, que narra as etapas citadas anteriormente no caso específico da invenção da vacina contra a varíola, desenvolvida na Inglaterra por um cientista chamada Jenner: 4 1. MOMENTO DA OBSERVAÇÃO: Jenner observou que num rebanho de vacas atacadas pela varíola, as que já haviam sofrido anteriormente a varíola branca (varicela) se salvaram, ao passo que as outras morriam. 2. PROBLEMATIZAÇÃO: Por quê? Por que as vacas atacadas com varicela não pegam varíola? 3. HIPÓTESE: surgiu-lhe a idéia de relacionar os dois tempos da doença. Desconfiou que algo se formava no organismo das vacas após a primeira enfermidade. Presumiu que provavelmente o organismo do animal proporciona uma defesa, uma imunização natural (hoje chamamos de anticorpos). 4. EXPERIMENTAÇÃO: Jenner imaginou que poderia testar uma imunização artificial, inoculando no organismo do animal germens da doença, apenas de forma débil. É o momento da prática da aplicação da ‘vacina’. Ao extrair um pouco da matéria contaminada das vacas doentes e injetando em vacas sãs. Estas então sofriam apenas levemente de varíola e, após curadas, ficavam imunizadas contra a doença. 5. GENERALIZAÇÃO OU LEI: aí Jenner conclui que os germens patógenos (isto é, que produzem a doença) injetados nas vacas sãs provocam, no seu organismo, a produção de anticorpos que combatiam qualquer gérmen da doença, isto passa então a ter validade para todos os casos. (Adaptação de: PEREIRA, Otaviano. O que é teoria. In: MEKSENAS, Paulo. Sociologia. São Paulo: Cortez, 1994. p. 42)