História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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conhece. Mas enquanto se percebe

existente, reconhece também que nem sempre existiu, que o seu ser teve um

princípio e que não é ele pró prio o princípio do seu ser. Por isso é levado

a reco-

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nhecer uma causa criadora que seja o fundamento da sua existência. E como não

pode pensar que esta causa criadora tenha s-ido por sua vez criada sem se

integrar num processo ad infitzitum deve admitir que tal causa subsiste em si

e que o ser da mesma não tenha princípio, mas seja eternamente real (De

sacram., 1, 3, 6-9). À mesma conclusão se chegará pela consideração das

coisas externas. Todas as coisas que têm nascimento e morte devem ter uma

origem e um criador. Tudo o que é mutável nem sempre existiu e por isso deve

ter tido um princípio. Deste modo as coisas externas confirmam o que a alma

encontra em si; e a natureza revela o seu autor tal como o revela a própria

alma (1b., 1, 3, 10).

Tal como a existência de Deus, também a Trindade pode ser demonstrada através

das duas vias, interna e externa. No homem de palavra interior revela-se na

palavra exterior; assim em Deus a palavra interior, qu,@ é a sua eterna

Sapiência, reveIa-se na palavra externa, que é o mundo criado. No nosso

espírito, a razão, a sabedoria que- nasce da razão, e o amor, que procede de

ambas são uma única realidade-, assim em Deus espírito, sapiência e amor

constituem uma única substância. Mas, enquanto que no nosso espírito a

sabedoria e o amor não têm personalidade porque são puros acidentes ou

afeições do espírito, em Deus a Sapiência, e o Amor são o próprio ser de

Deus, são o que o próprio Deus é, por conseguinte, pessoas. Assim, em Deus há

três pessoas numa só natureza, enquanto que no homem há uma só pessoa, a

qual, com as diversas qualidades da sua vida interior, corresponde à Trindade

Divina, sem no entanto a reproduzir adequadamente (Ib., 1, 3, 25). As coisas

exteriores reproduzem também a divindade. A grandeza do mundo corresponde ao

poder divino, a sua beleza, à sabedoria, o seu finalismo e a sua

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conformidade às necessidades do homem, à bondade (lb., 1, 3, 28). Deus criou

o mundo não apenas secundum se, mas também propter se. Secundum se, ou seja:

em conformidade consigo próprio, porque não tomou do extenor ou que foi obra

sua; propter se, ou seja: por sua própria causa, porque não recebeu de outro

a causa da sua acção criadora (1b., 1, 2, 3). Hugo de S. Victor distingue, a

propósito da criação, as coisas que são apenas causa, das que são apenas

efeito, e as que são ao mesmo tempo causa e efeito

O que é apenas causa e não é efeito é Deus, como causa suprema. No extremo

oposto está aquilo que é apenas efeito o não é causa, a matéria, de que são

compostas as coisas criadas. Entre estes dois extremos estão e movem-se todas

as outras coisas, que estão entro si numa relação de causa e efeito e assim

vão desde a causa primordial até à matéria. Deus criou em primeiro lugar a

matéria informe; mas tal matéria não era informe a ponto de ser absolutamente

privada de forma, porque o que é privado de forma é privado de existência,

era informe apenas no sentido de que era confusa e mesclada (forma

confusionis), privada de ordem e de disposição (forma dispositionis) que em

seguida teve de Deus (lb., 1, 1, 4).

Em polémica com Abelardo, que tinha afirmado que Deus não pode fazer

coisa diferente daquilo que faz, nem aquilo que faz pode fazê-lo melhor do

que fez, Hugo de S. Victor sustenta que Deus teria também podido criar um

mundo melhor. Com efeito, a razão porque Deus não pôde criar um mundo melhor

pode ser devida ao facto de ao mundo não faltar qualquer possível perfeição

ou ao facto de o mesmo não ser susceptível de urna maior perfeição. Más no

primeiro caso, o mundo seria semelhante ao Criador e assim o Criador seria

coagido aos limites do finito ou então o mundo

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elevado para além desses limites; e tanto uma hipótese como a outra são

impossíveis. Se se pode afirmar a incapacidade do mundo de assumir uma

perfeição maior, isto é já uma prova de que o mundo não é o melhor nem o mais

perfeito, porque esta incapacidade é, por si, defeito e imperfeição. Na

verdade, apenas Deus é de tal modo perfeito que não pode ser mais perfeito. O

mundo criado não participa destaperfeição absoluta e por isso Deus teria

podido criá-lo ainda melhor do que realmente o criou. Ele não pode fazer

apenas o que é impossível, uma vez que "não poder o impossível não é não

podem Ub., 1, 2, 22).

A criação não é uma acção necessária de Deus, mas uma livre manifestação da

sua bondade. A decisão e a vontade de criar os homens estão desde a

eternidade em Deus, mas a própria criação não é eterna. Deus quis sempre que

o mundo existisse, mas não quis que ele fosse eterno: o querer criador de

Deus é eterno, e o que é criado não é eterno (1, 2, 10). Na criação

participaram não só o poder e a bondade de Deus, como também a sua sabedoria.

A sabedoria divina é ciência, presciência, disposição predestinação,

providência: ciência das coisas existentes, presciência das coisas futuras,

disposições das coisas a fazer, predestinação dos homens para a salvação,

providência daqueles que estão sujeitos ao querer divino. Desde a eternidade

que todas as coisas criadas existiam no conhecimento divino; mas isso não as

torna necessárias. As coisas não chegam necessàriamente ao ser porque foram

pensadas por Deus. Podem também não se tornarem reais e neste caso as ideias

divinas não são causas das coisas. Só a vontade divina pode transformar as

ideias divinas em realidade criada (lb., 2, 16-18).

À vontade divina se referem todas as determinações de valor. Deus não quis

certa coisa apenas porque é bom e justo, mas tudo o que é bom e

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justo é-o porque Deus o quis. Com efeito, o ser justo é propriedade essencial

do querer divino. "Quando se pergunta porque é que é justo o que é justo é

preciso responder: porque é conforme com a vontade divina, que é justa. E

quando se pergunta porque é que a vontade de Deus é justa, é preciso

responder: não há causa da primeira causa e ela é por si o que é" (1b., 1, 4,

1).

Se a vontade de Deus é o próprio bem, a presença do mal no mundo deve ser

exigida pela bondade conjunta do mundo. Deus fez o bem e permitiu que

houvesse o mal, apesar de não ser o seu autor. E apesar de o mal ser e

continuar a ser como tal, como tal é e continua a ser o bem, e é por bem que

existe o bem e o mal. Com efeito, o bem deriva não apenas do bem, mas também

do mal; através da oposição entre o bem e o mal resulta mais evidente a

beleza e a ordem conjunta do mundo. Por isso é um bem existir o mal e esse é

o motivo pelo qual Deus permitiu que o mal existisse (lbid., 1, 4, 5-6).

§ 226. HUGO DE S. VICTOR: A ANTROPOLOGIA

O homem está no cume do mundo sensível. Segundo a Sagrada Escritura, o homem

foi criado depois de todas as outras coisas, e isto aconteceu porque ele é o

primeiro de todas as criaturas sensíveis e todo o mundo sensível foi criado

para ele. Deus criou o homem para o servir; e criou o mundo para que este

sirva o homem. O homem é um ser finito, precisa da ajuda exterior quer para

se conservar tal como é, quer para chegar a ser o que não é ainda. Foi

colocado no centro do mundo sensível para que dele se sirva como de uma ajuda

necessária à sua conservação. Mas está destinado a

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servir a Deus e assim alcançar aquela plemitude e felicidade que não possui

ainda. Para ele existe um duplo bem, um bem de necessidade e um bem de

felicidade: o primeiro é-lhe dado pelas coisas do mundo, o segundo pelo

próprio Criador. O primeiro suige criado por causa do homem e para se lhe

tornar útil; o segundo é o fim para que foi criado o homem (De sacrum, 1, 2,

1). Sendo este o lugar do homem no mundo, distinguem-se na própria natureza

do