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História da filosofia   III - Nicola Abbagnano

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pessoa, aceite já por Hugo como "substância individual de natureza racional",
Ricardo acrescenta a determinação "dotada de existência incomunicável" (Ib.,
IV, 18). A interpretação trinitária de Ricardo constitui na escolástica uma
fórmula fundamental que foi seguida sobretudo pela escola franciscana.
§ 229. RICARDO DE S. VICTOR: A ANTROPOLOGIA MíSTICA
O pressuposto de Ricardo é a unidade e a simplicidade da natureza humana. A
alma é uma essência simples e espiritual que comunica ao corpo vida
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e sensibilidade: A alma e o espírito não são no homem duas substâncias
diversas, mas constituem uma única essência; o espírito é a faculdade
superior da alma, mas não se distingue substancialmente dela. Tal como os
objectos se dividem nas três classes do sensível, do -inteligível (mundo
espiritual) e do intelectível (Deus) assim se dividem em três faculdades os
poderes da alma; imaginação, razão, inteligência. A função da imaginação é a
de receber e conservar as percepções sensíveis. A razão é a capacidade de
pensamento discursivo, que procede demonstrativamente de uma verdade para
outra. A inteligência são os olhos espirituais que vêem as coisas invisíveis
na sua presença real, como os olhos da carne vêem o que é visível (De
contempl., 111, 9).
Nestas três faculdades se baseia a via mística ao procurar a união com Deus.
O pensamento (cogitatio) baseia-se na imaginação; a meditação (meditatio) na
razão e a contemplação (contemplatio) na inteligência. "0 pensamento vagueia
lentamente por aqui e por ali, sem se preocupar com uma meta. A meditação
tenta esforçadamente prosseguir através de obstáculos e dificuldades na
direcção de um fim. A contemplação circula em voo livre, por onde quer que
expanda o seu ímpeto e com uma extraordinária agilidade.
A contemplação é o último estádio da via mística. Duas são as suas condições
fundamentais. Em primeiro lugar, a pureza de coração, condicionada pela
virtude; em segundo lugar, o conhecimento de si. Ricardo compara a razão e a
vontade do homem às duas mulheres de Jacob, Raquel e Lia. Tal como Jacob se
uniu primeiro a Lia e dela teve sete filhos e sete filhas, e em seguida
desposou Raquel e gerou dela, assim também a vontade humana é primeiro
fecundada pelo espírito de Deus, que gera nela as virtudes; em seguida a
razão humana, desposando a graça divina, gera o conhe-
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cimento mais alto. As virtudes são portanto os filhos de Lia, mas a vida
mística começa apenas com o conhecimento que a alma tem de si. O último filho
de Jacob e de Raquel, Benjamim, é o símbolo desse conhecimento de si, que é
a verdadeira e própria -introdução à união mística com Deus (De praep. ad
contempl., 67-71). "Aprenda o homem a conhecer o que há nele de invisível,
antes de conhecer o que há de invisível em Deus. Se não te podes conhecer a
ti próprio, como pretendes poder conhecer aquele que está acima de ti?" (lb.,
7).
Seis são os graus fundamentais da contemplação.
O primeiro, in imaginatione et secundum imaginationem, considera o mundo
sensível como tal, relacionando a perfeição e a beleza com a potência,
sabedoria e bondade de Deus. O segundo, in imaginatione et secundum rationem,
considera o mundo sensível nos seus dois princípios e assim nos conduz do
mundo sensível ao mundo inteligível. O terceiro grau, in ratione et secundum
imaginationem, relaciona o sensível com o supra-sensível e assim tem em
consideração as ideias das coisas. O quarto grau in ratione et secundum
rationem considera a alma e os espíritos puros, como sejam os anjos.
O quinto grau, supra rationem et non praeter rationem, dirige-se a Deus na
medida em que ele é cognoscível pela nossa razão. O sexto e últrro grau,
supra rationem et praeter rationem, considera os atributos da divindade que
transcendem em absoluto a razão humana, por exemplo, os que se referem à
Trindade (De contempl., 1, 6).
Os graus de ascese progressiva da alma para a verdade suprema podem
distinguir-se também pela qualidade subjectiva dos seus actos. Alguns deles
implicam, com efeito, o dilatar-se (dilatatio) da mente, outros o levantar-se
(sublevatio) outros a alienar-se (alienatio) da mente de si mesma. O dilatar
da mente consiste em expandir-se e em agudizar
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as suas capacidades, sem que, no entanto, transcendam os limites humanos. O
elevar-se da mente é o estado em que ela permanece iluminada pela luz divina
e transcende os limites da capacidade humana. Finalmente, o alienar-se da
mente é o abandono da memória de todas as coisas presentes e a transfiguração
num estado em que já não há nada de humano Ub., V, 2). O primeiro destes
graus é devido à actividade humana, o terceiro apenas à graça divina, o
segundo a uma e a outra. No terceiro grau, está o ponto culminante da
contemplação, o êxtase ou excessus mentis. Som invólucro e sem sombras, não
mais per especulum et in enigmate, o homem contempla então a luz da sabedoria
divina. Neste estado não existe já sensibilidade, nem memória das coisas
externas e a própria razão humana se cala. A mente é arrebatada lá de si
própria e todos os limites da razão são superados. Morre Raquel e nasce
Benjamim. A morte de Raquel significa o desaparecimento da razão (De praep.
ad contemp., 73).
A mística de Ricardo é a expressão fundamental e típica do misticismo
medieval. Ricardo viu nitidamente que a via mística conduz à abolição de
todos os limites humanos para colocar o homem face a face com Deus.
NOTA BIBLIOGRÁFTCA
§ 221. GEBRART, L'Italie mystique, Paris, 1890,
8.a ed, 1917; BERNHART, Die philosophische M-.ystik des Mittelalters, 
Berlim, 1922; R. OTTO, West-õstliche Mystik, Berlim, 1926; STOLZ, Theologie
der Mystik, Ratisbona, 1936; DANIÉLOU, Platonisme et théologie mystique,
Paris, 1944.
§ 222. As obras de S. Bernardo em P. L., 182.---185.I.Uma edição crítica está
em preparação em Roma. Oeuvre8, escolha e tradução francesa de Davy, 2 vols.,
Paris, 1945.-COULTON, St. B., Cambridge, 1923; MI-
172
TERRE, La doctrine de St. B., Bruxelas, 1932; GILSON, La thélogie mystique de
St. B., Paris, 1934; BAUDRY, St. B., Paris, 1946; ANTONELLI, B. di C.,
Milão, 1953 (com bibli.); DELHAYE, Le problème de Ia conscience morale chez
St. B., Namur, 1957.
As obras de Guilherme de S. Thierry, em P. L.,
180.1, 205-726. Outros textos foram editados através das obras de S.
Bernardo, em P. L., 184.o, 365-436. A carta que acompanha a Disputatio contra
Abelardo, em P. L., 182.-, 531-532. Edições recentes: Meditativae orationes,
ed. Davy, Paris, 1934; Epistola ad fratres de Monte, Dei, ed. Davy, Paris,
1940; Commentario ad Cantico dei cantici, ed. Davy, 1958; De contemplando
Deo, ed. Hourlier, Paris, 1959;-DAVY, Thélogie et mystique de G. de St. T.,
La connaissance de Dieu, Paris, 1954.
§ 223. As obras de Isaac, em P. L., 194.o, 1689-1890.-BERTOLA, La dottrina
psicologica di Isacco di Stella, in. "Riv. @di Fil. NeoscoI.", 1953.
§ 224. As obras de Hugo, em P. L., 175.---177.o. Dois outros escritos de
Hugo: Epitome in philosophiam e De contemplatione et eius speciebus foram
publicados por I-IAuREAu, Hugues de St. Victor, Paris, 1859,
2.1 @ed. com o titulo Les oeuvres de Hugues se St. Victor, Paris, 1886.
Outras edições: Didascalion, ed. Buttimer, Washington, 1939; La contemplation
et ses espèces, ed. Baron, Paris, 1958. - BARKHOLT, Die Ontologie H. s. V.,
Bonn, 1930; KLEINZ, The Theory of Knowledge of H. of St. V., Washington,
1944; BARON, Science et sagesse chez H. de St. V., Paris, 1957.
9 225. Sobre as provas da existência de Deus: GRUNWALD, em "Beitrage", VI, 3,
1907, p. 69-77.
§ 226. Sobre a psicologia: OSTLER em "Beitrãge", vi, 1, 1906.
§ 228. As obras de Ricardo, em P. L., 196. . Outras edições: Les quatre
degrés, ed. Dumeige, Paris,
1955; De trinitate, ed. Ribaillier, Paris,