História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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1958; LibeT exceptionum, ed.

Chatillon, Paris, 1958; Sermons et opuscules inédits, trad. frane., Paris,

1951.-OTTAVIANO, Riceardo di S. Vittore, Roma, 1933; DUMEIGE, R. de St. V.,

Paris, 1952.

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IX

A SISTEMATIZAÇÃO DA TEOLOGIA

§ 230. SENTENÇAS E SUMAS

A dificuldade de se encontrar os raros e custosos manuscritos tinha

determinado na Idade Média o uso frequente de compêndios e excertos. O

desenvolvimen,to da cultura medieval manifesta-se com a modificação da

natureza destas compilações. A princípio eram constituídas por excertos

tirados de um só autor ou também de vários autores, mas destituídos de

qualquer ordem. Por exemplo, o Sancti Prosperi liber sententiarum ex

Augustino delibatarum é uma compilação de cerca de quatrocentos excertos

quase todos de Santo Agostinho e reunidos sem nenhuma ordem. Os manuscritos

medievais contêm um grande número de excertos ou Sententiae deste gênero. O

mais célebre é o Liber Pancrisis, que remonta ao século XII e contém

sentenças dos Santos Padres e de mestres contemporâneos, como Guilherme de

Champeaux, Anselmo de Laon e outros. Em seguida, os excertos foram agrupados

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segundo a ordem das Sagradas Escrituras. Os textos eram algumas vezes de um

só doutor, outras vezes de mais. A primeira compilação do gênero é a de

Patério, secretário de S. Gregório, que reúne a explicação dos textos

bíblicos contida na obra do Santo. De mais autores foram extraídos os textos

recolhidos por Beda o Venerável e por Rabano Mauro, que acrescentaram aos

próprios textos comentários pessoais.

Mas havia outras compilações nas quais as sentenças dos Padres eram

reagrupadas segundo uma ordem mais ou menos lógica. Isidoro de Sevilha é o

autor de uma obra deste gênero que intitulou Sententiarum libri tres, e que

em seguida foi citada com o titulo De summo bono. Estas recolhas de textos

que seguiam uma ordem mais ou menos lógica, eram designadas com o nome de

Sententiae.mas, progressivamente, a parte correspondente à elaboração pessoal

na explicação e nos comentários dos excertos era cada vez maior. No entanto,

as recolhas continuaram a manter o nome de Setaentiae, uma vez que o texto

original não era mais que a explicação e o comentário das sentenças

transcritas. Abelardo reformou profundamente este costume literário. A partir

dele as obras que mantiveram o nome de Sententiae passaram a ser compêndios

sistemáticos, completos e racionais, das verdades fundamentais do

Cristianismo.

Para exprimir este novo carácter adoptou-se o termo Summa. Abelardo serve-se

deste termo no prólogo da Introdução à Teologia: "Escrevi uma summa da

erudição sacra como introdução às divinas Escrituras". E Hugo de S. Vietor no

prólogo do 1 Livro do De sacramentis, que é a primeira verdadeira e própria

suma de teologia medieval, diz: "Reuní numa única cadeia (series), esta breve

suma de todas as coisas". No século XII o nome de

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Summa substitui o de Sententiae e os livros que continham a exposição

sistemática das verdades cristãs chamavam-se Sumas de teologia.

§ 231. PEDRO LOMBARDO

Entro os mais notáveis autores de Sum~e há a salientar Robert Pulleyn, um

inglês que ensinou em Paris e depois em Oxford e morreu em 1150; Roberto de

Melun; que foi aluno em Paris, de Hugo de S. Victor e provà velmente também

de Abolardo, do qual aceitou o principio da dúvida metódica, Simão de

Tournay, que ensinou em Paris entre a segunda metade do século XII e o

principio do século XIII e defendia a fórmula de Anselmo do credo ut

intelligum, contraponda-a ao preceito da filosofia personificada por

Aristóteles: iniellige et credes. Mas a obra do gênero mais significativa,

pela importância que teve como texto fundamental da cultura escolástica, é a

de Pedro Lombardo.

Pedro Lombardo nasceu em Lumollo, perto de Novara; estudou em Bolonha o

depois na escola de S. Victor, em Paris. A partir de ll^ ensina na escola

catedral de Paris; em 1159 torna-se bispo de Paris e morre provávelmente em

1160. Escreveu um Commentario às cartas de S. Paulo e um outro aos Salmos. Os

seus livros Libri quattor sententiarum foram escritos entre 1150 e 1152. Esta

obra é um compêndio sistemático das doutrinas cristãs baseado na autoridade

da Bíblia e dos Padres mas no qual a parte pessoal é relevante. O maior peso

é constituído pela autoridade de Santo Agostinho, mas apirecem também citados

Hilário, Ambrósio, Jerón-imo, Gregório Magno, Cassiodoro, Isidoro, Beda e

Boécio. Dos escritores posteriores é utilizado sobretudo o De sacramentis, de

Hugo de S. Victor. Pela primeira vez, no Ocidente, aparece citado o

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texto De fide orthodoxa de João Damasceno que é a terceira parte, traduzida

do latim em 1151 por Borgúridio de Pisa, da Fonte do conhecimento.

Mas a obra de Pedro Lombardo manifesta também com evidência a influência de

Abelardo e do método por ele criado no Sic et non. Apesar da sua explícita

afirmação de que em matéria de fé "cré-se nos pescadores e não nos

dialécticos", Pedro Lombardo é um dialéctico que procura fazer valer todo o

peso da razão em apoio à autoridade dos textos citados.

Na própria divisão da obra, Pedro Lombardo segue um critério sistemático. O

conteúdo total da Bíblia é constituído por coisas e signos. A coisa é o que

não pode ser empregado para significar ou simbolizar outra coisa; o signo é,

pelo contrário, o que serve essencialmente para esse fim. Entre os signos,

Pedro Abelardo inclui os Sacramentos, que são símbolos da realidade supra-

sensível. Por sua vez, as coisas distinguem-se, segundo são objecto de gozo

(fruitio) ou objecto de uso. Objecto de gozo é a Trindade divina, objecto de

uso são as coisas criadas. As virtudes são conjuntamente objectos de gozo e

objectos de uso, porque são meios para atingir o fim da beatitude. Das coisas

podemos distinguir os sujeitos que as gozam ou se servem delas.

Consequentemente, Pedro Lombardo distingue a sua obra em duas partes, a

primeira referente às coisas, a segunda referente aos signos. A primeira

parte, diz respeito aos sujeitos e aos objectos da fruição e do uso, isto

é; a Trindade divina, as coisas criadas em geral, os anjos e os homens em

geral e as virtudes. Estes argumentos formam o conteúdo dos primeiros três

livros das Sententiae.

O último livro é dedicado aos signos, isto é, aos Sacramentos.

O homem pode elevar-se ao conhecimento de Deus partindo das coisas criadas.

Tudo o que nós

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vemos é mutável e tudo o que é mutável deve ter a sua origem numa essência

imutável. O corpo e o espírito estão igualmente sujeitos à mudança: o ser de

que obtêm a sua origem deve ser, por isso, superior a ambos. E uma vez que

todas as coisas corpos e espíritos, têm uma determinada forma e espécie, há

que pensar numa forma originária, ou numa primeira espécie da qual, tanto o

espírito como o corpo, recebam as suas formas ou espécies. Essa primeira

espécie é Deus (Sent. 1, dist 3, n. 3-5).

Os três caracteres fundamentais das coisas: a unidade, a forma e a ordem,

constituem o reflexo da Trindade divina e consentem ao homem a sua elevação

para Ela. Na alma humana a memória, a inteligência e a vontade constituem uma

única substância e também aqui se reflecte a imagem da Trindade divina, que é

mente (mens), conhecimento (notitia) e amor (amor) (lbid., 1, dist. 3, n.o 6

sgs.). No entanto, nenhuma coisa criada pode dar-nos um conhecimento adequado

da Trindade. É preciso distinguir entre as coisas que podemos conhecer antes

de crer e aquelas que para serem conhecidas pressupõem a fé. Entre os

objectos de fé, alguns não podem ser conhecidos e compreendidos, se não

acreditarmos primeiramente neles; outros não podem ser cridos se não forem

primeiramente, compreendidos, e estes últimos são, por via da fé,

compreendidos mais profundamente (1b. 111, dist. 24,