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História da filosofia   III - Nicola Abbagnano

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da tradição religiosa, para que assim possam ser
iluminados e guiados nas suas acções. Mas para os filósofos, ao invés, a
verdade adquire o aspecto severo da demonstração necessária e passa a ser o
termo de uma investigação que é a melhor e mais elevada de todas as acções
humanas.
§ 242. AVERRóIS: A DOUTRINA DO INTELECTO
A doutrina que os escolásticos latinos recolheram como sendo típica do
averroísmo é a do intelecto. Com ela, Averróis, distingue-se das
interpretações que dominam a filosofia árabe de Al Kindi a Ibrí-Tofail. Para
estes filósofos, o Intelecto agente é a última emanação divina e é por isso
uma
substância separada de toda a matéria e da própria alma humana, pertencendo
ao número das substâncias divinas. Ointelecto potencial ou material (hílico)
é, pelo contrário, para eles, o intelecto prè@prÍamente humano, a parte
racional da alma humana. Este último, passa a acto por obra do primeiro,
tornando-se assim intelecto em acto; por sua vez, o intelecto em acto,
aperfeiçoando-se com o exercício do raciocínio discursivo, transforma-se em
intelecto adquirido (adeptus). A esta doutrina que se encontra exposta e
defendida, com poucas variantes, nos filósofos tratados atrás, Averróis vem
trazer uma modificação substancial: o intelecto material ou hílico não é a
alma humana. E não é pela mesma razão porque não o é o intelecto activo: uma
vez que as formas inteligíveis que são o seu objecto
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potencial são universais, eternas, indestrutíveis e não o seriam se seguissem
a sorte da alma humana, que é diferente nos diferentes indivíduos; que
algumas vezes pensa e outras não; e que pensa diferentemente em cada
indivíduo. Por esses mesmos motivos também o intelecto adquirido ou
especulativo (adeptus, speculativus) que resulta da acção do intelecto agente
sobre o íntelecto material ou possível é uno em todos os homens e separado da
alma humana. Mas este último pode ter a participação da alma humana na sua
multiplicidade e mutabilidade; e essa participação pode ter a forma de um
hábito, de uma disposição, ou de uma preparação (habitus, dispositio,
preparatio) e que constituem a perfeição da própria alma: uma preparação que
segue os acontecimentos, desde o nascimento à morte, da própria alma, porque
pertence à sua capacidade imaginativa (que é dada ao corpo). O intelecto
especulativo, no entanto, pode ser considerado por um lado como ú nico, por
outro como múltiplo; como eterno ou como gerador corruptível. Em si próprio,
é único e eterno. Como disposição e preparação da alma é múltiplo e submetido
ao nascimento e à morte.
Segundo Averró@s, uma tal solução permite resolver todas as dificuldades que
a doutrina do intelecto provocava nas soluções adoptadas pelos seus
predecessores. "Se o objecto inteligível, afirma Avarróis, fosse
absolutamente único em mim e em ti, aconteceria que, quando eu o conhecesse,
tu também o conhecerias; e outras coisas impossíveis. Por outro lado, se o
objecto inteligível fosse diferente para os diferentes indivíduos,
aconteceria que o mesmo estaria em ti e em mim, único, na sua espécie, duplo
naindividualidade uma vez que haveria um outro objecto fora dele e este outro
por sua vez um outro e assim sucessivamente. Seria ainda impossível neste
caso que o discípulo aprendesse,
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o mestre, a menos que a ciência que existe no mestre não seja uma
virtude que gera e cria a ciência que existe no discípulo, do mesmo
modo que um fogo gera outro fogo a ele semelhante: o que é impossível.
Mas quando pensamos que o objecto inteligível que está em mim e em
ti é múltiplo para o sujeito para o qual é verdadeiro, isto é, para as formas
da imaginação, e único para o sujeito que é o _;ntelecto existente e
material, tais questões acabam totalmente por desaparecem (Comm. inagiuim De
an., 111, 5). Portanto, segundo Averróis, a virtude cognitiva própria do
homem limita-se à esfera das formas imaginativas, ou seja, das formas
extraídas das imagens sensíveis; uma tal vàrtude é simples preparação do
Intelecto material, ~elhante à preparação da matéria que se dispõe a receber
a obra do artífice (1b., 111, 20).
Deste modo, o processo total do conhecimento iotelectivo, que vai da potência
ao acto, desenrrola-se independente e separadamente da alma humana, que se
limita a reflecti-lo imperfeita e parcialmente. O processo integral é posto
directamente em movimento e mantido pelo intelecto activo. A acção deste é
comparada por Averróis. de acordo com a imagem aristotélica, à do sol
enquanto que o intelecto potencial ou materiaí (hí,lico) é comparado à
capacidade de ver, que existe graças à luz solar; e as formas inteligíveis
(verdades ou conceitos) existentes na alma humana são comparáveis às cores.
Tal como o sol, que flumina, o meio transparente (o ar) e deste modo conduz
ao acto as cores que existem no objecto, o intelecto activo, ao iluminar o
intelecto potencial, faz com que este disponha a alma de forma a que esta
possa abstrair das representações sensíveis os conceitos e as verdades
universais. Por conseguinte, a alma individual não possui mais nada além do
material das representações; mas é ela que abstrai
das referidas representações os conceitos, ao unir-se ao intelecto potencial;
e este une-se a ela quando a ele se une o Intelecto agente.
Desta doutrina resulta toda uma série de consequências paradoxais que
desencadearam uma polémica acalorada por parte da escolástica latina. Em
primeiro lugar, o intelecto material é único em todos os inffivíduos porque é
a disposição que o Intelecto agente comunicou às respectivas almas.
Multiplica-se nos diversos indivíduos como a luz do sol se multiplica ao
distribuir-se sobre os diversos objectos que ilumina. Como S. Tomás explica
(C. gent.,
11, 73), a diversidade dos intelectos humanos é determinada pelo facto de
que, actuando o intelecto material sobra as imagens, que não existem todas em
todos os indivíduos, nem são igualmente distribuídas por todos, as coisas que
um certo homem pensa não são as mesmas que são pensadas por um outro homem.
Em segundo lugar, não pode acontecer que umas vezes o intelecto material
compreenda e outras vezes não, salvo no caso de determinado indivíduo e nunca
no que se refere à espécie humana. Por exemplo, pode acontecer que Sócrates
ou Platão umas vezes compreendam e outras vezes não o conceito de cavalo;
mas, no conjunto da espécie humana, o intelecto compreende sempre este
conceito, a menos que a própria espécie venha a desaparecer, o que é
impossível. Disto resulta que a ciência não pode reproduzir-se nem corromper-
se, porque é eterna. Morre a ciência que existe em Sócrates ou em Platão com
a morte do indivíduo: mas não morre a ciência em si, porque está ligada a uma
disposição universal, essencialmente conexa com toda a espécie humana.
Nesta natureza do intelecto se fundamenta o destino da alma humana. A
felicidade do homem consiste em cultivar e ampliar a disposição que constitui
o intelecto material, a fim de aperfeiçoar
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e ampliar a capacidade especulativa e conhecer as substâncias separadas e
finalmente o próprio Deus. Averróis retoma, na sua totalidade, a doutrina
aristotélica da superioridade da vida teorética. "0 intelecto prático,
segundo ele, é comum a todos os homens, todos o possuem, uns em maior grau
que outros; mas o imelecto especulativo é uma faculdade divina, que se
encontra apenas nos homens excepcionais" (De an., 111, 10, fol. 494 a). A
ciência é a única via da beatitude humana: uma beatitude que se atinge nesta
vida, através da pura investigação especulativa, uma vez que a vida humana
não continua para além da morte. Com efeito, a única parte da alma humana que
não está ligada ao corpo e não se encontra portanto submetida à reprodução e