História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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meio entre os dois extreinos". A Vontade cria a matéria e a forma universais

e por conseguinte, todos os seres que resultam da união da matéria e da

forina. A Vontade está ligada à matéria e à forma tal como a alma está ligada

ao corpo: funde-se nelas, penetrando-as completamente (1b., V, 36). Essa é a

virtude da Essência primelira, de Deus, e por conseguinte, a intermediária

entre essa mesma essência o a matéria e a forma.

No entanto, entre a Essência primeira ou Verbo agente, e a matéria, Ibn-

Gebirol admite uma série de formas ou substâncias separadas, inspirando-se

evidentemente no neo-platonismo do Liber de causais. Estas substâncias, de

acordo com a ordem que vai do menos perfeito e menos simples ao mais perfeito

e mais simples, são as seguintes: a natureza, as três almas (vegetativa,

sensitiva e racional), a inteligência. A inteligência compreende todas as

formas e conhece-as. A alma racional compreende as formas inteligíveis e

conhece-as mediante um movimento discursivo que a faz passar sucessivamente

de uma para outra. A alma sensitiva percebe as formas corpóreas e conhece-as.

A alma vegetatíva apodera-se do corpo e faz com que este se mova. A natureza

une as partes do corpo, gera entre elas

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a atracção ou a repulsa e alterna-as entre si. Estas substâncias intermédias

são menos perfeitas à medida que se afastam da sua forma comum, a vontade

criadora de Deus. A sua crescente imperfeição explica-se com a diminuição do

poder da Vontade criadora, que, sendo infinita em si, é finita na sua acção e

por isso vai enfraquecendo (como um ra;o luminoso que se afasta do centro que

o produz) à medida que vai avançando (lb., IV, 19).

A filosofia de lbn-Gebirol apresenta, no seu conjunto, uma originalidade e

uma força que lhe asseguraram grande influência nos séculos seguintes. A

parte históricamente mais importante da mesma é a afirmação da matéria

universal. Combatida por S. Tomás, esta afirmação virá a ser retomada por

Giordano Bruno que fará dela o pressuposto do seu panteísmo.

§ 249. filosofia judaica: REACÇÃO CONTRA A FILOSOFIA

A reacção da ortodoxia judaica contra a Elosofia é representada por algumas

figuras que têm escasso relevo especulativo. No final do século XI, Baclija

lbn-Pakudia, num texto seu, Deveres dos corações, coloca a moral prática

acima da especulação e representa na tradição hebraica o que Algazel

representa no mundo árabe. Em 1140 o poeta Yehuda Halevi num livro intitulado

Kuzari parte de uni facto histórico: a conversão ao judaísmo de um rei dos

Jazares (séc. VIII), para fazer a

apologia do judaísmo e uma condenação da investigação filosófica. Abraão Ben

David, de Toledo, escreveu em 1161, em árabe, um livro chamado A fé sublime

para demonstrar o acordo entre a teologia liebraica e a filosofia

aristotélica. Mas esta tentativa teve pouca fortuna; e o único que consegue

entre os Judeus alcançar um lugar importante na investigação filosófica é

Maimónidas.

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§ 250. MAIMóNIDAS: A TEOLOGIA

Moshé lbn Maymon, chamado Maimónidas, nasceu em Córdova a 30 de Março de

1135. Por causa da intolerância dos almohades, a sua família foi obrigada a

abandonar a Espanha e a fixar-se, primeiro em Fez, Marrocos, e depois na

Palestina. Daqui, Moisés passou para o Egipto, instalando-se na velha Cairo.

Ao mesmo tempo que se dedicava ao comércio de pedras preciosas, dava cursos

públicos que lhe granjearam fama como filó sofo e teólogo, mas sobretudo como

médico. O rm,nistro do célebre sultão Saladino, que naquele tempo tinha

estendido o seu -Poder ao Egipto, assegurou-lhe os meios necessários

pararenunciar ao comércio e dedicar-so apenas à ciência, nomeando-se médico

da corte. Ma-imónidas consegue então obter grande celebridade e fortuna, e

pôde, com a ajuda do seu protector, furtar-se às acusações que lhe foram

feitas de haver regressado ao judaísmo depois de ter aceitado, durante a sua

estadia em Espanha quando jovem, a fé muçulmana. Morreu em 13 de Dezembro de

1204.

Maimónidas é autor de numerosos textos médicos e teológicos. Entre estes

últimos tem importância fLUosófica um chamado Oito capítulos. Um seu

Vocabulário da lógica foi traduzido para latim por Sebastião Munster. Mas a

sua obra fundamental é o Guia dos perplexos, na qual procurou levar a cabo a

conciliação entre a Bíblia e a filosofia, a revelação e a razão. A obra está

dirigida àqueles que rejeitam tanto a irreligiosidade como a fé cega e que,

ao encontrarem nos livros sagrados coisas contraditórias ou na aparência

impossíveis, não ousam admiti-Ias para não irem contra a razão, nem rejeitá-

las para não menosprezarem a fé; ficando por isso dominados por uma

perplexidade dolorosa. A estes perplexos se dirige Maimónidas, com o

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propósito de utilizar todas as armas dialécticas, proporcionadas pela

filosofia árabe e judaica na defesa da fé tradicional.

Vimos já que o resultado substancial da filosofia árabe desde AI Kindi a

Averróis foi a elaboração do princípio da necessidade do ser, princípio que

tem como imediata consequência a eternidade do mundo. É certo que contra esse

mesmo princípio se fez sentir a reacção dos Mutalcalli-mun, dos Asharias e de

Algazel; mas esta reacção, que partia da ortodoxia -religiosa, era estranha à

filosofia e por isso contrária a todas as filosofias. Parecia que a defesa da

novádade do mundo e da criação não podia ser feita a não ser em nome da fé e

com a renúncia de todas as vantagens que a investigação filosófica tinha

trazido à própria compreensão da verdade revelada. A originalidade de

Maimónidas que, no entanto, se apresenta de início como defensor do mundo e

da criação, reside no facto de ele não renunciar ao processo demonstrativo e

aos resultados da filosofia da necessidade. Uma vez que a existência de Deus

e as outras verdades fundamentais não permitem ser demonstradas rigorosamente

a não ser através dos processos dessa mesma filosofia e na base do princípio

que a mesma defende, parece ser de utilizar este princípio para se

estabelecer as verdades fundamentais, para em seguida submeter a uma análise

o referido princípio. "Creio, diz Maimónidas (Guia, 1, 71), que o verdadeiro

modo, o método demonstrativo que elimina a dúvida, consiste em estabelecer a

exigência de Deus, a sua unidade e a sua corporeidade de acordo com o

procedimento dos filósofos, procedimento esse que se baseia na eternidade do

mundo. Não ,porque eu creia na eternidade do mundo ou faça a este propósito

qualquer concessão; mas porque só com este método a demonstração se torna

segura e se obtém uma certeza perfeita sobre estes pontos:

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que Deus existe, que é uno, que é incorpáreo, sem que isto implique decidir o

que quer que seja quanto ao mundo, se ele é eterno ou se foi criado. Uma vez

resolvidas, com uma verdadeira demonstração, estas três questões graves e

importantes, poderemos voltar em seguida ao problema da novidade do inundo e

para isso deitaremos mão de todos os argumentos possiveis". Noutros termos,

Maimónidas admite a título de hipótese provisória o princípio da necessidade

do ser para poder demonstrar certas verdades fundamentais-, deixando para

depois, num

segundo momento, a discussão do corolário fundamental daquele princípio, a

eternidade do mundo.

Sob esta base, Maimónidas procede à demonstração da existência, de Deus e dos

seus atributos fundamentais, a unidade e a corporcidade: e as suas

demonstrações não fazem mais que seguir de perto o que disse Avicena. Supondo

que alguma coisa existia (e para que qualquer coisa exista. bastam os nossos

sentidos para o demonstrar), existe necessàriamente um Ser necessário. Já que

aquilo que existe, ainda que seja apenas como possível, é necessário em

relação à sua causa; e esta causa é precisamente o Ser necessário (1b., 11,

1). Deus