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CURSO PREPARATÓRIO PARA PROCURADOR GERAL DO ESTADO DE GOIÁS E DO MUNICÍPIO DIREITO DO CONSUMIDOR Professora: Ana Flávia Mori 2012-1 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 ..................................................................................................................................6 NORMAS DE ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL.......................................................6 FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL DO CDC ........................................................................7 CAPÍTULO 2 ..................................................................................................................................8 A RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ......................................................................................8 1. O CONCEITO DE RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ....................................................8 2. O CONCEITO DE CONSUMIDOR .........................................................................................8 3. O CONCEITO DE FORNECEDOR: ...................................................................................... 20 4. O OBJETO DA RELAÇÃO DE CONSUMO ......................................................................... 23 5. QUESTÕES DE CONCURSOS ............................................................................................. 27 CAPÍTULO 3 ................................................................................................................................ 28 POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO ........................................................ 28 1. CONCEITO DE POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO ...................... 28 2. OBJETIVOS DA POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO ..................... 28 3. PRINCÍPIOS DA POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO .................... 28 4. OS INSTRUMENTOS DA POLÍTICA NACIONAL DE CONSUMO ................................... 34 CAPÍTULO 4 ................................................................................................................................ 35 OS DIREITOS BÁSICOS DO CONSUMIDOR............................................................................. 35 1. NATUREZA DOS DIREITOS BÁSICOS DO CONSUMIDOR:............................................ 35 2. DIREITOS BÁSICOS ELEMENTARES ............................................................................... 35 3. NORMA DE INTEGRAÇÃO DO SISTEMA DE DEFESA DO CONSUMIDOR .................. 59 4. A REGRA GERAL DA SOLIDARIDADE NA REPARAÇÃO DOS DANOS ....................... 59 5. QUESTÕES DE CONCURSOS ............................................................................................. 60 CAPÍTULO 5 ................................................................................................................................ 61 DA PROTEÇÃO À SAÚDE E SEGURANÇA .............................................................................. 61 1. O DEVER DE SEGURANÇA................................................................................................ 61 2. RISCO NORMAL E PREVISÍVEL: PERICULOSIDADE INERENTE ................................. 62 4. A PERICULOSIDADE INERENTE ...................................................................................... 62 5. A PERICULOSIDADE ADQUIRIDA ................................................................................... 63 6. A INFORMAÇÃO ADEQUADA .......................................................................................... 63 7. PRODUTOS E SERVIÇOS COM CERTO GRAU DE PERICULOSIDADE ......................... 63 8. PRODUTOS E SERVIÇOS COM ALTO GRAU DE PERICULOSIDADE ........................... 64 CAPÍTULO 6 ................................................................................................................................ 67 A RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO E DO SERVIÇO ................................... 67 Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 2 1. A RESPONSABILIDADE OBJETIVA .................................................................................. 67 2. A TUTELA DOS DANOS NO CDC ...................................................................................... 68 3. VÍCIO, DEFEITO E FATO: DIFERENÇAS .......................................................................... 69 4. A RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO ...................................................... 71 5. FATO DO SERVIÇO............................................................................................................. 85 6. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO (BYSTANDER)...................................................... 96 7. QUESTÕES DE CONCURSOS ............................................................................................. 97 CAPÍTULO 6 .............................................................................................................................. 103 A RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO ................................ 103 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 103 2. DISTINÇÃO ENTRE DEFEITO E VÍCIO ........................................................................... 103 3. O DANO MORAL E O VÍCIO DO PRODUTO ................................................................... 104 4. ESPÉCIES DE VÍCIOS NO CDC ........................................................................................ 105 5. A RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO ...................... 105 6. RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO ....................... 113 7. RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DE QUALIDADE DO SERVIÇO ........................... 115 8. A OBRIGAÇÃO DE EMPREGAR COMPONENTES NOVOS NA REPARAÇÃO DO PRODUTO .............................................................................................................................. 118 9. SERVIÇOS PÚBLICOS ...................................................................................................... 118 10. A IGNORÂNCIA DOS VÍCIOS E A GARANTIA DE BOA QUALIDADE. ..................... 120 13. GARANTIA LEGAL DE ADEQUAÇÃO E CLÁUSULAS EXONERATIVAS DE RESPONSABILIDADE........................................................................................................... 120 14. VEDAÇÃO DE LIMITAÇÃO INDENIZATÓRIA E SOLIDARIEDADE ENTRE FORNECEDORES .................................................................................................................. 121 15. A SOLIDARIEDADE DOS FORNECEDORES ................................................................ 122 16. A DECADÊNCIA .............................................................................................................. 123 17. A PRESCRIÇÃO ............................................................................................................... 134 18. A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ........................................ 137 19. QUESTÕES DE CONCURSOS ......................................................................................... 146 CAPÍTULO 8 .............................................................................................................................. 149 DAS PRÁTICAS COMERCIAIS ................................................................................................ 149 1. O CONCEITO DE PRÁTICAS COMERCIAIS ................................................................... 149 2. O MARKETING .................................................................................................................. 149 3. O CONSUMIDOR EQUIPARADO ..................................................................................... 150 4. A VINCULAÇÃO DA OFERTA ......................................................................................... 151 5. A VERACIDADE DA OFERTA E DA APRESENTAÇÃO .................................................155 6. GARANTIA DE PEÇAS DE REPOSIÇÃO DO PRODUTO ................................................ 156 7. A IDENTIFICAÇÃO DO FABRICANTE NAS VENDAS À DISTÂNCIA ......................... 157 Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 3 8. A SOLIDARIEDADE DO FORNECEDOR PELOS ATOS DE SEUS PREPOSTOS ........... 158 9. A OBRIGAÇÃO DE CUMPRIR A OFERTA, APRESENTAÇÃO OU PUBLICIDADE ..... 158 10. A PUBLICIDADE ............................................................................................................. 159 11. A IDENTIFICAÇÃO PUBLICITÁRIA .............................................................................. 161 12. O DEVER DE VERACIDADE DA FUNDAMENTAÇÃO ................................................ 163 13. A PUBLICIDADE ENGANOSA ....................................................................................... 164 14. A PUBLICIDADE ABUSIVA ........................................................................................... 165 15. PUBLICIDADE ENGANOSA POR OMISSÃO ................................................................ 165 16. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ANUNCIANTE...................................................... 167 17. SANÇÕES ADMINISTRATIVAS ..................................................................................... 168 18. A CONTRAPROPAGANDA ............................................................................................. 169 19. SANÇÕES PENAIS À PUBLICIDADE ENGANOSA OU ABUSIVA .............................. 169 20. O ÔNUS DA PROVA NA PUBLICIDADE ....................................................................... 170 21. AS PRÁTICAS ABUSIVAS ............................................................................................. 171 22. ORÇAMENTO PRÉVIO OBRIGATÓRIO ........................................................................ 179 23. PRODUTOS E SERVIÇOS SUJEITOS A TABELAMENTO ............................................ 180 24. COBRANÇA VEXATÓRIA .............................................................................................. 181 25. RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO EM DOBRO ................................................................... 182 26. BANCOS DE DADOS E CADASTROS DE CONSUMIDORES ....................................... 184 27. CADASTROS DE FORNECEDORES ............................................................................... 201 28. QUESTÕES DE CONCURSOS ......................................................................................... 202 CAPÍTULO 9 .............................................................................................................................. 205 A PROTEÇÃO CONTRATUAL ................................................................................................. 205 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 205 2. CONTRATO NA VISÃO CLÁSSICA TRADICIONAL: ..................................................... 205 3. NOVA CONCEPÇÃO DE CONTRATO NO CDC (O DIRIGISMO CONTRATUAL) ........ 206 4. FORMAS DE CONTRATAÇÃO ......................................................................................... 206 5. CONTRATOS EM RELAÇÃO AO TEMPO DE DURAÇÃO.............................................. 208 6. CONTRATOS NUMA PERSPECTIVA CIVIL-CONSTITUCIONAL ................................. 209 7. OS PRINCÍPIOS QUE REGEM AS RELAÇÕES CONTRATUAIS .................................... 210 8. O DEVER DE TRANSPARÊNCIA NAS RELAÇÕES DE CONSUMO .............................. 217 9. INTERPRETAÇÃO EM FAVOR DO CONSUMIDOR ....................................................... 218 10. A VINCULAÇÃO PRÉ-CONTRATUAL .......................................................................... 218 11. DIREITO DE ARREPENDIMENTO ................................................................................. 218 12. A GARANTIA CONTRATUAL ........................................................................................ 219 13. AS CLÁUSULAS ABUSIVAS .......................................................................................... 220 14. PRESUNÇÃO RELATIVA DA VANTAGEM EXAGERADA .......................................... 230 Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 4 15. A CONSERVAÇÃO DO CONTRATO .............................................................................. 231 16. O CONTROLE DAS CLÁUSULAS ABUSIVAS .............................................................. 231 17. O CRÉDITO AO CONSUMIDOR ..................................................................................... 232 18. COMPRA E VENDA À PRESTAÇÃO. ............................................................................. 234 19. OS CONTRATOS DE ADESÃO. ...................................................................................... 237 20. QUESTÕES DE CONCURSOS ......................................................................................... 239 CAPÍTULO 9 .............................................................................................................................. 244 DAS SANÇÕES ADMINISTRATIVAS ...................................................................................... 244 CAPÍTULO 10 ............................................................................................................................ 246 DAS INFRAÇÕES PENAIS ........................................................................................................ 246 Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 5 DIREITO DO CONSUMIDOR Érico de Pina Cabral “...Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa. A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas vivas, chips, pílulas para tudo. Temos de funcionar, não de viver. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? (...) Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é a invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato...” (Arnaldo Jabor, “Nosso dias melhores nunca virão?”. In: Jornal O Estado de São Paulo, Caderno 2, p. D8, 30.09.2003). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 6 CAPÍTULO 1 NORMAS DE ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL 1. NORMAS DE ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL O legislador foi incisivo e não deixou dúvidas: o CDC é uma norma de ordem pública e interesse social, conforme estabelece o art. 1º. Art. 1º. O presente Código estabelece normas de proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos do art. 5º, inciso XXXII, 170, inciso V da Constituição Federal e artigo 48 de suas Disposições Transitórias. 1.1. NORMAS DE ORDEM PÚBLICA São aquelas normas que representam o conjunto de normas jurídicas cogentes, imperativas, que prevalecem sobre o universo das normas dispositivas, de direito privado. Impactam sobre o universo das relações jurídicas, de modo impositivo. São inafastáveis pela autonomia da vontade individual e se sobrepõem imperativamente nas relações privadas (se sobrepõem às outras normas da mesma hierarquia). EMENTA: “Agravo interno. Recurso Especial. Julgamento extra petita. Não ocorrência. Ausência de sucumbência. Falta de interesse processual. I – Questões de ordem pública contempladas pelo Cód. Defesa do Consumidor, independentemente de sua natureza, podem e devem ser conhecidas, de ofício, pelo julgador. Por serem de ordem pública, transcendem o interesse e se sobrepõem até a vontade das partes. Falam por si mesmas e, por isso, independemde interlocução para serem ouvidas. II – Por outro lado, não caracterizada, no ponto, a sucumbência, até faltaria ao recorrente interesse para o recurso. Agravo interno a que se nega provimento” (STJ – AgRg no REsp. 703.558-RS – 3ª Turma – j. 29.03.2005 – rel. Min. Castro Filho, DJU 16.05.2205, p. 349). 3.2. NORMAS DE INTERESSE SOCIAL As normas de interesse social ou LEIS DE FUNÇÃO SOCIAL – conforme explica Cláudia Lima Marques - são aquelas que têm a função de Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 7 transformar a realidade social, impor novas noções valorativas e conduzir a sociedade a um novo patamar de harmonia e respeito nas relações jurídicas.1 São exemplos de Leis de função social, além do CDC, a Lei dos Planos de Saúde (Lei n. 9.656 de 12.06.2001), o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069 de 12.07.1990), o Estatuto do Idoso (Lei n. 10.741 de 1º/10/2002) etc. 4. FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL DO CDC 1) Art. 5º, inc. XXXII: A Constituição Federal estabeleceu como direito fundamental do cidadão, a defesa do consumidor: “o Estado promoverá, na forma de lei, a defesa do consumidor”. Ou seja, a CF separou as relações de consumo das outras relações jurídicas e as colocou sob a égide do CDC. A destinação do CDC é exclusiva e de ordem constitucional. 2) Art. 170: Este dispositivo constitucional estabelece que “a ordem econômica fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observado alguns princípios, dentre eles: inc. V: “defesa do consumidor”. 3) Art. 48 da ADCT: Por este dispositivo “O Congresso Nacional, dentro de 120 dias da promulgação da Constituição, elaborará Código de Defesa do Consumidor”. Este prazo foi ultrapassado e, em 11.09.1990 foi promulgado o texto da Lei n. 8.078/90 – Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Outros dispositivos constitucionais: a) O art. 150 da CF, que trata das limitações do poder de tributar por parte do Poder Público e no âmbito da União, Estados e Distrito Federal e Municípios, estabelece no seu § 5º que a “lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços”. b) O art. 24 da CF estabelece que “Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: inc. V: produção e consumo.” 1 MARQUES, Cláudia Lima; BENJAMIN, Antonio Herman V. e MIRAGEM, Bruno. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 2ª ed. São Paulo: RT, 2006, p. 62. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 8 CAPÍTULO 2 A RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO 1. O CONCEITO DE RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO A RELAÇÃO JURÍDICA = representa uma situação em que duas ou mais pessoas (elemento subjetivo) se encontram a respeito de uns bens ou interesses jurídicos (elemento objetivo) O conjunto desses elementos, mais um vínculo intersubjetivo que traduz o conjunto de poderes e deveres dos sujeitos constituem a chamada estrutura da relação jurídica (Francisco Amaral). A relação jurídica traduz a regulamentação jurídica (aspecto formal) do comportamento dos indivíduos (aspecto material) no seu dia a dia, na disciplina de seus interesses, estabelecendo situações ativas (poderes) e situações passivas (deveres). (idem) Podemos conceituar relação jurídica de consumo como o vínculo que o direito do consumidor estabelece entre um ou mais consumidores e fornecedores, que se encontram a respeito de produtos e serviços, atribuindo- lhes poderes e deveres. A relação jurídica de consumo representa uma situação jurídica de bilateralidade que se estabelece entre os sujeitos (consumidor e fornecedor), seja em posição de poder, seja na correspondente posição de dever. O CDC não definiu o que é relação jurídica de consumo, mas definiu os seus elementos: a) o consumidor; b) o fornecedor e; c) o objeto (produtos e serviços). 2. O conceito de consumidor 2.1. OS CONCEITOS DE CONSUMIDOR NO CDC No CDC existem quatro conceitos de consumidor: 2.1.1. CONSUMIDOR EM SENTIDO ESTRITO Art. 2º caput consumidor standard, em sentido concreto e determinado (stricto sensu). Art. 2º. Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 9 2.1.2. CONSUMIDOR EM SENTIDO COLETIVO Art. 2º, par. único consumidor no sentido coletivo (bystander); Art. 2º. (...) Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumido. >> O dispositivo garante a tutela dos interesses coletivos (lato sensu) dos consumidores determinados ou indeterminados que direta ou indiretamente hajam participado das relações de consumo (situação concreta), cujos interesses podem ser defendidos pela via da ação coletiva (interesses difusos, coletivos stricto sensu ou individuais homogêneos) proposta por qualquer dos legitimados do art. 82 do CDC. EMENTA: “O Ministério Público tem legitimidade para ingressar com ação civil pública visando a fixação e o pagamento de mensalidades escolares, pois os interesses e direitos daí decorrentes podem se considerados homogêneos, pode o órgão ministerial propor ação, eis que têm vinculação com o consumo, ou seja, podem os titulares do direito ser considerados consumidores, nos termos do art. 2º, parágrafo único, da Lei 8.078/1990” (STF – RE 185.360-3/SP - 2ª Turma – rel. Min. Carlos Velloso – j. 17.11.1997 – RT 752/116). 2.1.3. CONSUMIDOR EQUIPARADO Art. 17 consumidor equiparado (bystander) – são as vítimas do evento danoso oriundo de uma relação de consumo: Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equipara-se a consumidor todas as vítimas do evento. O art. 17 do CDC estende a proteção do CDC ao terceiro, bystander, que, mesmo não tendo participado diretamente de uma relação de consumo venha sofrer danos à sua saúde, segurança e patrimônio extrínseco, em decorrência de uma atividade de fornecimento de produtos ou serviços no mercado de consumo (fato do produto ou do serviço). EXEMPLO: são considerados consumidores equiparados, as pessoas que sofrem danos em razão de explosão ocorrida num shopping center, mesmo que não tenham adquirido nenhum bem de consumo. Neste sentido: “Em conseqüência do art. 17 do Código de Defesa do Consumidor, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas que, embora não tendo participado diretamente da relação doe consumo, vem a sofrer as conseqüências do evento danoso, dada a potencial gravidade que pode atingir o fato do produto ou do serviço, na modalidade vício de qualidade por insegurança. Recurso especial não conhecido (STJ – REsp. 181.580-SP 3ª Turma – j. 09.12.2003 – rel. Min. Castro Filho). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 10 EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Acidente aéreo. Transporte de malotes. Relação de Consumo. Caracterização. Responsabilidade pelo fato do serviço. Vítima do evento. Equiparação a consumidor. Art. 17 do CDC. I – Resta caracterizada relação de consumo se a aeronave que caiu sobre a casa das vítimas realizava serviço de transporte de malotes para um destinatário final, ainda que pessoa jurídica, uma vez que o artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor não faz tal distinção, definindo como consumidor, para os fins protetivos da lei, “...toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final”. Abrandamento do rigor técnico do critério finalista. II – Em decorrência, pela aplicação conjugada com o artigo 17 do mesmo diploma legal, cabível, por equiparação, o enquadramento do autor, atingido em terra, no conceito de consumidor.Logo, em tese, admissível a inversão do ônus da prova em seu favor. Recurso Especial provido” (STJ – REsp. 540.235-TO – 3ª Turma – j. 07.02.2006 – rel. Min. Castro Filho, DJU 06.03.2006, p. 372). 2.1.4. CONSUMIDOR ABSTRATO Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas, determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas. Art. 29 consumidor abstrato (pessoas determináveis ou não) expostas à práticas comerciais abusivas, publicidade enganosa ou abusiva, e estipulações contratuais abusivas. Não há necessidade de que estas pessoas sejam determináveis, basta apenas que estejam expostas à práticas comerciais abusivas. Desta forma são considerados consumidores abstratos as pessoas que apenas assistem na TV a veiculação de uma publicidade abusiva ou enganosa. Exemplo: equipara-se a consumidor para fins de proteção do CDC, a pessoa, que mesmo sem ter adquirido nenhum produto ou serviço tem seu nome negativado indevidamente no serviço de proteção ao crédito. 2.2. O CONCEITO ECONÔMICO DE CONSUMIDOR Conceito econômico de consumidor: “todo indivíduo que se faz destinatário da produção de bens, seja ele ou não adquirente, e seja ou não, a seu turno, também produtor de outros bens” (Geraldo de Brito Filomeno). Entende Geraldo de Brito Filomeno, que o CDC adotou o conceito econômico de consumidor, abstraindo-se de tal conceituação componentes de natureza sociológica (referente a determinada categoria ou classe social), ou psicológica (referente às motivações internas que o levam ao consumo), bem como os componentes de ordem literária e até filosófica (Código de Defesa do Consumidor comentado pelos autores do anteprojeto, 8ª ed. São Paulo: Forense Universitária, 2005, p. 27-28). Entendemos, contudo, que não se pode afirmar que o conceito de consumidor do art. 2ª do CDC despreza o motivo da aquisição do produto ou serviço. O motivo ou a finalidade da aquisição é imprescindível para que se possa saber se o adquirente é o não destinatário final do produto ou serviço. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 11 Para a economia, quem é considerado consumidor? O conceito econômico é amplo e irrestrito e abrange não somente aquele que adquire para uso próprio, ou seja, como destinatário final, como também aquele que o faz na condição de intermediário, para repasse a outros fornecedores (João Batista de Almeida). 2 Percebe-se a dificuldade de transplantar o conceito econômico para o campo jurídico. No nosso entendimento: O art. 2º do CDC não adotou o conceito econômico de consumidor. O art. 2º do CDC adotou um conceito jurídico de consumidor o qual exclui o intermediário da condição de consumidor.3 Intermediário não é destinatário final. 2.3. O CONCEITO JURÍDICO DE CONSUMIDOR No aspecto jurídico do conceito só é considerado consumidor quem adquire ou utiliza produtos como DESTINATÁRIO FINAL (sem o intuito de revenda ou transformação). Art. 2º. Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. pessoa física – qualquer cidadão ou jurídica – empresas, entes despersonalizados etc. adquirir – à título oneroso ou gratuito utilizar – não precisa adquirir 2.4. O DESTINATÁRIO FINAL O CDC não define exatamente quem é destinatário final. Para sua identificação é mister que se considere a finalidade da aquisição do bem de consumo. Assim por exemplo, quando um consumidor adquire laranjas é necessário saber a finalidade de tal aquisição: se for para revenda o comprador não será destinatário final e não haverá relação de consumo; ao contrário, se for para fazer suco de laranja em casa (uso doméstico), o comprador será destinatário final e haverá relação de consumo. DESTINATÁRIO FINAL – é quem retira o produto do ciclo de produção e comercialização sem o intuito de revenda ou transformação. 2 A proteção jurídica do consumidor. 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 36. 3 Neste sentido: João Batista de Almeida (A proteção jurídica do consumidor. 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 36); Antonio Herman Vasconcelos e Benjamin (O conceito jurídico de consumidor. Revista dos Tribunais. São Paulo: RT, n. 628, 1988, fev., p. 78). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 12 Exemplo: uma pessoa que compra uma panela para uso doméstico; uma pessoa que adquire laranjas para fazer suco em sua residência. Já o marceneiro que adquire madeiras para a fabricação de móveis não é destinatário final do produto, pois o produto será utilizado na transformação (ou manufatura) para uma nova comercialização. Para saber se uma pessoa é destinatária final do produto ou serviço é necessário saber a FINALIDADE do bem adquirido. QUESTÃO: E, se alguém adquire o produto como destinatário final, mas este produto for utilizado no sistema de produção ? Ex: a empresa de transporte coletivo (pessoa jurídica) que adquire vários ônibus diretamente da fábrica é consumidora? Este é um ponto polêmico na doutrina sobre o conceito de consumidor strictu sensu (standard) – art. 2º, caput do CDC: 2.4.1. A FINALIDADE NA AQUISIÇÃO DO BEM DE CONSUMO Observa-se que os produtos e serviços podem ser adquiridos ou utilizados pelo DESTINATÁRIO FINAL para várias finalidades: a) para uso pessoal ou doméstico como bem de consumo Ex: a aquisição de uma escova de dente, de alimentos ou remédio etc. b) para revenda ou transformação como bem insumo Ex: a aquisição de laranjas para fazer suco na lanchonete ou a aquisição de madeiras para fabricação de tamboretes. c) para uso profissional como bem de produção Ex: aquisição de uma máquina de fotocópias pelo escritório de contabilidade, de um ônibus pela empresa de transporte coletivo, de um aparelho de raio x pelo médico ou hospital. Quanto às hipóteses “a” e “b” não há divergência na doutrina e jurisprudência: a) quem adquire o bem para uso doméstico é sempre consumidor (destinatário final) tanto para minimalistas quanto para maximalistas; b) da mesma forma, quem adquire o bem para revenda ou transformação - atividade intermediária – não é considerado destinatário final e de consequência não será consumidor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 13 EMENTA: “Recurso Especial. Competência. Ação de revisão contratual. Empresa revendedora de veículos. Destinatária intermediária. Relação de consumo. Não configuração. Cláusula eletiva de foro. Validade. Dissídio jurisprudencial. Súmula 83/STJ. 1 - Conforme orientação adotada por esta Corte, a aquisição de bens ou a utilização de serviços, por pessoa natural ou jurídica, com o escopo de implementar ou incrementar a sua atividade negocial, não se reputa como relação de consumo e, sim, como uma atividade de consumo intermediária. Por outro lado, a questão da hipossuficiência da empresa recorrente em momento algum foi considerada pelas instância ordinárias, não sendo lídimo cogitar-se a respeito nesta seara recursal, sob pena de indevida supressão de instância. 2 - Assim sendo, na esteira da jurisprudência deste Tribunal, a competência fixada pela cláusula de eleição de foro deve ser observada. Incidência da Súmula 83/STJ. 3 - Recurso não conhecido” (STJ – REsp. 701.370-PR – 4ª Turma – j. 16.08.2005 – rel. Min. Jorge Scartezzini – DJU 05.09.2005, p. 430) EMENTA: “1. No que tange à definição de consumidor, a Segunda Seção desta Corte, ao julgar, aos 10.11.2004, o REsp nº 541.867/BA, perfilhou-se à orientação doutrinária finalista ou subjetiva, de sorte que, de regra, o consumidor intermediário, por adquirir produto ou usufruir de serviço com o fim de, direta ou indiretamente, dinamizar ou instrumentalizar seu próprio negócio lucrativo, não se enquadra na definição constanteno art. 2º do CDC. (...)” (STJ – REsp. 660.026-RJ – 4ª Turma – j. 03.05.2005 – rel. Min. Jorge Sacartezzini, DJU 27.06.2005, p. 409). c) o problema se acentua quando a aquisição do bem é feita para uso profissional, como no caso da loja que presta serviço de revelar fotografias e que adquire o aparelho eletrônico de revelação instantânea. Pergunta-se: esta empresa é considerada destinatária final do produto? Neste ponto, em relação ao conceito de consumidor standard, na condição de destinatário final, quando a aquisição é para USO PROFISSIONAL, a doutrina se divide em duas correntes: 1 MINIMALISTAS – (finalistas) o artigo 2º do CDC deve ser interpretado de maneira restritiva: “destinatário final” é aquele que adquire ou utiliza o bem ou serviço em proveito próprio para satisfazer uma necessidade pessoal ou doméstica. Cláudia Lima Marques: não basta retirar o bem da cadeia de produção, levá-lo para o escritório ou residência, é necessário também não adquiri-lo para revenda ou qualquer uso profissional (inclusive no sistema de produção). Para os minimalistas CONSUMIDOR não é quem retira o bem do mercado, adquirindo-o ou utilizando-o, mas somente quem o utiliza ou adquire o bem para o uso doméstico ou não profissional. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 14 2 MAXIMALISTAS – o artigo 2º do CDC deve ser interpretado de maneira ampla: “destinatário final” é aquele que retira o produto do mercado e o utiliza, o consome não só para uso pessoal, mas também par uso profissional. Obs. A divergência entre as correntes minimalista e maximalista, se resume ao conceito strictu sensu de consumidor quando a aquisição do bem tem finalidade de uso profissional como bem de produção. Ente as duas correntes não há divergências quando não se considera destinatário final quem adquire para revenda ou transformação (bem de insumo) – situação denominada consumo intermediário. 2.4.2. POSIÇÃO FINALISTA SUBJETIVA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA QUANTO AO CONCEITO DE DESTINATÁRIO FINAL O Superior Tribunal de Justiça sempre teve uma tendência (repito: tendência) maximalista: EMENTA: “É de consumo, a relação entre o vendedor de máquina agrícola e compradora que a destina à sua atividade no campo” (STJ – REsp. 142.042/RS – 4ª T., Rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar – j. 11.11.1997) EMENTA: “O fato de o arrendamento destinar-se a bem que será utilizado pela arrendatária nas suas atividades comerciais não retira a configuração abrangida pelo Código de Defesa do Consumidor. No caso a arrendatária é a consumidora final do bem arrendado, que com ela permanece, sendo diverso o serviço que presta ao público como transportadora” (STJ – REsp. 234.200/RS – 3ª T., Rel. Min. Carlos Alberto Menezes de Direito – j. 09.02.2001) Entretanto, o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA tem firmado posição jurisprudencial nem totalmente minimalista (finalista) e nem maximalista, mas uma posição FINALISTA SUBJETIVA ou subjetiva eclética, a qual admite um “certo abrandamento na interpretação finalista, na medida em que se admite, excepcionalmente, a aplicação das normas do CDC a determinados consumidores profissionais, desde que demonstrada, in concreto, a vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica” (STJ – REsp. 660.026-RJ – 4ª Turma – j. 03.05.2005 – rel. Min. Jorge Sacartezzini, DJU 27.06.2005, p. 409). Assim, “mesmo nas relações entre pessoas jurídicas, se da análise da hipótese concreta decorrer inegável vulnerabilidade entre a pessoa-jurídica consumidora e a fornecedora, deve-se aplicar o CDC na busca do equilíbrio entre as partes. Ao consagrar o critério finalista para interpretação do conceito de consumidor, a jurisprudência deste SJT também reconhece a necessidade de, em situações específicas, abrandar o rigor do critério subjetivo do conceito de consumidor, para admitir a aplicabilidade do CDC nas relações entre fornecedores Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 15 e consumidores-empresários em que fique evidenciada a relação de consumo” (STJ – REsp. 476.428-SC – 3ª Turma – j. 19.04.2005 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 09.05.2005, p. 390). 2.4.2. POSIÇÃO FINALISTA SUBJETIVA DO STJ QUANTO AO CONCEITO DE CONSUMIDOR EQUIPARADO Neste sentido, a jurisprudência do STJ tem admitido também que a pessoa jurídica seja considerada consumidora não só quando evidenciada sua vulnerabilidade no caso concreto, mas também por equiparação (consumidor bystander), como nas hipóteses previstas no art. 17 e 29 do CDCC. Esta é a hipótese da emprese que é vítima de acidente de consumo (explosão de um produto, por exemplo). EMENTA: “Direito civil. Consumidor. Agravo no recurso Especial. Conceito de consumidor. Pessoa jurídica. Excepcionalidade. Não constatação. - A jurisprudência do STJ tem evoluído no sentido de somente admitir a aplicação do CDC à pessoa jurídica empresária excepcionalmente, quando evidenciada a sua vulnerabilidade no caso concreto; ou por equiparação, nas situações previstas pelos arts. 17 e 29 do CDC. Negado provimento ao agravo” (STJ – AgRg no REsp. 687.239-RJ – 3ª Turma – j. 06.04.2006 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 02.05.2006, p. 307). Exemplo: A empresa fornecedora de produtos que é indevidamente negativada no Serasa, sem ter adquirido nenhum bem no mercado de consumo que justificasse a negativação. 2.5. STJ: QUEM PODE SER CONSIDERADO CONSUMIDOR 2.5.1. PEQUENA EMPRESA – DESTINATÁRIA FINAL DE SERVIÇOS EMENTA: “Recurso Especial. Código de Defesa do Consumidor. Prestação de serviços. Destinatário final. Juízo competente. Foro de eleição. Domicílio do autor. 1. Insere-se no conceito de ‘destinatário final’ a empresa que se utiliza dos serviços prestados por outra, na hipótese em que se utilizou de tais serviços em benéfico próprio , não os transformando para prosseguir na sua cadeia produtiva. 2. Estando a relação de jurídica sujeita ao CDC, deve ser afastada a cláusula que prevê o foro de eleição diverso do domicílio do consumidor. 3. Recurso Especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 488.274-MG – 3ª Turma – j. 22.05.2003 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU ). 2.5.2. PEQUENA EMPRESA – DESTINATÁRIA FINAL DE SERVIÇOS DE CARTÃO DE CRÉDITO EMENTA: “Processo civil. Conflito de competência. Contrato. Foro de eleição. Relação de consumo. Contratação de serviço de crédito por sociedade empresária. Destinação final caracterizada. – Aquele que exerce empresa assume a condição de consumidor dos bens e serviços que adquire ou utiliza Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 16 como destinatário final, isto é, quando o bem ou serviço, ainda que venha a compor o estabelecimento empresarial, não integre diretamente – por meio de transformação, montagem, beneficiamento ou revenda – o produto ou serviço que venha a ser ofertado a terceiros. – O empresário ou sociedade empresária que tenha por atividade precípua a distribuição, no atacado ou no varejo, de medicamentos, deve ser considerado destinatário final do serviço de pagamento por meio de cartão de crédito, porquanto esta atividade não integra, diretamente, o produto objeto de sua empresa” (STJ – CC 41.056-SP – 2ª Seção – j. 23.06.2004 – rel. p/ acórdão Min. Nancy Andrighi, DJU 20.09.2004, p. 181). 2.5.3. PESSOA JURÍDICA – DESTINATÁRIA FINAL DE CONTRATO DE SEGURO EMENTA: “Consumidor. Recurso especial. Pessoa jurídica. Seguro contra roubo e furto de patrimônio próprio. Aplicação do CDC. - O que qualifica uma pessoa jurídica como consumidora é a aquisição ou utilização de produtos ou serviços em benefício próprio; isto é, para satisfação de suas necessidades pessoais, sem ter o interesse e repassá-los a terceiros, nem empregá-los na geração de outros bens ou serviços. - Se a pessoa jurídica contrata o seguro visando a proteção contra roubo e furto do patrimônio próprio dela e não o dos clientes que se utilizam dosseus serviços, ela é considerada consumidora nos termos do art. 2.° do CDC. Recurso especial conhecido parcialmente, mas improvido” (STJ – REsp. 733.560-RJ – 3ª Turma – j. 11.04.2006 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 02.05.2006, p. 315). 3.5.4. O PRODUTOR RURAL A pauta de jurisprudências do STJ sobre a aquisição de insumos e bens de produção a serem utilizados na atividade produtiva rural, culminou na decisão do Ministro Castro Filho que considerou o agricultor como destinatário final na aquisição de qualquer bem móvel a ser utilizado na atividade produtiva: EMENTA: “Contratos bancários. Contrato de repasse de empréstimo externo para compra de colheitadeira. Agricultor. Destinatário Final. Incidência. Código de Defesa do Consumidor. Comprovação. Captação de recursos. Matéria de prova. Prequestionamento. Ausência. I – O agricultor que adquire bem móvel com a finalidade de utilizá-lo em sua atividade produtiva, deve ser considerado destinatário final, para os fins do artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor. II – Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor às relações jurídicas originadas dos pactos firmados entre os agentes econômicos, as instituições financeiras e os usuários de seus produtos e serviços. III – Afirmado pelo acórdão recorrido que não ficou provada a captação de recursos externos, rever esse entendimento encontra óbice no enunciado n.º 7 da Súmula desta Corte. IV – Ausente o prequestionamento da questão federal suscitada, é inviável o recurso especial (Súmulas 282 e 356/STF). Recurso especial não conhecido, com ressalvas quanto à terminologia” (STJ – REsp. 445.854-MS – 3ª Turma – j. 02.12.2003 – rel. Min. Castro Filho, DJU 19.12.2003, p. 453). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 17 2.5.5. O TAXISTA EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Financiamento para aquisição de automóvel. Aplicação do CDC. O CDC incide sobre contrato de financiamento celebrado entre a CEF e o taxista para aquisição de veículo. A multa é calculada sobre o valor das prestações vencidas, não sobre o total do financiamento (art. 52, § 1º, do CDC). Recurso não conhecido” (STJ – REsp. 231.208-PE – 4ª Turma – j. 07.12.2000 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 19.03.2001, p. 114). 2.5.6 O MUTUÁRIO DO SISTEMA FINANCEIRO DA HABITAÇÃO EMENTA: “Processo civil. Agravo de Instrumento. Negativa de Provimento. Agravo Regimental. Contrato de adesão. Sistema Financeiro de habitação. Associação de poupança e empréstimo. Cláusula de eleição de foro. Prejuízo à defesa do aderente. Nulidade absoluta. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor. Desprovimento. 1 – Este Tribunal já proclamou o entendimento no sentido de ser aplicável o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de adesão, inclusive àqueles submetidos às regras do Sistema Financeiro de Habitação, firmado por Associação de Poupança e Empréstimo, devendo ser reconhecida a nulidade da cláusula de eleição de foro diverso do domicílio do réu, por importar prejuízo à defesa do aderente. 2 – Precedentes das duas Turmas que compõem a Segunda Seção (AgRg Ag ns. 470.031/DF, 465.114/DF e REsp. 436.815/DF). 3 – Agravo Regimental conhecido, porém, desprovido” (STJ – AgRg no AG 497.979-DF – 4ª Turma – j. 05.10.2004 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 22.11.2004, p. 348). 2.5.7. O PODER PÚBLICO O poder público quando contrata, normalmente, estabelece relações jurídicas de direito público. Nas relações jurídicas de direito público para aquisição de bens não há relação de consumo e as relações jurídicas se inserem no âmbito do direito administrativo. Assim são, por exemplo, as aquisições de bens através de processo licitatório cujas contratações se dão com cláusulas exorbitantes. “É de sabença que as cláusulas exorbitantes são as que inexistem no Direito Privado e permitem ao Poder Público alterar as condições de execução do contrato, independentemente da anuência do contratado” (STJ - REsp n. 527.137-0/PR. – 1ª Turma – rel. Min. Luiz Fux. j. 11.05.2004, un.). A Lei de Licitações estabelece que o poder público contraente poderá servir-se das cláusulas exorbitantes do direito privado para melhor resguardar o interesse público. Neste passo, a aquisição de um avião pelo poder público, por exemplo, não pode se constituir numa relação de consumo, em face da necessidade desta aquisição ser precedida de concorrência pública, onde prevalece o princípio da supremacia do poder público e a utilização de cláusulas contratuais exorbitantes ao direito privado. Entretanto, é possível que o poder público adquira bens de consumo através de relações jurídicas de direito privado. E, para que o poder público seja considerado Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 18 consumidor e receba a proteção do CDC é necessário que a relação jurídica de aquisição de bens se forme sob a égide do direito privado comum, sem cláusulas exorbitantes e sem supremacia de poder. À guisa de exemplo, alguns órgãos públicos têm verba para despesas de expediente destinadas a pequenas aquisições de materiais de consumo e, desta forma, podem adquirir, sem processo licitatório, algumas poucas resmas de papel e pequenas quantidades de canetas esferográficas. Nesta hipótese, como se trata de contratação sem supremacia de poder e cláusulas exorbitantes, configura-se uma relação jurídica de direito privado, na qual, o poder público é destinatário final, é consumidor e o negócio jurídico é regulado pelo CDC. Para identificar se há relação de consumo ou não, é importante que se verifique o conteúdo do contrato. Se houver nele alguma cláusula exorbitante que expresse a supremacia contratual do poder público, a relação jurídica não será de consumo. EMENTA: “Administrativo - Contrato de prestação de serviços - Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) - Licitação - Natureza administrativa - CF/1988, art. 37, XXI. 1. Contrato de prestação de serviços firmado, após procedimento licitatório, entre a ECT e as recorrentes para a construção de duas agências dos Correios. Paralisação das obras. Alegação de desequilíbrio econômico-financeiro do contrato. Natureza da relação jurídica contratual entre a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e as Construtoras prestadoras de serviços. 2. Pleito recursal visando a aplicação das normas de Direito Privado relativas ao Direito do Consumidor com o objetivo de evitar prática contratual considerada abusiva. 3. A ECT é empresa pública que, embora não exerça atividade econômica, presta serviço público da competência da União Federal, sendo por esta mantida. 4. O delineamento básico da Administração Pública brasileira, seja direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, restou estabelecido no art. 37 da Constituição Federal, que no seu inciso XXI, fixou a licitação como princípio básico a ser observado por toda a Administração Pública. 5. A Lei de Licitações e Contratos estabelece que o contraente poderá servir-se das cláusulas exorbitantes do direito privado para melhor resguardar o interesse público. É de sabença que as cláusulas exorbitantes são as que inexistem no Direito Privado e permitem ao Poder Público alterar as condições de execução do contrato, independentemente da anuência do contratado. 6. À luz do art. 37, XXI, da Constituição Federal, a natureza do vínculo jurídico entre a ECT e as empresas recorrentes, é de Direito Administrativo, sendo certo que a questão sub judice não envolve Direito Privado, tampouco de relação de consumo. Aliás, apenas os consumidores, usuários do serviço dos correios é que têm relação jurídica de consumo com a ECT. 7. Consoante o acórdão a quo, a empresa contratada não logrou demonstrar qualquer ilegalidade cometida pela ECT em face da legislação que rege os contratos públicos quando da licitação, ou o efetivo desequilíbrio econômico na execução da obra, matéria estaque não pode ser revista nesta instância extraordinária, ante o óbice da Súmula n. 7. Sob essa ótica, resvala a tese sustentada pelas empresas recorrentes no sentido de que o acórdão recorrido malferiu os artigos 6º, 29 e 51 do Código de Defesa do Consumidor, mercê de burlar as regras de revisão contratual destinadas ao equilíbrio financeiro do ajuste firmado entre as partes. 8. Recurso especial desprovido. (STJ – REsp. n. 527.137-0/PR. – 1ª Turma – rel. Min. Luiz Fux. j. 11.05.2004, un.) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 19 2.6. STJ: QUEM NÃO PODE SER CONSIDERADO CONSUMIDOR 2.6.1. O CONDÔMINO EMENTA: “(...) 1 – (...). 2 - A jurisprudência desta Corte é pacífica no sentido de que não se aplica o Código de Defesa do Consumidor às relações jurídicas existentes entre condomínio e condôminos. 3 - In casu, a Convenção Condominial fixou a multa, por atraso no pagamento das cotas, no percentual máximo de 20%, permitido pelo art. 12, § 3º, da Lei 4.591/64, que tem validade para as cotas vencidas até a vigência do novo Código Civil, quando então passa a ser aplicado o percentual de 2%, previsto no art. 1.336, § 1º. 3 - (...). 4 – (...). 5 (...). 6 – (...). 7 – (...). 8 - Recurso conhecido e provido, em parte, para reduzir os juros moratórios à taxa legal de 0,5% ao mês, bem como limitar em 2% a multa moratória das parcelas vencidas a partir da vigência do novo Código Civil” (STJ – REsp. 679.019-SP – 4ª Turma – j. 02.06.2005 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 20.06.2005, p. 291). 2.6.2. O LOCATÁRIO EMENTA: “Locação. Multa moratória. Redução. Código de Defesa do Consumidor. Inaplicabilidade. – Consoante interativos julgados desse Tribunal, as disposições contidas no Código de Defesa do Consumidor não são aplicáveis ao contrato de locação predial urbana, que se regula por legislação própria – Lei 8.245/91. Recurso Especial conhecido e provido (STJ – REsp. 399.938-MS – 6ª Turma – j. 18.04.2002 – rel. Min. Vicente Leal, DJU 13.05.2002, p. 246). 2.6.3. O USUÁRIO DO ESTACIONAMENTO DA ÁREA AZUL No estacionamento nas vias urbanas da chamada “área azul” há o pagamento de uma taxa (relação tributária) cujo fundamento é urbanístico e tem a finalidade de melhor otimizar a utilização dos espaços das vias urbanas. O usuário paga uma taxa para estacionar seu veículo, sem, contudo, receber qualquer contraprestação em forma de serviço. Se não há contraprestação de serviço, não há relação de consumo. Todavia, se o serviço de organização do estacionamento da área azul for terceirizado, com finalidade lucrativa, a cobrança não terá mais característica de taxa, mas de tarifa. Neste caso, haverá contraprestação e responsabilidade civil da empresa pela guarda e conservação dos veículos. Neste caso há relação de consumo. 2.6.4. O HOSPITAL NA AQUISIÇÃO DE EQUIPAMENTO HOSPITALAR A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça também não considera consumidor o hospital quando adquire equipamentos e aparelhos hospitalares com a finalidade de implementar sua atividade profissional. Ou seja, para ser considerado consumidor é necessário “que a aquisição de um bem ou a utilização de um serviço satisfaça uma necessidade pessoal do adquirente ou utente, pessoa física ou jurídica, e não objetive a incrementação de atividade profissional lucrativa” (CC 46.744-SP – 2ª Seção – j. 08.03.2006 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 20.03.2006, p. 189). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 20 EMENTA: “(...) 2. Na assentada do dia 10.11.2004, porém, ao julgar o REsp nº 541.867/BA, a Segunda Seção, quanto à conceituação de consumidor e, pois, à caracterização de relação de consumo, adotou a interpretação finalista, consoante a qual reputa-se imprescindível que a destinação final a ser dada a um produto/serviço seja entendida como econômica, é dizer, que a aquisição de um bem ou a utilização de um serviço satisfaça uma necessidade pessoal do adquirente ou utente, pessoa física ou jurídica, e não objetive a incrementação de atividade profissional lucrativa. 3. In casu, o hospital adquirente do equipamento médico não se utiliza do mesmo como destinatário final, mas para desenvolvimento de sua própria atividade negocial; não se caracteriza, tampouco, como hipossuficiente na relação contratual travada, pelo que, ausente a presença do consumidor, não se há falar em relação merecedora de tutela legal especial. Em outros termos, ausente a relação de consumo, afasta-se a incidência do CDC, não se havendo falar em abusividade de cláusula de eleição de foro livremente pactuada pelas partes, em atenção ao princípio da autonomia volitiva dos contratantes” (STJ – CC 46.744-SP – 2ª Seção – j. 08.03.2006 – rel. Min. Jorge Scartezzi, DJU 20.03.2006, p. 189). 3. O conceito de fornecedor: Art. 3º. Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. FORNECEDOR >> PRODUTOS e SERVIÇOS FORNECEDOR é quem exerce atividade econômica-jurídica de fornecimento de produtos e serviços no mercado de consumo. A atividade do fornecedor é, em regra, exercida com habitualidade ou profissionalidade. Entretanto, é possível que a atividade seja eventual, desde que tenha caráter lucrativo e profissionalidade >> ex: o estudante que, eventualmente, vende chocolates para pagar seus estudos. atos jurídicos isolados que não constituem uma atividade não se inserem na relação de consumo. Ex: uma venda única venda de uma porção biscoitos, sem características de atividade. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 21 3.1. QUEM PODE SER CONSIDERADO FORNECEDOR 3.1.1. O PODER PÚBLICO O PODER PÚBLICO – também pode ser considerado FORNECEDOR somente quando presta serviços uti singuli SERVIÇOS UTI SINGULI >> são serviços mantidos mediante cobrança de tarifa, individualmente aferidos para cada consumidor. Exemplo: serviços de água, energia elétrica, telefone etc. SERVIÇOS UTI UNIVERSI >> são serviços mantidos mediante cobrança de impostos. Não são individualizados. Exemplo: serviço de iluminação pública, serviço de limpeza, segurança pública etc.4 Não há relação de consumo quando o serviço prestado pelo Poder Público é mantido pela cobrança de impostos. EMENTA: “Concessionária de rodovia. Acidente com veículo em razão de animal morto na pista. Relação de consumo. 1. As concessionárias de serviços rodoviários, nas suas relações com os usuários da estrada, estão subordinadas ao Código de Defesa do Consumidor, pela própria natureza do serviço. No caso a concessão é, exatamente, para que seja a concessionária responsável pela manutenção da rodovia, assim, por exemplo, manter a pista sem a presença de animais mortas na estrada, zelando, portanto, para que os usuários trafeguem em tranqüilidade e segurança. Entre o usuário da rodovia e a concessionária, há mesmo uma relação de consumo, com o que é de ser aplicado o art. 101, do Código de Defesa do Consumidor. 2. Recurso especial não conhecido” (STJ – REsp. 467.883-RJ – 3ª Turma - j. 17.06.2003 – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 01.09.2003, p. 281) . 3.1.2. OS ENTES DESPERSONALIZADOS ENTES DESPERSONALIZADOS: camelôs, grupo de pessoas, a família etc. ou quem se apresenta como fornecedor (teoria da aparência). 3.1.3. OS PROFISSIONAIS LIBERAIS O PROFISSIONAL LIBERAL – (médico, advogado, dentista, engenheiro) quando presta serviço remunerado é considerado fornecedor. Se o serviço é prestado de forma gratuita (sem remuneração), sem vinculação com o marketing da atividade profissional do profissional liberal, não 4 Os conceitostranscritos são de Hely Lopes Meirelles. Maria Sylvia Zanella Di Pietro conceitua os serviços uti singuli e uti universi de forma diferente. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 22 há relação de consumo. Exemplo: o médico que realiza cirurgias de forma gratuita para pessoas carentes. Neste caso, a responsabilização pelos danos causados deve ser fundamentada no Código Civil. Os profissionais liberais têm, em regra, o privilégio da responsabilização mediante verificação da culpa (responsabilidade subjetiva) – art. 14 § 4º - Porém, a responsabilidade será objetiva se a obrigação contratada for de resultado. 3.1.3.1. OS SERVIÇOS ADVOCATÍCIOS Em relação aos serviços advocatícios não há mais posições divergentes na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: NÃO HÁ RELAÇÃO DE CONSUMO. EMENTA: “Inincidência do CDC sobre serviços advocatícios. Aplicabilidade de lei específica. Estatuto da OAB. (...) As relações contratuais entre clientes e advogados são regidas pelo Estatuto da OAB, aprovado pela Lei n. 8.906/94, a elas não se aplicando o Código de Defesa do Consumidor (STJ – REsp. 532.377-RJ – 4ª Turma – j. 26.04.2005 – rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJU 30.05.2005, p. 383). EMENTA: “Processo Civil Ação de conhecimento proposta por detentor de título executivo. Admissibilidade. Prestação de serviços advocatícios. Inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor. - O detentor de título executivo extrajudicial tem interesse para cobrá-lo pela via ordinária, o que enseja até situação menos gravosa para o devedor, pois dispensada a penhora, além de sua defesa poder ser exercida com maior amplitude. - Não há relação de consumo nos serviços prestados por advogados, seja por incidência de norma específica, no caso a Lei n. 8.906/94, seja por não ser atividade fornecida no mercado de consumo. - As prerrogativas e obrigações impostas aos advogados – como v.g., a necessidade de manter sua independência em qualquer circunstância e a vedação à captação de causas evidenciam natureza incompatível com a atividade de consumo. Recurso não conhecido. (STJ – REsp. 532.377- RJ – 4ª Turma – j. 21.08.2003 – rel. Min. César Asfor Rocha, DJU 13.1.2003, p. 373). 3.1.4. OS PROFISSIONAIS AUTÔNOMOS O profissional autônomo – pedreiro, encanador, eletricista etc, também é considerado fornecedor. A responsabilidade civil pelos danos causados pelo profissional autônomo, ao contrário da dos profissionais liberais (subjetiva, quando a obrigação for de meio) será sempre objetiva, nos termos do art. 14, caput. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 23 3.1.5. QUEM SE APRESENTA COMO FORNECEDOR Por força da teoria da aparência, o STJ tem considerado como fornecedor quem se apresenta como tal no mercado de consumo, como por exemplo, um investidor, terceiro de boa-fé, está protegido pela teoria da aparência, “na medida em que entregava, mediante recibo, valores para aplicação no mercado financeiro ao agente notoriamente autorizado a captá-los em nome da recorrida, instituição financeira. Desta forma, a recorrida responde pelo desvio do numerário ocorrido” (STJ – REsp. 276.025-SP – 4ª Turma – j. 12.12.2000 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar). Neste sentido: EMENTA: “Processual civil. Consórcio. Teoria da aparência. Legitimidade reconhecida. A empresa que, segundo se alegou na inicial, permite a utilização da sua logomarca, de seu endereço, instalações e telefones, fazendo crer, através da publicidade e da prática comercial, que era responsável pelo empreendimento consorcial, é parte passiva legítima para responder pela ação indenizatória proposta pelo consorciado fundamentada nesses fatos. Recurso conhecido e provido” (STJ – REsp. 139.400-MG – 4ª Turma – j. 03.08.2000 – rel. Min. César Asfor Rocha, DJU 25.09.2000, p. 103). 4. O OBJETO DA RELAÇÃO DE CONSUMO A relação de consumo tem por objeto: PRODUTOS ou SERVIÇOS Art. 3º (...) § 1º. Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial. § 2º. Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante REMUNERAÇÃO, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. Além de materiais ou imateriais, os produtos e serviços também podem ser duráveis ou não-duráveis, conforme o maior ou menor exaurimento da sua durabilidade. A distinção é importante para delimitação do prazo decadencial para que o consumidor faça a reclamação junto ao fornecedor pelos vícios qualidades: se duráveis, o prazo é de 90 dias; se não-duráveis, prazo é de 30 dias. Sobre o assunto ver o art. 26 do CDC. os produtos e serviços podem ser: DURÁVEIS – aqueles que não se extinguem com o simples uso (ex: eletrodomésticos em geral, serviço de ensino). NÃO DURÁVEIS – aqueles que deixam de existir com o simples uso (ex: alimentos, produtos de limpeza, remédios, serviço de corte de cabelo, lavagem de veículo) *Sobre a importância da diferenciação, ver art. 26 do CDC Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 24 4.1. OS PRODUTOS Na lição de Cláudio Bonatto produto “é toda coisa que, por ter valor econômico, entra no campo jurídico, sendo objeto de cogitação pelo homem, quando parte integrante de relação jurídica”.5 Os bens materiais são aqueles que podem ser apreendidos, pesados ou medidos, por serem palpáveis. Possuem uma existência concreta e podem ser percebidos visualmente e podem ser apreendidos, como por exemplo, livros, eletrodomésticos, jóias etc. Os bens imateriais são, a contrariu sensu, aqueles que por não possuir existência tangível, não podem ser vistos, apreendidos e não são palpáveis. A energia elétrica, os direitos autorais, os programas de “software” e o crédito de passagem de ônibus contido no cartão magnético podem ser apontados como exemplos de produto imaterial. 4.2. OS SERVIÇOS Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo mediante REMUNERAÇÃO, incluindo os serviços de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, exceptuado os serviços decorrentes de relações trabalhistas. A “atividade” como sinônimo de prestação de serviço deve ter caráter econômico, ou seja, advir de uma ação profissional. A atividade é um complexo de atos direcionados a determinado objetivo, com fim de obtenção de resultado finalístico lucrativo, numa ação típica de empresa ou de empresário.6 4.2.1. A REMUNERAÇÃO O conceito de ‘serviço’ no CDC exige para a sua configuração, necessariamente, que a atividade seja prestada mediante remuneração (art. 3º, § 2º do CDC). Ou seja, a REMUNERAÇÃO É A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DOS SERVIÇOS. A remuneração pode ser direta ou indireta. a) remuneração direta >> quando a remuneração do serviço é paga diretamente conforme orçamento apresentado ao consumidor. Ex: serviço de corte de cabelo, serviço de ensino, serviço de pintura etc. b) remuneração indireta >> quando a remuneração é embutida no preço dos produtos ou de outros serviços. Ex: Os estacionamentos de shopping 5 Código de Defesa do Consumidor: cláusulas contratuais abusivas nas relações contratuais de consumo. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p. 26. 6 Cláudio Bonatto. Código de Defesa do Consumidor: cláusulas contratuais abusivas nas relações contratuais de consumo. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p. 27. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 25 centers e supermercados; transporte gratuito de idosos, de estudantes; lavagem de carro grátis etc. 4.2.2. O SERVIÇO PÚBLICO DE SAÚDE Os serviços públicos de saúde (educação, segurança pública, iluminação etc.), normalmente, são mantidos com verbas advindas da arrecadação de impostos. Não são remunerados por tarifa e por isso, não são objeto derelação de consumo. EMENTA: “Processual civil. Recurso Especial. Exceção de competência. Ação indenizatória. Prestação de serviço público. Ausência de remuneração. Relação de consumo não-configurada. Desprovimento. Recurso Especial. 1.Hipótese de discussão do foro competente para processar e julgar ação indenizatória proposta contra o Estado, em face de morte causada por prestação de serviços médicos em hospital público, sob a alegação de existência de relação de consumo. 2. O conceito de ‘serviço’ previsto na legislação consumerista exige para a sua configuração, necessariamente, que a atividade seja prestada mediante remuneração (art. 3º, § 2º do CDC). 3. Portanto, no caso dos autos, não se pode falar em prestação de serviço subordinada às regras previstas no Código de Defesa do Consumidor, pois inexistente qualquer forma de remuneração direta referente ao serviço de saúde prestado pelo hospital público, o qual pode ser classificado como uma atividade geral exercida pelo Estado à coletividade em cumprimento de garantia fundamental (art. 196 da CF). 4. Referido serviço, em face das próprias características, normalmente é prestado pelo Estado de maneira universal, o que impede a sua individualização, bem como a mensuração de remuneração específica, afastando a possibilidade da incidência das regras de competência contidas na legislação específica. 5. Recurso especial desprovido” (STJ – REsp. 493.181-SP – 1ª Turma – j. 15.12.2005 – rel. Min. Denise Arruda, DJU 01.02.2006, p. 431). 4.2.3. SERVIÇOS DE NATUREZA TRABALHISTA Serviços decorrentes de relação trabalhista não são objeto de relação de consumo e não estão sob a égide do CDC - art. 3º, § 2º, parte final. 4.2.4. SERVIÇOS DE NATUREZA BANCÁRIA Os BANCOS exercem atividade comercial e são sempre considerados fornecedores quando do outro lado da relação há um consumidor DESTINATÁRIO FINAL. São considerados fornecedores quando oferecem no mercado serviços (cobrança, recebimento de contas, custódia etc.) e produtos (crédito etc.) para um destinatário final. Um dos produtos comercializados pelo banco é o dinheiro que, segundo o art. 85 do novo CC, é bem juridicamente consumível, caracterizado, portanto, como produto para efeito de consumo. O crédito é outro produto de natureza imaterial comercializado pelo banco. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 26 STJ: SÚMULA 297 – O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras. EMENTA: “Bancos. Sujeição ao regime do CDC. O CDC é aplicável a todas as operações bancárias, sejam elas os contratos de financiamento ou até mesmo os serviços oferecidos pelas instituições financeiras a seus clientes. O CDC incide sobre todas as relações e contratos pactuados pelas instituições financeiras e seus clientes e não apenas na parte relativa a expedição de talonários, fornecimento de extratos cobranças de contas, guarda de bens e outros serviços afins. As relações existentes entre os clientes e os bancos apresentam nítidos contornos de uma relação de consumo” (STJ – REsp. 213.825-RS – 4ª Turma – rel. Min. Barros Monteiro, j. 22.08.2000, v.u.). EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Bancos. Contrato de adesão. Relação de Consumo.Art. 51 da Lei 8.078/90) – Foro de eleição. Cláusula considerada abusiva – inaplicabilidade da súmula 33/STJ – Precedentes da segunda seção. I – Os bancos, como prestadores de serviços especialmente contemplados no art. 3.º, § 2.º, estão submetidos às disposições do Código de Defesa do Consumidor. A circunstância de o usuário dispor do bem recebido através de operação bancária, transferindo-a a terceiros, em pagamento de outros bens ou serviços, não o descaracteriza como consumidor final dos serviços prestados pela instituição. (...)" (REsp 190.860/MG, DJ de 09/11/2000, rel. Min. Waldemar Zveiter, 3a. T.) 4.2.5. O CRÉDITO BANCÁRIO Não há relação de consumo quando o crédito é tomado junto ao banco para incrementar o capital de giro da empresa. EMENTA: “Mútuo. Redução da Multa Contratual de 10% para 2%. Inexistência no caso de relação de consumo. Tratando-se de financiamento obtido por empresário, destinado precipuamente a incrementar a sua atividade negocial, não se podendo qualificá-lo, portanto, como destinatário final, inexistente é a pretendida relação de consumo. Inaplicação no caso do Código de Defesa do Consumidor. Recurso Especial não conhecido” (STJ – REsp. n. 218505/MG – 4ª Turma - Moauto Veículos, Peças e Serviços Ltda. versus Banco Progresso S/A – Re. Min. Barros Monteiro. Ac. 14.02.2000 – DJ, p. 41, j.u.). Na ementa acima, verifica-se que o STJ, mais uma vez, adota uma tendência finalista na conceituação de consumidor, ao reconhecer que a empresa mutuária não foi destinatária fática e econômica do bem mutuado. Porquanto, ao reconhecer que a empresa mutuária tomou o crédito junto à Instituição Financeira com a finalidade de utilizá-lo na implementação da sua atividade comercial restou afastada a caracterização da destinação final preceituada no art. 2º do CDC. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 27 5. QUESTÕES DE CONCURSOS 1) (MPF – 2002) Conforme o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, sobre os contratos bancários: a) aplica-se o Código de Defesa do Consumidor; b) não incide o Código de Defesa do Consumidor, salvo se se revestirem de natureza de leasing; c) a aplicação do Código de Defesa do Consumidor, no caso, é subsidiária; d) incide o Código de Defesa do Consumidor no tocante à limitação das taxas de juros praticadas por instituições públicas ou privadas que integram o sistema financeiro nacional. 2) (MPF – 2003) O conceito de consumidor adotado pelo código de defesa do consumidor é de caráter: (a) ( ) jurídico; (b) ( ) comercial; (c) ( ) misto e de sentido sociológico; (d) ( ) meramente econômico. 3) (MPMT/2003) Assinale a alternativa correta: a) uma empresa que adquire alimentos preparados para fornecimento aos seus empregados o faz na condição de consumidor stricto sensu, pois é destinatária final econômica; b) A pessoa jurídica que adquire um produto ou serviço como insumo necessário à cadeia produtiva de sua atividade final é considerada consumidora stricto sensu no conceito standard, independentemente da vulnerabilidade; c) A pessoa jurídica não pode ser considerada consumidor stricto sensu; d) O Código de Defesa do Consumidor permite a inversão do ônus da prova em favor do consumidor, sempre que este for hipossuficiente e verossímil sua alegação; e) Nenhuma das alternativas está correta. RESPOSTAS: 1 – A; 2 – d (*); 3 – a (**). (*) obs. Para nós, a resposta correta é a letra “a” , eis que o conceito de consumidor adotado pelo CDC é o conceito jurídico, limitado àquele que é destinatário final do bem. No conceito econômico tanto faz se a aquisição bem seja para uso próprio ou para revenda. (**) obs. Se a empresa adquire alimentos para seus empregados e não cobra deles a refeição, ela é destinatária final do produto. Entretanto, se ela cobra a alimentação dos empregados, ela não é destinatária final, mas consumidora intermediária. Os empregados é que são consumidores finais. Assim, a alternativa “a” estará correta se a empresa adquirente das refeições não repassar os custos aos seus empregados. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 28 CAPÍTULO 3 POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO 1. CONCEITO DE POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO Significa filosofia de ação: os arts. 4º e 5º fixam as perspectivas e diretrizes gerais na busca da harmonia nas relações de consumo. Artigo 4º estabelece princípios (objetivos) Artigo 5º determina os meios para efetivá-los O art. 4º estabelece os princípios gerais que regem o sistema de defesa do consumidor: princípio da vulnerabilidade, transparência, harmonia nasrelações de consumo, proteção governamental, boa-fé objetiva, equilíbrio nas relações de consumo, princípio da qualidade dos produtos e serviços, segurança, entre outros. 2. OBJETIVOS DA POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO Art. 4º. A Política Nacional de Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito a sua DIGNIDADE, SAÚDE e SEGURANÇA, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a TRANSPARÊNCIA e HARMONIA das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios: 3. PRINCÍPIOS DA POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO 3.1. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR I – reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo; Vulnerabilidade é o princípio que considera o consumidor a parte mais fraca nas relações de consumo, qualificando-o quanto à necessidade de amparo de uma legislação própria diferente do regime jurídico tradicional. Trata-se de um traço universal de todos os consumidores, ricos, pobres, educados ou ignorantes, crédulos ou espertos. Basta ser consumidor para ser considerado vulnerável. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 29 O princípio da vulnerabilidade é a razão da existência do CDC => seu fundamento básico. Não fosse o consumidor considerado vulnerável não haveria necessidade do CDC e todos usaríamos o CC. Todo consumidor pessoa física é considerado vulnerável a presunção é absoluta. Com relação ao consumidor pessoa jurídica, a Jurisprudência do STJ tem ressalvado que na aquisição de produtos ou serviços para uso profissional, a vulnerabilidade que o qualifica como consumidor para fins de aplicação do CDC, deve ser verificada caso a caso. Portanto, não se pode mais falar em universalidade (presunção absoluta) do princípio da vulnerabilidade, porque se o consumidor é pessoa jurídica que adquire bens para uso profissional, a presunção de vulnerabilidade é relativa, verificável caso a caso (STJ – REsp. 701.370-PR – 4ª Turma – j. 16.08.2005 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 16.08.2005, p. 430). 3.2. PRINCÍPIO DA AÇÃO GOVERNAMENTAL II – ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: a) por iniciativa direta; b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas; c) pela presença do Estado no mercado de consumo; d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, segurança, durabilidade e desempenho; 3.3. PRINCÍPIO DA HARMONIA III – harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, CF), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores; = O dispositivo prega a harmonia (IGUALDADE e BOA-FÉ) entre os agentes das relações de consumo: fornecedores e consumidores. Esta harmonia significa a compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico. A ORDEM ECONÔMICA (ART. 170 DA CF) fundada na (a) valorização do trabalho e (b) livre iniciativa (progresso econômico e tecnológico) deve assegurar a todos uma vida com dignidade humana e justiça social, limitada, entre outros pelos princípios da DEFESA DO CONSUMIDOR e livre concorrência (além de outros, como a defesa do meio ambiente, função social da propriedade etc.) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 30 HARMONIA = DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO + DEFESA DO CONSUMIDOR Os princípios da ordem econômica (art. 170 da CF) devem estar em harmonia com as diretrizes estabelecidas nos arts. 1º e 3º da própria Constituição Federal, principalmente em face da dignidade da pessoa humana e da solidariedade social (Eduardo Farah) 3.4. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ (OBJETIVA) O princípio da boa-fé, acolhido pelo CDC na sua concepção objetiva, tutela a confiança e a lealdade nas relações de consumo. Umbilicalmente ligado ao princípio da transparência, determina, a seu turno, comportamento leal e correto dos parceiros na relação de consumo.7 A Boa-fé objetiva é a expressão imediata da confiança nas relações jurídicas (Judith Martins Costa). A boa-fé objetiva não se confunde com boa-fé subjetiva. Esta significa o contrário de má-fé. Trata-se de um estado da consciência. É a convicção de estar agindo em conformidade com o direito. Não é princípio e é aplicada nos casos específicos elencados pela lei, como por exemplo, no casamento putativo, usucapião de boa-fé, na posse de boa-fé etc. A boa-fé objetiva não se vincula ao elemento vontade (elemento subjetivo). Focaliza sua atenção na comparação entre a atitude tomada e aquela que se poderia esperar de um homem médio, reticente, do bom pai de família. Boa-fé objetiva significa um padrão ético de conduta nas relações de consumo. Significa que os participantes das relações de consumo devem atuar com lealdade, probidade e honestidade. Tem mão dupla: aplica-se tanto para o fornecedor como para o consumidor. Neste sentido, o STJ decidiu que “a boa-fé objetiva se apresenta como uma exigência de lealdade, modelo objetivo de conduta, arquétipo social pelo qual impõe o poder-dever de que cada pessoa ajuste a própria conduta a esse modelo, agindo como agiria uma pessoa honesta, escorreita e leal. Não tendo o comprador agido de forma contrária a tais princípios, não há como inquinar seu comportamento de violador da boa-fé objetiva.” (STJ - REsp. 803.481-GO – 3ª Turma – j. 28.06.2007 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 01.08.2007, p. 462). Boa-fé objetiva significa LEALDADE, PROBIDADE e HONESTIDADE. A boa-fé objetiva tem origem germânica (art. 242 do BGB) e significa lealdade e confiança no tráfego jurídico. 7 BENJAMIN, Antônio Herman de Vasconcellos e. Desafios à efetivação dos direitos de consumidor. Palestra proferida na XV Conferência Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Foz do Iguaçu, 04 a 08.09.94. In Revista de Direito do Consumidor. São Paulo: RT, n. 20, out/dez, 1996, p. 385. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 31 BOA-FÉ OBJETIVA = LEALDADE + CONFIANÇA Para Cláudia Lima Marques boa-fé objetiva “significa uma atuação refletida, pensando no parceiro contratual, respeitando seus interesses legítimos, suas expectativas razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem abuso, sem obstrução, sem causar lesão ou desvantagem excessiva, cooperando para atingir o bom fim das obrigações.”8 No CDC a boa-fé vem positivada no art. 4º, inc. III, sob forma de princípio geral de observância necessária em toda relação de consumo, bem como no art. 51, inc. IV, como cláusula geral implícita a toda relação contratual de consumo. O princípio geral da boa-fé, insculpido no art. 4º, inc. III, atua de forma cogente sobre todo o sistema de defesa do consumidor, seja nas relações contratuais ou extracontratuais. Tem mão dupla: é padrão ético de conduta imposto a todos participantes das relações de consumo, tanto ao fornecedor quanto ao consumidor. Por ser uma norma de ordem pública e observância necessária, pode ser aplicada pelo juiz independente da vontade subjetiva das partes. 3.4.1 O MOMENTO DE INCIDÊNCIA DA BOA-FÉ OBJETIVA A boa-fé objetiva tem incidência antes, durante e após as relações jurídicas de consumo. Incide antes da formação da relação contratual, a partir do convite para contratar (oferta, publicidade etc.), ainda nas tratativas, sustentando a idéia de responsabilidade pré-contratual; incide durante a execução do contrato como guardiã do equilíbrio das prestações e da conduta ética dos participantes; e incide até mesmo após o encerramento da relação contratual por força dosdeveres anexos de conduta à obrigação principal (dever de assistência técnica, segredo etc.). A boa-fé objetiva tem incidência: antes, durante e após as relações jurídicas de consumo. EMENTA: “Processual civil. Instituição bancária. Exibição de documento. Custo de localização e reprodução dos documentos. Ônus do pagamento. 1. O dever de informação e, por conseguinte, o de exibir a documentação que a contenha é obrigação decorrente de lei, de integração, contratual compulsória. Não pode ser objeto de recusa nem de condicionantes, face ao princípio da boa-fé objetiva. 2. Se pode o cliente a qualquer tempo requerer da instituição financeira prestação de contas, pode postular a exibição dos extratos de suas contas correntes, bem como as contas gráficas dos empréstimos efetuados, sem ter que adiantar para tanto os custos dessa operação” (STJ – REsp. 330.261-SC – 3ª Turma – j. 06.12.2001 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJ 08.04.2002, p. 2002). 8 Contratos no Código de Defesa do Consumidor, 4ª ed. São Paulo: RT, 2002, p. 187-192. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 32 3.4.2 AS FUNÇÕES DA BOA-FÉ Além de atuar como limitador do princípio da autonomia da vontade, o princípio da boa-fé objetiva é um eficaz instrumento de combate e prevenção contra as cláusulas contratuais abusivas, permitindo que o juiz verifique o conteúdo da operação econômica (resultado prático) e não simplesmente o aspecto formal do contrato. Nesta acepção objetiva, a doutrina aponta tríplice função para a boa-fé nas relações negociais: a) FUNÇÃO INTERPRETATIVA da relação jurídica. Assim, se houver lacunas ou problemas relacionais a resolver, o juiz deve lançar mão dos parâmetros de boa-fé (confiança, ética, lealdade, honestidade etc.) para interpretar a regra aplicável ao caso concreto. b) FUNÇÃO LIMITATIVA, ou de CONTROLE, como causa limitadora do direito subjetivo decorrente da autonomia da vontade. Nenhum direito subjetivo pode ser exercido se não estiver em conformidade com os princípios do ordenamento jurídico. Assim, pode o juiz limitar o direito subjetivo quando exercido com abuso (art. 187 do CC) ou sem finalidade social. c) FUNÇÃO INTEGRATIVA, ou de criação, como fonte autônoma de deveres anexos e obrigações paralelas implícitas na relação contratual. A boa- fé impõe efeitos que vão muito além do que foi pactuado pelas partes. Através da função integrativa é possível que o juiz possa adequar as regras de conduta para o caso concreto, cujo fim é restabelecer a ética e a confiança nas relações de consumo. 3.4.2 OS DEVERES ANEXOS DE CONDUTA Os deveres anexos de conduta são decorrentes da função integrativa da boa-fé objetiva e devem ser observados obrigatoriamente por todos os agentes que atuam no mercado de consumo (relações contratuais e extracontratuais). São espécies de obrigações de conduta impostas impositivamente pela boa-fé objetiva nas relações jurídicas que envolvam confiança, independentemente da vontade subjetiva dos agentes. Tem aplicação fértil no campo dos direitos obrigacionais: “eles incidem tanto sobre o devedor como sobre o credor, mediante resguardo dos direitos fundamentais de ambos, a partir de uma ordem de cooperação, proteção e informação, em via de facilitação do adimplemento pelos meios menos onerosos ao devedor, tutelando sua dignidade”.9 Nas relações contratuais, por exemplo, existem várias espécies de obrigações: as obrigações principais (dar, fazer e não fazer); as obrigações acessórias (fiança, aval etc.), e; uma terceira espécie de obrigações quase acessórias, também chamadas de DEVERES ANEXOS (implícitos) DE CONDUTA decorrentes da boa-fé objetiva: dever de proteção, informação e cooperação. 9 RONSENVALD, Nelson. Dignidade humana e boa-fé no Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 94. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 33 Não só os agentes da relação jurídica contratual, mas também, quem fabrica, expõe ou anuncia produtos e serviços no mercado de consumo, tem o dever geral extracontratual, uma obrigação de conduta, de observar os parâmetros de lealdade, confiança, transparência, implicitamente impostos pela boa-fé objetiva. Porquanto, não são só as convenções (acordos de vontades) que obrigam os sujeitos das relações de consumo. Ao lado deste vínculo subjetivo (vontade) há deveres paralelos implícitos, de ordem pública, chamados de DEVERES ANEXOS decorrentes do tráfego jurídico (costumes sociais) que são impostos pela boa-fé objetiva: dever de lealdade, de informação, de cooperação, de cuidado, de segredo, de cortesia, de assistência técnica, etc. OBS. Sobre boa-fé objetiva, conferir os artigos 113, 187, 422 e 2.035 do Código Civil e nesta obra, no último capítulo, na introdução à matéria dos contratos (princípios contratuais). QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. O Código de Defesa do Consumidor tem entre seus princípios, o da boa-fé objetiva. v 3.5. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA IV – educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo; 3.6. PRINCÍPIO DA QUALIDADE E SEGURANÇA V – incentivos à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos; TEORIA DA QUALIDADE = impõe aos fornecedores que ofereça produtos e serviços compatíveis com as legítimas expectativas dos consumidores, respeitando os prazos de entrega e conclusão, segurança e, principalmente, as regras de proteção ao meio ambiente, utilizando, na maior medida possível matéria prima reciclável e biodegradável. Por força do princípio da qualidade e segurança (oriundos do princípio constitucional da solidariedade social - art. 3º, inc. I da CF) os fornecedores que atuam no mercado de consumo são obrigados a respeitar as reais necessidades dos consumidores, como também sua dignidade, saúde e segurança. 3.7. OUTROS PRINCÍPIOS VI – coibição e repressão eficiente de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 34 normas comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores; VII – racionalização e melhoria dos serviços públicos; VIII – estudo constante das modificação do mercado de consumo 4. OS INSTRUMENTOS DA POLÍTICA NACIONAL DE CONSUMO O artigo 5º estabelece que a proteção do consumidor considerado vulnerável pela administração pública deve se dar no sentido de ações positivas, visando uma maior equalização entre consumidor e fornecedor nas relações de consumo. Art. 5º. Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o poder público com os seguintes instrumentos, entre outros: I – manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita, para o consumidor carente; II – instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do Ministério Público; III – criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de consumidores vítimas de infrações penais de consumo; IV – criação de Juizados Especiais de Pequenas causas e Varas Especializadas para a solução de litígios de consumo; V – concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do Consumidor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 35 CAPÍTULO 4 OS DIREITOS BÁSICOS DO CONSUMIDOR 1. NATUREZA DOs direitos básicos do consumidor: Os incisos do art. 6º do CDC têm natureza de norma principiológica e representam os direitos fundamentais do consumidor. Como normas de ordem pública são de observância necessária e sesobrepõem à vontade das partes; incidem em todo o sistema de defesa do consumidor. 2. DIREITOS BÁSICOS ELEMENTARES 2.1. PROTEÇÃO À VIDA, SAÚDE E SEGURANÇA Art. 6º São direitos básicos do consumidor: I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos; O direito básico tem um caráter preventivo, isto é, para incidência do CDC basta apenas o risco à saúde e segurança do consumidor. Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo devem ser seguros e não apresentar riscos não previsíveis à saúde e segurança do consumidor. 2.2. EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO, LIBERDADE DE ESCOLHA E IGUALDADE NAS CONTRATAÇÕES II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações; Educar o consumidor significa ensinar-lhe sobre “como”, “o que” e “quando” consumir, alertando-o sobre os diversos componentes do mercado de consumo. O consumidor melhor informado (mais educado para o consumo) é menos vulnerável na relação de consumo e exerce com mais consciência o seu direito de escolha ante os diferentes produtos e serviços colocados no mercado de consumo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 36 O direito à educação para o consumo deve ser observado em dois aspectos: a) educação formal – ministradas nas escolas públicas ou privadas; b) educação informal – decorrente da informação advinda dos rótulos, bulas, manuais etc. Quanto melhor o nível de educação e informação do consumidor mais esclarecido estará ele para gozar da liberdade de escolha e igualdade nas contratações. O consumidor analfabeto e mal informado acaba sendo lesado e explorado no mercado de consumo. 2.2.1. CONSUMO SUSTENTÁVEL CONSUMO SUSTENTÁVEL – significa o fornecimento de serviços, e de produtos correlatos que preencham as necessidades básicos e dêem uma melhor qualidade de vida, ao mesmo tempo em que se diminui o uso de recursos naturais e de substâncias tóxicas, assim como as emissões de resíduos e de poluentes durante o ciclo de vida do serviço ou do produto, com a idéia de não se ameaçar as necessidades das gerações futuras (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA – Agenda 21). Deve-se conscientizar a população sobre a relação entre o consumo e o meio ambiente. Alguns fenômenos como as chuvas ácidas, o buraco na camada de ozônio, o lixo não bio-degradável, a poluição no ar, nos mananciais, etc. nos mostram que já é hora de pensarmos em criar programas de prevenção para a implantação do CONSUMO SUSTENTÁVEL. 2.3. O DIREITO À INFORMAÇÃO ADEQUADA III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem; O consumidor tem o direito de obter TODAS as informações sobre os produtos e serviços colocados no mercado de consumo: especificação de qualidade, características, composição, quantidade, origem, preço (incluindo o preço a vista e os juros), além dos riscos. A informação adequada sobre os produtos e serviços colocados no mercado de consumo é o mais eficaz instrumento de prevenção contra as violações dos direitos do consumidor bem como para evitar os acidentes de consumo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 37 Explica Paulo Luiz Netto Lobo, que nos tempos modernos, a concepção, a fabricação, a composição, o uso e a utilização dos produtos e serviços atingiu altíssimos níveis de complexidade, especialidade e desenvolvimento científico e tecnológico, dificulta ou quase impossibilita o conhecimento ao consumidor comum e vulnerável. “O dever de informar impõe-se a todos os que participam do lançamento do produto ou serviço, desde sua origem, inclusive propostos e representantes autônomos”.10 O direito de informação assegurado ao consumidor pelo art. 6º, inc. III corresponde ao dever de informar imposto pelo CDC ao fornecedor, nos arts. 12, 14, 18 a 20, nos arts. 30 e 31, nos arts. 46 e 54.11 O direito de informação vai desde o conhecimento integral do conteúdo do contrato (art. 46 do CDC) até a disponibilização de dados característicos dos produtos e serviços, bem como, ainda, às informações necessárias ao consumo com proteção à saúde e segurança do consumidor (arts. 8º a 10 do CDC). 2.4. PROTEÇÃO CONTRA PUBLICIDADE ILÍCITA E OUTRAS PRÁTICAS ABUSIVAS IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços; Este direito básico é regente da proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva e é conferido, dentre outros, no art. 37 do CDC: No sentido geral, PUBLICIDADE é toda atividade destinada a estimular o consumo de bens e serviços, como promover instituições, conceitos e idéias. Para o direito do consumidor o conceito de publicidade está necessariamente ligado à atividade econômica. PUBLICIDADE ENGANOSA = qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços” (§ 1º). Exemplo: a publicidade que omite dado essencial para o consumidor decidir a contratação, como por exemplo, a que omite a taxa real de juros nos contratos de compra a prestação; ou então, que ressalta características que o produto, na verdade, não tem. PUBLICIDADE ABUSIVA = é, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo 10 Teoria geral das obrigações. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 96. 11 NUNES, Luiz Antonio Rizzatto. Comentários ao código de defesa do consumidor: arts. 1º a 74: aspectos materiais. São Paulo: RT, 2003, p. 150. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 38 ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança” (§ 2º). Exemplo: a publicidade que incita a violência ou uso de drogas, ou que estimula o uso de bebidas alcoólicas ou cigarro fora do horário estabelecido em lei. MÉTODOS COMERCIAIS COERCITIVOS OU DESLEAIS – São práticas comerciais abusivas (art. 39 e ss. do CDC) que constrangem o consumidor ou estão em desconformidade com a boa-fé objetiva. Ex: venda casada (art. 39, inc. I), cobrança abusiva, prevista no art. 42 caput do CDC etc. CLÁUSULAS CONTRATUAIS ABUSIVAS são aquelas que ferem os parâmetros de boa-fé (objetiva) e promovem o desequilíbrio nas relações contratuais de consumo. São nulas de pleno direito, nos termos do art. 51 e incisos. Ex: cláusula contratual que estabelece a perda das prestações já pagas em caso de desistência no contrato de prestação continuada. Cláusula que estabelece multa de mora de mais de 2% por atraso de prestações (art. 52, § 1º). 2.5. MODIFICAÇÃO E REVISÃO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS DESPROPORCIONAIS V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas; O CDC estabelece que todos os contratos bilaterais devem ter proporcionalidade entre o pagamento efetuado pelo consumidor (produto ou serviço) e o que, em troca, lhe é dado pelo fornecedor. É o que se chama de princípio da comutatividade. É vedada a onerosidadeexcessiva nos contratos, em desfavor do consumidor: A onerosidade excessiva (desequilíbrio das prestações) pode ocorrer nos contratos de prestação continuada: a) no momento da formação do contrato > (lesão); b) após a formação do contrato > (onerosidade excessiva superveniente) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 39 Ocorrendo a onerosidade excessiva, o art. 6º, inc. V assegura ao consumidor duas possibilidades: a modificação ou a revisão do contrato. 1) MODIFICAÇÃO - das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais (LESÃO) a modificação é possível quando a desproporção acontece no momento da formação do contrato. NO CÓDIGO CIVIL = a LESÃO tem caráter subjetivo: “Art. 157. Ocorre a LESÃO quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta. § 1º Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi celebrado o negócio jurídico; § 2º Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte favorecida concordar com a redução do proveito”. A premente necessidade e a inexperiência são requisitos de caráter subjetivo, inerentes a pessoa do contratante. NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR = a LESÃO tem caráter objetivo: Art. 6º, inc. V: “a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais” – Basta apenas a “desproporção”, pois, não se exige os requisitos da “inexperiência” e da “premente necessidade”, as quais já são presumidas em face do princípio da vulnerabilidade do consumidor - art. 4º, inc. I. vulnerabilidade = inexperiência + premente necessidade 2) REVISÃO - quando ocorrerem fatos supervenientes à celebração do contrato que tornem as prestações vincendas excessivamente onerosas, mesmo que estes fatos sejam imprevisíveis e extraordinários. a revisão é possível quando a desproporção acontece após a formação do contrato. A revisão só é possível nos contratos de execução continuada Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 40 No CDC, o princípio da REVISÃO das cláusulas contratuais abusivas não exige que os fatos supervenientes sejam inesperados, mas tão somente tornem o contrato excessivamente oneroso para o consumidor. Destarte, tem um alcance bem mais amplo do que a aplicação da teoria da imprevisão, a qual condiciona que o fato superveniente e desequilibrador não tenha sido previsível no momento do fechamento do contrato. O CDC (ao contrário do atual CC – ver art. 478) adotou a teoria da BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO (Karl Larenz): Para a revisão ou modificação do contrato basta a onerosidade excessiva em decorrência de fato superveniente, sem a necessidade de que estes fatos sejam extraordinários ou imprevisíveis. Nas relações de consumo não se aplica a teoria da imprevisão com o perfil delineado pelo artigo 478 do Código Civil brasileiro. O professor Nelson Nery Jr. leciona que “pela teoria da imprevisão, somente os fatos extraordinários e imprevisíveis pelas partes por ocasião da formação do contrato é que autorizam, não a sua revisão, mas sua resolução” (Novo CC comentado e legislação processual civil extravagante em vigor, p. ) Código Civil: “Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data da citação.” Em suma: quando ocorrer qualquer onerosidade excessiva (prestações desproporcionais), em decorrência de fatos supervenientes à celebração do contrato, poderá ser feita a REVISÃO do contrato por aditivo contratual: a) administrativamente ou b) pela via judicial. Nelson Nery Jr. e Rosa Nery (Novo CC comentado...) ministram que na revisão judicial “o magistrado poderá integrar o contrato, criando as novas circunstâncias contratuais. Para tanto deverá pesquisar e observar a vontade das partes quando da celebração do contrato de consumo, qual a dimensão da desproporção da prestação ou da onerosidade excessiva, de forma a recolocar as partes na situação de igualdade contratual em que se devem encontrar, desde a formação até a execução completa do contrato”(princípio da conservação do contrato/ art. 51, § 2º). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 41 QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. O novo Código Civil exige os mesmos pressupostos que o Código de Defesa do Consumidor para que seja operada a revisão do contrato de trato sucessivo, em face de onerosidade excessiva para o comprador de determinado bem. f 2.5.1. DIREITO À MANUTENÇÃO DO CONTRATO O art. 51, § 2º funciona como um complemento ao art. 6º, inc. VI. Trata- se do princípio da conservação do contrato: O Consumidor tem o direito à revisão e à posterior MANUTENÇÃO DO CONTRATO quando a modificação ou revisão não acarretar em ônus excessivo para qualquer das partes. “Art. 51 (...) § 2º. A nulidade de uma cláusula abusiva não anula o contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo para uma das partes”. 2.5.2. LEASING: QUEM DEVE SUPORTAR OS ACRÉSCIMOS DA ONEROSIDADE EXCESSIVA SUPERVENIENTE ? A 2ª Seção do STJ dissolveu o dissídio jurisprudencial que havia entre a 3ª e a 4ª Turma com relação à onerosidade excessiva superveniente nos contratos de LEASING com cláusula de reajuste pela variação cambial (atrelado ao dólar): a onerosidade excessiva superveniente deve ser repartida equitativamente entre consumidor e fornecedor: EMENTA: Civil. Arrendamento mercantil. Contrato com cláusula de reajuste pela variação cambial. Validade. Elevação acentuada da cotação da moeda norte- americana. Fato novo. Onerosidade excessiva ao consumidor. Repartição do ônus. Lei n. 8.880/94, art. 6º. CDC, art. 6º, V. 1. Não é nula cláusula de contrato de arrendamento mercantil que prevê reajuste das prestações com base na variação da cotação de moeda estrangeira, eis que expressamente autorizada em norma legal específica (art. 6º da Lei n. 8.880/94). 2. Admissível, contudo a incidência da Lei n. 8.078/90, nos termos do art. 6º, V, quando verificada, em razão de fato superveniente ao pacto celebrado, consubstanciado, no caso por aumento repentino e substancialmente elevado do dólar, situação de onerosidade excessiva para o consumidor que tomou o financiamento. 3. Índice de reajuste repartido, a partir de 19.01.99 inclusive, eqüitativamente, pela metade, entre as partes contratantes, mantida a higidez legal da cláusula, decotado, tão somente, o excesso que tornava insuportável ao devedor o adimplemento da obrigação, evitando-se, de outro lado, a total transferência do ônus ao credor, igualmente prejudicado pelo fato econômico ocorrido e também alheio à sua vontade. 4. Recurso especial conhecido e parcialmente provido” (STJ – REsp. 473.140-SP – 2ª Seção – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito – rel. p/ Acórdão Min. Aldir Passarinho Junior – DJU 04.08.2003, p. 217) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 42 2.5.3. LEASING: A COBRANÇA ANTECIPADA DO VALOR RESIDUAL DESCARACTERIZA O CONTRATO DE LEASING? O STJ revogou a antiga Súmula 263 e formou entendimento de que o fato do consumidor antecipar o pagamento das prestações restantes e quitar todo o contrato, não descaracteriza o contrato de leasing. Este é o teor da Súmula 293: STJ: SÚMULA 293 – A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil 2.5.4. PODE HAVER REVISÃO EX OFFICIO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS ABUSIVAS? O Superior Tribunalde Justiça tem decidido reiteradas vezes que “é inviável a revisão de ofício das cláusulas abusivas em contratos que regulem relação de consumo” (AgRg no REsp. 976.237-RS – 3ª Turma – j. 06.03.2008 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 17..03.2008, p. 1). EMENTA: “Embargos de divergência. Relação de consumo. Revisão de ofício do contrato, para anular as cláusulas abusivas. Impossibilidade. Orientação da 2ª Seção. - Não é lícito ao STJ rever de ofício o contrato, para anular cláusulas consideradas abusivas com base no Art. 51, IV, do CDC” (STJ – EREsp. 702.524-RS – 2ª Seção – j. 08.03.2006 – rel. Min. Nancy Andrighi – rel. p/ Ac. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 09.10.2006, p. 256) STJ: SÚMULA 381 - Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas. 2.5.5. A PROPOSITURA DA AÇÃO DE REVISÃO DESCARACTERIZA A MORA DO AUTOR? O STJ firmou entendimento, através da Súmula 380, que a simples propositura de ação de revisão não descaracteriza a mora do autor em relação a todos os seus efeitos, inclusive para fins de negativação no Banco de Dados (SPC, SERASA, CADIN etc.). Neste sentido, decidiu a Ministra Nancy Andrighi em processo sobre financiamento de um veículo. O cliente processava o banco por considerar os juros do contrato abusivos e, apesar de não pagar as parcelas do empréstimo, pedia que seu nome não entrasse em cadastros de inadimplentes. Em seu voto, a ministra afirmou que a simples estipulação de juros em mais de 12% ao ano não caracteriza abusividade e que não há elementos para suspender a inscrição nos serviços de proteção. STJ: SÚMULA 380 - A simples propositura da ação de revisão de contrato não inibe a caracterização da mora do autor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 43 2.6. A REPARAÇÃO INTEGRAL (EFETIVA) DO DANO É direito básico do consumidor: VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos; = O CDC estabelece normas de caráter preventivo e reparatório. A efetiva reparação e prevenção dos danos garantem ao consumidor medidas judiciais e administrativas para inibir os possíveis danos bem como a reparação integral pelos danos (materiais e morais) decorrentes de relação de consumo. Por este dispositivo são ineficazes as limitações ou tarifações indenizatórias, previstas em avisos particulares (hotéis, estacionamentos etc.), em contratos particulares ou em leis que regulam setores determinados das relações de consumo (Código Brasileiro de Aeronáutica). Significa que o consumidor tem direito à indenização integral pelo dano sofrido STJ - Súmula 130: “A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento”. O DANO: é pressuposto da responsabilidade civil. Concepção naturalista: teoria da diferença: o dano corresponde à diferença entre o que tinha o lesado antes e depois da violação dos seus direitos. Concepção normativista: teoria do interesse: o dano é a lesão a um interesse jurídico protegido. Não só o patrimônio, mas, os direitos da personalidade podem ser atingidos pelo dano. 2.6.1. O DANO INJUSTO É de se ressaltar que nem todo dano causado na esfera jurídica de outrem é indenizável. O dano que é pressuposto do dever de indenizar é somente o dano injusto, isto é, o dano que não é justificado por normas constitucionais. Assim, por exemplo, se o proprietário constrói um sobrado e obstrui a linda vista que seu vizinho tinha para o mar, não há que se falar em dano injusto, pois a utilização da propriedade está em conformidade com as normas constitucionais (art. 5º, XXIII da CF). Por outro lado, se este mesmo proprietário constrói um muro de quatro metros de altura, com a finalidade de impedir seu vizinho de desfrutar da vista para o mar, não estará ele agindo em conformidade com o princípio constitucional da função social da propriedade. Nesta última, hipótese o dano sofrido pelo vizinho é injusto e indenizável. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 44 2.6.2. O DANO MATERIAL (patrimonial) O DANO MATERIAL corresponde ao efetivo prejuízo experimentado pelo lesado, incluindo o que efetivamente se perdeu (dano emergente) e o que razoavelmente deixou de ganhar (lucro cessante) – art. 402 do CC. Nos termos do art. 944, caput do Código Civil, em relação aos danos patrimoniais vigora o princípio de que a indenização deve ser fixada nos limites da extensão do dano, sem considerar o grau de culpa do agente, e, mesmo que a culpa seja levíssima pode haver elevada reparação. Entretanto, o parágrafo único do art. 944 ressalva que o juiz poderá reduzir eqüitativamente a indenização se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, caso em que a responsabilidade não é objetiva. 2.6.3. A PERDA DE UMA CHANCE A PERDA DE UMA CHANCE é uma teoria construída pela doutrina francesa, amparada pela jurisprudência e que retrata uma situação indenizável que se situa entre o dano meramente hipotético (não indenizável) e os lucros cessantes (onde a probabilidade de lucro é objetivamente aferida). A chance certa de se obter determinado resultado ou evitar determinado prejuízo constitui um ativo, às vezes, importante, no patrimônio de quem a perdeu. As chances devem ser sérias e reais, como no clássico exemplo do advogado que incorre em negligência e perde o prazo para interpor recurso de apelação contra a sentença desfavorável ao seu cliente, extinguindo, assim, qualquer chance de a ação vir a ser julgada procedente. EMENTA: “Recurso Especial. Indenização. Impropriedade de pergunta formulada em programa de televisão. Perda da oportunidade. 1. O questionamento, em programa de perguntas e respostas, pela televisão, sem viabilidade lógica, uma vez que a Constituição Federal não indica percentual relativo às terras reservadas aos índios, acarreta, como decidido pelas instâncias ordinárias, a impossibilidade da prestação por culpa do devedor, impondo o dever de ressarcir o participante pelo que razoavelmente haja deixado de lucrar, pela perda da oportunidade. 2. Recurso conhecido e, em parte, provido.” (STJ – REsp. 788.459-BA – 4ª Turma – j. 08.11.2005 – rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 13.03.2006, p. 334). 2.6.4. O DANO MORAL O DANO MORAL é a injusta lesão à dignidade da pessoa humana com repercussão nos direitos da personalidade. Atinge apenas o ofendido como pessoa, não lesando seu patrimônio. É a lesão que atinge a vida, a honra, a dignidade, a intimidade, a imagem, o bom nome etc., como se infere dos arts 1ª, III, e 5º, V e X, da Constituição Federal, e que acarreta ao lesado dor, sofrimento, tristeza, vexame e humilhação (Carlos Roberto Gonçalves). Não há divergência na doutrina quanto ao caráter compensatório do dano moral. Há, no entanto, os que lhe atribuem também o caráter preventivo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 45 Sobre o tema, explica Nelson Rosenvald que a nossa legislação civil não autoriza o empréstimo de uma finalidade punitiva ao dano moral, em acréscimo àquela compensatória. No entendimento do Superior Tribunal de Justiça “a indenização por dano moral deve se revestir de caráter indenizatório e sancionatório de modo a compensar o constrangimento suportado pelo consumidor, sem que caracterize enriquecimento ilícito e adstrito ao princípio da razoabilidade” (STJ – REsp. 768.988-RS – 4ª Turma – j. 23.08.2005 – rel. Min. Jorge Scartezzini – DJU 12.09.2005, p. 346). 2.6.5. OS DIREITOS DA PERSONALIDADE Os direitos da personalidade são aqueles inerentes ao nome, a honra, a fama, a imagem, a intimidade, a credibilidade, a respeitabilidade, a liberdade de ação, a auto-estima, ao respeito próprio etc. São direitos subjetivos absolutos, indisponíveis e imprescritíveis que têm por objeto os bens e valoresessenciais da pessoa, no seu aspecto físico, moral e intelectual (Francisco Amaral, Direito Civil: introdução, 5ª ed., p. 251-152). Os DIREITOS DA PERSONALIDADE são construídos a partir do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, III), o qual, conforme explica Francisco Amaral “é um valor jurídico constitucionalmente positivado que se constitui no marco jurídico, no núcleo fundamental do sistema brasileiro dos direitos da personalidade com referência constitucional unificadora de todos os direitos fundamentais. Significa ele que o ser humano é um valor em si mesmo, em não um meio para os fins dos outros” (Direito Civil: introdução, 5ª ed., p. 253). É admissível que a pessoa jurídica também seja titular de direitos da personalidade que não sejam inerentes à pessoa humana, particularmente no que se refere ao direito ao nome, à marca, aos símbolos, à honra, ao crédito etc. 2.6.6. O DANO MORAL DECORRENTE DE VIOLAÇÃO DOS DIREITOS DA PERSONALIDADE O DANO MORAL por violação dos direitos da personalidade dispensa prova em concreto, pois se passa no interior da personalidade e existe in re ipsa. Neste caso, o dano moral é presumido e dispensa prova, em face da ocorrência do fato violador dos direitos da personalidade. O exemplo mais típico é o dano moral decorrente da negativação indevida consumidor no banco de dados. O envio indevido do nome do consumidor para o banco de dados já é suficiente para decorrer daí a indenização por danos morais. Neste caso, o dano moral é in re ipsa. Conforme jurisprudência do STJ “a prova do dano moral se satisfaz, em determinados casos, com a demonstração do fato externo que o originou e pela Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 46 experiência comum. No caso específico, em que houve morte, a dor da família é presumida, sendo desnecessária fundamentação extensiva a respeito” (REsp. 204.825-RR – 2ªTurma – j. 17.09.2002 – rel. Min. Laurita Vaz). Neste sentido: EMENTA: “Dispensa-se a prova do prejuízo para demonstrar a ofensa ao moral humano, já que o dano moral, tido como lesão à personalidade, ao âmago e à honra da pessoa por sua vez é de difícil constatação, haja vista os reflexos atingirem parte muito própria do indivíduo – o seu interior. De qualquer forma, a indenização não surge somente nos casos de prejuízo, mas também pela violação de um direito” (STJ – REsp. 85.019 – 4ª Turma – j. 10.03.98 – rel. Min. Sálvio Figueiredo Teixeira, DJU 18.12.98). 2.6.7. O DANO MORAL DECORRENTE DO INADIMPLEMENTO CONTRATUAL A pergunta é: o credor que sofre aborrecimentos por não conseguir receber um débito do devedor inadimplente tem direito à reparação por danos morais? Num enfoque constitucional, pode-se extrair que, o mero inadimplemento contratual, a mora, ou prejuízo econômico não configuram, por si só, dano moral, se não agridem a dignidade humana. As violações dos deveres contratuais só são passíveis de indenização por dano moral quando atingem significativamente a esfera da dignidade da pessoa do contratante. Neste sentido, decidiu o STJ que “o só inadimplemento contratual não caracteriza o dano moral” (STJ – REsp. 151.322-RS – 3ª Turma – j. 05.09.2002 – rel. Min. Ari Pargendler, DJU 02.12.2002, p. 303). EMENTA: Civil. Responsabilidade civil. DANO MORAL. O débito levado a efeito em conta corrente, sem a autorização do respectivo titular, para o pagamento de conta de luz, não induz, por si só, o reconhecimento de dano moral, a despeito do aborrecimento que isso possa ter provocado; o dano moral apenas se caracterizaria se o lançamento do débito tivesse conseqüências externas, v.g., devolução de cheques por falta de provisão de fundos ou inscrição do nome do correntista em cadastro de proteção ao crédito. Recurso especial conhecido e provido (STJ – REsp. 409.917- MG – 3ª Turma – j. 30.04.2002 – rel. Min. Ary Pargendler, DJU 19.08.200, p.162). Ou seja, os pequenos dissabores e meros aborrecimentos, isoladamente, não são passíveis de indenização por danos morais. Também na esfera das relações contratuais, o dano moral é in re ipsa, decorrente do próprio dano e não há necessidade da prova do constrangimento. Neste sentido, decidiu o STJ que “o vício do produto ou do serviço, ainda que solucionado pelo fornecedor no prazo legal, poderá ensejar a reparação por danos morais, desde que presentes os elementos caracterizadores do constrangimento à esfera moral do consumidor” (STJ – REsp. 324.629-MG – 3ª Turma – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 28.04.2003, p. 198). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 47 2.6.8. A FIXAÇÃO DO VALOR DO DANO MORAL A fixação do valor do dano moral passa pela adoção NA falta regulamentação específica, algumas recomendações indicadas no art. 53 da lei de imprensa (Lei n. 5.250, de 09.02.67) continuam servindo de parâmetro para a fixação do valor do dano moral = a) a intensidade do sofrimento do ofendido; b) a gravidade; c) a natureza e; d) repercussão da ofensa; e) o grau de culpa e; f) situação econômica do ofensor e; g) circunstâncias em que ocorreram os fatos. No sentido de limitar os abusos e evitar o enriquecimento ilícito, o STJ tem tentado limitar as indenizações por danos morais em relação as violações mais comuns. É o caso, por exemplo, da limitação em 50 salários mínimos do valor máximo da indenização por danos morais por negativação indevida do consumidor no cadastro geral de inadimplência. : EMENTA: “Serasa. Valor Máximo. Indenização. Provido o recurso para reduzir o montante da indenização por lançamento indevido em cadastro negativo de crédito ao consumidor, visto que em casos assemelhados a Turma tem fixado em cerca de 50 salários-mínimos o valor máximo. Precedentes citados: REsp. 110.091-MG, DJ 28.08.2000; REsp 294.561-RJ, DJ 04.02.2002 e REsp. 296.555-PB, DJ 20.05.2002. (STJ - REsp. 448.507-SP, 3ª Turma - rel. Min. Aldir Passarinho Junior, j. 23.09.2003). 2.6.9. DANO MORAL À PESSOA JURÍDICA A jurisprudência do STJ sumulou a possibilidade de indenização por danos morais em favor da pessoa jurídica (Súmula 227). “Malgrado não tenha direito à reparação do dano moral subjetivo, por não possuir capacidade afetiva, poderá sofrer dano moral objetivo, por ter atributos sujeitos à valoração extrapatrimonial da sociedade, como o conceito e bom nome, o crédito, a probidade comercial, a boa reputação etc.”12 Protege-se a honra subjetiva da pessoa jurídica que pode sofrer abalos na sua reputação e credibilidade social provocando-lhe abalo no crédito. STJ – Súmula 227: “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral” 2.6.10. O MERO DISSABOR O dano moral não pode ser conceituado como o sofrimento, a decepção, a dor e a tristeza. Explica Nelson Rosenvald que “estes sentimentos não passam de algumas das conseqüências da ofensa a um dos direitos da personalidade. Aliás, não é qualquer mágoa ou desilusão que gera o dano moral, mas aquela que atinge a própria dignidade da pessoa, alcançando-a de forma intensa a ponto de atingir sua própria essência” (Direito das obrigações, 3ª ed., p. 270). 12 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume V: responsabilidade civil. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 358. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 48 Nesta mesma linha, o STJ firmou entendimento no sentido de que “o mero dissabor não pode se alçado ao patamar do dano moral, mas somente aquela agressão que exacerba a naturalidade dos fatos da vida, causando fundadas aflições ou angústias no espírito de quem ela se dirige” (STJ – REsp. 215.666 – 4ª Turma – j. 21.06.2001 – rel. Min. César Asfor Rocha, DJU 29.10.2001). 2.6.11. O DANO ESTÉTICO O dano estético é espécie de dano extrapatrimonial que se refere a uma deformidade externa do corpo humano, tipo aleijão, cicatriz ou qualquer outro defeito físico-corporal.É qualquer deformação duradoura ou permanente na aparência externa da pessoa que lhe acarreta algum tipo de enfeamento. Não se confunde com o dano moral, pois este se refere a uma lesão aos direitos da personalidade e se passam no âmbito interno do indivíduo. EMENTA: “Responsabilidade civil. Acidente de trânsito. Lesão física. Fratura exposta. DANOS MORAL E ESTÉTICO. CUMULABILIDADE. Possibilidade. Origens distintas. Precednetes. Restabelecimento do acórdão da apelação. Recurso provido. - Nos termos em que veio a orientar-se a jurisprudência das Turmas que integram a Seção de Direito Privado deste Tribunal, as indenizações pelos dano moral e estético podem ser cumuladas, mesmo quando derivadas do mesmo fato, se inconfundíveis suas causas e passíveis de apuração em separado” (STJ – REsp. 289.885-RJ – 4ª Turma – j. 15.02.2001 – rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 02.04.2001, p. 303). 2.7. O ACESSO A JUSTIÇA VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados; ACESSO À JUSTIÇA – Significa acesso uma ordem jurídica justa e não mero acesso aos Tribunais. A CF garante ao consumidor necessitado a assistência jurídica integral = art. 5º, LXXIV. Sã admissíveis todas as ações judiciais possíveis para a defesa do consumidor (art. 83 do CDC) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 49 2.8. A INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA Art. 6º São direitos básicos do consumidor: VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências; Nos termos do art. 6º, inc. VIII do CDC, o consumidor tem direito à facilitação da defesa de seus direitos, inclusive, a inversão do ônus da prova no processo civil em que é parte. 2.8.1. A FACILITAÇÃO DA DEFESA DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR O princípio da facilitação da defesa dos direitos do consumidor tem incidência em todo o sistema de defesa do consumidor, aplicável no âmbito do direito material, bem como no âmbito do direito processual. É endereçado a todos os agentes componentes deste sistema: órgãos de fiscalização, regulamentação, públicos e privados, órgãos legislativos, juízes de direito, fornecedores. Tem caráter substancial e processual. Facilitar ao consumidor a defesa de seus direitos significa considerara sua situação de vulnerabilidade na relação jurídica de consumo (aspecto material) e de hipossuficiência na demanda judicial em relação ao fornecedor (aspecto processual). Neste sentido, Vulnerabilidade e hipossuficiência nada mais são do que um deficit de igualdade. Na relação jurídica de consumo, o consumidor normalmente, se coloca em situação de desvantagem material e, quando demanda judicialmente, no rito processual comum, a desigualdade se acentua, não só pela deficiência econômica ou falta de informações e conhecimentos técnicos, mas também pela morosidade da Justiça. O trâmite processual é lento e, na maioria das vezes, se arrasta por muitos meses ou até anos. Quanto mais lenta a justiça, mais vantagem para o fornecedor. 2.8.2. O ÔNUS DA PROVA A palavra ônus vem do latim se significa carga, fardo, peso, encargo. Não se confunde com dever ou obrigação e o seu descumprimento gera apenas a privação de uma vantagem para o próprio onerado. “Ônus da prova é o encargo, atribuído pela lei a cada uma das partes, de demonstrar a ocorrência dos fatos de seu próprio interesse para as decisões a serem proferidas no processo” (Dinamarco, Instituições, p. 71). Pode-se conceituar o ÔNUS como um poder que possibilita a parte a agir no interesse próprio. Trata-se de um comportamento necessário para a obtenção de um efeito favorável (Marinoni e Arenhart, CPC comentado, p. 388). O ônus da prova indica que a parte que não produzir prova se sujeitará ao risco de um resultado desfavorável (idem, 389). Só há aplicação objetiva das regras sobre o ônus da prova quando os resultados da instrução probatória se mostrarem insatisfatórios. De modo que, para evitar o non Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 50 liquet, quando há falta de provas, o juiz pode onerar a parte que não produziu a prova dos fatos que são pressupostos das normas que lhes são favoráveis. A aplicação das regras sobre o ônus da prova é relativizada pelo princípio da aquisição das provas: o juiz pode julgar favoravelmente à parte que não cumpriu o ônus da prova, se o julgamento se basear em provas produzidas de ofício ou pela parte contrária. O problema do ônus da prova se distingue em dois aspectos: a) ônus subjetivo da prova – pelo qual se indaga como se reparte entre os litigantes, o encargo de fornecer a prova; b) ônus objetivo da prova – pelo qual se indaga qual das partes há de suportar as conseqüências da falta ou insuficiência de provas. As regras sobre o ônus subjetivo da prova permitem definir a atuação das partes em juízo e são, por isso, consideradas regras de conduta ou de comportamento processual das partes. O ônus objetivo da prova indica qual das partes suporta o risco da falta de prova de um fato pertinente, mesmo que a instrução seja regida pelo princípio da instrução por iniciativa das partes.13 Trata-se de uma regra de julgamento, a ser utilizada pelo juiz, no momento da prolatação da sentença quando verifica que há falta de prova. Assim, as regras do ônus da prova não têm somente a função fundamental de evitar, em qualquer hipótese, um non liquet (ônus objetivo), mas também a de indicar, no curso do processo, qual das partes está legitimada a exercitar o poder processual de produzir as provas do seu interesse (ônus subjetivo). 2.8.3. REGRA GERAL DE DISTRIBUIÇÃO DO ÔNUS DA PROVA CPC: Art. 333. O ônus da prova incumbe: I – ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo de direito do autor. FATOS CONSTITUTIVOS são aqueles que dão ensejo ao nascimento da relação jurídica, ou como afirma Chiovenda “são aqueles que dão vida a uma vontade concreta da lei e à expectativa de um bem por parte de alguém”. Exemplo: empréstimo, testamento, ato ilícito, matrimônio etc. (Marinoni e Arenhart, CPC Comentado, p. 389). FATOS IMPEDITIVOS são aqueles que paralisam os efeitos dos fatos constitutivos no momento que surge a relação jurídica. Exemplo: coação, erro, dolo etc. FATOS MODIFICATIVOS são aqueles que alteram a relação jurídica já constituída. Exemplo: transação, novação subjetiva etc. FATOS EXTINTIVOS são aqueles que põem fim à relação jurídica. Exemplo: pagamento, perdão, prescrição etc. 13 JAUERNIG, Othmar. Direito processual civil. Coimbra: Almedina, 2002. p. 272. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 51 Exemplo: Se o autor pede o pagamento da dívida, o inadimplemento contratual é fato constitutivo. Se o réu alega que ela foi parcelada e somente pode ser exigida em parte, este fato é modificativo. Se o réu alega o pagamento, este fato é extintivo. Se o réu afirma a exceção de contrato não cumprido (CC, art. 467), este fato é impeditivo.” (Marinoni e Arenhart, CPC comentado, p. 392). Entretanto, a leitura pura e simples do art. 333 do CPC não é suficiente para resolver a questão da qualificação dos fatos em constitutivos, modificativos, extintivos e impeditivos. Para tanto, é necessária uma conjugação das normas de direito material e processual. Um exemplo dado por Rodrigo Xavier Leonardo (Imposição e inversão do ônus da prova. p. 136) para esclarecer a questão é o da posse hábil, como fato constitutivoda aquisição da propriedade mediante usucapião. Posse e boa-fé são fatos constitutivos da propriedade do possuidor e são também fatos extintivos do direito de propriedade do proprietário sem posse. Por outro lado, se o proprietário sem posse propor uma ação reivindicatória, a posse passa a ser fato extintivo do direito de propriedade, a ser alegado pelo possuidor em sua defesa. Mas, se o possuidor propor ação de usucapião, a posse passa a ser considerado fato constitutivo do direito de propriedade. Além das questões acima, há situações em que determinado fato, constitutivo do direito do autor, é muito mais facilmente demonstrado pelo réu, ou vice e versa. Assim, por exemplo, se o televisor novo não funciona, este fato, que é constitutivo do direito do consumidor, pode ser muito mais facilmente esclarecido (a existência ou a inexistência de defeito do produto) pelo fornecedor que conhece a tecnologia de seus produtos e tem melhores condições técnicas e econômicas de produzir a prova da existência ou inexistência do defeito. Nestes casos há a necessidade de se inverter a regra geral o ônus da prova do art. 333 do CPC: 2.8.4. TÉCNICAS DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA: A inversão do ônus da prova faz com que o réu tenha que provar a inexistência dos fatos que são constitutivos do direito do Autor. Desta forma, o réu não pode valer-se da simples negativa de veracidade dos fatos aduzidos pelo Autor, advinda dos velhos provérbios romanos “actori incubit onus probandi” e “ei incumbit probatio, qui dicit, non qui negat”. EMENTA: “Direito processual civil. Ação de indenização. Saques sucessivos em conta corrente. Negativa de autoria do correntista. Inversão do ônus da prova. - É plenamente viável a inversão do ônus da prova (art. 333, II do CPC) na ocorrência de saques indevidos de contas-correntes, competindo ao banco (réu da ação de indenização) o ônus de provar os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do autor. - Incumbe ao banco demonstrar, por meios idôneos, a inexistência ou impossibilidade de fraude, tendo em vista a notoriedade do reconhecimento da possibilidade de violação do sistema eletrônico de saque por meio de cartão bancário e/ou senha. - Se foi o cliente que retirou o dinheiro, compete ao banco estar munido de instrumentos tecnológicos seguros para provar de forma inegável tal ocorrência. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 52 Recurso especial parcialmente conhecido, mas não provido” (STJ – REsp. 727.843-SP – 3ª Turma – j. 15.12.2005 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 01.02.2006, p. 553). Com a finalidade de facilitar a produção da prova e proporcionar melhor igualdade das partes no processo, a legislação utiliza-se de três técnicas de alteração da regra geral do ônus da prova, prevista no art. 333 do CPC: a) INVERSÃO LEGAL - através das presunções ou imputação legal de prova; b) INVERSÃO JUDICIAL - através de autorização legal para que o juiz inverta o ônus da prova; c) INVERSÃO CONVENCIONAL - através de convenção entre as partes antes ou durante o processo. 2.8.5. ESPÉCIES DE INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA NO CDC: a) INVERSÃO LEGAL (ope legis) prevista em três artigos do CDC = não depende da avaliação discricionária do juiz (decorre da própria lei). 1. Art. 38 = A inversão do ônus da prova decorre da própria lei, art. 38 do CDC = cabe ao anunciante fazer a prova da veracidade da informação publicitária. Assim, quando a demanda versar sobre questão de informação ou oferta publicitária a inversão do ônus da prova é obrigatória, decorrente da própria lei, não há requisitos e não é necessário despacho do juiz. Trata-se de uma presunção legal relativa em favor do consumidor, ou seja, a lei presume a inveracidade da informação publicitária pela simples alegação do consumidor. Cabe ao fornecedor disponibilizar a prova contrária. 2. Art. 12, § 3º, inc. II = Nas ações de responsabilidade civil por danos causados pelo fato do produto, o ônus da prova do defeito é sempre do fornecedor. Isto é, o fornecedor sempre terá que provar que o defeito do produto não existe: “Art. 12 (...) § 3º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: (...) II – que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste” 3. Art. 14, § 3º, inc. I = Idem da situação anterior. Na ação de responsabilidade civil por danos causados pelo fato do serviço, o ônus da prova do defeito é sempre do fornecedor de serviços. É ele que terá que provar (tem o ônus) que o defeito do serviço não existe: “Art. 14 (...) § 3º O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I – que tendo prestado o serviço, o defeito não existe;” Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 53 b) INVERSÃO JUDICIAL (ope iudicis) previsto no art. 6º, inc. VIII = é deferida ou não, segundo a apreciação discricionária do juiz, usando as máximas da experiência para verificar a presença ou não dos dois requisitos legais: verossimilhança ou hipossuficiência. OBS. A terceira espécie de inversão do ônus da prova: a INVERSÃO CONVENCIONAL prevista no art. 333, parágrafo único do CPC (estabelecida pela vontade das partes antes do processo – no contrato -, ou durante o processo, por transação), é vedada no direito do consumidor, conforme disposto no art. 51, inc. VI do CDC. Exemplo: determinada escola particular estipula cláusula contratual (contrato de adesão) estabelecendo que não se presumem quitadas as mensalidades mediante a apresentação de quitação da última parcela, contrariando o disposto no art. 322 do Código Civil: “quando o pagamento for em quotas periódicas, a quitação da última estabelece, até prova em contrário, a presunção de estarem solvidas as anteriores”. Trata-se de uma hipótese de inversão convencional do ônus da prova através de estipulação contratual oriunda de uma relação de consumo. O inciso VI do art. 51 dispõe que são nulas de pleno direito as cláusulas contratuais que “estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor”. 2.8.6. INVERSÃO JUDICIAL DO ÔNUS DA PROVA NO CDC Art. 6º. São direitos básicos do consumidor: (...) VIII – A facilitação dos seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências; A inversão do ônus da prova faz com que o réu tenha que provar a inexistência dos fatos que são constitutivos do direito do Autor. Neste sentido, já decidiu o STJ que "diante da inversão do ônus da prova e da falta de produção probatória da CEF, quando lhe foi dada a oportunidade (fls. 47/49), revela-se imperativo reconhecer que os saques realizados foram fraudulentos. Destarte, tendo a CEF se mostrado negligente nesse ponto, e, ainda, se omitindo em produzir a prova de que incumbe à autora a responsabilidade pelos saques, torna-se nítida a sua responsabilidade pelos fatos noticiados na exordial” (STJ – REsp. 784.602-RS – 4ª Turma – j. 12.12.2005 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 01.02.2006, p. 572). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 54 2.8.7. REQUISITOS PARA A INVERSÃO JUDICIAL DO ÔNUS DA PROVA A INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA é direito básico do consumidor a ser deferido pelo juiz, quando presentes os requisitos da verossimilhança ou da hipossuficiência. 2.8.7.1. VEROSSIMILHANÇA VEROSSIMILHANÇA significa o juízo da rasa aparência de verdade dos fatos alegados na inicial. Recai apenas sobre as alegações dos fatos. Não requer um começo de prova, pois é juízo baseado na simples alegação. Não depende de qualquer começo de prova e é um juízo formulado com base no conhecimento que tem o juiz (máxima da experiência), antes da produção da prova, avaliando a freqüência e normalidade com que o fatoalegado acontece na realidade. Ex: o consumidor alega que seu veículo foi arrombado no estacionamento do Shopping ou; que o seu aparelho celular não funciona adequadamente. São hipóteses que acontecem repetidas vezes, com freqüência, dentro de uma normalidade, aferíveis pela ordinária experiência. Em suma: a verossimilhança é um juízo fundado nas regras ordinárias da experiência comum, concernente à verificação da freqüência e normalidade da ocorrência de fatos semelhantes. 2.8.7.2. HIPOSSUFICIÊNCIA HIPOSSUFICIÊNCIA é um conceito exclusivamente processual e tem caráter relacional entre o consumidor e o fornecedor quando se refere à condição pessoal de produzir determinada prova. Trata-se de um requisito apurado mediante a verificação no processo, de qual parte tem a melhor condição de produzir determinada prova: esta não será parte hipossuficiente em relação à produção desta prova. Reflete basicamente a condição técnica, e até mesmo econômica (não necessariamente) ou jurídica de realizar determinada prova imprescindível para o esclarecimento da questão. Esta comparação é feita caso a caso, fato a fato, em relação a cada uma das partes, em cada ação, especificamente. A hipossuficiência é determinada mediante a formulação da seguinte pergunta: Qual das partes tem a pior condição de produzir determinada prova específica? A formulação da resposta passa pela utilização das regras ordinárias da experiência. Identificada a parte com maior dificuldade na produção da prova específica sobre determinado fato, esta será hipossuficiente em relação à outra. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 55 Exemplo: pode acontecer que a grande empresa de transporte coletivo interestadual seja hipossuficiente em relação ao usuário-consumidor na realização da prova do dano sofrido por ele, consumidor (pedinte ou catador de papel), que alega ter ficado sem duas barras de ouro e três anéis de brilhantes que estavam dentro da sua sacola extraviada durante a viagem. No acórdão abaixo, o STJ considerou que o consumidor-correntista é hipossuficiente (tem a pior condição em relação ao réu) para a produção da prova relativa a específico fato constitutivo do direito do Autor: a fraude ocorrida em caixa eletrônico: EMENTA: “Direito processual civil. Ação de indenização. Saques sucessivos em conta corrente. Negativa de autoria do correntista. Inversão do ônus da prova. - É plenamente viável a inversão do ônus da prova (art. 333, II do CPC) na ocorrência de saques indevidos de contas-correntes, competindo ao banco (réu da ação de indenização) o ônus de provar os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do autor. - Incumbe ao banco demonstrar, por meios idôneos, a inexistência ou impossibilidade de fraude, tendo em vista a notoriedade do reconhecimento da possibilidade de violação do sistema eletrônico de saque por meio de cartão bancário e/ou senha. - Se foi o cliente que retirou o dinheiro, compete ao banco estar munido de instrumentos tecnológicos seguros para provar de forma inegável tal ocorrência. Recurso especial parcialmente conhecido, mas não provido” (STJ – REsp. 727.843-SP – 3ª Turma – j. 15.12.2005 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 01.02.2006, p. 553). 2.8.8. HIPOSSUFICIÊNCIA E VULNERABILIDADE: DIFERENÇA Não se confunde hipossuficiência com vulnerabilidade. No direito do consumidor, a hipossuficiência é um conceito de direito processual e está relacionado à condição de insuficiência técnica (econômica ou jurídica) no processo civil. No direito do consumidor significa apenas um requisito para a inversão do ônus da prova. A vulnerabilidade, por sua vez, é um conceito de direito material, inerente a todos os consumidores, pobres, ricos, crédulos ou incrédulos etc., nos termos do art. 4º, inc. I do CDC. 2.8.9. AS REGRAS ORDINÁRIAS DA EXPERIÊNCIA Na avaliação sobre a presença ou não dos dois requisitos (verossimilhança e hipossuficiência) o juiz usa do conhecimento ordinário que tem sobre tudo que acontece (máximas da experiência). As MÁXIMAS DA EXPERIÊNCIA (ou regras ordinárias da experiência) são noções extraídas da reiteração de acontecimentos semelhantes, extraídos pelo homem comum através do raciocínio indutivo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 56 O raciocínio indutivo autoriza a convicção de que outros fatos igualmente semelhantes e nas mesmas circunstâncias devem se repetir no futuro. As regras ordinárias da experiência são ilações extraídas da observação de fatos que ordinariamente acontecem. Têm caráter de generalidade e abstração e não se referem a acontecimentos singulares e específicos. Ex: é do conhecimento ordinário que a água corre morro abaixo e o fogo corre morro acima ou que o contato com os fios de energia elétrica pode dar choque. Também é do conhecimento ordinário que os aparelhos de telefonia celular nem sempre funcionam adequadamente. As máximas da experiência não se confundem com os fatos notórios – estes são conhecimentos os quais têm acesso as pessoas que vivem no mesmo ambiente sócio-cultural, tempo e lugar. Ex: Brasília é a capital do Brasil. 2.8.9. OS DOIS REQUISITOS (VEROSSIMILHANÇA E HIPOSSUFICIÊNCIA) SÃO NECESSÁRIOS CUMULATIVAMENTE? A interpretação literal do art. 6º, VIII do CDC não nos deixa dúvida que os requisitos NÃO SÃO CUMULATIVOS, mas sim ALTERNATIVOS, por força da partícula “OU”. O Legislador preferiu a partícula alternativa “ou” ao invés da partícula alternativa “e”. Entretanto, para alguns autores (Alexandre Freitas Câmara, Antonio Gidi e outros), a inversão do ônus da prova no processo civil do consumidor deve observar a presença cumulativa dos dois requisitos. Argumenta-se que sem a verossimilhança da alegação, mesmo que a parte seja hipossuficiente, não há como inverter o ônus da prova pois, o fornecedor se veria na situação de ter que produzir uma “prova diabólica”. Sem a hipossuficiência do consumidor, mesmo que a alegação seja verossímil, não haveria a necessidade de se inverter o ônus da prova, ao contrário, criar-se-ia uma situação de desigualdade acentuada em desfavor do fornecedor, ferindo o princípio da isonomia processual. No Projeto de Código de Processo Coletivo – art. 12, § 1º – a inversão do ônus da prova é determinada pelo juiz à parte que mais acentuadamente detiver: (a) conhecimentos técnicos ou; (b) informações específicas sobre os fatos ou; (c) maior facilidade em sua demonstração. Os requisitos são alternativos e estão relacionados à situação de hipossuficiência de uma das partes em comparação com a outra, a ser observada em relação a uma prova específica. Observa-se que, diferentemente do art. 6º, inc. VIII do CDC, aqui a inversão não tem a verossimilhança das alegações como requisito e nem faz referência à utilização das máximas da experiência, embora não há como negar que, por óbvia dedução lógica, os dois requisitos são implícitos: o juiz sequer considera a alegação que não for, no mínimo, verossímil e só tem como apreciar qualquer dos requisitos acima, utilizando-se do ordinário conhecimento que tem dos fatos. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 57 2.8.10. O MOMENTO DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA O juiz deve apreciar a inversão do ônus da prova na fase da decisão de saneamento, quando os fatos alegados pelo autor e pelo réu já se tornaram controvertidos, nos termos do art. 331, § 2º do CPC: “Se, por qualquer motivo, não for obtida a conciliação, o juiz fixará os pontos controvertidos, decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas a serem produzidas, designando audiência de instrução e julgamento, se necessário.” Esta também passou a ser a posição dominante no Superior Tribunal de Justiça: EMENTA: “Recurso Especial. CDC. Aplicabilidade às instituições financeiras. Enunciado n. 297 da Súmula do STJ.Inversão do ônus da prova (art. 6º, inc. VIII, do CDC). Momento processual. Fase instrutória. Possibilidade. 1. Há muito se consolidou nesta Corte Superior o entendimento quanto à aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às instituições financeiras (enunciado n. 297 da Súmula do STJ) e, por conseguinte, da possibilidade de inversão do ônus da prova, nos termos do inciso VIII do artigo 6º da lei consumerista. 2. O Tribunal de origem determinou, porém, que a inversão fosse apreciada somente na sentença, porquanto consubstanciaria verdadeira "regra de julgamento". 3. Mesmo que controverso o tema, dúvida não há quanto ao cabimento da inversão do ônus da prova ainda na fase instrutória - momento, aliás, logicamente mais adequado do que na sentença, na medida em que não impõe qualquer surpresa às partes litigantes -, posicionamento que vem sendo adotado por este Superior Tribunal, conforme precedentes. 4. Recurso especial parcialmente conhecido e, no ponto, provido” (STJ – REsp. 662.608-SP – 4ª Turma – j. 12.12.2006 – rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa – DJU 05.02.2007, p. 242). 2.8.11. INVERSÃO EX OFFICIO PELO JUIZ A maioria da doutrina entende que a inversão judicial do ônus da prova poderá ser determinada tanto a requerimento da parte, como ex officio pelo juiz. Por se tratar de um dos direitos básicos do consumidor (art. 6º, VIII) e sendo o CDC composto de normas de ordem pública (art. 1º), a medida judicial de inversão independe de iniciativa do interessado em requerê-la. Em síntese: Após a audiência de conciliação, prevista no art. 331, § 2º, “o juiz fixará os pontos controvertidos, decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas a serem produzidas”, isto é, ao determinar às partes que produzam as provas de seus respectivos interesses, o juiz já deve dizer a quem cabe o ônus de provar o que, decidindo sobre a distribuição do ônus da prova. (Neste sentido, Nery, CC Comentado, 1ª ed., p. 729) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 58 2.8.12. A INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA E O ÔNUS DE ANTECIPAR O PAGAMENTO DOS HONORÁRIOS DA PERÍCIA Não se pode pensar que a decisão de inversão do ônus da prova em favor do consumidor implica na obrigação do fornecedor de antecipar o pagamento de honorários periciais. Mas, por outro lado, inverter o ônus da prova em favor do consumidor e não inverter o ônus do pagamento dos honorários periciais é o mesmo que dar com uma mão e tirar com a outra. O STJ tem decidido que, presentes os requisitos do art. 6º, inc. VIII do CDC, o juiz pode determinar a inversão do ônus da prova em favor do consumidor, mas não pode obrigar o fornecedor a antecipar os honorários da perícia requerida pelo consumidor. Entretanto, o fornecedor pode sofrer as conseqüências da não produção da prova se esta for imprescindível para o deslinde da questão. Isto é, o juiz pode presumir verdadeiros os fatos alegados pelo consumidor, imputando ao fornecedor o ônus da falta da referida prova. EMENTA: “Processo civil. Relação de consumo. Inversão do ônus da prova. A regra probatória, quando a demanda versa sobre relação de consumo, é a da inversão do respectivo ônus. Daí não se segue que o réu esteja obrigado a antecipar os honorários do perito; efetivamente não está, mas, se não o fizer, presumir-se-ão verdadeiros os fatos afirmados pelo autor. Recurso especial conhecido e parcialmente provido” (STJ – REsp. 466.604-RJ – 3ª Turma – rel. Min. Ari Pargendler – DJU 02.06.2003, p. 297). EMENTA: “Inversão do ônus da prova. Assistência judiciária. Art. 6º, VIII, do Código de Defesa do Consumidor e art. 3º, V, da Lei n. 1060/50. 1. A inversão do ônus da prova não tem o efeito de obrigar a parte contrária a pagar as custas da prova requerida pelo consumidor, mas, sofre as conseqüências de não produzi-la. Recurso especial não conhecido” (STJ – REsp. 435.155-MG – 3ª Turma – j. 11.02.2003 – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito – DJU 10.03.2003, p. 193). 2.9. SERVIÇOS PÚBLICOS ADEQUADOS E EFICAZES O art. 6º, inc. X do CDC dispõe que é direito básico do consumidor: X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral. No mesmo passo, o art. 6º, § 1º, da Lei n. 8.987/95 (Lei das concessões) dispõe que “serviço adequado é o que satisfaz as condições de regularidade, continuidade, eficiência, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e modicidade de tarifas”. O conceito de serviço adequado está ligado à idéia de qualidade e satisfação do usuário. A eficiência é um princípio constitucional inerente a toda administração pública (art. 37, caput da CF), incluindo os serviços por ela prestados. Significa a capacidade de produzir um efeito satisfatório e esperado. Tem um aspecto mais subjetivo. Serviço eficiente é aquele que corresponde à legítima expectativa do usuário e à sua exata satisfação. É o serviço produtivo, sem Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 59 erros e sem perdas, apropriado para alcançar o melhor resultado numa relação comparativa com o menor esforço desprendido. Ver comentários ao art. 22 do CDC 3. NORMA DE INTEGRAÇÃO DO SISTEMA DE DEFESA DO CONSUMIDOR Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e eqüidade. O art. 7º funciona como norma de integração de todo o sistema de defesa do consumidor. Faz a ligação do CDC com os outros dispositivos legais (Leis, tratados, regulamentos, portarias, resoluções, decretos etc) que compõem o macro-sistema de defesa do consumidor, inclusive com o novo CC. Assim, fazem parte do sistema de defesa do consumidor, não só o CDC, mas também toda e qualquer legislação e regulamento administrativo que possa ser aplicado em favor do consumidor. Ex: o CC, o CPC, a Lei de Ação civil pública; a Lei de Concessões Públicas (Lei n. 8.987/95); Lei de Planos de Saúde; portarias da Vigilância Sanitária; resoluções da Aneel, da Anatel etc. 4. A REGRA GERAL DA SOLIDARIDADE NA REPARAÇÃO DOS DANOS Art. 7° (...) Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo. O que é solidariedade? CC – “Art. 264: Há solidariedade, quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito, ou obrigado à dívida toda.” A solidariedade resulta da lei ou da vontade das partes (contrato) O parágrafo único do art. 7º do CDC estabelece que há solidariedade entre os “fornecedores” que, de qualquer forma, concorreram para a ocorrência do dano ao consumidor (inclui todos aqueles que componentes da cadeia de produção, com a exceção prevista no art. 12, caput – comerciante em caso de acidente de consumo – o fabricante, o produtor, o distribuidor, o importador, o representante, etc.). Todos aqueles que participaram da colocação do produto ou serviço no mercado de consumo são solidariamente responsáveis pelos prejuízos causados aos consumidores. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 60 Como a norma criou hipótese legal de solidariedade entre os causadores de dano, pode o consumidor mover ação de reparação do dano em face de apenas um, exigindo dele a totalidade da dívida, ou em face de todos os devedores solidários, sendo que, nesta última hipótese, o litisconsórcio passivo será facultativo (CPC 46). (Nery, Novo CC comentado, p. 731). Sobre solidariedade, ver art. 25, § 1º do CDC 5. QUESTÕES DE CONCURSOS 1) (Magistratura-DF/2003) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, para que o consumidor tenha direito à revisão do contrato: a) basta quehaja onerosidade pra ele; b) deve haver onerosidade excessiva pra ele, em decorrência de fato superveniente; c) deve haver onerosidade excessiva para ele, em decorrência de fato superveniente; extraordinário e imprevisível; d) deve haver onerosidade excessiva para ele, em decorrência de fato superveniente, extraordinário e imprevisível, que lhe acarrete desvantagem econômica e correspondente vantagem econômica para outra parte. 2) (MPMT-2002) Sobre o ônus da produção da prova, o Direito do Consumidor: a) proíbe qualquer convenção a respeito, uma vez tratar-se de matéria processual de especial interesse da coletividade; b) só permite a convenção em favor do consumidor hipossuficiente; c) só admite convenção em hipóteses permissivas da desconsideração da personalidade jurídica do fornecedor; d) nenhuma. 3) (MAGISTRATURA-MG/2005) questão n. 16 - Empresa importadora fez suas aquisições, todas devidamente financiadas, com pagamento a ser feito no País de origem, em dólares. Ao revender o produto ao consumidor, em forma de refinanciamento, houve previsão de reajuste pelo valor da moeda do país de origem, com substancial desvalorização da moeda local frente à prevista para o reajuste, é de assinalar a solução que for tida por CORRETA. a) Considera-se revogada a cláusula de reajuste, fazendo-se a mesma pela correção local. b) O consumidor deve suportar o reajuste e pagar de acordo com o valor da moeda local frente ao dólar. c) O refinanciador deve pleitear frente às empresas financiadoras o abatimento das diferenças, por elas se responsabilizando. d) Os prejuízos da desvalorização monetária devem ser repartidos. e) O consumidor não é obrigado a pagar o reajuste, mas deve restituir o bem e receber de volta o que já pagou. RESPOSTAS: 1 – B; 2 – A; 3 – D. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 61 CAPÍTULO 5 DA PROTEÇÃO À SAÚDE E SEGURANÇA 1. O DEVER DE SEGURANÇA PRINCÍPIO GERAL DA SEGURANÇA: - para todos os bens de consumo Quanto maior a segurança dos produtos e serviços, maiores são os custos. Colocar no mercado de consumo produtos ou serviços com risco zero é praticamente impossível, para não dizer que o seu custo seria altíssimo, inviabilizando a comercialização. O ideal é compatibilizar a melhor qualidade com o menor custo e com o menor risco. É o que se pode chamar de custo/benefício. Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo devem ter a segurança correspondente às legítimas expectativas do consumidor. Significa que, em regra, os produtos e serviços colocados no mercado de consumo devem ser seguros, de modo que os riscos para a saúde e segurança do consumidor sejam os menores possíveis. Ou seja, o fornecedor deve informar o consumidor de todos os riscos (periculosidade) apresentados pelos produtos e serviços para se eximir do dever de indenizar pelos acidentes de consumo. Entretanto, se mesmo assim, os produtos e serviços apresentarem algum tipo de risco, que estes riscos sejam no máximo normais e previsíveis, acompanhados da informação necessária, se for o caso. Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito. Esta obrigação de segurança tem que ter limites – não se pode condenar o fabricante da corda usada pelo suicida, ou o fabricante da navalha quando esta for instrumento do crime de homicídio. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 62 2. RISCO NORMAL E PREVISÍVEL: PERICULOSIDADE INERENTE Quando os riscos dos produtos ou serviços são normais e previsíveis, pode-se afirmar que estão dentro da EXPECTATIVA LEGÍTIMA do consumidor e, de conseqüência, sua periculosidade é inerente.14 Ou seja, a periculosidade é inerente quando os riscos, por serem normais e previsíveis, estão inseridos dentro da expectativa legítima do consumidor. Os riscos dos produtos e serviços devem estar dentro dos seguintes parâmetros: um objetivo (normalidade) e; outro de caráter subjetivo (previsibilidade). NORMALIDADE – (objetivo) em relação ao produto ou serviço Trata-se do risco decorrente da própria natureza ou fruição do produto ou serviço. Ex: o risco de combustão da gasolina, de intoxicação dos agrotóxicos ou do gás de cozinha etc. PREVISIBILIDADE – (subjetivo) em relação ao consumidor Trata-se do risco previsível, que esteja dentro da expectativa e do conhecimento ordinário do consumidor. Ex: todo consumidor sabe que a faca de cozinha pode cortar o dedo, e que se produzir uma faísca a gasolina pode se incendiar, e que se não usar luvas pode se intoxicar no manuseio do agrotóxico. Na falta de qualquer um dos dois requisitos (normalidade ou previsibilidade), ou ambos, a periculosidade deixa a área da expectativa legítima (periculosidade inerente) e submete-se ao regime da periculosidade adquirida ou presumida 4. A PERICULOSIDADE INERENTE QUANDO O RISCO É NORMAL E PREVISÍVEL, A PERICULOSIDADE É INERENTE E, QUASE SEMPRE, NÃO GERA O DEVER DE INDENIZAR. PERICULOSIDADE INERENTE O PRODUTO OU SERVIÇO TRAZ UM RISCO INTRÍNSECO, ATADO À SUA PRÓPRIA QUALIDADE OU MODO DE FUNCIONAMENTO 14 Cf. BENJAMIN, Antonio Herman de Vasconcellos e. Responsabilidade Civil e Acidentes de Consumo no Código de Defesa do Consumidor. Revista do Advogado, n. 33. AASP – Associação dos Advogados de São Paulo, dez, 1990, p. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 63 - O RISCO É NORMAL E PREVISÍVEL Ex: a faca de cozinha; o produto agrotóxico; o combustível etc. a PERICULOSIDADE INERENTE raramente dá causa à responsabilização do fornecedor 5. A PERICULOSIDADE ADQUIRIDA Periculosidade adquirida = quando o risco é anormal ou imprevisível (produto ou serviço defeituoso). Se o risco é normal e previsível não há defeito – art. 12, § 1º e art. 14 º 1º. Quando há um risco à saúde e segurança do consumidor que não é normal e nem é previsível. PERICULOSIDADE ADQUIRIDA (defeito) O PRODUTO OU SERVIÇO TORNA-SE PERIGOSO EM DECORRÊNCIA DE UM DEFEITO QUE, POR QUALQUER RAZÃO APRESENTE. Trata-se de um risco concreto, anormal, que não está inserido no conhecimento ordinário do consumidor. - A IMPREVISIBILIDADE É SUA PRINCIPAL CARACTERÍSITICA Ex: um chuveiro que dá choque; um sabonete que ‘queima’ as mãos; um copo de iogurte com bolor etc. a insegurança que supera as fronteiras da expectativa legítima dos consumidores (torna-se imprevisível) é conseqüência natural da PERICULOSIDADE ADQUIRIDA, esta sim, normalmente dá causa à responsabilização do fornecedor. 6. A INFORMAÇÃO ADEQUADA Art. 8º (...) Parágrafo único. Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. 7. PRODUTOS E SERVIÇOS COM CERTO GRAU DE PERICULOSIDADE Art. 9° O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou segurança deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto. Alguns produtos e serviços são potencialmente nocivos e apresentam certo grau de periculosidade. Trata-se de produtos que, por sua natureza Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 64 podem causar dano à saúde e à segurança do consumidor. Entretanto, são essenciais para a nossa qualidade de vida. Não podemos ficar sem eles. Assim, o CDC exige que a comercialização destes produtos e serviços, com certo grau de periculosidade, esteja acompanhada de informaçõesostensivas e adequadas, sem prejuízo de medidas excepcionais quando a situação exigir. Exemplos de produtos potencialmente nocivos ou perigosos: bebidas alcoólicas, tabaco, agrotóxico, fogos de artifício, material radiativo, pilhas, serviço público de energia elétrica, gás etc. Regra destinada a produtos ou serviços de periculosidade inerente. O legislador quer nos dizer que é permitido colocar no mercado produtos e serviços de periculosidade inerente, desde de que acompanhados da informação ostensiva e adequada sobre os riscos que apresentam. A regra diz que é permitido comercializar PRODUTOS E SERVIÇOS COM CERTO GRAU DE PERICULOSIDADE, desde que se informe ao consumidor sobre sua nocividade ou periculosidade, além de outras medidas preventivas e concretas a serem tomadas por exigência de cada caso específico. Exemplo: O inseticida “X” é um produto nocivo à saúde, porém, imprescindível em certas situações. Assim, o produto deve vir acompanhado de informações sobre as cautelas a serem tomadas pelo consumidor (instruções de cuidado e uso) para que a nocividade se torne normal e seja sempre previsível para o consumidor. Se o produto “X” agora denominado “X-10”, vier com alguma inovação tecnológica que não se insere na esfera de conhecimento normal dos consumidores (foge de suas expectativas legítimas), sem dúvida que o fabricante deverá disponibilizar “outras medidas” de segurança, como, por exemplo, contratar um técnico para acompanhar pessoalmente o consumidor, ensinando-lhe as técnicas preventivas de manuseio com segurança. A falta de qualquer informação acompanhada da ocorrência de dano ao consumidor, implica na responsabilização do fabricante. Se for demasiadamente nocivo, o art. 10 do CDC proíbe que seja lançado no mercado de consumo. 8. PRODUTOS E SERVIÇOS COM ALTO GRAU DE PERICULOSIDADE Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. É proibido comercializar PRODUTOS E SERVIÇOS COM ALTO GRAU DE PERICULOSIDADE. O art. 10 impõe aos fornecedores de produtos e serviços perigosos ou nocivos o dever geral de segurança contra riscos à saúde do consumidor. O dispositivo fala em produtos ou serviços de alto risco que o fornecedor “sabe” ou “deveria saber”, indicando que a responsabilidade pelos danos causados à saúde e segurança do consumidor é apurada independente de culpa (resp. objetiva). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 65 Regra destinada a proibir a comercialização de produtos ou serviços de alta periculosidade. Exemplo: a) um brinquedo infantil de pontas (neste caso qualquer informação é insuficiente); b) um inseticida que num simples contato pode intoxicar e até matar o consumidor; c) um sedativo para mulheres grávidas que pode provocar aborto. 8.1. DEVER PÓS-CONTRATUAL DE INFORMAÇÃO E SEGURANÇA § 1° O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários. Regra destinada a produtos ou serviços de periculosidade ou nocividade superveniente (descoberta posterior à colocação do produto ou serviço no mercado). Ao tomar conhecimento da possibilidade de ocorrer acidentes de consumo (risco para o consumidor), o fornecedor deve providenciar a COMUNICAÇÃO PÚBLICA aos consumidores, às autoridades competentes, bem como a retirada do produto do mercado, ou se for o caso, a troca de algum componente com o objetivo de reduzir os riscos a patamares aceitáveis (recall). Por meio desse instrumento – o recall – o CDC pretende que o fornecedor impeça ou procure impedir, mesmo após a colocação do produto no mercado, que o consumidor sofra danos ocasionados por defeito do produto ou serviço apresentado após a comercialização. Ex: A empresa Fyrestone fez recall em 6 milhões de pneus – 276 acidentes, 46 mortes e 80 feridos. Mesmo cumprido o dever anexo de informação no momento da aquisição do produto ou serviço, passado algum tempo, posteriormente à conclusão do contrato, por força do § 1º do art. 10, o fornecedor terá sempre dever de informar o consumidor sobre a nocividade ou periculosidade superveniente. Trata-se de uma OBRIGAÇÃO PÓS-CONTRATUAL que tem caráter itinerante e acompanha o produto, nas mãos de quem quer que esteja. “Assim, o farmacêutico informado sobre a proibição de determinado remédio que causa o câncer, deve informar seus ex-parceiros contratuais da periculosidade do produto vendido, fixando, por exemplo, um cartaz no estabelecimento comercial. Assim, também, o supermercado que descobre que determinado queijo vendido está causando intoxicação nas pessoas que o ingerem” (Cláudia Lima Marques, Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 2ª ed. p. 251). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 66 Os entes legitimados do art. 82 do CDC poderão propor ação coletiva na defesa do interesse da coletividade de consumidores na hipótese de defeito em grande escala, superveniente à colocação do produto ou serviço no mercado. CDC: Art. 102. Os legitimados a agir na forma deste Código poderão propor ação visando compelir o Poder Público competente a proibir, em todo território nacional, a produção, divulgação, distribuição ou venda, ou a determinar a alteração na composição, estrutura, fórmula ou acondicionamento de produto, cujo uso ou consumo regular se revele nocivo ou perigos à saúde pública e à incolumidade pessoal. 8.2. O ANÚNCIO PUBLICITÁRIO SOBRE O RECALL § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa, rádio e televisão, às expensas do fornecedor do produto ou serviço. 8.3. DEVER DE INFORMAR O PODER PÚBLICO SOBRE O RISCO SUPERVENIENTE § 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança dos consumidores, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito. A portaria n. 789 de 24.08.2001 da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça regulamentou o procedimento para o recall. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 67 CAPÍTULO 6 A RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO E DO SERVIÇO 1. A RESPONSABILIDADE OBJETIVA Responsabilidade objetiva = é aquela fundada no risco, sendo irrelevante a conduta culposa ou dolosa do causador do dano, e se configura apenas com o nexo de causalidade entre o dano e a conduta do agente. Apresenta essencialmente três elementos: a) conduta (ação ou omissão) do agente (fornecedor); b) nexo de causalidade; c) dano. RESPONSABILIDADE OBJETIVA: FATO NEXO CAUSAL DANO conduta - defeito 1.1. TEORIA DO RISCO DO EMPREENDIMENTO Pela teoria do risco do empreendimento, não cabe ao consumidor assumir os riscos dos defeitos dos produtos e serviços e arcar com os prejuízos deles decorrentes. Deste modo, qualquer fornecedor que se disponha a exercer qualquer atividade no mercado de consumo deve responder prejuízos causados ao consumidor pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços, independente da apuração de culpa. A responsabilidade pelos danos decorre do simples fato de alguém se dispor a realizar a atividade de produzir, estocar, distribuir, oferecer e comercializar produtos e serviços no mercado de consumo. O fornecedor é o garantidos da qualidade e segurança dos seus produtos e serviços. Afirma Sérgio Cavalieri que “cabe ao fornecedor, através dos mecanismos de preço, proceder a essa repartição de custos sociais dos danos. É a justiça distributiva, que reparte eqüitativamenteos riscos inerentes à sociedade de consumo entre todos, através dos mecanismos de preços, repita-se, e dos seguros sociais, evitando-se, assim, despejar esses enormes riscos nos ombros do consumidor individual (Programa de responsabilidade civil. 4ª ed. p. 473). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 68 1.2. RESPONSABILIDADE OBJETIVA NO CÓDIGO CIVIL Em face do princípio da especialidade, o novo CC aplica-se subsidiariamente nas relações de consumo. A responsabilidade objetiva é estabelecida no art. 927 e seguintes do CC: Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, é obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. Art. 931. Ressalvados outros casos previstos em lei especial, os empresários individuais e as empresas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em circulação. Ora, se nas relações civis (entre iguais) a responsabilidade de empresário-fornecedor é objetiva, porque não o seria nas relações de consumo (entre desiguais). 2. A TUTELA DOS DANOS NO CDC No CDC, conforme a espécie, os eventos danosos ao consumidor são separados em dois capítulos distintos: a) FATOS DO PRODUTO E DO SERVIÇO - do art. 12 ao 17, o CDC trata dos danos ao patrimônio extrínseco do consumidor. b) VÍCIOS DO PRODUTO E DO SERVIÇO - do art. 18 ao 20, o CDC trata dos danos ao patrimônio intrínseco, restrito ao próprio produto ou serviço. Em qualquer das hipóteses – fatos ou vícios – em regra, a responsabilidade é OBJETIVA: Produto FATO Serviço RESPONSABILIDADE Produto VÍCIO Serviço A RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO E DO SERVIÇO em regra, é OBJETIVA ART. 12 ao ART. 17 (os artigos 12 e 14 falam em “independente de culpa) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 69 A RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO também é OBJETIVA, por força da teoria do risco ART. 18 ao ART. 21 (os artigos 18 e 19 não falam “independente de culpa”, o que poderia acarretar alguma dúvida quanto à espécie de responsabilidade civil) A RESPONSABILIDADE CIVIL no Código de Defesa do Consumidor: é em regra, OBJETIVA, tanto para o FATO como para o VÍCIO do produto ou do serviço. Neste sentido, é o teor do art. 23 do CDC, ao afirmar que “a ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade”. Excepciona-se a responsabilidade civil dos PROFISSIONAIS LIBERAIS pelo fato do serviço = art. 14, § 4º – esta, em regra, é SUBJETIVA (quando a obrigação é de meio. Será também objetiva quando a obrigação é de resultado). 3. VÍCIO, DEFEITO E FATO: DIFERENÇAS O DEFEITO é a desconformidade de um produto ou serviço com as expectativas legítimas dos consumidores e que tem a capacidade de provocar acidentes de consumo (com riscos à saúde, segurança ou patrimônio extrínseco do consumidor). O VÍCIO se configura quando o produto ou o serviço apresenta apenas desconformidade com a legítima expectativa do consumidor, quanto à sua qualidade ou quantidade, sem a potencialidade de provocar acidentes (sem riscos à saúde, segurança ou patrimônio extrínseco do consumidor). O VICIO está ligado à falta de qualidade ou quantidade do produto ou do serviço que não corresponde à expectativa do consumidor e a extensão do dano material não ultrapassa ao valor do próprio produto – diz-se que é intrínseco ao produto. No FATO do produto ou do serviço (acidente de consumo) ocorre a consumação do dano causado por defeito. Neste caso, o dano ultrapassa a esfera intrínseca do produto ou do serviço e atinge a incolumidade física do consumidor ou seu patrimônio extrínseco – diz-se que o dano econômico é extrínseco ao produto (pode superar o valor do produto). Como exemplo, podemos citar o caso do aparelho celular com defeito que explode e queima a orelha do consumidor (fato), ou do fogão que vasa gás (defeito) pega fogo e destrói toda a cozinha do consumidor (fato). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 70 O DEFEITO PRESSUPÕE O VÍCIO E O FATO PRESSUPÕE DO DEFEITO. Isto é, o simples vício (falta de qualidade) acrescido do risco à saúde, segurança e patrimônio extrínseco do consumidor torna-se defeito (vício qualificado pela insegurança). Do defeito (vício qualificado pelo risco) que resulta num evento danoso tem-se o fato (acidente de consumo): VÍCIO DEFEITO FATO Exemplo: Se o aparelho de tv não sintoniza adequadamente o canal ou falta-lhe uma das cores na formação da imagem, tem-se aí um vício de qualidade do produto. Se o televisor dá choque, trata-se de um defeito (risco concreto à saúde e à segurança do consumidor). Se, entretanto, o consumidor, toma choque elétrico ao ligar o televisor, tem-se aí um fato do produto (dano extrínseco que atinge a saúde e segurança do consumidor). Cláudia Lima Marques explica que, “no sistema do CDC, pode haver o dano e o nexo causal entre o dano e o produto (explosão de um botijão de gás), mas, se não existir o defeito (art. 12, § 3º, II), não haverá obrigação de reparar para o fornecedor, arcando este, porém, com ônus da prova da inexistência do defeito de seu produto” (Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, 2ª ed., p. 259). Para que haja o defeito é mister que estejam presentes dois elementos: a) a desconformidade com a uma expectativa legítima e b) a capacidade de provocar acidentes. Defeito nada mais é do que um vício qualificado pela possibilidade de causar um acidente de consumo. Se o defeito vier a provocar efetivamente o acidente, este evento denomina- se fato do produto (acidente de consumo). DEFEITO é um vício qualificado pelo risco concreto à saúde, segurança ou patrimônio extrínseco do consumidor. No vício e no defeito a indenização pelos danos materiais nunca ultrapassa o valor do próprio produto ou serviço. O CDC instituiu o DEVER DE SEGURANÇA para o FORNECEDOR – verdadeira cláusula geral –, o dever de não colocar no mercado de consumo produto ou serviço com defeito (arts. 8º, 9º e 10 do CDC). De sorte que, se o lançar e este (o defeito) der causa ao acidente de consumo, por ele responderá independente de culpa (Sérgio Cavalieri Filho, Programa de responsabilidade civil, 4ª ed., p. 475). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 71 4. A RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO FATO DO PRODUTO também chamado de ACIDENTE DE CONSUMO é o acontecimento externo que causa dano físico ou material ao consumidor, decorrente de um DEFEITO do produto. FATO DO PRODUTO é o dano à saúde, segurança ou patrimônio extrínseco do consumidor causado por um defeito do produto. Patrimônio extrínseco – são os bens do consumidor que não o próprio produto. Trata-se de um regime de responsabilidade civil voltado para a proteção da incolumidade físico-psíquica e do patrimônio extrínseco do consumidor. Decorre do dever de segurança imposto ao fornecedor de produtos e serviços: a) dever de segurança, b) dever de diligência e; c) dever de informação. EMENTA: “Lata de tomate Arisco. Dano na abertura da lata. Responsabilidade civil do fabricante. O fabricante de massa de tomate que coloca no mercado produtos acondicionados em latas cuja abertura requer certos cuidados, sob pena de risco à saúde do consumidor, e sem prestar a devida informação, deve indenizar os danos materiais e morais daí resultantes” (STJ – REsp. 237.964-SP – 4ª Turma – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 08.03.2000). 4.1. QUEM É O RESPONSÁVEL PELO FATO DO PRODUTO? Art. 12.O FABRICANTE, o PRODUTOR, o CONSTRUTOR, nacional ou estrangeiro, e o IMPORTADOR respondem, INDEPENDENTE DA EXISTÊNCIA DE CULPA, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. Pelo CDC existem três (03) espécies de fornecedores: FORNECEDOR REAL – fabricante, construtor, produtor FORNECEDOR PRESUMIDO – importador FORNECEDOR APARENTE – comerciante Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 72 RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO, artigo 12, caput >> RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA >> incide somente sobre: O FABRICANTE, o PRODUTOR, o CONSTRUTOR e o IMPORTADOR: – são eles que dominam o processo de produção e introduzem o produto perigoso no mercado – os produtos, normalmente já vêm embalados. O COMERCIANTE foi excluído (responde subsidiariamente), não tem controle sobre a segurança e qualidade das mercadorias – recebe os produtos fechados, embalados, enlatados. Exemplo: na hipótese do aparelho eletrodoméstico que apenas dá choque (vício de qualidade acrescido do risco = defeito), adquirido na loja, o consumidor deve acionar o comerciante ou o fabricante – são solidariamente responsáveis, nos termos do art. 18 do CDC. Quando, entretanto, o consumidor toma choque elétrico (ocasionando danos à sua saúde), por força de um defeito de fabricação do produto (numa geladeira, por exemplo) trata-se de um ACIDENTE DE CONSUMO ou FATO DO PRODUTO. Neste caso, a responsabilidade civil é somente do fabricante. Para a efetivação da responsabilidade civil pelo fato do produto ou do serviço é mister verificar a presença dos três elementos: o DANO e o NEXO CAUSAL entre o dano e EVENTO DANOSO (ou entre o dano e o DEFEITO, ou conduta do agente, ou fato do produto ou do serviço). É de se ressalvar, entretanto que, por força dos arts. 12, § 3º, II e 14, § 3º, inc. I, a inexistência do defeito (EVENTO DANOSO) é sempre encargo probatório do fornecedor (inversão legal do ônus da prova – ver comentário do art. 6º, inc. VIII). Os outros dois requisitos – DANO e NEXO DE CAUSALIDADE – podem ser objeto de inversão do ônus da prova à critério do juiz, se presentes os requisitos da verossimilhança ou hipossuficiência (art. 6º, inc. VIII). A CULPA é inteiramente estranha às relações de consumo, salvo nos casos em que a responsabilidade é subjetiva (resp. civil dos profissionais liberais – art. 14, § 4º). Ou também, no caso fixação do valor da reparação pelos danos morais, para quem considera o seu aspecto punitivo. O fato gerador da responsabilidade do fornecedor não é mais a conduta culposa, tampouco a relação jurídica contratual, mas sim o defeito do produto. Bastará o nexo de causalidade entre o defeito do produto ou serviço e o acidente de consumo.15 15 Cf. CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 473. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 73 4.2. O DEFEITO DO PRODUTO O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, nos termos do art. 12, §1º do CDC. Conforme a origem, o DEFEITO DO PRODUTO pode ser de: (1) Concepção; (criação, projeto, fórmula) (2) Fabricação; (produção, construção, montagem) (3) Comercialização (informação, publicidade, apresentação) A consumação do DANO decorrente do DEFEITO DO PRODUTO é denominada acidente de consumo (ou fato do produto): Exemplo: Um botijão de gás que continha um vazamento (defeito) foi adquirido pelo consumidor. Repentinamente, por causa do vazamento (defeito) o botijão estourou causando a morte de pessoas e a destruição da casa (acidente de consumo ou fato do produto). Exemplo: Um copo de geléia de mocotó foi adquirido por um consumidor, que comeu algumas colheres e sofreu intoxicação (acidente de consumo ou fato do produto). O laudo pericial constatou que a geléia continha raticida (defeito). Art. 12. (...) § 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I - sua apresentação; Refere-se à informação adequada sobre os riscos do produto: bula, embalagem, etiquetagem, avisos etc. II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; O risco normal do produto deve estar inserido dentro da legítima expectativa do consumidor, se ultrapassá-la o produto é defeituoso. III - a época em que foi colocado em circulação. Trata-se do RISCO DO DESENVOLVIMENTO tecnológico – a responsabilidade não pode ser excluída para os produtos que não puderam ser considerados como defeituosos segundo o desenvolvimento tecnológico vigente ao momento em que o fabricante os colocou em circulação. 4.3. O DANO MORAL NOS ACIDENTES DE CONSUMO O DANO MORAL é uma espécie de dano que não se insere na diferenciação que o CDC faz entre o fato (art. 12 e 14) e vício (art. 18, 19 e 20) do produto ou do Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 74 serviço, isto é, pode haver o dano moral conexo com qualquer das duas espécies de responsabilização, fato ou vício. A diferenciação entre fato e vício do produto ou serviço tem como parâmetro tão somente os danos materiais ocorridos, conforme estes danos materiais sejam extrínsecos ou intrínsecos ao produto ou serviço, respectivamente. Assim, se na hipótese de um vício do produto ocorrer dano moral ao consumidor, a tipificação não se desloca para fato do produto. Em suma, o que se quer afirmar é que os danos materiais provenientes do fato do produto ou do serviço ou até mesmo dos vícios do produto ou do serviço são distintos dos danos morais deles advindos. Por outro lado, mesmo que o problema do fato ou vício do produto ou do serviço (danos materiais) seja solucionado pelo fornecedor em tempo hábil, pode ocorrer que dele decorra também os danos morais. De forma que “o vício do produto ou do serviço, ainda que solucionado pelo fornecedor no prazo legal, poderá ensejar a reparação por danos morais, desde que presentes os elementos caracterizadores do constrangimento à esfera moral do consumidor” (STJ – REsp. 324.629-MG – 3ª Turma – j. 10.12.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi – DJU 28.04.2003, p. 198). Assim, à guisa de exemplo, “se o veículo zero-quilômetro apresenta, em seus primeiros meses de uso, defeitos, em quantidade excessiva e capazes de reduzir substancialmente a utilidade e a segurança do bem, terá o consumidor direito à reparação por danos morais, ainda que o fornecedor tenha solucionado os vícios do produto no prazo legal” (STJ – REsp. 324.629-MG – 3ª Turma – j. 10.12.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi – DJU 28.04.2003, p. 198). 4.4. PRODUTOS ANTIGOS NÃO SÃO DEFEITUOSOS Art. 12 (...) § 2° O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado. Produtos antigos não são defeituosos. Ao se tornarem antigos, os produtos não se tornam, automaticamente, defeituosos. Significa que a evolução tecnológica dos novos produtos colocados no mercado não torna defeituosos os produtos antigos, que na sua época de sua colocação no mercado eram considerados de última geração. Ex: o fusquinha, sem freio a disco, sem cinto de segurança, sem direção hidráulica etc. não é considerado defeituoso em face dos modernos veículos modelo 2004. QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. Em relação à responsabilidade pelo fato do produto, este não é considerado defeituoso em razão de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado. v Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 75 4.5. A SOLIDARIEDADEPELO FATO DO PRODUTO É a regra geral no CDC. Portanto, se houver mais de um causador do dano, ou mais de um fabricante - todos respondem SOLIDARIAMENTE pela reparação. Neste sentido, é o teor do art. 7º, parágrafo único do CDC: “Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo”. Os arts. 18, caput e 25, §§ 1º e 2º também estabelecem a solidariedade dos fornecedores pelos danos aos consumidores causados por vícios ou fatos dos produtos ou serviços. 4.6. A RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA DO COMERCIANTE A responsabilidade do comerciante pelo fato do produto é apenas subsidiária, isto é, só será responsabilizado quando ocorrer alguma das hipóteses dos três incisos do art. 13 abaixo. QUESTÃO = MPDF/2003 = ( ) V ou F. Como regra, o fabricante, o produtor, o importador e o comerciante respondem, solidariamente e independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos de construção montagem, fórmulas, manipulações ou apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização. f “Transferindo a função de ‘garantidor’, antes cumprida pelo fornecedor direto (comerciante) para o fabricante, persegue-se assim a realização das expectativas legítimas de segurança dos consumidores ante os produtos que consomem” (Marques, Benjamin e Miragem. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, p. 226). Para Sérgio Cavalieri Filho, a inclusão do comerciante, não exclui a do fabricante ou outro fornecedor, mas faz aumentar a cadeia de solidariamente responsáveis => “mesmo no caso de consumo de produto impróprio, por sua má conservação, entendemos, com a vênia dos respeitáveis entendimentos em contrário, que o fabricante ou produtor não fica excluído do dever de indenizar. (...) O dever jurídico do fabricante é duplo: colocar no mercado produtos sem vícios de qualidade e impedir que aqueles que os comercializam, em seu benefício, maculem sua qualidade original” (Programa de responsabilidade civil, p. 479). Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando: I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados; - quando o comerciante obstaculariza a identificação do fabricante Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 76 II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador; - quando o produto comercializado não tiver a identificação do fabricante. III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis. - quando o comerciante não conservar os produtos perecíveis de forma adequada. Na dúvida quanto à responsabilidade pela má conservação do produto, o consumidor pode acionar solidariamente o fabricante e o comerciante, ou qualquer um dos dois. Exemplo: No caso de um iogurte estragado adquirido pelo consumidor no supermercado e que venha a causar intoxicação a um dos filhos do adquirente (fato do produto). Pergunta-se: quem é o responsável pela má-conservação do produto? O supermercado, o fabricante, o transportador ou o distribuidor? Em face da impossibilidade de saber quem é o verdadeiro responsável pela má-conservação do produto, o consumidor pode acionar a qualquer um deles, alguns ou todos, solidariamente. EMENTA: “Consumidor. Responsabilidade por fato do produto. Legitimidade do fabricante real, como fornecedor, legitima-se ele, passivamente, na ação de responsabilidade por fato do produto, sendo inadmissível mandar citar, de ofício, o comerciante, que não responde no caso (art. 13 da Lei n. 8.078/90). 2. Agravo provido” (TJRS – Agr. Inst. 596009365 – 3ª Câm.Cív. – rel. Des. Araken de Assis – Ac. 29.02.1996 – Revista de Jurisprudência do TJRS, Porto Alegre, v. 31, n. 175, p. 445-7, abr/1996). 4.7. QUEM RESPONDE PELA COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTO COM PRAZO DE VALIDADE VENCIDO? Em conformidade com o princípio da solidariedade que rege a responsabilização pelos danos causados ao direito do consumidor (art. 25, § 1º), o STJ firmou entendimento que não só o comerciante, mas também o fabricante responde diretamente perante o consumidor pela comercialização de produto com prazo de validade vencido. Neste sentido, uma empresa fabricante de produtos alimentícios foi condenada a indenizar o consumidor por danos morais em face de produto de sua fabricação ter sido comercializado com prazo de validade vencido há mais de um ano. Entendeu-se que a possível configuração de culpa do comerciante não afasta o direito do consumidor de propor ação contra o fabricante que, posteriormente, pode propor ação de regresso. EMENTA: “Direito do consumidor. Recurso especial. Ação de indenização por danos morais e materiais. Consumo de produto colocado em circulação quando seu prazo de validade já havia transcorrido. "Arrozina Tradicional" vencida que Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 77 foi consumida por bebês que tinham apenas três meses de vida, causando-lhes gastroenterite aguda. Vício de segurança. Responsabilidade do fabricante. Possibilidade. Comerciante que não pode ser tido como terceiro estranho à relação de consumo. Não configuração de culpa exclusiva de terceiro. - Produto alimentício destinado especificamente para bebês exposto em gôndola de supermercado, com o prazo de validade vencido, que coloca em risco a saúde de bebês com apenas três meses de vida, causando-lhe gastroenterite aguda, enseja a responsabilização por fato do produto, ante a existência de vício de segurança previsto no art. 12 do CDC. - O comerciante e o fabricante estão inseridos no âmbito da cadeia de produção e distribuição, razão pela qual não podem ser tidos como terceiros estranhos à relação de consumo. - A eventual configuração da culpa do comerciante que coloca à venda produto com prazo de validade vencido não tem o condão de afastar o direito de o consumidor propor ação de reparação pelos danos resultantes da ingestão da mercadoria estragada em face do fabricante. Recurso especial não provido.” (STJ – REsp. 980.860-SP – 3ª Turma – j. 23.04.2009 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 02.06.2009)” 4.7.1. PRODUTO COM PRAZO DE VALIDADE VENCIDO: RESPONSABILIDADE PENAL DO COMERCIANTE EMENTA: Processual penal. Recurso Especial. Crime contra a relação de consumo. Produto Impróprio ao consumo. Perícia. Desnecessidade. Delito formal. Recurso conhecido e provido. 1. Consoante o entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, a conduta do comerciante que vende ou expõe à venda produto impróprio ao consumo é suficiente para configurar o delito constante do art. 7º, inciso IX, da Lei 8.137/90, sendo desnecessária a comprovação da materialidade delitiva por meio de laudo pericial, desde que existam outros elementos de convicção a respeito, como no caso, mesmo porque se cuida de crime formal, de perigo abstrato. 2. Recurso conhecido e provido para, anulando o acórdão recorrido, determinar ao Juízo singular que proceda ao trâmite regular do feito, desde o recebimento da denúncia. (STJ – REsp. 1.060.917-RS – 5ª Turma – j. 19.03.2009 – rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, DJe 13.04.2009). 4.7.2. PRODUTO COM PRAZO DE VALIDADE VENCIDO: É IMPRÓPRIO PARA O CONSUMO E DESNECESÁRIA A REALIZAÇÃO DE PERÍCIA EMENTA: Penal e processual penal. Recurso Especial. Art. 7º, inciso IX da Lei n. 8.137/90 e art. 18 § 6º, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor. Exame Pericial. Desnecessidade. A conduta do comerciante que expõe à venda a matéria-prima ou mercadoria, com o prazo de validade vencido configura, em princípio, a figura típica do art. 7º, inciso IX da Lei nº 8.137/90 c/c o art. 18 § 6º da Lei nº 8.078/90, sendo despicienda, para tanto, a verificação pericial, após a apreensão do produto, de ser este último realmenteimpróprio para o consumo. O delito em questão é de perigo presumido (Precedentes do STJ e do Pretório Excelso). Recurso provido. (STJ – REsp. 620.237-PR – 5ª Turma – j. 21.10.2004 – rel. Min. Felix Fischer, DJU 16.11.2004, p. 315). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 78 4.8. E SE O COMERCIANTE SABIA DO DEFEITO DO PRODUTO? O art. 12 caput exclui a responsabilidade solidária do comerciante por presunção relativa de que ele não conhece o defeito do produto que já vem embalado pelo fabricante. Se o comerciante conhece o defeito do produto, o comercializa e nada faz para impedir o dano, será solidariamente responsável pelo dano causado ao consumidor. Exemplo: o remédio que posteriormente a colocação no mercado descobre-se que pode causar dano à saúde. O comerciante recebe a comunicação do órgão da vigilância sanitária e mesmo assim o comercializa. Neste caso, há o descumprimento do dever de informação sobre os riscos dos produtos e serviços, nos termos do art. 6º, inc. III (“É direito básico do consumidor: a informação adequada sobre os riscos dos produtos e serviços”). No mesmo passo, o art. 10, § 1º, instituiu para o fornecedor o dever de informar o consumidor “se tiver conhecimento” da periculosidade de um produto que ajudou a colocar no mercado. Assim, o comerciante é igualmente responsável pelo dano, se tiver conhecimento do risco (periculosidade) e não avisar o consumidor. 4.9. O DIREITO DE REGRESSO Art. 13. (...) Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso. Todos os responsáveis pelos danos causados ao consumidor são solidariamente responsáveis pela reparação (art. 7º, parágrafo único e art. 25, § 1º do CDC). Aquele que efetivar o pagamento poderá exercer o direito de regresso contra os outros responsáveis solidários. Exemplo: “O comerciante pode até ser responsabilizado pelos danos causados à saúde de seus clientes e de suas famílias, pois está mais próximo e se presume que tenha falhado na conservação do produto perecível, mas, se o defeito do produto foi causado pelo fabricante, terá o comerciante direito de regresso e, se o defeito que deu origem ao evento danoso foi causado totalmente pelo fabricante, terá direito ao regresso integral” (Cláudia Lima Marques, Contratos..., 3ª ed., p. 630) direito de regresso - o fornecedor demandado poderá ajuizar demanda autônoma ou, após encerrada a ação indenizatória, prosseguir nos mesmos autos contra os co-responsáveis (art. 88 do CDC). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 79 A ação de regresso, movida pelo fornecedor que pagou a indenização contra aquele(s) outro(s) fornecedor(es) verdadeiros ou co-responsáveis pelo dano tem como base jurídica não mais o CDC, mas o Código Civil (ação civil entre empresários). Entretanto, a natureza da responsabilidade civil continua a ser objetiva, por força do art. 731 do CC. 4.9.1. A DENUNCIAÇÃO DA LIDE Pergunta-se: Pode o fabricante demandado denunciar a lide o comerciante? E o comerciante pode denunciar a lide ao fabricante? O art. 88 CDC estabelece que, na hipótese do art. 13 (“aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso”) é vedado ao fabricante, construtor, produtor ou importador responsabilizado pelo fato do produto denunciar a lide ao comerciante. Assim, por exemplo, o fabricante demandado pelo consumidor atingido no olho pela explosão de uma garrafa de cerveja não pode denunciar a lide ao comerciante ou ao fabricante do vasilhame. Da mesma forma, o comerciante demandado pelo dano causado ao consumidor pela ingestão de produto alimentício defeituoso pela má conservação, não pode denunciar a lide ao fabricante. CDC: “Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste Código, a ação de regresso poderá se ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da lide”. A intenção do legislador foi evitar que o fabricante demandado denunciasse a lide a um outro fabricante de um outro estado da federação e este denunciasse a lide a um outro fabricante (de peças, por exemplo), e aí sucessivamente, retardando o desfecho do processo, dificultando a pronta reparação do dano causado ao consumidor. Desta forma, o fabricante ou o comerciante demandado só poderá exercer o direito de regresso após o efetivo pagamento dos danos ao consumidor prejudicado, nos mesmos autos ou em processo autônomo. O regresso é uma nova ação de conhecimento, cujo objeto litigioso será exclusivamente o ressarcimento daquilo que o comerciante pagou ao consumidor. EMENTA: “Civil e processual. Ação de indenização. Estouro de garrafa de cerveja. Ação movida contra a fabricante da bebida. Denunciação da lide contra o produtor do vasilhame e o titular do ponto de venda indeferida corretamente. Perícia técnica no material. Desnecessidade para identificação da responsabilidade da cervejaria. CDC, art. 12. Recurso Especial. Matéria fática. Reexame. Impossibilidade. Súmula n. 7-STJ. Dano moral. Valor. Razoabilidade. I – Havendo nos autos elementos suficientes à identificação da origem da lesão causada ao autor – estouro da garrafa – desnecessária a realização da prova técnica para apuração do defeito do produto, o que desejava fazer a cervejaria ré para fins de atribuição de responsabilidade ou à fábrica de vasilhame, ou ao comerciante titular do ponto de venda, porquanto incabível, de toda sorte, a Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 80 denunciação à lide dos mesmos, por se tratar de relação jurídica estranha àquela já instaurada, pertinente e suficiente, entre o consumidor final e a fabricante da bebida. II – Incabível trazer ao debate responsabilidades secundárias, em atendimento a mero interesse da ré, à qual fica assegurado o direito de regresso em ação própria. III – ‘A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial’ (Súmula n. 7 – STU). IV – Dano moral fixado em patamar razoável e compatível com a lesão causada, que levou o autor a submeter-se a intervenção cirúrgica ocular e afastamento do trabalho por cerca de um mês. V – Recurso especial não conhecido.” (STJ – REsp. 485.742-RO – 4ª Turma – j. 16.12.2003 – rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJU 08.03.2004, p. 258). A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça mudou e adotou uma interpretação restritiva em relação ao parágrafo único do art. 13 para considerar que sua aplicação só é cabível quando se trata de danos causado pelo fornecimento de produtos defeituosos (art. 12 do CDC). Ou seja, o parágrafo único do art. 13, não se aplica aos danos causados pelo fornecimento de serviços e não cabe a ampliação subjetiva do pólo passivo da ação através da denunciação da lide, quando se tratar de danos causados por defeito na prestação dos serviços: EMENTA: “Ação de indenização por dano moral. Pagamento indevido de cheque. Art. 88 do Código de Defesa do Consumidor. Denunciação da lide. 1. Havendo relação de consumo, é vedada a denunciação da lide com relação às hipóteses do art. 13 do Código de Defesa do Consumidor, determinando o art. 88 que a ação de regresso ‘poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmo autos, vedada a denunciação da lide. Ora, o artigo 13 do Código de Defesa do Consumidor cuida da responsabilidade do comerciante, o que não é o caso, do fornecedor de serviços, alcançado pelo art. 14 do mesmo Código. Daí que, em tal circunstância, não há falar em vedação à denunciação da lide com tal fundamento. 2. Recurso especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 464.466-MT – 3ª Turma – j. 06.06.2003 – rel. Min. Carlos AlbertoMenezes Direito, DJU 01.09.2003, p. 280). Explica a Min. Nancy Andrighi que o parágrafo único do art. 13 trata claramente da responsabilização do comerciante pelos defeitos apresentados pelos produtos por ele comercializados, nas hipóteses identificadas no caput do art. 13 (“Aquele ‘comerciante’ que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso”). “Trata-se de norma que foi introduzida no código com a clara intenção de facilitar o exercício dos direitos do consumidor em juízo, na esteira da diretriz contida no art. 6º, inciso VIII, do CDC. Vale dizer: sempre que não houver identificação do responsável pelos defeitos nos produtos adquiridos, ou que sua identificação for difícil, autoriza-se que o consumidor simplesmente litigue contra o comerciante, que perante ele fica diretamente responsável. Após, numa nova demanda, sem a participação do consumidor – que já terá satisfeitos seus direitos – autoriza-se a ação de regresso do comerciante para que o prejuízo seja suportado pelo verdadeiro causador do dano.” (STJ – REsp. 741.898-RS – 3ª Turma – j. 15.12.2005 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 20.11.2006, p. 305). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 81 EMENTA: “Processo civil. Denunciação da lide. Ação em que se discute defeito na prestação de serviços a consumidor. Possibilidade de litisdenunciação. - A restrição à denunciação da lide imposta pelo art. 88 do CDC, refere-se apenas às hipóteses de defeitos em produtos comercializados com consumidores, de que trata o art. 13 do CDC. - Na hipótese de defeito na prestação de serviços (art. 14, do CDC), tal restrição não se aplica. Precedente. Recurso especial a que se dá provimento” (STJ – REsp. 741.898-RS – 3ª Turma – j. 15.12.2005 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 20.11.2006, p. 305).. Por esse entendimento, a vedação se restringe aos danos causados pelo fornecimento de produtos defeituosos. De conseqüência, o fornecedor de serviços – um franqueado, por exemplo, (serviço especializado de retoque em pintura de automóveis, prestado por uma empresa franqueada) – se demandado por fato do serviço ou vício do serviço pode denunciar a lide à empresa franqueadora com sede em São Paulo, dificultando processualmente a pronta reparação do dano causado ao consumidor. No mesmo passo, a agência de turismo demanda por dano sofrido pelo consumidor de pacote turístico poderia denunciar a lide ao hotel ou a empresa de transporte que fez o traslado do consumidor do hotel até o aeroporto. O banco demandado por defeito no serviço denunciaria à lide a empresa de cartão de crédito que denunciaria à lide a empresa seguradora etc. EXCEÇÃO À REGRA: Ressalva-se que o art. 101 do CDC permite que, nas ações de consumo, o fornecedor-réu poderá “chamar ao processo” (denunciar a lide) a empresa seguradora para integrar a lide, na condição de co- responsável pela indenização, vedada, porém, a integração do contraditório pelo Instituto de Resseguros do Brasil. 4.10. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO O CDC não adotou a responsabilidade civil objetiva integral ou absoluta, mas a relativa ou mitigada, porque admite hipóteses de exclusão da responsabilidade. Art. 12. (...) § 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I - que não colocou o produto no mercado; II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste; III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 82 4.10.1. NÃO COLOCAÇÃO DO PRODUTO NO MERCADO A não colocação do produto no mercado pelo fornecedor, obviamente, afasta o nexo de causalidade entre a atividade do fornecedor e o dano sofrido pelo consumidor. Entretanto, quando determinado produto é colocado no mercado de consumo, a presunção é que tal colocação foi feita pelo fornecedor. Se este produto causa danos ao consumidor, em razão de defeito, cabe ao fornecedor demandado produzir a prova de que não foi ele quem o colocou no mercado de consumo. Pode ocorrer que o produto tenha sido falsificado ou que, ainda em fase de testes foi subtraído através de atividade criminosa etc. 4.10.2. INEXISTÊNCIA DE DEFEITO Não constatada a presença de defeito no produto não haverá nexo de causalidade entre o dano sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. Se o produto não apresenta defeito o dano terá ocorrido por outra causa não imputável ao fornecedor. Assim, por exemplo, após a realização da perícia constatou-se que o televisor queimou, não por defeito do produto, mas por causa de sobrecarga na rede de energia elétrica. “Mas se defeito existir, e dele decorrer o dano, não poderá o empresário alegar a imprevisibilidade, nem a inevitabilidade, para se eximir do dever de indenizar. Teremos o chamado fortuito interno, que não afasta a responsabilidade do empresário” (Sergio Cavalieri, Programa de responsabilidade civil, 6ª ed., p. 195). 4.10.3. FATO EXCLUSIVO DO CONSUMIDOR Ocorre o fato exclusivo do consumidor quando sua conduta é a causa direta e determinante do evento danoso, sem que seja possível detectar qualquer defeito no produto ou conduta do fornecedor capaz de ensejar a sua ocorrência. “Se o comportamento do usuário é a única causa do acidente de consumo, não há como responsabilizar o produtor ou fornecedor, por ausência de nexo de causalidade entre sua atividade e o dano”.16 O elemento culpa não é considerado para configuração da responsabilidade objetiva. Por isso, não é tecnicamente correto falar em “culpa” exclusiva da vítima, mas sim, em “fato” exclusivo da vítima. 4.10.4. FATO DE TERCEIRO O fato de terceiro é a causa superveniente e exclusiva que produz o resultado e quebra o nexo de causalidade entre a ação ou atividade do fornecedor de produtos e o dano sofrido pelo consumidor.17 Assim, o fato de terceiro, por ser um evento estranho à atividade do fornecedor, quando 16 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 195. 17 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 196. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 83 imprevisível e inevitável, equipara-se ao fortuito externo e é causa de excludente de responsabilidade civil. Da mesma forma, “se a enfermeira, por descuido ou intencionalmente, aplica medicamento errado no paciente – ou em dose excessiva -, causando-lhe a morte, não haverá responsabilidade alguma do fornecedor do medicamento. O acidente não decorreu de defeito do produto, mas sim da exclusiva conduta da enfermeira – caso em que deverá responder o hospital por defeito do serviço”.18 Ressalva-se que, no direito do consumidor, na hipótese de acidente de consumo, em regra, só é considerado terceiro aquele fornecedor que não compõe a cadeia produtiva. Assim, por exemplo, o fabricante de pneu não pode ser considerado terceiro, no caso de um veículo Ford novo, recém adquirido, cujo pneu explode e provoca um acidente. Neste caso, por força do art. 12, caput do CDC, qualquer dos dois fabricantes que for acionado deve indenizar o consumidor pelos danos sofridos e pode voltar regressivamente contra o verdadeiro responsável pelo acidente de consumo. 4.10.5. CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR Embora não estejam arroladas no rol do art. 12, § 3º do CDC, o caso fortuito e a força maior são, naturalmente, excludentes da responsabilidade civil objetiva. São eventos que deslocam o nexo de causalidade para fatores externos à conduta que supostamente teria causado o evento danoso. A confirmação do caso fortuito ou força maior quebra a relação de causa e efeito entre a conduta e o dano e exclui a responsabilidadecivil do demandado. A doutrina considera o caso fortuito e a força maior como expressões sinônimas. O que interessa, de fato, é saber se o fortuito é interno (ligado à atividade ou ao produto) ou externo (estranho à atividade ou ao produto, act of god). Fortuito externo é todo evento causador de danos que não pode ser atribuído a ninguém, por ser estranho à pessoa do agente e à coisa (produto). Caracteriza-se por ser um evento de caráter inevitável. Corresponde a todo fato que, mesmo previsível, seja inevitável. Exemplo: um terremoto na Califórnia pode ser previsível, mas, é inevitável. O fortuito externo exclui qualquer obrigação de indenizar por falta de nexo de causalidade entre o fato e o dano sofrido pela vítima. O fortuito interno decorre da atividade do agente e está ligado à pessoa (erro ou mal súbito) ou à coisa (defeitos). Porquanto, “o estouro dos pneus do veículo, a quebra da barra de direção ou de outra peça, o rompimento do ‘burrinho’ dos freios e outros eventuais defeitos mecânicos não afastam a responsabilidade, porque previsíveis e ligados à máquina”.19 O fortuito interno 18 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 196. 19 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume IV: responsabilidade civil. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 448. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 84 não quebra o nexo de causalidade entre o evento danoso e o dano sofrido pela vítima e gera a obrigação de indenizar. EMENTA: “Ação de indenização. Estacionamento. Chuva de granizo. Vagas cobertas e descobertas. Art. 1.277 do Código Civil. Código de Defesa do Consumidor. Precedente da Corte. 1. Como assentado em precedente da Corte, o "fato de o artigo 14, § 3° do Código de Defesa do Consumidor não se referir ao caso fortuito e à força maior, ao arrolar as causas de isenção de responsabilidade do fornecedor de serviços, não significa que, no sistema por ele instituído, não possam ser invocadas. Aplicação do artigo 1.058 do Código Civil" (REsp n° 120.647-SP, Relator o Senhor Ministro Eduardo Ribeiro, DJ de 15/05/00). 2. Havendo vagas cobertas e descobertas é incabível a presunção de que o estacionamento seria feito em vaga coberta, ausente qualquer prova sobre o assunto. 3. Recurso especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 330.523-SP – 3ª Turma – j. 11.12.2001 – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 25.03.2002, p. 278). 4.11. A CULPA CONCORRENTE Primeiramente, é de se observar que a expressão “culpa concorrente” é totalmente inadequada para tratar das situações de responsabilidade objetiva, onde a culpa é um elemento estranho à verificação da responsabilização. Melhor seria dizer concorrência de causas, ou fato concorrente ao invés de “culpa concorrente”. Como já se viu, o fato exclusivo da vítima exclui o nexo causal e exime o agente da obrigação de indenizar. No fato concorrente dois fatos, do agente e da vítima, concorrem pra produzir um só dano. O fato concorrente não exclui o nexo de causalidade e nem a responsabilidade do causador do dano, mas apenas reduz o valor da indenização no limite da proporção da contribuição da vítima para a causação do resultado danoso. EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade do fornecedor. Culpa concorrente da vítima. Hotel. Piscina. Agência de viagens. 1. Responsabilidade do hotel, que não sinaliza convenientemente a profundidade da piscina, de acesso livre aos hóspedes. Art. 14 do CDC. 2. A culpa concorrente da vítima permite a redução da condenação imposta ao fornecedor. Art. 12, § 2º, III, do CDC. 3. A agência de viagem responde pelo dano pessoal que decorreu do mau serviço do hotel contratado por ela para a hospedagem durante o pacote de turismo. Recursos conhecidos e providos em parte” (STJ – REsp. 287.849 – 4ª Turma – j. 17.04.2001 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 13.08.2001, p. 165). No Código Civil é expressa a redução da responsabilidade civil em face da “culpa concorrente” da vítima: “Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto coma a do autor do dano.” Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 85 5. FATO DO SERVIÇO A responsabilização pelo fato do serviço é idêntica ao do fato do produto (art. 12, caput do CDC). O FATO DO SERVIÇO, também chamado de ACIDENTE DE CONSUMO, é o acontecimento externo que causa dano físico ou material ao consumidor, decorrente de um DEFEITO na prestação do serviço. Exemplos de serviços que são objeto de relação de consumo: oficina mecânica, estacionamentos, hotéis, ensino, cartões de crédito, serviços bancários, seguros, serviços hospitalares, clínicas médicas (inclusive os serviços públicos tarifados: serviços uti singuli). SERVIÇOS >> estacionamentos, hotéis, estabelecimentos de ensino, cartões de crédito, bancos, seguros, hospitais, clínicas médicas (inclusive os serviços públicos tarifados: serviços uti singuli). EXEMPLO DE FATO DO SERVIÇO: Um paciente que, ao fazer hemodiálise em determinado hospital, se contamina com o vírus da hepatite B. O cliente verifica que o dinheiro depositado na caderneta de poupança sumiu. EMENTA: “Direito Civil. Responsabilidade civil. Furto em estacionamento. Shopping Center. Veículo pertencente a possível locador de unidade comercial. Existência de vigilância no local. Obrigação de guarda. Indenização devida. Precedentes. Recurso provido. I – Nos termos do enunciado n. 130/STJ, ‘a empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento”. II – A jurisprudência deste Tribunal não faz distinção entre o consumidor que efetua a compra e aquele que apenas vai ao local sem nada dispender. Em ambos os casos, entende-se pelo cabimento da indenização em decorrência do furto do veículo. III – A responsabilidade pela indenização não decorre de contrato de depósito, mas da obrigação de zelar pela guarda e segurança dos veículos estacionados no local, presumivelmente seguro” (STJ – REsp. 437.649-SP – 4ª Turma – j. 06.02.2003 – rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 24.02.2003, p. 242). 5.1. QUEM É O RESPONSÁVEL PELO FATO DO SERVIÇO? Diferentemente do FATO DO PRODUTO, a responsabilidade pelo FATO DO SERVIÇO inclui todos os fornecedores da cadeia produtiva. O caput do artigo fala em “fornecedor de serviço”. Assim, sem discriminar as categorias, nos termos do art. 14, caput, o qualquer fornecedor que participar da cadeia produtiva em relação ao fornecimento de determinado serviço defeituoso no mercado será solidariamente responsável pelos danos causados aos consumidores. Art. 14. O FORNECEDOR DE SERVIÇOS responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 86 5.2. O DEFEITO DO SERVIÇO § 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: I - o modo de seu fornecimento; II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam; III - a época em que foi fornecido. (risco do desenvolvimento) O serviço é defeituoso quando o risco que ele apresenta não está previamente inserido no âmbito da legitima expectativa do consumidor ou não é do seu conhecimento ordinário. É o caso, por exemplo, do serviço de instalação de um fogão que apresenta vazamento de gás. Ou serviço de cirurgia plástica, no qual, não ocorre a cicatrização da circuncisão no tempo e na forma especificada pelo cirurgião. Por outro lado, quandoa risco apresentado pelo serviço é do conhecimento prévio do consumidor, a periculosidade é inerente e o serviço não é considerado defeituoso. Nesta hipótese, o risco é inerente à legítima expectativa do consumidor, sendo que, os danos causados, em regra, não geram o dever de indenizar, porque não há defeito. É o caso, por exemplo, do prestador de serviço de dedetização que informa ao consumidor sobre os riscos à saúde quanto à utilização das dependências do imóvel antes de um certo período de tempo. O paciente que se submete à cirurgia para extração de um tumor mesmo informado sobre os riscos e as reduzidas chances de cura. Trata- se de riscos inerentes à própria natureza dos serviços. Os acidentes daí advindos, em regra, não geram a obrigação de indenizar, porque os riscos são inerentes (dentro da expectativa do consumidor) e, por isso, o serviço não é considerado defeituoso. Entretanto, para que o serviço seja considerado defeituoso é necessário que se observe alguns requisitos: O MODO DE FORNECIMENTO DO SERVIÇO - refere-se à informação adequada sobre os riscos do serviço. A simples apresentação ou informação inadequada sobre os riscos de um serviço pode torná-lo defeituoso por não levar ao consumidor o conhecimento suficiente sobre a utilização segura do serviço. Imagine a prestação de serviços de dedetização sem a apresentação (informação) adequada e suficiente sobre o seu proveito seguro. OS USOS E RISCOS QUE RAZOAVELMENTE DELE SE ESPERA – referem ao risco normal e previsível do serviço que deve estar inserido na legítima expectativa do consumidor (periculosidade inerente), se ultrapassá-la o serviço é defeituoso (periculosidade adquirida). A ÉPOCA EM QUE FOI COLOCADO EM CIRCULAÇÃO – Conforme explica Antônio Herman B. e Benjamin, a expectativa de segurança que importa é aquela vigente no momento da colocação do serviço no mercado e não em um Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 87 momento posterior, quando já existem outros com tecnologia e segurança mais avançados. 5.3. ADOÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS Art. 14 (...) § 2º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas. As inovações tecnológicas não tornam defeituoso o serviço anteriormente prestado conforme a tecnologia da época. De fato, não se pode responsabilizar o odontólogo por ter feito, em 1980, a extração de dente com cárie, se posteriormente, em 1990 descobriu-se uma nova tecnologia de recuperação de dentes cariados, sem precisar extraí-los. 5.4. EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL Art. 14. (...) § 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste; II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. A responsabilidade pelo fato do serviço – acidentes de consumo – é, em regra, objetiva, isto é, apurada independente da verificação de culpa. Excepciona-se a responsabilidade civil subjetiva dos profissionais liberais, nos termos do § 4º do art. 14. O CDC, entretanto, não adotou a responsabilidade civil objetiva integral ou absoluta, mas a relativa ou mitigada, porque admite hipóteses de exclusão da responsabilidade civil. As excludentes de responsabilidade civil quebram o nexo de causalidade entre a atividade ou conduta do fornecedor e o dano sofrido pelo consumidor e assim, não há a obrigação de indenizar. Várias são as hipóteses de excludentes de responsabilidade civil objetiva: a) inexistência de defeito; b) fato exclusivo do consumidor; c) fato de terceiro e; d) caso fortuito ou força maior. 5.4.1. INEXISTÊNCIA DE DEFEITO Não constatada a presença de defeito no serviço não haverá nexo de causalidade entre o dano sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. Se o serviço foi regularmente prestado e não apresenta defeito o dano terá ocorrido por outra causa não imputável ao fornecedor. “Mas se defeito existir, e dele decorrer o dano, não poderá o empresário alegar a imprevisibilidade, nem a inevitabilidade, para se eximir do dever de indenizar. Teremos o chamado fortuito interno, que não afasta a responsabilidade do empresário.” (Sérgio Cavalieri, Programa de responsabilidade civil, 6ª ed., p. 195). EMENTA: “1. (...) 2. Não se tratando, in casu, de pacote turístico, hipótese em que a agência de viagens assume a responsabilidade de todo o roteiro da viagem contratada, e tendo, portanto, inexistido qualquer defeito na Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 88 prestação de serviço pela empresa de viagens, posto que as passagens aéreas foram regularmente emitidas, incide, incontroversamente, as normas de exclusão de responsabilidade previstas no art. 14, § 3º, I e II, do CDC. Reconhecimento da ilegitimidade passiva ad causam da empresa de viagens, ora recorrente.” (STJ – REsp. 758.184-RR – 4ª Turma – j. 26.09.2006 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 06.11.2006, p. 332). 5.4.2. FATO EXCLUSIVO DO CONSUMIDOR Ocorre o fato exclusivo do consumidor quando sua conduta é a causa direta e determinante do evento danoso, sem que seja possível detectar qualquer defeito no produto ou conduta do fornecedor capaz de ensejar a sua ocorrência. “Se o comportamento do usuário é a única causa do acidente de consumo, não há como responsabilizar o produtor ou fornecedor, por ausência de nexo de causalidade entre sua atividade e o dano” (Sérgio Cavalieri, Programa de responsabilidade civil, 6ª ed., p. 195). O fato exclusivo do consumidor que produz o evento danoso (acidente de consumo) exime a responsabilidade do fornecedor pelo fato do serviço. Neste caso, o próprio consumidor se coloca na condição de vítima e sofre os danos causados por sua própria ação. Assim, por exemplo, se o consumidor não espera os dois dias carência recomendados pelo aplicador de produtos de dedetização, volta ao seu imóvel e sofre intoxicação, não há fato causado pela atividade do fornecedor de serviços. Da mesma forma, se o consumidor desatende às recomendações do médico e ingere medicamentos em dosagem acima do indicado e sofre intoxicação, também não há responsabilidade do fornecedor pelo dano sofrido. 4.4.3. FATO DE TERCEIRO O fato de terceiro é a causa superveniente e exclusiva que produz o resultado e quebra o nexo de causalidade entre a ação ou atividade do fornecedor de serviços e o dano sofrido pelo consumidor.20 O fato de terceiro, por ser um evento estranho à atividade do fornecedor, quando imprevisível e inevitável, equipara-se ao fortuito externo e é causa de excludente de responsabilidade civil. Assim, por exemplo, se a enfermeira, funcionária do hospital, por descuido ou intencionalmente, aplica medicamento errado ou em dose excessiva no paciente internado em estado de recuperação pós-operatório, causando-lhe a morte, não haverá responsabilidade pessoal do médico- cirurgião que realizou a cirurgia. O fato de terceiro só exonera a responsabilidade civil quando constitui causa estranha à atividade do fornecedor, isto é, quando elimina totalmente a 20 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 196. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 89 relação de causalidade entre o dano e o acidente de consumo. Quando os fornecedores são integrados na prestação do serviço, nenhum deles pode ser considerado terceiro, estranho à relação de consumo. 4.4.4. CASO FORTUITO OU FORÇA MAIOR A doutrina moderna considera como sinônimas as expressões caso fortuito e força maior utilizadas, conceituadas no parágrafo único do art. 393 do CC. Caso fortuito é um evento externo à conduta do agente de natureza inevitável (mesmo que previsível, exemplo: um tsunami da Indonésia). Exclui a obrigação de indenizar quando não foi a conduta do fornecedor de serviços ou o fato do serviço que gerou o dano ao consumidor, mas simum fato externo de natureza inevitável. Na nova doutrina da responsabilidade civil o que interessa saber é se o fortuito é interno (gera a obrigação de indenizar) ou se o fortuito é externo (não gera a obrigação de indenizar). Fortuito interno – fato interno, evitável e com conexão com a atividade do causador do dano – não exclui a obrigação de indenizar. Ex: danos causados pelo estouro do pneu do ônibus. Assalto no interior da agência bancária. Fortuito externo – fato externo, inevitável, porém sem conexão com a atividade do causador do dano – exclui a obrigação de indenizar. Ex: assalto a ônibus e os danos causados por um raio. 4.4.5. ASSALTO A ÔNIBUS: FATO DO SERVIÇO OU CASO FORTUITO? A Segunda Seção do STJ, no julgamento do REsp. 345.865-RJ – rel. Min. Barros Monteiro, por maioria, DJU de 12.05.2003), uniformizou entendimento no sentido de que constitui caso fortuito, excludente de responsabilidade civil da empresa transportadora, assalto a mão armada ocorrido dentro de veículo coletivo. Portanto, como o caso fortuito quebra o nexo de causalidade, o assalto no interior de veículo de transporte coletivo não é considerado FATO DO SERVIÇO passível de gerar o dever de indenizar para a empresa prestadora de serviços. EMENTA: “Transporte coletivo. Assalto a mão armada no interior do ônibus. Precedente da Segunda Seção. 1. A Segunda Seção já assentou ser excludente da responsabilidade da empresa transportadora ‘o fato inteiramente estranho ao transporte em si, como é o assalto ocorrido no interior do coletivo’ (REsp. 435.865/RJ, Relator o Ministro Barros Monteiro, DJ de 12.05.02, Segunda Seção). 2. Recurso Especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 598.248/RJ – 3ª Turma – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 18.04.2005, p. 313). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 90 A exclusão da responsabilidade civil por caso fortuito se estende ao assalto ocorrido também na estação do metrô: EMENTA: “Administrativo. Responsabilidade civil. Assalto em estação do metrô. Caso Fortuito. 1. A empresa prestadora de serviço é responsável pelos danos causados ao usuário em decorrência do serviço ou de sua falta. Foge do nexo de causalidade os eventos ocorridos em decorrência de caso fortuito ou força maior. 3. Assalto ocorrido nas escadas de acesso ao metrô não pode ser considerado como falta do serviço, equiparando-se a assalto ocorrido em transporte coletivo. 4. Recurso especial provido” (STJ – REsp. 402.708/SP – 2ª Turma – j. 24.08.2004 – rel. Min. Eliana Calmon, DJU 28.02.2005, p. 267). Entretanto, não fica excluída a responsabilidade civil do fornecedor e se caracteriza como fato do serviço, o assalto ocorrido no interior do supermercado: EMENTA: “Responsabilidade civil. Ação de conhecimento sob o rito ordinário. Assalto a mão armada iniciado dentro do estacionamento coberto do supermercado. Tentativa de estupro. Morte da vítima ocorrida fora do estabelecimento, em ato contínuo. Relação de Consumo. Fato do serviço. Força maior. Hipermercado e shopping center. Prestação de segurança aos bens e à integridade física do consumidor. Atividade inerente ao negócio. Excludente afastada. Danos materiais. Julgamento além do pedido. Danos morais. Valor razoável. Fixação em salários-mínimos. Inadmissibilidade. Morte da genitora. Filhos. Termo final da pensão por danos materiais. Vinte e quatro anos. 1 – A prestação de segurança aos bens e à integridade físico do consumidor é inerente à atividade comercial desenvolvida pelo hipermercado e pelo shopping center, porquanto a principal diferença existente entre estes estabelecimento e o centros comerciais tradicionais reside justamente na criação de um ambiente seguro para a realização de compras e afins, capaz de induzir e conduzir o consumidor a tais praças privilegiadas, de forma a incrementar o volume de vendas. 2 – Por ser a prestação de segurança e o risco ínsitos à atividade dos hipermercados e shopping centers, a responsabilidade civil desses por danos causados aos bens ou à integridade física do consumidor não admite a excludente de força maior derivada de assalto a mão armada ou qualquer outro meio irresistível de violência. 3 – A condenação em danos materiais e morais deve estar adstrita aos limites do pedido, senso vedada a fixação dos valores em salários-mínimos. 4 – O termo final da pensão devida aos filhos por danos materiais advindos da morte do genitor deve ser a data em que aqueles venham a completar 24 anos. 5 – Primeiro e segundo recursos especiais parcialmente providos e terceiro recurso especial não conhecido” (STJ – REsp. 419.059-SP – 3ª Turma – j. 19.10.2004 – rel. Min. Nancy Andrigi, DJU 29.11.2004, p. 315). 5.5. A “CULPA” CONCORRENTE A expressão “culpa concorrente” é totalmente inadequada para tratar das situações de responsabilidade objetiva, onde a culpa é um elemento estranho à verificação da responsabilização. Melhor seria dizer concorrência de causas, ou fato concorrente ao invés de “culpa concorrente”. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 91 Como já se viu, o fato exclusivo da vítima exclui o nexo causal e exime o agente da obrigação de indenizar. No fato concorrente dois fatos, um do agente e outro da vítima, concorrem pra produzir um só dano. O fato concorrente não exclui o nexo de causalidade e nem a responsabilidade do causador do dano, mas apenas reduz o valor da indenização no limite da proporção da contribuição da vítima para a causação do resultado danoso. Desta forma, se a vítima foi responsável por 70% do resultado danoso, a indenização será reduzida proporcionalmente e o agente causador do dano só terá que indenizar na proporção de 30% do valor dos prejuízos. Neste sentido, já decidiu o STJ que a “culpa concorrente da vítima não exclui a responsabilidade da empresa pelo evento danoso, podendo, apenas, diminuir o quantum da indenização (STJ – REsp. 647.562-MG – 4ª Turma – j. 07.12.2006 – rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJU 12.02.2007). No Código Civil é expressa a possibilidade de redução da responsabilidade civil em face da “culpa concorrente” da vítima: “Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.” EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade do fornecedor. Culpa concorrente da vítima. Hotel. Piscina. Agência de viagens. 1. Responsabilidade do hotel, que não sinaliza convenientemente a profundidade da piscina, de acesso livre aos hóspedes. Art. 14 do CDC. 2. A culpa concorrente da vítima permite a redução da condenação imposta ao fornecedor. Art. 12, § 2º, III, do CDC. 3. A agência de viagem responde pelo dano pessoal que decorreu do mau serviço do hotel contratado por ela para a hospedagem durante o pacote de turismo. Recursos conhecidos e providos em parte” (STJ – REsp. 287.849 – 4ª Turma – j. 17.04.2001 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 13.08.2001, p. 165). 5.6. O RISCO DO DESENVOLVIMENTO É o risco que não pode ser cientificamente conhecido no momento do lançamento do produto no mercado de consumo, vindo a ser descoberto somente após um certo período de sua utilização. É o defeito que, em face do estado da ciência e da técnica da época da colocação do produto em circulação, era desconhecido e imprevisível. (art. 12, § 1º, inc. III e 14, § 1º, inc. III do CDC). Exemplo: nos dias atuais não existe nenhum estudo científico que comprove que a bateria do aparelho celular possa causar tumor no cérebro das pessoas que fazem deste aparelho. Entretanto, daqui a dez anos, um grupo de cientistas consegue detectar que grande parte dos casos de tumor no cérebro são causados pelas ondas eletromagnéticas emitidas pelos aparelhos celulares. Trata-se de um defeito que a tecnologia da época do lançamento do produto no mercado não era avançada suficientepara detectá-lo. A polêmica doutrinária é se, neste caso, o fabricante do aparelho deve ou não indenizar as vítimas. Para a maioria da doutrina brasileira, o risco do Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 92 desenvolvimento tecnológico não é causa de exclusão de responsabilidade civil, ao contrário da maioria da legislação européia que a tem como excludente do dever de indenizar. Entendemos que a partir do art. 931 do novo CC, não há mais dúvida quanto à não isenção da responsabilidade civil dos empresários em face dos riscos do desenvolvimento tecnológico. Art. 931. Ressalvados outros casos previsto em lei especial, os empresários individuais e as empresas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em circulação. Neste sentido, é a conclusão da Jornada I do STJ 43: “A responsabilidade civil pelo fato do produto, prevista no CC 931, também inclui os riscos do desenvolvimento”. 5.7. RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS Profissionais liberais são aqueles com autonomia técnica especializada, profissão regulamentada por lei, formação de nível superior e habilitação junto ao órgão específico de fiscalização. Ex: médicos, advogados, dentistas, arquitetos, engenheiros contadores etc. Conforme ensina Fabio Ulhoa “os profissionais liberais respondem subjetivamente pelos danos que causam a seus clientes porque desempenham sua relevante atividade de forma não empresarial (CC, art. 966, parágrafo único). Não ocupam, em decorrência, posição econômica que lhes permita socializar os custos da atividade” (Curso de Direito Civil, vol. 2, p. 318). Art. 14. (...) § 4° A responsabilidade dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa Quando se contrata com um profissional liberal, o consumidor tem duas opções: a) um contrato de adesão ou b) um contrato intuitu personae (contrato negociado) A regra do art. 14, § 4º só vale para os contratos pessoais firmados entre o profissional liberal e seu cliente numa relação de confiança. O privilégio da responsabilidade subjetiva refere-se aos profissionais liberais (pessoa física), isto é, aqueles que contratam numa relação pessoal de confiança. As pessoas jurídicas (o hospital, por exemplo) formadas por profissionais liberais não têm o privilégio (Cláudia Lima Marques, Código, p. 249) e respondem objetivamente pelos danos causados, nos termos do art. 14, caput do CDC. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 93 IMPORTANTE: O privilégio da responsabilidade subjetiva estabelecida pelo § 4º do art. 14 do CDC refere-se ao fato do serviço. Os danos causados por profissionais liberais decorrentes de vício de qualidade do serviço é regulado pelo art. 20 do CDC, cuja responsabilização é independente de verificação da culpa (resp. objetiva). Ex: o consumidor-paciente é atendido com 3 horas de atraso. O sistema geral da responsabilidade civil, para os “acidentes de consumo” (fato do produto e fato do serviço), é OBJETIVA (inclusive para os prestadores de serviços). Isto é, EM REGRA, a responsabilidade pelos DANOS (à saúde, segurança e patrimônio extrínseco do consumidor) causados pelos serviços prestados, em geral, É OBJETIVA - caput do art. 14 do CDC. Entretanto, a responsabilidade pelos danos decorrentes do FATO DO SERVIÇO DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS é exceção à regra geral a responsabilidade é apurada mediante a VERIFICAÇÃO DE CULPA = responsabilidade subjetiva - Art. 14, § 4º. 5.7.1. OBRIGAÇÃO DE MEIO E OBRIGAÇÃO DE RESULTADO Conforme leciona Paulo Luiz Netto Lobo (Teoria geral das Obrigações, p. 32): OBRIGAÇÕES DE MEIO = são aquelas cuja causa final é a atividade em si, prestada com diligência, boa-fé e em conformidade com as recomendações técnicas e científicas. Ex: obrigação do advogado de demandar em favor do cliente; tratamento médico contra o câncer etc. OBRIGAÇÕES DE RESULTADO = são aquelas cuja causa final é o resultado combinado, de modo que a atividade empregada é simples meio necessário para alcançá-lo. Ex: obrigações indivisíveis (art. 258 do CC); transporte de pessoas (art. 734 do CC); obrigação do advogado de ajuizar o recurso no prazo legal etc. A obrigação se torna de resultado: a) pela natureza do serviço (serviço de transporte); b) pela pactuação entre as partes (contrato). No que se refere à responsabilidade dos profissionais liberais, o sistema da RESPONSABILIDADE SUBJETIVA é aplicável somente quando a obrigação é de meio (responsabilidade subjetiva com culpa provada). Quando a obrigação é de resultado, a RESPONSABILIDADE É OBJETIVA. A jurisprudência dos tribunais Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 94 têm consolidado o entendimento que a cirurgia plástica estética embelezadora é obrigação de resultado e a cirurgia plástica reparadora é obrigação de meio. EMENTA: “CIVIL E PROCESSUAL. CIRURGIA ESTÉTICA OU PLÁSTICA. OBRIGAÇÃO DE RESULTADO (RESPONSABILIDADE CONTRATUAL OU OBJETIVA). INDENIZAÇÃO. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. I – Contratada a realização da cirurgia estética embelezadora, o cirurgião assume obrigação de resultado (Responsabilidade contratual ou objetiva), devendo indenizar pelo não cumprimento da mesma, decorrente de eventual deformidade ou de alguma irregularidade. II – Cabível a inversão do ônus da prova. III – Recurso conhecido e provido” (STJ – REsp. 81.101-PR – 3ª Turma – j. 13.04.1999 – rel. Min. Waldemar Zveiter, DJU 31.05.1999, p. 140) 5.7.2. A RESPONSABILIDE CIVIL DO MÉDICO E DO HOSPITAL O médico, quando se compromete no tratamento de alguma doença, normalmente, se obriga a empregar corretamente as técnicas mais aprimoradas e seguras, prescrevendo com precisão as terapias e medicamentos mais eficazes. Em face da própria natureza do serviço, em razão da grande responsabilidade do funcionamento do organismo humano e dos limites da ciência, em regra, a obrigação do médico é de meio e não de resultado. Por isso, responde subjetivamente mediante a verificação de culpa. Salvo, entretanto, se assumir contratualmente uma obrigação de resultado (Fábio Ulhoa, Curso de Direito Civil, vol. 2, p. 321). O hospital, por sua vez, responde objetivamente pelos danos causados aos pacientes pelo fato do serviço, nos termos do art. 14, caput. SOLIDARIEDADE ENTRE O HOSPITAL E O MÉDICO – O STJ tem mitigado o princípio da solidariedade em relação a responsabilidade do médico e do hospital. Ou seja, em caso de dano à saúde do consumidor é necessário identificar quem deu causa ao dano: se o serviço do hospital ou serviço do médico. E mais, se o médico era preposto do hospital ou apenas conveniado. Vejamos: a) DANO CAUSADO PELO SERVIÇO DO HOSPITAL – Se o dano ao paciente foi causado por defeito no serviço prestado pelo hospital, como por exemplo, aplicação errada de medicamentos, mal funcionamento de aparelhos, falha no serviço de enfermagem etc., a responsabilidade é exclusiva do hospital. A responsabilidade é objetiva, nos termos do art. 14, caput do CDC. EMENTA: “(...) 3 - O art. 14 do CDC, conforme melhor doutrina, não conflita com essa conclusão, dado que a responsabilidade objetiva, nele prevista para o prestador de serviços, no presente caso, o hospital, circunscreve- se apenas aos serviços única e exclusivamente relacionados com o estabelecimento empresarial propriamente dito, ou seja, aqueles que digam respeito à estadia do paciente (internação), instalações, equipamentos, serviços auxiliares (enfermagem, exames, radiologia), etc e não aos serviços técnicos-profissionais dos médicos que ali atuam, Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 95 permanecendo estes na relação subjetiva de preposição (culpa). 4 - Recurso especial conhecido e provido para julgar improcedente o pedido. (STJ – REsp. 258.389-SP – 4ª Turma – j. 16.06.2006 – rel. Min. FernandoGonçalves, DJU 16.06.2005). b) DANO CAUSADO POR MÉDICO CONVENIADO COM O HOSPITAL – Se o dano ao paciente é causado por serviço do médico que apenas utiliza as dependências do hospital em que está cadastrado para realização de cirurgias e do qual não é empregado, sua responsabilidade é pessoal e exclui o hospital. Neste caso, a responsabilidade do médico é subjetiva e o hospital não responde, a não ser que seja imputado a ele o defeito do serviço (equipamentos ou instrumentos imperfeitos, erros de seus empregados no auxílio à cirurgia etc.) (Fábio Ulhoa Coelho, Curso de Direito Civil, vol. 2, p. 318). EMENTA: “Recurso Especial. Ação de indenização. Responsabilidade civil. Erro Médico. Negligência. Indenização. Recurso Especial. 1. A doutrina tem afirmado que a responsabilidade médica empresarial, no caso de hospitais, é objetiva, indicando o parágrafo primeiro do artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor como a norma sustentadora de tal entendimento. Contudo, a responsabilidade do hospital somente tem espaço quando o dano decorrer de falha de serviços cuja atribuição é afeta única e exclusivamente ao hospital. Nas hipóteses de dano decorrente de falha técnica restrita ao profissional médico, mormente quando este não tem nenhum vínculo com o hospital – seja de emprego ou de mera preposição –, não cabe atribuir ao nosocômio a obrigação de indenizar. 2....” (STJ – REsp. 908.359-SC – 2ª Seção – j. 27.08.2008 – rel. Min. Nancy Andrighi, rel. p/ Ac. Min. João Otávio de Noronha, DJe 17.12.2008). c) DANO CAUSADO POR MÉDICO PREPOSTO DO HOSPITAL – Se o médico prestador do serviço defeituoso que causou danos à saúde do paciente era funcionário ou preposto do hospital, a este último cabe a responsabilidade pela indenização ao paciente. Neste caso, o Superior Tribunal de Justiça exige que a responsabilização do hospital seja precedida da prova da culpa do médico seu preposto. Desta forma, a responsabilidade do hospital pelos danos causados ao consumidor pelo fato do serviço de médico seu funcionário é objetiva, mas, antes, passa pela verificação da culpa deste. Apurada a culpa do médico, seu funcionário ou preposto, o hospital responde objetivamente pelos danos sofridos pelo consumidor. Ou seja, a responsabilidade objetiva do hospital (sem verificação de culpa de seu preposto – art. 14, caput do CDC) se reduz aos casos em que o dano ao paciente é decorrente do serviço prestado pelo hospital e que não esteja vinculado ao serviço médico. Neste sentido: EMENTA: “Responsabilidade civil. Atendimento. Hospital. Emergência. Há a responsabilidade solidária do hospital pelas conseqüências danosas resultantes da terapia aplicada quando o paciente, em caso de emergência, procura aquela instituição e recebe o atendimento de médico que ali se encontra. Não é de relevância o fato de o médico não ser assalariado do hospital, porquanto estava vinculado ao serviço de emergência mantido. Há que se admitir, no mínimo, que o profissional era credenciado, tanto que, de serviço no plantão, cuidou da autora” (STJ – REsp. 400.843-RS – 3ª Turma – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 17.02.2005) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 96 EMENTA: “Responsabilidade civil. Atendimento hospitalar. 1. Quando o paciente procura o hospital para tratamento, principalmente naqueles casos de emergência, e recebe atendimento do médico que se encontra em serviço no local, a responsabilidade em razão das conseqüências danosas da terapia pertence ao hospital. Em tal situação, pouco releva a circunstância de ser o médico empregado do hospital, porquanto ele se encontrava vinculado ao serviço de emergência oferecido. Se o profissional estava de serviço no plantão, tanto que cuidou do paciente, o mínimo que se pode admitir é que estava credenciado para assim proceder. O fato de não ser assalariado nesse cenário não repercute na identificação da responsabilidade do hospital. 2. Recurso especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 400.843-RS – 3ª Turma – j. 17.02.2005 – rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 18.04.2005, p. 304). CULPA DO MÉDICO NO ANTECEDENTE E RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO HOSPITAL POSTERIORMENTE: EMENTA: “Responsabilidade. Hospital. Falecimento. Paciente. O Min. Relator entendeu que, para haver responsabilidade do hospital pelo falecimento do paciente, necessário comprovar-se a culpa ou dolo do médico. Assim, para a responsabilização do nosocômio por ato praticado por médico, não se deve aplicar a teoria objetiva, aplicando-a somente quanto aos serviços única e exclusivamente relacionados com o estabelecimento empresarial propriamente dito. Já o Min. Jorge Scartezzini entendeu, em tese, ser aplicável a responsabilidade objetiva aos hospitais, mesmo que o evento danoso seja praticado por médico seu empregado ou preposto, conforme dispõem os arts. 933 c/c 932, III, do CC/2002 ou 14, caput, do CDC. Logo, ao prosseguir o julgamento, a Turma, por unanimidade, conheceu do recurso e deu-lhe provimento, divergindo quanto à fundamentação o Min. Jorge Scartezzini e o Min. Barros Monteiro. Precedente citado: REsp 259.816-RJ, DJ 27/11/2000” (STJ - REsp 258.389-SP – Rel. Min. Fernando Gonçalves, julgado em 16.06.2005). 5.7.3. RESPONSABILIDADE DAS SOCIEDADES CIVIS DE PROFISSIONAIS LIBERAIS As SOCIEDADES CIVIS de profissionais liberais não se beneficiam do privilégio da responsabilidade subjetiva do art. 14, § 4º do CDC, mas respondem objetivamente, nos termos do art. 14, caput. O privilégio refere-se exclusivamente àquelas relações intuitu personae, havidas entre o profissional liberal e o cliente. 6. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO (bystander) Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento. O CDC protege não só o consumidor direto (aquele que adquiriu o produto, mas também o consumidor indireto ou por equiparação (todas as vítimas do evento). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 97 Desta forma, é considerado consumidor qualquer vítima de acidente de consumo, mesmo que não tenha consumido ou adquirido nenhum produto ou serviço. Neste sentido: “Em consonância com o art. 17 do Código de Defesa do Consumidor, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas que, embora não tendo participado diretamente da relação de consumo, vem a sofrer as conseqüências do evento danoso, dada a potencial gravidade que pode atingir o fato do produto ou do serviço, na modalidade vício de qualidade por insegurança” (STJ – REsp. 181.580-SP – rel. Min. Castro Filho, j. 09.12.03). Exemplo: o convidado para uma festa que é vítima da explosão de uma garrafa de refrigerante é considerado consumidor equiparado, por ser vítima de um acidente de consumo, nos termos do art. 17 do CDC. EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Acidente aéreo. Transporte de malotes. Relação de Consumo. Caracterização. Responsabilidade pelo fato do serviço. Vítima do evento. Equiparação. Artigo 17 do CDC. I – Resta caracterizada a relação de consumo se a aeronave caiu sobre a casa das vítimas realizava serviço de transporte de malotes para um destinatário final, ainda que pessoa jurídica, uma vez que o artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor não faz tal distinção, definindo como consumidor, para fins protetivos da lei, “...toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final”. Abrandamento do rigor técnico do critério finalista. II – Em decorrência, pela aplicação conjugada com o art. 17 do mesmo diploma legal, cabível, por equiparação, o enquadramento do autor, atingido em terra, no conceito de consumidor. Logo, em tese, admissível a inversão do ônus da prova em seu favor. Recurso especial provido” (STJ – REsp. 540.235-TO – 3ª Turma – j. 07.02.2006 – rel. Min. Castro Filho, DJU 06.03.2006, p. 372). 7. QUESTÕES DE CONCURSOS 1) (MPDF –2002) Julgue abaixo conforme o disposto na Lein. 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor) I – A disciplina relativa a vícios de qualidade dos produtos e serviços só pode ser invocada pelo adquirente final de produtos ou serviços; II – Como regra, o fabricante, o produtor, o importador e o comerciante respondem solidariamente e independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos de construção, montagem, fórmulas, manipulação ou apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos; III – Prescreve em cinco anos a pretensão da vítima de acidente de consumo – denominado de bystander pela doutrina – à reparação dos danos sofridos; IV – Em relação à responsabilidade pelo fato do produto este não é considerado defeituoso em razão de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado. Estão corretas apenas os itens a) I e II c) II e IV b) I e III d) III e IV Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 98 2) (MP-GO/1997) É correto afirmar, exceto: a-( ) os direitos previsto no Código de Defesa do Consumidor excluem outros decorrentes de tratados e convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, demais atos normativos, bem como dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade; b-( ) o comerciante responde independente da existência de culpa, pela reparação de danos causados aos consumidores, pelo fato do produto, quando o fabricante não puder ser identificado; c-( ) o comerciante responde independente da existência de culpa, pela reparação de danos causados aos consumidores, pelo vício do produto, quando o fabricante não puder ser identificado; d-( ) o comerciante responde independente da existência de culpa, pela reparação de danos causados aos consumidores, pelo fato do produto, quando não conservar adequadamente os produtos perecíveis. 3) (MPMT-2002) O sistema de responsabilidade adotado pelo Código de Defesa do Consumidor é: a) o objetivo puro; b) o objetivo com ressalvas; c) o subjetivo com ressalvas; d) o da culpa in committendo 4) (MPF – 2002) O profissional liberal, quando exerce suas atividades específicas: (a) ( ) em regra, assume obrigação de resultado; (b) ( ) mesmo sob o vínculo de emprego é considerado fornecedor de serviços para efeito de incidência do Código de Defesa do Consumidor; (c) ( ) é responsável por fato do serviço diretamente prestado ao consumidor, dependendo a sua culpa de verificação, sem prejuízo da inversão do ônus da prova; (d) ( ) nenhuma alternativa acima é correta. 5) (MPF – 2003) Ante o sistema adotado pelo código de defesa do consumidor, é certo asseverar que: (a) ( ) ao consumidor incumbe sempre a prova do dano e o nexo de causalidade entre o dano e o produto; (b) ( ) o caso fortuito e a força maior são excludentes do dever de indenizar por parte do fornecedor; (c) ( ) a responsabilidade civil subjetiva nele presumida é a do risco integral; (d) ( ) a responsabilidade civil objetiva nele prevista é a do risco integral. 6) (Magistratura-DF/2003) Fundada na teoria do risco da atividade, a responsabilidade objetiva estabelecida no Código de Defesa do Consumidor: a) não admite como excludente a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro; b) somente tem incidência quando for verossímil a alegação, ou quando o consumidor for hipossuficiente; c) incide no fornecimento de serviços aos consumidores, em relação aos profissionais liberais; Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 99 d) não incide, no fornecimento de serviços aos consumidores, em relação aos profissionais liberais cuja responsabilidade deve ser apurada mediante a verificação de culpa. 7) (MP-MG – 2004) Com base na Lei 8.078/90 (código de proteção e defesa do consumidor), assinale a alternativa INCORRETA. a) A responsabilidade pessoal do profissional liberal pelo fato do serviço prestado será apurada mediante a verificação da culpa. b) A doutrina consumerista faz distinção entre vulnerabilidade e hipossuficiência. c) ao contrário da garantia legal, que é sempre obrigatória, a garantia contratual é mera faculdade do fornecedor. d) A responsabilidade do comerciante pelo fato do produto é objetiva, mas não é subsidiária. e) A correta distinção entre interesses difusos e coletivos depende da fixação do objeto litigioso do processo. 8) (MP-RS – Concurso XLIV) Em relação à responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor: I - A responsabilidade do fornecedor de serviços independe de culpa em relação à reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos na prestação de serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. II - A responsabilidade por danos do prestador de serviços envolve somente as empresas ligadas à iniciativa privada. III - O fornecedor se exime da culpa mediante prova de culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro, ou de prova de que, tendo prestado o serviço, o defeito não existe, atuando, também, como excludentes de responsabilidade, as eximentes do caso fortuito e da força maior, estas últimas quando ocorrerem durante ou após a prestação da utilidade. IV - Está assegurado o ressarcimento de danos a terceiros, estranhos à relação de consumo, mas que sofreram prejuízo em razão dos defeitos intrínsecos ou extrínsecos do produto ou serviço. V - Presume-se defeituoso o serviço, não fornecendo segurança ao usuário, quando mal apresentado ao público consumidor, quando sua fruição é capaz de suscitar riscos acima do nível de razoável expectativa, assim como quando, em razão do decurso do tempo, desde a sua prestação, é de supor que não apresente sinais de envelhecimento. Assinale a alternativa correta: (a) Somente as assertivas I, II, III e V estão corretas. (b) Somente as assertivas I, III, IV e V estão corretas. (c) Somente as assertivas I, II, IV e V estão corretas. (d) Somente as assertivas II e IV estão corretas. (e) Todas as assertivas estão corretas. 9) (MP-RS – Concurso XLIII) 55 – Quanto à responsabilidade pelos acidentes de consumo, o produtor responde pelos danos causados aos consumidores: I – Pela adoção da teoria unitária da responsabilidade civil. II - Somente na hipótese em que for demonstrada a existência de culpa do produtor. III - Independentemente da culpa exclusiva do consumidor. IV – Independentemente da culpa concorrente do consumidor. V – Independentemente de culpa do produtor, salvo caso fortuito e força maior. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 100 Assinale a alternativa correta: (a) somente a assertiva I está correta. (b) somente as assertivas II, III e IV estão corretas. (c) somente as assertivas II e III estão corretas. (d) somente as assertivas I, IV e V estão corretas. (e) somente a assertiva V está correta. 10) (Magistratura-MG 2003/2004) Leia com ATENÇÃO as proposições abaixo. I) Segundo disciplina do Código de Defesa do Consumidor, a responsabilidade civil do fornecedor de serviços e a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais têm idêntica natureza: objetiva. II) A responsabilidade contratual do transportador por acidente com o passageiro não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva. III) Ainda que não haja culpa de sua parte, os pais são, também, responsáveis pela reparação civil dos danos causados a terceiros pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia. IV) O incapaz jamais responde pelos prejuízos que causar a terceiros, ficando sempre o seu patrimônio incólume aos efeitos da responsabilidade civil. Em relação às proposições relacionadas, marque a alternativa CORRETA (a) As proposições I, II e III são verdadeiras. (b) As proposições II, III e IV são verdadeiras. (c) As proposições I, III e IV são verdadeiras. (d)As proposições II e III são verdadeiras. (e) As proposições II e IV são verdadeiras. 11) (MP-GO – 2004) Assinale a alternativa incorreta: a-( ) o Código de Defesa do Consumidor prevê o ressarcimento dos danos causados a terceiros, estranhos à relação de consumo, em razão dos defeitos do produto ou serviço; b-( ) a instauração do inquérito civil público não obsta a decadência do direito do consumidor de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação em serviços ou produtos; c-( ) quando for verossímil a alegação ou for o consumidor hipossuficiente, poderá o juiz inverter o ônus da prova para facilitar a defesa dos direitos do consumidor, segundo as regras ordinárias de experiências; d-( ) na aferição da responsabilidade do fornecedor de produto ou serviço, o Código de Defesa do Consumidor aboliu o elemento subjetivo da culpa, acolhendo os postulados da responsabilidade objetiva. 12) (MP-DF – 2002) Em relação ao processo em que se veicula direito do consumidor, julgue os itens abaixo. I Nas ações indenizatórias fundadas na responsabilidade objetiva, propostas pelo consumidor, pode o fornecedor denunciar a lide para discutir a culpa daquele que deve indenizar-lhe em regresso. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 101 II Admite-se o chamamento ao processo somente na hipótese de haver seguro por parte do fornecedor, de sorte a propiciar a condenação da seguradora solidariamente com ele. III Os dispositivos de outros Códigos e leis são aplicáveis às relações de consumo apenas subsidiariamente, na lacuna do CDC e no que não colidir com as normas do Código de Defesa do Consumidor. IV A instauração do inquérito civil pelo Ministério Público obsta a decadência do direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação, relativos tanto aos produtos quanto aos serviços. V O entendimento do STF é no sentido de que o Ministério Público não possui legitimidade para propor ação civil pública objetivando a redução ou restituição de tributo, porque a relação jurídica tributária não retrata relação de consumo. VI Ao IDEC e ao PROCON não é reconhecida legitimidade para propor ação em defesa de interesses ou direitos individuais homogêneos dos consumidores se o período questionado na ação for anterior à edição do Código de Defesa do Consumidor, que reconheceu a tais entidades a capacidade de postular em nome próprio direito de terceiros. A - Os itens I, II e V estão corretos. B - Os itens II, III, IV e V estão corretos. C - Os itens I, III e V estão corretos. D - Os itens II, III, V e VI estão corretos. E - Todos os itens estão corretos. 13) (Magistratura-SP/2005) 90. No Código de Proteção e Defesa do Consumidor, quanto à responsabilidade pelo fato do produto e do serviço, a) o fabricante, o produtor, o construtor, o importador e os profissionais liberais responderão, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores pelos defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, ou de acondicionamento de seus produtos, ou por defeitos na prestação de serviços. b) o comerciante é responsável, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores, por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção ou acondicionamento dos produtos que comercializa, quando o fabricante, o produtor, o construtor ou o importador não puderem ser identificados. c) ocorrendo defeito no serviço prestado, o fornecedor dos serviços será responsabilizado, mesmo se provar a culpa exclusiva de terceiro. d) independentemente da existência de culpa, o fornecedor de serviços responde pela apresentação de informações insuficientes ou inadequadas, mesmo inexistindo danos aos consumidores. 14) (MP-ES/2005) 56. Em relação ao Código de Defesa do Consumidor, podemos afirmar, exceto que: a) O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado. b) Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. c) O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: que não colocou o produto no mercado; que, embora haja colocado o Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 102 produto no mercado, o defeito inexiste ou ainda a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. d) O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: sua apresentação; o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam e a época em que foi colocado em circulação. e) O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, existindo culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. 15) (Magistratura-Trab. – 18ª Reg./2004)O profissional liberal, quando exerce suas atividades específicas: a) em regra, assume obrigação de resultado; b) mesmo sob o vínculo de emprego é considerado fornecedor de serviços para efeito de incidência do Código de Defesa do Consumidor; c) é responsável por fato do serviço diretamente prestado ao consumidor, dependendo a sua culpa, de verificação, sem prejuízo da inversão do ônus da prova; d) não tem responsabilidade por eventuais prejuízos causados a quem contratar seus serviços uma vez que a hipótese não é regida pelo Código de Defesa do Consumidor; e) Nenhuma alternativa acima é correta. RESPOSTAS: 1 – A; 2 – A; 3 – B; 4 – C; 5 – D (*); 6 – D (**); 7 – D; 8 – B; 9 – D; 10 – D; 11 - B; 12 – B; 13 – B; 14 – E; 15 - C. (*) Para nós, a resposta correta é a letra “b” eis que a responsabilidade objetiva prevista nos arts. 12 e 14 é mitigada nos seus respectivos parágrafos 3º pelo rol de excludentes da responsabilidade civil. (**) A letra “d” como resposta certa admite ressalvas, pois, embora a responsabilidade dos profissionais liberais seja, em regra, subjetiva, também pode ser apurada pelo critério objetivo quando a obrigação for de resultado, conforme jurisprudência dominante no STJ. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 103 CAPÍTULO 6 A RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO 1. INTRODUÇÃO No CDC vigora a presunção de culpa do fornecedor, que provém do acolhimento da teoria do risco, pela qual, lhe é atribuída toda a responsabilidade pelos defeitos e vícios dos produtos e serviços colocados no mercado. No mesmo passo, o fornecedor é obrigado a garantir as expectativas do consumidor na exata proporção da qualidade e prestabilidade anunciadas (por via de publicidade, venda direta ou qualquer outro meio). Nos termos do art. 441 do no CC, “vício é o defeito oculto que torna a coisa imprópria ao uso a que se destina ou lhe diminua o valor.” 2. Distinção entre defeito e vício VÍCIO DE QUALIDADE POR INADEQUAÇÃO = VÍCIO VÍCIO DE QUALIDADE POR INSEGURANÇA = DEFEITO VÍCIO – é uma desconformidade de qualidade (por inadequação) inerente e intrínseca ao produto ou serviço, jamais atingindo a pessoa do consumidor ou outros bens seus. No vício o consumidor sofre um dano que não ultrapassa ao valor do próprio produto ou serviço ou da sua utilidade intrínseca. Consiste exclusivamente na diminuição da utilidade ou desvalia do produto ou serviço em razão de uma deficiência que torna sua qualidade inadequada ao uso que se destina. Exemplo: o refrigerador que não refrigera, o ferro elétrico que não esquenta. DEFEITO - é a desconformidade de umproduto ou serviço ou serviço com as expectativas legítimas dos consumidores e que tem a capacidade de causar acidentes de consumo. O defeito pode causar, além do dano intrínseco decorrente do vício, ou outros danos ao patrimônio jurídico material extrínseco do consumidor. Consiste num vício qualificado por uma falha de segurança que pode causar (há Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 104 o risco) um dano à saúde, segurança ou ao patrimônio extrínseco do consumidor. Exemplo: A vacina que por deficiência de qualidade não consegue imunizar as pessoas (defeito). Se provocar a morte dos animais o defeito terá provocado um acidente de consumo (fato do produto – art. 12, caput). EXEMPLO: Três pessoas A B e C compram três liquidificadores. No liquidificador de A a hélice fica frouxa mas não se solta. No liquidificador de B a hélice se solta e passa raspando seus olhos. No liquidificador de C a hélice se solta e atinge-lhe o braço causando um corte. Na hipótese A temos um vício do produto. Na hipótese B temos um defeito. Na hipótese C temos um fato do produto (acidente de consumo) (*) Alguns autores confundem defeito com fato do produto VÍCIO DEFEITO FATO DO PRODUTO As circunstâncias do consumo podem fazer com que um simples vício se torne um defeito. Basta apenas que haja um risco concreto (anormal e imprevisível) à saúde, segurança ou a patrimônio extrínseco do consumidor. A responsabilização pelo defeito é idêntica à do vício (art. 18, 19 e 20). Aliás, defeito nada mais é do que um vício qualificado pela insegurança (periculosidade adquirida ou risco de dano extrínseco). Somente a partir do evento danoso, quando o defeito causa um dano ao consumidor é que se pode falar em fato do produto ou serviço (acidente de consumo). 3. O DANO MORAL E O VÍCIO DO PRODUTO O DANO MORAL é uma espécie de dano que não se insere na diferenciação que o CDC faz entre o fato (art. 12 e 14) e vício (art. 18, 19 e 20) do produto ou do serviço, isto é, pode haver o dano moral conexo com qualquer das duas espécies de responsabilização, fato ou vício. A diferenciação entre fato e vício do produto ou serviço tem como parâmetro tão somente os danos materiais ocorridos, conforme estes danos materiais sejam extrínsecos ou intrínsecos ao produto ou serviço, respectivamente. Assim, se na hipótese de um vício do produto ocorrer dano moral ao consumidor, a tipificação não se desloca para fato do produto. Em suma, o que se quer afirmar é que os danos materiais provenientes do fato do produto ou do serviço ou até mesmo dos vícios do produto ou do serviço são distintos dos danos morais deles advindos. Por outro lado, mesmo que o problema do fato ou vício do produto ou do serviço (danos materiais) seja solucionado pelo fornecedor em tempo hábil, pode ocorrer que dele decorra também os danos morais. De forma que “o vício do produto ou do serviço, Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 105 ainda que solucionado pelo fornecedor no prazo legal, poderá ensejar a reparação por danos morais, desde que presentes os elementos caracterizadores do constrangimento à esfera moral do consumidor” (STJ – REsp. 324.629-MG – 3ª Turma – j. 10.12.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi – DJU 28.04.2003, p. 198). Assim, à guisa de exemplo, “se o veículo zero-quilômetro apresenta, em seus primeiros meses de uso, defeitos, em quantidade excessiva e capazes de reduzir substancialmente a utilidade e a segurança do bem, terá o consumidor direito à reparação por danos morais, ainda que o fornecedor tenha solucionado os vícios do produto no prazo legal” (STJ – REsp. 324.629-MG – 3ª Turma – j. 10.12.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi – DJU 28.04.2003, p. 198). 4. ESPÉCIES DE VÍCIOS NO CDC (a) VÍCIO DE QUALIDADE (produtos ou serviços)- quando os atributos do produto ou do serviço não estão em conformidade com as legítimas expectativas do consumidor. (b) VÍCIO DE QUANTIDADE (produtos ou serviços) - quando os produtos ou serviços não apresentam a medida (peso, quantidade, metragem etc.) em conformidade com a legítima expectativa do consumidor. (c) VÍCIO DE INFORMAÇÃO (produtos ou serviços) – quando a informação sobre as características, preço, qualidade, origem, modo de usar ou consumir etc. não são repassadas de forma adequada e suficiente para o consumidor. Obs. Se a falta de informação se referir à segurança do consumidor no uso ou consumo do produto ou do serviço, não se fala mais em vício (de informação), mas em defeito. Espécies de vícios quanto ao momento de sua verificação: a) aparentes – verificáveis pela simples observação b) de fácil constatação – verificáveis após o experimento c) ocultos – verificáveis somente após algum tempo de consumo Esta diferenciação é importante porque determina o início do prazo decadencial que o consumidor tem para reclamar junto ao fornecedor. Para vícios aparentes ou de fácil constatação o prazo decadencial se inicia a partir da aquisição da entrega do produto ou término do serviço (art. 26, § 1º). Em relação aos vícios ocultos, o prazo decadencial se inicia a partir do momento do descobrimento do vício – art. 26, § 3º. 5. A Responsabilidade pelo VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO Art. 18. Os fornecedores de PRODUTOS de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 106 ou quantidade que os tornem IMPRÓPRIOS (1) ou INADEQUADOS (2) ao consumo ou LHES DIMINUAM O VALOR (3), assim como por aqueles DECORRENTES DA DISPARIDADE, COM AS INDICAÇÕES (4) constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas. Ao contrário dos arts. 12 e 14 (responsabilidade pelo fato do produto e do serviço), o caput do art. 18 não fala “independente de culpa”. Mesmo assim, a responsabilidade civil pelo VÍCIO do produto (e do serviço, art. 20) é OBJETIVA por força da teoria do risco do empreendimento (quem coloca o produto ou o serviço no mercado assume a responsabilidade pelos danos causados ao consumidor). A responsabilidade objetiva pelo risco da atividade ganhou força com a edição do novo Código Civil, arts. 927, parágrafo único e 931, que estabeleceram a responsabilidade objetiva nas atividades empresariais de risco e que subsidiariamente podem ser aplicados na relação de consumo em benefício do consumidor: No que ser refere aos SERVIÇOS: “Art. 927 (...) Parágrafo único. Haverá obrigação de repara o dano independente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.” No que se refere aos PRODUTOS: “Art. 931. Ressalvados os casos previstos em lei especial, os empresários individuais e as empresas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em circulação.” Ora, se nas relações entre iguais (empresários) a responsabilidade é objetiva, logicamente, será também nas relações entre desiguais (empresário/consumidor). 5.1. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS FORNECEDORES Qualquer fornecedor que tenha participado da cadeia de distribuição do produto ou que tenha contribuído para o evento danoso responde solidariamente pela reparação do dano. Como se observa, ao contrário do art. 12, o art. 18 fala em “os fornecedores” e assim não exclui o COMERCIANTE da imediata responsabilidade solidária pelo vício do produto. Não importa se o vício é de fabricação, informação ou comercialização, todos que contribuíram para a montagem ou colocação do produto no mercado respondem pela solidariamente pela qualidade-adequação do produto, desde o fabricante, o distribuidor, atéo comerciante que contratou diretamente com o consumidor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 107 ESCOLHA DO POLO PASSIVO PELO CONSUMIDOR – A responsabilidade solidária amplia a legitimação passiva e o dever de qualidade ultrapassa os limites do vínculo contratual entre o consumidor e o fornecedor direto. “No sistema do CDC, a escolha de qual dos fornecedores solidários será sujeito passivo da reclamação do consumidor cabe a este último. Normalmente, o consumidor preferirá reclamar do comerciante mais próximo a ele, mais conhecido, parceiro contratual identificado, mas o fabricante, muitas vezes o único que possui conhecimentos técnicos pra suprir a falha no produto, será eventualmente demando a sanar o vício” (Claudia Lima Marques, Comentários ao CDC, 2ª ed., p. 338). Neste sentido, decidiu o Superior Tribunal de Justiça que “em princípio, considerando o sistema de comercialização de automóvel, através de concessionárias autorizadas, são solidariamente responsáveis o fabricante e o comerciante que aliena o veículo. Tratando-se de responsabilidade solidária, a demanda pode ser direcionada a qualquer dos co-obrigados. A existência de solidariedade, no entanto, não impede que seja apurado, no caso concreto, o nexo de causalidade entre as condutas dos supostos responsáveis para concluir pela responsabilidade de apenas um deles” (STJ – REsp. 402.356-MA – 4ª Turma – j. 25.03.2003 – rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 23.06.2003, p. 375). 5.2. ESPÉCIES DE VÍCIOS DE QUALIDADE DOS PRODUTOS São várias as espécies de VÍCIOS DE QUALIDADE dos produtos apontados no art. 18, § 6º do CDC: a) Torne impróprio ao consumo que se destina: a) produto com prazo de validade vencido; b) carne com zonas escurecidas; c) enlatado com conteúdo embolorado. Ver art. 18, § 6º do CDC. b) Torne inadequado ao consumo quê se destina: a) veículo com problema mecânico; b) televisão que sintoniza o canal; c) o ferro elétrico que não esquenta. c) Diminua o valor: a) automóvel com amassado na lataria; b) sofá com mancha no tecido; c) o relógio com o vidro arranhado. d) Esteja em desacordo com as informações: a) no recipiente (lata , pote, garrafa etc); b) na embalagem (caixa, saco etc.); c) no rótulo; d) na mensagem publicitária; e) na apresentação (no balcão, na vitrine, na prateleira); f) na oferta (por telefone, pessoalmente, folheto) 5.3. VARIAÇÕES DE QUALIDADE DECORRENTES DA NATUREZA DOS PRODUTOS Alguns produtos, por sua própria natureza, perdem qualidade mais rapidamente que outros. O CDC não considera viciados os produtos que sofrem alterações de qualidade e quantidade quando estas são próprias da natureza do Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 108 produto. O caput do art. 18 diz que para considerar o produto viciado devem ser: “...respeitadas as variações (de qualidade) decorrentes de sua natureza...” - a faca perde o corte; - o gás vasa do botijão; - o pneu desgasta; - a calça desbota (se desbotar na 1ª lavada >> vício) 5.4. PRODUTOS IMPRÓPRIOS Art. 18 (...) § 6° São impróprios ao uso e consumo: I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos; II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação; III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a que se destinam. O dispositivo acima é conceitual e genérico, estendendo-se na interpretação e estudo do art. 12 (produtos defeituoso). Em algumas das hipóteses acima, a impropriedade do produto configura-se um DEFEITO DO PRODUTO, como por exemplo, se o produto é nocivo à vida, à saúde, ou perigoso etc. PRODUTOS IMPRÓPRIOS = A norma acima é complementar à norma penal em branco prevista no art. 7º, inc. IX, da Lei 8.137/90, a qual tipifica como crime a venda ou exposição de produto impróprio para o consumo: “Art. 7º. Constitui crime contra as relações de consumo: (...) IX – vender, ter em depósito para vender ou expor à venda, ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias para o consumo. Pena: detenção de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e multa. 5.5. PRAZO PARA O CONSUMIDOR RECLAMAR DO VÍCIO DO PRODUTO (OU DO SERVIÇO) Nos termos do art. 26 do CDC, o consumidor tem um prazo decadencial para reclamar dos VÍCIOS APARENTES ou de FÁCIL CONSTATAÇÃO encontrados nos produtos e serviços: 30 dias para produtos não-duráveis e 90 dias para produtos duráveis Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 109 Quando o VÍCIO É OCULTO o consumidor tem prazo decadencial de 90 dias para produtos duráveis e 30 dias para produtos não-duráveis a contar da data da constatação do vício, para reclamar junto ao fornecedor. Quanto ao tempo máximo para surgimento do vício oculto indenizável administrativamente, ao prazo de garantia legal deve se somado o prazo de garantia contratual oferecido pelos fornecedores. Exemplo: se determinado veículo tem garantia de dois anos (garantia contratual), a esta é somada a garantia legal de 90 dias para produtos duráveis, as quais perfazem um total de dois anos e noventa dias (garantia real – art. 26, caput, c/c art. 50 do CDC). PRAZO DE GARANTIA CONTRATUAL – Se o vício de qualidade do produto (o relógio que atrasa) se manifesta dentro do prazo de garantia contratual (dois anos, por exemplo) presume-se que o vício já existia no momento em que o produto foi adquirido. Sobre o conceito de vício aparente, de fácil constatação e oculto, bem como de produtos duráveis e não duráveis, ver comentários ao artigo 26, infra. 5.6. A SUBSTITUIÇÃO DAS PARTES VICIADAS: PRAZO DO FORNECEDOR Art. 18, caput (...) “...pode o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.” “§ 1º Não sendo o vício sanado no prazo de trinta dias...” Quando o produto estiver com vício de qualidade, o consumidor pode exigir a substituição das partes viciadas se o produto for compósito. Se o produto não permitir a substituição da parte viciada deve o fornecedor dar uma solução imediata para o problema do consumidor (trocar o produto, devolver o dinheiro, ou outra hipótese possível e satisfatória para o consumidor). Os produtos compósitos permitem a substituição das partes viciadas. São aqueles que são constituídos de peças justaposicionadas, cuja montagem permite a troca ou a substituição de qualquer uma delas, sem proporcionar dano ao bem. 5.7. PRAZO DO FORNECEDOR Feita a reclamação antes do fim do prazo decadencial (30 dias para produtos não-duráveis e 90 dias para produtos duráveis) o consumidor pode administrativamente exigir que o fornecedor substitua a parte viciada (se isso for possível, se o produto for compósito) ou resolva satisfatoriamente o problema de uma outra forma. O FORNECEDOR TEM 30 DIAS PARA RESOLVER O PROBLEMA DO CONSUMIDOR. Trata-se do PRAZO DO FORNECEDOR. Neste prazo, é válida qualquer solução que resolva definitivamente o problema e satisfaça o consumidor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 110 Pode acontecer que o consumidor tenha que fazer várias reclamações sobre um mesmo vício do produto, durante vários meses e em nenhuma delas o fornecedor consegue, definitivamente, resolver o problema. Nesta hipótese, o prazo decadencial fica obstado a partir da data da primeira reclamação, e após 30 dias, configurada a reiteração do vício, abre-se para o consumidor as três hipóteses previstas no § 1º do art. 18, como se verá a seguir. Recebida a reclamação do consumidor, o FORNECEDOR tem prazo de 30 DIAS para resolver o problema do consumidor, quando for possível a substituição da parte viciada (produtos compósitos), sem comprometer a qualidade ou valor do produto.= art. 18, § 1º do CDC. 5.8. OPÇÕES DO CONSUMIDOR APÓS TRINTA (30) DIAS Se o fornecedor não resolve o problema do vício de qualidade do produto no prazo de trinta dias, o consumidor pode exigir, à sua escolha, o dinheiro de volta, a substituição do produto ou o abatimento no preço pago. § 1º Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha: Refere-se a produtos compósitos: I – a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso; (substituição) II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; (redibição) III – o abatimento do proporcional do preço. (estimação) Apresentado o vício, a partir da primeira reclamação feita pelo consumidor, o prazo decadencial fica obstado (impedido de correr), nos termos do art. 26, § 2º do CDC. Se o problema não se resolver e o consumidor tiver que repetir as reclamações, durante vários meses, desde o transcurso de 30 dias, a partir da primeira reclamação, já pode o consumidor requerer em juízo, à sua escolha, qualquer das três hipóteses do §1º do art. 18: a) substituição; b) restituição ou; c) abatimento no preço. EMENTA: “Ação de indenização. Aquisição de veículo com defeito de fábrica. Reparação do vício. Art. 18, § 1º, do Código de Defesa do Consumidor. Notificação formal dos responsáveis. Desnecessidade. I - Constatado o vício de qualidade ou quantidade no produto, que o torne impróprio ou inadequado para o consumo, o § 1º do artigo 18 do Código de Defesa do Consumidor concede ao fornecedor a oportunidade de saná-lo, no prazo de 30 dias, sendo facultado ao consumidor, em caso de não reparação do defeito, optar por uma dentre três alternativas: a substituição do produto por outro da mesma espécie em perfeitas condições de uso, a Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 111 restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos, ou o abatimento proporcional do preço. II - O objetivo do dispositivo legal em comento é dar conhecimento ao fornecedor do vício detectado no produto, oportunizando-lhe a iniciativa de saná-lo, fato que prescinde da notificação formal do responsável, quando este, por outros meios, venha a ter ciência da existência do defeito. III - É o que se verifica na hipótese dos autos, em que, a despeito de não ter sido dirigida nenhuma notificação formal às rés, por força dos documentos comprobatórios das revisões realizadas no veículo, tiveram elas conhecimento dos problemas detectados, sem que os tivessem solucionado de modo definitivo. Recurso especial a que se nega conhecimento.” (STJ – REsp. 435.852-MG – 3ª Turma – j. 23.08.2007 – rel. Min. Castro Filho, DJU 10.09.2007, p. 224). EMENTA: “Agravo Regimental. Recurso Especial. Não admitido. Veículo novo. Defeito (sic) de fábrica. Código de Defesa do Consumidor. 1. O defeito apresentado, mormente por tratar-se de veículo zero quilômetro já com sucessivas idas à oficina, diminuiu o valor e comprometeu a qualidade do produto, além de impossibilitar a utilização do bem. 2. Regular a aplicação do art. 18, §§ 1º e 2º da Lei n. 8.078/90, estando a decisão em harmonia com os precedentes desta Corte ao determinar a substituição do bem” (STJ – AGA 350590/RJ – 4ª Turma - j. 09.03.2001, – rel. Min. Carlos Alberto Menezes de Direito, DJ 07.05.2001, p. 141) 5.9. REDUÇÃO OU AMPLIAÇÃO DO PRAZO DO FORNECEDOR Art. 18 (...) § 2º Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão a cláusula de prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do consumidor. O prazo de 30 dias que o fornecedor tem para resolver o problema do consumidor pode ser aumentado para 180 dias ou diminuído para 7 dias, em comum acordo entre eles, quando isso for absolutamente necessário para a solução do problema. Ex: A substituição de uma peça a ser importada da China, cujo prazo de remessa ultrapassa a 30 dias. 5.10. A IMPOSSIBILIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DA PARTE VICIADA § 3º O Consumidor poderá fazer USO IMEDIATO das alternativas do § 1º deste artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer: (1) qualidade ou (2) características do produto, (3) diminuir-lhe o valor ou (4) se tratar de produto essencial. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 112 5.11. PRODUTO ESSENCIAL Sobre Produto essencial a doutrina se divide em duas correntes: uma, que considera essencial o produto considerando a necessidade geral de todos e outra que considera essencial o produto considerando a necessidade individualizada do consumidor. CONCEITO GERAL: Produto essencial é aquele que o consumidor necessita para a manutenção de sua vida, diretamente ligado à sua saúde, higiene pessoal, limpeza e segurança, tais como alimentos, medicamentos, produtos de limpeza em geral. CONCEITO ESPECÍFICO: Parte da doutrina entende que produto essencial é aquele indispensável ao consumidor especificamente considerado em suas particularidades e não de essencialidade geral (comum a todos) como aquela inerente aos produtos enumerados no conceito acima. Exemplo: o computador para contabilista, a lata de cera para o engraxate, o secador de cabelos para o cabeleireiro, ou o veículo para o motorista de táxi. 5.12. A SUBSTITUIÇÃO DO PRODUTO POR OUTRO DE OUTRA ESPÉCIE Art. 18 (...) § 4º Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1º deste artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos inciso II e III do § 1º deste artigo. Esta hipótese só é possível com a expressa concordância do consumidor. 5.13. RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO NOS PRODUTOS IN NATURA Art. 18 (...) § 5º No caso de fornecimento de produto in natura, será responsável perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu produtor. Produto in natura é o produto de origem agrícola ou pastoril que não passa por processo de industrialização. Exemplo: quase todos os produtos comercializados na feira livre: ovos, carne, doce etc. Os produtos de industrialização rústica (doce caseiro, farinha, queijo etc.) são considerados in natura. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 113 Na comercialização do produto in natura, se o produtor não puder ser identificado, o fornecedor imediato (COMERCIANTE) será o responsável (art. 13, inc. II). Identificado o produtor e o comerciante, tornam-se eles responsáveis solidários. 6. Responsabilidade pelo VÍCIO DE QUANTIDADE do PRODUTO Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos VÍCIOS DE QUANTIDADE DO PRODUTO sempre que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do recipiente, da embalagem, da rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente à sua escolha: Os fornecedores respondem solidariamente e objetivamente pelos vícios de quantidade dos produtos, aferida através das indicações do rótulo, recipiente, embalagem ou da mensagem publicitária. Assim, se a embalagem da lata de óleo de soja indica que seu conteúdo é de um litro e seu peso não ultrapassa a 900 ml, temos aí um caso típico de vício de quantidade do produto. 6.1. VARIAÇÕES DE QUANTIDADE DECORRENTES DA NATUREZA DO PRODUTO Alguns produtos podem experimentar, durante perda do processo distributivo, sensível perda de conteúdo líquido, dentro dos limites estabelecidospelas entidades governamentais encarregadas do controle do peso e da medida. Tratam-se das “...variações decorrentes de sua natureza...” (dos produtos). Exemplo: os combustíveis líquidos evaporam ou o dente de alho que sofre variação para menor com o passar do tempo (perdem massa e peso). 6.2. OPÇÕES DO CONSUMIDOR NO VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO Ocorrendo o vício de quantidade em relação ao conteúdo do produto “...poderá o consumidor exigir à sua escolha...” : Art. 19. (...) I – o abatimento proporcional do preço; II – a complementação do peso ou medida III – a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem os aludidos vícios; Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 114 IV – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos. 6.3. SOLUÇÃO IMEDIATA EM FAVOR DO CONSUMIDOR Ocorrendo o vício de quantidade, ao contrário do art. 18 caput (vício qualidade do produto), no VICIO DE QUANTIDADE do produto não há prazo de 30 dias para o fornecedor resolver o problema do consumidor. A solução tem que ser IMEDIATA ou então o consumidor poderá exigir, à sua escolha (junto ao próprio fornecedor, administrativamente ou judicialmente): a) abatimento proporcional no preço; b) complementação do peso ou medida; c) substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo; d) restituição imediata da quantia paga, atualizada, sem prejuízo de perdas e danos. 6.4. RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR IMEDIATO PELA PESAGEM OU MEDIÇÃO DO PRODUTO Art. 19 (...) § 1º Aplica-se a este artigo o disposto no parágrafo 4º do artigo anterior. § 2º O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais Exemplo: O fabricante não será responsabilizado se o comerciante que adquiriu a barra de mortadela vende o produto à granel, com vício de quantidade (peso a menos, em prejuízo do consumidor). 6.5. AS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO (QUALIDADE E QUANTIDADE) Embora neste capítulo não haja um dispositivo específico sobre o assunto, as excludentes da responsabilidade civil do fornecedor por vício de qualidade ou quantidade do produto são as mesmas já vistas nos artigos 12, § 3º, alem das excludentes extralegais como o caso fortuito e a força maior. a) Não colocação do produto no mercado de consumo b) Inexistência de vício de qualidade ou de quantidade do produto; c) Fato exclusivo do consumidor; d) Fato de terceiro; e) Caso fortuito ou força maior. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 115 7. Responsabilidade pelo VÍCIO DE QUALIDADE do SERVIÇO Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao consumo (1) ou lhes diminuam o valor (2), assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta ou mensagem publicitária (3), podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha: Os serviços prestados pelo fornecedor devem corresponder às legítimas expectativas de qualidade despertadas no consumidor seja através da oferta ou da mensagem publicitária. Desta forma, o vício de qualidade (por inadequação) ocorre quando os atributos do serviço não estão em conformidade com as legítimas expectativas do consumidor. Exemplos de vício de qualidade do serviço: carpete que descola, parede mal-pintada, serviço de ensino deficiente etc. EMENTA: “Contrato de transporte. Incidente surgido em vôo. Foro do domicílio do autor. Ação de indenização por danos morais. Código de Defesa do Consumidor. 1. O contrato de transporte, contaminado por vício de qualidade do serviço causador de insatisfação, atrai a incidência do Código de Defesa do Consumidor – CDC – com a faculdade de a ação de indenização por danos morais ser proposta no foro do domicílio do autor. 2. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça. 3. Recurso especial conhecido” (STJ – REsp. 303.379-MA – 4ª Turma – j. 28.09.2004 – rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 18.10.2004, p. 281). O artigo 20 só fala em vício de QUALIDADE dos serviços, mas, é aplicado também aos vícios de QUANTIDADE dos serviços. Vícios aparentes: são aqueles de fácil percepção. O serviço de pintura do carro que ficou com manchas Vícios ocultos: só aparecem depois de algum tempo. Um serviço de instalação de um carpete com cola de má qualidade e depois de algum tempo, o carpete se solta; serviço de pintura que depois fica com bolhas etc. 7.1. OPÇÕES DE ESCOLHA DO CONSUMIDOR Ocorrendo o vício de qualidade do serviço, “...poderá o consumidor exigir à sua escolha...” imediatamente, sem prazo de 30 dias para o fornecedor: a) a REEXECUÇÃO dos serviços sem custo adicional e quando cabível; b) a RESTITUIÇÃO imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 116 c) o ABATIMENTO proporcional do preço. OBS. Em alguns casos não é possível a restituição integral do valor pago pelo serviço parcialmente realizado. Isto ocorre quando parte do serviço pode ser aproveitado pelo consumidor. A devolução integral acarretaria em enriquecimento ilícito do consumidor. Ex: na construção de uma casa, mesmo que haja vício de qualidade no serviço de colocação dos tijolos das paredes, aproveita-se o serviço de alicerce que ficou satisfatório. EMENTA: “Direito do consumidor. Prestação de serviços. Vício de qualidade. Art. 20, CDC. Viagem turística. Dano material e dano moral. Distinção. Opção do consumidor. Adequação à reparação do dano. Recurso desacolhido. I – Na prestação de serviços de viagem turística, o desconforto, o abalo, o aborrecimento e a desproporção entre o lazer esperado e o obtido não se incluem entre os danos materiais, mas pertencem à esfera moral de cada um dos viajantes, devendo a esse título ser ressarcidos. II – os danos materiais que sabidamente se distinguem dos morais, devem recompor estritamente o dispêndio do consumidor efetuado em razão da prestação de serviços deficiente, sem o caráter de punir o fornecedor, III – O direito de opção mencionado no art. 20, I a III do Código de Defesa do Consumidor, relaciona-se com a suficiência da reparação do dano, não devendo afrontar nem a proporcionalidade entre a conduta do fornecedor e o dano causado, nem o princípio que veda o enriquecimento ilícito”. (STJ – REsp. 328.182-RS – 4ª T. – j. 09.10.2001 – rel. Min. Sálvio Figueiredo Teixeira, DJU 04.02.2002, p. 390) Nesta hipótese do art. 20 há a responsabilidade solidária entre os fornecedores? O sentido literal do texto do artigo 20 nos indica que não, pois o caput do artigo fala em “fornecedor” e não em “fornecedores”. Porém, a interpretação sistemática nos indica que sim, havendo cadeia de fornecedores todos são solidariamente responsáveis, como na hipótese do serviço prestado por um franqueado, o franqueador também seria responsável solidário (prevalece o disposto no art. 25, § 1º do CDC) na reparação do dano causado. Em suma, se houver mais de um prestador de serviços, todos respondem solidariamente, por força do art. 25, § 1º do CDC. Exemplo: O banco que, por erro no sistema de informática atrasa e erra a fatura a ser emitida pela empresa do cartão de crédito > as duas empresas são responsáveis solidárias. As empresas consorciadas na venda do pacote turístico: agência de turismo, transportadora, hotel etc. todos são solidárias na totalidade do dano. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 117 7.2. SERVIÇOS IMPRÓPRIOS Art. 20 (...) § 2º. São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam (1) bem como aqueles que não atendam às normas regulamentares de prestabilidade(2) A norma conceitua que são impróprios os serviços inadequados e os que estiverem em desconformidade com as normas regulamentares de prestabilidade. São inadequados os serviços que não correspondem às legítimas expectativas do consumidor quanto à sua qualidade. Exemplo: o serviço de pintura que deixa bolhas etc. A expressão “normas regulamentares de prestabilidade” refere-se aos serviços regulamentados pelos órgãos privados como ABNT, CBRA, ou órgão da administração pública, como INMETRO, Vigilância Sanitária etc. Exemplo: o serviço de instalação de rede elétrica em uma residência em desacordo com as normas da companhia de energia elétrica. É de se ressaltar que “estar de acordo com as normas regulamentares de prestabilidade” não é excludente de responsabilidade civil pelos danos causados. 7.3. EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE VÍCIO DO SERVIÇO Embora neste capítulo não haja um dispositivo específico sobre o assunto, as excludentes da responsabilidade civil do fornecedor por vício de qualidade ou quantidade do serviço são as mesmas já vistas no art. 14 § 3º, alem das excludentes extralegais como o caso fortuito e a força maior. a) Inexistência de vício de qualidade ou de quantidade do serviço; b) Fato exclusivo do consumidor; c) Fato de terceiro; d) Caso fortuito ou força maior. 7.4. A REEXECUÇÃO DO SERVIÇO POR TERCEIROS: Art. 20 (...) § 1º. A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor. Pode acontecer que o consumidor não queira mais que o mesmo prestador execute o serviço, em razão da perda da confiança no fornecedor. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 118 Como, por exemplo, o consumidor que perde a confiança no médico em razão da má qualidade no serviço de cirurgia plástica estética. Ou, o eletricista que, por três vezes não consegue resolver o problema elétrico na residência do consumidor. Nestes casos, para a execução do serviço, o consumidor pode utilizar-se da norma do art. 84 do CDC: tutela específica da obrigação (obrigação de fazer). Ou, também, realizar o serviço através de 3º às expensas do prestador de serviço inadimplente. 7.5. RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DE QUANTIDADE DO SERVIÇO A falta de um artigo específico para regular os vícios de quantidade do serviço aplica-se a regra do art. 19 por analogia, naquilo que couber, e subsidiariamente, os conceitos do art. 20. Exemplo: Um curso de inglês ministrado com carga-horária menor que o anunciado na oferta publicitária. 8. A obrigação de empregar componentes novos na reparação do produto Art. 21. No fornecimento de serviços que tenham por objetivo a reparação de qualquer produto, considerar-se-á implícita a obrigação do fornecedor de empregar componentes de reposição originais adequados e novos, ou que mantenham as especificações técnicas do fabricante, salvo, quanto a estes últimos, autorização em contrário do consumidor. Para o CDC, empregar componentes de reposição usados sem o consentimento do consumidor é crime: “Art. 70. Empregar, na reparação de produtos, peça ou componentes de reposição usados, sem autorização do consumidor”. 9. Serviços públicos Art. 22. Os órgão públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos. Os órgãos públicos só são considerados fornecedores quando o serviço prestado for tarifado (utili singuli), como por exemplo, o serviço de energia elétrica, telefonia fixa, gás e água. Quando o serviço for mantido pela cobrança de impostos (uti universi) não há relação de consumo e não se aplica o CDC (a questão é atinente ao Direito Administrativo), como, por exemplo, nos serviços de educação pública, iluminação pública e segurança pública. Serviços públicos próprios - são prestados pelo Estado usando seu poder de império sobre os administrados. São serviços essenciais à Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 119 comunidade, que só a Administração deve prestar, sem delegação a terceiros (serviço de segurança pública, iluminação, limpeza, etc.). São gratuitos ou de baixa remuneração, para que fique ao alcance de todos. São mantidos pelos tributos gerais. Também são chamados de uti universi. Serviços públicos impróprios - são serviços de utilidade pública, que atendem à conveniência dos cidadãos, e podem ser prestados pelo próprio Estado ou por delegação a terceiros, mediante concessões, permissões ou autorizações. A retribuição é feita através de taxas ou tarifas, que representam remuneração mensurável e correspondente ao uso individual do serviço. Assim, os serviços de telefonia, água, energia elétrica, etc. Chamam-se serviços uti singuli. Neste sentido: “Os serviços públicos impróprios ou UTI SINGULI prestados por órgãos da administração pública indireta ou, modernamente, por delegação a concessionários, como previsto na CF (art. 175), são remunerados por tarifa, sendo aplicáveis aos respectivos contratos o Código de Defesa do Consumidor” (STJ – REsp. 609.332-SC – 2ª Turma – j. 09.08.2005 – rel. Min. Elana Calmon, DJU 05.09.2005, p. 354). Serviço adequado = art. 6º, § 1º da Lei 8.987/95 9.1. A INADIMPLÊNCIA AUTORIZA A INTERRUPÇÃO NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO? Conforme a jurisprudência do STJ, se o consumidor permanecer inadimplente após ser comunicado previamente é lícito à concessionária interromper o fornecimento de energia elétrica (água, telefone etc.). EMENTA: “Administrativo. Energia Elétrica. Corte. Falte de pagamento. É lícito à concessionária interromper o fornecimento de energia elétrica, se, após aviso prévio, o consumidor de energia elétrica permanecer inadimplente no pagamento da respectiva conta (Lei n. 8.967/95, art. 6º, § 3º, inc. II)” (STJ – REsp. 363.943_MG – 1ª Turma – j. 10.12.2003 – rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 01.03.2004, p. 119). Entretanto, ressalva a jurisprudência do STJ que “o corte não pode ocorrer de maneira indiscriminada, de forma a afetar áreas cuja falta de energia colocaria em demasiado perigo a população, como ruas, hospitais e escolas públicas” (STJ - REsp nº 594095-MG - 2ª Turma – rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU de 19.03.2007). 9.2. A RESPONSABILIDE CIVIL DAS CONCESSIONÁRIAS DE SERVIÇOS PÚBLICOS Art. 22. Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial das obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste artigo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 120 EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Telefone. Descumprimento do contrato. Indenização. O descumprimento do “contrato de promessa de assinatura de linha telefônica” por parte da companhia fornecedora do serviço deve ser sancionado com a condenação ao pagamento da indenização por danos sofridos pelo usuário. Art. 22 do CDC. Recurso conhecido e provido” (STJ – REsp. 419.252-RJ – 4ª Turma – j. 05.09.2002 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 25.11.2002, p. 240). EMENTA: “Recurso especial. Acidente em estrada. Animal na pista. Responsabilidade objetiva da concessionária de serviço público. Código de Defesa do Consumidor. Precedentes. Conforme jurisprudência desta Terceira Turma, as concessionárias de serviços rodoviários, nas suas relações com os usuários, estão subordinadas à legislação consumerista. Portanto, respondem, objetivamente, por qualquer defeito na prestação do serviço, pela manutenção da rodovia em todos os aspectos, respondendo, inclusive, pelos acidentes provocados pela presença de animais na pista. Recurso especial provido.” (STJ – REsp. 647.710-RJ – 3ª Turma – j. 20.06.2006 – rel. Min. Castro Filho, DJU 30.06.2006, p. 216). 10. Aignorância dos vícios e a garantia de boa qualidade. Art. 23. A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviços não o exime da responsabilidade. O CDC adotou a responsabilidade objetiva, como regra geral e a ignorância do fornecedor (elemento culpa) não tem relevância quando se tratar de vício de qualidade (e quantidade) por inadequação dos produtos e serviços. 13. Garantia legal de adequação e Cláusulas exonerativas de responsabilidade Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo expresso, vedada exoneração do fornecedor. A garantia tem caráter itinerante - acompanha o produto quando este for transmitido a sucessivos consumidores, durante a vida útil do bem, não importando se o vício oculto, por exemplo, em um forno de microondas, aparecerá no primeiro ano ou no segundo, quando já está em mãos da sobrinha da compradora original. QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. A disciplina relativa a vícios de qualidade dos produtos e serviços só pode ser invocada pelo adquirente final de produtos e serviços. Vida útil do produto: até quando o fornecedor deve garantir a qualidade do produto comercializado no mercado de consumo? Para Zelmo Denari, os produtos passam por três fases: a) fase de conservação; b) fase de degradação e; Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 121 c) fase agônica. Garantia legal de adequação = é uma garantia implícita (no sentido literal de impled warranty) de que o produto ou serviço deve corresponder às legítimas expectativas do consumidor, tanto no aspecto da qualidade, quanto da segurança. É a garantia que deflui da confiança despertada no consumidor pelo marketing da empresa (do produto ou do serviço), como aquela proveniente da marca (Mercedes Bens, por exemplo), do preço (um relógio de R$ 20.000) ou da publicidade. A garantia legal de adequação é uma garantia que independe da garantia real (legal + contratual) e está vinculada à expectativa que fornecedor desperta no consumidor-adquirente. Tem fundamento na boa-fé objetiva como expressão imediata da confiança entre as partes nas relações de consumo. Ex: Um televisor de marca famosa, que custa R$ 8.000,00 desperta no consumidor a expectativa legítima de que vai durar no mínimo quatro (04) anos sem problemas de qualidade, mesmo que a garantia real (legal + contratual) seja de apenas dois anos mais noventa dias. Ao contrário acontece com um relógio adquirido na banca de camelô por R$ 15,00. Princípios que fundamentam a GARANTIA LEGAL DE ADEQUAÇÃO: princípio da confiança e boa-fé objetiva. Trata-se de uma CLÁUSULA GERAL implícita a todo contrato de consumo, independente de termo expresso. Parâmetros para o juiz formular a regra da “cláusula geral” da garantia legal de adequação: a) o preço do produto; b) a marca e: c) o marketing (informações publicitárias etc.). Todos esses elementos despertam no consumidor a legítima expectativa de qualidade. 14. Vedação de limitação indenizatória e solidariedade entre fornecedores Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções anteriores. É direito básico do consumidor, previsto no art. 6º, inc. VI do CDC, a efetiva, plena e integral reparação pelos danos materiais e morais sofridos nas relações de consumo. Os hotéis e os estacionamentos de veículos costumam advertir seus hóspedes que não se responsabilizam por furtos de bens ou valores não confiados à direção do hotel, para fins de depósito. Trata-se de uma advertência (cláusula contratual) sem nenhuma validade jurídica, por força do art. 25 e do direito básico à restituição integral pelo dano sofrido (art. 6º, inc. VI do CDC). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 122 EMENTA: “Direito civil. Responsabilidade civil. Furto em estacionamento. Shopping Center. Veículo pertencente a possível locador de unidade comercial. Existência de vigilância no local. Obrigação de guarda. Indenização devida. Precedentes. Recurso provido. I. Nos termos do enunciado n. 130/STJ, “a empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento”. II. A jurisprudência deste Tribunal não faz distinção entre o consumidor que efetua compra e aquele que apenas vai ao local sem nada dispender. Em ambos os casos, entende-se pelo cabimento da indenização em decorrência do furto de veículo. III. A responsabilidade pela indenização não decorre de contrato de depósito, mas da obrigação de zelar pela guarda e segurança dos veículos estacionados no local, presumivelmente seguro” (STJ – REsp. 347.649-SP – 4ª Turma – j. 06.02.2003 – rel. Min. Sálvio Figueiredo Teixeira – DJU 24.02.2003, p. 242). STJ - SUMULA 130 – “A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento”. 15. A SOLIDARIEDADE DOS FORNECEDORES Art. 25. (...) § 1º Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas seções anteriores. EMENTA: “Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade do fornecedor. Culpa concorrente da vítima. Hotel. Piscina. Agência de viagens. 1. Responsabilidade do hotel, que não sinaliza convenientemente a profundidade da piscina, de acesso livre aos hóspedes. Art. 14 do CDC. 2. A culpa concorrente da vítima permite a redução da condenação imposta ao fornecedor. Art. 12, § 2º, III, do CDC. 3. A agência de viagem responde pelo dano pessoal que decorreu do mau serviço do hotel contratado por ela para a hospedagem durante o pacote de turismo. Recursos conhecidos e providos em parte” (STJ – REsp. 287.849 – 4ª Turma – j. 17.04.2001 – rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 13.08.2001, p. 165). 15.1. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA NOS PRODUTOS E SERVIÇOS COMPÓSITOS Produtos compósitos são produtos montados com vários componentes fabricados por diferentes fornecedores. Art. 25. (...) § 2º Sendo o dano causado por componente ou peça incorporada ao produto ou serviço, são responsáveis solidários seu fabricante, construtor ou importador e o que realizou a incorporação. Há situações em que os produtos são compósitos, isto é, montados com peças fabricadas por diversos fabricantes, como nos caso dos automóveis em que a fábrica faz a montagem de várias partes fabricadas por vários fornecedores, como pneus, bancos, freios, motor etc. Até o serviço pode ser composto com o fornecimento de uma peça, como na hipótese do serviço de Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 123 mecânica em que a peça substituída pela oficina mecânica apresenta vício de qualidade que a torna inadequada para o uso. Em todas estas hipóteses, todos os fornecedores (montadora, fabricante, oficina mecânica, fabricante da peça) são responsáveis solidários na reparação do dano. 16. A DECADÊNCIA 16.1. O TEMPO NAS RELAÇÕE JURÍDICAS O decurso do tempo (como acontecimento natural) exerce efeitos sobre as relações ou situações jurídicas, ora positivos, ora negativos. Seja isoladamente, seja cumulativamente com outros fatores, a lei toma o tempo como causa de aquisição ou extinção de direitos ou faculdades jurídicas. Fala-se, por isso, em prazos aquisitivos (usucapição ou prescrição aquisitiva) e prazos extintivos (prescrição liberatória e decadência) (Humberto Theodoro Jr.). 16.2. A NOÇÃO DE DECADÊNCIA A noção de decadência encontra-se vinculada à extinção de um direito potestativo, que deveria ter sido concretizado, normalmente, pelo seu titular, ou por meio de uma ação de natureza constitutiva, no decorrer de determinado prazo: “a decadência é a perda do direito potestativo pela inércia do seu titular no período determinado em lei” (Francisco Amaral, p. 579). Adecadência deriva da lei ou da vontade das partes. No processo civil é chamada de preclusão. Cuidando-se de prazo decadencial fixado em lei, deverá o juiz declará-lo de ofício. Afinal, tratando-se de “matéria de ordem pública, a decadência pode ser decretada de ofício e a qualquer tempo, inclusive em pedido de reconsideração manejado após o despacho saneador que a afastou” (STJ – REsp. 326.292 – 5ª T., j. 02.08.2001, rel. Min. Edson Vidigal, DJU 03.09.2001). Para melhor entender o mecanismo da decadência e da prescrição é imprescindível rever os conceitos de direito subjetivo, direito potestativo e pretensão e as relações entre eles. 16.3. O DIREITO SUBJETIVO DIREITO SUBJETIVO é o poder que o ordenamento jurídico reconhece a alguém de ter, fazer ou exigir de outrem determinado comportamento (Francisco Amaral, p. 575). Ou, é o poder jurídico concedido pela lei ao indivíduo de satisfazer um interesse próprio. A ele se contrapõe um dever. Representa a estrutura da relação poder-dever, pela qual ao poder de uma das partes corresponde o dever da outra. A infração a este dever resulta, nas relações jurídicas patrimoniais, um dano para o titular do direito subjetivo. Nasce então para o titular o poder de exigir (pretensão) do devedor uma ação Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 124 ou omissão, que permite a composição do dano verificado (Francisco Amaral, p. 575). Dever jurídico é a necessidade de se observar certo comportamento, positivo ou negativo, imposto a todos pela lei, de forma genérica. Exemplo: não matar. A obrigação, por sua vez, é uma espécie do gênero dever jurídico, que impõe um comportamento específico, derivado de uma relação jurídica estabelecida entre as partes, seja por lei, sentença, vontade unilateral ou por suas vontades. Os direitos subjetivos dão ensejo a uma pretensão condenatória, cujo exercício se sujeita a prazo prescricional. Os direitos potestativos poderão ser exercidos em juízo através de uma pretensão constitutiva, sendo o seu prazo de natureza decadencial. 16.4. A PRETENSÃO A violação do direito subjetivo por outrem faz nascer para seu titular a PRETENSÃO. Enquanto o direito subjetivo é o direito a uma prestação, a pretensão é o direito de exigir esta prestação. Em sentido estrito, a pretensão é a própria exigibilidade. PRETENSÃO (Ansprunch) é o poder de exigir a prestação devida pelo inadimplente. Nasce no momento em que o credor pode exigir a prestação e esta não é cumprida, violando o direito subjetivo. Exemplo: a dívida de aluguel que vence no dia 28 próximo: antes desta data tem o locador o direito subjetivo ao recebimento da prestação, mas não tem ainda a pretensão para exigi-la. Até o dia 28, o locatário-devedor ainda não tem a obrigação de efetuar o pagamento, isto é, ainda não há violação do direito subjetivo. A partir do dia 28, se não houver o pagamento, há violação do direito subjetivo e nasce daí a pretensão ao recebimento forçado da dívida. O exercício desta pretensão tem prazo regulado por lei: prazo prescricional de três anos, previsto no art. 206, § 3º, inc. I do CC. Assim, é possível que exista pretensão sem que exista direito subjetivo (pretensão infundada), bem como direito subjetivo sem pretensão (por incidência da prescrição). A prescrição atinge apenas a pretensão deixando intacto o direito subjetivo, ao ponto de tornar irrepetível o pagamento de dívida prescrita feito espontaneamente. 16.5. O DIREITO POTESTATIVO Existem direitos subjetivos que não fazem nascer pretensões, porque destituídos dos respectivos deveres: são os direitos potestativos. É o direito sem pretensão, posto que despreza a colaboração do seu destinatário para ser exercido (André Fontes). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 125 DIREITO POTESTATIVO = é o poder que o agente tem, mediante ato unilateral, de influir na esfera jurídica de outrem, constituindo, modificando ou extinguindo uma situação subjetiva sem que esta possa fazer alguma coisa, senão sujeitar-se. Não lhe contrapõe um dever, mas uma sujeição à conduta de outrem. Os direitos potestativos não fazem nascer pretensões porque, diferente dos direitos subjetivos não pode ser violados. O titular do direito potestativo sujeita alguém aos efeitos deste seu direito e não exige de ninguém um comportamento. E o faz interferindo na esfera jurídica alheia – ato constitutivo unilateral – independente de qualquer cooperação do titular do estado de sujeição na produção de um efeito jurídico (André Fontes, p. 44). O conceito de pretensão serve para distinguir os direitos subjetivos dos direitos potestativos. Os direitos potestativos não podem ser lesados e seus titulares não têm pretensão, ao contrário do que ocorre nos direitos subjetivos (Francisco Amaral, p. 576). Assim, enquanto o direito subjetivo cria um dever para outrem, o direito potestativo cria uma sujeição. Ou, enquanto o direito subjetivo deve ser exigido (tem o prazo mais longo), o direito potestativo deve ser exercido. 16.6. OS PRAZOS DECADENCIAIS Alguns direitos potestativos não estão sujeitos a prazos decadenciais para serem exercidos, como, por exemplo: a) o direito do patrão de dispensar o empregado; b) do doador de revogar a doação; c) do agente de ocupar a res nullius; d) de aceitar ou não a proposta de contratar; e), de aceitar ou não a herança; f) direito de constituir o devedor em mora (art. 307 do CC); g) direito do condômino de exigir a divisão da coisa comum (art. 1.320 do CC); h) direito de anular o contrato por inadimplemento etc. Em algumas hipóteses, o ordenamento jurídico estabelece prazos para que os direitos potestativos possam ser exigidos, são os denominados prazos decadenciais. São exemplos: a) o prazo de quatro anos o prazo para se pleitear anulação do negócio jurídico maculado por algum dos vícios da vontade (art. 178, incs. I e II). ; b) o prazo de trinta dias ou noventa dias para o direito do consumidor de reclamar ou não pelos vícios do produto ou do serviço duráveis ou não-duráveis, respectivamente (art. 26 do CDC) etc. 16.7. A DECADÊNCIA NO CDC DECADÊNCIA é a perda do DIREITO POTESTATIVO pela inércia do seu titular no período de tempo determinado em lei. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 126 Exemplo: o consumidor que deixa de reclamar pelo vício do produto ou do serviço no prazo estipulado no art. 26 do CDC. A decadência pode ser estabelecida em: (1) lei ou; (2) pela vontade das partes através do negócio jurídico, desde que se trate de matéria de direito disponível e não haja fraude às regras legais. Um exemplo de prazo de garantia contratual é aquele estabelecido voluntariamente pelos fornecedores de produtos e serviços, para reparos sem ônus para o consumidor, em casos de surgimento de vícios ocultos (alguns automóveis novos têm garantia contratual de até 3 anos). Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca (decai) em: Os vícios aparentes são verificados pela simples visualização. Os vícios de fácil constatação são verificados pela simples experimentação I – trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não-duráveis; II – noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis. A diferença entre duráveis e não duráveis envolve a maior ou menor durabilidade dos produtos ou serviços, mensurada em tempo de consumo. Exemplo: Produtos e serviços não-duráveis: alimentares, vestuário, serviços de táxi, lavagem de veículos etc. Produtos e serviços duráveis: eletrodomésticos, veículos e serviço de construção civil. Deve-se ressaltar que o dispositivo fala em direito de reclamar, ou seja, o prazo decadencial refere-se tão-somente ao requisito da “reclamação junto ao fornecedor” pelos vícios do produto ou do serviço.Não se refere a prazo para ajuizamento da ação de ressarcimento de danos, como se verá adiante. EMENTA: “Direito do Consumidor. Ação de preceito cominatório. Substituição de mobiliário entregue com defeito. Vício aparente. Bem durável. Ocorrência de decadência. Prazo de noventa dias. Art. 26, II, da Lei 8.078/1990. Doutrina. Precedente da Turma. Recurso Provido. I – existindo vicio aparente, de fácil constatação no produto, não há que se falar em prescrição quinquenal, mas, sim, em decadência do direito do consumidor de reclamar pela desconformidade do pactuado, incidindo o art. 26 do Código de Defesa do Consumidor. II – o art. 27 do mesmo diploma legal cuida somente das hipóteses em que estão presentes vícios de qualidade do produto por insegurança, ou seja, casos em que produto traz um vicio intrínseco que potencializa um acidente de consumo, sujeitando-se o consumidor a um perigo iminente. III – entende-se por produtos não-duráveis aqueles que se exaurem no primeiro uso ou logo apos sua aquisição, enquanto que os duráveis, definidos por exclusão, Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 127 seriam aqueles de vida útil não-efêmera” (STJ – REsp. 114.473-RJ – 4ª Turma – j. 24.03.1997 – rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 05.05.1997, p. 17.060). 16.7.1. TERMO INICIAL (‘A QUO’) DO PRAZO DECADENCIAL Art. 26. (...) § 1º Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços. O dispositivo trata da hipótese em que o vício é aparente ou de fácil constatação. Neste caso, o prazo decadencial para reclamação do consumidor (30 dias para produtos ou serviços não-duráveis e 90 dias para produtos e serviços duráveis) inicia-se a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços (termo a quo). 16.7.1.1. A ENTREGA DO PRODUTO O prazo decadencial de reclamar junto ao fornecedor pelos vícios aparentes ou de fácil constatação inicia-se a partir da entrega efetiva do produto. Isso quer dizer que mesmo que a aquisição seja em data anterior à entrega do produto, somente quando este estiver na posse do consumidor iniciar-se-á a contagem do prazo decadencial. Da mesma forma, Não basta notificar o consumidor que o produto está à sua disposição no depósito da loja ou dos correios. 16.7.1.2. O TÉRMINO DO SERVIÇO Quando o objeto da relação de consumo for a prestação de um serviço e este apresentar vício de qualidade aparente ou de fácil constatação, o prazo para que o consumidor proceda a reclamação junto ao fornecedor inicia-se somente após o efetivo término do serviço. Se o serviço for durável, o prazo é de noventa dias a partir da constatação do vício, e se for não-durável o prazo é de trinta dias. No caso do fornecedor abandonar o serviço sem concluí-lo, o prazo decadencial para que o consumidor faça a reclamação inicia-se a partir do abandono. 16.7.1.3. E SE O VÍCIO FOR OCULTO? Se o vício for oculto e aparecer algum tempo depois da entrega do produto ou do término do serviço, como por exemplo, na constatação de que o livro falta algumas páginas, algum tempo após sua aquisição. Nesta hipótese, aplica-se o parágrafo 3º do art. 26: o prazo inicial da decadência inicia-se a partir do momento em que o consumidor toma conhecimento do vício. Também nesta hipótese, a partir do surgimento do vício, o consumidor tem prazo de 30 dias para os produtos e serviços não-duráveis e 90 dias para Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 128 produtos e serviços duráveis para promover a reclamação junto ao fornecedor, somado antes destes, o prazo de garantia contratual (art. 50 do CDC). EMENTA: “Consumidor. Responsabilidade pelo fato ou vício do produto. Distinção. Direito de Reclamar. Prazos. Vício de adequação. Prazo decadencial. Defeito de segurança. Prazo Prescricional. Garantia legal e prazo de reclamação. Distinção. Garantia contratual. Aplicação, por analogia, dos prazos de reclamação atinentes à garantia legal. (...) -Diferentemente do que ocorre com a garantia legal contra vícios de adequação, cujos prazos de reclamação estão contidos no art. 26 do CDC, a lei não estabelece prazo de reclamação para a garantia contratual. Nessas condições, uma interpretação teleológica e sistemática do CDC permite integrar analogicamente a regra relativa à garantia contratual, estendendo-lhe os prazos de reclamação atinentes à garantia legal, ou seja, a partir do término da garantia contratual, o consumidor terá 30 (bens não duráveis) ou 90 (bens duráveis) dias para reclamar por vícios de adequação surgidos no decorrer do período desta garantia. Recurso especial conhecido e provido.” (STJ – REsp. 967.623-RJ – 3ª Turma – j. 16.04.2009 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 29.06.2009). 16.6.2. TERMO FINAL (‘AD QUEM’) DO PRAZO DECADENCIAL O CDC estabelece que o prazo decadencial fica obstado, ou seja, se encerra, com a ocorrência de dois eventos: 1) a reclamação feita pelo consumidor junto ao fornecedor e; 2) a instauração de inquérito civil público. Neste sentido: § 2º Obstam a decadência: I – a RECLAMAÇÃO comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca; II – (vetado) III – a instauração de INQUÉRITO CIVIL, até seu encerramento. 16.7.2.1. OBSTAR A DECADÊNCIA Obstar a decadência significa que o prazo para formulação de reclamação junto ao fornecedor pelo vício do produto ou do serviço é decadencial e não mais corre (se encerra, fica impedido de correr). Isso ocorre a partir da (i) reclamação formulada pelo consumidor ou (ii) da instauração do inquérito civil. A partir da ocorrência de qualquer destes dois eventos não mais se fala em decadência. Se o fornecedor não resolver o problema do consumidor dentro Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 129 do prazo de 30 dias, em caso de produtos compósitos (nos termos do art. 18, § 1º do CDC) ou imediatamente, no caso de serviços e produtos não-compósitos, ou produtos essenciais (art. 18, §§ 2º, 3º e 4º do CDC), nasce a pretensão de ressarcimento judicial, cujo prazo para exercício (prazo prescricional) é o do art. 206, § 3º, inc. V do CC. É importante lembrar que, ao contrário da prescrição, a decadência não se suspende e nem se interrompe – art. 207 do CC. Salvo exceções expressamente previstas na lei (Ex: o art. 208 do CC que impede o cômputo do prazo decadencial contra os absolutamente incapazes). Também quando estabelecidos em lei, os prazos decadenciais não podem ser aumentados ou reduzidos por convenção das partes, tendo em vista os interesses de ordem pública que fundamentam o instituto (RTJ 85/1019). No caso do direito do consumidor, o prazo decadencial para o consumidor reclamar junto ao fornecedor pode ser dilatado através de convenção entre as partes, como, por exemplo, na hipótese do prazo de garantia contratual. Os prazos decadenciais, quando não fixados em lei (estabelecidos pela vontade das partes), podem ser objeto de renúncia pelos particulares (art. 209 do CC, a contrariu sensu). Os prazos prescricionais, ao contrário, não podem ser alterado pela vontade dos particulares (art. 192 do CC). 16.7.2.2. RECLAMAÇÃO FORMULADA PELO CONSUMIDOR O CDC estabelece que a reclamação pelo vício de qualidade do produto ou do serviço deve ser feita pelo consumidor junto ao fornecedor, por escrito, verbalmente, por telefone, pelo correio, por fax etc. Cabe ao consumidor produzir a prova de que fez a referida reclamação. Esta prova pode ser produzida por todos os meios legais: documentos, testemunhas, perícia etc. Para o fim de obstar a decadência não tem validade a reclamação feita junto ao Procon ou ao Ministério Público. 16.7.2.3. INSTAURAÇÃO DE INQUÉRITO CIVIL O inquérito civil público éum instrumento de iniciativa exclusiva do Ministério Público (art. 8º, § 1º da Lei 7.347/85), utilizado para apurar responsabilidades por atos ilícitos, normalmente, referentes a fatos que dizem respeito a interesses coletivos lato sensu (difuso, coletivos ou individuais homogêneos). Constituição Federal: “Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: (...) III – promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos.” Assim, a partir da data da Portaria de instauração do inquérito civil estará obstada a decadência. Melhor dizendo, estará encerrado o prazo decadencial. Nesta hipótese, o consumidor não precisa se preocupar em Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 130 formular diretamente a reclamação junto ao fornecedor para garantir o direito ao ressarcimento do dano, mas deve ficar atento ao encerramento do inquérito civil, que é o termo inicial do prazo prescricional (nasce a pretensão) para ajuizamento da ação individual (ou coletivo, se o autor for o Ministério Público ou qualquer dos legitimados do art. 82 do CDC) de responsabilidade civil. Mesmo que o inquérito civil não tenha ainda se encerrado, o consumidor poderá ajuizar ação individual de reparação de danos a partir da resposta negativa do fornecedor, em face da reclamação pessoal formulada junto ao fornecedor. “obstar o prazo decadencial” - temos aqui, um dos efeitos da instauração do inquérito civil público. 16.7.2.4. A CONDIÇÃO ESPECÍFICA DA AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS POSIÇÃO PESSOAL DESTE AUTOR: No nosso entendimento, o CDC criou uma condição específica para a ação de ressarcimento pelos danos causados pelo vício do produto ou do serviço: A RECLAMAÇÃO formulada junto ao fornecedor. Assim, considerando que muitos vícios de qualidade dos produtos e serviços são insignificantes e fáceis de serem resolvidos administrativamente, com o fim de evitar sobrecarregamento do Judiciário pelo excesso de micro- demandas e por política legislativa, o CDC estabelece que, antes do consumidor ajuizar a ação de responsabilidade civil, seja oportunizado ao fornecedor a solução do problema no âmbito administrativo (através de atendimento à sua reclamação ou no inquérito civil público). Somente depois de esgotada esta via, abre para o consumidor a possibilidade de ajuizamento da ação de responsabilidade civil pelos danos decorrentes do vício do produto ou do serviço. Porquanto, o art. 26, caput do CDC estabelece prazo decadencial para que o consumidor exercite esse direito (ou ônus) de reclamar sob pena de decair de tal prerrogativa legal: 30 dias para produtos serviços não-duráveis e 90 dias para produtos e serviços duráveis. 16.7.3. TERMO INICIAL DO PRAZO PRESCRICIONAL O CDC fala nos dois incisos que a decadência fica obstada “até” a resposta negativa do fornecedor (inc. I) e “até” o encerramento do inquérito civil (inc. II). Ou seja, a partir destes dois eventos, não se fala mais em prazo decadencial que é específico para o consumidor fazer a reclamação junto ao fornecedor. Nasce daí, para o consumidor, a pretensão ressarcitória, cujo prazo não é mais decadencial, mas prescricional. A partir da (a) resposta negativa do fornecedor ou do (b) encerramento do inquérito civil público, nasce para o consumidor a pretensão ressarcitória e Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 131 inicia-se um outro prazo, não mencionado especificamente no CDC: o prazo prescricional para o ajuizamento da pretensão ao ressarcimento dos danos, estabelecido pelas regras gerais do art. 206 do Código Civil. 16.7.3.1. RESPOSTA NEGATIVA DO FORNECEDOR A resposta negativa do fornecedor, de forma inequívoca, faz a nascer para o consumidor a pretensão de ressarcimento do dano. Entretanto, embora o dispositivo fale em resposta “inequívoca”, não se deve excluir a hipótese mais comum de resposta inequívoca: o silêncio do fornecedor ou a “enrolação” de quem nunca diz não, mas também nunca resolve o problema. A efetiva constatação de qualquer forma de desinteresse do fornecedor em resolver imediatamente o problema do consumidor pode ser considerada resposta negativa inequívoca. 16.7.3.2. ENCERRAMENTO DO INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO Ao final do inquérito civil público (ato de encerramento) o Promotor de Justiça tem duas opções: a) determina o arquivamento e remete para o Conselho Superior do Ministério Público para homologação ou b) ajuíza ação civil pública. O encerramento do inquérito civil público ocorre a partir da homologação pelo Conselho Superior do Ministério Público da promoção de arquivamento feita pelo Promotor de Justiça. 16.7.3.3. PRAZO PRESCRICIONAL PARA AJUIZAMENTO DA PRETENSÃO RESSARCITÓRIA A colocação, nos dois incisos do § 2º do art. 26, do vocábulo “ATÉ” não pode levar à interpretação de que ao final dos dois eventos: (i) resposta negativa inequívoca e (ii) encerramento do inquérito civil, o prazo decadencial volte a correr, porque aí estaria havendo a suspensão ou a interrupção do prazo decadencial. É nítida a observação de que não foi esta a intenção do legislador. Também porque, segundo a melhor doutrina, a prazo decadencial não se suspende nem se interrompe (art. 207 do CC). O que ocorre ao final dos dois eventos é que abre-se o prazo prescricional de três (03) anos, nos termos do art. 206, § 3º, inc. V do CC, para o consumidor ajuizar a pretensão de reparação civil (Hector Valverde Santana, Prescrição e decadência nas relações de consumo, RT, 2002). Isto é, a partir do momento em que o fornecedor responde negativamente ou deixa o consumidor sem resposta (como é muito comum) ou há o encerramento do inquérito civil público homologado pelo Conselho Superior do Ministério Público, concretiza-se a violação do direito subjetivo do consumidor referente à qualidade do produto ou serviço adquirido, e nasce aí, a pretensão ao ressarcimento do dano. Esta pretensão não pode postergar no tempo Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 132 infinitamente e tem prazo prescricional para ser exigida (art. 206, § 3º, inc. V do Código Civil), podendo ser objeto da ação civil de reparação de danos. Em suma, quando o fornecedor se nega resolver o problema do consumidor (art. 18, § 1º) ou há o encerramento do inquérito civil, nasce, a partir daí, a pretensão, a qual, por se constituir na violação de um direito subjetivo, relaciona-se com a prescrição. 16.7.3.4. EQUÍVOCO JURISPRUDENCIAL SOBRE DECADÊNCIA Verifica-se que a jurisprudência Superior Tribunal de Justiça que se apresenta abaixo (REsp. 442.368-MT, rel. Min. Jorge Scartezzini) tem fundamentação contrária ao texto acima, pois vincula o prazo para ajuizamento da ação (prazo prescricional) ao prazo decadencial, em desconsonância com a melhor doutrina sobre o tema (Ver Francisco Amaral, Direito Civil: Introdução). EMENTA: “Direito do consumidor. Recurso Especial. Art. 177 do CC/16. Ausência de prequestionamento. Súmula 356/STF. Indenização. Sementes de algodão de qualidade inferior. Vício de qualidade de produtos não-durável. Prazo para o ajuizamento da ação indenizatória. Art. 26, I, da Lei n. 8.078/90. Início da contagem. Vício oculto. Momento em que evidenciado. Art. 26, § 3º, da Lei n. 8.078/90. Decadência mantida. Dissídio pretoriano não comprovado. 1 – (...). 2 – (...) 3 – Baseando-se o pedido de indenização na ocorrência de vício de qualidade de produto não-durável (entrega de sementes de algodão de qualidade inferior à contratada), o prazo decadencial para o ajuizamento da ação é o previsto no art. 26, I, da Lei n. 8.078/90. Tratando-se de vício oculto, porquanto na aquisição das sementes ele não era detectável, a contagem do prazo iniciou-se no momento em que aquele se tornou evidente para o consumidor, nos termos do art. 26, § 3º,da Lei n. 8.078/90. Logo, o prazo já havia se escoado, há nove meses, quando da propositura da presente ação. Ademais, o prazo prescricional estabelecido no art. 27 do mesmo diploma legal somente se refere à responsabilidade pelo fato do produto (defeito relativo à falha na segurança), em caso de pretensão à reparação de danos. 4 – Precedentes (REsp. ns. 114.473-RJ, 258.643-RR). 5 – Recurso não conhecido” (STJ – REsp. 442.368-MT – 4ª Turma – j. 05.10.2004 – rel. Min. Jorge Scartezzini, DJU 14.02.2005, p. 208). 16.7.4. O VÍCIO OCULTO § 3º tratando-se de VÍCIO OCULTO, o prazo decadencial inicia- se no momento em que ficar evidenciado o defeito. Vício oculto é aquele que só se manifesta após algum tempo de iniciado o uso e o consumo do produto ou serviço. Exemplo: Um consumidor adquire um microcomputador e seis meses depois descobre que não é possível instalar um drive opcional que o sistema permite. Havia um problema técnico no computador que só foi descoberto com a instalação do drive. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 133 QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. O prazo decadencial do direito de reclamar pelos vícios ocultos dos produtos inicia-se no momento em que ficar evidenciado; a lei todavia, não estabelece um prazo máximo para surgimento do vício. No nosso entendimento, para ser ressarcível, o vício oculto tem que aparecer dentro do prazo decadencial, isto é, dentro do prazo de garantia real (garantia contratual + garantia legal). Assim, se o vício oculto aparece no penúltimo dia da garantia real (garantia legal + garantia contratual), o consumidor só tem 24 horas para fazer a reclamação junto ao fornecedor. 16.7.5. E SE O VÍCIO OCULTO APARECE SÓ DEPOIS DE ENCERRADA AS GARANTIAS CONTRATUAIS E LEGAIS? Como dissemos acima, em regra, o vício oculto, para ser reparável pelo fornecedor, tem que surgir dentro do prazo de garantia real (contratual somada à garantia legal do art. 26) do produto ou do serviço. Entretanto, se o vício oculto surgir após o prazo de garantia, poderá, mesmo assim, ser reparável se houve violação do princípio da boa-fé objetiva, fundado na proteção à confiança e expectativas de qualidade que o fornecedor despertou no consumidor, através do marketing do produto, do preço, da marca etc. Trata-se da “garantia legal de adequação” prevista no art. 24 do CDC. A garantia legal de adequação é implícita a todos bens colocados no mercado de consumo e determina implicitamente que o produto ou o serviço deve corresponder às legítimas expectativas do consumidor, tanto no aspecto da segurança quanto da qualidade. Dentro de um período razoável que corresponde à vida útil do produto e à expectativa de qualidade despertada no consumidor pelo marketing do produto ou serviço, fica o fornecedor o fornecedor obrigado a reparar o vício mesmo que este surja fora do prazo de garantia real (legal + contratual). A garantia legal de adequação tem fundamento no princípio da boa-fé objetiva (art. 4º, inc. III do CDC), protege a confiança e a legítima expectativa do consumidor despertada pelo preço pago, pela marca, pelo marketing da empresa fornecedora etc. Por exemplo: quem compra um televisor de R$ 12.000,00 tem a legítima expectativa de que este aparelho vá funcionar com qualidade durante os próximos 04 anos, mesmo que a garantia contratual seja de apenas 01 ano. Sobre o tema ver comentário ao art. 24. 16.7.6. E SE O FATO DO PRODUTO OU DO SERVIÇO OCORRER APÓS O PRAZO DE GARANTIA CONTRATUAL? Ao contrário dos vícios de qualidade (do produto ou do serviço), os danos causados pelos vícios de insegurança (defeito), denominados de acidentes de consumo (fato do produto ou do serviço, arts. 12 e 14 do CDC) não têm exigência de reparação limitada pelo prazo de garantia, contratual ou legal. Isto é, a garantia refere-se tão somente aos vícios dos produtos e dos serviços. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 134 A qualquer tempo, mesmo já vencido o prazo de garantia, se um produto ou serviço causar danos à saúde, segurança ou incolumidade econômica extrínseca do consumidor – acidente de consumo - o fornecedor responsável terá que arcar com a indenização. A partir da ocorrência do fato do produto ou do serviço (evento danoso), nasce para o consumidor a pretensão à reparação, cujo prazo prescricional é de 05 anos, nos termos do art. 27 do CDC. Como já se disse, a PRETENSÃO nasce no momento em que o consumidor-credor da obrigação pode exigir sua prestação, e esta não é adimplida, causando violação ao seu direito subjetivo. 17. A PRESCRIÇÃO 17.1. INTRODUÇÃO O tempo é fato jurídico natural de grande importância nas relações jurídicas, pela influência que pode ter no exercício e na perda dos direitos. A relação jurídica contém várias espécies de direitos: direitos subjetivos, a pretensão, o direito potestativo e as faculdades jurídicas. O instituto da prescrição evidencia a dinâmica que existe entre o exercício do direito e o transcurso do tempo. DIREITO SUBJETIVO = é o poder que o ordenamento jurídico reconhece a alguém de ter, fazer ou exigir de outrem determinado comportamento. A PRETENSÃO nasce no momento em que o credor pode exigir sua prestação, e esta não é cumprida, causando lesão no direito subjetivo. A violação de um direito subjetivo gera, para o respectivo titular, a pretensão, que se define como o poder ou a faculdade de exigir de alguém uma prestação (ação ou omissão). A pretensão sujeita-se a um prazo legal de exercício, e findo este prazo sem que o credor a tenha feito valer em juízo, haverá a prescrição. A prescrição, porém, não extingue o direito subjetivo material da parte credora e nem o direito processual de ação. Cria apenas para o devedor uma exceção (art. 193 do CC), que se for utilizada como matéria de defesa no processo civil cujo objeto for a realização da pretensão do credor, acarretará a extinção desta. Se não exercitada a exceção como matéria de defesa, o direito do credor será tutelado normalmente em juízo, sem embargo de estar consumada a prescrição. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 135 “PRESCRIÇÃO é a exceção criada em razão do transcurso do tempo, destinada a tolher, em caráter definitivo, a eficácia da pretensão. É a perda da executoriedade de uma pretensão devido ao decurso do tempo” (André Fontes, 50). Direito subjetivo gera obrigação do sujeito passivo de realizar uma prestação se não cumprida = gera o inadimplemento daí nasce a pretensão (poder de exigir a prestação devida pelo inadimplente) e o direito material de ação (direito à tutela do órgão judicial para obter o resultado prático correspondente à pretensão) = no plano processual, o exercício da pretensão provoca a movimentação de ação = condenatória ou executiva. PRESCRIÇÃO é a perda da pretensão em virtude da inércia do seu titular no prazo fixado em lei. Ver art. 189 do Código Civil A prescrição atinge apenas a pretensão de se obter a prestação devida, assim, pretensão nada mais é do que o poder de exigir uma prestação de outrem. Sempre que a parte não tiver pretensão a exercer em relação ao demandado, porque este não tem obrigação de realizar qualquer prestação em favor do autor, o caso é de decadência e não de prescrição. É o que se passa com as ações constitutivas e declaratórias, porque nas primeiras se exerce um direito potestativo, e, nas últimas, apenas se busca a certeza acerca da existência ou inexistência de uma relação jurídica. Vale dizer: em nenhuma delas o autor reclama prestação (ação ou omissão) do réu, não havendo pretensão para justificar a prescrição (Humberto Theodoro Jr.). A obrigação prescrita transforma-se em obrigação natural já que o credor não dispõe de pretensão como objeto da ação judicial utilizada para exigir do devedor, opagamento. Se, entretanto, o pagamento de obrigação prescrita for feito, não há direito à devolução. 17.2. A PRESCRIÇÃO NO CDC Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. O artigo 27 refere-se à fato do produto ou do serviço – À REPARAÇÃO DE DANOS MATERIAIS CAUSADO POR “ACIDENTES DE CONSUMO” As demais pretensões, que não aquelas que versam sobre fato do produto ou do serviço, mas que são objeto de ações condenatórias oriundas das relações de consumo, inclusive as que versam sobre os vícios do produto Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 136 e do serviço (arts. 18 a 20 do CDC), têm os prazos prescricionais informados pelo Código Civil (arts. 191 a 206), cuja aplicação é subsidiária ao CDC. Nestas outras pretensões reparatórias incluem-se as reparações decorrentes de DANOS MORAIS, cujo prazo prescricional não é o do art. 27 do CDC, mas o prazo de três anos previsto no art. 206, § 3º, inc. V do Código Civil. Exemplo: a pretensão de reparação por dano moral oriunda do fato do consumidor ser revistado por ter sido barrado indevidamente pelo alarme eletrônico na porta de saída de uma grande loja de magazine. (Hector Valverde Santana). QUESTÃO = MPDF/2002 = ( ) V ou F. Prescreve em cinco anos a pretensão da vítima de acidente de consumo – denominado de bystander pela doutrina – à reparação dos danos sofridos. 17.3. TERMO ‘A QUO’ DO PRAZO PRESCRICIONAL O prazo prescricional de cincos para o consumidor ajuizar a ação indenizatória inicia-se à partir do momento que ele tem: a) conhecimento do dano e b) conhecimento de sua autoria. Exemplo: um consumidor ingere dois produtos: alguns pedaços de compotas de doce e creme de leite de uma certa marca. Algumas horas depois passa mal e é internado com intoxicação alimentar. Certamente, temos aí um fato do produto, ou acidente de consumo. O prazo prescricional (cinco anos) para ajuizamento da ação de reparação de danos inicia-se à partir do conhecimento de quem, ou qual produto, causou o dano ao consumidor. 17.4. HIPÓTESES DE NÃO APLICAÇÃO DO PRAZO PRESCRICIONAL DO CDC EMENTA: “Civil. Furto de veículo. Seguro. Indenização. Valor da apólice. Recusa. Prescrição anua. Código Civil, art. 178. § 6º, II. Inaplicabilidade à espécie do Código de Defesa do Consumidor, art. 27. I. Em caso de recusa da empresa seguradora ao pagamento da indenização contratada, o prazo prescricional da ação que a reclama é o de um (1) ano, nos termos do art. 178, parágrafo 6º, inciso II, do Código Civil. II. Inaplicabilidade do lapso prescricional qüinqüenal, por não se enquadrar a espécie do conceito de "danos causados por fato do produto ou do serviço", na exegese dada pela 2ª Seção do STJ, uniformizadora da matéria, ao art. 27 c/c os arts. 12, 13 e 14 do Código de Defesa do Consumidor (REsp n. 207.789/RJ, Rel. p/ Acórdão Min. Aldir Passarinho Junior, unânime, DJU de 24.09.2001). III. Recurso especial conhecido e provido” (STJ – REsp. 402.345-RJ – 4ª Turma – j. 21.03.2002 – rel. Min. Aldir Passarinho Junior, DJU 27.06.2005, p. 395). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 137 18. A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 18.1. A PESSOA JURÍDICA PESSOA JURÍDICA é um conjunto de pessoas ou de bens, dotados de personalidade jurídica. Organizam-se, assim, de modo unitário, pessoas e bens, com o reconhecimento do direito que atribui personalidade ao conjunto que passa a participar da vida jurídica. Pessoas e bens + reconhecimento jurídico = personalidade jurídica Características das pessoas jurídicas: a) capacidade de direito e de fato; b) existência de uma estrutura organizativa artificial; c) objetivos comuns de seus membros; d) patrimônio próprio e independente do de seus sócios; e) publicidade de sua constituição (registro dos seus atos constitutivos nas repartições competentes. 18.2. A PERSONIFICAÇÃO A PERSONIFICAÇÃO é um processo da técnica jurídica consistente na atribuição de personalidade jurídica a um grupo de pessoas (associações e sociedades), ou a conjunto de bens (fundações), observados os requisitos da lei, tendo em vista os objetivos comuns a realizar. Efeitos da personificação: total independência patrimonial e individual da nova entidade, relativamente aos sócios que a constituem. Ou seja, independência no (1) patrimônio, (2) nas relações jurídicas e (3) na responsabilidade civil. Este processo técnico reconhece individualidade própria a um grupo, distinto de seus elementos componentes e evita que tal conjunto seja considerado como a simples soma dos indivíduos nas relações de que participa. Ex. se a sociedade A não tivesse personalidade jurídica, as dívidas que contraísse não seriam dela, mas seus sócios. Mas, se a pessoa jurídica é utilizada para fins escusos não condizentes com o ordenamento jurídico, o juiz pode desconsiderá-la para lançar mão do patrimônio de seus sócios, ou dos bens da empresa ou dos bens de outra empresa para pagar dívidas junto aos credores. 18.3. A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Conforme a teoria da desconsideração da pessoa jurídica, HAVENDO ABUSO, FRAUDE ou INSOLVÊNCIA DA EMPRESA nos casos especificados pela Lei, o juiz pode desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade, declarando-a ineficaz para determinados efeitos (permanecendo íntegra para os Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 138 legítimos objetivos), quando houver circunstâncias que indiquem a prática de atos fraudulentos, de descumprimento de obrigações, de atos ilícitos, enfim, por sócios que se utilizam da pessoa jurídica para atingir fins ilícitos aproveitando-se da vantagem do privilégio da limitação da responsabilidade civil. “Para fins de conceituação, a teoria da desconsideração da personalidade jurídica é conhecida como aquela que permite ao juiz desconsiderar a autonomia jurídica da personalidade da empresa e da personalidade de seus sócios, toda vez que a sociedade tiver sido utilizada para fins ilegais ou que acarretem prejuízo a seus credores” (Min. Fátima Nancy Andrighi, ). Através da desconsideração da pessoa jurídica, o juiz pode determinar que a constrição recaia sobre bens dos sócios para pagar dívidas da empresa, ou também sobre os bens da empresa para pagar dívidas particulares dos sócios, ou, ainda, sobre bens de uma empresa para pagar dívidas de outras empresas do mesmo grupo (Min. Fátima Nancy Andrighi). 18.3.1. A TEORIA MAIOR DA DESCONSIDERAÇÃO A TEORIA MAIOR DA DESCONSIDERAÇÃO foi adotada pelo art. 50 do CC, é aplicada quando há ABUSO DO DIREITO ou FRAUDE. 1) ABUSO DO DIREITO de personificação – Quando o proprietário ou sócio, utiliza a pessoa jurídica em desconformidade com os padrões de boa-fé (objetiva) e ordem pública, expressados nos parâmetros de lealdade, confiança, probidade, transparência e cooperação (art. 187 do CC). Exemplo: A vende o ponto para B com a condição contratual de não estabelecer concorrência com B. Passados alguns meses, A junta-se a C e abre a empresa AC Ltda, para concorrer com B. Neste caso, A está utilizando-se da pessoa jurídica “AC Ltda” para dissimular a quebra da cláusula contratual (Fábio Ulhoa Coelho, ...). A desconsideração fundada no abuso do direito é totalmente desvinculada da situação de insolvência da empresa. 2) FRAUDE - Sempre que a desconsideração se fundar na existência de FRAUDE, exige-se, além da PROVA DA INSOLVÊNCIA DA EMPRESA, que haja também desvio de finalidade ou confusão patrimonial: a) DESVIO DE FINALIDADE (teoria subjetiva) – quando a pessoa jurídica desborda das finalidades declinadas no seu ato constitutivo ou mesmo se extingue para se eximir de responsabilidades ouse extingue irregularmente. Exemplo: empresa que vende lotes ou ações de empreendimentos inexistentes ou que adquire produtos e serviços de fornecedores e depois desaparece do mercado. Escola que cobra pela matrícula em determinado curso e logo depois encerra suas atividades. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 139 b) CONFUSÃO PATRIMONIAL (teoria objetiva) – quando um ou todos os sócios constituem uma nova sociedade e para ela transferem todos os seus bens particulares. Exemplo: duas empresas com os mesmos sócios, no mesmo endereço, conglomerados familiares, empresas controladas e empresas controladoras. 18.3.2. A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO Tem caráter objetivo por ser totalmente desvinculada da idéia de culpa ou dolo. De forma que, será desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. Sua aplicação não se vincula à existência de abuso ou fraude, mas tão somente à existência de prova da insolvência da empresa. Para a teoria menor da desconsideração basta a prova da insolvência da empresa fornecedora de produtos ou serviços, em prejuízo do consumidor, nos termos do art. 28, § 5º do CDC. Funda-se na premissa de que o risco empresarial deve ser suportado pelos sócios e administradores da empresa fornecedora, ainda que a conduta seja proba (sem fraude ou abuso). A questão subjetiva da culpa ou dolo é indiferente. Exemplo: empresa fornecedora (de produtos ou serviços), insolvente, que dá prejuízo a centenas ou milhares de consumidores. A Teoria Menor da Desconsideração é adotada pelo art. 28, § 5º do CDC e art. 4º da Lei n. 9.605/98, Lei Ambiental. Entendemos que, por suas características protetivas, a CLT, no art. 2º, § 2º da CLT também adotou a Teoria Menor da desconsideração. 18.4. AS FORMAS DE DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Conforme se viu, a personificação tem os limites fincados na ocorrência de: (a) abuso do direito de personificação e/ou (b) fraude (confusão patrimonial e/ou desvio de finalidade) ou (c) simples inadimplência, naqueles casos excepcionais especificados na lei (art. 28 do CDC e art. 2º, par. 2º da Lei Ambiental). A desconsideração da personalidade jurídica permite ao juiz co- responsabilizar patrimônios, isto é, afastar o princípio da autonomia patrimonial entre os bens dos sócios e os bens da sociedade. Para atender a esta finalidade, explica a Ministra Nancy Andrighi que a desconsideração pode ocorrer de várias formas: Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 140 a) DESCONSIDERAÇÃO DIRETA: ocorre quando se desconsidera a personalidade jurídica da empresa para buscar no patrimônio pessoal dos sócios o quantum necessário para a satisfação dos credores. É a forma de desconsideração mais utilizada pela jurisprudência, como na hipótese da sociedade empresarial falida utilizada pelos sócios controladores, diretores e ex-diretores para fraudar credores. Neste caso, pode o juiz falimentar determinar, de ofício, na própria sentença declaratória de falência, medida cautelar de indisponibilidade de bens dos sócios fraudadores (STJ - REsp. 370.068-GO, j. 16.12.2003, rel. Min. Nancy Andrighi). Ressalve-se que o juiz não pode desconsiderar a personalidade jurídica da empresa inadimplente na própria sentença que decreta a falência. b) DESCONSIDERAÇÃO INVERSA: ocorre quando o sócio utiliza-se da sociedade como escudo de proteção para fraudar credores, escondendo nela seus bens pessoais. Exemplo: o cônjuge que pretende se separar e com a finalidade de dissipar a meação do outro cônjuge, se empenha em esvaziar o patrimônio do casal, transferindo parte dos bens para uma sociedade. c) DESCONSIDERAÇÃO INDIRETA: ocorre quando, na constelação de sociedades coligadas, consorciadas, controladoras e controladas, uma delas se vale dessa condição para fraudar seus credores. Neste caso, a desconsideração se aplica a qualquer sociedade que se encontre dentro do mesmo grupo econômico, para alcançar a efetiva fraudadora que está sendo coberta pelas coligadas. 18.5. PREVISÕES LEGAIS DE DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA A desconsideração da personalidade jurídica da empresa é prevista em vários dispositivos do ordenamento jurídico brasileiro: a) art. 4º da Lei Ambiental n. 9.605/98; b) art. 2º, par. 2º da CLT; c) art. 34 da Lei sobre Instituições Financeiras – Lei 4.595, 31.12.1964; d) art. 135 do Código Tributário Nacional; e) art. 50 do novo Código Civil: “Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. Como se verá adiante, o art. 50 do CC/2002 tem um alcance bem mais limitado que o art. 28 do CDC, pois além de ter um caráter subjetivo (dolo ou culpa), restringiu a aplicação da desconsideração da pessoa jurídica condicionando-a ao requerimento da parte ou do Ministério Público. Pelo Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 141 CDC, no § 5º do art. 28, a desconsideração é objetiva e a falta de formulação de um requerimento (pela parte ou pelo Ministério Público) não é óbice para que o juiz possa determinar a medida de ofício (como, por exemplo, no juizado cível, quando o consumidor analfabeto faz requerimento indenizatório por termo). 18.6. A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CDC Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso do direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provados por má administração. Como se verifica no dispositivo acima, várias são as hipóteses de desconsideração da pessoa jurídica: a) – abuso de direito ou excesso de poder; b) – infração da lei ou existência de fato ou ato ilícito; c) – violação dos estatutos ou do contrato social; d) – falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica, provocados por má administração; e) – O § 5º do art. 28 dispõe que também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. 18.7. A PESSOA JURÍDICA COMO OBSTÁCULO AO RESSARCIMENTO DO CONSUMIDOR Art. 28. (...) § 5º Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. Trata-se da permissão legal de desconsideração com maior amplitude na legislação brasileira, pois se dispensa a prova da intenção do fornecedor em fazer mau uso da pessoa jurídica. Basta que a personalidade jurídica seja utilizada, de alguma forma, como obstáculo ao ressarcimento de prejuízo causado aos consumidores. Ou seja, objetivamente, basta a insolvência da empresa. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 142 18.8. A DESCONSIDERAÇÃO NA JURISPRUDÊNCIA A desconsideração da personalidade jurídica da empresa visa alcançar a pessoa do sócio e seu patrimônio, ou vice-e-versa. O instituto tem por finalidade a proteção de credores lesados e não o benefício da própria pessoa jurídica e qualquer entendimento contrário a tal premissa implica desvirtuamento da teoria (STJ – REsp. 35.281, 4ª T., rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, j. 18.10.1994, RSTJ 73/261). Vale dizer também que a possibilidade de aplicação dadisregard doctrine deve ser demonstrada sob o crivo do devido processo legal (STJ – REsp. 282.266, rel. Min. Ari Pargendler, j. 18.04.2002, DJ 05.08.2002). JURISPRUDÊNCIA IMPORTANTE: A TEORIA MAIOR DA DESCONSIDERAÇÃO, regra geral no sistema jurídico brasileiro, não pode ser aplicada com a mera demonstração de estar a pessoa jurídica insolvente para o cumprimento de suas obrigações. Exige-se aqui, para além da prova de insolvência, ou a demonstração de desvio de finalidade (teoria subjetiva da desconsideração), ou a demonstração de confusão patrimonial (teoria objetiva da desconsideração). A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO, acolhida em nosso ordenamento jurídico, excepcionalmente no Direito do Consumidor e no Direito Ambiental, incide com a mera prova de insolvência da pessoa jurídica para o pagamento de suas obrigações, independentemente da existência de desvio de finalidade ou de confusão patrimonial. Para a TEORIA MENOR, o risco empresarial normal às atividades econômicas não pode ser suportado pelo terceiro que contratou com a pessoa jurídica, mas pelos sócios e/ou administradores desta, ainda que estes demonstrem conduta administrativa proba, isto é, mesmo que não exista qualquer prova capaz de identificar conduta culposa ou dolosa por parte dos sócios e/ou administradores da pessoa jurídica. A aplicação da TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO às relações de consumo está calcada na exegese autônoma do § 5º do art. 28, do CDC, porquanto a incidência desse dispositivo não se subordina à demonstração dos requisitos previstos no caput do artigo indicado, mas apenas à prova de causar, a mera existência da pessoa jurídica, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores (STJ – REsp. 279.273-SP, 3ª T., rel. Min. Nancy Andrighi, j. 04.12.2003, DJ 29.03.2004, p. 230). 18.9. HIPÓTESES DE DESCONSIDERAÇÃO INDIRETA NO CDC Os demais parágrafos 2ª, 3º e 4º do art. 28 têm ligação com o teor do caput ao indicar para o juiz, em caso de incapacidade econômica a sociedade de adimplir as obrigações assumidas, a possibilidade de responsabilizar as demais sociedades do mesmo grupo, consorciadas ou coligadas e, se for o caso, também desconsiderar suas personalidades jurídicas para buscar no patrimônio dos sócios a satisfação patrimonial dos credores. Trata-se de Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 143 hipóteses de desconsideração indireta (quando a desconsideração atinge outras sociedades do mesmo grupo econômico). 18.9.1. A DESCONSIDERAÇÃO DAS SOCIEDADES CONTROLADAS Art. 28. (...) § 2º As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. Nos termos do art. 265 da Lei das Sociedades Anônimas (Lei n. 6.404/76), o grupo societário é composto de sociedade controladora e sociedades controladas (atividades e empreendimentos comuns). A sociedade controladora coordena a administração do “grupo” de sociedades (art. 266). O consumidor poderá acioná-las após o insucesso do recebimento de seus direitos junto ao empresa fornecedora primariamente responsável EMENTA: (...) 3. “A desconsideração da pessoa jurídica, mesmo no caso de grupo econômicos, deve ser reconhecida em situações excepcionais, onde se visualiza a confusão de patrimônio, fraudes, abuso de direito e má-fé com prejuízo a credores. No caso sub judice, impedir a desconsideração da personalidade jurídica da agravante implicaria em possível fraude aos credores. Separação societária, de índole apenas formal, legitima a irradiação dos efeitos ao patrimônio da agravante com vistas a garantir a execução fiscal da empresa que se encontra sob o controle de mesmo grupo econômico” (Acórdão a quo). 4. “Pertencendo a falida a grupo de sociedades sob o mesmo controle e com estrutura meramente formal, o que ocorre quando diversas pessoas jurídicas do grupo exercem suas atividades sob unidade gerencial, laboral e patrimonial, é legítima a desconsideração da personalidade jurídica da falida para que os efeitos do decreto falencial alcancem as demais sociedades do grupo. Impedir a desconsideração da personalidade jurídica nesta hipótese implicaria prestigiar a fraude à lei ou contra credores. A aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica dispensa a propositura de ação autônoma para tal. Verificados os pressupostos de sua incidência, poderá o Juiz, incidentemente no próprio processo de execução (singular ou coletiva), levantar o véu da personalidade jurídica para que o ato de expropriação atinja terceiros envolvidos, de forma a impedir a concretização de fraude à lei ou contra terceiros” (RMS nº 12872/SP, Relª Minª Nancy Andrighi, 3ª Turma, DJ de 16/12/2002). 5. Recurso não-provido (STJ – REsp. 767.021-RJ – j. 16.08.2005 – rel. Min. José Delgado, DJU 12.09.2005, p. 258). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 144 18.9.2. A DESCONSIDERAÇÃO DAS SOCIEDADES CONSORCIADAS Art. 28. (...) § 3º As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. No sistema de sociedades consorciadas não há empresas dominantes e dominadas, mas há coordenação de duas ou mais empresas sob uma mesma direção. A desconsideração da personalidade jurídica com o fim de atingir o patrimônio das demais sociedades consorciadas só se justifica quando a empresa fornecedora direta se tornar insolvente e não puder garantir patrimonialmente a reparação dos danos causados aos consumidores. O parágrafo 3º se sobrepõe e até derroga o parágrafo primeiro do art. 278 da Lei 6.404/76, impondo a obrigação de solidariedade entre as sociedades consorciadas – quando se tratar de relação de consumo: “Art. 278. O consórcio não tem personalidade jurídica e as consorciadas se obrigam nas condições previstas no respectivo contrato, respondendo cada uma por suas obrigações, sem presunção de solidariedade” Exemplo: antigo consórcio Autolatina – Ford e Volkswagen ou o consórcio Varig e Tam 18.9.3. A DESCONSIDERAÇÃO DAS SOCIEDADES COLIGADAS Art. 28. (...) § 4º As sociedades coligadas só responderão por culpa. A Lei das Sociedades Anônimas, Lei n. 6.404/76, estabelece no art. 243, § 1º que “são coligadas as sociedades quando uma participa, com 10% (dez por cento) ou mais, do capital da outra, sem controlá-la.” A coligação preserva a autonomia de ação entre as sociedades e configura-se com a participação no capital, sem que uma exerça qualquer controle na direção ou administração da outra. Em todas as outras hipóteses (§§ 2º e 3º) a regra é a da responsabilidade objetiva (solidária), nesta hipótese - § 4º - a responsabilidade sociedades coligada é subjetiva. Pergunta: Quais são as hipóteses de responsabilidade subjetiva no CDC? Resposta: art. 14, § 4º (resp. dos profissionais liberais) e art. 28, § 4º (resp. das sociedades coligadas). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 145 18.10. QUEM PODE REQUERER A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA SOCIEDADE? São legitimados a requerer a desconsideração da personalidade jurídica: O consumidor pode requerer a desconsideração da personalidade jurídica quando se tratar de relação de consumo, mediante simples requerimento no processo, desde que verificada a ausência de patrimônio suficiente para indenização (art. 28, § 5º) ou nas outras hipóteses previstas no caput do art. 28. O credor também pode formular o pedido de desconsideração, se a hipótese tratar de relação civil/empresarial, regida pelo Código Civil e ficar constatado a utilização ilícita da sociedade seja na forma de abuso do direito ou de fraude (desvio de finalidade ou confusão patrimonial), sendo que esta última hipótese deve estar cumulada com a situação de insolvência - ausência de bens suficientes para o adimplemento da obrigação. Também o trabalhador,o contribuinte, o aplicador do mercado financeiro, a vítima de dano ambiental etc., podem requerer a desconsideração, conforme dispositivos legais específicos a estes segmentos. Enfim, qualquer pessoa (física ou jurídica) independente de previsão legal específica pode requerer a desconsideração da personalidade jurídica com o objetivo de adimplir a obrigação lançando mão do patrimônio dos sócios ou de outras empresas do mesmo grupo econômico. E, por último, a desconsideração pode ser requerida pelo Ministério Público, nas hipóteses que lhe couber intervir no processo, nos termos do art. 82 do CPC. 18.11. A DESCONSIDERAÇÃO PODE SER DEFERIDA EM ANTECIPAÇÃO DE TUTELA? Não é possível deferir liminarmente desconsideração da personalidade jurídica, através de antecipação de tutela, pois, por se tratar de uma medida excepcional, deve estar fundamentada em provas e no devido processo legal (direito de defesa e contraditório). Neste sentido, para Fábio Ulhoa “será sempre inafastável a exigência de processo de conhecimento de que participe, no pólo passivo, aquele cuja participação de pretende, seja para demonstrar sua conduta fraudulenta (se prestigiada a formulação maior da teoria) seja para condená-lo, tendo em vista a insolvabilidade da pessoa jurídica (quando adotada a teoria menor” (Curso de Direito Comercial, vol. 2, p. 56). Em face de uma necessidade urgente de garantir a eficácia de uma desconsideração de personalidade jurídica ao final do processo, pode o interessado requerer ao juiz que determine medida cautelar de indisponibilidade de bens das pessoas ou das outras empresas do mesmo grupo societário, em decisão interlocutória, se presentes os requisitos do fumus boni Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 146 iuris e os do periculum in mora (Neste sentido: REsp. 370.068-GO, j. 16.02.2003, rel. Min. Nancy Andrighi). “...Dessa forma, inviabiliza-se a medida em sede de liminar, ainda que implicitamente, já tendo se posicionado a esse respeito o STJ, ao afirmar que tal ocorrência é passível de anulação” (STJ – Ag. Reg. REsp. 422.583, 1ª T., rel. Min. José Delgado, j. 20.06.200, DJ 09.09.2002). 18.12. PODE HAVER DESCONSIDERAÇÃO NO PROCESSO DE EXECUÇÃO? Conforme entendimento pacífico no Superior Tribunal de Justiça, a aplicação da teoria da desconsideração dispensa a propositura de ação autônoma, pois, verificados os pressupostos de sua incidência, poderá o juiz, incidentalmente no próprio processo de execução (singular ou coletiva), levantar o véu da personalidade jurídica para que o ato de expropriação atinja os bens particulares de seus sócios, de forma a impedir a concretização da fraude à lei ou contra terceiros. Neste sentido: EMENTA: “Processo Civil. Recurso ordinário em mandado de segurança. Desconsideração da personalidade jurídica de sociedade empresária. Sócios alcançados pelos efeitos da falência. Legitimidade recursal. - A aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica dispensa a propositura de ação autônoma para tal. Verificados os pressupostos de sua incidência, poderá o Juiz, incidentemente no próprio processo de execução (singular ou coletiva), levantar o véu da personalidade jurídica para que o ato de expropriação atinja os bens particulares de seus sócios, de forma a impedir a concretização de fraude à lei ou contra terceiros. - O sócio alcançado pela desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária torna-se parte no processo e assim está legitimado a interpor, perante o Juízo de origem, os recursos tidos por cabíveis, visando a defesa de seus direitos. Recurso ordinário em mandado de segurança a que se nega provimento” (STJ – RMS 16.274-SP – j. 19.08.2003 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 02.08.2004, p. 359). 19. QUESTÕES DE CONCURSOS 1) (Magistratura-DF/2003) Conforme o Código de Defesa do Consumidor, o direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: a) em 30 (trinta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis, e em 90 (noventa) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços; b) em 30 (trinta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis, e em 90 (noventa) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir do momento em que ficar evidenciado o defeito; c) em 30 (trinta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis, e em 60 (sessenta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produto Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 147 duráveis, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços; d) em 30 (trinta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis, e em 60 (sessenta) dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis, iniciando-se a contagem do prazo decadencial a partir do momento em que ficar evidenciado o defeito; 2) (Magistratura-DF/2003) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade pode ser decretada no processo: a) somente quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social; b) somente quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica, provocados por má administração, ou quando a personalidade da pessoa jurídica for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores; c) somente quando forem verossímeis as alegações do consumidor ou quando for este hipossuficiente; d) nos casos das alÍneas ‘a’ e ‘b’. 3) (MP-MG 42º Concurso) Assinale a alternativa INCORRETA. No sistema do Código do Consumidor, a caracterização do vício do produto gerador de obrigação de redibir exige os seguintes pressupostos: a) Causa anterior à tradição. b) Contrato de consumo. c) Defeito de quantidade ou qualidade. d) Impossibilidade de substituição de partes viciadas. e) Inadequação do produto ou diminuição de seu valor. 4) (MP – MG - 2004) Com base na Lei 8.078/90 (código de proteção e defesa do consumidor), analise as proposições abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. a) A relevância social do bem jurídico tutelando ou da própria tutela coletiva justifica a legitimação do Ministério Público para a propositura de ação coletiva em defesa de interesses privados disponíveis. b) O período qüinqüenal da prescrição aplica-se às hipóteses em que se debate a responsabilidade pelo vício do produto e do serviço. c) Em tema de responsabilidade civil objetiva do fornecedor na relação de consumo, o Código adotou a teoria risco do empreendimento ou risco da atividade profissional. d) A Lei 8.078/90 ampliou os limites subjetivos da coisa julgada, estruturando-os segundo o resultado do processo, ou seja, secundum eventum litis. e) A inversão do ônus da prova a favor do consumidor no processo civil, enquanto direito básico, se dá ope judicis. 5) (MP-BA – 2004) Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do texto abaixo, que diz respeito ao Direito do Consumidor. Prescreve em ___________ anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço (acidente de consumo), iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. O direito de reclamar pelos vícios ocultos, Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 148 tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis, caduca em ___________dias. a) 3 (três) - 30 (trinta). b) 3 (três) - 90 (noventa).c) 5 (cinco) - 90 (noventa). d) 5 (cinco) - 180 (cento e oitenta). e) 10 (dez) - 180 (cento e oitenta). 6) (MP-BA – 2004) Sobre o Direito do Consumidor, assinale a alternativa correta: a) O produto ou serviço que, mesmo adequadamente utilizado ou fruído, apresenta alto grau de nocividade ou periculosidade será retirado imediatamente do mercado pelo fornecedor, sempre às suas expensas, sem prejuízo da responsabilidade pela reparação de eventuais danos. b) Excepcionando o sistema de nulidades absolutas das cláusulas contratuais abusivas do Código de Defesa do Consumidor, o juiz poderá modificar as cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou proceder sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas ao consumidor. c) A reclamação formalizada perante órgãos ou entidades com atribuições de defesa do consumidor obsta a decadência do direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação. d) O fornecedor de serviços responde pela reparação dos danos causados culposamente aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. e) A responsabilidade pelo fato do produto e do serviço do comerciante é concorrente em relação aos demais fornecedores. RESPOSTAS: 1 – A; 2 – D; 3 - D; 4 – B; 5 – C; 6 – C. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 149 CAPÍTULO 8 DAS PRÁTICAS COMERCIAIS 1. O CONCEITO DE PRÁTICAS COMERCIAIS O sistema econômico se baseia na (a) produção e na (b) comercialização. As práticas comerciais ou atividade de comercialização (b), por sua vez, são a mola mestra do sistema econômico baseado na livre iniciativa. Enquanto a PRODUÇÃO refere-se à criação de produtos e serviços), a COMERCIALIZAÇÃO ou as PRÁTICAS COMERCIAIS referem-se ao conjunto de atividades através das quais os produtos e serviços fluem do produtor para o consumidor final. PRÁTICAS COMERCIAIS: são o resíduo da produção, isto é, a fase pós-produção. São todos os mecanismos técnicas e métodos que servem direta ou indiretamente ao escoamento da produção. Visam fomentar, manter, desenvolver e garantir a circulação de produtos e serviços (Antonio Herman de Vasconcelos e Benjamin, Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelos autores do anteprojeto). São espécies de PRÁTICAS COMERCIAIS: a) O marketing b) As garantias c) Os serviços pós-vendas d) Os arquivos de consumo e) As cobranças de dívidas etc. 2. O MARKETING É o conjunto de atividades que se processam desde a concepção até a promoção e distribuição. Subdivide-se em publicidade e promoção de vendas. a) Publicidade - é o mais importante componente do marketing b) Promoções de vendas - exposições, demonstrações, vendas a domicílio, liquidações etc. ATIVIDADES DO MARKETING: a) concepção (design) b) promoção (publicidade, informação, oferta e apresentação) c) distribuição (comercialização) Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 150 obs. como se vê acima, a produção não faz parte do marketing 3. O CONSUMIDOR EQUIPARADO Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas. O caput do art. 2º do CDC traz o conceito em sentido estrito de consumidor: “Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.” Trata-se de uma noção básica de consumidor conectado na característica da destinação final do produto ou do serviço. Baseia-se no sentido concreto do conceito de destinatário final (conceito standard). Os verbos “adquire” ou “utiliza” dão um sentido de contratação direta, uma relação contratual entre fornecedor e consumidor. O CDC prevê outros três conceitos de consumidor: todos considerados como consumidores equiparados (bystander): a) no parágrafo único do art. 2º, a coletividade de pessoas, ainda eu indetermináveis, que haja intervindo na relação de consumo, como as consumidoras que utilizaram pílulas anticoncepcionais com defeito na imunização contra a gravidez; b) no art. 17, todas as vítimas dos fatos do produto ou do serviço, como por exemplo, os passantes na rua quando o avião cai por defeito do serviço e; c) no art. 29, todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas comerciais de oferta, de contratos de adesão, de publicidade, de cobrança de dívidas, de bancos de dados, sempre que vulneráveis in concreto. Em qualquer um dos três conceitos de consumidor equiparado o requisito da “destinação final” é irrelevante. Pode-se dizer, então, que consumidor é não apenas aquele que “adquire ou utiliza produto ou serviço” (art. 2º) – sentido strictu sensu, mas igualmente todas as pessoas determináveis ou não “expostas às práticas” abusivas (arts. 39 a 41) na oferta (arts. 30 a 35), na publicidade (arts. 36 a 38), na cobrança de dívidas (art. 42), na inserção de seus nomes em banco de dados (arts. 43 e 44) e às cláusulas contratuais abusivas (art. 51). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 151 Exemplo de prática comercial abusiva: a remessa indevida do nome do consumidor para o banco de dados (negativação do crédito) O artigo 29 exige a simples exposição à prática, mesmo que não se consiga apontar, concretamente, um consumidor que esteja em vias de adquirir o produto ou serviço (publicidade enganosa divulgada na televisão, por exemplo). A tutela preventiva e repressiva tem sentido individual, coletivo ou difuso. 4. A VINCULAÇÃO DA OFERTA Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. 4.1. A BOA-FÉ OBJETIVA NA OFERTA O art. 30 deflui do princípio da boa-fé objetiva (art. 4º, inc. I) e assegura transparência, clareza, veracidade e a plena informação sobre as características do produto e do serviço, bem como das condições do contrato levados à público pelo fornecedor. Impõe o dever da informação correta, seja na oferta publicitária, seja no conteúdo do contrato levado ao consumidor. 4.2. O PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DA OFERTA OFERTA – também chamada de policitação pública – é uma manifestação de vontade unilateral através da qual uma pessoa faz conhecer sua intenção de contratar e as condições essenciais do contrato (Benjamin, CDC comentado pelos autores do anteprojeto, 8ª ed. p. 254) PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DA OFERTA - O CDC estabelece que a “informação” ou “publicidade”, quando suficientemente precisas, veiculadas por qualquer meio de comunicação, com relação a produtos ou serviços “oferecidos” (oferta) ou “apresentados” (apresentação), vinculam o fornecedor. Em suma: a oferta integra o contrato e a simples manifestação de ofertar já vincula o fornecedor. O CDC equipara a publicidade e a informação, quando especificam as qualidades do produto ou serviço ou uma condição do contrato a uma “oferta” ou “apresentação”, impondo ao fornecedor-anunciante a vinculação pré- contratual em relação ao que foi anunciado. A oferta tem força de cláusula contratual e vincula o fornecedor. INFORMAÇÃO = fala do gerente, atendimento pessoal, informação por telefone, manual, folha de rascunho etc. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 152 PUBLICIDADE = tv, rádio, jornal, outdoors, cinema, evento, rótulo, folhetos etc. No sentido do artigo 30, qualquer informação e até a publicidade, desde que suficientemente precisa (quando mencionam qualidade do produto ou condição de contratação), é equiparada a uma oferta,(uma proposta para contratar) e vincula o fornecedor. É necessário que a oferta (informação ou publicidade) seja SUFICIENTEMENTE PRECISA, porquanto, o simples exagero não vincula, como por exemplo: “o mais bonito” ou “o mais confortável” etc. A publicidade, a apresentação e a informação NÃO são modalidades de “oferta”, mas tão somente os meios de levá-la ao conhecimento do consumidor. Na verdade, a publicidade e a oferta são expressões que compõem um único tronco: o marketing. Porém, a publicidade não é o único meio de levar a oferta ao público consumidor. EMENTA: “Consumidor. Recurso Especial. Publicidade. Oferta. Princípio da vinculação. Obrigação do fornecedor. 1.O CDC dispõe que toda informação ou publicidade, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, desde que suficientemente precisa e efetivamente conhecida pelos consumidores a que é destinada, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar, bem como integra o contrato que vier a ser celebrado. 2. Se o fornecedor, através de publicidade amplamente divulgada, garantiu que os imóveis comercializados seriam financiados pela Caixa Econômica Federal, submete-se a assinatura do contrato de compra e venda nos exatos termos da oferta apresentada” (STJ – REsp. 341.405-DF – 3ª Turma – j. 03.09.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 28.04.2003, p. 198). Um dos objetivos da vinculação da oferta é acabar de vez com a chamada “publicidade chamariz”, através da qual, “o fornecedor anuncia um determinado produto a preço vantajoso. Mas, ao chegar na loja o consumidor é surpreendido com a informação de que o fornecedor só possuía seis exemplares (já vendidos) por este preço, mas que ainda haveria outros exemplares de outra marca, porém, pelo preço norma da concorrência” (Cláudia Lima Marques, Comentários ao CDC, 2ª ed., p. 464). 4.3. A OFERTA É REVOGÁVEL? Ao contrário do que dispõe o Código Civil (art. 429, parágrafo único), pode-se revogar a oferta pela mesma via de sua divulgação, desde que ressalvada esta faculdade na oferta realizada. No direito do consumidor não é permitida a revogabilidade da oferta. Uma vez feito a oferta através da apresentação ou publicidade, o fornecedor fica vinculado ao cumprimento dos seus termos. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 153 4.4. O ERRO NA OFERTA O ERRO NA OFERTA – em regra, o erro na oferta publicitária não escusa o anunciante da vinculação pré-contratual. A oferta prevalece e obriga o fornecedor, como fonte de obrigação (vinculação unilateral). Entretanto, o ERRO GROSSEIRO, facilmente perceptível, não vincula o fornecedor. Exemplo: anunciar um veículo zero quilometro por apenas R$ 3.200,00. 4.5. O EXAGERO PUBLICITÁRIO O simples exagero (puffing ou dolus bônus) que não induz o consumidor em erro também não obriga o fornecedor: “o melhor sabor”, “a mais elegante”, “o maravilhoso”. Ao contrário, a utilização do puffing (exagero) em relação à características objetivas, como por exemplo, em relação ao preço, pode vincular o fornecedor: “o melhor preço da capital”, “a garantia do menor preço”. Como também, “o mais econômico da categoria”. Em todos estas hipóteses, o fornecedor deve ter consigo a prova técnica de suas afirmações à disposição do consumidor, nos termos do art. 36, parágrafo único do CDC. Ressalva, entretanto, Antonio Herman e Benjamin que “só a vagueza absoluta e inofensiva do anúncio permite a isenção de responsabilidade do fornecedor” (CDC comentado pelos autores do anteprojeto, 8ª ed. p. 333). 4.6. O DESCUMPRIMENTO DA OFERTA Se o fornecedor não se dispuser a cumprir a oferta espontaneamente >>> fica sujeito a condenação judicial à tutela específica da obrigação, nos termos do ART. 35 do CDC. Nos termos do art. 35 o consumidor pode requerer judicialmente: a) o cumprimento forçado da obrigação; b) aceitar outro produto ou prestação de serviço; c) rescindir o contrato, como direito a restituição da quantia paga, monetariamente atualizada, além das perdas e danos. 4.7. A LIMITAÇÃO QUANTITATIVA DA OFERTA Os incisos I e II do art. 39 (Das práticas abusivas) vedam ao fornecedor a limitação quantitativa no fornecimento de produtos e serviços, bem como a recusa de atender à demanda dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades de estoque A jurisprudência do STJ, entretanto, tem flexibilizado a regra e permitido que o fornecedor, em situações especiais, limite a quantidade de produtos a serem adquiridos por cada consumidor: “a falta de indicação de restrição quantitativa relativa à oferta de determinado produto, pelo fornecedor, não autoriza o consumidor exigir quantidade incompatível com o consumo individual ou familiar, nem, tampouco, configura Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 154 dano ao seu patrimônio extra-material” (STJ – REsp. 595.734-RS – 3ª Turma – j. 02.08.2005 – rel. p/ ac. Min. Castro Filho, DJU 28.11.2005, p. 275). 4.8. O PRAZO DE DURAÇÃO DA OFERTA? É necessário que o fornecedor anunciante estabeleça o prazo de duração da oferta. Em caso de promoção de vendas ou liquidação é necessário que se informe o número de unidades do produto ou do serviço que serão comercializados. O consumidor pode pedir para conferir as notas fiscais das vendas realizadas em condições promocionais. 4.9. O COMERCIANTE RESPONDE PELA OFERTA PUBLICITÁRIA VEICULADA PELO FABRICANTE? Nos termos do art. 30 do CDC a oferta “obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.” Portanto, se o comerciante é beneficiário da publicidade veiculada pelo fabricante, ou vice e versa, ambos respondem solidariamente perante o consumidor pela vinculação da oferta. Assim, se “constatado pelo eg. Tribunal a quo que o fornecedor, através de publicidade amplamente divulgada, garantiu a entrega de veículo objeto de contrato de compra e venda firmado entre o consumidor e uma de suas concessionárias, submete-se ao cumprimento da obrigação nos exatos termos da oferta apresentada. - Diante da declaração de falência da concessionária, a responsabilidade pela informação ou publicidade divulgada recai integralmente sobre a empresa fornecedora.” (STJ – REsp. 363.939-MG – 3ª Turma – j. 04.06.2002 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 01.07.2002, p. 338). EMENTA: “É solidária a responsabilidade entre aqueles que veiculam publicidade enganosa e os que dela se aproveitam, na comercialização de seu produto” (STJ – REsp. 327.257 – 3ª Turma – j. 22.06.2004 – rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 16.11.2004, p. 272). 4.10. O SILÊNCIO DO CONSUMIDOR O VINCULA À OFERTA? No direito do consumidor a anuência só tem validade se formalizada expressamente pelo consumidor. Não tem validade a anuência implícita, salvo na hipótese do art. 39, inc. VI do CDC. O artigo 111 do Código Civil não tem aplicação nas relações de consumo, ou seja, o silêncio não vincula o consumidor. CC: “Art. 111. O silêncio importa anuência, quando as circunstâncias ou os usos o autorizem, e não for necessária a declaração da vontade expressa.” Mesmo nas relações regidas pelo direito civil, o silêncio deve ter interpretação restritiva como manifestação tácita de anuência. Conforme ensina Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 155 Caio Mario, “para que o silêncio importe anuência, exige-se que ele traduza um comportamento, um querer positivo, e não somente uma abstenção de pronunciamento de uma pessoa em relação ao seu ambiente externo (Instituições, vol. I, p. ). 4.11. TODA OFERTA É DIRIGIDA AO CONSUMIDOR? Existem ofertas que são direcionadas para os comerciantes (atacado) e são reguladas pelo Código Civil, conforme dispõe o art. 429: “A oferta ao público equivale a proposta quando encerra os requisitos essenciais ao contrato, salvo se o contrárioresultar das circunstâncias ou dos usos.” Exemplo: Anúncio de determinada rede de venda de produtos oferecendo franquias ou representações. 5. A VERACIDADE DA OFERTA E DA APRESENTAÇÃO Art. 31. A OFERTA e APRESENTAÇÃO de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. A informação repassada ao consumidor pelo fornecedor, seja através da oferta ou da apresentação dos produtos ou serviços deve ser correta, precisa, clara (de fácil entendimento) e verdadeira, em consonância com o princípio da transparência – art. 4º, caput. O dispositivo fala em oferta e apresentação: Oferta – é manifestação unilateral de vontade de contratar, direcionada ao público consumidor, cujo objeto é um produto ou serviço. Apresentação – diz respeito ao produto em si. São os prospectos, bulas, rótulos, embalagens e assemelhados, com os quais se apresentam os produto ou o serviço, bem como o modo do oferecimento (produtos na vitrina, prateleira, balcão etc.). 5.1. O DEVER DE INFORMAR O DEVER DE INFORMAR é obrigação do fornecedor, decorrente dos deveres anexos da boa-fé objetiva, e direito básico do consumidor estabelecido no art. 6º, inc. III do CDC. O fornecedor tem o dever de tomar a iniciativa de fazer chegar ao consumidor todas as informações, sobre as características, qualidade, quantidade, composição, preço (à vista), garantia, prazos de validade, origem e riscos à saúde, dos produtos e serviços colocados no mercado de consumo. Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 156 Não há necessidade do consumidor indagar sobre as informações dos produtos ou serviços, pois, cabe ao fornecedor, de plano, repassar ao consumidor todas as informações (sobre produtos e serviços) necessárias para a formação da sua vontade de contratar. EMENTA: “É direito do consumidor a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação do preço. É muito comum nos supermercados o registro da mercadoria por preço superior ao que consta nas prateleiras ou gôndolas. Como se trata de várias mercadorias, o consumidor, ao passar no caixa, geralmente não se lembra do preço dos produtos. As irregularidades detectadas com o uso do sistema de código de barras levaram o administrador público a reconhecer a ineficácia no cumprimento da exigência contida na Lei n.º 8.078/90, arts. 6º, III, 30 e 31, passando a exigir a obrigatoriedade da afixação dos preços no produto. Assim, os donos de supermercados devem fornecer ao consumidor, além do código de barras e do preço nas prateleiras, a afixação do preço em cada produto. Só assim se estaria atendendo à determinação da citada lei. Com essas considerações, a Seção, prosseguindo no julgamento, denegou a segurança. Na sessão foram julgados vários processos sobre a mesma questão, todos com o mesmo resultado”. (STJ - MS 5.986-DF, Rel. Min. Garcia Vieira, julgado em 13/10/1999). 5.2. INFORMAÇÕES INDELÉVEIS NOS PRODUTOS REFRIGERADOS Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao consumidor, serão gravadas de forma indelével. (Incluído pela Lei n. 11.989, de 2009). 6. GARANTIA DE PEÇAS DE REPOSIÇÃO DO PRODUTO Art. 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto. Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser mantida por período razoável de tempo, na forma da lei. Enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto, o fabricante e o importador devem garantir a oferta de peças e componentes de reposição. Cessada a fabricação ou importação, a oferta deve ser mantida por um período de tempo razoável. Trata-se de um dever anexo (responsabilidade pós-contratual) decorrente da boa-fé objetiva e que está assegurado em lei. EXEMPLO: um fabricante de geladeiras não pode deixar de garantir o fornecimento de peças e componentes de um modelo que já não é mais Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 157 fabricado e saiu de linha há apenas um ou dois anos. Havendo divergência sobre a duração dessa obrigação, o consumidor deve recorrer à Justiça. EMENTA: “Indenização. Pretensão a diárias decorrentes da paralisação de veículos, por inexistência de peças no mercado, além das despesas de viagem ao exterior, para aquisição. Prova em consonância com o pedido. Obrigação do importador de manter peças de reposição à disposição do consumidor. Adequação da condenação ao prejuízo real”. (TJSP – Ap. Cív. n. 237.751-1 – 5ª Câm.Cív. – Rel. Des. Ivan Sartori, 28.12.95). 7. A IDENTIFICAÇÃO DO FABRICANTE NAS VENDAS À DISTÂNCIA Art. 33. Em caso de oferta ou venda por telefone ou reembolso postal, deve constar o nome do fabricante e endereço na embalagem, publicidade e em todos os impressos utilizados na transação comercial. Nas vendas a domicílio realizadas pelo telefone, reembolso postal, por catálogos ou televisão, pela internet etc, ou seja naquelas realizadas fora do estabelecimento comercial, o fabricante ou importador deve colocar o seu nome e endereço e demais dados essenciais de identificação no produto e em toda publicidade da oferta. A informação sobre origem dos produtos colocados no mercado é também exigência prevista no artigo 31 do CDC. A identificação da origem da oferta possibilita a aplicação do art. 49 do CDC, o qual estabelece que o consumidor poderá desistir do contrato no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço. 7.1. PUBLICIDADE POR TELEFONE ONEROSA AO CONSUMIDOR Parágrafo único. É proibida a publicidade de bens e serviços por telefone, quando a chamada for onerosa ao consumidor que a origina. (Incluído pela Lei n. 11.800, de 2009). Direito do Consumidor Professor Érico de Pina Cabral 158 8. A SOLIDARIEDADE DO FORNECEDOR PELOS ATOS DE SEUS PREPOSTOS Art. 34. O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos. O artigo 34 estabeleceu a solidariedade entre o fornecedor e seu preposto, de modo que, o consumidor poderá acionar um ou outro, ou os dois conjuntamente. O CDC também acabou com a velha polêmica sobre a exoneração do fornecedor pelos atos danosos dos representantes autônomos. Estes agora, para fins de responsabilidade civil são equiparados aos prepostos do fornecedor. A solidariedade é regra geral e aplica-se em qualquer hipótese de responsabilização por atos praticados pelo preposto ou representante comercial. Ou seja, o consumidor poderá sempre acionar o preposto, ou o representante, ou fornecedor ou todos conjuntamente, sempre que a ação do representante lhe causar dano (mesmo que o preposto ou representante exorbitar dos poderes contidos na preposição ou representação). O termo de isenção de responsabilidade firmado contratualmente no qual o preposto isenta o fornecedor de qualquer responsabilidade pelos danos causados ao consumidor não tem qualquer valor jurídico (art. 25 do CDC) EMENTA: “Plano de saúde. Modificação de cláusula por preposto. Validade. Art. 34 da Lei 8.078/90. Responde a empresa de plano de saúde por ato de sua vendedora, que, embora de forma manuscrita, altera cláusula para reduzir prazo de carência definido em contrato padrão” (2º Col. Recursal de São Paulo-SP, Rec. 1.968, Rel. Juiz Reinaldo Miluzzi, j. em 11.08.1999). 9. A OBRIGAÇÃO DE CUMPRIR A OFERTA, APRESENTAÇÃO OU PUBLICIDADE Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor