Prévia do material em texto
Direito e Legislação Social Direito e Legislação Social Leonice Aparecida de Fátima Alves Conselho Editorial EAD Dóris Cristina Gedrat (coordenadora) Mara Lúcia Machado José Édil de Lima Alves Astomiro Romais Andrea Eick Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora da ULBRA. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Martinho Lutero - ULBRA/Canoas ISBN: 978-85-5639-147-6 Dados técnicos do livro Fontes: Verdana, Arial Papel: offset 90g (miolo) e supremo 240g (capa) Medidas: 15x22cm Impressão: Gráfica da ULBRA Janeiro/2010 A474d Alves, Leonice Aparecida de Fátima Direito e legislação social. / Leonice Aparecida de Fátima Alves. - Canoas: Ed. ULBRA, 2010. 184p. 1. Serviço social - direito. 2. Legislação social. I. Título. CDU 364.442:34 34:364.442 Apresentação A disciplina de Direito e Legislação Social é uma disciplina básica para o curso de Serviço Social. Ademais, podemos afirmar que se trata de uma disciplina propedêutica, pois tem caráter introdutório, basilar que poderá ser aprofundado na sequência de estudos sobre legislação social. Esta disciplina é de suma importância para a atuação profissional do futuro assistente social, uma vez que fundamenta juridicamente a organização do Estado Brasileiro, disponibilizando a(os) acadêmica(os) noções preliminares sobre direitos humanos, sobre a organização do Poder Judiciário, sobre os direitos e garantias individuais e coletivos, assim como os mecanismos mais adequados para a defesa desses direitos, todos materializados na atual Constituição Brasileira – CF/88. O objetivo central da disciplina é capacitar o(a) acadêmico(a) a utilizar os instrumentos jurídicos que podem assegurar o efetivo cumprimento dos direitos sociais, assim como orientar a atuação profissional dos egressos do curso de Serviço Social. O presente livro está organizado em nove capítulos, divididos em unidades para a melhor compreensão dos assuntos tratados. Ao final de cada capítulo você encontrará uma sugestão de atividade a ser realizada para qualificar a reflexão sobre os conteúdos estudados. Também ao final dos capítulos você terá A p re se n ta çã o 8 uma referência comentada, além das referências utilizadas para a elaboração do texto, sendo recomendável a leitura e o manuseio daquelas fontes, especialmente quando se tratar de legislação, uma vez que o conhecimento desta é indispensável para o bom aproveitamento da disciplina. Qualificaria o estudo da disciplina se você dispusesse das legislações citadas na sua integralidade, em que pese, para facilitar a aprendizagem, todos os capítulos serem fartamente ilustrados com os principais trechos da legislação em análise. Também com o propósito de facilitar a aprendizagem optamos por destacar, em itálico, as transcrições que são trechos de leis, para que as mesmas não sejam confundidas com citações doutrinárias. O último item de cada capítulo consiste em atividades objetivas denominadas de Autoavaliação, com o propósito de verificar seu conhecimento acerca dos temas tratados, além de orientar seus estudos e reflexões. Depois dessas informações podemos dar início à disciplina! Profª. Leonice Aparecida de Fátima Alves Apresentação Sumário Capítulo I Direitos Humanos, 13 1.1 Antecedentes, 13 1.2 Gerações de Direito, 14 1.2.1 Direitos de Primeira Geração, 15 1.2.2 Direitos de Segunda Geração, 15 1.2.3 Direitos de Terceira Geração, 16 1.2.4 Direitos de Quarta Geração, 16 1.3 Direitos Humanos no Direito Internacional, 18 1.3.1 Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos, 25 Atividades, 29 Referência comentada, 29 Referências, 30 Autoavaliação, 31 Capítulo II Algumas noções de Direito, 33 2.1 Ordenamento Jurídico, 33 2.2 Hierarquia das Leis, 34 2.3 Direito Constitucional, 35 2.3.1 Natureza Jurídica, 36 2.3.2 Objeto do Direito Constitucional, 36 2.4 Princípios Fundamentais da Constituição de 1988, 37 2.4.1 Direitos e Garantias Fundamentais, 39 2.4.2 Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, 39 Atividades, 43 Referência comentada, 43 Referências, 43 Autoavaliação, 44 Capítulo III Direitos Sociais, 47 3.1 Definição, 47 3.2 Remédios e Garantias Constitucionais, 61 3.3 Organização dos Poderes, 63 3.3.1 Poder Judiciário, 64 3.3.2 Os Órgãos do Poder Judiciário, 66 3.3.3 Das Funções Essenciais à Justiça, 67 Atividades, 68 Referência comentada, 69 Referências, 69 Autoavaliação, 69 Capítulo IV Seguridade Social, 71 4.1 Antecedentes, 71 4.2 Saúde, 78 4.3 Previdência Social, 80 4.3.1 Benefícios Previdenciários, 81 Atividades, 87 Referência comentada, 87 Referências, 87 Autoavaliação, 89 Capítulo V Assistência Social, 91 5.1 Definição, 91 5.2 Família, 93 5.3 Criança e Adolescente, 95 5.3.1 Conselho Tutelar, 101 5.3.2 Adolescente e Trabalho, 102 5.4 Idosos, 102 5.5 Pessoas Portadoras de Deficiência - PPDs, 105 Atividades, 112 Referência comentada, 112 Referências, 113 Autoavaliação, 113 Capítulo VI Lei Orgânica de Assistência Social - LOAS, 115 6.1 Antecedentes, 115 6.2 LOAS, 117 Atividades, 126 Referência comentada, 126 Referências, 126 Autoavaliação, 127 Capítulo VII Sistema Único de Assistência Social - SUAS, 129 7.1 Sistema Único de Assistência Social - SUAS, 129 7.2 Fundo Nacional de Assistência Social - FNAS, 135 Atividades, 139 Referência comentada, 139 Referências, 139 Autoavaliação, 140 Capítulo VIII Entidades e Organizações de Assistência Social, 143 8.1 Definição, 143 8.2 Inscrição Municipal, 147 8.3 Denominações Jurídicas, 148 8.4 Registro no Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS, 149 8.5 Titulação das Entidades ou Organizações, 150 Atividades, 155 Referência comentada, 156 Referências, 156 Autoavaliação, 157 Capítulo IX Lei do Assistente Social e Código de Ética, 159 9.1 Lei do Assistente Social, 159 9.2 Conselho Federal de Serviço Social/CFESS e Conselhos Regionais de Serviço Social/CRESS, 164 9.3 Código de Ética, 171 Atividades, 180 Referência comentada, 180 Referências, 180 Autoavaliação, 181 Cap. I Direitos Humanos Esse capítulo tem o propósito de disponibilizar a(o) acadêmica(o) noções fundamentais e indispensáveis para o seu exercício profissional, no que diz respeito aos fundamentos dos direitos humanos, destacando a sua trajetória histórica e os principais Tratados Internacionais que discutem essa matéria. Além do material instrucional os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 1.1 Antecedentes Ainda que possamos identificar em legislações bastante remotas da antiguidade, elementos importantes para a construção do que, na atualidade, denominamos de direitos humanos, os mesmos - concebidos pelo prisma jurídico e não religioso - encontraram na Magna Carta Inglesa, datada de 1215, a sua primeira sistematização, merecendo referência ainda o Bill Of Rights de 1698 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão na França revolucionária de 1789. As referências antes apontadas são relevantes em razão do fato de que esses textos jurídicos são apontados pela ciência política como instrumentos importantes para a consolidação do Estado Moderno que, no entendimento dos juristas, tem como D ir ei to s H u m an o s 14 principal função garantir o respeito e o cumprimento pleno dos direitos humanos, resultando daí a ligação entreo conceito de Estado, cidadania e direitos humanos. Acerca dessa modalidade de direito os estudiosos da matéria apontam basicamente duas grandes possibilidades de perceber a trajetória dos direitos humanos. A primeira delas atribui aos direitos humanos uma perspectiva jusnaturalista, ou seja, compreendendo-os como naturais, inerentes a todo o ser humano independente da materialização formal nas leis, recusando-se, esses estudiosos, a perceber essa modalidade de direito como produto de uma série de transformações e demandas de determinados grupos sociais. A segunda possibilidade de compreensão dos direitos humanos é identificada como concepção geracional do direito, reconhecendo até 4 gerações de direito que teriam surgido em momentos históricos distintos, sem que haja no, entanto, nenhuma contradição entre eles, visto que todos são tratados como fundamentais e complementares. É importante referir que quando pensamos os direitos humanos pelo prisma geracional não estamos afirmando que uma geração de direito necessariamente sucede/substitui a outra, ocorrendo isso sim, uma expansão de direitos e não uma fragmentação como alguns críticos a essa concepção afirmam. Cabe mencionar que, ainda que reconhecidos como universais, os Direitos Humanos, na perspectiva geracional, são entendidos como elaborações sócio-históricas fruto dos diferentes momentos pelos quais a sociedade passou nos últimos séculos. 1.2 Gerações de Direito Como dito anteriormente podemos identificar até 4 gerações de direito. 15 D ir ei to s H u m an o s 1.2.1 Direitos de Primeira Geração Os direitos de primeira geração contemplam basicamente os direitos civis e os direitos políticos, especialmente aqueles relacionados à liberdade, à vida, à propriedade, à isonomia de todos perante a lei, as liberdades de expressão coletivas (imprensa, reunião, associação, cátedra, etc.) e os direitos políticos, em especial o direito de votar e ser votado. Os direitos de primeira geração têm como titulares os indivíduos, sendo ainda oponíveis contra outros indivíduos, quer pessoas físicas ou jurídicas e também contra o Estado. Quando nos referimos aos direitos de primeira geração apontamos ainda alguns mecanismos legais utilizados quando da violação ou ameaça de violação de direitos fundamentais, merecendo destaque o habeas corpus e o direito de petição, que serão tratados oportunamente. 1.2.2 Direitos de Segunda Geração A segunda geração de direitos pressupõe um desenvolvimento sócio-histórico da coletividade que passou a demandar a montagem de um aparato público capaz de disponibilizar para todos os indivíduos determinadas prestações sociais percebidas como elementares, merecendo destaque a educação, saúde, segurança, habitação, previdência social, entre outras. Os direitos dessa natureza podem ser datados, no que tange a seu registro nas legislações constitucionais ou ordinárias dos Estados, em meados do século XX. Como direitos de segunda geração podemos identificar os direitos econômicos, sociais e culturais, assim como os direitos coletivos e as liberdades individuais. Essa modalidade de direito é identificada como positiva, uma vez que implica ao Estado impossibilitando, momentânea ou definitivamente, de prover seu próprio bem-estar, sendo um direito dos indivíduos e um D ir ei to s H u m an o s 16 dever do Estado. Em razão dos direitos sociais, tornam-se deveres do Estado assistir à velhice, aos desempregados, à infância, aos doentes, aos deficientes de toda sorte, etc. Com o advento das liberdades sociais, surge a liberdade de sindicalização e o direito de greve, além do reconhecimento de direitos fundamentais aos trabalhadores, tais como salário mínimo e a limitação da jornada de trabalho. (BASTOS, 1999, p. 259) 1.2.3 Direitos de Terceira Geração A segunda metade do século XX pode ser identificada como um período bastante fértil para os direitos humanos em especial a partir de 1960, consolidando a denominada terceira geração de direitos humanos, inspirados na fraternidade ou solidariedade, estabelecendo-se dessa forma a maior universalização dos direitos, principalmente em razão da constituição das sociedades de massa, propiciadas pelo processo de urbanização e industrialização, intensificadas no período em estudo. Paulo Bonavides exemplifica esses direitos com o direito ao desenvolvimento, a paz, ao patrimônio histórico e cultural da humanidade, a proteção ao consumidor, ao idoso, a criança e ao adolescente, etc. 1.3.3 Direitos de Quarta Geração Para alguns autores o desenvolvimento jurídico-institucional dos dias atuais provocou um outro desdobramento no que diz respeito aos direito humanos, sendo apropriado falarmos no surgimento de uma quarta geração de direitos, resultantes principalmente dos avanços tecnológicos e científicos das últimas décadas, que têm colocado a humanidade diante de 17 D ir ei to s H u m an o s situações absolutamente inusitadas, em especial quando consideramos a temática da ética diante das inovações científicas, onde as três gerações anteriormente informadas acabam sendo insuficientes diante do novo contexto. Cumpre informar ainda que não há consenso entre os estudiosos acerca dos encaminhamentos mais adequados e pertinentes para as novas questões com as quais nos deparamos, o que por sua vez também é importante para percebermos caráter dinâmico e mutável do direito, o que a perspectiva jusnaturalista nem sempre permite observar. A título de esclarecimento devemos referir que os direitos humanos não se confundem com a cidadania, que pode ser definida como direitos políticos dos indivíduos, que são apenas uma fração dos direitos humanos, também denominados direitos fundamentais da pessoa humana, independentemente do grupo social a que pertençam. Geração Período Características 1ª 2ª 3ª 4ª Séculos XVI, XVII e XVIII Século XIX Meados do século XX Final do século XX e início do século XXI (em andamento) Direitos naturais racionalizados Demandas políticas, econômicas, sociais no contexto do liberalismo e do socialismo Universalização dos direitos Incorporação de direitos de grupos no contexto da globalização D ir ei to s H u m an o s 18 Aqui citamos Dallari, que afirma: A expressão “direitos humanos” é uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana. Esses direitos são considerados fundamentais porque sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida. Todos os seres humanos devem ter asseguradas, desde o nascimento, as mínimas condições necessárias para se tornarem úteis à humanidade, como também devem ter a possibilidade de receber os benefícios que a vida em sociedade pode proporcionar. Esse conjunto de condições e de possibilidades associa as características naturais dos seres humanos (...). É a esse conjunto que se dá o nome de direitos humanos. (DALLARI, 2002) 1.3 Direitos Humanos no Direito Internacional Antes de referirmos sobre a Constituição Brasileira e a proteção dos direitos humanos devemos, brevemente, tecer algumas considerações sobre os Tratados Internacionais, instrumentos por excelência da fixação de direitos humanos no século XX. Os Tratados Internacionais são legislações editadas no cenário internacional, regulamentados pelo direito internacional, também chamados de Convenção, Protocolo, Carta, Convênio, Acordo, ou Pacto que envolvem Estados, que com a sua assinatura se comprometem a implementar as medidas ali descritas, passando a ser denominados de Estados-parte, ou seja, Estados que expressamente consentiram na adoção dos dispositivos constantes no texto do Tratado. No que diz respeito à formação dos Tratados Internacionaisos mesmos têm início com atos de negociação e conclusão para a posterior assinatura do documento, que é matéria de competência do Poder Executivo, sendo importante referir que a assinatura de um Tratado indica apenas o aceite da matéria em discussão, não produzindo efeitos jurídicos 19 D ir ei to s H u m an o s imediatos, devendo ser ratificado, total ou parcialmente, pelo Poder Legislativo1 salvo quando tratar de matéria de direitos humanos, quando estamos diante do “princípio da prevalência ou do primado dos direitos humanos”, que nada mais é do que a aceitação da supremacia de temática referente a direitos humanos, sem a necessária incorporação ao ordenamento jurídico interno, via atuação do Poder Legislativo, de tal sorte que já com a assinatura ele produz efeitos. No entendimento de Piovesan: [...] Não será mais possível a sustentação da tese de que com a ratificação os tratados obrigam diretamente aos Estados, mas não geram direitos subjetivos para os particulares, enquanto não advier a referida intermediação legislativa. Vale dizer, torna-se possível a invocação imediata de tratados e convenções de direitos humanos dos quais o Brasil seja signatário, sem a necessidade de edição de ato com força de lei, voltado à outorga de vigência interna aos acordos internacionais. (2002, p. 99) A violação ou negação de direitos humanos pode implicar em penalização do Estado violador ou do Estado que teria a responsabilidade de impedir a violação e assim não procedeu, visto que as sanções do direito internacional público são sempre dirigidas aos Estados e não aos indivíduos. Os principais dispositivos legais que regulamentam matéria de direitos humanos no direito internacional datam do pós Segunda Guerra Mundial, que é identificado pela literatura especializada como o momento da efetiva Internacionalização dos Direitos do Homem, de tal sorte que: O Moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-guerra. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da Era Hitler e à crença de que parte destas violações poderiam ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos existisse. (BUERGENTHAL apud PIOVEZAN, 2002, p. 131) 1 Art. 84, Inciso VIII da Constituição Federal. D ir ei to s H u m an o s 20 A Carta das Nações Unidas de 1945, bem como a criação de agências especializadas em resolver conflitos dessa natureza (Corte Internacional de Justiça), inauguram esse novo momento no que tange a internacionalização dos Direitos Humanos. Citamos aqui o artigo 55 da Carta das Nações Unidas que explicita o propósito dessa organização no que diz respeito à promoção dos direitos humanos, como segue: Art. 55: Com vistas à criação de condições de estabilidade e bem estar, necessárias para a pacífica e amistosa relação entre as Nações, e baseada nos princípios da igualdade de direitos e autodeterminação dos povos, as Nações Unidas promoverão: a)... b)... c) o respeito universal e a observância dos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. É preciso referir ainda que a Carta das Nações Unidas de 1945 não define efetivamente o que são direitos humanos, o que somente foi feito no ano de 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabeleceu um conjunto de direitos e prerrogativas sem as quais não pode o ser humano desenvolver-se plenamente. Assim como a Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos, prima pela universalidade no que tange a sua abrangência visto ser aplicável para todas as pessoas, em todos os países, independente de raça, religião, sexo ou regime político nos territórios em que incide. Acerca desse documento Piovesan afirma: A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana, ao consagrar valores básicos universais. Desde seu preâmbulo, é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana, titular de direitos iguais e inalienáveis. Vale dizer, para a Declaração 21 D ir ei to s H u m an o s Universal a condição de pessoa é o requisito único e exclusivo para a titularidade de direitos; A universalidade dos direitos humanos traduz a absoluta ruptura com o legado nazista, que condicionava a titularidade de direitos à pertinência à determinada raça (a raça pura ariana) [...] Além da universalidade dos direitos humanos, a Declaração de 1948, ainda introduz a indivisibil idade desses direitos, ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos ao catálogo dos direitos econômicos, sociais e culturais. (2002, p. 146) A Declaração Universal de 1948 não é um tratado, tendo sido adotada pela ONU na forma de Resolução, sendo considerada a parte interpretativa da Carta das Nações Unidas por dar conteúdo a expressão “direitos humanos”. A Declaração Universal de 1948 é formada por 30 artigos, além de um preâmbulo com 7 considerandos, onde são reconhecidos a dignidade da pessoa humana, o ideal democrático, o direito de resistência à opressão e a concepção comum desses direitos. Do artigo 1º até o 21 encontramos os direitos e garantias individuais; do artigo 22 ao 28 estão dispostos os direitos sociais do homem; o artigo 29 estabelece os deveres das pessoas para com a comunidade e no artigo 30 consta que a interpretação da Declaração Universal de 1948 deverá observar sempre o princípio do benefício dos direitos e liberdades nela proclamadas. Ainda no ano de 1948 entra em vigor a Convenção Internacional Para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Após a ONU ter disponibilizado a Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948, muito se discutiu, no cenário internacional, acerca da força jurídica vinculante daquele documento, visto não tratar-se de um Acordo Internacional. Para resolver esse litígio no ano de 1966, foram concluídos dois importantes Tratados sobre a matéria, quais sejam: Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que passaram a incorporar a Declaração Universal de 1948. Esses dois Tratados só entraram em vigor no ano de D ir ei to s H u m an o s 22 1976, quando atingiram o número mínimo de ratificações previstas quando da elaboração do documento. O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos estabelece o dever dos Estados-parte assegurar os direitos nele arrolados, além de coibirem a violação desses direitos por particulares, ratificando os dispositivos da Declaração Universal de 1948. Os principais direitos e liberdades estabelecidos nesse diploma legal são: direito à vida, direito de não ser submetido à tortura ou ao tratamento cruel, desumano ou degradante; direito a não ser escravizado, nem submetido à servidão; direito à liberdade e à segurança pessoal, não sujeito a prisão ou detenção arbitrária; direito a um julgamento justo e igualdade perante a lei; proteção contra a interferência arbitrária na vida privada, liberdade de movimento; direito a uma nacionalidade; direito de casar e formar família; liberdade de pensamento, consciência e religião; liberdade de opinião e expressão; direito à reunião pacífica; liberdade de associação, direito a aderir a sindicatos e associações, além do direito de votar e tomar parte no Governo. O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais também objetivou incorporar os dispositivos constantes na Declaração Universal de 1948, tornando os preceitos ali estabelecidos obrigatórios e vinculantes. Esse diploma legal estabelece um extenso leque de direitos, que inclui o direito ao trabalho, à justa remuneração, formação e associação em sindicatos, direito à previdência social, direito à moradia, educação, saúde, participaçãona vida cultural da comunidade, entre outros. Ao contrário dos direitos civis e políticos, os direitos contemplados pelo O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, não tem uma aplicabilidade imediata decorrente da simples assinatura. Os preceitos ali estabelecidos deverão ser progressivamente garantidos pelos Estados signatários desse documento, de tal sorte que os mesmos são considerados programáticos e não autoaplicáveis como são aqueles constantes no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Acerca da reduzida aplicabilidade desses diretos 23 D ir ei to s H u m an o s mencionamos Piovesan que afirma que: A violação aos direitos sociais, econômicos e culturais é resultado tanto da ausência de forte suporte e intervenção governamental, como da ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. É, portanto, um problema de ação e prioridade governamental e implementação de políticas públicas, que sejam capazes de responder a graves problemas sociais. (2002, p. 186) Em 21 de agosto de 1965 a ONU adotou a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, sendo importante referir que, tanto no corpo quanto no preâmbulo desse Tratado, encontramos que qualquer doutrina que pregue a superioridade racial de um grupo é “cientificamente falsa, moralmente condenável e socialmente injusta e perigosa”, propondo ainda a urgência na adoção de medidas que visem eliminar a discriminação racial definida no seu artigo primeiro como “[...] qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, descendência, origem nacional ou étnica que tenha o propósito ou o efeito de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exercício em pé de igualdade dos direitos humanos e liberdades fundamentais”. Acerca da Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial é importante mencionar que a mesma refere no parágrafo 4º do artigo 1º, a possibilidade dos Governos adotarem “ações afirmativas” com o propósito de promover a ascensão social de grupos ou indivíduos, sendo que essas medidas deverão ter caráter temporário. Em 1979, como decorrência da ONU ter estipulado que o ano de 1975 seria considerado o Ano Internacional da Mulher, realizou-se a Primeira Conferência Mundial sobre a Mulher e foi aprovada a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher que, juntamente com a Convenção Sobre Direitos da Criança, é um dos instrumentos com maior número de Estados signatários, ainda que, paradoxalmente, seja o Tratado que mais recebeu ressalvas dos Estados se considerarmos os tratados que regulamentam os direitos humanos. D ir ei to s H u m an o s 24 A Convenção obriga os países a eliminar a discriminação e assegurar a igualdade da mulher em todos os campos, estabelecendo também a possibilidade de adoção de “políticas afirmativas”. Em 28 de setembro de 1984 a ONU adotou a Convenção Internacional Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes. O artigo 1º define tortura como: Art. 1º: Qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter dela ou de uma terceira pessoas, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido, ou seja, suspeita de ter cometidos; de intimidar ou coagir essa pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por funcionários públicos ou outra pessoa no exercício de função pública, ou por sua instigação ou com o seu consentimento ou aquiescência. Acerca desse tratado devemos referir que o mesmo estabelece jurisdição compulsória e universal para aqueles suspeitos de prática de tortura, independente do local onde a violação tenha ocorrido da nacionalidade do torturado ou torturador. Em 1989 a ONU adotou a denominada Convenção Sobre Direitos da Criança, que como dito anteriormente, é o tratado internacional com maior número de signatários e ratificações. A definição de criança constante no tratado contempla menores de 18 anos, salvo nos casos em que a maioridade for estabelecida mais cedo. Pela Convenção os países se obrigaram a garantir uma proteção especial e integral, com absoluta prioridade para as crianças. 25 D ir ei to s H u m an o s 1.3.1 Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos Além de mecanismos de proteção aos direitos humanos organizados no sistema global temos também sistemas regionais – americano, europeu e africano – para proteção desses direitos. Passaremos agora a descrever o Sistema Interamericano e seus principais instrumentos de proteção aos direitos humanos. O principal instrumento jurídico de proteção de direitos humanos interamericano é a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969, que criou a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Essa convenção também é conhecida como Pacto de San José da Costa Rica e foi assinado pelos países membros da Organização dos Estados Americanos- OEA. O Pacto de San José da Costa Rica reitera os direitos estabelecidos pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, sendo importante ressalvar que a Convenção Americana não enuncia especificamente os direitos sociais, culturais e econômicos, constantes no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, o que somente é encontrado no Protocolo Adicional a Convenção, datado de 1988, que entrou em vigor em 1999. De forma similar ao sistema global a OEA, no ano de 1985, editou a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura; no ano de 1994 foi elaborada a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher. Acerca desses instrumentos de defesa dos direitos humanos, quer no sistema global, quer nos sistemas regionais, é importante referir que mesmo diante da internacionalização dos direitos humanos, ainda é recorrente a sua violação tanto por parte de agentes públicos quanto particulares, de tal sorte que a sociedade civil deve ser esclarecida sobre a possibilidade de exigir o cumprimento do disposto nos tratados internacionais D ir ei to s H u m an o s 26 ou ainda garantir que a violação seja duramente repreendida, de tal sorte a efetivamente os direitos humanos serem tratados como tema global. SISTEMA GLOBAL Instrumento Internacional Data da adoção Data da ratificação pelo Brasil Carta das Nações Unidas Declaração Universal dos Direitos Humanos Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Adotada e aberta à assinatura pela Conferência de São Francisco em 26.06.1945 Adotada e proclamada pela Resolução 217ª (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10.12.1948 24.01.1992 Adotada pela Resolução 2.200 A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 16.12.1966 21.09.1945 Assinada em 10.12.1948 Adotada pela Resolução 2.200 A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 16.12.1966 24.01.1992 27 D ir ei to s H u m an o sTabela elaborada por Piovesan, 2002, p. 338-9 Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio Adotada pela Resolução 260 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 09.12.1948 01.09.1951 Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação RacialAdotada pela Resolução 39/46 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 18.12.1984 Adotada pela Resolução L.44 (XLIV) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 20.11.1989 27.03.1968 Adotada pela Resolução 2.106-A (XX) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 21.12.1965 28.09.1989 24.09.1990 Adotada pela Resolução 34/180 da Assembleia Geral das Nações Unidas em 18.12.1979 01.02.1984 Convenção sobre os Direitos da Criança D ir ei to s H u m an o s 28 SISTEMA REGIONAL INTERAMERICANO Instrumento Internacional Data da adoção Data da ratificação pelo Brasil Convenção Americana de Direitos Humanos Protocolo adicional à Convenção Americana dos Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais Adotado pela Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos em 09.12.1985 Convenção Interamericana para Prever, Punir, Erradicar a Violência contra a Mulher Adotada e aberta à assinatura na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos em San José da Costa Rica, em 22.11.1969 Convenção Interamericana para Prever e Punir a Tortura 20.07.1989 27.11.1995 25.09.1992 Adotada pela Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos em 17.11.1988 Adotado e proclamada pela Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos em 06.06.1994 21.08.1996 Tabela elaborada por Piovesan, 2002, p. 339. 29 D ir ei to s H u m an o s Conforme veremos nos capítulos seguintes o Brasil, após a promulgação da Constituição de 1988, tem avançado significativamente na incorporação de matérias constantes nos Tratados Internacionais, no tocante a direitos humanos, incorporando-os nos capítulos referentes aos direitos fundamentais. A título de conclusão podemos referir que os direitos humanos resultam de um longo e complexo processo de elaboração, quer no cenário jurídico, quer no cenário sócio- cultural, sendo inegavelmente o valor mais significativo da convivência humana, além de servir de inspiração para projetos de emancipação da humanidade, em que pese a sua ainda insuficiente efetividade. Atividades Chegamos ao fim desse capítulo, como proposta de trabalho, sugerimos que os(as) acadêmicos(as) organizem em grupo, um seminário apresentando na sua integralidade os principais tratados de proteção aos direitos humanos no cenário global, para tanto vocês podem tomar como orientação os quadro constante na página anterior. Referência comentada PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e o Direito Internacional. São Paulo : Max Limonad, 2002. A obra indicada para leitura é uma das mais importantes acerca da temática referente a direitos humanos, bem como sua relação com o direito interno e externos. A compreensão dos instrumentos internacionais de direitos humanos, bem como sua incorporação na legislação constitucional ou infraconstitucional brasileira é indispensável ao exercício profissional dos egressos dos cursos de serviço social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas nesse capítulo. D ir ei to s H u m an o s 30 Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, dos Tratados Internacionais referidos nesse capitulo, visto que o fundamento do dos direitos sociais com os quais o assistente social vai se deparar nas suas atividades, estão nesses documentos, que devem ser do conhecimento de toda a humanidade! Contribua para isso! Bons estudos! Referências ALMEIDA, Fernando Barcellos de. Teoria Geral dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Sérgio Antônio Frabris, 1997. BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. São Paulo; Saraiva, 2001. DALLARI, Dalmo de Abreu. O que são direitos humanos. Enciclopédia Digital Direitos Humanos II. Cd-Rom. www.dhnet.org.br. 2002. MARTINS, Yves Gandra da Silva (org.) As vertentes do Direito Constitucional Contemporâneo. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2002. PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e o Direito Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002. SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo : Cortez, 2007. 31 D ir ei to s H u m an o s Autoavaliação Assinale a alternativa correta: 1) Podem ser considerados como antecedentes dos hoje denominados direitos humanos: a) Magna Carta Inglesa, datada de 1215. b) Bill Of Rights de 1698 c) Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. d) Todas as alternativas anteriores. 2) São as principais concepções acerca dos direitos humanos: a) Positivismo e Funcionalismo. b) Jusnaturalismo e concepção geracional de direito . c) Positivismo Jurídico e Jusnaturalismo. d) Tomismo e concepção geracional de direito. 3) Os direitos identificados como de primeira geração tratam predominantemente de: a) Diretos do trabalho e previdenciário. b) Direitos ambientais e difusos. c) Direitos políticos e civis. d) Direitos sociais e políticos 4) O que significa afirmar que os direitos de segunda geração são prestações positivas do Estado? a) Significa afirmar que o Estado assume a obrigação de não fazer. b) Significa afirmar que os indivíduos devem sozinhos buscar as condições de uma vida digna. c) Significa afirmar que o Estado deve se abster de qualquer ação. d) Significa afirmar que o Estado tem o dever de D ir ei to s H u m an o s 32 disponibilizar bens e serviços. 5) Os Tratados Internacionais que versam sobre direitos humanos: a) Não produzem efeitos antes da ratificação pelo legislativo dos Estados-parte. b) Produzem efeitos mesmo antes da ratificação pelos Estados-parte. c) Produzem efeitos só quando se transformam em legislação interna dos Estados. d) Nunca produzem efeito, sendo ineficazes juridicamente. Gabarito: 1) D; 2) B; 3) C; 4) D; 5) B. Este capítulo tem o objetivo de disponibilizar a(o) acadêmica(o) noções introdutórias de direito, especialmente no que diz respeito ao ordenamento jurídico e à hierarquia das leis, para que possam, ao final do capítulo, identificar a centralidade das normas constitucionais, a principal referência para a compreensão dessa disciplina. Apontaremos ainda Princípios Fundamentais da atual Constituição Brasileira, enfatizando o conceito de princípios bem como a importância destas deliberações no ordenamento jurídico brasileiro, assim como Direitos e Garantias Fundamentais constantes na CF/88. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações na bibliografia indicada para a disciplina. 2.1 Ordenamento Jurídico O ordenamento jurídico estatal pode ser definido como um conjunto de normas disponibilizadas pelo Estado em um determinado momento histórico, que tem o atributo de viabilizar a subordinação de todos os indivíduos que estão em seu território. O sistema legal pode ser considerado a essência do Estado, visto que, ainda que possamos viver na mais agressiva ditadura, é indispensável o mínimo de legalidade, ainda que Cap. II Algumas noções de Direito A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 34 esta legalidade sirva apenas para garantir o êxito de um sistema tão nefasto quanto uma ditadura. A dimensão deste ordenamento varia conforme o Estado. Houve momentos históricos em que se acreditava que a dimensão das leis deveria ser o mais ampla possível, tentando dar conta de todas as situações. Atualmente predomina o entendimento de que o ordenamento jurídico deve conter regras mínimas. 2.2 Hierarquia das Leis Devemos a Hans Kelsen, um célebre estudioso do Direito, o modelo de hierarquia das leis. Em suas palavras, “as normas legais retiram validade das regras imediatamente superiores, até chegar ao ápice da pirâmide, onde está a Constituição, que é o fundamentode todo o ordenamento jurídico”. (apud LYRA FILHO, 1983, p.10) Desta forma, qualquer lei que contrarie um dispositivo legal a ela superior está em desacordo com a hierarquia das leis. Neste contexto devemos estar atentos a um importante fenômeno, especialmente para os futuros assistentes sociais. Precisamos perceber claramente a transformação do direito em lei, tomando o cuidado de não naturalizarmos a utilização dos dois vocábulos como sinônimos. Como bem aponta Lyra Filho “O direito é um conjunto teórico que engloba uma determinada concepção de mundo que, poderá ou não, estar consubstanciada em lei”. (1983, p.13) A lei é a maior expressão do direito moderno, entretanto não é a única. Devemos a dogmatização do positivismo à identificação, in totum, da manifestação jurídica com a lei. Assim, para que possamos analisar o direito de uma determinada sociedade, é preciso que tenhamos em conta, além da lei, o sistema de interpretações, de preenchimento de lacunas, de integração, o papel da jurisprudência, enfim, um conjunto de práticas judiciais e extrajudiciais que darão forma e conteúdo aos textos legais. 35 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 2.3 Direito Constitucional O Direito é um fenômeno sócio-histórico que consiste num sistema normativo que pode ser estudado, tomando-se como referência os diferentes campos ou unidades que o compõem. Essas unidades podem ser denominadas de ramos ou divisões do direito, que podem comportar inúmeras subdivisões. O quadro explicativo que abaixo segue pode nos dar uma visão ampla desses segmentos. A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 36 Como podemos observar o Direito Constitucional pertence ao Direito Público, diferenciando-se dos demais ramos do direito pela natureza específica de seu objeto de estudo e pelos princípios que o informam. É um ramo de direito basilar, pois trata diretamente da organização e funcionamento do Estado. Desta forma podemos considerar o Direito Constitucional como o tronco de onde provêm os demais ramos do direito. Nas palavras de Silva (2006, p. 25) O Direito constitucional é o ramo do Direito Público interno que estuda a Constituição, ou seja, a lei de organização do estado, em seus aspectos fundamentais: a) a forma de estado (unitário ou composto); b) a forma de governo (monarquia ou república); c) o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo); d) o modo de aquisição, exercício ou perda do poder político; e) órgãos de atuação do estado (Poder legislativo, executivo e judiciário); f) principais postulados da ordem econômica e social; g) limites à atuação do Estado (direitos fundamentais da pessoa humana). 2.3.1 Natureza Jurídica O Direito Constitucional é o principal ramo do Direito interno, uma vez que se refere às questões que dizem respeito aos interesses imediatos do Estado. Em razão disso afirma-se que o Direito Constitucional ocupa uma posição de superioridade em relação aos demais ramos do Direito, o que faz com que qualquer norma que contrarie preceito constitucional seja inconstitucional. 2.3.2 Objeto do Direito Constitucional O principal objeto do Direito Constitucional é o estudo e a sistematização de matérias atinentes à organização do Estado, bem como a garantia e a proteção de direitos individuais e 37 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to coletivos, que são materializados nas Constituições e que orientam os demais ramos do direito que devem estar em consonância com as disposições contidas na Constituição, em razão da supremacia da matéria constitucional. 2.4 Princípios Fundamentais da Constituição de 1988 A Constituição Brasileira de 1988, no seu Título I, destaca as regras informadoras da organização do Estado, denominando esta disposição de princípios fundamentais, seguindo uma tendência do constitucionalismo moderno. Por princípios fundamentais podemos entender um sistema de normas e regras que contém os mais importantes preceitos para a organização do Estado. Merece destaque a compreensão de alguns autores acerca da supremacia dos princípios, quando comparados com as normas constitucionais, uma vez que a violação de um princípio ofende norma geral fundamentadora de todo o Direito Constitucional. Bandeira de Mello chega a afirmar que: Violar um princípio é muito mais grave do que violar é mais grave do que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica a ofensa não apenas a um específico comando obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. “e a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade. Representa insurgência contra todo o sistema, subversão de valores fundamentais. (2004, p. 39) A mais recente teoria constitucional costuma fazer distinção entre princípios e regras jurídicas enfatizando que os princípios, via de regra, apresentam um elevado grau de abstração e uma reduzida densidade normativa, uma vez que precisam de outras normas para que possam ser aplicados. Ademais, são normas informadoras dos preceitos constitucionais. A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 38 Por sua vez as regras apresentam uma menor generalidade e um elevado grau de densidade normativa que dispensam a elaboração de normas regulamentadoras, possuindo eficácia plena. Os princípios fundamentais constantes em nossa Carta Magna são: • forma de Governo republicana; • forma de Estado federativa; • sistema de Governo presidencial; • regime político democrático; • soberania nacional; • cidadania; • dignidade da pessoa humana; • valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; • pluralismo político; • separação de poderes; • promoção da liberdade, justiça social, solidariedade, desenvolvimento nacional, liberdade, erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais; • independência nacional; • prevalência dos direitos humanos; • autodeterminação dos povos; • não intervenção; • igualdade entre os Estados; • defesa da paz; • solução pacífica dos conflitos; • repúdio ao terrorismo e racismo; • cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; • concessão de asilo político, em razão de dissidência política, crimes políticos, crimes de opinião ou contra a segurança do Estado. É importante mencionar que podemos encontrar outros princípios ou os mesmos descritos no Título I em outras passagens da Constituição, não obstante ter havido, por parte do legislador constituinte, uma preocupação em iniciar o texto 39 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to constitucional com a descrição dos princípios que norteiam o Estado Brasileiro, o que é uma inovação nas redações constitucionais brasileiras que, até então, tratavam primeiramente da Organização do Estado. 2.4.1 Direitos e Garantias Fundamentais No título II da Constituição Federal o legislador indica quais são os direitos e garantias fundamentais, dividindo-os em cinco modalidades, como segue identificado. 2.4.2 Direitos e Deveres Individuais e Coletivos O artigo 5º. da Constituição Federal lista os direitos e deveres individuais e coletivos, que são direitos do ser humano na dimensão individual e coletiva. Direitos são faculdades atribuídas aos indivíduos, e garantias são os instrumentos para possibilitar a efetivação dos direitos, desta forma, os direitos têm um caráter declaratório, ao passo que as garantias têm uma caráter assecuratório. As principais características dos direitos e deveres individuais e coletivos são: 1. Historicidade: São produtos das transformações históricas, originando-se das contradições de sociedade. 2. Inalienabilidade: São direitos intransferíveis ou Direitos e deveres individuais e coletivos Direitos e garantias Direitos sociais Fundamentais Nacionalidade Direitospolíticos Partidos Políticos A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 40 inegociáveis. 3. Imprescritibilidade: São direitos que desaparecem em razão da falta de uso. 4. Irrenunciabilidade: Nenhum indivíduo pode declinar de ser titulas de direitos fundamentais, ainda que não use não pode renunciar a faculdade de usá-los. 5. Universalidade: Todos os indivíduos têm direitos que devem ser respeitados, não havendo a possibilidade de excluir alguns desta prerrogativa. 6. Limitabilidade: Os direitos fundamentais não são absolutos, podendo ser limitados sempre que ocorrer colisão entre direitos fundamentais. A nossa Constituição classifica os direitos e garantias tomando como referência a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade. Os direitos individuais assegurados no art. 5º são: Direito à Vida O direito à vida é o principal direito individual, sendo a vida o bem jurídico mais importante, pois todos os demais direitos decorrem da existência deste direito. O direito à vida deve ser entendido de forma bastante abrangente e tem como decorrência o direito à integridade física moral, à proibição da pena de morte, à proibição da comercialização de órgãos, à proibição da eutanásia, do aborto e da tortura. Direito à Liberdade A liberdade pode ser definida como a faculdade que as pessoas têm de fazer ou deixar de fazer alguma coisa, implica sempre em uma escolha, sendo os indivíduos livres para fazer ou não fazer alguma coisa, senão em virtude de lei. Podemos identificar diferentes modalidades de liberdades disponibilizadas pelo legislador constituinte, merecendo destaque: Liberdade de crença Liberdade de pensamento (foro íntimo) Liberdade de consciência 41 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to Direito à Igualdade A igualdade é um princípio que não admite qualquer tipo de discriminação de qualquer natureza em relação a seres humanos. Também é denominado princípio de isonomia. Contemporaneamente o direito de igualdade pode ser definido como o tratamento igual para iguais e desigual para desiguais, visto que nem todo o tratamento desigual pode ser considerado inconstitucional. A fundamentação do tratamento desigual pode estar baseada em um dispositivo constitucional ou em um pressuposto lógico que justifique a não equiparação. Liberdade de informação jornalística Liberdade de exteriorização Liberdade de cátedra do pensamento ( poder de Liberdade científica Polícia do Estado) Liberdade artística Liberdade de culto Liberdade de ir Liberdade de locomoção Liberdade de vir Liberdade de ficar Liberdade de reunião Liberdade de associação Liberdade de ação profissional Formal (perante a lei e a sociedade) Material (real ou absoluta) Gênero (homem/mulher) Entre brasileiros e estrangeiros Tipos de Igualdade Jurisdicional Tributária Penal Trabalhista Etária A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 42 Direito à Segurança A segurança pode ser identificada como a possibilidade do exercício pleno dos direitos fundamentais, podendo abranger tanto direitos individuais, quanto direitos subjetivos em geral, como o direito à legalidade e à segurança jurídica. Direito à Propriedade O direito de propriedade é assegurado pela nossa Constituição, desde que cumpra e atenda a sua função social, que em caso de descumprimento poderá ensejar a desapropriação ou o desapossamento do bem móvel ou imóvel. A garantia do direito de propriedade é extensiva ao direito do autor, propriedade industrial e o direito de herança. Desta forma podemos afirmar que: São invioláveis: a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança, a propriedade (art.5. caput) a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas (inciso X), a casa do indivíduo (inciso XI) e o sigilo de correspondência (inciso XII). São livres: a manifestação de pensamento (art.5º. IV); a crença e a prática religiosa (inciso VI); a manifestação intelectual, artística, científica e comunicacional (inciso IX); o exercício de qualquer trabalho, atendidas as qualificações da lei (inciso XIII); a locomoção em território nacional em tempo de paz ( inciso XV); a reunião pacífica sem armas (inciso XVI); a associação para fins lícitos (incisos XVII e XVIII); a criação de cooperativas na forma da lei (inciso XVIII). São assegurados: o direito de resposta (inciso V); o acesso a informações, resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional (inciso XIV); o direito de propriedade (art. 5º. XXII); o direito autoral (inciso XXVII); a propriedade industrial, que abrange as invenções, 43 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to os modelos de utilidade, os desenhos industriais, as marcas etc. (inciso XXIX); o direito ao nome da empresa (inciso XXIX); o direito de herança (inciso XXX); o direito de receber informações dos órgãos públicos (inciso XXXIII); o direito de petição os poderes públicos em defesa de direitos (inciso XXXIV); a obtenção de certidão em repartição pública, para defesa de direitos (inciso XXXIV, b). Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os(as) acadêmicos(as) organizem uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo. Referência comentada SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Ed. Malheiros, 2006. A obra indicada para leitura é uma das mais completas sobre a temática de direito constitucional e Teoria Geral do Estado em seus aspectos mais abrangentes, servindo como uma boa referência para o aprofundamento dos conteúdos trabalhados nessa disciplina. Recomendamos ainda a leitura atenta e cuidadosa da nossa Constituição, especialmente dos artigos tratados neste capítulo. Bons estudos! Referências BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros, 2004. BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. Malheiros Editores, 2006. A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to 44 Constituição Federal de 1988. LYRA FILHO, Roberto. O que é o Direito. São Paulo: Brasiliense, 1983. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Ed. Atlas, 2006. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Ed. Malheiros, 2006. TEMER, Michel. Elementos de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros Editores, 2006. Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) Ordenamento Jurídico é: a) Conjunto de normas disponibilizadas pelo Estado em um determinado momento histórico. b) Conjunto de costumes típicos de uma sociedade. c) Vasto conjunto de normas. d) Conjunto de normas disponibilizadas pelo Estado que não mudam historicamente. 2) O princípio da hierarquia das leis estabelece que: a) Todas as normas são idênticas. b) As Medidas Provisórias são hierarquicamente superiores às Emendas Constitucionais. c) Qualquer lei que contrarie dispositivo legal a ela superior está em desacordo com a hierarquia das leis. d) As Leis Estaduais são hierarquicamente inferiores às Leis Municipais. 3) O Julgador deve atentar para o princípio da hierarquia das leis. 45 A lg u m as n o çõ es d e D ir ei to a) Nunca. b) Algumas vezes. c) Sempre. d) Tem autonomia para escolher as normas a serem aplicadas. 4) Pode ser identificado como um ramo do direito privado: a) Direito Ambiental. b) Direito do Trabalho. c) Direito Previdenciário. d) Direito Civil. 5) O Direito Constitucional pode ser identificado como: a) Um desdobramento do Direito Civil. b) Um ramo do direito privado. c) Um desdobramento do Direito Previdenciário. d) O tronco de onde provêm os demais ramos do direito. Gabarito: 1) A; 2) B; 3) C; 4) D; 5) D. Cap.III Direitos Sociais Este capítulo descreve e disponibiliza o fundamento legal dos Direitos Sociais assegurados na Constituição Federal Brasileira, enfatizando a importância que o legislador constituinte atribuiu a esta modalidade de direitos, que pode ser concebida como uma prestação positiva do Estado. Descrevemos os Remédios e Garantias Constitucionais previstos na Carta Magna Brasileira, informando ainda os requisitos para o seu exercício. A importância do estudo desse tema decorre do fato de o assistente social, em suas atividades profissionais, ter como atribuição central o esforço no sentido de efetivar/garantir especialmente essa modalidade de direito, como será visto nos capítulos seguintes. Com o propósito de capacitar o (a) acadêmico (a) a operar com o direito, função recorrente no seu exercício profissional, na parte final do capítulo aprofundaremos algumas reflexões sobre o Poder Judiciário e alguns órgãos indispensáveis para a concretização do direito. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar outras informações na bibliografia indicada para a disciplina. 3.1 Definição Como direitos sociais podemos definir aqueles que têm um D ir ei to s So ci ai s 48 conteúdo econômico-social que pretendem melhorar as condições de vida e de trabalho da população. Direitos sociais visam sempre minimizar as diferenças existentes entre os indivíduos. Os direitos sociais, ao contrário dos direitos individuais, pressupõem que o Estado faça alguma coisa, ou seja, existe o pressuposto da prestação positiva do Estado. A Constituição de 1988 dedicou especial atenção aos direitos sociais tanto individuais quanto coletivos. Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. José Afonso da Silva (2006, p.154) identifica 5 modalidades de direitos sociais: • Direitos sociais relativos ao trabalhador (art. 7º a 11). • Direitos sociais relativos à seguridade social, abrangendo o direito à saúde, previdência social e assistência social (art. 193 a 204). • Direitos sociais relativos à educação, cultura e ao esporte (art. 205 a 217). • Direitos sociais relativos à família, à criança, ao adolescente, ao idoso, e às pessoas portadoras de deficiência (art. 226 a 230). • Direitos sociais relativos ao meio ambiente (art. 225). Os direitos sociais relativos ao trabalhador, na sua acepção mais genérica, constam nos artigos 7º até 11 da Constituição Federal, constando ainda, de forma mais detalhada, na Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. A dupla incidência dessa matéria demonstra a preocupação do legislador constituinte em identificar esses direitos como prestações obrigatórias do Estado, como forma de melhor garanti-los. Entre os principais direitos trabalhistas encontramos o direito ao salário-mínimo, 13º salário, FGTS, aviso prévio, repouso remunerado, férias, etc. 49 D ir ei to s So ci ai s Os direitos trabalhistas assegurados na Constituição podem ser individuais, como os antes citados, ou coletivos (direito à greve, direito à livre organização sindical, etc.) Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: I — relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; II — seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; III — fundo de garantia do tempo de serviço; IV — salário-mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; V — piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho; VI — irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo; VII — garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável; VIII — décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria; IX — remuneração do trabalho noturno superior à do diurno; X — proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa; XI — participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; XII — salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) XIII — duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho; (vide Decreto-lei D ir ei to s So ci ai s 50 n. 5.452, de 1943) XIV — jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva; XV — repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos; XVI — remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal; (Vide Del 5.452, art. 59 § 1º) XVII — gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal; XVIII — licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias; XIX — licença-paternidade, nos termos fixados em lei; XX — proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; XXI — aviso prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei; XXII — redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança; XXIII — adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei; XXIV — aposentadoria; XXV — assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas; XXVI — reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho; XXVII — proteção em face da automação, na forma da lei; XXVIII — seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa; XXIX — ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 28, de 25/05/2000) XXX — proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil; 51 D ir ei to s So ci ai s XXXI — proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; XXXII — proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos; XXXIII — proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) XXXIV — igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso. Parágrafo único. São assegurados à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VIII, XV, XVII, XVIII, XIX, XXI e XXIV, bem como a sua integração à previdência social. Art. 8º. É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: I — a lei não poderáexigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical; II — é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município; III — ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; IV — a assembleia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei; V — ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato; VI — é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho; D ir ei to s So ci ai s 52 VII — o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais; VIII — é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei. Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer. Art. 9º. É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender. § 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. § 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. Art. 10. É assegurada a participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de discussão e deliberação. Art. 11. Nas empresas de mais de duzentos empregados, é assegurada a eleição de um representante destes com a finalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os empregadores. Os direitos sociais relativos à seguridade social, abrangendo o direito à saúde, previdência social e assistência social (art. 193 a 204), em razão de sua centralidade para essa disciplina serão tratados de forma detalhada no capítulo seguinte. Direitos sociais relativos à educação, cultura e ao esporte estão previstos nos artigos 205 até 217. A educação é um dever do Estado e da família, sendo um direito de todos. É obrigatória e gratuita no ensino fundamental, que atualmente conta com nove séries. Tomando como referência o pacto federativo, compete prioritariamente aos municípios o ensino fundamental, aos estados o ensino médio, enquanto a União tem atribuições 53 D ir ei to s So ci ai s centradas no ensino superior. A Constituição assegura ainda que as comunidades indígenas possam usar suas línguas maternas no ensino fundamental. Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII - garantia de padrão de qualidade. VIII - piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) Parágrafo único. A lei disporá sobre as categorias de trabalhadores considerados profissionais da educação básica e sobre a fixação de prazo para a elaboração ou adequação de seus planos de carreira, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático- científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. D ir ei to s So ci ai s 54 § 1º É facultado às universidades admitir professores, técnicos e cientistas estrangeiros, na forma da lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 11, de 1996) § 2º O disposto neste artigo aplica-se às instituições de pesquisa científica e tecnológica. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 11, de 1996) Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) II - progressiva universalização do ensino médio gratuito; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando; VII - atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático- escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. § 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. § 2º - O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente. § 3º - Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I - cumprimento das normas gerais da educação nacional; II - autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino 55 D ir ei to s So ci ai s fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. § 1º - O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. § 2º - O ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem. Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. § 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrãomínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) § 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) § 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, os Estados e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 14, de 1996) § 5º A educação básica pública atenderá prioritariamente ao ensino regular. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) Art. 212. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino. D ir ei to s So ci ai s 56 § 1º - A parcela da arrecadação de impostos transferida pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, ou pelos Estados aos respectivos Municípios, não é considerada, para efeito do cálculo previsto neste artigo, receita do governo que a transferir. § 2º - Para efeito do cumprimento do disposto no “caput” deste artigo, serão considerados os sistemas de ensino federal, estadual e municipal e os recursos aplicados na forma do art. 213. § 3º - A distribuição dos recursos públicos assegurará prioridade ao atendimento das necessidades do ensino obrigatório, nos termos do plano nacional de educação. § 4º - Os programas suplementares de alimentação e assistência à saúde previstos no art. 208, VII, serão financiados com recursos provenientes de contribuições sociais e outros recursos orçamentários. § 5º A educação básica pública terá como fonte adicional de financiamento a contribuição social do salário-educação, recolhida pelas empresas na forma da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) (Vide Decreto nº 6.003, de 2006) § 6º As cotas estaduais e municipais da arrecadação da contribuição social do salário-educação serão distribuídas proporcionalmente ao número de alunos matriculados na educação básica nas respectivas redes públicas de ensino. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 53, de 2006) Art. 213. Os recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei, que: I - comprovem finalidade não-lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação; II - assegurem a destinação de seu patrimônio a outra escola comunitária, filantrópica ou confessional, ou ao Poder Público, no caso de encerramento de suas atividades. § 1º - Os recursos de que trata este artigo poderão ser destinados a bolsas de estudo para o ensino fundamental e médio, na forma da lei, para os que demonstrarem insuficiência de recursos, quando houver falta de vagas e cursos regulares da rede pública na localidade da residência do educando, 57 D ir ei to s So ci ai s ficando o Poder Público obrigado a investir prioritariamente na expansão de sua rede na localidade. § 2º - As atividades universitárias de pesquisa e extensão poderão receber apoio financeiro do Poder Público. Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do Poder Público que conduzam à: I - erradicação do analfabetismo; II - universalização do atendimento escolar; III - melhoria da qualidade do ensino; IV - formação para o trabalho; V - promoção humanística, científica e tecnológica do País. Seção II A Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, também denominada Lei de Diretrizes e Bases, ou apenas LDB, regulamenta e dispõe sobre a matéria educacional no Brasil, sendo sugerida a sua leitura. O artigo 217 da Constituição Brasileira estabelece que o Estado deva fomentar as práticas esportivas, da mesma forma é obrigação do Estado assegurar pleno exercício dos direitos culturais incentivando as manifestações da cultura nacional. Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. § 1º - O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. § 2º - A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do Poder Público que conduzem à: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; D ir ei to s So ci ai s 58 (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) II produção, promoção e difusão de bens culturais; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) IV democratização do acesso aos bens de cultura; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) V valorização da diversidade étnica e regional. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 48, de 2005) Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. § 1º - O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação. § 2º - Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem. § 3º - A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais. § 4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei. § 5º - Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. § 6 º É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a fundo estadual de fomento à cultura até cinco décimos por 59 D ir ei to s So ci ai s cento de sua receita tributária líquida, para o financiamento de programas e projetos culturais, vedada a aplicação desses recursos no pagamento de: (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003) I - despesas com pessoal e encargos sociais; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003) II - serviço da dívida; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003) III - qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003) Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observados:I - a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento; II - a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento; III - o tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não- profissional; IV - a proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação nacional. § 1º - O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva, regulada em lei. § 2º - A justiça desportiva terá o prazo máximo de sessenta dias, contados da instauração do processo, para proferir decisão final. § 3º - O Poder Público incentivará o lazer, como forma de promoção social. Os direitos sociais relativos à família, à criança, ao adolescente, ao idoso, e às pessoas portadoras de deficiência também serão trabalhados em capítulo à parte. Os direitos sociais relativos ao meio ambiente (art. 225) decorrem da imposição ao Poder Público e a coletividade de protegerem o meio ambiente. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente D ir ei to s So ci ai s 60 equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. § 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; II - preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético; III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente; VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade. § 2º - Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na forma da lei. § 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. 61 D ir ei to s So ci ai s § 4º - A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais. § 5º - São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais. § 6º - As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização definida em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas. 3.2 Remédios e Garantias Constitucionais Depois de tratar dos direitos e garantias fundamentais, quer sociais quer coletivos, é preciso mencionar os “remédios processuais” que podem garantir a efetivação dos direitos arrolados, ou a restauração ao estado anterior à violação. 1. Habeas Corpus: O Habeas Corpus é uma medida judicial que visa garantir o pleno exercício do direito de ir e vir, ou seja, o direito de locomoção indevidamente cerceado, por ilegalidade ou por abuso de poder. O Habeas corpus pode ser utilizado por brasileiro ou estrangeiro, e é uma ordem dirigida contra o Poder Público, podendo ser habeas preventivo, quando ainda não ocorreu o cerceamento do direito de locomoção, mas o mesmo está na iminência de ocorrer, ou habeas repressivo, quando o cerceamento da locomoção já ocorreu. Fundamentação legal – art. 5°. LXVIII da CF. 2. Mandado de Segurança: Mandado de Segurança é uma medida judicial que visa resguardar direito líquido e certo contra o Poder Público ou pessoa jurídica no exercício de atribuição pública, desde que não se trate de matéria amparada pelo habeas corpus ou habeas data. O mandado de segurança pode ser individual ou coletivo. D ir ei to s So ci ai s 62 Também pode ser preventivo e repressivo. É importante referir que o mandado de segurança é uma invenção do direito brasileiro. Fundamentação legal – art. 5°. LXIX e LXX da CF. 3. Habeas Data: O Habeas Data é uma medida judicial que tutela o direito de informações, assegurada sempre que dita informação estiver em bancos de dados de entidade pública ou aberta ao público. Existe também a possibilidade de retificar as informações constantes nos bancos de dados. O habeas data é uma inovação constitucional datada de outubro de 1988, quando da promulgação de nossa Constituição. Fundamentação legal – art. 5°. LXXII da CF. 4. Direito de Petição: O Direito de Petição é a faculdade de formular pedidos para a administração pública em defesa de interesse próprio ou alheio contra atos ilegais e abusivos cometidos por agentes do Estado. A origem desde direito é inglesa tendo surgido com a denominação de right of petition. Fundamentação legal – art. 5°. XXXIV, a da CF. 5. Direito de Certidão: O Direito de certidão é o direito de obter da administração pública uma certidão por escrito sempre que defesas de direitos ou esclarecimentos de situações de interesse pessoal assim exigirem. O prazo máximo para a expedição destas certidões é de 15 dias a contar do protocolo de solicitação. As informações disponibilizadas na certidão são informações que gozam de fé pública. Fundamentação legal – art. 5°. XXXIV, b da CF. 6. Mandado de Injunção: O Mandado de Injunção é a ação constitucional que tutela direitos previstos na Constituição inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania que não possam ser exercidos em razão da falta de norma que regulamente determinada matéria. Tem a finalidade de solicitar ao poder legislativo a edição de legislação regulamentadora de dispositivo não autoaplicável. O Poder Judiciário concederá mandado de injunção em razão 63 D ir ei to s So ci ai s da inexistência de norma jurídica que impeça o exercício ou gozo de direito ou liberdade constitucional, sendo que o impetrante poderá ser pessoa física ou jurídica. Fundamentação legal – art. 5°. LXXI da CF. 7. Ação Popular: A Ação Popular é uma ação constitucional disponível para qualquer cidadão para buscar a anulação de ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade que o estado Para a propositura desta ação é necessário demonstrar a condição de cidadão, com a apresentação de título eleitoral, a ilegalidade e a lesividade da ação do Poder Público. O art. 5º, inciso LXXIII da CF, diz que “qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”.Fundamentação legal – art. 5°. LXXIII da CF. 8. Ação Civil Pública: A Ação Civil Pública é uma ação constitucional para a tutela do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, que pode ser proposta pelo Ministério Público, pessoas jurídicas de Direito Público Interno (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) e por suas entidades paraestatais, por associações constituídas há mais de um ano que tenham por finalidade a proteção de interesses difusos e coletivos. Fundamentação legal – art. 129, III da CF. 3.3 Organização dos Poderes O título IV da atual Constituição denominado Da Organização dos Poderes dá conta da existência de três poderes, sendo importante salientar, no entanto, que o poder é uno e indivisível, sendo partilhado o seu exercício, uma vez que, pelo fundamento da separação dos poderes, é D ir ei to s So ci ai s 64 conveniente evitar sua concentração nas mãos de uma só pessoa, o que poderia gerar situações de abuso. Desta feita a divisão dos poderes obedece a critérios da especialização funcional e da independência orgânica. Desta forma é conveniente apontarmos as funções estatais básicas que têm órgãos independentes e especializados, quais sejam: 1 – Função legislativa – elaborar leis normas gerais abstratas impostas obrigatoriamente para todos. 2 – Função executiva – administra o Estado em conformidade com as leis elaboradas pelo legislativo. 3 – Função judiciária – atividade jurisdicional do Estado, no que diz respeito a aplicar a lei no caso concreto em situações de litígio. 3.3.1 Poder Judiciário Em razão da natureza da disciplina em estudo, privilegiaremos o estudo do Poder Judiciário em detrimento dos outros poderes, quais sejam: Legislativo e Executivo. Dentro do sistema de separação dos poderes compete ao poder judiciário a função jurisdicional do Estado, ou seja, é ele que aplica a lei no caso concreto resolvendo os litígios, sendo esta atividade um monopólio do Poder Público. Em caráter excepcional poderá o poder judiciário exercer funções legislativas, exclusivamente quando se trata da elaboração dos regimentos internos dos tribunais, regimentos estes que interferem diretamente na matéria do Direito Processual. O Poder Judiciário é pautado por uma série de princípios, merecendo destaque os que abaixo seguem: • Princípio da substitutividade - o Estado detém o monopólio da jurisdição, não sendo lícito a ninguém fazer justiça pelas próprias mãos, daí substituir o juiz as partes que outrora resolviam diretamente seus conflitos. • Princípio da Inércia - para que o judiciário atue em 65 D ir ei to s So ci ai s determinado conflito se faz necessário que o mesmo seja provocado por algum dos interessados. Este princípio objetiva preservar a imparcialidade do julgador. • Princípio da indeclinabilidade - o juiz não pode declinar de seu poder-dever de julgar, não podendo ainda alegar omissão ou lacuna na lei como pretexto para não julgar. • Princípio da indelegabilidade ou investidura – somente um membro do poder judiciário devidamente empossado pode exercer as funções jurisdicionais. • Princípio da obrigatoriedade ou inafastabilidade - nenhuma matéria pode ser excluída da apreciação do poder judiciário. • Princípio do juiz natural – Ninguém pode ser processado senão pela autoridade competente. • Princípio do devido processo legal - a toda parte envolvida num litígio é assegurado o contraditório e a ampla defesa. Os juízes, para o pleno exercício de suas funções, possuem algumas prerrogativas, merecendo destaque: • Vitaliciedade – após o ingresso por concurso público, somente serão afastados pela aposentadoria voluntária aos trinta e cinco anos de serviço ou compulsória aos setenta anos; • Inamovibilidade – os juízes não podem ser removidos sem seu consentimento, salvo quando ocorrer interesse público reconhecidos por maioria absoluta. • Irredutibilidade de subsídios – os rendimentos dos juízes não poderão sofrer redução; Além das prerrogativas antes expostas é vedado aos juízes: • Exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério. • Receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participações em processo, e • Dedicar-se à atividade político-partidária; • Receber, a qualquer título ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou D ir ei to s So ci ai s 66 privadas, ressalvadas as exceções previstas em lei; • Exercer a advocacia no juízo ou Tribunal do qual se afastou, antes de decorridos três anos do afastamento do cargo por aposentadoria ou exoneração. 3.3.2 Os Órgãos do Poder Judiciário O artigo 92 da CF estabelece que o Poder Judiciário seja exercido pelos seguintes órgãos: 1. Supremo Tribunal Federal – STF, com sede em Brasília, caracterizando-se por ser a mais alta corte do ordenamento jurídico brasileiro, cuja principal função é guardar e zelar pelo cumprimento da Constituição. O STF é composto por onze ministros escolhidos livremente pelo presidente da república em lista. 2. Superior Tribunal de Justiça – STJ é a mais alta corte recursal, também sediado em Brasília. Sendo composto por no mínimo trinta e três ministros, distribuídos em Câmaras.O STJ é a mais nova Instância do Judiciário, tendo sido criado pela Constituição de 1988, quando esta mudou a atribuição de STF. A escolha dos ministros também obedece ao critério de escolha do presidente da república. 3. Tribunais Regionais Federais – TRF e Juízes Federais. Os TRF’s, compostos por no mínimo sete juízes. Atualmente existem cinco TRF’s, mas a Constituição prevê que cada estado e o Distrito Federal deva ter o seu. A justiça federal julga causas em que a União ou suas entidades são autoras, assistentes ou oponentes. 4. Tribunais e Juízes do Trabalho – A justiça do trabalho é composta pelo Tribunal Superior do Trabalho – TST, com sede em Brasília. Conta atualmente com dezessete ministros; os Tribunais Regionais do Trabalho – TRT, com sede nas capitais dos estados; e pelas Varas do Trabalho, coordenadas pelos juízes do trabalho nas diferentes comarcas. 5. Tribunais e Juízes Eleitorais – A justiça eleitoral é 67 D ir ei to s So ci ai s composta pelo Tribunal Superior Eleitoral – TSE com sede em Brasília e composto por sete ministros; pelos Tribunais Regionais Eleitorais - TRE com sede nas capitais dos estados, também compostos por sete juízes; e as Juntas Eleitorais, que são compostas por um juiz de direito estando localizadas nas comarcas. Algumas comarcas não possuem zonas eleitorais sendo que, neste caso, a Justiça Comum tem, excepcionalmente, competência para deliberar sobre matéria eleitoral. 6. Tribunais e Juízes Militares – a justiça militar tem a atribuição de julgar crimes militares definidos em lei. O mais alto órgão da justiça militar é o Superior Tribunal Militar – STM, composto por quinze ministros (10 militares e 5 civis) e com sede em Brasília. Na primeira instância encontramos os Conselhos de Justiça Militar permanentes para o julgamento de praças e especiais para o julgamento de oficiais. 7. Tribunais e Juízes dos Estados, do Distrito Federal e Territórios – É aquela que apresenta atribuições gerais, abrangendo causas que não estejam inseridas na competência da Justiça especial ou da federal comum. 3.3.3 Das Funções Essenciais à Justiça Por funções essenciais à justiça podemos entender aquelas atividades profissionais públicas ou privadas sem as quais não é possível o efetivo funcionamento do Poder Judiciário. A matéria encontra-se ordenada nos artigos 127 até 135 da Constituição Federal, compreendendo o Ministério Público, a Advocacia Geral da União, a Defensoria Pública e a advocacia privada. 1. Ministério Público – O Ministério Público também denominado MP é uma instituição permanentee essência à função jurisdicional do Estado, tendo a incumbência de defender a ordem jurídica, o regime democrático, além dos interesses sociais e individuais indisponíveis, conforme disposição expressa no artigo 127 da Constituição Federal. D ir ei to s So ci ai s 68 O Ministério Público não faz parte de nenhum dos poderes políticos, tendo autonomia financeira e administrativa, devendo ser tratado como uma instituição à parte, possuindo uma ampla independência funcional. No que diz respeito à estrutura desse órgão devemos referir a existência do Ministério Público da União (Federal, do Trabalho, Militar, do Distrito Federal e Territórios) e o Ministério Público dos Estados, cujos membros denominam- se de Promotores de Justiça (primeira instância) e Procuradores de Justiça (segunda instância). 2. Advocacia Geral da União – É a instituição responsável por representar a União judicial ou extrajudicialmente, funcionando como assessoria e consultoria do Poder Executivo. Sua organização e atribuições estão previstas nos artigos 131 e 132 da Constituição Federal. 3. Defensoria Pública – A Defensoria Pública é identificada como função essencial à em razão da mesma ser responsável pela orientação jurídica e pela defesa, em todas as instâncias, daquelas pessoas que não dispõem de recursos para contratar advogados, quando então o Estado deve disponibilizar assistência judiciária gratuita, visto ser essa disposição direito individual previsto no artigo 5º, LXXXIV da CF. Em que pese a inegável importância dessa instituição em muitos estados esse dispositivo constitucional ainda não foi devidamente regulamentado. 4. Advocacia – O advogado é o bacharel em direito devidamente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, sendo indispensável para a administração da justiça, conforme disposição expressa no artigo 133 da Constituição Federal. Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os (as) acadêmicos (as) organizem uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados neste capítulo. 69 D ir ei to s So ci ai s Referência comentada SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Ed. Malheiros, 2006. A obra indicada para leitura é uma das mais completas sobre a temática de direito constitucional e Teoria Geral do Estado em seus aspectos mais abrangentes, servindo como uma boa referência para o aprofundamento dos conteúdos trabalhados nessa disciplina. Recomendamos ainda a leitura atenta e cuidadosa da nossa Constituição Bons estudos! Referências BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. Malheiros Editores, 2006. Constituição Federal DE 1988. Lei Federal nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – LDB. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Ed. Atlas, 2006. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Ed. Malheiros, 2006. TEMER, Michel. Elementos de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros Editores, 2006. Autoavaliação Marque a alternativa correta: 1) São direitos sociais: a) Os direitos políticos. D ir ei to s So ci ai s 70 b) Os direitos individuais. c) Os direitos de conteúdo econômico-social. d) Nenhuma das alternativas acima. 2) São algumas modalidades de direito social: a) Direitos sociais relativos à educação, cultura e ao esporte. b) Direitos sociais relativos à família, à criança, ao adolescente, ao idoso, e às pessoas portadoras de deficiência. c) Direitos sociais relativos ao meio ambiente. d) Todas as alternativas acima. 3) Os direitos assegurados aos trabalhadores podem ser: a) Apenas direitos individuais. b) Apenas direitos coletivos. c) Direitos individuais e coletivos. d) Nenhuma das alternativas acima. 4) Os direitos relativos à seguridade social abrangem: a) Seguridade social. b) Saúde. c) Assistência social. d) Todas as opções acima. 5) A Lei que regulamenta a educação no Brasil é conhecida como: a) LDB. b) LOSS. c) LOAS. d) SUAS. Gabarito: 1) C; 2) D; 3) C; 4) D; 5) A. Este capítulo tem o propósito de disponibilizar a(o) acadêmica(o) conhecimentos indispensáveis acerca da seguridade social que contempla a previdência social, a saúde e a assistência social. Neste capítulo trataremos das duas primeiras modalidades de seguridade, sendo que a assistência social será estudada no próximo capítulo. Ao final do estudo o aluno conhecerá os princípios que regem a seguridade, assim como os principais benefícios previdenciários previstos na legislação brasileira. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 4.1 Antecedentes A temática da seguridade social encontra guarida na Constituição Federal, compreendendo o direito à saúde, à previdência e à assistência social, pois o legislador constituinte entendeu que esses direitos são indispensáveis para garantir o efetivo cumprimento de uma das mais importantes funções do Estado, qual seja o bem comum. À guisa de reflexão devemos apontar que aquilo que hodiernamente denominamos de seguridade social esteve Cap. IV Seguridade Social Se g u ri d ad e So ci al 72 presente em inúmeros textos legais, tanto constitucionais quanto infra-constituicionais. Fazendo uma breve retrospectiva histórico-legislativa de devemos referir que a nossa primeira Constituição, outorgada em 1824, no seu artigo 179, inciso 31, disponibilizava por parte do Estado os denominados socorros públicos, marcadamente identificados com caridade. Art.179, Inciso XXXI – A Constituição também garante os socorros públicos. Quando do advento da nossa primeira constituição republicana, datada de 1891, ratificou-se o dispositivo constante na Carta anterior, passando essa atribuição a ser da administração pública. As duas primeiras décadas do século XX foram marcadas por profundas divergências sociais, econômicas e políticas, que juntamente com a Primeira Guerra Mundial e a Crise de 1929 provocaram inúmeras transformações no cenário jurídico constitucional brasileiro, sendo a mais importante a denominada Revolução de 30, caracterizada pela chegada ao poder de Getúlio Vargas e pela derrocada política e econômica das elites cafeicultoras paulistas, que monopolizaram o Estado durante a denominada República Velha. Nesse contexto Getúlio Vargas chega ao poder e, através do Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930, inicia um processo de reestruturação político-jurídica que iria culminar com a Constituição de 1934, nossa terceira Constituição. A Constituição de 1934 foi bastante influenciada pela Constituição Alemã de Weimar, que pressupunha uma significativa intervenção do Estado na economia em substituição aos princípios do liberalismo antes vigentes. Como principal característica dessa Carta Magna devemos referir a presença de significativos capítulos que versavam sobre a ordem social, direitos trabalhistas e previdência social, direito civil e administrativo, educação, cultura e segurança nacional, sendo importante referir que a temática da seguridade social adquire uma natureza previdenciária, bem aos moldes dos Estados de bem-estar social que se instituem naquele período. 73 Se g u ri d ad e So ci al A título de ilustração transcrevemos o artigo 121 como ilustrativo dessa nova preocupação, que culminaria com o conceito de tutela social. Art 121 – A lei promoverá o amparo da produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos do País. § 1º – A legislação do trabalho observará os seguintes preceitos, além de outros que colimem melhorar as condições do trabalhador: a) proibição de diferença de salário paraum mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; b) salário-mínimo, capaz de satisfazer, conforme as condições de cada região, às necessidades normais do trabalhador; c) trabalho diário não excedente de oito horas, reduzíveis, mas só prorrogáveis nos casos previstos em lei; d) proibição de trabalho a menores de 14 anos; de trabalho noturno a menores de 16; e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e a mulheres; e) repouso hebdomadário, de preferência aos domingos; f) férias anuais remuneradas; g) indenização ao trabalhador dispensado sem justa causa; h) assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante, assegurando a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, e instituição de previdência, mediante contribuição igual da União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte; i) regulamentação do exercício de todas as profissões; j) reconhecimento das convenções coletivas, de trabalho. § 2º – Para o efeito deste artigo, não há distinção entre o trabalho manual e o trabalho intelectual ou técnico, nem entre os profissionais respectivos. § 3º – Os serviços de amparo à maternidade e à infância, os referentes ao lar e ao trabalho feminino, assim como a fiscalização e a orientação respectivas, serão incumbidos de preferência a mulheres habilitadas. § 4º – O trabalho agrícola será objeto de regulamentação Se g u ri d ad e So ci al 74 especial, em que se atenderá, quanto possível, ao disposto neste artigo. Procurar-se-á fixar o homem no campo, cuidar da sua educação rural, e assegurar ao trabalhador nacional a preferência na colonização e aproveitamento das terras públicas. § 5º – A União promoverá, em cooperação com os Estados, a organização de colônias agrícolas, para onde serão encaminhados os habitantes de zonas empobrecidas, que o desejarem, e os sem trabalho. § 6º – A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as restrições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante, não podendo, porém, a corrente imigratória de cada país exceder, anualmente, o limite de dois por cento sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos cinqüenta anos. § 7º – É vedada a concentração de imigrantes em qualquer ponto do território da União, devendo a lei regular a seleção, localização e assimilação do alienígena. § 8º – Nos acidentes do trabalho em obras públicas da União, dos Estados e dos Municípios, a indenização será feita pela folha de pagamento, dentro de quinze dias depois da sentença, da qual não se admitirá recurso ex–offício. A Constituição de 1934 durou pouco mais de três anos, sendo substituída pela Carta Outorgada em 1937 num contexto histórico marcado pelo fechamento das instituições democráticas em razão do golpe de Estado promovido por Getúlio Vargas em 31 de outubro daquele ano, também denominado Estado Novo, inspirado no modelo fascista de organização política, cuja principal característica foi a supressão dos direitos e garantias individuais. Não obstante a esse caráter marcadamente autoritário, a Constituição de 1937 aprofunda a idéia de tutela social à medida que acentua os dispositivos que tratavam de direitos sociais, e as regras econômicas e trabalhistas (art.153), além de propor a nacionalização das indústrias de base (art.144). Com o final da 2ª Guerra Mundial e com a vitória das democracias, Vargas é forçado a renunciar não havendo sustentação ideológica para o Estado Novo. A Constituição de 75 Se g u ri d ad e So ci al 1946 avança, significativamente, na regulamentação do seguro social, sendo promulgado na sua vigência e como produto daquele contexto histórico específico a Lei Orgânica da Previdência Social, também conhecida por LOPS, no ano de 1960. Essa lei padronizou o sistema assistencial ampliando os benefícios e criando vários auxílios, como auxílio-maternidade, auxílio-funeral e auxílio-reclusão, e ainda estendeu a área de assistência social a outras categorias profissionais. Com o propósito de beneficiar os trabalhadores rurais, foi criado, em 1963, o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), sendo que a uniformização da legislação previdenciária através da Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS) ocorreu em 21-11-1966, com a edição do Decreto nº 72 que fundiu os institutos de aposentadorias e pensões, originando um órgão centralizado de organização previdenciária, o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), implantado em 2-1-1967. Em 09.04.1964 a Junta Militar que assumiu o governo editou o Ato Institucional nº 1 que, em que pese manter a Constituição de 1946, impõe à mesma diversas modificações que não chegam a atingir a matéria de seguridade social, o mesmo ocorrendo com a Constituição de 1967 e com a Emenda Constitucional de 1969. A década de 70 é bastante rica em legislações de natureza previdenciária, merecendo destaque a criação do salário-família, a obrigatoriedade dos empregados domésticos se tornaram segurados, além do salário-maternidade tornar-se benefício previdenciário, entre outras inovações. Assim, com tantas normas tratando da previdência social, houve a necessidade de reuni-las, o que ocorreu através do Decreto nº 77.077, de 24.01.1976, resultando na Consolidação das Leis da Previdência Social (CLPS). Esse quadro começa a sofrer mudanças especialmente em meados da década de 80, principalmente em razão da internacionalização da economia que traz para a discussão a transformação do Estado de Bem-estar Social em Estado Mínimo. Em que pese esse cenário, nossa Constituição outorgada em outubro de 1988 contemplou no título A Ordem Social o conceito de seguridade social abrangendo saúde, previdência Se g u ri d ad e So ci al 76 e assistência social, estabelecendo as mesmas como direito dos indivíduos e dever do Estado. O Artigo 3º, III da CF/88, estabelece como um dos objetivos do Estado brasileiro “... erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais...” o que pode ser conseguido, além de outras formas, com a implantação de uma seguridade social eficaz. Como bem assevera Simões: A seguridade é uma ação em prol do interesse social, como políticas intervencionistas, sob o fundamento de que é a própria sociedade, em seu modo de funcionamento, que gera distorções e exclui amplos setores populacionais, sendo relativamente incapaz de integrar a todos, desde a infância, para lhes garantir oportunidades de vida digna [...]. A concepção do ideário liberal de representação dos interesses da sociedade tornou-se incapaz de assegurar as demandas sociais de amplas camadas da população desorganizada, no âmbito da globalização da economia [...]. A Constituição de 1988 viabilizou a efetivação de políticas públicas que, embora não propiciem, de imediato, a extirpação dessas mazelas sociais, podem contribuir para sua redução ( 2007, p. 89). A título de esclarecimento devemos referir que as ações do Estado, no que diz respeito à seguridade social, podem ser realizadas tanto no plano coletivo (prevenção sanitária, projetos habitacionais, educação, transporte, saúde, etc.) quanto no plano individual, o que denominamos de prestações sociais que podem ser benefícios que compreendem pagamentos em dinheiro ou em espécie (pensões, aposentadorias, cestas básicas, etc.) ou ainda na forma de serviços que compreendem ações que disponibilizam recursos humanos e equipamentos. Passaremos agora de forma sintética a apontar os mais importantes princípios que orientam a seguridade social no Brasil. 1 – Universalidade de Cobertura e Atendimento. Pressupõe o atendimento a toda a sociedade, sem discriminação de qualquer natureza. 2 – Uniformidade e Equivalênciadas Prestações. Esse princípio estabelece a não distinção entre a população urbana 77 Se g u ri d ad e So ci al e rural. 3 – Seletividade e Distributividade. Por esse princípio achou por bem o legislador selecionar assegurados tomando como referência o potencial econômico e a renda, priorizando a utilização dos recursos disponíveis para os mais necessitados, uma vez que as dotações orçamentárias são reduzidas. Além da identificação dos segmentos populacionais mais necessitados, deverá ser estabelecido quais serão os bens a serem priorizados. 4 – Irredutibilidade do Valor dos Benefícios. Os benefícios não poderão sofrer redução nominal, ainda que a inflação possa reduzir o valor de compra do benefício, quando não ocorre o reajuste na mesma proporção. Devemos atentar para a distinção legal entre valor nominal e valor real, sendo que o primeiro refere-se à alteração do valor em si, ao passo que o segundo diz respeito à perda do poder aquisitivo, geralmente provocado por processo inflacionário. 5 – Eqüidade de Participação no Custeio. O custeio da seguridade social é de responsabilidade de todos, considerando- se, no entanto, a sua renda. 6 – Diversidade da Base de Financiamento. A legislação brasileira estabelece três tipos de contribuintes: os que recebem remuneração por seu trabalho; as empresas ou pessoas físicas que remuneram esses trabalhadores; e os entes federativos (União, Estados e Municípios). 7 – Participação da Comunidade na Gestão Administrativa. A nossa legislação, em especial a constitucional, preconiza de forma bastante significativa a participação da sociedade civil na gestão, o que ocorre, via de regra, por meio dos Conselhos, que integram representantes da comunidade e do Poder Público. Outro aspecto correlato a esse diz respeito à descentralização proposta pela nossa Constituição (art. 194 e art. 204, I), sendo a municipalização a principal forma, reforçando a democratização desses espaços. Em razão desse princípio percebe-se a difusão de conselhos em todas as áreas sociais (saúde, educação, desenvolvimento, segurança, etc.). Cumpre ainda referir que os conselhos municipais devem ser instituídos por lei municipal. Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto Se g u ri d ad e So ci al 78 integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Parágrafo único. Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade social, com base nos seguintes objetivos: I — universalidade da cobertura e do atendimento; II — uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; III — seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços; IV — irredutibilidade do valor dos benefícios; V — eqüidade na forma de participação no custeio; VI — diversidade da base de financiamento; VII — caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) 4.2 Saúde A Constituição de 1988 estabeleceu em seus artigos 196 a 200 que o direito à saúde é universal, não dependendo da contribuição do usuário, uma vez que mesmo aqueles segmentos populacionais que não utilizam o sistema dele se beneficiam no que tange a campanhas de vacinação, vigilância sanitária, etc. Os artigos 196 a 200 da CF foram regulamentados pela Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, também conhecida como Lei Orgânica da Saúde – LOS2, que criou o Conselho Nacional de Saúde – CNS que tem como propósito discutir e elaborar a política de saúde para o Brasil. O Sistema Único de Saúde – SUS, cujo fundamento legal encontramos na LOS, são “Ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta ou indireta e das fundações 2 Legislação alterada pelas Leis 9.832/90, 10424/02 e 11.108/05. 3 Art. 4, caput, da Lei 8.080/90. 79 Se g u ri d ad e So ci al mantidas pelo Poder Público3.” Ainda que o SUS seja estruturado pela União, Estados e Municípios, o mesmo é descentralizado no que tange à direção administrativa, sendo que sua atuação mais significativa ocorre no cenário municipal. Conforme encontramos no IDEC (2003, p. 38): A descentralização pressupõe a distribuição dos serviços conforme sua proximidade com o cidadão; assim, todas as ações e serviços, que atendam à população de um município, devem ser municipais; as que servem e alcançam vários municípios devem ser estaduais; as que são dirigidas a todo o território nacional devem ser federais (mas o SUS tem um gestor único, em cada esfera de governo). Também é importante referir que, embora público, o SUS pode estabelecer parcerias com organizações médico- hospitalares privadas, visto que todas elas regulamentadas pelos dispositivos emanados do CNS. Ademais, é possível a participação de setores privados de forma complementar, especialmente pelo setor filantrópico e sem fins lucrativos, através de contratos ou convênios. Conforme se denota da leitura do artigo 198 da Constituição Federal o SUS, além de ter a atribuição de atender pessoas adoentadas, deve também primar por ações de caráter preventivo. No artigo 200 da CF encontramos as principais atribuições do SUS, quais sejam: • Prevenção e o tratamento de doenças. • Formulação de políticas públicas. • Execução de ações de saneamento básico. • Desenvolvimento tecnológico científico na área. • Fiscalização e inspeção de alimentos e bebidas. • Colaboração com a proteção do ambiente. • Controle e fiscalização de elementos de interesse para a saúde. • Vigilância sanitária e epidemiológica. • Participação na produção de medicamentos, procedimentos, produtos e substâncias de interesse da Se g u ri d ad e So ci al 80 saúde. • Saúde do trabalhador. Como forma de facilitar a fixação do conteúdo, segue abaixo o texto legal: Art. 200. Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: I — controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos; II — executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador; III — ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde; IV — participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico; V — incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico; VI — fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano; VII — participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; VIII — colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho. 4.3 Previdência Social Os artigos 40 e 201 da Constituição Federal estabelecem dois regimes de previdência social no Brasil: o Regime Geral da Previdência Social - RGPS (art. 201) para trabalhadores do setor privado com contratos regulamentados pela CLT e casos previstos na Lei nº 8.212/91; e Regime Previdenciário dos Servidores Públicos (art. 40) e demais leis e regulamentos. Nossa legislação permite ainda a previdência complementar para suplementar os benefícios, sendo essa modalidade de 81 Se g u ri d ad e So ci al previdência de adesão voluntária. Privilegiaremos nesse momento o RGPS, uma vez ser o mesmo muito mais abrangente que o RPSP, que demandaria num estudo exaustivo e minucioso de legislaçõesfederais, estaduais e municipais, pois cada ente federativo por instituir um regime próprio para seus servidores. O Decreto nº 99.350/90 criou o Instituto Nacional de Seguro Social – INSS, vinculado ao Ministério do Trabalho e Previdência Social – MTPS, cuja principal atribuição é promover a arrecadação, fiscalização e cobrança das contribuições sociais, gerir os recursos do Fundo de Previdência e Assistência Social, concedendo e mantendo benefícios previdenciários, além de executar programas relacionados a emprego e apoio aos trabalhadores desempregados, segurança e saúde do trabalhador. 4.3.1 Benefícios Previdenciários Os principais benefícios previdenciários pagos pelo INSS podem ser identificados da forma que segue: a) Auxílio-doença: Benefício pago quando o assegurado fica incapacitado para o trabalho, desde que já tenha contribuído, quando da incapacidade, por pelo menos doze meses, o que se denomina carência. Cumpre referir que os quinze primeiros dias do período de convalescença são pagos pela empresa, sendo os demais suportados pela previdência mediante perícia médica periódica que ateste a incapacidade. b) Aposentadoria por Invalidez: Benefício pago pela previdência quando a perícia médica constatar incapacidade permanente total para o exercício de atividades laborativas, não havendo possibilidade de reabilitação funcional4. É preciso referir ainda que se a incapacidade exigir para o 4 A reabilitação profissional e uma função de re-profissionalização do segurado pressupondo que ele é capaz de retornar ao mercado de trabalho exercendo função diversa da que exercia antes da incapacitação, sendo-lhe assegurado 12 meses de estabilidade no emprego, a contar da data do seu retorno. Se g u ri d ad e So ci al 82 segurado o auxílio de um acompanhante, como no caso de cegueira, alteração das faculdades mentais, entre outras hipóteses, será acrescido 25% do valor do benefício concedido, valor esse que não se incorpora à pensão deixada pelo beneficiário quando do seu falecimento. c) Aposentadoria por Idade: Esse benefício será concedido aos 65 anos para homens e 60 para mulheres, devidamente inscritos no INSS, com uma carência mínima de 180 contribuições previdenciárias. d) Aposentadoria por tempo de serviço (integral ou proporcional): O benefício integral será concedido quando o homem completar 30 anos de contribuição e 53 anos de idade e a mulher com 25 anos de contribuição e 48 anos de idade. O benefício será proporcional quando o segurado tiver pelo menos 180 contribuições5. e) Aposentadoria Especial: Algumas categorias profissionais têm assegurado a aposentadoria desde que o segurado tenha contribuído por 25 anos de trabalho em condições especiais e/ou insalubres, regulamentadas em lei especial. f) Pensão por Morte: É o benefício pago aos dependentes do assegurado a partir da data de seu falecimento, independente de carência. Esse benefício é devido também ao cônjuge separado judicialmente ou divorciado que recebia pensão judicial. A pensão por morte pode ser vitalícia, no caso da viúva, ou temporária, no caso dos dependentes até a maioridade, ou com a extinção da invalidez. g) Salário-família: É o benefício mensal pago ao empregado na proporção do número de filhos com idade até 14 anos, extinguindo-se quando o filho completar a idade prevista em lei, qual seja 14 anos. h) Salário-maternidade: Benefício concedido à empregada gestante, no valor de seu salário integral, durante 120 dias a contar do 28º dia antes da data presumida do parto, ou do parto. Esse benefício dependerá de uma carência de 10 contribuições. Em caso de aborto não criminoso o prazo de licença é de duas semanas. 5 As 180 contribuições só serão exigidas integralmente a partir de 2011, sendo até essa data regulamentada pela tabela do art. 142 da Lei 8.213/91. 83 Se g u ri d ad e So ci al Quando da adoção ou guarda de criança o prazo é de 120 dias se a criança tiver até um ano; 60 dias se a criança tiver de 1 a 4 anos e de 30 dias se a criança tiver de 4 a 8 anos. i) Auxílio-reclusão: Benefício pago aos dependentes do preso recluso, caso esse fosse segurado ao tempo da prisão, não sendo exigido tempo mínimo de contribuição. O benefício é suspenso em caso de fuga, sendo restabelecido o pagamento caso o preso seja recapturado. Se o preso falecer na prisão o benefício transforma-se em pensão por morte. Para a fixação do conteúdo, segue abaixo o texto legal, pois como já foi dito anteriormente a leitura e a compreensão do texto legal é indispensável nos estudos dessa disciplina. Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a: (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). I — cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). II — proteção à maternidade, especialmente à gestante; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) III — proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). IV — salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) V — pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, observado o disposto no § 2º. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 1º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados para a concessão de aposentadoria aos beneficiários do regime geral de previdência social, ressalvados os casos de Se g u ri d ad e So ci al 84 atividades exercidas sob condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física e quando se tratar de segurados portadores de deficiência, nos termos definidos em lei complementar. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005). § 2º Nenhum benefício que substitua o salário de contribuição ou o rendimento do trabalho do segurado terá valor mensal inferior ao salário-mínimo. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 3º Todos os salários de contribuição considerados para o cálculo de benefício serão devidamente atualizados, na forma da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 4º É assegurado o reajustamento dos benefícios para preservar-lhes, em caráter permanente, o valor real, conforme critérios definidos em lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 5º É vedada a filiação ao regime geral de previdência social, na qualidade de segurado facultativo, de pessoa participante de regime próprio de previdência. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 6º A gratificação natalina dos aposentados e pensionistas terá por base o valor dos proventos do mês de dezembro de cada ano. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 7º É assegurada aposentadoria no regime geral de previdência social, nos termos da lei, obedecidas as seguintes condições: (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). I — trinta e cinco anos de contribuição, se homem, e trinta anos de contribuição, se mulher; (Incluído dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). II — sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se mulher, reduzido em cinco anos o limite para os trabalhadores rurais de ambos os sexos e para os que exerçam suas atividades em regime de economia familiar, nestes incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o pescador artesanal. (Incluído dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). 85 Se g u ri d ad e So ci al § 8º Os requisitos a que se refere o inciso I do parágrafo anteriorserão reduzidos em cinco anos, para o professor que comprove exclusivamente tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 9º Para efeito de aposentadoria, é assegurada a contagem recíproca do tempo de contribuição na administração pública e na atividade privada, rural e urbana, hipótese em que os diversos regimes de previdência social se compensarão financeiramente, segundo critérios estabelecidos em lei. (Incluído dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998) § 10 Lei disciplinará a cobertura do risco de acidente do trabalho, a ser atendida concorrentemente pelo regime geral de previdência social e pelo setor privado. (Incluído dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 11 Os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e conseqüente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei. (Incluído dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 12 Lei disporá sobre sistema especial de inclusão previdenciária para atender a trabalhadores de baixa renda e àqueles sem renda própria que se dediquem exclusivamente ao trabalho doméstico no âmbito de sua residência, desde que pertencentes a famílias de baixa renda, garantindo-lhes acesso a benefícios de valor igual a um salário-mínimo. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005) § 13 O sistema especial de inclusão previdenciária de que trata o § 12 deste artigo terá alíquotas e carências inferiores às vigentes para os demais segurados do regime geral de previdência social. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 47, de 2005). Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). Se g u ri d ad e So ci al 86 § 1º A lei complementar de que trata este artigo assegurará ao participante de planos de benefícios de entidades de previdência privada o pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 2º As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 3º É vedado o aporte de recursos a entidade de previdência privada pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, suas autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista e outras entidades públicas, salvo na qualidade de patrocinador, situação na qual, em hipótese alguma, sua contribuição normal poderá exceder a do segurado. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 4º Lei complementar disciplinará a relação entre a União, Estados, Distrito Federal ou Municípios, inclusive suas autarquias, fundações, sociedades de economia mista e empresas controladas direta ou indiretamente, enquanto patrocinadoras de entidades fechadas de previdência privada, e suas respectivas entidades fechadas de previdência privada. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 5º A lei complementar de que trata o parágrafo anterior aplicar-se-á, no que couber, às empresas privadas permissionárias ou concessionárias de prestação de serviços públicos, quando patrocinadoras de entidades fechadas de previdência privada. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). § 6º A lei complementar a que se refere o § 4º deste artigo estabelecerá os requisitos para a designação dos membros das diretorias das entidades fechadas de previdência privada e disciplinará a inserção dos participantes nos colegiados e instâncias de decisão em que seus interesses sejam objeto 87 Se g u ri d ad e So ci al de discussão e deliberação. (Incluído pela Emenda Constitucional n. 20, de 1998). A assistência social será tratada no próximo capítulo, em razão de sua centralidade na formação e atuação do assistente social. Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os (as) acadêmicos (as) organizem individualmente uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo, com a fundamentação legal dos mesmos. Qualquer dúvida retome a leitura do capítulo e busque aprofundamento nas obras indicadas na referência. Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos do curso de Serviço Social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas neste capítulo. Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, das legislações referidas no capítulo. Lembre-se de que o conhecimento da legislação é indispensável nessa disciplina! Bons estudos! Referências Constituição Federal de 1824 Constituição Federal de 1891 Se g u ri d ad e So ci al 88 Constituição Federal de 1934 Constituição Federal de 1937 Constituição Federal de 1946 Constituição Federal de 1967/69 Constituição Federal de 1988 Consolidação das Leis do Trabalho – CLT Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930 Decreto nº 72, de 21 de novembro 1966 - LOPS Decreto nº 77.077, de 24 de janeiro de 1976- CLPS Decreto nº 99.350, de 28 de junho de 1990 IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. O SUS pode ser seu melhor plano de saúde. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde/IEDC, 2003. Lei Federal nº 8.080 de 19 de setembro de 1990- LOS Lei Federal nº 8.212 de 28 de julho de 1991 Lei Federal nº 8.312 de 28 de julho de 1991 MARTINS, Sérgio Pinto. Direito da Seguridade Social. São Paulo: Atlas, 2002. OLIVEIRA, Aristeu de. Previdência Social: doutrina e Legislação. São Paulo: Atlas, 2000. SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. 89 Se g u ri d ad e So ci al Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) A seguridade social compreende: a) A previdência social. b) A saúde. c) A assistência social. d) Todas as alternativas acima. 2) As prestações sociais podem ser: a) Benefícios. b) Serviços. c) Programas e Projetos. d) Todas as alternativas acima. 3) A Universalidade da cobertura e atendimento como princípio de seguridade social implica: a) Em toda sociedade, sem distinção deve ser atendida. b) Somente são atendidos aqueles que contribuem para a previdência. c) Somente serão atendidos aqueles que comprovarem a impossibilidade de acessar serviços privados. d) Somente são atendidos aqueles que comprovarem o recolhimento de 180 contribuições à Previdência social. 4) A irredutibilidade de valor do benefício é um princípio da seguridade social que estabelece: a) O benefício pode sofrer redução nominal. b) O benefício não pode sofrer redução nominal. c) O benefício pode sofrer redução nominal parcial d) Nenhuma das alternativas acima. Se g u ri d ad e So ci al 90 5) A participação da sociedade civil na gestão através de Conselhos pode ser identificada como: a) Um processo que não prevê a participação popular. b) Um processo de concentração no nível federal. c) Um processo de descentralização e democracia. d) Nenhuma das alternativas acima. Gabarito: 1) D; 2) D; 3) A; 4) B; 5) C. O objeto de estudo deste capítuloé a assistência social, destacando-se as áreas/temáticas de atuação mais frequentes dos assistentes sociais, quais sejam: família, a criança e o adolescente, os idosos e as pessoas portadoras de deficiência. Estudaremos os principais instrumentos legais de proteção desses grupos. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 5.1 Definição A assistência social é a terceira modalidade de seguridade social, que por sua centralidade para a formação do assistente social será tratada em capítulo à parte, independentemente de não podermos pensá-la isoladamente, pois, junto com a saúde e a previdência social, cumprem a função de minimizar as diferenças sociais. Para ratificar nossa afirmação, tomamos de Simões (2007) a seguinte passagem: A assistência social, pela primeira vez em sua história, foi erigida como uma das três instituições políticas fundamentais Cap. V Assistência Social A ss is tê n ci a So ci al 92 da seguridade social, ao lado da saúde e da previdência social. Esse fato expressa a superação do conceito de assistencialismo, da filantropia e da benemerência social, para a profissionalização da atividade pública não somente no atendimento às necessidades básicas da população pobre e carente, como e sobretudo no processo de reinserção social, pela reconstituição das relações familiares, pela habilitação e reabilitação profissional e por programas e projetos de enfrentamento da pobreza. Expressa, ainda, a política de efetividade e desenvolvimento dos direitos humanos, especialmente no que se refere à garantia dos direitos sociais como direitos de cidadania, de acesso universal, sob a responsabilidade do Estado. (172) O mesmo autor segue ainda referindo acerca da importância da assistência social ser concebida como política de Estado à medida que: Ao ser instituída como política de pública, passou a ser uma ação estratégica de Estado, e não apenas dos governos, especificamente de seus três poderes, na luta incessante pela redução e prevenção de riscos e vulnerabilidades sociais, por meio da universalização desses direitos, inclusão das pessoas carentes e superação da pobreza. (Idem) A Constituição Federal identifica a assistência social como uma política social, logo um direito de natureza social, cujo propósito é garantir às populações vulneráveis condições mínimas de bem-estar, o que se materializa como um compromisso de Estado. Devemos também referir que as políticas de assistência social são transversais a outras políticas públicas. O legislador pátrio definiu no artigo 203 da CF/88 a área de ação da assistência social, relacionando-os aos direitos individuais e coletivos. Da mesma forma, delimitação similar encontramos na LOAS6 no seu artigo 2. 6 A LOAS é a denominação que se dá a Lei Orgânica de Assistência Social (Lei 8.742, de 7 de dezembro de 1993) que será estudada de forma detalhada no próximo capítulo. 93 A ss is tê n ci a So ci al Art. 203. A Assistência Social será prestada a quem dele necessitar, independentemente de contribuição a seguridade social, e tem por objetivos: I – a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II – o amparo às crianças e adolescentes carentes; III – a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV – a habilitação e a reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V – a garantia de um salário-mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria subsistência ou de tê- la provida por sua família, conforme dispuser a lei7. 5.2 Família Para o legislador pátrio a família8 é considerada como uma instância básica na qual a identidade individual, grupal e social se constitui e se mantém, sendo o núcleo prioritário de atuação da assistência social, que marcará sua ação pelo esforço recorrente de manter, reforçar ou reconstituir os vínculos familiares, de tal sorte que só em casos extremos o Poder Público adotará medidas diversas. Esse pressuposto vale tanto para a criança, adolescente, idoso ou pessoa deficiente. A legislação pátria concebe o casamento como uma das formas da constituição da família natural que poderá ocorrer também pela união estável, embora a noção de família não esteja adstrita à existência do casal, quer heterossexual quer homossexual, sendo bastante comum arranjos familiares bastante diversificados, todos eles protegidos pela legislação vigente. Ainda acerca dessa matéria é preciso destacar que nosso ordenamento jurídico (art. 227 da CF/8 e art. 1596 do Código Civil vigente) deu aos filhos tidos ou não no casamento, e 7 BRASIL, Constituição Federal. 8 O conceito de família para os legisladores e julgadores é um conceito bastante complexo, permitindo uma infinidade de possibilidades, sendo que todas elas devem ser respeitadas. A ss is tê n ci a So ci al 94 mesmo aos adotivos, os mesmos direitos e qualificações, não havendo qualquer distinção da filiação. Ademais a Constituição Federal estabeleceu a igualdade entre cônjuges ou companheiros no que tange à chefia da família, de tal sorte que a dissolução do casamento ou da união estável não afeta o poder familiar, assim como o novo casamento ou a união dos pais não modifica os direitos e deveres dos mesmos para com seus filhos. Os pais têm a obrigação legal de prestar alimentos aos filhos, sob pena de incidência nas sanções previstas no artigo 244 do Código Penal Brasileiro, sendo também tipificada como crime de abandono intelectual a omissão de educação (art. 246 do Código Penal Brasileiro). Ambas as situações podem implicar na perda do poder familiar (art. 1.638 do Código Civil Brasileiro). Da mesma forma a aplicação de castigos físicos de forma imoderada caracteriza crime de maus-tratos e também implicará na perda do poder familiar. Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1º O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. § 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. § 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio, após prévia separação judicial por mais de um ano nos casos expressos em lei, ou comprovada separação de fato por mais de dois anos. § 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre 95 A ss is tê n ci a So ci al decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. § 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. 5.3 Criança e Adolescente Historicamente, no Brasil, a assistência a crianças e adolescentes abandonados foi uma atribuição da Igreja e de Irmandades de Misericórdia, com caráter de caridoso ou benemérito, o que foi comum durante todo o período colonial e imperial, tendo perdurado nas primeiras décadas do período republicano, mais precisamente até 1927 com a edição do Código de Menores, quando a matéria instituiu-se como política pública. Não obstante a esse avanço devemos destacar o caráter correcional-repressivo dessa legislação ou aindaum caráter assistencialista que concebia o menor como um indivíduo marcado por carências biopsicológicas, sociais e culturais, o que foi reforçado pelo Código de Menores editado pela Lei nº 6.697, de 10 de outubro de 1979, legislação essa restritiva aos menores em situação irregular também denominados infratores. O cenário modificou-se em meados da década de 80 quando das reiteradas críticas ao conceito de menor e a necessária reformulação de nossa legislação no sentido de atender a criança e o adolescente na sua integralidade. Naquele contexto é importante mencionar que a CF/88 no seu artigo 227: Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. § 1º O Estado promoverá programas de assistência integral A ss is tê n ci a So ci al 96 à saúde da criança e do adolescente, admitida a participação de entidades não governamentais e obedecendo os seguintes preceitos: I — aplicação de percentual dos recursos públicos destinados à saúde na assistência materno-infantil; II — criação de programas de prevenção e atendimento especializado para os portadores de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos. § 2º A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência. § 3º O direito à proteção especial abrangerá os seguintes aspectos: I — idade mínima de quatorze anos para admissão ao trabalho, observado o disposto no art. 7º, XXXIII; II — garantia de direitos previdenciários e trabalhistas; III — garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola; IV — garantia de pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, igualdade na relação processual e defesa técnica por profissional habilitado, segundo dispuser a legislação tutelar específica; V — obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa da liberdade; VI — estímulo do Poder Público, através de assistência jurídica, incentivos fiscais e subsídios, nos termos da lei, ao acolhimento, sob a forma de guarda, de criança ou adolescente órfão ou abandonado; VII — programas de prevenção e atendimento especializado à criança e ao adolescente dependente de entorpecentes e drogas afins. § 4º A lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente. 97 A ss is tê n ci a So ci al § 5º A adoção será assistida pelo Poder Público, na forma da lei, que estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros. § 6º Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. § 7º No atendimento dos direitos da criança e do adolescente levar-se-á em consideração o disposto no art. 204. Em 13 de janeiro de 1990, ratificando e regulamentando os dispositivos constitucionais acima descritos, foi aprovada a Lei nº 8.068 denominada Estatuto da Criança e do Adolescente, também denominado ECA, caracterizado como um dispositivo legal que garante a proteção integral de crianças assim consideradas até os 12 anos e adolescentes dos 12 aos 17 anos de idade com prioridade absoluta. Essa legislação está em consonância com dispositivos internacionais sobre a matéria, à medida que não cuida somente de crianças e adolescentes em situação de risco social ou individual, sendo um dispositivo que contempla a totalidade desses indivíduos. O ECA atenta sempre para o bem-estar das crianças e adolescentes, estabelecendo uma série de medidas preventivas e protetivas para cumprir seu objetivo, priorizando, como dito anteriormente, a mantença ou reinserção familiar. Devemos referir ainda que essa legislação definiu atos infracionais, procedimentos processuais para averiguação dos mesmos e medidas socioeducativas para as crianças e adolescentes e para seus pais ou responsáveis, instituindo ainda o Conselho Tutelar e a Justiça da Infância e Juventude. Os artigos 86 e 87 do ECA deliberam sobre o conjunto de ações governamentais e não-governamentais dos Municípios, Estados e União, merecendo destaque os que seguem: 1. Políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para aqueles que dela necessitem; 2. Serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicológico às vítimas de negligência, maus-tratos, A ss is tê n ci a So ci al 98 exploração, abuso, crueldade e opressão; 3. Serviços de identificação e localização dos pais, responsável, crianças e adolescentes desaparecidos; 4. Proteção psicossocial, por entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente, entre outras. No que diz respeito às diretrizes administrativas, políticas e fundos merece destaque a municipalização do atendimento, a criação dos conselhos municipais, estaduais e federais como órgãos deliberativos e controladores das ações, bem como a criação de programas que garantam a descentralização e a manutenção de fundos nas três esferas estatais. Ainda é preciso mencionar a preocupação com a integração dos diferentes órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, além da necessária mobilização da sociedade civil no sentido de participar e/ou acompanhar a matéria em debate. O ECA estabelece ainda que, quando da necessidade de colocar a criança ou adolescente em abrigos, deverá a autoridade pública zelar pela preservação dos vínculos familiares; integrar em família substituta quando não houver outra possibilidade de atendimento personalizado e em pequenos grupos; fomentar atividades em regime de socioeducação; manter grupos de irmãos evitando o desmembramento, sempre que possível; garantir que as crianças e adolescentes permaneçam numa única entidade, evitando-se mudanças; participação na vida comunitária envolvendo a comunidade no processo educativo, além de preparar gradativamente as crianças e os adolescentes para o seu desligamento da instituição. O adolescente que comete ato tipificado em lei como crime ou contravenção é denominado infrator, desde que comprovada a materialidade e a autoria da infração, ainda que menores sejam considerados ininputáveis, não podendo ser responsabilizados por seus atos, o que obviamente não implica na ausência de punição ao ato infracional, uma vez que são aplicadas medidas socioeducativas, levando em consideração a gravidade e o potencial de agressividade do ato, conforme disposto no artigo 112 do ECA. 99 A ss is tê n ci a So ci al Dentre as medidas possíveis encontramos a advertência: a obrigação de reparar o dano; prestação de serviços à comunidade por meio de trabalho voluntário, não prejudicando sua frequência na escola ou no trabalho; liberdade assistida que consiste no acompanhamento, auxílio ou orientação do adolescente por pessoa designada, pelo prazo mínimo de seis meses; inserção em regime de semiliberdade que não comprometa a escolarização e profissionalização e, por fim, a mais severa das medidas socioeducativas que consiste na internação em estabelecimento estatal como medida extrema de privaçãode liberdade. Essa medida é extensiva até o adolescente infrator completar 21 anos, quando sua liberação será compulsória. Quando da internação de adolescentes infratores, haverá se de observar os pressupostos constantes no art. 94 do ECA, destacando-se os que seguem: 1. respeitar direitos e garantias do adolescente, restringindo apenas aqueles que tiverem sido suprimidos por decisão judicial; 2. assegurar atendimento personalizado, em pequenas unidades e grupos reduzidos, de modo a preservar a identidade do adolescente, num ambiente de respeito e dignidade; 3. contribuir de forma efetiva para a preservação dos vínculos familiares; 4. oferecer instalações físicas e condições em locais que garantam a higiene, saúde e segurança, além de cuidados médicos, psicológicos, odontológicos e farmacêuticos, além de escolarização e profissionalização, disponibilizando atividades culturais, esportivas e de lazer; 5. proceder a realização de estudo social pessoal reavaliado periodicamente, dando ciência de seus resultados para a autoridade competente, informando ainda o adolescente sua situação processual; 6. manter programas de apoio e acompanhamento de egressos que possam facilitar ou garantir a sua reinserção na sociedade. O ECA estabelece ainda medidas de proteção contra A ss is tê n ci a So ci al 100 ameaça ou violação dos direitos das crianças e dos adolescentes que deverão ser tomadas pelo juiz da infância e adolescência, merecendo destaque: 1. exigência de matrícula e frequência obrigatória em estabelecimento de ensino; 2. requisitar tratamento medido ou psíquico na modalidade ambulatorial ou hospitalar; 3. determinar abrigo em entidade ou colocação em família substituta; 4. promover a inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos, entre outros. No que se refere aos pais ou responsáveis, o artigo 129 do ECA estabelece algumas medidas que podem ser tomadas pelo Judiciário, merecendo destaque: 1. encaminhamento ao programa oficial ou comunitário de promoção à família; 2. encaminhamento à tratamento psicológico ou psiquiátrico; 3. encaminhamento para cursos ou programas de orientação; 4. obrigação de matricular filho e acompanhar sua frequência e aproveitamento escolar; 5. obrigação de acompanhar a criança ou adolescente no tratamento especializado; 6. advertência; 7. destituição da tutela9; 8. suspensão ou destituição do poder familiar. Outra disposição importante constante no ECA diz respeito ao mesmo vedar a divulgação de atos jurídicos, policiais e administrativos referentes a adolescentes a quem se atribua ato infracional, de tal sorte que não poderão ser divulgadas imagens, fotografias, nomes, apelidos, filiação, parentesco ou 9 Tutela é o encargo de natureza assistencial atribuído a uma pessoa capaz para cuidar de um menor e administrar seus bens suprindo a falta do poder familiar – Código Civil Brasileiro. 101 A ss is tê n ci a So ci al residência, conforme diapositivo constante no artigo 143 do referido texto legal. O ECA normatiza também a adoção de menores de 18 anos, concebendo-a como um mecanismo de colocação da criança ou do adolescente em família substituta. No artigo 46 do ECA encontramos a exigência de que a adoção seja precedida de um estágio de convivência dos candidatos a adotantes e os possíveis adotados, por um prazo a ser fixado pela autoridade judiciária. Essa exigência poderá ser suprimida quando adotando e adotante já conviverem juntos por tempo suficiente para o judiciário avaliar a existência de vínculo, ou ainda quando o adotando não tiver mais de um ano de idade. Como adotantes podemos identificar casais heterossexuais casados ou em união estável, ou ainda homossexuais que demonstrem convivência em união estável10, sendo possível ainda a adoção por pessoas sozinhas. O ECA também regulamenta a adoção internacional que é aquela em que o adotante é um estrangeiro residente e domiciliado fora do Brasil. 5.3.1 Conselho Tutelar Os Conselhos Tutelares foram concebidos como órgãos encarregados de zelar pelo cumprimento das disposições contidas no ECA, especialmente no que diz respeito ao atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco por ação ou omissão provocada pela sociedade, família ou pela própria criança ou adolescente. São suas atribuições o atendimento e aconselhamento a pais ou responsáveis, além do encaminhamento aos Juizados da Infância e Adolescência dos casos que exijam intervenção judicial. Todos esses dispositivos constam do artigo 136 do ECA. Os Conselhos Tutelares são compostos por cinco membros maiores de 21 anos, eleitos pela comunidade, com mandado de três anos, permitida uma reeleição. Esses órgãos não possuem atribuição judicial, podendo, entretanto, expedir notificações e 10 Entendimento crescente da jurisprudência nacional. A ss is tê n ci a So ci al 102 requisitar certidões de nascimento e óbito de crianças e adolescentes. 5.3.2 Adolescente e Trabalho A regulamentação do trabalho do adolescente encontra guarida no inciso XXXIII do art. 7º da Constituição Federal, que veda o trabalho noturno, perigoso ou insalubre para menores de 18 anos e qualquer tipo de trabalho para menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz11 a partir dos 14 anos de idade. Essas restrições têm como propósito assegurar o pleno desenvolvimento psicossocial dos adolescentes. Atividades laborativas realizadas por menores de 16 anos – salvo o aprendiz – são consideradas trabalho infantil, o que é vedado tanto na legislação nacional quanto internacional. No Brasil o Ministério de Desenvolvimento Social é responsável pelo PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, que visa coibir e fiscalizar o trabalho infantil além de proteger os trabalhadores adolescentes. Completados 16 anos os adolescentes podem ser admitidos em empregos nas mesmas condições de adultos, sendo titular dos mesmos direitos tanto trabalhistas como previdenciários, sendo que o empregador que admitir menores é obrigado a conceder-lhes o tempo para frequentar a escola. 5.4 Idosos Vivemos um período caracterizado pelo intenso desenvolvimento das ciências, que aliado a outras variáveis tem proporcionado uma maior longevidade às pessoas, aumentando significativamente o número de pessoas consideradas idosas. Paralelo a isso nossa cultura não atribui aos idosos a devida importância, o que acaba por provocar um acentuado processo de exclusão social, especialmente entre 11 O trabalho do aprendiz está regulamentado na Lei 10.097/00 e no Decreto 5.598/ 05. 103 A ss is tê n ci a So ci al idosos de baixa renda, o que se intensifica pelo ritmo acelerado de crescimento desse segmento populacional, sem que a sociedade atente para esse fenômeno. São modestas as preocupações dos nossos governantes com os idosos, especialmente no que tange à efetivação dos dispositivos legais já existentes que regulamentam a matéria, como veremos a seguir. O marco significativo, apontado na literatura, acerca da preocupação do legislador com os idosos ocorreu com o advento da Constituição Federal, em outubro de 1988, onde entre outras inovações percebemos a “constitucionalização dos direitos do idoso”12, como demonsta a leitura do art. 230: Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. § 1º Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em seus lares. § 2º Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes coletivos urbanos. O legislador constitucional trata da questão dos idosos ou da velhice em inúmeras passagens, de maneira explícita ou implícita,merecendo destaque, entre outras medidas protetivas constantes em nossa Carta Magna, a dignificação do ser humano (art. 1º, inciso III), a promoção do bem de todos (art. 3º, inciso IV), a prestação de assistência judiciária (art.5º, inciso LXXIV), condições diferenciadas para o cumprimento da pena (art. 5º, inciso XLVIII), direitos sociais com assistência aos desamparados, proibição da diferença de salários, isenção de Imposto de Renda sobre benefícios previdenciários com idade superior a 65 anos, aposentadoria compulsória aos 70 anos para servidor público (art. 40, inciso II), direito de o aposentado filiado participar efetivamente das organizações sindicais (art. 12 Ainda que outros textos constitucionais (Constituição de 1934, art. 121, § 1; Constituição de 1937, Constituição de 1946, Constituição de 1967 e Emenda Constitucional de 1969) tenham feito referência a velhice, o tema não foi tratado como um direito fundamental, dispondo restritivamente sobre direito previdenciário e direito do trabalho. A ss is tê n ci a So ci al 104 8º, inciso VII), dever de amparar dos filhos maiores em relação a seus genitores na velhice ou na doença (art. 229), além do dever da sociedade e do Estado garantir aos idosos o direito a uma vida digna (art. 230), entre outras medidas. Em razão constitucionalização dos direitos dos idosos, inúmeras normas jurídicas, quer no plano federal, estadual ou municipal, foram editadas, com o propósito de garantir o efetivo cumprimento do texto constitucional. Priorizaremos nesse momento a legislação federal. Em 4 de janeiro de 1994 a Lei nº. 8.842 instituiu a Política Nacional do Idoso criando o Conselho Nacional do Idoso, estabelecendo em 22 artigos os princípios e diretrizes de uma política nacional para esse segmento populacional, sendo adequado transcrevermos, a título de ilustração, o inciso II da referida Lei que denota, de forma explicita, a preocupação com o envelhecimento populacional à medida que afirma que “o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de conhecimento e informação para todos”. Em 03 de julho de 1996 o Decreto nº 1.948 regulamentou a Lei nº. 8.842/94, criando os respectivos conselhos municipais, estadual e federal, determinando suas competências. A efetivação de uma política nacional para o idoso demandava a regulamentação efetiva do artigo 230 da Constituição Federal, o que ocorreu com a promulgação da Lei nº. 10.741, em 01 de outubro de 2003, também conhecido como Estatuto do Idoso quando o legislador estabelece que o conceito de idoso compreende os indivíduos acima de 60 ou 65 anos de idade, segundo certas condições sociais. Entre os principais dispositivos constantes do Estatuto do Idoso destacamos: • criminalização do abandono do idoso, por seu responsável, com possibilidade e prisão por até três anos; • criminalização dos responsáveis por clínicas, acusados de maus-tratos, com até doze anos de prisão quando os maus-tratos resultarem na morte do idoso; • priorização dos idosos nas ações judiciais; direito à meia- entrada em cinemas, shows e eventos esportivos; • direito ao benefício de prestação continuada (BPC), a 105 A ss is tê n ci a So ci al partir dos 65 anos de idade, se carente; • direito ao transporte urbano gratuito; direito ao crédito nas instituições financeiras, sem discriminação por motivo de idade; • prioridade no atendimento pelo SUS, com direito a acompanhante, em tempo integral, durante a internação hospitalar; • gratuidade ou redução dos preços das passagens interestaduais de ônibus, aos idosos com renda até dois salários mínimos; • fornecimento gratuito de remédios, bem como de órteses e próteses, para tratamento; • habilitação ou reabilitação para o trabalho, entre outras medidas. Ainda a título de esclarecimento devemos informar que um importante direito dos idosos diz respeito à possibilidade dos mesmos receberem pensão alimentícia dos descendentes, quando não tiverem condições de garantir sua subsistência. A fixação do valor pago a título de pensão alimentícia deverá observar duas condições, quais sejam: a possibilidade de quem deve fornecer os alimentos e a necessidade de quem receberá os mesmos. Essa matéria está prevista no artigo 1.694 do Código Civil Brasileiro e no Capítulo III do Estatuto de Idoso. Não obstante a dificuldade de implementação de algumas das disposições constantes na legislação constitucional e infra- constitucional acerca da proteção aos idosos, deve-se referir que os avanços já são significativos, ainda que estejamos muito longe do ideal, pois muitas dessas normas ainda não são eficazes, restando a toda a sociedade e aos profissionais com atuam com a seguridade social contribuir para que esses direitos sejam efetivamente assegurados e efetivados. 5.5 Pessoas Portadoras de Deficiência – PPDs Meados dos anos 80 do século XX marcaram uma A ss is tê n ci a So ci al 106 significativa reorientação legislativa e, consequentemente, de políticas públicas no que tange ao pleno exercício dos direitos da cidadania das pessoas portadoras de deficiência, denominação essa constante nos textos legais. O esforço tem sido direcionado no sentido da integração e inclusão desses indivíduos. A Organização das Nações Unidas declarou o ano de 1981 como o Ano Internacional da Pessoa Portadora de Deficiência, divulgando a importância da participação e igualdade plena dos PPDs, estabelecendo metas para que os diferentes países elaborassem e implementassem medidas adequadas a este propósito, fixando o ano de 1993 como o início de uma década de Equiparação de Oportunidades. Em vários aspectos estimulou-se a inclusão, merecendo destaque algumas medidas de cunho educativo que resultaram num avanço significativo no sentido de propiciar melhores oportunidades de formação capacitação desse grupo social. Na década de 80 surge um outro conceito sobre Educação Especial, fundado na ideia de Inclusão, tomando como ponto de partida não o(a) aluno(a), mas a escola. No período anterior, o(a) aluno(a) deveria se adaptar à escola, agora, a escola deve se adaptar ao aluno(a). Este conceito vigora até hoje nas orientações emanadas pelo Poder Público que se refere à matéria. No cenário europeu, a Itália e a Espanha destacaram-se quanto às políticas contra a exclusão do(a) portador(a) de necessidades especiais. O Tratado Mundial de Educação para Todos, resultante de um encontro ocorrido em 1990 na Tailândia, mostrou as questões educativas com um caráter prioritário. Neste documento, 155 países se comprometem a garantir uma educação básica de qualidade para todas as crianças, jovens e adultos. Torres13 aponta algumas estratégias presentes na Convenção Educação Para Todos: 1. satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem de todos, reconhecendo que cada um tem necessidades 13 TORRES, Rosa Maria. Educação Para Todos: a tarefa por fazer. Porto Alegre: Artemed, 2001, p. 26-7 107 A ss is tê n ci a So ci al diferentes e, por isso, exige conteúdos, métodos e modalidades próprias; 2. priorizar meninas e mulheres, abolindo obstáculos que as impeçam de ter acesso à educação, exterminando qualquer tipo de discriminação sexista no espaço escolar; 3. dar especial atenção aos grupos desamparados e às pessoas com algum tipo de deficiência, facilitando a sua aprendizagem e corrigindo as desigualdades educativas impostas a elas; (grifo nosso) 4. concentrar mais a atenção na aprendizagem do que nos aspectos formais, garantindo que as pessoas realmente aprendam além de criar mecanismos que garantam o acesso e a permanência de todos na escola; 5. priorizar o ambiente de aprendizagem, enfatizando as condições como matérias mínimas. Pela leitura dos principais apontamentos da Convenção Educação Para Todos, verifica-seuma acentuada orientação no sentido efetivo de contemplar a todos. A mesma autora enfatiza ainda que “... o diferente passa a ser a norma e não a exceção nos sistemas destinados a satisfazer tais necessidades”14. No ano de 1994, como resultado imediato da Conferência da Tailândia, foi organizado, pelo governo espanhol em parceria com a UNESCO, um encontro que resultou na Declaração de Salamanca, com a finalidade de definir políticas, princípios e práticas para discutir a educação destinada aos portadores de necessidades especiais. É importante referir que, nesta declaração, foram consideradas crianças e jovens cujas necessidades decorrem de suas capacidades e dificuldades de aprendizagem, em algum momento de sua escolarização. Para garantir a inclusão destes (as) alunos (as) na rede regular de ensino, faz-se referência ao Princípio da Escola Para Todos, no que tange ao reconhecimento das diferenças e promoção da aprendizagem. Todos os países signatários da Convenção de Salamanca aceitaram o desafio, de modo a viabilizar a Educação Para 14 TORRES, 2001 ,p. 81. A ss is tê n ci a So ci al 108 Todos, colocando em prática ações inclusivas. No corpo documental da Declaração encontramos a expressão necessidades educativas especiais além do conceito de “escolas integradas”. No artigo 4º do mesmo documento se evidencia um apelo ao respeito da diferença, além da necessária mudança na perspectiva social em relação às pessoas com deficiência, vítimas reiteradas de discriminação generalizada. O artigo 6º15 estimula a integração, a participação e a luta contra a exclusão, sugerindo a integração nas escolas como um esforço do Poder Público, dos (as) professores (as), dos pais, do pessoal da escola, dos voluntários e dos próprios educandos. No artigo 7º16 é apontado o princípio fundamental das escolas integradas, onde todas as crianças, sempre que possível, devem aprender juntas, independentemente de suas dificuldades de aprendizagem. A escola deverá se adaptar aos diferentes estilos e ritmos de aprendizagem, com qualidade de ensino, organização escolar, rigorosa utilização dos recursos humanos, estrutura física e entrosamento com suas comunidades. O Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, estabeleceu a Política Nacional para Integração da PPD, definindo a pessoa portadora de deficiência em seu artigo 3º e 4º cuja 15 “Art. 6º.”. A tendência em política social durante as duas últimas décadas tem sido a de promover integração e a participação e de combater a exclusão. Inclusão e participação são essenciais à dignidade humana e ao desfrutamento e exercício dos direitos humanos. Dentro do campo da educação, isto se reflete no desenvolvimento de estratégias que procuram promover a genuína equalização de oportunidades. Experiências em vários países demonstram que a integração de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais é melhor alcançada dentro de escolas inclusivas, que servem a todas as crianças dentro da comunidade. É dentro deste contexto que aqueles com necessidades educacionais especiais podem atingir o máximo progresso educacional e integração social. Ao mesmo tempo em que as escolas inclusivas preveem um ambiente favorável á aquisição de igualdade de oportunidades e participação total, o sucesso delas requer um esforço claro, não somente por parte dos professores e dos profissionais na escola, mas também por parte dos colegas, pais, famílias e voluntários. A reforma das instituições sociais não constitui somente uma tarefa técnica, ela depende, acima de tudo, de convicções, compromisso e disposição dos indivíduos que compõem a sociedade.” 16 “Art. 7º Principio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devam aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade à todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades. Na verdade, deveria existir uma continuidade de serviços e apoio proporcional ao contínuo de necessidades especiais encontradas dentro da escola.” 109 A ss is tê n ci a So ci al transcrição segue abaixo. Art. 3º Para os efeitos deste Decreto, considera-se: I – deficiência – toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano; II – deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos; e III – incapacidade – uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida. Art. 4º É considerada pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas seguintes categorias: I – deficiência física – alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções; (Alterado pelo DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004 - DOU DE 3/12/2004) II – deficiência auditiva – perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500HZ, 1.000HZ, 2.000Hz e 3.000Hz; (Alterado pelo DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004 – DOU DE 3/12/2004) III – deficiência visual – cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos A ss is tê n ci a So ci al 110 os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores (Alterado pelo DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004 – DOU DE 3/12/2004) IV – deficiência mental – funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: a) comunicação; b) cuidado pessoal; c) habilidades sociais; d) utilização dos recursos da comunidade; (Alterado pelo DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004 - DOU DE 3/ 12/2004) e) saúde e segurança; f) habilidades acadêmicas; g) lazer e h) trabalho; V – deficiência múltipla – associação de duas ou mais deficiências. Acerca da integração ao trabalho do PPD, deve-se referir que a Convenção nº 159 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, ratificada pelo Brasil em 1991, dispõe sobre a reabilitação profissional e o emprego de pessoas portadoras de deficiência, garantindo o acesso e a permanência nos postos de trabalho. A Lei nº 8.213 de 24 de junho de 1991 estabeleceu, no seu artigo 93, reserva de empregos ou cargos, nas empresas privadas e órgãos públicos, aos reabilitados ou portadores de deficiência na forma que segue: Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cincopor cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência habilitadas, na seguinte proporção: I – até 200 empregados...........................................2%; II – de 201 a 500....................................................3%; 111 A ss is tê n ci a So ci al III – de 501 a 1.000................................................4%; IV – de 1.001 em diante...........................................5%. O INSS, através da Ordem de Serviço Conjunta n. 90, definiu as características de cada categoria de deficiência para reabilitado ou portadores de deficiência, de forma a facilitar o controle acerca do cumprimento efetivo da reserva legal de vagas. A título de esclarecimento referimos alguns dos principais dispositivos legais editados pela União, estabelecendo o direito das pessoas portadoras de deficiência. • Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, que estabeleceu o apoio às pessoas portadoras de deficiência, regulamentando pelo Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, que estabeleceu uma Política Nacional para Integração da PPD, criando a Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE, regulamentando a atuação do Ministério Público no resguardo dos direitos dos PPDs, além de tipificar e penalizar os crimes contra a política nacional para a integração da pessoa com deficiência. • Lei nº 8.899, de 29 de junho de 1994, que concede passe livre às pessoas portadoras de deficiência no sistema de transporte coletivo interestadual; • Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que fixou normas gerais para garantir a acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência ou que tenham mobilidade reduzida; • Lei nº 10.216, de 06 de abril de 2001, que regula a proteção das pessoas com deficiência mental reorientando o modelo assistencial em saúde mental; • Lei nº 10.877, de 04 de junho de 2004, que regulamentou a pensão especial para pessoas portadoras de deficiência; • Decreto nº 5.296, de 02 de dezembro de 2004, que estabeleceu normas e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência; • Resolução nº 02/05 do Superior Tribunal de Justiça que A ss is tê n ci a So ci al 112 fixou a prioridade dos julgamentos de processos em que sejam parte pessoa portadora de deficiência, desde que a causa, sob judice, tenha vínculo com a própria deficiência. • Lei nº 11.887, de 01 de março d 2005, que estabeleceu que órgãos da administração pública direta ou indireta, autarquias, empresas de economia mista, instituições financeiras e bancárias e as entidades privadas que atendam o público devem adaptar-se de tal forma a garantir o uso de espaços e equipamentos por pessoas portadoras de deficiência. • Lei nº 11.126, de 27 de junho de 2005, que dispôs sobre o ingresso e permanência de cães guias em ambientes de uso coletivo acompanhando pessoa com deficiência visual, entre outras. Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os (as) acadêmicos (as) organizem individualmente uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo, com a fundamentação legal dos mesmos. Qualquer dúvida retome a leitura do capítulo e busque aprofundamento nas obras indicadas na referência. Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos dos cursos de Serviço Social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas neste capítulo. Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, das legislações referidas no capítulo. Lembre-se de que o conhecimento da legislação é indispensável nessa disciplina! Bons estudos! 113 A ss is tê n ci a So ci al Referências Código Civil Brasileiro Código Penal Brasileiro Constituição Federal de 1988 Convenção nº 159 da Organização Internacional do Trabalho – OIT Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999 Lei Federal nº 7.853, de 24 de outubro de 1989 Lei Federal nº 8.213, de 24 de junho de 1991 Lei Federal nº 8.899, de 29 de junho de 1994 Lei Federal nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000 Lei Federal nº 10.216, de 06 de abril de 2001 Lei Federal nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 Lei Federal nº 10.877, de 04 de junho de 2004 Decreto nº 5.296 de 02 de dezembro de 2004 Resolução nº 02/05 do Superior Tribunal de Justiça Lei Federal nº 11.887, de 1º de março de 2005 Lei Federal nº 11.126, de 27 de junho de 2005 SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. Tratado Mundial de Educação para Todos de 1990 Tratado de Salamanca de 1994 TORRES, Rosa Maria. Educação para Todos: a tarefa por fazer. Porto Alegre: Artemed, 2001. Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) A seguridade social compreende: a) A previdência social. A ss is tê n ci a So ci al 114 b) A saúde. c) A assistência social. d) Todas as alternativas acima. 2) O propósito da assistência social é: a) Garantir às populações vulneráveis condições mínimas de bem-estar, o que se materializa como um compromisso de Estado. b) Garantir às populações com um padrão de vida alto a melhora de suas condições de vida. c) Garantir às populações com um padrão de vida razoável a melhora de suas condições de vida. d) Nenhuma das alternativas acima. 3) A instância básica para a formação da indenidade individual, grupal ou social é: a) O partido político. b) A igreja. c) A família. d) o sindicato. 4) A chefia familiar é prerrogativa: a) Apenas do pai. b) Apenas da mãe. c) Do pai e da mãe sem distinção. d) Daquele que tiver melhores condições financeiras. 5) São ações que podem implicar na perda do poder familiar: a) Deixar de prestar alimentos aos filhos. b) A omissão de educação por parte dos pais. c) Castigos físicos de forma imoderada. d) Todas as alternativas acima. Gabarito: 1) D; 2) A; 3) C; 4) C; 5) D. Este capítulo tem o propósito de disponibilizar a(o) acadêmica(o) conhecimentos indispensáveis sobre a Lei Orgânica de Assistência Social, também conhecida como LOAS. A grande inovação desse texto legal resulta do fato de o mesmo ter atribuído à assistência social um caráter de política pública, afastando-se das antigas percepções intimamente vinculadas à benemerência e ao assistencialismo. Ao final do estudo, o aluno conhecerá os princípios que regem a assistência social, assim como será capaz de compreender a distinção entre benefícios, serviços, programas e projetos que são as modalidades de prestação asseguradas em nossa legislação. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 6.1 Antecedentes Conforme já dito anteriormente, a Constituição Federal em seu artigo 194 estabeleceu que o Poder Público deveria organizar a seguridade social, sendo necessário a edição de legislações específicas para dar conta dessa incumbência constitucional. Em 24 de julho de 1991, com a promulgação da Lei nº 8.212, denominada Lei Orgânica da Seguridade Social, doravante denominada LOSS, a União regulamentou a seguridade social, Cap. VI Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 116 ficando estados e municípios responsáveis pela edição de legislações próprias, observados os parâmetros constitucionais. A LOSS, além de instituir o Conselho Nacional de Seguridade Social – CNSS17, assim como os Conselhos setoriais, determinou em seu artigo 9º que a saúde, a previdência social e a assistência social deveriamser objeto de normalização específica, determinando-se a criação de leis para regulamentarem essa matéria. O Conselho Nacional de Seguridade Social é composto por representantes do governo, da sociedade civil por indicação das organizações sindicais e confederações patronais, dos conselhos setoriais (saúde, previdência e assistência social), todos nomeados pelo Presidente da República, conforme denota-se da leitura do artigo 6º da legislação supra citada. Art. 6º. Fica instituído o Conselho Nacional da Seguridade Social, órgão superior de deliberação colegiada, com a participação da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de representantes da sociedade civil. § 1º O Conselho Nacional da Seguridade Social terá dezessete membros e respectivos suplentes, sendo: a) 4 (quatro) representantes do Governo Federal, dentre os quais, 1(um) da área de saúde, 1(um) da área de previdência social e 1(um) da área de assistência social; b) 1 (um) representante dos governos estaduais e 1 (um) das prefeituras municipais; c) oito representantes da sociedade civil, sendo quatro trabalhadores, dos quais pelo menos dois aposentados, e quatro empresários; (Redação dada pela Lei n. 8.619, de 5.1.93) d) 3 (três) representantes membros dos conselhos setoriais, sendo um de cada área da seguridade social, conforme disposto no Regimento do Conselho Nacional da Seguridade Social § 2º Os membros do Conselho Nacional da Seguridade Social serão nomeados pelo Presidente da República. 17 O CNSS em razão da Lei 8.490 de 19/11/1992 está subordinado ao Ministério da Previdência Social. 117 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S O CNSS é considerado o órgão de deliberação mais importante sobre seguridade, podendo estabelecer as diretrizes básicas e as políticas que permitiram a integração entre as três áreas de seguridade18. Acerca do CNSS é importante referir que o mesmo tem a atribuição de elaborar e submeter os programas e a proposta orçamentária anual da seguridade, além de acompanhar e fiscalizar a gestão econômica, financeira e social dos recursos destinados à seguridade, sendo que os recursos financeiros destinados para esse segmento resultam de dotações estatais e de contribuições sociais de contribuintes (empregados e empregadores, autônomos, rurais, etc.). No capítulo anterior foram vistas a temática da saúde e da previdência social, que juntamente com a assistência social compõem a seguridade de tal sorte que passaremos agora a estudar a Lei Orgânica da Assistência Social, também conhecida como LOAS. 6.2 LOAS A Lei Orgânica da Assistência Social, também conhecida como LOAS19, foi uma legislação aprovada sob a influência decisiva do Conselho Federal de Serviço Social - CFESS e de gestores públicos da área de assistência social. A regulamentação da assistência social prevista em nossa Constituição está materializada na Lei nº 8.742, datada de 07 de dezembro de 1993, reiterando a revisão constitucional que 18 Art. 7º da LOSS. Compete ao Conselho Nacional da Seguridade Social: I — estabelecer as diretrizes gerais e as políticas de integração entre as áreas, observado o disposto no inciso VII do art. 194 da Constituição Federal; II — acompanhar e avaliar a gestão econômica, financeira e social dos recursos e o desempenho dos programas realizados, exigindo prestação de contas; III — apreciar e aprovar os termos dos convênios firmados entre a seguridade social e a rede bancária para a prestação dos serviços; IV — aprovar e submeter ao Presidente da República os programas anuais e plurianuais da Seguridade Social; V — aprovar e submeter ao Órgão Central do Sistema de Planejamento Federal e de Orçamentos a proposta orçamentária anual da Seguridade Social; VI — estudar, debater e aprovar proposta de recomposição periódica dos valores dos benefícios e dos salários-de-contribuição, a fim de garantir, de forma permanente, a preservação de seus valores reais; VII — zelar pelo fiel cumprimento do disposto nesta Lei e na legislação que rege a Seguridade Social, assim como pelo cumprimento de suas deliberações. 19 A Lei Orgânica de Assistência Social é composta de 5 capítulos que totalizam 42 artigos. Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 118 concebeu a assistência social como dever do Estado e direito subjetivo dos indivíduos ou grupos de indivíduos. Essa percepção teve o papel de romper com uma concepção de assistência social identificada com benemerência e com tutela dos seus destinatários, o que se evidencia como um avanço, visto que já no seu artigo primeiro encontramos esse preceito. Art. 1º. A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. Como podemos deduzir da leitura desse artigo, o legislador criou um direito subjetivo para os indivíduos, mas em contrapartida declarou o dever/obrigação de o Estado, nas suas três dimensões, assegurar o pleno cumprimento e observância do que está estabelecido. Como direito subjetivo, entenda-se: A faculdade assegurada às pessoas, individualmente ou em grupo (direitos individuais homogêneos, difusos e coletivos), exigível judicialmente, porque assegurado pela ordem jurídica. Tem fundamento no interesse individual ou de grupos sociais, reconhecido pela ordem legal como legítimo. (SIMÕES, 2007, p. 257). As interpretações mais recorrentes percebem a LOAS como um direito de cidadania, que sistematizou e institucionalizou de forma efetiva e permanente os serviços assistenciais destinados a indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social. A compreensão da vulnerabilidade e do risco social está diretamente associada aos conceitos de carência, pobreza e exclusão social constantes no texto legal. O conceito de carência, constante no artigo 2º da LOAS, implica na impossibilidade de os indivíduos proverem a si e ou à sua família de condições materiais mínimas que garantam a sua sobrevivência, consubstanciando-se a ausência de mínimos 119 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S sociais (art. 202,V da CF/88). A condição de carência põe o indivíduo abaixo da linha da pobreza20. A pobreza indica o estado daqueles indivíduos com acesso precário ou ausência de acesso aos mínimos sociais, devendo o analista social ficar atento à historicidade dessa definição. O conceito de exclusão social é bastante amplo, implicando na percepção do rompimento de relações familiares, sociais ou comunitárias, total ou parcialmente, podendo contemplar diferentes situações socioeconômicas, não necessariamente relacionadas à ausência de renda, ainda que no Brasil essas sejam situações correlatas, daí a carência e a pobreza muitas vezes serem causas de exclusão social. Como bem aponta Simões: “No contexto socioeconômico brasileiro, no entanto, a forma básica de exclusão social dá-se, regra geral, em decorrência da privação econômica. Ela tem efeitos cumulativos e encadeados, a começar pela desagregação familiar” (2007, p. 310). A LOAS estabelece uma série de estratégias com a finalidade de reduzir os níveis de pobreza, merecendo destaque: criação de programas de geração de emprego e renda, proteção à criança, ao adolescente, aos idosos, à maternidade, acesso a cursos profissionalizantes, entre outras. Acerca da LOAS é preciso mencionar que a mesma em consonância com as novas perspectivas da gestão pública pressupõe a articulação de políticas coordenadas entre os diferentes entes federativos (União, Estados e Municípios), estabelecendo de forma bastantesignificativa a corresponsabilidade entre esses entes, como forma de efetivamente assegurar e fomentar o desenvolvimento local que contribuirá para a superação da carência, pobreza e exclusão social. Ainda no que tange à implementação das políticas sociais deve-se mencionar que a LOAS inova à medida que concebe a assistência social como ações governamentais de longo alcance, o que implicará em grande parte das vezes em ações continuadas em sucessivos governos, não obstante existir 20 O Programa Bolsa-Família classifica a pobreza como resultante de renda familiar entre 25% a 50% do salário-mínimo e a extrema pobreza abaixo de 25% do salário mínimo, sendo importante referir no entanto que, além da renda pode ser observado outros indicativos, contatados atreves de laudo social. Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 120 políticas e ações emergenciais no curto prazo. O novo paradigma da assistência social afasta-se do mero assistencialismo, pressupondo a crescente autossuficiência futura de indivíduos e grupos que hoje necessitam da auxílio por não disporem dos mínimos sociais de tal sorte que “essa política é, por isso, condição de sustentabilidade social do crescimento econômico, se integrada a outras que, no mínimo prazo possível, retirem a mesma população da situação de vulnerabilidade e, emulativamente, lhe propiciem as condições de autossuficiência”. (SIMÕES, 2007, p. 256). De outra sorte devemos referir que a assistência social é uma política transversal a outras, exatamente em razão de seu caráter e sua função, daí a necessidade de integração plena. A Lei Orgânica da Assistência Social, no seu artigo 7º, instituiu o Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, cujas principais atribuições encontramos no seu artigo 1821, 21 Art. 18. Compete ao Conselho Nacional de Assistência Social: I — aprovar a Política Nacional de Assistência Social; II — normatizar as ações e regular a prestação de serviços de natureza pública e privada no campo da assistência social; III — fixar normas para a concessão de registro e certificado de fins filantrópicos às entidades privadas prestadoras de serviços e assessoramento de assistência social; IV — conceder atestado de registro e certificado de entidades de fins filantrópicos, na forma do regulamento a ser fixado, observado o disposto no art. 9º desta lei; V — zelar pela efetivação do sistema descentralizado e participativo de assistência social; VI — a partir da realização da II Conferência Nacional de Assistência Social em 1997, convocar ordinariamente a cada quatro anos a Conferência Nacional de Assistência Social, que terá a atribuição de avaliar a situação da assistência social e propor diretrizes para o aperfeiçoamento do sistema; VII — (Vetado). VIII — apreciar e aprovar a proposta orçamentária da Assistência Social a ser encaminhada pelo órgão da Administração Pública Federal responsável pela coordenação da Política Nacional de Assistência Social; IX — aprovar critérios de transferência de recursos para os Estados, Municípios e Distrito Federal, considerando, para tanto, indicadores que informem sua regionalização mais equitativa, tais como: população, renda per capita, mortalidade infantil e concentração de renda, além de disciplinar os procedimentos de repasse de recursos para as entidades e organizações de assistência social, sem prejuízo das disposições da Lei de Diretrizes Orçamentárias; X — acompanhar e avaliar a gestão dos recursos, bem como os ganhos sociais e o desempenho dos programas e projetos aprovados; XI — estabelecer diretrizes, apreciar e aprovar os programas anuais e plurianuais do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS); XII — indicar o representante do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) junto ao Conselho Nacional da Seguridade Social; XIII — elaborar e aprovar seu regimento interno; XIV — divulgar, no Diário Oficial da União, todas as suas decisões, bem como as contas do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS) e os respectivos pareceres emitidos. Parágrafo único. Das decisões finais do Conselho Nacional de Assistência Social, 121 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S além de determinar a criação dos conselhos estaduais e municipais de composição paritária, pressupondo a participação direta da comunidade nas decisões do Poder Executivo, referendando ainda o princípio da descentralização materializado na municipalização das ações governamentais na esfera social, conforme previsão expressa nos artigos 10 a 15 da LOAS, cuja transcrição abaixo passamos a expor: Art. 10. A União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal podem celebrar convênios com entidades e organizações de assistência social, em conformidade com os Planos aprovados pelos respectivos Conselhos. Art. 11. As ações das três esferas de governo na área de assistência social realizam-se de forma articulada, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e execução dos programas, em suas respectivas esferas, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. Art. 12. Compete à União: I — responder pela concessão e manutenção dos benefícios de prestação continuada definidos no art. 203 da Constituição Federal; II — apoiar técnica e financeiramente os serviços, os programas e os projetos de enfrentamento da pobreza em âmbito nacional; III — atender, em conjunto com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, às ações assistenciais de caráter de emergência. Art. 13. Compete aos Estados: I — destinar recursos financeiros aos Municípios, a título de participação no custeio do pagamento dos auxílios natalidade e funeral, mediante critérios estabelecidos pelos Conselhos Estaduais de Assistência Social; II — apoiar técnica e financeiramente os serviços, os programas e os projetos de enfrentamento da pobreza em vinculado ao Ministério da Assistência e Promoção Social, relativas à concessão ou renovação do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social, caberá recurso ao Ministro de Estado da Previdência Social, no prazo de trinta dias, contados da data da publicação do ato no Diário Oficial da União, por parte da entidade interessada, do Instituto Nacional do Seguro Social — INSS ou da Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda. Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 122 âmbito regional ou local; III — atender, em conjunto com os Municípios, às ações assistenciais de caráter de emergência; IV — estimular e apoiar técnica e financeiramente as associações e consórcios municipais na prestação de serviços de assistência social; V — prestar os serviços assistenciais cujos custos ou ausência de demanda municipal justifiquem uma rede regional de serviços, desconcentrada, no âmbito do respectivo Estado. Art. 14. Compete ao Distrito Federal: I — destinar recursos financeiros para o custeio do pagamento dos auxíl ios natalidade e funeral, mediante critérios estabelecidos pelo Conselho de Assistência Social do Distrito Federal; II — efetuar o pagamento dos auxílios natalidade e funeral; III — executar os projetos de enfrentamento da pobreza, incluindo a parceria com organizações da sociedade civil; IV — atender às ações assistenciais de caráter de emergência; V — prestar os serviços assistenciais de que trata o art. 23 desta lei. Art. 15. Compete aos Municípios: I — destinar recursos financeiros para custeio do pagamento dos auxíl ios natalidade e funeral, mediante critérios estabelecidos pelos Conselhos Municipais de Assistência Social; II — efetuar o pagamento dos auxílios natalidade e funeral; III — executar os projetos de enfrentamento da pobreza, incluindo a parceria com organizações da sociedade civil; IV — atender àsações assistenciais de caráter de emergência; V — prestar os serviços assistenciais de que trata o art. 23 desta lei. Art. 16. As instâncias deliberativas do sistema descentralizado e participativo de assistência social, de caráter permanente e composição paritária entre governo e sociedade civil, são: I — o Conselho Nacional de Assistência Social; II — os Conselhos Estaduais de Assistência Social; III — o Conselho de Assistência Social do Distrito Federal; IV — os Conselhos Municipais de Assistência Social. 123 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S Merece referência ainda, acerca do caráter inovador da LOAS, o fato de o texto legal identificar aqueles que utilizam desse serviço como usuários ou beneficiários, não reproduzindo a denominação assistido ou favorecido, que traz uma conotação assistencialista, priorizando o legislador pela utilização de conceitos intimamente relacionados ao exercício e gozo de prerrogativas da cidadania. Os conceitos de assistência social constantes na LOAS e na LOSS, em que pese serem diferentes, são complementares, como podemos inferir da leitura dos textos legais. LOSS TÍTULO IV - DA ASSISTÊNCIA SOCIAL Art. 4º. A Assistência Social é a política social que provê o atendimento das necessidades básicas, traduzidas em proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência, à velhice e à pessoa portadora de deficiência, independentemente de contribuição à Seguridade Social. Parágrafo único. A organização da Assistência Social obedecerá às seguintes diretrizes: a) descentralização político-administrativa; b) participação da população na formulação e controle das ações em todos os níveis. LOAS Art. 1º. A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. A leitura dos dois artigos permite que possamos afirmar que: “Na LOAS, a assistência social é qualificada subjetivamente, do ponto de vista do cidadão; na LOSS, objetivamente, como política de Estado, a serviço da população”(SIMÕES, 2007, p. 260). Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 124 Ainda é preciso referir que tanto na LOSS quanto na LOAS o direito à assistência independe de contribuição, constituindo- se aquela como um direito dos cidadãos. A formulação e implementação da Política Nacional de Assistência Social - PNAS, principal atribuição do CNAS, deve primar pela unidade de ações e procedimentos, afastando-se de intervenções parciais e fragmentadas que mercaram a assistência social até sua transformação em política de Estado. As ações da assistência social contemplam ações de prevenção, proteção, promoção e inserção de indivíduos ou grupos desassistidos em caráter momentâneo ou permanente. A definição de prevenção, proteção, promoção e inserção podem ser encontradas na Norma Operacional Básica - NOB/99 do CNAS. Os artigos 20 a 26 da LOAS estabelecem que as prestações poderão ser do tipo: benefícios, serviços, programas e projetos. Como já dito anteriormente benefícios são pagamentos em dinheiro ou em espécie (pensões, aposentadorias, cestas básicas, etc.). Esses benefícios podem ser permanentes, denominados Benefício de Prestação Continuada – BPC, que garantem [...] um salário-mínimo mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso com 70 (setenta) anos ou mais e que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção e nem de tê-la provida por sua família22. É importante ainda referir que a impossibilidade de prover pressupõe a família com renda mensal per capita inferior a 1/4 (um quarto) do salário-mínimo23. Ainda existe a possibilidade da concessão de Benefícios Eventuais – BE, que visam o pagamento de auxílio por nascimento ou morte às famílias cuja renda mensal per capita é inferior a 1/4 (um quarto) do salário-mínimo24. Os serviços são ações que disponibilizam recursos humanos e equipamentos. O artigo 23 da LOAS estabelece que: “Entendem-se por serviços assistenciais as atividades continuadas que visem à melhoria de vida da população e cujas 22 Art. 20 da LOAS. 23 Art. 20, § 3º da LOAS. 24 Art. 22 da LOAS. 125 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S ações, voltadas para as necessidades básicas, observem os objetivos, princípios e diretrizes estabelecidas nesta lei”. Os programas estão previsto no artigo 24 da LOAS e podem ser definidos como: “Planejamento de um complexo de ações sociais, ordenadas por um mesmo objetivo e integradas, organicamente, por princípios e diretrizes, assegurando-lhes abrangência, continuidade e desdobramento. Por meio deles o plano de assistência social assegura a possibilidade de articular a diversidade de ações, para que se complementem.” (SIMÕES, 2007, p. 272). A definição dos programas deverá ficar a encargo dos Conselhos de Assistência Social, priorizando a inserção profissional e social da população atendida. Da mesma forma estabeleceu o legislador que programas voltados ao idoso e à pessoa portadora de deficiência podem ser articulados com o BPC descrito anteriormente. O conceito de projeto implica em: Realizações operacionais de ações de programas, especificando seus produtos, metodologias, metas, prazos, constituindo-se em suas unidades operativas de benefícios e serviços ou um deles. Podem constitui-se, também, em ações específicas, vinculadas à satisfação de uma necessidade localizada e temporária, de caráter incidental, porém integrados aos princípios e diretrizes programáticos da política assistencial. (Ibidem) Os artigos 25 e 26 da LOAS referem a Projetos de Enfrentamento da Pobreza, da forma que abaixo segue transcrita: Art. 25. Os projetos de enfrentamento da pobreza compreendem a instituição de investimento econômico-social nos grupos populares, buscando subsidiar, financeira e tecnicamente, iniciativas que lhes garantam meios, capacidade produtiva e de gestão para melhoria das condições gerais de subsistência, elevação do padrão da qualidade de vida, a preservação do meio-ambiente e sua organização social. Art. 26. O incentivo a projetos de enfrentamento da pobreza Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 126 assentar-se-á em mecanismos de articulação e de participação de diferentes áreas governamentais e em sistema de cooperação entre organismos governamentais, não governamentais e da sociedade civil. Ainda acerca da LOAS é preciso referir que a mesma dedica especial atenção ao Sistema Único de Assistência Social - SUAS e ao Fundo Nacional de Assistência Social- FNAS, que em razão de sua importância serão tratados no próximo capítulo. Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os (as) acadêmicos (as) organizem individualmente uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo. Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos dos cursos de Serviço Social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas no capítulo. Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, das legislações referidas nesse capítulo. Lembre- se de que o conhecimento da legislação é indispensável nessa disciplina! Bons estudos! Referências Constituição Federal de 1988 Lei Federal nº 8.212, de 24 de julho de 1991 – LOSS Lei Federal nº 8.490, de 19 de novembro de 1992127 Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S Lei Federal nº 8.742, de 07 de dezembro de 1993 – LOAS Norma Operacional Básica - NOB/99 do CNAS Norma Operacional Básica, de 14 de julho de 2005 - CNAS. Resolução nº 145/04 - PNAS SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) O Conselho Nacional de Seguridade Social tem seus membros nomeados: a) Pelos Governadores de Estado. b) Pelo Ministério da saúde. c) Pelo Presidente da República. d) Pelas organizações sindicais. 2) O Conselho Nacional de Seguridade Social pode ser identificado como o órgão mais importante para deliberar sobre: a) Saúde. b) Previdência. c) Assistência Social. d) Todas as alternativas acima. 3) A LOAS regulamentou a matéria referente a que área da Seguridade Social? a) Saúde. b) Previdência. Le i O rg ân ic a d e A ss is tê n ci a So ci al – L O A S 128 c) Assistência Social. d) Todas as alternativas. 4) A partir da Constituição Federal de 1988 e da LOAS a assistência social passou a ser considerada: a) Política Pública de seguridade. b) Benemerência de algumas instituições confissionais. c) Assistencialismo de organizações bem-intencionadas. d) Nenhuma das alternativas. 5) A LOAS sistematizou e institucionalizou de forma efetiva e permanente os serviços de: a) Saúde Pública. b) Assistência Social. c) Previdência Privada e Suplementar. d) Todas as alternativas. Gabarito: 1) D; 2) D; 3) C; 4) A; 5) B. Este capítulo tem o propósito de disponibilizar a (o) acadêmica (o) conhecimentos indispensáveis para o entendimento da constituição de um Sistema Único de Assistência Social, também conhecido como SUAS. Tomando como referência esse modelo de organização pretende-se a unificação da assistência social considerando as competências e atribuições de cada um dos entes federativos, o que, inegavelmente, tornará as ações de assistência social mais efetivas. Neste capítulo destacamos ainda a criação do Fundo Nacional de Assistência Social – FNAS, como um mecanismo facilitador da unificação do sistema. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 7.1 Sistema Único de Assistência Social – SUAS Uma medida importante adotada pelo legislador e materializada na LOAS diz respeito ao Sistema Único de Assistência Social - SUAS, que pode ser compreendido como um novo modelo de gestão, cujo propósito é consolidar Cap. VII Sistema Único de Assistência Social – SUAS Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 130 efetivamente a Política Nacional de Assistência Social- PNAS, primando pela descentralização da gestão, em especial quando do monitoramento e financiamento da assistência social. Simões, ao definir o SUAS afirma: O SUAS é um sistema descentralizado, participativo e não contributivo, que organiza e regula as responsabilidades de cada esfera de governo e da sociedade civil, em relação à política nacional de assistência social. A descentralização assenta na valorização da participação social e do poder local, como mecanismos democratizadores da vida política nacional. (2007, p.282) A SUAS estabelece uma nova relação entre os entes federativos e a sociedade civil, em consonância com as determinações constantes no artigo 204 da Constituição Federal, de tal sorte a instituir a gestão compartilhada, o co- financiamento e a cooperação técnica entre todos os envolvidos. A efetiva implantação do SUAS ocorreu com a aprovação da Norma Operacional Básica, de 14 de julho de 2005, pelo Conselho Nacional de Assistência Social. A NOB antes citada classifica os municípios tomando como referência três pressupostos (inicial, básico e pleno) acerca da capacidade de executar e co-financiar serviços assistenciais, além da gestão de fundos assistenciais, estabelecendo a obrigação das municipalidades criarem os Conselhos Municipais de Assistência Social, de um fundo e de uma política municipal de assistência social, quando então poderiam passar para o nível básico ou pleno, que implica nos municípios possuírem uma rede social de proteção básica disponibilizando os denominados Centros de Referência de Assistência Social - CRAS, que “é um equipamento estatal de base territorial, localizado em áreas de vulnerabilidade social, abrangendo a um total de até mil famílias, com a finalidade de organizar, coordenar e executar os serviços de proteção social básica da política assistencial”. A Resolução nº 145/04 do PNAS refere que os CRAS são responsáveis pela oferta de serviços e pelo desenvolvimento 131 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S de programas de atenção integral, devendo ainda realizar a identificação e mapeamento e organização da rede de proteção social local, desenvolvendo principalmente ações que permitam o fortalecimento dos vínculos intrafamiliares, da convivência comunitária, do sentimento de pertença as redes; informando, orientando e acompanhando os usuários. Outra significativa mudança proposta pelo SUAS, quando comparado aos mecanismos anteriores, diz respeito à descentralização da política de repasse de verbas, que passou a ser feita via internet pelos municípios no que diz respeito à concessão de recursos e à prestação de contas, o que permite repasses mensais automáticos e contínuos dos valores disponibilizados para a assistência social. Ademais, o repasse desses recursos atenta para a vulnerabilidade social do município e da região, que levará em consideração uma série de variáveis, estabelecendo daí o critério de concessão maior ou menor desses recursos. Ainda é preciso referir que a base do SUAS é o município local por excelência da execução dos serviços assistenciais que recairão prioritariamente sobre a família, que terá atendimento prioritário, resultando daí a sua matricialidade (SIMÕES, 2007, p. 281). A formação de um Sistema Único de Assistência Social possibilita que as ações sociais possam ser executadas por parcerias entre o Poder Público e entidades não-governamentais de assistência social, desde que observado alguns pressupostos: • a União tem a atribuição de conceder dos Benefícios de Prestação Continuada, além de disponibilizar apoio técnico e financeiro para programas de enfretamento da pobreza e atender em parceria com Estados, Municípios e o Distrito Federal, as denominadas ações assistenciais de emergência; • os Estados devem disponibilizar recursos financeiros para os municípios para pagamento de benefícios, com base em critérios fixados pelos Conselhos Estaduais de Assistência Social, além de prestar apoio técnico e financeiro aos serviços e programas de enfrentamento da pobreza no cenário local e regional, além de auxiliar os municípios Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 132 quando das ações assistenciais de emergência; • os municípios devem disponibilizar recursos financeiros para o custeio do pagamento de benefícios e serviços, com base em critérios fixados pelos Conselhos Municipal de Assistência Social, além de executar programas de enfrentamento da pobreza, incluindo parcerias com entidades e organizações não-governamentais, além de prestar assistência nas ações de emergência, além da prestação efetiva de serviços assistenciais. O repasse dos valores destinados à assistência social implica, necessariamente, nos Estados e Municípios criarem, em conformidade com o artigo 30 da LOAS, os CONSEAS – Conselhos Estaduais de AssistênciaSocial e COMAS – Conselhos Municipais de Assistência Social; FEAS - Fundo Estadual de Assistência Social e FMAS- Fundo Municipal de Assistência Social; PEAS – Plano Estadual de Assistência Social e PMAS- Plano Municipal de Assistência Social. Art. 30. É condição para os repasses, aos Municípios, aos Estados e ao Distrito Federal, dos recursos de que trata esta lei, a efetiva instituição e funcionamento de: I — Conselho de Assistência Social, de composição paritária entre governo e sociedade civil; II — Fundo de Assistência Social, com orientação e controle dos respectivos Conselhos de Assistência Social; III — Plano de Assistência Social. Parágrafo único. É, ainda, condição para transferência de recursos do FNAS aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a comprovação orçamentária dos recursos próprios destinados à Assistência Social, alocados em seus respectivos Fundos de Assistência Social, a partir do exercício de 1999. Outra inovação importante do SUAS diz respeito ao mesmo ser marcadamente intersetorial, ou seja, articulatório, entre diferentes setores, visto que somente ações efetivamente integradas podem viabilizar resolver os problemas que vitimam populações em estado de risco ou vulnerabilidade. 133 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S Como bem assevera Simões: Ao invés de metas setoriais, traçadas a partir de necessidades genéricas, o sistema objetiva a identificação dos problemas concretos, as potencialidades e as soluções, com base em recortes territoriais que identifiquem conjuntos populacionais em situações similares e a intervenção por meio de políticas públicas. (2007, p. 285) Podemos identificar algumas características indispensáveis para a efetiva implementação do SUAS, merecendo destaque: gestão compartilhada, co-financiamento e cooperação técnica entre União, Estados, Municípios e Distrito Federal; divisão de responsabilidades para instalar, regular, manter e expandir medidas de assistência social sob o prisma de que as mesmas são dever do Estado e direito do cidadão; regramento claro e inequívoco acerca dos vínculos responsabilidades de todos os envolvidos de forma a garantir efetivamente a constituição de uma política nacional e em rede; percepção e reconhecimento das diferenças e desigualdades entre as diferentes regiões do Brasil. Simões (2007, p. 286), acerca do funcionamento do sistema, aponta as seguintes diretrizes: • precedência da gestão pública; • alcance dos direitos socioambientais; • matricialidade sociofamiliar; • territorialização; • descentralização político-administrativa; • financiamento partilhado entre os entes federativos; • informação, monitoramento, avaliação e sistematização de resultados; • sistema democrático de gestão e controle social; • proteção proativa; • integração à seguridade social; • intersetorialidade. O SUAS disponibiliza dois tipos de proteção social, a básica e a especial, sendo esta última dividida em Média Complexidade e Alta Complexidade. Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 134 A proteção básica é aquela que incide sobre famílias ou indivíduos que estejam em situação de vulnerabilidade social, não tendo ainda ocorrido a violação de seus direitos, daí ser identificada como medidas de cunho preventivo, que auxiliam no processo de inclusão social e constituição e uma autonomia para a família por ela assistida. Os serviços de proteção básica são executados, de forma direta, nos CRAS ou nos programas e projetos de retaguarda, desenvolvidos em sua área de abrangência, conforme a identificação da situação de vulnerabilidade. Incluem pessoas portadoras de deficiência e são organizados em redes, de modo a inseri-las nas diversas ações ofertadas. Objetivam o processamento da inclusão social, nas políticas públicas, no mundo do trabalho e na vida comunitária e societária de grupos e indivíduos em situação de vulnerabilidade e potencial de risco social e pessoal. (SIMÕES, 2007, p. 288) A proteção especial diz respeito a atendimentos assistenciais que requerem acompanhamento individualizado, que na maior parte das vezes requer ação compartilhada com o Ministério Público e Poder Judiciário. A proteção especial será de média complexidade diz respeito a ações que beneficiarão indivíduos que já tiveram seus direitos violados, sem que tenha ocorrido ruptura dos vínculos socioculturais e afetivos-relacionais. A prestação de proteção especial de média complexidade é prestada pelos Centros de Referência Especializada de Assistência Social – CREAS, que prestam atendimento a famílias e indivíduos que tiveram seus direitos violados, merecendo destaque ações de serviço e orientação sociofamiliar, plantão social, abordagem de rua, cuidados no domicílio, habilitação e reabilitação de pessoa portadora de deficiência, e medidas socioeducativas em meio aberto (prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida). A proteção especial de alta complexidade implica na violação de direitos e na ruptura dos vínculos, demandando a retirada do assistido da família, em razão dos mesmos encontrarem-se sem referência ou em situação de ameaça, de 135 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S tal sorte que deverão ser encaminhados para atendimento integral institucional em casas/lar, casas de passagem, albergues, família substituta, família acolhedora, internação provisória, etc. A implantação dos SUAS ocorre de forma gradativa, sendo importante mencionarmos algumas dificuldades identificadas, especialmente na esfera municipal, para as quais o CNAS, juntamente com o CFESS/CRESS, vem buscando soluções. As principais dificuldades identificadas são financiamentos insuficientes, dificuldade de implementar uma gestão local eficiente, reduzida capacitação técnica profissional para atuar no setor, fragilidade dos sistemas informativos, dificuldade de construção de sistemas de avaliação do impacto do PMAS, entre outras. A questão atinente ao financiamento vem sendo enfrentada pelas municipalidades socorrendo-se de parcerias público/ privadas, sendo que as outras dificuldades apontadas estão intimamente ligadas à ausência de recursos humanos efetivamente preparados para planejar e implementar ações de assistência social. As alternativas que se colocam para o enfrentamento dessa questão passam necessariamente por uma política nacional de capacitação de recursos humanos, planos de carreira, cargos e salários compatíveis com as atribuições de assistência social, entre outras medidas similares. 7.2 Fundo Nacional de Assistência Social – FNAS Para a compreensão e entendimento do FNAS é necessário disponibilizar ao acadêmico algumas informações introdutórias sobre o orçamento público. O orçamento também é denominado Lei de Meios, sendo um projeto de lei enviado pelo Poder Executivo para aprovação pelo Congresso Nacional, que autoriza a realização de despesas e de receitas para o ano seguinte. Os técnicos responsáveis pela elaboração do orçamento devem levar em conta a estimativa de arrecadação tomando como parâmetro o ano anterior. Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 136 Cumpre referir, no entanto, que a lei orçamentária tem caráter meramente autorizativo, não obrigando o governo a realizar as despesas aprovadas na sua integralidade, podendo este dispor de 20 % dos recursos aprovados segundo critérios emanados do próprio Executivo, a isso denominamos Desvinculação de Receitas da União/ DRU. Como receita entende-se todas as previsões de valores (receitas tributárias, participações societárias, de prestação de serviços) que poderãoser utilizados para dar conta das despesas, que são os gastos de todos os setores do Estado. A Lei Orçamentária deve atentar para os princípios da anuidade, vigorando apenas por um ano, devendo ser aprovada no ano anterior; princípio da unidade, que estabelece que as receitas e rendas deverão compor um fundo único; princípio do equilíbrio, que estabelece que as despesas não podem exceder as receitas; princípio da universalidade, pelo qual todas as receitas e as despesas devem constar na Lei Orçamentária; e, por fim, o princípio da não-compensação, quando devem ser lançadas somente receitas e despesas, sem compensações ou descontos. A previsão de financiamento da seguridade social consta no artigo 195 da Constituição Federal, cuja transcrição abaixo passamos a analisar: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I — do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício; b) a receita ou o faturamento; c) o lucro; II — do trabalhador e dos demais segurados da previdência social, não incidindo contribuição sobre aposentadoria e pensão concedidas pelo regime geral de previdência social 137 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S de que trata o art. 201; III — sobre a receita de concursos de prognósticos. IV — do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar. Os recursos destinados à assistência social resultam das seguintes fontes: do orçamento da União, Estados, Municípios e Distrito Federal; das contribuições sociais das empresas; dos trabalhadores prestadores de serviços; das loterias; do Fundo Nacional de Assistência Social/FNAS, estabelecido no artigo 27 da LOAS e regulamentado pelo Decreto nº 1.605 de 25 de agosto de 1995; verbas da iniciativa privada e das multas de sentenças judiciais. Na elaboração do orçamento, a seguridade social é parte integrante da Lei Orçamentária, unificando-se orçamentos da saúde, previdência e assistência, sendo único o orçamento da seguridade, ainda que a gestão das verbas de casa setor seja autônoma, em conformidade com o estabelecido no artigo 195, § 2º, que afirma que: Art. 195, § 2º: A proposta de orçamento da seguridade social será elaborada de forma integrada pelos órgãos responsáveis pela saúde, previdência social e assistência social, tendo em vista as metas e prioridades estabelecidas na lei de diretrizes orçamentárias, assegurada a cada área a gestão de seus recursos. Da mesma forma ocorre com as leis orçamentárias dos Estados, Municípios e Distrito Federal, que deverão atentar para as metas, prioridades receitas, sendo importante referir que esses orçamentos não compõem o orçamento da União. A Constituição Federal não estabeleceu para a assistência social recursos mínimos para o financiamento de suas ações, como acontece com a saúde e com a educação. Quando da aprovação do orçamento, o Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS, segundo critérios constantes no artigo 18, inciso IX da LOAS, que estabelece: Art. 18. Compete ao Conselho Nacional de Assistência Social: Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 138 IX — aprovar critérios de transferência de recursos para os Estados, Municípios e Distrito Federal, considerando, para tanto, indicadores que informem sua regionalização mais equitativa, tais como: população, renda per capita, mortalidade infantil e concentração de renda, além de disciplinar os procedimentos de repasse de recursos para as entidades e organizações de assistência social, sem prejuízo das disposições da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Para viabilizar a transferência de recursos, deve o CNAS fixar as diretrizes, apreciar e aprovar os programas anuais e plurianuais do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS), para que posteriormente acompanhe e avalie a gestão dos recursos, os avanços e o êxito dos programas e projetos aprovados. Os recursos que deverão ser repassados aos Estados, Municípios e Distrito Federal devem ser definidos pela Secretaria Nacional de Assistência Social, que tomará como critério indicadores economicos-sociais que permitam uma distribuição equânime dos recursos. Os Conselhos Estaduais e Municipais receberão recursos para aplicar em benefícios, serviços, programas e projetos identificados como prioridade, sendo importante reiterar a corresponsabilidade de União, Estados e Municípios e a necessária intersecção de outras políticas setoriais. Os fundos estaduais e municipais devem ser compostos por recursos próprios previstos nas respectivas Leis Orçamentárias acrescidos de repasses do Fundo Nacional e de recursos resultantes de parcerias locais, o que nem sempre ocorre, visto que muitas vezes os fundos municipais só existem formalmente para receber recursos estaduais e federais, sem que haja efetivamente políticas de assistência social estabelecidas nas municipalidades. Tomamos de Simões a seguinte passagem: Não tem sido uma prática, na elaboração dos orçamentos de assistência social, a apuração rigorosa da relação dos custos com os benefícios e serviços planejados e a avaliação da eficiência das ações, o que dificulta a previsão realista do 139 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S orçamento. Esses custos devem ser apurados parcialmente, per capita de atendimento; mas também globalmente, por programa ou por projeto, não somente para a previsão geral, assim como para propiciar os procedimentos de monitoramento e avaliação. (2007, p. 335-6) Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os (as) acadêmicos (as) organizem uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo. Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo : Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos do curso de Serviço Social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas neste capítulo. Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, das legislações referidas no capítulo. Lembre-se de que o conhecimento da legislação é indispensável nessa disciplina! Bons estudos! Referências Constituição Federal de 1988 Decreto nº 1.605, de 25 de agosto de 1995 Lei nº 8.742, de 07 de dezembro de 1993 – LOAS Norma Operacional Básica, de 14 de julho de 2005 - CNAS. Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 140 Resolução nº 145/04 - PNAS SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) O SUAS pressupõe: a) Um modelo de gestão fragmentado entre os entes federativos. b) Um novo modelo de gestão para consolidar a PNAS. c) Um sistema centralizado. d) Um sistema contributivo. 2) O SUAS pressupõe a participação: a) Somente dos municípios. b) Somente do Poder Público Federal. c) Do Poder Público em todos os níveis, além de organizações da sociedade civil. d) Somente do Poder Público em todos os níveis. 3) No que diz respeito à capacidade de os municípios executarem, co-financiarem e gerirem fundos assistenciais integrados no SUAS, como eles podem ser classificados: a) Inicial. b) Iniciale pleno. c) Inicial, básico e pleno. d) Nenhuma das alternativas. 4) O que são os CRAS: a) Conselhos municipais. b) Conselhos estaduais. c) Centro de Referência de Assistência Social. d) Nenhuma das alternativas. 141 Si st em a Ú n ic o d e A ss is tê n ci a So ci al – S U A S 5) Tomando como referência a legislação que estabeleceu o SUAS, a base de atuação dos serviços assistenciais é: a) O bairro. b) A comunidade. c) A região. d) O município. Gabarito: 1) B; 2) C; 3) C; 4) C; 5) D. Este capítulo tem o propósito de disponibilizar a (o) acadêmica (o) conhecimentos introdutórios acerca das entidades e organizações de assistência social que, juntamente com o Poder Público, formam o Sistema Único de Assistência Social. Em razão das inúmeras denominações e modalidades de entidades e organizações, você encontrará uma síntese das principais, sendo importante ainda ter conhecimento acerca dos requisitos para que as organizações e entidades façam parte do SUAS. Além do material instrucional, os acadêmicos poderão encontrar maiores informações e esclarecimentos na bibliografia indicada ao final do capítulo. 8.1 Definição Em que pese a Lei Orgânica de Assistência Social em seu artigo 5º III atribuir papel central ao Poder Público na condução da Política de Assistência Social, a nossa legislação prevê a possibilidade de parcerias com a sociedade civil no desenvolvimento de ações sociais, sendo atribuição dos assistentes sociais formular e executar políticas sociais nas organizações da sociedade civil. Cap. VIII Entidades e Organizações de Assistência Social En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 144 Art. 1º. A assistência social, direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. (grifo nosso) Conforme foi visto quando do estudo do SUAS as entidades de natureza civil integram junto com o Poder Público o sistema único. Essa deliberação pode ser localizada na LOAS e na Constituição Federal, sendo que ao Estado cabe dar unidade aos esforços sociais e garantir a constituição de uma rede. O artigo 3º da LOAS define as entidades e organizações da sociedade civil da forma que abaixo segue: Art. 3º. Consideram-se entidades e organizações de assistência social aquelas que prestam, sem fins lucrativos, atendimento e assessoramento aos beneficiários abrangidos por esta lei, bem como as que atuam na defesa e garantia de seus direitos. O Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS, regulamentando o artigo 3º da LOAS, estabeleceu parâmetros bastante precisos para delimitar essas entidades e organizações, de modo a garantir que a rede preste a integralidade do atendimento. Para tanto foi editada a Resolução nº 191, de 10/11/2005, que estabelece as características indispensáveis das entidades e organizações da sociedade civil para atuarem no campo da política de assistência social, que passamos a descrever: • são associações ou fundações pessoas jurídicas de direito privado, organizadas segundo disposição prevista no artigo 53 do Código Civil Brasileiro; • as atividades realizadas por essas instituições devem expressar os objetivos, a natureza, a missão e o público em conformidade com a LOAS e a Política Nacional de Assistência Social; • devem realizar o atendimento, assessoramentos e defesa 145 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al de direitos, na área de assistência social de forma permanente, planejada e contínua; • devem garantir o acesso gratuito do usuário a serviços, programas, benefícios e à defesa de direitos, sendo vedado qualquer tipo de cobrança; • as ações dessas instituições devem ser marcadas pela transparência, com apresentação, ao conselho competente, de plano de trabalho, relatórios ou balanços sociais das suas atividades; • devem aplicar suas rendas, recursos e eventual resultado operacional, no território nacional e na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos estatutários; Simões (2007, p. 344) define essas organizações da seguinte forma: [...] são entidades sem fins lucrativos, cujas atividades, permanentes, planejadas e contínuas, além de gratuitas, são de interesse público, no âmbito da política de assistência social. Sobretudo, prestam serviços à população e não aos seus associados, que para elas contribuem, sem receberem em troca, qualquer benefício ou serviço. O autor segue informando que essa definição excluiu clubes esportivos, sindicatos, cooperativas, grêmios estudantis, organizações religiosas, templos, partidos políticos e outras entidades que objetivasse trazer benefícios somente para seus filiados/associados. A Resolução estabelece ainda duas modalidades de organizações assistenciais: • De atendimento que são definidas como aquelas que realizam de forma contínua, planejada e permanente benefícios, serviços, programas e projetos de proteção básica e/ou especial, além de atuarem na defesa de direitos socioassistenciais. • De assessoramento e defesa de direitos de forma contínua, planejada e permanente serviços, programas e projetos direcionados para a defesa e efetivação de direitos, promoção da cidadania, enfrentamento das desigualdades, En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 146 fortalecimento de movimentos sociais, capacitação de lideranças, etc. Além das características antes informadas, as entidades deverão: • proteger à família, infância, maternidade, adolescência oi velhice; • amparar crianças ou adolescentes carentes; • propor ações de prevenção, habilitação, reabilitação e integração à vida comunitária de pessoas portadoras de deficiência; • promover a assistência educacional ou de saúde; • promover o desenvolvimento da cultura; • atender e assessorar aos beneficiários da LOAS e à defesa e garantia de seus direitos. É ainda indispensável que essas entidades não distribuam resultados, dividendos, bonificações, parcela de seu patrimônio sob nenhuma forma, além de haver impedimento absoluto que seus sócios, conselheiros, diretores, instituidores, benfeitores ou similares recebam remuneração, vantagens ou benefícios diretos e indiretos, em razão de suas competências, funções ou atividades. A regulamentação das entidades e organizações da sociedade civil referidas no artigo 3º da LOAS objetiva dar as ações prestadas por essas instituições uma natureza pública, integrando-as à rede estabelecida no SUAS. A legislação que trata da matéria (Constituição Federal, LOAS, SUAS, LOSS, Resoluções do CNAS, entre outras) utiliza diferentes denominações para referir as entidades e organizações assistenciais, de tal sorte que mais adiante faremos a identificação das principais. Devemos salientar ainda que as instituições beneficentes de assistência social podem beneficiar-se de imunidade tributária, desde que cumpridas as deliberações constantes na Lei nº 8.212, de 24/07/91, também denominada de Lei Orgânica da Seguridade Social/LOSS. Art. 55. Fica isenta das contribuições de que tratam os arts. 147 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 22 e 23 desta Lei a entidade beneficente de assistência social que atenda aos seguintes requisitos cumulativamente: (Vide Lei n. 9.429, de 26.12.1996) I — seja reconhecida como de utilidade pública federal e estadual ou do Distrito Federal ou municipal; II — seja portadora do Certificado e do Registro de Entidadede Fins Filantrópicos, fornecido pelo Conselho Nacional de Assistência Social, renovado a cada três anos; (Redação dada pela Lei n. 9.429, de 26.12.1996) (Vide Medida Provisória n. 2.187-13, de 24.8.2001) III — promova, gratuitamente e em caráter exclusivo, a assistência social beneficente a pessoas carentes, em especial a crianças, adolescentes, idosos e portadores de deficiência; (Redação dada pela Lei n. 9.732, de 11.12.98) IV — não percebam seus diretores, conselheiros, sócios, instituidores ou benfeitores, remuneração e não usufruam vantagens ou benefícios a qualquer título; V — aplique integralmente o eventual resultado operacional na manutenção e desenvolvimento de seus objetivos institucionais apresentando, anualmente ao órgão do INSS competente, relatório circunstanciado de suas atividades. (Redação dada pela Lei n. 9.528, de 10.12.97) (...) 8.2 Inscrição Municipal A inscrição no Conselho Municipal ou do Distrito Federal constitui condição indispensável para o funcionamento regular de entidades e organizações assistenciais, uma vez que esses conselhos têm a atribuição de fiscalizar essas instituições, ainda que as mesmas não recebam recursos públicos. Acerca da inscrição nos Conselhos Municipais de Assistência Social é preciso referir que, além da inscrição no local de sua sede ou onde exerce a atividade principal, é preciso que essas instituições façam a inscrição em todos os municípios onde as mesmas atuam, visto ser essa inscrição que efetivamente reconhece a natureza de assistência social dos benefícios, serviços, programas e projetos que as entidades desempenham, permitindo sua integração ao SUAS. En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 148 Caso o município não conte com Conselho de Assistência Social é necessário fazer a inscrição no Conselho Estadual competente. 8.3 Denominações Jurídicas Como dito anteriormente, existe uma grande quantidade de denominações para identificar as organizações e entidades de assistência social, sendo importante apresentar a (o) acadêmica (o) as mais usuais. Pessoas Jurídicas de Direito Privado – O conceito de pessoas jurídicas de direito privado tem um sentido bastante amplo, podendo ser produto da união de pessoas físicas, jurídicas ou ambas materializada num contrato ou estatuto social. As pessoas jurídicas têm personalidade jurídica distinta das pessoas físicas ou naturais que a compõem. Quando adjetivamos as pessoas jurídicas como sendo de direito privado estamos a referir aquelas formadas por particulares, uma vez que são de direito público todas aquelas instituídas pelo Estado. Existem casos, no entanto, em que o Estado declara uma pessoa jurídica de direito privado como de interesse público, de tal sorte que devem ficar subordinadas ao controle estatal, sem que se tornem entidades estatais, exatamente como ocorre com as atividades na área de assistência social que são o objeto de nosso estudo. Pessoas Jurídicas sem Fins Lucrativos – Quando estamos tratando de particulares podemos identificar as pessoas jurídicas com fins lucrativos que são aquelas que desenvolvem atividades do tipo empresarial e aquelas sem fins lucrativos, que não se destinam à prática de atos empresariais, sendo essa última uma das caracterizações das organizações e entidades assistenciais, além do já mencionado interesse público. O fato de uma pessoa jurídica sem fim lucrativo receber 149 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al essa denominação não significa que suas atividades não possam ser superavitárias, quando deverão destinar esse produto para o desenvolvimento de seus objetivos sociais. As pessoas jurídicas sem fins lucrativos estão isentas do pagamento de Imposto de Renda em conformidade com o Decreto nº 3.000, de 26/03/99. Via de regra, as sociedades sem fins lucrativos podem ser associações e fundações: Associações são pessoas jurídicas sem fins lucrativos, constituídas de filiados ou associados, organizadas por estatutos que estabelecem seus órgãos dirigentes e deliberativos, finalidades sociais, requisitos para admissão de outras pessoas, mecanismos de exclusão de sócios, direitos e deveres, merecendo destaque o fato de as associações de assistência social beneficiarem terceiros que não os seus sócios, entre outros dispositivos. Fundações são entidades de direito privado, sem fins lucrativos, instituídas por particulares, quer pessoa físicas ou jurídicas, mediante uma dotação de bens livres. Os instituidores podem, além de especificar o fim a que a mesma se destina, estabelecer a forma de sua administração. Com a aprovação dos estatutos é lavrada a escritura e feito o registro de seus atos constitutivos, sendo posteriormente eleitos os membros que formarão o Conselho Curador e a Diretoria. Ao contrário das associações, as fundações não permitem a modificação dos fins e dos meios. A título de informação, sem entrarmos nos pormenores jurídicos, alguns estudiosos e julgadores entendem que a sociedade simples pode ser um tipo de pessoa jurídica sem fim lucrativo. 8.4 Registro no Conselho Nacional de Assistência Social/CNAS O registro no CNAS das entidades e organizações sem fins En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 150 lucrativos poderá ser requerido desde que as mesmas comprovem o atendimento dos requisitos constantes na Resolução nº 31, de 24/02/99, mesmo para entidades e organizações que tenham menos de uma ano de existência. Feito o registro o mesmo deve ser publicado no Diário Oficial da União, para a posterior expedição do certificado comprobatório. Em caso de recusa do registro cabe a pedido de reconsideração dirigido ao Conselho, no prazo de 10 dias a contar da publicação, em caso da reconsideração não acolhida caberá ainda recurso. A obtenção do registro permite acesso a fundos, subvenções e convênios com o CNAS. 8.5 Titulação das Entidades ou Organizações O interesse público pode ser conferido por título ou qualificações, concedidas pelo Poder Público poderão ser: utilidade pública, entidade de fins filantrópicos, entidade beneficente de assistência social, organização da sociedade civil de interesse público e organizações sociais. Entidade de Utilidade Pública: Entidades sem fins lucrativos podem ser declaradas de utilidade pública para a União, Estados, Municípios ou Distrito Federal, por decreto do presidente, governador ou prefeito. Uma entidade pode ter certificado de utilidade pública para um ente federativo, independente dos demais. Com esse título a entidade terá isenção tributária no nível do seu título, podendo receber, nesse mesmo nível, subvenções. A declaração de utilidade pública pode ser cassada, revogando-se o Decreto de concessão, caso a entidade deixe de cumprir com as exigências estabelecidas em cada nível federativo, ou ainda se a mesma não apresentar relatório anual ou remunerar seus dirigentes ou conselheiros. Entidade de Fins Filantrópicos: Para postular o registro de entidade de fins filantrópicos se faz necessário a inscrição 151 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al no respectivo conselho, que deverá acompanhar o pedido a ser encaminhado junto ao CNAS, juntamente com relatórios de atividades, atas de assembleias gerais, eleições e um planejamento anual, além de um plano de trabalho. O conceito de filantropia compreende doações e aplicações de seus próprios recursos com o propósito de instituir ações sociais, deixando de recolher recursos para os cofres públicos. A concessão ou renovação dos certificados de entidades de fins filantrópicos também está condicionada à observânciade alguns pressupostos por parte da entidade, conforme estabelece a Resolução nº 116 do CNAS. Entidades Beneficentes de Assistência Social: São aquelas entidades que têm título de utilidade pública expedido por qualquer ente federativo além de serem filantrópicas, devendo observar os seguintes pressupostos: • Promover gratuitamente em caráter exclusivo a assistência social beneficente a pessoas carentes, em especial crianças, adolescentes, idosos e portadores de deficiência. • Aplicar integralmente o resultado operacional para a consecução de seus objetivos institucionais, apresentando, ao INSS, relatório anual de suas atividades. • Impossibilidade absoluta dos diretores, conselheiros, sócios, instituidores, benfeitores ou similares, receberem remuneração, vantagem ou benefícios, sob qualquer forma ou título. Atendidas essas exigências poderá a entidade receber do INSS Ato Declaratório de Entidade Beneficente de Assistência Social. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIPs: É uma inovação no que tange a organizações sociais. Foi instituída pela Lei nº 9.790/99, que teve o propósito de facilitar e simplificar o acesso das organizações a recursos públicos através de parcerias. Segue abaixo transcrito os principais artigos da legislação antes citada: Art. 1º. Podem qualificar-se como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público as pessoas jurídicas de direito En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 152 privado, sem fins lucrativos, desde que os respectivos objetivos sociais e normas estatutárias atendam aos requisitos instituídos por esta Lei. § 1º Para os efeitos desta Lei, considera-se sem fins lucrativos a pessoa jurídica de direito privado que não distribui, entre os seus sócios ou associados, conselheiros, diretores, empregados ou doadores, eventuais excedentes operacionais, brutos ou líquidos, dividendos, bonificações, participações ou parcelas do seu patrimônio, auferidos mediante o exercício de suas atividades, e que os aplica integralmente na consecução do respectivo objeto social. § 2º A outorga da qualificação prevista neste artigo é ato vinculado ao cumprimento dos requisitos instituídos por esta Lei. No artigo 2º encontramos restrições para que algumas organizações transformem-se em OSCIPs. Art. 2º. Não são passíveis de qualificação como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, ainda que se dediquem de qualquer forma às atividades descritas no art. 3º desta Lei: I — as sociedades comerciais; II — os sindicatos, as associações de classe ou de representação de categoria profissional; III — as instituições religiosas ou voltadas para a disseminação de credos, cultos, práticas e visões devocionais e confessionais; IV — as organizações partidárias e assemelhadas, inclusive suas fundações; V — as entidades de benefício mútuo destinadas a proporcionar bens ou serviços a um círculo restrito de associados ou sócios; VI — as entidades e empresas que comercializam planos de saúde e assemelhados; VII — as instituições hospitalares privadas não gratuitas e suas mantenedoras; VIII — as escolas privadas dedicadas ao ensino formal não gratuito e suas mantenedoras; 153 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al IX — as organizações sociais; X — as cooperativas; XI — as fundações públicas; XII — as fundações, sociedades civis ou associações de direito privado criadas por órgão público ou por fundações públicas; XIII — as organizações creditícias que tenham quaisquer tipo de vinculação com o sistema financeiro nacional a que se refere o art. 192 da Constituição Federal. O artigo 3º estabelece os objetivos sociais que permitirão que uma organização habilite-se como OSCIPs. Art. 3º. A qualificação instituída por esta Lei, observado em qualquer caso, o princípio da universalização dos serviços, no respectivo âmbito de atuação das Organizações, somente será conferida às pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujos objetivos sociais tenham pelo menos uma das seguintes finalidades: I — promoção da assistência social; II — promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico; III — promoção gratuita da educação, observando-se a forma complementar de participação das organizações de que trata esta Lei; IV — promoção gratuita da saúde, observando-se a forma complementar de participação das organizações de que trata esta Lei; V — promoção da segurança alimentar e nutricional; VI — defesa, preservação e conservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento sustentável; VII — promoção do voluntariado; VIII — promoção do desenvolvimento econômico e social e combate à pobreza; IX — experimentação, não-lucrativa, de novos modelos sócio- produtivos e de sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito; X — promoção de direitos estabelecidos, construção de novos direitos e assessoria jurídica gratuita de interesse suplementar; En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 154 XI — promoção da ética, da paz, da cidadania, dos direitos humanos, da democracia e de outros valores universais; XII — estudos e pesquisas, desenvolvimento de tecnologias alternativas, produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito às atividades mencionadas neste artigo. Parágrafo único. Para os fins deste artigo, a dedicação às atividades nele previstas configura-se mediante a execução direta de projetos, programas, planos de ações correlatas, por meio da doação de recursos físicos, humanos e financeiros, ou ainda pela prestação de serviços intermediários de apoio a outras organizações sem fins lucrativos e a órgãos do setor público que atuem em áreas afins. Organizações Sociais – OSs: A Lei nº 9.637/98 criou as organizações sociais, que são pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, criadas por particulares, sob a forma societária, cujas atividades sejam dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à proteção e preservação do meio ambiente, à cultura e à saúde, que poderão se habilitar junto ao Poder Público para ser declarada entidade de interesse social e utilidade pública. No artigo 2º encontramos os requisitos para a habilitação das organizações sociais: Art. 2º. São requisitos específicos para que as entidades privadas referidas no artigo anterior habilitem-se à qualificação como organização social: I — comprovar o registro de seu ato constitutivo, dispondo sobre: a) natureza social de seus objetivos relativos à respectiva área de atuação; b) finalidade não-lucrativa, com a obrigatoriedade de investimento de seus excedentes financeiros no desenvolvimento das próprias atividades; c) previsão expressa de a entidade ter, como órgãos de deliberação superior e de direção, um conselho de administração e uma diretoria definidos nos termos do estatuto, asseguradas àquele composição e atribuições 155 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al normativas e de controle básicas previstas nesta Lei; d) previsão de participação, no órgão colegiado de deliberação superior, de representantes do Poder Público e de membros da comunidade, de notória capacidade profissional e idoneidade moral; e) composição e atribuições da diretoria; f) obrigatoriedade de publicação anual, no Diário Oficial da União, dos relatórios financeiros e do relatório de execução do contrato de gestão; g) no caso de associação civil, a aceitação de novos associados, na forma do estatuto; h) proibição de distribuição de bens ou de parcela do patrimônio líquido em qualquerhipótese, inclusive em razão de desligamento, retirada ou falecimento de associado ou membro da entidade; i) previsão de incorporação integral do patrimônio, dos legados ou das doações que lhe foram destinados, bem como dos excedentes financeiros decorrentes de suas atividades, em caso de extinção ou desqualificação, ao patrimônio de outra organização social qualificada no âmbito da União, da mesma área de atuação, ou ao patrimônio da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, na proporção dos recursos e bens por estes alocados; II — haver aprovação, quanto à conveniência e oportunidade de sua qualificação como organização social, do Ministro ou titular de órgão supervisor ou regulador da área de atividade correspondente ao seu objeto social e do Ministro de Estado da Administração Federal e Reforma do Estado. Atividades Chegamos ao fim deste capítulo, como proposta de trabalho sugerimos que os(as) acadêmicos(as) organizem individualmente uma síntese apontando os principais conceitos trabalhados no capítulo, com a fundamentação legal dos mesmos. Qualquer dúvida retome a leitura do capítulo e busque aprofundamento nas obras indicadas na referência. En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 156 Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos do curso de Serviço Social, sendo apropriada para o aprofundando das reflexões feitas no capítulo. Recomendamos ainda a leitura, na íntegra, das legislações referidas neste capítulo. Lembre- se que o conhecimento da legislação é indispensável nessa disciplina! Bons estudos! Referências Constituição Federal de 1988 Decreto nº 3.000, de 26/03/99 Lei Federal nº 8.212, de 24/07/91 - LOSS Lei Federal nº 8.742, de 07 de dezembro de 1993 – LOAS Lei Federal nº 9.637/98 Lei Federal nº 9.790/99 MARTINS, Sérgio Pinto. Direito da Seguridade Social. São Paulo: Atlas, 2002. Resolução nº 116 - CNAS SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. 157 En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) A LOAS, ao definir as entidades e organizações que prestam assistência social, destacou: a) Que as mesmas tenham fins lucrativos. b) Que as mesmas não tenham fins lucrativos. c) Que as mesmas não tenham fins lucrativos e atendam e/ou assessorem os beneficiários/usuários previstos em lei. d) Nenhuma das alternativas. 2) As organizações assistenciais podem ser: a) Somente de atendimento. b) Somente de assessoramento. c) De atendimento e de assessoramento. d) Nenhuma das alternativas. 3) Podem ser identificadas como atividades desenvolvidas por entidades de assistência social: a) Proteger à família, infância, maternidade, adolescência ou velhice. b) Amparar crianças ou adolescentes carentes. c) Propor ações de prevenção, habilitação, reabilitação e integração à vida comunitária de pessoas portadoras de deficiência. d) Todas as alternativas. 4) Acerca da distribuição de resultados, dividendos, bonificações, etc. por entidades de assistência social é correto dizer: a) Não podem ser distribuídos. b) Podem ser distribuídos somente para a diretoria. c) Podem ser distribuídos somente para os sócios e conselheiros. En ti d ad es e O rg an iz aç õ es d e A ss is tê n ci a So ci al 158 d) Nenhuma das alternativas. 5) Acerca da inscrição municipal nos COMAS deve-se dizer que: a) É obrigatória somente para algumas organizações. b) É obrigatória para todas as organizações. c) Estão dispensadas organizações com menos de um ano de funcionamento. d) Nenhuma das alternativas. Gabarito: 1) C; 2) C; 3) D; 4) A; 5) B;12) D; 13) A; 14) B; 15) D O objetivo deste capítulo é disponibilizar ao acadêmico informações básicas acerca da normatização legislativa da profissão de assistente social, bem como apontar os aspectos mais destacados do Código de Ética da profissão, uma vez que o conhecimento e a compreensão desses dispositivos legais são indispensáveis para o exercício profissional do (a) futuro (a) assistente social. Ao longo do capítulo o (a) acadêmico (a) deverá ser capaz de dominar esses textos legais, nos seus pressupostos mais significativos, para tanto privilegiamos a leitura e compreensão das temáticas a partir dos textos constantes na lei. 9.1 Lei do Assistente Social A profissão de assistente social é regulamentada pela Lei nº 8.662, de 07 de junho de 1993, que objetiva regulamentar e controlar os serviços profissionais de assistência social, fixando deveres e prerrogativas, além de atribuições privativas. Assistente social é a denominação dada ao bacharel em Serviço Social com registro no Conselho Regional de Serviço Social/CRESS, sendo indispensável para o exercício profissional tal registro, conforme denota-se da leitura da legislação antes citada. Cap. IX Lei do Assistente Social e Código de Ética Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 160 O reconhecimento da profissão de assistente social deu- se pela Lei nº 3.252, de 27/08/57, regulamentada pelo Decreto nº 994, de 15/05/62. É preciso referir que mesmo sem titulação acadêmica, foram reconhecidos como assistentes sociais os antigos agentes sociais25, funcionários públicos admitidos no serviço social nos termos da Lei nº 3.252, de 27/08/57, da mesma forma aqueles que tivessem exercido durante os últimos dois anos atribuições de competência exclusiva dos assistentes sociais. A Lei nº 3.252, de 27/08/57, estabelecia como atividade exclusiva do assistente social a direção de escolas de serviço social; o ensino e demais atividades acadêmicas; realização de perícias judiciais ou não de cunho social; planejamento, assessoria, direção e execução de serviços sociais, além da elaboração de pareceres de matéria social. A fiscalização do exercício profissional ficava ao encargo do Conselho Federal de Assistentes Sociais/CFAS e Conselhos Regionais de Assistentes Sociais/ CRAS. O surgimento da profissão de assistente social no Brasil está diretamente relacionado às ações sociais, de inspiração predominantemente religiosa, desenvolvidas em especial a partir da década de 40 do século passado. A primeira escola de serviço social foi fundada em 1936, sendo a atual Faculdade de Serviço Social da PUC/SP. Na trajetória dessa faculdade podemos identificar claramente três momentos distintos, no que tange a influências teórico- metodológicas: nos anos 40 identifica-se uma forte influência franco-belga, marcadamente influenciada pela filosofia tomista e pelos princípios jusnaturalistas; durante a década de 50 encontramos uma influência significativa do positivismo de inspiração norte-americana, que se aproximou muito do desenvolvimentismo bastante em voga na América Latina; pós década de 60, podemos perceber uma série de influências nas diferentes escolas de serviço social, merecendo destaque o funcionalismo, a fenomenologia e as concepções socialistas. A Lei nº 3.252/57 concebia a profissão de assistente social como de natureza liberal e técnico-científica, sendo que a atual 25 Lei nº . 3.252, de 27/08/57. 161 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca legislação, Lei nº 8.662/93, silencia sobre a natureza institucional da profissão, reiterando apenas a exigência de graduação em serviço ou assistência social e registro no CRESS. Art. 1º. É livre o exercícioda profissão de Assistente Social em todo o território nacional, observadas as condições estabelecidas nesta lei. Art. 2º. Somente poderão exercer a profissão de Assistente Social: I — Os possuidores de diploma em curso de graduação em Serviço Social, oficialmente reconhecido, expedido por estabelecimento de ensino superior existente no País, devidamente registrado no órgão competente; II — os possuidores de diploma de curso superior em Serviço Social, em nível de graduação ou equivalente, expedido por estabelecimento de ensino sediado em países estrangeiros, conveniado ou não com o governo brasileiro, desde que devidamente revalidado e registrado em órgão competente no Brasil; III — os agentes sociais, qualquer que seja sua denominação com funções nos vários órgãos públicos, segundo o disposto no art. 14 e seu parágrafo único da Lei n. 1.889, de 13 de junho de 1953. Parágrafo único. O exercício da profissão de Assistente Social requer prévio registro nos Conselhos Regionais que tenham jurisdição sobre a área de atuação do interessado nos termos desta lei Os assistentes sociais formam uma categoria profissional autônoma, de tal sorte que sua organização sindical deverá ocorrer tomando como referência o critério de identidade profissional, ou ainda observando o critério da atividade preponderante. A filiação à entidade sindical é facultativa, não podendo o (a) leitor (a) confundir a filiação sindical com a filiação nos CRESS, essa obrigatória para o exercício profissional, não tendo os conselhos funções sindicais. A Lei nº 8.662/93 estabeleceu no seu artigo 4º as competências dos assistentes sociais, que nada mais são do que qualificações profissionais para o exercício da função, Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 162 prioritariamente sob alguns aspectos, como abaixo segue descrito: Art. 4º. Constituem competências do Assistente Social: I — elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II — elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III — encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; IV — (Vetado); V — orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI — planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII — planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII — prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX — prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X — planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI — realizar estudos socioeconômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. As atribuições privativas dos assistentes sociais, que totalizam o número de treze, são aquelas decorrentes e exclusivas da sua formação profissional, o que faz com que essas funções sejam validadas institucionalmente quando 163 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca realizadas por um assistente social. Abaixo transcrevemos o artigo 5º da Lei nº 8.662/93, que estabelece as atribuições privativas do assistente social. Art. 5º. Constituem atribuições privativas do Assistente Social: I — coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II — planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III — assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; IV — realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V — assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI — treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII — dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII — dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social; IX — elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X — coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI — fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; XII — dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII — ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 164 9.2 Conselho Federal de Serviço Social/CFESS e Conselhos Regionais de Serviço Social/CRESS O Conselho Federal de Serviço Social/CFESS e Conselhos Regionais de Serviço Social/CRESS são as organizações responsáveis pela representatividade da categoria profissional, sendo o CFESS responsável pela normatização do exercício profissional dos assistentes sociais. A organização dos CRESS está orientada nos moldes do sistema federativo brasileiro. Até a promulgação da Lei nº 8.662/93 as denominações desses conselhos eram Conselho Federal de Assistentes Sociais/ CFAS e Conselhos Regionais de assistentes Sociais/CRAS, sendo que a mudança de denominação decorreu da alteração da função de assistência social, que passou a ser concebida, após a Constituição Federal de 1988 e a LOAS, como uma política pública, de tal sorte a ser necessário distinguir a política de assistência social do serviço social, esse último não identificado com a formulação de políticas de assistência social, atribuição exclusiva do Poder Público. Art. 6º. São alteradas as denominações do atual Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS) e dos Conselhos Regionais de Assistentes Sociais (CRAS), para, respectivamente, Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS). As competências do CFESS estão arroladas no artigo 8º da Lei nº 8.662/93. Art. 8º. Compete ao Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), na qualidade de órgão normativo de grau superior, o exercício das seguintes atribuições: I — orientar, disciplinar, normatizar, fiscalizar e defender o exercício da profissão de Assistente Social, em conjunto com o CRESS; 165 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca II — assessorar os CRESS sempre que se fizer necessário; III — aprovar os Regimentos Internos dos CRESS no fórum máximo de deliberação do conjunto CFESS/CRESS; IV — aprovar o Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais juntamente com os CRESS, no fórum máximo de deliberação do conjunto CFESS/CRESS; V — funcionar como Tribunal Superior de ÉticaProfissional; VI — julgar, em última instância, os recursos contra as sanções impostas pelos CRESS; VII — estabelecer os sistemas de registro dos profissionais habilitados; VIII — prestar assessoria técnico-consultiva aos organismos públicos ou privados, em matéria de Serviço Social; IX — (Vetado). A sede do CFESS esta localizada em Brasília conforme se denota da leitura do artigo 11 da Lei nº 8.662/93, sendo constituído de nove representantes e igual número de suplentes eleitos, funcionando ainda como Tribunal Superior de Ética para apreciação de recursos interpostos nos CRESS. Art. 20. O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e os Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS) contarão cada um com nove membros efetivos: Presidente, Vice-Presidente, dois Secretários, dois Tesoureiros e três membros do Conselho Fiscal, e nove suplentes, eleitos dentre os Assistentes Sociais, por via direta, para um mandato de três anos, de acordo com as normas estabelecidas em Código Eleitoral aprovado pelo fórum instituído pelo art. 9º desta lei. O órgão máximo de deliberação profissional dos assistentes sociais é o colegiado do Conselho Federal e dos Conselhos Estaduais de Serviço Social, conforme disposição expressa no artigo 9º da Lei que regulamenta a profissão. Art. 9º. O fórum máximo de deliberação da profissão para os fins desta lei dar-se-á nas reuniões conjuntas dos Conselhos Federal e Regionais, que inclusive fixarão os limites de sua competência e sua forma de convocação. Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 166 As atribuições do CRESS estão previstas no artigo 10 da lei antes citada, sendo importante apontar que os mesmos não têm função normatizadora, atribuição exclusiva do CFESS. Art. 10. Compete aos CRESS, em suas respectivas áreas de jurisdição, na qualidade de órgão executivo e de primeira instância, o exercício das seguintes atribuições: I — organizar e manter o registro profissional dos Assistentes Sociais e o cadastro das instituições e obras sociais públicas e privadas, ou de fins filantrópicos; II — fiscalizar e disciplinar o exercício da profissão de Assistente Social na respectiva região; III — expedir carteiras profissionais de Assistentes Sociais, fixando a respectiva taxa; IV — zelar pela observância do Código de Ética Profissional, funcionando como Tribunais Regionais de Ética Profissional; V — aplicar as sanções previstas no Código de Ética Profissional; VI — fixar, em assembleia da categoria, as anuidades que devem ser pagas pelos Assistentes Sociais; VII — elaborar o respectivo Regimento Interno e submetê-lo a exame e aprovação do fórum máximo de deliberação do conjunto CFESS/CRESS. Atualmente contamos com 25 conselhos regionais. Art. 12. Em cada capital de Estado, de Território e no Distrito Federal, haverá um Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) denominado segundo a sua jurisdição, a qual alcançará, respectivamente, a do Estado, a do Território e a do Distrito Federal. 1º Nos Estados ou Territórios em que os profissionais que neles atuam não tenham possibilidade de instalar um Conselho Regional, deverá ser constituída uma delegacia subordinada ao Conselho Regional que oferecer melhores condições de comunicação, fiscalização e orientação, ouvido o órgão regional e com homologação do Conselho Federal. A Resolução nº 298/94 do CFESS em seu artigo 1º informa 167 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca as áreas de jurisdição e a sede das seccionais. Art. 1º. São as seguintes as zonas de jurisdição e respectivas sedes do CRESS: 1) 1ª Região, de sigla CRESS 1ª Região, com jurisdição nos Estados do Pará e Amapá, tendo sua sede na cidade de Belém – PA; 2) 2ª Região, de sigla CRESS 2ª Região, com jurisdição no Estado do Maranhão, tendo sua sede na cidade de São Luís – MA; 3) 3ª Região, de sigla CRESS 3ª Região, com jurisdição no Estado do Ceará, tendo sua sede na cidade de Fortaleza – CE; 4) 4ª Região, de sigla CRESS 4ª Região, com jurisdição no Estado do Pernambuco, tendo sua sede na cidade de Recife – PE; 5) 5ª Região, de sigla CRESS 5ª Região, com jurisdição no Estado da Bahia, tendo sua sede na cidade de Salvador - BA; 6) 6ª Região, de sigla CRESS 6ª Região, com jurisdição no Estado de Minas Gerais, tendo sua sede na cidade de Belo Horizonte – MG; 7) 7ª Região, de sigla CRESS 7ª Região, com jurisdição no Estado do Rio de Janeiro, tendo sua sede na cidade do Rio de Janeiro – RJ; 8) 8ª Região, de sigla CRESS 8ª Região, com jurisdição no Estado do Distrito Federal, tendo sua sede na cidade de Brasília – DF; 9) 9ª Região, de sigla CRESS 9ª Região, com jurisdição no Estado de São Paulo, tendo sua sede na cidade de São Paulo – SP; 10) 10ª Região, de sigla CRESS 10ª Região, com jurisdição no Estado do Rio Grande do Sul, tendo sua sede na cidade de Porto Alegre – RS; 11) 11ª Região, de sigla CRESS 11ª Região, com jurisdição no Estado do Paraná, tendo sua sede na cidade de Curitiba – PR; 12) 12ª Região, de sigla CRESS 12ª Região, com jurisdição no Estado de Santa Catarina, tendo sua sede na cidade de Florianópolis – SC; Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 168 13) 13ª Região, de sigla CRESS 13ª Região, com jurisdição no Estado da Paraíba, tendo sua sede na cidade de João Pessoa – PB; 14) 14ª Região, de sigla CRESS 14ª Região, com jurisdição no Estado do Rio Grande do Norte, tendo sua sede na cidade de Natal – RN; 15) 15ª Região, de sigla CRESS 15ª Região, com jurisdição no Estado do Amazonas, tendo sua sede na cidade de Manaus – AM; 16) 16ª Região, de sigla CRESS 16ª Região, com jurisdição no Estado de Alagoas, tendo sua sede na cidade de Maceió – AL; 17) 17ª Região, de sigla CRESS 17ª Região, com jurisdição no Estado do Espírito Santo, tendo sua sede na cidade de Vitória – ES; 18) 18ª Região, de sigla CRESS 18ª Região, com jurisdição no Estado de Sergipe, tendo sua sede na cidade de Aracaju – SE; 19) 19ª Região, de sigla CRESS 19ª Região, com jurisdição no Estado de Goiás, tendo sua sede na cidade de Goiânia - GO; 20) 20ª Região, de sigla CRESS 20ª Região, com jurisdição no Estado do Mato Grosso, tendo sua sede na cidade de Cuiabá – MT; 21) 21ª Região, de sigla CRESS 21ª Região, com jurisdição no Estado do Mato Grosso do Sul, tendo sua sede na cidade de Campo Grande – MS; 22) 22ª Região, de sigla CRESS 22ª Região, com jurisdição no Estado do Piauí, tendo sua sede na cidade de Teresina - PI; 23) 23º Região, de sigla CRESS 23ª Região, com jurisdição no Estado do Rondônia, tendo sua sede na cidade de Porto Velho – RO; 24) 24º Região, de sigla CRESS 24ª Região, com jurisdição no Estado do Amapá, tendo sua sede na cidade de Macapá – AP; 25) 25º Região, de sigla CRESS 25ª Região, com jurisdição no Estado do Tocantins, tendo sua sede na cidade de Palmas – TO. Os CRESS são dotados de autonomia financeira e 169 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca administrativa, conforme estabelecido no artigo Art. 7º § 1º. A organização e o seu funcionamento são regulamentados por Resolução do CFESS, sendo basicamente composto dos seguintes órgãos: Assembleia Geral – congregando todos os assistentes sociais da jurisdição ou base territorial do conselho, desde que estejam com suas anuidades em dia e seu registro regularizado. Estagiários devidamente cadastrados podem participar das assembleias não tendo direito a voto; Conselho Pleno – órgão deliberativo que se reúne, ordinariamente, uma vez por mês e, extraordinariamente, sempre que necessário, por convocação do Presidente ou da maioria dos membros. É composto por nove membros efetivos (seis da diretoria e três do conselho fiscal), tendo igualnúmero de suplentes. Eleitos diretamente para mandato de três (3) anos, podendo ser reeleitos uma única vez. O Conselho Pleno tem atribuições de Tribunal de Ética para julgamento de processos envolvendo assistentes sociais. Diretoria Executiva – formada por seis membros (presidente, vice-presidente, primeiro secretário, segundo secretário, primeiro tesoureiro e segundo tesoureiro) eleitos diretamente para mandato de três (3) anos. Não recebem remuneração e se reúnem no mínimo quinzenalmente. Encontro do CRESS/Seccionais – Membros efetivos e suplentes do CRESS e das seccionais, também eleitos diretamente. O Encontro do CRESS/Seccionais deverá ocorrer, ordinariamente, duas (2) vezes ao ano e, extraordinariamente, sempre que o Pleno convocar. Seccionais – Estão instaladas nos municípios que tenham um maior número de assistentes sociais, devendo ser observadas as disposições contidas na Resolução nº 298/94 do CFESS, no que diz respeito a requisitos para criação de seccionais. Comissões – Podem ser permanentes ou temporárias. As comissões permanentes são a de Ética, de Licitação e de Orientação e Fiscalização Profissional. As temporárias podem ser criadas para determinadas finalidades, tais como as criadas para pesquisa, estudos, pareceres, etc. Quando da inscrição originária no CRESS da base territorial onde o profissional deseja atuar, o mesmo recebe uma inscrição Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 170 denominada de principal – AS, caso ele tenha de exercer atividade profissional em outra base territorial, por período superior a 90 dias, deverá solicitar uma inscrição secundária – SEC nesse outro local. Se exercer atividade profissional em caráter permanente em locais que ficam em bases territoriais distintas deverá manter tantos registros principais quanto forem as bases territoriais, com o pagamento da respectivas anuidades. Quando o profissional tranferir-se definitivamente para outra base territorial, deverá solicitar a transferência de sua inscrição. Poderá ainda o profissional solicitar o cancelamento temporário ou definitivo de sua inscrição, deixando a anuidade de ser exigível. Compete ainda aos CRESS o cadastro dos campos de estágio que as graduações disponibilizarão para seus alunos, assim como aqueles assistentes sociais responsáveis pela supervisão dessa atividade, conforme deliberação constante no artigo 14 da Lei nº 8.662/93. Art. 14. Cabe às Unidades de Ensino credenciar e comunicar aos Conselhos Regionais de sua jurisdição os campos de estágio de seus alunos e designar os Assistentes Sociais responsáveis por sua supervisão. Parágrafo único. Somente os estudantes de Serviço Social, sob supervisão direta de Assistente Social em pleno gozo de seus direitos profissionais, poderão realizar estágio de Serviço Social. Quando de infração a qualquer dispositivo previsto na Lei nº 8.662/93, poderá o profissional sofrer pena de multa, suspensão ou até o cancelamento de seu registro profissional, tudo em consonância com a gravidade da infração, conforme disposição contida no artigo 16: Art. 16. Os CRESS aplicarão as seguintes penalidades aos infratores dos dispositivos desta Lei: I — multa no valor de uma a cinco vezes a anuidade vigente; II — suspensão de um a dois anos de exercício da profissão ao Assistente Social que, no âmbito de sua atuação, deixar de cumprir disposições do Código de Ética, tendo em vista a 171 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca gravidade da falta; III — cancelamento definitivo do registro, nos casos de extrema gravidade ou de reincidência contumaz. 1º Provada a participação ativa ou conivência de empresas, entidades, instituições ou firmas individuais nas infrações a dispositivos desta lei pelos profissionais delas dependentes, serão estas também passíveis das multas aqui estabelecidas, na proporção de sua responsabilidade, sob pena das medidas judiciais cabíveis. 2º No caso de reincidência na mesma infração no prazo de dois anos, a multa cabível será elevada ao dobro. 9.3 Código de Ética A conduta ético-profissional dos assistentes sociais está regulamentada pela Resolução nº 273/93 do CFESS (com alteração das Resoluções do CFESS nº 290 e 293 do ano de 1994), também denominada de Código de Ética. O Código de Ética do Assistente Social é uma legislação organizada em 36 artigos, quatro títulos, além de apresentar em seu preâmbulo uma introdução e a descrição de 11 princípios fundamentais que deverão nortear o exercício profissional do assistente social. Na introdução encontramos um importante texto contextualizando o momento histórico que antecedeu a edição dessa norma, apontando a trajetória bem como as transformações que demandaram a substituição do Código de Ética anterior, datado de 1986, atentando para as transformações pelas quais a assistência social passou tanto num prisma teórico-metodológico quanto legislativo. Na sequência encontramos dispostos os onze princípios que devem nortear a atuação do assistente social. São eles: • Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes — autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; • Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; • Ampliação e consolidação da cidadania, considerada Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 172 tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; • Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida; • Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática; • Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças; • Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual; • Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação/exploração de classe, etnia e gênero; • Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores; • Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional; • Exercício do Serviço Social sem ser discriminado, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física. Como bem assevera Simões: “Não se trata, portanto de um código de conteúdo meramente corporativista. Ao contrário, institui como princípio a opção do assistente social por um projeto profissional vinculado à construção de uma nova ordem social [...]. (2007, p. 476) No Código de Ética dos Assistentes Sociais, encontramos basicamente três tipos de disposições: 173 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 1. aquelas referentes às competências e atribuições das comissões de ética e dos tribunais de ética, de primeiro e segundo grau; 2. os direitos e os deveres e restrições em geral para esses profissionais; 3. ritos procedimentais para a investigação e apuração dos atos infracionais. Os CRESS têm atribuição para apreciar, no âmbito administrativo, em primeira instância o cumprimento dasnormas estabelecidas nas legislações que regem a atividade do assistente social, quais sejam: Resolução nº 273/93 do CFESS e Lei nº 8.662/93, ao passo que o CFESS funciona como Tribunal de Segunda Instância, tendo ainda a função de fiscalizar os CRESS, como podemos inferir da leitura do artigo primeiro da Resolução nº 273/93. Art. 1º. Compete ao Conselho Federal de Serviço Social: a) zelar pela observância dos princípios e diretrizes deste Código, fiscalizando as ações dos Conselhos Regionais e a prática exercida pelos profissionais, instituições e organizações na área do Serviço Social; b) introduzir alteração neste Código, através de uma ampla participação da categoria, num processo desenvolvido em ação conjunta com os Conselhos Regionais; c) como Tribunal Superior de Ética Profissional, firmar jurisprudência na observância deste Código e nos casos omissos. Parágrafo único. Compete aos Conselhos Regionais, nas áreas de suas respectivas jurisdições, zelar pela observância dos princípios e diretrizes deste Código, e funcionar como órgão julgador de primeira instância. O Título I, denominado Dos Direitos e das Responsabilidades Gerais do Assistente Social, estabelece as faculdades e atribuições que devem nortear a atividade do assistente social. No artigo 2º encontramos os direitos do assistente social que são: • garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 174 estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão e dos princípios firmados neste Código; • livre exercício das atividades inerentes à Profissão; • participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; • inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documentação, garantindo o sigilo profissional; • desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional; • aprimoramento profissional de forma contínua, colocando-o a serviço dos princípios deste Código; • pronunciamento em matéria de sua especialidade, sobretudo quando se tratar de assuntos de interesse da população; • ampla autonomia no exercício da profissão, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais incompatíveis com as suas atribuições, cargos ou funções; • liberdade na realização de seus estudos e pesquisas, resguardados os direitos de participação de indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos. Desses direitos a solicitação de desagravo, o dever de sigilo profissional e a denuncia de irregularidades são os que merecem maior explicitação. Por desagravo público entende-se a manifestação do CRESS ou CFESS em favor de direito do profissional, que, no legítimo exercício de sua função, sofre ofensas ou constrangimentos de qualquer ordem, que atinjam a dignidade da categoria como um todo, nada mais é o que um repúdio público à ofensa do livre exercício profissional. O profissional ofendido deverá encaminhar denúncia ao CRESS de sua base territorial, para que a Comissão de Prerrogativas investigue e apure a ofensa, que em caso de comprovação será motivação para desagravo público. Poderá o ofensor se retratar e, se o CRESS considerar a retratação suficiente, o processo poderá ser arquivado. Caso não ocorrer a retratação ou a mesma não for considerada reparadora do prejuízo à imagem da categoria, o desagravo 175 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca poderá ainda subsidiar ação competente para restaurar ou indenizar o dano provocado pela ofensa. O dever de sigilo profissional é um ponto muito importante e bastante suscitado nas Comissões e Tribunais de Ética. Nada mais é o que a obrigação do assistente social não divulgar fatos relatados pelo usuário ou beneficiário de seus serviços, ou constantes em documentos referentes à sua privacidade ou de terceiros, que sejam do conhecimento do profissional em razão do exercício da profissão. A violação desse dispositivo do Código de Ética, além de infração profissional, é crime previsto no Código Penal Brasileiro. O artigo 18 da Resolução nº 273/93 do CFESS prevê, excepcionalmente, a quebra do sigilo profissional que, nessa caso, não poderá ser caracterizada como descumprimento de normatização do Código de Ética. A centralidade da matéria referente ao dever de sigilo profissional pode ser inferida pelo tratamento destinado a esse tópico no Código de Ética que dedicou um capítulo a essa temática. CAPÍTULO V DO SIGILO PROFISSIONAL Art. 15. Constitui direito do assistente social manter o sigilo profissional. Art. 16. O sigilo protegerá o usuário em tudo aquilo de que o assistente social tome conhecimento, como decorrência do exercício da atividade profissional. Parágrafo único. Em trabalho multidisciplinar só poderão ser prestadas informações dentro dos limites do estritamente necessário. Art. 17. É vedado ao assistente social revelar sigilo profissional. Art. 18. A quebra do sigilo só é admissível quando se tratarem de situações cuja gravidade possa, envolvendo ou não fato delituoso, trazer prejuízo aos interesses do usuário, de terceiros e da coletividade. Parágrafo único. A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devam tomar conhecimento. Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 176 É dever do assistente social denunciar ao CRESS de sua base territorial qualquer irregularidade de entidades ou instituições sociais, ou ainda de conduta indevida de colegas de profissão. O artigo 4º da Resolução nº 273/93 do CFESS estabelece proibições ou obrigações de não fazer ao assistente social. Como é possível perceber pela leitura do referido artigo. Art. 4º. É vedado ao assistente social: a) transgredir qualquer preceito deste Código, bem como da Lei de Regulamentação da Profissão; b) praticar e ser conivente com condutas anti-éticas, crimes ou contravenções penais na prestação de serviços profissionais, com base nos princípios deste Código, mesmo que estes sejam praticados por outros profissionais; c) acatar determinação institucional que fira os princípios e diretrizes deste Código; d) compactuar com o exercício ilegal da Profissão, inclusive nos casos de estagiários que exerçam atribuições específicas, em substituição aos profissionais; e) permitir ou exercer a supervisão de aluno de Serviço Social em Instituições Públicas ou Privadas que não tenham em seu quadro assistente social que realize acompanhamento direto ao aluno estagiário; f) assumir responsabilidade por atividade para as quais não esteja capacitado pessoal e tecnicamente; g) substituir profissional que tenha sido exonerado por defender os princípios da ética profissional, enquanto perdurar o motivo da exoneração, demissão ou transferência; h) pleitear para si ou para outrem emprego, cargo ou função que estejam sendo exercidos por colega; i) adulterar resultados e fazer declarações falaciosas sobre situações ou estudos de que tome conhecimento; j) assinar ou publicar em seu nome ou de outrem trabalhos de terceiros, mesmo que executados sob sua orientação. O Código de Ética, em seu artigo 5º, também estabelece os deveres dos assistentes sociais nas suas reações com os usuários, sendo eles: 177 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca a) contribuir para a viabilização da participação efetiva da população usuária nas decisões institucionais; b) garantir a plena informação e discussão sobre as possibilidades e consequências das situações apresentadas, respeitando democraticamente as decisões dos usuários, mesmo que sejam contrárias aos valores e às crençasindividuais dos profissionais, resguardados os princípios deste Código; c) democratizar as informações e o acesso aos programas disponíveis no espaço institucional; d) devolver as informações colhidas nos estudos e pesquisas aos usuários, no sentido de que estes possam usá-los para o fortalecimento dos seus interesses; e) informar à população usuária sobre a utilização de materiais de registro audiovisual e pesquisas a elas referentes e a forma de sistematização dos dados obtidos; f) fornecer à população usuária, quando solicitado, informações concernentes ao trabalho desenvolvido pelo Serviço Social e as suas conclusões, resguardado o sigilo profissional; g) contribuir para a criação de mecanismos que venham desburocratizar a relação com os usuários, no sentido de agilizar e melhorar os serviços prestados; h) esclarecer aos usuários, ao iniciar o trabalho, sobre os objetivos e a amplitude de sua atuação profissional. No capítulo II encontramos direitos e deveres que regulamentam a relação entre os assistentes sociais e as instituições empregadoras e outras com as quais o profissional tenha contato. Art. 7º. Constituem direitos do assistente social: a) dispor de condições de trabalho condignas seja em entidade pública ou privada, de forma a garantir a qualidade do exercício profissional; b) ter livre acesso à população usuária; c) ter acesso a informações institucionais que se relacionem aos programas e políticas sociais e sejam necessárias ao pleno exercício das atribuições profissionais; Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 178 d) integrar comissões interdisciplinares de ética nos locais de trabalho do profissional, tanto no que se refere à avaliação da conduta profissional, como em relação às decisões quanto às políticas institucionais. Art. 8º. São deveres do assistente social: a) programar, administrar, executar e repassar os serviços sociais assegurados institucionalmente; b) denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas da instituição em que trabalha, quando os mesmos estiverem ferindo os princípios e diretrizes deste Código, mobilizando, inclusive, o Conselho Regional, caso se faça necessário; c) contribuir para a alteração da correlação de forças institucionais, apoiando as legítimas demandas de interesse da população usuária; d) empenhar-se na viabilização dos direitos sociais dos usuários, através dos programas e políticas sociais; e) empregar com transparência as verbas sob a sua responsabil idade, de acordo com os interesses e necessidades coletivas dos usuários. No capítulo III encontramos referência acerca das relações que os assistentes sociais devem estabelecer com outros profissionais. No artigo 13 encontramos algumas disposições acerca da atuação do assistente social em relação à sociedade civil, disposições essas marcadamente comprometidas pela justiça social. Art. 13. São deveres do assistente social: a) denunciar ao Conselho Regional as instituições públicas ou privadas, onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar os usuários ou profissionais. b) denunciar, no exercício da Profissão, às entidades de organização da categoria, às autoridades e aos órgãos competentes, casos de violação da Lei e dos Direitos Humanos, quanto a: corrupção, maus-tratos, torturas, ausência de condições mínimas de sobrevivência, discriminação, preconceito, abuso de autoridade individual e institucional, qualquer forma de agressão ou falta de respeito 179 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca à integridade física, social e mental do cidadão; c) respeitar a autonomia dos movimentos populares e das organizações das classes trabalhadoras. No artigo 22 encontramos algumas tipificações das infrações disciplinares que são: a) exercer a Profissão quando impedido de fazê-lo, ou facilitar, por qualquer meio, o seu exercício aos não inscritos ou impedidos; b) não cumprir, no prazo estabelecido, determinação emanada do órgão ou autoridade dos Conselhos, em matéria destes, depois de regularmente notificado; c) deixar de pagar, regularmente, as anuidades e contribuições devidas ao Conselho Regional de Serviço Social a que esteja obrigado; d) participar de instituição que, tendo por objeto o Serviço Social, não esteja inscrita no Conselho Regional; e) fazer ou apresentar declaração, documento falso ou adulterado, perante o Conselho Regional ou Federal. As penalidades a que estão sujeitos os infratores podem ser: a) multa; b) advertência reservada; c) advertência pública; d) suspensão do exercício profissional; e) cassação do registro profissional, devendo ser considerada a gravidade e as circunstâncias do fato, bem como os antecedentes do profissional. No artigo 32 encontramos ainda a previsão de prescrição punitiva para atos ocorridos a mais de cinco anos desde que não tenha sido instaurado processo ético e disciplinar. Conforme já mencionado anteriormente a apuração de infração ético-disciplinar ocorrerá por meio de processo administrativo, sendo garantida a ampla defesa ao denunciado, além de direito a recurso para instância superior. Os procedimentos do processo administrativo estão previstos na Resolução nº 428/02 do CFESS, denominada também de Código Processual de Ética, que em 77 artigos regulamenta toda matéria processual da Resolução nº 273/93 do CFESS. Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 180 Atividades Como proposta de trabalho a ser realizado em grupo, sugerimos que os (as) acadêmicos (as), de posse da Lei e do Código de Ética, preparem um seminário sintetizando e explicando aos colegas os seus principais tópicos. Referência comentada SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. A obra indicada para leitura é uma das mais completas acerca de conhecimentos jurídicos indispensáveis para o exercício profissional dos egressos do curso de Serviço Social, aprofundando as reflexões feitas neste capítulo. Recomendamos ainda a leitura na íntegra das legislações referidas no capítulo. Bons Estudos! Referências Lei Federal nº 8.662/93 Resolução nº 273/93 - CFESS Resolução nº 428/02 - CFESS SIMÕES, Carlos. Curso de Direito do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2007. 181 Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca Autoavaliação Marque a alternativa correta. 1) A Lei nº 8.662, de 07 de junho de 1993: a) Regulamenta e controla os serviços profissionais de assistência social, fixando deveres e prerrogativas, além de atribuições privativas. b) Regulamenta e controla os serviços do Poder Público em matéria de assistência social. c) Regulamenta os serviços das Organizações que atual na área de assistência social. d) Regulamenta as atividades das prefeituras em matéria de assistência social. 2) A Lei nº 8.662, de 07 de junho de 1993, também é conhecida como: a) Código de Ética. b) LOAS. c) Lei do Assistente Social. d) SUAS. 3) A lei que regulamentou a profissão de assistente social no Brasil foi: a) Resolução do CFESS nº 290/93. b) Resolução do CFAS nº 290/ 85. c) Lei nº 5.342, de 15/09/47. d) Lei nº 3.252, de 27/08/57. 4) A primeira graduação em Serviço Social criada no Brasil foi: a) Em 1948 na USP. b) Em 1936 na PUC/RS. c) Em 1936 na atual PUC/SP. d) Em 1970 na PUC/PR. Le i d o A ss is te n te S o ci al e C ó d ig o d e É ti ca 182 5) A denominação de assistente social pressupõe: a) Graduação em Ciências Sociais. b) Graduação em Serviço Social. c) Graduação em Serviço Social e inscrição no Conselho Profissional. Gabarito: 1) A; 2) C; 3) D; 4) B; 5) C;6)D; 7) A; 8) A; 9) C; 10) B; 11) B; 12) B; 13) C; 14) D; 15) D DLS-cap1 DLS-cap2 DLS-cap3 DLS-cap4 DLS-cap5 DLS-cap6 DLS-cap7 DLS-cap8 DLS-cap9