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Ex escravo brasileiro autobiografia emociona com relato de sofrimento Portal Vermelho

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03/07/2017 Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com relato de sofrimento - Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/273252-10 1/4
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Geral
25 de novembro de 2015 - 12h49 
Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com
relato de sofrimento
 
Milhões de seres humanos, caçados e sequestrados na África, cruzaram o oceano, até 1850, e
desembarcaram no Brasil, onde foram escravizados. Deste período, o único registro biográfico
sobre o que aconteceu foi o de Mahommah G. Baquaqua. Oriundo da faixa ocidental da África,
Mahommah escreveu a única autobiografia de um ex-escravo que viveu no Brasil.
O livro, publicado em inglês em 1854, está em fase final de tradução para o português
pelo historiador e consultor de estudos afro-brasileiros da Unesco Bruno Véras e
deverá ser publicado em breve.
Abaixo, segue a tradução de um trecho do livro. O original, em inglês, pode ser
encontrado no site: http://docsouth.unc.edu/neh/baquaqua/menu.html 
O navio negreiro 
Isso é horrível! Quem pode descrever? Ninguém pode verdadeiramente retratar este
horror, a pobre desventura miserável destes desgraçados que foram confinados dentro
de seus porões. Oh! Amigos da humanidade, pena dos pobres africanos que foram
pegos em ciladas e vendidos para um lugar longe de seus amigos e de suas casas,
mandados para o porão de um navio negreiro para aguardar ainda mais horrores e
misérias em uma terra distante. Fomos empurrados para dentro do porão do navio em
um estado de nudez, os homens amontoados de um lado e as mulheres do outro;
obrigados a agachar-se no chão ou sentar-se; dia e noite foram os mesmos para nós, o
sono sendo negado por conta da posição incomoda de nossos corpos … sofrimento e
fadiga.
Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar horrível nunca serão apagados da minha
memória. Enquanto a memória mantiver seu assento neste cérebro distraído, vou me
03/07/2017 Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com relato de sofrimento - Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/273252-10 2/4
lembrar disso. O coração se entristece, ainda hoje, ao pensar sobre aqueles dias.
Se aqueles indivíduos que são a favor da escravidão tomassem o lugar de um escravo
no porão pernicioso de um navio negreiro, apenas durante uma viagem da África para
a América, nem estou falando dos horrores da escravidão, apenas durante o trajeto, se
eles não saírem de lá abolicionistas, então, não terei mais nada a dizer a favor da
abolição. Mas acho que as suas opiniões e sentimentos sobre a escravidão serão
alterados em algum grau. Quem é a favor de tal barbárie deve ser formado de ferro,
não possuindo nem o coração e nem alma. Imagino que não possa haver um lugar
mais horrível no mundo do que o porão de um navio negreiro!
A única comida que tivemos durante a viagem foi e milho cozido. Não posso dizer
quanto tempo icamos lá, mas pareceu um longo tempo. Sofremos muito por conta da
falta de água, nos foi negado tudo o que precisávamos. Um grande número de
escravos morreu na viagem. Havia um pobre homem, ficou tão desesperado pela falta
de água que tentou roubar uma faca do homem branco. Ele foi levado para o convés e
nunca soube o que aconteceu com ele. Eu suponho que tenha sido foi lançado ao mar.
Quando qualquer um de nós se tornava arredio à forma como estávamos sendo
tratados, nossa carne era cortada com uma faca, e depois esfregada compimenta ou
vinagre. O sofrimento foi nosso, não tivemos ninguém para compartilhar nossos
problemas, ninguém para cuidar de nós, ou até mesmo para falar uma palavra de
conforto. Alguns foram atirados ao mar ainda com vida. Apenas duas vezes durante a
viagem fomos autorizados a ir ao convés para nos lavar - uma vez no alto-mar e outra
antes de entrar no porto.
Chegamos em Pernambuco, América do Sul, no início da manhã. Durante todo aquele
dia não comemos ou bebemos nada. Pousamos a algumas milhas da cidade, na casa
de um fazendeiro, que era usada como uma espécie de mercado de escravos. O
fazendeiro tinha um grande número de escravos e lá o vi usar o chicote contra um
menino, o que causou uma profunda impressão em minha mente, como é claro,
imaginei que seria meu destino dentro em breve! Muito em breve, infelizmente, meus
medos se tornaram realidade.
Quando cheguei à praia, me senti aliviado por poder respirar ar puro. Alguns dos
escravos a bordo podiam falar português. Eles estavam vivendo na costa com famílias
portuguesas. Eles nos ajudaram a traduzir o que era dito. Não foram colocados no
porão com o resto de nós, porém, desciam ocasionalmente para nos dizer uma coisa
ou outra.
Permaneci no mercado de escravos, um ou dois dias, antes de ser vendido a um
traficante de escravos na cidade, que, mais uma vez, me vendeu a outro homem, um
padeiro.
Quando um navio negreiro chega, a notícia se espalha como fogo selvagem, e
aparecem todos aqueles que estão interessados nas mercadorias vivas, selecionam
aqueles que mais se adequam às suas finalidades. Compram os escravos como se
fossem bois ou cavalos; mas se não encontram o tipo desejado, fazem uma
encomenda para a próxima vez que o navio entrar no porto.
03/07/2017 Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com relato de sofrimento - Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/273252-10 3/4
Eu tinha planejado, durante minha passagem pelo navio negreiro, conseguir um pouco
de conhecimento do idioma português. Como fui comprado por um português,
conseguia compreendê-lo. Sua família era formada por ele, esposa, dois filhos e uma
mulher aparentada. Tinha outros quatro escravos, assim como eu. Era um católico
romano e ia ao culto familiar regularmente duas vezes por dia. Fomos ensinados a
cantar algumas palavras que não sabíamos o significado. Também tivemos que fazer o
sinal da cruz várias vezes. Enquanto isso, meu mestre segurava um chicote na mão e
aqueles que apresentavam sinais de desatenção ou sonolência eram imediatamente
atingidos.
Fui logo colocado para fazer trabalhos forçados. Na época, este homem que me
comprou estava construindo uma casa e teve que buscar pedras do outro lado do rio, a
uma distância considerável, e eu era obrigado a levá-las. Fui obrigado a suportar este
fardo por um quarto de milha, pelo menos, até onde o barco estava. Às vezes, a pedra
pesava tanto em minha cabeça que eu era obrigado a derrubá-lo no chão, e então, o
meu mestre, irritado, me chamava de cão. Nesta hora eu pensava que, na verdade, o
cão era ele.
Logo melhorei o meu conhecimento do idioma português e fui enviado para vender pão
para o meu mestre, primeiro dando voltas pela cidade, e, em seguida, pelas
redondezas. Sendo bem honesto e perseverante, eu geralmente vendia para fora, mas,
às vezes, não era tão bem-sucedido, e, em seguida, o chicote era meu destino.
Meus companheiros de escravidão não eram tão firmes como eu estava sendo, deste
modo, não eram tão rentáveis para o meu mestre. Tentei me aproveitar disso para
melhorar minha situação, mas não adiantou, descobri que tinha um tirano para servir,
nada pareceu satisfazê-lo, por isso, comecei a beber como eles.
As coisas continuaram cada vez piores. Tentei fugir, mas logo fui capturado, amarrado
e levado de volta. Um dia, quando fui enviado para vender pão, como de costume, só
vendi uma pequena quantidade. O dinheiro que peguei bastou para a cachaça; bebi e
fui para casa bem bêbado.
Quando meu mestre descobriu, fui espancado severamente. Eu disse que ele não
deveria me chicotear mais, e ele ficou bastante irritado; pensei em matá-lo. Eu preferia
morrer do que viver para ser um escravo. Então, corri até o rio e me joguei. Fui visto
por algumas pessoas que estavam em um barco e salvo do afogamento. Agradeci a
Deus que a minha vida tinha sido preservada e que nenhum mal ato tivesse sido
consumado. 
Após ser resgatado, fui levado à casa de meu mestre, que amarrou minhas mãos,
colocou meus pés juntos e me chicoteouimpiedosamente, bateu-me na cabeça e rosto
com um pedaço de pau pesado, me sacudiu pelo pescoço. As cicatrizes do tratamento
selvagem são visíveis desde então, e permanecerão assim enquanto eu viver.
Este relato não é nem uma mínima parte do sofrimento cruel que suportei. Eu poderia
contar ocorrências que iriam congelar teu sangue jovem, horrorizar a tua alma e isso
seria apenas uma das histórias promovidas pelos horrores do sistema escravocrata.
03/07/2017 Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com relato de sofrimento - Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/273252-10 4/4
Fui novamente vendido e o homem que me comprou era igualmente muito cruel. Ele
comprou duas mulheres na mesma época. Uma delas era uma menina muito bonita e
ele a tratava com uma barbárie chocante.
Depois de algumas semanas, ele me despachou para o Rio Janeiro, onde fiquei duas
semanas e fui novamente vendido ao capitão de um navio que era o que se pode
chamar de "um caso difícil." Logo fui posto em minhas novas atividades, a lavagem do
navio, a limpeza das facas e garfos. Como me familiarizei com a tripulação e o resto
dos escravos, e nos dávamos muito bem, em pouco tempo, fui promovido para o cargo
de sub-intendente. Fiz tudo ao meu alcance para agradar a meu mestre, o capitão, e
ele, em troca, colocou confiança em mim. 
Nossa primeira viagem foi para o Rio Grande; a viagem em si teria sido agradável se
eu não tivesse sofrido com a doença do mar. O porto de Rio Grande é bastante
superficial, e, ao entrar, atingimos o solo, tivemos grande dificuldade em fazer o barco
flutuar novamente. Finalmente conseguimos, trocamos nossa carga de carne seca.
Fomos então para Rio Janeiro. Voltamos novamente para o Rio Grande e trocamos
nossa carga de óleo de baleia. 
Eu era apenas um escravo. Me sentia sem esperança ou perspectiva, sem amigos ou
liberdade. Não tinha esperanças neste mundo e não sabia nada do próximo; tudo era
escuridão, tudo era medo. O presente e o futuro eram como um só, nenhuma marca de
divisão! Labuta!! Crueldade! 
Tayguara Ribeiro, do Portal Vermelho

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