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Brasília – 2013 
Versão 1.0 
Lúcio Valente
 
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2 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Olá amigos 
Meu nome é Lúcio Valente. Sou Delegado de Polícia da PCDF. Ministro aulas de Direito Penal e de 
Processo Penal em cursos preparatórios de Brasília-DF, Goiânia-GO e Palmas-TO. 
Minha missão durante nosso curso é trabalhar muito para facilitar a sua aprovação. Vou ser teu 
companheiro nessa caminhada e quero que confie em minha didática e metodologia. 
Todas as aulas são preparadas de uma forma em que você tenha a exata sensação de está-las assistindo 
pessoalmente. Para isso, eu literalmente degravei o conteúdo das minhas aulas presenciais. Ou seja, procurei descrever 
todos os exemplos de forma muito próxima ao que apresento em sala de aula. 
O material foi completamente revisto, ampliado e atualizado com os mais recentes posicionamentos 
jurisprudenciais e doutrinários. 
O aluno perceberá que as aulas partem de conhecimentos básicos da matéria e busca aprofundamentos 
pontuais e necessários, sem se perder em temas não comumente cobrados pelas bancas. 
Antes de iniciar a aula gostaria de esclarecer algumas coisas: 
Não administre dúvidas! Claro que pode existir um ponto ou outro da matéria que não possa ter ficado 
claro pra você. Por isso, espero que você me encaminhe todas elas ao fórum; 
Direito Penal aprende-se pelos exemplos! Preste atenção aos conceitos, mas guarde os exemplos em seu 
coração. A alma das minhas aulas está em meus exemplos! 
Acompanhe as aulas tendo um Código Penal (CP) em mãos. Não precisa comprá-lo, basta acessar: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil/Decreto-Lei/Del2848compilado.htm 
PROGRAMA DAS AULAS  
AULA 0: Infração penal - elementos, espécies. Sujeito ativo e sujeito passivo da infração penal; Fato Típico: Conduta ativa e omissiva; 
AULA 1: Fato Típico: Dolo e Culpa; Resultado; 
AULA 2: Fato Típico: Nexo de Causalidade e tipicidade em sentido estrito; 
AULA 3: Erro de tipo e Ilicitude; 
AULA 4: Culpabilidade (imputabilidade está dentro do estudo de Culpabilidade); 
AULA 5: Concurso de Pessoas e Princípios Constitucionais 
AULA 6: A Lei penal no tempo e no espaço; Punibilidade. 
AULA 7: Crimes Contra a Pessoa ; 
AULA 8: Crimes Contra o Patrimônio; 
AULA 9: Crimes Contra a Administração Pública praticados por Funcionários Públicos; 
AULA 10: Crimes Contra a Administração Pública. 
 
Preparado? Então vamos lá! 
 
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3 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
AULA ZERO 
O DIREITO PENAL 
1. Introdução 
 
Dois jovens rapazes saem do local onde moram na periferia de Brasília. Um deles, com 19 anos de idade, 
portando uma pistola; o outro, com 16 anos de idade, portando um revólver. 
Ambos se dirigem a um posto de combustíveis, localizado em Taguatinga-DF, com a intenção de assaltá-
lo. É data próxima ao Natal, e os bandidos querem aproveitar o maior movimento da data. Quando chegam ao local, por 
fatídica coincidência, ali também chega outro rapaz, a quem vou dar o nome de José. 
José estava no Distrito Federal há três anos, e aqui estava a convite de um primo que era borracheiro no 
mesmo posto de combustíveis em que ocorrem os acontecimentos. José, assim como seu primo, veio de outra unidade 
da federação em busca de melhores condições de vida. 
José, já no Distrito Federal, frequentou um curso profissionalizante de instalador de sons automotivos e 
passou a trabalhar na área. Como seu trabalho era muito bom e como José era muito inventivo, começou a prestar 
serviços para pessoas que faziam competições desse tipo. 
José começou a ganhar algum dinheiro. Pelo menos, o suficiente para que ele comprasse uma pequena 
casa em um bairro periférico de Brasília. Pretendia, como comentara com amigos, trazer sua esposa e seu filho pequeno 
que estavam em seu estado de origem. 
Com o dinheiro que ganhava conseguiu, além disso, um financiamento bancário de um carro tipo pick up, 
no qual instalou vários acessórios. Montou, do mesmo modo, um equipamento de som digno de ganhar qualquer 
competição que eventualmente participasse. 
Por uma dessas coincidências da vida, José estava no posto de combustíveis ao mesmo tempo em que ali 
chegavam os dois assaltantes. José apenas queria mostrar o resultado da instalação dos equipamentos ao primo 
borracheiro. Ocorre que, quando os dois assaltantes viram o carro, mudaram o foco de sua empreitada criminosa. 
Decidiram, assim, assaltar José e levar o veículo. É o que os bandidos chamam de cavalo doido, quer dizer, fora do 
planejamento criminoso. 
Ao abordarem a vítima, sem que esta demonstrasse qualquer reação, um dos rapazes efetuou vários 
disparos que acabaram por atingi-la, levando-a à morte. 
Esse fato verídico tem se tornado comum no dia-a-dia das grandes cidades brasileiras. 
 
O crime, como se vê, não é primariamente um fenômeno jurídico. É, antes de tudo, um fenômeno social. 
O que a ciência do Direito faz é transformar esse fato social em um fato com relevância jurídica. Da mesma forma, 
 
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4 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
o casamento é um fato da vida real, mas que o Direito regula, transformando aquilo que é apenas um fato social em um 
fato jurídico. 
O crime é, enfim, um fenômeno social que o Direito tratou de regular, ou seja, tratou de estabelecer um 
sistema científico para que seja possível a imputação jurídico-penal (atribuição da responsabilidade penal) a determinada 
pessoa. 
No entanto, nem sempre foi assim. Até a primeira teoria jurídica do crime, surgida por volta de 1900 na 
Alemanha (Sistema Liszt/Beling), não existiam métodos jurídicos para correta análise de um fato social danoso como esse 
que relatei acima. Então, o Juiz “A” poderia ter um entendimento sobre o caso completamente diferente de um Juiz “B”. 
Isso dependeria das convicções (filosóficas, sociológicas etc.) de cada um deles. 
Naquele tempo, o Direito Penal (e o próprio Direito como um todo) não apresentava método próprio de 
estudo que o distinguisse de outras ciências. Não existia um ponto de vista puramente jurídico, ou seja, a análise do fato 
sempre levava em considerações ponderações do tipo: por que o autor matou? (consideração psicológica); quais são as 
circunstâncias sociais que levam um indivíduo a praticar o crime? (consideração sociológica); quais são as características 
inatas de um criminoso? (critério biológico) etc. 
Tais ponderações são muito importantes em determinados momentos do estudo do fenômeno infracional 
(no cálculo da pena, por exemplo), mas afasta o aplicador do Direito Penal de critérios lógicos e formais da solução do 
problema estudado. E qual é o problema a ser estudado pelo aplicador da lei penal? Simples assim: o agente praticou um 
fato típico (leia-se, é um fato descrito na lei penal)? Esse fato típico é contrário ao direito (leia-se, é ilícito)? Em sendo 
contrário ao direito, é culpável ao autor (leia-se, há reprovabilidade)? 
Achando respostas positivas para as questões acima, o aplicador da lei penal continua seu 
questionamento: considerando que estamos diante de um fato típico, ilícito e culpável, há possibilidade de se aplicar a 
punição respectiva ao autor (leia-se é punível)? É possível que a pena já tenha sido prescrita (“caducada”), como 
exemplo, o que afastaria a punibilidade etc. 
O que vamos estudar são justamente as etapas que devem ser analisadas para que, ao final, possa-se 
afirmar que o indivíduo cometera uma infração penal. E, mais do que isso, se poderá ser punido pela infração cometida. 
Trata-se de um olhar jurídico (científico) e não apenas sociológico, filosófico ou biológicodo fenômeno estudado. 
Antes de adentrarmos na teoria do crime, preciso que você entenda o que estamos estudando. Ou melhor, 
qual é o objeto do nosso estudo? 
 
2. Conceito e objeto do Direito Penal 
Bom, nos propusemos a estudar o Direito Penal. O que seria isso então? 
O Direito Penal é a ciência jurídica que estuda as infrações penais. 
Podemos afirmar, dessa forma, que o Direito Penal é um campo da ciência que tem como objeto de 
estudo as infrações (violações) às leis penais. Resta-nos decifrar o que seria, exatamente, “infração penal”. 
 
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5 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
3. Infração Penal 
 
No Brasil, existem duas maneiras de se infringir uma lei penal (sistema dicotômico). Digo, existem duas 
possibilidades de se cometer uma infração penal. A primeira forma de se infringir a lei penal é através da prática de um 
Crime (sinônimo de Delito); a outra forma de infração penal é a Contravenção Penal. 
Resumindo, podemos dizer que Crime e Contravenção são espécies do gênero Infração Penal. 
 
 
4. Diferenças entre Crime (Delito) e Contravenção Penal: 
 
Uma ótima forma de se estabelecer distinções entre dois objetos é, primeiramente, descobrindo-se o que 
há de comum em ambos. Se eu quiser distinguir “laranja” de “tangerina”, preciso saber, antes de qualquer coisa, que se 
trata de duas frutas. Sabemos, nesse passo, que o Crime e a Contravenção possuem algo em comum. Ambas são formas 
de infração penal. 
Sabendo que laranja é uma fruta e que tangerina também é uma fruta, posso distingui-las, basicamente, 
de duas formas: 1º aspecto visual: laranjas têm aparência diferente de tangerinas; 2º pelo sabor: ao provar, posso 
distinguir o gosto das duas frutas. 
Quando trato de Crime e Contravenção, posso usar processo semelhante. Inicialmente, aprendemos que 
ambas são espécies de infrações penais. Agora resta-nos apontar as diferenças existentes entre elas: 
1º Diferença: legislativa 
Não há como saber se uma conduta é criminosa ou contravencional (contravenção penal) sem conhecer a 
“letra da lei”. A decisão sobre um fato ser considerado crime ou contravenção é de quem fez a lei, leia-se, do legislador. 
Explico: a primeira grande diferença entre as duas infrações penais é o local onde estão 
documentadas. 
 É fácil, veja só: 
Infrações 
Penais
Crimes 
(Delitos)
Contraveções 
Penais
 
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6 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Os Crimes estão previstos no Código Penal (Decreto-Lei n.o 2.848/1940), bem como nas Leis Penais 
Especiais ( também chamadas de Leis Penais Extravagantes). Como exemplos dessas últimas, temos: crimes de drogas 
(Lei 11.343/2006); crimes de arma de fogo (Lei 10.826/03); crimes ambientais (Lei 9.605/98); crimes de trânsito ( Lei 
9.503/98), entre muitos outros. 
As Contravenções Penais estão previstas em uma lei específica, o Decreto-Lei n.º 3.688/1941. Essa lei 
tem o nome de Lei de Contravenções Penais. 
O legislador, por meio de lei federal (princípio da legalidade), pode criar novos tipos penais (leiam-se, 
novos crimes), revogá-los, alterá-los. Pode, além disso, transformar uma Contravenção em Crime. É uma decisão 
meramente política. 
Existem situações que antes eram consideradas Contravenções, mas por decisão do legislador passaram 
a ser Crime. O porte de arma de fogo, por exemplo, era considerado contravenção e hoje, pelo Estatuto do 
Desarmamento, é considerado crime. Quero dizer com isso que não existe uma diferença conceitual entre crime e 
contravenção. 
Interessante que, falando da Lei de Contravenções, ela costuma tratar de situações muito menos graves 
do que o Código Penal. É por isso que o grande penalista brasileiro Nelson Hungria apelidava a Contravenção Penal de 
“crime anão”. 
 
 
2ª Diferença: Crimes são, em regra, mais graves. 
Uma segunda diferença, então, entre crime e contravenção seria o fato de que os crimes costumam ser 
mais graves do que as contravenções e até por isso as penas dos crimes são, em regra, mais pesadas. 
Imagine que você esteja assistindo a uma peça de teatro. Uma peça de Shakespeare, por exemplo. No 
meio do espetáculo um sujeito começa a conversar ao celular atrapalhando a interpretação dos atores. Acreditem ou não, 
mas existe uma contravenção penal nessa conduta. Veja só: 
CRIMES
Código Penal
Leis Penais 
Especiais
CONTRAVENÇÕES
Lei de 
Contraveções 
Penais
 
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7 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Art. 40. Provocar tumulto ou portar-se de modo inconveniente ou desrespeitoso, em solenidade ou ato 
oficial, em assembléia ou espetáculo público, se o fato não constitui infração penal mais grave. Pena – prisão simples, 
de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis. 
Seria um exagero considerar a situação acima criminosa. A reprimenda prevista para a Contravenção já é 
mais do que suficiente para prevenir e refrear a conduta. 
Muitos penalistas modernos, por isso, defendem que a Lei de Contravenções deveria ser revogada, uma 
vez que o Direito Penal não poderia se ocupar de situações de pequena monta, de pouca relevância para a vida em 
sociedade. 
3ª Diferença: espécies de penas 
Em decorrência da segunda diferença acima, é natural que a qualidade das penas cominadas (atribuídas) 
a Crimes seja diferente da aplicada às Contravenções. Os Crimes são apenados com reclusão, detenção e multa. As 
Contravenções com prisão simples e multa. 
FCC/2007/TJ-PE/Técnico Judiciário) Às contravenções é cominada, pela lei, a pena de reclusão ou 
de detenção e multa, esta última sempre alternativa ou cumulativa com aquela. 
Item falso 
 
 
 
 
Qual a diferença entre eles? 
CRIMES
Reclusão
Detenção
Multa
CONTRAVENÇÕES
Prisão 
Simples
Multa
 
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8 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
a. Reclusão: o agente pode iniciar o cumprimento da pena em regime fechado, semi-aberto ou aberto, 
dependendo da pena concreta; 
b. Detenção: o agente pode iniciar o cumprimento em regime semi-aberto ou aberto. Caso descumpra 
as regras de tais regimes, pode regredir para o regime fechado, mas nunca iniciar nesse regime; 
c. Prisão Simples: Prisão simples é a pena cumprida sem rigor penitenciário em estabelecimento 
especial ou seção especial de prisão comum, em regime aberto ou semi-aberto. Trata-se de pena aplicada em face de 
contravenção penal (Lei das Contravenções Penais - Decreto Lei nº3.688/1941). Somente são admitidos os regimes 
aberto e semi-aberto. É vedado o emprego do regime fechado para o cumprimento de pena por contravenção 
penal, mesmo em caso de regressão. 
4ª Diferença: não se admite tentativa nas Contravenções Penais 
A quarta diferença é que os crimes podem admitir tentativa, as contravenções nunca admitem 
tentativa. 
Eu digo que os crimes podem admitir tentativa porque existem situações que não se admite tentativa em 
crime. Vamos ter uma aula específica sobre o tema, então vou deixar para aprofundar assunto em momento oportuno. 
Por enquanto, é suficiente que você saiba que as contravenções penais nunca admitem a forma tentada, pois a Lei de 
Contravenções expressamente a proíbe (art. 4º). 
 
 
5ª Diferença: princípio da extraterritorialidade 
O Código Penal prevê, como regra, o princípio da territorialidade (art. 5º, caput), determinando que os 
crimes praticados em território nacional devam aqui ser julgados. Permite, no entanto, que, em determinadas 
circunstâncias, crimes cometidosno estrangeiro sejam também julgados no Brasil (princípio da extraterritorialidade, art. 7º 
do CP) (ex.: crime contra a vida do Presidente da República do Brasil ocorrido no estrangeiro). Em resumo, o Brasil aplica 
como regra o princípio da territorialidade (crimes cometidos no Brasil, julgamento no Brasil), mas permite a 
extraterritorialidade (crimes cometidos no estrangeiro, julgamento no Brasil). 
A Lei de Contravenções, de outra forma, só admite a aplicação do princípio da territorialidade, não 
punindo condutas ocorridas fora dos limites territoriais brasileiros. 
CRIMES
podem 
admitir 
tentativa
CONTRAVENÇÕES
nunca 
admitem 
tentativa
 
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9 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
ESTUDAMOS ATÉ AQUI QUE: 
1. No Brasil há duas espécies de infração penal: crime (ou delito) e contravenção penal; 
2. Os crimes estão previstos no Código Penal e nas Leis Penais Especiais, como na Lei de Drogas 
(Lei 11.343/2006); 
3. As contravenções estão previstas na Lei de Contravenções Penais; 
4. Em regra, crimes são mais graves que contravenções; 
5. O crime admite reclusão, detenção e multa; 
6. A contravenção só admite prisão simples e multa; 
7. Não existe possibilidade de tentativa em contravenção penal; 
8. Aos crimes aplica-se o princípio da extraterritorialidade. 
 
 
 
Teoria Geral do Crime 
1. Introdução 
O crime, como já dito, é um fenômeno social, ou seja, fato de natureza moral ou social, regido por leis 
especiais. Um sujeito, como exemplo, pretendendo matar um desafeto, saca uma arma de fogo e dispara contra a vítima 
ceifando-lhe a vida. 
Não podemos fracionar em elementos o “fenômeno crime” no sentido psicológico ou sociológico, assim 
como não podemos fracionar a violência, o medo, as paixões. O delito, no sentido que acabamos de expor, não interessa 
ao estudioso do Direito, mas sim ao sociólogo, ao filósofo, ao psicólogo, certo que pode ser objeto das mais variadas 
ciências, como a criminologia, política criminal, sociologia, medicina legal. Neste ponto, cabe-nos identificar corretamente 
quais desses fenômenos são jurídico-penais e quais pertencem a ciências outras. 
 
 
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10 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Dessa forma, devemos admitir a Ciência do Direito Penal como autônoma, com finalidades, objetos e 
métodos próprios, uma ciência com verdadeiro caráter dogmático e cartesiano. As demais ciências criminais (criminologia, 
política criminal) têm acentuado caráter causal-explicativo, baseiam-se exclusivamente na experiência, como única fonte 
de conhecimentos (empirismo). A ciência do Direito Penal é uma ciência de aplicação prática e o penalista busca 
métodos, técnica e fórmulas para solução de problemas práticos. 
Partindo deste prisma, caso estivéssemos em uma aula de anatomia humana em um curso de Medicina, 
certamente o Professor dividira pedagogicamente as partes do corpo humano para melhor apreensão da matéria 
(cérebro, sistemas funções etc.). No ensino fundamental aprendemos a dividi-lo em cabeça, tronco e membros. Certo é 
que não podemos conceber um corpo perfeito sem cabeça, ou sem tronco. Podemos até concebê-lo sem membros, mas 
estaríamos diante de um corpo imperfeito. O cientista do Direito Penal adota método parecido para o estudo jurídico (e 
não social) do fato delituoso. 
A teoria do delito é uma construção teórica, que nos proporciona o caminho lógico para averiguar 
se há delito em cada caso concreto. 
Quando o operador do Direito (o Delegado, o Juiz, o Promotor, o Advogado etc.) se depara com um fato, 
quais são as etapas que ele deve seguir para constatar a realização de um ilícito com relevância penal? 
A resposta nos é dada pela Teoria Geral do Crime, que se ocupa, justamente, da exposição sistemática 
dos requisitos (ou fundamentos) necessários para a configuração do crime. 
O que eu quero dizer é que existe um processo, passo-a-passo, para se determinar se uma determinada 
conduta humana pode ou não ser considerada crime. “Matar Alguém” só será considerado crime, por exemplo, se todas 
as etapas forem preenchidas. E quais seriam essas etapas (ou requisitos)? É isso que vamos estudar a partir de agora. 
Considerando o estágio atual da Teoria do Delito, teremos como base de estudo a Teoria Finalista 
Tripartida de Hans Welzel. Teoria tripartida porque é divida em três partes: o crime como um fato típico, ilícito e 
culpável. 
Devo adverti-lo, no entanto, que os finalistas admitem outras estruturações do crime. Há concepções 
finalistas que dividem o crime em duas partes (teorias bipartidas). Na Alemanha, por exemplo, há inúmeros defensores da 
denominada concepção total do injusto (tipo global de injusto), em que o fato típico e a ilicitude se fundem em uma só 
realidade (teoria dos elementos negativos do tipo). No Brasil, há defensores de outra forma de teoria bipartida, 
concebendo a separação de tipicidade e ilicitude, mas excluindo a culpabilidade, mantendo-a como pressuposto para 
aplicação de pena (por todos, Damásio de Jesus). 
Por questões didáticas, elegi a sistema tripartido para abordagem em nossas aulas. Em momento próprio, 
tratarei da evolução dogmática da teoria do crime e nos aprofundaremos em outros sistemas existentes. 
Assim, a concepção que adotaremos será a seguinte: 
1º Fato típico: a verificação do enquadramento de determinada conduta humana em um modelo de 
conduta proibida (ex.: matar alguém); 
 
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11 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
2º Ilicitude: estudo de regras permissivas que excluem a contradição da ação típica com o ordenamento 
jurídico (ex.: matar alguém em legítima defesa); 
3º Culpabilidade: verificação da reprovabilidade ou não da conduta ilícita do agente (ex.: matar alguém 
em estado de alucinação mental). 
 
2. Conceito analítico (segundo a teoria finalista tripartida) 
Lembro-me que nas aulas de biologia do ensino fundamental estudamos o corpo humano. Lembro-me, 
ainda, que a professora Mariquinha dividiu o corpo humano em três partes: cabeça, tronco e membros. Será que 
podemos dividir o corpo humano de fato? Claro que não. O corpo humano é um todo indivisível. 
Existe corpo humano perfeito sem cabeça, tronco ou membros? Claro que não. O que a professora 
Mariquinha fez foi dividir o nosso estudo (e não o corpo) em partes. E para que ela fez isso? Por óbvio, para facilitar a 
abordagem da matéria. 
Assim como o corpo humano deve ser dividido pelo anatomista para seu estudo, assim o faremos com os 
elementos do crime. Para nós, o crime é um fato típico (cabeça), ilícito (tronco) e culpável (membros). Observe o quadro a 
seguir: 
 
Crime é fato típico + antijurídico + culpável. 
 
 Cabeça tronco membros 
 
 
Ao mesmo tempo, vamos dar uma olhadela geral na estrutura do conceito analítico de crime. Perceba que 
cada elemento (fato típico, ilicitude e culpabilidade) possui subcomponentes que devem ser memorizados. 
 
 
 
 
 
 
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Se você conhece a estrutura da teoria tripartida do crime (cabeça, tronco e membros), vai ficar muito mais 
fácil caminhar em terreno firme. 
Pois então, já memorizou os elementos do crime? Não? Então, retorne e gaste alguns minutos lendo a 
tabela acima antes de continuar. 
Agora, resolva as seguintes questões de concurso: 
(CESPE/PF/2009) São elementos do fato típico: conduta, resultado, nexo de causalidade, tipicidade 
eculpabilidade, de forma que, ausente qualquer dos elementos, a conduta será atípica para o direito penal, mas 
poderá ser valorada pelos outros ramos do direito, podendo configurar, por exemplo, ilícito administrativo. 
Item falso. 
 
(CESPE/2010/TRE-BA/Analista Judiciário) A imputabilidade penal é um dos elementos que 
constituem a culpabilidade e não integra a tipicidade. 
Item verdadeiro. 
 
2.1 Do Fato Típico 
De acordo com a estrutura acima apresentada, o crime tem como primeiro elemento o fato típico e como 
primeiro subelemento a conduta humana. Tudo parte da conduta de um ser humano. Sim, porque o Direito Penal nada 
fato típico
conduta
resultado
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
exercício regular do 
direito
estrito cumprimento 
do dever legal
culpabilidade
imputabilidade 
potencial consciência  da 
ilicitude
exigibilidade de 
conduta diversa
 
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13 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
mais é do que um ramo do Direito e, portanto, regula a vida de pessoas em sociedade. Sem conduta humana, não há 
qualquer motivo para, sequer, a existência do Direito. 
 
2.1.1 Conduta 
 
Fato típico 
 
Lembre-se que o Direito Penal é uma ciência e, por isso, apresenta seus próprios conceitos. Preciso dizer 
isso porque é muito importante que você entenda as concepções corretas para os termos que utilizaremos. 
Como o Direito Penal concebe o termo “conduta”? 
Conduta para o Direito Penal é a ação ou omissão humana (a) consciente (b) e voluntária (c) voltada 
para uma finalidade (d). 
Temos, então, os seguintes elementos dentro desse conceito apresentado: 
. 
 
 a) Ação ou omissão deve ser humana (praticada por ser humano) 
O modelo de conduta que iremos estudar (modelo finalista) foi desenvolvido por Welzel, com contribuições 
de Maurach, Kaufmann, entre outros. Na concepção finalista, o ser humano age sempre psicologicamente com 
fato típico
conduta
ilicitude culpabilidade
CONDUTA
AÇÃO OU 
OMISSÃO 
HUMANA
CONSCIENTE
FINALIDADE
VONTADE
 
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14 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
capacidade potencial de calcular as consequências de seus atos. A conduta humana não pode ser cega, justamente 
porque temos a habilidade de antever os possíveis sequelas que podem advir de nossos comportamentos. 
Quando determinada pessoa atropela um pedestre por ter desrespeitado o semáforo, pode ser implicado 
pelo resultado, justamente porque qualquer um de nós poderia antever, pelo menos, a possibilidade do saldo danoso. 
A capacidade de antecipação das consequências de suas ações é atributo que somente o ser humano 
possui. É por isso que somente o ser humano pratica conduta penalmente relevante. Nesse sentido, animais 
irracionais não têm conduta, por exemplo. Animais não “agridem” (mas podem ser utilizados como verdadeiras armas por 
seus donos). A “conduta” do cachorro de morder alguém só terá relevância para o Direito Penal se por trás desse ataque 
houver um ser humano que, por exemplo, o provocou ou o esqueceu solto. A conduta foi do homem e não do animal. 
Mas, Valente, se o crime exige uma conduta de ser humano, como pode uma pessoa jurídica (criada 
pelo direito, como uma empresa, por exemplo) cometer crimes? 
Vamos fazer igual ao esquartejador. Vamos por partes! 
 É verdade sim que a pessoa jurídica não pode praticar condutas, mas pode responder criminalmente por 
um fato. 
Como isso é possível? Calma, eu explico. Mas para isso vamos nos lembrar das aulas de Direito 
Constitucional. 
Como vimos, somente o ser humano pode praticar condutas com relevância para o Direito Penal. Pessoa 
Jurídica não é ser humano (óbvio), mas responde por crime porque a Constituição Federal assim permite. 
Não entendeu? Tudo bem, olha só! 
Lembra-se do conceito de Poder Constituinte Originário? 
O poder constituinte originário é aquele que tem a prerrogativa de criar uma nova Constituição de um 
Estado. Quando a Assembleia Nacional Constituinte promulgou a nossa Constituição de 1988, achou por bem colocar ali 
duas situações em que pessoas jurídicas poderiam responder criminalmente por um determinado fato. 
E o constituinte poderia ter feito isso? 
Poderia sim, uma vez que uma das características do poder que elabora uma nova constituição é a 
liberdade total para fazê-lo. Lembre-se que o poder constituinte é “originário, “incondicionado” e “ilimitado”. 
Então, hoje, temos a seguinte situação: 
Pessoa Jurídica pratica crime? 
Resposta: para a Teoria do Crime, não. Para a nossa Constituição da República de 1988, sim. 
E o que você vai marcar em sua prova? 
Ora, o que está na Constituição Federal, pois é assim que o CESPE, por exemplo, tem cobrado. 
 
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15 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Como vimos, então, pessoa jurídica pratica crime, uma vez que a Constituição da República assim 
permite. Essa permissão ocorre em duas situações: 
1ª hipótese: artigo 173, § 5º, CR. 
 “173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica 
pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse 
coletivo, conforme definidos em lei.” 
(...) 
“§ 5º - A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, 
estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos 
praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular.” 
Conforme a norma constitucional acima apresentada, a primeira hipótese de atribuição de 
responsabilidade penal à pessoa jurídica seria nos crimes contra a ordem econômica e financeira e contra a economia 
popular. 
Essa situação ainda não pode ser aplicada porque, apesar de estar previsto na CR que pessoa jurídica 
pode responder por crimes contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular, ainda não existe 
uma lei que tenha complementado essa possibilidade na prática. Quero dizer que tem que existir uma lei 
infraconstitucional (inferior à Constituição) que instrumentalize essa hipótese prevista na Constituição Federal. 
Com efeito, a lei nº 8.137/90 (crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de 
consumo), a Lei nº 1521/51 (Crimes contra a economia popular) e Lei nº7492/86 (Crimes contra o sistema financeiro 
nacional) nada mencionam sobre responsabilidade penal da pessoa jurídica. 
2ª hipótese: art. 225, § 3º, CR. 
“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e 
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo 
para as presentes e futuras gerações.” 
(...) 
“§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, 
pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os 
danos causados.” 
A segunda hipótese constitucional está inserida no texto acima e está relacionada aos crimes ambientais. 
Ao contrário da primeira hipótese, o art. 225§ 3º da CR foi regulamentado pela Lei de Crimes Ambientais (Lei 9605/98). 
No Brasil, portanto, pessoas jurídicas podem responder criminalmente por crimes contra o meio-ambiente, 
senão vejamos: 
 
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16 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
“(Art. 3º, Lei 93605/98) As pessoas jurídicas serãoresponsabilizadas administrativa, civil e penalmente 
conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou 
contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade.” 
“Parágrafo único. A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, 
autoras, coautoras ou partícipes do mesmo fato.” 
 
 
 
Muito importante esse parágrafo único acima. Para solucionar o que eu falei sobre a impossibilidade da 
pessoa jurídica praticar conduta foi que a Lei Ambiental determinou que as pessoas físicas responsáveis pela pessoa 
jurídica em questão responderão em coautoria ou participação pelo crime desta última. 
O legislador sabe que quem praticou, de fato, a conduta criminosa foi uma pessoa física ou um grupo de 
pessoas físicas em nome da pessoa jurídica, simplesmente porque pessoas jurídicas não praticam condutas, como já 
dissemos. Explico, foi um funcionário da empresa que determinou que fossem jogados resíduos em um rio, agindo em 
nome da empresa e em seu benefício. 
Quem praticou o crime ambiental? O Funcionário em coautoria com a pessoa jurídica. É o que a doutrina 
denomina de TEORIA DA DUPLA IMPUTAÇÃO. 
Por essa teoria, sempre que uma pessoa jurídica responder por um crime ambiental, com ela 
responderá uma pessoa física. 
O STJ, por sua vez, já decidiu que se admite a responsabilidade penal da pessoa jurídica em crimes 
ambientais desde que haja a imputação simultânea do ente moral e da pessoa física que atua em seu nome ou em seu 
benefício, uma vez que "não se pode compreender a responsabilização do ente moral dissociada da atuação de uma 
pessoa física, que age com elemento subjetivo próprio” (STJ, REsp 889.528/SC, Rel. Ministro FELIX FISCHER, DJ 
18/06/2007). 
Previsão 
Constitucional para 
responsabilização 
criminal da Pessoa 
Jurídica
Crimes Ambientais Crimes Financeiros
 
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17 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Essa teoria se justifica porque, muitas vezes, as decisões de uma pessoa jurídica são impessoais, 
dependendo do tamanho da empresa. É por esse motivo que a lei diz que a responsabilidade da pessoa jurídica vai 
ocorrer sempre que a infração for cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão 
colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. 
 
(CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 2009) Com relação à responsabilidade penal da pessoa jurídica, 
tem-se adotado a teoria da dupla imputação, segundo a qual se responsabiliza não somente a pessoa jurídica, mas 
também a pessoa física que agiu em nome do ente coletivo, ou seja, há a possibilidade de se responsabilizar 
simultaneamente a pessoa física e a jurídica. 
Item verdadeiro. 
 
(CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) A pessoa jurídica pode ser sujeito ativo de crime, 
dependendo da sua responsabilização penal, consoante entendimento do STJ, da existência da intervenção de uma 
pessoa física que atue em nome e em benefício do ente moral. 
Item verdadeiro. 
 
 
b) a conduta humana deve ser consciente 
 Não existe conduta e, em consequência crime, para quem está inconsciente. Por exemplo, em estado de 
sonambulismo, hipnose, coma, sono profundo etc. 
Assisti nos noticiários um fato interessante. Um sujeito, na Inglaterra, hipnotizava a funcionária de um 
supermercado para fazer com que ela lhe entregasse todo o dinheiro de seu caixa. Perceba que, se isso for verdade 
mesmo, ela não possui conduta alguma, mas é um mero instrumento nas mãos do ladrão. Quem pratica a conduta é ele 
(o ladrão) e não a operadora de caixa. 
Teoria da Dupla Imputação
a responsabilização 
penal da pessoa jurídica 
não afasta a da pessoa 
física responsável por ela
 
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18 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
Cuidado só com uma coisa. Caso a pessoa se coloque em uma situação de inconsciência sabendo 
que pode causar um resultado criminoso, pode responder por esse resultado a título de Dolo ou Culpa. 
É o exemplo do caminhoneiro que está na estrada sem dormir faz 18 horas. Mesmo sabendo que pode 
causar um acidente, continua a viagem. Se dormir ao volante, atravessar a pista contrária e matar uma família inteira que 
vem no sentido contrário em outro carro vai responder criminalmente por essas mortes. É o que a doutrina chama de 
action libera in causa. 
A teoria da actio libera in causa (a ação é livre na causa) ensina que a conduta do caminhoneiro deve ser 
analisada na causa inicial, ou seja, antes dele dormir e causar o acidente. É como se perguntássemos: o motorista tem 
dolo ou culpa por ter dormido ao volante? A resposta é sim. Então, ele é culpado pelo acidente que decorreu de seu sono. 
Ele era livre para continuar a viagem ou não, mesmo sabendo que seria perigosa essa conduta. 
É muito parecido com o que ocorre com aquele sujeito que vai ao bar com os amigos, enche a cara de 
cachaça, fica completamente embriagado e volta dirigindo para casa. Se ele dormir ao volante, deve responder por um 
eventual acidente uma vez que a ação era livre na causa, quer dizer, ele era livre para escolher entre dirigir ou não 
naquelas situações. 
É diferente da situação daquela pessoa que, dirigindo o carro, tem repentino e inesperado desmaio. Caso 
atropele uma pessoa, deverá responder por esse resultado? Agora não, porque em estado de inconsciência não há crime 
por não haver conduta. 
Repito: não se pune a conduta de quem está inconsciente, exceto se o sujeito se colocou nessa situação 
querendo ou sabendo que poderia praticar um crime! 
18. voluntária: conduta requer vontade. O que significa “vontade”? Significa que o ânimo que está em 
minha mente permanece íntegro quando eu o transfiro para meu corpo. 
Não existe conduta por falta de 
CONSCIÊNCIA
Sono
Sonambulismo
Coma
Hipnose
 
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19 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Imagine que você deseje beber água para matar a sede. Para tanto, você pega um copo com água e 
passa a bebê-la. Veja que sua VONTADE foi a de beber água, mas a sua FINALIDADE foi de matar a sede. São duas 
coisas completamente diferentes. Já falaremos da finalidade no próximo tópico. Importante que eu fale agora de uma 
situação que se pode afastar a vontade livre de uma conduta. 
Como eu afasto a vontade livre de alguém praticar uma conduta? Posso fazer isso através de coação, 
mais especificamente através da COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL. 
19. A coação física irresistível ( vis corporalis ou vis absoluta): a coação física ocorre quando a força 
física de alguém se sobrepõe à força física de outra pessoa. Veja o exemplo: 
Dagmar diz para seu esposo Alceu que vai para a casa de uma amiga estudar. Por volta das 23 horas, 
Alceu recebe uma ligação de um conhecido: 
- Alceu, cadê você? 
- Uai, to aqui assistindo ao jogo do Vasco! 
-Cara, cadê tua mulher, a Dagmar? 
-Uai, tá na casa de uma amiga estudando! Por que quer saber? 
-Deixa de ser trouxa, Alceu! A Dagmar tá aqui no Forró no maior assanhamento com um sujeito! 
Alceu inconformado com a possível traição de Dagmar vai até o forró dirigindo sua caminhonete. Ao 
chegar ao local, o segurança não deixa Alceu entrar prevendo uma confusão no recinto. Então, Alceu invade o bar 
utilizando sua caminhonete. 
Um sujeito que não tinha nada a ver com a estória, é atingido pelo impacto do veículo e acaba por acertar 
um golpe no rosto de uma moça, uma vez que ele segurava um copo de cerveja em uma das mãos. A moça fica 
gravemente ferida pela “copada” dada por esse rapaz. 
Pergunto: de quem é a conduta? Do Alceu (coator) ou do rapaz(coagido)? Claro que do Alceu. O rapaz 
estava sob coação física irresistível. Sobre ele foi exercida uma força física superior as suas próprias forças. 
Quem deve responder pela lesão corporal causada? O Alceu, por ter praticado a conduta criminosa e não 
o rapaz que estava sob coação física irresistível. 
Guarde uma coisa: TODA CONDUTA TEM VONTADE. NÃO EXISTE CONDUTA SEM VONTADE! 
Não existindo vontade por coação física, não há “fato típico”, por falta de um de seus elementos. 
Por fim, deve esclarecer que existe outro tipo de coação, a “coação moral”, que será estudada mais a 
frente em momento próprio. Portanto, não se preocupe agora. 
 
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20 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
(CESPE - 2010 - TRE-BA - Analista Judiciário) A coação física irresistível afasta a tipicidade, excluindo o 
crime. 
Item correto. 
 
CESPE – Agente de Polícia Federal 2004) A coação física e a coação moral irresistíveis afastam a 
própria ação, não respondendo o agente pelo crime. Em tais casos, responderá pelo crime o coator. 
Item errado. 
 
 
20. com finalidade: conduta requer vontade, consciência e finalidade. Atos sem estes elementos não 
podem ser considerados condutas penalmente relevantes. Toda a ação humana é eivada da capacidade de ação final, 
ou seja, toda ação tem uma FINALIDADE. 
Isso quer dizer que toda conduta está direcionada para um determinado fim. Lembre-se que quando você 
bebe água, você tem a finalidade de matar a sede. Isso ocorre porque você tem sede, ou tem a ideia, de que a sensação 
de sede é uma forma de o corpo te avisar que você precisa de hidratação. Como você sabe que o melhor líquido para 
esse fim é a água, a ingere em quantidade suficiente para saciá-la. 
Quero dizer com isso que você sabe qual o processo para atingir a sua finalidade, a sua vontade final. 
Então, um dado muito importante sobre a finalidade humana é que a possibilidade de realizar uma ação determinada 
requer o conhecimento (ou a possibilidade de conhecimento) da realização fática, o que Zaffaroni denominou de 
“antecipação biocibernética”. 
Exemplificando, a conduta de efetuar o disparo de arma de fogo em direção a uma determinada pessoa 
está contaminada pela antecipação mental das consequências deste ato (ferimento por munição de arma de fogo). Está 
contida na conduta, também, a previsibilidade do resultado morte da vítima. Ocorre que, caso a mãe da vítima venha a 
morrer ao ter notícia da trágica morte de seu filho, não podemos atribuir essa morte ao agente, uma vez que extrapolou o 
limite do curso causal hipotético (relação de causas e consequências). 
Afasta a vontade livre:
Coação Física 
Irresistível              
(Vis Corporalis)
 
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21 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Puxa, compliquei um pouco agora? Deixa-me tentar ser mais claro. 
Vamos supor que Dicró queira matar Bezerra. Dicró, sabe que as pessoas respiram para viver, e que se 
houver impedimento das vias áreas de uma pessoa isso levará à morte. Então, Dicró aperta o pescoço da vítima até que 
esta não consiga respirar. 
Pois bem, a finalidade de Dicró por ser a de matar, dirige a sua vontade livre para essa finalidade, 
conhecendo o processo de causa e efeito de sua conduta (esganar e matar). 
É por isso que a teoria adotada pelo código pena é a TEORIA FINALISTA DA AÇÃO, pois se entende que 
toda a conduta tem vontade livre e dirigida a uma finalidade. 
Como último exemplo, podemos citar a situação do sujeito que sai de seu trabalho apressado para assistir 
ao jogo de futebol. Para tanto, dirige a sua vontade livre para essa finalidade: chegar a casa mais cedo para assistir ao 
jogo. Ocorre que nesse processo ele acaba acelerando o carro muito acima daquela de segurança da via e acaba por 
atropelar e matar alguém culposamente (por imprudência). Veja que a conduta dele teve vontade livre e finalidade. 
Esse último exemplo serve para confirmar que em toda a conduta, seja ela dolosa ou culposa, por ação ou 
omissão, possui todos os elementos acima estudados: 
 
Formas de conduta – ação e omissão. 
21. Conduta Comissiva (por ação). 
A conduta pode ser exteriorizada por um ato positivo (um fazer). Por exemplo, desferir facadas, falsificar 
um cheque, tomar um remédio abortivo, subtrair um objeto etc. 
A essas condutas realizadas por um fazer, dá-se o nome de condutas comissivas. É, inclusive, a forma 
com que a grande maioria dos crimes são praticados. A lei, em geral, descreve condutas que nos levam à ideia de ação, 
um fazer, um ato comissivo. 
CONDUTA
AÇÃO OU 
OMISSÃO 
HUMANA
CONSCIENTE
FINALIDADE
VONTADE
 
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22 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Que ideia te dá a frase “matar alguém”, descrita no artigo 121 do Código Penal? Ao ler essa frase você 
pensa em uma conduta por ação ou por omissão (não fazer)? Claro que por fazer, por comissão. Então, em regra, mata-
se alguém através de um ato positivo, um fazer (desferir facadas, tiros, ministrar veneno, por exemplo). 
22. Conduta Omissiva (por omissão) 
As infrações penais também podem ser praticadas por um “não fazer”. Mas o que seria exatamente a 
omissão? 
A pergunta é pertinente porque enquanto a ação é algo fisicamente ligado ao resultado, a omissão não se 
realiza da mesma forma. Digo, a ação é a colocação de força em apontada direção, mas a omissão, em princípio é um 
nada. 
A análise da omissão relevante somente pode existir no campo do direito, porque na realidade “o nada, 
nada causa”. Nesse sentido, a doutrina tem ensinado que a omissão seria uma “omissão de algo esperado (ou 
determinado) pelo direito”. Espera-se, por exemplo, que uma mãe amamente seu filho recém nascido. Caso não o faça, 
poderá responder pelo resultado morte da criança. A mãe, deste modo, teria frustrado uma determinação ou expectativa 
que lhe é imposta pelo ordenamento. Trata-se da “teoria da ação esperada”. Essa é a posição majoritária. 
23. Autores como Zaffaroni e Pierangeli afastam-se da teoria da ação esperada por considerarem que o 
direito não espera ações, e sim as proíbe ou as ordena. Defendem estes magníficos professores que a conduta é sempre 
por ação, mas o tipo pode descrever uma ação ou uma omissão (deixar de fazer). De tal modo, quem se nega a prestar 
socorro à criança abandonada (art. 136, CPB), não está deixando de fazer algo, mas ao ir embora, efetivamente realiza 
uma ação (a de ir embora). Ao fazê-lo, deixa de respeitar a norma que determina o socorro a tal pessoa. Essa é a posição 
conhecida na doutrina com o nome de teoria do aliud agere ou aliud facere, que significa agir de outro modo, ou agir 
de modo diverso.1 
Independentemente da posição que se adote, o fato é que não existe relação física entre a omissão e o 
resultado. Ao deixar de prestar socorro à pessoa em perigo, o omitente não “causa” sua morte, apenas não a impede, 
quando deveria fazê-lo. Claro que existem situações em que o perigo é causado anteriormente pelo próprio omitente, 
como no exemplo do atropelador que deixa de prestar socorro. De qualquer forma, o que pode “causar” a morte é a ação 
de atropelar e não a consequente omissão de socorro. Em resumo, a omissão só é “causa” do resultado por força das 
normas jurídicas e não por força das leis da física. 
24. Mais adiante trataremos de nexo de causalidade nos crimes omissivos, mas adianto que nos crimes 
omissivos a relação entre a conduta de se omitir e eventual resultado é apenas normativa, ou seja, é hipoteticamente 
criada pela norma. Não existe, portanto, nexo causal físico entre omissão e resultado, mas apenas determinada relação 
criadapelo direito. Atribui-se significância ao “não fazer” por força da norma jurídica, pois no mundo “real” essa relação 
não existe. De qualquer forma, vamos voltar a esse assunto em aula específica. 
A omissão é tratada no direito penal da seguinte forma: 
a. Omissão Própria (pura) – a omissão própria gera os “crimes omissivos próprios”; 
                                                            
1   Eugenio Raúl Zaffaroni, José Henrique Pierangeli. Manual de Direito Penal Brasileiro – 5. ed. Editora RT, pg. 510. 
 
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23 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
b. omissão imprópria (impura ou comissiva por omissão) – a omissão imprópria gera “ os crimes 
omissivos impróprios, também chamados de crime comissivos por omissão. 
 
Não gaste seus neurônios para memorizar isso. Pense assim: 
25. Nos crimes omissivos próprios ou puros( omissão própria), a PRÓPRIA lei já descreve um não fazer 
(uma omissão). 
Como eu disse antes, a maioria dos tipos penais descreve uma conduta que dá a ideia de ação 
(homicídio, furto, falsificação etc.). Ocorre que alguns tipos penais nos trazem a ideia de uma conduta omissiva. Quero 
dizer, existem alguns crimes que a omissão está descrita na própria lei. Quer ver um exemplo? 
“Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou 
extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o 
socorro da autoridade pública.” (Art. 135 do CPB, Omissão de Socorro). 
A expressão “deixar de” do crime de omissão de socorro no traz ideia de fazer ou não fazer? 
Não fazer. 
Então, como o crime de omissão de socorro já nos dá a ideia de “não fazer”, dissemos que esse crime é 
OMISSIVO PRÓPRIO (ou puro). 
Resumindo: NOS CRIMES OMISSIVOS PRÓPRIOS, A PRÓPRIA LEI DESCREVE UMA OMISSÃO. 
26. Mais adiante trataremos do crime tentado, mas existe uma informação que merece ser apresentada 
neste momento. 
A tentativa nos crimes omissivos próprios não será possível. Nos crimes omissivos impróprios dolosos, ao 
contrário, ela é plenamente viável, como estudaremos oportunamente. 
OMISSÃO
Própria ‐ a própria lei descreve 
um "não‐fazer".
Impróprio (comissivo por 
omissão) ‐ a lei descreve um 
fazer, mas o autor atinge o 
resultado por omissão.
 
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24 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O problema, neste ponto, é conciliar o conceito de tentativa descrito no art. 14 do CP (“considera-se 
tentado o crime quando iniciada sua execução não se atinge o resultado por circunstâncias alheias à sua vontade”) como 
um não fazer. Isso se deve ao fato de que a norma descreve “início de execução”, o que denota um ato positivo, um fazer. 
A doutrina, de qualquer sorte, admite a tentativa na omissão imprópria, fundado na perda da última ou da primeira 
oportunidade de realizar a ação mandada, criando ou ampliando, com isso, o perigo para o bem protegido. 
27. Observe, por fim, que nos tipos omissivos próprios, como a omissão de socorro, a lei não proíbe uma 
determinada conduta. Na verdade, ela exige que o sujeito pratique aquela conduta. Explico: o art. 121 (homicídio) 
descreve uma conduta proibida. A norma, então, é dita “proibitiva”. O art. 135 ( omissão de socorro), ao contrário, exige 
que o agente preste socorro. A lei não proíbe, ela manda. Essa norma é dita “mandamental”. Não se exige o resultado, 
basta a mera inatividade. 
(CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) No crime omissivo próprio, a consumação se verifica com a 
produção do resultado. 
Item correto. 
Resumindo: na norma proibitiva, o sujeito faz o que a norma proíbe; na norma mandamental, o sujeito não 
faz o que ela manda que ele faça. 
Veja mais dois exemplos de crimes omissivos próprios: 
“ Deixar, sem justa causa, de prover a subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 (dezoito) anos 
ou inapto para o trabalho, ou de ascendente inválido ou maior de 60 (sessenta) anos, não lhes proporcionando os 
recursos necessários ou faltando ao pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, fixada ou majorada; 
deixar, sem justa causa, de socorrer descendente ou ascendente, gravemente enfermo.” Abandono material, art. 244 do 
CPB. 
“Deixar o médico de denunciar à autoridade pública doença cuja notificação é compulsória”. Omissão de 
notificação de doença, art. 269 do CPB. 
25. Omissão Impura (imprópria ou crime comissivo por omissão) é quando a lei descreve um fazer, mas 
o sujeito atinge o resultado por um não fazer. 
Exemplo: mãe, com vontade de dar fim ao seu filho neonato, deixa de alimentá-lo, levando-o à morte. 
Matou (“matar” traz a idéia de ação) por um não fazer (não dar alimentos). 
Perceba que o tipo de homicídio traz-nos à mente uma idéia de fazer. Pensamos no verbo “matar” como 
algo que se faz por ação (desferir tiros, facadas, pauladas etc.). Ocorre que a lei admite que o verbo “matar” seja atingido 
por um “não fazer”, como no exemplo dado. 
(CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 2009) Os crimes comissivos por omissão — também chamados de 
crimes omissivos impróprios — são aqueles para os quais o tipo penal descreve uma ação, mas o resultado é obtido por 
inação. 
 
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25 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Item correto. 
 
Pense na seguinte proposição: É possível o sujeito responder pelo crime de estupro por um “não fazer”, 
aplicando-se o mesmo raciocínio utilizado no exemplo anterior? 
Agora a situação fica mais estranha, não é? 
Preste atenção no seguinte exemplo: 
Uma professora de educação primária percebe que sua aluna Ana, com doze anos de idade, está triste e 
cabisbaixa, atitude incomum para ela. A professora passa a conversar com a criança, quando ouve desta uma revelação 
terrível. Seu padrasto, Jorge, de 35 anos de idade, pediu que Ana praticasse sexo oral nele, no que foi atendido. 
Ana morava em um pequeno barraco em uma favela de Brasília, juntamente com seu irmão ainda bebê, 
além de sua mãe Socorro. 
Durante as investigações, constatou-se que Jorge praticara tal ato diversas vezes com Ana, sendo que 
Socorro, mesmo consciente do que ocorria, nada fazia para evitar a violência sexual. Também se verificou que Jorge 
contava tudo a um amigo e vizinho seu de nome Carlos. Este, da mesma forma, nada fez em socorro à criança. 
Qual a situação jurídica de Jorge, Ana e Carlos? 
Jorge, sem dúvida, responderá pelo tipo hoje descrito como “estupro de vulneráveis" (art. 217-A do CPB), 
provavelmente em continuidade delitiva. 
Como eu expliquei, Socorro, mesmo sabendo dos atos praticados por seu companheiro, nada fez para 
evitar o resultado. Então, deverá ela responder como partícipe dos estupros de Jorge. 
Mas por quê? 
Porque Socorro tinha em relação à Ana, por ser sua mãe, um dever especial de proteção ou de 
garantia. Socorro, mais do que qualquer outra pessoa, tinha o dever de evitar que sua filha sofresse tal violência. Tem 
ela, portanto, o dever legal de agir. 
Perceba que o tipo de estupro nos traz a ideia de “fazer” (comissivo), mas Socorro responde não por ter 
praticado a violência, mas por não tê-la evitado quando devia e poderia fazê-lo (omissão imprópria). Por isso que a 
doutrina denomina essa espécie de crime de “comissivo por omissão”. Só quem pode cometer o crime é quem tem o 
dever legal de agir, chamado garante ou garantidor da não ocorrência do resultado (art. 13, parágrafo 2º, CPB). 
Por fim, Carlos, apesar de tomar consciência da violência, não tinha nenhuma relação de especial dever 
de proteção em relação à Ana, motivo pelo qual deverá responder pela mera omissão (omissão desocorro, art. 135 do 
CPB). 
26. Dever legal (garantes) 
 
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26 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Os crimes omissivos impróprios exigem do sujeito ativo certa qualidade, qual seja, uma especial relação 
de proteção com o bem juridicamente tutelado. Deve ele estar enquadrado em uma das hipóteses de omissão 
penalmente relevante descritas no CPB (art. 13, § 2º), quais sejam: 
a) quem tem o dever de cuidado, proteção e vigilância 
ex.: pais, médico, policiais, filhos em relação aos pais idosos, tutor etc. 
Imagine o exemplo de um delegado de polícia que tem conhecimento de que um preso recolhido na 
delegacia está para ser estuprado por outros internos, nada faz para evitar essa conduta. Como o delegado é garante ( ou 
seja, tem por lei o dever de cuidado proteção e vigilância ) do preso, caso não haja com possibilidade de ter agido 
para evitar o resultado, responde por estupro por omissão. 
Lembre-se do exemplo do estupro acima. A mãe era GARANTE da filha. Por esse motivo, caso não haja 
em condição de fazê-lo, deverá responder pelo resultado. 
b) quem com sua conduta anterior causou o perigo. Chamado de ingerência. 
(Delegado de Polícia/NCE-UFRJ/PCDF/2005) No direito penal entende-se como ingerência : 
a) o comportamento anterior que cria o risco da ocorrência do resultado, gerando o dever de agir, que 
torna a omissão penalmente relevante; 
b) a participação de menor importância, que importa em causa de diminuição de pena; 
c) o arrependimento que, nos crimes sem violência ou grave ameaça à pessoa, motiva o agente a reparar 
o dano ou restituir a coisa até o recebimento da denúncia ou da queixa; 
d) a utilização de agente sem culpabilidade para a realização de um crime, importando em autoria 
mediata; 
e) a obediência por subalterno à ordem não manifestamente ilegal emanada de superior hierárquico. 
Item: A 
 
Ex.: Alpinista que leva um grupo para explorar uma montanha sem os devidos preparos e equipamentos 
de segurança. 
Ocorreu um fato em Brasília que se enquadra nessa hipótese: 
Um grupo de escoteiros foi fazer uma atividade em um parque de Brasília. Nessa ocasião, o chefe dos 
escoteiros determinou que os garotos, todos menores, fizessem uma competição no lago. Ocorre que um dos escoteiros 
não sabia nadar muito bem, tendo comentado tal fato ao chefe deles. 
 
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27 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O tal chefe determinou que ele pulasse no lago mesmo assim, pois era a forma que aprenderia a nadar. O 
garoto acabou se afogando, sem ser salvo pelo chefe dos escoteiros. 
Perceba que ao determinar que o garoto pulasse no lago, o sujeito criou um risco para a vítima. Ao fazer 
isso, tornou-se seu garante. 
 
c) de qualquer forma, se comprometeu a evitar o resultado 
Imagine que você seja aprovado no concurso dos seus sonhos. Já no primeiro mês usa a grana para dar 
uma viajada e espairecer. 
Então, compra um pacote pra passar o fim de semana em Caldas Novas. Durante o banho do sol (parece 
coisa de presidiário, né?), é interrompida por um moleque correndo de um lado para o outro, gritando, fazendo bagunça e 
comendo “cheetos bolinha”. Que beleza! 
Quem é esse moleque? Ele mesmo. O Alceu Júnior, filho da Dagmar com o Alceu (supostamente). 
Alceu tinha saído para jogar bola com os amigos e Dagmar foi ao clube com o Alceuzinho. Mas como 
Dagmar, você sabe, era muito danadinha, começou a dar mole para o salva-vidas do clube. 
Dagmar pede, então, que você fique de olho no moleque por dez minutinhos para que ela vá comprar um 
refrigerante pra ele (Goianinho Cola, hehe). Na verdade ela foi paquerar o tal salva-vidas. 
Você aceitou? 
Parabéns! Agora você é garante do Alceuzinho, porque você se comprometeu a evitar qualquer dano ao 
diabinho. Sacou? 
Se ele cair na piscina, meu amigo, minha amiga, trate de pular para salvá-lo. Caso contrário, você poderá 
responder por homicídio por omissão. 
 
 
GARANTES
quem tem, por lei, obrigação de cuidado, 
proteção e vigilância
quem criou o risco do 
resultado
quem, de qualquer forma, se 
comprometeu a evitar o resultado
 
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28 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
PEGANDO O FIO DA MEADA! 
1. Dividimos o Crime em três partes: fato típico, ilicitude e culpabilidade; 
1. Estamos estudando o FATO TÍPICO; 
2. Dentro do Fato Típico estudamos a CONDUTA e dois de seus elementos (ação e omissão); 
3. A omissão pode ser própria (crime omissivo próprio), quando a própria lei descreve um não 
fazer; 
4. A omissão pode ser imprópria (crime comissivo por omissão), quando a lei descreve um fazer, 
mas o agente atinge o resultado por uma “não - fazer”; 
5. Somente os garantes respondem por omissão imprópria; 
6. os garantes são: a. quem tem, por lei, obrigação de cuidado proteção e vigilância; b. quem criou 
o risco do resultado; c. quem se comprometeu a evitar o resultado. 
 
Para terminar a primeira aula, me deixa falar só de mais uma coisa que é muito importante, até porque 
consta do edital. Tratam-se dos sujeitos do crime. 
Todo crime possui sujeitos ativos e passivos. 
Sujeitos do Crime 
27. Sujeito Ativo 
O sujeito ativo do crime é tanto aquele que pratica a conduta descrita no verbo do tipo penal (matar, 
subtrair, falsificar), como aquele que, mesmo não praticando o verbo o auxilia, instiga ou induz. 
( CESPE – Agente de Polícia Federal 2004) Sujeito ativo do crime é aquele que realiza total ou 
parcialmente a conduta descrita na norma penal incriminadora, tendo de realizar materialmente o ato correspondente ao 
tipo para ser considerado autor ou partícipe. 
 
28. Sujeito Passivo Direto, constante ou material 
Sujeito passivo eventual ou material é aquele que tem seu bem jurídico prejudicado. Bem jurídico é a vida, 
a liberdade, o patrimônio etc. 
O sujeito passivo pode ser o homem, como no Homicídio, art. 121; a pessoa jurídica como na Fraude 
para recebimento de indenização ou valor de seguro, art. 171, § 2º, V; o Estado (crimes contra a Administração Pública) e 
uma coletividade destituída de personalidade jurídica, como no Vilipêndio a cadáver, art. 212, estes últimos são 
chamados crimes vagos. “Entidade sem personalidade jurídica” é, por exemplo, a família, a coletividade, a sociedade etc. 
 
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29 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Nem sempre o sujeito passivo é a vítima. Se eu empresto meu celular para um amigo, o qual é vítima de 
furto, continuo sendo o sujeito passivo. Isso porque foi meu bem jurídico (patrimônio) que foi atacado. 
29. Sujeito passivo constante ou formal: é o Estado. 
Sempre que alguém comete um crime, acaba por desrespeitar uma lei criada pelo Estado. Por esse 
motivo, diz-se que o Estado sempre é “vítima” indiretamente. 
Pode ocorrer de o Estado ser sujeito passivo direto. Lembra-se do furto que ocorreu no Banco Central de 
Fortaleza? Quem era o sujeito passivo? O Estado, pois o Banco Central é uma Autarquia Federal (pessoa jurídica). 
30. Não pode ser sujeito passivo de crime: o cadáver. 
CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) De acordo com o ordenamento penal vigente, o homem 
morto pode ser sujeito passivo de crime. 
Item errado. 
 
 No delito de vilipêndio à cadáver, art. 212 CP, o sujeito passivo é a coletividade; e no crime de calúnia 
contra os mortos ,art. 138, § 2º, do CP, sua família. São os crimes vagos de que falei acima. 
 
31. Observações: 
a. Civilmente incapaz – pode ser sujeito passivo de crime; 
b. Recém-Nascido - pode ser sujeitopassivo de crime (art. 123, infanticídio); 
c. Feto – também pode ser, como no aborto. 
d. Animais- não podem ser sujeitos passivos de crime. Os crimes contra a fauna (Lei 9.605.98) são 
crimes contra a humanidade. 
e. Crimes de subjetividade passiva única: o tipo penal apresenta um único sujeito passivo, como na 
ameaça (CP, art. 147); 
f. Crimes de dupla subjetividade passiva: o tipo penal prevê a existência de dois ou mais sujeitos passivos, 
como ocorre no aborto sem consentimento da mãe (CP, art. 125). No caso, tanto a mãe quanto o feto são sujeitos 
passivos. 
33. PERGUNTA IMPORTANTE: Pode uma pessoa ser, ao mesmo tempo, sujeito ativo e passivo de 
crime? 
R. Regra geral, não. Exceção é o crime de Rixa (art. 137 CP). Nesse crime há uma briga generalizada 
onde todo mundo bate em todo mundo. 
 
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30 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
( MPE-MG - 2010 - MPE-MG – PROMOTOR DE JUSTIÇA ) A pessoa pode ser, ao mesmo tempo, sujeito 
ativo e passivo de um delito em face de sua própria conduta. 
Item correto. 
 
 
34. Destaques: 
a) Conceitos de ação: a abordagem realizada na aula teve como base a teoria finalista da ação, fruto da 
concepção da Teoria Finalista (Teoria Normativa Pura da Culpabilidade) de Hellmuth von Weber, Alexander Graf 
zu Dohna e Hans Welzel ). 
Essa teoria não vislumbra a ação (ou omissão) como mera processo causal equiparado aos processos da 
natureza. Ela se diferencia destes últimos por algo que lhe é próprio e único, a saber, a capacidade de atuar conforme fins 
estabelecidos de modo racional. No atuar humano, o agente concebe um determinado objetivo e, em seguida, para 
alcançá-lo, põe em marcha determinados processos causais dirigido por ele, de modo consciente, em direção ao fim 
pretendido.2 
Historicamente, existem outras concepções de conduta: 
1ª) Para Teoria Causal-Naturalista de Liszt/Beling (1906) a ação é um movimento corporal que causa 
uma modificação no mundo exterior. A conduta é dirigida pela vontade, mas essa vontade não tem finalidade. A vontade 
para os causalistas representa apenas um comportamento corporal produzido pelo domínio sobre o corpo, composto por 
um fazer ou não fazer (impulso mecânico/inervação muscular). 
                                                            
2   Prado, Luiz Regis. Curso de Direito Penal brasileiro, volume 1 : parte geral – 7ª ed. Ed. RT. Pg. 308. 
Sujeito Passivo
Direito: titular do 
direito tutelado
Constante ou formal: o Estado
Cadáver: não pode ser sujeito passivo de crime
Civilmente incapaz: pode ser sujeito passivo
Feto: pode ser sujeito passivo
Sujeito ativo e passivo simultâneo: ocorre na 
Rixa.
 
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31 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O conteúdo da vontade – a finalidade – é deslocado para a culpabilidade. A conduta voluntária e dividida 
em duas partes: o externo-objetivo (ação/resultado) e o interno-subjetivo (conteúdo da vontade, dolo-culpa). O primeiro 
está no fato típico e o segundo na culpabilidade, que funciona como um nexo psicológico entre a conduta e o resultado. 
 
A ação se exaure na causação do resultado como quer o positivismo filosófico, fruto de uma idealização 
do conhecimento científico, uma crença romântica e onipotente de que os múltiplos domínios da indagação e da atividade 
intelectual pudessem ser regidos por leis naturais, invariáveis, independentes da vontade e da ação humana. 
O jurista dessa época não atribuía finalidade à conduta, pois isso significaria ter que valorá-la, o que não 
era concebível pela filosofia positivista dominante na época. O Direito Penal se firmava como ciência autônoma das 
demais 
 
 
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32 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
QUESTÕES 
1. (CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 
2009) São elementos do fato típico: conduta, resultado, 
nexo de causalidade, tipicidade e culpabilidade, de 
forma que, ausente qualquer dos elementos, a conduta 
será atípica para o direito penal, mas poderá ser 
valorada pelos outros ramos do direito, podendo 
configurar, por exemplo, ilícito administrativo. 
2. (CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 
2009) Os crimes comissivos por omissão — também 
chamados de crimes omissivos impróprios — são 
aqueles para os quais o tipo penal descreve uma ação, 
mas o resultado é obtido por inação. 
3. (CEPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 
2009) Com relação à responsabilidade penal da pessoa 
jurídica, tem-se adotado a teoria da dupla imputação, 
segundo a qual se responsabiliza não somente a 
pessoa jurídica, mas também a pessoa física que agiu 
em nome do ente coletivo, ou seja, há a possibilidade 
de se responsabilizar simultaneamente a pessoa física 
e a jurídica. 
4. (CESPE_Analista Judiciário 
_Execução de Mandados_TJDFT_2008) Com relação 
a elementos e espécies da infração penal, julgue os 
itens subseqüentes. 
Se o sujeito ativo do delito, ao praticar o 
crime, não quer diretamente o resultado, mas assume o 
risco de produzi-lo, o crime será culposo, na 
modalidade culpa consciente. 
5. CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) Relativamente ao sujeito ativo e 
ao sujeito passivo do crime, à tentativa e ao crime 
consumado, julgue os itens: 
De acordo com o ordenamento penal 
vigente, o homem morto pode ser sujeito passivo de 
crime. 
6. (CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) A pessoa jurídica pode ser sujeito 
ativo de crime, dependendo da sua responsabilização 
penal, consoante entendimento do STJ, da existência 
da intervenção de uma pessoa física que atue em nome 
e em benefício do ente moral. 
7. (CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) No crime omissivo próprio, a 
consumação se verifica com a produção do resultado. 
8. (CESPE_PROCURADOR ESPECIAL 
DE CONTAS – TCE-ES_2009) São elementos do fato 
típico culposo: conduta humana voluntária 
(ação/omissão), inobservância do cuidado objetivo 
(imprudência/negligência/imperícia), previsibilidade 
objetiva, ausência de previsão, resultado involuntário, 
nexo de causalidade e tipicidade. 
9. (Delegado de Polícia/NCE-
UFRJ/PCDF/2005) No direito penal entende-se como 
ingerência : 
a) o comportamento anterior que cria o 
risco da ocorrência do resultado, gerando o dever de 
agir, que torna a omissão penalmente relevante; 
b) a participação de menor importância, 
que importa em causa de diminuição de pena; 
c) o arrependimento que, nos crimes 
sem violência ou grave ameaça à pessoa, motiva o 
agente a reparar o dano ou restituir a coisa até o 
recebimento da denúncia ou da queixa; 
d) a utilização de agente sem 
culpabilidade para a realização de um crime, 
importando em autoria mediata; 
e) a obediência por subalterno à ordem 
não manifestamente ilegal emanada de superior 
hierárquico. 
11. ( CESPE – Agente de Polícia 
Federal 2004) Sujeito ativo do crime é aquele que 
realiza total ou parcialmente a conduta descrita na 
 
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33 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
norma penal incriminadora, tendo de realizar 
materialmente o ato correspondente ao tipo para ser 
considerado autor ou partícipe. 
 12. (CESPE – Agente de Polícia 
Federal 2004) A coação física e a coação moral 
irresistíveis afastam a própria ação, não respondendo o 
agente pelo crime. Em tais casos, responderá pelo 
crime o coator. 
13. ( MPE-MG - 2010 - MPE-MG – 
PROMOTOR DE JUSTIÇA ) A pessoa pode ser, ao 
mesmo tempo, sujeito ativo e passivo de um delito em 
face de sua própria conduta. 
 
14. (CESPE - 2010 - TRE-BA - Analista 
Judiciário) A imputabilidade penal é umdos elementos 
que constituem a culpabilidade e não integra a 
tipicidade. 
15.( CESPE - 2010 - TRE-BA - Analista 
Judiciário - Área Administrativa) A coação física 
irresistível afasta a tipicidade, excluindo o crime. 
 
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COMENTÁRIOS 
1. (CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 2009) São elementos do fato típico: conduta, resultado, nexo de 
causalidade, tipicidade e culpabilidade, de forma que, ausente qualquer dos elementos, a conduta será atípica para o 
direito penal, mas poderá ser valorada pelos outros ramos do direito, podendo configurar, por exemplo, ilícito 
administrativo. 
Comentário: Os elementos do fato típico são: CO.RE.NE.TI. CONDUTA, RESULTADO, NEXO CAUSAL e 
TIPICIDADE. 
GABARITO: ERRADO. 
 
2. (CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 2009) Os crimes comissivos por omissão — também chamados 
de crimes omissivos impróprios — são aqueles para os quais o tipo penal descreve uma ação, mas o resultado é obtido 
por inação. 
Comentário: Perfeito! O exemplo clássico seria o da mãe que mata o próprio filho recém nascido por 
negar-lhe o peito. Lembre-se que só responde por esse crime quem estiver na posição de “garante”. 
GABARITO: CORRETO 
 
3. (CESPE/ESCRIVÃO E AGENTE DPF 2009) Com relação à responsabilidade penal da pessoa jurídica, 
tem-se adotado a teoria da dupla imputação, segundo a qual se responsabiliza não somente a pessoa jurídica, mas 
também a pessoa física que agiu em nome do ente coletivo, ou seja, há a possibilidade de se responsabilizar 
simultaneamente a pessoa física e a jurídica. 
Comentário: Para essa teoria, sempre que uma pessoa jurídica responder por um crime ambiental, com 
ela responderá uma pessoa física. 
GABARITO: CORRETO 
4. (CESPE_Analista Judiciário _Execução de Mandados_TJDFT_2008) Com relação a elementos e 
espécies da infração penal, julgue os itens subseqüentes. 
Se o sujeito ativo do delito, ao praticar o crime, não quer diretamente o resultado, mas assume o risco de 
produzi-lo, o crime será culposo, na modalidade culpa consciente. 
Comentário: Se o sujeito não quer o resultado, mas assume o risco de produzi-lo, estamos falando de um 
crime doloso (dolo eventual). 
Culpa consciente é a aquela em que o sujeito causa o resultado por imprudência, negligência ou 
imperícia, tendo previsto o resultado mais gravoso. 
GABARITO: ERRADO 
 
5. CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Relativamente ao sujeito ativo e ao sujeito passivo do 
crime, à tentativa e ao crime consumado, julgue os itens: 
De acordo com o ordenamento penal vigente, o homem morto pode ser sujeito passivo de crime. 
 
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35 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Comentário: Só quem pode ser sujeito passivo de crime é a pessoa viva ou o feto vivo. No delito de 
vilipêndio à cadáver, por exemplo, art. 212 CP, o sujeito passivo é a coletividade ou a família do morto. 
 “Vilipendiar cadáver ou suas cinzas” (art. 212 do Código Penal). 
Exemplo: escarrar sobre o cadáver. 
GABARITO: ERRADO 
6. (CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) A pessoa jurídica pode ser sujeito ativo de crime, 
dependendo da sua responsabilização penal, consoante entendimento do STJ, da existência da intervenção de uma 
pessoa física que atue em nome e em benefício do ente moral. 
Comentário: Para essa teoria, sempre que uma pessoa jurídica responder por um crime ambiental, com 
ela responderá uma pessoa física. 
GABARITO: CERTO 
 
7. (CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) No crime omissivo próprio, a consumação se verifica com 
a produção do resultado. 
Comentário: Nos crimes omissivos próprio, aqueles em que a própria lei descreve um “não-fazer”, a 
consumação se verifica no momento da conduta omissiva. Exemplo: O sujeito vê uma pessoa acidentada e, podendo, não 
a ajuda. O crime está consumado, independentemente de a vítima vir a falecer ou não. 
GABARITO: ERRADO 
 
8. (CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) São elementos do fato típico 
culposo: conduta humana voluntária (ação/omissão), inobservância do cuidado objetivo 
(imprudência/negligência/imperícia), previsibilidade objetiva, ausência de previsão, resultado involuntário, nexo de 
causalidade e tipicidade. 
 
Comentário: A previsibilidade ou evitabilidade do resultado: todo crime culposo tem previsibilidade (a 
capacidade ou possibilidade de previsão). Se não há previsibilidade de ocorrer um crime não haverá culpa. Cumpre-nos 
observar a definição de Carrara de que a culpa é a voluntária omissão de diligência em calcular as conseqüências 
possíveis e PREVISÍVEIS do próprio fato. 
CORRETO 
 
9. (Delegado de Polícia/NCE-UFRJ/PCDF/2005) No direito penal entende-se como ingerência : 
a) o comportamento anterior que cria o risco da ocorrência do resultado, gerando o dever de agir, que 
torna a omissão penalmente relevante; 
 
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36 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
b) a participação de menor importância, que importa em causa de diminuição de pena; 
c) o arrependimento que, nos crimes sem violência ou grave ameaça à pessoa, motiva o agente a reparar 
o dano ou restituir a coisa até o recebimento da denúncia ou da queixa; 
d) a utilização de agente sem culpabilidade para a realização de um crime, importando em autoria 
mediata; 
e) a obediência por subalterno à ordem não manifestamente ilegal emanada de superior hierárquico. 
Comentário: Crimes omissivos impróprios, também chamados comissivos por omissão, ocorrem quando 
o tipo descreve uma ação e o resultado é atingido por uma inação, por exemplo, a mãe que mata o filho neonato por não 
fornecer-lhe o peito. 
Para ser responsabilizado pelo resultado, o agente deve estar em uma das situações previstas no art. 13, 
§ 2º do CPB, ocasião em que será garante da não ocorrência do resultado. Uma dessas situações previstas no citado 
artigo é justamente o que a doutrina convencionou chamar de “ingerência”, ou seja, quando o dever de agir incumbe a 
quem com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. 
GABARITO: A 
 
11. ( CESPE – Agente de Polícia Federal 2004) Sujeito ativo do crime é aquele que realiza total ou 
parcialmente a conduta descrita na norma penal incriminadora, tendo de realizar materialmente o ato correspondente ao 
tipo para ser considerado autor ou partícipe. 
Comentário: O sujeito ativo pode cometer o crime como autor, coautor ou partícipe, conforme veremos 
em aula específica. Mas, não é necessário que o sujeito ativo pratique o verbo do tipo penal. Lembra-se do crime 
omissivo impróprio ou comissivo por omissão? Pois então. 
GABARITO: ERRADO 
 
12. (CESPE – Agente de Polícia Federal 2004) A coação física e a coação moral irresistíveis afastam a 
própria ação, não respondendo o agente pelo crime. Em tais casos, responderá pelo crime o coator. 
Comentário: A COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL, conforme estudamos, afasta a própria conduta, pois é 
elemento desta. A COAÇÃO MORAL IRRESISTÍVEL, por sua vez, afasta a EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA, 
elemento do Culpabilidade. Estudaremos esta última em aula posterior deste curso. 
GABARITO: ERRADO 
 
13. ( MPE-MG - 2010 - MPE-MG – PROMOTOR DE JUSTIÇA ) A pessoa pode ser, ao mesmo tempo, 
sujeito ativo e passivo de um delito em face de sua própria conduta. 
 
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37 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Comentário: Excepcionalmente, a pessoa pode ser sujeito ativo e passivo do crime, como ocorre no 
crime de Rixa (Participar de rixa, salvo para separar os contendores.Art. 137 do CPB). Neste caso, os participantes 
agridem-se mutuamente, sendo todos, ao mesmo tempo, agressores e agredidos. 
GABARITO: CERTO 
 
14. (CESPE - 2010 - TRE-BA - Analista Judiciário) A imputabilidade penal é um dos elementos que 
constituem a culpabilidade e não integra a tipicidade. 
Comentário: Com uma rápida análise na estrutura do crime ( veja o esqueleto do crime) percebe-se que a 
imputabilidade é elemento da culpabilidade. Estudaremos profundamente a imputabilidade em aula específica. 
GABARITO: CERTO 
 
15.( CESPE - 2010 - TRE-BA - Analista Judiciário - Área Administrativa) A coação física irresistível 
afasta a tipicidade, excluindo o crime. 
Comentário: A coação física irresistível afasta a voluntariedade da conduta. Conduta só existe se possuir 
vontade. Como a conduta é elemento do fato típico (tipicidade em sentido amplo), está ficará afastada sem esse 
elemento. 
CORRETO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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38 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
AULA PRIMEIRA 
Técnica de estudo: 
1º Faça uma primeira leitura da aula, buscando apenas um primeiro contato com os tópicos. 
Nesse momento, sublinhe apenas palavras e termos desconhecidos. 
Tempo estimado: 30 min. 
2º Faça nova leitura da aula. Nesse momento, o aluno deve compreender cada ponto (perceba 
que divido minha aula em pontos, sendo que cada um traz uma ideia central). Descubra o significado dos termos 
desconhecidos. 
Tempo estimado: 2 horas. 
3º Faça um resumo com as ideias centrais de cada ponto com palavras-chave ou na forma de 
perguntas e respostas (ex.: Ponto 10: O que é conduta? R: é a ação ou omissão humana consciente e voluntária 
voltada para uma finalidade). 
Tempo estimado: 1 hora. 
4º Memorize as palavras-chave ou as respostas. 
Tempo estimado: 1 a 2 horas. 
Obs.: peça pra alguém lhe “tomar” a aula ou finja que está ensinando para alguém o que 
aprendeu (seu cachorro pode ser um ótimo aprendiz!). 
5ª Estude as questões. Não as use como forma de teste. Leia cada uma buscando as respostas 
no texto da aula ou nos comentários respectivos. 
Tempo: 1h30min 
6º Antes da aula seguinte, revise a aula estudada. 
Tempo: 10 minutos. 
7º Faça revisões semanais de todas as aulas já estudadas. Para isso, releia seu resumo e só 
volte ao texto da aula quando precisar recordar determinados pontos. 
Obs.: divida o estudo da aula em, pelo menos, dois dias (ex.: 1º dia: leitura e resumo; 2º dia: 
memorização e questões). 
 
Antes de iniciarmos a aula, solicito ao aluno que relembre comigo a estrutura do crime apresentada na 
aula zero (demonstrativa). 
 
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39 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Perceba que estamos estudando o fato típico. Dentro do fato típico estamos estudando a conduta. Já 
estudamos que a conduta é a “ação ou omissão, humana, consciente, voluntária e com finalidade”. Já estudamos (1) ação 
e omissão {própria e imprópria}; (2) praticada por ser humano; (3) consciente; (4) voluntária; (5) finalística. 
Veja o gráfico: 
 
 
1. Formas de conduta típica – Dolo e Culpa 
 
O estudo do dolo e da culpa no âmbito da conduta é uma conveniência didática. Na verdade, o dolo e 
a culpa são realidades típicas, leia-se, são elementos pertencentes ao tipo penal e não à conduta. De fato, podemos 
afirmar que José agiu com dolo ao matar João, mas não poderíamos dizer que José agiu com dolo ao beber água para 
matar a sede. Claro, porque “matar a sede” não é algo previsto como uma conduta típica, mas “matar alguém” sim. 
 
A conduta penalmente relevante deve ser necessariamente típica, diga-se, deve encontrar adequação 
a determinado tipo penal. Esse fenômeno somente pode ocorrer com a existência de dolo ou culpa descritos nos tipos 
penais. 
 
A conduta de disparar arma de fogo, como exemplo, pode ou não ter relevância típica. Se tal ação 
ocorrer em um stand de tiros, durante treinamento militar, será apenas mais uma conduta humana. Caso essa conduta 
ocorra em via pública (ex.: pessoa que efetua disparo de arma de fogo para o alto) encontrará adequação a um tipo 
descrito no Estatuto do Desarmamento. Nesse caso, a conduta dolosa está descrita no tipo penal, trazendo relevância 
para o estudo do dolo. 
 
Dessa forma, a abordagem que faço da conduta é do ponto de vista jurídico-penal. Não falo aqui de 
qualquer conduta, mas somente daquela com relevância típica. E conduta com relevância típica significa que ela está 
relacionada a determinado tipo penal. De tal modo, não nos interessa a conduta de “pular”, mas nos interessa muito a 
conduta de quem pula por sobre alguém causando-lhe lesões corporais. Essa última é conduta com relevância típica. 
 
É que os finalistas dividem o tipo penal em duas partes: a objetiva e a subjetiva. A primeira conteria os 
aspectos objetivos do tipo (conduta, resultado material, nexo causal etc.). A parte subjetiva do tipo estaria relacionada 
com a representação anímica do agente (dolo e outros eventuais requisitos subjetivos). Pelo princípio da congruência, a 
adequação típica (tipicidade) depende do encontro dessas duas partes perfeitamente ajustadas. 
fato típico
CONDUTA: (1) ação e omissão
{própria e imprópria}; (2) praticada
por ser humano; (3) consciente; (4)
voluntária; (5) finalística.
resultado
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
estrito 
cumprimento 
do dever legal
exercício 
regular do 
direito
culpabilidade
imputabilidade 
potencial 
consciência 
da ilicitude
exigibilidade 
de conduta 
diversa
 
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40 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Essa concepção importa em demonstrar que a existência ou não do dolo pode levar a adequação da 
conduta para tipos penais distintos. Existem tipos que possuem apenas a forma dolosa (como no delito de dano); há 
outros que admitem apenas a conduta culposa (ex.: homicídio culposo na direção de veículo automotor); há outros, ainda, 
que admitem as duas formas (como no homicídio comum doloso e culposo). 
 
Se José, por exemplo, atropela dolosamente João desejando-lhe a morte, não poderá ter cometido um 
delito de trânsito, uma vez que o tipo respectivo não admite a forma dolosa. A adequação ocorrerá, deste modo, ao tipo 
do art. 121 do Código Penal. Veja a seguinte questão: 
 
 ( CESPE - 2011 - PC-ES - Delegado de Polícia ) É admissível a denominação de crime de 
trânsito para a conduta de dano cometida com dolo, a exemplo daquele que, intencionalmente, utiliza o seu 
veículo para a prática de um crime. 
 
Resposta: errado. 
 
 
Feitas essas observações, prefiro manter o estudo do dolo e da culpa na conduta (típica), por ser 
didaticamente mais adequado.3 
 
Muito bem. Como eu já tive a oportunidade de explicar, a conduta pode ser praticada por um fazer 
(ação) ou um não fazer (omissão). Ocorre que determinada conduta típica ativa ou omissiva pode ainda ser classificada 
como dolosa ou culposa. É isso que vamos ver a partir de agora. 
 
2. O Dolo: O Código Penal prevê o conceito de dolo em seu artigo 18, da seguinte maneira: 
“Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado (dolo direto) ou assumiu 
o risco de produzi-lo (dolo eventual)”. Art. 18 do CPB. 
 
Como se vê, a lei previu apenas duas hipóteses de “dolo”: o direto e o eventual. 
3. Há no conceito de dolo dado pelo artigo 18 do CPB duas teorias que o explicam: a teoria da 
vontade (querer o resultado) e a teoria do assentimento ou da aceitação (assumir o risco de produzir oresultado). 
Portanto, é doloso tanto quem, por exemplo, quer matar, como quem, mesmo não querendo, assume o risco de 
produzir o resultado morte. 
                                                            
3 O professor Cleber Masson (Direito Penal Esquematizado, 4ª Edição, Ed, Método, pg. 263) assim inicia seu 
estudo de dolo: “ O  dolo, no conceito finalista de conduta,  integra a conduta. Pode, assim, ser conceituado 
como elemento subjetivo do tipo. É implícito e inerente a todo crime doloso.” (grifei) 
Como expliquei, o dolo pertence ao tipo e, por consequencia, à conduta típica dolosa (conduta descrita no 
tipo penal doloso).   
 
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41 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Segundo a redação do artigo 18, I, do Código Penal (“Diz-se o crime: I – doloso, quando o 
agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo”), é possível concluir que foi adotada (Delegado de 
Polícia/NCE-UFRJ/PCDF/2005): 
a) a teoria do assentimento; 
b) a teoria da representação; 
c) as teorias do assentimento e da representação; 
d) as teorias do assentimento e da vontade; 
e) as teorias da representação e da vontade. 
RESPOSTA: D 
 
Vamos iniciar o estudo a partir dessa classificação feita pela lei. Após, veremos classificações para o 
dolo dadas pela doutrina e que, por isso, são comuns em provas. Só gostaria de ressaltar que, basicamente, o dolo ou é 
direto ou é eventual. Qualquer outra classificação de dolo é meramente doutrinária. 
Preparado? Então, vamos lá! 
4. Dolo direto (o sujeito quer o resultado) 
Sábado, dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Imagine-se tentando estacionar seu veículo no Park 
Shopping. Dá stress só de pensar, não é mesmo? 
Um velho senhor chega com seu carro para comprar o presente do neto. Após rodar por mais de uma 
hora a procura por uma vaga, eis que surge uma luz de ré. É um carro saindo e liberando uma vaga. 
Aquele senhor espera o carro sair com seta ligada, indicando que vai estacionar naquele local. 
Quando vai parar seu carro, outro sujeito acelera e coloca o carro na vaga que ele estava esperando. 
- Amigo, me desculpe, mas eu estava esperando essa vaga! 
- “Qualé” tio, o mundo é dos “eshhpertoshh”! Procura outra vaga! 
Então, o rapaz sai caminhando rindo do velho senhor. 
TEORIAS DO DOLO
TEORIA DA VONTADE
(DOLO DIRETO)
Querer o resultado
TEORIA DO 
ASSENTIMENTO
(DOLO EVENTUAL)
Aceitação do resultado
 
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42 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Aquele senhor que nunca antes havia praticado qualquer crime em sua vida, acelera o carro e atropela 
o rapaz. Após, engata a marcha ré e o atropela novamente. Por fim, engata a primeira marcha e o atropela pela terceira 
vez para ter certeza que o matou. 
Aquele senhor quis matar a vítima? 
Bom, se ele não quis, eu não sei mais o que é querer! 
Como o diz o povão: “ele quis DE COM FORÇA!” 
Esse é, portanto, o Dolo Direto. No caso, o agente dirigiu sua vontade final para o resultado criminoso. 
Diga-se, ele quis o resultado criminoso. DOLO DIRETO SIGNIFICA QUERER O RESULTADO DESCRITO NO TIPO. 
5. Como se vê, o dolo direto exige dois elementos para sua configuração: 
a. Um elemento intelectual: conhecimento atual das circunstâncias de fato do tipo penal (ex.: 
José sabe que “mata alguém”). O desconhecimento atual de circunstâncias fáticas (leia-se do fato concreto) leva ao 
denominado “erro de tipo”, que afasta o dolo (ex.: José, ao matar alguém, pensa que mata uma onça). 
b. Um elemento volitivo: representado por “querer” incondicionalmente o resultado descrito no 
tipo penal (Ex.: José efetua disparo contra João, sabendo tratar-se de uma pessoa (elemento intelectual) e pretendendo 
ceifar sua vida (elemento volitivo)). 
Obs.: a vontade de ser capaz de causar fisicamente o resultado real, permitindo definir o resultado 
típico como “obra do autor”. Assim, se José envia João para um passeio de barco querendo sua morte, mas não se 
envolve em nenhum ato que leve a esse resultado, o naufrágio causado por uma forte e inesperada tempestade não pode 
ser atribuído a José. O resultado, como se vê, é obra do acaso e não da conduta do autor, que não poderá responder 
pela morte. Nesse ponto, podemos dizer que José “desejou” a morte de João, o que não é suficiente para caracterizar o 
dolo. 
A “teoria da imputação objetiva”, como veremos, pretende explicar essa não imputação com 
critérios diferentes. Voltaremos ao tema em momento oportuno. 
Quais são os elementos do dolo direto? 
Diferencie “desejo” de causar o resultado de “vontade” dirigida ao resultado. 
6. Nesse querer do dolo direto, estão implícitas duas situações: o resultado e o meio para esse 
resultado. Desse raciocínio nascem dois tipos de dolos diretos, o dolo direto de primeiro grau e o dolo direto de 
segundo grau. Vamos lá, então: 
 
7. O dolo direto pode ser subdividido em: 
 DOLO DIRETO DE PRIMEIRO GRAU: a vontade abrange o resultado típico como fim em 
si; 
 DOLO DIRETO DE SEGUNDO GRAU (OU DE CONSEQUÊNCIAS NECESSÁRIAS): o 
resultado típico é uma consequência necessária dos meios eleitos (escolhidos) para o cometimento do crime. 
Para Hans Welzel, idealizador da teoria finalista da ação, a vontade final do agente abarca também os 
efeitos concomitantes da conduta. A explicação seria a de que quando o ser humano age, ele calcula, em certa medida, 
os efeitos colaterais de seu ato. 
O exemplo seria aquele em que o sujeito quer matar o presidente que está em um avião. Para isso, 
coloca uma bomba no avião e acaba matando, além do presidente, outras pessoas que ali estavam. Ao eleger como ação 
final a morte da vítima por explosão da aeronave, considerou segura ou, no mínimo, contou como certa, a morte das 
outras vítimas. O resultado é, assim, resultado do seu “querer” final. 
Observe! 
 
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43 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O Dolo direto de primeiro grau existe em relação à morte do presidente. 
O Dolo direto de segundo grau existe em relação às outras pessoas que morrerão, porquanto 
era uma consequência necessária da conduta, dentro do que foi planejado. 
Igualmente, no caso do assassínio de irmãos xifópagos (siameses). Dentro do querer matar um dos 
irmãos, o autor, automaticamente, “quer” indiretamente a morte do outro, sendo essa uma consequência necessária de 
seu ato. 
 
 
Outro exemplo de dolo direto de 2º grau: 
O agente quer afundar seu barco para receber o seguro, o que configuraria fraude para recebimento 
de seguro (Art. 171, inciso V, do CPB). Ele tem certeza que quando fizer isso vai acabar matando seu funcionário que 
pilota a embarcação. Bom, se ao afundar o barco ele teve certeza que ia matar o funcionário, ele de certa forma também 
QUIS a morte do rapaz. 
Dolo direto de primeiro grau em relação à fraude e dolo direto de segundo grau em relação à morte. 
8. Mas, Valente, o dolo direto de segundo grau é muito parecido com o dolo eventual (quando o 
agente aceita ou assume o risco)! 
Sim, é verdade! Mas no dolo direto de segundo grau ele tem certeza que a consequência necessária 
para a finalidade dela ocorrerá. Já no dolo eventual, o resultado pode “eventualmente ocorrer”. 
 
POR EXEMPLO, SE ACELERO O MEU CARRO A 160 KM/H EM ÁREA ESCOLAR E SOU 
INTERPELADO PELO CARONA QUE DIZ: “VALENTE, DESSE JEITO VOCÊ VAI ACABAR MATANDO UMA CRIANÇA 
QUE EVENTUALMENTE ATRAVESSE A RUA”. SE MINHA RESPOSTA FOR: “DANE-SE! SE OCORRER, TANTO PIOR 
PRA ELA!” ESTOU AGINDO COM DOLO EVENTUAL, OU SEJA, PODE SER QUE OCORRA OU NÃO. 
 
DOLO DIRETO
O AGENTE QUER O 
RESULTADO CRIMINOSO
DOLO DIRETO DE 
PRIMEIROGRAU = A 
VONTADE SE REALIZA 
COM A PRODUÇÃO DO 
RESULTADO FINAL
DOLO DIRETO DE 
SEGUNDO GRAU = SÃO 
AS CONSEQUÊNCIAS 
NECESSÁRIAS DA AÇÃO 
DO AGENTE
 
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44 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
Bom, para que você compreenda isso melhor, vamos ao estudo do dolo eventual. 
9. Dolo indireto (eventual) - (não quer o resultado, mas aceita correr o risco.) 
Caso dos mendigos Russos (Löffler): Durante a Revolução Russa (Revolução Socialista de Lênin, 
1917), mendigos mutilavam seus filhos para aumentar a compaixão pública. Ao fazê-lo o pedinte toma como possível a 
morte do filho, mas isso não o detém de praticar o ato – dolo eventual, portanto. 
Perceba que o mendigo não quer que a criança morra, até porque seria pior para conseguir esmolas, 
já que a cena de uma criança sempre toca as pessoas. Mas, no caso concreto, se você perguntasse ao mendigo: “Você 
não vê que esta criança pode pegar uma infecção em meio a tanta sujeira?” Ele pode responder: “Bom, se morrer, pior 
pra ela. Seja como for, não paro a minha conduta. Ou seja, DANE-SE!” 
Outro exemplo seria do médico que não possui especialidade em cirurgia, mas resolve, mesmo assim, 
submeter um paciente a cirurgia de lipoaspiração. O médico tem consciência que pode levar o paciente à morte, mas isso 
não impede de prosseguir, uma vez que receberá um bom dinheiro pela cirurgia. O médico pensa com ele mesmo: 
-“Bom, querer matar eu não quero, mas se a paciente morrer tanto pior para ela! Dane-se!” 
Nas duas situações o agente aceita a produção do resultado. Diga-se, percebe que é possível a 
ocorrência do resultado gravoso e assume o risco de produzir esse mesmo resultado. 
 
Como se vê, no dolo eventual, o agente prevê a possibilidade do resultado criminoso, mas não o quer 
diretamente. Em verdade, pode ser que o resultado criminoso seja até desinteressante para o agente (no caso do 
mendigo russo, perder a criança poderia significar menos esmolas), porém a previsão da ocorrência do resultado não 
impede que o agente prossiga em sua conduta. É como se dissesse para si mesmo: “haja o que houver, ocorra o que 
ocorrer, não paro minha conduta”. 
 
DOLO DIRETO DE 1º 
GRAU X DOLO EVENTUAL
DOLO DIRETO DE 1º 
GRAU = É UMA 
CONSEQUÊNCIA CERTA 
DA MINHA FINALIDADE 
(GRANDE GRAU DE 
CERTEZA)
DOLO EVENTUAL = PODE 
SER QUE OCORRA OU 
NÃO (APENAS 
POSSIBILIDADE)
DOLO 
EVENTUAL
PREVISÃO DO 
RESULTADO + 
ACEITAÇÃO 
DESSE 
RESULTADO 
PREVISTO
 
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45 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
(Analista – MPU – 2007) João, dirigindo um automóvel, com pressa de chegar ao seu destino, 
avançou com o veículo contra uma multidão, consciente do risco de ocasionar a morte de um ou mais pedestres, 
mas sem se importar com essa possibilidade, João agiu com 
a) culpa 
b) dolo indireto 
c) culpa consciente 
d) dolo eventual 
Resposta: D 
( FCC - 2010 - TRE-AL - Analista Judiciário-adaptada ) Há dolo eventual quando o agente, 
embora prevendo o resultado, não quer que ele ocorra nem assume o risco de produzi-lo. 
Resposta: Errado 
 
 
10. Neste momento, preciso falar uma coisa importante: o posicionamento dos tribunais, em 
maioria, é de que o dolo direto e o dolo eventual são equiparados pela lei. Quero dizer, tudo que cabe para o dolo 
direto, cabe para o dolo eventual. 
Diz o Ministro Francisco Campos na Exposição de Motivos do Código de 1940: 
“Segundo o preceito do art. 15, I, o dolo existe não só quando o agente quer diretamente o resultado 
(effetus sceleris), como assume o risco de produzi-lo. O dolo eventual é, assim, plenamente equiparado ao dolo 
direto. É inegável que arriscar-se conscientemente a produzir um evento vale tanto quanto querê-lo.” Assim, a lei 
equiparou o dolo direto ao eventual, não sendo correto dizer que um é mais grave do que o outro.” 
Valente, qual a importância disso? 
Isso é importante para você acertar questões como a seguinte: 
(CESPE - 2010 - DPU - Defensor Público ) Em se tratando de homicídio, é incompatível o 
domínio de violenta emoção com o dolo eventual. 
 
Antes de qualquer coisa, lembre-se que a assertiva está se referindo a uma causa de diminuição de 
pena existente no homicídio que é: “praticar o fato sob domínio de violenta emoção, logo após a injusta provocação 
da vítima” (Art. 121, § 1º, CPB). 
 
Realmente, é difícil pensar nessa causa de diminuição com dolo eventual. Mas, pense na situação do 
sujeito que tem seu inimigo em frente a seu carro, impedindo a passagem e, ao mesmo tempo, xingando a vítima de 
“corno” na presença dos filhos deste. O motorista acelera o carro, dominado por violenta emoção provocada por ato 
injusto da vítima, assumindo o risco de matá-la. Ao praticar tal conduta, acaba por causar sua morte. 
 
Eu disse que: “TUDO QUE CABE PARA O DOLO DIRETO, CABE PARA O EVENTUAL.” Então não 
tenha dúvida de marcar a questão como ERRADA. Ou seja, é plenamente compatível o dolo eventual como “domínio de 
violenta emoção”. 
 
Outra pergunta: cabe tentativa em dolo eventual? 
A doutrina se divide, mas marque na prova como te ensinei: TUDO QUE CABE PARA O DOLO 
DIREITO, CABE PARA O EVENTUAL. A resposta é sim, portanto. 
Dica: sempre que o cespe afirmar que “cabe determinada situação para o dolo eventual”, como 
nos exemplos acima, a resposta será CORRETA. 
 
 
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46 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
 
11. Posição divergente: o STF, no entanto, entende ser incompatível o dolo eventual com a 
qualificadora do homicídio consistente em praticar o fato com recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do 
ofendido. 
INFORMATIVO Nº 618 
TÍTULO 
Dolo eventual e qualificadora: incompatibilidade 
 
ARTIGO 
São incompatíveis o dolo eventual e a qualificadora prevista no inciso IV do § 2º do art. 121 do CP (“§ 2º Se o 
homicídio é cometido: ... IV - à traição, de emboscada ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou 
torne impossível a defesa do ofendido”). Com base nesse entendimento, a 2ª Turma deferiu habeas corpus impetrado 
em favor de condenado à pena de reclusão em regime integralmente fechado pela prática de homicídio qualificado 
descrito no artigo referido. Na espécie, o paciente fora pronunciado por dirigir veículo, em alta velocidade, e, ao avançar 
sobre a calçada, atropelara casal de transeuntes, evadindo-se sem prestar socorro às vítimas. Concluiu-se pela ausência 
do dolo específico, imprescindível à configuração da citada qualificadora e, em conseqüência, determinou-se sua 
exclusão da sentença condenatória. Precedente citado: HC 86163/SP (DJU de 3.2.2006). HC 95136/PR, rel. Min. Joaquim 
Barbosa, 1º.3.2011. (HC-95136) 
 
O dolo eventual, como falei, é em tudo equiparável ao dolo direto. Recentemente, por exemplo, 
ocorreu um fato em Porto Alegre que todos irão se lembrar. Um motorista avançou sobre ciclistas que faziam protesto em 
uma via pública da capital gaúcha (Veja o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=8Z2V4BNcLgo&feature=related). 
Não tenho dúvidas em afirmar que o agente agiu com dolo eventual e deverá, portanto, responder por 
tentativa de homicídio qualificado pelo recurso que impossibilitou a defesa do ofendido. Não vejo, dessa forma, 
qualquer incompatibilidade entre os institutos e penso estar muito bem acompanhado pelo STJ. Senão, vejamos julgado 
recente: 
Consoante já se manifestou esta Corte Superior de Justiça, a qualificadora prevista no inciso IV do § 
2.º do art. 121 do Código Penal é, em princípio, compatível com o dolo eventual, tendo em vista que o agente, embora 
prevendo o resultado morte, pode,dadas as circunstâncias do caso concreto, anuir com a sua possível ocorrência, 
utilizando-se de meio que surpreenda a vítima (STJ, HC 120.175/SC, DJe 29/03/2010) 
De qualquer sorte, o posicionamento apresentado pela Turma do STF deverá ser considerado para 
provas futuras, apesar de não ser jurisprudência majoritária. O fato é que os examinadores não têm feito diferenciação 
entre “jurisprudência” (decisão reiterada de um Tribunal dando determinada interpretação a um instituto jurídico no fato 
concreto) de “precedente” (decisão ou decisões não reiteradas de órgão singular ou colegiado de Tribunal). 
12. Elementos subjetivos especiais 
TUDO QUE COUBER 
PARA O DOLO DIRETO, 
CABERÁ PARA O DOLO 
EVENTUAL
Cabe tentativa em 
dolo eventual
O dolo eventual é 
compatível com 
qualquer qualificadora 
do homicídio
 
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47 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
José, médico ginecologista, é procurado por Maria para realização de exame clínico. José solicita que 
Maria se deite em uma cama em posição ginecológica. Então, após calçar a luva, introduz o dedo indicador na vagina de 
Maria. 
Podemos afirmar, com certeza, que José consciente e voluntariamente introduziu seu dedo na vagina 
de Maria. Tem, por conseguinte, conhecimento e vontade de praticar um crime? 
Em princípio, não. Veja que o especial fim de agir de José, suas intenções, suas tendências 
internas, suas atitudes psicológicas não foram libidinosas (leia-se, de caráter sexual). 
Podemos afirmar, então, que ao lado do dolo, a lei pode exigir do sujeito ativo determinada atitude 
psicológica. No estupro, a finalidade de satisfação sexual; no furto, a intenção especial de se apropriar da coisa; a 
finalidade de uso pessoal, no crime de porte de drogas para uso próprio; a tendência de extrapolar os limites de sua 
autoridade, no abuso de autoridade; a finalidade de manchar a reputação social da vítima na calúnia e difamação, e por aí 
vai. 
13. Esses elementos subjetivos especiais eram antes apelidados de “dolo específico”. 
Atualmente, a denominação “elemento subjetivo especial do tipo ou do injusto” é mais utilizada. 
Bom, a identificação dessas características especiais de cada tipo penal é um trabalho a ser realizado 
tipo por tipo na parte especial do Código Penal. De qualquer forma, é importante entender o esquema geral de 
classificação de tais tipos penais. Com efeito, a doutrina classifica os elementos subjetivos especiais do tipo em: 
a. Delitos de intenção (ou de tendência interna transcendente): ocorre 
quando o tipo penal descreve um propósito que não precisa se realizar concretamente, mas que deve ser finalidade do 
autor. Na extorsão mediante sequestro (CPB, art. 159), por exemplo, a lei descreve a conduta de quem sequestra pessoa 
com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate. O sequestrador, 
nesse caso, deve ter um propósito bem definido: obter o resgate. Ocorre que, mesmo que esse propósito não se cumpra 
(ex.: a vítima é encontrada pela polícia antes do pagamento) o crime já se realizou. 
Os delitos de intenção são subdividos em: 
 
i. Delitos de resultado cortado: em que o resultado pretendido não exige ação complementar 
do autor. 
O furto é um exemplo de delito de intenção com resultado cortado. O art. 155 do CPB descreve: 
subtrair coisa alheia móvel com a finalidade de (para) ter para si ou para outrem. 
Assim, temos: 
Subtrair coisa alheia móvel: dolo genérico. 
Para si ou para outrem: dolo específico (elemento subjetivo especial) é por isso que 
não se pune o “furto de uso”, ou seja, aquela situação em que o sujeito “toma emprestada” a coisa sem autorização do 
dono. Se não existe finalidade de ficar definitivamente com a coisa, não existe furto. 
Pois bem, essa finalidade especial não exige uma segunda ação do autor, bastando que exista a 
finalidade especial em sua mente. 
Outros exemplos de delitos de intenção com resultado cortado: com o fim de obter (art. 159, CPB – 
extorsão mediante sequestro); com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado (art. 131, CPB – 
perigo de contágio de moléstia grave); etc. 
 
ii. Delitos mutilados de dois ou mais atos: em que o resultado complementar exigiria outras 
ações por parte do criminoso. 
 
Um sujeito que falsifica cédula de Real, por exemplo, tem alguma finalidade especial ao praticar o 
falso (ex.: praticar estelionato). Entretanto, esse resultado posterior, que não faz parte do tipo de falso, depende de uma 
ou várias ações do sujeito ativo. Por isso, diz-se que o crime foi mutilado em dois ou mais atos. 
 
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48 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
( CESPE - 2010 - MPE-RO - Promotor de Justiça) No tocante aos delitos de intenção, assim 
conceituados por parte da doutrina, há as intenções especiais, que dão lugar aos atos denominados delitos de resultado 
cortado, tais como o crime de extorsão mediante sequestro, e os atos denominados delitos mutilados de dois atos, tais 
como o crime de moeda falsa. 
Resposta: correto. 
 
b. Delito de tendência intensificada: a ação do autor está contaminada 
por uma tendência psicológica que só existe em sua mente. Se tirarmos uma foto da situação, não poderemos dizer se o 
fato é criminoso ou não. Na maioria das vezes, esses fatos passam sem a percepção de qualquer pessoa, pois o dolo 
específico só existe no coração do agente. 
 
Em uma situação real, uma mulher procurou a delegacia para relatar que, quando esteva internada em 
determinado hospital, foi examinada por um médico, o qual apalpou seios. A situação não despertaria qualquer alarde, 
uma vez que, ao que parece, o exame clínico seria coerente com a enfermidade da vítima. Entretanto, o doutor, ao 
praticar tal conduta, disse para a vítima: “dá até vontade de beijá-los.” 
 
Veja que o aspecto libidinoso é o que permite diferir um simples exame clínico de um eventual delito 
sexual. 
c. Delitos de expressão: é o que se caracteriza pela existência de uma 
desconformidade entre a expressão e a convicção pessoal do autor (ex.: no falso testemunho, o agente diz que não viu o 
suspeito (expressão mentirosa), quando tem convicção de que viu). 
 
 
 
 
 
 
PEGANDO O FIO DA MEADA 
1. A CONDUTA ATIVA OU OMISSIVA PODE SER PRATICADA DOLOSAMENTE OU 
CULPOSAMENTE; 
2. O DOLO PODE SER DIRETO OU EVENTUAL (INDIRETO); 
3. NO DOLO DIRETO O SUJEITO QUER O RESULTADO (TEORIA DA VONTADE); 
4. O DOLO DIRETO PODE SER DE 1º E DE 2º GRAUS; 
5. NO DOLO DIRETO DE PRIMEIRO GRAU O AGENTE VISA A UM FIM DETERMINADO; 
6. NO DOLO DIRETO DE SEGUNDO GRAU O AGENTE PRATICA OUTRO CRIME COMO UMA 
CONSEQUÊNCIA NECESSÁRIA DENTRO DO PLANEJAMENTO QUE ELE ARQUITETOU. 
elemento 
subjetivo do 
injutos
delito de 
intenção
resultado cortado
mutilados em 
vários atos
tendência 
intensificada
delitos de 
expressão  
 
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49 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
7. NO DOLO EVENTUAL O SUJEITO ACEITA PRODUZIR O RESULTADO (TEORIA DO 
ASSENTIMENTO); 
8. TUDO QUE CABE PARA O DOLO DIRETO, CABE PARA O DOLO EVENTUAL (EXEMPLO: 
TENTATIVA). 
9. O STF ENTENDE NÃO SER COMPATÍVEL DOLO EVENTUAL COM A QUALIFICADORA DA 
SUPRESA NO HOMICÍDIO. 
10. OS ELEMENTOS SUBJETIVOS ESPECIAIS REPRESENTAM UM ESPECIAL FIM DEAGIR POR 
PARTE DO AGENTE. 
 
 
14. Bom, como eu falei agora a pouco, o Código Penal (art. 18) apenas classificou o dolo em 
DIRETO e EVENTUAL. Todavia, existem outras classificações para o DOLO que devem ser estudadas. Lembro que, de 
uma forma ou de outra, o dolo será direto ou eventual. 
PARA APROFUNDAR!Outras classificações do dolo: 
a. Dolo alternativo: o autor quer, de forma indiferente, um ou outro resultado ( Ex.: Caio atira em 
Mévio, pouco importando para matá-lo ou feri-lo). 
b. Dolo cumulativo: O agente pretende alcançar dois resultados, em sequência. 
O exemplo pode ser o de que o agente deseja espancar a vítima e, só depois, matá-la. No caso, a 
lesão ficará absorvida pelo homicídio se for meio para a realização deste. 
c. dolo de ímpeto (ação dolosa sem cogitação, sem premeditação): impulsivo, não presumido. 
Ocorre muitas vezes em discussões de trânsito em que o agente efetua um disparo na vítima após 
tomar uma fechada. 
d. Dolo específico: (também chamado de elemento subjetivo do tipo ou delito de tendência) – 
quando a lei especifica o tipo de crime, “com o fim de, com a finalidade de, com o intuito de, com a intenção de”. 
Exemplo: “Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como 
condição ou preço do resgate” (Extorsão mediante seqüestro, art. 159 do CPB). 
(CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) No crime de falsificação de documento público o 
dolo é específico. 
Resposta: Errado 
(CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Para a configuração do crime de peculato-desvio, é 
necessária a presença do dolo genérico e do dolo específico. 
 
Resposta: Correto. 
 
 
e. Dolo geral (Ex. o sujeito quer matar por veneno, mas mata enforcado simulando o suicídio) 
No dolo Geral teríamos uma só conduta, dividida em dois ou mais atos: o agente dispara contra a 
vítima, que desmaia; ele pensa que a vítima já morreu e joga seu corpo ao rio para encobrir o crime anterior; descobre-se 
depois que ela morreu não pelo disparo, mas sim pelo afogamento. Quis matar e, de fato, matou, respondendo pelo 
resultado normalmente. O dolo geral é também denominado “erro sobre o nexo causal”. 
 
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50 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Por que a denominação “dolo geral”? 
Porque o dolo do agente o acompanha até o resultado, mesmo que este não advenha da forma como 
imaginou inicialmente. 
RESUMINDO: QUIS MATAR, MATOU! 
Obs.: O dolo geral é tratado pela doutrina como uma forma de erro (erro sobre o nexo causal). 
Voltaremos ao assunto em aula específica. 
f. Dolo de perigo: em verdade, não é propriamente o dolo que é de perigo, mas o tipo penal (tipo de 
perigo concreto ou de perigo abstrato). 
Os doutrinadores dividem os TIPOS DE PERIGO em: 
(a) perigo abstrato (ex.: omissão de socorro), onde o perigo não precisa ficar demonstrado, pois ele 
se presume; 
(b) perigo concreto (Ex.: Periclitação à vida ou à saúde de outrem), onde o crime só se consuma com 
a demonstração efetiva do perigo para pessoa(s) determinada(s). 
 
Imagine que o sujeito saiba que é portador de uma moléstia venérea, o que não impede de manter 
relações sexuais desprotegido com uma moça, sem alertá-la dessa situação. Bom, no caso, a vítima ficou 
CONCRETAMENTE em perigo. Mesmo que não lhe seja transmitida a doença, o agente responde pelo crime de “perigo 
de contágio venéreo” (Expor alguém, por meio de relações sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contágio de moléstia 
venérea, de que sabe ou deve saber que está contaminado, art. 130 do CPB). Referido crime é de perigo concreto, tendo 
de existir demonstração do efetivo perigo. 
Caso a doença seja transmitida à moça, o crime será de LESÕES CORPORAIS (Ofender a 
integridade corporal ou a saúde de outrem, ART. 129 do CPB), uma vez que o PERIGO se transformou em LESÃO. 
Diferente seria o caso de alguém andar armado. Não se faz necessário que fique demonstrado que 
determinada pessoa ou grupo de pessoas tenha sido concretamente colocado em perigo com essa conduta. Isso porque 
se presume que andar armado ilegalmente seja algo perigoso. 
Assim, porte ilegal de arma de fogo (art. 14, Lei 10.826/03) é crime de perigo abstrato, vez que o 
perigo se presume. 
DOLO DE PERIGO
Abstrato: se 
presume
Concreto: não se 
presume
 
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51 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
15. A culpa 
 
Diz-se o crime culposo (ou não intencional) quando o agente não quer o resultado, nem mesmo 
assume o risco de produzi-lo, porém, por inobservância do dever de cuidado e diligência, na forma de imprudência, 
negligência e imperícia acaba causando um resultado criminoso. 
 
 
Em uma noite de sábado, José dirige seu carro para a casa de sua namorada. Durante o trajeto, 
utiliza-se de seu celular para enviar uma mensagem de texto para ela, avisando sua chegada. Ao fazer isso, tira o foco da 
direção e acaba por atropelar uma velhinha que atravessava a rua em uma faixa de pedestres. 
Ao retirar sua atenção da pista para utilizar o celular, José quebrou um dever de cuidado a que todos 
os motoristas estão obrigados. Ao atropelar e matar a velhinha poderá responder pelo resultado, mesmo que não 
intencional. 
 
Pergunto: Existiu vontade (voluntariedade) na conduta de José? 
Sim, claro! TODA CONDUTA TEM VOLUNTARIEDADE, lembra-se? 
Lembrando os elementos da conduta: 
OUTRAS 
FORMAS DE 
DOLO
Dolo alternativo
Dolo de perigo
Dolo cumulativo
Dolo específico
Dolo geral
 
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52 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
O que ocorre na conduta culposa é que a vontade não é dirigida (finalisticamente) para algo 
criminoso. Veja que José, por exemplo, apenas queria mandar uma mensagem para sua namorada, mas por 
imprudência acabou causando um acidente. 
 
Assim, o elemento essencial do injusto culposo não é o resultado em si (ex.: atropelamento), mas a 
forma de conduta descuidada que levou ao resultado. Se há quebra do dever de cuidado, há culpa (ex.: atropelamento 
por desrespeito às normas de trânsito). Caso contrário, não há culpa (ex.: não há culpa pelo resultado na conduta do 
motorista que atropela alguém que se joga de forma suicida em frente ao veículo). 
 
 
 A culpa, portanto, é a quebra de um dever objetivo de cuidado. 
 
Por cuidado objetivo, devemos levar em conta que a vida em sociedade produz determinados riscos 
(tráfego de veículos, construções de edifícios, manipulação de objetos perigosos etc.). Os riscos, basicamente, podem ser 
permitidos (ex.: tráfego de veículo com obediência às normas de trânsito), e riscos não tolerados (ex.: cirurgia médica sem 
que o profissional tenha sido treinado adequadamente). Os crimes culposos nascem, justamente, do segundo grupo. 
Aquele que causa um acidente após imprimir velocidade acima daquela de segurança da via, poderá responder pelo 
resultado danoso (ex.: morte do outro motorista. 
 
Como bem ensina Welzel, com a observância do cuidado objetivo (no caso, com a observância das 
regras de trânsito) desaparece o crime culposo. “Se se produz a lesão de um bem jurídico como consequência de uma 
ação desse tipo, trata-se de uma desgraça, mas não de um injusto”. 
 
O princípio que fundamenta os delitos culposos pode ser compreendido pelo antigo brocardo latino: 
Quidquid agis, prudenter agas et respice finem (Qualquer coisa que faças, faze-o com prudência e considere o resultado). 
 
 
16. Como alguém pode quebrar o dever de cuidado? 
a. Por Imprudência: é um fazer descuidado 
Exemplo: acelerar o veículo acima da velocidade permitida. 
 
b. Por negligência: é um não fazer descuidado; 
Exemplo: deixar de fazer a manutenção do veículo. 
 
CONDUTA
AÇÃO OU 
OMISSÃO 
HUMANA
CONSCIENTE
VONTADE
FINALIDADE
 
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53 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
c. PorImperícia: é um não saber fazer (falta de habilidade técnica). 
Exemplo: dirigir o veículo sem ter carteira de habilitação. 
 
 
 
 
17. Classificação de Culpa 
Observe uma coisa: o Direito Penal nunca pune qualquer pessoa por resultados que ocorram 
extraordinariamente fora da possibilidade de previsão. Quero dizer que, se o resultado for imprevisível, o agente não se 
responsabiliza por ele. 
Muito bem. Se o resultado é previsível (leia-se, uma pessoa de mediana inteligência pode prever) 
pode ocorrer de o sujeito prever ou não esse resultado. Digo, pode prever ou não prever o previsível. 
Dentro desse raciocínio surgem dois tipos de culpa: a culpa consciente (com previsão) e a culpa 
inconsciente (sem previsão). 
Tenha calma e vamos lá! 
 
 
18. A culpa pode ser consciente ou inconsciente. 
a. Culpa Consciente (com previsão): é aquele que o sujeito prevê o resultado, mas acredita 
sinceramente que não ocorrerá. 
Lembro que quando eu era criança, meu pai me levou ao circo no dia do meu aniversário de sete 
anos. Uma das atrações do circo era o atirador de facas. O sujeito atirava as facas em direção a uma moça presa a uma 
roda em movimento. 
Pense! O sujeito ao atirar facas em direção à moça não tinha intenção de matá-la, pelo menos é o que 
se espera. Ele até previu que um erro poderia ser trágico, mas acredita sinceramente que esse erro não ocorrerá, até 
porque ele treina esse número há anos. 
Ocorre que o pior acaba por acontecer, por erro no lançamento da faca, o atirador acerta o peito da 
moça, matando-a. 
Eis a culpa consciente! O sujeito acredita, sinceramente, que o resultado não ocorrerá, mas 
acaba causando esse resultado por imprudência, negligência ou imperícia. 
 
19. Qual a diferença entre DOLO EVENTUAL e CULPA CONSCIENTE? 
O DOLO EVENTUAL se aproxima da CULPA CONSCIENTE, porém com ela não se confunde, por 
que: (a) no DOLO EVENTUAL há conformação com o resultado (seja como for, dê no que dê, não deixo de agir); ao 
passo que (b) na CULPA CONSCIENTE não se conforma com o resultado e acredita não sua não ocorrência. (até pode 
acontecer, mas não acredito que aconteça). 
(CESPE - 2008 - TCU - Analista de Controle Externo ) Durante um espetáculo de circo, Andrey, 
que é atirador de facas, obteve a concordância de Nádia, que estava na platéia, em participar da sua 
FORMAS DE 
CULPA
IMPRUDÊNCIA NEGLIGÊNCIA IMPERÍCIA
 
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54 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
apresentação. Na hipótese de Andrey, embora prevendo que poderia lesionar Nádia, mas acreditando 
sinceramente que tal resultado não viesse a ocorrer, atingir Nádia com uma das facas, ele terá agido com dolo 
eventual. 
Resposta: errado 
 
 
 
b. Culpa Inconsciente (sem previsão): O sujeito não prevê um resultado que lhe seria previsível. 
Diga-se, não vê o resultado que poderia e deveria prever. 
( FCC - 2010 - TRE-AL - Analista Judiciário-adaptada ) Há culpa inconsciente quando, embora 
previsível o resultado, o agente não o prevê por descuido, desatenção ou desinteresse. 
Gabarito: correto. 
 
Imagine que o sujeito deixe seu filho de um ano de idade dentro do carro enquanto vai ao banco pagar 
contas. Ao fazer isso, o pai não pensou que algo de mal poderia ocorrer com seu filho. Mas, qualquer pessoa 
medianamente inteligente poderia ter previsto que tal ato é de extremo perigo ao infante. Assim, podemos dizer que a 
eventual morte da criança era algo PREVISÍVEL para qualquer pessoa normal. 
Enfim, o pai não previu algo que seria perfeitamente previsível. Por isso, deve responder pelo 
resultado. 
Ambas as formas de culpa (previsível e imprevisível) são equiparadas. Esse estudo é realizado, 
principalmente, para demonstrar a diferença entre culpa consciente (culpa com previsão) e dolo eventual (o agente 
assume o risco de produzir o resultado). 
Então vamos lá mais uma vez. Qual a diferença entre DOLO EVENTUAL e CULPA CONSCIENTE? 
Dolo eventual – o agente vê o resultado como possível e aceita esse resultado; 
Culpa consciente – o agente vê o resultado como possível, mas acredita sinceramente que ele não 
ocorrerá. 
(CESPE_Analista Judiciário _Execução de Mandados_TJDFT_2008) Se o sujeito ativo do delito, 
ao praticar o crime, não quer diretamente o resultado, mas assume o risco de produzi-lo, o crime será culposo, na 
modalidade culpa consciente. 
Resposta: errado 
DOLO EVENTUAL X 
CULPA CONSCIENTE
DOLO EVENTUAL É O 
DANE‐SE!
CULPA CONSCIENTE 
É O IH, DANOU!
 
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(CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa consciente ocorre 
quando o agente assume ou aceita o risco de produzir o resultado. Nesse caso, o agente não quer o resultado, 
caso contrário, ter-se-ia um crime doloso. 
 
Resposta: errado. 
 
 
 
20. A previsibilidade objetiva (possibilidade de previsão) 
Cuidado com uma coisa! Na culpa consciente existe previsão do resultado, enquanto na culpa 
inconsciente não existe essa previsão. Mas, PREVISÃO é diferente de PREVISIBILIDADE. 
Todo crime exige previsibilidade (a capacidade ou possibilidade de previsão). Se não há 
previsibilidade de ocorrer um crime não haverá culpa. 
Note que o agente pode PREVER ou não como possível o resultado. Se não previu o que era 
previsível, não houve PREVISÃO, mas ainda existe a previsibilidade (possibilidade de ter previsto). 
Hehe, confuso? Vamos lá então! 
O filho que, ao ouvir trovões, sai de casa sem proteção contra chuva pode ter incorrido nas seguintes 
hipóteses: 
 a) Saiu de casa PREVENDO que choveria, mas como o trajeto era curto, não se molharia. Ocorre que 
por negligenciar a capa acaba se molhando (molhou-se por culpa consciente). RESULTADO: VAI TOMAR UM PUXÃO 
DE ORELHA DA MAMÃE; 
b) Apesar de ter ouvido os trovões não previu a chuva, fato que poderia ser previsto por qualquer 
pessoa mentalmente normal. Ao sair de casa acaba se molhando (culpa inconsciente ou sem previsão) RESULTADO: 
VAI TOMAR UM PUXAO DE ORELHA DA MAMÃE. Observe que não houve PREVISÃO efetiva pelo sujeito, mas o fato 
lhe era previsível (houve previsibilidade). 
CULPA = QUEBRA 
DO DEVER DE 
CUIDADO
CULPA CONSCIENTE: 
CULPA COM 
PREVISÃO
CULPA 
INCONSCIENTE: 
CULPA SEM 
PREVISÃO
 
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A previsibilidade objetiva toma como parâmetro o “homem médio”, ou seja, um indivíduo 
comum, de atenção, diligência e perspicácia normais à generalidade das pessoas. 
( CESPE - 2010 - TRT - 1ª REGIÃO (RJ) - Juiz) No ordenamento jurídico brasileiro, de acordo 
com a doutrina majoritária, a ausência de previsibilidade subjetiva - a possibilidade de o agente, dadas suas 
condições peculiares, prever o resultado - exclui a culpa, uma vez que é seu elemento. 
Resposta: errado. 
 
Veja um último exemplo sempre citado pelo sempre inspirador Professor Edson Smaniotto 
(Desembargador do TJDFT) em exemplo proferido em sala de aula em curso de pós-graduação em Direito Penal: 
"Um pai pediu para que seus dois filhos o auxiliasse na reparação da cisterna de sua chácara. Os dois 
filhos entraram na cisterna e sentaram-se em uma taboa improvisada para que enchessem o balde com os entulhos que 
entupiam a cisterna, puxando a corda como sinal para o pai suspender o balde quando este estava cheio. Em 
determinado momento, devido o sol ter mudado de posição, o interior da cisterna ficou muito escuro e os filhos 
reclamaram da falta de luminosidade ao pai. Este providenciou um holofote alimentado por um gerador de energia a 
diesel. Ligou o aparelho, que iluminou porcompleto a cisterna, com o cuidado de posicioná-lo de forma que a fumaça 
emitida tomasse direção oposta à mesma. Os garotos reiniciaram então a tarefa. O pai, percebendo a demora na emissão 
do sinal de balde cheio, resolveu olhar para o fundo do poço e percebeu os dois meninos deitados inertes na tábua. 
Estavam mortos. O laudo pericial constatou que devido à combustão incompleta do combustível, além da água e gás 
carbônico foi liberado um gás extremamente tóxico, o monóxido de carbono (CO). Como é um gás invisível e sem cheiro, 
não foi percebido e tomou conta do ambiente onde os garotos se encontravam. Uma quantidade equivalente a 0,4% no ar 
em volume é letal para o ser humano, em um tempo relativamente curto. Esse gás se combina com a hemoglobina do 
sangue e esta combinação é extremamente estável. Devido a esta combinação, os glóbulos vermelhos não podem 
transportar o oxigênio e o gás carbônico, e os tecidos deixam de receber o oxigênio. A morte dos garotos ocorreu por 
asfixia química. Para se ter uma ideia do potencial tóxico do gás, se um carro ficar ligado em uma garagem fechada de 4 
m de comprimento, 4 m de largura e 2,5 m de altura, tendo, portanto, um volume de 40 000 litros, à temperatura ambiente 
e a pressão ao nível do mar, durante aproximadamente 10 minutos, a quantidade de monóxido de carbono produzido já 
atingirá a quantidade letal." 
Percebe-se que tal morte não pode ser atribuída ao pai dos garotos, pois era absolutamente 
imprevisível o resultado trágico (faltou possibilidade potencial para previsão). 
Já vi nos noticiários várias vezes pessoas morrerem nos Estados Unidos durante o inverno, pois se 
trancam dentro dos veículos ligados enquanto acionam o ar quente. Como o gelo acaba por entupir o escapamento do 
veículo, o monóxido de carbono fica em seu interior, matando seus ocupantes. 
PREVISÃO X 
PREVISIBILIDADE
Previsibilidade: 
potencial para 
prever
Previsão: a efetiva 
visualização do 
resultado futuro. 
Requer 
previsibilidade
 
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57 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Últimas informações sobre o crime culposo 
21. Compensação e concorrência de culpas 
Compensação de culpas – não é admitida no direito penal. Exemplo: vítima atravessa fora da faixa 
e motorista não para, pois está em alta velocidade. O motorista responde pelo resultado, apesar de a vítima também ter 
sido imprudente. Lógico que o juiz vai considerar isso no momento do art. 59 do CPB ( dosimetria da pena). 
 (CESPE – Procurador de Vitória-ES – 2007) Suponha que o motorista de um veículo, por 
negligência, deixe de observar a má conservação do sistema de freios de seu carro e, ao trafegar em via pública, 
atropele e mate um pedestre que tenha cruzado a pista em local inadequado. Nessa situação, caso se comprove 
que o evento danoso tenha decorrido da falta de freios no veículo atropelador, responderá culposamente o seu 
condutor pela morte do pedestre, mesmo diante da imprudência da vítima. 
 
Resposta: correto. 
 
CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A compensação de culpas no 
direito penal, aceita pela doutrina penal contemporânea e acolhida pela jurisprudência pátria, diz respeito à 
possibilidade de compensar a culpa da vítima com a culpa do agente da conduta delituosa, de modo a assegurar 
equilíbrio na relação penal estabelecida. 
 
Resposta: errado. 
 
 
22. Concorrência de culpas – é possível em direito penal. A compensação de culpas é 
incabível em matéria penal. Não se confunde com a concorrência de culpas. Suponha-se que dois veículos se choquem 
num cruzamento, produzindo ferimentos nos motoristas e provando-se que agiram culposamente. Trata-se de 
concorrência de culpas; os dois respondem por crime de lesão corporal culposa. 
23. Excepcionalidade do crime culposo - Em respeito ao disposto no art. 18, inciso II, parágrafo 
único do Código Penal, salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, 
senão quando o pratica dolosamente. 
(CESPE_Analista Judiciário _Execução de Mandados_TJDFT_2008) Excetuadas as exceções 
legais, o autor de fato previsto como crime só poderá ser punido se o praticar dolosamente. 
 
Resposta: correto. 
 
(CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Excetuadas as exceções legais, o autor de fato 
previsto como crime só poderá ser punido se o praticar dolosamente. 
 
Resposta: correto. 
 
Trata-se do princípio da excepcionalidade do crime culposo, que determina que o crime culposo só 
seja punível se houver expressamente determinado pelo código penal, geralmente através de expressões como: “se o 
crime é culposo, “no caso de culpa”. 
Essa previsão não existe para o crime de aborto (arts. 124 a 127 do CPB), por exemplo. Por esse 
motivo, não se admite a figura do aborto culposo. 
 
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58 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
24. Culpa mediata ou indireta: ocorre quando o agente pratica um fato secundário de forma 
culposa, como no exemplo em que José ameaça João com uma arma de fogo em via pública (resultado 1) e João, 
apavorado, atravessa a pista e acaba por ser atropelado e morto (resultado 2). 
25. Culpa imprópria ou culpa por extensão: o estudo da culpa imprópria deve ser feito na Teoria 
do Erro em aula específica. Contudo, adianto que ocorrerá a culpa imprópria quando o agente age com dolo, mas erra na 
análise de uma excludente de ilicitude (legítima defesa, por exemplo). A isso se dá o nome de excludente putativa 
(legítima defesa putativa, por exemplo). A palavra “putativa” significa “imaginária”. 
O exemplo seria daquele que ataca um inimigo por pensar, precipitadamente, que estava sendo 
atacado por este, mas na verdade era uma aproximação para pedido de desculpas. 
Veremos que a culpa imprópria é uma espécie de erro (de tipo ou de proibição, dependendo do caso). 
Vamos retornar ao assunto quando falarmos de erro de tipo. 
(CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa imprópria ou culpa 
por extensão é aquela em que a vontade do sujeito dirige-se a um ou outro resultado, indiferentemente dos danos 
que cause à vítima. 
 
Resposta: errado. 
 
 
 
 
PEGANDO O FIO DA MEADA 
1. A CULPA É A QUEBRA DO CUIDADO POR IMPRUDÊNCIA, NEGLIGÊNCIA OU IMPERÍCIA; 
2. A CULPA CONSCIENTE OCORRE QUANDO HÁ PREVISÃO DO RESULTADO; 
3. A CULPA INCONSCIENTE OCORRE QUANDO O AGENTE NÃO PREVIU O QUE DEVERIA TER 
PREVISTO; 
4. O DOLO EVENTUAL É O “DANE-SE” E A CULPA CONSCIENTE É O “IH, DANOU-SE”! 
 
26. CRIME PRETERDOLOSO (CRIMES AGRAVADOS PELO RESULTADO) 
ESPÉCIES DE CRIMES AGRAVADOS PELO RESULTADO 
NO	CRIME	
CULPOSO
NÃO CABE 
COMPENSAÇÃO DE 
CULPAS
CABE 
CONCORRÊNCIA DE 
CULPAS
SÓ HAVERÁ CRIME 
CULPOSO SE A LEI 
FOR EXPRESSA 
NESSE SENTIDO
 
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59 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Pode ocorrer, em situações muito específicas, que a lei imponha lei mais severa na ocorrência de um 
determinado resultado. Note-se que é necessário esse resultado mais gravoso advenha de dolo ou culpa. 
Nos crimes agravados pelo resultado temos duas etapas a serem observadas: (a) o fato antecedente: 
causado por dolo ou culpa; (b) fato consequente: causado por dolo ou culpa. 
 
 
São quatro as possibilidades de crimes agravados pelo resultado: 
1º Dolo no antecedente e dolo no consequente (dolo + dolo) 
Fato antecedente: Desferir um soco (Art. 129 do CPB: Ofender a integridade corporal ou a saúde de 
outrem); 
Fato consequente: Deixar lesão permanente resultante da agressão (Art. 129, § 2º, inciso IV, do CPB: 
“se resulta lesão permanente”. 
Responderá pela lesão dolosaqualificada pela lesão permanente. 
2º Culpa no antecedente e culpa no consequente (culpa + culpa) 
Fato antecedente: Causar incêndio culposo ( art. 250, § 2º) 
Fato consequente: Causar a morte de alguém devido ao incêndio culposo causado anteriormente (art. 
258) 
Responderá por incêndio culposo qualificado pela morte culposa. 
3º Culpa no antecedente e dolo no conseqüente (crimes preterculposos) 
Fato antecedente: Atropelar alguém culposamente (Lesão Corporal Culposo no trânsito, art. 303 da 
Lei 9.503/97); 
Fato consequente: Deixar de prestar socorro à vítima atropelada ( Art. 302, inciso III da Lei 9.503/97) 
Responde pela lesão culposa no trânsito agravada pela omissão de socorro. 
4º Dolo no antecedente e culpa no conseqüente (crime preterdoloso ou preterintencional) 
Fato antecedente: Desferir um soco em alguém com dolo de lesioná-lo (art. 129 do CPB) 
Fato consequente: Após o soco, a vítima se desequilibra e acaba por bater a cabeça no chão e morre 
de traumatismo craniano (art. 129,§ 3°: “Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o 
resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo. ) 
CRIME 
AGRAVADO PELO 
RESULTADO
FATO 
ANTECEDENTE: 
CAUSADO POR 
DOLO OU CULPA
FATO 
CONSEQUENTE: 
CAUSADO POR 
DOLO OU CULPA
 
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Responde por Lesão corporal seguida de morte. 
Bom, como se vê, o crime preterdoloso é apenas uma forma de crime agravado pelo resultado. 
CESPE – CONSULTOR LEGISLATIVO DO SENADO/2002) Diz-se que o crime é doloso, quando o 
agente quis o resultado; preterdoloso, quando, embora não querendo o resultado, o agente assumiu o risco de 
produzi-lo. 
Resposta: errado. 
 
 
BIZU DO VALENTE! 
TENTATIVA NO CRIME PRETERDOLO: não é possível, já que o resultado agravador não era 
desejado, e não se pode tentar produzir um evento que não era querido. 
Exceção: a doutrina tem admitido que no crime de aborto qualificado pela morte da gestante (art. 127 
do CPB), caso o feto sobreviva ao procedimento abortivo, mas a mãe não, teríamos um caso de tentativa de crime 
preterdoloso. 
Voltarei ao assunto quando falarmos do crime de aborto. 
 
FATO TÍPICO – RESULTADO 
CRIMES 
QUALIFICADOS 
PELOS RESULTADO
DOLO+DOLO CULPA+CULPA CULPA+DOLO (PRETERCULPA)
DOLO+CULPA 
(PRETERDOLO)
 
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Lembrando que estamos estudando o crime através de seus elementos. De acordo com a tabela que 
coloquei na segunda aula, o crime tem os seguintes elementos: Fato típico, ilicitude (ou antijuridicidade) e Culpabilidade. 
Já estudamos completamente a conduta, a qual pertence ao Fato típico. Vamos ao segundo elemento do Fato Típico, o 
Resultado. 
27. Resultado 
A conduta dolosa ou culposa pode levar a um resultado. Às vezes esse resultado é físico (perceptível 
pelos sentidos humanos), como a morte no homicídio. É o que a doutrina denomina de “resultado material”. Outras vezes 
esse resultado não existe no mundo físico, porém existe no mundo do direito. É o que os juristas titulam de “resultado 
jurídico ou formal”. 
 Imagine que você seja xingado por alguém. O resultado desse ato injurioso é ferimento de sua honra 
subjetiva. Isso não pode ser medido fisicamente. Ocorre que juridicamente (ou seja, para o Direito) houve um resultado 
relevante, apesar de não poder ser medido quão injuriado você foi. 
Basicamente, o crime pode ser classificado quanto ao resultado: 
 
fato típico
conduta
RESULTADO
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
estrito 
cumprimento 
do dever 
legal
exercício 
regular do 
direito
culpabilidade
imputabilidade 
potencial 
consciência 
da ilicitude
exigibilidade 
de conduta 
diversa
TIPOS DE RESULTADO
CRIME DE RESULTADO 
MATERIAL
CRIME DE RESULTADO 
FORMAL
CRIME DE MERA 
CONDUTA
 
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28. Crimes Materiais 
O crime de resultado material é aquele em que o tipo penal (a lei) descreve um resultado físico 
(perceptível aos sentidos humanos), e sem esse resultado não há consumação do crime. 
Estava este professor ministrando aula em curso preparatório de Brasília em um dia de sexta-feira, 
isso por volta das 22 horas. Nesse momento, outro professor interrompe minha aula: 
- Valente, vem comigo aqui correndo ao estacionamento! 
-Poxa, amigo, eu não posso abandonar a turma assim! 
-Valente, o negócio é sério, meu! 
Percebendo a aflição do colega, resolvi descer para ver o que estava ocorrendo. Pense se a turma 
inteira não me seguiu de curiosidade! (hehe) 
Quando chegamos ao carro do professor, ele mostra o capô do veículo, onde havia riscos feitos a 
prego por uma ex-namorada. 
Bom, fora as questões particulares, houve sobre o carro do professor um crime praticado por sua ex-
namorada. Você sabe dizer qual? 
Isso mesmo. Trata-se do crime de DANO, uma vez que ela danificou o veículo do tal professor. 
Veja o que diz o tipo penal: “Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia” (Dano, Art. 163 do CPB). 
O crime de dano é exemplo de crime material, pois o tipo penal exige o resultado físico para a 
consumação. 
Outros exemplos de crimes materiais: homicídio (art. 121); Infanticídio (art. 122); Aborto (Arts. 124 a 
127); Furto (art. 155); Roubo (art. 157). 
O CRIME DE RESULTADO MATERIAL EXIGE UM RESULTADO FÍSICO PARA SUA 
CONSUMAÇÃO. 
29. Crimes Formais 
No crime formal (de consumação antecipada ou de resultado cortado) os tipos penais descrevem uma 
ação e um resultado material possível, mas não o exige para sua consumação. É o que o ocorre na extorsão mediante 
sequestro (Art. 159, CPB). 
O tipo descreve a seguinte ação: “Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, 
qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate”. 
Note que o agente sequestra pessoa com uma determinada finalidade – obter vantagem como 
condição ou preço do resgate -, mas não há necessidade que o criminoso, efetivamente, receba o resgate para que se 
faça consumado o crime em tela (resultado material). A extorsão mediante sequestro consuma-se com a privação da 
liberdade da vítima, independentemente da obtenção da vantagem pelo agente. Nesse caso, um possível resultado 
material, apesar de não influenciar na adequação típica, poderá influenciar o juiz na dosimetria da pena (aplicação da 
pena). 
Esses dias eu estava vendo no noticiário que um médico cirurgião de um hospital conveniado ao SUS 
estava exigindo dinheiro dos pacientes para realização da cirurgia. Caso o valor não fosse pago, o paciente perderia a vez 
na fila. A cirurgia já seria paga pelo SUS, mas mesmo assim médico faz a sórdida exigência. 
 
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63 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Veja o que diz a lei: Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da 
função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida (Concussão, art. 316 do CPB.) 
Vamos supor que o paciente (no caso, vítima do crime) negue-se a pagar o valor exigido e comunica o 
fato à polícia. Você como Delegado o indiciaria pela Concussão consumada ou tentada? 
O caso é de Concussão consumada, por se tratar de crime formal. Perceba que se o resultado 
material (naturalístico) ocorrer será mero exaurimento do crime, leia-se, não poderá ser considerado para aumentar a 
pena, a menos que seja descrito na lei como tal. 
(Magistratura –TJPI -2007 – adaptada) A consumação dos crimes formais ocorre com a prática da 
conduta descrita no núcleo do tipo, independentemente do resultado naturalístico, que, caso ocorra, será causa de 
aumento de pena. 
Resposta: errado 
 
30. Outros exemplos de crimes formais: 
“Deixar o médico de denunciar à autoridade pública doença cuja notificação é compulsória” (Omissão 
de notificação de doença, art. 269 do CPB) 
Conduta: “deixar de realizar a notificação”. 
Resultado material possível, mas não exigido par a consumação: a efetiva contaminação ou 
epidemia. 
“Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência 
confidencial, de que é destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem” (Divulgação de 
Segredo, art. 153 do CPB). 
Conduta: “divulgar o segredo”. 
Resultado material possível, mas não exigido par a consumação: o efetivo dano a terceira 
pessoa. 
Crimes de Mera Conduta 
Os crimes de mera conduta não descrevem a possibilidade de um resultado naturalístico, como no 
crime de Violação de domicílio (art. 150). 
Um sujeito faz um churrasco em sua casa e convida Dicró. 
Dicró era um cara bacana, mas quando bebia ficava um tanto inconveniente. Após algumas horas, 
Dicró começa a paquerar as moças presentes, o que desagradou seus respectivos companheiros. 
O dono da festa determina que Dicró saia de sua casa imediatamente. 
Dicró se nega a sair e deita no chão. 
 
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64 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Veja o que diz a lei: 
“Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de 
quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências.” (Violação de Domicílio, art. 150 do CPB.) 
Conduta: “entrar ou permanecer”. 
Resultado material possível: não existe. 
Formas especiais de consumação 
Crimes instantâneos ou de estado: são aqueles em que a consumação ocorre em um único 
momento determinado, sem se prolongar no tempo (ex.: CP, art. 121). 
Crimes Permanentes: são aqueles em que a consumação se protrai no tempo, por vontade do 
agente (ex.: CP, art. 158). Divide-se em: 
a) necessariamente permanentes: o tipo penal exige, necessariamente, que a consumação típica se 
alongue no tempo, como no sequestro (CP, art. 148). 
b) eventualmente permanentes: são crimes instantâneos que admite determinada forma de 
consumação permamente, como no furto de energia elétrica (CP, art. 155, § 3º). 
Crimes instantâneos de efeitos permanentes: o crime é de consumação instantânea, mas os 
efeitos do crime costumam perdurar indeterminadamente, como no homicídio (CP, art. 121). 
Crimes a prazo: são aqueles em que o tipo penal exige a fluência de determinado tempo para, 
somente após, considerar o fato típico, como ocorre na apropriação indébita previdenciária (“Deixar de repassar à 
previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo é forma legal ou convencional”, CP, art. 168-A). 
 PEGANDO O FIO DA MEADA 
1. TODO CONDUTA CAUSA UM RESULTADO; 
2. O RESULTADO PODE SER FÍSICO (MATERIAL). NESTE CASO, TEMOS OS CRIMES 
MATERIAIS; 
3. O RESULTADO PODE SER APENAS JURÍDICO (FORMAL). NESTE CASO TEMOS OS CRIMES 
FORMAIS E DE MERA CONDUTA; 
4. NOS CRIMES FORMAIS, A LEI DESCREVE UM RESULTADO MATERIAL POSSÍVEL, MAS NÃO 
O EXIGE PARA A CONSUMAÇÃO; 
5. OS CRIMES DE MERA CONDUTA (OU MERA ATIVIDADE), NÃO EXISTE UM RESULTADO 
MATERIAL POSSÍVEL. A CONDUTA JÁ É O RESULTADO; 
 
 
 
 
 
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65 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
QUESTÕES COMENTADAS 
1. (CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Excetuadas as exceções legais, o autor de fato 
previsto como crime só poderá ser punido se o praticar dolosamente. 
Comentário: Trata-se do princípio da excepcionalidade do crime culposo. Só haverá a possibilidade 
de punição por culpa se a lei expressamente trouxer isso por escrito. Exemplo: No homicídio é possível o crime culposo, 
porque o art. 121 do Código Penal traz a hipótese em seu parágrafo terceiro: 
 Homicídio simples 
 Art. 121. Matar alguém: 
 Pena - reclusão, de seis a vinte anos. 
 (...) 
 Homicídio culposo 
 § 3º Se o homicídio é culposo: 
 Pena - detenção, de um a três anos. 
Perceba que não existe furto culposo, por exemplo, porquanto o Código Penal não previu essa 
hipótese. 
GABARITO: CERTO 
 
2. (CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Julgue os itens a seguir, concernentes às 
espécies de dolo: 
No crime de falsificação de documento público o dolo é específico. 
Comentário: O dolo específico ocorre quando o tipo penal traz uma finalidade específica para que 
ocorra o crime. Exemplo: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou 
para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa (Extorsão, art. 158 
do Código Penal). 
O crime de Extorsão acima exige o “dolo específico” para que ele ocorra, qual seja o intuito de obter a 
indevida vantagem econômica. 
Quanto ao crime de falsificação de documento, vejamos o que diz a lei: Falsificar, no todo ou em parte, 
documento público, ou alterar documento público verdadeiro (art. 297 do CPB). 
Como se vê, não existe dolo específico nesse crime. 
GABARITO: ERRADO 
 
 
3. (CESPE_Procurador do MP_TC_GO_2007) Para a configuração do crime de peculato-desvio, é 
necessária a presença do dolo genérico e do dolo específico. 
Comentário: O Peculato é um crime contra a Administração Pública previsto nos arts. 312 do Código 
Penal. 
 
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66 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
“Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou 
particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio” 
No peculato desvio a conduta consiste em desencaminhar, mudar o destino do valor público ou 
particular, de que tem a posse em razão da função pública. Exemplo: a merendeira desvia os mantimentos que são 
destinados para a escola para a casa de um amigo, em seu proveito. Ou o Deputado Federal que tem um assessor lotado 
em seu gabinete e o desvia para ser jardineiro de sua casa. 
No peculato desvio exige-se o dolo específico de agir visando proveito próprio ou alheio. 
GABARITO: CERTO 
 
4. (CESPE_JUIZ FEDERAL 2ª REGIÃO_2009) Nos crimes culposos, o tipo penal é aberto, o que 
decorre da impossibilidade do legislador de antever todas as formas de realização culposa; assim, o legislador prevê 
apenas genericamente a ocorrência da culpa, sem defini-la, e, no caso concreto, o aplicador deve comparar o 
comportamento do sujeito ativo com o que uma pessoa de prudência normal teria, na mesma situação. 
Comentário: O injusto penal culposo é uma modalidade dos TIPOS PENAIS ABERTOS, pois exige 
para sua interpretação o exame de elementos exteriores ao tipo para aferir sua adequação à conduta. Quero dizer, a lei 
não estabeleceu o que é imprudência, negligência ou imperícia. Então, deve haver um juízo de valor para que se chegue 
aos conceitos necessários. 
Exemplo: No crime de ato obsceno, art. 233 do CPB, a norma diz: “Praticar ato obsceno em lugar 
público, ou aberto ou exposto ao público”. Pois muito bem, para se chegar ao conceito de “ato obsceno”, devemos lançar 
um juízo de valor sobre o termo. 
Beijar na boca em público é ato obsceno? Fazer sexo em uma encenação de teatro é ato obsceno? 
Depende do juízo de valor que se fizer. 
Em uma cidade do interior, um casal de namorados foi preso por estarem se beijando em frente àigreja. 
Será que eles teriam sido presos se tivessem em um shopping de uma grande cidade? 
Viu, juízo de valor! 
GABARITO: CERTO 
 
5. (CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa consciente ocorre 
quando o agente assume ou aceita o risco de produzir o resultado. Nesse caso, o agente não quer o resultado, caso 
contrário, ter-se-ia um crime doloso. 
Comentário: Quando o agente assume o risco de produzir o resultado, esta cometendo um crime com 
dolo eventual. A culpa consciente é culpa com previsão. 
GABARITO: ERRADO 
 
6. CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa imprópria ou culpa por 
extensão é aquela em que a vontade do sujeito dirige-se a um ou outro resultado, indiferentemente dos danos que cause 
à vítima. 
 
Comentário: 
O exemplo é de dolo alternativo, quando o agente quer um ou outro resultado (quero matar ou ferir). 
Culpa imprópria é aquela que reside (ocorre) no erro fático sobre as descriminantes putativas (putativo 
= falso, imaginário). Erro que recai no erro de tipo sobre as justificantes putativas (erro de tipo na cabeça é uma coisa e 
na realidade é outro). São casos de culpa imprópria as hipóteses previstas no art. 20, § 1º, 2ª parte (“... o erro deriva de 
 
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67 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
culpa e o fato é punível como crime culposo”), e art. 23, parágrafo único, parte final do Código Penal ( “... responderá pelo 
excesso doloso e culposo”). A culpa imprópria será mais bem estudada na aula sobre a TEORIA DO ERRO. 
GABARITO: ERRADO. 
 
7. (CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A compensação de culpas no 
direito penal, aceita pela doutrina penal contemporânea e acolhida pela jurisprudência pátria, diz respeito à possibilidade 
de compensar a culpa da vítima com a culpa do agente da conduta delituosa, de modo a assegurar equilíbrio na relação 
penal estabelecida. 
 
Comentário: compensação de culpas – não é admitida no direito penal. Exemplo: vítima atravessa 
fora da faixa e motorista não pára, pois está em alta velocidade. O motorista responde pelo resultado. GABARITO: 
ERRADO 
8. (CESPE_PROCURADOR ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A autoria dos crimes culposos 
é basicamente atribuída àquele que causou o resultado. Com isso admite-se a participação culposa em delito doloso, 
participação dolosa em crime culposo e participação culposa em fato típico culposo. 
Comentário: Coautoria em crime culposo – a jurisprudência admite, mas não admite participação. 
Obs. Existe aqui uma grande confusão na doutrina e jurisprudência, mas a posição do STJ é nesse sentido explicado. 
APENAS MEMORIZE: CRIME CULPOSO – NÃO ADMITE PARTICIPAÇÃO, SÓ COAUTORIA. 
Não se preocupe, veremos a diferença entre coautoria e participação na aula sobre Concurso de 
Pessoas. 
GABARITO: ERRADO 
 
9 - ( FAE - 2008 - TJ-PR - Juiz Substituto) George Shub, conhecido terrorista, pretendendo matar o 
Presidente da República de Quiare, planta uma bomba no veículo em que ele sabe que o político é levado por um 
motorista e dois seguranças até uma inauguração de uma obra. A bomba é por ele detonada à distância, durante o 
trajeto, provocando a morte de todos os ocupantes do veículo. Com relação à morte do motorista, George Shub agiu com: 
a) Dolo direto de primeiro grau 
b) Dolo direto de segundo grau 
c) Dolo eventual 
d) Imprudência consciente 
Comentário: Vimos que o dolo direto pode ser classificado como (a) dolo direto de primeiro grau – 
refere-se à finalidade; (b) dolo direto de segundo grau – refere-se aos meios necessários. 
Desta forma, George agiu como dolo direto de primeiro grau em relação ao presidente da República 
do Quiare; e como dolo direto de segundo grau em relação ao outros mortos, incluindo o motorista. 
GABARITO: Letra “b” 
10. (CESPE - 2008 - TCU - Analista de Controle Externo ) Durante um espetáculo de circo, Andrey, 
que é atirador de facas, obteve a concordância de Nádia, que estava na platéia, em participar da sua apresentação. Na 
 
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68 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
hipótese de Andrey, embora prevendo que poderia lesionar Nádia, mas acreditando sinceramente que tal resultado não 
viesse a ocorrer, atingir Nádia com uma das facas, ele terá agido com dolo eventual. 
Comentário: Vimos que na culpa consciente o agente prevê o resultado como possível, mas acredita 
sinceramente que esse não irá ocorrer. Andrey, ao acertar Nádia, fala para si próprio: “Hi! Danou-se!”. 
Culpa consciente, portanto. 
GABARITO: ERRADO 
 
11. (Magistratura – TJPI -2007 – adaptada) A consumação dos crimes formais ocorre com a prática da 
conduta descrita no núcleo do tipo, independentemente do resultado naturalístico, que, caso ocorra, será causa de 
aumento de pena. 
Comentário: De fato, a consumação dos crimes formais é antecipada para a conduta, mesmo sendo 
possível a realização de um resultado físico. Caso este último ocorra, teremos um mero exaurimento do crime, leia-se, um 
pós- crime impunível. 
GABARITO: ERRADO 
12. (Analista – MPU – 2007) João, dirigindo um automóvel, com pressa de chegar ao seu destino, 
avançou com o veículo contra uma multidão, consciente do risco de ocasionar a morte de um ou mais pedestres, mas 
sem se importar com essa possibilidade, João agiu com 
a) culpa 
b) dolo indireto 
c) culpa consciente 
d) dolo eventual 
Comentário: João viu o resultado como possível, mas disse a si mesmo: “para mim tanto faz” (dane-
se!). Trata-se de hipótese de dolo eventual. 
GABARITO: Letra “d” 
13. (CESPE – Procurador de Vitória-ES – 2007) Suponha que o motorista de um veículo, por 
negligência, deixe de observar a má conservação do sistema de freios de seu carro e, ao trafegar em via pública, atropele 
e mate um pedestre que tenha cruzado a pista em local inadequado. Nessa situação, caso se comprove que o evento 
danoso tenha decorrido da falta de freios no veículo atropelador, responderá culposamente o seu condutor pela morte do 
pedestre, mesmo diante da imprudência da vítima. 
Comentários: No direito penal brasileiro não se admite a compensação de culpas, quer dizer, a culpa 
do autor ser compensada pela culpa da vítima. O que pode ocorrer é culpa exclusiva da vítima, o que afasta a 
responsabilidade do autor. 
GABARITO: CORRETO 
 
14.( NCE-UFRJ - 2005 - PC-DF - Delegado de Polícia; ) 
Segundo a redação do artigo 18, I, do Código Penal ("Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis 
o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo"), é possível concluir que foi adotada: 
a) a teoria do assentimento; 
b) a teoria da representação; 
c) as teorias do assentimento e da representação; 
d) as teorias do assentimento e da vontade; 
 
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69 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
e) as teorias da representação e da vontade. 
Comentário: O conceito de dolo pode ser variável conforme a teoria que se adote para conceituá-lo. 
Podem-se citar as seguintes teorias existentes na doutrina: 
a) Teoria da Vontade: O agente deve ter vontade e consciência para causar o resultado final. “Quero 
matá-lo!”. 
b) Teoria do Consentimento, assentimento ou aprovação: O agente aceita a possibilidade da 
ocorrência do resultado. “Não quero matar, mas se morrer dane-se, não é por isso que vou deixar de agir!” 
c) Teoria da Representação: há previsibilidade (capacidade de previsão) da ocorrência do resultado, 
mas o agente acredita que ele não ocorrerá. Exemplo seria o médico que, sabendo das dificuldades de determinado 
procedimento cirúrgico, resolve realizá-lo, acreditando que o resultado pior não acontecerá porestar seguro de sua 
técnica, vindo o paciente a falecer. Na sistemática do CPB, poderá ocorrer aqui um tipo culposo, caso haja uma quebra do 
dever objetivo de cuidado por imprudência, negligência ou imperícia por parte do médico, aliada à não aceitação do 
resultado mais gravoso (culpa consciente) 
O CPB adotou as duas primeiras teorias para definir o que é dolo. Assim, a teoria da vontade indica o 
dolo direto (“quero matar!”), e a teoria do assentimento representa o dolo indireto ou eventual (se morrer morreu, mas eu 
não cesso minha ação haja o que houver, doa a quem doer!). Resposta: letra “D”. 
 
15 - ( FCC - 2010 - TRE-AL - Analista Judiciário-adaptada ) Há dolo eventual quando o agente, 
embora prevendo o resultado, não quer que ele ocorra nem assume o risco de produzi-lo. 
Comentário: No dolo eventual o agente assume o risco de produzir o resultado. 
GABARITO: ERRADO 
16 - ( FCC - 2010 - TRE-AL - Analista Judiciário-adaptada ) Há culpa inconsciente quando, embora 
previsível o resultado, o agente não o prevê por descuido, desatenção ou desinteresse. 
Comentário: a culpa consciente é a forma básica de culpa – o agente não prevê um resultado, que 
devia e podia prever. 
GABARITO: CERTO 
17. (CESPE_Analista Judiciário _Execução de Mandados_TJDFT_2008) Se o sujeito ativo do 
delito, ao praticar o crime, não quer diretamente o resultado, mas assume o risco de produzi-lo, o crime será culposo, na 
modalidade culpa consciente. 
Comentário: Depois de alguma prática, fica até boba a questão, não é mesmo? 
GABARITO: ERRADO 
 
18. (CESPE_Analista Judiciário _Execução de Mandados_TJDFT_2008) Excetuadas as exceções 
legais, o autor de fato previsto como crime só poderá ser punido se o praticar dolosamente. 
Comentário: só poderá haver punição por crime culposo se a lei expressamente trouxer a hipótese 
em seu texto. 
GABARITO: C 
19. (CESPE_ DPU 2010) Em se tratando de homicídio, é incompatível o domínio de violenta emoção 
com o dolo eventual. 
 
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70 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Comentário: A assertiva está se referindo a uma causa de diminuição de pena existente no homicídio 
que é: “praticar o fato sob domínio de violenta emoção, logo após a injusta provocação da vítima” (Art. 121, § 1º, 
CPB). 
O entendimento da doutrina e da jurisprudência é de equiparar as duas formas de dolo, assim tudo 
que se aplica ao dolo direto, tem se aplicado ao dolo eventual. 
GABARITO: ERRADO. 
 
20. (CESPE – CONSULTOR LEGISLATIVO DO SENADO-2002) Diz-se que o crime é doloso, quando o agente quis o 
resultado; preterdoloso, quando, embora não querendo o resultado, o agente assumiu o risco de produzi-lo. 
Comentário: O crime preterdoloso é uma forma de crime agravado pelo resultado em que o agente 
pratica uma conduta antecedente com dolo, mas causa um resultado maior do que o desejado a título de culpa 
GABARITO: ERRADO 
 
21. ( CESPE - 2010 - MPE-RO - Promotor de Justiça) No tocante aos delitos de intenção, assim 
conceituados por parte da doutrina, há as intenções especiais, que dão lugar aos atos denominados delitos de resultado 
cortado, tais como o crime de extorsão mediante sequestro, e os atos denominados delitos mutilados de dois atos, tais 
como o crime de moeda falsa. 
 
Comentário: os delitos de intenção, são espécies de crimes com elementos subjetivos especiais. Os 
exemplos da questão representam a classificação apresentada geralmente pela doutrina. 
 
GABARITO: CORRETO 
 
 
22. ( CESPE - 2010 - TRT - 1ª REGIÃO (RJ) - Juiz) Com referência ao dolo e à culpa, assinale a 
opção correta. 
a) Em relação ao dolo, o Código Penal brasileiro adotou a teoria da representação, segundo a qual a 
conduta dolosa é o comportamento de quem tem consciência do fato e de seu significado, e, ao mesmo tempo, a vontade 
de realizá-lo. 
Comentário: o Código adotou a teoria da vontade para o dolo direto e do assentimento para o dolo 
eventual. 
b) A teoria naturalista ou causal da conduta adotava a espécie de dolo denominada natural, que, em 
vez de constituir elemento da conduta, era considerado requisito da culpabilidade, com três elementos: consciência, 
vontade e consciência da ilicitude (dolus malus). 
Comentário: o dolo “natural” é o adotado pela teoria finalista da ação, a qual entende que o dolo 
existe mesmo sem a consciência da ilicitude (ex.: Se José mata João, estuprador da filha daquele, por acreditar que tem 
esse direito, terá agido com dolo, mesmo que não haja consciência da ilicitude. No caso, a falta de consciência da ilicitude 
vai interferir na culpabilidade). 
c) Considere a seguinte situação hipotética. Um jovem desferiu, com intenção homicida, golpes de 
faca em seu vizinho, que caiu desacordado. Acreditando ter atingido seu objetivo, enterrou o que supunha ser o cadáver 
no meio da mata. A perícia constatou, posteriormente, que o homem falecera em razão de asfixia decorrente da ausência 
de ar no local em que foi enterrado. Nessa situação, ocorreu o que a doutrina denomina de aberratio causae, devendo o 
agente responder pelo delito de homicídio simples consumado, por ter agido com dolo geral. 
 
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71 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Comentário: No dolo Geral teríamos uma só conduta, dividida em dois ou mais atos: o agente dispara 
contra a vítima, que desmaia; ele pensa que a vítima já morreu e joga seu corpo ao rio para encobrir o crime anterior; 
descobre-se depois que ela morreu não pelo disparo, mas sim pelo afogamento. Quis matar e, de fato, matou, 
respondendo pelo resultado normalmente. O dolo geral é também denominado “erro sobre o nexo causal” (aberratio 
causae). 
Gabarito: correto 
d) Considere a seguinte situação hipotética. Paulo, chefe de família, percebeu que alguém entrou 
pelos fundos, à noite, em sua residência, em local com altos índices de violência. Pensando tratar-se de assalto, 
posicionou-se, com a luz apagada, de forma dissimulada, e desferiu golpes de faca no suposto meliante, com intenção de 
matá-lo, certo de praticar ação perfeitamente lícita, amparada pela legítima defesa. Verificou-se, posteriormente, que 
Paulo ceifou a vida de seu filho de doze anos de idade. 
Nessa situação, Paulo agiu com culpa inconsciente, devendo responder por homicídio culposo. 
Comentário: trata-se de exemplo de legítima defesa putativa por erro de tipo, a ser tratada em aula 
específica. 
e) No ordenamento jurídico brasileiro, de acordo com a doutrina majoritária, a ausência de 
previsibilidade subjetiva - a possibilidade de o agente, dadas suas condições peculiares, prever o resultado - exclui a 
culpa, uma vez que é seu elemento. 
Comentário: no crime culposo, fala-se em previsibilidade objetiva (e não subjetiva), por levar em 
consideração o fato concreto sob a ótica de um homem médio. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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72 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
1. (CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) Excetuadas as exceções legais, o 
autor de fato previsto como crime só poderá ser punido 
se o praticar dolosamente. 
2. (CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) Julgue os itens a seguir, 
concernentes às espécies de dolo: 
No crime de falsificação de 
documento público o dolo é específico. 
3. CESPE_Procurador do 
MP_TC_GO_2007) Para a configuração do crime de 
peculato-desvio, é necessária a presença do dolo 
genérico e do dolo específico. 
4. (CESPE_JUIZ FEDERAL 2ª 
REGIÃO_2009) Nos crimes culposos, o tipo penal é 
aberto, o que decorre da impossibilidade do legislador 
de antever todas as formas de realização culposa; 
assim, o legislador prevê apenas genericamentea 
ocorrência da culpa, sem defini-la, e, no caso concreto, 
o aplicador deve comparar o comportamento do sujeito 
ativo com o que uma pessoa de prudência normal teria, 
na mesma situação. 
5. (CESPE_PROCURADOR 
ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa 
consciente ocorre quando o agente assume ou aceita o 
risco de produzir o resultado. Nesse caso, o agente não 
quer o resultado, caso contrário, ter-se-ia um crime 
doloso. 
6. CESPE_PROCURADOR 
ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A culpa 
imprópria ou culpa por extensão é aquela em que a 
vontade do sujeito dirige-se a um ou outro resultado, 
indiferentemente dos danos que cause à vítima. 
7. (CESPE_PROCURADOR 
ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A 
compensação de culpas no direito penal, aceita pela 
doutrina penal contemporânea e acolhida pela 
jurisprudência pátria, diz respeito à possibilidade de 
compensar a culpa da vítima com a culpa do agente da 
conduta delituosa, de modo a assegurar equilíbrio na 
relação penal estabelecida. 
8. (CESPE_PROCURADOR 
ESPECIAL DE CONTAS – TCE-ES_2009) A autoria 
dos crimes culposos é basicamente atribuída àquele 
que causou o resultado. Com isso admite-se a 
participação culposa em delito doloso, participação 
dolosa em crime culposo e participação culposa em fato 
típico culposo. 
9 - ( FAE - 2008 - TJ-PR - Juiz 
Substituto) George Shub, conhecido terrorista, 
pretendendo matar o Presidente da República de 
Quiare, planta uma bomba no veículo em que ele sabe 
que o político é levado por um motorista e dois 
seguranças até uma inauguração de uma obra. A 
bomba é por ele detonada à distância, durante o trajeto, 
provocando a morte de todos os ocupantes do veículo. 
Com relação à morte do motorista, George Shub agiu 
com: 
a) Dolo direto de primeiro grau 
b) Dolo direto de segundo grau 
c) Dolo eventual 
d) Imprudência consciente 
10. (CESPE - 2008 - TCU - 
Analista de Controle Externo ) Durante um espetáculo 
de circo, Andrey, que é atirador de facas, obteve a 
concordância de Nádia, que estava na platéia, em 
participar da sua apresentação. Na hipótese de Andrey, 
embora prevendo que poderia lesionar Nádia, mas 
acreditando sinceramente que tal resultado não viesse 
a ocorrer, atingir Nádia com uma das facas, ele terá 
agido com dolo eventual. 
11. (Magistratura – TJPI -2007 – 
adaptada) A consumação dos crimes formais ocorre 
com a prática da conduta descrita no núcleo do tipo, 
independentemente do resultado naturalístico, que, 
caso ocorra, será causa de aumento de pena. 
12. (Analista – MPU – 2007) João, 
dirigindo um automóvel, com pressa de chegar ao seu 
destino, avançou com o veículo contra uma multidão, 
consciente do risco de ocasionar a morte de um ou 
mais pedestres, mas sem se importar com essa 
possibilidade, João agiu com 
a) culpa 
b) dolo indireto 
c) culpa consciente 
d) dolo eventual 
13. (CESPE – Procurador de 
Vitória-ES – 2007) Suponha que o motorista de um 
veículo, por negligência, deixe de observar a má 
conservação do sistema de freios de seu carro e, ao 
trafegar em via pública, atropele e mate um pedestre 
que tenha cruzado a pista em local inadequado. Nessa 
situação, caso se comprove que o evento danoso tenha 
decorrido da falta de freios no veículo atropelador, 
responderá culposamente o seu condutor pela morte do 
pedestre, mesmo diante da imprudência da vítima. 
14.( NCE-UFRJ - 2005 - PC-DF - 
Delegado de Polícia; ) 
 
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73 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Segundo a redação do artigo 18, I, 
do Código Penal ("Diz-se o crime: I - doloso, quando o 
agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-
lo"), é possível concluir que foi adotada: 
a) a teoria do assentimento; 
b) a teoria da representação; 
c) as teorias do assentimento e da 
representação; 
d) as teorias do assentimento e da 
vontade; 
e) as teorias da representação e da 
vontade. 
15 - ( FCC - 2010 - TRE-AL - 
Analista Judiciário-adaptada ) Há dolo eventual 
quando o agente, embora prevendo o resultado, não 
quer que ele ocorra nem assume o risco de produzi-lo. 
16 - ( FCC - 2010 - TRE-AL - 
Analista Judiciário-adaptada ) Há culpa inconsciente 
quando, embora previsível o resultado, o agente não o 
prevê por descuido, desatenção ou desinteresse. 
17. (CESPE_Analista Judiciário 
_Execução de Mandados_TJDFT_2008) Se o sujeito 
ativo do delito, ao praticar o crime, não quer 
diretamente o resultado, mas assume o risco de 
produzi-lo, o crime será culposo, na modalidade culpa 
consciente. 
18. (CESPE_Analista Judiciário 
_Execução de Mandados_TJDFT_2008) Excetuadas 
as exceções legais, o autor de fato previsto como crime 
só poderá ser punido se o praticar dolosamente. 
19. (CESPE_ DPU 2010) Em se 
tratando de homicídio, é incompatível o domínio de 
violenta emoção com o dolo eventual. 
20. (CESPE – CONSULTOR LEGISLATIVO DO 
SENADO-2002) Diz-se que o crime é doloso, quando o 
agente quis o resultado; preterdoloso, quando, embora 
não querendo o resultado, o agente assumiu o risco de 
produzi-lo. 
21. ( CESPE - 2010 - MPE-RO - 
Promotor de Justiça) No tocante aos delitos de 
intenção, assim conceituados por parte da doutrina, há 
as intenções especiais, que dão lugar aos atos 
denominados delitos de resultado cortado, tais como o 
crime de extorsão mediante sequestro, e os atos 
denominados delitos mutilados de dois atos, tais como 
o crime de moeda falsa. 
22. (CESPE - 2010 - TRT - 1ª 
REGIÃO (RJ) - Juiz) Com referência ao dolo e à 
culpa, assinale a opção correta. 
a) Em relação ao dolo, o Código 
Penal brasileiro adotou a teoria da representação, 
segundo a qual a conduta dolosa é o comportamento de 
quem tem consciência do fato e de seu significado, e, 
ao mesmo tempo, a vontade de realizá-lo. 
b) A teoria naturalista ou causal da 
conduta adotava a espécie de dolo denominada natural, 
que, em vez de constituir elemento da conduta, era 
considerado requisito da culpabilidade, com três 
elementos: consciência, vontade e consciência da 
ilicitude (dolus malus). 
c) Considere a seguinte situação 
hipotética. Um jovem desferiu, com intenção homicida, 
golpes de faca em seu vizinho, que caiu desacordado. 
Acreditando ter atingido seu objetivo, enterrou o que 
supunha ser o cadáver no meio da mata. A perícia 
constatou, posteriormente, que o homem falecera em 
razão de asfixia decorrente da ausência de ar no local 
em que foi enterrado. Nessa situação, ocorreu o que a 
doutrina denomina de aberratio causae, devendo o 
agente responder pelo delito de homicídio simples 
consumado, por ter agido com dolo geral. 
d) Considere a seguinte situação 
hipotética. Paulo, chefe de família, percebeu que 
alguém entrou pelos fundos, à noite, em sua residência, 
em local com altos índices de violência. Pensando 
tratar-se de assalto, posicionou-se, com a luz apagada, 
de forma dissimulada, e desferiu golpes de faca no 
suposto meliante, com intenção de matá-lo, certo de 
praticar ação perfeitamente lícita, amparada pela 
legítima defesa. Verificou-se, posteriormente, que Paulo 
ceifou a vida de seu filho de doze anos de idade. 
Nessa situação, Paulo agiu com culpa inconsciente, 
devendo responder por homicídio culposo. 
e) No ordenamento jurídico 
brasileiro, de acordo com a doutrina majoritária, a 
ausência de previsibilidade subjetiva - a possibilidade 
de o agente, dadas suas condições peculiares, prever o 
resultado - exclui a culpa, uma vez que é seu elemento. 
 
 
 
 
 
 
 
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74 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
GABARITO 
 
 
 
1 -C 2-E 3-C 4-C 5-E 
6-E 7-E 8-E 9-letra B 10-E 
11-E 12- Letra D 13-C 14- Letra D 15-E16-C 17-E 18-C 19-C 20 - E 
21 - C 22- Letra C 
 
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75 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
AULA SEGUNDA 
A aula de hoje é um pouco mais extensa do que as outras, mas tenha calma. Não se apresse. Passe por cada 
ponto da aula com a técnica correta e concentração máxima. Tenha em mente nosso esquema de estudo 
apresentado nas aulas passadas. 
 
INTRODUÇÃO 
 
1. Como você já deve ter percebido, estamos seguindo um caminho natural dentro da estrutura 
do crime. Primeiramente, estamos no estudo do fato típico. Dentro do fato típico já estudamos a conduta e o resultado. 
O próximo passo a ser dado, seguindo a estrutura da teoria tripartida do crime, é no estudo do nexo Causal. 
2. Muito bem. Você sabe que a conduta humana, consciente, voluntária e voltada a uma 
finalidade pode ser praticada por um fazer (comissão) ou por um não - fazer (omissão). A omissão pode ser própria ou 
imprópria. A conduta, ainda pode ser praticada por dolo (direto ou eventual) ou culpa (por imprudência, negligência ou 
imperícia). 
3. A conduta criminosa sempre leva a um resultado, seja material, formal ou de mera conduta. 
Existe, desse modo, uma relação entre a conduta e o resultado. Fisicamente, toda a ação causa um resultado (uma 
reação). Aliás, Newton em sua Lei III já ensinava que: Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine 
corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi. (“A toda ação há sempre uma 
reação oposta e de igual intensidade, ou, as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas 
a partes opostas”). 
O resultado do soco no nariz é a fratura deste. 
O objeto de nosso estudo será justamente esta relação que ocorre entre a conduta (soco) e o resultado (fratura do nariz). 
Vamos entender esse processo. Preparado? Então vamos lá! 
fato típico
conduta
resultado
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
estrito 
cumprimento 
do dever legal
exercício regular 
do direito
culpabilidade
imputabilidade 
potencial 
consciência 
da ilicitude
exigibilidade 
de conduta 
diversa
 
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76 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
NEXO DE CAUSALIDADE 
4. É a relação (ou liame) de causa e efeito entre a CONDUTA e o RESULTADO. 
Todo resultado é gerado por uma ou mais causas. O estudo da relação de causalidade serve para 
determinar quais foram as causas de um determinado resultado. 
 A pergunta que deve ser feita neste momento é: Quem deu causa ao resultado? 
Para responder a esta questão, o Código Penal, em seu art. 13, adotou a Teoria da “Conditio Sine Qua Non”, (também 
chamada de Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais). 
 Observe: 
Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. 
Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. 
Primeiramente, notamos que o código penal exige um pré-requisito para que alguém possa responder por um resultado 
criminoso, ao determinar que somente seja imputado (responsabilizado) o causador desse resultado. 
Então, para a teoria da equivalência dos antecedentes causais, toda a ação ou omissão que contribui de alguma 
forma para o resultado é considerado causa. 
5. Para que sejam identificadas as condutas sem as quais o resultado não teria ocorrido, 
precisamos nos socorrer a um raciocínio criado pelo penalista sueco Thyrén. Trata-se do “processo de eliminação 
hipotética”. 
Como esse processo funciona? É simples, olhe bem. 
Para descobrirmos quais são aquelas condutas que, de alguma forma, contribuem para o resultado, devemos retirá-las do 
processo causal (causa e efeito) e verificarmos se o resultado ainda seria o mesmo. 
Por exemplo, se o chinês que descobriu a pólvora não a tivesse descoberto, teríamos o assassínio de John 
Lennon por arma de fogo? A resposta só pode ser negativa, pois sem a pólvora não haveria arma de fogo, nem 
mortes por esse tipo de instrumento. Então, ao eliminarmos hipoteticamente o chinesinho da cadeia causal, 
chegamos à conclusão de que ele é, de fato, causa do homicídio de John Lennon. 
Puxa vida, Valente! Quer dizer então que o tal chinesinho poderia responder pelo resultado, caso estivesse vivo? Não! 
A primeira coisa que você deve entender é que dar causa não é a mesma coisa que ser responsável por determinado 
resultado. Dar causa é só uma conditio sine qua non (condição fundamental) para responder pelo crime, leia-se, é só 
uma condição necessária para tanto. 
Por exemplo, se alguém pretende tirar a carteira de habilitação qual é a conditio sine qua non? A condição básica, 
fundamental é que essa pessoa deve ter, pelo menos, 18 anos de idade. Mas, ter 18 anos de idade não significa ser 
habilitado. É apenas um pré-requisito. 
 
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77 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Então, dar causa ao resultado é só um pré-requisito ( é uma conditio sine qua non). 
 
 
Bom, ocorre que esta eliminação poderia chegar ao infinito, concorda? Senão vejamos: 
O PROBLEMA DO REGRESSO AO INFINITO 
6. Os críticos da teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais apontam que o regresso 
mental realizado para determinação dos causadores do resultado levaria sempre ao infinito. Veja o seguinte exemplo: 
Se o Criador, se dirigindo à Adão, perguntasse quem teria sido o causador do Pecado Original, este indicaria Eva. 
Ao ser questionada, Eva indicaria a serpente. A serpente, materialização do Príncipe das Trevas, informaria que 
Deus seria o causador do resultado, uma vez que todos que contribuíram são “causa”, inclusive Ele. O problema 
apontado pela doutrina, apresentado no exemplo acima, seria de que a teoria da equivalência dos antecedentes 
levaria sempre ao Criador como causa do resultado, o que se denomina regresso ao infinito (regressus ad 
inifinitum). 
Essa crítica não deixa de ser verdadeira, pois se tudo que contribui é causa, poderíamos afirmar que, por exemplo, a 
Dona Elza (minha mãe) é causa desta aula. 
Será que a Dona Elza é causa desta aula? Com certeza, pois se retirarmos, hipoteticamente, meus pais, avós, bisavós, 
tataravós etc. da cadeia causal, não teríamos o resultado LÚCIO VALENTE. Sem o Lúcio Valente, não teríamos a AULA 
DO LÚCIO VALENTE. Concordam? 
Agora, responda: ser causa da aula significa ser responsável por ela? Digo, a Dona Elza, apesar de ter, de alguma forma, 
contribuído (causado) para o resultado AULA, é responsável por ela? Claro que não. 
Então: ser CAUSA é muito diferente de ser RESPONSÁVEL. 
Repito: ter dado causa é apenas uma condição básica, fundamental (conditio sine qua non). 
Mas como separar aqueles causadores que serão responsabilizados dos que não serão? Devemos limitar o regresso até 
determinado ponto da cadeia causal. Para limitar este regresso, o direito penal cria limites, filtros, para sua contenção. 
Estes limites são apresentados a seguir: 
•Tudo que contribui para o resultado é considerado
causa
TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON
•Para encontrar as causas, realiza‐se um processo
mental de eliminação. Se retirarmos uma causa, o
resultado deixar de ocorrer, aquela causa contribuiu
para o resultado.
Processo de Eliminação Hipotética de 
Thyrén
 
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78 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
LIMITES AO REGRESSUS AD INFINITUM 
7. Determinado quem foram os causadores do resultado, precisamos peneirar dentro desses 
causadores quem deve se responsabilizarcriminalmente por aquele mesmo resultado. 
Para isso, são utilizados os seguintes “filtros” (limites) de imputação: 
1º Limite: Imputação subjetiva (dolo ou culpa) 
Só responde pelo crime quem deu causa por dolo ou culpa  “Nullum crimen sine culpa”. 
Ora, como dissemos, não basta ter dado causa ao resultado, pois senão todos os pais, avós, bisavós responderiam pelos 
crimes praticados por seus descendentes. Insisto que dar causa ao resultado é muito diferente do que responder por esse 
mesmo resultado. 
Então, pelo princípio da responsabilidade subjetiva, adotada pelo Código Penal, só poderá responder pelo resultado 
aquela pessoa (ou aquelas pessoas) que causou (saram) o resultado por dolo ou culpa. 
 
2º Limite: Concausas 
8. Uma “causa” nunca age isoladamente para a contribuição ao resultado. Sempre existem 
“causas concomitantes” (concausas) que ajudam no desdobramento físico da conduta. Em sentido muito amplo podemos 
dividir essas concausas em: 
a. aquelas que se somam às outras causas; 
b. aquelas que rompem o nexo causal das outras causas, por causarem, por si só, o resultado. 
Sobre a primeira hipótese (as que se somam), pense que várias “causas” se somam até que se produza o 
resultado “planta”. A semente é uma causa, o adubo outra, a água outra, o sol outra, até que se chegue ao 
resultado final “planta”, a qual é a soma de todas as causas. 
Conforme já vimos, tudo que contribui para o resultado é causa, independentemente se a contribuição é maior ou menor. 
Vejamos mais um exemplo do primeiro grupo: 
1º Limite ao regresso 
infinito Imputação Subjetiva
Dolo
Culpa
 
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79 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
José, dirigindo imprudentemente seu veículo, atropela Maria, causando-lhe lesões corporais graves. Maria é 
levada ao pronto-socorro, local onde é atendida por um médico de plantão. O doutor, agindo com negligência em 
relação ao exame físico da paciente, não percebe um ferimento aberto a infecções. Por falta de assepsia 
adequada, ocorre uma infecção grave na vítima que a conduz ao óbito. Pergunto: quem deu causa? Respondo: 
José com sua imprudência (causa) e o médico com sua negligência (concausa). 
As causas se somaram ou se excluíram? A morte da vítima foi o resultado da soma da imprudência de José com 
a negligência do médico. Ambos, dessa forma, deram causa ao resultado e vão responder por ele na medida da 
culpabilidade de cada um. Note que não há concurso de pessoas entre o médico e José, apenas concorrência de 
culpas. 
9. As causas que rompem o nexo causal são as seguintes: 
 
a. causas absolutamente independentes (“causalidade antecipadora”) 
As causas absolutamente independentes sempre interrompem o nexo causal. Diz-se “independente”, pois tem origem 
absolutamente autônoma da outra causa. 
Observe: quem ingere veneno (causa 1) morre de desastre de avião (causa 2)? Claro que não. Então, caso José 
queira matar Maria, a qual viajará de avião. Para tanto, lhe ministra veneno. Durante o vôo, e antes de a 
substância fazer efeito, o avião cai. Não há relação entre a conduta de José e a morte de Maria. José deverá 
responder por tentativa de homicídio, porquanto o que CAUSOU a morte foi o desastre e não o veneno 
ministrado. 
Veja que a causa “veneno” e a causa “desastre” são absolutamente independentes (leia-se, têm origens autônomas) uma 
da outra, tendo a consequência de se excluírem mutuamente. 
Arrematemos com os geniais ensinamentos de Hungria: “Se a causa superveniens se incumbe sozinha do resultado, e 
não tem ligação alguma, nem mesmo ideológica, com a ação ou omissão, esta passa a ser, no tocante ao resultado, uma 
'não-causa'”. 
b. causa superveniente relativamente independente que, por si só, causa o resultado (art. 13, § 2º) 
Pense que toda conduta inicia um desenvolvimento causal natural. A tendência é que o desenrolar dessa conduta seja 
mais ou menos previsível. 
 Se o sujeito desfere uma facada na vítima, inicia com isso um processo causal que, dentro do que se espera comumente, 
levará ao resultado. A partir desse ferimento, por exemplo, a vítima pode ter algum órgão perfurado; pela lesão causada 
ao órgão poderá ocorrer hemorragia; por força da hemorragia a vítima pode entrar em choque hipovolêmico após a perda 
de cerca de um quinto da quantidade de sangue no organismo; e por força desse quadro clínico poderá entrar em óbito. 
Percebeu que o desenvolvimento do processo causal ocorreu de forma natural? 
 
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80 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Pois muito bem. Podem ocorrer situações em que outra causa (concausa) interfira nesse processo causal de forma tão 
grave que mude drasticamente o seu curso. Vimos, primeiramente, a concausa absolutamente independente, em que as 
duas causas não guardam qualquer relação entre si. 
A segunda hipótese que mencionei é também uma concausa, porém relativamente independente da primeira causa. Leia-
se, possui alguma relação com a causa primeira. 
O exemplo é a ambulância que capota (e vem capotando há anos no Direito Penal). 
O réu atira na vítima, mas esta morre em virtude do acidente que houve com a ambulância. Portanto, o réu responderá 
apenas por tentativa de homicídio e não pela morte da vítima. Está fora do desdobramento causal da conduta de atirar em 
alguém o acidente com o veículo. 
E qual é a relação que o acidente tem com o disparo? A relação é que a vítima só está na ambulância porque foi atingida 
pelo disparo. Caso não tivesse sido agredida, poderia estar em casa com seus familiares, por exemplo. 
A pergunta é a mesma: quem recebe tiro na barriga morre de traumatismo craniano? Claro que não. O que matou 
o tiro ou o capotamento? O capotamento. Então, esta é a CAUSA da morte. E o atirador? Responde por tentativa 
de homicídio. 
O capotamento é relativamente independente ao tiro, uma vez que a vítima só foi colocada na ambulância por conta do 
disparo, como já dissemos. 
Em uma situação concreta em que tive a oportunidade de atuar, um sujeito estava em um bar. Desses em que o 
controle do consumo é realizado através de uma “comanda”, como se diz. Bom, o sujeito perdeu a tal comanda e 
os seguranças da casa não permitiram a sua saída sem o pagamento de uma “multa” de R$ 200,00. Entendo que 
a conduta correta seria o acionamento da polícia, mas nunca a restrição da liberdade do sujeito pelos próprios 
seguranças, o que configura evidente exercício arbitrário das razões. O fato é que o rapaz conseguiu se 
desvencilhar dos seguranças e fugiu do local, sendo perseguido pelos funcionários do bar. Ao atravessar uma 
grande avenida, ainda sob perseguição, foi atropelado por um caminhão e morreu imediatamente no local. 
Analisando o fato sob a perspectiva do assunto que estamos tratando (nexo causal), podem ser colocadas as 
seguintes questões: 
1ª Quais são as causas da morte da vítima? 
Tudo que contribuiu para a situação do atropelamento, incluindo a perseguição. Sim, porque se os seguranças 
não o tivessem detido e, em seguida, corrido em seu encalço, não teria ocorrido o acidente. 
2ª A concausa da “perseguição” e a concausa do atropelamento, são absolutamente ou relativamente 
independente? 
Entendo que são relativamente independentes. A origem do atropelamento está vinculado com a perseguição. 
3º O que matou a vítima? 
Somente o atropelamento. 
 
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81 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Conclusão: o atropelamento é “causa relativamente independente que, por si só, causou o resultado. 
Entendo que os seguranças não poderão responder, nem mesmo por tentativa, pois não há dolo ou culpapor 
parte deles em relação ao atropelamento (1º filtro). 
 
10. Infecção hospitalar: importante ressaltar que a jurisprudência tem entendido que a 
infecção hospitalar é causa natural de um ferimento a tiros ou facadas, por exemplo. Quero dizer que, se uma 
pessoa é alvejada por disparos de arma de fogo, tendo contraído infecção hospitalar durante seu tratamento, a causa 
inicial (tiro) não ficará afastada pela causa final (infecção). Isso porque infecção é uma consequência não extraordinária 
do ferimento. No caso, o autor dos disparos deverá responder por homicídio consumado. 
 
NEXO DE CAUSALIDADE NOS CRIMES OMISSIVOS 
11. Os crimes omissivos puros (próprios) não reclamam o estudo do nexo de causalidade, uma 
vez que se trata de infrações de mera conduta. Só podemos aventar essa possibilidade nos crimes omissivos impróprios, 
certo que estes são crimes de resultado material. A pergunta que se faz é: o garante, ao se omitir, deu efetivamente 
causa física ao resultado? Há nexo causal físico entre o não agir e o resultado material? 
Majoritariamente, os mestres têm ensinado que a omissão não tem uma relação direta de causa e efeito com um possível 
resultado material. Sauer já afirmou que “o nada, nada causa”. Leia-se, a omissão não causa coisa alguma. Admitem, 
contudo, um nexo jurídico-normativo (idealizado pelo Direito) entre o não fazer e o resultado, constante no nexo de “não-
impedimento”. Isso quer dizer que o autor não responde por ter dado causa ao resultado, mas por não tê-lo impedido 
quando devia e podia fazê-lo. 
Enfim, nos crimes omissivos próprios ou impróprios não podemos falar em nexo de causalidade físico, mas 
apenas jurídico, pois o “nada, nada causa”. 
 
3º Limite: Imputação objetiva - Teoria da Imputação objetiva 
12. A teoria da equivalência dos antecedentes causais tem resolvido satisfatoriamente a 
problemática da relação de causalidade física (material). Porém, os finalistas não avançaram muito no estudo do nexo 
2º Limite ao 
regresso infinito Concausas
Absolutamente independentes
concausa posterior relativamente 
independente que, por si só, 
causou o resultado.
 
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82 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
causal, voltando suas forças primordialmente ao estudo da conduta. Com isso, aponta-se que algumas situações não são 
bem resolvidas, primordialmente nos crimes omissivos e formais. 
Imagine a seguinte hipótese: José andava displicentemente de bicicleta pelo parque. Ao aumentar a velocidade 
acima daquela de segurança do passeio público, acaba por atropelar uma velhinha que fazia sua caminhada 
matinal. O acidente não causou mais do que pequenos arranhões em um dos joelhos daquela senhora. Muito 
preocupado com a saúde da senhora, José insiste em levá-la ao hospital para ela fosse examinada por um 
médico, afinal a mulher já era bem idosa. Após insistência de José, a velhinha é levada ao pronto-socorro. No 
local, o médico faz uma rápida avaliação da paciente e constata não haver fraturas. Então, realiza uma incompleta 
limpeza dos ferimentos, enfaixando a perna da velha senhora em seguida. Ela, sob orientação do médico, não 
retira a proteção por vários dias. 
 Por não ter sido bem limpo, o ferimento vem a infeccionar e mata a velha em poucos dias. 
Se aplicarmos a Teoria da Equivalência dos Antecedentes Causais não há dúvidas de que José responderá pelo 
resultado. Primeiro, porque deu “causa” ao resultado. Segundo, porque a concausa existente (a negligência médica) não 
causa por si só o resultado (não rompe o nexo causal). Ao contrário, se soma a ele. Ambos, o médico e José podem 
responder pelo resultado. 
Parece justo que José responda por este resultado? Para a teoria da equivalência não existe razão para este 
questionamento, vez que a análise de causalidade é apenas formal, não levando em conta aspectos de política 
criminal. 
13. Buscando a adequação do Direito Penal aos fins políticos por ele pretendido é que nasce, 
fruto do funcionalismo teleológico-funcional de Roxin, a Teoria da Imputação Objetiva. 
O fundamento teórico do que vamos falar agora é extremamente complexo. Como o fim do nosso trabalho é prepará-lo 
eficazmente para a prova do concurso, vamos ser o mais objetivo possível, abordando somente o conhecimento que tem 
sido cobrado em provas. 
Pois muito bem. Para sanar as falhas da Teoria da Equivalência dos Antecedentes causais, os penalistas que adotam a 
imputação objetiva exigem a análise de alguns critérios antes mesmo de se pesquisar a relação de causa e efeito entre 
conduta e o resultado. 
No exemplo dado, antes de perguntarmos se José causou fisicamente ou não a morte da velhinha, devemos analisar dois 
critérios, basicamente: 
a. Se a ação do autor criou um risco proibido para a produção do resultado. 
Vivemos em uma sociedade de risco. Sair de casa é perigoso, ficar em casa é perigoso, dirigir é perigoso, correr no 
parque é perigoso, estudar é perigoso (risos). Tudo que se faz em sociedade carrega certo risco. Ocorre que esses riscos 
são “tolerados” por todos nós. O risco tolerado é aquele que ocorre normalmente no desenvolvimento da sociedade. 
Dirigir veículos, por exemplo, é um risco tolerado. Contudo, dirigir um veículo a 160 km/h perto de uma área escolar já 
eleva o risco a algo não tolerado. Risco não tolerado é o mesmo que risco proibido. 
 
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83 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Pode ocorrer de o agente não criar o risco, mas, ao contrário, diminuí-lo. Imagine o exemplo em que o sujeito, ao ver que 
a vítima vai ser atropelada, a empurre, causando sua queda. Apesar de tê-la lesionado, o risco foi diminuído e não 
aumentado. Nesse caso, não deverá responder pelas lesões. 
Vocês vão se lembrar do episódio ocorrido em uma universidade de São Paulo em que um estudante de medicina foi 
empurrado na piscina durante festa de calouros. O STJ absolveu os réus, pois entendeu que a vítima, ao ingerir bebida 
alcoólica e aceitar ser empurrada na piscina sem saber nadar, tolerou o risco da conduta. Diga-se, a criação do perigo foi 
realizada não pelos autores, mas pela própria vítima (princípio da ação de próprio risco). 
b. Se o resultado produzido pela ação corresponde à realização do perigo. Diga-se, se a 
realização do resultado é proporcional ao risco criado. 
 
No exemplo citado, José criou um risco proibido ao acelerar sua bicicleta além do limite de segurança. Contudo, 
segundo entende-se, o resultado morte foi desproporcional ao perigo por ele criado (simples arranhão). Não havendo 
que se imputar a José a morte da senhora. 
3º Limite ao 
regresso infinito Imputação Objetiva
Criação de risco proibido
realização do risco no resultado
 
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84 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
 
TEORIA DO TIPO PENAL 
 
Limites ao 
regresso infinito
Imputação 
Subjetiva
Dolo
Culpa
Concausas
Absolutamente independentes
concausa posterior relativamente
independente que, por si só,
causou o resultado.
Imputação Objetiva Criação de risco proibido e realizaçãodo risco no resultado
fato típico
conduta
resultado
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
estrito 
cumprimento 
do dever legal
exercício regular 
do direito
culpabilidade
imputabilidade 
potencial 
consciência 
da ilicitude
exigibilidade 
de conduta 
diversa
 
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85 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
TIPICIDADE (ADEQUAÇÃO TÍPICA) 
 
14. Imagine a situaçãoem que um pai surpreenda seu filho de três anos como dedo no nariz. 
Seria razoável que esse pai desferisse um tapa na mão do garoto como punição pelo ato? Claro que não. 
A violência nunca é válida, mas se o pai quisesse estabelecer uma regra de conduta para seu filho 
poderia dizer assim: 
 
-Filho, papai não gosta que você coloque o dedo no nariz! Então, se você fizer isso novamente, 
não vou deixá-lo jogar videogame. 
Observe que o pai estabeleceu um modelo de conduta proibida (colocar o dedo no nariz), e 
atribui uma punição para a realização desse modelo. 
MODELO DE CONDUTA PROIBIDA: colocar o dedo no nariz. 
PUNIÇÃO: ficar sem vídeo-game por uma semana. 
Esse pai pode ir aumentando a punição na medida em que a conduta for ficando mais grave, 
quer ver? 
MODELO DE CONDUTA PROIBIDA: colocar o dedo no nariz e colar a meleca no sofá. Crime 
qualificado (hehe!) 
PUNIÇÃO: duas semanas sem videogame. 
Ou mais ainda. 
MODELO DE CONDUTA PROIBIDA: tirar meleca do nariz e dar para o cachorro. Crime hediondo 
(hehe!). 
PUNIÇÃO: a infância toda sem videogame. 
 
Bom, brincadeiras a parte, a direito penal se utiliza do mesmo recurso utilizado pelo pai acima. Veja 
que, primeiramente, foi estabelecido um modelo de conduta proibida e a ela atribuída uma sanção. Veja que a norma 
vem antes da conduta real. É o princípio da legalidade: não há crime sem lei anterior que o define, nem pena sem prévia 
cominação legal. 
 
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86 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
A partir de agora, vamos chamar o modelo de tipo penal. 
O que é tipo penal? É um modelo de conduta proibida descrita pela lei. 
 Matar alguém é crime? Não. “Matar alguém” é um modelo de conduta proibida pela lei. É um 
tipo penal. 
Veja: 
O art. 121 do CPB estabelece o seguinte: 
MODELO DE CONDUTA PROIBIDA: matar alguém. 
PUNIÇÃO: pena de 6 a 20 anos. 
A norma do art. 121 só ganhará força, quando determinada pessoa resolver tirar a vida de outra. Neste 
caso, a conduta humana se adequou perfeitamente ao modelo de conduta proibida estabelecida previamente. É o 
fenômeno da tipicidade (ou adequação típica). 
15. O fenômeno jurídico denominado tipicidade (ou adequação típica), então, é a relação 
de adequação de uma conduta humana a um modelo previamente estabelecido pela lei penal. 
Funciona da mesma forma que aqueles cubos pedagógicos com figuras geométricas que damos às 
crianças para seu desenvolvimento intelectual. Imagine que o cubo seja a norma penal e que os espaços para encaixe 
das peças existentes neste cubo sejam os tipos penais (modelos) existentes na lei (no cubo). Existem as peças 
geométricas (quadrado, triangulo, estrela etc.), sendo estas as condutas humanas. 
Toda vez que a criança consegue encaixar corretamente a peça (a conduta) no modelo apresentado, 
pode-se dizer que houve uma adequação da peça ao modelo existente no cubo. Da mesma forma, as leis penais 
possuem modelos (matar alguém). A conduta humana de “matar alguém” encontra adequação neste modelo, gerando a 
tipicidade. 
TIPICIDADE CONGLOBANTE (ZAFFARONI) 
16. O estudo da tipicidade, durante muito tempo, se restringiu ao que falamos até aqui. Os 
penalistas clássicos se contentavam com uma análise de adequação típica meramente formal. 
“Formal” no sentido que se analisava objetivamente, formalmente, se a conduta se encaixava no 
modelo (tipo penal). Ocorre que, modernamente, os penalistas criaram outros critérios para a adequação típica. 
Pense, por exemplo, na situação em que alguém entra em um hipermercado, abre uma balinha 
e a come sem pagá-la no caixa. Formalmente, objetivamente, houve uma conduta que se adequou ao modelo 
previsto no art. 155 do CPB (Subtrair coisa alheia móvel para si ou para outrem). 
 
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87 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Para os penalistas clássicos essa adequação formal já seria suficiente para se determinar que aquele 
sujeito praticou um fato típico de furto. 
Contudo, pense comigo! Você acha que o patrimônio do Hipermercado foi sequer arranhado por essa 
conduta? Claro que não! 
Como o Direito Penal está regido por princípios como o da intervenção mínima e da 
fragmentariedade4, não tem sentido invocar sua força para intervir em situação tão insignificante. 
A partir desse raciocínio, nasce uma teoria que ganhou muita força na doutrina e na jurisprudência. 
Trata-se do Princípio da Insignificância. 
Para entender o supracitado princípio, devemos entender a teoria na qual ele está inserido. 
Como eu disse acima, os penalistas clássicos se contentavam com a análise meramente formal da 
tipicidade. Leia-se, verificavam apenas a adequação formal entre conduta e resultado. Atualmente, além dessa análise 
meramente de encaixe, os penalistas exigem que aquela conduta que se adequou ao modelo (ao tipo penal), de fato, 
tenha relevância para o mundo do direito. Diga-se se aquela conduta é materialmente típica e não apenas formalmente 
típica. 
Com essa combinação entre tipicidade formal e material nasce a Teoria da Tipicidade Conglobante. 
Vamos a ela, então! 
A teoria busca analisar a tipicidade conglobadamente (teoria da tipicidade conglobante). 
17. Para Zaffaroni, a Tipicidade Penal deve ser analisada nos seguintes aspectos: 
 
a. Tipicidade formal: aquela que já estudamos. Encaixe da conduta no modelo típico. 
b. Tipicidade Conglobante: 
                                                            
4 Princípio da  Intervenção Mínima  – o Direito Penal deve  proteger  somente os bens  jurídicos mais  importantes. Assim,  deve  ser 
invocado apenas quando a  intervenção de outros ramos do direito não forem suficientes para o controle social. O Direito Penal é a 
ultima ratio do  legislador para a soluções dos conflitos. A Lei Penal é enfraquecida todas as vezes em que é chamado a  intervir em 
situações em que os Direitos Civil, Comercial, Administrativo, por exemplo, poderiam trazer solução satisfativa. 
Princípio da Fragmentariedade – como consequência da aplicação do princípio da  intervenção mínima, o Direito Penal representará 
apenas um  fragmento na tutela de bens  jurídicos. O Direito Penal protege apenas bens específicos e, em uma análise a posteriori, 
acaba representando um pequeno fragmento nas opções do aplicador da  lei. Esse característica, segundo os defensores do “direito 
penal  mínimo”,  será  mais    eficaz.  Deflui  o  princípio  da  fragmentariedade  dos  princípios  da  intervenção  mínima  (ultima  ratio),  da 
lesividade e da adequação social. 
 
 
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88 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
i. Tipicidade Material. 
ii. Antinormatividade. 
 
 
18. Imagine que você esteja saindo de seu curso preparatório e, ao dar a marcha ré em seu 
veículo, acaba por encostar levemente em um colega, causando-lhe um pequeno arranhão de dois centímetros. Bom, 
podemos dizer que, formalmente, sua conduta encontra adequação ao tipo de lesão corporal culposa do Código Penal 
(tipicidade formal). Ocorre que este pequeno arranhão, de tão pequeno, não colocou em risco efetivo a integridade física 
da vítima. Não foi materialmente relevante esse ferimento. Podemos dizer então, segundo ensinamento de Zaffaroni, que 
faltou tipicidade material. 
Em resumo: a teoria da tipicidade conglobante exige que a conduta leve a um resultado 
relevante para o Direito Penal. 
19. O terceiro requisito não tem sido aceito no meio jurídico brasileiro, mas é importante 
conhecê-lo. Trata-se da Antinormatividade. 
Se uma norma do ordenamento jurídico fomenta, estimula, promove ou permite determinada conduta, 
oque está fomentado, determinado ou permitido por uma norma, não pode estar proibido por outra. Zaffaroni entende que 
isso seria um contrasenso. 
Para explicar seu ponto de vista, Zaffaroni dá o exemplo do Oficial de Justiça que cumpre 
ordem judicial de penhora e sequestro de bens do devedor para satisfazer a dívida junto ao credor. Para a 
doutrina majoritária, como veremos, o Oficial de Justiça pratica um fato típico (subtrair coisa alheia móvel para si 
TIPICIDADE 
CONGLOBANTE
Tipicidade Formal
Tipicidade Conglobante
tipicidade material
antinormatividade
 
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89 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
ou para outrem, art. 155 do CPB), contudo sua conduta estaria acobertada pela excludente de ilicitude do “estrito 
cumprimento do dever legal”. O fato seria típico, mas não ilícito. 
Zaffaroni, contudo, entende que não faz sentido que o Estado, ao mesmo tempo, proíba a conduta e, 
no mesmo passo, a autorize. 
Veja o que ele diz a respeito: 
“ (...) a tipicidade implica antinormatividade (contrariedade à norma) e não podemos admitir que na 
ordem normativa uma norma ordene e que outra proíbe. Uma ordem normativa, na qual uma norma possa ordenar o que 
a outra pode proibir, deixa de ser ordem e de ser normativa e torna-se uma ‘desordem’ arbitrária.” 
Na prática, acaba que as situações que são consideradas acobertadas pelo Estrito Cumprimento do 
Dever Legal e pelo Exercício Regular do Direito passam a ser examinados dentro do fato típico. 
Por exemplo, se o Estado fomenta o Boxe ou permite sua prática como algo lícito, não pode 
considerar que um soco desferido pelo lutador seja algo típico indicador de ilicitude, sendo esta ilicitude afastada por uma 
justificante (exercício regular do direito). Zaffaroni entende que se trata de um falto atípico não só por ser de acordo com o 
direito, mas por estar cumprimento uma atividade que, inclusive, o estado estimula. 
Como dissemos, apesar da autoridade de um dos maiores penalistas da atualidade, a teoria ficou 
apenas no campo teórico. 
Em resumo: não é típica a ação autorizada ou fomentada pelo Estado. 
20. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA 
Pois, muito bem! Vimos que dentro da tipicidade conglobante existe a tipicidade material. Podemos 
dizer, então, que a tipicidade somente ocorrerá se ela tiver alguma significância material para o direito. Matar uma única 
borboleta não afeta o meio-ambiente; subtrair cinquenta centavos do Sílvio Santos não afeta seu patrimônio (nem o 
nosso, espero! Rsss); fazer cópia de uma página de livro não afeta os direitos do autor. Ou seja, tudo isso é muito pouco 
para invocarmos o Direito Penal. 
A teoria da tipicidade conglobante tem sido utilizada nos tribunais como forma de afastar ou 
não a tipicidade material sob o pálio do Princípio da Insignificância (por falta de tipicidade material), conforme 
colação jurisprudencial: 
STF. Lesão Corporal Leve e Princípio da Insignificância 
 
A Turma deferiu habeas corpus para declarar atípica a conduta de militar que desferira um único soco contra seu 
colega, também militar, após injusta provocação, absolvendo-o da imputação de lesão corporal leve (CPM, art. 
209). Assentou-se que o desferimento de um único soco, após injusta provocação da vítima, tal como 
 
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90 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
reconhecido pela sentença (CPM, 209, § 4º: “Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor 
moral ou social ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz 
pode reduzir a pena, de um sexto a um terço”), permitiria, por suas características, a aplicação do princípio da 
insignificância. 
HC 95445/DF, rel. Min. Eros Grau, 2.12.2008. (HC-95445) 
 
O Direito Penal não pode se ocupar com lesões irrelevantes aos bens jurídicos. No exemplo do 
motorista que ao fazer manobra de estacionamento, culposamente, atinge um pedestre que ali passava, tendo este 
experimentado lesão de um centímetro e sem sangramento, podemos afirmar que a integridade física do pedestre não 
fora colocada em um perigo tal que justifique a intervenção do Direito Penal. Nada mais é do que o conceito de tipicidade 
material que falamos acima. 
21. Quando, então, podemos dizer que determinado fato é insignificante? 
O supremo Tribunal Federal estabeleceu vetores indicativos de que um fato é materialmente 
atípico, leia-se, é insignificante. 
Vetores do Princípio da Insignificância 
Conforme posição do STF, o princípio da insignificância tem como vetores (indicadores): a) a mínima 
ofensividade da conduta do agente; b) a nenhuma periculosidade social da ação; c) o reduzido grau de 
reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 
Para memorizar os vetores do princípio da insignificância: 
MOnique APareceu em RoRaima e em Ilhéus. 
 
1. MO – mínima ofensividade 
2. AP – nenhuma periculosidade da ação 
3. RR -reduzida reprovabilidade 
4. I L- inexpressividade da lesão. 
 
 
 
 
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22. A Observe que o Princípio da Insignificância não pode ser confundido com as denominadas 
“infrações de menor potencial ofensivo” da Lei nº 9.099/95. 
 
As infrações de menor potencial ofensivo são aquelas em que a lei prescreve pena de, no máximo, 2 
anos de prisão e/ou multa. Nessas infrações, de competência dos Juizados Especiais, várias medidas despenalizadoras 
podem ser aplicadas ao infrator, evitando-se, assim, pena de privação de liberdade (ex.: transação penal e suspensão 
condicional do processo). 
 
 ( FEPESE - 2010 - UDESC - Advogado) Assinale a alternativa correta. 
a) O princípio da humanidade das penas está consagrado na Constituição Federal. 
b) O princípio da aplicação da lei mais benéfica não é utilizado pelo direito penal. 
c) O princípio da intervenção mínima não se confunde com o principio da ultima ratio. 
d) Por força do princípio da insignificância não são punidos os crimes de menor potencial ofensivo. 
e) A existência de crimes funcionais ofende o princípio da igualdade. 
Resposta: letra A 
 
23. A análise do princípio da insignificância deve ser realizada no caso concreto. Para que 
você possa acertar as questões da prova, preciso reunir os principais posicionamentos do STJ e do STF a respeito. 
Seria interessante que você passe a acompanhar os informativos de jurisprudência e anote as novas decisões a partir 
de agora. A aula está atualizada até o dia 26 de maio de 2011. 
24. O primeiro posicionamento que gostaria de mencionar, refere-se aos requisitos para 
aplicação do princípio da insignificância. 
 
O STF já estabeleceu como requisitos objetivos e subjetivos: 
 
a) mínima ofensividade da conduta; 
b) ausência de periculosidade social da ação; 
c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; 
d) inexpressividade da lesão jurídica. 
 
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No furto de um cartucho de tinta de impressora de valor aproximado de R$ 30, praticado por um 
detendo, por exemplo, dentro de uma penitenciária (fato julgado pelo STJ, conforme informativo nº 449/2010). Bom, o 
valor para o Estado é relativamente insignificante. Entretanto, um dos requisitos apontados pelo STF é a reprovabilidade 
da conduta do agente. Puxa vida, o sujeito está preso na penitenciária, cumprindo pena e ainda furta um bem do 
Estado! Veja como a conduta dele é reprovável, não obstante o valor ínfimo do dano causado. Assim,todos os 
requisitos acima devem estar presentes concomitantemente para o reconhecimento da insignificância. 
 
25. Princípio da insignificância e crimes tributários: aplica-se o princípio da insignificância 
aos crimes tributários (ex.: Crimes Contra a Ordem Tributária( Lei nº 8.137/90), Descaminho (art. 334 do CP)). 
 
O STF tem reconhecido a insignificância de crimes dessa natureza, desde que o débito tributário 
devido não seja superior DEZ MIL REAIS. É que a Lei nº 10.522/2002 determinou o arquivamento, mediante 
requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, dos processos de execução fiscal de débitos iguais ou inferiores a 
dez mil Reais. 
 
Com base nesse dispositivo, o STF entendeu o seguinte: se R$ 10 mil Reais são irrelevantes para o 
Fisco, não pode ser relevante para o Direito Penal. 
 (CESPE - 2011 - PC-ES - Delegado de Polícia ) Segundo a jurisprudência do STF, é possível a aplicação do 
princípio da insignificância para crimes de descaminho, devendo-se considerar, como parâmetro, o valor 
consolidado igual ou inferior a R$ 7.500,00. 
 
Resposta: errado 
 
 
26. Cuidado! No tocante ao crime de apropriação indébita previdenciária (Art. 168-A. Deixar 
de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional: 
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. § 1o Nas mesmas penas incorre quem deixar de: I – recolher, no 
prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à previdência social que tenha sido descontada de pagamento 
efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do público; II – recolher contribuições devidas à previdência social que 
tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de produtos ou à prestação de serviços; III - pagar 
benefício devido a segurado, quando as respectivas cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela 
previdência social), o qual, apesar de apresentar natureza tributária, o STF afastou o princípio da insignificância, 
 
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com fundamento no valor supraindividual (coletivo) do bem jurídico protegido, o que torna irrelevante o pequeno valor 
das contribuições sociais desviadas da Previdência Social (HC 100.938/SC). 
Anote! 
O STF admite a aplicação do princípio a crimes tributários, caso o débito tributário não 
ultrapasse dez mil Reais. Entretanto, não tem o Supremo aceito a aplicação do mesmo princípio ao crime de 
apropriação indébita previdenciária. 
 
 
27. O princípio da insignificância na Lei de Drogas (Lei n 11.343/2006): a jurisprudência do 
STF tem afastado a aplicação do princípio da insignificância no que diz respeito à Lei de Drogas, MESMO QUE 
SE TRATE DO CRIME DE PORTE DE DROGAS PARA CONSUMO PRÓPRIO. 
Em resumo, o STF alega de forma acertada que ao adquirir a droga para seu consumo, 
realimentaria esse comércio, pondo em risco a saúde pública. Ressaltou, ainda, a real possibilidade de o usuário vir a 
se tornar mais um traficante, em busca de recursos para sustentar seu vício. Observou, por fim, que — por se tratar de 
crime no qual o perigo seria presumido — não se poderia falar em ausência de periculosidade social da ação, um dos 
requisitos cuja verificação seria necessária para a aplicação do princípio da insignificância (STF, HC 102940, DJ 
05/04/2011). 
 
Anote! 
O STF não tem aplicado o princípio da insignificância aos crimes da Lei de Drogas, inclusive 
ao art. 28 (Posse de Drogas para uso pessoal). 
 
 
28. Posse de drogas para uso pessoal em instalações militares: outra discussão 
importante refere-se ao porte de drogas por militares em instalações militares. Veja que pela especificidade da situação 
a legislação a ser aplicada é a castrense, leia-se, o Código Penal Militar (art. 290). Não se aplica, deste modo, a Lei de 
Drogas comum. Trata-se de um crime especial em relação a essa lei. 
 
Bom, na sessão de julgamento realizada em 21.10.2010, nos autos do HC 103.684/DF, rel. Min. 
Ayres Britto, o Plenário do Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que “a posse, por militar, de 
reduzida quantidade de substância entorpecente em lugar sujeito à administração castrense (CPM, art. 290) não 
autoriza a aplicação do princípio da insignificância” (Informativo 605/STF). 
 
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94 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Como se nota, não se admite a aplicação do princípio na lei comum (11.343/2006), nem muito 
menos na Lei Castrense (militar). Quero que você observe apenas as razões para que o princípio não seja aplicado em 
cada um dos casos. Então, anote: 
 
Lei de Drogas (11.343/2006): não se admite a aplicação do princípio da insignificância por colocar 
em risco a saúde pública, por tratar-se de crime de perigo abstrato e por alimentar a criminalidade (já que há a 
tendência de o usuário tornar-se traficante para sustentar o vício). 
 
Art. 290 do CPM: a questão da posse de entorpecente por militar em recinto castrense não é de 
quantidade, nem mesmo do tipo de droga que se conseguiu apreender. O problema é de qualidade da relação jurídica 
entre o portador da substância entorpecente e a instituição castrense de que ele fazia parte, no instante em que 
flagrado com a posse da droga em pleno recinto sob administração militar. Em resumo, a disciplina militar não pode 
admitir o uso de entorpecentes por parte de sua tropa, por colocar em risco, em última análise, a própria segurança 
nacional. 
 
 
29. Princípio da insignificância e tráfico de armas de fogo: o STF não admite a aplicação 
do princípio da insignificância ao tráfico internacional de armas e/ou munições (art. 18 da Lei nº 10.826/03). Segundo o 
STF, a objetividade jurídica da norma penal (leia-se, o que a norma visa proteger) transcende a mera proteção da 
incolumidade (segurança) pessoal, para alcançar também a tutela da liberdade individual e do corpo social como um 
todo, asseguradas ambas pelo aumento dos níveis de segurança coletiva que a lei propicia (STF, HC 97777, DJ 
19/11/2010). 
 
30. Princípio da insignificância e crimes contra a fé-pública: o STF, de igual modo, não 
tem aplicado o princípio para afastar a tipicidade material de Crimes Contra a Fé-Pública (ex.: crime de Moeda Falsa 
do art. 289 do CP). 
Imagine que o sujeito falsifique uma cédula de R$ 2 (dois Reais). Podemos considerar essa conduta 
insignificante, considerando somente o valor falsificado? 
Para o STF, o bem violado seria a fé pública, a qual é um bem intangível e que corresponde à 
confiança que a população deposita em sua moeda, não se tratando, assim, da simples análise do valor material por 
ela representado (STF, HC 96080, DJe 20/08/2009). 
 
 
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95 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
( CESPE - 2010 - DPU - Defensor Público) Considere a situação hipotética em que Ricardo, brasileiro, primário, 
sem antecedentes, 22 anos de idade, e Bernardo, brasileiro, 17 anos de idade, de comum acordo e em unidade de 
desígnios, tenham colocado em circulação, no comércio local de Taguatinga/DF, seis cédulas falsas de R$ 50,00, 
com as quais compraram produtos alimentícios, de higiene pessoal e dois pares de tênis, em estabelecimentos 
comerciais diversos. Considere, ainda, que, ao ser acionada, a polícia, rapidamente, tenha localizado os agentes 
em um ponto de ônibus e, além dos produtos, tenha encontrado, na posse de Ricardo, duas notas falsas de R$ 
50,00 e, na de Bernardo, uma nota falsa de mesmo valor, além de R$ 20,00 em cédulas verdadeiras. Na delegacia, 
os produtos foram restituídos aos legítimosproprietários, e as cédulas, apreendidas. 
 
Nos termos da situação hipotética descrita e com base na jurisprudência dos tribunais superiores, admite-se a 
prisão em flagrante dos agentes, considera-se a infração praticada em concurso de pessoas e, pelas 
circunstâncias descritas e ante a ausência de prejuízo, deve-se aplicar o princípio da insignificância. 
 
Resposta: errado 
 
 
31. A reincidência do agente pode afastar a aplicação do princípio da insignificância? 
 
Sim. As mais recentes decisões do STF (tanto da 1ª, como da 2ª Turma) têm considerando que a 
reincidência e habitualidade da prática delituosa devem ser consideradas para a aplicação ou não do princípio (STF, HC 
DJe 23/05/2011). Entretanto, a discussão não está pacificada. Em decisão também recente, a 2ª turma ficou empatada 
em votação de Habeas Corpus em favor de réu reincidente que solicitava a aplicação do princípio. Observe: 
 
Ante o empate na votação, a 2ª Turma deferiu habeas corpus impetrado em favor de 
condenado à pena de 10 meses de reclusão, em regime semi-aberto, pela prática do crime de furto tentado de 
bem avaliado em R$ 70,00. Reputou-se, ante a ausência de tipicidade material, que a conduta realizada pelo 
paciente não configuraria crime. Aduziu-se que, muito embora ele já tivesse sido condenado pela prática de 
delitos congêneres (similares), tal fato não poderia afastar a aplicabilidade do referido postulado, inclusive 
porque estaria pendente de análise, pelo Plenário, a própria constitucionalidade do princípio da reincidência, 
tendo em vista a possibilidade de configurar dupla punição ao agente. Vencidos os Ministros Joaquim Barbosa, 
relator, e Ayres Britto, que indeferiam o writ, mas concediam a ordem, de ofício, a fim de alterar, para o aberto, o 
regime de cumprimento de pena. HC 106510/MG, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/o acórdão Min. Celso de 
Mello, 22.3.2011. (HC-106510) 
 
 
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96 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
A briga é feia também no STJ. Observe: 
a) Julgado do STJ considerando a reincidência para afastar a aplicação do princípio: 
 
O paciente teria tentado subtrair do supermercado, ao todo, 12 (doze) cadeados e 6 (seis) 
cintos de borracha artesanais, avaliados em R$ 238,08 (duzentos e trinta e oito reais e oito centavos). Não há 
como considerar as coisas subtraídas de valor bagatelar, notadamente tomando-se por base o salário mínimo 
vigente à época, de R$ 465,00 (quatrocentos e sessenta e cinco reais). 
3. De se ver, ainda, que o paciente é reincidente, possuindo condenações por receptação e 
furto qualificado, cujas penas privativas de liberdade foram substituídas por prestação de serviços à 
comunidade (STJ, HC 146.983/RS, DJe 16/05/2011). 
b) Julgado do STJ considerando a reincidência para a aplicação do princípio: 
Segundo a jurisprudência consolidada nesta Corte e também no Supremo Tribunal Federal, a 
existência de condições pessoais desfavoráveis, tais como maus antecedentes, reincidência ou ações penais 
em curso, não impedem a aplicação do princípio da insignificância. 
Princípio da Alteridade – proíbe a autolesão punível (STJ, HC 196.252/MG, DJe 11/05/2011) 
Alguns professores, em situações divergentes como essa, ensinam a seguinte regra: 
a) concursos de Polícia, Ministério Público e etc. costumam considerar posições menos 
favoráveis ao réu; 
b) concursos para Defensorias, provas de OAB e etc. costumam considerar posições mais 
favoráveis ao réu. 
Eu, particularmente, não concordo. Independentemente da prova que você fará, o que 
determinará a posição adotada vai ser o examinador em si. No meu concurso, por exemplo, o examinador de 
penal era Juiz de Direito. O que eu fiz? Estudei as posições dele. Ocorre que, por falta de legislação específica, 
os concursos não costumam publicar a banca examinadora, o que é um verdadeiro absurdo. 
Se esse for o caso, procure interpretar a questão. Exemplo: “De acordo com as mais recentes 
decisões do STF (ou STJ)”; ou, “de acordo com jurisprudência majoritária no STF (ou STJ)”. Com isso, você, 
tendo o conhecimento, pode direcionar melhor o “chute”. Sim, porque mesmo sabendo a matéria, não tem 
como adivinhar o posicionamento do examinador muitas vezes. 
A propósito, veja a seguinte questão que caiu em uma prova para Juiz de Direito: 
 
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97 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
(TJ/TO Juiz de Direito/2007) Assinale a opção correta no que diz respeito ao entendimento do 
STJ acerca do princípio da insignificância e sua aplicação ao direito penal. 
 
A) O fato de o réu possuir antecedentes criminais impede a aplicação do princípio da insignificância. 
 
B) O pequeno valor da res furtiva, por si só, autoriza a aplicação do princípio da insignificância. 
 
C) Uma quantidade mínima de cocaína apreendida, em hipótese alguma, pode constituir causa justa para 
trancamento da ação penal, com base no princípio da insignificância. 
 
D) São sinônimas as expressões “bem de pequeno valor” e “bem de valor insignificante”, sendo a 
conseqüência jurídica, em ambos os casos, a aplicação do princípio da insignificância, que exclui a tipicidade 
penal. 
 
 Veja que a questão é de 2007 e o examinador pede o entendimento do STJ naquela época. O 
gabarito da questão, caso a prova fosse em 2011, deveria ser repensado. Penso que, hoje, as assertivas “A” e 
“C” estariam corretas. Na época, a resposta considerada correta foi a letra “C”. 
No concurso para Procurador do Tribunal de Contas do Estado da Bahia de 2010, o Cespe 
realizou a seguinte assertiva (os grifos são meus): 
 ( CESPE - 2010 - TCE-BA - Procurador / Direito Penal / Princípios ) Considerando a interpretação do STJ e do STF a 
respeito da legislação penal extravagante, julgue os itens 
Considere que o prefeito de determinado município tenha emitido ordem de fornecimento de 20 L de combustível, a ser 
pago por esse município, a indivíduo que não era funcionário público nem estava realizando qualquer serviço público e 
que conduzia veículo privado nos termos da tipificação estipulada pelo Decreto-Lei n.º 201/1967. Nessa situação, 
segundo precedente do STJ, não se aplica o princípio da insignificância, pois, quando há crime contra a 
administração pública, o bem penal tutelado não é somente de ordem patrimonial, mas também relacionado à 
proteção da moral administrativa. 
A banca considerou a questão correta, muito provavelmente baseada na seguinte decisão do STJ: 
1. A 3a. Seção desta Corte possui jurisprudência pacífica sobre a inaplicabilidade do 
princípio da insignificância nos crimes contra a Administração Pública, pois não se busca resguardar apenas o 
aspecto patrimonial, mas principalmente a moral administrativa. 
 
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98 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
2. Ordem denegada, em consonância com o parecer ministerial (STJ, HC 115.562/SC, DJe 
21/06/2010). 
No entanto, o STF já decidiu de forma diferente. No caso tratado pelo STF tratava-se de crime 
contra a Administração Pública Militar, o que, em tese, é até mais grave. Veja: 
1. A circunstância de tratar-se de lesão patrimonial de pequena monta, que se convencionou 
chamar crime de bagatela, autoriza a aplicação do princípio da insignificância, ainda que se trate de crime 
militar. 2. Hipótese em que o paciente não devolveu à Unidade Militar um fogão avaliado em R$ 455,00 
(quatrocentos e cinqüenta e cinco) reais. Relevante, ademais, a particularidade de ter sido aconselhado, pelo 
seu Comandante, a ficar com o fogão como forma de ressarcimento de benfeitorias que fizera no imóvel 
funcional. Da mesma forma, é significativoo fato de o valor correspondente ao bem ter sido recolhido ao erário. 
3. A manutenção da ação penal gerará graves conseqüências ao paciente, entre elas a impossibilidade de ser 
promovido, traduzindo, no particular, desproporcionalidade entre a pretensão acusatória e os gravames dela 
decorrentes. Ordem concedida (STF, HC 87478, DJ 23/02/2007). 
Como se vê, o CESPE quis a decisão mais recente na época que, no caso, era do STJ. Inclusive, 
esses posicionamentos se mantêm até hoje. 
Anote! 
O STJ não admite o princípio da insignificância em crimes contra administração pública 
(decisões mais recentes), mas o STF, em decisões mais antigas, já aplicou o referido princípio. 
32. Princípio da insignificância e improbidade administrativa: o agente público, nessa 
condição, pode ser responsabilizado por seus atos nas esferas penal, civil e administrativa (que se denomina 
de “tríplice responsabilidade”). Com a edição da Lei nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa), o agente 
público ficou sujeito a mais uma responsabilidade, criando assim uma quádrupla responsabilidade funcional. A 
referida lei descreve, basicamente, que constitui ato de improbidade administrativa o enriquecimento ilícito e o 
recebimento de qualquer tipo de vantagem patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato, função, 
emprego públicos. 
Como ressaltou o STJ (REsp 746.854/RS), o bem jurídico que a Lei de Improbidade busca 
proteger é a moralidade administrativa. Nesse sentido, não se pode falar em imoralidade insignificante por parte 
do agente público. 
33. Princípio da insignificância e crimes ambientais: o STJ, em relação ao tema, tem se 
posicionado no sentido da aplicação do referido princípio aos crimes contra o meio ambiente, desde que ínfima a 
lesão causada. Como na hipótese em que, com acusados do crime de pesca em local interditado pelo órgão 
competente, não foi apreendido qualquer espécie de pescado, não havendo notícia de dano provocado ao meio-
ambiente, mostrando-se desproporcional a imposição de sanção penal no caso, pois o resultado jurídico, ou seja, a 
lesão produzida, mostrava-se absolutamente irrelevante (STJ, HC 143.208/SC, DJe 14/06/2010). 
 
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99 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
34. Princípio da insignificância e atos infracionais: para o STF, os atos infracionais 
cometidos por menores (ECA) são passíveis de aplicação do princípio da insignificância, desde que preenchidos os 
requisitos legais (STF, HC 98381, DJe 19/11/2009). 
 (CESPE - 2009 - DPE-PI - Defensor Público ) Em relação à aplicação do princípio da insignificância Segundo 
entendimento do STF, tal princípio qualifica-se como fator de descaracterização material da tipicidade penal. 
Segundo entendimento do STJ, é possível a aplicação de tal princípio às condutas regidas pelo ECA. 
 
Resposta: correto. 
 
 
ESTUDOS ESPECIAIS SOBRE O FATO TÍPICO 
35. A TENTATIVA (art. 14, II do CPB) 
 Paul Johann Anselm von Feuerbach (1828) já disciplinava a tentativa como forma especial de delito, 
metodologia aperfeiçoada por Von Liszt (1914)5. 
No processo de adequação típica formal, pode ocorrer que o tipo penal (o modelo estabelecido pela 
lei) precise ser complementado por outro tipo penal. 
Mayer entendia a tentativa como forma de extensão da punibilidade. Essa é a concepção adotada por 
Roxin e dominante atualmente. Explica-se: quando o tipo descreve a conduta de “matar alguém” exige para sua 
configuração a eliminação da vida de quem se pretende matar. Caso tal resultado não ocorra, a adequação típica fica 
prejudicada. Para ampliar as possibilidades de punição de vários tipos descritos na lei penal, é necessária a ampliação 
das possibilidades típicas. Para tanto, o tipo de extensão do art. 14, II, que trata da tentativa, acaba por servir de figura 
complementar aos tipos proibitivos. 
Veja, por exemplo, o que ocorre na situação daquele que efetua disparos contra a vítima com animus 
necandi (dolo de matar), mas não obtém sucesso na empreitada. Se tomarmos o modelo do art. 121 do CPB (“matar 
alguém) não haverá encaixe perfeito da conduta a esse molde. Como assim? 
Observe: 
MODELO: Matar alguém (art. 121 do CPB). 
CONDUTA: (tentar) matar alguém. 
                                                            
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100 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Viu como a conduta não encontra adequação ao modelo? Pois então. 
Quando isso ocorre, devemos nos socorrer a um tipo que incremente o tipo básico. Leia-se 
necessitaremos de um tipo que estenda a aplicação do tipo básico. 
O modelo diz “matar” e não “tentar matar”. Qual a saída então? 
No caso apresentado, podemos pedir auxílio de outro tipo penal. Aquele justamente que trata da 
tentativa. Quer ver? 
 
Observe: 
MODELO: “matar” alguém (art. 121 do CPB) + Tentativa (art. 14, II, do CPB). 
CONDUTA: tentar matar alguém. 
A isso se dá o nome de adequação típica mediata ou indireta. Leia-se mediata, pois a adequação 
não ocorre imediatamente, mas MEDIATAMENTE, através de um tipo de extensão. 
36. A adequação típica pode se dar com a relação da conduta a apenas um tipo penal. Neste 
caso, estaremos falando de adequação típica direta ou imediata. 
Pode ocorrer de termos que nos socorrer de mais de um tipo penal para perfeitamente adequarmos o 
comportamento ao modelo de conduta proibida. Por exemplo, se o agente, mediante grave ameaça, subtrai bens da 
vítima, estaremos falando de roubo consumado, que exige apenas um tipo penal (básico e/ou derivado). Agora, caso o 
agente não consiga subtrair a res, pelo fato de a vítima estar armada, teremos que nos socorrer do art. 14, inciso II do 
CPB, uma vez que não existe imediatamente um tipo descrevendo a conduta de “tentar roubar”. Exige-se, assim, a 
combinação do tipo do art. 157 com o art. 14, II do CPB, que geraria o que a doutrina denomina de adequação típica 
indireta ou mediata. 
 
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101 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
Entendido que a tentativa amplia as possibilidades de punição do crime básico, podemos passar ao 
seu estudo. 
37. Do ITER CRIMINIS 
Comumente, os crimes passam por um caminho natural. É o que vamos nomear de “caminho do 
crime” (iter criminis). 
Por que o estudo do iter criminis é importante para compreender a tentativa? 
Porque o art. 14, inciso II assim conceitua a tentativa: “Diz-se tentado o crime quando o agente inicia 
a execução, mas não atinge a consumação por circunstâncias alheias a sua vontade.” 
A execução e a consumação são etapas do iter criminis, por isso sua importância 
Observe novamente o art. 14, II do CPB. Segundo ele, o crime considera-se tentado se o agente, após 
iniciada a execução, não atingiu o resultado por circunstâncias alheias à sua vontade. Para o correto entendimento sobre 
consumação e tentativa de crimes é que se estuda o denominado Iter criminis (caminho do crime). O agente, ao praticar o 
ilícito, passa pelas seguintes fases: 
 
ITER CRIMINIS 
Não é COPREXCO entender o iter criminis, 
ou seja: 
TIPICIDADE (ADEQUAÇÃO 
TÍPICA)
IMEDIATA OU DIRETA Somente um tipo penal
MEDIATA OU DIRETA Exige um "tipo de extensão".
 
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102 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
CO= COGITAÇÃO 
PRE=PREPARAÇÃO 
EX= EXECUÇÃO 
CO= CONSUMAÇÃO 
 
 
a) Fase interna: 
a.1) cogitação 
Nesta fase, o agente ainda está refletindo sobre o crime. Ele tencionapraticá-lo, mas está estudando 
os meios mais adequados para tal. 
Se o Professor Valente tenciona matar sua sogra, a ideia surge primeiramente no íntimo de seu 
cérebro. Como o crime ainda esta enclaustrado na sua mente, não há como punir o pobre Professor, concorda? 
Na cogitação há um processo interior em que o autor organiza seu plano delitivo e estabelece a 
meta de sua ação, elegendo, a partir dos fins, os meios e as etapas para o sucesso do fim colimado, regida tal 
etapa pelo princípio cogitationem poena nemo patitur (Ulpiano). Leia-se, não há pena para a mera cogitação. 
 
Então, A COGITAÇÃO NUNCA É PUNÍVEL. 
Só para complementar, há casos em que o ímpeto de praticar o crime é tão imediato que o sujeito não 
passa pela fase de cogitação. Imagine aquela senhora que surpreende seu esposo a traindo com outro homem! Arma-se 
de uma faca e, no ímpeto, mata ambos. É o DOLO DE ÍMPETO, lembra-se? Já o estudamos na aula passada. 
b) Fase externa: 
b.1) Preparação 
Após cogitar matar sua sogra, o Professor Valente vai à loja de ferragens para adquirir os instrumentos 
necessários para praticar o crime pensado: 
 
- Pô, Professor Valente, que bom vê-lo aqui. Diz um aluno que o encontra na loja. 
- Pois é, meu amigo. Sabe, eu cogitei em matar aquela jararaca da minha querida sogrinha e 
 
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103 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
agora estou aqui comprando um machado, uma pá, areia e cimento. Cogitei em matá-la e depois enterrar bem 
fundo com a barriga virada para baixo, porque se ela acordar e começar a cavar, vai parar no inferno!(hehe) 
 
Pergunto: Pratico algum crime em comprar esses instrumentos? 
Claro que não! 
Comprar pá, machado, areia etc. não é crime algum. 
Então, podemos afirmar que o direito penal, em regra, não pune a preparação, exceção quando os 
atos preparatórios são punidos como crimes autônomos, ex: 288 (Quadrilha ou Bando) e 291 (petrechos para falsificação 
de moeda); art. 14 da lei 10.826/03 (porte de arma). 
Como assim? Claro, se você pretender matar sua sogra e comprar, para tanto, uma arma de fogo 
contrabandeada, responderá pelo crime do Estatuto do Desarmamento. A preparação para o homicídio já foi um crime em 
si, sacou? 
Então, REGRA GERAL A PREPARAÇÃO PARA O CRIME É IMPUNÍVEL, SALVO QUANDO OS 
ATOS PREPARATÓRIOS FOREM PUNÍVEIS AUTONOMAMENTE. 
A preparação é o processo pelo qual o autor disponibiliza os meios eleitos para criar as 
condições para obter o fim ilícito. 
b.2) Execução 
Lembre-se que para que o Professor Valente, no mínimo, TENTE matar a sogra, terá que, pelo menos, 
iniciar a execução do crime (Art. 14, II). 
Só que o momento exato em que a conduta deixa de ser preparatória e passa a ser executória tem 
causado discussões ferrenhas na doutrina. 
Podemos falar, basicamente, que a execução é a utilização dos meios ou instrumentos eleitos para a 
realização do plano delitivo. 
Ocorre que é importante que você conheça as principais teorias sobre quando e considera iniciada a 
execução. 
 
38. QUANDO TERMINA A PREPARAÇÃO E SE INICIA A EXECUÇÃO? 
Teoria objetivo-formal (Beling): o começo da execução deve ser analisado tipo por tipo. Deste modo, 
 
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104 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
para que o agente inicie a fase executória, lhe é exigível que realize uma parcela da conduta típica descrita no núcleo 
(verbo) do tipo penal, ou seja, que pratique, ao menos em parte, a conduta descrita no verbo do tipo penal. 
Assim, só ocorreria homicídio, quando o agente começasse a “matar”; furto quando começasse a 
“subtrair”; Estelionato quando começasse a “manter em erro alguém”. 
No exemplo do homicídio por arma de fogo, só ocorreria o início da execução com o acionamento do 
gatilho. 
A teoria é dita objetiva, pois analisa objetivamente o verbo núcleo do tipo penal. 
 
Teoria objetivo-material ou da unidade natural (Frank): amplia a possibilidade de tentativa ao 
considerar que existem atos imediatamente anteriores a ação típica que, por colocar o bem jurídico em risco, estão 
necessariamente a ela vinculados. Para esta teoria, o ato de empunhar a arma de fogo e apontá-la em direção a vítima, 
por exemplo, já representaria, do ponto de vista material, o princípio de execução da ação de matar (exemplo dado por 
L.R. Prado). 
 
Teoria subjetiva-limitada (objetiva individualizadora ou do plano do autor): Para esta teoria, o 
juízo sobre o inicio de execução deve ser feito tendo por base o plano individual do autor, o que este, dentro de seu 
planejamento, considerou como integrante da ação típica. A tentativa exigiria a combinação de um elemento subjetivo 
(plano do autor), e de um critério objetivo (iniciar atividade que leve diretamente a realização do tipo penal). 
A teoria vem sempre acompanhada da chamada “teoria dos dois atos” (ou teoria do ato 
intermediário). Os atos preparatórios se constituem em atos executivos quando, em função do tempo de sua realização e 
sua estreita vinculação causal, não possam comportar um terceiro intermediário. Exemplo: se o ladrão quebra a fechadura 
e sai do local para regressar mais tarde, o ato de deixar o local constituiria um terceiro ato que romperia a cadeia 
naturalística entre preparação e a execução, descaracterizando a tentativa. 
 
Bom, e qual seria adequada a resolver nosso problema? 
L.R. Prado indica que seria necessário uma conjugação de critérios, tendo como ponto de partida a 
teoria objetivo-formal, por ser a que mais respeita o principio da legalidade. Já L.F. Gomes entende que a teoria que 
melhor explica a idéia de começo de execução do crime seria a objetiva individualizadora porque não descuida da parte 
objetiva (conduta que revele concreto perigo para o bem jurídico pretendido) e ainda exprime com maior precisão o 
momento próximo anterior ao verbo núcleo do tipo penal (Gomes, L.F., Direito Penal – Parte Geral – Teoria 
constitucionalista do delito. 2. ed., RT). 
 
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105 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Zaffaroni, o qual foi seguido por L.F.Gomes, entende que e imprescindível levar em conta o plano 
concreto do autor, mas ensina que a doutrina jurídico-penal ainda não conseguiu resolver o problema definitivamente. 
 
Na verdade, o início de execução de cada crime tem sempre sido analisado no caso concreto, crime 
por crime. É um estudo que faremos na parte especial do Código Penal (crimes em espécie). Por enquanto, apenas 
guarde o seguinte: 
 
 
 
 
 
 
b.3) Consumação: considera-se consumado o crime quando se fazem presentes todos os elementos 
de sua definição legal. (art. 14, I). 
O crime está consumado quando o agente preenche completamente o que está descrito no tipo penal. 
MODELO: “Provocar aborto em si mesma”, art. 124 do CPB. 
CONDUTA: A grávida toma Citotec e ocasiona um aborto. Com a morte do feto o crime está 
TEORIAS SOBRE O INÍCIO 
DA EXECUÇÃO
Teoria objetivo‐formal 
(Beling)
O início da execução se dá com 
o verbo do tipo
Teoria objetivo‐material ou da 
unidade natural (Frank) 
O início da execução se dá com os atos 
imediatamente anteriores à conduta 
descrita no verbo e que colocam o bem em 
perigo.
Teoria subjetiva‐limitada (objetiva 
individualizadora ou do plano do 
autor)
O ínício da execução 
depende do plano do 
autor.
 
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106 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
consumado. 
 
 
39. O EXAURIMENTO DO CRIME 
O exaurimento do crime (que não é fase do iter criminis) ocorre quandoo agente, DEPOIS DE 
CONSUMAR O DELITO, pratica nova conduta, provocando nova agressão ao bem jurídico penalmente tutelado. 
Vamos supor que o sujeito furte um veículo (Art. 155 do CPB). Após o furto, resolve vender o veículo 
furtado. Perceba que a venda do veículo não mais faz parte do crime de furto que já está consumado. Vender o carro 
furtado é um pós-crime. Assim, o exaurimento do crime é um pós-crime. 
O exaurimento (pós-crime) é punível? 
Regra geral, não. No exemplo do furto que acabamos de dar, não existe punição na conduta do ladrão 
que vende o produto do furto. É um pós-crime impunível. 
Excepcionalmente, esse pós-crime pode ser um novo crime. Imagine se o Professor Valente, de fato, 
matar sua sogra. Após, resolve enterrá-la no quintal. Como se percebe, enterrar o defunto não faz parte do homicídio, 
porém a lei previu uma hipótese específica para essa conduta. Veja só: 
 
“Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele”, (Destruição, subtração ou ocultação de 
ITER CRIMINIS
( CO.PRE.EX.CO)
Cogitação Nunca punível
Preparação Em regra, não punível.
Execução
Teoria objetivo‐formal
Teoria objetivo‐
material
teoria do plano do 
autor
Consumação realização completa do tipo penal
 
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107 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
cadáver, art. 211 do CPB.) 
 
No caso, se o autor matar a vítima e, posteriormente, esconder o cadáver, responderá pelos dois 
crimes. 
 
40. TENTATIVA 
Para que exista tentativa, como vimos faz-se necessário que ocorra um início de execução e, para 
que seja punível é preciso que não se produza o resultado por causas independentes da vontade do autor. Então 
poderíamos pensar em crime tentado somente dentro da seguinte fórmula: 
dolo + início de execução + não ocorrência do resultado contra a vontade do autor (art. 14, II, 
CPB). 
 
41. Espécies de tentativa 
a. A tentativa pode ser classificada como: 
Perfeita (tentativa acabada ou crime falho) 
O agente realizado todos os ato de execução, mas não atinge o resultado. Ou seja, o agente fez tudo 
que poderia fazer para consumar o crime, mas o resultado acaba não ocorrendo por circunstâncias alheias a sua vontade. 
Exemplo: o autor ministra veneno suficiente para matar a vítima, mas esta é levada ao hospital e toma 
o antídoto em tempo de ser salva. 
b. Imperfeita (tentativa inacabada) 
O agente é interrompido durante a execução. 
Se o agente desfere dois tiros na vítima, podendo ter efetuado mais disparos, pode ser interrompido 
pela chegada da polícia. 
Neste caso, o autor não fez tudo que poderia fazer para atingir o resultado. 
c. Branca (ou incruenta) 
A vítima não é atingida, saindo ilesa. 
 
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108 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Se o agente efetua o disparo, mas não acerta a vítima, ocorre a tentativa branca. 
 
 
 
 
42. QUAL A PUNIÇÃO DA TENTATIVA? 
Pune-se a tentativa com a pena do crime consumado, reduzida de 1/3 a 2/3, salvo expressa 
disposição em contrario. 
43. CRIMES QUE NÃO ADMITEM TENTATIVA 
 
A doutrina elenca alguns crimes que não admitem tentativa, ou seja, em tais infrações não é possível fracionar o iter 
criminis. 
 
C.C.H.O.U.P 
 
 
C ontravenções ( art. 4º da LCP) 
ESPÉCIES DE TENTATIVA
Tentativa Perfeita
o agente esgota a 
execução, mas não atinge 
o resultado
Tentativa Imperfeita o agente não esgota os meios executórios
Tentativa Branca
A vítima sai ilesa
obs. : o contrário de 
tentativa branca é a 
tentativa vermelha
 
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C ulposos ( Imprudência, imperícia e negligência) 
 
Habituais (Arts. 229, 230, 284 do CPB) 
 
O missivos próprios ( Art. 135 do CPB) 
 
U nisubsistentes 
 
P reterdolosos (dolo+culpa) 
 
 
 
 
Obs1.: Existem os crimes de atentado ou de empreendimento que são aqueles em que a 
tentativa já é punida como se fosse consumado o crime ( art. 352 e 358 do CP). 
Obs.2: O crime de induzimento, instigação e auxílio ao suicídio só é possível na sua 
modalidade consumada, uma vez que, no mínimo devem restar lesões graves (Art. 122 do CPB). 
Obs.3: os tipos unissubsitentes são aqueles em que a realização do ilícito da ação dá-se em 
apenas um ato. Isso torna a impossível a ocorrência de tentativa, vez que não se poderá diferenciar início de 
execução da consumação, como ocorre na injúria verbal e no falso testemunho. Resumindo, o tipo tentado exige 
para sua configuração o fracionamento do iter criminis. 
Obs.4 Os crimes de perigo não admitem tentativa, uma vez que são exemplos de crimes 
unissubsitentes. Aceitar a tentativa dos crimes de perigo, nas palavras de Álvaro Mayrink, seria aceitar a tentativa 
da tentativa, ou seja, o perigo do perigo. 
Da mesma forma, os crimes omissivos próprios são unissubsitentes, não aceitando a 
modalidade tentada, portanto. 
Ao contrário, é factível a configuração da tentativa nos tipos de omissão imprópria, onde a 
presença da conduta diversa da exigida e da esperada configura uma autêntico iter, cuja interrupção pode 
 
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110 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
originar o tipo da tentativa.6 Obviamente, somente o crime omissivo impróprio doloso admite a tentativa, como no 
exemplo do médico que, ao ver um desafeto, nega-se a atendê-lo, para que este morra na sala de espera. Um 
terceiro o socorro a outro hospital e salva a vítima. O início da tentativa dos crimes omissivos impróprios dá-se 
quando da inatividade do garante decorre aumento do risco de perigo concreto diante do bem jurídico. 
Obs. 5: Os crimes preterdolosos não admitem tentativa quanto ao seu resultado agravador, 
porquanto este dá-se com culpa e, conforme vimos, não há possibilidade de conatus nesses casos. Ao contrário, 
quando a circunstância qualificadora é gerada por dolo ( ex. Dolo de lesão e dolo de amputação na lesão corporal 
gravíssima) a tentativa mostra-se teoricamente viável. 
Obs. 6: Crime Habituais são aqueles que exigem a pratica da conduta como um “modo de 
vida”. 
O exemplo seria do dentista prático (aquele que não tem diploma de Curso Superior em 
Odontologia). Para praticar o crime, deve ser demonstrado que ele exerce a profissão como um modo de vida. 
Perceba que não importa que o prático seja eficiente como dentista, pois não tem autorização legal 
para exercer a profissão. 
Exercer, ainda que a título gratuito, a profissão de médico, dentista ou farmacêutico, sem 
autorização legal ou excedendo-lhe os limites (art. 282 do CPB) 
 
                                                            
6 Mayrink da Costa, Álvaro. Direito Penal: volume 1 – parte geral. 8 ed. Corrigida e atualizada. Editora Forense, 1568. 
 
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111 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
44. PUNIBILIDADE DA TENTATIVA 
A questão está diretamente vinculada à configuração do delito impossível. 
a. Teoria objetiva absoluta (Carrara) 
Essa teoria tem como pressuposto a idoneidade da conduta para produzir o perigo. Não faz diferença 
entre idoneidade relativa ou absoluta, ou seja, não admite graus de idoneidade ou inidoneidade. Para a teoria objetiva 
absoluta, caso a conduta seja idônea (relativa ou absolutamente) para realizar o resultado, poderá ocorrer tentativa. Em 
caso de inidoneidade (relativa ou absoluta) a tentativa será impossível. 
b. Teoria objetiva relativa (Feuerbach, Mittermayer,Frank) 
Essa teoria passa a fazer diferença entre meios absolutamente inidôneos – que configuram tentativa 
inidônea) -, e os relativamente inidôneos – que configuram tentativa punível. 
A teoria é desenvolvida por Frank, que desenvolve a teoria da ausência ou do defeito do tipo. Para 
ele, a punição da tentativa só ocorrerá quando, sob uma análise global do delito, subsistirem todos os seus elementos, 
menos seu resultado, ou seja, o tipo objetivo está praticamente completo, com exceção do resultado. Se faltar, além do 
INFRAÇÕES QUE NÃO 
ADMITEM TENTATIVA
C.C.H.O.U.P
Contravenções
Culpososo (salvo culpa 
imprópria)
Habituais
Omissivos Próprios
Preterdolosos
 
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112 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
resultado, qualquer outro elemento do tipo, ocorrerá um defeito na tipicidade que levaria a não punição da tentativa.7 No 
exemplo do estelionato, consistente em obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou 
mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento (art. 171), pode ocorrer de o 
agente manter, efetivamente, alguém em erro mediante estratagema, contudo sem efetivamente conseguir a vantagem 
indevida - caso de tentativa. Contudo, caso a ausência diga respeito ao meio fraudulento, por exemplo, não haverá a 
configuração da tentativa típica. 
c. Teorias Subjetivas 
Tem por base a manifestação de vontade do ante em oposição ao Direito. As teorias subjetivas 
ampliam a punição para os crimes impossíveis, pois tomam como referência o desvalor da ação e desconsidera o 
desvalor do resultado. 
Primeira variante subjetiva: decorrente da jurisprudência do Tribunal do Reich sob influência de Von 
Buri e acolhida por Liszt, considera tentada qualquer manifestação perigosa a bens jurídicos. 
Secunda variante subjetiva: em retorno ao positivismo de Lombroso, a punição da tentativa era vista 
como forma de neutralização de um autor em função de sua personalidade maligna. 
Terceira variante subjetiva (Jakobs): fundamenta a punição da tentativa, vez que esta significa a 
ruptura da norma. Juarez Tavares critica esse posicionamento de Jakobs, alegando que seria impossível medir o efeito 
concreto de uma ruptura normativa. 
Teoria da impressão (Horn-1900 e Von Bar-1907) 
A conduta que se volta ao resultado danoso desencadeia certo abalo no direito, a partir de um juízo 
hipotético realizado por um homem médio. Esse abalo causa alarme social, que justificaria a punição da tentativa. 
 
45. DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ (TENTATIVA 
ABANDONADA OU QUALIFICADA) 
 Desistência voluntária e arrependimento eficaz 
O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado 
se produza, só responde pelos atos já praticados (art. 15 do CPB) 
No crime tentado, o autor inicia a execução do ato típico, contudo não atinge a consumação por 
circunstâncias alheias à sua vontade. 
                                                            
7 Juarez Tavares‐ Apontamento de aula –UERJ – 2009. 
 
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113 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Pode ocorrer, no caso concreto, de o agente iniciar a execução do crime e não atingir o resultado 
inicialmente pretendido, contudo não por circunstâncias alheias, mas por sua própria vontade. É disso que trata a 
desistência voluntaria e o arrependimento eficaz. O agente inicia a execução do crime, mas abandona tentativa do crime 
que inicialmente pretendeu praticar. 
46. Desistência voluntária 
Se o agente inicia os disparos de arma de fogo, tendo acertado um ou dois tiros, mas não o suficiente 
para matar a vítima. Após, atende aos pedidos da vítima para não ser morta. Ainda tem o autor munição para continuar a 
execução, mas resolve interrompê-la. 
 
Segundo a fórmula de Frank, é voluntário quando não quer, apesar de poder. Não é voluntário 
quando não pode, ainda que deseje. 
 
47. Arrependimento eficaz 
 O agente desiste depois da execução, mas antes da consumação, impede seu resultado. 
Após fazer tudo que era necessário para matar a vítima, o autor resolve socorrê-la ao hospital para 
evitar sua morte. 
Note que em ambos os casos o resultado inicialmente pretendido deve ser evitado, sob pena de não 
beneficiar ao agente. Por exemplo, se o agente, ao disparar atinge a vítima na perna, desistindo de prosseguir nos atos 
executórios porque não quer mais a morte da vítima, tem que contar com o fato de que esta não morrerá, porque se isso 
ocorrer, estará desconfigurada a tentativa abandonada. 
Importante frisar que o motivo que leva o autor a desistir ou se arrepender não precisa ser nobre ou 
altruísta, bastante que não seja alheio à sua vontade. Se, por exemplo, o autor desiste de matar para economizar 
munição, basta que a vítima não morra para caracterizar o instituto ora estudado. Também, não se exige a 
espontaneidade da conduta, mas apenas a voluntariedade.8 Ou seja, pode ser que o agente tenha sido orientado por um 
terceiro a desistir ou se arrepender a tempo de evitar a consumação. Se atender ao terceiro, podemos dizer que não 
houve espontaneidade, mas houve voluntariedade. 
Um ponto importante é que só podemos falar em desistência voluntária e arrependimento eficaz nas 
hipóteses em que seria possível, em tese, a tentativa. Deste modo, não será cabível nos crimes culposos e omissivos 
puros, por exemplo. 
                                                            
8 Mayrink da Costa, Álvaro. Direito Penal: volume 1 – parte geral. 8 ed. Corrigida e atualizada. Editora Forense, 1594. 
 
 
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114 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
48. Consequência Jurídica 
O agente só responde pelos atos já praticados (se forem típicos). É a chamada “ponte de ouro”, 
desaparecendo o crime cuja execução se iniciara. No caso de agente falsificar o documento, entregando à vítima com a 
intenção de praticar estelionato, mas desiste antes de obter a vantagem indevida, responde apenas pela falsificação. 
49. Natureza Jurídica 
Atualmente, a posição vencedora é de que a tentativa abandonada seria causa de exclusão da 
tipicidade. 
Welzel, contudo, ensinava tratar-se de escusa absolutória de caráter pessoal baseada em razões de 
política criminal quem no afirmar de Liszt, teria construído o autor uma ponte de ouro para retirada. 
Outra posição, defendida por Hungria, entendia que se trata de causa de exclusão da punibilidade. 
50. Comunicação aos coautores 
Apesar da discussão doutrinária, o melhor entendimento é que, como a desistência voluntária ou o 
arrependimento eficaz afastam a tipicidade, ela também pode beneficiar o coautor. Preste atenção nas hipóteses: 
DESISTÊNCIA 
VOLUNTÁRIA (DV) 
OU 
ARREPENDIMENTO 
EFICAZ (AE)
DV
O agente paraliza 
voluntariamente a 
execução e evita o 
resultado
AE
O agente termina a 
execução, mas 
impede o resultado
 
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115 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
a. Quem desiste é o partícipe: 
Dagmar empresta uma arma para Ricardão matar Alceu. Após, Dagmar desiste do crime, mas não 
consegue demover Ricardão da ideia de matar. Se o crime ocorrer, Dagmar responde. 
Então, o partícipe depende da desistência do executor. 
b. Quem desiste é o executor 
Neste caso, a desistência beneficia o partícipe, como no exemplo em que Dagmar empresta uma 
arma de fogo para que Ricardão mate Alceu. Ocorre que Alceu, após iniciar a execução, desiste voluntariamente de 
prosseguir na execução,o que evita o resultado. A desistência beneficia Dagmar. 
 
 
51. Arrependimento Posterior: art. 16 do CP. 
O arrependimento posterior é uma estratégia de política criminal que tem por escopo estimular a 
reparação do dano nos delitos praticados sem violência ou grave ameaça à pessoa. 
Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída 
a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a 
dois terços (Art. 16, CPB). 
DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA (DV) OU 
ARREPENDIMENTO EFICAZ (AE)
Só responde pelos atos praticados
gera exclusão da tipicidade do crime 
que queria praticar incialmente
beneficia o coautor ou partícipe se 
quem desiste é o executor
 
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Para que o autor se beneficie da redução de 1/3 a 2/3 permitido pela lei, deve: a) ter praticado um 
crime sem violência ou grave ameaça à pessoa. 
A lei não faz distinção entre crimes dolosos e culposos, sendo a causa cabível a ambos; 
 b) reparar o dano ou restituído a coisa até o recebimento da denúncia; 
 
O limite para a restituição ou reparação do dano até a data do despacho de recebimento da denúncia. 
Caso isso ocorra posteriormente, o autor poderá ser beneficiado pela circunstância genérica de diminuição prevista no art. 
65, III, alínea b, do CPB. 
Trata-se de causa obrigatória de diminuição de pena e não de mera atenuante. Por isso, ela não só 
pode reduzir a pena abaixo do mínimo legal, como ainda pode influir no cálculo da prescrição. 
 
 
 
52. Crime impossível (tentativa inidônea, quase-crime ou tentativa inadequada) 
Costumo brincar com os alunos que o crime impossível é um “crime gay”. 
ARREPENDIMENTO POSTERIOR
Só ocorre posteriormente à 
consumação
Gera a redução de 1/3 a 2/3
o limite é o RECEBIMENTO da denúncia 
ou queixa
 
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Como assim? Poxa, é muito gay o exemplo da doutrina em que o sujeito quer matar outro com uma 
pistola de água. Ou sufocar o inimigo com purpurina. 
O crime impossível é isso. Matar o morto, causar aborto em mulher que não está grávida, matar com 
pistola de água. São hipóteses em que o resultado nunca ocorrerá. É impossível de matar um morto, não é mesmo? 
No crime impossível, causa de exclusão da tipicidade, ação do autor voltada à consumação de um 
tipo penal não poderá, de forma alguma, alcançar o resultado. Isso pode ocorrer por dois motivos. 
 No primeiro, o objeto é absolutamente impróprio. 
O que é o objeto do crime? É a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta. Por exemplo, a pessoa 
é objeto do homicídio, o dinheiro é objeto do furto, o cheque é objeto da falsificação, e por aí vai. 
É absolutamente impossível afogar um peixe (hehe). 
No segundo, o meio (instrumento utilizado para o crime) é absolutamente ineficaz. 
Exemplo: Afogar alguém com um conta-gotas. 
Seria exemplo de crime impossível as hipóteses de flagrante preparado, conforme súmula 145 do 
STF, in verbis: 
Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua 
consumação. 
 
Imagina que você suspeite que sua empregada doméstica esteja lhe furtando. Para surpreendê-la em 
flagrante, você coloca R$ 50,00 em cima da mesa dando sopa e se esconde atrás da porta. Quando a empregada pega o 
dinheiro, você pula de trás da porta e grita: “ahaaaa, te peguei!” 
É impossível para ela consumir o crime, pois você criou toda uma cena apenas para surpreendê-la em 
flagrante. 
53. Inidoneidade de meio e objeto 
A idoneidade ou não do meio executório deve ser analisada sempre no caso concreto porque uma 
causa, aparentemente, inidônea pode apresentar-se idônea em uma determinada situação. Imagine que o autor queira 
matar uma pessoa com um copo de açúcar. Isso pode ser absolutamente ineficaz para uma pessoa com níveis normais 
de glicose no sangue, ou ser um verdadeiro veneno para o diabético. Os meios são absolutamente inidôneos, quando por 
leis da natureza são incapazes de causar qualquer dano ou perigo de dano no caso concreto. 
Deste modo, disparar uma metralhadora contra um veículo blindado ou contra uma vítima com colete 
 
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a prova de disparo de arma de fogo, constituiria meio relativamente inidôneo, o que levaria a responsabilização na 
modalidade tentada.9 
54. Teoria adotada quanto ao crime impossível 
O nosso código penal (art. 17), quanto ao crime impossível, adotou a teoria objetiva temperada ou 
modificada, que considera crime impossível somente quando houver absoluta impropriedade do objeto e ineficácia do 
objeto. 
 
 
 
 
 
 
                                                            
9 Mayrink da Costa, Álvaro. Direito Penal: volume 1 – parte geral. 8 ed. Corrigida e atualizada. Editora Forense, 1591. 
 
CRIME IMPOSSÍVEL
Inidoneidade absoluta do objeto
Inidoneidade  absoluta do meio
É fato gerador de tipicidade
Teoria Absoluta Temperada
 
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QUESTÕES 
 
1. CESPE_Procurador 3ª Categoria_PGE_CE_2004) 
Para resolver o problema da relação de causalidade, o Código Penal adotou a teoria da tipicidade condicional, ou 
seja, existe nexo causal, em direito penal, quando, entre determinada conduta típica — correspondente à descrita 
por uma norma penal — e determinado evento, que consiste em particular modificação do mundo exterior — 
também descrita na dita norma —, existe relação com os característicos de sucessão, necessidade e 
uniformidade. 
 
COMENTÁRIO: Para resolver o problema da causalidade, o Código Penal adotou a teoria da 
Equivalência dos antecedentes causais, conforme descrito no art. 13: “ O resultado, de que depende a existência do 
crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não 
teria ocorrido.” 
GABARITO: ERRADO 
 
 
2 .(CESPE_Procurador_RR_2004) No que se refere à teoria da conditio sine qua non, julgue os itens 
subseqüentes. 
Causa é toda circunstância anterior sem a qual o resultado ilícito não teria ocorrido. 
COMENTÁRIO: É a teoria acolhida neste art. 13, também chamada de conditio sine qua non (o mesmo que equivalência 
dos antecedentes causais), segundo o qual tudo o que contribuiu para o resultado é causa, não se distinguido entre 
causa, condição e concausa.. 
GABARITO: CORRETO 
 
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3. (ACAFE_DELEGADO DE POLÍCIA SUBSTITUTO_SC_2008 -ADAPTADA) Julgue o item. 
Alpha”, com intenção de matar, põe veneno na comida de “Beta”, seu desafeto. Este, quando já está tomando a 
refeição envenenada, vem a falecer exclusivamente em conseqüência de um desabamento do teto. No exemplo 
dado, é correto afirmar que “Alpha” responderá tão-somente por tentativa de homicídio, porquanto o 
desabamento do teto é causa superveniente absolutamente independente da conduta de “Alpha”, que exclui o 
nexo causal entre esta e o resultado “morte”. 
 
COMENTÁRIO: O desabamento do teto não tem qualquer relação com a conduta de colocar veneno na comida. Por isso, 
podemos dizer que é causa superveniente (posterior) absolutamente independente da conduta inicial. 
GABARITO: CORRETO 
 
4.( CESPE - 2009 - DPE- ES ) 
Com relação a direito penal, julgue os seguintes itens. 
Considere a seguinte situação hipotética. Alberto, pretendendo matar Bruno, desferiu contra este um disparo de 
arma de fogo, atingindo-o em região letal. Bruno foi imediatamente socorrido e levado ao hospital. No segundo 
dia de internação, Bruno morreu queimado em decorrência de um incêndio que assolou o nosocômio. Nessa 
situação, ocorreu uma causa relativamente independente, de forma que Alberto deve responder somente pelos 
atos praticados antes do desastre ocorrido, ou seja, lesão corporal. 
COMENTÁRIO: Há tentativa de homicídio, uma vez que a causa posterior (incêndio) rompeu o nexo causal inicial, 
preservando, contudo, o dolo homicida do agente. 
GABARITO: ERRADO 
 
5. CESPE_JUIZ_TJ_AC_2007) Roberto, com intenção de matar Marcelo, acelerou seu veículo automotor em 
direção à vítima, que, em conseqüência, sofreu traumatismo craniencefálico. Internado em hospital particular, 
Marcelo, no decurso do tratamento, veio a falecer em virtude de uma broncopneumonia que contraiu nesse 
período. Com referência a essa situação hipotética, julgue os itens considerando a opção que apresenta, 
respectivamente, a natureza da causa superveniente da morte de Marcelo e o tipo de homicídio doloso pelo qual 
Roberto deverá responder. 
a. relativamente independente – consumado 
b. relativamente independente – tentado 
 
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c. absolutamente independente – consumado 
d. absolutamente independente – tentado 
 
COMENTÁRIO: A pneumonia adquirida pela vítima é desdobramento possível dos ferimentos causados. Leia-se, é causa 
relativamente independente, mas que se soma à causa inicial. Como houve dolo de matar, o crime é de homicídio 
consumado. 
GABARITO: A 
 
6. (CESPE_Procurador_RR_2004)Considere a seguinte situação hipotética. Um indivíduo mortalmente ferido por 
outro foi colocado em uma ambulância, que, no trajeto para o hospital, colidiu com um poste, oportunidade em 
que a vítima morreu em razão dos novos ferimentos. Nessa situação, por se tratar de hipótese de causa 
relativamente independente, o autor responderá pela tentativa de homicídio. 
 
COMENTÁRIO: É o exemplo clássico. 
GABARITO: C 
 
7. (JUIZ-TO CESPE 2007-adaptada) Geraldo, na festa de comemoração de recém-ingressos na Faculdade de 
Direito da Universidade Federal do Tocantins, foi jogado, por membros da Comissão de Formatura, na piscina do 
clube em que ocorria a festa, junto com vários outros calouros. No entanto, como havia ingerido substâncias 
psicotrópicas, Geraldo se afogou e faleceu. 
Considerando a situação hipotética acima e com base no direito penal e processual penal, julgue os itens 
1. À luz da teoria da imputação objetiva, a ingestão de substâncias psicotrópicas caracteriza uma autocolocação em risco, 
circunstância excludente da responsabilidade criminal, por ausência do nexo causal. 
2.Nesse caso, é necessária a demonstração da criação pelos agentes de uma situação de risco não permitido, segundo a 
teoria da imputação objetiva, fato que não ocorreu na situação hipotética mencionada, visto que é inviável exigir-se de 
uma comissão de formatura rigor na fiscalização das substâncias ingeridas pelos participantes da festa. 
3.De acordo com a teoria da imputação objetiva, vigora o princípio da confiança, o que não ocorreu no caso em apreço, 
pois a vítima se afogou em virtude de ter ingerido substâncias psicotrópicas, comportando-se, assim, de forma contrária 
aos padrões esperados e, desse modo, afastando a responsabilidade dos membros da comissão de formatura. 
 
 
 
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COMENTÁRIO: A teoria da Imputação Objetiva considera que o resultado só poderá ser atribuído ao agente, caso ele 
tenha criado um “risco proibido”. No caso apresentado, o risco foi criado pela própria vítima e não pelos autores 
(autocoloação em risco). O princípio da confiança dispõe que, como vivemos em sociedade, devemos confiar uns nos 
outros. Quando passo em um cruzamento com o sinal verde, confio que os outros motoristas vão parar ao sinal vermelho. 
Não há que invocar o Princípio da Confiança no presente caso, uma vez que a vítima, por sua própria imprudência, 
causou sua morte. 
GABARITO: As três assertivas estão corretas. 
8. (Juiz Federal/TRF 5/CESPE 2007) 
Considere a seguinte situação hipotética. 
Fábio, vendo um carro em alta velocidade vindo em direção a Carlos, empurrou este, para evitar o atropelamento. 
Em virtude da queda sofrida em decorrência do empurrão, Carlos sofreu lesões corporais, ficando com a perna 
quebrada. Nessa situação, a conduta de Fábio é atípica, pois destinada a reduzir a probabilidade de uma lesão 
maior, consistindo, assim, em uma ação dirigida à diminuição do risco. 
COMENTÁRIO: Como vimos, na Teoria da Imputação Objetiva, o agente deve criar um risco proibido. No caso, o agente, 
ao contrário, diminuiu o risco da vítima, o que para a mencionada teoria afasta no nexo causal. 
GABARITO: CORRETO 
9. (JUIZ SC 2007) Narra a denúncia que, em festa de comissão de formatura, a vítima foi jogada dentro da piscina 
por seus colegas, assim como tantos outros que estavam presentes, ocasionando seu óbito, por afogamento, em 
virtude da ingestão de substâncias psicotrópicas. Os membros da comissão de formatura foram denunciados 
pela suposta prática do crime de homicídio culposo, apesar de nenhum deles ter sido apontado como sendo a 
pessoa que jogou a vítima na piscina (HC nº 46525/MT, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, j. 21.03.2006). Segundo 
entendimento do Superior Tribunal de Justiça, a respeito da relação de causalidade, é correto afirmar: 
I. Há nexo de causalidade na ação de cada membro da comissão de formatura e o resultado morte produzido. 
II. A vítima afogou-se em virtude de ingestão de substâncias psicotrópicas, o que caracteriza uma autocolocação 
em risco, excludente da responsabilidade criminal, pois ausente o nexo causal. 
III. Aplica-se ao caso a teoria da imputação objetiva, porque não demonstrada na denúncia a criação, pelos 
membros da comissão de formatura, de uma situação de risco não permitido. 
IV. A conduta dos membros da comissão de formatura, do modo como foi narrada na denúncia, é atípica. 
V. O fato narrado na denúncia é típico, antijurídico e culpável. 
Está (ão) correta (s): 
 
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123 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
a) As proposições II, III e IV estão corretas. 
b) As proposições I e V estão corretas. 
c) Somente a proposição II está correta. 
d) Somente a proposição III está incorreta. 
e) Somente a proposição I está correta. 
COMENTÁRIO: Viu como as questões se repetem? 
GABARITO: A 
 
10.( CESPE - 2010 - MPE-SE - Promotor de Justiça ) 
Valter, ocupante de cargo cujas atribuições incluem fornecer declaração de nascimento, não forneceu esse 
documento a Gabriela, quando ela recebeu alta médica, após dar à luz seu filho. 
 
Nessa situação hipotética, a conduta de Valter 
a) é atípica. 
b) constitui crime preceituado no ECA, que pode ser punido a título de dolo ou culpa. 
c) constitui crime preceituado no ECA, punido apenas na modalidade dolosa. 
d) constituirá crime se ele puder ser considerado funcionário público, para fins penais. 
e) constitui crime de prevaricação, previsto no CP. 
 
COMENTÁRIO: Trata-se de um crime omissivo próprio, previsto no art. 229 da Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do 
Adolescente) 
“Deixar o médico, enfermeiro ou dirigente de estabelecimento de atenção à saúde degestante 
de identificar corretamente o neonato e a parturiente, por ocasião do parto, bem como deixar de proceder aos 
exames referidos no art. 10 desta Lei: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
Parágrafo único. Se o crime é culposo: 
Pena - detenção de dois a seis meses, ou multa.” 
 
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124 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
GABARITO: B 
 
11. ( CESPE - 2007 - TSE - Analista Judiciário - Área Administrativa - TRE ) 
A respeito das teorias formuladas em torno da tipicidade penal, assinale a opção correta. 
a) A palavra tipo, uma tradução do vocábulo alemão tatbestand, enfatiza a natureza predominantemente aberta da 
descrição das condutas humanas penalmente relevantes. 
b) Para a configuração da tipicidade da conduta, exige-se apenas a tipicidade formal, sendo desnecessária a presença da 
tipicidade material. 
c) Atualmente o tipo possui caráter puramente descritivo e indiciário da ilicitude. 
d) A tipicidade conglobante surge quando comprovado, no caso concreto, que a conduta praticada pelo agente é 
antinormativa, ou seja, contrária à ordem jurídica, bem como quando é ofensiva a bens jurídicos relevantes para o direito 
penal. 
COMENTÁRIO: A tipicidade, conglobantemente considerada, deve passar pelos aspectos formal, material e pela 
antinormatividade. 
GABARITO: D 
 
12. ( CESPE - 2009 - DPE - ES - Defensor Público ) 
Em relação aos institutos de direito penal, julgue os itens a seguir. 
Seria desproporcional eventual condenação criminal, com a consequente imposição de pena privativa de 
liberdade, de agente que tentasse furtar de um supermercado duas latas de azeite, 6,5 kg de carne bovina e 1,6 kg 
de bacalhau, pois a ofensividade de sua conduta é mínima e não há nenhuma periculosidade social na ação por 
ele cometida, além de a reprovabilidade do seu comportamento ser de grau reduzidíssimo e a lesão ao bem 
jurídico, inexpressiva, segundo o STJ. 
COMENTÁRIO: Como vimos, o princípio da insignificância exige que uma conduta só merece atenção do Direito Penal se 
for materialmente atingido o bem jurídico protegido. 
A questão cobra, justamente, o conhecimento de decisão do STJ, senão vejamos: 
PENAL. HABEAS CORPUS. TENTATIVA DE FURTO. PRINCÍPIO DA 
INSIGNIFICÂNCIA. INCIDÊNCIA. AUSÊNCIA DE TIPICIDADE MATERIAL. TEORIA CONSTITUCIONALISTA DO 
DELITO. INEXPRESSIVA LESÃO AO BEM JURÍDICO 
TUTELADO. FALSA IDENTIDADE. ART. 307 DO CÓDIGO PENAL. 
 
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125 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
ATIPICIDADE DA CONDUTA. ORDEM CONCEDIDA. 
1. O princípio da insignificância surge como instrumento de 
interpretação restritiva do tipo penal que, de acordo com a 
dogmática moderna, não deve ser considerado apenas em seu aspecto 
formal, de subsunção do fato à norma, mas, primordialmente, em seu 
conteúdo material, de cunho valorativo, no sentido da sua efetiva 
lesividade ao bem jurídico tutelado pela norma penal, consagrando os 
postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima. 
2. Indiscutível a sua relevância, na medida em que exclui da 
incidência da norma penal aquelas condutas cujo desvalor da ação 
e/ou do resultado (dependendo do tipo de injusto a ser considerado) 
impliquem uma ínfima afetação ao bem jurídico. 
3. A tentativa de furto de 2 latas de azeite, 2 cuecas, 2 barras de 
chocolate, 1 par de sandálias de tiras, avaliados em R$ 52,00, além 
de 6,5 kg de carne bovina e 1,6 kg de bacalhau, embora se amolde à 
definição jurídica do crime de furto tentado, não ultrapassa o exame 
da tipicidade material, mostrando-se desproporcional a imposição de 
pena privativa de liberdade, uma vez que a ofensividade da conduta 
se mostrou mínima; não houve nenhuma periculosidade social da ação; a reprovabilidade do comportamento foi 
de grau reduzidíssimo e a lesão ao bem jurídico se revelou inexpressiva. 
4. A conduta do acusado que apresenta declarações falsas no momento da prisão em flagrante não se subsume 
no tipo previsto no art. 307 do Código Penal, pois tal atitude tem natureza de autodefesa, garantida pelo art. 5º, 
inciso LXIII, da Constituição Federal. 
Precedente do STJ. 
GABARITO: CORRETO 
 
13. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal) 
Em cada um dos itens seguintes, é apresentada uma situação 
hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada. 
Marcelo, com intenção de matar, efetuou três tiros em direção a Rogério. No entanto, acertou apenas um deles. 
Logo em seguida, um policial que passava pelo local levou Rogério ao hospital, salvando-o da morte. Nessa 
situação, o crime praticado por Marcelo foi tentado, sendo correto afirmar que houve adequação típica mediata. 
 
COMENTÁRIO: Correto, trata-se de tentativa de homicídio. A adequação típica da tentativa é dita mediata ou indireta, 
pois exige para a perfeita tipicidade a utilização do tipo de extensão do art. 14, II do CPB. 
GABARITO: CORRETO 
 
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126 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
14. ( CESPE - 2008 - STF ) 
Com base na parte geral do direito penal, julgue os itens abaixo. 
Ocorre tentativa incruenta quando o agente dispara seis tiros em direção à vítima sem, no entanto, causar 
qualquer lesão na vítima ou em qualquer outra pessoa, por erro na execução. 
COMENTÁRIO: A tentativa branca ou incruenta é aquela em o autor não consegue lesionar a vítima. 
GABARITO: CORRETO 
 
15. ( MPE-MG - 2010 - MPE-MG - Promotor de Justiça; ) 
Não admitem a tentativa, EXCETO 
a) os crimes omissivos impróprios. 
b) os crimes culposos próprios. 
c) as contravenções penais. 
d) os crimes preterdolosos. 
e) os crimes unissubsistentes. 
COMENTÁRIO: Lembra-se do CCHOUP? 
GABARITO: A 
 
 
16. ( CESPE - 2007 - TSE - Analista Judiciário) 
Em relação aos pressupostos teóricos da figura da desistência voluntária, assinale a opção correta. 
a) Para que se possa falar em desistência voluntária, é preciso que o agente já tenha ingressado na fase dos atos de 
execução do delito, pois, caso o agente se encontre praticando atos preparatórios, sua conduta será considerada um 
indiferente penal. 
b) A desistência voluntária, para configurar-se, necessita que o ato criminoso não ocorra em circunstâncias que 
dependam diretamente da vontade do autor do delito. 
c) A concretização da desistência exige tanto a voluntariedade da conduta do agente quanto a espontaneidade do ato. 
 
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127 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
d) Segundo a fórmula de Frank, quando, na análise do fato, se verificar que o agente pode prosseguir mas não quer, o 
caso é de crime tentado e quando o agente quer prosseguir, mas não pode, o caso é de desistência voluntária. 
 
COMENTÁRIO: A desistência voluntária exige início de execução, uma vez que a preparação é impunível, em regra. 
GABARITO: A 
 
17. ( FCC - 2009 - MPE-SE ) 
Pedro efetuou disparo de arma de fogo contra Paulo. Em seguida, arrependido, o levou até um hospital, onde, 
apesar de atendido e medicado, veio a falecer. Nesse caso, houve 
a) arrependimento posterior. 
b) desistência voluntária. 
c) arrependimento eficaz. 
d) crime tentado. 
e) crime consumado. 
COMENTÁRIO: Lembre-se que, tanto na desistência voluntária, como no arrependimento eficaz, caso o agente não 
consiga evitar o resultado, responderá por ele. 
GABARITO: E 
 
18. ( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto) A desistência voluntária e o arrependimento eficaz, espécies de tentativa 
abandonada ou qualificada, não exigem a espontaneidade do agente paraque possam ser reconhecidos, bastando a 
voluntariedade. 
COMENTÁRIO: Ato espontâneo é aquele que nasce da cabeça do agente. Ato voluntário é aquele que depende da 
vontade do agente. Só o segundo são exigíveis para a tentativa abandonada. 
GABARITO: CORRETO 
 
19. ( FGV - 2008 - Senado Federal - Advogado ) Um domingo, ao chegar em casa vindo do jogo de futebol a que 
fora assistir, Tício encontra sua esposa Calpúrnia traindo-o com seu melhor amigo, Mévio. No mesmo instante, 
Tício saca sua arma e dispara um tiro na cabeça de Calpúrnia e outro na cabeça de Mévio. Embora pudesse fazer 
outros disparos, Tício guarda a arma. Ato contínuo, apercebendo-se da besteira que fizera, coloca os amantes em 
seu carro e parte em disparada para um hospital. O trabalho dos médicos é extremamente bem sucedido, 
 
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128 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
retirando a bala da cabeça dos amantes sem que ambos tivessem qualquer espécie de seqüela. Aliás, não fosse a 
imediata atuação de Tício, Calpúrnia e Mévio teriam morrido. Com efeito, quinze dias depois, ambos já retornaram 
às suas atividades profissionais habituais. 
 
A partir do texto, assinale a alternativa que indique o crime praticado por Tício. 
a) lesão corporal leve 
b) lesão corporal grave 
c) tentativa de homicídio 
d) Tício não praticou crime 
e) exercício arbitrário das próprias razões 
 
COMENTÁRIO: No caso, ocorreu arrependimento eficaz. A conseqüência desse instituto é que o agente responde 
apenas pelos atos antes praticados, abandonado a tentativa do crime mais grave. Restou, portanto, a lesão corporal leve, 
já que não houve incapacidade para as atividades habituais por mais de trinta dias, conforme art. 129, § 1º, inciso I. 
GABARITO: A 
 
 
20. ( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto 
O arrependimento posterior, causa obrigatória de diminuição de pena, ocorre nos crimes cometidos sem 
violência ou grave ameaça à pessoa, em que o agente, voluntariamente, repara o dano ou restitui a coisa até o 
oferecimento da denúncia ou queixa. 
COMENTÁRIO: É o disposto no art. 16 do CPB: 
Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o 
recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. 
GABARITO: ERRADO 
 
 
 21. ( CESPE - 2007 - DPE - CE - Defensor Público) 
 
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129 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Considerando a parte geral do Código Penal, julgue os seguintes 
itens. 
Considere a seguinte situação hipotética. Flávio, réu primário e com bons antecedentes, furtou o telefone celular 
de Gina. Antes da prolação da sentença, Flávio restituiu a Gina o bem subtraído, por ato voluntário. Nessa 
situação, a pena de Flávio será reduzida de um a dois terços. 
COMENTÁRIO: o Juiz pode considerar o fato na dosimetria da pena, mas não pode reduzir na forma do arrependimento 
posterior, pois extrapolou o limite do art, 16. 
GABARITO: ERRADO 
 
22.( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto) 
Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é 
impossível consumar-se o crime." O excerto transcrito se refere ao crime impossível, causa de isenção de pena. 
 
COMENTÁRIO: Trata-se de crime impossível, causa de exclusão de tipicidade. 
GABARITO: ERRADO 
 
23. ( FCC - 2006 - DPE - SP - Defensor Público ) 
No caso de crime impossível é correto afirmar: 
a) Se os meios empregados são ineficazes para alcançar o resultado, mesmo que o agente acredite que são eficazes e 
aja para evitar o resultado, haverá crime impossível e não arrependimento eficaz. 
COMENTÁRIO: Não importa se o agente acredita que pode matar alguém com pistola de água, o que importa é que 
objetivamente ele não pode. 
b) Se houver absoluta ineficácia do meio a tentativa é atípica, mas punível. 
COMENTÁRIO: SEM COMENTÁRIOS 
c) A ausência da menção da inidoneidade no art. 17 do Código Penal, que só trata da ineficácia do meio e da 
impropriedade do objeto, não pode ser resolvida com a analogia in bonam partem. 
COMENTÁRIO: A analogia para beneficiar (bonam partem) é sempre admitida no direito penal. 
d) Nos casos de flagrante preparado, porque o bem está inteiramente protegido, não se pode dizer que há crime 
impossível. 
 
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130 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
COMENTÁRIO: conforme vimos, quando a preparação do flagrante torna impossível a consumação do crime, não há 
tipicidade. 
e) Para sua configuração é necessário tanto que o meio seja absolutamente ineficaz, quanto que o objeto seja 
absolutamente impróprio. 
COMENTÁRIO: Basta uma das hipóteses. Tanto será crime impossível se o meio for absolutamente ineficaz, quanto se o 
objeto for absolutamente impróprio. 
 
24. ( CESPE - 2007 - DPE - CE - Defensor Público ) 
Considerando a parte geral do Código Penal, julgue os seguintes 
itens. 
Segundo entendimento sumulado do STF, não há crime quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a 
sua consumação. 
COMENTÁRIO: É o exato teor da súmula 145 do STF. 
GABARITO: CORRETO 
 
25. ( FGV - 2008 - TJ-MS - Juiz de Direito ) 
Qual das seguintes condutas não constitui crime impossível? 
a) O furto de dinheiro guardado, cujas cédulas haviam sido marcadas para descobrir quem ia tentar a subtração. 
b) A tentativa de homicídio com revólver descarregado. 
c) A apresentação ao banco de cheque para sacar determinado valor, se a vítima já determinara a sustação do 
pagamento do cheque furtado. 
d) Quando o agente pretendia furtar um bem que estava protegido por aparelho de alarme que tornava absolutamente 
ineficaz o meio empregado para a subtração. 
e) Quando o agente deu veneno à vítima, mas a quantidade não foi suficiente para matá-la. 
COMENTÁRIO: O entendimento pacífico na jurisprudência é de que sistemas de alarme não torna a consumação do furto 
impossível. A letra D, todavia, disse expressamente que, no caso concreto, o alarme tornava impossível o crime. Não 
discuta com a questão! Assim, a melhor resposta é a letra E. O fato de o veneno não ser suficiente para matar, torna o 
meio relativamente ( e não absolutamente) ineficaz. 
GABARITO: E 
 
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131 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
26. ( FCC - 2010 - SJCDH-BA ) Se o agente, para a prática de estelionato, utiliza-se de documento falsificado de forma 
grosseira, inidôneo para iludir a vítima, caracteriza-se 
a) crime impossível. 
b) crime provocado. 
c) erro sobre elementos do tipo. 
d) crime putativo. 
e) tentativa de crime. 
COMENTÁRIO: se a falsificação era grosseira (ex.: notas do “Banco Imobiliário”) não há como reconhecer possível a 
prática do delito de moeda falsa, não se afastando, todavia, a possibilidade, em tese, do delito de estelionato (STJ, 
Súmula 73). 
GABARITO: A 
 
 
27. ( FCC - 2011 - TRE-RN - Analista Judiciário ) Quando o agente dá início à execução de um delito e desiste de 
prosseguir em virtude da reação oposta pela vítima, ocorre 
a) arrependimento eficaz. 
b) crime consumado. 
c) fato penalmente irrelevante. 
d) desistência voluntária. 
e) crime tentado. 
COMENTÁRIO: atente-se que o comando afirma que o agente não consuma o crime em virtude da reação da vítima, ou 
seja, por circunstância alheia à sua vontade. Trata-se, portanto, de tentativa. 
GABARITO: E 
 
28. ( CESPE - 2011 - TJ-ES - Analista Judiciário) Na tentativa perfeita,também denominada quase-crime, o agente 
realiza todos os atos executórios, mas não atinge a consumação por circunstâncias alheias à sua vontade. 
COMENTÁRIO: A tentativa perfeita (ou acabada) ocorre quando o agente esgota os atos executórios, mas não atinge o 
resultado por circunstâncias alheias a sua vontade. A tentativa imperfeita (ou quase-crime) ocorre quando o agente é 
interrompido antes de esgotar os meios executórios. O erro da questão está meramente na nomenclatura. 
GABARITO: ERRADO. 
 
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132 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
29. ( VUNESP - 2011 - TJ-SP - Juiz) Antônio, durante a madrugada, subtrai, com o emprego de chave falsa, o automóvel 
de Pedro. Depois de oferecida a denúncia pela prática de crime de furto qualificado, mas antes do seu recebimento, por 
ato voluntário de Antônio, o automóvel furtado é devolvido à vítima. Nesse caso, pode-se afirmar a ocorrência de 
a) arrependimento posterior. 
b) desistência voluntária. 
c) arrependimento eficaz. 
d) circunstância atenuante. 
e) causa de extinção da punibilidade. 
COMENTÁRIO: aplicação do artigo 16 do Código Penal: Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, 
reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena 
será reduzida de um a dois terços. 
GABARITO: A 
 
30. ( CESPE - 2011 - PC-ES - Escrivão de Polícia ) Deve-se reconhecer a atipicidade material da conduta de uso de 
apetrecho de pesca proibido se resta evidente a completa ausência de ofensividade ao bem jurídico tutelado pela norma 
penal, qual seja, a fauna aquática. 
 
COMENTÁRIO: a questão cobra o conhecimento de um julgado específico do STJ: É de se reconhecer a atipicidade 
material da conduta de uso de apetrecho de pesca proibido se resta evidente a completa ausência de ofensividade, ao 
menos em tese, ao bem jurídico tutelado pela norma penal, qual seja, a fauna aquática (STJ, HC 93.859/SP, DJe 
31/08/2009). 
 
GABARITO: CORRETO 
 
 
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133 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
QUESTÕES 
 
1. CESPE_Procurador 3ª Categoria_PGE_CE_2004) 
Para resolver o problema da relação de causalidade, 
o Código Penal adotou a teoria da tipicidade 
condicional, ou seja, existe nexo causal, em direito 
penal, quando, entre determinada conduta típica — 
correspondente à descrita por uma norma penal — 
e determinado evento, que consiste em particular 
modificação do mundo exterior — também descrita 
na dita norma —, existe relação com os 
característicos de sucessão, necessidade e 
uniformidade. 
2 .(CESPE_Procurador_RR_2004) No que se refere à 
teoria da conditio sine qua non, julgue os itens 
subseqüentes. 
Causa é toda circunstância anterior sem a qual o 
resultado ilícito não teria ocorrido. 
3. (ACAFE_DELEGADO DE POLÍCIA 
SUBSTITUTO_SC_2008 -ADAPTADA) Julgue o item. 
Alpha”, com intenção de matar, põe veneno na 
comida de “Beta”, seu desafeto. Este, quando já 
está tomando a refeição envenenada, vem a falecer 
exclusivamente em conseqüência de um 
desabamento do teto. No exemplo dado, é correto 
afirmar que “Alpha” responderá tão-somente por 
tentativa de homicídio, porquanto o desabamento 
do teto é causa superveniente absolutamente 
independente da conduta de “Alpha”, que exclui o 
nexo causal entre esta e o resultado “morte”. 
4.( CESPE - 2009 - DPE - ES ) 
Com relação a direito penal, julgue os seguintes 
itens. 
Considere a seguinte situação hipotética. Alberto, 
pretendendo matar Bruno, desferiu contra este um 
disparo de arma de fogo, atingindo-o em região 
letal. Bruno foi imediatamente socorrido e levado ao 
hospital. No segundo dia de internação, Bruno 
morreu queimado em decorrência de um incêndio 
que assolou o nosocômio. Nessa situação, ocorreu 
uma causa relativamente independente, de forma 
que Alberto deve responder somente pelos atos 
praticados antes do desastre ocorrido, ou seja, 
lesão corporal. 
5. CESPE_JUIZ_TJ_AC_2007) Roberto, com 
intenção de matar Marcelo, acelerou seu veículo 
automotor em direção à vítima, que, em 
conseqüência, sofreu traumatismo craniencefálico. 
Internado em hospital particular, Marcelo, no 
decurso do tratamento, veio a falecer em virtude de 
uma broncopneumonia que contraiu nesse período. 
Com referência a essa situação hipotética, julgue os 
itens considerando a opção que apresenta, 
respectivamente, a natureza da causa superveniente 
da morte de Marcelo e o tipo de homicídio doloso 
pelo qual Roberto deverá responder. 
a. relativamente independente – consumado 
b. relativamente independente – tentado 
c. absolutamente independente – consumado 
d. absolutamente independente – tentado 
6. (CESPE_Procurador_RR_2004)Considere a 
seguinte situação hipotética. Um indivíduo 
mortalmente ferido por outro foi colocado em uma 
ambulância, que, no trajeto para o hospital, colidiu 
com um poste, oportunidade em que a vítima 
morreu em razão dos novos ferimentos. Nessa 
situação, por se tratar de hipótese de causa 
relativamente independente, o autor responderá 
pela tentativa de homicídio. 
7. (JUIZ-TO CESPE 2007-adaptada) Geraldo, na festa 
de comemoração de recém-ingressos na Faculdade 
de Direito da Universidade Federal do Tocantins, foi 
 
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134 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
jogado, por membros da Comissão de Formatura, 
na piscina do clube em que ocorria a festa, junto 
com vários outros calouros. No entanto, como havia 
ingerido substâncias psicotrópicas, Geraldo se 
afogou e faleceu. 
Considerando a situação hipotética acima e com base 
no direito penal e processual penal, julgue os itens 
1. À luz da teoria da imputação objetiva, a ingestão de 
substâncias psicotrópicas caracteriza uma 
autocolocação em risco, circunstância excludente da 
responsabilidade criminal, por ausência do nexo causal. 
2.Nesse caso, é necessária a demonstração da criação 
pelos agentes de uma situação de risco não permitido, 
segundo a teoria da imputação objetiva, fato que não 
ocorreu na situação hipotética mencionada, visto que é 
inviável exigir-se de uma comissão de formatura rigor 
na fiscalização das substâncias ingeridas pelos 
participantes da festa. 
3.De acordo com a teoria da imputação objetiva, vigora 
o princípio da confiança, o que não ocorreu no caso em 
apreço, pois a vítima se afogou em virtude de ter 
ingerido substâncias psicotrópicas, comportando-se, 
assim, de forma contrária aos padrões esperados e, 
desse modo, afastando a responsabilidade dos 
membros da comissão de formatura. 
8. (Juiz Federal/TRF 5/CESPE 2007) 
Considere a seguinte situação hipotética. 
Fábio, vendo um carro em alta velocidade vindo em 
direção a Carlos, empurrou este, para evitar o 
atropelamento. Em virtude da queda sofrida em 
decorrência do empurrão, Carlos sofreu lesões 
corporais, ficando com a perna quebrada. Nessa 
situação, a conduta de Fábio é atípica, pois 
destinada a reduzir a probabilidade de uma lesão 
maior, consistindo, assim, em uma ação dirigida à 
diminuição do risco. 
9. (JUIZ SC 2007) Narra a denúncia que, em festa de 
comissão de formatura, a vítima foi jogada dentro 
da piscina por seus colegas, assim como tantos 
outros que estavam presentes, ocasionando seu 
óbito, por afogamento, em virtude da ingestão de 
substâncias psicotrópicas. Os membros da 
comissão de formatura foram denunciados pela 
suposta prática do crime de homicídio culposo, 
apesar de nenhum deles ter sido apontado como 
sendo a pessoa que jogou a vítima na piscina (HC 
nº 46525/MT, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima,j. 
21.03.2006). Segundo entendimento do Superior 
Tribunal de Justiça, a respeito da relação de 
causalidade, é correto afirmar: 
I. Há nexo de causalidade na ação de cada membro 
da comissão de formatura e o resultado morte 
produzido. 
II. A vítima afogou-se em virtude de ingestão de 
substâncias psicotrópicas, o que caracteriza uma 
autocolocação em risco, excludente da 
responsabilidade criminal, pois ausente o nexo 
causal. 
III. Aplica-se ao caso a teoria da imputação objetiva, 
porque não demonstrada na denúncia a criação, 
pelos membros da comissão de formatura, de uma 
situação de risco não permitido. 
IV. A conduta dos membros da comissão de 
formatura, do modo como foi narrada na denúncia, 
é atípica. 
V. O fato narrado na denúncia é típico, antijurídico 
e culpável. 
Está (ão) correta (s): 
a) As proposições II, III e IV estão corretas. 
b) As proposições I e V estão corretas. 
c) Somente a proposição II está correta. 
d) Somente a proposição III está incorreta. 
e) Somente a proposição I está correta. 
 
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135 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
10.( CESPE - 2010 - MPE-SE - Promotor de Justiça ) 
Valter, ocupante de cargo cujas atribuições incluem 
fornecer declaração de nascimento, não forneceu 
esse documento a Gabriela, quando ela recebeu alta 
médica, após dar à luz seu filho. 
 
Nessa situação hipotética, a conduta de Valter 
a) é atípica. 
b) constitui crime preceituado no ECA, que pode ser 
punido a título de dolo ou culpa. 
c) constitui crime preceituado no ECA, punido apenas 
na modalidade dolosa. 
d) constituirá crime se ele puder ser considerado 
funcionário público, para fins penais. 
e) constitui crime de prevaricação, previsto no CP. 
11. ( CESPE - 2007 - TSE - Analista Judiciário - Área 
Administrativa - TRE ) 
A respeito das teorias formuladas em torno da 
tipicidade penal, assinale a opção correta. 
a) A palavra tipo, uma tradução do vocábulo 
alemão tatbestand, enfatiza a natureza 
predominantemente aberta da descrição das condutas 
humanas penalmente relevantes. 
b) Para a configuração da tipicidade da conduta, exige-
se apenas a tipicidade formal, sendo desnecessária a 
presença da tipicidade material. 
c) Atualmente o tipo possui caráter puramente 
descritivo e indiciário da ilicitude. 
d) A tipicidade conglobante surge quando comprovado, 
no caso concreto, que a conduta praticada pelo agente 
é antinormativa, ou seja, contrária à ordem jurídica, bem 
como quando é ofensiva a bens jurídicos relevantes 
para o direito penal. 
12. ( CESPE - 2009 - DPE - ES - Defensor Público ) 
Em relação aos institutos de direito penal, julgue os 
itens a seguir. 
Seria desproporcional eventual condenação 
criminal, com a consequente imposição de pena 
privativa de liberdade, de agente que tentasse furtar 
de um supermercado duas latas de azeite, 6,5 kg de 
carne bovina e 1,6 kg de bacalhau, pois a 
ofensividade de sua conduta é mínima e não há 
nenhuma periculosidade social na ação por ele 
cometida, além de a reprovabilidade do seu 
comportamento ser de grau reduzidíssimo e a lesão 
ao bem jurídico, inexpressiva, segundo o STJ. 
13. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal) 
Em cada um dos itens seguintes, é apresentada 
uma situação 
hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada. 
Marcelo, com intenção de matar, efetuou três tiros 
em direção a Rogério. No entanto, acertou apenas 
um deles. Logo em seguida, um policial que 
passava pelo local levou Rogério ao hospital, 
salvando-o da morte. Nessa situação, o crime 
praticado por Marcelo foi tentado, sendo correto 
afirmar que houve adequação típica mediata. 
14. ( CESPE - 2008 - STF ) 
Com base na parte geral do direito penal, julgue os 
itens abaixo. 
Ocorre tentativa incruenta quando o agente dispara 
seis tiros em direção à vítima sem, no entanto, 
causar qualquer lesão na vítima ou em qualquer 
outra pessoa, por erro na execução. 
15. ( MPE-MG - 2010 - MPE-MG - Promotor de 
Justiça; ) 
Não admitem a tentativa, EXCETO 
a) os crimes omissivos impróprios. 
 
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136 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
b) os crimes culposos próprios. 
c) as contravenções penais. 
d) os crimes preterdolosos. 
e) os crimes unissubsistentes. 
16. ( CESPE - 2007 - TSE - Analista Judiciário) 
Em relação aos pressupostos teóricos da figura da 
desistência voluntária, assinale a opção correta. 
a) Para que se possa falar em desistência voluntária, é 
preciso que o agente já tenha ingressado na fase dos 
atos de execução do delito, pois, caso o agente se 
encontre praticando atos preparatórios, sua conduta 
será considerada um indiferente penal. 
b) A desistência voluntária, para configurar-se, 
necessita que o ato criminoso não ocorra em 
circunstâncias que dependam diretamente da vontade 
do autor do delito. 
c) A concretização da desistência exige tanto a 
voluntariedade da conduta do agente quanto a 
espontaneidade do ato. 
d) Segundo a fórmula de Frank, quando, na análise do 
fato, se verificar que o agente pode prosseguir mas não 
quer, o caso é de crime tentado e quando o agente quer 
prosseguir, mas não pode, o caso é de desistência 
voluntária. 
 
17. ( FCC - 2009 - MPE-SE ) 
Pedro efetuou disparo de arma de fogo contra 
Paulo. Em seguida, arrependido, o levou até um 
hospital, onde, apesar de atendido e medicado, veio 
a falecer. Nesse caso, houve 
a) arrependimento posterior. 
b) desistência voluntária. 
c) arrependimento eficaz. 
d) crime tentado. 
e) crime consumado. 
18. ( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto) A 
desistência voluntária e o arrependimento eficaz, 
espécies de tentativa abandonada ou qualificada, não 
exigem a espontaneidade do agente para que possam 
ser reconhecidos, bastando a voluntariedade. 
19. ( FGV - 2008 - Senado Federal - Advogado ) Um 
domingo, ao chegar em casa vindo do jogo de 
futebol a que fora assistir, Tício encontra sua 
esposa Calpúrnia traindo-o com seu melhor amigo, 
Mévio. No mesmo instante, Tício saca sua arma e 
dispara um tiro na cabeça de Calpúrnia e outro na 
cabeça de Mévio. Embora pudesse fazer outros 
disparos, Tício guarda a arma. Ato contínuo, 
apercebendo-se da besteira que fizera, coloca os 
amantes em seu carro e parte em disparada para um 
hospital. O trabalho dos médicos é extremamente 
bem sucedido, retirando a bala da cabeça dos 
amantes sem que ambos tivessem qualquer espécie 
de seqüela. Aliás, não fosse a imediata atuação de 
Tício, Calpúrnia e Mévio teriam morrido. Com efeito, 
quinze dias depois, ambos já retornaram às suas 
atividades profissionais habituais. 
 
A partir do texto, assinale a alternativa que indique 
o crime praticado por Tício. 
a) lesão corporal leve 
b) lesão corporal grave 
c) tentativa de homicídio 
d) Tício não praticou crime 
e) exercício arbitrário das próprias razões 
20 ( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto 
 
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137 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O arrependimento posterior, causa obrigatória de 
diminuição de pena, ocorre nos crimes cometidos 
sem violência ou grave ameaça à pessoa, em que o 
agente, voluntariamente, repara o dano ou restitui a 
coisa até o oferecimento da denúncia ou queixa. 
 21. ( CESPE - 2007 - DPE - CE - Defensor Público) 
Considerando a parte geral do Código Penal, julgue 
os seguintes 
itens. 
Considere a seguinte situação hipotética. Flávio, réu 
primário e com bons antecedentes, furtou o telefone 
celular de Gina. Antes da prolação da sentença, 
Flávio restituiu a Gina obem subtraído, por ato 
voluntário. Nessa situação, a pena de Flávio será 
reduzida de um a dois terços. 
22.( TJ-SC - 2009 - TJ-SC - Juiz Substituto 
Não se pune a tentativa quando, por ineficácia 
absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do 
objeto, é impossível consumar-se o crime." O 
excerto transcrito se refere ao crime impossível, 
causa de isenção de pena. 
23. ( FCC - 2006 - DPE - SP - Defensor Público ) 
No caso de crime impossível é correto afirmar: 
a) Se os meios empregados são ineficazes para 
alcançar o resultado, mesmo que o agente acredite que 
são eficazes e aja para evitar o resultado, haverá crime 
impossível e não arrependimento eficaz. 
b) Se houver absoluta ineficácia do meio a tentativa é 
atípica, mas punível. 
c) A ausência da menção da inidoneidade no art. 17 do 
Código Penal, que só trata da ineficácia do meio e da 
impropriedade do objeto, não pode ser resolvida com a 
analogia in bonam partem. 
d) Nos casos de flagrante preparado, porque o bem 
está inteiramente protegido, não se pode dizer que há 
crime impossível. 
e) Para sua configuração é necessário tanto que o meio 
seja absolutamente ineficaz, quanto que o objeto seja 
absolutamente impróprio. 
24. ( CESPE - 2007 - DPE - CE - Defensor Público ) 
Considerando a parte geral do Código Penal, julgue os 
seguintes 
itens. 
Segundo entendimento sumulado do STF, não há crime 
quando a preparação do flagrante pela polícia torna 
impossível a sua consumação. 
25. ( FGV - 2008 - TJ-MS - Juiz de Direito ) 
Qual das seguintes condutas não constitui crime 
impossível? 
a) O furto de dinheiro guardado, cujas cédulas haviam 
sido marcadas para descobrir quem ia tentar a 
subtração. 
b) A tentativa de homicídio com revólver descarregado. 
c) A apresentação ao banco de cheque para sacar 
determinado valor, se a vítima já determinara a 
sustação do pagamento do cheque furtado. 
d) Quando o agente pretendia furtar um bem que 
estava protegido por aparelho de alarme que tornava 
absolutamente ineficaz o meio empregado para a 
subtração. 
e) Quando o agente deu veneno à vítima, mas a 
quantidade não foi suficiente para matá-la 
26. ( FCC - 2010 - SJCDH-BA ) Se o agente, para a 
prática de estelionato, utiliza-se de documento 
falsificado de forma grosseira, inidôneo para iludir a 
vítima, caracteriza-se 
a) crime impossível. 
 
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138 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
b) crime provocado. 
c) erro sobre elementos do tipo. 
d) crime putativo. 
e) tentativa de crime. 
27. ( FCC - 2011 - TRE-RN - Analista Judiciário ) 
Quando o agente dá início à execução de um delito e 
desiste de prosseguir em virtude da reação oposta pela 
vítima, ocorre 
a) arrependimento eficaz. 
b) crime consumado. 
c) fato penalmente irrelevante. 
d) desistência voluntária. 
e) crime tentado. 
28. ( CESPE - 2011 - TJ-ES - Analista Judiciário) Na 
tentativa perfeita, também denominada quase-crime, o 
agente realiza todos os atos executórios, mas não 
atinge a consumação por circunstâncias alheias à sua 
vontade. 
29. ( VUNESP - 2011 - TJ-SP - Juiz) Antônio, durante 
a madrugada, subtrai, com o emprego de chave falsa, o 
automóvel de Pedro. Depois de oferecida a denúncia 
pela prática de crime de furto qualificado, mas antes do 
seu recebimento, por ato voluntário de Antônio, o 
automóvel furtado é devolvido à vítima. Nesse caso, 
pode-se afirmar a ocorrência de 
a) arrependimento posterior. 
b) desistência voluntária. 
c) arrependimento eficaz. 
d) circunstância atenuante. 
e) causa de extinção da punibilidade. 
 
30. ( CESPE - 2011 - PC-ES - Escrivão de Polícia ) 
Deve-se reconhecer a atipicidade material da conduta 
de uso de apetrecho de pesca proibido se resta 
evidente a completa ausência de ofensividade ao bem 
jurídico tutelado pela norma penal, qual seja, a fauna 
aquática. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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139 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
GABARITO 
 
1 -E 6-C 11-D 16-A 21-E 
2-C 7-VVV 12-C 17-E 22-E 
3-C 8-C 13-C 18-C 23-A 
4-E 9-A 14-C 19ª 24-C 
5-A 10-B 15-A 20- 25-E 
26-A 27-E 28-E 29-A 30-C 
 
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140 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Amigos, 
Chegamos à terceira aula do nosso curso. Sei que uma característica comum entre meus alunos é a 
heterogeneidade. Claro que posso tornar a aula a mais palatável o possível, mas não posso deixar de utilizar 
determinados termos técnico-jurídicos que são inerentes ao tema. Entendo as dificuldades dos odontólogos, 
químicos, farmacêuticos, médicos etc, os quais levam mais tempo para “digerir” a aula. 
Devagar e sempre! 
Lembre-se: entenda os exemplos. Eles são a alma da nossa aula. 
Nesta aula trataremos do erro de tipo e das excludentes de ilicitude. Como você já deve ter percebido, os 
institutos tratados em aula são agrupados em sequência didática. Tento fugir dos esquemas dos manuais 
tradicionais e busco o fluxo natural da matéria. É por esse motivo que trato do erro de tipo neste momento, logo 
após falar do “tipo penal”. Geralmente, os manuais, em geral, apresentam o “erro de tipo” e o “erro de proibição” 
em um mesmo capítulo. Não quero dizer que é errado, mas não penso ser didaticamente o mais apropriado. 
Portanto, tratarei do “erro de proibição” na culpabilidade, em aula futura. 
Não deixem de participar do nosso curso do FACEBOOK (LÚCIO VALENTE - DIREITO PENAL) 
 
Vamos à aula! 
ERRO DE TIPO (CPB, art. 20) 
 
Um tema assaz importante nas provas de Direito Penal e que causa certa confusão aos candidatos (sem motivo, diga-se) 
trata-se da TEORIA DO ERRO. Isso ocorre, mormente pelo fato de os Manuais de Direito Penal tratarem da matéria na 
sequencia em que o Código Penal a elenca. Como sempre digo, códigos de leis são para organizar normas jurídicas e 
não para ensiná-las. 
 
Legal, vamos ao ERRO DE TIPO. 
 
1. Agora que já aprendemos o significado do termo TIPO PENAL (modelo de conduta proibida), podemos 
compreender que durante o encaixe de uma conduta real ao modelo (tipo) pode ocorrer um erro, um tilt. Ou seja, no 
processo de adequação típica pode ocorrer um defeito na formação mental do dolo na cabeça do agente. 
Preste atenção nesta estória! 
Jorge Rogério foi com amigos para uma festa rave. Ao som de muita música eletrônica e regado a doses de 
álcool, ficou no local até a manhã seguinte. Ao retornar, não mais encontrou seus amigos, motivo pelo qual 
resolveu tomar um táxi. Perto de sua residência há um supermercado com horário de funcionamento de 24 horas. 
Aproveitou para passar neste local e comprar alguns utensílios para sua casa, além de pão e leite. 
 
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141 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Jorge, um pouco atordoado por ter ficado por várias horas em frente a uma caixa de som de 15.000 W de 
potência, saiu do mercado caminhando em direção ao estacionamento. Neste momento, avistou um veículo Lada 
de cor vermelha. Como possui um carro com exatamente as mesas característica, Jorge teve uma confusão 
mental e imaginou ser seu aquele carro estacionado. Ao entrar no veículo, foi surpreendido pelo dono deste, o 
qual estava acompanhado de policiais militares. Jorge foi detido e levado à delegacia. 
Amigos, acreditem ou não! Tal fato ocorreu em um plantão em que trabalhei como delegado de polícia. Quando 
eu ouvi a estória, inicialmente não acreditei. 
Poxa, mas depois que o sujeito me apresentou os documentos de seu carro, vi que, de fato, eletinha um Lada 
vermelho idêntico àquele que estava estacionado. 
Caramba, não seria possível que um indivíduo desejasse possuir DOIS LADAS VERMELHOS! Um só já é castigo o 
suficiente! (hehe) 
Caso você não seja do tempo do veículo LADA, dê uma olhada no Google imagens. O carro era um FIAT 147 
piorado. 
Segundo ficou demonstrado, Jorge acreditou sinceramente que o carro que ele tentou retirar do local era de sua 
propriedade. 
Se analisarmos o tipo (modelo) do furto (art. 155 do CPB) “subtrair coisa alheia”, podemos fazer a seguinte 
indagação: Jorge tinha o dolo de subtrair coisa alheia? Entendemos que não. Isso porque ele se equivocou sobre 
um elemento do tipo de furto, qual seja, coisa alheia. Acreditou ele que o alheio fosse próprio. 
 
Neste exemplo está estampado o erro sobre o elemento do tipo, uma vez que o houve UM ERRO NO PREENCHIMENTO 
DO TIPO. 
(FCC - 2010 - TRE-AL ANALISTA JUDICIÁRIO) A dispara seu revólver e mata B, acreditando tratar-se de um 
animal. A respeito dessa hipótese é correto afirmar que se trata de fato típico, pois o dolo abrangeu todos os 
elementos objetivos do tipo. 
 
Resposta: Errado. 
 
Pergunto: Jorge Rogério tinha dolo de subtrair coisa alheia? 
Penso que não. Na verdade, na cabeça dele o carro não era alheio, o que torna a adequação ao tipo de furto 
equivocada. 
 
 
 
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Observe: 
 
MODELO: SUBTRAIR COISA ALHEIA MÓVEL (furto, art. 155). 
 
ERRO: O AUTOR PENSA QUE O “ALHEIO” É DELE. 
 
 
 
(CARRO ALHEIO) 
 
2. Bom, se não há DOLO de subtrair o “alheio”, qual a consequência do erro de tipo? 
 
O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO. 
O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO. 
O ERRO DE TIPO SEMPRE AFASTA O DOLO. 
 
(POLICIA CIVIL_MG_2007) A finalidade precípua do erro de tipo essencial é a de afastar o dolo da conduta do 
agente. 
Resposta: Certo. 
(CESPE - 2010 - TRE-MT - Analista Judiciário – Adaptada) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de 
crime exclui o dolo e a culpa, podendo o agente, no entanto, responder civilmente pelos danos eventualmente 
ocasionados. 
Resposta: errado. 
 
Meu 
carro!
 
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143 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
O erro de tipo afasta o dolo do autor. Lembre-se, o erro de tipo essencial sempre afasta o dolo, seja o erro evitável 
ou inevitável. 
No erro de tipo, o autor conhece e quer as circunstâncias de ato do tipo legal. Portanto, se o erro incide sobre tais 
circunstâncias haverá a exclusão do dolo. O erro de tipo sempre traduz um defeito de conhecimento e se constitui em 
uma representação ausente e incompleta por parte do sujeito ativo. Em síntese, o erro de tipo representa um 
DEFEITO na formação intelectual do dolo, o que exclui seus elementos. 
 
3. ERRO DE TIPO É UM ERRO SOBRE UM DADO DA REALIDADE!!!! 
 
Sabe aquele dia que parece que tudo parece dar certo pra você? Então, esse era o dia do nosso amigo 
ASTROGILDO. Estava ele em uma casa noturna com amigos, quando percebeu que a mais gata das gatas estava 
“dando mole” pra ele. 
Pô, o ASTROGILDO não é um cara que podemos classificar como “boa pinta”, sabe? Mas, aquele era o seu dia. 
Percebendo o mole que a gata estava dando, ASTROGILDO resolve se aproximar. Claro, porque mulher bonita 
não paquera, é paquerada. ASTROGILDO se apresenta e iniciam, assim, uma conversa. 
Tudo que ASTROGILDO fala, segundo ela, é engraçado, inteligente, espirituoso. 
 Depois de uns drinks, ela diz que está cansada e deseja ir pra casa, mas que já bebeu um pouco e que gostaria 
que ASTROGILDO a levasse para casa. Pede, então, que ele deixe seu carro (um Lada vermelho, hehe) e use a 
Merceds Bens dela. 
Chegam ao apartamento da gata... Música romântica para embalar o namoro... As coisas começam a esquentar... 
As roupas começam a voar... 
Mas, quando ASTROGILDO tira a última peça de roupa da 
gata..................................................................................................................................................................... 
 
 
O ERRO DE TIPO É MUUUUITO GRANDE! (HEHE) 
 
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144 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Na cabeça do ASTROGILDO era uma gata, mas, na REALIDADE, a gata era um leão!! (hehe) 
 
Brincadeiras à parte, essa é a exata ideia do erro de tipo. Na cabeça do agente o fato é “X” (tremenda gata), mas a 
realidade é “Y” (RONALDO!) 
 
Enfim, o erro de tipo é um erro que incide sobre um dado da realidade, da vida real, concreta. Assim, para que um 
erro incidente sobre um dado da realidade seja considerado erro de tipo, é preciso que a situação sobre a qual incidir o 
erro esteja descrita num tipo penal. A denominação “erro de tipo” deve-se ao fato de que o equívoco do agente incide 
sobre um dado da realidade que se encontra descrito em um tipo penal. 
 
( FCC - 2007 - TRE-MS - Analista Judiciário - Área Administrativa) Considere os exemplos abaixo: 
I. Casar-se com pessoa cujo cônjuge foi declarado morto para os efeitos civis, mas estava vivo. 
II. Aplicar no ferimento do filho ácido corrosivo, supondo que está utilizado uma pomada. 
III. Matar pessoa gravemente enferma, a seu pedido, para livrá-la de mal incurável, supondo que a eutanásia é 
permitida. 
IV. Ingerir a gestante substância abortiva, supondo que estava tomando um calmante. 
Há erro de tipo nas situações indicadas APENAS em 
a) I, II e III. 
b) I e III. 
c) I, III e IV. 
d) II e III. 
e) II e IV. 
Resposta: Letra “E”. 
 
4. O erro de tipo é classificado na doutrina como: 
 
a. evitável, indesculpável ou inescusável: (afasta o dolo, mas permite a punição pelo resultado a título de culpa, 
se previsto em lei). 
b. inevitável, desculpável ou escusável: afasta o dolo e a culpa. 
 
 
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145 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
(CESPE_JUIZ SUBSTITUTO_TJ_SE_2008) O erro inescusável sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime 
exclui o dolo e a culpa, se prevista em lei. 
Resposta: errado. 
 
 
Lembre-se do clássico exemplo em que um caçador vai caçar veados na companhia de um amigo dançarino de balé 
clássico. Este último, querendo pregar uma peça no amigo, traveste-se do animal. O caçador, ao ver o amigo saltitante, 
efetua-lhe um disparo mortífero. 
Ao verificar o resultado do disparo, percebe que matou o amigo. O erro incide no elemento “alguém” do tipo “matar 
alguém”. O dolo do caçador foi de matar veado e não uma pessoa.10 
 
Se, diante das circunstâncias, chegássemos à conclusão que o caçador poderia ter sido mais diligente ao efetuar o 
disparo, ou seja, que o erro poderia ter sido evitado, o dolo ficará afastado (pois o erro de tipo sempre afasta o dolo), 
mas responderá pelo resultado a título de culpa. Caso chegássemos à conclusão de que o erro era inevitável, o caçador 
terá o dolo e a culpa afastados. 
 
OUTROS EXEMPLOS 
 
O erro de tipo nos crimes sexuais – Imagine a hipótese do agente que, em uma casa noturna, conheça uma jovem 
que aparente ter mais de 18 anos. Em animada conversa durante a noite, a jovem afirma ter vinte anos e ser 
estudante universitária. Já pela madrugada, o casal dirige-se para um motel, local onde mantém relações 
sexuais. No dia seguinte, o agente é procurado por policiais, os quais lhe imputam o crime de estupro, uma vez 
que a jovem tem apenas 13 anos de idade (estupro de vulneráveis). Podemos falar que o agenteincidiu em erro 
de tipo, uma vez que acreditou manter relações sexuais com uma jovem maior de idade. Não tinha ele o dolo de 
manter relações sexuais com uma jovem menor de 14 anos. Não responderá, portanto, pelo crime de estupro de 
vulnerável (art. 217-A). 
 
Erro de tipo na lei de drogas (L. 11.343/06) – Imagine a hipótese do agente que atende uma solicitação de um 
conhecido para que leve uma quantidade de remédios para um parente adoentado em cidade vizinha. Ao ser 
abordado por policiais durante o trajeto, surpreende-se ao saber que o conteúdo das caixas era de cocaína e não 
de remédios. Hipótese de erro de tipo que afasta o dolo de tráfico. 
 
                                                            
10  Em sala de aula costumo brincar com os alunos: “queria matar o VE, mas acabou matando o VI! 
 
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146 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
 
5. *COMO ASSIM, SE “PREVISTO EM LEI”? 
 
CLARO, PORQUE HÁ CRIMES QUE NÃO ADMITEM A MODALIDADE CULPOSA, COMO O DANO, O FURTO, O 
ROUBO, ABORTO, ENTRE OUTROS. 
( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia - Nacional) O médico Caio, por negligência que consistiu 
em não perguntar ou pesquisar sobre eventual gravidez de paciente nessa condição, receita-lhe um medicamento 
que provocou o aborto. Nessa situação, Caio agiu em erro de tipo vencível, em que se exclui o dolo, ficando 
isento de pena, por não existir aborto culposo. 
Resposta: correto 
 
 
E COMO SEI QUE UM CRIME ADMITE OU NÃO A MODALIDADE CULPOSA? 
O ÚNICO JEITO DE SABER É LENDO A LEI. É ELA QUE VAI DIZER SE O CRIME ADMITE OU NÃO A MODALIDADE 
CULPOSA (PRINCÍPIO DA EXCEPCIONALIDADE DO CRIME CULPOSO). 
PENSE NA SITUAÇÃO EM QUE O AGENTE SAI DE UM RESTAURANTE E LEVA O GUARDA-CHUVA DE UM 
TERCEIRO. NA CABEÇA DELE O OBJETO É SEU (X), MAS NA REALIDADE O OBJETO É DE TERCEIRO (Y). 
OCORRE QUE O GUARDA-CHUVA DO SUJEITO É CINZA, MAS O QUE ELE LEVOU, POR DISTRAÇÃO, ERA 
PRETO. ORA, ESSE ERRO PODERIA SER EVITADO PELO NOSSO AMIGO. RESULTADO: ERRO EVITÁVEL AFASTA 
O DOLO (NÃO RESPONDE POR FURTO). DEVERIA ELE RESPONDER POR CULPA, MAS NÃO EXISTE FURTO 
É UM ERRO SOBRE O FATO REAL, OU SEJA, 
O AGENTE PENSA “X”, MAS A REALIDADE É 
“Y”. 
CONSEQUÊNCIA – O ERRO DE 
TIPO SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE, 
AFASTA O DOLO. 
ERRO DE TIPO EVITÁVEL (OU 
INDESCULPAVEL OU 
INESCUSÁVEL)  ‐ AFASTA DOLO, 
MAS PERMITE PUNIÇÃO POR 
CULPA, SE PREVISTO EM LEI.*
ERRO DE TIPO INEVITÁVEL ‐
SOMENTE AFASTA DO DOLO E 
CULPA 
 
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147 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
CULPOSO. 
UAI, PROFESSOR, ENTÃO ELE NÃO VAI SER APENADO? 
NÃO! 
SERIA DIFERENTE SE NOSSO AMIGO TIVESSE ATIRADO EM SEU FILHO (X), PENSANDO QUE É UM LADRÃO 
QUE ENTRA NA CASA À NOITE (Y). 
 
NESTE CASO, SE FICAR DEMONSTRADO QUE O PAI PODERIA TER EVITADO O ERRO, RESPONDERÁ ELE POR 
HOMICÍDIO CULPOSO DO FILHO, POIS O CÓDIGO PENAL PREVÊ A MODALIDADE CULPOSA PARA O 
HOMICÍDIO. 
B) ERRO DE TIPO INEVITÁVEL (DESCULPÁVEL OU ESCUSÁVEL) – QUALQUER PESSOA COMETERIA O MESMO 
ERRO SE TIVESSE NA POSIÇÃO DO AGENTE. ESSE ERRO AFASTA O DOLO (COMO SEMPRE), E AFASTA 
TAMBÉM A CULPA. 
 
NESTE PONTO, PRESTE ATENÇÃO EM UMA COISA! EU DISSE QUE O ERRO DE TIPO INEVITÁVEL AFASTA A 
CULPA! 
 
DÊ UMA OLHADA NESTA QUESTÃO DE CONCURSO: 
 
(CESPE_Advogado Júnior_CEF_2006) O erro de tipo é aquele que recai sobre os elementos ou circunstâncias do 
tipo, excluindo-se o dolo e, por conseqüência, a culpabilidade. 
 
EXCLUINDO O QUÊ? A CULPABILIDADE? NÃO, ERRADO! O ERRO DE TIPO ESCUSÁVEL OU DESCULPÁVEL 
EXCLUI A CULPA, NÃO A CULPABILIDADE. 
 
LEMBRE-SE CULPA É UMA FORMA DE CONDUTA. A CONDUTA PODE SER DOLOSA OU CULPOSA (DOLO OU 
CULPA). CULPABILIDADE É OUTRA COISA. CULPABILIDADE É UM DOS ELEMENTOS DO CRIME. 
 
Muito bem. Com o estudo do erro de tipo, terminamos o estudo do fato típico. A partir deste momento, iniciamos o estudo 
da ilicitude (ou antojuridicidade). 
 
 
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148 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
6. Outras espécies de erros (erros acidentais ou secundários) 
 
a. Erro determinado por terceiro: médico, querendo matar paciente, entrega injeção com substância mortífera 
para que a técnica em enfermagem, desconhecedora da conduta daquele, aplique na vítima. No caso, somente o médico 
responderá pelo crime (responde pelo crime o terceiro que determina o erro, art. 20, § 2°). 
b. Erro sobre a pessoa: josé, querendo matar Tadashi, confunde-se e mata o irmão daquele, Takashi. O juiz vai 
aplicar a pena considerando todas as circunstância de José ter matado a vítima que pretendia matar (Tadashi). O erro 
quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou 
qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime (art. 20, § 1º). 
c. Erro de execução (aberratio ictus): José, querendo matar João, mata Maria que passava na rua. No caso, foi 
atingida pessoa diversa daquela que o agente queria atingir (desvio de golpe). Julga-se o fato como se tivesse sido a 
pessoa visada (art. 20, § 3º). Se ambas forem atingidas, aplica-se o concurso formal (uma só pena com aumento). 
d. Resultado diverso do pretendido (aberratio delicti): José joga pedra em uma vitrine, mas atinge pessoa que 
está atrás. No caso, o agente, por erro, lesa bem ou interesse diverso do pretendido. Responde por culpa, se couber 
crime culposo. Haverá concurso formal se ocorrer, também o resultado pretendido (arts. 70 e 74). 
e. Erro sobre o nexo causal (aberratio causae): José, querendo matar João afogado, lanaça-o de cima de uma 
ponte. Durante a queda, João acaba por bater a cabeça na pilastra e morre de traumatismo craniano. A responsabilidade 
de José não é afastada, pois “considera-se causa a ação ou omissão (jogar da ponte) sem a qual o resultado não teria 
ocorrido”. 
f. Dolo Geral (hipótese particular de erro sobre o nexo causal): o místico russo Rasputin (Grigoriy 
Yefimovich Rasputin , místico russo, nasceu dia 22 de janeiro de 1869 em Pokrovskoie, Tobolsk e foi assassinado no 
dia 29 de dezembro de 1916 aos 47 anos em Petrogrado, atual São Petersburgo) foi uma figura influente no final do 
período czarista da Rússia, tendo sido assassinado de forma curiosa: primeiro ele foi envenenado num jantar, porém 
sua úlcera crônica fê-lo expelir todo o veneno, posteriormente teria sido fuzilado atingido por um total de onze tiros, tendo 
no entanto sobrevivido; foi castrado e continuou vivo, somente quando foi agredido e o atiraram inconsciente no rio 
Neva ele morreu, não pelos ferimentos, mas afogado.Existe um relato de que, após o seu corpo ter sido recuperado, foi 
encontrado água nos pulmões, dando apoio à ideia de que ele ainda estava vivo quando jogado no rio parcialmente 
congelado. 
No dolo geral, o agente julga consumado o crime, mas, na realidade, a consumação só acontece depois depois, 
em decorrência de outros atos praticados. O agente responde pela resultado final, o qual estaria envolto em um 
só dolo (o dolo geral). 
 
Não confundir DOLO GERAL de DOLO GENÉRICO. O segundo, refere-se ao dolo existente em todos os crimes 
dolosos em contraposição ao dolo específico, existente em alguns tipos, conforme vimos em aula anterior. 
 
 
 
QUESTÕES COMENTADAS 
 
1. (FCC - 2010 - TRE-AL ANALISTA JUDICIÁRIO) A dispara seu revólver e mata B, acreditando tratar-se de um 
animal. A respeito dessa hipótese é correto afirmar que se trata de fato típico, pois o dolo abrangeu todos os 
elementos objetivos do tipo. 
 
 
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149 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
COMENTÁRIO: trata-se de hipótese clássica de erro de tipo. No caso, o dolo do agente não abrangeu todos os 
elementos do tipo “MATAR ALGUÉM”. O dolo foi de matar um animal e não de matar alguém (que não deixa de 
ser um animal, mas tudo bem!). 
 
GABARITO: ERRADO 
 
 
2. (POLICIA CIVIL_MG_2007) A finalidade precípua do erro de tipo essencial é a de afastar o dolo da conduta do agente. 
 
COMENTÁRIO: o erro de tipo essencial sempre afasta o dolo. Caso o erro seja inevitável, afastará, também, a 
culpa. 
 
GABARITO: CERTO 
 
3. ( CESPE - 2010 - TRE-MT - Analista Judiciário – Adaptada) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime 
exclui o dolo e a culpa, podendo o agente, no entanto, responder civilmente pelos danos eventualmente ocasionados. 
COMENTÁRIO: o erro sobre o elemento do tipo (erro de tipo) sempre afasta o dolo, mas não afasta a culpa se for 
evitável. No último caso, poderá haver responsabilização civil (perdas e danos). 
GABARITO: ERRADO 
 
 
4. ( FCC - 2007 - TRE-MS - Analista Judiciário ) 
Considere os exemplos abaixo: 
 
I. Casar-se com pessoa cujo cônjuge foi declarado morto para os efeitos civis, mas estava vivo. 
 
II. Aplicar no ferimento do filho ácido corrosivo, supondo que está utilizado uma pomada. 
 
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150 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
III. Matar pessoa gravemente enferma, a seu pedido, para livrá-la de mal incurável, supondo que a eutanásia é 
permitida. 
 
IV. Ingerir a gestante substância abortiva, supondo que estava tomando um calmante. 
 
Há erro de tipo nas situações indicadas APENAS em 
a) I, II e III. 
b) I e III. 
c) I, III e IV. 
d) II e III. 
e) II e IV. 
COMENTÁRIO: 
No primeiro item não erro de tipo, uma vez que a morte, para o Direito, se prova documentalmente. Não irá 
modificar a situação jurídica se a pessoa estiver fisicamente viva, uma vez que está morta para o Direito. A não 
ser que haja nova decisão judicial que anule a morte civil. 
No segundo caso, houve ausência de dolo da mãe por falsa percepção da realidade (erro de tipo). 
O terceiro item trata de hipótese de erro de proibição. Veremos na próxima aula que no erro de proibição o agente 
age acreditando que o faz conforme o direito, mas este lhe vira as costas (erro sobre a ilicitude do fato). 
No terceiro caso, houve ausência de dolo da gestante por falsa percepção da realidade (erro de tipo). 
GABARITO: E 
 
5. (CESPE_JUIZ SUBSTITUTO_TJ_SE_2008) O erro inescusável sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime 
exclui o dolo e a culpa, se prevista em lei. 
COMENTÁRIO: vimos que o erro de tipo inescusável (indesculpável, evitável) afasta o dolo, mas permite a punição 
culposa, se previsto em lei. 
GABARITO: E 
 
 6. ( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia - Nacional) 
 
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151 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
O médico Caio, por negligência que consistiu em não perguntar ou pesquisar sobre eventual gravidez de paciente nessa 
condição, receita-lhe um medicamento que provocou o aborto. Nessa situação, Caio agiu em erro de tipo vencível, em 
que se exclui o dolo, ficando isento de pena, por não existir aborto culposo. 
COMENTÁRIO: de fato, se o médico Caio receita medicamente abortivo, não sabendo da condição da mulher gestante 
por ser negligente, há erro de tipo, que, no caso, poderia ser evitado. Deveria responder por aborto culposo, mas não 
existe essa possibilidade na lei penal brasileira. 
GABARITO: CERTO 
 
7. ( CESPE - 2011 - TRE-ES - Analista Judiciário) Erro de pessoa é o mesmo que erro na execução ou aberratio 
ictus. 
 
COMENTÁRIO: no erro sobre a pessoa, o agente confunde-se sobre a pessoa contra quem dirige sua ação. No erro de 
execução (aberratio ictus), ele dirige sua ação contra a pessoa correta, mas erra o golpe, atingindo pessoa diversa. 
Apesar de serem institutos diferentes, os efeitos são semelhantes. Ou seja, o juiz considerará, para fins de aplicação de 
pena, a pessoa que se pretendia atingir e não a efetivamente atingida. 
GABARITO: Errado 
 
8- ( VUNESP - 2011 - TJ-SP - Juiz) Analise as proposições seguintes. 
 
 
I. O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas não permite a punição por crime culposo, 
ainda que previsto em lei. 
COMENTÁRIO: o erro de tipo, quando evitável, permite a punição por culpa. 
 
II. Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. 
COMENTÁRIO: é exatamente o que determina o art.20, § 2º do CPB. 
 
III. O desconhecimento da lei é inescusável, mas o erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, poderá diminuir a pena de 
um sexto a um terço. 
COMENTÁRIO: o desconhecimento da lei é, de fato, indesculpável. O erro sobre a ilicitude do fato (erro de proibição), 
como veremos, afasta a culpabilidade, se invencível. Se vencível, diminui a pena. 
 
IV. O desconhecimento da lei é considerado circunstância atenuante. 
 
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152 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
COMENTÁRIO: sim, conforme o art. 65, II do CPB. 
 
V. Se o fato é cometido sob coação irresistível, só é punível o autor da coação. 
COMENTÁRIO: a coação moral irresistível afasta a culpabilidade do coagido, como veremos. No caso, somente o autor 
da coação responde pelo ato. 
 
 
Assinale as proposições corretas. 
a) I, II e V, apenas. 
b) II, III e IV, apenas. 
c) II, IV e V, apenas. 
d) I, II e III, apenas. 
e) II, III e V, apenas. 
 
GABARITO: C 
 9. (UPENET - 2010 - SERES-PE) Considere a seguinte situação: 
 
Policiais militares ingressaram num coletivo que ia do município de Salgueiro para o Município de Arcoverde, ambos no 
sertão pernambucano, e relataram aos passageiros que haviam recebido informe no sentido de que algum daqueles 
passageiros estaria transportando significativa quantidade da substância entorpecente de uso proscrito, popularmente 
conhecida por cocaína. Alguns passageiros, voluntariamente, passaram a exibir suas bagagens. O passageiro "X" exibiu 
sua bagagem, e os policiais militares constataram que ele trazia consigo duas embalagens de talco, em cujo interior havia 
400g (quatrocentos gramas) da droga pesquisada. O passageiro foi preso e autuado em flagrante, na delegacia de polícia 
local, onde afirmou que não tinha conhecimento de que transportava cocaína, pois pensava que, nas embalagens, havia 
talco e que sua irmã "Y" teria arrumado as malas. 
 
Diante disso e considerando a teoria finalista da ação, assinale a alternativa CORRETA. 
a) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de tipo 
essencial e seria atípica. 
b) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de 
proibição inevitável e haveria a exclusão da culpabilidade. 
c) Constatada a veracidade da alegação de "X", ele deverá ser absolvido, porque sua conduta caracterizaria erro de 
proibição inevitável e seria atípica. Nesse caso, "Y" seria responsabilizada por tráfico de entorpecentes. 
 
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153 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
d) Ainda que seja verdadeira a alegação de "X", ele deverá ser condenado por crime de tráfico de entorpecentes (Lei nº 
11.343/2006). Nesse caso, "Y" também seria co-responsabilizada pelo mesmo crime. 
e) Ainda que verdadeira a alegação de "X", ele deve ser condenado, poisa Lei nº 11.343/2006, ao equiparar o tráfico de 
entorpecentes aos crimes hediondos (Lei nº 8.072/90), estabelece, também, a responsabilidade penal objetiva. 
COMENTÁRIO: trata-se de exemplo típico de erro de tipo, afastador do dolo. Como não existe tráfico de drogas na 
modalidade culposa, o agente deve ser absolvido. 
GABARITO: A 
10. ( CESPE - 2010 - ABIN - OFICIAL TÉCNICO DE INTELIGÊNCIA - ÁREA DE DIREITO) Incorrendo o agente em erro 
de tipo essencial escusável ou inescusável, excluir-se-á o dolo, mas permanecerá a culpa caso haja previsão culposa 
para o delito. 
 
COMENTÁRIO: o erro de tipo escusável afasta o dolo e culpa, mas o inescusável, permite a punição por culpa. 
 
GABARITO: errado. 
 
 
fato típico
Conduta.
resultado
nexo causal
tipicidade
ilicitude
estado de 
necessidade
legítima 
defesa
estrito 
cumprimento 
do dever legal
exercício 
regular do 
direito
consentimento 
do ofendido
culpabilidade
imputabilidade 
potencial 
consciência 
da ilicitude
exigibilidade 
de conduta 
diversa
 
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154 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
EXCLUDENTES DE ILICITUDE 
1. Relação entre tipicidade e ilicitude 
 
1. Quando iniciamos o nosso estudo, falamos que, para a teoria finalista tripartida, o crime, em seu conceito 
analítico, seria: Fato típico + Antijurídico + Culpável. Chegamos então, ao estudo do segundo requisito (ou elemento) 
do crime, a ilicitude. 
Responda a seguinte pergunta: “matar alguém é crime?” 
O aluno poderia dizer: “sim, matar alguém é o crime previsto no art. 121 do CPB!” 
Seria tecnicamente adequada esta resposta? Veremos que não. “Matar alguém” não é um crime previsto no art. 121 do 
CPB, mas um tipo penal abstratamente previsto neste artigo. Se alguém, com animus necandi (vontade de causar a 
morte), efetua três disparos em direção à vítima, causando-lhe a morte, teríamos uma conduta humana de “matar alguém” 
que encontra adequação perfeita ao tipo descrito como “matar alguém” (art.121), gerando o fenômeno conhecido por 
“tipicidade” ou “adequação típica”. 
Bom, imagine que aquela pessoa que efetuou os disparos estivesse se defendendo legitimamente de uma agressão 
injustamente atual ou iminente, ainda teríamos o crime de “matar alguém”? Óbvio que não! O fato típico de “matar 
alguém” estaria justificado pela justificante (ou excludente) da legítima defesa. 
2. Então, matar alguém é crime ou indica ser crime? 
Matar alguém indica ser crime. Matar alguém só será crime se não ocorrer qualquer causa que justifique essa conduta 
(legítima defesa, estado de necessidade etc.). Onde há fumaça não necessariamente há fogo. Onde há fumaça, 
provavelmente há fogo, podendo ser gelo seco! Onde há fato típico, provavelmente há ilicitude, podendo ocorrer uma 
causa justificante (ou excludente) de ilicitude. 
Como se percebe, existe uma relação entre a conduta típica e a ilicitude, e essa relação é apenas indiciária. Leia-se, o 
fato típico indica ser contrário ao Direito. 
A teoria que adotamos para representar isso que acabei de falar é a TEORIA INDICIÁRIA DO TIPO PENAL (Ratio 
Cognoscendi). 
 
Anote: a doutrina finalista de Welzel defende que a tipicidade é mero indício da antijuridicidade. Teoria da Ratio 
Cognoscendi. 
 
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155 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
3. Conceito de ilicitude (ou antijuridicidade) 
 
Ilicitude é a relação de antagonismo que se estabelece entre a conduta humana voluntária e o ordenamento 
jurídico, de modo a causar lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico tutelado (Toledo). 
 
Para descobrirmos se uma conduta típica é, também, ilícita (ou antijurídica), devemos verificar se o ordenamento jurídico 
não permite essa mesma conduta. Como assim? 
Bom, caso o sujeito desfira uma facada na vítima como animus necandi (dolo de matar) temos um indício de que essa 
conduta é também contrária ao direito, leia-se, ilícita. 
Veja o exemplo do pai que, ao chegar a casa, percebe que sua filha pequena está prestes a ser violentada por um 
invasor. Utilizando-se de uma faca, impede a conduta do criminoso, matando-o. 
Muito bem. Pode dizer que este pai pratica um FATO TÍPICO? 
Sim, pois a conduta dele encontra adequação ao modelo do Código Penal (art. 121). 
Podemos dizer que a conduta típica do pai é, também, ilícita? 
A resposta agora é não. Isso porque o ordenamento jurídico permite que se mate alguém em legítima defesa. 
O raciocínio, como se vê, é feito por exclusão. Tudo que não for ilícito, será lícito. 
RELAÇÃO ENTRE TIPICIDADE E ILICITUDE
Teoria Indiciária da ilicitude (Ratio 
Cognoscendi)
O fato típico indica ser ilícito. 
 
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156 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
4. Injusto Penal 
Caso a conduta típica de matar alguém não encontre qualquer justificativa no ordenamento jurídico, podemos dizer que a 
conduta passa a ser típica e ilícita. Quando esse fenômeno ocorre, dissemos que ocorreu um INJUSTO PENAL. 
 
Injusto Penal (fato típico + antijurídico): uma conduta típica e antijurídica é um INJUSTO PENAL, sendo a 
antijuridicidade um JUÍZO NEGATIVO DE VALOR, na expressão de Zaffaroni, que incide sobre a conduta humana, sendo 
o injusto a “CONDUTA HUMANA DESVALORADA”. 
 
Esse conceito de injusto penal é majoritário na doutrina. O injusto penal dependerá de uma agente culpável para que o 
crime fique configurado. De tal modo, um doente mental, como exemplo, pode praticar injustos penais, mas não poderá 
responder criminalmente por tais injustos, pois não comete crimes. 
5. Na década de 80, no Brasil, surgiu outro posicionamento, afastando a culpabilidade da estrutura do crime. Para 
autores como Damásio e Delmanto, a culpabilidade, na concepção finalista, seria um pressuposto para aplicação de 
pena. Nesse sentido, o doente mental mencionado, praticaria sim um crime, mas apenas ficaria isento de pena, por não 
possuir imputabilidade (um elemento da culpabilidade). 
Anote: para Damásio, Capez, Delmanto, entre outros, o injusto Penal já é considerado crime (Teoria Bipartida). 
Não obstante, a doutrina majoritária, nacional e estrangeira considera o crime em seus três elementos FATO TÍPICO + 
ANTIJURÍDICO + CULPÁVEL. 
 
 
6. Fontes de Justificação 
Quando um fato típico não será antijurídico, ou seja, quando a conduta típica está JUSTIFICADA? 
FATO TÍPICO ILÍCITO INJUSTO PENAL
 
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157 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Inicialmente colocamos que a antijuridicidade não é uma área privativa do Direito Penal, pertencendo ao ordenamento 
jurídico em sua amplitude. As fontes de justificação são três: 
(a) as que emanam do ordenamento jurídico em quaisquer ramos. Ex.: O crime de Violação de Sepultura (art. 210 
do CPB), que poderá estar justificado pelo artigo 163 do CPP: 
art. 163. Em caso de exumação para exame cadavérico, a autoridade providenciará para que, em dia e hora previamente 
marcados, se realize a diligência, da qual se lavrará auto circunstanciado. 
Parágrafo único. O administrador de cemitério público ou particular indicará o lugar da sepultura, sob pena de 
desobediência. No caso de recusa ou de falta de quem indique a sepultura, ou de encontrar-se o cadáver em lugar não 
destinado a inumações, a autoridade procederá às pesquisas necessárias, o que tudo constará do auto. 
 
(b) as causas legais, previstas no Código Penal (art. 23): Estado de Necessidade, Legítima Defesa, Estrito 
Cumprimento do Dever Legal, ExercícioRegular do Direito. 
(c) as que nascem de uma consideração supralegal, ou seja, sem previsão na lei. Ex.: Consentimento do 
Ofendido. 
 
Somente as duas últimas serão objeto de nossos estudos. 
 
 
OBSERVAÇÃO: 
CUIDADO COM OS TERMOS! 
justificantes ou descriminantes → afastam a ilicitude 
Dirimentes, eximentes → afastam a culpabilidade 
 
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158 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
 
 
 
CAUSAS DE JUSTIFICAÇÃO EM ESPÉCIE (EXCLUDENTES DE ILICITUDE OU ANTIJURIDICIDADE) 
ESTADO DE NECESSIDADE 
7. Conceito Legal 
 Art. 2411 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não 
provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas 
circunstâncias, não era razoável exigir-se. 
A primeira excludente de ilicitude apresentada pelo Código e, também a mais abrangente, é o Estado de Necessidade. 
O Estado de Necessidade configura-se pela existência de uma situação de PERIGO, ATUAL (ou iminente), 
INVOLUNTÁRIO (que o agente não tenha provocado por sua vontade) e INEVITÁVEL, que exige ação de proteção 
                                                            
11 O artigo 24 somente estabelece as regras gerais do Estado de Necessidade; de modo específico, ele é estabelecido nos arts. 128, I (aborto 
necessário); 146, § 3º, I (constrangimento ilegal). 
FONTES DE 
JUSTIFICAÇÃO
a. emanam de todo 
ordenamento.
Exumação de 
Corpo com 
autorização da Lei.
b. causas legais do 
Código Penal (art. 
23)
Art. 23 do CPB
c. causa supralegal Consentimento do ofendido
 
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159 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
necessária para garantir um bem jurídico próprio ou de terceiro, evitando-se mal próprio ou de outrem, que viola um 
dever, tornando a conduta ILÍCITA. 
( FCC - 2009 - TJ-PI - Analista Judiciário) São elementos do estado de necessidade: 
a) perigo atual; defesa de direito próprio ou de outrem; reação moderada. 
b) que ocorra um perigo; que o agente use dos meios moderados e necessários. 
c) perigo iminente; que o agente defenda um direito legítimo e seu; que use moderadamente dos meios 
necessários. 
d) perigo atual ou iminente; que o agente não o tenha provocado; que não poderia ser evitado. 
e) reação a injusta agressão; atual ou iminente; uso dos meios necessários moderadamente. 
Resposta: letra D. 
 
8. Há dois exemplos clássicos que ilustram a definição do art. 24 do Código Penal brasileiro: 
 (a) o formulado por CARNEADES, filósofo e orador grego (215-129 a.c.), de dois náufragos que disputam a mesma tábua 
de salvação que não tem lugar para ambos (Tábua de Carneades). Como existe um perigo atual (ou iminente), 
involuntário e inevitável, o agente sacrifica a vida de outrem para salvar a sua própria. A conduta do agente estaria, no 
caso, plenamente justificada pelo Direito. 
(b) No Romance de Os Miseráveis (Victor Hugo), um clássico da literatura francesa escrito no século XIX. Vários temas 
referentes a questões morais são abordados. São Tratadas, também, questões sentimentais e principalmente o livro fala 
sobre as injustiças sociais. A obra tem como personagem principal Jean Valjean, ex-presidiário, rancoroso, que por furtar 
pão para ajudar uma família em situação de absoluta miserabilidade cumpriu pena por 19 anos nas Galés. Galés eram 
barcos movidos a remo, onde os remadores trabalhavam acorrentados e recebiam um soldo mínimo que ficava guardado 
até libertarem-nos. 
Nas duas situações acima, ocorre um conflito entre dois bens tutelados pelo Direito. A luta pela preservação de um dos 
bens jurídicos, leva ao sacrifício do outro bem jurídico. 
No exemplo da tábua de Carneades, existe um conflito entre a vida de duas pessoas que tentam preservá-las em 
situação de perigo. No exemplo da obra Os Miseráveis, existe um conflito entre a vida e o patrimônio do proprietário do 
alimento. 
 
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160 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
 
O raciocínio é que o Estado não pode estar presente em todas as situações de conflito. Quando a ocorrência do perigo 
surge, o Direito permite que haja a destruição de um bem jurídico para a preservação de outro. Contudo, o Estado de 
Necessidade exige alguns requisitos que agora passo a apresentar. 
 
9. Requisitos do Estado de Necessidade 
a. Perigo atual 
 O ponto nodal do Estado de Necessidade, que o diferencia da Legítima Defesa, é que nesta existe uma agressão 
humana, enquanto no primeiro (estado de necessidade) há uma situação de PERIGO em que existem dois bens jurídicos 
em conflito, sendo que um deve perecer para a salvaguarda do outro. 
O sujeito, ao ser atacado por um cão, defende-se, matando-o. Sabemos que o cão, por não ser um ser humano, 
não possui conduta. Assim o dano causado ao dono do cão, com a morte deste, estará justificado pelo estado de 
necessidade. O conflito entre o bem jurídico vida foi preservado em face do bem jurídico propriedade (cão é 
propriedade de alguém). 
Exemplo diferente seria se o dono do animal o instigasse a atacar alguém. Neste caso, o cão está sendo usado como 
uma arma. Existe agressão humana (que é própria da legítima defesa). 
(FUNDEP - 2005 - TJ-MG) Considerando-se as determinações legais, é INCORRETO afirmar que a legítima defesa 
pode ser alegada quando a agressão for praticada por 
a) indivíduos com mais de 70 anos. 
b) loucos de todo gênero 
c) quaisquer animais. 
d) sujeitos considerados imputáveis. 
BEM JURÍDICO 
BEM JURÍDICO 
 
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161 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Resposta: Letra C. 
 
 
 
Então, caso o sujeito mate um animal instigado por seu dono, o faz em legítima defesa, pois agora houve agressão injusta 
(por parte do dono do cão). 
O perigo, segundo a norma do CP, deve ser ATUAL. Ocorre que, conforme ensina Bitencourt, o perigo atual (presente, 
contemporâneo) engloba o dano iminente. 
b. Perigo Involuntário 
(POLICIA CIVIL_MG_2007) São requisitos para configuração do estado de necessidade a existência de situação 
de perigo atual que ameace direito próprio ou alheio, causado ou não voluntariamente pelo agente que não tem 
dever legal de afastá-lo. 
Resposta: Falso 
 
Só poderá alegar Estado de Necessidade aquele que se salve de um perigo não causado por sua própria vontade 
(dolosamente). 
Aquele morador da favela que faz um “gato” no poste para furtar energia elétrica, pode causar culposamente um incêndio. 
Durante o evento, pode ele alegar estado de necessidade para salvar a vida de um filho em detrimento da de outra 
pessoa? 
Claro que sim, uma vez que, apesar de ter sido o causador do perigo, não o fez dolosamente, mas sim culposamente. 
Estado de Necessidade
Situação de Perigo 
atual
Legítima Defesa
Reação à agressão 
humana injusta, 
atual ou iminente
 
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162 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Se, pelo contrário, resolve atear fogo em sua residência para receber o valor do seguro, mas acaba por colocar-se em 
risco, caso precise matar alguém para se salvar, responderá por este homicídio. 
 
O perigo, enfim, não pode ter sido provocado DOLOSAMENTE pela pessoa que invoca o Estado de Necessidade 
(segundo maioria da doutrina). Caso provoque o perigo culposamente, poderá fazê-lo. Interessante que, caso o 
sujeito cria intencionalmente a situação de perigo, coloca-se ele em umasituação de garante (art. 13, § 2º, a), 
devendo agir para evitar o resultado. 
 
c. Inevitável 
O perigo não pode ser daqueles evitáveis. O Direito, no Estado de Necessidade, só aceita a exclusão da ilicitude se outro 
caminho não houver para o autor. 
Em uma situação de perigo, caso o agente tenha a opção de fugir do perigo a destruir bem jurídico alheio, deve fazê-lo. 
Caso o agente tenha a alternativa de sair, deve escolher a “covardia” a destruir um bem de inocente. 
d. Proporcionalidade 
Só pode haver alegação de estado de necessidade quando houver proporcionalidade entre o bem protegido e aquele 
sacrificado. Não há proporcionalidade da conduta de quem sacrifica uma vida para salvar sua coleção dos Beatles 
durante um incêndio. 
Caso o agente destrua desproporcionalmente um bem jurídico para salvar outro irá responder pelo excesso. 
i. Excesso no Estado de Necessidade Justificante: Pode ocorrer quando o autor, na conduta de preservar 
interesse legítimo de outrem, para salvar o seu, atua excessivamente a título de dolo ou culpa. Ex.: os náufragos Paulo e 
Cássio se agarram a um salva-vidas, o qual é insuficiente para os dois; Paulo é exímio nadador, o que é de conhecimento 
de Cássio, e, nadando poderá atingir a praia; Cássio, em vez de expulsá-lo com sua força física superior, dá-lhe um tiro, 
matando-o. Pô, precisava disso tudo? Não, né? O excesso é punível, portanto. 
 
 
 
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163 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
10. Natureza jurídica 
O Estado de Necessidade no Código Penal Brasileiro é sempre justificante, ou seja, afasta sempre a ilicitude. 
Muito bem. A doutrina internacional e nacional, baseando-se na legislação alemã, prevê duas hipóteses de estado de 
necessidade: uma justificante (afasta a ilicitude), e outra exculpante (que afasta a culpabilidade). Ressalto que o estudo 
do estado de necessidade exculpante tem fins meramente teóricos, já que não prova de seu concurso o examinador pode 
querer essa diferenciação. 
Basicamente, posso dizer que o entendimento da doutrina que vê dois tipos de estado de necessidade é que há coisas 
que se justificam (ex.: destruir uma porta para ingressar em uma residência em salvar uma vida). Há outras que não se 
justificam, mas “explicam” (ex.: matar alguém para salvar sua própria vida). 
No sistema do Código Penal, ambas as situações estão JUSTIFICADAS, uma vez que adotou a Teoria Unitária (leiai-se, 
só existe um estado de necessidade, o justificante). A doutrina que entende correta a diferenciação acima é dita 
Teoria Diferenciadora. Vamos compreender esses posicionamentos. 
a. TEORIA UNITÁRIA OU MONISTA OBJETIVA (adotada pelo CPB12): todo estado de necessidade é justificante. 
                                                            
12 O Código Criminal do Império (1830) adotou a teoria diferenciadora, que foi mantida pelo Código Penal de 1890. Já o projeto Alcântara 
Machado (que deu origem ao Código Penal de 1940) adotou a teoria unitária. O anteprojeto Hungria retornou à adoção da teoria diferenciadora, que foi 
adotada pelo natimorto Código de 1969. 
Requisitos do Estado 
de Necessidade
Perigo Atual
Perigo não causado 
dolosamente pelo 
agente
Inevitabilidade
Proporcionalidade
 
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164 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
CESPE_Juiz Federal Substituto_TRF_5ª Região_2007-adaptada) Para a teoria unitária, diferentemente do que 
ocorre com a teoria diferenciadora, todo estado de necessidade é justificante, inexistindo estado de necessidade 
exculpante. 
Resposta: correto. 
As situações que levam ao estado de necessidade afastam sempre a ilicitude (justificante). Não existe outro estado de 
necessidade a não ser aquele que tenha por natureza justificar a conduta típica. 
 
b. TEORIA DIFERENCIADORA: Faz uma diferenciação entre conflito de bens em perigo. 
 
Para a mencionada teoria, só haverá estado de necessidade justificante (excludente da ilicitude) caso o bem jurídico 
sacrificado for de menor valor. 
Por outro lado, o estado de necessidade será exculpante (afasta a culpabilidade) se o bem sacrificado for de igual ou 
maior valor. 
Anote! 
Teoria diferenciadora: só haverá estado de necessidade justificante se o bem jurídico sacrificado for de menor 
valor. 
 
Se José decide arrombar a porta da residência do vizinho para salvar o filho deste, o dano à porta estaria justificado 
(excludente de ilicitude). Neste caso, teríamos o bem jurídico patrimônio (porta) em conflito com o bem jurídico vida. O 
patrimônio tem valor inferior à vida, o que justifica o estado de necessidade. 
Se o arrombamento tivesse a finalidade de salvar o cachorro do vizinho, teríamos o conflito entre o patrimônio (porta) e o 
patrimônio (cão)13. O arrombamento da porta não está justificado, mas está “explicado”. Neste caso, José teria cometido 
um fato típico e ilícito, mas não incidiria sobre ele reprovabilidade (culpabilidade). 
11. Foi adotado pela legislação brasileira? 
Sim. Pelo Código Penal Militar (arts. 39 e 43). 
                                                            
13 Sim, animais domésticos são propriedades de seus donos. Podem, inclusive, ser vendidos, doados etc. 
 
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165 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 Estado de necessidade, com excludente de culpabilidade 
Art. 39. Não é igualmente culpado quem, para proteger direito próprio ou de pessoa a quem está ligado por 
estreitas relações de parentesco ou afeição, contra perigo certo e atual, que não provocou, nem podia de outro 
modo evitar, sacrifica direito alheio, ainda quando superior ao direito protegido, desde que não lhe era 
razoavelmente exigível conduta diversa. 
Estado de necessidade, como excludente do crime 
Art. 43. Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para preservar direito seu ou alheio, de 
perigo certo e atual, que não provocou, nem podia de outro modo evitar, desde que o mal causado, por sua 
natureza e importância, é consideravelmente inferior ao mal evitado, e o agente não era legalmente obrigado a 
arrostar o perigo. 
 
 
12. Observe a tabela abaixo: 
 
 
BEM PROTEGIDO TEORIA UNITÁRIA TEORIA DIFERENCIADORA 
Valor superior Estado de necessidade justificante Estado de necessidade justificante 
Valor igual Estado de necessidade justificante Estado de necessidade exculpante 
Valor inferior 
Não há estado de necessidade: ou 
exclui a culpa por inexigibilidade de 
conduta diversa ou reduz a pena. 
Estado de necessidade exculpante 
 
 
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166 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
13. Dever legal de enfrentar o perigo 
 
Quem tem o dever legal de enfrentar o perigo (ex. capitão do navio, Bombeiro Militar, policial etc.), em princípio, não pode 
alegar a justificante. Contudo, deve-se observar que o direito não exige atos heróicos. 
Não se deve confundir, portanto, a OBRIGAÇÃO DE CORRER O PERIGO como DEVER DE SACRIFICAR-SE. 
( PGT - 2008 - PGT - Procurador do Trabalho) O estado de necessidade pode ser alegado por quem não tinha o 
dever legal de enfrentar. 
Resposta: correto. 
 
( CESPE - 2010 - TRE-MT ) Pode alegar estado de necessidade quem tem o dever legal de enfrentar o perigo, 
desde que demonstre que praticou o fato para salvar de perigo atual direito próprio cujo sacrifício, nas 
circunstâncias, não era razoável exigir-se. 
Resposta: errado. 
 
ESTADO DE NECESSIDADE
Teoria Unitária: adotada 
pelo Código Penal Comum
Todo estado de necessidadeé justificante
Teoria Diferenciadora: 
adotada pelo CP Miltar
só será justificante se o bem 
jurídico sacrificado for de 
menor valor
 
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167 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Interessante o exemplo do filho que salva seu pai de um naufrágio à custa de outro passageiro, perigo que deveria 
suportar, na condição de comandante do navio. Você acha que não seria pedir demais que o capitão deixasse seu pai 
morrer sob a alegação de que não pode alegar estado de necessidade? 
Situação semelhante ocorre quando o Bombeiro Militar é chamado a socorrer vítimas de incêndio. Está ele obrigado a 
fazer tudo que estiver ao seu alcance para salvar as vítimas, mas não podemos exigir que se sacrifique para salvar outras 
vidas, apesar de não ser incomum vermos atos heroicos de Bombeiros e policiais. 
Espécies de Estado de Necessidade 
14. Estado de necessidade defensivo e agressivo 
 
AGRESSIVO – ocorre quando a conduta do agente sacrifica bens de um inocente, não provocador da situação de perigo 
(ex.: motorista que, para evitar sua morte quase certa pelo choque de seu veículo com uma jamanta que invadira sua 
meia pista, desvia-o para o acostamento, atropelando um ciclista.) 
DEFENSIVO – ocorre quando a conduta do agente dirige-se diretamente contra o produtor da situação de perigo, a fim de 
eliminá-la (ex.: destruir as janelas de um veículo para salvar criança que foi esquecida pelo pai dentro do automóvel). 
Neste caso, o pai da criança causou o perigo. O salvador da criança destruiu um bem jurídico do próprio causador (o pai). 
A importância desta diferenciação é que, no primeiro caso (estado de necessidade agressivo), existe a possibilidade de 
ressarcimento civil por parte do prejudicado. Imagine que, por exemplo, a família do ciclista resolva acionar o motorista 
para que este pague pensão à viúva do morto. Isso é plenamente possível de acordo com os artigos 188, inciso II, § 
único, 929 e 930 do NCCB: 
Art. 188 Não constituem atos ilícitos: 
II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente. 
Parágrafo único. No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem 
absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. 
 
Art. 929 Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, 
assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. 
 
 
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168 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Art. 930 No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano 
ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. 
 
 
15. Estado de Necessidade Próprio e de Terceiros 
PRÓPRIO: A ação se dá para salvar-se a si mesmo. 
TERCEIROS: A ação corre para salvamento de outrem. 
Ambas as situações são legítimas, desde que preenchidos os requisitos do estado de necessidade. 
 
16. Estado de Necessidade Real e Putativo 
REAL: O perigo corresponde à realidade. 
PUTATIVO (imaginário): O agente supõe erroneamente estar em situação de perigo. Aplica-se, aqui, a regra do art. 20, § 
1º, do Código Penal. 
Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime 
culposo, se previsto em lei. 
 Descriminantes putativas 
 § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, 
se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível 
como crime culposo. 
 
ESTADO DE NECESSIDADE
Agressivo
sacrifica bens de um 
inocente, não provocador 
da situação de perigo
Defensivo volta‐se ao causador do perigo
 
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169 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Imagine a hipótese em que o agente esteja em uma sala de teatro e percebe haver fumaça no local. Ao acreditar ser um 
princípio de incêndio, sai em desabalada carreira e acaba por derrubar uma velhinha que obstruía a passagem de 
emergência, causando-lhe lesões corporais. Na verdade, a fumaça era proveniente de gelo seco utilizado pelos atores na 
apresentação teatral. 
O agente está em erro em relação a um dos elementos do estado de necessidade, ou seja, acredita estar em perigo, 
quando este não existe. 
É disso que trata o § 1º do art. 20 acima. Descriminante putativa (imaginária) é a situação em que o agente acredita, 
falsamente, estar em estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular do 
Direito. 
17. Qual a consequência? 
Conforme o art. 20, § 1º, o agente fica isento de pena, contudo, responderá pela modalidade culposa se o erro derivar de 
culpa e o crime tiver essa modalidade. Neste caso, a culpa é denominada CULPA IMPRÓPRIA. 
Perceba que isso não passa de uma forma de erro de tipo. Sim, porque o estado de necessidade é um tipo penal. 
Entretanto, não é um tipo penal, como o homicídio, que proíbe condutas (tipo proibitivo), mas um tipo penal que permite 
condutas (tipo permissivo). O nosso código, com efeito, possui tipos penais proibitivos (proíbem condutas), permissivos 
(permitem condutas), explicativos (explicam determinados termos, como o conceito de território por extensão, dado pelo 
art. 5º do CP). 
Então, quando o agente erra sobre um elemento do tipo penal do art. 25 do CP (estado de necessidade), aplicam-se a ele 
as mesmas regras estudadas no erro de tipo. Se evitável, afasta somente o dolo. Se inevitável, afasta dolo e culpa. 
 
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170 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Legítima defesa 
18. Conceito legal: Art. 25 (CPB) - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios 
necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. 
(CESPE PC-PB 2009) Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, 
repele injusta agressão atual, iminente, ou futura, a direito seu ou de outrem. 
Resposta: errado. 
 
 
 
Muito bem! Se você entendeu que no estado de necessidade há sacrifício de um bem jurídico para que ocorra salvamento 
de outro, vai ficar fácil entender a legítima defesa. 
Imagine que você esteja correndo no parque e que, de repente, um cão Pitt Bull venha em sua direção. Pergunto: 
cão pratica conduta? Vimos na aula zero que somente o ser humano pratica conduta. Então, quem mata um cão 
para se salvar ou a terceiros, o faz em estado de necessidade. 
 O cão representa um perigo. Há, no caso, o sacrifício de uma propriedade (o cão pertence a alguém) para a preservação 
da tua integridade física. 
ESTADO DE NECESSIDADE 
PUTATIVO (IMAGINÁRIO)
O agente acredita 
falsamente estar em 
situação de perigo
o agente fica isento de pena, contudo, responderá pela 
modalidade culposa se o erro derivar de culpa e o crime tiver 
essa modalidade (culpa imprópria).
 
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171 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Outra pergunta: pode-se matar alguém com facadas? Sim. Com pauladas? Sim. Com “Pitt bulzada”? Sim. Ora, se um cão 
é instigado por seu dono a matar a vítima e este o mata para não ser mordido, de quem é a agressão? Do dono do cão, 
não é mesmo? 
Pense assim: a agressão é do dono do cão, que o utiliza como uma verdadeira arma para matar a vítima. 
Pois bem. Quem REAGEA UMA AGRESSÃO HUMANA INJUSTA está se salvando ou se defendendo? 
Contra o perigo há salvação. Contra agressões, defesas. No caso, então, houve legítima defesa. 
19. A legítima defesa tem um duplo fundamento: 
a. PRINCÍPIO DA AUTOPROTEÇÃO: a todos é dado o direito de se defender contra agressões injustas; 
b. REAFIRMAÇÃO DO DIREITO SOBRE O ILÍCITO: a ninguém é dado o direito de agredir terceiros injustamente. 
Elementos da Legítima Defesa 
20. AGRESSÃO HUMANA DOLOSA: 
Conforme dissemos acima a agressão deve ser humana. É indispensável que a agressão seja consciente e voluntária. 
A agressão deve ser humana, pois, conforme já explicamos, a defesa contra ataques de animais configura-se em estado 
de necessidade, com as ressalvas já aprendidas. Entendemos, ainda, que a agressão é a realização de uma ação 
DIRECIONADA À PRODUÇÃO DE LESÃO A UM BEM JURÍDICO, isto é, supõe COSNCIÊNCIA E VONTADE de lesionar 
um bem jurídico. 
Por isso, é plenamente possível legítima defesa contra agressões de menores de idade ou de doentes mentais, já 
que podem praticar condutas injustas. 
Anote! 
É possível legítima defesa contra agressões de inimputáveis (ex.: menores e doentes mentais). Isso porque eles 
praticam atos injustos, mesmo que não sejam crimes. 
 
 ( CESPE - 2009 - DPF) Para que se configure a legítima defesa, faz-se necessário que a agressão sofrida pelo 
agente seja antijurídica, contrária ao ordenamento jurídico, configurando, assim, um crime. 
 
Gabarito: falso. 
 
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172 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Ao contrário, uma ação CEGA (ex.: ataque epilético), ou uma ação CULPOSA não gera uma agressão. 
 
Rômulo monta em uma motocicleta, sem saber pilotá-la, adentra uma rua estreita onde estão algumas crianças 
jogando bola. Remo, ao vê-lo bamboleante, dando-se conta do que vai ocorrer, atira-se sobre Rômulo, 
derrubando-o e causando-lhe lesões corporais. Remo, neste caso, encontra-se em estado de necessidade de 
terceiros. 
Outro exemplo: Caio, em estado de sonambulismo, age contra Mévio com uma faca, no que este desfere-lhe um 
soco. Mévio está em ESTADO DE NECESSIDADE. 
Em ambos os casos não houve agressão no sentido técnico da palavra. 
 
 
 
21. BENS JURÍDICOS QUE PODEM SER DEFENDIDOS 
 
1º requisito da Legítima 
Defesa
Agressão humana injusta
A agressão deve ser 
consciente e voluntária
é possível LD contra 
inimputáveis
a agressão deve ser 
dolosa
quem reage a uma 
ingressão culposa age em 
estado de necessidade
 
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173 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
TODOS os bens jurídicos podem ser protegidos pela LEGÍTIMA DEFESA (ex.: vida, liberdade, honra, dignidade 
sexual etc.) 
EXISTE LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA? Sim. Age em legítima defesa da honra quem, por exemplo, acirrado por 
palavras de desafio e, em seguida, ofendido em seu decoro por toques acanalhados em seu corpo, reage desferindo 
socos no agressor. Impõe-se a solução porque, se TODO DIREITO É SUSCETÍVEL DE DEFESA mediante repulsa 
adequada a ato que ofenda, tanto mais será o que compreende o decoro, a dignidade e respeito à pessoa. 
E no caso de adultério? Nada impede, desde que a reação seja proporcional como, por exemplo, o marido que 
surpreende a mulher em adultério com amante, investe contra este, puxa-o pelos cabelos e o coloca para fora de sua 
casa sob ameaças de morte, conduta JUSTIFICADA pela legítima defesa da honra. 
O que ocorre é que a legítima defesa da honra, que se invoca em benefício dos maridos que matam suas esposas ao 
surpreendê-la em flagrante adultério, é figura que destoa gritantemente dos princípios fundamentais do Direito Penal. 
AFINAL, É PATENTE QUE, NO ADULTÉRIO, PERPETRADO PELA MULHER, esta é que se DESONRA, não o marido. 
Concordam? 
 
 
USO MODERADO DOS MEIOS 
 
22. Excesso na legítima defesa 
Para que a defesa seja legítima, faz-se necessário que o agente reaja na medida do que for suficiente para neutralizar a 
agressão. Observe que nada impede de o defensor utilizar qualquer arma ou instrumento que tiver disponível (faca, 
pistola, pedra etc.), desde que faça o uso proporcional. 
2º requisito da Legítima 
Defesa
Bem jurídico defendido
Qualquer bem jurídico (vida, 
liberdade, honra, dignidade 
sexual etc.)
É possível legítima defesa da 
honra? Sim, desde que 
proporcionalmente.
 
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174 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Caso alguém venha me agredir desarmado, nada impede que eu utilize uma arma de fogo para me defender, já que o 
injusto não pode se sobrepor ao justo. Agora, seria excesso de minha parte desferir dez tiros no peito de quem está 
desarmado, se apenas um disparo na perna já seria o suficiente. 
 
 
Antes da reforma de 1984, a figura do excesso só era cabível no caso da legítima defesa. Após a reforma, todas as 
causas excludentes da ilicitude (art. 23) passaram a admitir a figura. 
Anote! 
Pode ocorrer excesso punível em todas as excludentes de ilicitude. 
No excesso, o agente, primeiramente, agia amparado por uma causa de justificação, ultrapassando, contudo, o limite 
permitido pela lei. 
Toda conduta praticada em excesso é ilícita, devendo o agente responder pelos resultados dela sobrevindos. 
Observe que, se tratando de legítima defesa, não se exige rigor matemático na proporcionalidade do revide à agressão 
injusta, pois, no estado em que se encontra, não se pode exigir calma absoluta do agredido para medir perfeitamente o 
que é proporcional ou não. Tudo vai depender do caso concreto. 
23. O excesso pode ser doloso ou culposo. 
Será doloso quando: 
O agente, mesmo após fazer cessar a agressão, continua o ataque porque quer causar mais lesões ou mesmo a morte 
do agressor inicial. 
Exemplo: após neutralizar a agressão, o agredido resolve continuar socando o agressor por vingança. No caso, 
responderá pelas agressões que excederam as necessárias para cessar as agressões. 
 
 
Será culposo quando (legítima defesa subjetiva): 
a) O agente, ao avaliar mal a situação que o envolvia, acredita que ainda está sendo ou poderá vir a ser agredido e, em 
virtude disso, dá continuidade à repulsa, hipótese na qual será aplicada a regra do artigo 20, §1o, do CP: 
 
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175 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se 
existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como 
crime culposo. 
 
Exemplo: Após se defender da agressão, o agredido percebe que o agressor consegue se levantar e estica a mão para 
pedir desculpas ao agredido. Este acredita que este ato significa nova agressão e reage novamente. 
 
b) o agente, em virtude da má avaliação dos fatos e da sua negligência no que diz respeito à aferição das circunstâncias 
que o cercavam, excede-se em virtude de um “erro de cálculo” quanto à gravidade da agressão ou quanto ao modus da 
reação. Neste caso, responderá pelo resultado a título de culpa. 
24. Excesso intensivo e extensivo 
INTENSIVO – ocorre quando o autor excede a medida requerida para defesa, ou seja, é o excesso que se refere à 
espécie dos meios empregados ou ao grau de sua utilização. 
Aquele que é agredido por um adolescente franzino, podendo se defender com um soco, se excede na defesa caso 
resolva desferir cinco tiros na cabeça do rapaz. Poderia até se defender com a arma, desferindo um tiro em parte não 
vital,por exemplo. 
 
EXTENSIVO – ocorre quando o agente, inicialmente, fazendo cessar a agressão injusta que era praticada contra a sua 
pessoa, dá continuidade ao ataque, quando este já não mais se fazia necessário. 
 
Aquele que já se defendeu e subjugou a vítima, não pode continuar chutando-a ao chão. 
Anote! 
O excesso EXTENSIVO ocorre quando a DEFESA NECESSÁRIA SE PROLONGA POR MAIS TEMPO que o 
necessário para neutralizar a atualidade da agressão; já no INTENSIVO, a agressão é atual. Todavia, há um 
EXCESSO DE REAÇÃO do exercício da legítima defesa 
 
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25. Excesso na causa 
Ocorre quando há inferioridade do valor do bem ou interesse defendido, em confronto com o atingido pela repulsa. 
Nesses casos, o agente responde pelo resultado, tendo em vista a gritante desproporção entre o bem ou interesse que 
se quer proteger em confronto com aquele atingido pela repulsa. 
 
Aqui em Brasília, tivemos uma triste estória de um garoto que foi morto por um senhor de idade. 
Ao ver que seu muro estava sendo pichado, o velho senhor atacou o garoto com um facão, matando-o. Alegou 
que estava na legítima defesa do patrimônio. Contudo, a causa da legítima defesa foi muito inferior ao seu ataque. 
Foi ele condenado por homicídio doloso. 
 
 
 
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177 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
 
SITUAÇÕES ESPECIAIS DA LEGÍTIMA DEFESA 
26. Legítima defesa sucessiva 
Ocorre quando se repele o excesso na legítima defesa. A agressão praticada pelo agente, embora inicialmente legítima, 
transforma-se em agressão injusta quando incidiu no excesso. Nessa hipótese ocorrerá a legítima defesa sucessiva. 
Imagine que José esteja agredindo Alceu. Este, para se defender, desfere um golpe de Kung Fu em José, 
derrubando-o. Após neutralizar o ataque, Alceu passa a desferir ponta-pés na cabeça de José (excesso 
extensivo). José, agora agredido, se defende dos chutes com outro golpe de Kung Fu. 
O que aconteceu aqui? José se defendeu do excesso da legítima defesa de Alceu. 
EXCESSO NA LEGÍTIMA DEFESA
DOLOSO ‐ o agente quer 
continuar agredindo
CULPOSO ‐ avalia mal a 
continuidade da agressão
INTENSIVO ‐ excesso nos meios
EXTENSIVO ‐ excesso na duração
EXCESSO NA CAUSA ‐há 
inferioridade do valor do bem ou 
interesse defendido, em 
confronto com o atingido pela 
repulsa
 
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178 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
 
Anote! 
É PLENAMENTE POSSÍVEL A LEGÍTIMA DEFESA SUCESSIVA! 
 
27. Legítima defesa recíproca 
Não se admite em nosso ordenamento a existência da legítima defesa recíproca, visto que nesse caso ambas as 
agressões são injustas, ocorrendo ao mesmo tempo. Não existe legítima defesa real contra legítima defesa real. 
Lembre-se que na legítima defesa há repulsa justa a agressão injusta. Se ambos estão se agredindo mutuamente, 
não há repulsa justa de nenhum dos dois. Ambos agem injustamente. 
Anote! 
Não se permite legítima defesa recíproca. 
 
28. Legítima defesa putativa (imaginária) 
Quando eu era adolescente e ainda fazia o primeiro grau (acho que já não se chama assim, não é mesmo? Acho 
que “primário” ou algo assim.), fiquei apaixonado por uma coleguinha do colégio (Colégio Rogacionista de 
Brasília). Então, por conselho de um amigo, resolvi escrever uma cartinha para a minha amada. Ocorre que minha 
paixão tinha outra paixão, o NEGO TIM. 
“Nego Tim” era o moleque mais brigão da escola. Era repetente e mais velho, e se aproveitava disso para bater 
nos colegas menores e mais fracos, classificação em que eu me incluía (hehe). A minha amada entregou a 
declaração para “Nego Tim”, o qual prometeu que iria me bater na saída da escola. 
Como eu sou um cara valente (LÚCIO VALENTE), mandei devolver o recado, dizendo-lhe que seria EU que iria dar 
“porrada” nele na saída da escola. Pura fanfarrice! 
Antes de tocar o sino, eu pulei o muro da escola e fui-me embora (muito valente, né?). 
Nessa época, eu havia ganhado um vídeogame de aniversário. Era a época do NINTENDO (lembram?). A 
molecada ia toda lá pra casa brincar. 
 
 
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179 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Passado algum tempo, estou caminhando da escola pra casa, quando encontro quem? Isso mesmo, o NEGO TIM. 
- “Ei moleque, deixa eu trocar uma ideia contigo aí!” Diz Nego Tim, se aproximando rapidamente. 
Nesse momento, eu peguei uma pedra e joguei na cabeça de NEGO TIM e saí correndo. 
Depois, fiquei sabendo que NEGO TIM apenas queria ir jogar NINTENDO lá em casa. 
O que ocorreu no exemplo? Eu acreditei, sinceramente, que estava em legítima defesa, mas ela era apenas imaginária 
(putativa). 
Aplica-se, aqui, a regra do art. 20, § 1º, do Código Penal. 
Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime 
culposo, se previsto em lei. 
 Descriminantes putativas 
 § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, 
se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível 
como crime culposo. 
 
29. Consequência da Legítima defesa putativa: trata-se de hipótese de erro de tipo permisso, que afasta o dolo, 
podendo haver punição pelo resultado se ocorreu culpa no caso de o erro ser evitável. 
No exemplo acima, se ficasse demonstrado que meu erro era evitável (indesculável), eu deveria responder pela lesão 
corporal culposa em NEGO TIM. 
(POLICIA CIVIL_MG_2007) Não se reconhece como hipótese de legítima defesa a circunstância de dois inimigos 
que, supondo que um vai agredir o outro, sacam suas armas e atiram pensando que estão se defendendo. 
GABARITO: E 
30. Pode haver legítima defesa putativa contra legítima defesa real. 
PUTATIVA SEGUIDA DA REAL: 
A se desentende com B e promete matá-lo na próxima vez que o visse pela frente. B, amedrontado, compra um revólver e 
passa a andar sempre com ele, para se defender de A. Certo dia, seus caminhos se encontram e A, no intuito de 
 
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180 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
presentear B e desfazer o mal entendido, coloca a mão sob a camisa para lhe dar o presente. B, pensando que A sacaria 
uma arma, saca o revólver e atira em A (LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA). A, assustado com aquela situação, saca agora 
o revólver e atira em B (LEGÍTIMA DEFESA REAL). 
É o mesmo exemplo do NEGO TIM. 
 
REAL SEGUIDA DA PUTATIVA 
 
O pai de A agride injustamente o vizinho, que repele a agressão com um soco (LEGÍTIMA DEFESA REAL). No exato 
momento em que seu pai leva um soco, A chega em casa e vê seu pai sendo agredido pelo vizinho. A passa a agredir o 
vizinho, acreditando estar em legítima defesa de seu pai (LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA). 
 
31. Legítima defesa versus estado de necessidade 
Poderia ocorrer situação em que um dos agentes atue em legítima defesa e o outro em estado de necessidade? É claro 
que não. Quem atua em estado de necessidade pratica conduta amparada pelo ordenamento jurídico, não constituindo, 
assim, a agressão injusta, justificadora da legítima defesa. 
 
32. Estrito cumprimento de um dever legal e exercício regular do direito – considerações gerais 
Não há como estudar sistematicamente o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular do direito, uma vez que 
o CP não traz seus elementos como fezcom a legítima defesa e com o estado de necessidade. Assim, vamos abordar 
somente as informações necessárias para a prova, pode ser? Então, vamos lá! 
a) No estrito cumprimento do dever, o agente público se mantém dentro de suas atribuições e dentro dos limites 
legais pertinentes, como no caso do policial que cerceia a liberdade de alguém (fato típico de sequestro), mas justifica sua 
conduta pelo dever legal de prender em flagrante ou com mandado de prisão regularmente expedido pelo Poder 
Judiciário. 
(POLICIA CIVIL_MG_2007) Trata-se de estrito cumprimento de dever legal a realização, pelo agente, de fato típico 
por força do desempenho de obrigação imposta por lei. 
 
 
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181 Lúcio Valente ‐ Direito Penal ‐ Parte Geral 
Resposta: correta. 
 
( CESPE - 2004 - Polícia Federal - Delegado de Polícia ) Para prenderem em flagrante pessoa acusada de 
homicídio, policiais invadiram uma residência em que entrara o acusado, danificando a porta de entrada e sem 
mandado de busca e apreensão. Nessa situação, os policiais não responderão pelo crime de dano, pois agiram 
em estrito cumprimento do dever legal, que é causa excludente da ilicitude. 
 
Resposta: correto. 
 
 
b) No exercício regular do direito, qualquer cidadão desempenha atividade lícita dentro dos contornos da lei (ex.: um 
soco durante a luta de boxe; as cirurgias estéticas praticadas por médico habilitado). Observe que, caso o médico tenha 
que realizar uma cirurgia de emergência, uma vez que o perigo de morte da vítima é latente, estará ele amparado pelo 
estado de necessidade, não necessitando de qualquer autorização para tal. Não seria errado dizer, neste último caso, que 
o médico está, também, no exercício regular do direito. 
CESPE - 2008 - TCU - Analista de Controle Externo )Arnaldo, lutador de boxe, agindo segundo as regras desse 
esporte, matou Ailton durante uma luta. Nesse caso, em razão da gravidade do fato, a violência esportiva não 
será causa de exclusão do crime. 
Resposta: errado. 
 
( CESPE - 2009 - DPE - AL - Defensor Público ) Célio chegou inconsciente e gravemente ferido à emergência de 
um hospital particular, tendo o chefe da equipe médica determinado o imediato encaminhamento do paciente 
para se submeter a procedimento cirúrgico, pois o risco de morte era iminente. Luiz, irmão de Célio, 
expressamente desautorizou a intervenção cirúrgica, uma vez que seria necessária a realização de transfusão de 
sangue, fato que ia de encontro ao credo religioso dos irmãos. Nessa situação, o consentimento de Luiz com 
relação à intervenção cirúrgica seria irrelevante, pois os profissionais médicos estariam agindo no exercício 
regular de direito. 
Resposta: correto. 
 
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c) Não existe estrito cumprimento legal de matar, salvo na execução da pena de morte, em caso de guerra declarada. 
Assim, policial só mata com lastro nos requisitos da legítima defesa. Não é correta a afirmação de que policial que revida 
e mata bandido a tiros, está no estrito cumprimento do dever legal de matar. 
d) Conforme o previsto no artigo 301 do CPP, “Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes 
deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”. Assim, há duas possibilidades. Se a prisão em 
flagrante for realizada por particular, estará ele protegido pela excludente do exercício regular do direito. Caso a prisão em 
flagrante seja realizada por agente de segurança pública, estará ele no estrito cumprimento de um dever legal. Não há 
que se falar, in casu, em crime contra a liberdade individual praticado pelos mesmos. 
e) O estrito cumprimento do dever legal foi previsto pelo código penal, porém não recebeu dele uma definição legal, 
cabendo à doutrina estabelecer conceitos e limites. Exemplos desta excludente: oficial de justiça que cumpre o mandado 
de busca e apreensão, subtraindo coisa alheia móvel sem o seu consentimento; o policial que encarcera um assaltante; o 
fiscal da Receita Federal que apreende mercadorias ilegais etc. 
f) Mesmo em caso de exercício regular de um direito e estrito cumprimento do dever legal, o agente responderá pelo 
excesso doloso ou culposo. 
( PGT - 2008 - PGT - Procurador do Trabalho)Mesmo em caso de exercício regular de um direito, o agente 
responderá pelo excesso doloso ou culposo. 
Resposta: correto. 
33. Ofendículos 
Há grande divergência em relação às OFENDÍCULAS: se estariam justificadas como exercício regular de direito ou de 
legítima defesa, discussão inútil, pois em ambos casos levará à justificação da conduta. 
Ofendículos são instrumentos (cerca elétrica, arame farpado, caco de vidro, lanças etc.) ou animais de guarda 
predispostos para a defesa da de bens jurídicos. São aceitos por nosso ordenamento jurídico, mas o agente deve tomar 
certas precauções na utilização desses instrumentos, sob pena de responder pelos resultados dela advindos caso 
coloque em perigo inocentes. 
34. Consentimento do Ofendido (violenti non fit iniura) 
O consentimento do ofendido deve ser estudado com cautela, porquanto poderá significar uma excludente de tipicidade, 
de antijuridicidade ou, mesmo, um indiferente penal. 
 Ensina a doutrina que, caso a consentimento do ofendido esteja ínsito (dentro) no tipo penal, o caso será de excludente 
de tipicidade. Exemplo seria do crime de furto, uma vez que se subentende que o ato de “subtrair” seja realizado sem o 
 
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consentimento da vítima. No mesmo sentido, o art. 150 do Código Penal, ao tratar da violação de domicílio, diz: “Entrar ou 
permanecer, clandestinamente ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa 
alheia ou em suas dependências" (In fine). Caso haja consentimento de quem de direito, não há que se falar em violação 
de domicílio. Isso porque o dissenso da vítima é elementar do tipo penal. 
Quando a figura típica não contém o dissentimento (discordância) do ofendido como elementar, esta funciona como 
excludente da antijuridicidade. Exemplo, lesões corporais durante o ato de colocar “piercing”. Neste caso, o 
consentimento funcionaria como causa supra legal de exclusão do ilícito. Ensina Toledo que o consentimento só será 
válido sem contiver os seguintes requisitos (TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de Direito Penal, p. 215): 
que o ofendido tenha manifestado sua aquiescência livremente, sem coação fraude ou outro vício de vontade; que o bem 
jurídico lesado ou exposto a perigo de lesão se situe na esfera de disponibilidade do aquiescente; que o ofendido, no 
momento da aquiescência, esteja em condições de compreender o significado e as conseqüências de sua decisão, 
possuindo, pois capacidade para tanto; por fim, que o fato típico realizado se identifique com o que foi revisto e se 
constitua em objeto de consentimento pelo ofendido. 
Perceba, portanto, que o consentimento não pode afastar todas as hipóteses de crime, pois há bens jurídicos que são 
indisponíveis. Se José, querendo a morte, solicita a João que o mate. Será irrelevante na configuração do homicídio tal 
consentimento, uma vez que a vida é bem indisponível. 
RESUMINDO: 
a) gera atipicidade: o dissenso do titular do bem jurídico pertence ao tipo penal. Ex.: Não há furto com 
consentimento da vítima na subtração. 
b) gera exclusão da ilicitude: o bem jurídico é disponível. Ex.: Lesão corporal durante cirurgia estética. 
c) Não tem relevância jurídica, devendo o agente responder normalmente pelo resultado: o bem jurídico é 
indisponível. Ex.:

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