Lilith A Lua Negra
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Lilith A Lua Negra

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Lilith
A Lua Negra

Roberto Sicuteri

Lilith
A Lua Negra

Tradução: Norma Telles e J. Adolpho S. Gordo

3ª Edição

Paz e Terra

Ao leitor

Neste livro é contada a história de Lilith, a primeira companheira bíblica de Adão,
cujos traços a consciência coletiva apagou, distraidamente, no tempo incomensurável em que
se representa a história do homem.

É a história de um incubo, de um sonho, ou então é a história da mais inquietante
imagem derivada do arquétipo da Grande Mãe. Em todas as épocas o homem interroga a Lua;
chegou mesmo a tocá-la com as mãos. Não obstante, não desvendou, para si mesmo, o
mistério inconsciente, incluído em figurações e mitos que em certas épocas fazem-lhe apelo
— do interior — com seu fascínio e com uma mensagem obscura que, seguramente, fala da
alma e da carne, do amor e da morte. Isto porque fala da mulher.

Lilith, a Lua Negra, é o céu vazio e tenebroso no qual se projetam indagações e
possíveis respostas de um diálogo que não tem nada a ver com o racional e, muito menos,
com o sistemático-clínico: é o diálogo que o homem entretém com a própria alma, vivida em
sua totalidade, ou numa cisão-dolorosa.

É uma fantasia, um trabalho de imaginação ardente, que o autor lhes apresenta sem, de
nenhum modo, propor regras de leitura. Pode-se perceber que uma longa análise junguiana
ensina, com surpreendente simplicidade, a transformar uma neurose, inteiramente vivida na
dimensão sulfúrea da classificação nosográfica, numa enfermidade "criativa" onde a
imaginação recupera seu próprio espaço e instaura sua festa.

Assim, uma reflexão sobre o "feminino", sobre o instintivo, sobre as remoções e as
cisões do arquétipo da anima, pode ser empreendida por um caminho que, embora não
previsível, está bem distante da ars medica que quer encerrar novamente o imaginal
naquela dimensão positivista-racional, apertada, da qual tanto nos custou poder sair.

O texto só pretende narrar, restituir imagens, solicitar emoções. Deseja testemunhar
uma viagem pelo inconsciente pessoal e coletivo através de várias épocas. Não há nenhuma
resposta e nenhuma necessidade de verificação.

Evocada, Lilith está aqui, em sua realidade de Sombra. E interroga cada um de nós.
R.S.

O MITO DE LILITH E AS SUAS FONTES

Desde o início de sua criação, foi somente um sonho.
RABI SIMON BEN LAQISH

1. ADÃO, O ANDRÓGINO

A ausência de satisfação faz com que os objetos de
amor surjam aos nossos olhos como envoltos em um

mágico véu, e tenham aquela aparência de periculosidade
que constitui o seu fascínio.

TH. REIK

Na aurora do mundo, Jeová Deus pensou em criar o homem para que pudesse se tornar
o coroamento da Criação. E Deus disse: "Façamos o homem, que seja a nossa imagem,
segundo a nossa semelhança".

Assim, Ele estendeu a sua mão sobre a superfície da Terra, talvez ali onde estava o
monte Moriah e, apanhando poeira fina, misturou-a com outra terra das quatro partes do
mundo, borrifada com água de cada rio e cada mar existente. Uma massa de epher, dam,
marah (pó, sangue e bile) que deu vida a Adão, o primeiro homem vivente. Jeová Deus
colocou Adão no Jardim do Éden para que lhe fizesse honra.

Qual era a natureza do primeiro homem? Conheceu ele a aspereza da solidão e da
própria singularidade? Talvez observasse tantos animais entre seus semelhantes — cavalos,
cabras, pássaros, répteis e peixes — que se admirava de se ver só.

Nós pensamos na primeira estrutura afetiva e sexual de Adão em termos
antropológicos, mas existe um mistério ainda mais obscuro que devemos encarar, quando se
fala da primeira companheira do homem, de sua primeira esposa. É a mitologia bíblica que
nos ajuda a imaginar Adão — em sentido psíquico — como um verdadeiro e real
androgginos, isto é, macho e fêmea. No Gênesis I, 27 é dito: "Deus criou o homem à sua
imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou". É a passagem mais densa de
mistério, pois introduz o conceito da androginia no indivíduo segundo o supremo princípio da
harmonia total do Uno que é feito de Dois; mas é também conceito que consente em perpetuar
na terra — mediante a multiplicação da espécie na união do macho com a fêmea — a imagem
de Deus, pois o homem lhe é semelhante. Adão trazia em si, fundidos, o princípio masculino e
o princípio feminino e tais princípios só depois foram separados sucessivamente. Já está
implícita a resposta: Adão teve duas naturezas femininas, duas companheiras. Mas
procedamos com ordem ao analisar o mito da primeira esposa do homem. Muitas são as
fontes que permitem ver, nas aparentes contradições dos vários capítulos do Gênesis, uma
criação da mulher que respondia primeiro a motivações teológicas e, depois, a justificações
antropológicas. Adão era em si andrógino.

No Livro do Esplendor — o Sepher Ha-Zohar — é citada esta passagem:

Rabi Abba disse: O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo
pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança
{Gên. I, 26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi
criado macho e fêmea ao mesmo tempo.1

O enigma está no versículo citado do Gênesis onde é dito "... o criou" e logo após é
dito em vez "os criou". Adão teria sido, pois, para o Gênesis I, 26-27, dois em um, homem e
mulher. Ainda o Rabi Simeão, no Zohar, fala assim:

1
 Il libro dello Zohar, org. por J. De Pauly, Atanor, 1978. 14

Está escrito — Os criou macho e fêmea — {Gên. V, 2). Estes dois versículos
do início do quinto capítulo do Génesis encerram grandes mistérios. Nas palavras "Os
criou macho e fêmea" é expresso o mistério supremo, que constitui a glória de Deus,
que é inacessível à inteligência humana e que constitui objeto de Fé. É por este
mistério que o Homem foi criado. Recordem que o homem foi criado pelo mesmo
mistério através do qual foram criados o céu e a terra — as Escrituras se servem da
expressão "eis a Gênese do céu e da terra", e para a criação do homem elas usam
expressão semelhante: "eis o livro da Gênese do Homem".

O Rabi Simeão ben Jochai prossegue sua fala, sempre sobre o mesmo tema:

. . . Além disso, para a criação do céu e da terra, as Escrituras se servem do
termo behibaream (= quando foram criados), e para a criação do homem as Escrituras
se servem da expressão análoga beyom hibaream (— no dia em que eles foram
criados). As Escrituras dizem: "os criou macho e fêmea". Nós deduzimos que cada
figura, que não apresenta em si o macho e a fêmea, não se assemelha à figura celeste.
Este mistério já foi explicado. Recorde-se que o Senhor . . . não permanece onde o
macho e a fêmea não estão unidos. Ele cobre com suas bênçãos somente o lugar onde
o macho e a fêmea estão unidos. É por isto que as Escrituras dizem "os abençoou e
deu a eles o nome de Adão". Pois as Escrituras não dizem: o abençoou e lhe deu o
nome de Adão, visto que Deus só abençoa quando o macho e a fêmea estão unidos. O
macho não merece o nome de homem, enquanto não está unido à fêmea; é por isto
que as Escrituras dizem: "E deu a eles o nome de homem" (I, 55b).2

É evidente aqui a referência à imagem das núpcias místicas, a verdadeira e profunda
alquimia dos contrários, a coincidentia oppositorum dos princípios antagônicos e
complementares de Sol e Lua, que C. G. Jung analisou no comentário ao Rosarium
Philosophorum.

No Zohar, o Rabi Abba repete ainda que, no momento da criação, Deus fez o homem à
imagem do mundo do alto e à daquele de baixo; ele era a síntese do todo, a imagem do todo;
nele estavam todos os Sephiroth, isto é, todas as modalidades cifradas das manifestações de
Deus no humano. A luz de Adão se expandia em todo lugar