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Artigo Cegueira Deliberada

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2016	-	11	-	21
Revista	Brasileira	de	Ciências	Criminais
2016
RBCCRIM	VOL.	122	(AGOSTO	2016)
10.	A	APLICAÇÃO	DA	TEORIA	DA	CEGUEIRA	DELIBERADA	NOS	JULGAMENTOS	DA	OPERAÇÃO	LAVA	JATO
10.	A	aplicação	da	teoria	da	cegueira	deliberada	nos	julgamentos
da	Operação	Lava	Jato
The	willful	blindness	doctrine	applied	to	the	trials	of	"Lava	Jato
Operation"
(Autor)
RENATO	DE	MELLO	JORGE	SILVEIRA
Vice-Diretor	da	Faculdade	de	Direito	da	Universidade	de	São	Paulo.	Professor	Titular	da	Faculdade	de	Direito	da
Universidade	de	São	Paulo.	Advogado.	rmjs@usp.br
Sumário:
Introdução
1	A	cegueira	deliberada	no	Brasil	e	seu	emprego	nos	julgamentos	relativos	à	Operação	Lava	Jato
2	A	inicial	colocação	do	problema	subjetivo	na	realidade	brasileira
2.1	A	lavagem	de	dinheiro	e	a	busca	de	respostas	fora	da	dogmática	tradicional
2.2	A	origem	do	instituto	da	cegueira	deliberada	–	realidade	de	common	law
3	A	utilização	do	instituto	da	cegueira	deliberada	na	realidade	espanhola
4	As	aparentes	falhas	metodológicas	de	emprego	do	instituto	da	cegueira	deliberada	na	jurisprudência
nacional
5	Conclusões
Bibliografia
Área	do	Direito:	Penal
Resumo:
Os	chamados	julgamentos	dos	casos	criminais,	decorrentes	das	investigações	da	“Operação	Lava	Jato”,	dividem	as
opiniões	 do	mundo	 jurídico.	 Enquanto	 alguns	 se	 colocam	 a	 favor	 das	muitas	 condenações	 já	 ocorridas,	 outros
criticam	 fundamentalmente	 as	 posições	 dos	membros	 do	Ministério	 Público	 Federal	 e	 do	 Juiz	 encarregado	 do
caso.	O	presente	artigo	pretende,	assim,	analisar	a	utilização,	em	alguns	dos	julgamentos	já	ocorridos,	da	willful
blindness	doctrine	na	realidade	brasileira.
Abstract:
The	 trials	 of	 the	 criminal	 cases	 resulting	 from	 investigations	 of	 the	 so-called	 “Lava	 Jato	 Operation”	 divide	 the
opinion	of	the	legal	world.	While	some	people	show	their	agreement	with	the	many	convictions	that	have	already
taken	place,	others	have	strongly	criticized	the	position	taken	by	members	of	the	Public	Prosecutors’	Office	and
the	judge	in	charge	of	the	case.	The	objective	of	this	paper	is	to	analyze	the	use	of	the	willful	blindness	doctrine	in
the	Brazilian	scenario	for	trials	that	have	already	taken	place.
Palavra	Chave:	Direito	Penal	-	Lava	Jato	-	Elemento	subjetivo	-	Cegueira	deliberada
Keywords:	Criminal	Law	-	Lava	Jato	Operation	-	Mens	rea	-	Willful	blindness
Introdução
Contam	estórias	acadêmicas	que	Bettiol,	célebre	mestre	patavino,	em	tom	jocoso,	dizia	a	alunos	seus,	ao	principiar
o	estudo	da	dimensão	do	elemento	subjetivo	em	Direito	Penal,	que	devia-se	ter	em	conta	que	“Dolo”	seria	muito
mais	do	que	uma	pequena	cidade	entre	Padova	e	Veneza.	De	fato,	apesar	de	restar	claro	que	Dolo	–	a	charmosa
quinhentista	 comuna	 italiana	 do	 Vêneto	 –	 nunca	 se	 confundiu	 com	 o	 conhecido	 instituto	 penal,	 tampouco,	 já
desde	aquela	época,	e	desde	uma	perspectiva	dogmática,	podia-se	negar	a	abrangência	e	a	complexidade	deste.
A	 irônica	 menção	 se	 justifica	 quando	 da	 presença,	 cada	 vez	 mais	 intensa,	 do	 emprego	 da	 chamada	 cegueira
deliberada	 nos	 julgamentos	 da	 Operação	 Lava	 Jato,	 em	 certo	 paralelismo	 com	 a	 figura	 do	 dolo	 eventual.	 Tido
como	 o	 maior	 caso	 levado	 aos	 tribunais	 envolvendo	 corrupção,	 a	 mencionada	 Operação	 mobilizou	 o	 mundo
jurídico	 nacional.	 Várias	 das	 leituras	 jurisprudências	 então	 havidas	 sobre	 determinados	 institutos	 parecem
inovadoras,	 outras,	 peculiares,	 e	 inusitadas	 tantas.	 Embora	 seja	 certo	 que	 exista	 um	 anseio	 e	 uma	 expectativa
popular	 por	 punições,	 não	 se	 pode	 admitir	 que	 existam	 leituras	 dogmáticas	 distantes	 de	 um	 esperado
racionalismo.	 Nesse	 sentido,	 sempre	 é	 de	 se	 esperar	 um	 equilíbrio	 entre	 a	 segurança	 jurídica	 e	 a	 (suposta)
efetividade	do	Direito.
Esse	 pensamento	 parece	 bastante	 oportuno	 ao	 se	 imaginar	 que	 boa	 parte	 das	 decisões	 condenatórias	 dos
julgamentos	 derivados	 da	 Operação	 Lava	 Jato	 (em	 especial	 no	 que	 diz	 respeito	 a	 imputações	 de	 lavagem	 de
dinheiro),	baseiam-se	em	leituras	permissivas	da	utilização	do	instituto	da	cegueira	deliberada	(willful	blindness)
em	sede	penal	brasileira,	como	substituto	ou	complemento	da	noção	de	dolo	eventual.	Novamente,	pois,	a	questão
do	dolo	é	posta	em	pauta.	De	fato,	imaginando	que	a	cegueira	deliberada	pode,	e	deve,	ir	muito	mais	adiante	do
que	a	simplista	imagem	dada	pela	tática	do	avestruz	(mencionando	a	figura	do	animal	que	esconde	a	sua	cabeça
em	um	buraco	para	não	ver	o	que	passa	ao	seu	redor),	tem-se	que	ela	assume	inúmeras	variações.	Mas	seria	ela
cabível	 da	 forma	 como	 foi	 utilizada?	 O	 presente	 ensaio	 pretende,	 assim,	 analisar	 a	 questão	 pertinente	 à
possibilidade	e	racionalidade	ou	não,	de	seu	emprego	como	vem	sendo	posto	nos	julgamentos	de	casos	derivados
da	Operação	Lava	Jato.
1.	A	cegueira	deliberada	no	Brasil	e	seu	emprego	nos	julgamentos	relativos	à	Operação	Lava
Jato
Em	alguns	aspectos,	costuma-se	dizer	que	a	Operação	Lava	Jato	 tem	proximidades	contextuais	com	a	Operação
Mãos	 Limpas,	 na	 Itália	 dos	 anos	 1990.	 De	 fato,	 a	 Operação	 Lava	 Jato,	 segundo	 o	 Ministério	 Público	 Federal
brasileiro,	consiste	na:
	 (...)	 maior	 investigação	 de	 corrupção	 e	 lavagem	 de	 dinheiro	 que	 o	 Brasil	 já	 teve.	 Estima-se	 que	 o	 volume	 de
recursos	desviados	dos	cofres	da	Petrobras,	maior	estatal	do	país,	esteja	na	casa	de	bilhões	de	reais.	Soma-se	a	isso
a	expressão	econômica	e	política	dos	suspeitos	de	participar	do	esquema	de	corrupção	que	envolve	a	companhia.
No	 primeiro	momento	 da	 investigação,	 desenvolvido	 a	 partir	 de	março	 de	 2014,	 perante	 a	 Justiça	 Federal	 em
Curitiba,	 foram	 investigadas	 e	 processadas	 quatro	 organizações	 criminosas	 lideradas	 por	 doleiros,	 que	 são
operadores	do	mercado	paralelo	de	câmbio.	Depois,	o	Ministério	Público	Federal	recolheu	provas	de	um	imenso
esquema	 criminoso	 de	 corrupção	 envolvendo	 a	 Petrobras.	 Nesse	 esquema,	 que	 dura	 pelo	 menos	 dez	 anos,
grandes	empreiteiras,	organizadas	em	cartel,	pagavam	propina	para	altos	executivos	da	estatal	e	outros	agentes
públicos.	O	valor	da	propina	variava	de	1%	a	5%	do	montante	total	de	contratos	bilionários	superfaturados,
O	que	foi	alegadamente	distribuído	para	uma	enormidade	de	pessoas	e	agentes	públicos. 1
Mesmo	havendo	supostamente	uma	enormidade	de	elementos	probatórios,	em	diversas	sentenças	pretendeu-se
justificar	a	condenação	de	alegadas	condutas	de	lavagem	de	dinheiro	na	modalidade	de	dolo	eventual.	Aliás,	foi-se
mais	longe,	e	procurou-se,	sim,	tecer	um	paralelo	do	dolo	eventual	com	o	é	denominado	cegueira	deliberada,	um
dos	institutos	que	explicaria	o	elemento	subjetivo	em	sede	de	common	law. 2
As	noções	de	cegueira	deliberada	são	encontradas,	no	Brasil,	ainda	que	episodicamente,	desde	o	conhecido	caso
do	 assalto	 do	 Banco	 Central	 do	 Brasil,	 ocorrido	 em	 Fortaleza,	 Ceará.	 Ocorre	 que	 naquela	 oportunidade,	 houve
reforma	da	decisão	 condenatória	de	primeiro	grau	pelo	Tribunal	Regional	Federal	da	1.ª	Região. 3	Um	segundo
momento	 de	 incidência	 se	 verificou	 no	 julgamento	 da	 AP	 470,	 o	 chamado	 “caso	 do	 mensalão”,	 em	 sede	 do
Supremo	Tribunal	Federal.	Naquela	oportunidade,	o	Tribunal	utilizou	o	instituto,	por	sua	vez,	para	referendar	as
condenações	de	diversos	acusados	por	lavagem	de	dinheiro. 4
Também	 podiam	 ser	 percebidas	 outras	 decisões	 condenatórias,	 principalmente	 junto	 ao	 Tribunal	 Regional
Federal	da	4.º	Região,	com	algumas	menções	em	outros	Tribunais, 5	em	que	se	encontravam	menções	episódicas
ao	uso	da	 cegueira/ignorância	deliberada	como	 fator	de	equivalência	ao	dolo	eventual. 6	 Uma	questão	bastante
curiosa,	aqui,	é	o	fato	de	que	o	 juiz	 titular	da	13.ª	Vara	Criminal	Federal	de	Curitiba,	Paraná,	responsável	pelos
julgamentos	derivados	da	Operação	Lava	 Jato,	 chegou	a	 oficiar,	 como	assessor,	 no	Pretório	Excelso	quando	do
julgamento	do	Mensalão,