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Artigo Cegueira Deliberada

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de	 dinheiro	 parece,	 também,	 limitada	 ao	 estabelecimento	 de	 parâmetros	 bem	 definidos	 sobre	 o	 que
seriam	as	 fronteiras	 do	 permitido.	 Imaginar-se	 a	 permissão	de	 imputação	 absolutamente	 generalizada	do	dolo
eventual	sobre	qualquer	sorte	de	atividade,	seria	o	mesmo	que	legitimar	uma	responsabilização	penal	para	além
da	responsabilidade	percebida	em	atividades	cotidianas.	Não	se	trata,	como	exposto	na	jurisprudencia	espanhola,
de	alguém	que	“pudiendo	y	debiendo	conocer,	la	naturaleza	del	acto	o	colaboración	que	se	le	pide,	se	mantiene	en
situación	 de	 no	 querer	 saber,	 pero	 no	 obstante	 presta	 su	 colaboración,	 se	 hace	 acreedor	 a	 las	 consecuencias
penales	que	se	deriven	de	su	antijurídico	actuar”.
Talvez	outros	horizontes	possam	ser	trabalhados	nessa	busca,	em	especial	quando	se	está	a	trabalhar	com	campos
ainda	enigmáticos	do	Direito	Penal,	como	é	o	exemplo	recorrente,	das	questões	ligadas	ao	mundo	digital.	Quem
sabe	aqui,	firme-se	campo	propício	para	novos	desenvolvimentos.	Não,	contudo,	um	uso	desmedido	e	impensado
na	civil	law.	Nesse	sentido,	é	de	se	rejeitar	semelhante	incontido	uso.
5.	Conclusões
Observados	os	pontos	destacados,	parece	restar	claro	que,	em	primeiro	lugar,	não	se	pode	dizer	que	dolo	eventual
e	cegueira	deliberada	representam	um	mesmo	instituto.	Eventualmente,	podem	eles	coincidir,	mas	nunca	de	se
dizer	 por	 sua	 sinonímia.	 Não	 existe	 uma	 coincidência	 de	 sentidos,	 até	mesmo	 porque,	 se	 assim	 o	 fosse,	 seria
absolutamente	supérflua	e	desnecessária	toda	a	discussão.
Tendo	isso	em	mente,	compete	aclarar	duas	distintas	situações,	vistas	em	ordem	inversa	ao	exposto	no	presente
ensaio.	É	de	se	ver	que,	em	termos	mundiais,	pode-se	verificar	uma	concordância	ou	uma	discordância	com	os
predicados	da	teoria	da	willful	blindness.	O	que	parece,	contudo,	equivocado,	é	a	sua	utilização	unicamente	como
critério	argumentativo	para	 referendar	uma	decisão	calcada,	unicamente,	 em	supostas	bases	 construídas	 sob	a
égide	do	dolo	eventual.
Assim,	por	primeiro,	que	se	diga	que,	a	partir	da	verificação	de	um	não	paralelismo	entre	dolo	eventual	e	cegueira
deliberada,	dever-se-ia	 fazer	a	 análise	 sobre	a	possibilidade	de	utilização	do	 instituo	de	origem	anglo-saxã,	 em
sede	de	civil	law.	As	sentenças	oriundas	da	Operação	Lava	Jato,	por	exemplo,	sustentam	a	realidade	dada	no	STE
como	indício	dessa	legitimidade.	Neste	ponto,	concorda-se	com	o	alegado,	mas	com	um	destaque.	É	de	se	imaginar
que	a	cegueira	deliberada	pode	até	mesmo	se	portar	como	um	tertium	genus	subjetivo,	próximo	ao	dolo	eventual,
mas	somente	em	um	horizonte	(como	o	espanhol	ou	alemão),	onde	não	exista	uma	definição	ideal	do	que	venha	a
ser	dolo	ou	dolo	eventual.	E,	 isso	fica	ainda	mais	aceitável	quando	se	verifica	que	a	 legislação	espanhola	acaba
prevendo	a	situação	de	dolo	eventual	no	próprio	crime	de	lavagem	de	dinheiro,	fazendo	tábula	rasa	da	discussão
a	esse	respeito.
Em	 segundo	 lugar,	 cabe	 a	 derradeira	 dúvida	 sobre	 a	 possibilidade	 de	 aplicação	 do	 instituto	 no	 Brasil,	 e,	 em
especial,	 para	 a	 imputação	 de	 lavagem	 de	 dinheiro.	 Aqui,	 a	 consideração	 conclusiva	 é	 negativa.	 Não	 parece
correta	a	aplicação,	em	primeiro	 lugar	porque	as	 sentenças	mencionadas,	aqui	analisadas,	não	explicaram	que
geração	da	willful	blindness	doctrine	estavam	a	considerar.	A	visão	simplista	de	um	mero	fechar	de	olhos	foi	há
muito	 abandonada,	 justamente	 pela	 insegurança	 que	 dela	 decorria.	 Os	mínimos	 requisitos	 para	 sua	 aplicação,
vale	 dizer,	 o	 necessário	 conhecimento	 da	 presença	 de	 uma	 alta	 probabilidade	 de	 ocorrência	 danosa,
simplesmente	não	foram	avaliados.
Além	disso,	a	sua	utilização	nos	julgamentos	dos	feitos	derivados	da	Operação	Lava	Jato	simplesmente	ignorou	a
particularidade	da	expressa	previsão	típica	do	conceito	de	dolo	no	Código	Penal,	situação	completamente	diversa
da	 vista	 e	 encontrada	 na	 Espanha,	 a	 qual	 foi	 utilizada	 como	 justificativa	 do	 paralelismo.	 Essa,	 em	 especial,
também	uma	causa	determinante	para	a	rejeição	do	emprego,	 como	se	deu,	da	cegueira	deliberada	no	cenário
brasileiro,	 pois,	 caso	 se	 pretendesse	 sua	 utilização,	 haveria	 de	 se	mostrar	 necessária,	 ao	menos,	 uma	 alusão	 à
superação	posta.
Várias	análises	poderiam	ser	 feitas	em	relação	à	 justificativa	do	porquê	 isso	se	deu.	A	resposta	mais	 simples,	e
possivelmente	a	correta,	conforme	apontado	na	tão	mencionada	realidade	espanhola	por	autores	da	envergadura
de	Ragués	I	Vallès,	seria	de	que,	com	isso,	se	mostra	facilitada	a	função	condenatória.	Não	se	faz,	por	assim	dizer,
necessária	prova	do	dolo,	ou	do	conhecimento	prévio,	como	alude	à	literatura	estrangeira,	e	dá-se	um	aparente
contentamento	com	a	percepção	da	autocolocação	em	estado	de	ignorância.	O	risco	dogmático	da	ampliação	do
foco	subjetivo	através	desse	novo	instituto,	em	particular	no	Brasil	parece,	assim,	absolutamente	temerário,	pois
tudo,	 simplesmente	 tudo,	 poderia	 ser	 enquadrado,	 de	 alguma	 forma,	 como	 situação	 de	 cegueira,	 em	 algum
momento,	 deliberada.	 Em	 busca	 de	 um	 equilíbrio	 entre	 eficácia	 dessa	 aplicação	 e	 a	 garantia	 de	 um	 processo
equilibrado,	indubitavelmente	é	de	se	ficar	com	a	garantia	e	a	rejeição	à	cegueira	deliberada,	ao	menos	qual	se
deu	nos	julgamentos	aqui	vistos.
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