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Relações Econômicas Internacionais Unidade 1 Introdução A globalização, as transformações no mundo do negócios e os avanços industriais por meio da tecnologia também alteraram a competição entre empresas no seu âmbito interno e externo. Nesse sentido, o comércio internacional passou a figurar como fator benéfico para os países, ampliando a produção das empresas e expandindo os mercados consumidores, o que pode significar aumento de competitividade frente a outros países. No mundo atual, nenhuma nação existe em isolamento econômico. Todos aspectos da economia de um país - suas indústrias, setores de serviços, níveis de renda e emprego, padrão de vida - estão vinculados às economias e seus parceiros comerciais. (CARBAUGH, 2008, p. 3) No Brasil, assim como em todos os países, as relações econômicas internacionais, além de movimentarem bens e serviços, também exercem papel fundamental no equilíbrio da balança comercial e, consequentemente, no aumento do crescimento econômico. Dessa forma, a evolução histórica no âmbito econômico e político provocou um alto grau de interdependência nas economias atuais. Krugman e Obstfeld (2001) comentam que os países participam do comércio internacional, primeiramente, porque não são iguais, e assim suas diferenças criam um arranjo produtivo, em que cada um produz algo que o outro necessita. Outro motivo para comercializarem entre si é para obterem a economia de escala¹, que nada mais é do que produzir alguns tipos de bens em uma escala maior, ou seja, organizar a produção de maneira que se alcance a maior eficiência possível. Juntos, vamos conhecer os conceitos, as teorias e as políticas de comércio internacional que podem auxiliar no entendimento do desempenho da economia global? 1 Economia de escala: organiza o processo produtivo de forma que se alcance a máxima utilização dos fatores produtivos envolvidos no processo, buscando baixos custos de produção com maiores de bens e serviços. 2. CONCEITOS INTRODUTÓRIOS SOBRE O COMÉRCIO INTERNACIONAL Já vimos que o comércio internacional surgiu como uma ação de necessidade para suprir determinadas carências (produtos ou serviços) dos países. Assim, por meio das exportações e importações de produtos, serviços ou commodities, os países podem expandir seu mercado e aumentar o fluxo de capital. Em economia, antes mesmo da escola clássica, os próprios mercantilistas esboçavam ideias que, depois, poderiam ser aplicadas à questão do comércio internacional. Eles se preocupavam com o acúmulo de metais preciosos, o que levaria à riqueza de uma nação, assim imaginavam que poderiam aumentar o estoque de capital ampliando as exportações (o que traria aumento de metais preciosos) e reduzindo as importações (impedindo a fuga dos metais preciosos). Embora a escola mercantilista tenha realizado uma contribuição com essa aplicação inicial, a escola clássica traria uma observação relevante e importante para o ramo da economia internacional. Merece destaque a relação observada por Adam Smith e David Ricardo, com a Teorias das vantagens absolutas e a Teoria das vantagens comparativas, respectivamente. Oliveira (2007) comenta que, na visão de Adam Smith, os países exportariam os produtos que os custos de produção absolutos sejam menores, e importariam aqueles que os custos de produção absolutos sejam superiores aos do país parceiro comercial, dessa forma, haveria uma expansão da produção, da riqueza e do bem-estar mundial. David Ricardo utilizou uma análise hipotética dos custos de produção de vinho em Portugal e tecidos na Inglaterra para ilustrar seu modelo. Nesse caso, Portugal teria os custos de produção de vinho e de tecidos menores que a Inglaterra, no entanto, o comércio ainda traria benefícios aos dois países, por vantagens relativas ou comparativas. Nesse sentido, reforçam Krugman e Obstfeld (2001, p. 15), “o comércio entre dois países pode beneficiar ambos os países, se cada um produzir os bens nos quais possui vantagens comparativas”. O conceito das vantagens comparativas introduzido por David Ricardo, mesmo com algumas críticas, ainda forneceu fundamentos ao debate sobre o comércio internacional, que mais tarde auxiliaria na discussão do modelo neoclássico conhecido como Heckscher-Ohlin. "Em linhas gerais, a teoria de Heckscher-Ohlin afirma que cada país se especializa e exporta o bem que requer utilização mais intensiva de seu fator de produção abundante" (CARVALHO; SILVA, 2002, p. 25). A ideia proposta nos trabalhos de Eli Hesckscher e Bertil Ohlin seria ainda aproveitada por Paul Samuelson em forma de teorema, o que ficou conhecido, na literatura da economia internacional, como Teorema de Heckscher-Ohlin-Samuelson. Dessa maneira, o debate em torno do comércio internacional foi – e ainda é – fundamental para um melhor aproveitamento dos fatores de produção e para a minimização de impactos impostos pela curva de possibilidade de produção de cada país. Nesse contexto, a grande necessidade de manter relações comerciais com outras nações também trouxe uma complexidade em termos de transações políticas, comerciais e distribuição de renda, o que necessita de análises e estratégias bem fundamentadas por parte dos governos. Uma nítida reflexão a respeito desse comércio são os ganhos mútuos nas negociações, no entanto, algumas observações serão necessárias a esse respeito, como comenta Krugman, Obstfeld e Melitz (2015, p. 3-4): Embora nações geralmente ganhem com o comércio internacional, é bem possível que o comércio internacional dentro de grupos específicos dentro das nações - em outras palavras, esse comércio internacional terá efeitos sobre a distribuição de renda. Os efeitos do comércio sobre a distribuição de renda são há muito tempo uma preocupação dos teóricos de comercio internacional. É por isso que essa preocupação passou a ocupar lugar no debate político do mundo real. Assim, antes da aplicação das políticas governamentais, é necessário que se entenda o padrão do comércio, ou seja, o porquê de a Arábia Saudita exportar petróleo e o Brasil exportar café. É preciso compreender explicações utilizadas por economistas em relação à produtividade do trabalho ou à utilização relativa dos fatores de produção nas mercadorias, e ainda a questão da tecnologia empregada. O debate sobre quanto de comércio deve ser permitido levou a uma nova orientação nos anos 1990. Após a Segunda Guerra Mundial, as democracias avançadas conduzidas pelos Estados Unidos adotaram uma ampla política de remover barreiras para o comércio internacional; essa política refletia a visão de que o livre comércio era uma força não apenas para a prosperidade, mas também para promover a paz mundial. (KRUGMAN; OBSTEFELD; MELITZ, 2015, p. 4) Outro ponto que merece atenção é a questão dos fluxos de capitais referentes ao comércio internacional. No balanço de pagamentos se registram as relações entre o país e o restante do mundo, o que pode refletir em um superávit ou déficit comercial. Nessa mesma direção, a taxa de câmbio configura-se como um instrumento importante em relação às decisões comerciais para com o exterior e que pode afetar o equilíbrio com o cenário externo. Além de comércio internacional, vários atos relacionados às atividades econômicas passaram a tomar proporções além das fronteiras nacionais, formando um conjunto de atividades que constituem um arranjo chamado de relações econômicas internacionais. O avanço tecnológico e a introdução da internet eliminaram a distância entre os países e mercados. Mike Moore (Diretor Geral da OMC² ) cita o seguinte exemplo: um empresário brasileiro, dono de uma pequena empresa, não tinha condições de vender seus produtos na Alemanha ou no Japão porque seriam necessários milhares de dólares para manter uma equipe de vendas do outro lado do mundo. Com a internet, os empresários têm acesso direto aos consumidores, sem necessidade de intermediários. (MAIA, 2011, p. 7) Assim, os avanços tecnológicos alteraram as relações econômicas, a organização interna das empresase a forma com que o governo pratica suas políticas, com o objetivo de balizar tais relações. Foi possível compreender a importância da OMC? Podemos seguir em frente? Diante do que se estudou, é possível dizer que os países perceberam a importância de negociar entre si quando foi necessário obter um grande leque de produtos, os quais não eram viáveis economicamente produzir e pela limitação dos fatores de produção. Assim, deu-se o processo de abertura comercial em relação à produção e ao consumo, o que potencializou o desenvolvimento do comércio internacional e trouxe certa complexidade para as relações, o que se tornou alvo de muitos debates dentro da economia internacional. Os países, agora, necessitam praticar um tipo de política que possa trazer ganhos nesse novo modelo de comércio, bem como possibilitar uma equidade no que diz respeito aos efeitos sobre a renda e, ainda, sobre o balanço de pagamentos. 3. TEORIA DA POLÍTICA COMERCIAL Com algumas implicações percebidas na teoria que defendia o livre comércio, as relações comerciais contemporâneas adotaram então o intervencionismo do governo como protetor do produto nacional. Geralmente, o governo intervém com o objetivo de favorecer o produto nacional frente aos concorrentes estrangeiros. Esse processo é denominado proteção e, embora predominantemente vise a reduzir as importações, pode incluir mecanismos de promoção às exportações. (CARVALHO; SILVA, 2002 p. 55) Tal proteção pode ser realizada através de um conjunto de instrumentos (de responsabilidade do Estado) sobre as relações com o comércio exterior, chamados de Política Comercial. Essas políticas envolvem estratégias diferentes de acordo com a direção que o país quer tomar, referentes às atividades econômicas voltadas para o setor externo. Segundo Krugman, Obstfeld e Melitz (2015), as ações tomadas pelos governos podem ser por meio de impostos sobre as transações internacionais, limitações sobre os volumes de importações, ou ainda alguns subsídios para algumas transações. Um grande questionamento é: qual seria a melhor política comercial para um país? No caso da imposição de uma tarifa ou cotas de importação, quem se beneficiaria ou quem perderia com isso? Dessa forma, é importante que se conheça os instrumentos da política comercial e quais os efeitos que eles provocam nos países que negociam. 3.1 Instrumentos de Política Comercial O governo utiliza-se de diversas maneiras para influenciar o comércio, assim, o conjunto de medidas a ser adotada também depende do que o governo objetiva para seu país. Conforme a Figura 1.4, é possível verificar alguns instrumentos da política comercial. Figura 1.4 | Instrumentos da política comercial O primeiro instrumento de política comercial a ser ressaltado trata-se da tarifa. "Uma tarifa aduaneira, a mais simples das políticas de comércio, é um imposto cobrado quando uma mercadoria é importada" (KRUGMAN; OBSTEFELD; MELITZ, 2015, p. 161). As tarifas possuem duas classificações, sendo elas tarifas específicas e tarifas advalorem. Para as tarifas específicas é cobrada uma taxa fixa sobre a mercadoria (por unidade) importada. Já a tarifa advalorem refere-se aos impostos cobrados como uma fração percentual do bem importado. No caso de ambas as tarifas, o efeito será aumentar o custo de enviar um bem para um país. O objetivo básico da tarifa é proteger o produtor doméstico da concorrência internacional. Vimos que uma de suas consequências é o aumento do preço do produto protegido no mercado do país importador. Os custos e benefícios dessa elevação de preços podem ser avaliados a partir dos conceitos de excedente do consumidor e do produtor. (CARVALHO; SILVA, 2002, p. 58) Nesse contexto, é possível compreender que a tarifa é uma forma muito antiga de política de comércio, podendo ser utilizada como uma fonte de renda para o governo e como um protetor ao mercado doméstico, mas que, em economias modernas, pode até perder a utilidade devido a outras formas de proteção. Por esse ângulo, explicam Krugman e Obstfeld (2001, p. 194): A importância das tarifas diminuiu nos últimos tempos, porque os governos modernos normalmente preferem proteger as indústrias domésticas por meio de várias barreiras não tarifárias, tais como cotas de importação (limitações sobre a quantidade importada) e restrições de exportações (limitações sobre a quantidade exportada - geralmente impostas pelo país exportador a pedido do país importador). As barreiras não tarifárias (BNTs) são entendidas como um mecanismo que não se utiliza de qualquer movimento tarifário. De forma clássica, as BNTs são equivalentes às cotas de importações que se referem às quantidades (limitadas) importadas. Outra forma de barreira não tarifária são as "barreiras técnicas", as quais também são utilizadas como instrumento de defesa, mas voltado para a sociedade. Por exemplo, quando se proíbe a entrada de determinado tipo de carne proveniente de locais com alguma epidemia, ou até mesmo produtos que não atendem as regras de segurança alimentar e higiene. Ao entender como as tarifas funcionam, é possível analisar outro instrumento de política comercial, o subsídio. De acordo com Carvalho e Silva (2002), o subsídio equivale a um pagamento feito pelo governo, que pode ser direto ou indireto, a fim de estimular exportações ou desestimular importações. Um subsídio às exportações é um pagamento a uma empresa ou indivíduo que embarca um bem para o exterior. Assim como uma tarifa, o subsídio à exportação pode ser específico (uma soma fixa por unidade) ou ad valorem (uma proporção do valor exportado). Quando o governo oferece um subsídio à exportação, os exportadores irão exportar o bem até o ponto em que o preço local exceda o preço estrangeiro pela quantidade do subsídio. (KRUGMAN; OBSTFELD, 2001, p. 204) O subsídio é concedido por meio de um pagamento em dinheiro, entretanto, também pode ser pela redução de impostos ou financiamentos com juros mais baixos do que aqueles ofertados no mercado normalmente. Assim, esse instrumento, geralmente, proporcionará uma redução de custos ao produtor. Já para o consumidor, esse tipo de prática é benéfico também, pois ele pagará um preço menor pela mercadoria. Da mesma forma que a tarifa, o subsídio promoverá alteração no excedente do consumidor, no excedente do produtor e na distribuição de renda, o que pode ser verificado na Tabela 1.1. Tabela 1.1 | Efeitos de políticas comerciais alternativas Fonte: Krugman e Obstfeld (2001, p. 213). Observando a Tabela 1.1, é possível perceber que, independentemente do instrumento da política comercial – tarifa, cota de importação, subsídio ou outra alternativa –, cada um deles altera as relações entre consumidor, produtor, governo e o aspecto geral da sociedade. Normalmente, o objetivo de o governo interferir no comércio internacional é favorecer o produto nacional, dessa forma, esse processo inclui vários mecanismos, os quais vimos alguns anteriormente. Cada um desses mecanismos traz efeitos para a concorrência, para a distribuição de renda e, ainda, sobre o balanço de pagamentos. Resumo Nesta webaula, vimos como as relações econômicas entre países são importantes no mundo moderno. Os países iniciaram o processo de comercializar entre si devido à impossibilidade de produzir tudo aquilo que necessitava, ou seja, a curva de possibilidade de produção de cada país possui uma limitação, pois os fatores disponíveis não são suficientes. O fenômeno da globalização também contribuiu para o estreitamento das relações entre as nações no campo social, político e econômico, nesse caso, a relação comercial passou a ser fundamental para o equilíbrio interno do país. Nesse contexto, a economia, com o auxílio das correntes teóricas, iniciou um debate sobre as relações econômicas internacionais. Desde a corrente clássica até discussões mais modernas, muito se discute sobre os ganhos do comércio e de como os governos devem conduzir suas políticas, a fim de criar eficiência em suas negociações. Na teoriaclássica, observamos grandes contribuições, como a de Adam Smith e David Ricardo. Aprofundando os estudos, surgem modelos, como o de Heckscher-Ohlin, que coloca a questão da especialização e exportação de cada país naquele produto no qual se utiliza o fator de produção existente de forma abundante. Mais à frente, em outras vertentes, verifica-se a importância da tecnologia nesse processo de produção e exportação. À medida que o comércio internacional ocupou um espaço importante na economia dos países, as relações comerciais e econômicas também se tornaram mais complexas, necessitando atenção para a condução das políticas envolvidas nesse setor. As políticas comerciais, como imposição de tarifas, subsídios, entre outras, se tornaram alvo de estudos, com o objetivo de equilibrar as negociações e trazer benefícios para os países, consumidores e para a sociedade em geral. Assim, empresas, consumidores e governo transformaram o modelo de comércio, em que cada um dos agentes busca atingir seu objetivo.