politica de saude mental de belo horizonte o cotidiano de um
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politica de saude mental de belo horizonte o cotidiano de um


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POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL
DE BELO HORIZONTE:
O Cotidiano de uma Utopia
1ª edição
POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DE BELO HORIZONTE2
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte
Secretaria Municipal de Saúde
Fernando Damata Pimentel
Prefeito
Helvécio Miranda Magalhães Júnior
Secretário Municipal de Saúde
Maria do Carmo
Secretária Municipal Adjunta de Saúde
Sônia Gesteira e Matos
Gerente de Assistência
Miriam Nadim Abou-Yd
Políbio de Campos Souza
Rosemeire Silva
Coordenação de Saúde Mental
Organização: Kelly Nilo, Maria Auxiliadora Barros Morais, Maria Betânia de Lima Guimarães, Maria
Eliza Vasconcelos, Maria Tereza Granha Nogueira, Miriam Abou-Yd.
Revisão ortográfica: Cybele Maria de Souza
Ilustração da capa: \u201cMandala\u201d Ronaldo C. de Oliveira (C.C. Carlos Prates)
Diagramação e impressão: Staff Art Marketing e Eventos . www.staffart.com.br
Distribuição e Informações: Secretaria Municipal de Saúde - Coordenação de Saúde Mental
Av. Afonso Pena, 2336 - 5º andar - CEP 30130-007 - Tel: (31) 3277-7793 - e-mail: smental@pbh.gov.br
N695p Política de Saúde Mental de Belo Horizonte: o cotidiano de uma utopia / Kelly
Nilo; Maria Auxiliadora Barros Morais; Maria Betânia de Lima Guimarães; Maria Eliza
Vasconcelos; Maria Tereza Granha Nogueira; Miriam Abou-Yd.(Org.) \u2014 Belo Horizonte:
Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2008.
258p.
Inclui bibliografia
1.Sistema Unico de Saúde 2. Saúde Mental 3. Programa Saúde da Família 4.
Portadores de Sofrimento Mental
I. NILO,Kelly II. MORAIS, Maria Auxiliadora Barros de III. GUIMARÃES,
Maria Betânia de Limas IV. VASCONCELOS, Maria Eliza V. NOGUEIRA,
Tereza Granha VI. ABOU-YD, Mirim VII. Belo Horizonte-(MG) Secretaria
Municipal de Saúde VIII. Título.
 CDD: 362
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APRESENTAÇÃO
Secretário Municipal de Saúde de Belo Horizonte
PREFÁCIO
Comissão Organizadora
INTRODUÇÃO
Coordenação de Saúde Mental
CAPÍTULO I - CONSTRUINDO CAMINHOS EM REDE
A Saúde Mental na Atenção Básica de Saúde:
Uma Parceria com as Equipes de Saúde da Família
Saúde Mental e PSF: Testemunho de Um Trabalho Conjunto
Uma Clínica Possível em Saúde Mental
PSF e Saúde Mental: Compartilhando Histórias
Integração do Programa Saúde da Família com o Programa de
Saúde Mental em um Centro de Saúde de Belo Horizonte
A Interface Saúde Mental, Programa de Saúde da Família e
Cersam na Área de Abrangência do Centro de Saúde Tupi
Paisagens Humanas, Paisagens Urbanas
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SUMÁRIO
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POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DE BELO HORIZONTE4
Uma Corrente Sem Quebra
A Criança e o Adolescente: Experiências da Atenção Básica
Yuri, \u201cUma Criança Problema?\u201d:
Uma Interface entre a Saúde Mental e a Educação
A Experiência da Equipe Complementar de Atenção à
Saúde Mental da Criança e do Adolescente: Um Novo Olhar
Intervenção a Tempo e Tempo de Invenções:
A Clínica com Bebês e seus Pais na Saúde Mental
CAPÍTULO II - ACOLHENDO O QUE TRANSBORDA
Novos Caminhos
Resposta à Crise: A Experiência de Belo Horizonte
Ao Estrangeiro da Razão: Hospitalidade Incondicional
Os Auxiliares de Enfermagem e a Rede de Saúde Mental
de Belo Horizonte
CAPÍTULO III - EXTENDENDO A REDE
A Linha e a Letra
Centros de Convivência: Novos Contornos na Cidade
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Residências Terapêuticas: O Percurso de Belo Horizonte
A Política Pública de Inserção Produtiva: Afirmação de um Projeto
Projeto Arte da Saúde: Ateliê de Cidadania
A Supervisão na Rede Pública de Saúde Mental
O Planejamento como Subsídio para Organização dos
Serviços Substitutivos no SUS/BH
CAPÍTULO IV - CONQUISTANDO A CIDADE
A Saúde Mental na Atenção ao Louco Infrator
Uma Vizinhança, Uma Parceria: Construções Urbanas
Acompanhamento Terapêutico: Redescobrindo a Vida
Fórum Mineiro de Saúde Mental: a Alegria e a
Coragem de se Fazer Política
Loucura e Cidadania
Suricato: Um Mosaico de Sonhos
A Loucura e a Rua: O Desafio de Pensar Uma Outra Cidade
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POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DE BELO HORIZONTE6
Múltiplas Dobras: População de Rua e Políticas Públicas
Eu Odeio Carnaval! (Mas Amo a Luta Antimanicomial!)
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APRESENTAÇÃO
O Sistema Único de Saúde, audácia reivindicada pela sociedade brasileira
no bojo da luta pela democracia, mais que estabelecer um direito, criou uma
marca. Desde sua instituição em 1988 (há apenas duas décadas!), a saúde transpõe,
em passos firmes e seguidos, o fosso que separa os bens coletivos dos objetos
de consumo, ganhando consistência e visibilidade como um dos instrumentos
mais potentes na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática,
ao mesmo tempo em que altera geografias e modos de viver, alcançando
existências que a exclusão tornava anônimas e invisíveis.
Dores e sofrimentos que a sociedade não via, seja por desconhecimento
ou por negligência, ganham rosto, nome e história, tornam-se uma questão pública
e enquanto tal interpelam gestores e cidadãos e, mais, exigem solução. Foi assim
com os portadores de sofrimento mental, sujeitos que a ciência e a política pública
condenaram à não-existência e à humilhante condição de exilado da cidadania.
O manicômio, ou melhor, o hospital psiquiátrico, nome \u201cmoderno\u201d de um mesmo
modo de exclusão, seus muros e interditos, são o real obstáculo ao exercício da
cidadania do portador de sofrimento mental, mas sobretudo, o impedimento
real para o fluir da vida destas pessoas.
A experiência nos autoriza, nos dá liberdade e segurança para afirmar
nosso repúdio à exclusão; testemunhamos o antes e o depois de uma condição
social; conhecemos o interior e os efeitos de duas práticas, a do hospício e a da
rede de serviços substitutivos. É do privilegiado lugar de profissional de saúde,
mas também como gestor da política de saúde e de saúde mental que, sem medo
de errar, declaramos, fazendo coro com os usuários: hospício para nós, nunca
mais! Interessa-nos produzir mais que cuidado em saúde, a ousadia de poder
inventar a saúde como uma prática, como um sistema público, que seja capaz de
assistir e aliviar a dor dos sujeitos, ajudando-os a descobrir o seu modo de \u201cgastar
a vida\u201d, de consumirem-se no combustível que nos move: nosso desejo de viver,
de descobrir o singular de nossa condição humana, ao mesmo tempo em que
POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DE BELO HORIZONTE8
nos inserimos em um coletivo e nos tornamos cidadãos de um país.
A saúde mental é, dentro do SUS, uma rica fonte de experimentação e
descobertas. Gestores, trabalhadores e usuários desvelam parte do que a sociedade
escondia entre grades e muros, discursos e práticas que, se ainda e infelizmente,
encontram acolhida, não se justificam, na medida em que, partem do pressuposto
da sujeição, tornando arbitrário, coercitivo e ilegítimo o poder de quem cuida
sobre quem é cuidado.
A paixão que nos move, um dos ingredientes que sustenta nosso ato de
decisão, nos leva a arriscar, inventar o que não se encontrava previsto pela cultura,
nos leva ao encontro de situações que nos desafiam. Angustiamo-nos ao sermos
confrontados por limites impostos pela complexidade de alguns casos, para os
quais os recursos, a princípio, revelam-se insuficientes, por um lado, mas que
por outro, fomenta em nós o desejo de criar, de inventar, de ousar pensar,
recriando o mundo e seu sentido. Os portadores de sofrimento mental ensinam-
nos que, muito além da razão e sua norma, seus limites, a vida se faz criação e
beleza, quando substituímos contenções por laços de solidariedade e inclusão.
Nos múltiplos territórios da desinstitucionalização criados em Belo
Horizonte: Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAM), Centros de
Convivência, Serviços Residenciais Terapêuticos, Centros de Saúde com suas
Equipes de Saúde