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O negro na Bahia

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hum pano cingido com as pontas por diante que lhe fica 
fazendo hüa aberta diante, os negros somitigos".. . E 
acrescentava: "chamão na língua de Angola e Congo 
"jinbandaa" que quer dizer somitigos pacientes . . . " 
(53) Nesses trechos das Denunciações ressalta bem cla-
ro a nenhuma distinção feita entre negros sub e super-
equatoriais, todos abrangidos pela designação única de 
negros de Guiné, nome que significava também todo o 
território situado entre o Senegal e o Orange. 
Contudo, foi pequena, nesse século I, a importação 
de escravos africanos. Embora já se afastassem do 
contacto do europeu, promovendo novas migrações, 
segundo o testemunho de Knivet, e uma grande parte 
sucumbisse dizimada pelas terríveis epidemias de que 
sempre foram vitimas, nos estabelecimentos portugueses, 
(54) os índios ainda formavam a maior parte da popu-
lação da colônia. Continuavam a trabalhar nos enge-
nhos e cuidar das plantações, mas já ao lado dos negros, 
que iam tomando os seus lugares vantajosamente. 
(51) Denunciações da Bahia, S. Paulo, 1925, pag. 408. 
(52) Idem, pag. 406. 
(53) Idem, pag. 407. 
(54) Capistrano de Abreii, O Descobrimento do Brasil» 
pag. 123. 
O NEGRO NA BAHIA 4 5 
Não seriam muitos os negros na Bahia. Era mer-
cadoria escassa, muito aquém das necessidades da terra 
e por isso grandemente valorizada. Chegara a custar 
cada um cem mil réis, ao mesmo tempo que um escravo 
da terra era estimado apenas em 20$000. Postos à pro-
va no rude trabalho dos engenhos, os negros prospera-
vam, morriam pouco, enquanto o indio perecia no tra-
balho, que poderíamos chamar sedentário, dos cana-
viais. 
Em 1584 estimou Anchieta que fossem 3.000 os 
negros da Bahia. Dessa cifra aproxima-se o depoi-
mento de Fernão Cardim, em 1583: "terá a cidade em 
seu termo passante de três mil vizinhos portugueses, 
oito mil índios cristãos e três ou quatro mil escravos da 
Guiné'*. (55) Os cálculos não são restritos se souber-
mos que apenas se referiam ao termo da cidade. 
Capistrano, avaliando a população do Brasil, em 1600, 
atribuiu-lhe, em números redondos, 35.000 índios, 
menos de 10.000 brancos e 20.000 Africanos e seus des-
cendentes. 
Os números, referentes à Bahia, parecem-nos peque-
nos. Os meios indiretos de que dispomos para avaliar 
a sua população negra depõem em favor de índices 
mais elevados para o século XVI. Um deles, e de gran-
de importância, é o< volume da produção açucareira, 
que sempre andou mais ou menos vinculada ao braço 
negro. Em 1587, 36 eram os engenhos da Bahia, segun-
do Gabriel Soares, (56) número confirmado, pelo tes-
temunho do Padre Cardim. (57) Dois ainda se cons-
truíam. No fim do século seriam 40, seguramente. E 
a cada um deles concedera D. João III que empregasse 
120 escravos da Guiné. (58) Se se valeram ou não, 
integralmente, do favor régio não sabemos. É prová-
vel, porém, que o aproveitassem quanto o permitissem 
as suas posses, pois em 1583 já os engenhos estavam 
"cheios de negros da Guiné e mui poucos da terra", 
tanto era superior o trabalho negro em confronto com 
(55) Cardim, obr. cit., pag. 288. 
(56) Gabriel Soares, Tratado Descritivo do Brasil em 
1587, pag. 173. 
(57) Cardim, obr. cit., pag. 319. 
(58) Perdigão Malheiros, A Escravidão no Brasil. 
4 6 LUIZ VIANÜTA PILHO 
o indígena. Pelo alvará de 1549 poderiam, portanto, 
os engenhos empregar, na Bahia, no fim do século, 
4.800 negros. Seriam, porém, 3.000, pelo menos, reser-
vando-se o excedente para os Índios. Na cidade esta-
vam três a quatro mil, conforme Gardim. Havia ainda 
os empregados nas outras culturas. Não deveriam, 
portanto, ser menos de 7.000, número, aliás, insignifi-
cante diante das cifras dos dois séculos seguintes, 
quando mais se intensificou o tráfico de escravos. 
Mas, se deveriam orçar por 7.000, ao extinguir-se o 
século XVI, quantos teriam sido os trazidos da África 
nas seis décadas anteriores? É inteiramente impossível 
qualquer cálculo preciso dada a inexistência, no parti-
cular, de documentação contemporânea a esse período 
distante e sobre um assunto que íão pouco interessava. 
Aplicando, porém, para a matéria os mesmos índices 
usados pelo escritor Roberto Símonsen para estimar o 
número de negros consumidos pela nossa indústria 
açucareira, e que atribui ao escravo uma vida efetiva 
de 7 anos, (59) talvez seja possível chegar a um número 
aproximado. Admitindo que, em média, existisse, na 
Bahia, uma população negra de 3.000 almas — o que 
não nos parece exagerado — iremos encontrar uma 
importação de 21.000 escravos africanos. Podemos, 
pois, calcular em 20.000 o número de "peças" que nos 
trouxe da África, no século XVI, o tráfico negro. Vale, 
porém, apenas como estimativa, para suprir a incóg-
nita sobre a qual silenciam os documentos. 
A que raças pertenceriam esses 20.000 negros im-
portados? A interrogação, passados quatro séculos, e 
dada a inexistência de documentos seguros, é difícil de 
responder. Apenas, pelo que sabemos sobre a distri-
buição das raças, no continente africano, naquele perío-
do, será possível admitir hipóteses sobre as fríbus que 
deram os elementos dessa importação, assim como 
excluir outras, que somente posteriormente tomaram 
contacto com o litoral ou entraram no mercado negro. 
Dentre estas estão os Haussás, Os Yorubas, Daomeanos, 
os Bornus. Das regiões super-equatoriais, justamente 
aquelas donde proveio o maior contingente, devem ter 
(59) Roberto Simonsen, História Econômica do Brasil, 
vol. I, pag. 202. 
O NEGKO NA BAHIA 47 
vindo negros Jolofos, j á influenciados pelo islamismo, 
os Mandingas das margens do Gâmbia, e que ainda se 
conservavam idolatras, Berbecins adoradores da lua 
nova, e cujos templos eram arvores caiadas com. fari-
nha de arroz e sangue de animais, e agricultores Felu-
pos localizados no Sui do Gâmbia. (60) Provavelmente 
viriam súditos de A_chantL Para Porto-Seguro as mais 
conhecidas no Brasil seriam os Berberes, Jalofos, Felu-
pos e Mandingos, dentre o sudaneses. (61) Quanto 
aos bântus da costa ocidental, que viriam a dominar o 
tráfico no século seguinte, nada indica que tenha sido 
numerosa a sua contribuição senão nos últimos anos, 
quando os seus mercados se preparavam para os gran-
des negócios com o Brasil. Já desaparecidos os gran-
des Reinos bântus do século anterior, passada a 
invasão D jabá, a sua distribuição seria mais ou menos 
a dos dois séculos posteriores. Deles viriam os Qui-
bundos, os Mondongos, os Congos, os Sonhos, os Ango-
las, todos fetichistas. 
(60) Relação Anual, vol. I. 
(61) PÔrto-Seguro, História Geral, vol. I, pag. 221. 
CAPÍTULO III 
O CICLO DE ANGOLA 
Despercebida de muitos, contestada por alguns, a 
superioridade da importação de negros bântus, na 
Bahia, no século XVII, é incontestável. A sua impor-
tância foi extraordinária e os selas marcos conservam-
se ainda hoje. Representando a primeira entrada, em 
massa, de escravos africanos para a Bahia, a sua cul-
tura disseminou-se em todos os sentidos. 
Foi profunda e extensa. Principalmente devido à 
diferença entre a sua cultura e a sudanesa, esta mais 
fechada, menos acessível aos processos de integração, 
a influência bântu, na sociedade, foi sensível. Trazida 
por negros mais dóceis, loquazes, preferidos para os 
serviços domésticos, dominou impereeptivelmente, como 
veremos. De qualquer modo é um fato que não deve 
mais ser ignorado. A sua importância dá-lhe direito 
a um lugar de destaque na história do negro na Bahia. 
Não havendo ainda surgido os fatores que fizeram, 
mais tarde, a Costa da Mina quase monopolizar as 
atenções dos traficantes baianos, o tempo foi bastante 
para mostrar as vantagens do comércio de Angola 
sobre o super-equatorlaí. A menor distância seria 
suficiente para explicá-lo. A preferência dada, na 
época, aos negros daquela procedência, completa os 
motivos desse deslocamento do tráfico